JORNALISMO E CIDADANIA Projeto de extensão apresentado à PróReitoria de Extensão e Cultura da Universidade Federal de Viçosa. Por: prof. Dr. Ernane C. Rabelo INTRODUÇÃO A atividade jornalística se caracteriza pela disseminação de informações recentes, socialmente relevantes e tecnicamente agrupadas em modelos esquemáticos dos quais o principal formato é a notícia. Assim, o Jornalismo, como veículo reprodutor de símbolos e valores, torna-se então um dos principais objetos de fenômeno de tipificação social, de reforço na construção de personalidade. A simplicidade da definição etimológica traduzindo “informe” + “ação” nos remete à expressão verbal do termo informação, com seu significado instrumental “meio de”, “instrumento para”. Assim, toda informação traria consigo o potencial do verbo, capaz de produzir sentido, de alterar estruturas e pessoas ainda que inconscientemente, de transformar não apenas o sujeito acionado, o receptor, mas também o emissor, na medida que este se movimenta em determinado contexto histórico por intermédio de uma “ação” anterior ao “informe”. Em quaisquer perspectivas teóricas, a informação sempre carregará em si o germe do conhecimento e potencial de transformação, individual e coletiva. Ou seja, a informação sozinha, como dado, não age, mas permite a mudança através de sua relação com o sujeito. Ainda que se ressalte a rápida transformação da imprensa, de espaço público de debate de idéias em direção à empresa de venda de conteúdo informativo, os veículos de comunicação de massa exercem forte influência na formação da opinião pública, moldando, orientando a discussão, alertando para aspectos ocultos, interpretando os fatos, elegendo as informações e oferecendo aos receptores o cardápio noticioso de acordo com a seleção feita pelo próprio veículo. 1 Da mídia, especialmente dos jornais, se esperam informações úteis que sirvam para seus leitores tomarem decisões consistentes e racionais. Entretanto, nas últimas décadas, ampliou-se o aspecto mercantil da atividade jornalística, que tem deixado de desempenhar um importante papel na consolidação da democracia. A crítica recorrente é a de que o Jornalismo contemporâneo tende a valorizar notícias de interesse do público em detrimento de informações realmente de interesse público. Em outras palavras, o Jornalismo estaria sucumbindo à prevalência do marketing, das pesquisas que apontam as preferências de consumo imediato ou aquelas de interesse do próprio veículo e de setores específicos da sociedade. Uma das respostas a tal cenário de crise foi o surgimento, no final da década de 1980, de um movimento denominado “Jornalismo Cívico”1, ou Jornalismo público, que pretende recuperar as inter-relações entre Jornalismo e democracia. Um dos fundadores, Jay Rosen, defende ser o Jornalismo reforço da construção da cidadania por meio de normas e de procedimentos, como a valorização de fontes não oficiais, participação ativa do cidadão, e o exercício ativo dos jornalistas na sociedade - e não meros observadores. (TRAQUINA, 2003, p.180-181). Outro ativista, o jornalista estadunidense Davis Merrit, acrescenta que democracia e Jornalismo são interdependentes e que os cidadãos necessitam de informações para se autogovernarem a partir, inclusive, da prerrogativa de vida pública que os exige conscienciosos de seus direitos e de seus deveres. O Jornalismo Cívico é um comprometimento com a perspectiva da informação como semente construtora de cidadania, incorporando saberes e experiências do cidadão e caracteriza-se pela manutenção de um vínculo social mais estreito entre o veículo e a comunidade. Para Carlos Eduardo Lins e Silva “o Jornalismo cívico é um elo entre os cidadãos e os problemas da comunidade” (Revista Imprensa, janeiro de 1997). Ainda em construção, o movimento pode ser considerado como uma tentativa de resgate dos princípios forjados quando da formação do campo jornalístico nos séculos 18 e 19: levar informações para que os cidadãos possam compreender e interferir na realidade que os cerca. O movimento ainda não adquiriu feição própria, menos ainda no Brasil, estando em busca de uma identidade própria. No entanto, e reconhecidamente 1 Chama-se Jornalismo Cívico, ou também de Jornalismo Público, o movimento que busca inserir o jornalista e sua audiência, os leitores, nos processos políticos e sociais, em detrimento da condição de meros espectadores dos fatos. Note-se a diferença fundamental do Jornalismo Cívico com o Jornalismo cidadão, feito essencialmente por nãojornalistas, mas pessoas comuns de qualquer profissão ou formação educacional, exercendo o Jornalismo amadoristicamente e fora da regulamentação pública. Também é um movimento distinto do Jornalismo comunitário, que é feito a partir de trabalho de capacitação de jornalistas dentro de uma comunidade. (wikipedia) 2 controverso, o Jornalismo Cívico tem como principal prerrogativa colocar na agenda a necessidade de os jornalistas a se integrarem à comunidade e a valorizar o real interesse público e não apenas o interesse do público. O Jornalismo estabeleceu suas bases conceituais sobre a palavra impressa no suporte papel e mesmo com o surgimento de outras mídias ainda permanece com sua vocação de contextualizar e interpretar grandes questões que afetam a humanidade. Mas a tradicional forma das palavras impressas migra rapidamente para a leitura em telas digitalizadas2 e a Internet parece significar mais uma etapa do longo processo trilhado pelo Jornalismo. Do mesmo modo, o acontecimento é matéria-prima da notícia (OLIVEIRA, 1996), por sua vez força motriz do Jornalismo. A notícia é uma forma de discurso que carrega em si o germe da informação que interessaria a um público mais heterogêneo, para as massas, e se configura contemporaneamente dentro da lógica capitalista do Jornalismo como negócio, que se desenvolveu com maior vigor no seio de sociedades liberais. Como produto, traz a narração de fatos ou acontecimentos que devem ter alguns atributos que tornariam a notícia mais “competitiva”, como interesse público, nível de desvio das normas sociais, atualidade, novidade, relevância, grau de desvio das normas sociais, repercussão, proximidade (geográfica, afetiva, social), oportunidade, descobertas e invenções, originalidade, entre outros que formam o que se conhece como valores ou “critérios de noticiabilidade” (Erbolato, 1985). Neste sentido, pretendemos criar um jornal eletrônico, de livre e de fácil acesso, com notícias que abordem o cotidiano da cidade de Viçosa. O site disponibilizará informações de interesse desta comunidade tais como serviços de utilidade pública, campanhas e anúncios classificados. Terá ainda como objetivo servir de canal entre demandas da comunidade e órgãos públicos. O projeto de extensão “Jornalismo e Cidadania” procura refletir sobre o exercício do Jornalismo cívico, assim como uma contribuição à formação dos futuros jornalistas, comprometidos com o social, o interesse público e a democratização das informações. 2 O impacto da Internet como novo suporte de informação ainda não foi suficientemente estudado, mas pode ser dimensionado pela queda da circulação de impressos, tendo como contrapartida o aumento vertiginoso do número de acessos à versão on line desses jornais, que buscam novas possibilidades para permanecer no negócio. Arthur Sulzberger, presidente do grupo empresarial que edita o New York Times, um dos jornais mais influentes do mundo, presume que até 2012 o jornal não seja mais impresso e acrescenta que o fundamental “é se concentrar no melhor modo de operar a transição da folha impressa à Internet” (O Estado de S. Paulo, 8 de fevereiro de 2007). 3 JUSTIFICATIVA Os meios de comunicação exercem forte influência sobre a formação cultural de uma sociedade e os jornais são fundamentais como fontes de informação. Chaves sugere que a universidade colabore “na formação crítica e consciente dos estudantes para que estes lidem com a informação como um bem público ao ingressarem no mercado de trabalho, sejam como produtores, fontes ou disseminadores da informação” (2005, p. 261-262). Em respeito à interação dos futuros jornalistas com a comunidade, vários autores (MAGALHÃES, 2005; CHAVES, 2005) apontam que a principal característica de bom jornalista é “ser” ou “estar” bem informado e a tradição jornalística escrita, não verbal, ainda é o principal instrumento para que o estudante venha a adquirir tal “status”. Assim, é imprescindível ao estudante de Jornalismo tomar contato desde o início da graduação com alta carga diária de consumo midiático. Dois objetivos se esperam de tal prática: aquisição de conhecimentos gerais e aprendizado das práticas jornalísticas com sua inserção no universo da produção. No entanto, estudos revelam que o estudante de Jornalismo da UFV pouco participa de entidades e agremiações de atuação local e tem pouco interesse pelas notícias viçosenses (Rabelo, 2008)3. A despeito de o curso de Comunicação Social, habilitação Jornalismo, da Universidade Federal de Viçosa, já ter formado cinco turmas (egressos de 2001, 2002, 2003, 2004 e 2005) e, portanto, haver a possibilidade de alguma influência no modo de fazer jornalístico na cidade, pouco se observa de alterações neste sentido. Do mesmo modo, as experiências e práticas desenvolvidas ao longo da graduação eventualmente ficam circunscritas ao ambiente interno do Campus ou ao próprio curso, e algumas vezes apenas aos próprios alunos da disciplina, não obstante dezenas de esforços de professores e de estudantes do curso em disponibilizar o material para a comunidade, conforme demonstram os projetos de extensão e de pesquisa e o site do curso (www.com.ufv.br). Isto conduz, em nosso entendimento, ao “desperdício” de um bom material jornalístico e de uma boa produção acadêmica que seria bastante útil para a comunidade. 3 A Folha de São Paulo é o jornal impresso preferido por quase a metade (43%) dos estudantes de Comunicação Social, seguido pelo jornal Estado de Minas (21,9%). Apenas um leitor apontou outro jornal mineiro como de sua preferência, enquanto que 14% dos estudantes não elegeram algum periódico. Quinze alunos responderam não ler jornal. Um único jornal da cidade foi lembrado pelos alunos (O Regional, de circulação mensal, já extinto), que obteve duas citações. Os jornais paulistas e fluminenses foram responsáveis por 61% da preferência, embora os estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, somados, sejam origem de apenas 30% dos estudantes viçosenses. 4 Ambiente informacional - Há três jornais impressos na cidade: Folha da Mata, O Popular, Tribuna Livre. Segundo os próprios editores, as tiragens são de 4 mil, 6 mil e 3,8 mil cópias, respectivamente. Circulam ainda os jornais impressos da capital e do Rio de Janeiro e São Paulo. O ambiente informacional eletrônico é formado por emissoras locais de rádio AM, FM, pela TV Viçosa e por captação de sinal de emissoras de outras cidades que, no entanto, não privilegiam o conteúdo jornalístico em sua programação. Não há sites consolidados na web de conteúdo jornalístico e de livre acesso. Um aspecto importante para um site de notícias como o ora proposto é não estar preso sob a ditadura da audiência, da concorrência, e da pressa que podem tornar mais precária a qualidade da informação noticiosa, como vimos na introdução deste projeto. Neste sentido, o jornaldevicosa.ufv.br não pretende substituir ou concorrer com estes veículos, mas oferecer à comunidade mais um canal de expressão de sua cidadania por intermédio do direito à informação previsto na Constituição Federal de 1988, que se refere principalmente a informações de órgãos públicos. OBJETIVOS Geral: Promover a interação dos estudantes com a comunidade viçosense, investigar sua demanda e disponibilizar tais informações no formato jornalístico em suporte on line. Específicos: 1) Oferecer à comunidade alternativa de comunicação jornalística. 2) Servir de canal intermediário entre as necessidades informacionais do poder público para a comunidade, e vice-versa. 3) Debater com os futuros jornalistas a potencialidade do Jornalismo comprometido com a cidadania e com a democracia. 4) Estimular a população flutuante da UFV, principalmente estudantes de Jornalismo, a conhecer e a se integrar à comunidade. 5) Incentivar a participação popular, por intermédio do Jornalismo, no debate democrático sobre os problemas da comunidade. 5 METAS Tendo como meta os objetivos anteriormente citados, pretendemos criar um jornal eletrônico para a comunidade externa à UFV de fácil navegação e leitura, de acesso livre, e de qualidade jornalística preconizada pelo Código de Ética dos Jornalistas, aprovado em 2006, durante Congresso da Federação Nacional dos Jornalistas. RESULTADOS ESPERADOS O projeto de extensão “Jornalismo e Cidadania” almeja interferir no ambiente informacional disponível na cidade de Viçosa no sentido de estimular a participação popular no debate público, qualificando tal discussão e, como uma das conseqüências, ampliar o conceito de cidadania. Após a conclusão do projeto pretendemos ver fomentada a utilização da internet como espaço privilegiado para o exercício do Jornalismo, e a criação de outros jornais eletrônicos com semelhantes objetivos. METODOLOGIA Entre os assuntos apontados pela literatura da área destacam-se problemas habitacionais, desemprego, lazer e cultura, saúde, equipamentos urbanos, transporte, participação política, comércio local e meio ambiente. Não haverá divisão prévia por editorias, de modo que os assuntos mais relevantes para a comunidade, e que os repórteres tenham condição de reportar, sejam noticiados. Os alunos repórteres devem vivenciar a prática da investigação jornalística, que podem ser publicadas em forma de notícia ou reportagem, estabelecendo conexões entre os poderes públicos e os cidadãos, revelando problemas e soluções dos bairros mais nobres aos mais carentes. Os membros do projeto experimentarão todas as fases de produção da notícia– captação (pré-produção, pauta e relacionamento com fontes) redação e edição – tendo como fontes a própria comunidade, oficiais e independentes. A produção será publicada no site jornaldevicosa.ufv.br, conforme já oficializado junto à Central de Processamento de Dados da Universidade Federal de Viçosa. Além de sua produção, os estudantes matriculados em disciplinas práticas de produção, como Redação I e Redação IV, participarão ainda monitorando o site. 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CHAVES, Consuelo J. A participação das fontes formais na qualificação da notícia. 2005. Tese (Doutorado) – Escola de Ciência da Informação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2005. ERBOLATO, Mário L. Técnicas de codificação em Jornalismo: Redação, Captação e Edição no Jornal Diário. Petrópolis: Vozes, 1984. MAGALHÃES, Evaldo F. Os jornalistas do “Estado de Minas” e o uso da internet como fonte de pesquisa no trabalho. 2005. Dissertação (Mestrado) – Escola de Ciência da Informação, Belo Horizonte, 2005. OLIVEIRA, Valdir C. Os moinhos de papel: um estudo sobre a narrativa jornalística, o repórter e a cidadania na imprensa belo-horizontina. 1996, Tese (doutorado) Universidade de São Paulo, 1996. RABELO, Ernane C. Comportamento Informacional e Evocação de Notícias: Estudo de Caso com Estudantes de Comunicação Social. Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, 2008. SILVA, Carlos Eduardo Lins. Revista Imprensa, janeiro de 1997. TRAQUINA, Nelson. O estudo do Jornalismo no século XX. São Leopoldo. Unisinos, 2003. 7