UNIGRANRIO UNIVERSIDADE DO GRANDE RIO “PROF. JOSÉ DE SOUZA HERDY” MARCIA PEREIRA SANTOS A CONSTITUIÇÃO E A ADMINISTRAÇÃO DA IDENTIDADE DE GÊNERO HOMOSSEXUAL MASCULINO ASSUMIDA NO TRABALHO E A SUA ARTICULAÇÃO COM O CONSUMO Rio de Janeiro 2015 MARCIA PEREIRA SANTOS A CONSTITUIÇÃO E A ADMINISTRAÇÃO DA IDENTIDADE DE GÊNERO HOMOSSEXUAL MASCULINO ASSUMIDA NO TRABALHO E A SUA ARTICULAÇÃO COM O CONSUMO Dissertação apresentada à Universidade do Grande Rio “Prof. José de Souza Herdy”, como parte dos requisitos parciais para obtenção do grau de mestre em Administração. Área de Concentração: Gestão Organizacional Orientador: Eduardo André Teixeira Ayrosa Rio de Janeiro 2015 CATALOGAÇÃO NA FONTE/BIBLIOTECA - UNIGRANRIO S237c Santos, Marcia Pereira. A constituição e a administração da identidade de gênero homossexual masculino assumida no trabalho e a sua articulação com o consumo / Marcia Pereira Santos. – 2015. 87 f. : il. ; 31 cm. Dissertação (mestrado em Administração) – Universidade do Grande Rio “Prof. José de Souza Herdy”, Escola de Ciências Sociais Aplicadas, Rio de Janeiro, 2015. “Orientador: Eduardo André Teixeira Ayrosa”. Bibliografia: f. 77-82. 1. Administração 2. Homossexualismo. 3. Estigma (Psicologia social). 4. Ambiente de trabalho. I. Ayrosa, Eduardo André Teixeira. II. Universidade do Grande Rio “Prof. José de Souza Herdy“. III. Título. CDD - 658.31 Aos meus pais Jakson e Suedir (in memoriam), que deixaram como herança o meu desejo de aprender sem cessar... Ao meu filho Lucas, que sempre me incentivou e por estar sempre presente na minha vida. AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus... E a todos que se fizeram presentes durante o meu processo de aprendizado nesse Mestrado. Em especial, agradeço ao meu orientador, Eduardo Ayrosa, pelo apoio e orientação na elaboração desta pesquisa e o incentivo para que eu melhorasse cada vez mais. Aos doutores professores, pelas contribuições nesse meu processo de aprendizagem, e em especial aos professores João Felipe Sauerbronn e Denise França Barros. Ao meu filho Lucas Pereira, pela sua paciência, pelo seu apoio, incentivo e pelo seu amor; Ao meu irmão Marcelo e familiares, por estarem sempre presentes em todos os momentos dessa minha caminhada; Ao meu amigo Jorge Antônio Silva, que muito cooperou e me incentivou a alcançar novos passos nessa estrada. “Você não sabe o quanto eu caminhei/ Pra chegar até aqui/ Percorri milhas e milhas antes de dormir/ Eu nem cochilei/ Os mais Belos montes escalai [...]” (A Estrada, Toni Garrido, Da Gama, Lazão, Bino) RESUMO Os objetivos desta pesquisa são descrever o processo da constituição da identidade do homossexual masculino assumido no ambiente organizacional e identificar, com base na narrativa de homossexuais no trabalho, como o consumo se articula com a administração dessa identidade. A sustentação teóricase deu pelo aprofundamento dos seguintes temas: a identidade (segundo Giddens, 2002;Bauman, 2005;Hall, 2006); homossexualidade (Foucault, 1988; Weinstein, 1998;Irigaray, 2007 e 2011; Pereira, 2009); trabalho (Bendassolli, 2006;Gaulejac, 2007;Dejours, 1994 e 2007;Senett, 2009); cultura do Consumo (Feathersone, 2007;Slater, 2001;McCracken, 2003;Arnoult& Thompson, 2005); estigma (Goffman, 1998 e 2002); segurança ontológica (Giddens, 2002). O presente estudo é relevante na medida em que estimula a construção da consciência de igualdade no ambiente organizacional para homossexuais masculinos. Através desta pesquisa buscam-se respostas que possam criar condições para a implantação de mecanismos efetivos de igualdade de direitos nas relações de trabalho dos homossexuais, promovendo objetivamente a discussão da realidade e as condições adversas dos sujeitos homossexuais masculinos no ambiente organizacional. Para tanto, foram realizadas 15 entrevistas narrativas não estruturadas e em profundidade (segundo Bauer &Gaskell, 2002), focando a história de vida desses sujeitos.Na análise das narrativas, por fim, foi possível identificar que há um estilo sugerido e proposto pela organização e considerado como um estilo padrão heteronormativo. Os sujeitos homossexuais masculinos utilizam os significados simbólicos de posses como mecanismos que atendam a um estilo organizacional padronizado; adotam esse estilo e assim retomam o processo de construção e reconstrução do seu eu e da sua identidade homossexual assumida no trabalho. Palavras-chave: Trabalho, Consumo, Identidade de Gênero, Homossexualidade, Estigma. ABSTRACT This study aimed to describe the male homosexual identity constitution process assumed in the organizational environment and identify, based on the narrative of homosexuals at work, as consumption islinked to the administration of this identity. The theoretical framework was based on the deepening of the following topics: identity(according to Giddens, 2002; Bauman, 2005; Hall, 2006); homosexuality (Foucault, 1988; Weinstein, 1998; Irigaray, 2007 and 2011; Pereira, 2009); work (Bendassolli, 2006; Gaulejac, 2007; Dejours,1994 and 2007;Senett, 2009); consumer culture (Feathersone, 2007; Slater, 2001; McCracken, 2003;Arnoult& Thompson, 2005); stigma (Goffman, 1998 and 2002); and ontological security (Giddens, 2002). This research is important in that it encourages the construction of equal consciousness, organizational environment, assumed due to homosexual men. It sought answers in order to create conditions for the implementation of effective mechanisms for equal rights in labor relations homosexuals, objectively promoting the discussion of reality and the adverse conditions of male homosexuals in the organizational. There were 15 nonstructured interviews and narratives in depth (according to Bauer & Gaskell, 2002) focusing on the life history of these subjects. In the analysis of narratives, finally, we found that there is a suggested style, proposed by the Organization, and considered as heteronormative standard style. Male homosexuals use the symbolic meanings of possessions as mechanisms that meet a standardized organizational style. They adopt this style and thus resume the process of building and rebuilding their self and their homosexual identity assumed at work. Key words: Word, Consumption, Gender Identity, Homosexuality, Stigma. LISTA DE QUADROS Quadro 1: Orientações de Gênero.............................................................................. ..30 Quadro 2: Perfil dos Sujeitos Entrevistados ................................................................. 47 Quadro 3: Definições Constitutiva e Operacional das Categorias a priori de Análise. . 49 Quadro 4: Famílias de Códigos Analíticos .................................................................. 51 LISTA DE FIGURAS Figura 1: Família Identidade ....................................................................................... 50 Figura 2: Família Trabalho .......................................................................................... 50 Figura 3: Família Consumo ......................................................................................... 50 Figura 4: Família Estigma ........................................................................................... 50 Figura 5: Família Segurança Ontológica ...................................................................... 50 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO................................................................................................................ 14 1.1. PERGUNTA DE PESQUISA........................................................................................ 15 1.2. OBJETIVOS ................................................................................................................. 16 1.3. RELEVÂNCIA DA PESQUISA ................................................................................... 16 1.4. DELIMITAÇÃO DA PESQUISA................................................................................. 17 1.5. ESTRUTURA DO TRABALHO .................................................................................. 17 2. REFERENCIAL TEÓRICO ........................................................................................... 18 2.1. IDENTIDADE ............................................................................................................... 18 2.1.1. DEFINIÇÕES DE IDENTIDADE ............................................................................ 18 2.1.2. CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE....................................................................... 20 2.1.3. ESTIGMA E SEU ENFRENTAMENTO .................................................................. 23 2.1.4. SEGURANÇA ONTOLÓGICA................................................................................. 25 2.2. IDENTIDADE DE GÊNERO ....................................................................................... 26 2.2.1. HOMOSSEXUALIDADE .......................................................................................... 28 2.3. IDENTIDADE E TRABALHO..................................................................................... 33 2.3.1. IDENTIDADE COLETIVA NO TRABALHO ......................................................... 35 2.3.2. IDENTIDADE E A ORGANIZAÇÃO ...................................................................... 36 2.4. IDENTIDADE HOMOSSEXUAL E TRABALHO...................................................... 36 2.5. TRABALHO E CONSUMO ......................................................................................... 38 2.6. CONSUMO ................................................................................................................... 40 2.6.1. TEORIA DA CULTURA DO CONSUMO (CCT) .................................................... 40 2.7. CONSUMO E IDENTIDADE....................................................................................... 41 2.7.1. CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE NO CONSUMO ........................................... 41 2.7.2. CONSUMO E IDENTIDADE HOMOSSEXUAL..................................................... 42 2.7.3. SIGNIFICADO SIMBÓLICO DE POSSES .............................................................. 43 2.7.4. SUBCULTURA GAY E OS MERCADOS DE CONSUMO ..................................... 43 3. PERCURSO METODOLÓGICO ................................................................................... 45 3.1. COLETA DE DADOS................................................................................................... 45 3.2. SUJEITOS DE PESQUISA........................................................................................... 46 3.3. MÉTODO DE PESQUISA............................................................................................ 48 3.3.1. ANÁLISE DOS DADOS ............................................................................................ 48 4. ANÁLISE DOS RESULTADOS...................................................................................... 53 4.1. IDENTIDADE ............................................................................................................... 53 4.2.TRABALHO .................................................................................................................. 60 4.3. CULTURA DO CONSUMO ......................................................................................... 64 4.4. ESTIGMA ..................................................................................................................... 67 4.5. SEGURANÇA ONTOLÓGICA ................................................................................... 70 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................... 76 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................ 79 APÊNDICE – ROTEIRO DAS ENTREVISTA .................................................................. 85 14 1. Introdução Desafiadora, tensa e muitas vezes constrangedora. Essa costuma ser a realidade de homossexuais masculinos (gays) nas organizações, justamente por assumirem a orientação sexual e a sua condição explícita da identidade gay, apontada como “a constante tensão existente entre o mundo gay e o mundo heterossexual”(PEREIRA, 2009, p. 164). São muitos os casos de gays que experimentam situações de constrangimento e humilhação (SIQUEIRA e ZAULI-FELLOWS, 2006) além dos registros frequentes de discriminação e homofobia ocorridos nas organizações (IRIGARAY 2007; SIQUEIRA, et al. 2009). São reduzidas, ainda, as possibilidades de ascensão profissional dos gays que assumem publicamente a orientação sexual, (FERREIRA, 2007, p. 13), justamente em consequência da resistência à diversidade de orientações sexuais no ambiente organizacional (IRIGARAY, 2007). No trabalho, ao analisarem a identidade e a sobrevivência dos gays nas organizações, pesquisadores afirmam que “no ambiente organizacional, o incrustamento de valores heterocêntricos resultou em práticas discriminatórias em relação aos gays” (IRIGARAY, SARAIVA e CARRIERI, 2011, p. 894). Na constituição da identidade o indivíduo relaciona a confiança em si e também nos outros. A confiança faz parte do processo de constituição e da administração da identidade ao assumir atitudes em relação às situações, pessoas e sistemas específicos. O indivíduo assume uma atitude natural na vida cotidiana, no “contexto da fé individual” (p. 53) e da sensação da segurança ontológica. As relações interpessoais se tornam a certeza da sua “realidade” nos ambientes sociais que fazem parte da sua vida. A aceitação e o reconhecimento do outro são as respostas necessárias na sustentação de um mundo em "que é observável" e no "que responde" (GIDDENS, 2002, p. 53). O homem no trabalho “é virtualmente um sujeito e um sujeito pensante”, e não um “joguete passivo” das imposições organizacionais (DEJOURS, 1994). Aquele que faz interpretações da situação que se encontra e age contribui para a construção das relações sociais de trabalho, consideradas importantes para o sentido do trabalho. O reconhecimento torna-se fundamental no enfretamento dos desafios e na constituição e administração da identidade do sujeito trabalhador. Para Dejours (2009, p. 53): “O trabalho, por meio da ação do reconhecimento, constitui uma segunda chance para edificar e desenvolver nossa identidade e adquirir assim uma melhor resistência psíquica em face dos desafios da vida”. 15 Assim como o trabalho, o consumo é importante para compreender a construção de identidades. A multiplicidade de signos culturais no trabalho e nas práticas de consumo são referências visíveis tanto do alcance de um status social desejado quanto da identidade social (GIDDENS, 2002; BENDASSOLLI, 2006; NUNES, 2007).Na dimensão do consumo, no entanto, Pereira (2009, p. 17) afirma que os homossexuais utilizam-se dos significados simbólicos de posses como uma das formas de sinalizar a identidade gay para si e seus pares. Em sua análise, eles se deparavam com uma relação dicotômica, “[...] se viam ora como estigmatizados e marginalizados, ora como livres de rótulos e independentes.” (PEREIRA, 2009, p. 13) O autor afirma que esses sujeitos assumem um papel inovador no mundo do consumo, ao libertarem-se dessa relação dicotômica a despeito do padrão heteronormativo dominante que pode ser visto “como forma de enfrentamento do estigma da homossexualidade” (PEREIRA, 2009, p. 64). Nas práticas de consumo, as marcas, bens e serviços são transformados ativamente por significados simbólicos codificados à identidade dos sujeitos. As posses se manifestam simbolicamente no posicionamento social e nas metas de estilo de vida. O consumo é considerado também um meio de rompimento com as instituições tradicionais (GIDDENS 2002; ARNOULD e THOMPSON, 2005). Nos tópicos a seguir serão apresentadas a pergunta de pesquisa, os objetivos, a relevância, a delimitação e a estrutura do trabalho. 1.1. Pergunta de Pesquisa Diante dessa realidade, portanto, surge o questionamento sobre a possibilidade de afirmar se os homossexuais masculinos desafiam a relação dicotômica (PEREIRA, 2009) entre o mundo do trabalho e o que existe fora dele, na chamada “vida em sociedade” (IRIGARY, SARAIVA e CARRIERI, 2011, p. 894). Uma vez reconhecida a importância do mundo do consumo na constituição e na administração da identidade, de que forma o consumo interfere na constituição e na administração da identidade homossexual assumida no trabalho? 16 1.2. Objetivos Os objetivos desta pesquisa são: 1) descrever o processo da constituição da identidade do homossexual masculino no ambiente organizacional; 2) identificar, com base na narrativa de homossexuais no trabalho, como o consumo se articula com a administração da identidade homossexual assumida no trabalho. 1.3. Relevância da Pesquisa É crescente o interesse por pesquisar as identidades de gênero e a realidade dos homossexuais em diversos ambientes sociais. Giddens (2002, p. 13) afirma que a modernidade em nível mundial“produz diferença, exclusão e marginalização”,no que diz respeito à desigualdade nas questões de gênero e etnia. Criticam-se também as políticas de inclusão da diversidade, importantes para a aceitação de muitas diferenças como étnicas, sociais e de gênero, mas ainda incapazes de enfrentar e superar as resistências à diversidade da orientação sexual. Muitas organizações são denunciadas e acusadas por não contratarem candidatos assumidamente homossexuais nos processos de seleção (GIDDENS, 2002; SIQUEIRA; ZAULI-FELLOWS, 2006; REVISTA LADO A, 2012; DINIZ et al., 2013). A relevância deste trabalho está em estimular a construção da consciência de igualdade no ambiente organizacional para homossexuais masculinos. A pesquisa busca respostas a fim de criar condições de contribuir para a implantação de mecanismos efetivos que contribuam para a igualdade de direitos nas relações de trabalho. O estudo pretende, objetivamente, promover a discussão da realidade das condições adversas de homossexuais masculinos no ambiente organizacional. A pesquisa também é relevante para as áreas da Sociologia, Psicologia e Administração, ao contribuir nas questões da constituição da identidade do gênero homossexual, identidade no trabalho e identidade no consumo. 17 1.4. Delimitação da Pesquisa A delimitação da pesquisa encontra o seu foco principal nos sujeitos homossexuais masculinos identitariamente constituídos como tal tanto no mundo do trabalho quanto fora dele. Trata-se de uma pesquisa qualitativa baseada nas narrativas das histórias de vida dos sujeitos. Neste momento, faz-se importante esclarecer quais os sujeitos que não interessam para o estudo,a saber: os homossexuais que não constituem a sua identidade homossexual no trabalho, comportando-se em organizações como “heterossexuais organizacionais” (IRIGARAY 2007). Nesta pesquisa não se tem o interesse nos aspectos relacionados à renda dos sujeitos ou seu comportamento enquanto compradores, assim como não se tem o objetivo de contribuir nas normas sobre a contratação dos homossexuais. 1.5. Estrutura do Trabalho O trabalho será apresentado de acordo com a seguinte estrutura, além desta introdução: (a) o referencial teórico e os temas de embasamento da pesquisa; (b) o percurso metodológico utilizado para a coleta e análise dos dados; (c) os resultados da análise da pesquisa; (d) as considerações finais; (e) referências bibliográficas; (f) anexos. 18 2. Referencial Teórico Neste capítulo será apresentado o referencial teórico que sustenta a pesquisa. Os seguintes temas serão apresentados: Identidade, A Constituição e a Administraçãoda Identidade de Gênero; Heterossexualidade e Homossexualidade; Identidade e o Trabalho; Identidade Homossexual no Trabalho; Trabalho e Consumo; Cultura de Consumo; Teoria da Cultura e Consumo (CCT); Consumo e Identidade; Consumo e Identidade de Gênero; Consumo e Identidade Homossexual. 2.1. Identidade A temática identidade é considerada como ponto central desta pesquisa. Abaixo será apresentado o resultado da revisão de literatura, baseada em pesquisas e publicações relacionadas à temática, assim como assuntos relacionados à questão, como: definições de identidade; constituição da identidade; administração da identidade; identidade de gênero; identidade e trabalho; consumo e identidade. 2.1.1. Definições de Identidade A identidade é frequentemente descrita como um processo dinâmico e consiste na interação, ou seja, o fio de ligação entre pessoas e grupos. (FREESE e BURKE, 1994). Segundo Stets e Burke (2000) as identidades são compostas de auto percepções que emergem da atividade reflexiva de identificação ou na auto-categorização, com o intuito de participar de grupos ou funções específicas. Para Bauman (2005, p. 17) a identidade é definida pelas entidades denominadas por “comunidades” que o indivíduo escolhe e às quais pertence. O autor afirma que: “[...] o pertencimento e a identidade não têm a solidez de uma rocha, são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e revogáveis, e de que 19 as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age”.(BAUMAN, 2005, p. 17). Hall (2006, p. 8), por sua vez, afirma que o conceito é “demasiadamente complexo”. A identidade, sendo considerada como uma das formas de preencher espaços entre o mundo público e privado, assume sua importância na compreensão da dinâmica social na modernidade tardia (HALL, 2006). Para o autor, a identidade é a interação entre o “eu” e a sociedade; o sujeito possui uma “essência interior que é o eu real”, constituído e modificado numa relação de diálogo contínuo com diversos mundos culturais. Na sociologia, no entanto, alguns teóricos consideram haver uma concepção “interativa” da identidade e do “eu”. Para Hall (2006, p. 11) essa concepção considera que “o sujeito ainda tem um núcleo ou essência interior que é o ‘eu real’, mas que este é formado e modificado no diálogo contínuo com os mundos culturais ‘exteriores’ e as identidades que esses mundos oferecem”. Alguns autores (HALL, 2006; SILVA, 2006) defendem a ideia de que a identidade e a diferença tendem a ser produzidas e consideradas resultados das criações sociais e culturais. Segundo Silva (2006) a identidade é vista como possibilidade concebida positivamente, e a diferença como o seu oposto. O autor afirma: “assim como a identidade depende da diferença, a diferença depende da identidade. Identidade e diferença são, pois, inseparáveis (SILVA, 2006, p. 75)”. Para Giddens (2002) a identificação e a projeção são mecanismos que ocorrem com o objetivo de assumir traços ou padrões de comportamento do outro. Ele afirma que o processo de identificação está interligado com o processo de aprendizado cognitivo, que seria a captação de algumas características do mundo-objeto. Na composição da sua própria história o indivíduo integra-se e interfere ao mesmo tempo nos grupos a que pertence, em ambientes nos quais interagem, e cabe a ele inventar e se reinventar em cada situação no processo da construção e da reconstrução da sua identidade (GIDDENS, 2002; BAUMAN, 2005). 20 2.1.2. Constituição da Identidade Nesta seção será apresentado o processo de constituição e administração da identidade e seus aspectos de constituição: a nacionalidade, o pertencimento, âncoras sociais, a fluidez das relações sociais e a sociedade fragmentada. Segundo pesquisadores (STETS e BURKE, 2000; GIDDENS, 2002; BAUMAN, 2005; HALL, 2006; SENNET, 2009) o processo de constituição da identidade se dá pela busca contínua do seu “eu” e na composição da sua própria história, que caracteriza como processo de identificação e de enfrentamento do indivíduo em diversos grupos sociais e instituições. De acordo com Bauman (2005) a constituição da identidade surge da ideia imposta de pertencimento e do desejo inicial de fazer parte e pertencer a uma nação, na construção da “identidade nacional” (p. 66). Tanto Bauman (2005) quanto Sennett (2009) consideram a possibilidade, diante da modernidade e de uma “sociedade fragmentada”, de o indivíduo deparar-se com a fluidez e a insegurança das suas relações. O indivíduo vivencia o dilema nas opções de suas “práticas identitárias da liberdade de escolha e a segurança de pertencer (BAUMAN, 2005 p. 84)”. Os autores afirmam a possibilidade do indivíduo constituir a identidade por meio das práticas identitárias(BAUMAN, 2005; HALL,2006; SENNET, 2009), em busca de entidades e comunidades(BAUMAN,2005)e de identidade de classes no trabalho, nas práticas de consumo, à conquista do status social e na sua identificação(GIDDENS,2002). No contexto social, Stets e Burke (2000) defendem a ideia de que identidade social afeta fortemente a identidade do indivíduo: “um grupo social é um conjunto de indivíduos que têm uma identificação social comum, ou se veem como integrantes de uma mesma categoria social” (p. 225). Segundo Giddens (2002), a modernidade e a identidade, o “eu” e a sociedade, estão inter-relacionados num meio global. As transformações do “eu” e da identidade encontram-se por intermédio das instituições modernas e das tradicionais, interferindo em hábitos e costumes que “se entrelaçam de maneira direta com a vida individuale, portanto, com o eu (GIDDENS, 2002, p. 9)”. Ainda segundoBauman (2005) a constituição de identidade surge da ideia forçada de “pertencimento” (p. 17), com base nas “âncoras sociais” (p. 30), nas quais a identificação torna-se cada vez mais importante para os indivíduos. Identifica-se a busca desesperada para ter acesso às entidades e comunidades, sejam elas de etnia, gênero, nacionalidade, religião, 21 profissão dentre outras. Existe, no entanto, a consciência de que essa identificação é imprecisa: “[...] tornamo-nos conscientes de que o pertencimento e a identidade não têm a solidez de uma rocha e não são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e renováveis [...]” (Bauman 2005, p. 17). Segundo Bauman (2005, p. 96) o nosso mundo fluido nos apresenta a condição de que “asidentidadessãoparausareexibir,nãopara armazenaremanter” no nosso dia a dia. As identidades passam por mudanças, mudam as sociedades e também as identidades pessoais e sociais. Considera também que todos nós sofremos de uma certa dependência de âncoras sociais familiares, “parceiros amorosos e amigos” (p. 100) e tememos o abandono. O temor do abandono surge por conta da exclusão, da rejeição e do descarte com a possibilidade de tornar-se “despido daquilo que se é, não ter permissão de ser o que deseja ser” (p.100). Essa realidade nos faz “lançarasâncoras na busca deumasegurançaduradouraeconfiável” (p. 100) nos contextos social e cultural. Pesquisadores consideram que a identidade do indivíduo não se encontra no comportamento, embora considere-o importante nas respostas dos outros, mas a capacidade “de manter em andamento uma narrativa particular” (GIDDENS, 2002, p. 56). Consideram que a administração da identidade é aquilo que se refere à fluidez:“a identidade projeta a imagem e a reputação (IASBECK, 2007; CARRIERI, PAULA E DAVEL, 2008, p. 135)”. Giddens (2002) considera a identidade como a biografia do indivíduo numa interação regular e verdadeira no seu dia a dia. Afirma que o indivíduo “deve integrar continuamente eventos que ocorrem no mundo exterior e classificá-los na “estória” em andamento sobre o eu” (p. 56), na continuidade da auto identidade. Para Giddens (2002) auto identidade consiste no “o eu entendido reflexivamente pelo indivíduo em termos de sua biografia(p. 221)”. Bauman (2005) afirma que as identidades entram em crise, passam por mudanças e mudam as sociedades modernas, ao fragmentarem-se paisagens culturais de classes, gênero, sexualidade, etnia e nacionalidade. Essas mudanças provocam modificações também nas identidades pessoais, e proporcionam “um deslocamento e uma descentralização dos indivíduos” (HALL, 2006 p. 2). Giddens (2002) afirma que os impactos sociais e os acontecimentos das instituições modernas interferem na identidade do indivíduo, na sua “auto identidade”, apresenta um “eu” 22 que não é passivo nesse mecanismo da constituição e da sua administração. Giddens destaca que: “ao enfrentar problemas pessoais, os indivíduos ativamente ajudam a reconstruir o universo da atividade social à sua volta” (GIDDENS 2002, p. 18 e 19). A constituição da identidade é considerada como uma busca contínua do seu “eu” e de escrever a própria história. Para Bauman (2005, p. 49) “[...] a história humana permanece obstinadamente incompleta”. Para Hall (2006) ocorre no processo de identificação uma projeção das identidades culturais e sociais, identificadas por ele como um processo provisório, variável e problemático: “O fato de que projetamos a nós próprios nessas identidades culturais, ao mesmo tempo em que internalizamos seus significados e valores, tornando-os ‘parte de nós’, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural.” (Hall, 2006, p. 11 e 12). A abordagem sociológica percebe o sujeito em confronto com o “processo de reflexividade” para entender a si mesmo e as suas identidades diante do “eu objeto”, fragmentado pelas identidades culturais de classes, gênero, sexualidade e etnia. Consideram o “processo de reflexividade” como um processo de interação social, quando o self emerge de si e reciprocamente torna-se reflexo da sociedade. De acordo com os autores, numa perspectiva sociológica, o indivíduo compreende a si através da sociedade e suas partes, as identidades (STETS e BURKE, 2003b, p. 1).Na busca do reconhecimento de sua identidade e do pertencimento, o sujeito ao sentir o desconforto, trava “guerras individuais ou coletivas (BAUMAN, 2005, p. 45; STETS e BURKE, 2003b; BAUMAN, 2005; HALL, 2006)”. De acordo com a visão da psicologia social, o sujeito na modernidade “busca a individualização, pressupõe uma consciência e um processo reflexivo de socialização” (BENDASSOLLI, 2006, p. 185), em que possui uma noção de “qualidade de vida”, que implica no tempo pessoal, na busca de novos lazeres e novas formas de se relacionar consigo mesmo. “O tempo aqui é o que abre as portas para os tesouros prometidos pela época da vida autodeterminada: diálogo, amizade, diversão, ser si mesmo, compromisso subpolítico – compromisso que é organizado em torno da alimentação, do corpo, sexualidade, da identidade e da defesa da liberdade política.” (Bendassolli, 2006, p. 185). 23 Segundo Giddens (2002, p. 75) a reflexividade do eu é um processo contínuo, em que “cada momento, ou pelo menos a intervalos regulares, o indivíduo é instado à auto interrogarse em termos do que está acontecendo.” Dessa forma, o sujeito levanta as seguintes questões: como posso usar este momento para mudar? Na busca do auto entendimento subordina-se ao objetivo fundamental de construir/reconstruir um sentido de identidade coerente e satisfatório para o próprio sujeito. 2.1.3. Estigma e seu Enfrentamento Diversos ambientes sociais são representados por categorias de pessoas. No cotidiano, as relações sociais são estabelecidas por pessoas, que pertençam a tal categoria. Para Goffman (1988), quando se refere ao estigma e a identidade social, considera-se que os relacionamentos são permitidos para aqueles que não fazem parte da categoria em questão aos seus atributos: “As rotinas de relação social em ambientes estabelecidos nos permitem um relacionamento com ‘outras pessoas’ previstas sem atenção ou reflexão particular. Então, quando um estranho nos é apresentado, os primeiros aspectos nos permitem prever a sua categoria e os seus atributos, a sua ‘identidade social’ (Goffman, 1988, p. 5)”. Segundo Goffman (1988, p. 5) seus atributos tornam-se as evidências para sua categorização. Mas se o atributo for considerado muito diferente, “uma discrepância específica”, como uma fraqueza, uma desvantagem, ele reduz a pessoa, diminuindoa,desacreditando-a. Tal efeito é considerado um estigma. O termo estigma foi criado pelos gregos para se referir a sinais corporais, com os quais preocupava “evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral” daquele que possuía e os apresentava. Bauman (2005) considera tensa a guerra do sujeito pela aprovação popular de suas escolhas e preferências. Considerada a identidade com inflexível quando “a identidade que rejeita aquilo que os outros desejam valoriza o que se deseja”, contrariando os grupos dominantes, e assim considerada estereotipada e estigmatizada (BAUMAN, 2005, p. 45). 24 Segundo Hall (2006), essa seria a dinâmica dos grupos dominantes e as forças coletivas no jogo do poder no processo das escolhas coletivas. No entanto, há indivíduos que confrontam essas forças coletivas quando optam por identidades, pessoas e grupos de seus interesses e preferências, nas suas escolhas individuais. Para Goffman (1988) os estigmatizados buscam recursos de enfrentamento do estigma. Um desses recursos, é quando uma pessoa alcança notoriedade, por mérito, seja por um prêmio ou tornar-se o primeiro de sua categoria. Essa situação leva o sujeito estigmatizado a uma transferência de crédito, de modo que o leva ao “mundo de heróis”. Há, também, um conjunto de indivíduos que os estigmatizados buscam apoio, aqueles que compartilham do seu estigma, e não os consideram diferentes. E também aqueles que são normais, mas simpatizam com a condição e situação especial daqueles estigmatizados de uma determinada categoria: “[...] os que são normais, mas cuja situação especial levou a privar intimamente da vida secreta do indivíduo estigmatizado e a simpatizar com ela, e que gozam, ao mesmo tempo, de uma certa aceitação, uma certa pertinência cortês ao clã.” (Goffman, 1988, p. 27). O enfretamento da condição de estigmatizado proporciona ao indivíduouma aprendizagem.Com isso, acontecem mudanças na construção do seu eu. Há membros de alguns grupos que, ao se destacar, passam a desempenhar um papel especial e são considerados como símbolosdesse grupo. Há também aqueles que desempenham a função cômica, considerados como imaturos para alguns do grupo, mas superam a distância social dos demais.Segundo o autor: “Ele é frequentemente o centro da atenção, que reúne os outros num círculo participante à sua volta, mesmo que isso o despoje do status de ser um participante.” (GOFFMAN, 1988, p. 119). Pelo reconhecimento social, seja individual ou coletivo, são planejadas batalhas em duas frentes pela aceitação da identidade. As frentes dependem da posição conquistada ou atribuída segundo a hierarquia de poder. Uma das frentes “a identidade escolhida e preferida e contraposta, principalmente, as obstinadas sobras das identidades antigas, abandonadas e 25 abominadas, escolhidas ou impostas no passado (BAUMAN, 2005, p. 45)”. A outra frente contraria a primeira, as identidades escolhidas e preferidas são aquelas estereotipadas, estigmatizadas, rotuladas. Muitas são maquinadas por outras identidades, sofrem pressões, enfrentadas por “forças inimigas” e caso vençam a batalha, são repelidas. Ao reivindicar seus direitos assumem um espaço inferior da hierarquia de poder, das imposições culturais e sociais, e tais identidades são classificadas por subclasses (BAUMAN, 2005). 2.1.4. Segurança Ontológica Giddens (2002) fala que a segurança ontológica é uma sensação ancorada cognitiva e emocional por uma “consciência prática”. Essa sensação ocorre nas diversas atividades humanas na vida cotidiana em todas as culturas. Oferece quadros cognitivos de significados e um comprometimento emocional que correspondem um com o outro. Para o comprometimento emocional a confiança, a esperança e a coragem são relevantes. A confiança se apoia na realidade existencial no sentido emocional, e também no cognitivo que “se funda na crença na confiabilidade das pessoas (GIDDENS, 2002)”. Esta confiança baseia-se nas experiências ainda na infância, e é chamada por alguns autores de “confiança básica”, considerada pela experiência na “coragem de ser”: “Os rituais de confiança e comportamento na vida cotidiana, discutidos por Goffman, são muito mais do que maneiras de proteger nossa própria autoestima e a dos outros (ou, quando usados de maneira particular, de atacar ou abalar essa autoestima). Na medida em que dizem respeito à substância básica da interação cotidiana- pelo controle dos gestos do corpo, do rosto e do olhar, e do uso da linguagem – tocam nos aspectos mais básicos da segurança ontológica” (Giddens, 2002, p. 49). Segundo Giddens (2002, p. 53) as relações de confiança de si e nos outros fazem parte do processo de constituição da identidade do sujeito, que inicia na “fé individual”, e a sensação da segurança ontológica. Torna-se para o indivíduo as relações interpessoais a certeza da sua “realidade” nos ambientes sociais em que está inserido. A aceitação e o 26 reconhecimento do outro são considerados as respostas necessárias na sustentação do mundo social. Para Giddens (2002, p. 80) os padrões gerais do estilo de vida são considerados decisões estratégicas no longo prazo. Define estilo de vida como “um conjunto de hábitos e orientações”, importante para a sensação de continuidade da segurança ontológica de um indivíduo. “Alguém que está comprometido com um determinado estilo de vida necessariamente veria várias opções como "inadequadas" a ele ou ela, da mesma forma que veria os outros com quem estivesse em interação. Além disso, a seleção ou criação de estilos de vida é influenciada por pressões de grupo e pela visibilidade de modelos, assim como pelas circunstâncias socioeconômicas.” (Giddens, 2002, p. 80). São elementos da segurança ontológica a aceitação da realidade das coisas e dos outros e a sensação de estabilidade da auto identidade. Esta sensação pressupõe os outros elementos e pode ser sólida e frágil. Sólida para que se possa superar as “principais tensões e transições nos ambientes sociais em que a pessoa se move” e frágil para que “a biografia que o indivíduo reflexivamente tem em mente é só uma estória entre muitas outras estórias potencias que poderiam ser contadas sobre seu desenvolvimento como eu e do auto identidade (GIDDENS, 2002, p. 56)”. 2.2. Identidade de Gênero Pesquisadores definem identidade de gênero como “uma questão de aprendizado [...], ou seja, algo distinto de uma simples extensão de diferenças propostas biologicamente (GIDDENS, 2002 P. 63)”, uma realidade externa e biológica. Identidade de gênero é uma ideia “construída da heterogeneidade, [...] uma elaboração nativa [...] de uma correspondência sociológica,” em que “gênero constrói o sexo” (HEILBORN, 2004 p. 32), uma concepção definida por“afiliações sociais tradicionalmente atribuídas (BAUMAN, 2005 p. 30)”. Pereira (2009) afirma que a identidade de gênero “ilustra uma das várias identidades do indivíduo [...] ao dizer: sou heterossexual ou homossexual(PEREIRA, 2009 p. 62)”. 27 Santos (2013) crítica a visão restrita da identidade sexual ao contexto biológico e ao contexto social dos poderes dominantes: “Esses poderes dominantes [...] fundam-se naquilo que Judith Butler designou por matriz heterossexual em GenderTrouble, e que mais tarde veio a designar por hegemonia heterossexual. A matriz sexual constitui-se pelas normas que regulam os sujeitos de modo a que sexo biológico, identidade sexual e desejo funcionem entre si harmoniosamente, do ponto de vista de uma lógica heterossexual.” (Santos 2013 p. 5). Os interesses da academia norte-americana nos estudos das identidades de gêneros iniciaram-se na década de 1960: “Os estudos sobre gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros são áreas interdisciplinares e que são estudos emergentes na academia norte-americana, após os anos 1960, com o estabelecimento de disciplinas, programas, centros, realização de congressos.” (Lopes, 2008). Hall (2006 p. 45) defende que “[...] o feminismo apelava às mulheres, a política sexual aos gays e lésbicas, as lutas raciais aos negros, o movimento antibelicista aos pacifistas, e assim por diante”. Para Silva (2006) as questões políticas tendem a ser citadas como dados e fatos da vida social, numa posição socialmente aceita. E afirma: “na perspectiva da diversidade, a diferença e a identidade tendem a serem naturalizadas, cristalizadas, essencializadas (SILVA 2006, p. 73)”. Segundo pesquisadores, a identidade cultural é aquela sustentada por crenças, valores sociais e culturais. Para Pereira (2009, p. 17), a sociedade define “os padrões heteronormativos dominantes”. De acordo com Irigaray, Saraiva, Carrieri (2011, p. 894) a sociedade e as organizações tomam como base a “crença na superioridade da orientação heterossexual, que implicaria na exclusão, calculada ou não, de indivíduos não heterossexuais das chamadas políticas públicas.” Para os autores, no ambiente organizacional a cultura prevalece no “incrustamento CARRIERI, 2011, p. 894)”. de valores heterocêntricos(IRIGARAY, SARAIVA, 28 Segundo Pereira (2009 p. 103)“o termo heteronormatividade (do grego hetero, "diferente", e norma, "esquadro" em latim) é utilizado para descrever situações e variações da orientação heterossexual que são marginalizadas, ignoradas ou perseguidas por práticas sociais, crenças ou políticas”.Para o autor, a heteronormatividade tem como base a ideia de que os sujeitos se enquadram somente em duas categorias distintas e complementares como: ‘macho’ e ‘fêmea’. A heterossexualidade “considerada como sendo a única orientação sexual normal (WAGNER, 1991 apud PEREIRA, 2009, p. 103)”. De acordo com Junqueira (2009), a construção da masculinidade, a identidade masculina, é fomentada com base no quadro das normas de gênero e da heteronormatividade, que se configuram no processo dotado de “altas doses de cerceamento, fazendo com que a parte dominante (o elemento masculino) seja ironicamente “dominada por sua própria dominação (JUNQUEIRA, 2009, p. 19)”. Para Hall (2006, p. 45) “o feminismo teve relação mais direta com o descentramento conceitual do sujeito cartesiano e sociológico”. Ele destaca as questões e as reivindicações apresentadas pelo movimento feminista; a clássica distinção entre o "dentro" e o "fora"; a contestação política na vida social, a família, a sexualidade, o trabalho e o cuidado com os filhos; questões do processo de identificação social, como homens/mulheres, mães/pais, filhos/filhas; a expansão de um movimento à contestação da posição social das mulheres com o surgimento das identidades sexuais e de gêneros. 2.2.1. Homossexualidade De acordo com alguns teóricos (FOUCAULT, 1988; PEREIRA 2009; SANTOS, 2013) a homossexualidade historicamente pode ser entendida como a construção social e discursiva sobre o sexo e a sexualidade. A homossexualidade trata da produção de “verdades” (FOUCAULT, 1988), legitimada por categorias antes não existentes, como a identidade sexual e a identidade homossexual, com o intuito de condenar relações sexuais com pessoas do mesmo sexo. Para Santos (2013) os “discursos sobre o comportamento tornaram-se objeto de análise e interpretação por parte de instituições como a medicina, psiquiatria, direito penal” (p. 10). Pereira (2009) considera a homossexualidade como “uma construção discursiva com 29 o objetivo de controlar e encarcerar todos aqueles que nela se encontram (PEREIRA, 2009, p. 68)”. Segundo Pereira (2009) a constituição da identidade homossexual consiste na percepção de si como homossexual diante da situação e do contexto social em que se vive. Pereira considera impossível separar de maneira distinta e categórica “os aspectos individuais da identidade homossexual dos aspectos sociais, pois formam um processo dinâmico (PEREIRA 2009, p. 43)”. Pesquisadores abordam a história social da homossexualidade pela criação da subcultura “gay”. Apresentam a rebelião de Stonewall “Clube Gay” (HISTORY.COM, 2014) em Nova Iorque, como o marco pela luta por respeito e direitos da comunidade gay, em junho de 1969. Naquela época os homossexuais masculinos preferiam não assumir essa condição, ficavam “no armário” (WEINSTEIN 1998), frequentavam somente lugares muito escondidos e aqueles considerados marginais. Apontam ainda que não existia flexibilidade e aceitação à homossexualidade, e que os homossexuais viviam ainda mais segregados. Citam os homossexuais como grupos que compartilham entre si “valores, crenças, significados de uma história de segregação social e estigma” (PEREIRA, 2009, p. 68), considerando a subcultura gay (WEINSTEIN, 1998; LACERDA et al. 2002; JUNQUEIRA, 2009; PEREIRA, 2009). O termo gay, palavra de origem inglesa, significa feliz, alegre e exultante. O vocábulo foi adotado há algum tempo como referência dos direitos humanos, da cidadania e da sexualidade. De acordo com Silva (2007) o objetivo do uso do termo está relacionado à questão da identificação: “O termo gay, que, literalmente, significa felicidade e alegria, surgiu em 1960, nos Estados Unidos e na Europa, e teve como objetivo substituir a denominação médico-legal “homossexual”, que está associada à patologia e ao crime.” (Silva, 2007, p. 81). Diversos são os termos a respeito do tema homossexualidade; autores consideram a separação dos termos entre orientação sexual e gênero, “apoiando-se no dualismo heterossexualidade e homossexualidade, apenas alteraria o valor dos termos, contestando o estigma de anormalidade ou doença atribuído à homossexualidade (CARRARA E SIMÕES, 2007, p. 70)”. Consideram como comentários homofóbicos e pejorativos o uso de termos como “bicha”, “maricas”, “viado”, “morde-fronha”, etc. proferidos em diversas situações e contextos sociais (SILVA, 2012, p. 101). A orientação sexual trata-se do termo utilizado para 30 afetividade e sexualidade e não se refere exclusivamente ao sexo e à opção sexual, por não ter a possibilidade de mudar o seu desejo (CARRARA e SIMÕES, 2007; PINHEIRO, 2014). “Homossexuais são indivíduos que não desejam mudar de sexo, são felizes e sentem prazer com o seu corpo, porém apenas se relacionam com indivíduos do mesmo sexo; trata-se de preferências ou exclusividade na escolha do parceiro do mesmo sexo, seja no gênero masculino ou feminino.” (Silva e Oliveira, 2012, p. 293). De acordo com Pinheiro (2014), no Site Oficial do Projeto Lei – PLC122, a orientação afetivo-sexual considera quatro os termos citados como: os bissexuais aqueles que percebem o desejo pelos dois sexos; os heterossexuais o desejo pelo o sexo oposto; os homossexuais o desejo pelo mesmo sexo e os assexuados são considerados aqueles em que há um desejo afetivo e não sexual. Segue abaixo um quadro que sumariza as possibilidades existentes de orientação sexual e identidade de gênero e os termos (PLC122.COM.BR): 31 Quadro 1: Orientações de Gênero Sexo biológico Gênero psíquico Orientação sexual Como reconhecemos Mulher Feminino Bissexual Mulher bissexual Mulher Feminino Heterossexual Mulher heterossexual Mulher Feminino Homossexual Mulher homossexual Mulher Feminino Assexual Mulher assexual Mulher Masculino Bissexual Homem bissexual Mulher Masculino Heterossexual Homem heterossexual Mulher Masculino Homossexual Homem homossexual Mulher Masculino Assexual Homem assexual Homem Masculino Bissexual Homem bissexual Homem Masculino Heterossexual Homem heterossexual Homem Masculino Homossexual Homem homossexual Homem Masculino Assexual Homem assexual Homem Feminino Bissexual Mulher bissexual Homem Feminino Heterossexual Mulher heterossexual Homem Feminino Homossexual Mulher homossexual Homem Feminino Assexual Mulher assexual Fonte: Elaborada por Lívia R. Pinheiro - PLC 122 (Site Oficial) Segundo pesquisadores, a constituição da identidade homossexual faz parte de um processo, de estágios e fases de identificação (STETS E BURKE, 2000; GIDDENS 2002), por um rito de passagem (VAN GENNEP, 1978;PEREIRA, AYROSA e OJIMA, 2005) por escolhas e pertencimento (BAUMAN, 2005). Perante esse processo de constituição da identidade homossexual o sujeito gay declara abertamente ou não sua homossexualidade e orientação sexual diante da sociedade. São consideradas categorias que expressam a revelação da identidade gay: “dentro do armário”, ocultação (DINIZ et al., 2013) e encobrimento da 32 identidade homossexual (PEREIRA, 2009 p. 49) da identidade homossexual, “saída do armário” e “fora do armário”, a revelação da orientação sexual (FERREIRA, 2007 p. 13), “momento no qual aprende os valores e os comportamentos da cultura gaye assume a sua identidade homossexual (PEREIRA, 2009 p. 49; FERREIRA, 2007; IRIGARAY, 2007)”. A identidade homossexual, historicamente, é marcada por crenças e teorias científicas equivocadas, por lutas e movimentos sociais e pela estigmatização. Hoje, constituída por indivíduos que lidam no seu cotidiano com o silêncio, o medo e práticas discriminatórias (PEREIRA, 2009; IRIGARAY, SARAIVA e CARRIERI,2011). Irigaray (2007) e Irigaray, Saraiva e Carrieri, (2011) levantam a questão do que é ser gay, ao apontar essa condição como estereótipo socialmente construído, a fonte da angústia, a ruptura do mundo conhecido e tradicional, de uma vida socialmente aprendida, internalizada na sua história de vida. “Ser gay passa a significar, também, uma ampliação dos graus de liberdade, comprometimento ou rompimento com comportamentos estereotipados, impondo aos indivíduos uma multiplicidade de situações de vida e expectativas de comportamentos conflitantes, os quais sobrecarregam com novas realizações de coordenação e de integração social, fontes de inquietação e angústia.” (Irigaray, Saraiva e Carrieri, 2011, p. 902). Segundo autores, alguns gays hesitam em assumir publicamente sua identidade em alguns ambientes considerados heterossexuais, como o ambiente organizacional (IRIGARAY, 2007; IRIGARAY, SARAIVA e CARRIERI, 2011). 33 2.3. Identidade e Trabalho O trabalho, para Marx (1974), se inicia da “força de trabalho”, comprada, consumida. Alerta-nos que o trabalhador é percebido como “mercadoria”: “Para o trabalho reaparecer em mercadorias, tem de ser empregado em valores-de-uso, em coisas que sirvam para satisfazer necessidades de qualquer natureza. O que o capitalista determina ao trabalhador produzir é, portanto um valor-de-uso particular, um artigo especificado. A produção de valores-de-uso muda sua natureza geral por ser levada a cabo em benefício do capitalista ou estar sob seu controle. Por isso, temos inicialmente de considerar o processo de trabalho à parte de qualquer estrutura social determinada.” (Marx, O Capital. 1974, v. 1, seção: 1). Segundo Dejours (2007, p. 17) o trabalho permeia do sofrimento à promessa de felicidade. Os indivíduos “paulatinamente dissociam o sofrimento à perda do trabalho” e à insegurança e buscam associar o trabalho à esperança, à melhoria, à felicidade e à segurança. Para Mendes (2007), no contexto de trabalho, o sofrimento torna-se muitas vezes invisível, banalizado, ignorado e oculto, “advindos das impossibilidades de negociação” (2007, p. 2) diante dos conflitos e das adversidades existentes. Segundo a abordagem da psicodinâmica do trabalho, são utilizadas estratégias para que o sofrimento seja amenizado ou combatido, as chamadas estratégias defensivas e de mobilização coletiva. Em destaque a primeira estratégia em que a negação torna-se um dos mecanismos: “As estratégias defensivas são mecanismos de negação e racionalização da realidade de trabalho que faz sofrer. Caracterizam-se pela naturalização do sofrimento e das injustiças que os trabalhadores padecem e dos fracassos no trabalho. A racionalização compõe justificativas socialmente valorizadas para explicar situações desconfortáveis, desagradáveis e dolorosas [...] Nesse caso, os conflitos são negados, disfarçados e minimizados, pois, resolvê-los implica em muitos, como exemplo, a perda de uma função ou do posto de trabalho.” (Mendes, 2007, p. 3). Os trabalhadores buscam o reconhecimento por meio das suas atividades exercidas profissionalmente e de suas ações produtivas. Os processos identificatórios dos trabalhadores permite compreender o trabalho para o trabalhador, como parte do seu ciclo de vida e 34 elemento que constitui a subjetividade humana e a sua identidade. Autores consideram a atividade de trabalho como uma ação constituinte da identidade social e reconhecem a relação entre trabalho e identidade. A constituição da identidade do profissional predomina o vínculo do ser humano, do sujeito a uma atividade laborativa, que leva em consideração o contexto das características, das implicações dessa atividade no seu sistema identitário (KRAWULSKI, 2004; COUTINHO, KRAWULSKI e SOARES, 2007). Para Giddens (2002, p. 79) a modernidade apresenta para o indivíduo a tarefa de optar, selecionar na “complexa variedade de escolhas”. Segundo o autor, o trabalho se encontra na “arena das escolhas plurais” (GIDDENS, 2002 p. 80), tais como a escolha de trabalho e do ambiente de trabalho, considerados elementos básicos de orientação e da constituição do estilo de vida. De acordo com Bauman (2005 p. 51), no passado o trabalho determinava a solidez da “identidade fundamentalmente pelo papel produtivo” no campo social do trabalho. Hoje, os “habitantes do mundo líquido” (BAUMAN, 2005, p. 32) buscam, constroem e mantêm-se as referências de identidade em pleno movimento e em alta velocidade. Para o autor, esses habitantes buscam essa identidade e deparam-se com a insegurança das relações sociais e o “local de trabalho flexível” (BAUMAN, 2005, p. 36), mas anseiam por segurança, relacionamentos e pertencimento, no local de trabalho. Pesquisadores abordam o trabalho pelos aspectos sociais, psicológicos e culturais. Consideram, dessa maneira, o ambiente como “a esfera do trabalho dominada pela compulsão econômica [...] e por estilos de comportamentos (GIDDENS, 2002, p. 80)”. Para Antunes (2005) o trabalho “permanece como referência central, não só em sua dimensão econômica, mas também quando se concebe o trabalho em seu universo psicológico, cultural e simbólico (ANTUNES, 2005, p. 13)”. Bauman (2005, p. 36) considera o local de trabalho como um dos ambientes em que o “status social” pode ser definido em relação às regras de comportamento e ética. Sennett (2009) cita “o comportamento que traz o sucesso ou mesmo apenas a sobrevivência no trabalho” (SENNETT, 2009, p. 27). Segundo Barbosa e Campbell (2006 p. 21) nas sociedades contemporâneas “o trabalho é considerado como fonte de criatividade, auto expressão e identidade”, Para Dejours (2007, p. 141) o trabalho é considerado como “mediador” da dinâmica da realização do eu com o reconhecimento do trabalho. Esse reconhecimento conduz e “reconduz o sujeito ao plano da sua construção da identidade (p. 34)”. Bendassolli (2006) considera que os sujeitos são levados a se descrever por meio do trabalho e pelo consumo, seja nos aspectos do sistema “socializatório” e também no enquadre 35 econômico das sociedades, em função do acesso à renda e por viver em uma sociedade de consumo, simbolizados pela posse e pelo status conquistado. O trabalho favorece a construção da identidade individual e também coletiva (SENNETT, 2009 p. 87). Os significados e o sentido do trabalho são, para o sujeito, elementos que incidem na construção da sua identidade, identidade coletiva e sua subjetividade (GAULEJAC, 2007; DEJOURS, 2007; SENNETT, 2009). 2.3.1. Identidade Coletiva no Trabalho A construção da identidade coletiva se faz também dos significados e do sentido do trabalho. Para Silva e Schmidt (2008) a identidade no trabalho se relaciona com o desenvolvimento de papeis no processo da construção da identidade: “A identidade no trabalho se dá pela identificação, por parte do indivíduo, com o trabalho que realiza, com a empresa em que trabalha e com a trajetória desta, processando-se nos níveis afetivo e cognitivo. Em termos cognitivos, assimilando a mentalidade do grupo de que faz parte, das regras e normas, e, em termos afetivos, estabelecendo relações com as pessoas deste grupo.” (Silva e Schmidt, 2008, p. 2). Para Gaulejac (2007), na busca por uma identidade, o trabalho favorece o sentido para o indivíduo e com o sentimento de pertencimento no coletivo. A identidade coletiva torna-se constituída pela cultura local, por uma nova moral social apresentada para o trabalhador. Gaulejac (2007, p. 157) defende que “o trabalho tem sido visto como algo que dá o sentimento de contribuir para umaobra coletiva e que cada atividade tem um fim fora de si mesmo”. Para Sennett (2009) aflexibilização mudou o sentido do trabalho. A flexibilidade resgata a palavra trabalho, job no sentido de simbolizar as pessoas em blocos, trabalhos por parte no percurso da sua vida. A realidade do “trabalho flexível” (SENNETT, 2009, p. 133) está em não permanecer por muito tempo no mesmo local. Os trabalhadores, ao enfrentarem o local de trabalho flexível, deparam-se com a necessidade de um “rápido estudo de novas relações e de novas pessoas (SENNETT, 2009, p. 133)”. Teóricos apontam as relações existentes na modernidade e os seus desafios no trabalho, em que os sujeitos buscam manter-se numa “relação social fundada na propriedade 36 privada [...] como um ser social que atua como homem que se perdeu a si mesmo, desumanizado (ANTUNES 2005 p. 71)”. Para eles, os sujeitos encontraram-se “nas associações em cadeia por divisões categóricas de grupos” (SENETT, 2009, p. 87) no seu local de trabalho e nas sociedades fragmentadas (ANTUNES, 2005; SENETT, 2009). 2.3.2. Identidade e a Organização A organização se constitui por identidades múltiplas, abrandem aos níveis interno e externo com as identidades sociais, a identidade das pessoas, do trabalho e a identidade organizacional. Pesquisadores dos estudos organizacionais consideram que uma organização tem a possibilidade de múltiplas identidades por evidências empíricas. Estudam como ocorre a diferenciação dessas identidades e as suas implicações. De acordo com Silva e Schmidt (2008, p. 2 e 3) são alguns fatores que constituem as identidades organizacionais, como: “(I) a natureza da identidade organizacional; (II) as discrepâncias entre as identidades bases mais visíveis; (III) a base para a mudança da identidade organizacional; e (IV) o modo como a mudança de identidade pode ser implementada.” Segundo Fernandes (2009) diversos autores consideram que a identificação ocorre a partir da percepção que esse sujeito tem da organização em que trabalha. O sujeito se categoriza como “membro” da organização e a diferencia das demais organizações. E que tal processo de reconhecimento como membro tem significados “de fonte de prestígio, segurança e satisfação, afetando auto definição e autoestima”. Amplia-se o interesse dos teóricos organizacionais em estudar as relações da identificação das pessoas com as organizações, como um processo identificatório. A identificação ocorre quando as crenças e os valores da organização em que o sujeito trabalha tornam-se referências para a sua identidade (FERNANDES, MARQUES e ROCHA 2009). 2.4. Identidade Homossexuale Trabalho Segundo Irigaray, Saraiva e Carrieri (2011), o homossexual busca meios estratégicos de sobrevivência no trabalho, tais como: 37 “[...] inúmeras estratégias de sobrevivência, que variam desde a explicitação da orientação sexual em todas as dimensões sociais (família e trabalho), em apenas algumas (círculo de amigos mais próximos), até a sua ocultação em todos os espectros de sua vida em sociedade.” (Irigaray, Saraiva e Carrieri, 2011, p. 894). Para Siqueira et al. (2009, p. 450) o trabalhador homossexual enfrenta a dúvida e o conflito de revelar a sua orientação sexual. Sua condição depende de alguns fatores como a sua postura fora do trabalho, na vida familiar, na relação com amigos e na comunidade a que pertence. Para Pereira (2009) a revelação da identidade homossexual depende do contexto social em que o indivíduo está, inclusive no trabalho: “Essa categorização identitária serve não só como fonte de classificação, mas também de avaliação por parte das outras pessoas e a sua ativação, ou revelação, dependendo do contexto. Um indivíduo que se classifica na categoria de homossexual ativa essa identidade homossexual numa situação social específica, como uma parada gay, e a deixa dormente em outras situações, como no ambiente de trabalho.” (Pereira, 2009, p. 43). Segundo Giddens (2002, p. 77) o indivíduo enfrenta riscos no processo de ruptura com “os padrões estabelecidos de comportamento”. Alguns autores destacam as dificuldades enfrentadas pelos homossexuais no trabalho como discriminação, homofobia, estereótipos negativos e o estigma social. São considerados como “um alvo das atitudes discriminatórias ao longo da história” (IRIGARY, 2007, p. 2), além de condenados ao isolamento e ao confinamento (FERREIRA, 2007; IRIGARAY, 2007; SIQUEIRA et al., 2009). Para Irigaray (2007 p. 2) o ambiente organizacional materializou-se como espaço heterogêneo onde convivem “indivíduos de diferentes sexos, etnias, religiões e orientações sexuais”. Considera, ainda, a diversidade da força de trabalho definida como a sustentação da teoria da identidade social. A diversidade nas organizações é tema abordado por acadêmicos das ciências sociais, nos campos de estudos das organizações e por entidades que se dedicam à responsabilidade social como o Instituto Ethos (2000), que elaborou e publicou um manual chamado “Como as Empresas podem (e devem) valorizar a diversidade”, com o objetivo de incentivar práticas socialmente responsáveis: 38 “[...] pretende-se contribuir para a discussão do tema e estimular a implementação de iniciativas corporativas de valorização da diversidade que tenham como meta enfrentar os preconceitos no ambiente de trabalho e no âmbito das relações empresariais.” (Instituto Ethos, 2000). A política de diversidade nas organizações brasileiras é desenvolvida e divulgada em ambientes virtuais, nos códigos de ética e nos programas da área de gestão de pessoas e gestão de recursos humanos. Neles, somente exibe-se a garantia da representatividade dos diferentes públicos, nas questões de etnia, cor da pele, nacionalidade, idade, religião, gênero, orientação sexual, estética pessoal, condição física e mental, além do estado civil (IRIGARAY, SARAIVA e CARRIERI, 2011, p. 894; DINIZ et al., 2013).Segundo Pereira (2009), “o sair do armário” é considerado como um rito de passagem(VAN GENNEP, 1909; PEREIRA, AYROSA e OJIMA, 2005, p. 6) e um processo importante na construção da identidade homossexual. O processo do rito de passagem envolve: “[...] uma crescente aceitação dessa identidade como parte do autoconceito do indivíduo; e finalmente, uma revelação progressiva de um status social [...] para vários públicos: amigos, família, outros gays e a sociedade.” (Pereira, 2009, p. 51). O processo de construção da identidade homossexual influencia no modo de vida do sujeito homossexual, como ele se sente e como consome. Destacam, também, o papel central na construção da identidade gay e para o enfrentamento do estigma vivido na sociedade (PEREIRA, 2009). 2.5. Trabalho e Consumo Pesquisadores abordam os temas trabalho e consumo no processo da construção das identidades do sujeito, nos estilos de vida e comportamento, e do status social. De acordo com Giddens (2002) o estilo de vida no trabalho e no consumo fala a respeito da construção e reconstrução do auto identidade do sujeito. 39 “Pensa-se muitas vezes que a noção de estilo de vida só se aplica especificamente à área do consumo. É verdade que a esfera do trabalho é dominada pela compulsão econômica e que estilos de comportamento no local do trabalho estão menos sujeitos ao controle do indivíduo do que em contextos extratrabalho. Mas embora esses contrastes claramente existam, seria incorreto supor que o estilo de vida só diz respeito a atividades extratrabalho.”(Giddens, 2002, p. 80). Para Bendassolli (2006) os sujeitos são levados a se descrever pelo trabalho, nos aspectos do sistema socializatório e no enquadre econômico-burguês das sociedades. “[...] aprendemos a ser indivíduos fazendo referência ao sujeito do trabalho. Na medida em que o trabalho é a via preferencial do acesso à renda, e na medida em que vivemos em sociedade de consumo nas quais os símbolos de status estão associados à posse de mercadorias, temos aqui um círculo vicioso.” (Bendassolli, 2006, p. 34). Segundo Nunes (2007), para os jovens, sujeitos de sua pesquisa, o consumo assume um papel importante na construção de suas identidades sociais, mais do que o trabalho: “[...] Enquanto tal, o consumo adquire significados distintos em razão desses usos distintos que se possa dar ao bem. Entre jovens, isso é praticamente regra geral: o consumo oferece visibilidade diante do grupo e cria identidades sociais, refletidas, por exemplo, no uso de produtos da moda, grifes, etc. Como se percebe: ficar sem trabalho não é tão grave como ficar sem consumir.” (Nunes, 2007, p. 668). Os estilos de vida, os padrões de vida, as multiplicidades de signos culturais, o trabalho e as práticas de consumo dos sujeitos são estímulos e referências visíveis do alcance do status desejado e na construção da identidade (GIDDENS, 2002; BENDASSOLLI, 2006; NUNES, 2007). 40 2.6. Consumo Serão apresentados, nesta seção, questões referentesàs contribuições do Consumo da Teoria da Cultura do Consumo (CCT); Consumo e a Constituição da Identidade; Consumo e Identidade Homossexual e os subtemas Significado Simbólico de Posses e o Subcultura e Mercados do Consumo. 2.6.1. Teoria da Cultura do Consumo (CCT) A Teoria da Cultura e do Consumo (CCT) é considerada como o conjunto de perspectivas teóricas que abordam as relações dinâmicas entre o consumo, o mercado, os símbolos e os significados culturais. Destaca-se a Teoria da Cultura e do Consumo como “a expansão da produção capitalista de mercadorias” (FEATHERSONE, 1995 p. 31). Pinto e Lara (2009) chamam atenção para a forte ligação entre cultura e consumo, no qual “o consumo é moldado em todos os seus sentidos por considerações culturais” (PINTO e LARA 2009 p. 8). Segundo Feathersone (1995, p. 31) são três perspectivas de estudo sobre a cultura e consumo: a primeira concepção, a expansão da produção capitalista, que resultou na acumulação cultural de bens e consumo; a segunda concepção, a relação entre a satisfação e a ascensão social proporcionada pelos bens; a terceira concepção, a questão da emoção no consumo, “desejos celebrados no imaginário cultural”. As atividades de consumo são consideradas os fenômenos de análise da cultura e consumo. O autor critica sociedade de consumo quando ela apresenta os resultados de “igualitarismo e liberdade individual” e considera os fenômenos de consumo como “alimentadores da capacidade de manipulação ideológica de sedutor e do controle da população (FEATHERSONE, 1995, p. 31)”. Numa concepção sociológica, o percebe como a relação entre a satisfação por meio dos bens e serviços consumidos e o acesso à condição privilegiada na pirâmide social e pelo status. Arnould e Thompson (2005) afirmam que a raiz histórica da Teoria da Cultura e do Consumo (CCT) foi ampliada em sua linha de pesquisa para analisar as dimensões sociais e culturais do consumo e seu contexto. Os estudos têm o interesse nas práticas de consumo por meio dos significados, símbolos codificados por anúncios, marcas e bens materiais oferecidos pelo mercado. Tais recursos são utilizados pelo mercado para manifestar as 41 particularidades pessoais do consumidor no contexto sociocultural, as metas de estilo de vida e a construção das identidades individuais e coletivas. Para Slater (2001) os valores definidos pela sociedade por meio do consumo invadem os domínios da ação social, “porque o próprio consumo se torna um foco crucial da vida social (p. 32)”. “A cultura do consumo é marcada por esse sentido duplo da privacidade e suas relações com escolhas e liberdade: o aumento do poder do indivíduo, o significado, o investimento no futuro, a identidade, etc. e estão intimamente ligados a uma área restrita da vida.” (Slater, 2001. p. 35). McCracken (2003) considera bens e serviços adquiridos no mundo do consumo como significados, representados por categorias e princípios culturais. Os bens e serviços fazem parte do sistema de práticas para grupos e indivíduos e são “a base material em que se constrói a cultura” (PEREIRA 2009 p. 52), definem o estilo de vida e identidades (GIDDENS 2002; BARBOSA e CAMPBELL 2006) e a relação da satisfação por meio e o alcance do status social (FEATHERSONE, 1995, p. 31). 2.7. Consumo e Identidade Nesta seção, os temas relacionados são a Constituição da Identidade no Consumo; Consumo e a Identidade Gênero Homossexual; Significado Simbólico de Posses; Subcultura Gay e Mercados de Consumo. 2.7.1. Constituição da Identidade no Consumo Pesquisadores (BAUMAN 2005; AYROSA, FIGALE e TUCCI 2008; PEREIRA 2009) consideram a relevância do consumo na constituiçãoda identidade. O indivíduo utiliza das práticas de consumo para se identificar com os grupos a que pertencem e, assim, alcançar posição privilegiada na escala social. Comportamentos como “o que come, o que bebe, onde 42 mora, o meio de transporte que utiliza e demais itens” (BAUMAN 2005, p. 24) são considerados fatores sociais na constituição da identidade, que revelam quem somos. Para Giddens (2002, p. 80), os estilos de vida e a condição social e o status não se aplicam somente ao consumo. O autor considera como práticas cotidianas os hábitos comuns e as atividades “rotinizadas” como os “de vestir, comer, modos de agir e lugares preferidos”. Afirma ser o estilo de vida o reflexo da autoidentidade do indivíduo. Segundo Barbosa e Campbell (2006, p. 11) os espaços de consumo são percebidos como “palcos nos quais transitam as múltiplas identidades do homem contemporâneo por bens e serviços que consomem e tem acesso”. Para Pereira (2009) ocorreram profundas transformações sociais por meio da globalização, da supremacia das multinacionais e do uso de recursos, como: “Os meios de comunicação de massa, as novas mídias como a Internet, além das consequentes mudanças da denominada pósmodernidade, como o individualismo exacerbado, o impulso de realização pessoal por meio do auto expressão, a busca de segurança e identidades coletivas.” (Pereira, 2009, p. 53 e 54). Pinto e Lara (2009, p. 1) destacam a perspectiva do estudo do consumo e das variáveis pesquisadas. O autor defende os estudos realizados, por considerar que os consumidores utilizam uma série de variáveis para adquirir bens e serviços: os sentimentos, as emoções, “o significado do simbolismo no consumo, a necessidade de buscar o divertimento e o prazer”, na constituição das identidades, no posicionamento no espaço social, na percepção de pertencimento em grupos, na declaração de gênero e de etnia e ainda no “celebrar ou superar passagens”. 2.7.2. Consumo e Identidade Homossexual Pereira (2009) identifica os significados simbólicos das posses que emergem no processo da constituição da identidade homossexual. De acordo com o autor, a posse de bens e serviços vincula o indivíduo ao mundo social e aos grupos a que pertence. O autor afirma 43 que “quando um indivíduo ostenta objetos relacionados simbolicamente a algum grupo social, declara ser membro daquele grupo em contraste a outros grupos (PEREIRA, 2009 p. 64)”. De acordo com Giddens (2002), ao investigar identidades de gêneros, pesquisadores analisam a relação do consumo, das posses e da identidade social. Para o autor, esses fenômenos estão interligados aos objetos que são utilizados e o posicionamento de quem os consome. Ele afirma que “a roupa continua sendo um instrumento de sinalização do gênero, da posição de classe e do status ocupacional (GIDDENS, 2002, p. 96)”. 2.7.3. Significado Simbólico de Posses Segundo Belk (1988), as possesdo indivíduo são componentes importantes da extensão do self, por fazerem parte de todos nós. O autor considera que no coletivo, a constituição do self pelas posses e seus significados assumem a relação do indivíduo com os objetos dele e também com os grupos em que estiver inserido. Segundo Pereira (2009 p. 135) o “significado simbólico dos bens é utilizado como discurso”, que serve para construir a identidade homossexual do sujeito e também o considera como “uma ponte de comunicação entre esses dois mundos”, o mundo gay e o mundo heterossexual. 2.7.4. Subcultura Gay e os Mercados de Consumo As subculturas surgem a partir de subgrupos de uma sociedade, por meio de membros que compartilham interesses, produtos, marcas ou atividade de consumo específica. “Esses grupos têm (I) uma estrutura social hierárquica identificável; (2) um conjunto de crenças ou valores compartilhados; e (3) jargão, rituais e modos de expressão simbólica singulares (HAWKINS, MOTHERSBAUGH e BEST, 2007, p. 73)”. O consumo dos gays, na relação com os diversos ambientes, entre a distinção simbólica por espaços que se consagram por meios de certas atividades que acontecem na sociedade de consumo, nos shopping centers, como, por exemplo “catedrais de consumo”, (PEREIRA, 2009, p. 125) e que simbolicamente são atribuídos os significados normalmente atrelados à cultura gay, como produtos, pertences e ambientes (PEREIRA, 2009, p. 102). 44 Pesquisas indicam que há grandes investimentos em mercados globais direcionados ao público gay como boates, cafés, bares, vestuários e turismo (PEREIRA, 2009; BELK, 2011). Busca-se estudar cada vez mais o perfil do consumidor homossexual no campo estudo de consumo, uma vez que pesquisas apontam o crescimento exponencial do mercado gay (PEREIRA, 2009). Autores (IRIGARAY 2007; FERREIRA, 2007; PEREIRA, 2009; IRIGARAY, SARAIVA e CARRIERI, 2011) consideram que existe premência de crescimento e inserção do público gay tanto no trabalho como no consumo. A revista Exame (2014) publicou: “Como aproveitar o potencial de consumo dos gays”. O texto descreve as buscas e o interesse dos casais homossexuais e também de solteiros pelo segmento de turismo. Destaca, ainda, que esse segmento de consumidores já corresponde à parte significativa do faturamento das agências de turismo e revela o aumento na demanda desse público a cada ano. Entender a organização social do universo gay, para Pereira (2009, p. 138), é decisivo para compreensão da construção da identidade homossexual. O autor considera que o emergente “consumidor gay e o mercado gay, como um consumo específico” é um ponto importante para a construção de “um estilo de vida e de uma expressão social”. 45 3. Percurso Metodológico Esta pesquisa baseou-se em uma pesquisa qualitativa com homossexuais masculinos, empregados em organizações públicas e privadas localizadas na região metropolitana dos estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo. 3.1. Coleta de Dados Para obtenção dos dados elegeu-se o método de análise da narrativa de histórias de vida dos entrevistados. Os dados foram coletados com base em entrevistas narrativas, não estruturadas e em profundidade, com ênfase na história de vida dos sujeitos (BAUER e GASKELL, 2002). A entrevista narrativa permite ilustrar cenários sociais, o indivíduo inserido no espaço social e também na sua história (SARAIVA, 2007). De acordo com Bauer e Gaskell (2002, p. 93), a entrevista narrativa tem o objetivo de encorajar e estimular o entrevistado a explicitar a história dele, “o acontecimento importante de sua vida e do contexto social”. A técnica sugere uma sistematização e tem a ideia básica de reconstruir os acontecimentos sociais. Segundo Saraiva (2007) a entrevista narrativa permite ilustrar cenários sociais, o indivíduo no social e na sua história: “O homem é colocado no centro do processo, e não se procura disfarçar a sua presença, invocando argumentos como ‘neutralidade’, ‘objetividade’ e assemelhados, uma vez que se parte da perspectiva de que a realidade só existe por causa dele (e para ele) e não à sua revelia.” (Saraiva, 2007, p. 120). Para Saraiva (2007, p. 122), no entanto, o método narrativo utilizado por uma concepção do interpretacionismo leva em consideração como “os indivíduos constroem interpretações da realidade.” Por uma perspectiva humanista, por meio da história do homem investigado. Segundo o autor, o método narrativo e a sua análise da entrevista narrativa somente são considerados na referência subjetiva do pesquisador. 46 3.2. Sujeitos de Pesquisa Os sujeitos desta pesquisa foram homens que se declaram gays e assumem sua identidade de gênero homossexual no ambiente organizacional. Foram considerados, portanto, aqueles que não escondem a sua orientação sexual em nenhuma dimensão da vida social. Foram entrevistados 15 homossexuais masculinos no trabalho, jovens e adultos de 20 a 50 anos de idade, moradores do estado do Rio de Janeiro. Tratam-se de profissionais de atividades diversas, como engenheiro, enfermeiro, administrador, assistente social, publicitário, jornalista e outras. Empregados em organizações públicas e privadas de diversos segmentos, nacionais e multinacionais localizadas nas cidades do Rio de Janeiro e no Espirito Santo. Tratam-se de profissionais de atividades diversas, como engenheiro, enfermeiro, administrador, assistente social, publicitário, jornalista e outras. Exercem funções administrativas, acadêmicas e especializadas, nas posições hierárquicas entre auxiliar, técnica e gerencial nas organizações. O quadro abaixo mostra o perfil dos entrevistados: 47 Quadro 2: Perfil dos Sujeitos Entrevistados Perfil dos Entrevistados Entrevistados A B C D E Formação Atuação Engenheiro Civil e Mestrado Coordenador e docente na área em Engenharia de Segurança da Sergurança do Trabalho do Trabalho Organização Tipo da Organização Idade Região que mora Casado ou s olteiro Empresa Nacional de Ensino Profissional Privada 46 Zona Oeste Casado 22 Leste Fluminense Casado 21 Zona Norte Casado 40 Zona Norte Casado 38 Zona Norte Casado Instituição pública da Graduando em Comunicação Prestador de serviço na área da Secretaria do Estado Meio Pública Social Educação Ambiental Ambiente Auxiliar Administrativo na área Empresa Multinacional Ensino médio completo Privada de Boletos Recuperadora de Crédito (1) Instituição pública de (1) Enfermeiro na área da Saúde do Estado; (2) Enfermeiro Saúde; (2) Assessor técnico na Pública e Privada Empresa de material área Comercial Médico - Hospitalar (1) Instituição pública de (1) Enfermeiro chefe na área da Enfermeiro e Doutorando em Saúde do Múnicpio; (2) Oncologia; (2) Docente do Pública Enfermagem Universidade Pública de programa de pós graduação Ensino Federal F Administrador Gestor na área de serviço de assistência hospitalar residêncial Empresa prestadora de serviço de Home Care Privada 45 Zona Norte Casado G Jornalista Técnico administrativo na área de pagamentos Universidade pública de Ensino Federal Pública 34 Zona Norte Solteiro H Graduando em Economia Técnico administrativo na área de pagamentos Universidade pública de Ensino Federal Pública 20 Zona Norte Solteiro I Assistente Social Gestor de Projetos na área de Direitos Humanos (1) Instituição pública de Secretária do Município de Pública e Privada Direitos Humanos; (2) Empresa de ensino 28 Zona Norte Casado J Tecnólogo em Gestão de Marketing e Bacharelado em Artes Cênicas Gestor da Cultura Empresa Nacional de Serviço Social da Indústria Privada 42 Zona Norte Casado L Graduando em Pedagogia Assistente Administrativo Privada 23 M Graduando em Gestão de RH Gerente de Fast food Privada 23 N Geografo e pósgraduado em Gestão Ambiental e Gestão de Recursos Hídricos Coordenador de Estudos e Projetos Secretária Municipal de Meio Ambiente Público 50 Baixada Fluminense Casado O Publicitário Tecnico Judiciário Tribunal Regional Federal Público 40 Zona Norte Solteiro P Tecnólogo em Gestão de RH e Pósgraduado em Administração da Qualidade Analista Comercial Empresa de Container e Módulos habitáveis Privado 28 Zona Norte Solteiro Empresa Multinacional do Setor de Gás Empresa Nacional de Fast food Baixada Fluminense Baixada Fluminense Solteiro Solteiro 48 3.3. Método de Pesquisa O método de análise das narrativas de vida dos sujeitos entrevistados tomou como basecategorias inicialmente predefinidas no referencial teórico e nas categorias emergentes das entrevistas realizadas. Assim, estão relacionadas com os objetivos desta pesquisa. Os objetivos desta pesquisa, portanto, são descrever o processo da constituição da identidade do homossexual masculino no ambiente organizacional; e identificar, com base na narrativa de homossexuais no trabalho, como o consumo se articula com a administração da identidade homossexual no trabalho. 3.3.1. Análise dos Dados A construção do quadro de análise dos dados baseou-sena pergunta e nos objetivos desta pesquisa, a saber: uma vez reconhecida a importância do consumo na constituição e na administração da identidade, de que forma o consumo se articula na com a constituição e a administração da identidade homossexual assumida no trabalho? A análise seguiu o seguinte percurso: (I) foi feita a leitura das 15 entrevistas transcritas e a codificação dos trechos das narrativas, pelo software Atlas.ti 6.0; (II) foram codificados os trechos considerados relevantes para a pesquisa, produzindo um total de 75 códigos (incluídas aí as categorias a priori e as categorias emergentes); (III) realizou-se uma releitura, com propósito de identificar pontos convergentes nos trechos das entrevistas e as narrativas que respondam a pergunta e os objetivos da pesquisa; (IV) foi feito um agrupamento dos 55 códigos em famílias relativas às categorias Identidade, Trabalho, Cultura de Consumo, Estigma, e Segurança Ontológica. A análise das narrativas foi realizada a partir das categorias a priori (predefinidas com base no referencial teórico e nos objetivos), assim como das categorias emergentes (baseadas nas entrevistas narrativas, no referencial teórico e objetivos). No Quadro 3 serão apresentadas as definições constitutivas e operacionais das categorias a priori da análise. 49 Quadro 3: Definições Constitutiva e Operacional das Categorias a priori de Análise Categorias Identidade Trabalho Cultura de Consumo Estigma Segurança Ontológica Definição Constitutiva Definição operacional Consiste na busca contínua do seu "eu", do sentimento de pertencimento, pela autoexpressão por símbolos e significados nos grupos e comunidades, no trabalho e fora dele (BAUMAN, 2005). O processo consiste na percepção de si como homossexual diante da situação e do seu contexto social (PEREIRA, 2009). A pesquisa será operacionalizada através da narrativa do sujeito na identificação daconstituição da identidade por meio das práticas identitárias, na busca pertencer a grupos e instituições, no trabalho e na prática de consumo à conquista da sua identificação e o status social. A pesquisa foi operacionalizada através da narrativa do sujeito na identificação do reconhecimento das atividades no trabalho, da ascensão profissional, do seu estilo de vida e o status alcançado. A pesquisa foi operacionalizada através da narrativa do sujeito na identificação do consumo de bens e serviços interligados com os significados simbólicos das posses, o estilo de vida e status alcançado. A pesquisa foi operacionalizada través da narrativa do sujeito na identificação das suas vivências ao lidar com o preconceito, homofobia no trabalho e fora dele e o enfrentamento do estigma. O trabalho é considerado como “mediador” da dinâmica da realização do eu com o reconhecimento do trabalho. Esse reconhecimento conduz e “reconduz o sujeito ao plano da sua construção da identidade” (DEJOURS, 2007). "A cultura de consumo designa um acordo social onde a relação entre a cultura vivida e os recursos, entre os modos de vida significativos e os recursos materiais e simbólicos dos quais dependem, são mediados pelos mercados" (SLATER, 2001, p. 17). A estigmatização do sujeito ocorre quando é considerado possuidor de “[...] atributos que em quase toda a nossa sociedade levam ao descrédito" (GOFFMAN, 2004, p.7). Quanto ao enfrentamento do estigma, consiste no alcance de uma posição de status social nos diversos grupos sociais, reconhecida a sua importância e a confiança nos grupos. (GOFFMAN, 2004; PEREIRA 2009). Consiste no processo de constituição e administração da identidade do sujeito ao assumir atitudes de confiança "em relação as situações, pessoas ou sistemas específicos" (GIDDENS, 2003, p. 25), como uma atitude natural na vida cotidiana. A pesquisa foi operacionalizada através da narrativa do sujeito no momento que assume narrativamente posturas de confiança em determinadas situações e contexto nas atividades da vida cotidiana. As figuras1 a 5 abaixo ilustram a constituição dos códigos agrupados, por famílias. No Quadro 4 ´pode ser examinada a relação entre as famílias e os códigos analíticos. 50 Figura 1: Família Identidade Figura 2: Família Trabalho Figura 3: Família Consumo 51 Figura 4: Família Estigma Figura 5: Família Segurança Ontológica Quadro 4: Famílias de Códigos Analíticos X X X X X X X X X X X X X X X Segurança ontológica X X X X X X X X X X X X X Estigma Ancorado no grupo familiar Assumindo a homossexualidade Discrição Espaço misturado (heterossexual e homossexual) Homossexualidade assumida no trabalho Identificação e projeção Novo modelo de família, como lidar? Ancorado do grupo familiar Ascensão no trabalho Atividade reflexiva Auto percepção Auto preconceito Brincadeiras e aceitação no trabalho Consumo e a relação homoafetiva Coragem de ser e assumir Deseja respeito Dimensões culturais e sociais Discrição Ele ou ela não me aceita Emoção no consumo Enfrentamento do estigma Enfretamento do estigma Escala social e status Espaço misturado (heterossexual e homossexual) Estigma na família Estigma no trabalho Existe preconceito no trabalho Expectativa de ascensão profissional Generalização de comportamento e atitudes Homofobia e preconceito Homossexualidade assumida no trabalho Homossexualidade como condição Identidade coletiva no trabalho Identidade gênero Identidade, estilo e consumo Identificação com o trabalho e profissão Igualitarismo e liberdade individual Mercados de consumo Não percebe preconceito Padrão heteronormativo ou padrão organizacional Pertencimento e âncoras sociais Política interna de aceitação Práticas identitárias Profissão heterossexuais e profissão homossexuais Receio de assumir a homossexualidade Reconhecimento do profissional Relacionamento homoafetivo (família) Religião e estigma Se sente seguro no trabalho Seguro diante das pessoas Significados simbólicos de posses Subcultura gay no consumo Tem que ser profissional Trabalho e consumo Vítima do estigma Cultura de consumo 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21. 22. 23. 24. 25. 26. 27. 28. 29. 30. 31. 32. 33. 34. 35. 36. 37. 38. 39. 40. 41. 42. 43. 44. 45. 46. 47. 48. 49. 50. 51. 52. 53. 54. 55. Trabalho Códigos Identidade 52 X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X 53 4. Análise dos Resultados Este capítulo será composto da análise das entrevistas narrativas, dos trechos mais relevantes dos sujeitos entrevistados, com base nas categorias e de acordo como método de análise de dados descrito no capítulo anterior. A análise tem como propósito responder a questão levantada e os objetivos desta pesquisa:uma vez reconhecida a importância do consumo na constituição e na administração da identidade, de que forma o consumo se articula com a constituição e na administração da identidade homossexual assumida no trabalho? Os objetivos da pesquisa são descrever o processo da constituição da identidade do homossexual masculino no ambiente organizacional, e também identificar, com base na narrativa de homossexuais no trabalho, como o consumo se articula com a administração da identidade homossexual assumida no trabalho. Os sujeitos entrevistados narraram suas histórias de vida, ilustraram com cenários, apresentaram as circunstâncias dos fatos e a sua realidade nos diferentes contextos sociais. Foram identificados pontos de muitas semelhanças pelos temas levantados e pontos considerados divergentes. Na análise, foram levadas em consideração as circunstâncias de vida e o contexto social de cada entrevistado. Abaixo, serão apresentadas a análise das entrevistas; os trechos mais relevantes das narrativas dos sujeitos com base nas categorias: Identidade, Trabalho, Cultura de Consumo, Estigma e Segurança de Ontológica. 4.1. Identidade Nesta seção será apresentado o processo de constituição da identidade homossexual dosrespondentes; as situações vividas pelos sujeitos e o caminho percorrido até a constituição da identidade homossexual. Segundo os pesquisadores, o processo de constituição da identidade se dá pela busca contínua do seu “eu” e na composição da sua própria história, que se caracteriza como processo de identificação e de enfrentamento do indivíduo em diversos grupos sociais 54 (STETS e BURKE, 2000; GIDDENS, 2002; BAUMAN, 2005; HALL, 2006; SENNET, 2009). A seguir, será descrito o processo de constituição da identidade assumida pelos entrevistados. 4.1.1. Identidade Homossexual: A Auto Percepção e a Identidade de Gênero Homossexual Masculino Os respondentes foram convidados a falar sobre a sua homossexualidade assumida e iniciaram narrando como percebem este fato. Alguns respondentes que iniciaram a autopercepção na infância dizem que não se identificavam com as brincadeiras infantis, ditas de “meninos.” Outros no início consideraram suas próprias atitudes, seus desejos, atrações incomuns e diferentes comparados com outras pessoas. Os respondentes afirmaram sentir atração pelo mesmo sexo desde sempre, por meninos na sua infância e por jovens e homens na sua adolescência e juventude. Segundo Pereira (2009) a constituição da identidade homossexual consiste na percepção de si mesmo diante da situação vivida e do contexto social. Percebi que... "[...] desde criança percebi que eu não sentia atração por menina. Eu sentia isso, entendeu? Eu só não sabia o que era, não tinha um nome para dar pra aquilo, eu também via que isso era um pouco diferente. [...] quando eu era criança, na minha escola, assim primeira série, segunda série, os meninos andavam em grupo de meninos e eu andava junto com as meninas. Então, isso já era uma coisa assim que separava, se agregava, entendeu, tipo os meninos ficavam falando sobre futebol, carrinho e tal. Eu não conversava sobre boneca, mas eu me sentia mais atraído pelos papos, pelas conversas que meninas tinham e não dos meninos, então isso também já percebia. Daí, eu já percebia que tinha alguma coisa de diferente." (Entrevistado H). O que está acontecendo... "[...]Eu sempre tive muitas amigas mulheres. E ai, eu fui vendo, o tempo foi passando, e ai, todo mundo vai começando a namorar. Eu tenho um primo de 18 anos, eu tenho 21, sou mais velho. E, todo mundo vai começando a namorar e você não. Os amigos vão namorando e você não. Você começa a ver que alguma coisa está errada. O que que tá acontecendo comigo? E ai, eu fui pensando, pensando, pensando, pensando... E ai, acho que é isso." (Entrevistado C). 55 A gente é homem... “Muita gente acha que a homossexualidade é o homossexual quer ser mulher. Que tem muitos que se traveste, tem... E, a verdade não é essa. A gente não quer ser mulher. A gente quer ser homem, só que a gente é homem que gosta de homem. Agora, por quê, ninguém sabem explicar, né?” (Entrevistado A). Diante do processodaautopercepção,o sujeito descobre a sua homossexualidade. Surge a ideia e o desejo de pertencimento, o processo de identificação de comportamentos e atitudes, que consiste na percepção de si diante do contexto social. Trata-se de uma das fases do processo dinâmico e contínuo da constituição da identidade gênero homossexual dos sujeitos no ambiente em que se vive, no trabalho e fora dele. 4.1.2. Homossexualidade como uma Condição, o Receio de Assumir e o Auto Preconceito Os respondentes percebem a sua homossexualidade como uma condição, e não como uma opção ou escolha. Dizem que não foram eles que escolheram ser homossexuais e temem pela não aceitação na sociedade. Alguns falam a respeito da sua insegurança inicial e das dificuldades de se aceitar. Outros falam que o processo de auto aceitação levou algum tempo, até assumirem abertamente a sua homossexualidade. Alguns respondentes falam que o medo ainda se encontra presente no seu cotidiano, por não serem aceitos. Outros falam dos receios e das dificuldades de lidarem com a sua homossexualidade em diversos contextos sociais, sejam no trabalho ou fora dele. Para Irigarary (2007) e Irigaray, Saraiva e Carrieri (2011) o processo de constituição da identidade homossexual levanta a questão do que é ser gay, ao apontar o estereótipo socialmente constituído, a fonte da angústia e a ruptura do mundo conhecido e tradicional. Uma condição... “É uma história meio complicada, né. Como de todos. Porque como eu havia dito, homossexualidade não é uma opção, é uma condição. Você não opta por ser um homossexual. Você nasce homossexual”. (Entrevistado A). Medo... “Medo, por que pela primeira vez eu tinha uma amizade sólida. Da reação dele, é da reação dele assim essencialmente, mas não só da reação dele, medo de ficar vulnerável também”. (Entrevistado H). 56 Este é o momento em que os sujeitos tomam conhecimento da sua condição, de sua orientação sexual e percebem que não se trata de é uma opção sexual. Alguns temem pelo preconceito, se sentem inseguros por não serem aceitos pelas pessoas no trabalho e fora dele. Ficam receosos ao perceberem que não fazem parte da identidade de gênero heterossexual masculino, padrão da sociedade. Quanto ao medo, a identidade homossexual, historicamente, é marcada por crenças e teorias científicas equivocadas, por lutas e movimentos sociais e pela estigmatização. Hoje, ela é constituída por indivíduos que lidam no seu cotidiano com o silêncio, o medo e práticas discriminatórias (PEREIRA, 2009; IRIGARAY, SARAIVA e CARRIERI,2011). 4.1.3. A Identificação e Projeção: A Generalização dos Comportamentos e Atitude, o Pertencimento e as Âncoras Sociais Os respondentes falam o momento que tomam consciência, se reconhecem como homossexuais e iniciam o processo de identificação. Alguns respondentes se identificam com outros homossexuais nas atitudes e comportamentos, outros não. Esses respondentes afirmam que os comportamentos do grupo LGBT não podem ser generalizados, muitos homossexuais adotam atitudes diferentes. Alguns não se percebem como aqueles que desejam “ser mulher”, ou rejeitam o jeito “afeminado” ou “promíscuo” que associam aos gays. Outros respondentes afirmam que não querem fazer parte da cultura gay, adotam comportamentos e atitudes mais “sérias” e não dão “pinta”. Os respondentes buscam pertenceraos grupos com os quais mais se identificam, com os quais se sintam bem. Dizem que nos grupos de amigos há homossexuais e heterossexuais, tanto no trabalho como fora dele. Alguns respondentes procuram profissões que não sejam caracterizadas como “profissão de gay”. Os respondentes não se identificam com aqueles que não assumem a sua homossexualidade e buscam refúgio na igreja, por exemplo. Segundo Giddens (2002) a identificação e a projeção são mecanismos que ocorrem com o objetivo de assumir traços ou padrões de comportamento do outro. O indivíduo integra-se e interfere ao mesmo tempo nos grupos a que pertence; em ambientes nos quais interage, cabe a ele inventar e se reinventar em cada situação no processo da construção e da reconstrução da sua identidade (GIDDENS, 2002; BAUMAN, 2005). Roupa de mulher... 57 “Eu acho que você não precisa ficar mostrando para todo mundo o que você é, todo mundo já sabe o que você é por causa da sua atitude. Agora ficar botando roupa de mulher acho horrível. As pessoas falam que eu mesmo tenho preconceito, mas pelo amor de Deus gente, acho antiético um homem ficar vestindo roupa de mulher.” (Entrevistado M). Postura mais séria... “Então o que entrou na discussão, foi pelo fato de eu ser. De eu ter uma postura mais séria no ambiente de trabalho, ser mais reservado, isso me transformava numa pessoa diferente, entrava no limite da tolerância. Ah, o fulano eu tolero, aquele outro que é mais afeminado que trabalho eu já fico... Eu acho que não precisa.” (Entrevistado I). Estereótipo homossexual... “Eu nunca gostei muito de estereótipo homossexual, você está entendendo? E isso é uma coisa que sempre me incomodou. [...] É assim, eu não precisava mostrar pra as pessoas que eu era homossexual, por que eu não sou homossexual pelo que eu visto, ou pelo que eu faço, ou pela postura que eu adoto, eu sempre procurei deixar isso assim. Agir de forma natural”. (Entrevistado E). Profissão de homem... “Mas eu não queria ser decorador. Porque eu acho que isso é uma profissão gay. Eu queria ter uma profissão de homem, engenheiro. Engenheiro Civil, eu vou lidar com peões. Então entendeu? Então isso é uma condição masculina.” (Entrevistado A). “Na verdade tem muitos homossexuais que estão no salão de cabelereiro, trabalhando com dança, muitos porque querem e outros por necessidades mesmo... [...]lojas de roupas. Cabeleireiros mais pela afinidade feminina, buscam um ambiente onde não vai ter preconceito, [...] Acho que as pessoas aceitam muitos rótulos, porque é gay.” (Entrevistado C). Refúgio... “[...] a igreja é um local cheio de gays. Muita coisa, é muita coisa. Eu tinha meus amigos da igreja que eram gays [...] eu convivia com esse pessoal. Mas, a igreja era um refúgio que, a gente tinha, para se refugiar para poder sei lá, [...] Então, eu tinha que ser uma pessoa contida.” (Entrevistado D). Os sujeitos assumem a sua condição e orientação sexual em todos os grupos sociais, mas buscam mecanismos que favoreçam a constituição e a administração da sua identidade homossexual.No trabalho adotam atitudes e valores heteronormativos, tais como: a negação da feminilidade; assumem uma postura séria, atendendo a pressão social e da estigmatização; reproduzem atitudeheteronormativa, dita por eles como “natural”; se identificam com 58 profissões que correspondem aos gruposheterossexuais e recusam as profissões gays.Em relação à identificação e projeção, Hall (2006, p. 11 e 12) afirma que“o fato de que projetamos a nós próprios nessas identidades culturais, ao mesmo tempo em que internalizamos seus significados e valores, tornando-os “parte de nós”. 4.1.4. Identidade, Estilo e o Consumo Os respondentes falam sobre seus hábitos de consumo, gostos e desejos. Uns dizem que se identificam com alguns bens como roupas, tênis, bonés, livros, maquiagem, celulares, carros e de alguns serviços como turismo, café bar, restaurante, boates, casa de festas e academias. Alguns respondentes não se sentem atraídos por marcas ou grifes e os ambientes de certo status. Alguns respondentes dizem que gostam de agito e de badalação, buscam boates, pizzarias e karaokê. Costumam frequentar com os amigos e seus parceiros homoafetivos, optam por ambientes que possam frequentar livremente e alguns que representem statusalcançado. E outros preferem lugares mais intimistas, a dois, como cinema, teatro e restaurantes. Pesquisadores afirmam que, quaisquer que sejam as opções, a “liberdade” configura um estilo de vida, define “um conjunto de hábitos e orientações”, e também os comportamentos, valores, vestuários, os hábitos de consumo e a identidade (GIDDENS 2002, p. 80; ROCHA, 2005, p. 113; ARNOULD E THOMPSON, 2005). Multimarcas... “Eu garimpo, sabe? Então eu busco de repente ou uma multimarcas, que tem tênis de... Tem a Zara, tem a Renner, tem a C&A, eu vou lá visto, se tem um corte legal, se tem o caimento legal, eu compro. [...] eu mesmo não sou o melhor exemplo de uma pessoa consumista não [...] vestiu se sentiu bem, está dentro do orçamento, eu compro. Então, se preciso, compro”. (Entrevistado G) Tênis, roupas... “Sapatos, tênis e roupas, muitos. [...] é tenho acho que nove sungas de praia, muita camisa, mesma estampa de cores diferentes, calças, bermudas jeans fora as outras, eu não tenho mais espaço no meu guarda-roupa para nada. [...] Porque é aquilo que eu te falei, o gay gosta muito de ostentar as coisas né? Tênis é tênis, eu gosto de correr, cada um tem uma cor diferente, colorido, eu tenho todas as cores de tênis, eu acho. [...] com o acessório que eu vou usar, com os bonés”. (Entrevistado P) 59 Os sujeitos identificam-se com mercados de consumo, ambientes, marcas, atividades e roupas, assumem hábitos e estilos de vida que expressam o seu eu, no processo da constituição da identidade homossexual, pelas práticas de consumo. Afirmam que procuram bens com significado simbólico, que tenham a ver com eles, seu estilo de vida e sua identidade. Outros sujeitos se identificam com suas posses e seus significadospara que possam comentar ou “ostentar” valores culturais da subcultura gay. 4.1.5. Homossexualidade no Trabalho Perguntamos aos respondentes sobre a sua homossexualidade no trabalho,quanto a reação e a aceitação da chefia e dos colegas. Alguns dizem que buscaram uma pessoa de confiança para falar da sua orientação sexual. Outros perceberam que era desnecessário falar diretamente por conta do seu comportamento, de suas atitudes e conversas, que já deixam explicita a sua homossexualidade. Para outros respondentes, quando chegaram nas organizações, perceberam que já existiam homossexuais no seu ambiente de trabalho. Alguns respondentes deixavam que as pessoas viessem perguntar ou conversar a respeito e assim confirmam a suspeita ou dúvida da sua homossexualidade. Pesquisadores afirmam que o indivíduo enfrenta riscos no processo de ruptura com “os padrões estabelecidos de comportamento”. A revelação da identidade homossexual depende do contexto social em que o indivíduo estiver (GIDDENS, 2002, p.77; PEREIRA, 2009). Somos assumidos... “Lá no meu setor somos no total de três homossexuais, dois assumidos e um que ainda não se assumiu, eu e o outro rapaz somos assumidos. Não tem nenhum problema com isso, muito pelo ao contrário a gente não sofre discriminação, a gente brinca, e as pessoas sabem disso, a gente não tem dificuldade nenhuma [...] eles avaliam mais o nosso profissional, não o pessoal e acho isso muito importante dentro de uma empresa”. (Entrevistado L) Orientação sexual... “[...]no trabalho? A relação com todo mundo é extremamente profissional, independente da orientação sexual”. (Entrevistado C) Eu sou gay... 60 “A minha postura nunca foi chegar e falar assim, “prazer, meu nome é fulano e eu sou gay.” Até porque encaro isso apenas como uma das coisas, uma das faces que a pessoa é, mas sempre existe uma pessoa que a gente tem mais afinidade que acabava sabendo de você”.(Entrevistado G) Os sujeitos utilizam de meios estratégicos para constituir a sua identidade no trabalho e fora dele.Reconhecem que trata-se de um enfrentamento de estigma, procuram por pessoas de confiança para falar da sua condição homossexual ou preferem deixar que venham perguntar sobre a sua orientação sexual. Estudam o ambiente organizacional, observam as pessoas homossexuais e heterossexuais, as roupas que vestem, os acessórios que utilizam, seu comportamento e atitudes.Buscamse sentir cada vez mais seguros e confiantes no trabalho no processo de constituição e a administração da sua identidade homossexual nas organizações. 4.2.Trabalho Nesta seção será apresentado o processo de constituição da identidade homossexual no trabalho dos entrevistados e os caminhos percorridos pelos respondentes no ambiente organizacional. Serão identificadas as circunstâncias favoráveis encontradas, aautoconfiança e segurança do ser, o reconhecimento e a sua ascensão profissionalno processo de constituição da identidade homossexual no trabalho. Segundo alguns autoreso processo de constituição da identidade se dá pela busca contínua do seu “eu” e na composição da sua própria história, que caracteriza como processo de identificação e de enfrentamento do indivíduo em diversos grupos sociais (STETS e BURKE, 2000; GIDDENS, 2002; BAUMAN, 2005; HALL, 2006; SENNET, 2009). 4.2.1. “Tem que ser Profissional”: As Relações com as Pessoas no Trabalho Os respondentesse percebem como profissionais, mantêm uma atitude de respeito com os colegas, com a chefia e com os clientes. Reconhecem que as relações com as pessoas no trabalho podem favorecer a aceitação da sua homossexualidade. Procuram observar bem as pessoas com quem trabalham, aquelas que poderiam ter uma relação de confiança e falar abertamente. Ao falar sobre como é a sua relação com as pessoas, alguns afirmam fazer questão de manter uma relação sem intimidades, na qual costumam conversar somente 61 assuntos de interesses da organização. Outros procuram ampliar a relação profissional para uma relação de amizade, de intimidade, falam sobre relacionamentos, crises conjugais, de educação dos filhos, passeios e viagens, e assim se sentem mais à vontade e aceitos no ambiente organizacional. Para Giddens (2002) a confiança se apoia na realidade existencial no sentido emocional, e também no cognitivo que “se funda na crença na confiabilidade das pessoas”. Esta confiança baseia-se nas experiências ainda na infância, chamada por alguns autores de “confiança básica” e considerada pela experiência na “coragem de ser”. Sou muito profissional... “No ambiente de trabalho, olha só, por incrível que pareça, não sei se é porque eu sou muito profissional, eu não sei... Assim, eu até hoje, não percebi. Claro que nunca ninguém chegou pra mim e falou, né? Eu nunca percebi. Porque eu acho que é aquilo, né. [...] Você está aqui pra ser profissional”. (Entrevistado A) Respeito meus colegas... “Porque provavelmente eu também respeito meus colegas de trabalho, eu não sou de fazer brincadeira, igual até os homens fazem com as garotas, né? Fazem umas brincadeiras até meio perversas, maliciosas, né. Eu jamais fiz. Por mais que eu achasse meu colega de trabalho gostosão”. (Entrevistado N) Ter relacionamento... “Ah, todo mundo sabe. Nesse, mais aberto que nos outros. Porque quando eu não tinha relacionamento, eu quase não falava. Mas, todo mundo sabia. Falava também, mas nem tanto quanto é agora. Acho que agora como as pessoas estão vendo mais a nossa intimidade, porque a gente já mora junto, pode chamar as pessoas para irem na nossa casa [...] aí eles nos convidaram a ir na casa para almoçar, fizemos um passeio de lancha, ele conheceu meu companheiro”. (Entrevistado N) De brincadeira... “Eu acho que as pessoas se aproximam mais, principalmente as mulheres, em questão de amizade, de brincadeira, se sentem mais livres para poder conversar com aquele homem uma vez que ele é homossexual. Nesses espaços os homens acho que, por terem uma visão mais politizada, acho que aceitam também com tranquilidade, muitos por curiosidade. Querer saber como é a vida sexual, aí começam a vir as perguntas clássica: quem é o homem e quem é a mulher? Aí começa a entrar para desconstruir 62 tudo aquilo, mas em espaço de trabalho eu nunca me senti preterido, não”. (Entrevistado I) Os sujeitos relatam que utilizam de mecanismos de aceitação no trabalho, como se comportam com relação as pessoas no ambiente organizacional. Procuram se relacionarbem com as pessoas no trabalho, procuram respeitar os seus colegas,adotam uma postura profissional ou em alguns casos como amigo íntimo.Buscam no seu processo de constituição e administração da identidade homossexual a sensação de segurança, confiança e o comprometimento cognitivo e emocional nas diversas atividades cotidianas no seu contexto social. 4.2.2. A Identificação com o Trabalho e a Profissão, e a Política de Aceitação nas Organizações Públicas e Privadas Os respondentes falam da sua identificação com organização em que trabalham. Percebem-se inseridos num ambiente favorável a sua identidade homossexual. Outros dizem que se sentem seguros nas organizações que adotam uma política interna de aceitação. Outros percebem que nas organizações públicas podem se comportam livremente. Segundo alguns autores, a identificação ocorre quando as crenças e os valores da organização em que o sujeito trabalha tornam-se referências para a sua identidade (FERNANDES, MARQUES E ROCHA 2009). Empresa pública... “Bom, na Secretaria foi bem tranquilo. Já era um ambiente bem tranquilo, a gente tem um projeto, também, que é o [...], que trabalha em departamentos públicos, o homossexualismo, então não tinha a necessidade da minha pessoa ficar reclusa. Então eu agi normalmente, falei para as pessoas que perguntavam, é isso ai.” (Entrevistado B). “Aqui, na empresa pública, acredito que a gente tenha mais facilidade, por exemplo, ser gay ou não, não vai significar, não é motivo legalmente pra que você exonere qualquer funcionário público, não existe isso. Então as pessoas se sentem mais seguras quanto a tomar posição, seja político-partidária, seja sobre homossexualidade, seja sobre religião.” (Entrevistado G). 63 Empresa privada... “Nessa empresa que eu estou hoje [...] o meu diretor me contratou. Mas, ele levou a minha situação na mesa da Direção, né? Para Presidência até e aí: Ele levou para isso, eu sou o cara, você decide o que vai ser feito. [...]Então a gente tem uma boa interação um com o outro dentro da empresa. A empresa investe no funcionário, dá autonomia ao funcionário para trazer ideias, inovações e isso conta muito”. (Entrevistado D) Os sujeitos recorrem a uma certa segurança nas organizações para assumirem a sua homossexualidade e constituírem a sua identidade homossexual no trabalho. Identificam nas organizações públicas aquelas que mais favorecem, o processo de constituição e administração da identidade homossexual.Com isso, para Fernandes (2009) diversos autores consideram que a identificação ocorre a partir da percepção que esse sujeito tem da organização em que trabalha. 4.2.3. Ascensão Profissional e Status Social Alguns respondentes dizem que, pela sua competência profissional, pelo seu desempenho e por apresentarem os resultados esperados pela organização, são promovidos. Reconhecidos, assumem responsabilidades profissionais e cargos de gestão. Percebem que são valorizados como profissionais e se consideram mais bem aceitos na equipepelo statusprofissional alcançado na organização. O alcance de posições hierárquicas pelos sujeitos confirma a importância do reconhecimento. Para Dejours (2007, p. 141) o trabalho é considerado como “mediador” da dinâmica da realização do eu com o reconhecimento do trabalho. Esse reconhecimento conduz e “reconduz o sujeito ao plano da sua construção da identidade” (p. 34). Sou gestor... “[...] Eu tenho uma equipe que é composta de dois médicos, três fisioterapeutas, duas nutricionistas, duas psicólogas e duas assistentes sociais e uma técnica de enfermagem, e tem uma outra enfermeira [...] Eu sou gestor desse programa. Todos sabem que eu sou gay, todos conhecem a minha vida, sabem que eu vivo com outro homem, né?” (Entrevistado E). 64 “[...]sou gerente de loja, com a função de gerenciar e controlar as mercadorias e o financeiro. Fui crescendo, crescendo, crescendo... de atendente, virei monitor, depois virei assistente geral, agora sou gerente [...] eles sempre souberam, mas eles também me respeitam.” (Entrevistado M). Os sujeitos assumem comportamentos e posturas que favoreçam o alcance de posições hierárquicasno trabalho,os estilos e valores organizacionais.Eles confirmam a importância do reconhecimento profissional, da sua competência e na aceitação da sua orientação sexual no processo da constituição e administração da sua identidade homossexual no trabalho.Com isso Giddens (2002, p. 80) considera o ambiente como “a esfera do trabalho dominada pela compulsão econômica [...] e por estilos de comportamentos.” 4.3. Cultura do Consumo Nesta seção será apresentado o processo de constituição da identidade homossexual no trabalho e a interferência do consumo. Os caminhos percorridos pelos respondentes pelo consumo, identificando os fatores relacionais do trabalho com o consumo. As perspectivas serão a de abordagem do consumo, os significados simbólicos de posses e o status social no processo de constituição da identidade homossexual no trabalho. Serão considerados os bens e serviços adquiridos no mundo do consumo como significados, representados por categorias e princípios culturais (McCRACKEN, 2003).Estes fazemparte do sistema de práticas para grupos e indivíduos e são “a base material em que se constrói a cultura” (PEREIRA 2009 p. 52), definem o estilo de vida e identidades (GIDDENS 2002; BARBOSA e CAMPBELL 2006) e a relação da satisfação por meio e o alcance do status social (FEATHERSONE, 1995 p. 31). Segue a descrição do processo de constituição da identidade assumida no trabalho dos entrevistados e a interferência do consumo. 4.3.1. Consumo: Identidade, Estilo e Trabalho Os respondentes falam sobre a necessidade de se manter no trabalho e conquistar posição de ascensão no ambiente organizacional. Percebem que a apresentação pessoal é fundamental para a conquista de uma oportunidade de emprego e uma possível promoção. 65 Alguns afirmam que mudaram seu estilo, suas roupas, seus calçados e abriram mão de alguns acessórios. Os respondentes admitem que a aquisição de alguns bens e as mudançasde seu guarda roupa fazem parte da sua nova realidade no trabalho e do seu novo eu na organização. Para Giddens (2002) o estilo de vida no trabalho e no consumo fala a respeito da construção e reconstrução da auto identidade do sujeito. Perfil da Empresa... “[...] geralmente estou de social, geralmente estou de social por conta do trabalho. Na sexta-feira é o único dia que a gente pode vir, que é o dia do casual day. Mas, geralmente eu estou de social e eu passo maior parte, no meu armário tem mais roupa social do que roupa normal. Não é que seja o meu estilo. Eu acabei me acostumando por conta do trabalho, eu sempre trabalhei de social.” (Entrevistado L). As pessoas não usavam... “[...] Eu tinha piercing, eu usava brinco para trabalhar tinha luzes no cabelo, usava calça rasgada All Star de couro e comecei a ver que as pessoas não usavam, as pessoas onde eu queria chegar não usavam [...] Foi assim, foi eu mesmo, ninguém chegou pra mim para falar [...] Assim, eu sempre quis crescer. Então eu comecei a botar um sapato para ir trabalhar, eu comecei a botar uma camisa social, eu tirei o piercing, eu tirei o brinco para ir trabalhar, eu mesmo me podava.” (Entrevistado P). Os sujeitos mudam e assumem novos estilos, por meio de aquisição de bens roupas, sapatos e acessórios, que atendam aos estilos padrão da organização. Acreditam que é importante manter um estilo congruente com o perfil da organização para que favoreçam a sua identidade no trabalho e possam ascender profissionalmente. Segundo autores, os estilos de vida, os padrões de vida, as multiplicidades de signos culturais, o trabalho e as práticas de consumo dos sujeitos são estímulos e referências visíveis do alcance do status desejado e na construção da identidade (GIDDENS, 2002; BENDASSOLLI, 2006; NUNES, 2007). 4.3.2. Trabalho e Consumo: Status Profissional e Significados Simbólicos de Posses Os respondentes percebem que, ao conquistarem uma ascensão profissional e social, são vistos de outra maneira. Alguns consideram que o preconceito, a discriminação, e as atitudes homofóbicas estão presentes para aqueles que não possuem bens e tem baixo poder aquisitivo, devido as suas condições no trabalho. Eles percebem que os homossexuais que 66 possuem bens e as melhores posições no trabalho são mais respeitados. Outros reconhecem que aqueles homossexuais que estudam conquistam melhores posições na hierarquia profissional, adquirindo um statusprofissional e se destacando na sociedade. Uma forma de destaque ... “Então, por conta disso, eu particularmente acredito que os homossexuais acabam estudando mais e procurando ocupar outros espaços na sociedade que lhes permitam ganhar mais dinheiro para que se mantenham nessa sociedade de consumo, nessa sociedade capitalista, também com uma forma de destaque [...] possam ser vistos pela sociedade de uma forma diferente.”(Entrevistado L). Mais engomadinho... “E ele é diferente dos outros, é como se fossem vários tipos de homossexuais, tem homossexual que é mais engomadinho, mais sério, mais ‘comportadinho’ do que aquele que é mais solto, mais vulgar, mais afeminado, [...] Os olhares de discriminação e violência acabam indo pra aquele, do que o homossexual mais arrumadinho, mais padronizado.” (Entrevista I). Os sujeitos buscam serem aceitos e menos estigmatizados. Assumem estilos, comportamentos e vestimentas com os padrões organizacionais, para que possam se sentir ancorados socialmente no trabalho. Em relação ao status profissional, para Giddens (2002, p. 80), os estilos de vida e a condição social e o status não se aplicam somente ao consumo. O autor considera como práticas cotidianas os hábitos comuns e as atividades “rotinizadas” como os “de vestir, comer, modos de agir e lugares preferidos.” 4.3.3. Marca do Empregador Os respondentes percebem que as organizações definem estilos, padrão e identidades para a aqueles que lá trabalham e afirmam que é importante representar a marca da organização. Os sujeitos assumem um perfil organizacional e acreditam nesse padrão heterossexual masculino como o correto para eles e para a imagem da organização. Segundo Fernandes (2009), diversos autores consideram que a identificação ocorre a partir da percepção que esse sujeito tem da organização em que trabalha. O sujeito se categoriza como “membro” da organização e a diferencia das demais organizações. 67 Imagem da Empresa... “Nunca achei problema não, na verdade, na época que eu comecei a usar social, foi quando eu me tornei instrutor que ia pra sala de treinamento. Então você é a primeira imagem da empresa, o primeiro contato que o cara que veio de fora vai ter, boa impressão de você, da empresa [...] Então eu nunca tive problema com isso e eu acabei me acostumando”. (Entrevistado L) “Meu emprego anterior foi no Banco [Empresa], eu não podia falar que eu era homossexual. Porque a política no banco é muito rigorosa. No banco eles não gostam, até por que tem certas atitudes que eles acham...aquela visão que muitos têm dos gays que quer ser uma mulher, que é muito afeminado. Então eles acham que vai denegrir a imagem do banco tendo um funcionário homossexual”. (Entrevistado B) Os sujeitos passam a se vestir e se comportar conforme os padrões heteronormativos das organizações. Subjetivamente, adotam e assumem os estilos, comportamentos e vestimentas, valorizam a importância de representar a imagem e a marca da organização. Dessa forma, relacionamtrabalho e consumo, no contexto da cultura organizacional, por meio dos significados simbólicos de posses, no processo da administração da sua identidade homossexual no trabalho.Em relação às posses e o interesse coletivo na organização, Belk (1988) considera que a constituição do self pelas posses e seus significados assume a existência de relação do indivíduo com os seus objetos, e a importância dessa relaçãovis-àvis os grupos em que o indivíduo estiver inserido. 4.4. Estigma Nesta seção será apresentado o processo de constituição da identidade homossexual no trabalho em relação ao consumo e ao enfretamento do estigma. Como se dá o processo de enfrentamento do estigma, dos estereótipos, dos rótulos e das atitudes preconceituosas diante da sua identidade homossexual assumida na organização. Para Goffman (1988) os estigmatizados buscam recursos de enfrentamento do estigma. Um desses recursos, é quando uma pessoa alcança notoriedade, por mérito, seja por um prêmio ou por tornar-se o primeiro de sua categoria. Essa situação leva o sujeito estigmatizado a uma transferência de crédito, de modo que o leva ao “mundo de heróis”. 68 4.4.1. Homofobia, Preconceito e as Vítimas de Estigma Os respondentes comentam que o estigma está presente em diversos ambientes- na família, nas religiões, no trabalho e em toda sociedade. Alguns não se consideram vítimas de estigma, outros falam sobre as situações de estigma vividas por eles e enfatizam se tratar de fatos isolados. Percebem que há pessoas preconceituosas e homofóbicas no trabalho, com as quais procuram manter uma relação somente profissional. São momentos em que os sujeitos percebem que pessoas rejeitam e estigmatizam a sua homossexualidade. Bauman (2005) considera tensa a "guerra" do sujeito pela aprovação popular de suas escolhas e preferências. Considera a identidade como inflexível, “a identidade que rejeita aquilo que os outros desejam, valoriza o que se deseja”, contrariando os grupos dominantes, e sendo considerada estereotipada e estigmatizada (BAUMAN, 2005, p. 45). Quando não fui respeitado... “As pessoas sempre me respeitavam; quando eu não fui respeitado, eu gritei, eu falei. Aí as pessoas ficaram mais... ficaram naquela retranca. Ah, eu falei demais [...] Mas, foram poucas e boas[...] Ela falou: “Ah aquele viado, aquele enfermeiro viado, que está na coronária, está brecando o que eu quero fazer.” (Entrevistado D). Um bando de promíscuos... “Como as pessoas falam: É tudo um bando de promíscuos. Não, não é, existe alguns, existe promiscuidade em qualquer local, tanto no mundo gay quanto no mundo hetero. Falar que só existe promiscuidade no mundo homossexual é uma completa ignorância, a promiscuidade existe desde muito tempo. A promiscuidade não está dentro de uma orientação sexual, está dentro uma pessoa.” (Entrevistado L). Por conta da homofobia... “[...] nas três ocasiões que eu estive em Natal, eu fui a trabalho. Do Congresso, da aula e da relação com a Prefeitura, eu percebi que na hora de sair para jantar, assim, com os grupos e tal, a gente conversando: Poxa, o pessoal aqui é meio fechado, a gente não vê os homossexuais muito em grupo aqui e tal. E, aí eu fui entender a dinâmica da cidade, porque os homossexuais lá são, as famílias como são pequenas, as famílias se conhecem todas e a homossexualidade é muito velada por conta da homofobia que é muito intensa, muito forte.” (Entrevistado E). 69 Eu já ouvi isso... “[...] porque o viado pobre, coitadinho, mas o viado que tem dinheiro, Ah, esse daí é gente boa, você já viu o carro dele? Entendeu, é mais ou menos por aí, porque o cara que é o viadinho, que é da faxina coitado. Ah, meu Deus, além de viado, né, ainda é faxineiro. Eu já ouvi isso, esse tipo de comentário, porque têm homossexuais lá, por exemplo, no hospital que eu trabalho que são da equipe de limpeza, aí o pessoal: se já não bastasse viado ainda é faxineiro. Mas você não ouve isso do cara falando do diretor que também é viado, entendeu, sabe, ninguém diz assim, poxa como se não bastasse ser viado, ainda é diretor! Você não ouve isso.” (Entrevistado L). Os sujeitos percebem a estigmatização nos comentários homofóbicos e pejorativos no trabalho e no contexto social. Identificam o estigma em relação à generalização de atitudes, comportamentos e o uso de termos pejorativos aos homossexuais. Alguns sujeitos que admitem serem estigmatizados e estereotipados por pessoas do trabalho procuram assumir uma postura heteronormativa para ascender profissionalmente. Entendem que a ascensão e o poder que daí emana favorecem a aceitação da sua condição homossexual na organização. 4.4.2. Enfrentamento do Estigma Os respondentes apresentam os mecanismos e as estratégias para enfrentar o estigma no trabalho. Destacam que o primeiro passo para enfrentar o estigma está na autoaceitação: aceitarem-se como gay, a crença em si mesmo e nos seus direitos como trabalhador e cidadão. Segundo Hall (2006), essa seria a dinâmica dos grupos dominantes e as forças coletivas no jogo do poder no processo das escolhas coletivas. No entanto, há indivíduos que confrontam essas forças coletivas quando optam por identidades, pessoas e grupos de seus interesses e preferências, nas suas escolhas individuais. Assume pra você... “Quando você não assume pra você, é assim. Você entra numa sala, a pessoa fala no ouvido da outra, você já acha que tá falando de você. Às vezes não está nem ai pra você e você já acha que tá falando de você. E isso te incomodando, né? Entendeu? Acaba, acaba isso incomodando, então... Mas quando você chega nessa parte, não incomoda mais.” (Entrevistado A). Acham que você é hetero... 70 “Quando as pessoas te conhecem elas acham que você é hetero, todo mundo acha isso, tipo as pessoas têm como um padrão como todos fossem hetero. Então quando você sai do padrão as pessoas automaticamente criam outra imagem sua, pelo menos eu percebo isso com as pessoas que eu conheço, entende?” (Entrevistado H). Imitando... “Aqui eu nunca enfrentei nenhum problema, pelo contrário sou muito bem tratado. [...] tem um rapaz que ele brinca com tudo, com todos, ele fica me imitando e ele me imita quase o tempo todo. Ele imita bem, imita o jeito que eu ando, o jeito que eu falo, e é muito engraçado, todo mundo ri né? E, assim no jeito que ele me imita fica visível que ele pega um pouco do meu trejeito de gay e é muito engraçado, porque eu deixo ele brincar com isso porque eu sei que é brincadeira dele inocente/e, entendeu?” (Entrevistado H). Mais masculino... “Então eu tento sempre desmitificar isso dentro do trabalho que eu ouço muito, Ah, eu gosto de você porque você não é um gay afetado, entendeu? Como eu tenho uma característica mais masculina, um pouquinho mais masculino no modo de vestir e isso para eles agride menos, é o que eu percebo”.(Entrevistado J). Os sujeitos apresentam atitudes estratégicas adotadas no trabalho, tais como: ser discreto;assumirum perfil aceito pelas pessoas; adotar postura e roupas mais masculinas;aceitaras brincadeiras e as imitações; evitarconfrontar as forças dominantes no ambiente organizacional.Essas atitudes são consideradas pelos sujeitos como atitudes de enfrentamento da estigmatização no trabalho. 4.5. Segurança Ontológica Nesta seção, falaremos sobre os caminhos percorridos pelos respondentes em relação à segurança ontológica, identificando os fatores relacionais do trabalho com o consumo e o processo da constituição da identidade homossexual assumida no trabalho. Giddens (2002) fala que a segurança ontológica trata-se de uma sensação ancorada cognitivamente e emocionalmente por uma “consciência prática”. Essa sensação ocorre nas diversas atividades humana na vida cotidiana em todas as culturas. 71 4.5.1. Sentem-se Seguros diante das Pessoas e no Trabalho Os respondentes dizem que, a partir no momento que tomaram consciência e aceitaram a sua homossexualidade, tornaram-se mais seguros. Consideram que a crença em si mesmo e a confiança dos outros os fortaleceram diante das dificuldades vividas. Eles reconhecem que a confiança pessoal surgiu do apoio e a confiança de seus pais, dos amigos e de seus parceiros. Alguns percebem-se mais corajosos para enfrentar e assumir a sua homossexualidade. Segundo Giddens (2002), a modernidade e a identidade, o “eu” e a sociedade, estão inter-relacionados num meio global. As transformações do “eu” e da identidade encontram-se por intermédio das instituições modernas e das tradicionais, interferindo em hábitos e costumes que “se entrelaçam de maneira direta com a vida individuale, portanto, com o eu” (p. 9). Meus pais me aceitaram... “Eu acho que eu me aceitei depois que meus pais me aceitaram, eu acho que meu tempo de aceitação próprio veio por causa dos meus pais. Eu acho que eles me deram coragem de enfrentar uma sociedade hipócrita que gosta muito de viver de aparência. Então meus pais me deram muita força pra isso e eu me aceitei gay. Aquilo que eu te falei onde eu chego é logico, que eu não chego com outdoor gay. Mas, eu chego com meu cheiro de gay, cheguei.” (Entrevistado P). Os sujeitos se sentem ancorados por grupos ou por pessoas, valorizam as relações vividas nos diversos ambientes sociais, no trabalho e fora de dele. Percebem a aceitação das pessoas e a confiança de si como fatores necessários na segurança ontológica e na constituição da sua identidade homossexual, conscientes da sua realidade e da necessidade de superar as tensões e desafios no trabalho. 4.5.2. Coragem de Ser, Assumir e o Enfrentamento do Estigma Os respondentes afirmam estarem preparados para assumir a sua homossexualidade no trabalho por se considerarem profissionais. Percebem a possibilidade de se tornarem vítimas de discriminação ou atitudes homofóbicas por algumas pessoas. Consideram-se preparados e encorajados para enfrentar qualquer situação que possa ocorrer. Acreditam que a sua homossexualidade não possa interferir nas suas atividades profissionais. Percebem o 72 reconhecimento de seu potencial, sua capacidade e que a sua postura como pessoa e profissional contribuem para manterem-se aceitos. Conforme Giddens (2002), o indivíduo apresenta um “eu” que não é passivo nesse mecanismo da constituição. Ele destaca que: “ao enfrentar problemas pessoais, os indivíduos ativamente ajudam a reconstruir o universo da atividade social à sua volta” (GIDDENS, 2002, p. 18). Sou profissional... “Demais, nossa é demais! Você pode ter certeza, que essa aceitação que eu tenho na empresa que eu disse pra você por trás ela é outra. Ah, por que é. Lá, dentro eles precisam muito de mim. Então, vão fazer o que? Vão me tratar mal? Não vão. Vão ser preconceituosos? Não vão? Mas, existe alguma coisa assim, depois: nossa, que viadinho! Tenho certeza disso [...] Não, não sinto por isso que eu te falei que eu nunca senti homofobia. Sou profissional: eu te aceito como profissional.” (Entrevistado P). É só perguntar... “Se não perguntam, ficam sem resposta. Entendeu? Olha, eu não vejo a necessidade... Sim, eu dou abertura para pessoa perceber. Se a pessoa quiser me perguntar, eu vou responder. Se ficar com vergonha ou algo desse tipo, vai ficar com a interrogação na cabeça. É, tem pessoas que têm vergonha de perguntar, por medo da resposta que podem receber.” (Entrevistado B). Os sujeitos percebem que a sua coragem de ser os faz enfrentar o estigma no trabalho. Consideram-se preparados para enfrentar o estigma e assumir a sua identidade homossexual, por se considerarem profissionais que se encontram abertos a responder quanto a sua condição homossexual. No trabalho, abandonam a sua identidade homossexual para serem "profissionais", mecanismo esse utilizado para serem aceitos nas organizações. 4.5.3. Identificação com o Trabalho, Profissão e Reconhecimento do Profissional Os respondentes comentam a respeito do reconhecimento profissional. Alguns percebem que são vistos como aqueles que conduzem bem as situações em relação à homossexualidade e sua profissão. Outros são reconhecidos por seus resultados e sua autoconfiança. Sentem-se seguros no que fazem, no que podem fazer e na organização. O trabalho para o trabalhador é compreendido como parte do seu ciclo de vida e 73 elemento queconstitui a subjetividade humana e a sua identidade (KRAWULSKI, 2004; COUTINHO, KRAWULSKI e SOARES, 2007). Resposta mais adequada... “Aí minha supervisora falou que achou a minha resposta mais adequada para aquele momento e aí foi o que eu disse a ela, aqui eu tenho que ser reconhecido como Assistente Social, a questão da minha sexualidade não tem que entrar no meu crachá. Aí eu falei com minha supervisora, eu não tinha que falar que eu sou homossexual, eu acho que a minha identificação não tem que ser essa, isso tem que ser um atributo da minha identificação, não o fundante, não tem que ser o espaço principal.”(Entrevistado I). Sua capacidade de trabalho... “A questão mesmo de segurança em relação ao julgamento de sua capacidade de trabalho, que não será distorcida com a visão de homossexualidade. Uma vez que você está seguro, você se sente muito mais confortável para falar com as pessoas [...] Mas, de qualquer forma, aqui eu me sinto seguro pra poder falar mais facilmente. Por exemplo, como falei, eu me senti complemente à vontade para trazer o meu namorado.” (Entrevistado G). A gente pode ser... “Igual todo mundo fala lá no meu trabalho: você quer fazer o que? Eu digo: Não sei. Falam: por que não faz moda?! Eu digo: não gosto! Falam: não gosta de moda?! Nunca vi gay dizer que não gosta de moda?! Digo: gente, eu não gosto! Só porque você é gay tem que ser cabeleireiro, maquiador e estilista! Eu não posso ser advogado? Eu não posso ser professor? Eu não posso ser médico? [...] A gente pode ser o que a gente quer! Pensam: eu tenho que fazer isso, porque é assim, então vai ser assim e infelizmente é assim. Muitos vão por esse caminho por aceitarem os rótulos.” (Entrevistado C). Os sujeitos acreditam estarem seguros em qualquer circunstância, em relação àadministração da identidade homossexual. Buscam a segurança no reconhecimento por meio das suas atividades profissionais e de suas práticas produtivas.Consideram-seprontos para qualquer desafio nas situações no trabalho e nos diversos contextos sociais.Para os autores, os significados e o sentido do trabalho são para o sujeito, elementos que incidem na construção da sua identidade, identidade coletiva e sua subjetividade (GAULEJAC, 2007; DEJOURS, 2007; SENNETT, 2009). 74 4.5.4. O Pertencimento e as Âncoras Sociais: “Ambientes Misturados”, Amigos Heterossexuais e Homossexuais Os respondentes optam por frequentarem “espaços misturados” ou “misto”, ambientes que circulam tanto homossexuais como heterossexuais, e referem-se aos lugares como restaurantes, boates, pizzaria e festas.Sentem-se bem e à vontade em todos os ambientes, não optam por se esconder ou ficar com grupos de homossexuais, seja no trabalho ou fora dele. Alguns frequentam esses locais acompanhados de seus parceiros homoafetivos, na casa das pessoas do trabalho, vão a festas e passeios. Alguns pertencem a diversos grupos de amigos, sejam homossexuais ou heterossexuais, consideram as amizades do trabalho e relacionam as suas atividades fora do trabalho. De acordo com Giddens (2002), as relações de confiança de si e nos outros fazem parte do processo de constituição da identidade do sujeito, que inicia na “fé individual”, e a sensação da segurança ontológica. As relações interpessoais tornam-se para os indivíduos a certeza da sua “realidade” nos ambientes sociais em que estão inseridos. A aceitação e o reconhecimento do outro são considerados as respostas necessárias na sustentação do mundo social. As pessoas não vivem solitárias... “[...] Eu acho que você tem que viver pra você, até porque a vida é uma só, para perder tempo com coisas... por medo, porque quem te ama vai te aceitar do jeito que você é. Então acho que você tem que viver feliz, independente do que vão pensar. Se você tá feliz com você, esquece os demais. As pessoas não vivem solitárias, não é isso que eu quero dizer, mas as pessoas que te amam, vão te aceitar do jeito que você for e andar contigo. Independentemente de você ser homossexual, bissexual, travesti, seja o que for.” (Entrevistado B). 75 Foi muito legal... “[...] foi muito legal, tanto é que há duas semanas a gente foi numa festa, eu e meu namorado a gente foi na festa de aniversário da dona da empresa, na casa da dona da empresa, eu com três meses e pouco de empresa, quase quatro meses [...] Linda a camisa eu cheguei na festa as pessoas babaram tiraram várias fotos comigo!” (Entrevistado P). Indicação de um amigo... “[...] quando a gente sai eu gosto de jantar nos restaurantes que têm comidas mais bem elaboradas, [...] que seja um centro de referência gastronômica. Um restaurante pequeno com gastronomia assim brasileira, o chef é legal, [...] foi a indicação de um amigo do trabalho. Porque aí você acaba percebendo no ambiente que tinha né, que tem outros casais ali. Percebi que a frequência, tinham casais heterossexuais e casais homossexuais.” (Entrevistado E). Os sujeitos percebem e acreditam que é importante estarem em todos os ambientes, inseridos na sociedade em geral. Reconhecem que uma roupa, umcalçado e um serviço possuem seus significados simbólicosnum contexto social dos sujeitos. Buscam por ambientes e serviços que possam frequentar com os amigos homossexuais, heterossexuais e parceiros homoafetivos, livres dos rótulos e do estigma. Ambientes que permitam se expressarem livremente e representem o statusalcançado, a sensação de segurança ontológica da sua identidade homossexual.Acreditam que as possespodem e fazem a diferença nas suas relações com as pessoas no trabalho e fora dele.Com isso, em relação ao consumo,para Pereira (2009, p. 64) esses sujeitos assumem um papel inovador no mundo do consumo ao libertarem-se dessa relação dicotômica a despeito do padrão heteronormativo dominante que pode ser visto “como forma de enfrentamento do estigma da homossexualidade”. 76 5. Considerações Finais Esta dissertação teve como objetivo descrever o processo da constituição da identidade do homossexual masculino no ambiente organizacional e identificar, com base na narrativa de homossexuais no trabalho, como o consumo se articula com a administração da identidade homossexual assumida no trabalho. Teve, ainda, o objetivo de responder à seguinte pergunta:uma vez reconhecida a importância do mundo do consumo na constituição e na administração da identidade, de que forma o consumo interfere na constituição e na administração da identidade homossexual assumida no trabalho? Diante desses objetivos foi realizada uma revisão de literatura e a construção do referencial teórico, com base nas áreas da Sociologia, Psicologia e Administração. De acordo com a análise das entrevistas narrativas, o processode constituição da identidade homossexual no ambiente organizacional parte da consciência de si e da sua realidade; da percepção da sua orientação sexual e da sua identidade de gênero homossexual masculino. Afirmam, ainda, se perceberem enquanto homossexuais e que não fazem parte da identidade de gênero heterossexual masculino, grupo considerado modelo dos padrões heteronormativos dominante pela sociedade. Nesta fase da constituição da identidade homossexual constatou-se que os sujeitos iniciam o processo de identificação e a projeçãode comportamentos, valores e estilos de vida.Isto significa que esses sujeitos buscam por pertencimento e meios que favoreçam a constituição da sua identidade homossexual no ambiente organizacional. Diante disto, podemos afirmar que, caso não se adequem ao estilo organizacional, temem por serem estigmatizados e estereotipados pelos colegas de trabalho. Subjetivamente, assumem os estilos, comportamentos e vestimentas com os padrões organizacionais, para que possam se sentirem ancorados socialmente no trabalho. Os sujeitos assumem um estilo heteronormativo das organizações e acreditam que é importante manterem esse estilo, em favor da marca e da imagem da organização. Com isso, não percebem que estão abdicando de sua identidade homossexual. Pode-se considerar esses sujeitos comohomossexuais organizacionais,quando adotam um perfil e um estilo conforme os padrões heteronormativos da organizaçãono processo deconstituição eadministração do seu euno trabalho. Pode-se afirmar também que o consumo está presente e interfere na vida dos homossexuais no trabalho e fora dele, e na constituição e administração da sua identidade. Os 77 sujeitos homossexuais presentes nas organizações, para que sejam aceitos, respeitados e se sintam seguros,procuram assumirum perfil mais masculino e sério. Afirmam que as pessoas, os clientes e os colegas não aceitam o uso de itens como, roupas e acessórios que associem a feminilidade, dito como “afeminados” no trabalho. Consideram ainda que a imagem e a marca são relevantes para a organização e para constituição da sua identidade no trabalho, sendo considerado o padrão heteronormativo como o estilo sugerido e proposto pela organização. Dessa forma, os sujeitos homossexuais buscam cada vez mais adquirem bens e serviços que atendam o estilo heteronormativo dominante, para que possam alcançar uma posição hierárquica e status dentro das organizações. Podemos considerar que as organizações admitem e aceitam os homossexuais masculinos, mas,ainda de forma subentendida, cobram uma postura adequada aos padrões heteronormativos. Além disso, entende-se que as organizações rejeitam os comportamentos e as expressões da identidade homossexual dos sujeitos, para os que se assumem no trabalho. A constituição e administração da identidade é um processo dinâmico e contínuo. Podemos, então, afirmar que é desafiador para os sujeitos homossexuais constituir sua identidade homossexual no trabalho, pois se encontram entre dois mundos: homossexual e heterossexual. De acordo com a análise das narrativas, os sujeitos adotam estilos heteronormativos e abandonam a sua homossexualidade para serem “profissionais” nas organizações. A segurança ontológica torna-se presente aos sujeitos homossexuais ao se sentirem aceitos pelas organizações. Dessa forma, se encontram mais seguros e ancorados pelas relações de confiança com as pessoas do trabalho. Pode-se afirmar que as organizações públicas são ainda a preferência pelos homossexuais, por garantirem seus direitos como servidor e a homossexualidade na sua autenticidade. Os sujeitos se sentem mais seguros e livres das discriminações e do estigma. Os homossexuais necessitam, ainda, desbravar novos espaços para que possam se manter presentes em todos os ambientes, livres de rótulos. Os sujeitos consideram favoráveis os ambientes “misturados”, termo utilizado pelos entrevistados desta pesquisa. Ambientes “misturados” podem ser entendidos como “ambientes que são frequentados tanto por heterossexuais como homossexuais”. Estes ambientes são desfavoráveis aos indivíduos homofóbicos, por permitirem expressões de afeto e onde os homossexuais se comportam de maneira livre do estigma. Os mercados de consumo já saem na frente quando permitem livre acesso aos seus clientes homossexuais – “gay friendly (amigos dos gays) – que os recebem muito bem. 78 Aquelas organizações que aceitam ereconhecem os homossexuais na sua autenticidade e os permitem ter livre acesso a todos níveis hierárquicospodem também ser consideradas como um espaço “misturado” e amigos dos gays. Identificou-se como limitações desta pesquisa as percepções dos sujeitos em relação a sua realidade no ambiente organizacional, pois o grupo de entrevistados não representa a totalidade do contexto social pesquisado. O método narrativo utilizado requer habilidade interpretativa do pesquisador. Levamos em consideração como os sujeitos constroem a percepção da sua realidade e de sua história de vida. Além disso, consideramos a referência subjetiva e a ontologia do pesquisador. Embora tenha se buscado um certo distanciamento, admite-se a inexistência da neutralidade científica no método utilizado. A pesquisa também não retrata a realidade das organizações, uma vez que o grupo de entrevistados não é composto por representantes diretos. Neste sentido, este tema é recomendado para pesquisas futuras devido a sua a relevância para a sociedade e a área acadêmica nas áreas da Sociologia, Antropologia, Psicologia e Administração. Para futuras investigações sugerem-se pesquisas que contemplem a constituição da identidade homossexual assumida de sujeitos de gêneros femininos e os transgêneros nos ambientes acadêmicos, organizacionais e no consumo. 79 6. Referências Bibliográficas ANTUNES, R. L. C. O caracol e sua concha: ensaios sobre a nova morfologia do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2005. ANTUNES, R. L. C. O Trabalho e seus Sentidos.Revista Debate & Sociedade. Uberlândia. v. 1 n. 1. 2011. ARNALD, E.; THOMPSON, C. J. Consumer Culture Theory (CCT): Twenty Years of Research. JournalofConsumerResearch, Chicago, v. 31. p. 868-882. mar. 2005 AYROSA, E. A. T.; FIGALE, J. M.; TUCCI, F. Problematizando identidade e subjetividade em estudos sobre consumo. ENANPAD. Rio de Janeiro. 2008. BARBOSA, L.; CAMPBELL, C. Cultura, Consumo e Identidade. Rio de Janeiro: FGV. 2006. BAUER, W. M.; GASKELL, G. Pesquisa qualitativa com texto: imagem e som: um manual prático I. Tradução de Pedrinho A. Guareschi. Petrópolis: Vozes, 2002. BAUMAN, Z. Identidade: entrevista de Benedetto Vecchi. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de janeiro: Zahar. 2005. BELK, R. W. Possessions and the Extended Self.Journal of Consumer Research, v. 15. p. 139-68. sep. 1988. BELK, R. W. Examining Markets, Marketing, Consumers, and Society through Documentary Films. Journal of Micromarketing, vol. 31: n. 4 p. 403-409. Originally published online 23. aug. 2011. BENDASSOLLI, P. F. Os ethos do trabalho sobre a insegurança ontológica na experiência atual com o trabalho. Tese de Doutorado. USP, São Paulo, 2006. CARRIERI, A. P.; PAULA, A. P. P. P.; DAVEL, E. Identidade nas Organizações: Múltipla? Fluida? Autônoma? O&S, vol.15: n.45. abril/junho, 2008. COUTINHO, M. C.;KRAWULSKI, E.;SOARES, D. H. P. Identidade e trabalho na contemporaneidade: repensando articulações possíveis. Psicologia & Sociedade, 19(1), p. 29-37. 2007. DEJOURS, C.; ABDOUCHELI, E.; DEJOURS, C. Itinerário teórico em psicopatologia do trabalho. DEJOURS, C; ABDOUCHELI, E.; JAYET, C. Psicodinâmica do trabalho. São Paulo: Atlas, 1994.http://dmtemdebate.com.br/abre_artigos.php?id=18 DEJOURS, C. A banalização da injustiça social. Tradução Luiz Alberto Monjardim. 7. ed. Rio de Janeiro: FGV. 2007. 80 DEJOURS, C. Entre o desespero e a esperança: como reencantar o trabalho. Revista Cult, São Paulo, ano, v. 12, p. 49-53, 2009. DINIZ, A. P. R.; CARRIERI, P. A.; GANDRA, G.; BICALHO, A. R. Políticas de diversidade nas organizações: as relações de trabalho comentadas por trabalhadores homossexuais.Revista Economia & Gestão, v. 13, n. 31, jan./abr. 2013. FEATHERSTONE, M. Cultura e Consumo e pós-modernismo. Tradução João Assis Simões. São Paulo. Studio Nobel. 1995. Reimpressão em 2007. Disponível:https://www.google.com.br/search?hl=ptR&tbo=p&tbm=bks&q=isbn:8585445343 Acesso em: 13 ago. 2013. FERNANDES, M. ELIZABETH REZENDE. Os paradoxos do processo identificatório na trajetória de diretores, gerentes e técnicos de duas empresas multinacionais de tecnologia. Anais do Encontro Nacional da Associação Nacional dos Programas de Pósgraduação em Administração, v. 33, 2009. FERREIRA, R. C. O gay no ambiente de trabalho: análise dos efeitos de ser gay nas organizações contemporâneas. Dissertação de Mestrado. FACE, Brasília, 2007. FOUCAULT, M. História da Sexualidade I: A Vontade do Saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988. FREESE, L.; BURKE, P. J. Persons, identities, and social interaction. Appears in p. 1-24 in B. Markovsky, et al. (eds.) Advances in Group Processes, v. 11. Greenwich, Conn.: JAI Press. 1994. GAIÃO, F. B.; SOUZA, L. I.; LEÃO, M. L. A. ConsumercultureTheory (CCT) Já é uma Escola de Pensamento em Marketing?RAE, São Paulo, v. 52, n. 3, p. 330-344, mai/jun. 2012. GAULEJAC, V. Gestão como doença social: Ideologia, poder gerencialista e fragmentação social. São Paulo: Ideias e Letras, 2007. GENNEP, A. V. Os ritos de passagem. 2. ed., Trad. Mariano Ferreira. Petrópolis: Vozes, 2011. GIDDENS, A. Modernidade e identidade. Tradução P. Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Tradução de Mathias Lambert. Rio de Janeiro: LTC, 1988. Acesso 26/11/2014: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000108&pid=S141449802014000X0001300015&lng=ptdisciplinas.stoa.usp.br 81 GOFFMAN, E. A representação do eu na vida cotidiana. 10ª ed. Petrópolis. VozesTradução de Maria Célia Santos Raposo, Vozes, 2002. HALL, S. A. Identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A. 11ª. ed. 2006. HAWKINS, D. I.; MOTHERSBAUGH, D. L., BEST R. Comportamento do Consumidor Construindo a Estratégia de Marketing, Rio de Janeiro. Campos, 2007. HEILBORN, M. L. Dois é par: Gênero e identidade sexual em contexto igualitário. Rio de Janeiro: Garamond, 2004. IASBACK, L. A. Imagem e reputação na gestão da identidade organizacional. Revista Organicom, v. 4, n. 7, 2007. INSTITUTO ETHOS. Indicadores Ethos de Responsabilidade social. 2000. Disponível. http://www.ethos.org.br/docs/conceitos_praticas/indicadores/default.asp. Acesso em: Abril de 2014. IRIGARAY, H. A. R. Estratégia de Sobrevivência dos Gays no Ambiente de Trabalho. ENANPAD, Rio de Janeiro, 2007. IRIGARAY, H. A. R.; SARAIVA, L. A.; CARRIERI, A. Humor e Discriminação por Orientação Sexual no Ambiente Organizacional.RAC, Curitiba, v. 14, n. 5, art. 7, p. 890906, Set./Out. 2011. JUNQUEIRA, R. D. Diversidade Sexual na Educação: problematizações sobre a homofobia nas escolas (organizador). Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, UNESCO, 2009. http://unesdoc.unesco.org/images/0018/001871/187191por.pdf Acesso: maio/2014 LACERDA, M.; PEREIRA C.; CAMINO L. Um Estudo sobre as Formas de Preconceito contra Homossexuais na Perspectiva das Representações Sociais.Psicologia: Reflexão e Crítica, 15(1), p. 165-178. 2002. LOPES. D. Desafios dos estudos gays, lésbicos e transgêneros. Comunicação, mídia e Consumo, 2008. http://revistacmc.espm.br/index.php/revistacmc/article/view/5/5 Acesso fevereiro/2015. KRAWULSKI, E. Construção da identidade profissional do psicólogo:vivendo as “metamorfoses do caminho” no exercício cotidiano do trabalho.Tese de Doutorado. Universidade Federal de Santa Catarina. 2004. https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/86913 Acesso dezembro/2014 82 McCRACKEN, G. Cultura e Consumo: novas abordagens ao caráter simbólico dos bens e das atividades de consumo. MAUAD.Rio de Janeiro. 2003. MARX, K. Processo de trabalho e processo de produção de mais valia. In: O Capital. Tradução J. Teixeira Martins e Vital Moreira. Coimbra: Centelha, 1974. Cap. VII, secção 1. Disponível: http://www.marxists.org/ Acesso em: 07/jan/2014 MENDES, A. M. Conflitos de Relacionamento no Trabalho. Seminário de Gestão da Ética nas Empresas Estatais – CCBB, v. 3, p. 1-4, 2007. NUNES, B. F. Consumo e Identidade no meio juvenil: considerações a partir de uma área popular do Distrito Federal Sociedade e Estado. Brasília, v 22, n. 3, p. 647-678. Set./dez. 2007. OLIVEIRA, L. M. B.; SILVA, L. M. M. A diversidade sexual no ambiente de trabalho E os direitos de personalidade. Revista Jurídica Cesumar-Mestrado, v. 12, n. 1, 2012. PEREIRA, B.; AYROSA, E. A. T.; OJIMA, S. Consumo Gay: compreendendo a construção da identidade homossexual através do consumo. ENANPAD. Brasília. 2005. PEREIRA, Bill. Da "Invenção" da Homossexualidade ao Discurso das Posses: Uma Análise Interpretativa da Identidade Homossexual, Tese de Doutorado. FGV, Rio de Janeiro, 2009. PINTO, M. R.; LARA, J. E. Desvendando as experiências de consumo na perspectiva da Teoria da cultura do Consumo: possíveis interlocuções e questões emergentes para a pesquisa do consumidor. ENANPAD. São Paulo, 2009. ROCHA, S. P. V.O homem sem qualidades: modernidade, consumo e identidade cultural. Comunicação, Mídia e Consumo, v. 2, n. 3, 2008. SANTOS, A. L. Para lá do binarismo? O intersexo como desafio epistemológico e político. Revista Crítica de Ciências Sociais, n. 102, p. 3-20. 2013. SARAIVA, L. A. S. Métodos narrativos de pesquisa: uma aproximação. Gestão.Org, v. 5, n. 2, mai/ago, 2007. http://www.revista.ufpe.br/gestaoorg/index.php/gestao/article/viewFile/173/155 Acesso: 01/06/2014 SENNETT, R. A corrosão do caráter: as consequências pessoais. Tradução Marcos Santarita. 14. ed. Rio de Janeiro: Record. 2009. 83 SILVA, T. T. A produção social da identidade e da diferença. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2006. p. 73-102. SILVA, V. G. A viabilidade do suposto passivo: uma atitude revolucionária do homossexual masculino.Revista Mal-estar e Subjetividade. Fortaleza, v. VII, p. 71-88, n. 1, 2007. SILVA, J. V. A.; DO CARMO SCHMIDT, M.; Identidade e cultura organizacional em uma empresa pública paranaense.Rev. FAE, Curitiba, v. 11, n. 1, p.3-7, jan./jun. 2008. SIQUEIRA, M. V. S.; ZAULI-FELLOWS, A. Diversidade e Identidade Gay nas Organizações.Gestão Org. Revista Eletrônica de Gestão Organizacional, v. 4, p. 11 n. 3. 2006. SIQUEIRA, M. V. S.; SARAIVA, L. A.; CARRIERI, A. P.; LIMA, H.; ANDRADE, A. Homofobia e violência moral no trabalho no Distrito Federal.Organizações & Sociedade, 16(50), 447-461. 2009. Acesso:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000216&pid=S14156555201400010000600061&lng=pt Acesso em: mar/2014 SLATER, D. Cultura do consumo & modernidade–Exame. NBL Editora, 2001. STETS J. E.; BURKE, P. J. Identity Theory and Social Identity Theory;Social Psychology Quarterly, v. 63 n. 3 p. 224-237. 2000. Acesso: www.jstor.org STETS J. E.; BURKE, P. J. A sociological approach to self and Identity. In Mark R. Leary & June Price Tangney (eds.). Handbook of Self and Identity. Guilford Press. p. 128-152. (2003a) STETS J. E.;BURKE, P. J. Handbook of Self and Identity. Guilford In Mark R. Leary & June Price Tangney (eds.) Press. p. 128-152. (2003b). VERGARA, S. C. Projetos e Relatórios de pesquisa em Administração. 4. ed. São Paulo. Atlas. 2005. WARNER, M. Introduction: Fear of a Queer Planet. Social Text. v. 9 p. 3-17. 1991. WEINSTEIN, B. A Pesquisa sobre Identidade e Cidadania nos EUA: da Nova História Social à Nova História Cultural.Rev. bras. Hist. vol. 18 n. 35, São Paulo, 1998. http://ww2.itau.com.br/sustentabilidade/_/No-itau-unibanco/politicas/politica-dediversidade.html acesso: 09/04/2014 http://revistaladoa.com.br/2012/02/noticias/pesquisa-mostra-que-mercado-trabalho-brasileirohomofobico acesso: 10/04/2014 84 http://exame.abril.com.br/revista-exame-pme/edicoes/0069/noticias/diferentes-mas-iguais acesso: 10/03/2014 http://www.seuhistory.com/celebracoes/dia-do-orgulho-gay.html acesso: 01/06/2014 http://www.plc122.com.br/orientacao-e-identidade-de-genero/entenda-diferenca-entreidentidade-orientacao/#ixzz3LdTx38Vv acesso: 11/12/2014 85 Apêndice – Roteiro das Entrevista Entrevista Narrativa Homossexualidade Nome Você é um homem gay? Idade Onde mora Mora com quem (Identidade - Pertencimento / Âncoras sociais) Escolaridade/formação (Identidade - Práticas identitárias) Profissão (Identidade - Práticas identitárias/Âncoras sociais) A escolha da profissão ou trabalho (Processos de Identificação e Identidade - Identificação e projeção / Identidade coletiva no trabalho) Onde trabalha (Identidade - Pertencimento) Qual setor (Identidade / Identidade coletiva no trabalho) Quanto tempo nessa empresa (Práticas identitárias) O que te levou escolher essa empresa para trabalhar (Práticas identitárias) O que você faz quando está fora do trabalho/lazer (Práticas identitárias e Dimensões culturais e sociais do consumo) Quando percebeu a sua homossexualidade (Auto percepções / Homossexualidade como condição) Como foi... Sua história (Identidade / Homossexualidade) Sua infância (Auto percepções / Homossexualidade como condição) Sua adolescência (Auto percepções / Homossexualidade como condição) Aceitação da sua condição (Atividade reflexiva / Identificação e projeções/ Homossexualidade como condição) Momento da não aceitação (Vítima do estigma) Como foi... Alguma discriminação ou preconceito naquele período (Vítima do estigma) Na infância (Vítima do estigma) Na adolescência (Vítima do estigma) Escola / vizinhança Se identificou com alguém gay naquela época (Processos de Identificação - Identificação e projeção) 86 Alguém próximo ou parente homossexual (Processos de Identificação - Identificação e projeção) Como lida hoje com a sua homossexualidade (Homossexualidade / Práticas identitárias / Ritos de Passagem) Um exemplo Homossexualidade assumida Sua homossexualidade assumida (Identidade/ Homossexualidade) Quando e Como foi... A quem contou primeiro (Identidade - Âncoras sociais / Homossexualidade - Ritos de Passagem) Sua família Reação deles Como foi... E irmãos. Depois que assumiu, como foi... (Processos de Identificação) O que mudou depois que assumiu sua homossexualidade? (Ritos de Passagem) Mudanças pessoais Hábitos. Reação dos amigos. Lugares ou ambientes. Diversão ou Lazer. No consumo. Mudanças no trabalho. Com que frequência. Ambiente de Trabalho Sua homossexualidade é assumida no ambiente de trabalho? (Segurança Ontológica) O que é ser gay no ambiente de trabalho? (Impactos sociais e os acontecimentos das instituições) Como é percebido (Pertencimento - Identidade coletiva no trabalho) Algum tipo de preconceito. (Homossexualidade - homofobia) Sua função ou Cargo. Suas responsabilidades (Impactos sociais e os acontecimentos das instituições) Faz parte de uma equipe (Identidade coletiva no trabalho) Sua rotina. Amigos no ambiente de trabalho. 87 Conversa a respeito da vida particular. Quem Relacionamento. Família. Férias ou viagens. São homossexuais ou heterossexuais (Identificação e projeção - Âncoras sociais) Expectativa profissional ou de carreira. (Identidade coletiva no trabalho) Profissionalismo e homossexualidade assumida, como se relacionam. E na Empresa ou fora dela. (Identidade coletiva no trabalho - Pertencimento) Ambientes fora do trabalho. Hábitos fora do trabalho. Com quem. Com que frequência. O que gosta mais de comprar. Lugares - Loja ou Shopping. Marcas de preferência. Marcas e homossexualidade. (Escala social e o status social) Qual você se identifica. Por que. O que gosta de fazer - Lazer. Viagem. Como foi... Como você percebe a homossexualidade nesses ambientes? (Identificação e projeção) Como funciona. (Dimensões culturais e sociais do consumo) Bares, restaurantes e alguns lugares. (Dimensões culturais e sociais do consumo) Tem preferência. Porque. Lugar que há preconceito a homossexualidade. (Vítima de estigma) Como assim... Você está namorando ou casado. (Âncoras sociais - Identidade de gênero) Expressa seu afeto, carinhos em público. (Enfrentamento do estigma) Como funciona. 88 O que mudou na sua opinião. Em que ambiente. Casar. Ter filhos. (Âncoras sociais - Pertencimento - Enfrentamento de estigma) Você sente que há algum lugar de preconceito? (Vítima de estigma) Como assim... Já sofreu de alguma discriminação ou homofobia? (Vítima de estigma) Como foi... Obrigada!