UNIGRANRIO
UNIVERSIDADE DO GRANDE RIO
“PROF. JOSÉ DE SOUZA HERDY”
MARCIA PEREIRA SANTOS
A CONSTITUIÇÃO E A ADMINISTRAÇÃO DA IDENTIDADE DE
GÊNERO HOMOSSEXUAL MASCULINO ASSUMIDA NO TRABALHO
E A SUA ARTICULAÇÃO COM O CONSUMO
Rio de Janeiro
2015
MARCIA PEREIRA SANTOS
A CONSTITUIÇÃO E A ADMINISTRAÇÃO DA IDENTIDADE DE
GÊNERO HOMOSSEXUAL MASCULINO ASSUMIDA NO TRABALHO
E A SUA ARTICULAÇÃO COM O CONSUMO
Dissertação
apresentada à Universidade do
Grande Rio “Prof. José de Souza Herdy”, como
parte dos requisitos parciais para obtenção do
grau de mestre em Administração.
Área de Concentração: Gestão Organizacional
Orientador:
Eduardo André Teixeira Ayrosa
Rio de Janeiro
2015
CATALOGAÇÃO NA FONTE/BIBLIOTECA - UNIGRANRIO
S237c
Santos, Marcia Pereira.
A constituição e a administração da identidade de gênero homossexual masculino assumida no
trabalho e a sua articulação com o consumo / Marcia Pereira Santos. – 2015.
87 f. : il. ; 31 cm.
Dissertação (mestrado em Administração) – Universidade do Grande Rio “Prof.
José de Souza Herdy”, Escola de Ciências Sociais Aplicadas, Rio de Janeiro, 2015.
“Orientador: Eduardo André Teixeira Ayrosa”.
Bibliografia: f. 77-82.
1. Administração 2. Homossexualismo. 3. Estigma (Psicologia social). 4.
Ambiente de trabalho. I. Ayrosa, Eduardo André Teixeira. II. Universidade do
Grande Rio “Prof. José de Souza Herdy“. III. Título.
CDD - 658.31
Aos meus pais Jakson e Suedir (in
memoriam), que deixaram como herança o
meu desejo de aprender sem cessar...
Ao meu filho Lucas, que sempre me
incentivou e por estar sempre presente na
minha
vida.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus...
E a todos que se fizeram presentes durante o meu processo de aprendizado nesse Mestrado.
Em especial, agradeço ao meu orientador, Eduardo Ayrosa, pelo apoio e orientação na
elaboração desta pesquisa e o incentivo para que eu melhorasse cada vez mais.
Aos doutores professores, pelas contribuições nesse meu processo de aprendizagem, e em
especial aos professores João Felipe Sauerbronn e Denise França Barros.
Ao meu filho Lucas Pereira, pela sua paciência, pelo seu apoio, incentivo e pelo seu amor;
Ao meu irmão Marcelo e familiares, por estarem sempre presentes em todos os momentos
dessa minha caminhada;
Ao meu amigo Jorge Antônio Silva, que muito cooperou e me incentivou a alcançar novos
passos nessa estrada.
“Você não sabe o quanto eu caminhei/ Pra chegar
até aqui/ Percorri milhas e milhas antes de
dormir/ Eu nem cochilei/ Os mais Belos montes
escalai [...]”
(A Estrada, Toni Garrido, Da Gama, Lazão, Bino)
RESUMO
Os objetivos desta pesquisa são descrever o processo da constituição da identidade do
homossexual masculino assumido no ambiente organizacional e identificar, com base na
narrativa de homossexuais no trabalho, como o consumo se articula com a administração
dessa identidade. A sustentação teóricase deu pelo aprofundamento dos seguintes temas: a
identidade (segundo Giddens, 2002;Bauman, 2005;Hall, 2006); homossexualidade (Foucault,
1988; Weinstein, 1998;Irigaray, 2007 e 2011; Pereira, 2009); trabalho (Bendassolli,
2006;Gaulejac, 2007;Dejours, 1994 e 2007;Senett, 2009); cultura do Consumo (Feathersone,
2007;Slater, 2001;McCracken, 2003;Arnoult& Thompson, 2005); estigma (Goffman, 1998 e
2002); segurança ontológica (Giddens, 2002). O presente estudo é relevante na medida em
que estimula a construção da consciência de igualdade no ambiente organizacional para
homossexuais masculinos. Através desta pesquisa buscam-se respostas que possam criar
condições para a implantação de mecanismos efetivos de igualdade de direitos nas relações de
trabalho dos homossexuais, promovendo objetivamente a discussão da realidade e as
condições adversas dos sujeitos homossexuais masculinos no ambiente organizacional. Para
tanto, foram realizadas 15 entrevistas narrativas não estruturadas e em profundidade (segundo
Bauer &Gaskell, 2002), focando a história de vida desses sujeitos.Na análise das narrativas,
por fim, foi possível identificar que há um estilo sugerido e proposto pela organização e
considerado como um estilo padrão heteronormativo. Os sujeitos homossexuais masculinos
utilizam os significados simbólicos de posses como mecanismos que atendam a um estilo
organizacional padronizado; adotam esse estilo e assim retomam o processo de construção e
reconstrução do seu eu e da sua identidade homossexual assumida no trabalho.
Palavras-chave: Trabalho, Consumo, Identidade de Gênero, Homossexualidade, Estigma.
ABSTRACT
This study aimed to describe the male homosexual identity constitution process assumed in
the organizational environment and identify, based on the narrative of homosexuals at work,
as consumption islinked to the administration of this identity. The theoretical framework was
based on the deepening of the following topics: identity(according to Giddens, 2002; Bauman,
2005; Hall, 2006); homosexuality (Foucault, 1988; Weinstein, 1998; Irigaray, 2007 and 2011;
Pereira, 2009); work (Bendassolli, 2006; Gaulejac, 2007; Dejours,1994 and 2007;Senett,
2009); consumer culture (Feathersone, 2007; Slater, 2001; McCracken, 2003;Arnoult&
Thompson, 2005); stigma (Goffman, 1998 and 2002); and ontological security (Giddens,
2002). This research is important in that it encourages the construction of equal
consciousness, organizational environment, assumed due to homosexual men. It sought
answers in order to create conditions for the implementation of effective mechanisms for
equal rights in labor relations homosexuals, objectively promoting the discussion of reality
and the adverse conditions of male homosexuals in the organizational. There were 15 nonstructured interviews and narratives in depth (according to Bauer & Gaskell, 2002) focusing
on the life history of these subjects. In the analysis of narratives, finally, we found that there is
a suggested style, proposed by the Organization, and considered as heteronormative standard
style. Male homosexuals use the symbolic meanings of possessions as mechanisms that meet
a standardized organizational style. They adopt this style and thus resume the process of
building and rebuilding their self and their homosexual identity assumed at work.
Key words: Word, Consumption, Gender Identity, Homosexuality, Stigma.
LISTA DE QUADROS
Quadro 1: Orientações de Gênero.............................................................................. ..30
Quadro 2: Perfil dos Sujeitos Entrevistados ................................................................. 47
Quadro 3: Definições Constitutiva e Operacional das Categorias a priori de Análise. . 49
Quadro 4: Famílias de Códigos Analíticos .................................................................. 51
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Família Identidade ....................................................................................... 50
Figura 2: Família Trabalho .......................................................................................... 50
Figura 3: Família Consumo ......................................................................................... 50
Figura 4: Família Estigma ........................................................................................... 50
Figura 5: Família Segurança Ontológica ...................................................................... 50
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO................................................................................................................ 14
1.1. PERGUNTA DE PESQUISA........................................................................................ 15
1.2. OBJETIVOS ................................................................................................................. 16
1.3. RELEVÂNCIA DA PESQUISA ................................................................................... 16
1.4. DELIMITAÇÃO DA PESQUISA................................................................................. 17
1.5. ESTRUTURA DO TRABALHO .................................................................................. 17
2. REFERENCIAL TEÓRICO ........................................................................................... 18
2.1. IDENTIDADE ............................................................................................................... 18
2.1.1. DEFINIÇÕES DE IDENTIDADE ............................................................................ 18
2.1.2. CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE....................................................................... 20
2.1.3. ESTIGMA E SEU ENFRENTAMENTO .................................................................. 23
2.1.4. SEGURANÇA ONTOLÓGICA................................................................................. 25
2.2. IDENTIDADE DE GÊNERO ....................................................................................... 26
2.2.1. HOMOSSEXUALIDADE .......................................................................................... 28
2.3. IDENTIDADE E TRABALHO..................................................................................... 33
2.3.1. IDENTIDADE COLETIVA NO TRABALHO ......................................................... 35
2.3.2. IDENTIDADE E A ORGANIZAÇÃO ...................................................................... 36
2.4. IDENTIDADE HOMOSSEXUAL E TRABALHO...................................................... 36
2.5. TRABALHO E CONSUMO ......................................................................................... 38
2.6. CONSUMO ................................................................................................................... 40
2.6.1. TEORIA DA CULTURA DO CONSUMO (CCT) .................................................... 40
2.7. CONSUMO E IDENTIDADE....................................................................................... 41
2.7.1. CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE NO CONSUMO ........................................... 41
2.7.2. CONSUMO E IDENTIDADE HOMOSSEXUAL..................................................... 42
2.7.3. SIGNIFICADO SIMBÓLICO DE POSSES .............................................................. 43
2.7.4. SUBCULTURA GAY E OS MERCADOS DE CONSUMO ..................................... 43
3. PERCURSO METODOLÓGICO ................................................................................... 45
3.1. COLETA DE DADOS................................................................................................... 45
3.2. SUJEITOS DE PESQUISA........................................................................................... 46
3.3. MÉTODO DE PESQUISA............................................................................................ 48
3.3.1. ANÁLISE DOS DADOS ............................................................................................ 48
4. ANÁLISE DOS RESULTADOS...................................................................................... 53
4.1. IDENTIDADE ............................................................................................................... 53
4.2.TRABALHO .................................................................................................................. 60
4.3. CULTURA DO CONSUMO ......................................................................................... 64
4.4. ESTIGMA ..................................................................................................................... 67
4.5. SEGURANÇA ONTOLÓGICA ................................................................................... 70
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................... 76
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................ 79
APÊNDICE – ROTEIRO DAS ENTREVISTA .................................................................. 85
14
1. Introdução
Desafiadora, tensa e muitas vezes constrangedora. Essa costuma ser a realidade de
homossexuais masculinos (gays) nas organizações, justamente por assumirem a orientação
sexual e a sua condição explícita da identidade gay, apontada como “a constante tensão
existente entre o mundo gay e o mundo heterossexual”(PEREIRA, 2009, p. 164). São muitos
os casos de gays que experimentam situações de constrangimento e humilhação (SIQUEIRA
e ZAULI-FELLOWS, 2006) além dos registros frequentes de discriminação e homofobia
ocorridos nas organizações (IRIGARAY 2007; SIQUEIRA, et al. 2009). São reduzidas,
ainda, as possibilidades de ascensão profissional dos gays que assumem publicamente a
orientação sexual, (FERREIRA, 2007, p. 13), justamente em consequência da resistência à
diversidade de orientações sexuais no ambiente organizacional (IRIGARAY, 2007).
No trabalho, ao analisarem a identidade e a sobrevivência dos gays nas organizações,
pesquisadores afirmam que “no ambiente organizacional, o incrustamento de valores
heterocêntricos resultou em práticas discriminatórias em relação aos gays” (IRIGARAY,
SARAIVA e CARRIERI, 2011, p. 894).
Na constituição da identidade o indivíduo relaciona a confiança em si e também nos
outros. A confiança faz parte do processo de constituição e da administração da identidade ao
assumir atitudes em relação às situações, pessoas e sistemas específicos. O indivíduo assume
uma atitude natural na vida cotidiana, no “contexto da fé individual” (p. 53) e da sensação da
segurança ontológica. As relações interpessoais se tornam a certeza da sua “realidade” nos
ambientes sociais que fazem parte da sua vida. A aceitação e o reconhecimento do outro são
as respostas necessárias na sustentação de um mundo em "que é observável" e no "que
responde" (GIDDENS, 2002, p. 53).
O homem no trabalho “é virtualmente um sujeito e um sujeito pensante”, e não um
“joguete passivo” das imposições organizacionais (DEJOURS, 1994). Aquele que faz
interpretações da situação que se encontra e age contribui para a construção das relações
sociais de trabalho, consideradas importantes para o sentido do trabalho. O reconhecimento
torna-se fundamental no enfretamento dos desafios e na constituição e administração da
identidade do sujeito trabalhador. Para Dejours (2009, p. 53): “O trabalho, por meio da ação
do reconhecimento, constitui uma segunda chance para edificar e desenvolver nossa
identidade e adquirir assim uma melhor resistência psíquica em face dos desafios da vida”.
15
Assim como o trabalho, o consumo é importante para compreender a construção de
identidades. A multiplicidade de signos culturais no trabalho e nas práticas de consumo são
referências visíveis tanto do alcance de um status social desejado quanto da identidade social
(GIDDENS, 2002; BENDASSOLLI, 2006; NUNES, 2007).Na dimensão do consumo, no
entanto, Pereira (2009, p. 17) afirma que os homossexuais utilizam-se dos significados
simbólicos de posses como uma das formas de sinalizar a identidade gay para si e seus pares.
Em sua análise, eles se deparavam com uma relação dicotômica, “[...] se viam ora como
estigmatizados e marginalizados, ora como livres de rótulos e independentes.” (PEREIRA,
2009, p. 13) O autor afirma que esses sujeitos assumem um papel inovador no mundo do
consumo, ao libertarem-se dessa relação dicotômica a despeito do padrão heteronormativo
dominante que pode ser visto “como forma de enfrentamento do estigma da
homossexualidade” (PEREIRA, 2009, p. 64).
Nas práticas de consumo, as marcas, bens e serviços são transformados ativamente por
significados simbólicos codificados à identidade dos sujeitos. As posses se manifestam
simbolicamente no posicionamento social e nas metas de estilo de vida. O consumo é
considerado também um meio de rompimento com as instituições tradicionais (GIDDENS
2002; ARNOULD e THOMPSON, 2005).
Nos tópicos a seguir serão apresentadas a pergunta de pesquisa, os objetivos, a
relevância, a delimitação e a estrutura do trabalho.
1.1. Pergunta de Pesquisa
Diante dessa realidade, portanto, surge o questionamento sobre a possibilidade de
afirmar se os homossexuais masculinos desafiam a relação dicotômica (PEREIRA, 2009)
entre o mundo do trabalho e o que existe fora dele, na chamada “vida em sociedade”
(IRIGARY, SARAIVA e CARRIERI, 2011, p. 894). Uma vez reconhecida a importância do
mundo do consumo na constituição e na administração da identidade, de que forma o
consumo interfere na constituição e na administração da identidade homossexual assumida no
trabalho?
16
1.2. Objetivos
Os objetivos desta pesquisa são: 1) descrever o processo da constituição da identidade
do homossexual masculino no ambiente organizacional; 2) identificar, com base na narrativa
de homossexuais no trabalho, como o consumo se articula com a administração da identidade
homossexual assumida no trabalho.
1.3. Relevância da Pesquisa
É crescente o interesse por pesquisar as identidades de gênero e a realidade dos
homossexuais em diversos ambientes sociais. Giddens (2002, p. 13) afirma que a
modernidade em nível mundial“produz diferença, exclusão e marginalização”,no que diz
respeito à desigualdade nas questões de gênero e etnia. Criticam-se também as políticas de
inclusão da diversidade, importantes para a aceitação de muitas diferenças como étnicas,
sociais e de gênero, mas ainda incapazes de enfrentar e superar as resistências à diversidade
da orientação sexual. Muitas organizações são denunciadas e acusadas por não contratarem
candidatos assumidamente homossexuais nos processos de seleção (GIDDENS, 2002;
SIQUEIRA; ZAULI-FELLOWS, 2006; REVISTA LADO A, 2012; DINIZ et al., 2013).
A relevância deste trabalho está em estimular a construção da consciência de
igualdade no ambiente organizacional para homossexuais masculinos. A pesquisa busca
respostas a fim de criar condições de contribuir para a implantação de mecanismos efetivos
que contribuam para a igualdade de direitos nas relações de trabalho. O estudo pretende,
objetivamente, promover a discussão da realidade das condições adversas de homossexuais
masculinos no ambiente organizacional.
A pesquisa também é relevante para as áreas da Sociologia, Psicologia e
Administração, ao contribuir nas questões da constituição da identidade do gênero
homossexual, identidade no trabalho e identidade no consumo.
17
1.4. Delimitação da Pesquisa
A delimitação da pesquisa encontra o seu foco principal nos sujeitos homossexuais
masculinos identitariamente constituídos como tal tanto no mundo do trabalho quanto fora
dele. Trata-se de uma pesquisa qualitativa baseada nas narrativas das histórias de vida dos
sujeitos.
Neste momento, faz-se importante esclarecer quais os sujeitos que não interessam para
o estudo,a saber: os homossexuais que não constituem a sua identidade homossexual no
trabalho,
comportando-se
em
organizações
como
“heterossexuais
organizacionais”
(IRIGARAY 2007).
Nesta pesquisa não se tem o interesse nos aspectos relacionados à renda dos sujeitos
ou seu comportamento enquanto compradores, assim como não se tem o objetivo de
contribuir nas normas sobre a contratação dos homossexuais. 1.5. Estrutura do Trabalho
O trabalho será apresentado de acordo com a seguinte estrutura, além desta
introdução: (a) o referencial teórico e os temas de embasamento da pesquisa; (b) o percurso
metodológico utilizado para a coleta e análise dos dados; (c) os resultados da análise da
pesquisa; (d) as considerações finais; (e) referências bibliográficas; (f) anexos.
18
2. Referencial Teórico
Neste capítulo será apresentado o referencial teórico que sustenta a pesquisa. Os
seguintes temas serão apresentados: Identidade, A Constituição e a Administraçãoda
Identidade de Gênero; Heterossexualidade e Homossexualidade; Identidade e o Trabalho;
Identidade Homossexual no Trabalho; Trabalho e Consumo; Cultura de Consumo; Teoria da
Cultura e Consumo (CCT); Consumo e Identidade; Consumo e Identidade de Gênero;
Consumo e Identidade Homossexual.
2.1. Identidade
A temática identidade é considerada como ponto central desta pesquisa. Abaixo será
apresentado o resultado da revisão de literatura, baseada em pesquisas e publicações
relacionadas à temática, assim como assuntos relacionados à questão, como: definições de
identidade; constituição da identidade; administração da identidade; identidade de gênero;
identidade e trabalho; consumo e identidade.
2.1.1. Definições de Identidade
A identidade é frequentemente descrita como um processo dinâmico e consiste na
interação, ou seja, o fio de ligação entre pessoas e grupos. (FREESE e BURKE, 1994).
Segundo Stets e Burke (2000) as identidades são compostas de auto percepções que emergem
da atividade reflexiva de identificação ou na auto-categorização, com o intuito de participar
de grupos ou funções específicas.
Para Bauman (2005, p. 17) a identidade é definida pelas entidades denominadas por
“comunidades” que o indivíduo escolhe e às quais pertence. O autor afirma que:
“[...] o pertencimento e a identidade não têm a solidez de uma rocha, são
garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e revogáveis, e de que
19
as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a
maneira como age”.(BAUMAN, 2005, p. 17).
Hall (2006, p. 8), por sua vez, afirma que o conceito é “demasiadamente complexo”. A
identidade, sendo considerada como uma das formas de preencher espaços entre o mundo
público e privado, assume sua importância na compreensão da dinâmica social na
modernidade tardia (HALL, 2006). Para o autor, a identidade é a interação entre o “eu” e a
sociedade; o sujeito possui uma “essência interior que é o eu real”, constituído e modificado
numa relação de diálogo contínuo com diversos mundos culturais.
Na sociologia, no entanto, alguns teóricos consideram haver uma concepção
“interativa” da identidade e do “eu”. Para Hall (2006, p. 11) essa concepção considera que “o
sujeito ainda tem um núcleo ou essência interior que é o ‘eu real’, mas que este é formado e
modificado no diálogo contínuo com os mundos culturais ‘exteriores’ e as identidades que
esses mundos oferecem”.
Alguns autores (HALL, 2006; SILVA, 2006) defendem a ideia de que a identidade e a
diferença tendem a ser produzidas e consideradas resultados das criações sociais e culturais.
Segundo Silva (2006) a identidade é vista como possibilidade concebida positivamente, e a
diferença como o seu oposto. O autor afirma: “assim como a identidade depende da diferença,
a diferença depende da identidade. Identidade e diferença são, pois, inseparáveis (SILVA,
2006, p. 75)”.
Para Giddens (2002) a identificação e a projeção são mecanismos que ocorrem com o
objetivo de assumir traços ou padrões de comportamento do outro. Ele afirma que o processo
de identificação está interligado com o processo de aprendizado cognitivo, que seria a
captação de algumas características do mundo-objeto. Na composição da sua própria história
o indivíduo integra-se e interfere ao mesmo tempo nos grupos a que pertence, em ambientes
nos quais interagem, e cabe a ele inventar e se reinventar em cada situação no processo da
construção e da reconstrução da sua identidade (GIDDENS, 2002; BAUMAN, 2005).
20
2.1.2. Constituição da Identidade
Nesta seção será apresentado o processo de constituição e administração da identidade
e seus aspectos de constituição: a nacionalidade, o pertencimento, âncoras sociais, a fluidez
das relações sociais e a sociedade fragmentada.
Segundo pesquisadores (STETS e BURKE, 2000; GIDDENS, 2002; BAUMAN,
2005; HALL, 2006; SENNET, 2009) o processo de constituição da identidade se dá pela
busca contínua do seu “eu” e na composição da sua própria história, que caracteriza como
processo de identificação e de enfrentamento do indivíduo em diversos grupos sociais e
instituições.
De acordo com Bauman (2005) a constituição da identidade surge da ideia imposta de
pertencimento e do desejo inicial de fazer parte e pertencer a uma nação, na construção da
“identidade nacional” (p. 66). Tanto Bauman (2005) quanto Sennett (2009) consideram a
possibilidade, diante da modernidade e de uma “sociedade fragmentada”, de o indivíduo
deparar-se com a fluidez e a insegurança das suas relações. O indivíduo vivencia o dilema nas
opções de suas “práticas identitárias da liberdade de escolha e a segurança de pertencer
(BAUMAN, 2005 p. 84)”.
Os autores afirmam a possibilidade do indivíduo constituir a identidade por meio das
práticas identitárias(BAUMAN, 2005; HALL,2006; SENNET, 2009), em busca de entidades
e comunidades(BAUMAN,2005)e de identidade de classes no trabalho, nas práticas de
consumo, à conquista do status social e na sua identificação(GIDDENS,2002).
No contexto social, Stets e Burke (2000) defendem a ideia de que identidade social
afeta fortemente a identidade do indivíduo: “um grupo social é um conjunto de indivíduos que
têm uma identificação social comum, ou se veem como integrantes de uma mesma categoria
social” (p. 225). Segundo Giddens (2002), a modernidade e a identidade, o “eu” e a
sociedade, estão inter-relacionados num meio global. As transformações do “eu” e da
identidade encontram-se por intermédio das instituições modernas e das tradicionais,
interferindo em hábitos e costumes que “se entrelaçam de maneira direta com a vida
individuale, portanto, com o eu (GIDDENS, 2002, p. 9)”.
Ainda segundoBauman (2005) a constituição de identidade surge da ideia forçada de
“pertencimento” (p. 17), com base nas “âncoras sociais” (p. 30), nas quais a identificação
torna-se cada vez mais importante para os indivíduos. Identifica-se a busca desesperada para
ter acesso às entidades e comunidades, sejam elas de etnia, gênero, nacionalidade, religião,
21
profissão dentre outras. Existe, no entanto, a consciência de que essa identificação é
imprecisa:
“[...] tornamo-nos conscientes de que o pertencimento e a identidade não têm a solidez
de uma rocha e não são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e
renováveis [...]” (Bauman 2005, p. 17).
Segundo Bauman (2005, p. 96) o nosso mundo fluido nos apresenta a condição de que
“asidentidadessãoparausareexibir,nãopara armazenaremanter” no nosso dia a dia. As
identidades passam por mudanças, mudam as sociedades e também as identidades pessoais e
sociais. Considera também que todos nós sofremos de uma certa dependência de âncoras
sociais familiares, “parceiros amorosos e amigos” (p. 100) e tememos o abandono. O temor
do abandono surge por conta da exclusão, da rejeição e do descarte com a possibilidade de
tornar-se “despido daquilo que se é, não ter permissão de ser o que deseja ser” (p.100). Essa
realidade nos faz “lançarasâncoras na busca deumasegurançaduradouraeconfiável” (p. 100)
nos contextos social e cultural.
Pesquisadores consideram que a identidade do indivíduo não se encontra no
comportamento, embora considere-o importante nas respostas dos outros, mas a capacidade
“de manter em andamento uma narrativa particular” (GIDDENS, 2002, p. 56). Consideram
que a administração da identidade é aquilo que se refere à fluidez:“a identidade projeta a
imagem e a reputação (IASBECK, 2007; CARRIERI, PAULA E DAVEL, 2008, p. 135)”.
Giddens (2002) considera a identidade como a biografia do indivíduo numa interação
regular e verdadeira no seu dia a dia. Afirma que o indivíduo “deve integrar continuamente
eventos que ocorrem no mundo exterior e classificá-los na “estória” em andamento sobre o
eu” (p. 56), na continuidade da auto identidade. Para Giddens (2002) auto identidade consiste
no “o eu entendido reflexivamente pelo indivíduo em termos de sua biografia(p. 221)”.
Bauman (2005) afirma que as identidades entram em crise, passam por mudanças e
mudam as sociedades modernas, ao fragmentarem-se paisagens culturais de classes, gênero,
sexualidade, etnia e nacionalidade. Essas mudanças provocam modificações também nas
identidades pessoais, e proporcionam “um deslocamento e uma descentralização dos
indivíduos” (HALL, 2006 p. 2).
Giddens (2002) afirma que os impactos sociais e os acontecimentos das instituições
modernas interferem na identidade do indivíduo, na sua “auto identidade”, apresenta um “eu”
22
que não é passivo nesse mecanismo da constituição e da sua administração. Giddens destaca
que: “ao enfrentar problemas pessoais, os indivíduos ativamente ajudam a reconstruir o
universo da atividade social à sua volta” (GIDDENS 2002, p. 18 e 19). A constituição da
identidade é considerada como uma busca contínua do seu “eu” e de escrever a própria
história. Para Bauman (2005, p. 49) “[...] a história humana permanece obstinadamente
incompleta”.
Para Hall (2006) ocorre no processo de identificação uma projeção das identidades
culturais e sociais, identificadas por ele como um processo provisório, variável e
problemático:
“O fato de que projetamos a nós próprios nessas identidades culturais, ao
mesmo tempo em que internalizamos seus significados e valores, tornando-os
‘parte de nós’, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os
lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural.” (Hall, 2006, p.
11 e 12).
A abordagem sociológica percebe o sujeito em confronto com o “processo de
reflexividade” para entender a si mesmo e as suas identidades diante do “eu objeto”,
fragmentado pelas identidades culturais de classes, gênero, sexualidade e etnia. Consideram o
“processo de reflexividade” como um processo de interação social, quando o self emerge de si
e reciprocamente torna-se reflexo da sociedade. De acordo com os autores, numa perspectiva
sociológica, o indivíduo compreende a si através da sociedade e suas partes, as identidades
(STETS e BURKE, 2003b, p. 1).Na busca do reconhecimento de sua identidade e do
pertencimento, o sujeito ao sentir o desconforto, trava “guerras individuais ou coletivas
(BAUMAN, 2005, p. 45; STETS e BURKE, 2003b; BAUMAN, 2005; HALL, 2006)”.
De acordo com a visão da psicologia social, o sujeito na modernidade “busca a
individualização, pressupõe uma consciência e um processo reflexivo de socialização”
(BENDASSOLLI, 2006, p. 185), em que possui uma noção de “qualidade de vida”, que
implica no tempo pessoal, na busca de novos lazeres e novas formas de se relacionar consigo
mesmo.
“O tempo aqui é o que abre as portas para os tesouros prometidos pela época
da vida autodeterminada: diálogo, amizade, diversão, ser si mesmo,
compromisso subpolítico – compromisso que é organizado em torno da
alimentação, do corpo, sexualidade, da identidade e da defesa da liberdade
política.” (Bendassolli, 2006, p. 185).
23
Segundo Giddens (2002, p. 75) a reflexividade do eu é um processo contínuo, em que
“cada momento, ou pelo menos a intervalos regulares, o indivíduo é instado à auto interrogarse em termos do que está acontecendo.” Dessa forma, o sujeito levanta as seguintes questões:
como posso usar este momento para mudar? Na busca do auto entendimento subordina-se ao
objetivo fundamental de construir/reconstruir um sentido de identidade coerente e satisfatório
para o próprio sujeito.
2.1.3. Estigma e seu Enfrentamento
Diversos ambientes sociais são representados por categorias de pessoas. No cotidiano,
as relações sociais são estabelecidas por pessoas, que pertençam a tal categoria. Para Goffman
(1988), quando se refere ao estigma e a identidade social, considera-se que os
relacionamentos são permitidos para aqueles que não fazem parte da categoria em questão aos
seus atributos:
“As rotinas de relação social em ambientes estabelecidos nos permitem um
relacionamento com ‘outras pessoas’ previstas sem atenção ou reflexão
particular. Então, quando um estranho nos é apresentado, os primeiros
aspectos nos permitem prever a sua categoria e os seus atributos, a sua
‘identidade social’ (Goffman, 1988, p. 5)”.
Segundo Goffman (1988, p. 5) seus atributos tornam-se as evidências para sua
categorização. Mas se o atributo for considerado muito diferente, “uma discrepância
específica”, como uma fraqueza, uma desvantagem, ele reduz a pessoa, diminuindoa,desacreditando-a. Tal efeito é considerado um estigma.
O termo estigma foi criado pelos gregos para se referir a sinais corporais, com os quais
preocupava “evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral” daquele
que possuía e os apresentava.
Bauman (2005) considera tensa a guerra do sujeito pela aprovação popular de suas
escolhas e preferências. Considerada a identidade com inflexível quando “a identidade que
rejeita aquilo que os outros desejam valoriza o que se deseja”, contrariando os grupos
dominantes, e assim considerada estereotipada e estigmatizada (BAUMAN, 2005, p. 45).
24
Segundo Hall (2006), essa seria a dinâmica dos grupos dominantes e as forças
coletivas no jogo do poder no processo das escolhas coletivas. No entanto, há indivíduos que
confrontam essas forças coletivas quando optam por identidades, pessoas e grupos de seus
interesses e preferências, nas suas escolhas individuais.
Para Goffman (1988) os estigmatizados buscam recursos de enfrentamento do
estigma. Um desses recursos, é quando uma pessoa alcança notoriedade, por mérito, seja por
um prêmio ou tornar-se o primeiro de sua categoria. Essa situação leva o sujeito estigmatizado
a uma transferência de crédito, de modo que o leva ao “mundo de heróis”. Há, também, um
conjunto de indivíduos que os estigmatizados buscam apoio, aqueles que compartilham do
seu estigma, e não os consideram diferentes. E também aqueles que são normais, mas
simpatizam com a condição e situação especial daqueles estigmatizados de uma determinada
categoria:
“[...] os que são normais, mas cuja situação especial levou a privar
intimamente da vida secreta do indivíduo estigmatizado e a simpatizar com
ela, e que gozam, ao mesmo tempo, de uma certa aceitação, uma certa
pertinência cortês ao clã.” (Goffman, 1988, p. 27).
O enfretamento da condição de estigmatizado proporciona ao indivíduouma
aprendizagem.Com isso, acontecem mudanças na construção do seu eu. Há membros de
alguns grupos que, ao se destacar, passam a desempenhar um papel especial e são
considerados como símbolosdesse grupo. Há também aqueles que desempenham a função
cômica, considerados como imaturos para alguns do grupo, mas superam a distância social
dos demais.Segundo o autor:
“Ele é frequentemente o centro da atenção, que reúne os outros num círculo
participante à sua volta, mesmo que isso o despoje do status de ser um
participante.” (GOFFMAN, 1988, p. 119).
Pelo reconhecimento social, seja individual ou coletivo, são planejadas batalhas em
duas frentes pela aceitação da identidade. As frentes dependem da posição conquistada ou
atribuída segundo a hierarquia de poder. Uma das frentes “a identidade escolhida e preferida e
contraposta, principalmente, as obstinadas sobras das identidades antigas, abandonadas e
25
abominadas, escolhidas ou impostas no passado (BAUMAN, 2005, p. 45)”. A outra frente
contraria a primeira, as identidades escolhidas e preferidas são aquelas estereotipadas,
estigmatizadas, rotuladas. Muitas são maquinadas por outras identidades, sofrem pressões,
enfrentadas por “forças inimigas” e caso vençam a batalha, são repelidas. Ao reivindicar seus
direitos assumem um espaço inferior da hierarquia de poder, das imposições culturais e
sociais, e tais identidades são classificadas por subclasses (BAUMAN, 2005).
2.1.4. Segurança Ontológica
Giddens (2002) fala que a segurança ontológica é uma sensação ancorada cognitiva e
emocional por uma “consciência prática”. Essa sensação ocorre nas diversas atividades
humanas na vida cotidiana em todas as culturas. Oferece quadros cognitivos de significados e
um comprometimento emocional que correspondem um com o outro. Para o
comprometimento emocional a confiança, a esperança e a coragem são relevantes.
A confiança se apoia na realidade existencial no sentido emocional, e também no
cognitivo que “se funda na crença na confiabilidade das pessoas (GIDDENS, 2002)”. Esta
confiança baseia-se nas experiências ainda na infância, e é chamada por alguns autores de
“confiança básica”, considerada pela experiência na “coragem de ser”:
“Os rituais de confiança e comportamento na vida cotidiana, discutidos por
Goffman, são muito mais do que maneiras de proteger nossa própria
autoestima e a dos outros (ou, quando usados de maneira particular, de atacar
ou abalar essa autoestima). Na medida em que dizem respeito à substância
básica da interação cotidiana- pelo controle dos gestos do corpo, do rosto e
do olhar, e do uso da linguagem – tocam nos aspectos mais básicos da
segurança ontológica” (Giddens, 2002, p. 49).
Segundo Giddens (2002, p. 53) as relações de confiança de si e nos outros fazem parte
do processo de constituição da identidade do sujeito, que inicia na “fé individual”, e a
sensação da segurança ontológica. Torna-se para o indivíduo as relações interpessoais a
certeza da sua “realidade” nos ambientes sociais em que está inserido. A aceitação e o
26
reconhecimento do outro são considerados as respostas necessárias na sustentação do mundo
social.
Para Giddens (2002, p. 80) os padrões gerais do estilo de vida são considerados
decisões estratégicas no longo prazo. Define estilo de vida como “um conjunto de hábitos e
orientações”, importante para a sensação de continuidade da segurança ontológica de um
indivíduo.
“Alguém que está comprometido com um determinado estilo de vida
necessariamente veria várias opções como "inadequadas" a ele ou ela, da
mesma forma que veria os outros com quem estivesse em interação. Além
disso, a seleção ou criação de estilos de vida é influenciada por pressões de
grupo e pela visibilidade de modelos, assim como pelas circunstâncias
socioeconômicas.” (Giddens, 2002, p. 80).
São elementos da segurança ontológica a aceitação da realidade das coisas e dos
outros e a sensação de estabilidade da auto identidade. Esta sensação pressupõe os outros
elementos e pode ser sólida e frágil. Sólida para que se possa superar as “principais tensões e
transições nos ambientes sociais em que a pessoa se move” e frágil para que “a biografia que
o indivíduo reflexivamente tem em mente é só uma estória entre muitas outras estórias
potencias que poderiam ser contadas sobre seu desenvolvimento como eu e do auto identidade
(GIDDENS, 2002, p. 56)”.
2.2. Identidade de Gênero
Pesquisadores definem identidade de gênero como “uma questão de aprendizado [...],
ou seja, algo distinto de uma simples extensão de diferenças propostas biologicamente
(GIDDENS, 2002 P. 63)”, uma realidade externa e biológica. Identidade de gênero é uma
ideia “construída da heterogeneidade, [...] uma elaboração nativa [...] de uma correspondência
sociológica,” em que “gênero constrói o sexo” (HEILBORN, 2004 p. 32), uma concepção
definida por“afiliações sociais tradicionalmente atribuídas (BAUMAN, 2005 p. 30)”. Pereira
(2009) afirma que a identidade de gênero “ilustra uma das várias identidades do indivíduo [...]
ao dizer: sou heterossexual ou homossexual(PEREIRA, 2009 p. 62)”.
27
Santos (2013) crítica a visão restrita da identidade sexual ao contexto biológico e ao
contexto social dos poderes dominantes:
“Esses poderes dominantes [...] fundam-se naquilo que Judith Butler
designou por matriz heterossexual em GenderTrouble, e que mais tarde veio
a designar por hegemonia heterossexual. A matriz sexual constitui-se pelas
normas que regulam os sujeitos de modo a que sexo biológico, identidade
sexual e desejo funcionem entre si harmoniosamente, do ponto de vista de
uma lógica heterossexual.” (Santos 2013 p. 5).
Os interesses da academia norte-americana nos estudos das identidades de gêneros
iniciaram-se na década de 1960:
“Os estudos sobre gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros são áreas
interdisciplinares e que são estudos emergentes na academia norte-americana,
após os anos 1960, com o estabelecimento de disciplinas, programas, centros,
realização de congressos.” (Lopes, 2008).
Hall (2006 p. 45) defende que “[...] o feminismo apelava às mulheres, a política sexual
aos gays e lésbicas, as lutas raciais aos negros, o movimento antibelicista aos pacifistas, e
assim por diante”. Para Silva (2006) as questões políticas tendem a ser citadas como dados e
fatos da vida social, numa posição socialmente aceita. E afirma: “na perspectiva da
diversidade, a diferença e a identidade tendem a serem naturalizadas, cristalizadas,
essencializadas (SILVA 2006, p. 73)”.
Segundo pesquisadores, a identidade cultural é aquela sustentada por crenças, valores
sociais e culturais. Para Pereira (2009, p. 17), a sociedade define “os padrões
heteronormativos dominantes”. De acordo com Irigaray, Saraiva, Carrieri (2011, p. 894) a
sociedade e as organizações tomam como base a “crença na superioridade da orientação
heterossexual, que implicaria na exclusão, calculada ou não, de indivíduos não heterossexuais
das chamadas políticas públicas.” Para os autores, no ambiente organizacional a cultura
prevalece
no
“incrustamento
CARRIERI, 2011, p. 894)”.
de
valores
heterocêntricos(IRIGARAY,
SARAIVA,
28
Segundo Pereira (2009 p. 103)“o termo heteronormatividade (do grego hetero,
"diferente", e norma, "esquadro" em latim) é utilizado para descrever situações e variações da
orientação heterossexual que são marginalizadas, ignoradas ou perseguidas por práticas
sociais, crenças ou políticas”.Para o autor, a heteronormatividade tem como base a ideia de
que os sujeitos se enquadram somente em duas categorias distintas e complementares como:
‘macho’ e ‘fêmea’. A heterossexualidade “considerada como sendo a única orientação sexual
normal (WAGNER, 1991 apud PEREIRA, 2009, p. 103)”.
De acordo com Junqueira (2009), a construção da masculinidade, a identidade
masculina, é fomentada com base no quadro das normas de gênero e da heteronormatividade,
que se configuram no processo dotado de “altas doses de cerceamento, fazendo com que a
parte dominante (o elemento masculino) seja ironicamente “dominada por sua própria
dominação (JUNQUEIRA, 2009, p. 19)”.
Para Hall (2006, p. 45) “o feminismo teve relação mais direta com o descentramento
conceitual do sujeito cartesiano e sociológico”. Ele destaca as questões e as reivindicações
apresentadas pelo movimento feminista; a clássica distinção entre o "dentro" e o "fora"; a
contestação política na vida social, a família, a sexualidade, o trabalho e o cuidado com os
filhos; questões do processo de identificação social, como homens/mulheres, mães/pais,
filhos/filhas; a expansão de um movimento à contestação da posição social das mulheres com
o surgimento das identidades sexuais e de gêneros.
2.2.1. Homossexualidade
De acordo com alguns teóricos (FOUCAULT, 1988; PEREIRA 2009; SANTOS,
2013) a homossexualidade historicamente pode ser entendida como a construção social e
discursiva sobre o sexo e a sexualidade. A homossexualidade trata da produção de “verdades”
(FOUCAULT, 1988), legitimada por categorias antes não existentes, como a identidade
sexual e a identidade homossexual, com o intuito de condenar relações sexuais com pessoas
do mesmo sexo.
Para Santos (2013) os “discursos sobre o comportamento tornaram-se objeto de
análise e interpretação por parte de instituições como a medicina, psiquiatria, direito penal”
(p. 10). Pereira (2009) considera a homossexualidade como “uma construção discursiva com
29
o objetivo de controlar e encarcerar todos aqueles que nela se encontram (PEREIRA, 2009, p.
68)”.
Segundo Pereira (2009) a constituição da identidade homossexual consiste na
percepção de si como homossexual diante da situação e do contexto social em que se vive.
Pereira considera impossível separar de maneira distinta e categórica “os aspectos individuais
da identidade homossexual dos aspectos sociais, pois formam um processo dinâmico
(PEREIRA 2009, p. 43)”.
Pesquisadores abordam a história social da homossexualidade pela criação da
subcultura “gay”. Apresentam a rebelião de Stonewall “Clube Gay” (HISTORY.COM, 2014)
em Nova Iorque, como o marco pela luta por respeito e direitos da comunidade gay, em junho
de 1969. Naquela época os homossexuais masculinos preferiam não assumir essa condição,
ficavam “no armário” (WEINSTEIN 1998), frequentavam somente lugares muito escondidos
e aqueles considerados marginais. Apontam ainda que não existia flexibilidade e aceitação à
homossexualidade, e que os homossexuais viviam ainda mais segregados. Citam os
homossexuais como grupos que compartilham entre si “valores, crenças, significados de uma
história de segregação social e estigma” (PEREIRA, 2009, p. 68), considerando a subcultura
gay (WEINSTEIN, 1998; LACERDA et al. 2002; JUNQUEIRA, 2009; PEREIRA, 2009).
O termo gay, palavra de origem inglesa, significa feliz, alegre e exultante. O vocábulo
foi adotado há algum tempo como referência dos direitos humanos, da cidadania e da
sexualidade. De acordo com Silva (2007) o objetivo do uso do termo está relacionado à
questão da identificação:
“O termo gay, que, literalmente, significa felicidade e alegria, surgiu em
1960, nos Estados Unidos e na Europa, e teve como objetivo substituir a
denominação médico-legal “homossexual”, que está associada à patologia e
ao crime.” (Silva, 2007, p. 81).
Diversos são os termos a respeito do tema homossexualidade; autores consideram a
separação dos termos entre orientação sexual e gênero, “apoiando-se no dualismo
heterossexualidade e homossexualidade, apenas alteraria o valor dos termos, contestando o
estigma de anormalidade ou doença atribuído à homossexualidade (CARRARA E SIMÕES,
2007, p. 70)”. Consideram como comentários homofóbicos e pejorativos o uso de termos
como “bicha”, “maricas”, “viado”, “morde-fronha”, etc. proferidos em diversas situações e
contextos sociais (SILVA, 2012, p. 101). A orientação sexual trata-se do termo utilizado para
30
afetividade e sexualidade e não se refere exclusivamente ao sexo e à opção sexual, por não ter
a possibilidade de mudar o seu desejo (CARRARA e SIMÕES, 2007; PINHEIRO, 2014).
“Homossexuais são indivíduos que não desejam mudar de sexo, são felizes e
sentem prazer com o seu corpo, porém apenas se relacionam com indivíduos
do mesmo sexo; trata-se de preferências ou exclusividade na escolha do
parceiro do mesmo sexo, seja no gênero masculino ou feminino.” (Silva e
Oliveira, 2012, p. 293).
De acordo com Pinheiro (2014), no Site Oficial do Projeto Lei – PLC122, a orientação
afetivo-sexual considera quatro os termos citados como: os bissexuais aqueles que percebem
o desejo pelos dois sexos; os heterossexuais o desejo pelo o sexo oposto; os homossexuais o
desejo pelo mesmo sexo e os assexuados são considerados aqueles em que há um desejo
afetivo e não sexual.
Segue abaixo um quadro que sumariza as possibilidades existentes de orientação
sexual e identidade de gênero e os termos (PLC122.COM.BR):
31
Quadro 1: Orientações de Gênero
Sexo biológico
Gênero psíquico
Orientação sexual
Como reconhecemos
Mulher
Feminino
Bissexual
Mulher bissexual
Mulher
Feminino
Heterossexual
Mulher heterossexual
Mulher
Feminino
Homossexual
Mulher homossexual
Mulher
Feminino
Assexual
Mulher assexual
Mulher
Masculino
Bissexual
Homem bissexual
Mulher
Masculino
Heterossexual
Homem heterossexual
Mulher
Masculino
Homossexual
Homem homossexual
Mulher
Masculino
Assexual
Homem assexual
Homem
Masculino
Bissexual
Homem bissexual
Homem
Masculino
Heterossexual
Homem heterossexual
Homem
Masculino
Homossexual
Homem homossexual
Homem
Masculino
Assexual
Homem assexual
Homem
Feminino
Bissexual
Mulher bissexual
Homem
Feminino
Heterossexual
Mulher heterossexual
Homem
Feminino
Homossexual
Mulher homossexual
Homem
Feminino
Assexual
Mulher assexual
Fonte: Elaborada por Lívia R. Pinheiro - PLC 122 (Site Oficial)
Segundo pesquisadores, a constituição da identidade homossexual faz parte de um
processo, de estágios e fases de identificação (STETS E BURKE, 2000; GIDDENS 2002),
por um rito de passagem (VAN GENNEP, 1978;PEREIRA, AYROSA e OJIMA, 2005) por
escolhas e pertencimento (BAUMAN, 2005). Perante esse processo de constituição da
identidade homossexual o sujeito gay declara abertamente ou não sua homossexualidade e
orientação sexual diante da sociedade. São consideradas categorias que expressam a revelação
da identidade gay: “dentro do armário”, ocultação (DINIZ et al., 2013) e encobrimento da
32
identidade homossexual (PEREIRA, 2009 p. 49) da identidade homossexual, “saída do
armário” e “fora do armário”, a revelação da orientação sexual (FERREIRA, 2007 p. 13),
“momento no qual aprende os valores e os comportamentos da cultura gaye assume a sua
identidade homossexual (PEREIRA, 2009 p. 49; FERREIRA, 2007; IRIGARAY, 2007)”.
A identidade homossexual, historicamente, é marcada por crenças e teorias científicas
equivocadas, por lutas e movimentos sociais e pela estigmatização. Hoje, constituída por
indivíduos que lidam no seu cotidiano com o silêncio, o medo e práticas discriminatórias
(PEREIRA, 2009; IRIGARAY, SARAIVA e CARRIERI,2011).
Irigaray (2007) e Irigaray, Saraiva e Carrieri, (2011) levantam a questão do que é ser
gay, ao apontar essa condição como estereótipo socialmente construído, a fonte da angústia, a
ruptura do mundo conhecido e tradicional, de uma vida socialmente aprendida, internalizada
na sua história de vida.
“Ser gay passa a significar, também, uma ampliação dos graus de liberdade,
comprometimento ou rompimento com comportamentos estereotipados,
impondo aos indivíduos uma multiplicidade de situações de vida e
expectativas de comportamentos conflitantes, os quais sobrecarregam com
novas realizações de coordenação e de integração social, fontes de
inquietação e angústia.” (Irigaray, Saraiva e Carrieri, 2011, p. 902).
Segundo autores, alguns gays hesitam em assumir publicamente sua identidade em
alguns ambientes considerados heterossexuais, como o ambiente organizacional (IRIGARAY,
2007; IRIGARAY, SARAIVA e CARRIERI, 2011).
33
2.3. Identidade e Trabalho
O trabalho, para Marx (1974), se inicia da “força de trabalho”, comprada, consumida.
Alerta-nos que o trabalhador é percebido como “mercadoria”:
“Para o trabalho reaparecer em mercadorias, tem de ser empregado em
valores-de-uso, em coisas que sirvam para satisfazer necessidades de
qualquer natureza. O que o capitalista determina ao trabalhador produzir é,
portanto um valor-de-uso particular, um artigo especificado. A produção de
valores-de-uso muda sua natureza geral por ser levada a cabo em benefício
do capitalista ou estar sob seu controle. Por isso, temos inicialmente de
considerar o processo de trabalho à parte de qualquer estrutura social
determinada.” (Marx, O Capital. 1974, v. 1, seção: 1).
Segundo Dejours (2007, p. 17) o trabalho permeia do sofrimento à promessa de
felicidade. Os indivíduos “paulatinamente dissociam o sofrimento à perda do trabalho” e à
insegurança e buscam associar o trabalho à esperança, à melhoria, à felicidade e à segurança.
Para Mendes (2007), no contexto de trabalho, o sofrimento torna-se muitas vezes
invisível, banalizado, ignorado e oculto, “advindos das impossibilidades de negociação”
(2007, p. 2) diante dos conflitos e das adversidades existentes. Segundo a abordagem da
psicodinâmica do trabalho, são utilizadas estratégias para que o sofrimento seja amenizado ou
combatido, as chamadas estratégias defensivas e de mobilização coletiva. Em destaque a
primeira estratégia em que a negação torna-se um dos mecanismos:
“As estratégias defensivas são mecanismos de negação e racionalização da
realidade de trabalho que faz sofrer. Caracterizam-se pela naturalização do
sofrimento e das injustiças que os trabalhadores padecem e dos fracassos no
trabalho. A racionalização compõe justificativas socialmente valorizadas para
explicar situações desconfortáveis, desagradáveis e dolorosas [...] Nesse caso,
os conflitos são negados, disfarçados e minimizados, pois, resolvê-los
implica em muitos, como exemplo, a perda de uma função ou do posto de
trabalho.” (Mendes, 2007, p. 3).
Os trabalhadores buscam o reconhecimento por meio das suas atividades exercidas
profissionalmente e de suas ações produtivas. Os processos identificatórios dos trabalhadores
permite compreender o trabalho para o trabalhador, como parte do seu ciclo de vida e
34
elemento que constitui a subjetividade humana e a sua identidade. Autores consideram a
atividade de trabalho como uma ação constituinte da identidade social e reconhecem a relação
entre trabalho e identidade. A constituição da identidade do profissional predomina o vínculo
do ser humano, do sujeito a uma atividade laborativa, que leva em consideração o contexto
das características, das implicações dessa atividade no seu sistema identitário (KRAWULSKI,
2004; COUTINHO, KRAWULSKI e SOARES, 2007).
Para Giddens (2002, p. 79) a modernidade apresenta para o indivíduo a tarefa de optar,
selecionar na “complexa variedade de escolhas”. Segundo o autor, o trabalho se encontra na
“arena das escolhas plurais” (GIDDENS, 2002 p. 80), tais como a escolha de trabalho e do
ambiente de trabalho, considerados elementos básicos de orientação e da constituição do
estilo de vida.
De acordo com Bauman (2005 p. 51), no passado o trabalho determinava a solidez da
“identidade fundamentalmente pelo papel produtivo” no campo social do trabalho. Hoje, os
“habitantes do mundo líquido” (BAUMAN, 2005, p. 32) buscam, constroem e mantêm-se as
referências de identidade em pleno movimento e em alta velocidade. Para o autor, esses
habitantes buscam essa identidade e deparam-se com a insegurança das relações sociais e o
“local de trabalho flexível” (BAUMAN, 2005, p. 36), mas anseiam por segurança,
relacionamentos e pertencimento, no local de trabalho.
Pesquisadores abordam o trabalho pelos aspectos sociais, psicológicos e culturais.
Consideram, dessa maneira, o ambiente como “a esfera do trabalho dominada pela compulsão
econômica [...] e por estilos de comportamentos (GIDDENS, 2002, p. 80)”. Para Antunes
(2005) o trabalho “permanece como referência central, não só em sua dimensão econômica,
mas também quando se concebe o trabalho em seu universo psicológico, cultural e simbólico
(ANTUNES, 2005, p. 13)”. Bauman (2005, p. 36) considera o local de trabalho como um dos
ambientes em que o “status social” pode ser definido em relação às regras de comportamento
e ética. Sennett (2009) cita “o comportamento que traz o sucesso ou mesmo apenas a
sobrevivência no trabalho” (SENNETT, 2009, p. 27). Segundo Barbosa e Campbell (2006 p.
21) nas sociedades contemporâneas “o trabalho é considerado como fonte de criatividade,
auto expressão e identidade”,
Para Dejours (2007, p. 141) o trabalho é considerado como “mediador” da dinâmica
da realização do eu com o reconhecimento do trabalho. Esse reconhecimento conduz e
“reconduz o sujeito ao plano da sua construção da identidade (p. 34)”.
Bendassolli (2006) considera que os sujeitos são levados a se descrever por meio do
trabalho e pelo consumo, seja nos aspectos do sistema “socializatório” e também no enquadre
35
econômico das sociedades, em função do acesso à renda e por viver em uma sociedade de
consumo, simbolizados pela posse e pelo status conquistado. O trabalho favorece a
construção da identidade individual e também coletiva (SENNETT, 2009 p. 87). Os
significados e o sentido do trabalho são, para o sujeito, elementos que incidem na construção
da sua identidade, identidade coletiva e sua subjetividade (GAULEJAC, 2007; DEJOURS,
2007; SENNETT, 2009).
2.3.1. Identidade Coletiva no Trabalho
A construção da identidade coletiva se faz também dos significados e do sentido do
trabalho. Para Silva e Schmidt (2008) a identidade no trabalho se relaciona com o
desenvolvimento de papeis no processo da construção da identidade:
“A identidade no trabalho se dá pela identificação, por parte do indivíduo,
com o trabalho que realiza, com a empresa em que trabalha e com a trajetória
desta, processando-se nos níveis afetivo e cognitivo. Em termos cognitivos,
assimilando a mentalidade do grupo de que faz parte, das regras e normas, e,
em termos afetivos, estabelecendo relações com as pessoas deste grupo.”
(Silva e Schmidt, 2008, p. 2).
Para Gaulejac (2007), na busca por uma identidade, o trabalho favorece o sentido para
o indivíduo e com o sentimento de pertencimento no coletivo. A identidade coletiva torna-se
constituída pela cultura local, por uma nova moral social apresentada para o trabalhador.
Gaulejac (2007, p. 157) defende que “o trabalho tem sido visto como algo que dá o
sentimento de contribuir para umaobra coletiva e que cada atividade tem um fim fora de si
mesmo”.
Para Sennett (2009) aflexibilização mudou o sentido do trabalho. A flexibilidade
resgata a palavra trabalho, job no sentido de simbolizar as pessoas em blocos, trabalhos por
parte no percurso da sua vida. A realidade do “trabalho flexível” (SENNETT, 2009, p. 133)
está em não permanecer por muito tempo no mesmo local. Os trabalhadores, ao enfrentarem o
local de trabalho flexível, deparam-se com a necessidade de um “rápido estudo de novas
relações e de novas pessoas (SENNETT, 2009, p. 133)”.
Teóricos apontam as relações existentes na modernidade e os seus desafios no
trabalho, em que os sujeitos buscam manter-se numa “relação social fundada na propriedade
36
privada [...] como um ser social que atua como homem que se perdeu a si mesmo,
desumanizado (ANTUNES 2005 p. 71)”. Para eles, os sujeitos encontraram-se “nas
associações em cadeia por divisões categóricas de grupos” (SENETT, 2009, p. 87) no seu
local de trabalho e nas sociedades fragmentadas (ANTUNES, 2005; SENETT, 2009).
2.3.2. Identidade e a Organização
A organização se constitui por identidades múltiplas, abrandem aos níveis interno e
externo com as identidades sociais, a identidade das pessoas, do trabalho e a identidade
organizacional. Pesquisadores dos estudos organizacionais consideram que uma organização
tem a possibilidade de múltiplas identidades por evidências empíricas. Estudam como ocorre
a diferenciação dessas identidades e as suas implicações. De acordo com Silva e Schmidt
(2008, p. 2 e 3) são alguns fatores que constituem as identidades organizacionais, como: “(I) a
natureza da identidade organizacional; (II) as discrepâncias entre as identidades bases mais
visíveis; (III) a base para a mudança da identidade organizacional; e (IV) o modo como a
mudança de identidade pode ser implementada.”
Segundo Fernandes (2009) diversos autores consideram que a identificação ocorre a
partir da percepção que esse sujeito tem da organização em que trabalha. O sujeito se
categoriza como “membro” da organização e a diferencia das demais organizações. E que tal
processo de reconhecimento como membro tem significados “de fonte de prestígio, segurança
e satisfação, afetando auto definição e autoestima”.
Amplia-se o interesse dos teóricos organizacionais em estudar as relações da
identificação das pessoas com as organizações, como um processo identificatório.
A
identificação ocorre quando as crenças e os valores da organização em que o sujeito trabalha
tornam-se referências para a sua identidade (FERNANDES, MARQUES e ROCHA 2009).
2.4. Identidade Homossexuale Trabalho
Segundo Irigaray, Saraiva e Carrieri (2011), o homossexual busca meios estratégicos
de sobrevivência no trabalho, tais como:
37
“[...] inúmeras estratégias de sobrevivência, que variam desde a explicitação
da orientação sexual em todas as dimensões sociais (família e trabalho), em
apenas algumas (círculo de amigos mais próximos), até a sua ocultação em
todos os espectros de sua vida em sociedade.” (Irigaray, Saraiva e Carrieri,
2011, p. 894).
Para Siqueira et al. (2009, p. 450) o trabalhador homossexual enfrenta a dúvida e o
conflito de revelar a sua orientação sexual. Sua condição depende de alguns fatores como a
sua postura fora do trabalho, na vida familiar, na relação com amigos e na comunidade a que
pertence.
Para Pereira (2009) a revelação da identidade homossexual depende do contexto social
em que o indivíduo está, inclusive no trabalho:
“Essa categorização identitária serve não só como fonte de classificação, mas
também de avaliação por parte das outras pessoas e a sua ativação, ou
revelação, dependendo do contexto. Um indivíduo que se classifica na
categoria de homossexual ativa essa identidade homossexual numa situação
social específica, como uma parada gay, e a deixa dormente em outras
situações, como no ambiente de trabalho.” (Pereira, 2009, p. 43).
Segundo Giddens (2002, p. 77) o indivíduo enfrenta riscos no processo de ruptura com
“os padrões estabelecidos de comportamento”. Alguns autores destacam as dificuldades
enfrentadas pelos homossexuais no trabalho como discriminação, homofobia, estereótipos
negativos e o estigma social. São considerados como “um alvo das atitudes discriminatórias
ao longo da história” (IRIGARY, 2007, p. 2), além de condenados ao isolamento e ao
confinamento (FERREIRA, 2007; IRIGARAY, 2007; SIQUEIRA et al., 2009).
Para Irigaray (2007 p. 2) o ambiente organizacional materializou-se como espaço
heterogêneo onde convivem “indivíduos de diferentes sexos, etnias, religiões e orientações
sexuais”. Considera, ainda, a diversidade da força de trabalho definida como a sustentação
da teoria da identidade social.
A diversidade nas organizações é tema abordado por acadêmicos das ciências sociais,
nos campos de estudos das organizações e por entidades que se dedicam à responsabilidade
social como o Instituto Ethos (2000), que elaborou e publicou um manual chamado “Como as
Empresas podem (e devem) valorizar a diversidade”, com o objetivo de incentivar práticas
socialmente responsáveis:
38
“[...] pretende-se contribuir para a discussão do tema e estimular a
implementação de iniciativas corporativas de valorização da
diversidade que tenham como meta enfrentar os preconceitos no
ambiente de trabalho e no âmbito das relações empresariais.”
(Instituto Ethos, 2000).
A política de diversidade nas organizações brasileiras é desenvolvida e divulgada em
ambientes virtuais, nos códigos de ética e nos programas da área de gestão de pessoas e gestão
de recursos humanos. Neles, somente exibe-se a garantia da representatividade dos diferentes
públicos, nas questões de etnia, cor da pele, nacionalidade, idade, religião, gênero, orientação
sexual, estética pessoal, condição física e mental, além do estado civil (IRIGARAY,
SARAIVA e CARRIERI, 2011, p. 894; DINIZ et al., 2013).Segundo Pereira (2009), “o sair
do armário” é considerado como um rito de passagem(VAN GENNEP, 1909; PEREIRA,
AYROSA e OJIMA, 2005, p. 6) e um processo importante na construção da identidade
homossexual. O processo do rito de passagem envolve:
“[...] uma crescente aceitação dessa identidade como parte do
autoconceito do indivíduo; e finalmente, uma revelação progressiva
de um status social [...] para vários públicos: amigos, família, outros
gays e a sociedade.” (Pereira, 2009, p. 51).
O processo de construção da identidade homossexual influencia no modo de vida do
sujeito homossexual, como ele se sente e como consome. Destacam, também, o papel central
na construção da identidade gay e para o enfrentamento do estigma vivido na sociedade
(PEREIRA, 2009).
2.5. Trabalho e Consumo
Pesquisadores abordam os temas trabalho e consumo no processo da construção das
identidades do sujeito, nos estilos de vida e comportamento, e do status social. De acordo
com Giddens (2002) o estilo de vida no trabalho e no consumo fala a respeito da construção
e reconstrução do auto identidade do sujeito.
39
“Pensa-se muitas vezes que a noção de estilo de vida só se aplica
especificamente à área do consumo. É verdade que a esfera do trabalho é
dominada pela compulsão econômica e que estilos de comportamento no
local do trabalho estão menos sujeitos ao controle do indivíduo do que em
contextos extratrabalho. Mas embora esses contrastes claramente existam,
seria incorreto supor que o estilo de vida só diz respeito a atividades
extratrabalho.”(Giddens, 2002, p. 80).
Para Bendassolli (2006) os sujeitos são levados a se descrever pelo trabalho, nos
aspectos do sistema socializatório e no enquadre econômico-burguês das sociedades.
“[...] aprendemos a ser indivíduos fazendo referência ao sujeito do trabalho. Na
medida em que o trabalho é a via preferencial do acesso à renda, e na medida
em que vivemos em sociedade de consumo nas quais os símbolos de status
estão associados à posse de mercadorias, temos aqui um círculo vicioso.”
(Bendassolli, 2006, p. 34).
Segundo Nunes (2007), para os jovens, sujeitos de sua pesquisa, o consumo assume
um papel importante na construção de suas identidades sociais, mais do que o trabalho:
“[...] Enquanto tal, o consumo adquire significados distintos em razão desses
usos distintos que se possa dar ao bem. Entre jovens, isso é praticamente
regra geral: o consumo oferece visibilidade diante do grupo e cria identidades
sociais, refletidas, por exemplo, no uso de produtos da moda, grifes, etc.
Como se percebe: ficar sem trabalho não é tão grave como ficar sem
consumir.” (Nunes, 2007, p. 668).
Os estilos de vida, os padrões de vida, as multiplicidades de signos culturais, o
trabalho e as práticas de consumo dos sujeitos são estímulos e referências visíveis do alcance
do status desejado e na construção da identidade (GIDDENS, 2002; BENDASSOLLI, 2006;
NUNES, 2007).
40
2.6. Consumo
Serão apresentados, nesta seção, questões referentesàs contribuições do Consumo da
Teoria da Cultura do Consumo (CCT); Consumo e a Constituição da Identidade; Consumo e
Identidade Homossexual e os subtemas Significado Simbólico de Posses e o Subcultura e
Mercados do Consumo.
2.6.1. Teoria da Cultura do Consumo (CCT)
A Teoria da Cultura e do Consumo (CCT) é considerada como o conjunto de
perspectivas teóricas que abordam as relações dinâmicas entre o consumo, o mercado, os
símbolos e os significados culturais. Destaca-se a Teoria da Cultura e do Consumo como “a
expansão da produção capitalista de mercadorias” (FEATHERSONE, 1995 p. 31). Pinto e
Lara (2009) chamam atenção para a forte ligação entre cultura e consumo, no qual “o
consumo é moldado em todos os seus sentidos por considerações culturais” (PINTO e
LARA 2009 p. 8).
Segundo Feathersone (1995, p. 31) são três perspectivas de estudo sobre a cultura e
consumo: a primeira concepção, a expansão da produção capitalista, que resultou na
acumulação cultural de bens e consumo; a segunda concepção, a relação entre a satisfação e
a ascensão social proporcionada pelos bens; a terceira concepção, a questão da emoção no
consumo, “desejos celebrados no imaginário cultural”. As atividades de consumo são
consideradas os fenômenos de análise da cultura e consumo. O autor critica sociedade de
consumo quando ela apresenta os resultados de “igualitarismo e liberdade individual” e
considera os fenômenos de consumo como “alimentadores da capacidade de manipulação
ideológica de sedutor e do controle da população (FEATHERSONE, 1995, p. 31)”. Numa
concepção sociológica, o percebe como a relação entre a satisfação por meio dos bens e
serviços consumidos e o acesso à condição privilegiada na pirâmide social e pelo status.
Arnould e Thompson (2005) afirmam que a raiz histórica da Teoria da Cultura e do
Consumo (CCT) foi ampliada em sua linha de pesquisa para analisar as dimensões sociais e
culturais do consumo e seu contexto. Os estudos têm o interesse nas práticas de consumo por
meio dos significados, símbolos codificados por anúncios, marcas e bens materiais
oferecidos pelo mercado. Tais recursos são utilizados pelo mercado para manifestar as
41
particularidades pessoais do consumidor no contexto sociocultural, as metas de estilo de vida
e a construção das identidades individuais e coletivas.
Para Slater (2001) os valores definidos pela sociedade por meio do consumo invadem
os domínios da ação social, “porque o próprio consumo se torna um foco crucial da vida
social (p. 32)”.
“A cultura do consumo é marcada por esse sentido duplo da privacidade e
suas relações com escolhas e liberdade: o aumento do poder do indivíduo, o
significado, o investimento no futuro, a identidade, etc. e estão intimamente
ligados a uma área restrita da vida.” (Slater, 2001. p. 35).
McCracken (2003) considera bens e serviços adquiridos no mundo do consumo como
significados, representados por categorias e princípios culturais. Os bens e serviços fazem
parte do sistema de práticas para grupos e indivíduos e são “a base material em que se
constrói a cultura” (PEREIRA 2009 p. 52), definem o estilo de vida e identidades (GIDDENS
2002; BARBOSA e CAMPBELL 2006) e a relação da satisfação por meio e o alcance do
status social (FEATHERSONE, 1995, p. 31).
2.7. Consumo e Identidade
Nesta seção, os temas relacionados são a Constituição da Identidade no Consumo;
Consumo e a Identidade Gênero Homossexual; Significado Simbólico de Posses; Subcultura
Gay e Mercados de Consumo.
2.7.1. Constituição da Identidade no Consumo
Pesquisadores (BAUMAN 2005; AYROSA, FIGALE e TUCCI 2008; PEREIRA
2009) consideram a relevância do consumo na constituiçãoda identidade. O indivíduo utiliza
das práticas de consumo para se identificar com os grupos a que pertencem e, assim, alcançar
posição privilegiada na escala social. Comportamentos como “o que come, o que bebe, onde
42
mora, o meio de transporte que utiliza e demais itens” (BAUMAN 2005, p. 24) são
considerados fatores sociais na constituição da identidade, que revelam quem somos.
Para Giddens (2002, p. 80), os estilos de vida e a condição social e o status não se
aplicam somente ao consumo. O autor considera como práticas cotidianas os hábitos comuns
e as atividades “rotinizadas” como os “de vestir, comer, modos de agir e lugares preferidos”.
Afirma ser o estilo de vida o reflexo da autoidentidade do indivíduo. Segundo Barbosa e
Campbell (2006, p. 11) os espaços de consumo são percebidos como “palcos nos quais
transitam as múltiplas identidades do homem contemporâneo por bens e serviços que
consomem e tem acesso”.
Para Pereira (2009) ocorreram profundas transformações sociais por meio da
globalização, da supremacia das multinacionais e do uso de recursos, como:
“Os meios de comunicação de massa, as novas mídias como a
Internet, além das consequentes mudanças da denominada pósmodernidade, como o individualismo exacerbado, o impulso de
realização pessoal por meio do auto expressão, a busca de segurança e
identidades coletivas.” (Pereira, 2009, p. 53 e 54).
Pinto e Lara (2009, p. 1) destacam a perspectiva do estudo do consumo e das variáveis
pesquisadas. O autor defende os estudos realizados, por considerar que os consumidores
utilizam uma série de variáveis para adquirir bens e serviços: os sentimentos, as emoções, “o
significado do simbolismo no consumo, a necessidade de buscar o divertimento e o prazer”,
na constituição das identidades, no posicionamento no espaço social, na percepção de
pertencimento em grupos, na declaração de gênero e de etnia e ainda no “celebrar ou superar
passagens”.
2.7.2. Consumo e Identidade Homossexual
Pereira (2009) identifica os significados simbólicos das posses que emergem no
processo da constituição da identidade homossexual. De acordo com o autor, a posse de bens
e serviços vincula o indivíduo ao mundo social e aos grupos a que pertence. O autor afirma
43
que “quando um indivíduo ostenta objetos relacionados simbolicamente a algum grupo social,
declara ser membro daquele grupo em contraste a outros grupos (PEREIRA, 2009 p. 64)”.
De acordo com Giddens (2002), ao investigar identidades de gêneros, pesquisadores
analisam a relação do consumo, das posses e da identidade social. Para o autor, esses
fenômenos estão interligados aos objetos que são utilizados e o posicionamento de quem os
consome. Ele afirma que “a roupa continua sendo um instrumento de sinalização do gênero,
da posição de classe e do status ocupacional (GIDDENS, 2002, p. 96)”.
2.7.3. Significado Simbólico de Posses
Segundo Belk (1988), as possesdo indivíduo são componentes importantes da
extensão do self, por fazerem parte de todos nós. O autor considera que no coletivo, a
constituição do self pelas posses e seus significados assumem a relação do indivíduo com os
objetos dele e também com os grupos em que estiver inserido.
Segundo Pereira (2009 p. 135) o “significado simbólico dos bens é utilizado como
discurso”, que serve para construir a identidade homossexual do sujeito e também o considera
como “uma ponte de comunicação entre esses dois mundos”, o mundo gay e o mundo
heterossexual.
2.7.4. Subcultura Gay e os Mercados de Consumo
As subculturas surgem a partir de subgrupos de uma sociedade, por meio de membros
que compartilham interesses, produtos, marcas ou atividade de consumo específica. “Esses
grupos têm (I) uma estrutura social hierárquica identificável; (2) um conjunto de crenças ou
valores compartilhados; e (3) jargão, rituais e modos de expressão simbólica singulares
(HAWKINS, MOTHERSBAUGH e BEST, 2007, p. 73)”.
O consumo dos gays, na relação com os diversos ambientes, entre a distinção
simbólica por espaços que se consagram por meios de certas atividades que acontecem na
sociedade de consumo, nos shopping centers, como, por exemplo “catedrais de consumo”,
(PEREIRA, 2009, p. 125) e que simbolicamente são atribuídos os significados normalmente
atrelados à cultura gay, como produtos, pertences e ambientes (PEREIRA, 2009, p. 102).
44
Pesquisas indicam que há grandes investimentos em mercados globais direcionados ao
público gay como boates, cafés, bares, vestuários e turismo (PEREIRA, 2009; BELK, 2011).
Busca-se estudar cada vez mais o perfil do consumidor homossexual no campo estudo de
consumo, uma vez que pesquisas apontam o crescimento exponencial do mercado gay
(PEREIRA, 2009).
Autores (IRIGARAY 2007; FERREIRA, 2007; PEREIRA, 2009; IRIGARAY,
SARAIVA e CARRIERI, 2011) consideram que existe premência de crescimento e inserção
do público gay tanto no trabalho como no consumo. A revista Exame (2014) publicou:
“Como aproveitar o potencial de consumo dos gays”. O texto descreve as buscas e o interesse
dos casais homossexuais e também de solteiros pelo segmento de turismo. Destaca, ainda, que
esse segmento de consumidores já corresponde à parte significativa do faturamento das
agências de turismo e revela o aumento na demanda desse público a cada ano.
Entender a organização social do universo gay, para Pereira (2009, p. 138), é decisivo
para compreensão da construção da identidade homossexual. O autor considera que o
emergente “consumidor gay e o mercado gay, como um consumo específico” é um ponto
importante para a construção de “um estilo de vida e de uma expressão social”.
45
3. Percurso Metodológico
Esta pesquisa baseou-se em uma pesquisa qualitativa com homossexuais masculinos,
empregados em organizações públicas e privadas localizadas na região metropolitana dos
estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo.
3.1. Coleta de Dados
Para obtenção dos dados elegeu-se o método de análise da narrativa de histórias de
vida dos entrevistados. Os dados foram coletados com base em entrevistas narrativas, não
estruturadas e em profundidade, com ênfase na história de vida dos sujeitos (BAUER e
GASKELL, 2002). A entrevista narrativa permite ilustrar cenários sociais, o indivíduo
inserido no espaço social e também na sua história (SARAIVA, 2007).
De acordo com Bauer e Gaskell (2002, p. 93), a entrevista narrativa tem o objetivo de
encorajar e estimular o entrevistado a explicitar a história dele, “o acontecimento importante
de sua vida e do contexto social”. A técnica sugere uma sistematização e tem a ideia básica de
reconstruir os acontecimentos sociais.
Segundo Saraiva (2007) a entrevista narrativa permite ilustrar cenários sociais, o
indivíduo no social e na sua história:
“O homem é colocado no centro do processo, e não se procura disfarçar a sua
presença, invocando argumentos como ‘neutralidade’, ‘objetividade’ e
assemelhados, uma vez que se parte da perspectiva de que a realidade só
existe por causa dele (e para ele) e não à sua revelia.” (Saraiva, 2007, p. 120).
Para Saraiva (2007, p. 122), no entanto, o método narrativo utilizado por uma
concepção do interpretacionismo leva em consideração como “os indivíduos constroem
interpretações da realidade.” Por uma perspectiva humanista, por meio da história do homem
investigado. Segundo o autor, o método narrativo e a sua análise da entrevista narrativa
somente são considerados na referência subjetiva do pesquisador.
46
3.2. Sujeitos de Pesquisa
Os sujeitos desta pesquisa foram homens que se declaram gays e assumem sua
identidade de gênero homossexual no ambiente organizacional. Foram considerados, portanto,
aqueles que não escondem a sua orientação sexual em nenhuma dimensão da vida social.
Foram entrevistados 15 homossexuais masculinos no trabalho, jovens e adultos de 20
a 50 anos de idade, moradores do estado do Rio de Janeiro. Tratam-se de profissionais de
atividades diversas, como engenheiro, enfermeiro, administrador, assistente social,
publicitário, jornalista e outras. Empregados em organizações públicas e privadas de diversos
segmentos, nacionais e multinacionais localizadas nas cidades do Rio de Janeiro e no Espirito
Santo. Tratam-se de profissionais de atividades diversas, como engenheiro, enfermeiro,
administrador, assistente social, publicitário, jornalista e outras. Exercem funções
administrativas, acadêmicas e especializadas, nas posições hierárquicas entre auxiliar, técnica
e gerencial nas organizações. O quadro abaixo mostra o perfil dos entrevistados:
47
Quadro 2: Perfil dos Sujeitos Entrevistados
Perfil dos Entrevistados
Entrevistados
A
B
C
D
E
Formação
Atuação
Engenheiro Civil e Mestrado
Coordenador e docente na área
em Engenharia de Segurança
da Sergurança do Trabalho
do Trabalho
Organização
Tipo da
Organização
Idade
Região que
mora
Casado ou
s olteiro
Empresa Nacional de
Ensino Profissional
Privada
46
Zona Oeste
Casado
22
Leste
Fluminense
Casado
21
Zona Norte
Casado
40
Zona Norte
Casado
38
Zona Norte
Casado
Instituição pública da
Graduando em Comunicação Prestador de serviço na área da
Secretaria do Estado Meio
Pública
Social
Educação Ambiental
Ambiente
Auxiliar Administrativo na área
Empresa Multinacional
Ensino médio completo
Privada
de Boletos
Recuperadora de Crédito
(1) Instituição pública de
(1) Enfermeiro na área da
Saúde do Estado; (2)
Enfermeiro
Saúde; (2) Assessor técnico na
Pública e Privada
Empresa de material
área Comercial
Médico - Hospitalar
(1) Instituição pública de
(1) Enfermeiro chefe na área da
Enfermeiro e Doutorando em
Saúde do Múnicpio; (2)
Oncologia; (2) Docente do
Pública
Enfermagem
Universidade Pública de
programa de pós graduação
Ensino Federal
F
Administrador
Gestor na área de serviço de
assistência hospitalar residêncial
Empresa prestadora de
serviço de Home Care
Privada
45
Zona Norte
Casado
G
Jornalista
Técnico administrativo na área
de pagamentos
Universidade pública de
Ensino Federal
Pública
34
Zona Norte
Solteiro
H
Graduando em Economia
Técnico administrativo na área
de pagamentos
Universidade pública de
Ensino Federal
Pública
20
Zona Norte
Solteiro
I
Assistente Social
Gestor de Projetos na área de
Direitos Humanos
(1) Instituição pública de
Secretária do Município de
Pública e Privada
Direitos Humanos; (2)
Empresa de ensino
28
Zona Norte
Casado
J
Tecnólogo em Gestão de
Marketing e Bacharelado em
Artes Cênicas
Gestor da Cultura
Empresa Nacional de
Serviço Social da Indústria
Privada
42
Zona Norte
Casado
L
Graduando em Pedagogia
Assistente Administrativo
Privada
23
M
Graduando em Gestão de
RH
Gerente de Fast food
Privada
23
N
Geografo e pósgraduado em
Gestão Ambiental e Gestão
de Recursos Hídricos
Coordenador de Estudos e
Projetos
Secretária Municipal de
Meio Ambiente
Público
50
Baixada
Fluminense
Casado
O
Publicitário
Tecnico Judiciário
Tribunal Regional Federal
Público
40
Zona Norte
Solteiro
P
Tecnólogo em Gestão de RH
e Pósgraduado em
Administração da Qualidade
Analista Comercial
Empresa de Container e
Módulos habitáveis
Privado
28
Zona Norte
Solteiro
Empresa Multinacional do
Setor de Gás
Empresa Nacional
de
Fast food
Baixada
Fluminense
Baixada
Fluminense
Solteiro
Solteiro
48
3.3. Método de Pesquisa
O método de análise das narrativas de vida dos sujeitos entrevistados tomou como
basecategorias inicialmente predefinidas no referencial teórico e nas categorias emergentes
das entrevistas realizadas. Assim, estão relacionadas com os objetivos desta pesquisa.
Os objetivos desta pesquisa, portanto, são descrever o processo da constituição da
identidade do homossexual masculino no ambiente organizacional; e identificar, com base na
narrativa de homossexuais no trabalho, como o consumo se articula com a administração da
identidade homossexual no trabalho.
3.3.1. Análise dos Dados
A construção do quadro de análise dos dados baseou-sena pergunta e nos objetivos
desta pesquisa, a saber: uma vez reconhecida a importância do consumo na constituição e na
administração da identidade, de que forma o consumo se articula na com a constituição e a
administração da identidade homossexual assumida no trabalho?
A análise seguiu o seguinte percurso: (I) foi feita a leitura das 15 entrevistas transcritas
e a codificação dos trechos das narrativas, pelo software Atlas.ti 6.0; (II) foram codificados os
trechos considerados relevantes para a pesquisa, produzindo um total de 75 códigos (incluídas
aí as categorias a priori e as categorias emergentes); (III) realizou-se uma releitura, com
propósito de identificar pontos convergentes nos trechos das entrevistas e as narrativas que
respondam a pergunta e os objetivos da pesquisa; (IV) foi feito um agrupamento dos 55
códigos em famílias relativas às categorias Identidade, Trabalho, Cultura de Consumo,
Estigma, e Segurança Ontológica.
A análise das narrativas foi realizada a partir das categorias a priori (predefinidas com
base no referencial teórico e nos objetivos), assim como das categorias emergentes (baseadas
nas entrevistas narrativas, no referencial teórico e objetivos). No Quadro 3 serão apresentadas
as definições constitutivas e operacionais das categorias a priori da análise.
49
Quadro 3: Definições Constitutiva e Operacional das Categorias a priori de Análise
Categorias
Identidade
Trabalho
Cultura de
Consumo
Estigma
Segurança
Ontológica
Definição Constitutiva
Definição operacional
Consiste na busca contínua do seu "eu", do
sentimento de pertencimento, pela autoexpressão
por símbolos e significados nos grupos e
comunidades, no trabalho e fora dele (BAUMAN,
2005). O processo consiste na percepção de si
como homossexual diante da situação e do seu
contexto social (PEREIRA, 2009).
A pesquisa será operacionalizada através
da narrativa do sujeito na identificação
daconstituição da identidade por meio
das práticas identitárias, na busca
pertencer a grupos e instituições, no
trabalho e na prática de consumo à
conquista da sua identificação e o status
social.
A pesquisa foi operacionalizada através
da narrativa do sujeito na identificação
do reconhecimento das atividades no
trabalho, da ascensão profissional, do seu
estilo de vida e o status alcançado.
A pesquisa foi operacionalizada através
da narrativa do sujeito na identificação
do consumo de bens e serviços
interligados
com
os
significados
simbólicos das posses, o estilo de vida e
status alcançado.
A pesquisa foi operacionalizada través da
narrativa do sujeito na identificação das
suas vivências ao lidar com o
preconceito, homofobia no trabalho e
fora dele e o enfrentamento do estigma.
O trabalho é considerado como “mediador” da
dinâmica da realização do eu com o
reconhecimento do trabalho. Esse reconhecimento
conduz e “reconduz o sujeito ao plano da sua
construção da identidade” (DEJOURS, 2007).
"A cultura de consumo designa um acordo social
onde a relação entre a cultura vivida e os recursos,
entre os modos de vida significativos e os recursos
materiais e simbólicos dos quais dependem, são
mediados pelos mercados" (SLATER, 2001, p. 17).
A estigmatização do sujeito ocorre quando é
considerado possuidor de “[...] atributos que em
quase toda a nossa sociedade levam ao descrédito"
(GOFFMAN, 2004, p.7). Quanto ao enfrentamento
do estigma, consiste no alcance de uma posição de
status social nos diversos grupos sociais,
reconhecida a sua importância e a confiança nos
grupos. (GOFFMAN, 2004; PEREIRA 2009).
Consiste no processo de constituição e
administração da identidade do sujeito ao assumir
atitudes de confiança "em relação as situações,
pessoas ou sistemas específicos" (GIDDENS, 2003,
p. 25), como uma atitude natural na vida cotidiana.
A pesquisa foi operacionalizada através
da narrativa do sujeito no momento que
assume narrativamente posturas de
confiança em determinadas situações e
contexto nas atividades da vida cotidiana.
As figuras1 a 5 abaixo ilustram a constituição dos códigos agrupados, por famílias. No
Quadro 4 ´pode ser examinada a relação entre as famílias e os códigos analíticos.
50
Figura 1: Família Identidade
Figura 2: Família Trabalho
Figura 3: Família Consumo
51
Figura 4: Família Estigma
Figura 5: Família Segurança Ontológica
Quadro 4: Famílias de Códigos Analíticos
X X X X X X X X X X X X X X X Segurança ontológica X X X X X X X X X X X X X Estigma Ancorado no grupo familiar
Assumindo a homossexualidade
Discrição
Espaço misturado (heterossexual e homossexual)
Homossexualidade assumida no trabalho
Identificação e projeção
Novo modelo de família, como lidar?
Ancorado do grupo familiar
Ascensão no trabalho
Atividade reflexiva
Auto percepção
Auto preconceito
Brincadeiras e aceitação no trabalho
Consumo e a relação homoafetiva
Coragem de ser e assumir
Deseja respeito
Dimensões culturais e sociais
Discrição
Ele ou ela não me aceita
Emoção no consumo
Enfrentamento do estigma
Enfretamento do estigma
Escala social e status
Espaço misturado (heterossexual e homossexual)
Estigma na família
Estigma no trabalho
Existe preconceito no trabalho
Expectativa de ascensão profissional
Generalização de comportamento e atitudes
Homofobia e preconceito
Homossexualidade assumida no trabalho
Homossexualidade como condição
Identidade coletiva no trabalho
Identidade gênero
Identidade, estilo e consumo
Identificação com o trabalho e profissão
Igualitarismo e liberdade individual
Mercados de consumo
Não percebe preconceito
Padrão heteronormativo ou padrão organizacional
Pertencimento e âncoras sociais
Política interna de aceitação
Práticas identitárias
Profissão heterossexuais e profissão homossexuais
Receio de assumir a homossexualidade
Reconhecimento do profissional
Relacionamento homoafetivo (família)
Religião e estigma
Se sente seguro no trabalho
Seguro diante das pessoas
Significados simbólicos de posses
Subcultura gay no consumo
Tem que ser profissional
Trabalho e consumo
Vítima do estigma
Cultura de consumo 1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
8.
9.
10.
11.
12.
13.
14.
15.
16.
17.
18.
19.
20.
21.
22.
23.
24.
25.
26.
27.
28.
29.
30.
31.
32.
33.
34.
35.
36.
37.
38.
39.
40.
41.
42.
43.
44.
45.
46.
47.
48.
49.
50.
51.
52.
53.
54.
55.
Trabalho Códigos Identidade 52
X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X 53
4. Análise dos Resultados
Este capítulo será composto da análise das entrevistas narrativas, dos trechos mais
relevantes dos sujeitos entrevistados, com base nas categorias e de acordo como método de
análise de dados descrito no capítulo anterior.
A análise tem como propósito responder a questão levantada e os objetivos desta
pesquisa:uma vez reconhecida a importância do consumo na constituição e na administração
da identidade, de que forma o consumo se articula com a constituição e na administração da
identidade homossexual assumida no trabalho?
Os objetivos da pesquisa são descrever o processo da constituição da identidade do
homossexual masculino no ambiente organizacional, e também identificar, com base na
narrativa de homossexuais no trabalho, como o consumo se articula com a administração da
identidade homossexual assumida no trabalho.
Os sujeitos entrevistados narraram suas histórias de vida, ilustraram com cenários,
apresentaram as circunstâncias dos fatos e a sua realidade nos diferentes contextos sociais.
Foram identificados pontos de muitas semelhanças pelos temas levantados e pontos
considerados divergentes. Na análise, foram levadas em consideração as circunstâncias de
vida e o contexto social de cada entrevistado.
Abaixo, serão apresentadas a análise das entrevistas; os trechos mais relevantes das
narrativas dos sujeitos com base nas categorias: Identidade, Trabalho, Cultura de Consumo,
Estigma e Segurança de Ontológica.
4.1. Identidade
Nesta seção será apresentado o processo de constituição da identidade homossexual
dosrespondentes; as situações vividas pelos sujeitos e o caminho percorrido até a constituição
da identidade homossexual.
Segundo os pesquisadores, o processo de constituição da identidade se dá pela busca
contínua do seu “eu” e na composição da sua própria história, que se caracteriza como
processo de identificação e de enfrentamento do indivíduo em diversos grupos sociais
54
(STETS e BURKE, 2000; GIDDENS, 2002; BAUMAN, 2005; HALL, 2006; SENNET,
2009).
A seguir, será descrito o processo de constituição da identidade assumida pelos
entrevistados.
4.1.1. Identidade Homossexual: A Auto Percepção e a Identidade de Gênero Homossexual
Masculino
Os respondentes foram convidados a falar sobre a sua homossexualidade assumida e
iniciaram narrando como percebem este fato. Alguns respondentes que iniciaram a
autopercepção na infância dizem que não se identificavam com as brincadeiras infantis, ditas
de “meninos.” Outros no início consideraram suas próprias atitudes, seus desejos, atrações
incomuns e diferentes comparados com outras pessoas. Os respondentes afirmaram sentir
atração pelo mesmo sexo desde sempre, por meninos na sua infância e por jovens e homens
na sua adolescência e juventude.
Segundo Pereira (2009) a constituição da identidade homossexual consiste na
percepção de si mesmo diante da situação vivida e do contexto social.
Percebi que...
"[...] desde criança percebi que eu não sentia atração por menina. Eu sentia isso,
entendeu? Eu só não sabia o que era, não tinha um nome para dar pra aquilo, eu
também via que isso era um pouco diferente. [...] quando eu era criança, na minha
escola, assim primeira série, segunda série, os meninos andavam em grupo de
meninos e eu andava junto com as meninas. Então, isso já era uma coisa assim que
separava, se agregava, entendeu, tipo os meninos ficavam falando sobre futebol,
carrinho e tal. Eu não conversava sobre boneca, mas eu me sentia mais atraído pelos
papos, pelas conversas que meninas tinham e não dos meninos, então isso também já
percebia. Daí, eu já percebia que tinha alguma coisa de diferente." (Entrevistado H).
O que está acontecendo...
"[...]Eu sempre tive muitas amigas mulheres. E ai, eu fui vendo, o tempo foi passando,
e ai, todo mundo vai começando a namorar. Eu tenho um primo de 18 anos, eu tenho
21, sou mais velho. E, todo mundo vai começando a namorar e você não. Os amigos
vão namorando e você não. Você começa a ver que alguma coisa está errada. O que
que tá acontecendo comigo? E ai, eu fui pensando, pensando, pensando, pensando...
E ai, acho que é isso." (Entrevistado C).
55
A gente é homem...
“Muita gente acha que a homossexualidade é o homossexual quer ser mulher. Que
tem muitos que se traveste, tem... E, a verdade não é essa. A gente não quer ser
mulher. A gente quer ser homem, só que a gente é homem que gosta de homem.
Agora, por quê, ninguém sabem explicar, né?” (Entrevistado A).
Diante do processodaautopercepção,o sujeito descobre a sua homossexualidade. Surge
a ideia e o desejo de pertencimento, o processo de identificação de comportamentos e
atitudes, que consiste na percepção de si diante do contexto social. Trata-se de uma das fases
do processo dinâmico e contínuo da constituição da identidade gênero homossexual dos
sujeitos no ambiente em que se vive, no trabalho e fora dele.
4.1.2. Homossexualidade como uma Condição, o Receio de Assumir e o Auto Preconceito
Os respondentes percebem a sua homossexualidade como uma condição, e não como
uma opção ou escolha. Dizem que não foram eles que escolheram ser homossexuais e temem
pela não aceitação na sociedade. Alguns falam a respeito da sua insegurança inicial e das
dificuldades de se aceitar. Outros falam que o processo de auto aceitação levou algum tempo,
até assumirem abertamente a sua homossexualidade. Alguns respondentes falam que o medo
ainda se encontra presente no seu cotidiano, por não serem aceitos. Outros falam dos receios e
das dificuldades de lidarem com a sua homossexualidade em diversos contextos sociais, sejam
no trabalho ou fora dele. Para Irigarary (2007) e Irigaray, Saraiva e Carrieri (2011) o processo
de constituição da identidade homossexual levanta a questão do que é ser gay, ao apontar o
estereótipo socialmente constituído, a fonte da angústia e a ruptura do mundo conhecido e
tradicional.
Uma condição...
“É uma história meio complicada, né. Como de todos. Porque como eu havia dito,
homossexualidade não é uma opção, é uma condição. Você não opta por ser um
homossexual. Você nasce homossexual”. (Entrevistado A).
Medo...
“Medo, por que pela primeira vez eu tinha uma amizade sólida. Da reação dele, é da
reação dele assim essencialmente, mas não só da reação dele, medo de ficar
vulnerável também”. (Entrevistado H).
56
Este é o momento em que os sujeitos tomam conhecimento da sua condição, de sua
orientação sexual e percebem que não se trata de é uma opção sexual. Alguns temem pelo
preconceito, se sentem inseguros por não serem aceitos pelas pessoas no trabalho e fora dele.
Ficam receosos ao perceberem que não fazem parte da identidade de gênero heterossexual
masculino, padrão da sociedade. Quanto ao medo, a identidade homossexual, historicamente,
é marcada por crenças e teorias científicas equivocadas, por lutas e movimentos sociais e pela
estigmatização. Hoje, ela é constituída por indivíduos que lidam no seu cotidiano com o
silêncio, o medo e práticas discriminatórias (PEREIRA, 2009; IRIGARAY, SARAIVA e
CARRIERI,2011).
4.1.3. A Identificação e Projeção: A Generalização dos Comportamentos e Atitude, o
Pertencimento e as Âncoras Sociais
Os respondentes falam o momento que tomam consciência, se reconhecem como
homossexuais e iniciam o processo de identificação. Alguns respondentes se identificam com
outros homossexuais nas atitudes e comportamentos, outros não. Esses respondentes afirmam
que os comportamentos do grupo LGBT não podem ser generalizados, muitos homossexuais
adotam atitudes diferentes. Alguns não se percebem como aqueles que desejam “ser mulher”,
ou rejeitam o jeito “afeminado” ou “promíscuo” que associam aos gays. Outros respondentes
afirmam que não querem fazer parte da cultura gay, adotam comportamentos e atitudes mais
“sérias” e não dão “pinta”. Os respondentes buscam pertenceraos grupos com os quais mais se
identificam, com os quais se sintam bem. Dizem que nos grupos de amigos há homossexuais
e heterossexuais, tanto no trabalho como fora dele. Alguns respondentes procuram profissões
que não sejam caracterizadas como “profissão de gay”. Os respondentes não se identificam
com aqueles que não assumem a sua homossexualidade e buscam refúgio na igreja, por
exemplo.
Segundo Giddens (2002) a identificação e a projeção são mecanismos que ocorrem
com o objetivo de assumir traços ou padrões de comportamento do outro. O indivíduo
integra-se e interfere ao mesmo tempo nos grupos a que pertence; em ambientes nos quais
interage, cabe a ele inventar e se reinventar em cada situação no processo da construção e da
reconstrução da sua identidade (GIDDENS, 2002; BAUMAN, 2005).
Roupa de mulher...
57
“Eu acho que você não precisa ficar mostrando para todo mundo o que você é, todo
mundo já sabe o que você é por causa da sua atitude. Agora ficar botando roupa de
mulher acho horrível. As pessoas falam que eu mesmo tenho preconceito, mas pelo
amor de Deus gente, acho antiético um homem ficar vestindo roupa de mulher.”
(Entrevistado M).
Postura mais séria...
“Então o que entrou na discussão, foi pelo fato de eu ser. De eu ter uma postura mais
séria no ambiente de trabalho, ser mais reservado, isso me transformava numa pessoa
diferente, entrava no limite da tolerância. Ah, o fulano eu tolero, aquele outro que é
mais afeminado que trabalho eu já fico... Eu acho que não precisa.” (Entrevistado I).
Estereótipo homossexual...
“Eu nunca gostei muito de estereótipo homossexual, você está entendendo? E isso é
uma coisa que sempre me incomodou. [...] É assim, eu não precisava mostrar pra as
pessoas que eu era homossexual, por que eu não sou homossexual pelo que eu visto,
ou pelo que eu faço, ou pela postura que eu adoto, eu sempre procurei deixar isso
assim. Agir de forma natural”. (Entrevistado E).
Profissão de homem...
“Mas eu não queria ser decorador. Porque eu acho que isso é uma profissão gay. Eu
queria ter uma profissão de homem, engenheiro. Engenheiro Civil, eu vou lidar com
peões. Então entendeu? Então isso é uma condição masculina.” (Entrevistado A).
“Na verdade tem muitos homossexuais que estão no salão de cabelereiro,
trabalhando com dança, muitos porque querem e outros por necessidades mesmo...
[...]lojas de roupas. Cabeleireiros mais pela afinidade feminina, buscam um ambiente
onde não vai ter preconceito, [...] Acho que as pessoas aceitam muitos rótulos, porque
é gay.” (Entrevistado C).
Refúgio...
“[...] a igreja é um local cheio de gays. Muita coisa, é muita coisa. Eu tinha meus
amigos da igreja que eram gays [...] eu convivia com esse pessoal. Mas, a igreja era
um refúgio que, a gente tinha, para se refugiar para poder sei lá, [...] Então, eu tinha
que ser uma pessoa contida.” (Entrevistado D).
Os sujeitos assumem a sua condição e orientação sexual em todos os grupos sociais,
mas buscam mecanismos que favoreçam a constituição e a administração da sua identidade
homossexual.No trabalho adotam atitudes e valores heteronormativos, tais como: a negação
da feminilidade; assumem uma postura séria, atendendo a pressão social e da estigmatização;
reproduzem atitudeheteronormativa, dita por eles como “natural”; se identificam com
58
profissões que correspondem aos gruposheterossexuais e recusam as profissões gays.Em
relação à identificação e projeção, Hall (2006, p. 11 e 12) afirma que“o fato de que
projetamos a nós próprios nessas identidades culturais, ao mesmo tempo em que
internalizamos seus significados e valores, tornando-os “parte de nós”.
4.1.4. Identidade, Estilo e o Consumo
Os respondentes falam sobre seus hábitos de consumo, gostos e desejos. Uns dizem
que se identificam com alguns bens como roupas, tênis, bonés, livros, maquiagem, celulares,
carros e de alguns serviços como turismo, café bar, restaurante, boates, casa de festas e
academias. Alguns respondentes não se sentem atraídos por marcas ou grifes e os ambientes
de certo status. Alguns respondentes dizem que gostam de agito e de badalação, buscam
boates, pizzarias e karaokê. Costumam frequentar com os amigos e seus parceiros
homoafetivos, optam por ambientes que possam frequentar livremente e alguns que
representem statusalcançado. E outros preferem lugares mais intimistas, a dois, como cinema,
teatro e restaurantes.
Pesquisadores afirmam que, quaisquer que sejam as opções, a “liberdade” configura
um estilo de vida, define “um conjunto de hábitos e orientações”, e também os
comportamentos, valores, vestuários, os hábitos de consumo e a identidade (GIDDENS 2002,
p. 80; ROCHA, 2005, p. 113; ARNOULD E THOMPSON, 2005).
Multimarcas...
“Eu garimpo, sabe? Então eu busco de repente ou uma multimarcas, que tem tênis
de... Tem a Zara, tem a Renner, tem a C&A, eu vou lá visto, se tem um corte legal, se
tem o caimento legal, eu compro. [...] eu mesmo não sou o melhor exemplo de uma
pessoa consumista não [...] vestiu se sentiu bem, está dentro do orçamento, eu
compro. Então, se preciso, compro”. (Entrevistado G)
Tênis, roupas...
“Sapatos, tênis e roupas, muitos. [...] é tenho acho que nove sungas de praia, muita
camisa, mesma estampa de cores diferentes, calças, bermudas jeans fora as outras, eu
não tenho mais espaço no meu guarda-roupa para nada. [...] Porque é aquilo que eu
te falei, o gay gosta muito de ostentar as coisas né? Tênis é tênis, eu gosto de correr,
cada um tem uma cor diferente, colorido, eu tenho todas as cores de tênis, eu acho.
[...] com o acessório que eu vou usar, com os bonés”. (Entrevistado P)
59
Os sujeitos identificam-se com mercados de consumo, ambientes, marcas, atividades e
roupas, assumem hábitos e estilos de vida que expressam o seu eu, no processo da
constituição da identidade homossexual, pelas práticas de consumo. Afirmam que procuram
bens com significado simbólico, que tenham a ver com eles, seu estilo de vida e sua
identidade. Outros sujeitos se identificam com suas posses e seus significadospara que
possam comentar ou “ostentar” valores culturais da subcultura gay.
4.1.5. Homossexualidade no Trabalho
Perguntamos aos respondentes sobre a sua homossexualidade no trabalho,quanto a
reação e a aceitação da chefia e dos colegas. Alguns dizem que buscaram uma pessoa de
confiança para falar da sua orientação sexual. Outros perceberam que era desnecessário falar
diretamente por conta do seu comportamento, de suas atitudes e conversas, que já deixam
explicita a sua homossexualidade. Para outros respondentes, quando chegaram nas
organizações, perceberam que já existiam homossexuais no seu ambiente de trabalho. Alguns
respondentes deixavam que as pessoas viessem perguntar ou conversar a respeito e assim
confirmam a suspeita ou dúvida da sua homossexualidade.
Pesquisadores afirmam que o indivíduo enfrenta riscos no processo de ruptura com “os
padrões estabelecidos de comportamento”. A revelação da identidade homossexual depende
do contexto social em que o indivíduo estiver (GIDDENS, 2002, p.77; PEREIRA, 2009).
Somos assumidos...
“Lá no meu setor somos no total de três homossexuais, dois assumidos e um que
ainda não se assumiu, eu e o outro rapaz somos assumidos. Não tem nenhum
problema com isso, muito pelo ao contrário a gente não sofre discriminação, a gente
brinca, e as pessoas sabem disso, a gente não tem dificuldade nenhuma [...] eles
avaliam mais o nosso profissional, não o pessoal e acho isso muito importante dentro
de uma empresa”. (Entrevistado L)
Orientação sexual...
“[...]no trabalho? A relação com todo mundo é extremamente profissional,
independente da orientação sexual”. (Entrevistado C)
Eu sou gay...
60
“A minha postura nunca foi chegar e falar assim, “prazer, meu nome é fulano e eu
sou gay.” Até porque encaro isso apenas como uma das coisas, uma das faces que a
pessoa é, mas sempre existe uma pessoa que a gente tem mais afinidade que acabava
sabendo de você”.(Entrevistado G)
Os sujeitos utilizam de meios estratégicos para constituir a sua identidade no trabalho
e fora dele.Reconhecem que trata-se de um enfrentamento de estigma, procuram por pessoas
de confiança para falar da sua condição homossexual ou preferem deixar que venham
perguntar sobre a sua orientação sexual. Estudam o ambiente organizacional, observam as
pessoas homossexuais e heterossexuais, as roupas que vestem, os acessórios que utilizam,
seu comportamento e atitudes.Buscamse sentir cada vez mais seguros e confiantes no
trabalho no processo de constituição e a administração da sua identidade homossexual nas
organizações.
4.2.Trabalho
Nesta seção será apresentado o processo de constituição da identidade homossexual no
trabalho dos entrevistados e os caminhos percorridos pelos respondentes no ambiente
organizacional. Serão identificadas as circunstâncias favoráveis encontradas, aautoconfiança e
segurança do ser, o reconhecimento e a sua ascensão profissionalno processo de constituição
da identidade homossexual no trabalho.
Segundo alguns autoreso processo de constituição da identidade se dá pela busca
contínua do seu “eu” e na composição da sua própria história, que caracteriza como processo
de identificação e de enfrentamento do indivíduo em diversos grupos sociais (STETS e
BURKE, 2000; GIDDENS, 2002; BAUMAN, 2005; HALL, 2006; SENNET, 2009).
4.2.1. “Tem que ser Profissional”: As Relações com as Pessoas no Trabalho
Os respondentesse percebem como profissionais, mantêm uma atitude de respeito com
os colegas, com a chefia e com os clientes. Reconhecem que as relações com as pessoas no
trabalho podem favorecer a aceitação da sua homossexualidade. Procuram observar bem as
pessoas com quem trabalham, aquelas que poderiam ter uma relação de confiança e falar
abertamente. Ao falar sobre como é a sua relação com as pessoas, alguns afirmam fazer
questão de manter uma relação sem intimidades, na qual costumam conversar somente
61
assuntos de interesses da organização. Outros procuram ampliar a relação profissional para
uma relação de amizade, de intimidade, falam sobre relacionamentos, crises conjugais, de
educação dos filhos, passeios e viagens, e assim se sentem mais à vontade e aceitos no
ambiente organizacional.
Para Giddens (2002) a confiança se apoia na realidade existencial no sentido
emocional, e também no cognitivo que “se funda na crença na confiabilidade das pessoas”.
Esta confiança baseia-se nas experiências ainda na infância, chamada por alguns autores de
“confiança básica” e considerada pela experiência na “coragem de ser”.
Sou muito profissional...
“No ambiente de trabalho, olha só, por incrível que pareça, não sei se é porque eu
sou muito profissional, eu não sei... Assim, eu até hoje, não percebi. Claro que nunca
ninguém chegou pra mim e falou, né? Eu nunca percebi. Porque eu acho que é aquilo,
né. [...] Você está aqui pra ser profissional”. (Entrevistado A)
Respeito meus colegas...
“Porque provavelmente eu também respeito meus colegas de trabalho, eu não sou de
fazer brincadeira, igual até os homens fazem com as garotas, né? Fazem umas
brincadeiras até meio perversas, maliciosas, né. Eu jamais fiz. Por mais que eu
achasse meu colega de trabalho gostosão”. (Entrevistado N)
Ter relacionamento...
“Ah, todo mundo sabe. Nesse, mais aberto que nos outros. Porque quando eu não
tinha relacionamento, eu quase não falava. Mas, todo mundo sabia. Falava também,
mas nem tanto quanto é agora. Acho que agora como as pessoas estão vendo mais a
nossa intimidade, porque a gente já mora junto, pode chamar as pessoas para irem na
nossa casa [...] aí eles nos convidaram a ir na casa para almoçar, fizemos um passeio
de lancha, ele conheceu meu companheiro”. (Entrevistado N)
De brincadeira...
“Eu acho que as pessoas se aproximam mais, principalmente as mulheres, em questão
de amizade, de brincadeira, se sentem mais livres para poder conversar com aquele
homem uma vez que ele é homossexual. Nesses espaços os homens acho que, por
terem uma visão mais politizada, acho que aceitam também com tranquilidade, muitos
por curiosidade. Querer saber como é a vida sexual, aí começam a vir as perguntas
clássica: quem é o homem e quem é a mulher? Aí começa a entrar para desconstruir
62
tudo aquilo, mas em espaço de trabalho eu nunca me senti preterido, não”.
(Entrevistado I)
Os sujeitos relatam que utilizam de mecanismos de aceitação no trabalho, como se
comportam com relação as pessoas no ambiente organizacional. Procuram se relacionarbem
com as pessoas no trabalho, procuram respeitar os seus colegas,adotam uma postura
profissional ou em alguns casos como amigo íntimo.Buscam no seu processo de constituição
e administração da identidade homossexual a sensação de segurança, confiança e o
comprometimento cognitivo e emocional nas diversas atividades cotidianas no seu contexto
social.
4.2.2. A Identificação com o Trabalho e a Profissão, e a Política de Aceitação nas
Organizações Públicas e Privadas
Os respondentes falam da sua identificação com organização em que trabalham.
Percebem-se inseridos num ambiente favorável a sua identidade homossexual. Outros dizem
que se sentem seguros nas organizações que adotam uma política interna de aceitação. Outros
percebem que nas organizações públicas podem se comportam livremente.
Segundo alguns autores, a identificação ocorre quando as crenças e os valores da
organização em que o sujeito trabalha tornam-se referências para a sua identidade
(FERNANDES, MARQUES E ROCHA 2009).
Empresa pública...
“Bom, na Secretaria foi bem tranquilo. Já era um ambiente bem tranquilo, a gente
tem um projeto, também, que é o [...], que trabalha em departamentos públicos, o
homossexualismo, então não tinha a necessidade da minha pessoa ficar reclusa.
Então eu agi normalmente, falei para as pessoas que perguntavam, é isso ai.”
(Entrevistado B).
“Aqui, na empresa pública, acredito que a gente tenha mais facilidade, por exemplo,
ser gay ou não, não vai significar, não é motivo legalmente pra que você exonere
qualquer funcionário público, não existe isso. Então as pessoas se sentem mais
seguras quanto a tomar posição, seja político-partidária, seja sobre
homossexualidade, seja sobre religião.” (Entrevistado G).
63
Empresa privada...
“Nessa empresa que eu estou hoje [...] o meu diretor me contratou. Mas, ele levou a
minha situação na mesa da Direção, né? Para Presidência até e aí: Ele levou para
isso, eu sou o cara, você decide o que vai ser feito. [...]Então a gente tem uma boa
interação um com o outro dentro da empresa. A empresa investe no funcionário, dá
autonomia ao funcionário para trazer ideias, inovações e isso conta muito”.
(Entrevistado D)
Os sujeitos recorrem a uma certa segurança nas organizações para assumirem a sua
homossexualidade e constituírem a sua identidade homossexual no trabalho. Identificam nas
organizações públicas aquelas que mais favorecem, o processo de constituição e
administração da identidade homossexual.Com isso, para Fernandes (2009) diversos autores
consideram que a identificação ocorre a partir da percepção que esse sujeito tem da
organização em que trabalha.
4.2.3. Ascensão Profissional e Status Social
Alguns respondentes dizem que, pela sua competência profissional, pelo seu
desempenho e por apresentarem os resultados esperados pela organização, são promovidos.
Reconhecidos, assumem responsabilidades profissionais e cargos de gestão. Percebem que
são valorizados como profissionais e se consideram mais bem aceitos na equipepelo
statusprofissional alcançado na organização.
O alcance de posições hierárquicas pelos sujeitos confirma a importância do
reconhecimento. Para Dejours (2007, p. 141) o trabalho é considerado como “mediador” da
dinâmica da realização do eu com o reconhecimento do trabalho. Esse reconhecimento
conduz e “reconduz o sujeito ao plano da sua construção da identidade” (p. 34).
Sou gestor...
“[...] Eu tenho uma equipe que é composta de dois médicos, três fisioterapeutas, duas
nutricionistas, duas psicólogas e duas assistentes sociais e uma técnica de
enfermagem, e tem uma outra enfermeira [...] Eu sou gestor desse programa. Todos
sabem que eu sou gay, todos conhecem a minha vida, sabem que eu vivo com outro
homem, né?” (Entrevistado E).
64
“[...]sou gerente de loja, com a função de gerenciar e controlar as mercadorias e o
financeiro. Fui crescendo, crescendo, crescendo... de atendente, virei monitor, depois
virei assistente geral, agora sou gerente [...] eles sempre souberam, mas eles também
me respeitam.” (Entrevistado M).
Os sujeitos assumem comportamentos e posturas que favoreçam o alcance de posições
hierárquicasno trabalho,os estilos e valores organizacionais.Eles confirmam a importância
do reconhecimento profissional, da sua competência e na aceitação da sua orientação sexual
no processo da constituição e administração da sua identidade homossexual no
trabalho.Com isso Giddens (2002, p. 80) considera o ambiente como “a esfera do trabalho
dominada pela compulsão econômica [...] e por estilos de comportamentos.”
4.3. Cultura do Consumo
Nesta seção será apresentado o processo de constituição da identidade homossexual no
trabalho e a interferência do consumo. Os caminhos percorridos pelos respondentes pelo
consumo, identificando os fatores relacionais do trabalho com o consumo. As perspectivas
serão a de abordagem do consumo, os significados simbólicos de posses e o status social no
processo de constituição da identidade homossexual no trabalho.
Serão considerados os bens e serviços adquiridos no mundo do consumo como
significados, representados por categorias e princípios culturais (McCRACKEN, 2003).Estes
fazemparte do sistema de práticas para grupos e indivíduos e são “a base material em que se
constrói a cultura” (PEREIRA 2009 p. 52), definem o estilo de vida e identidades (GIDDENS
2002; BARBOSA e CAMPBELL 2006) e a relação da satisfação por meio e o alcance do
status social (FEATHERSONE, 1995 p. 31).
Segue a descrição do processo de constituição da identidade assumida no trabalho dos
entrevistados e a interferência do consumo.
4.3.1. Consumo: Identidade, Estilo e Trabalho
Os respondentes falam sobre a necessidade de se manter no trabalho e conquistar
posição de ascensão no ambiente organizacional. Percebem que a apresentação pessoal é
fundamental para a conquista de uma oportunidade de emprego e uma possível promoção.
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Alguns afirmam que mudaram seu estilo, suas roupas, seus calçados e abriram mão de alguns
acessórios. Os respondentes admitem que a aquisição de alguns bens e as mudançasde seu
guarda roupa fazem parte da sua nova realidade no trabalho e do seu novo eu na organização.
Para Giddens (2002) o estilo de vida no trabalho e no consumo fala a respeito da construção e
reconstrução da auto identidade do sujeito.
Perfil da Empresa...
“[...] geralmente estou de social, geralmente estou de social por conta do trabalho.
Na sexta-feira é o único dia que a gente pode vir, que é o dia do casual day. Mas,
geralmente eu estou de social e eu passo maior parte, no meu armário tem mais roupa
social do que roupa normal. Não é que seja o meu estilo. Eu acabei me acostumando
por conta do trabalho, eu sempre trabalhei de social.” (Entrevistado L).
As pessoas não usavam...
“[...] Eu tinha piercing, eu usava brinco para trabalhar tinha luzes no cabelo, usava
calça rasgada All Star de couro e comecei a ver que as pessoas não usavam, as
pessoas onde eu queria chegar não usavam [...] Foi assim, foi eu mesmo, ninguém
chegou pra mim para falar [...] Assim, eu sempre quis crescer. Então eu comecei a
botar um sapato para ir trabalhar, eu comecei a botar uma camisa social, eu tirei o
piercing, eu tirei o brinco para ir trabalhar, eu mesmo me podava.” (Entrevistado P).
Os sujeitos mudam e assumem novos estilos, por meio de aquisição de bens roupas,
sapatos e acessórios, que atendam aos estilos padrão da organização. Acreditam que é
importante manter um estilo congruente com o perfil da organização para que favoreçam a
sua identidade no trabalho e possam ascender profissionalmente. Segundo autores, os estilos
de vida, os padrões de vida, as multiplicidades de signos culturais, o trabalho e as práticas de
consumo dos sujeitos são estímulos e referências visíveis do alcance do status desejado e na
construção da identidade (GIDDENS, 2002; BENDASSOLLI, 2006; NUNES, 2007).
4.3.2. Trabalho e Consumo: Status Profissional e Significados Simbólicos de Posses
Os respondentes percebem que, ao conquistarem uma ascensão profissional e social,
são vistos de outra maneira. Alguns consideram que o preconceito, a discriminação, e as
atitudes homofóbicas estão presentes para aqueles que não possuem bens e tem baixo poder
aquisitivo, devido as suas condições no trabalho. Eles percebem que os homossexuais que
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possuem bens e as melhores posições no trabalho são mais respeitados. Outros reconhecem
que aqueles homossexuais que estudam conquistam melhores posições na hierarquia
profissional, adquirindo um statusprofissional e se destacando na sociedade.
Uma forma de destaque ...
“Então, por conta disso, eu particularmente acredito que os homossexuais acabam
estudando mais e procurando ocupar outros espaços na sociedade que lhes permitam
ganhar mais dinheiro para que se mantenham nessa sociedade de consumo, nessa
sociedade capitalista, também com uma forma de destaque [...] possam ser vistos pela
sociedade de uma forma diferente.”(Entrevistado L).
Mais engomadinho...
“E ele é diferente dos outros, é como se fossem vários tipos de homossexuais, tem
homossexual que é mais engomadinho, mais sério, mais ‘comportadinho’ do que
aquele que é mais solto, mais vulgar, mais afeminado, [...] Os olhares de
discriminação e violência acabam indo pra aquele, do que o homossexual mais
arrumadinho, mais padronizado.” (Entrevista I).
Os sujeitos buscam serem aceitos e menos estigmatizados. Assumem estilos,
comportamentos e vestimentas com os padrões organizacionais, para que possam se sentir
ancorados socialmente no trabalho. Em relação ao status profissional, para Giddens (2002, p.
80), os estilos de vida e a condição social e o status não se aplicam somente ao consumo. O
autor considera como práticas cotidianas os hábitos comuns e as atividades “rotinizadas”
como os “de vestir, comer, modos de agir e lugares preferidos.”
4.3.3. Marca do Empregador
Os respondentes percebem que as organizações definem estilos, padrão e identidades
para a aqueles que lá trabalham e afirmam que é importante representar a marca da
organização.
Os sujeitos assumem um perfil organizacional e acreditam nesse padrão heterossexual
masculino como o correto para eles e para a imagem da organização. Segundo Fernandes
(2009), diversos autores consideram que a identificação ocorre a partir da percepção
que
esse sujeito tem da organização em que trabalha. O sujeito se categoriza como “membro” da
organização e a diferencia das demais organizações.
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Imagem da Empresa...
“Nunca achei problema não, na verdade, na época que eu comecei a usar social, foi quando
eu me tornei instrutor que ia pra sala de treinamento. Então você é a primeira imagem da
empresa, o primeiro contato que o cara que veio de fora vai ter, boa impressão de você, da
empresa [...] Então eu nunca tive problema com isso e eu acabei me acostumando”.
(Entrevistado L)
“Meu emprego anterior foi no Banco [Empresa], eu não podia falar que eu era homossexual.
Porque a política no banco é muito rigorosa. No banco eles não gostam, até por que tem
certas atitudes que eles acham...aquela visão que muitos têm dos gays que quer ser uma
mulher, que é muito afeminado. Então eles acham que vai denegrir a imagem do banco tendo
um funcionário homossexual”. (Entrevistado B)
Os sujeitos passam a se vestir e se comportar conforme os padrões heteronormativos
das organizações. Subjetivamente, adotam e assumem os estilos, comportamentos e
vestimentas, valorizam a importância de representar a imagem e a marca da organização.
Dessa forma, relacionamtrabalho e consumo, no contexto da cultura organizacional, por
meio dos significados simbólicos de posses, no processo da administração da sua identidade
homossexual no trabalho.Em relação às posses e o interesse coletivo na organização, Belk
(1988) considera que a constituição do self pelas posses e seus significados assume a
existência de relação do indivíduo com os seus objetos, e a importância dessa relaçãovis-àvis os grupos em que o indivíduo estiver inserido.
4.4. Estigma
Nesta seção será apresentado o processo de constituição da identidade homossexual no
trabalho em relação ao consumo e ao enfretamento do estigma. Como se dá o processo de
enfrentamento do estigma, dos estereótipos, dos rótulos e das atitudes preconceituosas diante
da sua identidade homossexual assumida na organização.
Para Goffman (1988) os estigmatizados buscam recursos de enfrentamento do
estigma. Um desses recursos, é quando uma pessoa alcança notoriedade, por mérito, seja por
um prêmio ou por tornar-se o primeiro de sua categoria. Essa situação leva o sujeito
estigmatizado a uma transferência de crédito, de modo que o leva ao “mundo de heróis”.
68
4.4.1. Homofobia, Preconceito e as Vítimas de Estigma
Os respondentes comentam que o estigma está presente em diversos ambientes- na
família, nas religiões, no trabalho e em toda sociedade. Alguns não se consideram vítimas de
estigma, outros falam sobre as situações de estigma vividas por eles e enfatizam se tratar de
fatos isolados. Percebem que há pessoas preconceituosas e homofóbicas no trabalho, com as
quais procuram manter uma relação somente profissional.
São momentos em que os sujeitos percebem que pessoas rejeitam e estigmatizam a sua
homossexualidade. Bauman (2005) considera tensa a "guerra" do sujeito pela aprovação
popular de suas escolhas e preferências. Considera a identidade como inflexível, “a identidade
que rejeita aquilo que os outros desejam, valoriza o que se deseja”, contrariando os grupos
dominantes, e sendo considerada estereotipada e estigmatizada (BAUMAN, 2005, p. 45).
Quando não fui respeitado...
“As pessoas sempre me respeitavam; quando eu não fui respeitado, eu gritei,
eu falei. Aí as pessoas ficaram mais... ficaram naquela retranca. Ah, eu falei
demais [...] Mas, foram poucas e boas[...] Ela falou: “Ah aquele viado,
aquele enfermeiro viado, que está na coronária, está brecando o que eu quero
fazer.” (Entrevistado D).
Um bando de promíscuos...
“Como as pessoas falam: É tudo um bando de promíscuos. Não, não é, existe
alguns, existe promiscuidade em qualquer local, tanto no mundo gay quanto
no mundo hetero. Falar que só existe promiscuidade no mundo homossexual é
uma completa ignorância, a promiscuidade existe desde muito tempo. A
promiscuidade não está dentro de uma orientação sexual, está dentro uma
pessoa.” (Entrevistado L).
Por conta da homofobia...
“[...] nas três ocasiões que eu estive em Natal, eu fui a trabalho. Do
Congresso, da aula e da relação com a Prefeitura, eu percebi que na hora de
sair para jantar, assim, com os grupos e tal, a gente conversando: Poxa, o
pessoal aqui é meio fechado, a gente não vê os homossexuais muito em grupo
aqui e tal. E, aí eu fui entender a dinâmica da cidade, porque os
homossexuais lá são, as famílias como são pequenas, as famílias se conhecem
todas e a homossexualidade é muito velada por conta da homofobia que é
muito intensa, muito forte.” (Entrevistado E).
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Eu já ouvi isso...
“[...] porque o viado pobre, coitadinho, mas o viado que tem dinheiro, Ah,
esse daí é gente boa, você já viu o carro dele? Entendeu, é mais ou menos por
aí, porque o cara que é o viadinho, que é da faxina coitado. Ah, meu Deus,
além de viado, né, ainda é faxineiro. Eu já ouvi isso, esse tipo de comentário,
porque têm homossexuais lá, por exemplo, no hospital que eu trabalho que
são da equipe de limpeza, aí o pessoal: se já não bastasse viado ainda é
faxineiro. Mas você não ouve isso do cara falando do diretor que também é
viado, entendeu, sabe, ninguém diz assim, poxa como se não bastasse ser
viado, ainda é diretor! Você não ouve isso.” (Entrevistado L).
Os sujeitos percebem a estigmatização nos comentários homofóbicos e pejorativos no
trabalho e no contexto social. Identificam o estigma em relação à generalização de atitudes,
comportamentos e o uso de termos pejorativos aos homossexuais. Alguns sujeitos que
admitem serem estigmatizados e estereotipados por pessoas do trabalho procuram assumir
uma postura heteronormativa para ascender profissionalmente. Entendem que a ascensão e o
poder que daí emana favorecem a aceitação da sua condição homossexual na organização.
4.4.2. Enfrentamento do Estigma
Os respondentes apresentam os mecanismos e as estratégias para enfrentar o estigma
no trabalho. Destacam que o primeiro passo para enfrentar o estigma está na autoaceitação:
aceitarem-se como gay, a crença em si mesmo e nos seus direitos como trabalhador e cidadão.
Segundo Hall (2006), essa seria a dinâmica dos grupos dominantes e as forças
coletivas no jogo do poder no processo das escolhas coletivas. No entanto, há indivíduos que
confrontam essas forças coletivas quando optam por identidades, pessoas e grupos de seus
interesses e preferências, nas suas escolhas individuais.
Assume pra você...
“Quando você não assume pra você, é assim. Você entra numa sala, a pessoa fala no
ouvido da outra, você já acha que tá falando de você. Às vezes não está nem ai pra
você e você já acha que tá falando de você. E isso te incomodando, né? Entendeu?
Acaba, acaba isso incomodando, então... Mas quando você chega nessa parte, não
incomoda mais.” (Entrevistado A).
Acham que você é hetero...
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“Quando as pessoas te conhecem elas acham que você é hetero, todo mundo acha
isso, tipo as pessoas têm como um padrão como todos fossem hetero. Então quando
você sai do padrão as pessoas automaticamente criam outra imagem sua, pelo menos
eu percebo isso com as pessoas que eu conheço, entende?” (Entrevistado H).
Imitando...
“Aqui eu nunca enfrentei nenhum problema, pelo contrário sou muito bem tratado.
[...] tem um rapaz que ele brinca com tudo, com todos, ele fica me imitando e ele me
imita quase o tempo todo. Ele imita bem, imita o jeito que eu ando, o jeito que eu falo,
e é muito engraçado, todo mundo ri né? E, assim no jeito que ele me imita fica visível
que ele pega um pouco do meu trejeito de gay e é muito engraçado, porque eu deixo
ele brincar com isso porque eu sei que é brincadeira dele inocente/e, entendeu?”
(Entrevistado H).
Mais masculino...
“Então eu tento sempre desmitificar isso dentro do trabalho que eu ouço muito, Ah,
eu gosto de você porque você não é um gay afetado, entendeu? Como eu tenho uma
característica mais masculina, um pouquinho mais masculino no modo de vestir e isso
para eles agride menos, é o que eu percebo”.(Entrevistado J).
Os sujeitos apresentam atitudes estratégicas adotadas no trabalho, tais como: ser
discreto;assumirum
perfil
aceito
pelas
pessoas;
adotar
postura
e
roupas
mais
masculinas;aceitaras brincadeiras e as imitações; evitarconfrontar as forças dominantes no
ambiente organizacional.Essas atitudes são consideradas pelos sujeitos como atitudes de
enfrentamento da estigmatização no trabalho.
4.5. Segurança Ontológica
Nesta seção, falaremos sobre os caminhos percorridos pelos respondentes em relação à
segurança ontológica, identificando os fatores relacionais do trabalho com o consumo e o
processo da constituição da identidade homossexual assumida no trabalho.
Giddens (2002) fala que a segurança ontológica trata-se de uma sensação ancorada
cognitivamente e emocionalmente por uma “consciência prática”. Essa sensação ocorre nas
diversas atividades humana na vida cotidiana em todas as culturas.
71
4.5.1. Sentem-se Seguros diante das Pessoas e no Trabalho
Os respondentes dizem que, a partir no momento que tomaram consciência e
aceitaram a sua homossexualidade, tornaram-se mais seguros. Consideram que a crença em si
mesmo e a confiança dos outros os fortaleceram diante das dificuldades vividas. Eles
reconhecem que a confiança pessoal surgiu do apoio e a confiança de seus pais, dos amigos e
de seus parceiros. Alguns percebem-se mais corajosos para enfrentar e assumir a sua
homossexualidade.
Segundo Giddens (2002), a modernidade e a identidade, o “eu” e a sociedade, estão
inter-relacionados num meio global. As transformações do “eu” e da identidade encontram-se
por intermédio das instituições modernas e das tradicionais, interferindo em hábitos e
costumes que “se entrelaçam de maneira direta com a vida individuale, portanto, com o eu”
(p. 9).
Meus pais me aceitaram...
“Eu acho que eu me aceitei depois que meus pais me aceitaram, eu acho que meu
tempo de aceitação próprio veio por causa dos meus pais. Eu acho que eles me deram
coragem de enfrentar uma sociedade hipócrita que gosta muito de viver de aparência.
Então meus pais me deram muita força pra isso e eu me aceitei gay. Aquilo que eu te
falei onde eu chego é logico, que eu não chego com outdoor gay. Mas, eu chego com
meu cheiro de gay, cheguei.” (Entrevistado P).
Os sujeitos se sentem ancorados por grupos ou por pessoas, valorizam as relações
vividas nos diversos ambientes sociais, no trabalho e fora de dele. Percebem a aceitação das
pessoas e a confiança de si como fatores necessários na segurança ontológica e na
constituição da sua identidade homossexual, conscientes da sua realidade e da necessidade de
superar as tensões e desafios no trabalho.
4.5.2. Coragem de Ser, Assumir e o Enfrentamento do Estigma
Os respondentes afirmam estarem preparados para assumir a sua homossexualidade no
trabalho por se considerarem profissionais. Percebem a possibilidade de se tornarem vítimas
de discriminação ou atitudes homofóbicas por algumas pessoas. Consideram-se preparados e
encorajados para enfrentar qualquer situação que possa ocorrer. Acreditam que a sua
homossexualidade não possa interferir nas suas atividades profissionais. Percebem o
72
reconhecimento de seu potencial, sua capacidade e que a sua postura como pessoa e
profissional contribuem para manterem-se aceitos.
Conforme Giddens (2002), o indivíduo apresenta um “eu” que não é passivo nesse
mecanismo da constituição. Ele destaca que: “ao enfrentar problemas pessoais, os indivíduos
ativamente ajudam a reconstruir o universo da atividade social à sua volta” (GIDDENS, 2002,
p. 18).
Sou profissional...
“Demais, nossa é demais! Você pode ter certeza, que essa aceitação que eu tenho na
empresa que eu disse pra você por trás ela é outra. Ah, por que é. Lá, dentro eles
precisam muito de mim. Então, vão fazer o que? Vão me tratar mal? Não vão. Vão ser
preconceituosos? Não vão? Mas, existe alguma coisa assim, depois: nossa, que
viadinho! Tenho certeza disso [...] Não, não sinto por isso que eu te falei que eu
nunca senti homofobia. Sou profissional: eu te aceito como profissional.”
(Entrevistado P).
É só perguntar...
“Se não perguntam, ficam sem resposta. Entendeu? Olha, eu não vejo a necessidade...
Sim, eu dou abertura para pessoa perceber. Se a pessoa quiser me perguntar, eu vou
responder. Se ficar com vergonha ou algo desse tipo, vai ficar com a interrogação na
cabeça. É, tem pessoas que têm vergonha de perguntar, por medo da resposta que
podem receber.” (Entrevistado B).
Os sujeitos percebem que a sua coragem de ser os faz enfrentar o estigma no trabalho.
Consideram-se preparados para enfrentar o estigma e assumir a sua identidade homossexual,
por se considerarem profissionais que se encontram abertos a responder quanto a sua condição
homossexual. No trabalho, abandonam a sua identidade homossexual para serem
"profissionais", mecanismo esse utilizado para serem aceitos nas organizações.
4.5.3. Identificação com o Trabalho, Profissão e Reconhecimento do Profissional
Os respondentes comentam a respeito do reconhecimento profissional. Alguns
percebem que são vistos como aqueles que conduzem bem as situações em relação à
homossexualidade e sua profissão. Outros são reconhecidos por seus resultados e sua
autoconfiança. Sentem-se seguros no que fazem, no que podem fazer e na organização.
O trabalho para o trabalhador é compreendido como parte do seu ciclo de vida e
73
elemento queconstitui a subjetividade humana e a sua identidade (KRAWULSKI, 2004;
COUTINHO, KRAWULSKI e SOARES, 2007).
Resposta mais adequada...
“Aí minha supervisora falou que achou a minha resposta mais adequada para aquele
momento e aí foi o que eu disse a ela, aqui eu tenho que ser reconhecido como
Assistente Social, a questão da minha sexualidade não tem que entrar no meu crachá.
Aí eu falei com minha supervisora, eu não tinha que falar que eu sou homossexual, eu
acho que a minha identificação não tem que ser essa, isso tem que ser um atributo da
minha identificação, não o fundante, não tem que ser o espaço
principal.”(Entrevistado I).
Sua capacidade de trabalho...
“A questão mesmo de segurança em relação ao julgamento de sua capacidade de
trabalho, que não será distorcida com a visão de homossexualidade. Uma vez que
você está seguro, você se sente muito mais confortável para falar com as pessoas [...]
Mas, de qualquer forma, aqui eu me sinto seguro pra poder falar mais facilmente. Por
exemplo, como falei, eu me senti complemente à vontade para trazer o meu
namorado.” (Entrevistado G).
A gente pode ser...
“Igual todo mundo fala lá no meu trabalho: você quer fazer o que? Eu digo: Não sei.
Falam: por que não faz moda?! Eu digo: não gosto! Falam: não gosta de moda?!
Nunca vi gay dizer que não gosta de moda?! Digo: gente, eu não gosto! Só porque
você é gay tem que ser cabeleireiro, maquiador e estilista! Eu não posso ser
advogado? Eu não posso ser professor? Eu não posso ser médico? [...] A gente pode
ser o que a gente quer! Pensam: eu tenho que fazer isso, porque é assim, então vai ser
assim e infelizmente é assim. Muitos vão por esse caminho por aceitarem os rótulos.”
(Entrevistado C).
Os sujeitos acreditam estarem seguros em qualquer circunstância, em relação
àadministração da identidade homossexual. Buscam a segurança no reconhecimento por meio
das suas atividades profissionais e de suas práticas produtivas.Consideram-seprontos para
qualquer desafio nas situações no trabalho e nos diversos contextos sociais.Para os autores, os
significados e o sentido do trabalho são para o sujeito, elementos que incidem na construção
da sua identidade, identidade coletiva e sua subjetividade (GAULEJAC, 2007; DEJOURS,
2007; SENNETT, 2009).
74
4.5.4. O Pertencimento e as Âncoras Sociais: “Ambientes Misturados”, Amigos
Heterossexuais e Homossexuais
Os respondentes optam por frequentarem “espaços misturados” ou “misto”, ambientes
que circulam tanto homossexuais como heterossexuais, e referem-se aos lugares como
restaurantes, boates, pizzaria e festas.Sentem-se bem e à vontade em todos os ambientes, não
optam por se esconder ou ficar com grupos de homossexuais, seja no trabalho ou fora dele.
Alguns frequentam esses locais acompanhados de seus parceiros homoafetivos, na casa das
pessoas do trabalho, vão a festas e passeios. Alguns pertencem a diversos grupos de amigos,
sejam homossexuais ou heterossexuais, consideram as amizades do trabalho e relacionam as
suas atividades fora do trabalho.
De acordo com Giddens (2002), as relações de confiança de si e nos outros fazem
parte do processo de constituição da identidade do sujeito, que inicia na “fé individual”, e a
sensação da segurança ontológica. As relações interpessoais tornam-se para os indivíduos a
certeza da sua “realidade” nos ambientes sociais em que estão inseridos. A aceitação e o
reconhecimento do outro são considerados as respostas necessárias na sustentação do mundo
social.
As pessoas não vivem solitárias...
“[...] Eu acho que você tem que viver pra você, até porque a vida é uma só, para
perder tempo com coisas... por medo, porque quem te ama vai te aceitar do jeito que
você é. Então acho que você tem que viver feliz, independente do que vão pensar. Se
você tá feliz com você, esquece os demais. As pessoas não vivem solitárias, não é isso
que eu quero dizer, mas as pessoas que te amam, vão te aceitar do jeito que você for e
andar contigo. Independentemente de você ser homossexual, bissexual, travesti, seja o
que for.” (Entrevistado B).
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Foi muito legal...
“[...] foi muito legal, tanto é que há duas semanas a gente foi numa festa, eu e meu
namorado a gente foi na festa de aniversário da dona da empresa, na casa da dona da
empresa, eu com três meses e pouco de empresa, quase quatro meses [...] Linda a
camisa eu cheguei na festa as pessoas babaram tiraram várias fotos comigo!”
(Entrevistado P).
Indicação de um amigo...
“[...] quando a gente sai eu gosto de jantar nos restaurantes que têm comidas mais
bem elaboradas, [...] que seja um centro de referência gastronômica. Um restaurante
pequeno com gastronomia assim brasileira, o chef é legal, [...] foi a indicação de um
amigo do trabalho. Porque aí você acaba percebendo no ambiente que tinha né, que
tem outros casais ali. Percebi que a frequência, tinham casais heterossexuais e casais
homossexuais.” (Entrevistado E).
Os sujeitos percebem e acreditam que é importante estarem em todos os ambientes,
inseridos na sociedade em geral. Reconhecem que uma roupa, umcalçado e um serviço
possuem seus significados simbólicosnum contexto social dos sujeitos. Buscam por ambientes
e serviços que possam frequentar com os amigos homossexuais, heterossexuais e parceiros
homoafetivos, livres dos rótulos e do estigma. Ambientes que permitam se expressarem
livremente e representem o statusalcançado, a sensação de segurança ontológica da sua
identidade homossexual.Acreditam que as possespodem e fazem a diferença nas suas relações
com as pessoas no trabalho e fora dele.Com isso, em relação ao consumo,para Pereira (2009,
p. 64) esses sujeitos assumem um papel inovador no mundo do consumo ao libertarem-se
dessa relação dicotômica a despeito do padrão heteronormativo dominante que pode ser visto
“como forma de enfrentamento do estigma da homossexualidade”.
76
5. Considerações Finais
Esta dissertação teve como objetivo descrever o processo da constituição da identidade
do homossexual masculino no ambiente organizacional e identificar, com base na narrativa de
homossexuais no trabalho, como o consumo se articula com a administração da identidade
homossexual assumida no trabalho. Teve, ainda, o objetivo de responder à seguinte
pergunta:uma vez reconhecida a importância do mundo do consumo na constituição e na
administração da identidade, de que forma o consumo interfere na constituição e na
administração da identidade homossexual assumida no trabalho? Diante desses objetivos foi
realizada uma revisão de literatura e a construção do referencial teórico, com base nas áreas
da Sociologia, Psicologia e Administração.
De acordo com a análise das entrevistas narrativas, o processode constituição da
identidade homossexual no ambiente organizacional parte da consciência de si e da sua
realidade; da percepção da sua orientação sexual e da sua identidade de gênero homossexual
masculino. Afirmam, ainda, se perceberem enquanto homossexuais e que não fazem parte da
identidade de gênero heterossexual masculino, grupo considerado modelo dos padrões
heteronormativos dominante pela sociedade.
Nesta fase da constituição da identidade homossexual constatou-se que os sujeitos
iniciam o processo de identificação e a projeçãode comportamentos, valores e estilos de
vida.Isto significa que esses sujeitos buscam por pertencimento e meios que favoreçam a
constituição da sua identidade homossexual no ambiente organizacional.
Diante disto, podemos afirmar que, caso não se adequem ao estilo organizacional,
temem por serem estigmatizados e estereotipados pelos colegas de trabalho. Subjetivamente,
assumem os estilos, comportamentos e vestimentas com os padrões organizacionais, para que
possam se sentirem ancorados socialmente no trabalho. Os sujeitos assumem um estilo
heteronormativo das organizações e acreditam que é importante manterem esse estilo, em
favor da marca e da imagem da organização.
Com isso, não percebem que estão abdicando de sua identidade homossexual. Pode-se
considerar esses sujeitos comohomossexuais organizacionais,quando adotam um perfil e um
estilo conforme os padrões heteronormativos da organizaçãono processo deconstituição
eadministração do seu euno trabalho.
Pode-se afirmar também que o consumo está presente e interfere na vida dos
homossexuais no trabalho e fora dele, e na constituição e administração da sua identidade. Os
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sujeitos homossexuais presentes nas organizações, para que sejam aceitos, respeitados e se
sintam seguros,procuram assumirum perfil mais masculino e sério. Afirmam que as pessoas,
os clientes e os colegas não aceitam o uso de itens como, roupas e acessórios que associem a
feminilidade, dito como “afeminados” no trabalho. Consideram ainda que a imagem e a marca
são relevantes para a organização e para constituição da sua identidade no trabalho, sendo
considerado o padrão heteronormativo como o estilo sugerido e proposto pela organização.
Dessa forma, os sujeitos homossexuais buscam cada vez mais adquirem bens e serviços que
atendam o estilo heteronormativo dominante, para que possam alcançar uma posição
hierárquica e status dentro das organizações.
Podemos considerar que as organizações admitem e aceitam os homossexuais
masculinos, mas,ainda de forma subentendida, cobram uma postura adequada aos padrões
heteronormativos. Além disso, entende-se que as organizações rejeitam os comportamentos e
as expressões da identidade homossexual dos sujeitos, para os que se assumem no trabalho.
A constituição e administração da identidade é um processo dinâmico e contínuo.
Podemos, então, afirmar que é desafiador para os sujeitos homossexuais constituir sua
identidade homossexual no trabalho, pois se encontram entre dois mundos: homossexual e
heterossexual. De acordo com a análise das narrativas, os sujeitos adotam estilos
heteronormativos e abandonam a sua homossexualidade para serem “profissionais” nas
organizações.
A segurança ontológica torna-se presente aos sujeitos homossexuais ao se sentirem
aceitos pelas organizações. Dessa forma, se encontram mais seguros e ancorados pelas
relações de confiança com as pessoas do trabalho. Pode-se afirmar que as organizações
públicas são ainda a preferência pelos homossexuais, por garantirem seus direitos como
servidor e a homossexualidade na sua autenticidade. Os sujeitos se sentem mais seguros e
livres das discriminações e do estigma.
Os homossexuais necessitam, ainda, desbravar novos espaços para que possam se
manter presentes em todos os ambientes, livres de rótulos. Os sujeitos consideram favoráveis
os ambientes “misturados”, termo utilizado pelos entrevistados desta pesquisa. Ambientes
“misturados” podem ser entendidos como “ambientes que são frequentados tanto por
heterossexuais como homossexuais”. Estes ambientes são desfavoráveis aos indivíduos
homofóbicos, por permitirem expressões de afeto e onde os homossexuais se comportam de
maneira livre do estigma.
Os mercados de consumo já saem na frente quando permitem livre acesso aos seus
clientes homossexuais – “gay friendly (amigos dos gays) – que os recebem muito bem.
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Aquelas organizações que aceitam ereconhecem os homossexuais na sua autenticidade e os
permitem ter livre acesso a todos níveis hierárquicospodem também ser consideradas como
um espaço “misturado” e amigos dos gays.
Identificou-se como limitações desta pesquisa as percepções dos sujeitos em relação a
sua realidade no ambiente organizacional, pois o grupo de entrevistados não representa a
totalidade do contexto social pesquisado. O método narrativo utilizado requer habilidade
interpretativa do pesquisador. Levamos em consideração como os sujeitos constroem a
percepção da sua realidade e de sua história de vida.
Além disso, consideramos a referência subjetiva e a ontologia do pesquisador. Embora
tenha se buscado um certo distanciamento, admite-se a inexistência da neutralidade científica
no método utilizado. A pesquisa também não retrata a realidade das organizações, uma vez
que o grupo de entrevistados não é composto por representantes diretos.
Neste sentido, este tema é recomendado para pesquisas futuras devido a sua a
relevância para a sociedade e a área acadêmica nas áreas da Sociologia, Antropologia,
Psicologia e Administração. Para futuras investigações sugerem-se pesquisas que contemplem
a constituição da identidade homossexual assumida de sujeitos de gêneros femininos e os
transgêneros nos ambientes acadêmicos, organizacionais e no consumo.
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Apêndice – Roteiro das Entrevista
Entrevista Narrativa
Homossexualidade
Nome
Você é um homem gay?
Idade
Onde mora
Mora com quem (Identidade - Pertencimento / Âncoras sociais)
Escolaridade/formação (Identidade - Práticas identitárias)
Profissão (Identidade - Práticas identitárias/Âncoras sociais)
A escolha da profissão ou trabalho (Processos de Identificação e Identidade - Identificação e projeção /
Identidade coletiva no trabalho)
Onde trabalha (Identidade - Pertencimento)
Qual setor (Identidade / Identidade coletiva no trabalho)
Quanto tempo nessa empresa (Práticas identitárias)
O que te levou escolher essa empresa para trabalhar (Práticas identitárias)
O que você faz quando está fora do trabalho/lazer (Práticas identitárias e Dimensões culturais e sociais
do consumo)
Quando percebeu a sua homossexualidade (Auto percepções / Homossexualidade como condição)
Como foi...
Sua história (Identidade / Homossexualidade)
Sua infância (Auto percepções / Homossexualidade como condição)
Sua adolescência (Auto percepções / Homossexualidade como condição)
Aceitação da sua condição (Atividade reflexiva / Identificação e projeções/ Homossexualidade como
condição)
Momento da não aceitação (Vítima do estigma)
Como foi...
Alguma discriminação ou preconceito naquele período (Vítima do estigma)
Na infância (Vítima do estigma)
Na adolescência (Vítima do estigma)
Escola / vizinhança
Se identificou com alguém gay naquela época (Processos de Identificação - Identificação e projeção)
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Alguém próximo ou parente homossexual (Processos de Identificação - Identificação e projeção)
Como lida hoje com a sua homossexualidade (Homossexualidade / Práticas identitárias / Ritos de
Passagem)
Um exemplo
Homossexualidade assumida
Sua homossexualidade assumida (Identidade/ Homossexualidade)
Quando e Como foi...
A quem contou primeiro (Identidade - Âncoras sociais / Homossexualidade - Ritos de Passagem)
Sua família
Reação deles
Como foi...
E irmãos.
Depois que assumiu, como foi... (Processos de Identificação)
O que mudou depois que assumiu sua homossexualidade? (Ritos de Passagem)
Mudanças pessoais
Hábitos.
Reação dos amigos.
Lugares ou ambientes.
Diversão ou Lazer.
No consumo.
Mudanças no trabalho.
Com que frequência.
Ambiente de Trabalho
Sua homossexualidade é assumida no ambiente de trabalho? (Segurança Ontológica)
O que é ser gay no ambiente de trabalho? (Impactos sociais e os acontecimentos das instituições)
Como é percebido (Pertencimento - Identidade coletiva no trabalho)
Algum tipo de preconceito. (Homossexualidade - homofobia)
Sua função ou Cargo.
Suas responsabilidades (Impactos sociais e os acontecimentos das instituições)
Faz parte de uma equipe (Identidade coletiva no trabalho)
Sua rotina.
Amigos no ambiente de trabalho.
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Conversa a respeito da vida particular.
Quem
Relacionamento.
Família.
Férias ou viagens.
São homossexuais ou heterossexuais (Identificação e projeção - Âncoras sociais)
Expectativa profissional ou de carreira. (Identidade coletiva no trabalho)
Profissionalismo e homossexualidade assumida, como se relacionam.
E na Empresa ou fora dela. (Identidade coletiva no trabalho - Pertencimento)
Ambientes fora do trabalho.
Hábitos fora do trabalho.
Com quem.
Com que frequência.
O que gosta mais de comprar.
Lugares - Loja ou Shopping.
Marcas de preferência.
Marcas e homossexualidade. (Escala social e o status social)
Qual você se identifica.
Por que.
O que gosta de fazer - Lazer.
Viagem.
Como foi...
Como você percebe a homossexualidade nesses ambientes? (Identificação e projeção)
Como funciona. (Dimensões culturais e sociais do consumo)
Bares, restaurantes e alguns lugares. (Dimensões culturais e sociais do consumo)
Tem preferência.
Porque.
Lugar que há preconceito a homossexualidade. (Vítima de estigma)
Como assim...
Você está namorando ou casado. (Âncoras sociais - Identidade de gênero)
Expressa seu afeto, carinhos em público. (Enfrentamento do estigma)
Como funciona.
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O que mudou na sua opinião.
Em que ambiente.
Casar. Ter filhos. (Âncoras sociais - Pertencimento - Enfrentamento de estigma)
Você sente que há algum lugar de preconceito? (Vítima de estigma)
Como assim...
Já sofreu de alguma discriminação ou homofobia? (Vítima de estigma)
Como foi...
Obrigada! 
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a constituição e a administração da identidade de gênero