Universidade Estadual de Santa Cruz Programa Regional de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente Mestrado em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente PERCEPÇÃO AMBIENTAL E REVITALIZAÇÃO: as praças do bairro Salobrinho, Ilhéus, Bahia SILVIA KIMO COSTA ILHÉUS, BAHIA 2008 SILVIA KIMO COSTA PERCEPÇÃO AMBIENTAL E REVITALIZAÇÃO: as praças do bairro Salobrinho, Ilhéus, Bahia Dissertação apresentada ao Programa Regional de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente, Sub-programa Universidade Estadual de Santa Cruz, como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente. Orientador: Professor Dr. Paulo dos Santos Terra ii SILVIA KIMO COSTA PERCEPÇÃO AMBIENTAL E REVITALIZAÇÃO: as praças do bairro Salobrinho, Ilhéus, Bahia Ilhéus, Bahia, 12 de fevereiro de 2008 ________________________________________ Dr. Paulo dos Santos Terra UESC (Orientador) ________________________________________ Dra. Elaine Cavalcante Gomes Dep. Arquitetura e Urbanismo - UFV ________________________________________ Dr. Milton Ferreira PRODEMA/ UESC iii AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus pela oportunidade de viver e dar continuidade ao aprendizado espiritual. Aos meus pais que não mediram esforços e sacrifícios para me proporcionar o que considero de mais valioso: o conhecimento. Ao meu marido e amigo Marcio, por nunca deixar que eu esmorecesse frente a qualquer obstáculo; por suas palavras, que nem sempre foram as que eu queria ouvir, mas sim as que eu precisava ouvir; pelo incentivo e por acreditar que sou capaz de alcançar meus objetivos. Ao meu filho Lucas, que tanto amo, e que embora ainda tão jovem, é capaz de enxergar fundo em meu coração e com um simples olhar ou sorriso, demonstrar que é preciso parar, sossegar, observar as coisas mais simples da vida e aproveitar momentos que sem dúvidas jamais irão se repetir. Ao meu irmão e amigo William, pela paciência que só os irmãos possuem. Às minhas melhores amigas, as super enfermeiras Natiane e Carlinha; Jussiara - êta mulher retada!!! Helga – um verdadeiro raio de sol, e meu amigo Gustavo. Ao meu orientador Prof. Paulo Terra por sua paciência, sensibilidade e ética ao orientar. À minha amiga Profa. Cristina Rangel que muito contribuiu para com esse trabalho; obrigado pela paciência, por muitas vezes deixar de almoçar para tirar iv minhas dúvidas, e até mesmo atender meus telefonemas às 7:00 horas da manhã para discutir Fenomenologia Existencial. À Universidade Federal de Viçosa, por ter me proporcionado uma excelente formação acadêmica em Arquitetura e Urbanismo. Tenho orgulho de dizer que fui uma aluna UFV. À Universidade Estadual de Santa Cruz - PRODEMA. v LISTA DE FIGURAS Figura 1. Croqui representando o Adro da igreja no período colonial. (Fonte: ROBBA e MACEDO, 2003, p. 19). Pg. 32 Figura 2. Imagem Salobrinho/ UESC. (Fonte: ASCOM/ Universidade Pg. 50 Estadual de Santa Cruz, 2007). Figura 3. Mesorregiões da Bahia com destaque para a mesorregião Sul baiano. (Fonte: IBGE 2006, adaptado por ROCHA, 2006). 51 Figura 4. Microrregião Cacaueira (Ilhéus-Itabuna) na mesorregião Sul baiano. (Fonte: IBGE 2006, adaptado por ROCHA, 2006). Pg. 51 Figura 5. Imagem da cidade de Ilhéus. (Fonte: Prefeitura do Campus/ Pg. 52 Universidade Estadual de Santa Cruz, 2007). Figura 6. Imagem cidade de Ilhéus/ bairro Salobrinho. (Fonte: Google Pg. 55 Earth. 2007 Europa Technologies, Image © 2007 TerraMetrics). Figura 7. Imagem bairro Salobrinho. (Fonte: Prefeitura do campus/ Universidade Estadual de Santa Cruz, 2007). Pg. 55 Figura 8: Praça João Francisco de Carvalho. (Fotografia: Silvia Kimo Pg. 59 Costa, 2006). Figura 9. Praça quadrangular e retangular. (Fonte: DE ANGELIS, Pg. 60 CASTRO e NETO, 2004, p. 66). Figura 10: Praça Santo Antônio. (Fotografia: Silvia Kimo Costa, 2006). vi Pg. 61 Figura 11. Praça triangular. (Fonte: DE ANGELIS, CASTRO e NETO, 2004, Pg. 61 p. 66). Mapa temático do Salobrinho desenvolvido sobre fotografia aérea cedida pela CEPLAC. Pg. 63 Figura 12: Planta Baixa - Praça João Francisco de Carvalho. Pg. 110 (Desenho: Silvia Kimo Costa, 2007). Figura 13: Planta Baixa - Praça Santo Antônio. (Desenho: Silvia Kimo Pg. 111 Costa, 2007). Figura 14: Perspectiva – Requalificação da Praça João Francisco de Carvalho. (Desenho: Silvia Kimo Costa, 2007). Figura 15: Perspectiva – Requalificação da Praça Santo Antônio. (Desenho: Silvia Kimo Costa, 2007). vii Pg. 113 Pg. 115 LISTA DE QUADROS Quadro 1 – As praças ao Longo da História Pg. 30 Quadro 2 – Classificação das praças Pg. 35 Quadro 3 - Teóricos fenomenológicos e seus principais métodos de coleta e análise de dados Pg. 65 Quadro 4 – Objetivos específicos da pesquisa e métodos utilizados para alcançá-los Pg. 68 Quadro 5 - Levantamento quantitativo dos equipamentos e estruturas existentes da praça João Francisco de Carvalho Pg. 108 Quadro 6 - Levantamento quantitativo dos equipamentos e estruturas existentes da praça Santo Antônio Pg. 109 Quadro 7 - Avaliação qualitativa dos equipamentos e estruturas existentes da praça João Francisco de Carvalho Pg. 109 Quadro 8 - Avaliação qualitativa dos equipamentos e estruturas existentes da praça Santo Antônio Pg. 110 Quadro 9 - Principais elementos físicos que diretamente influenciam o vivenciar da praça João Francisco de Carvalho Pg. 109 Quadro 10 - Principais elementos físicos que diretamente influenciam o vivenciar da praça Santo Antônio Pg. 111 Quadro 11 - Principais elementos de ordem conceitual e simbólica referentes à praça João Francisco de Carvalho e Santo Antônio que diretamente influenciam a forma como seus usuários as vivenciam Pg. 112 viii LISTA DE TABELAS Tabela 1 - O que o usuário faria se pudesse modificar a praça Santo Antônio (Conjunto de essência geral: Valores e sentimentos). Pg. 82 Tabela 2 - O que o usuário faria se pudesse modificar a praça João Francisco de Carvalho (Conjunto de essência geral: Valores e sentimentos). Pg. 82 Tabela 3 - O que o usuário não gosta na praça Santo Antônio Pg. 83 (Conjunto de essência geral: Valores e sentimentos). Tabela 4 - O que o usuário não gosta na praça João Francisco de Carvalho (Conjunto de essência geral: Valores e sentimentos). Pg. 83 Tabela 5 - O que leva o usuário a freqüentar a praça João Francisco de Carvalho (Conjunto de essência geral: Uso e Identificação das Pg. 86 praças). Tabela 6 - Qual é a função da praça? (Conjunto de essência geral: Pg. 86 Funções da praça João Francisco de Carvalho). Tabela 7 - Qual é a função da praça? (Conjunto de essência geral: Pg. 87 Funções da praça Santo Antônio). Tabela 8 - Palavras que vêm à mente referentes à Praça João Francisco de Carvalho (Conjunto de essência geral: Funções da praça). Pg. 87 Tabela 9 - Palavras que vêm à mente referentes à Praça Santo Antônio (Conjunto de essência geral: Funções da praça). Pg. 87 Tabela 10 - Quem deve cuidar da praça João Francisco de Carvalho? (Conjunto de essência geral: Administração). Pg. 90 ix Tabela 11 - Quem deve cuidar da praça Santo Antônio? (Conjunto de Pg. 90 essência geral: Administração). Tabela 12 - Como o usuário cuidaria da praça João Francisco de Carvalho (Conjunto de essência geral: Administração). Pg. 91 Tabela 13 - Como o usuário cuidaria da praça Santo Antônio Pg. 91 (Conjunto de essência geral: Administração). Tabela 14 - Nível de escolaridade dos usuários da praça João Francisco de Carvalho. Pg. 102 Tabela 15 - Nível de escolaridade dos usuários da praça Santo Antônio. Pg. 103 Tabela 16 - Freqüência de usuários na praça João Francisco de Carvalho (Conjunto de essência geral: Identificação e uso das praças). Pg. 104 Tabela 17 - Tempo de permanência dos usuários na praça João Francisco de Carvalho (Conjunto de essência geral: Identificação e uso das Pg. 104 praças). Tabela 18 - Tempo de permanência dos usuários na praça Santo Antônio (Conjunto de essência geral: Identificação e uso das praças). x Pg. 105 LISTA DE ANEXOS Anexo 1 – Parecer Consubstanciado – Comitê de Ética em Pesquisa (CEP/ UESC) Pg. 123 Anexo 2 – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido Pg. 124 Anexo 3 – Questionário - Perfil sócio-econômico-cultural dos moradores do entorno imediato e usuários das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio. Pg. 125 Anexo 4 – Roteiro de Entrevista semi-estruturada Pg. 126 xi LISTA DE ABREVIATURAS E SÍMBOLOS CEPLAC - Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira CEP – Comitê de Ética em Pesquisa PMI - Prefeitura Municipal de Ilhéus TCLE – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido UESC - Universidade Estadual de Santa Cruz UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura xii RESUMO Ao longo da história a praça vem assumindo feições diversas frente a uma sociedade em constante mutação, constituindo-se em foco ou síntese de uma cidade ou bairro, sobre os quais sua influência se irradia e dos quais se torna um símbolo. Por esse motivo tornou-se alvo constante de propaganda e veiculação política, ocasionando intervenções que resultam em espaços que não condizem com os anseios de seus usuários. Intervir num espaço público como este é uma tarefa complexa, pois o mesmo não é apenas físico, no qual o indivíduo se movimenta e o sente à parte de si, mas sim constantemente experienciado e (re) construído pelas relações sociais. Isso exige do profissional arquiteto e urbanista, determinados procedimentos de estudo e análise que enfoquem o espaço enquanto vivenciado, percebido. Sendo assim, o presente trabalho buscou discutir a intervenção em espaços públicos urbanos, mais especificamente a revitalização, tomando como estudo de caso as praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio, Salobrinho, Ilhéus, Bahia, apontando a reconstituição da percepção ambiental de seus usuários e moradores do entorno imediato como ferramenta imprescindível ao processo. Este estudo baseou-se no aporte teórico-metodológico da Fenomenologia, no intuito de abordar tais praças como são experienciadas. Através da reconstituição da percepção ambiental foi possível identificar os elementos signíficos que influenciam o vivenciar destes espaços e verificar se os mesmos necessitam ou não ser revitalizados. Como produto final, com base nos resultados obtidos, foram propostos os projetos preliminares de revitalização para ambas as praças. Palavras-chave: Percepção ambiental, Fenomenologia, Praças. xiii ABSTRACT Across the history, with the growth evolution of society, there have been significant changes concerning the role of the puclic square in urban life, for this reason, this urban space can be considered a focus or synthesis of cities or neighborhoods, from it’s influence irradiates and which can become a symbol. This great visibility open importance within the city transforming it an object of political dissemination and propaganda, promoting changes that do not consider the space users’s real necessities and desires. Alter this kind of urban space is a complex task, because the process request from the urban planner to understand that the public square is not only a fisical, material, space where man can walks and senses it apart from him, but also a space constantly experienced and rebuilt by social relationships. This will request studies and analysis under an environmental perception perpspective. So, this research had as principal goal, to study how users from public squares João Francisco de Carvalho and Santo Antonio, bove of them located in Salobrinho neighborhood, Ilheus, Bahia, Brasil, were experiencing and living it. This research makes use of theoretical and methodological underpinnings from phenomenology to acess space. The results permited to identify fisical and symbolical elements which inlfuence the way how these spaces have been experienced, and to verify if they need to be revitalized or not. As final product, based upon the results, it was proposed a preliminar revitalization urban design for these publics squares. Key Words: Environmental Perception, Phenomenology, Public Square. xiv SUMÁRIO Agradecimentos IV Lista de figuras VI Lista de quadros VIII Lista de tabelas IX Lista de anexos XI Lista de abreviaturas e símbolos XII Resumo XIII Abstract XIV 1. INTRODUÇÃO 18 1.1. Objetivo Geral 21 1.2. Objetivos Específicos 21 2. FUNDAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS 22 2.1. Espaço urbano - Espaço Público - Praça 22 2.2. A Praça como elemento da cidade 27 2.3. Vivenciando e experienciando o espaço 36 2.4. Renovar, reabilitar ou requalificar o espaço? 44 xv 3. LOCAL E OBJETO DE ESTUDO 49 3.1. A escolha da praça como objeto de estudo 49 3.2. A cidade de Ilhéus – breve relato 51 3.3. Caracterização estrutural-urbana do Salobrinho 54 3.4. Histórico de ocupação do bairro 56 3.5. Caracterização estrutural-urbana das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio 59 4. METODOLOGIA 64 4.1. Amostra 69 4.2. Métodos de coleta de dados 71 4.2.1. Pesquisa bibliográfica 71 4.2.2. Roteiros de observação como observador participante 72 4.2.3. Roteiro de entrevista semi-estruturada e mapas mentais 74 4.3. Métodos de análise dos dados 76 4.3.1. Método de análise do roteiro de entrevista semi-estruturada 76 4.3.2. Método de análise dos mapas mentais 78 5. RESULTADOS E DISCUSSÕES 81 5.1. Os Conjuntos de Essências Específicos 81 5.2. Imagens imediatas do espaço vivido – mapas mentais 92 5.3. Outras variáveis que influenciam a percepção das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio. 102 5.4. Concluindo a análise 105 5.5. Renovar, reabilitar ou requalificar as praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio? 106 xvi 6. REQUALIFICANDO AS PRAÇAS JOÃO FRANCISCO DE CARVALHO E SANTO ANTÔNIO 108 6.1. Levantamento espacial 108 6.2. Representação gráfica 110 6.3. Elaboração dos projetos 111 6.3.1. Projeto preliminar de requalificação da praça João Francisco de Carvalho 112 6.3.2. Projeto preliminar de requalificação da praça Santo Antônio 113 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS 115 8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 117 9. ANEXOS 122 xvii 1. INTRODUÇÃO Ao longo da história o ambiente construído praça vem assumindo feições diversas frente uma sociedade em constante mutação. Foi espaço para a democracia direta na Ágora Grega; o adro da igreja, mercado, largo e o terreiro no período colonial; os jardins dos grandes palácios europeus no século XVIII; foi elemento para transformação urbanística e embelezamento das cidades no final do século XIX, e palco para manifestações no século XX. Atualmente, este ambiente construído pode ser definido como um espaço social, que possibilita uma integração voluntária à vida de agrupamentos recreativos sociais e culturais; simbólico, exercendo importante papel na identidade do bairro ou da cidade; e, do ponto de vista ecológico, imprescindível para a qualidade do meio ambiente urbano, pois sua configuração paisagística contribui para a melhoria da qualidade do ar, ameniza a impermeabilização do solo e modera o microclima, reduzindo as ilhas de calor. Em virtude da magnitude desse espaço público que condensa e representa aspectos tão importantes para a sociedade como, lazer, convívio social, simbolismo e qualidade de vida, a praça tornou-se um objeto para a veiculação política e propaganda. Conseqüentemente, as concepções de novas praças ou revitalizações naquelas já existentes são norteadas por ditames políticos, que resultam em espaços que não atendem as necessidades dos seus usuários, nem se inserem na paisagem de 18 forma harmônica. As propostas, na maioria das vezes, não atentam para o potencial da área, anseios da população, mobiliário adequado, inserção na malha urbana, localização, distribuição e características do entorno imediato. É nesse contexto que se inserem os objetos de estudo da presente pesquisa, as praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio, ambas localizadas no bairro Salobrinho, em Ilhéus, Bahia. Em breve relato; o Salobrinho é um bairro que não apresenta contigüidade ao espaço densamente construído da cidade de Ilhéus. Possui ocupação desordenada e é desprovido de infraestrutura básica e serviços urbanos. Dentre os poucos espaços do bairro, configurados para lazer e convívio social, os principais são as praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio. A primeira foi construída em 1989, fruto de campanhas para as eleições municipais, e passa por “revitalizações”, em todos períodos eleitorais. As modificações variam desde a quebra ou pavimentação do piso, à retirada e reconstrução dos canteiros. Entretanto, tais “reformas” não contemplam as verdadeiras necessidades e anseios dos seus usuários. A praça Santo Antônio, assim nomeada na década de 1970, também é alvo de veiculação política, mas nunca sofreu qualquer intervenção permanecendo com infraestrutura extremamente precária, desprovida de mobiliário urbano, e apresentando poucas árvores para amenizar o intenso calor tropical. Intervir nestas praças é uma tarefa complexa, uma vez que as gratificações afetivas que trazem a cada um de seus usuários geram microrritualizações, repetição de gestos e hábitos do cotidiano, que contribuem pouco a pouco para a construção e fortalecimento de sentimentos para com as mesmas. Sendo assim, antes do processo de intervenção, é necessário procedimentos de estudo e análise que valorizem a soma 19 dessas gratificações afetivas, próprias a cada um dos usuários envolvidos. É preciso considerar tais espaços como são vividos e percebidos. E ao considerar o espaço tal como é vivido, reconstituindo a percepção daqueles que dele usufruem, então questionar: será oportuno, suficiente e necessário revitalizá-los? Sendo assim, a presente pesquisa objetivou reconstituir a percepção ambiental dos usuários e moradores do entorno imediato às praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio, buscando desvendar as relações espaciais simbólicas, impressas pela forma de sentir, pensar e agir, numa abordagem destas praças tais como são vividas e, com base nos resultados obtidos, se necessário, esboçar os projetos de revitalização para estes espaços. O estudo da percepção ambiental fundamentou-se na abordagem teóricometodológica da Fenomenologia, no intuito de desvendar o espaço experienciado sem comprometer sua riqueza e complexidade de significados. 20 1.1. Objetivo Geral Reconstituir a percepção ambiental dos usuários e moradores do entorno imediato às praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio, ambas situadas no bairro Salobrinho, Ilhéus, Bahia e, com base nos resultados obtidos, se necessário, esboçar um projeto de intervenção urbana - revitalização para esses espaços. 1.2. Objetivos Específicos 1. Levantar a história da configuração espacial do bairro e das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio; 2. Identificar por quem, quando, e como estas praças são usadas; as formas de interação entre os diferentes agentes produtores das mesmas e como se dá o convívio entre os diferentes segmentos sociais que as utilizam; 3. Investigar como os usuários e moradores do entorno imediato a estas praças as experienciam; 4. Esboçar um projeto de revitalização, se necessário, tendo como base os resultados obtidos com a pesquisa. 21 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA 2.1. Espaço urbano Espaço Público Praça As concepções de novas praças ou intervenções naquelas já existentes vêm sendo marcadas por ditames políticos, resultando em espaços cuja configuração, não atende as necessidades daqueles interessados em sua existência, os usuários. Tais intervenções são mal sucedidas, e a reflexão relativa às transformações espaciais decorrentes desses processos, exige do arquiteto e urbanista uma reavaliação conceitual partindo de concepções referentes à cidade, e aos espaços urbano e público nesse contexto. O que é o “urbano”? Urbano seria o oposto do rural? Um aglomerado de estruturas diversas, edificações e vias? O urbano é a cidade? De fato, não é possível pensar o urbano sem resgatar da memória imagens referentes às cidades. De acordo com Monte-Mór (2006, p. 06), os adjetivos “urbano” e “rural”, referem-se respectivamente à cidade e ao campo1, e dizem respeito “a uma gama de relações culturais, sócio-econômicas e espaciais entre formas e processos 1 Nos dias atuais, quase já não é possível perceber com clareza as fronteiras entre o urbano e o rural. Onde começa o urbano? Onde termina o rural? Em termos legais, no Brasil, as cidades são definidas pelos perímetros urbanos das sedes municipais, que incluem os perímetros das vilas e dos distritos municipais. Contudo, as áreas urbanizadas englobam amplas regiões cincunvizinhas às cidades que se estendem sobre territórios limítrofes e distantes em um processo expansivo iniciado no século XIX e acentuado no século XX (MONTE-MÓR, 2006). 22 derivados da cidade e do campo”. Ainda segundo o autor, a cidade e o campo, são elementos sócio-espaciais opostos e complementares, pois constituem a centralidade e a periferia do poder na organização social. As cidades garantem a diversidade, a escala da vida social, a competição e a cooperação. Os campos garantem diversidades dentro das homogeneidades extensivas e escalas de produção. Também contém processos de competição e cooperação, mesmo que gerenciados pelas cidades, limitados pela auto-suficiência. Para Santos Filho (2004) o urbano é a espacialização das relações sociais; uma atribuição do social contemporâneo, aglutinador e denso. Lacaze (1993), considera o urbano um local natural, muitas vezes predestinado como etapa dos intinerários de transporte, mas resultante de uma dimensão política. É local construído, onde cada etapa de seu desenvolvimento produz novos bairros, transforma as estruturas existentes, cria ou reorganiza os monumentos simbólicos que detêm sua identidade. Também é espaço econômico, privilegiado de produção, de troca, de prestações de serviço e consumo. Constitui-se num espaço social de grande intensidade, capaz de dinamizar as interações entre grupos até o conflito, conferindo riqueza de significado aos lugares. E é espaço político e administrativo particular, que requer modos de gestão específicos. Segundo Oliva (2001), o urbano é um espaço (re) produzido pelas relações sociais. De acordo com Leite (2002), todo espaço urbano é antes uma propriedade pública. Nele podem ser instituídas práticas sociais que venham a caracterizar a dimensão propriamente política dos espaços públicos. 23 Quando as ações atribuem sentidos de lugar e pertencimento a certos espaços urbanos, e, de outro modo, essas espacialidades incidem igualmente na construção de sentidos para as ações, os espaços urbanos podem se constituir como espaços públicos: locais onde as diferenças se publicizam e se confrontam politicamente (LEITE, 2002, p. 02). O espaço público2 pode ser entendido então como uma categoria a partir da interface entre os conceitos de esfera pública – categoria ação – e de espaço urbano – referência espacial. O espaço público se constitui no espaço urbano, mas ele está além da rua, como uma dimensão sócio-espacial da vida urbana, caracterizada pelas ações que atribuem sentidos a certos espaços da cidade e são por eles influenciadas. Segundo Santos Filho (2004), o espaço público refere-se ao local do debate e da ação3. Trata-se de uma base formal para lidar com o movimento de convivência entre o consenso e o conflito. Também se constitui num espaço simbólico e centro do funcionamento democrático. Para o autor o espaço público se insere no território coletivo, juntamente com o espaço comum e o espaço político. O espaço comum4 é simbolizado pelas trocas comerciais. É simultaneamente físico, definido por um território, e simbólico, quando definido por redes de intercâmbio. É o lugar de troca e diz respeito à circulação e à expressão. O espaço político5 é o lugar da decisão e da ação, tem a ver com os limites territoriais sobre os quais se exercem a soberania e a 2 Numa conceituação geral, um espaço público é considerado como aquele que, dentro do território urbano tradicional, seja de uso comum e de posse coletiva - pertencente ao poder público (SANTOS FILHO, 2004). A palavra público apareceu no século XIV, advinda do latim publicus que significa à todos. Público se refere a tornar público, para publicar do latim publicare o que pressupõe uma ampliação do espaço comum e a atribuição de um valor normativo àquilo que é acessível a todos (WOLTON, 2007). 3 A idéia de que as cidades possuem uma esfera pública, pertencente e usada pela coletividade e uma esfera privada, cuja posse e manutenção respondem aos interesses de um ou mais indivíduos específicos, é bastante antiga, mas virá a se definir plenamente com a urbanística grega durante a Antigüidade Clássica. Para os gregos, a Ágora era o espaço que inserido na Polis, representava o espírito público desejado pela coletividade da população e onde se exercia a cidadania (BENEVOLO, 1999). 4 A palavra comum apareceu no século IX e está ligada à idéia de comunal e de comunidade. Deriva do latim communis (WOLTON, 2007). 5 A palavra política emergiu entre o século XIII e o século XIV, deriva do latim politicus e de acordo com palavra grega politik refere-se à arte de gerir os assuntos da cidade (WOLTON, 2007). 24 autoridade. Ainda segundo o autor, o espaço público inicialmente foi apenas espaço físico, afirmou-se e tornou-se simbólico a partir dos séculos XVI e XVII, com a separação entre o sagrado e o temporal e a redefinição do privado. Adquiriu valor normativo àquilo que é acessível a todos, uma passagem do comum, das trocas e mercados, ao público, onde se estabeleceu o princípio de liberdade e, conseqüentemente, o espaço da discussão e da deliberação, oferecendo condição para o desenho de um espaço político. E por fim, o que é a cidade? A cidade é a forma concreta do urbano, experiência tátil, “espaço perceptivo concreto e se refere à condição social pós-moderna, pois não se pode pensar o mundo contemporâneo sem o urbano que é um universo simbólico, porque a forma espacial pode ser manipulada de várias maneiras, produzindo vários significados” (SANTOS FILHO, 2004, p. 05). É a espacialização da condição urbana, do público, é construção coletiva que sintetiza, em espaço real, concreto, físico, resultante de uma experiência perceptiva do espaço (HARVEY, 1980), o desenho do espaço público que pode ser entendido como a cidade real. As transformações na cidade real dependem das interações que ocorrem na esfera social, ou seja, a forma como se articulam as relações e representações sociais no espaço público interferem diretamente em seus desenhos urbanos. Por que? Porque a interação entre a forma espacial, o significado simbólico e o comportamento espacial são definidos pela experiência simbólica do espaço (HARVEY, 1992). Com base neste fundamento fica claro porque espaços públicos, como as praças, são constantes objetos de veiculação política e propaganda. Estes espaços são 25 abertos, amplos, moldados a partir e para permitir o convívio social; adquirindo grande visibilidade dentro do contexto urbano e importância simbólica. Segundo Robba e Macedo (2003), em anos que precedem as eleições municipais é comum que as prefeituras invistam em reformas deste espaço público para chamar a atenção do eleitor. Algumas propostas realmente trazem melhorias urgentes e necessárias para as cidades, mas em alguns casos as praças são reformadas sem necessidade. Muitas ainda funcionavam em pleno vigor e vitalidade e apenas necessitavam de um programa de manutenção eficiente e constante. Algumas intervenções são propostas de criação de novas praças, que em geral se dão em áreas menos consolidadas e em bairros periféricos, no entanto os projetos são simples, de baixo orçamento, formalmente mais modestos e executados sem considerar os anseios das comunidades locais onde estão sendo implantados. Intervenções em espaços públicos, desnecessárias e incoerentes com a percepção de seus usuários, aliadas à falta de manutenção sistemática, compromete sua existência (ROBBA e MACEDO, 2003). Muitas vezes a ausência de usuários em uma praça é conseqüência da falta de manutenção deste espaço. Sem usuários o espaço público perde seu significado, já que o mesmo não é apenas um espaço constituído de formas tridimensionais, mas acima de tudo é um espaço (re) produzido constantemente pelas relações sociais, e pelas vivências e experiências de seus usuários. Um espaço público, como a praça, a cada momento se redefine na história e se reveste de manifestações próprias, assumindo formas espaciais diversas (SANTOS FILHO, 2004). Ela se instaura no urbano e se traduz como um elemento imprescindível para a cidade. 26 2.2. A praça como elemento da cidade A praça – espaço público - é a espacialização da arena, onde as relações entre os homens são discutidas e “onde se estabelece a passagem do abstrato - a discussão e a reflexão coletiva, a cidade ideal, pensada – para a cidade real” (SANTOS FILHO, 2004, p. 07). Também pode ser considerada ponto nodal, “foco ou síntese de um bairro, sobre o qual sua influência se irradia e do qual é símbolo” (LYNCH, 1980, p. 53). Por isso caracteriza-se como um lugar onde as articulações entre público e privado se apresentam de forma peculiar e como outros espaços abertos dentro do contexto urbano, possui várias funções simbólicas importantes, congregando indícios para a percepção e discernimento das relações espaciais da cidade, dando um caráter à mesma pela sua singularidade (GOMES, 1997). Historicamente, as praças remontam do período greco-romano. A Ágora dos gregos e o Fórum dos romanos foram os primeiros espaços urbanos intencionalmente projetados para cumprirem o papel social que as praças desempenham nos dias atuais. Ambos espaços possuíam aspecto simbólico extremamente importante na cultura de cada um desses povos, pois materializavam a idéia de público. A Ágora grega se delimitava por mercados e demais edifícios; era o espaço no qual a limitação da esfera pública urbana estava claramente decidida. Lá se praticava a democracia direta, em que as idéias dos cidadãos eram debatidas e discutidas. O Fórum romano representava a monumentalidade do Estado, em que o indivíduo que por ele passasse estava espacialmente subordinado aos prédios públicos que o configuravam. O espaço de 27 discussão não era uma “praça” pública e aberta como a Ágora, tratava-se de um espaço fechado de edifícios, com acesso mais restrito (BENEVOLO, 1999). De acordo com De Angelis, Castro e Neto (2004), posteriormente, as praças que se formaram, nas cidades européias normalmente estavam relacionadas com a configuração natural de um espaço livre a partir dos planos de edifícios que foram sendo construídos ao redor de construções importantes, como igrejas e prédios públicos. Constituíam-se em espaços desordenados que serviam de mercado, para espetacularização do cotidiano, atividades então profanas como jogos, festas e teatro, ou exercício da justiça. Foi somente a partir do Renascimento que a praça converteu-se em um dos principais elementos urbanísticos para transformação e embelezamento das cidades, se inserindo em definitivo na estrutura urbana. A praça do século XIX tornou-se um ícone social do espaço urbano, representada por meio de figuras e elementos significativos como canteiros, fontes, quiosques, caminhos e coretos, permitindo não só o passeio como a contemplação da Natureza. Segundo Robba e Macedo (2003), no início do século XX, o lazer contemplativo, o passeio, e a convivência permaneceram como forma de utilização intrínseca a este espaço, e no decorrer dos anos foi sendo adaptado à nova dinâmica da cidade, incorporando outras atividades como o lazer cultural, o lazer esportivo, e a recreação infantil. Ainda segundo os autores, atualmente, a praça é representativa de uma nova conjuntura urbana na qual muitas formas de expressão são aceitas. Não há regras ou dogmas, o que leva a uma fértil e vigorosa (re) produção de espaços livres urbanos. Há novas tecnologias construtivas e novos materiais vêm sendo explorados, abrindo um 28 leque de infinitas possibilidades. Os projetos caracterizam-se pelo restauro do velho e novo uso; pela reconfiguração e mudanças estruturais; pela colagem decorativa; irreverência, e pelo formalismo gráfico em contraposição à praça ajardinada do século XIX. Além disso, o programa de uso é permissivo, aceitando novas interpretações, incorporando formas de utilização mais consagradas, e adaptando-se às necessidades urbanísticas da cidade do século XXI (ROBBA e MACEDO, 2003). Algumas das principais tipologias de praças, ao longo da história, estão sintetizadas no quadro 1. 29 QUADRO 1 As Praças ao longo da história Ágora Grega Fórum Romano Praças Medievais Praça Maior Praça de Armas Praça Renascentista Praça Barroca Praça Eclética Praça Romântica Praça Moderna Constituía-se no centro dinâmico da cidade grega. Era o local de reunião dos cidadãos. Um espaço aberto, foco de composição urbanística onde se fazia uso da palavra, falava-se de política e se formavam as correntes de opinião. Diferencia-se da Ágora por seu traçado complexo, desordenado, em que se misturam os edifícios destinados à basílica, a praça central, o mercado, os templos e o teatro, sem uma relação explícita entre eles. Geralmente irregular, resultando de um vazio aberto na estrutura urbana. Era um espaço social, local do mercado e ponto de encontro político. Também espaço para espetacularização do cotidiano e das relações sociais. Na praça medieval o privado é público. Evidencia-se também seu caráter de centralidade simbólica, onde se destacam duas funções: 1. local de relação social; 2. sede institucional da comunidade, onde o indivíduo se expõe aos olhos do outro. Exemplos de praças medievais: Piazza Del Campo, Siena/ Itália e Piazza Sordello, Mantova/ Itália. Constituiu-se no elemento central do urbanismo das cidades hispânicas e hispano-americanas. Originou-se a partir do século XIII nos mercados que se realizam fora do tecido urbano, nas zonas externas aos muros dos castelos. Ao longo do século XIV, a praça maior sofreu uma evolução funcional convertendo-se num lugar de reuniões e contatos dos habitantes das cidades. No século XV, a praça maior passou a ser utilizada como cenário para torneios, touradas, jogos, mercado semanal, representações teatrais e prática da justiça. Exemplos de praça maior: Praça da cidade de Madrid/ Espanha, Praça da cidade de Segovia/ Espanha. É considerada por diversos autores como uma variante da praça maior, pois apresenta morfologia similar (amplo espaço aberto) e pelo menos um uso comum (mercado). Possuía duas formas distintas: 1. a praça urbana, que localizava-se no centro da cidade fortificada, de onde partiam vias que levavam aos principais portões e pontos de defesa da poli; 2. um descampado, dentro ou fora dos muros das cidades fortificadas, esta localiza-se próxima aos alojamentos militares e funcionava como local para exercícios, treinamentos e artes de guerra. Exemplo de praça de guerra: praça de armas da cidade de Belém/ Pará, Brasil. Caracterizou-se pelo enriquecimento de seu espaço através da introdução de elementos que proporcionavam perspectiva: pórticos, criando visuais filtrantes; fontes, colunas, obeliscos, e pavimentação, acentuando seu caráter axiforme. Exemplo de praça renascentista: Piazza de San Marco da cidade de Venezia/ Itália. Está atrelada ao movimento Barroco que se distingue do Renascimento pela necessidade da direção e do movimento, onde a emoção, causada pelo impacto cênico, comove e subjuga. A praça Barroca caracterizou-se pela imaginação, e tinha por finalidade persuadir e criar uma nova realidade, monumental e “infinita”. Nesta concepção os espaços abertos são valorizados pela arquitetura, e o mercado dá lugar aos jardins, árvores, bancos e pérgulas. Exemplo de praça barroca: Piazza de San Pietro da cidade de Roma/ Itália. É marcada pelo modelo de praça ajardinada apresentando programa de atividades definido em três categorias: passeio, convivência social e contemplação da natureza. Os principais elementos característicos deste espaço são: traçado em cruz e variações; área de estar com ponto focal; passeio perimetral; canteiros geométricos; simetria; eixos; grande quantidade de áreas permeáveis; elementos como coretos, espelhos d’água, estátuas, monumentos e fontes; vegetação arbustiva e forrações; vegetação arbórea plantada ao longo dos caminhos; utilização de espécies exóticas européias; gramados e poda topiária. Exemplo de praça Eclética: Praça Paris na cidade do Rio de Janeiro/ Brasil. Presente no contexto social e artístico da cidade que se industrializava do século XIX e também no começo do século XX. Essa praça é marcada pelo traçado em linhas orgânicas e sinuosas; vegetação exuberante; e presença de equipamentos como grutas artificiais, malocas, castelinhos e pontes imitando troncos de árvores. O programa de atividades, assim como na praça Eclética, era o passeio e contemplação da Natureza. Exemplo de praça Romântica: Praça da República na cidade de São Paulo/ Brasil. Tornou-se um elemento imprescindível à sadia qualidade do meio ambiente urbano. Constitui-se num espaço livre ajardinado, não necessariamente submetido a alguma edificação de grande importância no contexto urbano como Igrejas, ou edifícios cívicos, e é projetado para permitir o lazer contemplativo, o lazer cultural, o lazer esportivo e a recreação infantil. A praça moderna é baseada na estruturação formal e funcional do espaço e é idealizada para a permanência e não para o simples caminhar dos transeuntes. Exemplo de praça Moderna: Praça Vinícius de Moraes na cidade de São Paulo/ Brasil. Fonte: DE ANGELIS 2000; ROBBA e MACEDO, 2003. Organização: COSTA 2007 30 No Brasil, a praça tem sua gênese nas primeiras vilas e povoados coloniais. Segundo Murilo Marx (apud: ROBBA e MACEDO, 2003), as cidades coloniais eram fundadas a partir da doação de uma área de sesmaria para determinado santo, com a conseqüente construção de uma capela e instituição de paróquia em seu louvor. O concessionário da sesmaria outorgava à Igreja o direito sobre um pedaço de terra. A capelania e seu outorgado, o padre ou sacerdote que respondia pela paróquia tinha o direito de repartir a área doada e conceder pedaços de chão para quem o solicitasse, iniciando assim, um assentamento urbano. O centro era destinado à capela e as áreas onde surgiam o cemitério e o rossio. Havendo sobra, o espaço era retalhado em lotes que por sua vez eram concedidos aos agregados da sesmaria, que pagavam o foro à paróquia. Em volta da capela eram construídos pouco a pouco o casario e as edificações que compunham a freguesia, arraial ou vila e no centro era deixado um espaço livre, o adro da Igreja. Tal espaço formava a praça (figura 1). À medida que o povoado crescia, o adro da igreja se consolidava como um elo importante entre a comunidade e a paróquia. Podia ser chamado de largo, terreiro ou rossio – a praça - espaço de interação de todos os elementos da sociedade, abarcando os vários extratos sociais. Ali a população da cidade colonial manifestava sua territorialidade, os fiéis demonstravam sua fé, os poderosos, seu poder, e os pobres, sua pobreza. Era um espaço polivalente palco de muitas manifestações dos costumes e hábitos da população, lugar de articulação entre os diversos estratos da sociedade colonial. (ROBBA e MACEDO, 2003, p. 22). 31 A praça6 colonial podia ser usada como mercado, área de manifestação de cunho militar e político, área de recreação e de comércio. De acordo com Robba e Macedo (2003), os jardins foram inseridos no final do século XIX e início do século XX. As praças mais importantes passaram a ser ornadas com canteiros de árvores e flores ornamentais. As praças coloniais mais antigas e tradicionais receberam vegetação e tratamento de jardim, o que ocasionou a perda de peculiaridades como largo, pátio e terreiro. Figura 1. Adro da igreja no período colonial. Fonte: Robba e Macedo (2003, p.19) 6 Abrindo um parêntese, sob um enfoque antropológico, pode-se afirmar que a praça no Brasil tem suas origens antes mesmo das praças coloniais, uma vez que os índios construíam suas ocas alinhadas formando um círculo, cujo centro vazio, era o local das reuniões, festas e ritos (DE ANGELIS, CASTRO e NETO, 2004). 32 Ainda segundo os autores, nesse período surgiu uma nova tipologia urbana, a praça ajardinada, símbolo da transição do modelo de urbanização colonial para um modelo de cidade moderna, bela, higiênica e pitoresca. Uma área destinada à contemplação da natureza e ao descanso, às atividades de recreação, convivência da população e passeio. A cidade moderna não mais comportava padrões urbanísticos ecléticos. O espaço urbano precisava ser planejado de forma funcional para atender necessidades como habitação, trabalho, lazer e recreação. Nos anos a partir de 1940 os espaços livres nas cidades brasileiras passaram a ser concebidos de acordo com seu programa de uso, englobando atividades esportivas e recreação infantil. Na década de 1970, com a transformação de algumas cidades brasileiras em metrópoles, como Rio de Janeiro e São Paulo, tornou-se necessária a reconstrução e ampliação da infra-estrutura urbana, principalmente quanto ao transporte, habitação e lazer. Naquele momento, observou-se o adensamento das áreas centrais e a expansão dos limites periféricos da malha urbana, nesse contexto, os espaços públicos reafirmaram-se como indispensável opção de lazer para as cidades. As praças, então, espalharam-se e espalham-se até os dias atuais, por todos os bairros, como elementos necessários para a manutenção da qualidade de vida na cidade. Sendo assim, em função de sua trajetória histórica as praças podem ser conceituadas, atualmente, como: “espaços livres públicos urbanos destinados ao lazer, ao convívio da população, acessíveis aos cidadãos e livres de veículos” (ROBBA e MACEDO, 2003, p. 17). E possui valores ambientais, funcionais, estéticos e simbólicos: -Valores ambientais: contribui para diminuir a impermeabilização do solo e equilibrar a temperatura, reduzindo as ilhas de calor e a incidência solar (XIAO e 33 MCPHERSON, 2003; MCPHERSON e SIMPSON, 2000; SIMPSON e MACPHERSON, 1996; WOLF, 1998). -Valores funcionais e sociais: constituem-se numa das mais importantes opções de lazer urbano, pois propiciam o convívio entre as pessoas, recreação, divertimento e entretenimento, livre participação social, e uma integração voluntária à vida de agrupamentos recreativos, culturais e sociais, incrementando a cultura popular (MACHADO, 1993). -Valores estéticos e simbólicos: as praças são espaços simbolicamente importantes, pois se tornam objetos referenciais e cênicos na paisagem da cidade, exercendo importante papel na identidade do bairro ou da rua. São ainda objeto de embelezamento urbano, resgatando a imagem da natureza na cidade e podem ser associados a oásis em meio à urbanização maciça (ROBBA e MACEDO, 2003). Além de seus valores, cabe salientar suas diferentes classificações, na maioria, referentes às formas como esta se insere na malha urbana (quadro 2). 34 QUADRO 2 Classificação das praças Praça jardim Praça seca Praça azul Praça amarela históricos ou Praças nas quais a água possui papel Praias em geral Quanto ao sentido da Espaços nos quais a Largos da espaços que suportam fundamental. Belvederes e jardins de palavra praça (ROBBA e contemplação formação vegetal e intensa circulação de várzea possuem tal característica. MACEDO, 2003). circulação são pedestres. privilegiados. Praça radial Praça em leque Praça de junção Praça Praça de junção axial Praça triangular tangencial quadrangular e ou de atravessamento retangular direto Quanto às vias públicas Quando diversas vias São consideradas uma São as que permitem São fruto do A intersecção ortogonal São resultado da como elemento confluem simetricamente parte menor da anterior, um circulação cruzamento de 4 de duas vias propicia o interseção de 3 vias. estruturador (RIGOTTI, ou não, a um único foco onde a confluência em um giratória, a partir de vias, sendo 2 a 2 aparecimento desse 1956). no centro de um amplo ponto é limitada a poucas uma única via que faz paralelas entre si. arquétipo. espaço. vias que partem em raios a circulação da de um único setor. mesma. Praça de descanso Praça de circulação Quanto à tipologia ou Praça de estacionamento Praças de mercado arquétipo (RIGOTTI, Praças de estação Praças de igreja e palácios 1956). Praça para edifícios públicos Praças de reuniões Praças monumentais Praças com função recreativa Praças com função de circulação Praças de significação Praças de significação visual simbólica Caracterizada por ser um Aquela da qual as Aquela que se reconhece pelo Aquela que devido à sua localização, marco urbano de fácil pessoas não recordam desenvolvimento de atividades de converte-se em lugar de passagem obrigatória Quanto às categorias recordação. É quase por si, mas pelo entretenimento. de veículos e pedestres. (MATAS COLOM et al, sempre de desenho monumento ou edificação 1983). monumental e se geralmente pública. relaciona com algum acontecimento de importância nacional. Fonte: DE ANGELIS, CASTRO e NETO, 2004, p. 64-67. Organização: COSTA 2007. 35 A praça, por ser um importante elemento simbólico da cidade, tem sido objeto de interesse dos agentes da transformação urbana, tanto por parte do poder público, quanto pelo mercado imobiliário, ocasionando processos de intervenção geralmente pautados em parâmetros urbanísticos que consideram o espaço apenas como físico, separado de quem o usufrui. Entretanto ao abordar o espaço enquanto vivido, torna-se possível identificar a presença ou ausência das gratificações afetivas que o mesmo pode trazer a cada um de seus usuários, considerando na realidade das percepções e da vida psíquica pessoal, desvendando-os enquanto experienciados, possibilitado assim, propostas de intervenções mais condizentes com as necessidades e aspirações de seus usuários. 2.3. Vivendo e experienciando o espaço Desvendar o espaço experienciado é uma tarefa complexa, pois o mundo vivido não é absolutamente óbvio, e seus significados não se apresentam por si mesmos, precisam ser descobertos. Schroeder (2002), afirma que o primeiro passo está na interpretação do espaço a partir de suas representações cognitivas7 e significativas. Segundo o autor, isso só é possível através da apreensão da vivência tal como é, e uma das principais ferramentas para desempenhar tal tarefa é o estudo da percepção ambiental. 7 Cognição – processo mental com o qual intermediamos nossa relação com o mundo conferindo significados às informações estruturadas e selecionadas conforme nossos interesses (FERREIRA, 2005). 36 De acordo com Ferreira (2005), a percepção se constitui na forma mais elementar de interação do homem com o mundo; seja através da visão, do tato, do paladar ou olfato, o ser humano estabelece um conhecimento sensível do que o rodeia. Para Moreira (2004), a percepção pode ser entendida como o processo pelo qual a estimulação sensorial é transformada em experiência organizada. Como cada indivíduo experiencia o mundo de maneira única, “há tantos mundos quantas forem as percepções, pois cada um vê o seu entorno e mais além, a partir de referenciais, informações e conhecimentos adquiridos ao longo da vida” (ROCHA, 2003, p. 41). Segundo Ittelson (1978), a percepção não depende somente dos aspectos físicos, interpessoais, e culturais do ambiente, mas também das necessidades, ações, motivos e processos cognitivos de quem o experiencia. Dessa forma, é a percepção que determina a forma do indivíduo ver, interpretar e interferir em seu meio. A primeira instituição a propor o estudo da percepção ambiental, como ferramenta para apreender o espaço tal como é vivido, experienciado, foi a UNESCO num programa intitulado “L homme et la biosphere” – “o homem e a biosfera” (AMORIM FILHO, 1999). O objetivo foi reconstituir a percepção dos moradores locais em relação às áreas protegidas – tanto no contexto urbano: parques urbanos, jardins botânicos; como no contexto natural: remanescentes de matas nativas, áreas de proteção ambiental - uma vez que, em muitos casos, estes não concordavam, ou não eram consultados, sobre a escolha de uso dos espaços da sua vida cotidiana. A intenção foi tornar o processo participativo, no sentido de levar em conta não só a percepção dos tomadores de decisão, mas acima de tudo as necessidades e aspirações daqueles que vivenciam estes espaços cotidianamente. 37 Atualmente, o estudo da percepção ambiental vem auxiliando na compreensão da relação homem/ natureza, homem/ ambiente construído, e no processo de gestão e planejamento participativo8 em diversos lugares, com o objetivo de promover a melhoria da qualidade de vida de seus habitantes. Schroeder (1996), em parceria com o Otawa National Forest, estudou como as pessoas experienciavam e estavam emocionalmente relacionadas ao Black River situado ao norte de Michigan, Estados Unidos, e como estas experiências estavam influenciando a qualidade de vida destas pessoas. Também no estado de Michigan, Estados Unidos, Ryan (2005), estudou a relação entre apego ao lugar e ambiente experienciado em três áreas naturais urbanas. Os resultados mostraram que o grau de experiência do indivíduo em relação ao lugar influencia diretamente no apego para com o mesmo. De acordo com o autor as pessoas experienciam áreas naturais urbanas através de uma variedade de atividades e oportunidades. Essas diferentes experiências podem levar a atitudes discrepantes de uso e gerenciamento das mesmas. Algumas atitudes ocasionam modificações na paisagem que podem ser percebidas tanto como positivas quanto indesejáveis. Dessa forma, entender o apego que as pessoas têm para com esses espaços pode ser o primeiro passo para compreender a raiz dessas controvérsias. Ferreira (2005), buscou analisar o papel dos diferentes grupos sociais na gestão ambiental em unidades de conservação a partir do estudo de suas percepções, tomando como estudo de caso a Estação Ecológica de Juréia-Itatins, São Paulo. Este 8 De acordo com lacaze (1993, p. 58-59), o termo participativo foi incorporado ao urbanismo na década de 1960, originando o Urbanismo Participativo/ Planejamento Urbano Participativo. Essa vertente baseiase no princípio fundamental de que somente o espaço tal como é vivido e percebido pelos habitantes constitui-se no verdadeiro suporte da conduta urbanística. 38 estudo buscou verificar se os conflitos sociais decorrentes da proibição jurídica frente à ocupação humana no interior de uma área natural protegida de uso restrito, estavam sendo potencializados devido às diferentes percepções ambientais dos distintos grupos sociais que atuam nesta unidade de conservação. Silva (2002), estudou a percepção ambiental dos espaços urbanos preservados no mundo, mais especificamente as áreas naturais urbanas, através de um apanhado histórico acerca da concepção de natureza e da relação homem/ mundo natural, abordando o conhecimento das percepções como um campo em descoberta que pode determinar sentimentos, idéias, o imaginário, necessidades, expectativas e interpretação da sociedade sobre a realidade dos fatos cotidianos e as relações que a envolve. Kashiwagi e Kozel (2005), estudaram o processo de percepção dos espaços marginalizados no urbano, tomando como estudo de caso a Favela do Parolin, Curitiba, Paraná, visando investigar as causas dos constantes insucessos nos processos de intervenção urbana nesses espaços marginais. Este estudo buscou compreender como os moradores da Favela vivenciavam o espaço, contrapondo essa visão ao espaço concebido da cidade legal. Rocha (2003), estudou os signos e significados do centro da cidade de Itabuna, Bahia, destacando a importância dos espaços geográficos para seus habitantes. Espaços esses que representam um mundo em si mesmo, na percepção dos moradores. Machado (1993), estudou a praça da Liberdade em Belo Horizonte, Minas Gerais, enfocando tal espaço como fenômeno experienciado pelos usuários. Este estudo identificou as percepções, atitudes e valores envolvidos na interação usuário/praça. Gomes (1997), estudou a percepção da praça enquanto ambiente 39 construído, salientando sua importância referencial e simbólica, imprescindível ao discernimento das relações espaciais em uma cidade. Tais estudos têm importantes implicações, uma vez que as ligações afetivas para com o espaço experienciado e seus significados devem ser, imprescindivelmente considerados, principalmente quando podem ser afetados ou modificados por aqueles que não o vivenciam. Isso evidencia a importância do estudo da percepção ambiental como instrumento de auxílio à gestão e planejamento para os espaços experienciados cotidianamente pelo homem, sejam naturais ou pertencentes ao contexto urbano. Com base em Chauí (1999, p. 120 - 125), a percepção ambiental pode ser estudada segundo três concepções: Empirista, Intelectualista e Fenomenológica. Para os empiristas, as sensações são respostas físico-fisiológicas a estímulos externos que agem sobre os órgãos dos sentidos, sistema nervoso, e cérebro, de forma pontual. Como cada sensação é independente das outras cabe à percepção ordená-las - ambas são agentes passivos diante das atividades do campo exterior sobre o corpo. Para os intelectualistas, sensação e percepção são fenômenos que estão diretamente relacionados com a capacidade intelectual do sujeito do conhecimento – a sensação só é processada e conduzida a uma percepção quando ocorre uma atividade de entendimento do que se sente, quando se processa racionalmente, através do pensamento, as sensações. Tanto para os empiristas quanto para os intelectualistas, somatórias de sensações, organizadas em percepções, sintetizam o objeto percebido. 40 Já a Fenomenologia9 do conhecimento considera que não há diferença entre percepção e sensação, elas ocorrem concomitantemente - a percepção é uma experiência dotada de significação. Segundo Ferreira (2005), o ser humano tem percepções globais de uma estrutura ou formato, em que o real é descrito no ato do sentido e da significação. Trata-se de um ato de comunicação que opera pelo pensamento e pela percepção, estabelecendo uma interação entre aquilo que é percebido e aquele que o percebe. Para a Fenomenologia, a percepção é um modo de a consciência relacionar-se com o mundo exterior pela mediação do corpo, considerando a realidade do ponto de vista qualitativo, é uma vivência (CHAUÍ, 1999). De acordo com Merleau – Ponty (1999, p. 279), sob enfoque fenomenológico, “a percepção não se apresenta como um acontecimento no mundo ao qual se possa aplicar, por exemplo, a teoria da causalidade, mas a cada momento como uma recriação ou uma re-constituição do mundo”. Pois a percepção está atrelada aos meios, situações, através dos quais o indivíduo experiencia o ambiente, definindo diversos real-worlds. E mais, o indivíduo nunca é passivo ao experienciá-lo, ele age e faz parte da situação (ITTELSON, 1978). 9 O termo fenomenologia deriva de duas palavras de raiz grega: phainomenon – aquilo que se mostra a partir de si mesmo e logos – ciência ou estudo. A palavra foi usada pela primeira vez pelo astrônomo, matemático, físico e filósofo suíço-alemão Johann Heinrich Lambert (1728 – 1777) e, posteriormente, com sentido diferente, por G. W. F. Hegel, na obra “Fenomenologia do Espírito” (original de 1807). Como movimento filosófico e com o sentido e as ramificações que ostenta até o presente, a Fenomenologia nasceu no início do século XX com a obra “Investigações Lógicas”, de Edmund Husserl (1859 – 1938) publicado em dois volumes, o primeiro em 1900 e o segundo em 1901 (MOREIRA, 2004). Os estudos da percepção ambiental, sob enfoque fenomenológico, estão atrelados ao pensamento geográfico, incluídos no final da década de 1960, ao movimento denominado Geografia Humanística, cuja orientação epistemológica reside na Fenomenologia Existencial. Seus estudos consideram as noções de mundo vivido, de intencionalidade, valores e representações humanas no contato com o espaço, contrapondo-se à quantificação, e sistematização da corrente positivista (HOLZER, 1997). 41 A presente pesquisa fundamentou-se no estudo da percepção sob o aporte teórico-metodológico da Fenomenologia, pois de acordo com Relph (1979), a Fenomenologia permite identificar e interpretar as estruturas da experiência vivida, possibilitando compreender suas origens, desenvolvimento e transformação, sem comprometer sua riqueza e complexidade de significados. Segundo o autor, a Fenomenologia é um método de abordagem do espaço tal como é vivido. A Fenomenologia, segundo Holzer (1997), é a ciência das essências, que se refere à existência humana e como esta experiencia o mundo. De acordo com Moreira (2004, p.63), a Fenomenologia “é o estudo ou a ciência do fenômeno, sendo que por fenômeno, em sentido mais genérico, entende-se tudo o que aparece, que se manifesta, ou se revela por si mesmo”. Ainda segundo Moreira (2004), ao interpretar Moustakas (1994), quando este afirma que o que aparece na consciência é o fenômeno, que a máxima da fenomenologia é o retorno às próprias coisas e que num sentido amplo, é aquilo que provê o ímpeto para a existência e para a geração de novo conhecimento, o fenômeno está além da aparência das coisas físicas na consciência, englobando também a aparência de algo intuído, julgado, imaginado, fantasiado, desejado, temido. O fenômeno inclui todas as formas de estar consciente de algo, incluindo os sentimentos, pensamentos, desejos e vontades. Segundo Embree (1997), há cinco tendências dominantes e sucessivas, algumas superpostas, na Fenomenologia do século XX: 1. A Fenomenologia descritiva que diz respeito a uma abordagem reflexiva, evidencial tanto nos encontros como dos objetos como encontrados, é considerada o começo da Fenomenologia; 2. A Fenomenologia realista que enfatiza a busca pelas essências universais de vários tipos de assuntos, 42 incluindo ações humanas, os motivos e o self; 3. A Fenomenologia constitutiva que incorpora o escopo da Fenomenologia e a filosofia das ciências naturais; 4. A Fenomenologia existencial que diz respeito a ação, conflito, desejo, opressão, e 5. A Fenomenologia hermenêutica que aborda a existência humana como interpretativa. De acordo com Moreira (2004), todas essas tendências têm sua influência na pesquisa empírica nas ciências humanas e sociais, incluindo disciplinas aplicadas como: administração, educação, serviço social, arquitetura, cinema, literatura, música, dentre outras. Segundo o autor (p.108) a Fenomenologia, enquanto método de pesquisa, “enfoca fenômenos subjetivos da crença de que verdades essenciais acerca da realidade são baseadas na experiência vivida”. Dessa forma é importante a experiência tal como se apresenta, e não o que se possa pensar, ler ou dizer sobre ela. Trata-se da Redução Fenomenológica ou Transcendental também conhecida como epoqué que significa “suspensão de julgamento”. A epoqué é o método básico da investigação fenomenológica, através dela são colocados entre parêntesis, juntamente com quaisquer opiniões, todas as crenças acerca da existência externa dos objetos da consciência. Assim, a consciência fenomenológica pode ater-se ao dado tal como se apresenta e descrevê-lo em sua pureza, quer seja fornecido pela percepção, intuição, recordação, imaginação ou julgamento. O que interessa é a experiência vivida no mundo do dia-a-dia da pessoa. Para Moreira (2004) na aplicação do método fenomenológico, o fenômeno é algum tipo de experiência vivida, comum a diversas pessoas, que em suma constituirse-ão na essência dessa experiência. Sendo que por essência, entende-se “a maneira característica do aparecer de um dado fenômeno. Aquilo que é inerente ao fenômeno, sem o quê ele não é o mesmo fenômeno” (MOREIRA, 2004, p. 84). 43 Na presente pesquisa, é justamente a essência da experiência, impressa pela forma que os usuários pensam, agem, sentem as praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio que possibilita desvendar suas relações espaciais simbólicas e sua configuração no espaço ideal. E a partir da configuração do espaço ideal, reconfigurar o espaço real. A intenção não é a criação de uma nova metodologia para a intervenção em espaços públicos urbanos. Mas um convite a um exercício árduo e complexo, que tenha como objetivo a concepção e/ ou revitalização de espaços que realmente leve em consideração seu significado para aqueles que dele usufruem. 2.4. Renovar, reabilitar ou requalificar o espaço? Até o momento, o presente trabalho vem discutindo a problemática dos processos de intervenção urbana no espaço público convidando o profissional arquiteto e urbanista a reflexões tanto conceituais quanto metodológicas. No entanto, é pertinente discutir em que sentido termos como “intervenção urbana” e “revitalização” estão sendo empregados. No que se refere ao termo intervenção urbana, não se trata, pois, do utilizado para designar os movimentos artísticos relacionados às intervenções visuais das grandes metrópoles, mas, daquele associado às necessidades de reestruturação dos espaços que compõem o contexto urbano. Dentro dessa concepção, segundo Simões Júnior (1994), na linha do tempo, existem três momentos relacionados ao processo de intervenção urbana nas cidades: o embelezamento urbano, que foi marcado pela 44 implementação do plano Haussmann em Paris em 1850; a renovação urbana, marcada pela prevalência dos ideais modernistas inaugurados com a Carta de Atenas em 1933; e atualmente a revitalização urbana, identificada por uma nova postura de intervenção que em reação à renovação, busca referenciais mais humanos, relacionando preservação e desenvolvimento. De acordo com Guerra et al (2005, p. 25), o termo “revitalização urbana” pode ser entendido como: O desenvolvimento de estratégias e processos com caráter inclusivo e integrador capaz de provocar iniciativas, projetos e atuações de caráter transversal e setorial, sendo também um instrumento de gestão coletiva do território com capacidade para utilizar como recursos próprios, programas urbanos muito diferenciados, de cariz mais social, econômico e cultural. Segundo o autor essa definição está atrelada tanto às políticas territoriais do final do século XX - que não ficaram à margem do aumento da competitividade, da procura por inovação e da mercantilização dos valores fundiários e imobiliários - quanto à consolidação do conceito de Desenvolvimento Sustentável, que referente ao meio ambiente urbano, aplica-se a todos os espaços de uso comum do povo ou de importância simbólica, histórica e cultural. De acordo com Andrade Silva (2004), do termo revitalização urbana deriva outros termos: renovação, requalificação, reabilitação. Já para Guerra et al (2005), tais termos integram-se numa intervenção mais vasta que é a revitalização. Independente dos termos renovação, reabilitação, requalificação derivarem ou se integrarem, ou não, ao termo revitalização, é importante trazê-los à tona, no sentido de compreender o que se pretende com o presente trabalho. Ou seja, referente ao objetivo proposto de esboço de um projeto de intervenção urbana – revitalização das praças 45 João Francisco de Carvalho e Santo Antônio (se necessária) elaborado com base nos resultados obtidos com a pesquisa, a intenção seria renovar, reabilitar ou requalificar estes espaços? Segundo Guerra et al (2005), o conceito de renovação urbana está relacionado à idéia de demolição do edificado e conseqüente substituição por uma nova construção, geralmente com características morfológicas e tipológicas diferentes. Nesse processo, o espaço urbano a ser renovado é considerado caduco, insalubre, sem valor patrimonial e impeditivo a modernização. Essa idéia atinge as intervenções de larga escala, e segundo o autor, implica numa mudança estrutural que abrange três dimensões básicas: dimensão morfológica, referente à forma da cidade e da paisagem; dimensão funcional refere-se à base econômica e às funções a ela associadas que podem desaparecer ou ser substituídas; dimensão social trata da esfera sociológica, e é geralmente pautada na substituição de residentes ou visitantes por outros com níveis de rendimento, instrução e estilo de vida diferentes. Já a reabilitação urbana readequa o tecido urbano degradado, dando ênfase ao seu caráter. Enquanto a renovação urbana faz um tratamento extremo/ drástico do tecido edificado, e conseqüentemente do tecido social e econômico, a reabilitação não destrói o tecido, mas a readapta às novas situações de funcionalidade urbana. De acordo com Guerra et al (2005), na reabilitação se fazem duas intervenções complementares: a primeira no tecido edificado, implicando na reabilitação dos edifícios, na demolição de alguns, no restauro de outros, na construção de novos, e construção de equipamentos; e a segunda na paisagem urbana, na medida em que as intervenções de reabilitação surgem associadas a atuações de melhoramento do espaço público. Ainda segundo o autor, esta política de intervenção urbanística é 46 fundamentada nas preocupações com o patrimônio histórico-arquitetônico e com a manutenção da população nos centros das cidades. A Carta de Lisboa (1995), define reabilitação urbana como: Uma estratégia de gestão urbana que procura requalificar a cidade existente através de intervenções múltiplas destinadas a valorizar as potencialidades sociais, econômicas e funcionais, a fim de melhorar a qualidade de vida das populações residentes; isso exige o melhoramento das condições físicas do parque construído pela sua reabilitação e instalação de equipamentos, infraestruturas, espaços públicos, mantendo a identidade e as características da área da cidade a que dizem respeito. Em 2001, o Sexto Programa de Ação em Matéria do Meio Ambiente da Comunidade Européia enfatizou que a promoção da reabilitação urbana em oposição à construção em novos locais, é uma forma eficaz de impedir que a expansão urbana se faça às custas do ambiente. Ou seja, para uma política de Desenvolvimento Sustentável que assegure o bem estar da população em longo prazo, e defenda o patrimônio para as futuras gerações, a reabilitação do espaço urbano é de extrema importância. Quanto a requalificação urbana, esta se constitui num instrumento para a melhoria das condições de vida das populações, promovendo a construção ou recuperação de equipamentos e infra-estruturas e a valorização do espaço público, com medidas de dinamização social e econômica. Nesse processo Guerra et al (2005, p.21) salienta que “a requalificação urbana procura a (re) introdução de qualidades urbanas, de acessibilidade e centralidade a uma determinada área, provocando mudanças de valor seja no nível econômico, cultural, paisagístico ou social”. Com base no exposto, pode-se afirmar, de antemão, que a intenção não seria renovar as praças, pois não se pretende destruir o que existe, ou substituí-las por uma 47 infraestrutura alienígena ao local, que não condiz com seus usuários. Entretanto, também não se pode afirmar que estes espaços seriam somente reabilitados ou somente requalificados, pois cabe lembrar que estas praças não estão sendo abordadas apenas enquanto espaços físicos, mas acima de tudo como espaços vividos, sendo assim, o processo de revitalização vai depender justamente de como estas praças estão sendo vivenciadas. 48 3. O LOCAL E OS OBJETOS DE ESTUDO 3.1. A escolha da praça como objeto de estudo e mais especificamente das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio A escolha da praça como objeto de estudo está vinculada ao Capítulo VI do Título VIII, da Constituição Federal, que ao tratar do Meio Ambiente, proclama no art. 225 que “todos têm direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. Segundo Arruda (2007), esse meio ambiente ecologicamente equilibrado a que todos têm direito, deve ser entendido em todas dimensões, seja o ambiente natural, urbano, cultural ou do trabalho. E no que se refere ao meio ambiente urbano que pode ser definido “pelas relações dos homens com o espaço construído e com a natureza em aglomerações de população e atividades humanas; pela percepção visual e atribuição de significado às conformações e configurações da aglomeração; e pela apropriação e utilização e ocupação do espaço construído e dos recursos naturais” (MOREIRA, 1999, p. 04), a praça, como já abordado no decorrer deste trabalho, se apresenta com relevantes valores não só simbólicos e sócio-culturais, mas também ambientais, sendo imprescindível à sadia qualidade de vida nos aglomerados urbanos. O art. 66, I, do Código Civil brasileiro de 2002, enfatiza ainda mais a relevância da praça, como espaço construído que propicia um ambiente ecologicamente 49 equilibrado nos centros urbanos, ao defini-la como “bem de uso comum, a par de contribuir para o embelezamento das cidades e auxiliarem nas condições sanitárias e higiênicas dos núcleos urbanos, assim como promoverem o intercâmbio social e cultural dos cidadãos”. A escolha das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio se deu por duas razões: 1a. A problemática referente aos processos de intervenção pelos quais vêm sofrendo tais espaços, que além de serem ocasionados por ditames políticos, não consideram os verdadeiros anseios e necessidades de seus usuários. 2a. Ambas estão inseridas no Salobrinho; um bairro que além de não apresentar contigüidade ao espaço densamente construído da cidade de Ilhéus, possui uma característica peculiar: abriga a Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC (Figura 2), cujo planejamento e infraestrutura contrastam com as precárias condições urbanísticas do bairro. Figura 2. Imagem Salobrinho/ UESC, 2005. Fonte: ASCOM/ Universidade Estadual de Santa Cruz, 2007. 50 3.2. A cidade de Ilhéus – breve relato A cidade de Ilhéus localiza-se na Mesorregião Sul da Bahia, situada a 462 Km de Salvador (figura 3), na Microrregião Cacaueira (figura 4). Vale São-Franciscano da Bahia Centro Norte Baiano Nordeste Baiano Extremo Oeste Baiano Metropolitana de Salvador Centro Sul Baiano Sul Baiano 0 50 100 km Figura 3. Mesorregiões da Bahia com destaque para a mesorregião Sul baiano. Fonte: IBGE 2006, adaptado por ROCHA, 2006. Figura 4. Microrregião Cacaueira (IlhéusItabuna) na mesorregião Sul baiano. Fonte: IBGE 2006, adaptado por ROCHA, 2006. De acordo com Rocha (2006), essa microrregião possui clima tropical úmido, sem estação seca, cujas temperaturas médias anuais variam entre as máximas superiores a 24ºC e as mínimas de 21ºC. Os índices pluviométricos apresentam gradiente decrescente com totais anuais superiores a 1.000mm e, em alguns locais, atingindo 2.300mm. As chuvas ocorrem, normalmente, durante o ano todo, não havendo, portanto, uma estação seca definida. 51 A vegetação original foi, predominantemente, a Mata Atlântica, hoje existente apenas em alguns nichos, tendo sido degradada de forma sistemática desde a chegada dos primeiros colonizadores europeus. Segundo Andrade (2003, apud: ROCHA 2006), os solos regionais variam bastante, predominando os latossolos e podzólicos que embora profundos, em sua maioria, são de baixa fertilidade natural, necessitando correção. Os solos mais férteis são ocupados pela cacauicultura e os de menor fertilidade são utilizados pela pecuária e pela silvicultura. Urbanisticamente a cidade de Ilhéus (figura 5) apresenta conformação resultante de um processo de ocupação que se estende ao longo de 474 anos. Figura 5. Imagem da cidade de Ilhéus, 2005. Fonte: Prefeitura do Campus/ Universidade Estadual de Santa Cruz, 2007. Segundo Torezani (2005), no século XVI sua conformação era típica de um vilarejo colonial – igreja matriz, adro e poucas casas da freguesia - cuja economia se baseava na auto-suficiência proporcionada pela lavoura açucareira. Em virtude das 52 invasões francesas e holandesas durantes os séculos XVII e XVIII, a vila só começou a se expandir a partir do século XIX quando passou à categoria de cidade. Mas foi no século XX, com a epopéia do cacau, que a cidade realmente floresceu. As décadas de 1920 e 1930 foram marcadas por luxo e riqueza advindas da lavoura cacaueira, que se refletiram no primeiro traçado urbano planejado e na construção de edifícios públicos como o Palácio do Paranaguá que abriga a Prefeitura Municipal, até os dias atuais, a sede da Associação Comercial de Ilhéus, o Ilhéus Hotel, o primeiro elevador no interior do Nordeste e o Teatro Municipal. O centro da cidade expandiu-se numa ilha artificial formada pelos rios Almada, Cachoeira e Itacanoeira e pelos canais jacaré e Itaípe, este último construído no século XIX para facilitar a passagem das canoas que traziam cacau da região do rio Almada para o embarque no porto. Entretanto em virtude da crise da lavoura cacaueira, na década de 1980, a economia da região ficou gravemente comprometida, ocasionando a falência de diversos setores o que levou a um rápido empobrecimento da classe trabalhadora e da classe média regional. Este contexto provocou um elevado êxodo rural - urbano comprometendo a infraestrutura urbana como um todo. Além do inchaço central e ocupação irregular, uma série de povoados, alguns afastados do espaço densamente construído da cidade, começaram a surgir e os já existentes se tornarem ainda mais aglomerados, como é o caso dos bairros Teotônio Vilela, Banco da Vitória e Salobrinho. Atualmente, a cidade de Ilhéus apresenta aspecto desordenado e seus parâmetros urbanísticos não mais atendem a conformação do espaço urbano. Há diferenças discrepantes entre os bairros no que se refere à infraestrutura e serviços, e a estagnação do setor de construção civil elevou a aquisição e locação de imóveis a 53 preços exorbitantes, contribuindo ainda mais para a expansão das ocupações irregulares. O Plano Diretor Urbano, aprovado em 2006, traz um novo macrozoneamento, englobando todas as áreas subnormais, que já perfazem 70% da cidade, e diretrizes para minimizar a degradação urbana e ambiental. 3.3. Caracterização estrutural-urbana do Salobrinho O Salobrinho é um bairro que não apresenta contigüidade ao espaço densamente construído da cidade de Ilhéus (figura 6). Localiza-se no Km 16 às margens da rodovia Ilhéus/ Itabuna, nas coordenadas geográficas: 14º, 47’ e 56’’ S e 39º, 10’ e 36’’ W, e apresenta conformação espacial aparentemente desordenada (figura 7). A infraestrutura urbanística é precária não havendo saneamento básico, drenagem pluvial e coleta de lixo; também há poucas vias pavimentas, passeios para o trânsito de pedestres, e pouca iluminação pública. Como os parâmetros urbanísticos do município (dimensionamento padrão de lotes, índices de ocupação, limites de afastamentos laterais, frontais e de fundo e gabarito máximo permitido), não podem ser aplicados ao bairro, em virtude de seu histórico de ocupação, que caracterizou a área como um assentamento subnormal, as edificações ocupam praticamente 100% dos terrenos onde estão implantadas, ocasionando alto índice de insalubridade. A tipologia das residências e estabelecimentos comerciais varia desde o sapê, adobe, à estrutura em alvenaria com acabamento em chapisco, emboço e reboco, revestidos com pintura ou cerâmica. 54 Salobrinho/ UESC Figura 6. Imagem cidade de Ilhéus/ bairro Salobrinho. Fonte: Google Earth. 2007 Europa Technologies, Image © 2007 TerraMetrics. Figura 7. Imagem bairro Salobrinho, 2004. Fonte: Prefeitura do campus/ Universidade Estadual de Santa Cruz, 2007. 55 3.4. Histórico de ocupação do bairro A ocupação da área iniciou-se na década de 1920. De acordo com Pereira (1984, p. 20), o Salobrinho, nessa época podia ser definido como “Uma velha barcaça perdida no meio do mato, e algumas casinhas feitas de sopapo”. Segundo o autor, o Salobrinho foi uma fazenda de nome Boa Vista, cujo proprietário era o Sr. João Francisco de Carvalho, e se constituía de capoeiras habitadas por grande quantidade de animais silvestres e formigas-de-mandioca. A sede localizava-se às margens da estrada de rodagem, que foi construída em 1927 para interligar a cidade de Ilhéus à Itabuna. Em 1947 essa estrada sofreu grande reforma e o eixo Ilhéus/ Itabuna foi deslocado para o atual Km 16. Segundo Pereira (1984), em 1952, era quase que impossível notar a existência de casas na localidade, até que a descoberta de uma suposta jazida de “pedras preciosas” atraiu centenas de retirantes. Logo um amontoado de casas foi surgindo e se espalhando em meio ao matagal. O sistema de aquisição de um lote para construção era feito através de uma enfiteuse10, que de acordo com Arantes de Bem (2005), consistia num direito real sobre coisa alheia, transmissível por herança, sendo reconhecido pela doutrina como o mais amplo direito sobre propriedade alheia. Com o passar dos anos e chegada de mais retirantes, a fazenda transformou-se num arraial; foram estabelecidos os primeiros pontos comerciais, na maioria armarinhos e açougues, e há registros de uma única indústria, um curtume que se situava à 10 O Código Civil de 2002 vedou a criação de novas enfiteuses e subenfiteuses, sendo mantidas as existentes até sua extinção. Em seu lugar instituiu o direito de superfície, sem a perpetuidade, vedado o prazo indeterminado, mas transferível a terceiros e, por morte do superficiário, aos seus herdeiros. Neste não poderá ser estipulado pelo concedente qualquer pagamento de transferência, a exemplo dos laudêmios enfitêuticos (ARANTES DE BEM, 2005). 56 margem do Rio Cachoeira. Nessa época a única praça existente era a “praça do dendê”. Tratava-se de uma área livre, sem qualquer infraestrutura, conhecida por esse nome devido à forte predominância da planta no local. O autor relata que o lugar era um tanto quanto assustador, pois a exuberância dos dendesais o transformava num pequeno e denso bosque, ideal para furtos e sustos. Até então não havia escola local, e as crianças eram alfabetizadas pelos próprios pais. O primeiro grupo escolar foi construído em 1963, no governo do Prefeito Herval Soledade, seguido pelo Movimento Brasileiro de Alfabetização - MOBRAL. O autor destaca a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira – CEPLAC; essa instituição impulsionou o crescimento do arraial e se constituiu na mola propulsora que veio garantir a sobrevivência de centenas de famílias. Com o advento da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, posteriormente, este impulsionamento só se acentuou. Em 1974, iniciou-se a construção do sistema de abastecimento de água, convênio firmado entre a CEPLAC, Secretaria de Saúde e Prefeitura Municipal de Ilhéus. Este sistema foi recuperado e ampliado e um reservatório foi construído com capacidade de abastecer todo o povoado. Na década de 1980, o arraial passava a bairro, já contava com um número de 800 casas, e seu índice demográfico atingia a casa dos 4.000 habitantes. Existiam 74 casas comerciais, sendo que destas 50% eram botequins improvisados. A “praça do dendê” deu lugar à praça Santo Antônio, um espaço circundado por estabelecimentos residenciais e que até os dias atuais se caracteriza por pouca vegetação rasteira, pequenas árvores, e ausência de mobiliário urbano; e no ano de 1989, no governo do prefeito Antônio Olímpio, foi inaugurada a praça João Francisco de Carvalho, localizada às margens da rodovia Ilhéus/ Itabuna. Sua infraestrutura, que se mantém até os dias 57 atuais, apesar das “reformas” realizadas, apresentava conformação retangular, com piso em concreto e canteiros laterais e centrais suspensos em estrutura de alvenaria. Outras áreas destinadas ao lazer também surgiram nessa época como, o “campo de futebol” localizado próximo ao Rio Cachoeira, que margeia o bairro, que se constitui numa área descampada e não ocupada por construções, com duas traves de madeira em cada lado. Nos anos que se seguiram até a década de 1990, o Salobrinho continuou a crescer em virtude, principalmente, do forte fluxo migratório advindo da zona rural ocasionado pela crise cacaueira. Segundo Moreira e Trevizan (2005), a desestabilização do setor produtivo da região de Ilhéus, baseado na cacauicultura, teria contribuído para o desemprego no setor rural e o fechamento de estabelecimentos no setor industrial e de serviços, levando a um rápido empobrecimento da classe trabalhadora e da classe média regional. Este contexto teria provocado a busca por espaços mais compatíveis com as novas condições de vida na região. Atualmente o bairro Salobrinho possui 7.500 habitantes com média populacional de 4,2 habitantes por residência (IBGE, sendo 2002); continua crescendo desordenadamente, acentuando ainda mais seus problemas sanitário-ambientais e, como, segundo o Código Civil de 2002, o aforamento por enfiteuse não é mais permitido, o trâmite para aquisição ou ocupação de lotes e imóveis é obscuro perante o poder público municipal. 58 3.5. Caracterização estrutural-urbana das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio A praça João Francisco de Carvalho (figura 8), fundada em 1989, localiza-se às margens da rodovia Ilhéus/ Itabuna (mapa temático do Salobrinho), numa cota de elevação de 1.75m em relação ao nível da rodovia, ocupando área equivalente a 312m2. Pode ser classificada como praça originária do traçado viário, pelo cruzamento de quatro vias proporcionando o subtipo de praças quadrangulares e retangulares (figura 9). Além da conformação retangular, apresenta canteiros laterais e centrais elevados sobre estrutura em alvenaria e impermeabilização do solo através da concretagem. Não há mobiliário urbano e as poucas árvores existentes possuem raízes aéreas que comprometem a pavimentação. O acesso a este espaço se dá através de escadarias. Figura 8: Praça João Francisco de Carvalho Fotografia: Silvia Kimo Costa, 2006. 59 Figura 9. Praça quadrangular e retangular. Fonte: De Angelis, Castro e Neto (2004, p. 66). Esta praça também se caracteriza pela predominância de pontos comercias, tanto em seu entorno imediato, quanto em seu espaço físico. Atualmente vem servindo como ponto de chegada e saída do ônibus que transita nos sentidos Salobrinho – centro da cidade de Ilhéus, Salobrinho – centro da cidade de Itabuna, cidade de Ilhéus – cidade de Itabuna, e vice versa. Em virtude de tais características este espaço público vem sendo freqüentado por três grupos sociais principais: 1. pessoas que estão na praça em tempo curto apenas para esperar o ônibus; 2. pessoas que a freqüentam para atividades relacionadas ao lazer e ao convívio social e 3. pessoas que a utilizam como ponto comercial. A praça Santo Antônio (figura 10) localiza-se no interior do bairro (mapa temático do Salobrinho), paralela à rua São Jorge, em frente ao posto de saúde, e constitui-se num espaço com pouca vegetação rasteira, pequenas árvores, e ausência de mobiliário 60 urbano. A classificação à que mais se aproxima é a de praça originária do traçado viário, de conformação triangular criada a partir da interseção de três vias (figura 11). Figura 10: Praça Santo Antônio Fotografia: Silvia Kimo Costa, 2006. Figura 11. Praça triangular Fonte: De Angelis, Castro e Neto (2004, p. 66). 61 Sua implantação varia da cota mais baixa, nível da rua, à cota de elevação de mais ou menos 1.50m, nível de algumas residências do entorno e ocupa área equivalente a 245m2. Não possui acessos específicos. Sua origem remete à antiga praça do Dendê, área de propriedade do Sr. Antônio Arcanjo de Carvalho, herdeiro do antigo proprietário da Fazenda Boa Vista, Sr. João Francisco de Carvalho. Contam os moradores mais antigos do bairro, que Sr. Antônio Arcanjo doou a área dos dendezais para a construção de casas. A ocupação iniciou-se no sentido da cota mais baixa, nível da rua, para a mais alta, sob orientação do Sr. Antônio Arcanjo, ocasionando o surgimento de uma clareira central. Essa clareira a princípio seria destinada à abrigar uma feira livre. Entretanto, com o adoecimento de Sr. Antônio Arcanjo, este pediu, antes de falecer, que a área fosse nomeada praça Santo Antônio. O entorno imediato desse espaço é caracterizado pela predominância de residências, e seus usuários são na grande maioria crianças na faixa etária dos 4 aos 12 anos. O espaço é utilizado para brincadeiras e atividades esportivas como futebol. 62 Mapa temático desenvolvido sobre fotografia aérea cedida pela CEPLAC. 63 4. METODOLOGIA Os métodos para estudo da percepção ambiental vêm sendo estruturados desde a década de 1960; dentre eles o Guidelines for field studies in Environmental Perception, publicado pela UNESCO, dispõe de uma série de técnicas de pesquisa que se baseiam em três abordagens principais: observar, ouvir e entrevistar sendo esta última a mais utilizada (WHYTE, 1977). Similarmente, de acordo com Moreira (2004), o método fenomenológico apresenta quatro estratégias básicas: entrevista, os participantes descrevem verbalmente suas experiências de um fenômeno; descrição escrita de experiências pelo próprio participante; relatos autobiográficos em forma escrita e oral; observação participante, o pesquisador parte das observações do comportamento verbal e não verbal dos participantes, de seu meio ambiente, das anotações que ele mesmo fez quando em campo, de áudio e videoteipes disponíveis, etc. Segundo Moreira (2004), a mais utilizada dessas estratégias também é a entrevista oral, geralmente aberta e com poucos participantes. Já os resultados da pesquisa são descritos a partir da orientação dos participantes, utilizando-se palavras reais dos participantes para ajudar na descrição. O pesquisador então identifica temas nos dados e a partir dos temas é desenvolvida uma explicação estrutural. Moreira destaca, dentre os principais métodos fenomenológicos, os propostos pelos teóricos Van Kaam, Colaizzi, Giorgi e Sanders (quadro 3). 64 TEÓRICOS QUADRO 3 Teóricos fenomenológicos e seus principais métodos de coleta e análise de dados ETAPAS ETAPA 1 VAN KAAM (1959) - tal teórico destrincha as entrevistas interpretando cada frase ou pensamento como “expressão”; a seguir aquela frase ou conjunto de frases que tenham um sentido bem definido são classificadas em “momento de experiência”. Os “momentos de experiência”, por sua vez, quando extraídos de seu contexto são classificados como “constituintes descritivos”. Os “constituintes descritivos” constantes no relato dos diferentes participantes recebem um rótulo comum, este rótulo representa as essências encontradas para o fenômeno. COLAIZZI (1978) - tal método supõe que as descrições das experiências vividas dos participantes já foram coletadas e transpostas na forma escrita. Obter um núcleo de experiências comuns. Ler todas as descrições dos participantes de forma a adquirir uma visão geral. ETAPA 2 Listar e preparar um agrupamento preliminar rudimentar de cada expressão apresentada pelos participantes. Extrair frases ou sentenças de cada protocolo (entrevistas transcritas) que digam respeito, diretamente, ao fenômeno investigado extração de assertivas significativas. ETAPA 3 Redução e eliminação - cada expressão deve ser testada em relação a dois requisitos: 1. o momento da experiência é um constituinte necessário e suficiente da experiência? 2. é possível extrair esse momento e rotulá-lo sem violar a formulação apresentada pelo participante? Realizar formulação dos sentidos - colocar em palavras o sentido de cada assertiva significativa (passar daquilo que os participantes dizem para o que significa). ETAPA 4 ETAPA 5 Identificar os constituintes descritivos e agrupar aqueles que são relevantes comuns em um núcleo, rotulá-los de forma abstrata, expressando o tema comum. Avaliar os constituintes identificados segundo as seguintes condições: 1. ser expresso explicitamente na descrição; 2. ser expresso explícita ou implicitamente em algumas ou na maioria das descrições; 3. ser compatível com a descrição na qual ele não está expresso. Organizar os sentidos formulados em conjunto de temas. Testar os conjuntos de temas contra os protocolos originais para validá-los. Pergunta-se: existe algo nos protocolos originais (entrevistas transcritas) que não foi levado em conta nos conjuntos de temas? Estes conjuntos de temas propõem algo que não esteja nos protocolos? Integrar os resultados obtidos, até o momento, numa descrição do tópico investigado. A seguir formular a descrição exaustiva do fenômeno investigado em uma declaração de sua estrutura, da forma mais inequívoca possível. ETAPA 6 Passo final de validação retornar a cada participante numa entrevista simples e perguntar-lhe sobre a adequação dos resultados obtidos. Continua 65 ETAPAS TEÓRICOS ETAPA 1 ETAPA 2 ETAPA 3 SANDERS (1982) - segundo esta estudiosa, existem três componentes fundamentais na estrutura fenomenológica de pesquisa: determinação dos limites do que e quem deve ser investigado; coleta de dados e análise fenomenológica. Determinação dos limites do que e quem deve ser investigado: 1. "do que" - os assuntos naturais à abordagem fenomenológica são aqueles que não podem ser quantificados. 2. "quem" - pessoas que têm características sob observação ou que podem oferecer informações confiáveis sobre o fenômeno investigado. Coleta dos dados (pode ser efetuada através): 1. entrevistas em profundidade com os participantes, gravadas em áudio e transcritas posteriormente (registrando as palavras exatas dos entrevistados para melhor qualidade da análise); 2. estudo documental efetuado sobre material escrito pelos participantes; 3. técnicas de observação participante. Análise fenomenológica dos dados - constitui-se na análise do conteúdo das transcrições e engloba as seguintes etapas: 1. descrição do fenômeno tal como revelado nas transcrições das entrevistas; 2. identificar temas ou variantes que emergem das descrições; 3. o pesquisador deve juntar os temas em conjuntos de essências que caracterizam a estrutura do fenômeno. Leitura geral da descrição (pode ser uma entrevista transcrita) para captar o sentido geral do texto. Capitado o sentido geral do texto, deve-se proceder nova leitura com o objetivo de discriminar unidades de sentido dentro da perspectiva que lhe interessa (sociológica, psicológica, etc) com foco no fenômeno estudado. GIORGI (1985) - este método parte das descrições por escrito dos participantes. O objetivo é a obtenção de unidades de significação (temas ou essências) contidas nas descrições e reveladoras da estrutura do fenômeno. Tal método apresenta quatro passos. Uma vez delineadas as unidades de sentido, o pesquisador corre por todas as unidades de sentido e expressa o que ela contém, de acordo com a perspectiva que lhe interessa, de uma forma mais direta. ETAPA 4 ETAPA 5 ETAPA 6 O pesquisador sintetiza todas as unidades de sentido e as transforma em uma declaração consistente em relação à experiência do sujeito. Essa declaração constituise na estrutura da experiência. Fonte: MOREIRA, 2004, p. 119-125. Organização: Silvia Kimo Costa, 2007. 66 O método fenomenológico utilizado para coleta e análise de dados, na presente pesquisa, foi o proposto por Sanders (1982), pois “o quê” está sendo investigado dos moradores do entorno imediato e usuários em relação às praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio, não pode ser simplesmente quantificada, mas sim analisada a partir de sua descrição tal como é. Dessa forma, fez–se necessário uma amostra que realmente freqüentasse tais espaços, ou seja, “quem”, pessoas que têm características sob observação ou que podem oferecer informações confiáveis sobre o fenômeno investigado e que tivessem disponibilidade para se submeterem a uma entrevista semiestruturada, devidamente gravada em fita K7. Cabe salientar que para melhor qualidade na análise dos dados, as entrevistas foram transcritas utilizando-se as palavras exatas dos participantes. Também se utilizou o recurso dos mapas mentais. Estes aplicados ao fim de cada entrevista, objetivando reforçar a existência de diferentes percepções do mesmo fenômeno por pessoas diferentes. Em uma breve revisão, os mapas mentais constituem-se em imagens11 não decodificadas pela razão; imagens provenientes da apreensão de significados, que por sua vez decorrem da construção mental e de símbolos advindos do mundo percebido; um mundo em que a visão dos lugares, do território, onde o homem vive, é própria (KASHIWAGI e KOZEL, 2005). Segundo Wood (1992), os mapas mentais são 11 A preocupação em desvendar essas imagens surgiu na década de 1960, e um dos pioneiros a associar a percepção do meio ambiente ao comportamento e ação humana, utilizando-se os mapas mentais foi o arquiteto norte americano Kevin Lynch. Esse arquiteto propôs uma metodologia voltada ao entendimento da forma visual urbana, decompondo a imagem em três componentes: identidade, estrutura e significado. Para Lynch uma cidade legível é uma cidade imaginável. A imaginabilidade constitui-se na característica em determinado objeto físico que lhe confere uma alta probabilidade de evocar uma imagem forte em qualquer observador. É aquela forma, cor ou disposição que facilita a criação de imagens mentais claramente identificadas, poderosamente estruturadas e extremamente úteis ao ambiente (LYNCH, 1980). 67 caricaturas científicas dos fenômenos que representam, cujos detalhes e complexidade de significados são selecionados, simplificados e, em seguida, enfatizados de uma maneira que retratam o que o autor do mapa acredita ser essencial a respeito do espaço referido no mesmo. Para análise dos mapas mentais foi utilizado o método desenvolvido por Kozel (2001). Antes de descrever cada método de coleta e análise de dados, detalhadamente, convém relembrar os objetivos específicos da presente pesquisa e como estes foram contemplados (quadro 4). QUADRO 4 Objetivos específicos da pesquisa e métodos utilizados para alcançá-los OBJETIVOS ESPECÍFICOS 1. levantar a história da configuração espacial do bairro e das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio; 2. identificar por quem, quando, e como estas praças são usadas; as formas de interação entre os diferentes agentes produtores das mesmas e como se dá o convívio entre os diferentes segmentos sociais que as utilizam; MÉTODOS 1. Pesquisa bibliográfica, conforme proposto por Lakatos e Marconi (1995). 2. Roteiros de observação como observador participante segundo o método fenomenológico (MOREIRA, 2004). 3. Roteiro de entrevistas semi-estruturadas e mapas 3. investigar como os usuários e moradores do entorno mentais. O primeiro aplicado e analisado com base no imediato a estas praças as vivenciam e as método fenomenológico (MOREIRA, 2004) e o segundo experienciam; aplicado e analisado segundo Kozel (2001). 4. esboçar um projeto de intervenção urbana – 4. Projeto preliminar desenvolvido com auxílio de revitalização, tendo como base os dados obtidos com a ferramentas técnicas para desenho como, croquis, pesquisa. perspectivas e softwares (autocad). Elaboração: Silvia Kimo Costa, 2007. 68 4.1. Amostra A amostra se constituiu dos usuários e moradores do entorno imediato às praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio. Cabe salientar que de acordo com o método fenomenológico, as amostras não devem ser grandes, compreendendo um universo que varia de 7 a 15 pessoas, em virtude da complexidade da análise dos dados. Segundo Moreira (2004) o que importa não é a quantidade e sim a qualidade, os participantes devem ser aqueles com disponibilidade de tempo e que possam fornecer descrição de sua experiência vivida tal como é. Outro ponto importante é que à medida que as respostas começam a se repetir, quando a impressão sobre o fenômeno estudado torna-se freqüente e semelhante, o ciclo se fecha. 4.1.1. Amostra da praça João Francisco de Carvalho Foram visitados 15 estabelecimentos, residenciais e comerciais, pertencentes ao entorno imediato à referida praça. Dentre os 15 estabelecimentos, 5 concordaram em participar da pesquisa mas não concordaram em assinar o TCLE12 – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (anexo 2) - mesmo compreendendo do que se tratava a pesquisa, e segundo recomendado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Segundo o Conselho Nacional de Saúde, Resolução no 196/1996, seção IV – Consentimento Livre e Esclarecido, “o respeito devido à dignidade humana exige que toda pesquisa se processe após consentimento livre esclarecido dos sujeitos, indivíduos ou grupos que por si e/ ou por seus representantes legais manifestem a sua anuência à participação da pesquisa”. O Parecer Consubstanciado aprovando o exercício da presente pesquisa se encontra em anexo (anexo 1). 12 69 Universidade Estadual de Santa Cruz, foram descartados automaticamente, e 3 se encontravam sem moradores. Os 7 restantes (4 estabelecimentos residenciais e 3 comerciais), concordaram em participar, assinando o TCLE e fornecendo ou a numeração da documentação13 ou os nomes dos pais para registro. Quanto aos usuários, foram abordados em torno de 50 pessoas, entretanto priorizou-se aqueles que tinham residência em pontos do bairro não pertencentes ao entorno imediato à praça, e que não estavam no local exclusivamente para esperar o ônibus, perfazendo um total de 30 pessoas. Dos 30, 10 possuíam disponibilidade de tempo para participar, mas somente 7 concordaram em assinar o TCLE e fornecer numeração de documentos ou os nomes dos pais para registro. Ao todo 14 pessoas, dentre moradores do entorno imediato e usuários da praça João Francisco de Carvalho participaram na íntegra da pesquisa. 4.1.2. Amostra da praça Santo Antônio Foram visitados 13 estabelecimentos residenciais e 1 municipal, pertencentes ao entorno imediato da referida praça. No posto de saúde, defronte à praça, obteve-se informações acerca do uso, horários, e tempo de freqüência dos eventuais usuários. Conforme relatado, estes correspondem ao público infantil, que usa o espaço para brincadeiras e atividades esportivas como o futebol. Dos 13 estabelecimentos visitados, 4 residências estavam sem moradores. Dos 9 restantes, 2 não concordaram em 13 O fornecimento da numeração de algum documento pessoal tem por objetivo validar a assinatura, evitando possíveis homônimos. 70 participar da pesquisa mesmo compreendendo do que se tratava, alegando indisposição ou indisponibilidade de tempo, e outros 2 alegando analfabetismo, mesmo após explicado que esse fator não representava problema para pesquisa e que os depoimentos seriam de grande importância para o trabalho. Assim, 5 concordaram em participar, assinando o TCLE e fornecendo ou a numeração da documentação ou os nomes dos pais para registro. Amostra total: 19 pessoas. 4.2. Métodos de coleta de dados 4.2.1. Pesquisa bibliográfica Este método baseou-se no proposto por Lakatos e Marconi (1995) e teve como objetivo a pesquisa de elementos históricos, geográficos, sócio-econômicos, que possibilitassem a compreensão do bairro Salobrinho e das praças nesse contexto. As fontes foram documentos como: produções bibliográficas e produções científicas – monografias, dissertações e artigos – sobre o bairro Salobrinho, fotografias em diversas épocas e reportagens sobre o mesmo, disponíveis no acervo da biblioteca da UESC; ASCOM/ UESC; Prefeitura do Campus/ UESC e na Prefeitura Municipal de Ilhéus. O histórico do bairro foi escrito com base na produção bibliográfica, Salobrinho: encantos e desencantos de um povoado (PEREIRA, 1984). A foto aérea datada de 1970, utilizada para a confecção do mapa temático através dos recursos do SIG – 71 Sistema de Informações Geográficas, foi fornecida pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira – CEPLAC. Também foi consultada a planta de macrozoneamento14 do município de Ilhéus, e a versão mais recente do Plano Diretor Urbano (disponível: www.ilheus.ba.gov.br). A caracterização urbano-estrutural das praças foi realizada através dos roteiros observação e registrada em fotografias. Seu histórico foi obtido oralmente, fornecido por residentes antigos do bairro, identificados no entorno imediato às praças, durante a aplicação do roteiro de entrevista semi-estruturada. 4.2.2. Roteiros de observação como observador participante Este método baseou-se no proposto por Moreira (2004). Segundo o autor a observação participante pode ser conceituada como “uma estratégia de campo que combina ao mesmo tempo a participação ativa com os sujeitos, a observação intensiva em ambientes naturais, entrevistas abertas informais e análise documental” (MOREIRA, 2004, p. 52). Dentro da observação participante, dependendo do grau de envolvimento, o pesquisador pode tornar-se: um participante completo15, participante como observador16, observador total ou completo17, e observador como participante. Este 14 A planta de macrozoneamento está disponível na Secretaria de Planejamento Urbano da PMI (Prefeitura Municipal de Ilhéus) e apresenta todas as áreas que foram consideradas ZEIS dentro do município, sendo uma delas o bairro Salobrinho. 15 O pesquisador entra no ambiente de pesquisa sem revelar sua identidade e torna-se um membro rotineiro do grupo a ser estudado; mantém-se sempre como um observador disfarçado, cujo interesse científico é completamente desconhecido dos sujeitos. 16 O pesquisador tem consentimento prévio dos sujeitos da pesquisa para empreender seu estudo e observá-los em seu ambiente. 72 último categoria em que se insere o envolvimento da pesquisadora com os sujeitos da pesquisa, caracteriza-se por pouca interação com os sujeitos, com contato breve, em que é administrado um questionário, ou entrevista, seja estruturada ou semiestruturada, e não existe tentativa de se estabelecer confiança ou desenvolver um bom relacionamento entre as partes. Através dos roteiros de observação foi possível verificar os grupos sociais que vêm utilizando as praças em estudo, realizar os levantamentos quantitativo e qualitativo dos equipamentos e estruturas existentes nestes espaços e colher informações necessárias para efetuar o desenho ao nível técnico dos mesmos. Os roteiros foram realizados de segunda a domingo, a princípio em períodos alternados, alguns dias pela manhã das 7:30 às 12:00 horas, outros pela tarde das 12:00 às 18:00 horas e, posteriormente, o dia todo de segunda a domingo concomitantemente com a aplicação do roteiro de entrevista semi-estruturada e mapa mental. As informações referentes ao período noturno das 18:00 às 23:00 horas, por questão de segurança18, foram obtidas com base em relatos dos moradores do entorno imediato às praças, dos pontos comerciais localizados na praça João Francisco de Carvalho e do Posto de Saúde localizado defronte à praça Santo Antônio. 17 Neste caso não há interação alguma com os sujeitos. Um exemplo são os experimentos em laboratórios. 18 Refere-se à segurança do pesquisador. As praças no período noturno são vazias e sem policiamento. 73 4.2.3. Roteiro de entrevistas semi-estruturadas e mapas mentais O método de entrevistas semi-estruturadas baseou-se no proposto por Moreira (2004). De acordo com o autor, a entrevista pode ser definida como “uma conversa entre duas ou mais pessoas com um propósito em mente” (MOREIRA, 2004, p. 54). As entrevistas podem ser completamente abertas ou não estruturadas; fechadas ou completamente estruturadas e semi-estruturadas ou parcialmente abertas. Esta última categoria em que insere a pesquisa, fica entre as duas outras categorias apresentadas. Na entrevista semi-estruturada, o pesquisador pergunta algumas questões em ordem pré-determinada, e dentro da cada questão o entrevistado tem liberdade de resposta. Essa categoria também permite que outras questões possam ser levantadas, dependendo das respostas dos entrevistados, ou seja, podem existir questões suplementares sempre que algo de interessante e não previsto na lista original de questões venha aparecer. A aplicação dos mapas mentais baseou-se em Kozel (2001). O mapa mental foi proposto após a entrevista semi-estruturada, solicitando ao participante que desenhasse as praças em papel ofício A4, estando o mesmo livre para utilizar lápis, lapiseira, caneta, hidrocores, lápis de cores e outros utensílios para compor seu desenho e que estivessem a disposição. Caso o participante não se sentisse à vontade para desenhar, ele poderia descrevê-las verbalmente. Essa descrição foi devidamente registrada em fita K7. 74 Esta etapa, como um todo, buscou investigar como os usuários e moradores do entorno imediato às praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio as percebem as vivenciam - e por sua vez consistiu em quatro etapas seqüenciais: 1. Leitura do TCLE – Termo de consentimento Livre e Esclarecido - após a leitura do TCLE, fazia-se uma breve discussão sobre o exposto no mesmo e caso o sujeito concordasse em participar da pesquisa, este era convidado a assinar o referido documento e fornecer a numeração da identidade ou do CPF, em seguida procedia-se com a entrega de uma cópia do TCLE para o participante. Entretanto, cabe salientar que mesmo concordando em participar da pesquisa e assinando o TCLE, boa parte dos sujeitos abordados desistiram de participar da pesquisa tão logo foi solicitado a numeração de alguma documentação pessoal. Sendo assim, em acordo com o Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Santa Cruz, foi proposto, como alternativa, o registro dos nomes completo do pai e da mãe daqueles que concordassem em participar da pesquisa, resguardando assim o participante de fornecer a numeração de sua documentação; 2. Aplicação do formulário de identificação do participante (anexo 3) – este formulário teve como objetivo a coleta de informações como: nome completo, idade, endereço residencial, nível de escolaridade, renda familiar e atividade ocupacional. Essas informações permitiram ter uma noção do perfil sócio-econômico-cultural dos participantes da pesquisa e foram de suma importância, uma vez que a percepção ambiental varia de acordo com a idade, cultura, escolaridade, visão de mundo, dentre outras variáveis; 3. Aplicação do roteiro de entrevista semi-estruturada (anexo 4) – aplicado logo após o formulário de identificação e devidamente gravado em fita k7, este roteiro 75 buscou investigar quatro aspectos em relação às praças através de perguntas associadas a cada um respectivamente: 1. identificação e uso das praças; 2. função das praças; 3. valores e sentimentos e 4. administração; 4. Aplicação do mapa mental – solicitado logo após a aplicação do roteiro de entrevista semi-estruturada. O uso do mapa mental alia-se à procura de elementos que surgem com mais constância na lembrança das pessoas, quando instadas a falar ou desenhar as praças. O tempo para conclusão das 4 etapas variou entre 40 a 50 minutos por participante. 4.3. Métodos de análise dos dados 4.3.1. Método fenomenológico - análise do roteiro de entrevista semi-estruturada O roteiro de entrevista semi - estruturada foi analisado com base no método fenomenológico proposto por Sanders (1982), constituindo-se das seguintes etapas: 1. Transcrição, na íntegra, das entrevistas gravadas. De acordo com Sanders (1982, p. 357), as transcrições “identificam e descrevem as qualidades da experiência e da consciência humanas que dão à pessoa sendo estudada a sua identidade própria”; 2. Descrição do fenômeno tal como revelado nas transcrições da entrevistas; 3. Identificação dos temas ou invariantes que emergem das descrições. Os temas referem-se a elementos comuns que aparecem dentro das descrições e entre elas. A 76 autora salienta que o que identifica o tema é sua importância e centralidade, e não a freqüência com que ocorre; 4. Junção dos temas em conjuntos de essências que caracterizam a estrutura do fenômeno. É importante informar que a confecção do roteiro de entrevistas semi-estruturada foi norteada por 4 conjuntos de essências gerais: 1. Identificação e uso das praças; 2. Função das praças; 3. Valores e sentimentos e 4. Administração. Dentro de cada conjunto de essência foram estipulados os seguintes questionamentos: 1. Identificação e uso das praças a) Você freqüenta as praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio? b) Qual, ou quais dias da semana você as freqüenta? c) Em média, qual é o seu tempo de permanência nessas praças? d) Qual, ou quais os motivos que o (a) levam a estas praças? 2. Função das praças a) Para você qual (is) é (são) a (s) função (ões) das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio? b) Diga cinco palavras relacionadas com estas praças. 3. Valores e sentimentos a) Diga o que você gosta e o que não gosta nessas praças. b) Se você pudesse modificar essas praças, o que você faria? 77 4. Administração a) Quem deve cuidar dessas praças? b) Como você cuida dessas praças? A partir das repostas referentes aos questionamentos de cada conjunto de essência geral, foram identificados os temas ou invariantes e após a análise destes foi possível delinear conjuntos de essências específicos para caracterizar como os usuários e moradores do entorno imediato às praças em questão as estão vivenciando. 4.3.2. Método de análise dos mapas mentais Para análise dos mapas mentais utilizou-se o método desenvolvido por Kozel (2001), composto pelas seguintes etapas: 1. Interpretação quanto à forma de representação dos elementos na imagem; 2. Distribuição dos elementos da imagem; 3. Classificação quanto à especificação dos ícones e, apresentação de outros aspectos e particularidades, quando houver. 1. Interpretação quanto à forma de representação dos elementos na imagem Trata-se de uma primeira análise cujo objetivo é observar a diversidade de formas nas representações. Segundo Kozel (2001), essa diversidade de formas pode ser 78 classificada como: 1.1. Ícones19 - formas que representam elementos naturais, paisagem construída, vivida, elementos humanos e móveis; 1.2. Letras – palavras que complementam as representações gráficas; e 1.3. Mapas - a forma de representação cartográfica que evidenciam a espacialização do lugar. 2. Distribuição dos elementos da imagem Nesta etapa busca-se verificar a disposição da imagem. Estas podem estar dispostas das seguintes maneiras: 2.1. Imagem representada em perspectiva; 2.2. Imagem representada em forma horizontal; 2.3. Imagem representada em forma circular; 2.4. Imagem representada em forma de quadros e quadras (refere-se ao traçado urbano); 2.5. Imagem representada de maneira dispersa; 2.6. Imagem representada isoladamente. 3. Classificação quanto à especificação dos ícones Segundo Kozel (2001), esta etapa tem por objetivo o aprofundamento da análise, especificando os ícones que compõem as imagens em quatro grupos: 3.1. Representando elementos da paisagem natural – ícones inerentes aos elementos naturais existentes no ambiente como montanhas, rios, lagos, sol, nuvens, flores, árvores e vegetação em geral; 19 Um ícone constitui-se no signo cujo significado tem uma relação de analogia com o que ele representa, ex: o desenho de uma flor é um ícone na medida em que a forma como está representada se parece com a de uma flor (SANTAELLA, 2005). 79 3.2. Representando elementos da paisagem construída – relacionam-se ao tecido urbano construído pelo homem, casas, prédios, igrejas, pontos comerciais, escadas, calçadas, ruas; 3.3. Representação de elementos móveis – meios de transporte como carros, ônibus, caminhões de lixo, bicicletas, barcos, aviões; 3.4. Representação de elementos humanos – crianças, adultos, pessoas em geral. 80 5. RESULTADOS E DISCUSSÕES 5.1. Os Conjuntos de Essências Específicos Como já abordado, o método fenomenológico para análise das entrevistas semiestruturadas foi o proposto por Sanders (1982), que se constituiu das etapas de transcrição, na íntegra, das entrevistas gravadas, na identificação dos temas ou invariantes que emergem das respostas dos participantes da pesquisa e por fim na junção dos temas em conjuntos de essências para caracterizar a estrutura do fenômeno estudado. Na presente pesquisa, este método de análise permitiu delinear três conjuntos de essências específicos: 1. os elementos físicos que influenciam o vivenciar das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio; 2. o que as praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio representam para o bairro; 3. a percepção do morador do bairro Salobrinho sobre os cuidados para com as praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio. O primeiro, “os elementos físicos que influenciam o vivenciar das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio”, surgiu a partir dos questionamentos do conjunto de essência geral “valores e sentimentos”. A intenção foi verificar quais os elementos físico-estruturais vêm influenciando a forma como estas praças são experienciadas. Sendo assim conforme observado na tabela 1, referente ao que o usuário faria se pudesse modificar a praça Santo Antônio; na tabela 2, referente ao que o usuário 81 faria se pudesse modificar a praça João Francisco de Carvalho; na tabela 3, referente ao que o usuário não gosta na praça Santo Antônio e na tabela 4, referente ao que o usuário não gosta na praça João Francisco de Carvalho; os principais elementos são: na praça Santo Antônio: a falta de uma infraestrutura que a permita ser reconhecida como tal, arborização inadequada e ausência de mobiliário urbano, como mesas e bancos; na praça João Francisco de Carvalho: o aspecto da infraestrutura como um todo, a falta de uma área recreativa específica para o público infantil, a desorganização espacial, a deterioração e sujeira do local, e a presença de um ponto comercial que fornece bebidas alcoólicas. Tabela 1 O que o usuário faria se pudesse modificar a praça Santo Antônio Palavras ou frases chaves Sujeitos da pesquisa Colocaria arborização apropriada Reconstruiria do zero, faria uma praça mesmo, e colocaria área recreativa para as crianças e mobiliário urbano (bancos, mesas) 20% 80% Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos Tabela 2 O que o usuário faria se pudesse modificar a praça João Francisco de Carvalho Palavras ou frases chaves Sujeitos da pesquisa Modificaria ou melhoraria a infraestrutura 49% Retiraria o ponto comercial, o bar 13% Reconstruiria do zero 19% Proporcionaria manutenção e limpeza 19% Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos 82 Tabela 3 O que o usuário não gosta na praça Santo Antônio Palavras ou frases chaves Sujeitos da pesquisa Conduta das pessoas em relação ao espaço Infraestrutura 20% 40% Não gosto porque é um espaço vazio 20% É indiferente 20% Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos Tabela 4 O que o usuário não gosta na praça João Francisco de Carvalho Palavras ou frases chaves Sujeitos da pesquisa Desorganização 8% Infraestrutura 38% Sujeira 23% Do estabelecimento comercial, o bar 15% É indiferente 8% Não tem nada de que não goste 8% Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos É importante salientar o impacto “do estabelecimento comercial, o bar” no vivenciar da praça João Francisco de Carvalho. Embora essa frase chave não tenha sido constatada na maioria das entrevistas, cabe ressaltar que de acordo com Sanders (1982), o que importa não é a quantidade de vezes em que um tema ou invariante emerge, mas sim a ênfase que foi dada a ele por parte do entrevistado. Sendo assim, conforme pode ser observado nos depoimentos transcritos, a presença do bar compete pela utilização do espaço e inibe a freqüência do público infantil. Além disso, este estabelecimento constitui-se em propriedade privada, confrontando com a praça 83 enquanto espaço público, representando uma apropriação da mesma. Conseqüentemente isso reflete na interação entre os grupos sociais que a utilizam. De um lado tem-se o usuário que a freqüenta em busca de um tipo de lazer e convívio social que não estão vinculados à presença de estabelecimentos comerciais, do outro o usuário que está na praça constantemente porque trabalha nela e aquele que a freqüenta única e exclusivamente em virtude da presença do estabelecimento comercial. Rapaz se eu pudesse eu faria essa praça todinha novamente, entendeu! Mudava tudo. Porque o seguinte, o piso que eu falei nesse instante é emendado, tem um bar que eu acho que no lugar daquele bar deveria ser uma praça infantil, ter um parquezinho infantil pra uma criança, às vezes traz uma criança e não tem como brincar porque tem um local que empata. Esse bar que é tão na frente da praça (...) (ENTREVISTA 04. Praça João Francisco de Carvalho. Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos). Não gosto das pessoas que convivem aqui. Que aqui tem esse bar que faz muita zoada. Os meninos de menores gostam muito de beber e ficam fazendo zoada, não deixam agente se divertir (ENTREVISTA 08: Praça João Francisco de Carvalho. Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos). Eu de minha parte tirava esse bar daí (...) Esse bar que tomou o espaço da praça (ENTREVISTA 12: Praça João Francisco de Carvalho. Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos). O segundo conjunto de essência específico, “o que as praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio representam para o bairro”, emergiu dos questionamentos referentes aos conjuntos de essência geral “Identificação e uso das praças” e “função das praças”. Através desse conjunto de essência específico buscouse compreender a importância simbólica desses espaços para os moradores do bairro. 84 Segundo Lynch (1980), a praça pode ser considerada foco ou síntese de um bairro ou cidade, sobre o qual sua influência se irradia e do qual se torna símbolo. Sendo que por símbolo entende-se o signo que se refere ao objeto denotado em virtude de uma associação de idéias produzida por uma convenção (ROCHA, 2003). Essa convenção não é imutável, ela vem se desenvolvendo ao longo dos tempos, incorporando novos conceitos, desfazendo-se de outros, produzindo novas associações de idéias. Por esse motivo, ao longo da história, a praça já obteve diversas conformações e exerceu várias funções. Na atualidade, a praça pode ser definida como aquele signo urbano cuja infraestrutura seja acessível aos cidadãos e livres de veículos, propiciando condições para atividades de lazer, convívio social, integração voluntária à vida de agrupamentos recreativos, culturais e sociais, e que contribua para o embelezamento, funcionalidade e saúde urbana para as cidades (MACHADO, 1993; ROBBA e MACEDO, 2003; ANGELIS, CASTRO e NETO, 2004). A leitura do signo praça enquanto símbolo é feita através do grau de conhecimento que se tem sobre tal elemento urbano, da forma como os usuários a experienciam e do valor que atribuem ao mesmo. Sendo assim, embora os usuários das praças em estudo apontem principalmente o lazer e o convívio social, como palavras referentes ao que essas praças simbolizam, como observado na tabela 5, referente aos motivos de freqüência, especificamente da praça João Francisco de Carvalho, e nas tabelas 6 e 7, referentes à função da praça; também chamam atenção para seus anseios em relação ao que estes espaços necessitam: infraestrutura, limpeza, organização, conforme exposto nas tabelas 8 e 9, referentes às palavras que vêm à mente quando o usuário é instado a pensar sobre a praça. 85 Tabela 5 O que leva o usuário a freqüentar a praça João Francisco de Carvalho Palavras ou frases chaves Sujeitos da pesquisa Falta de opção 13% Lazer 7% Convívio social 33% Trabalho 20% Espaço para debates 7% Busca por ar livre 7% Movimento 13% Conjunto de essência geral: Identificação e Uso das Praças OBS: A palavra “movimento” foi empregada pelos usuários para descrever o vai e vem das pessoas. “Trabalho” foi emprega pelo usuário que possui ou trabalha em algum ponto comercial localizado no espaço físico da praça ou em seu entorno imediato. A expressão “Convívio Social” foi empregada para descrever as brincadeiras, o bate-papo com os amigos (as), o namoro. “Lazer” refere-se ao que o usuário descreveu como distração, relaxamento, passar o tempo. “Um espaço para debates” foi expresso pelos usuários que consideram a praça como um local de diálogo comunitário. “Busca por ar livre” o usuário atentou para a função de moderador de microclima da praça. Tabela 6 Qual é a função da praça? Palavras ou frases chaves Sujeitos da pesquisa Lazer e convívio social 27% Lazer 40% Lazer, espaço recreativo para crianças e convívio social Convívio social 13% Espaço recreativo para crianças 13% 7% Conjunto de essência geral: Função da praça Praça João Francisco de Carvalho 86 Tabela 7 Qual é a função da praça? Palavras ou frases chaves Sujeitos da pesquisa Convívio social 40% Lazer 60% Conjunto de essência geral: Função da praça Praça Santo Antônio Tabela 8 Palavras que vêm à mente referentes à Praça João Francisco de Carvalho Palavras ou frases chaves Sujeitos da pesquisa Palavras referentes ao que a necessita (anseios dos usuários) Palavras referentes ao que a representa Declarou falta de opção praça 27% praça 46% 7% Não declarou 20% Conjunto de essência geral: Função das praças OBS: As “palavras referentes ao que a praça representa” dizem respeito ao que o usuário designou por lazer, trabalho, bate papo, diversão, distração, brincadeira, namoro, local para passeio, centro de discussão comunitária, atividades e apresentações culturais. As “palavras referentes ao que a praça necessita” refere-se aos anseios do usuário como: limpeza, organização, ordem, infraestrutura. Tabela 9 Palavras que vêm à mente referentes à Praça Santo Antônio Palavras ou frases chaves Sujeitos da pesquisa Palavras referentes ao que a necessita (anseios dos usuários) Palavras referentes ao que a representa praça 40% praça 60% Conjunto de essência geral: Função das praças Ou seja, os usuários das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio contrapõem o conhecimento que possuem e que lhes permite reconhecer o signo 87 urbano praça com a forma como as estão vivenciando. Isso também pode ser verificado nos depoimentos transcritos: Na verdade isso aqui não é uma praça né. É um campo de criar cavalo e galinha. Não tem como freqüentar, não tem um banco, não tem praça (ENTREVISTA 15. Praça Santo Antônio. Conjunto de essência geral: Identificação e Uso da praça). Aqui eu faria a mesma coisa da outra praça lá da frente e lá acrescentaria mais algumas coisas pras crianças brincarem como, escorregadeiras, gangorras, bancos, tudo isso. Tudo que uma praça deveria ter agente poderia tá fazendo nessa aqui também (ENTREVISTA 19. Praça Santo Antônio. Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos). Realmente é uma praça que eu não tenho grande...entendeu? Eu não tenho o que ver nela. É uma praça simples, mal cuidada, que não tem grande coisa pra ver...não tem mesmo. Se você perguntar dez, entrevistar dez, vão falar a mesma coisa (ENTREVISTA 02. Praça João Francisco de Carvalho. Conjunto de essência geral: Identificação e Uso da praça.) Nessa praça, infelizmente, eu gosto mesmo é só de vim conversar com os amigos, porque infelizmente...a praça...não gosto dela em nada, e por que! Porque não tem nada de agradável. Se é o piso este é emendado, tem um bar no meio da praça que incomoda, entendeu. Não tem organização. Não tem estrutura pra lhe trazer satisfação (ENTREVISTA 04. Praça João Francisco de Carvalho. Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos). Eu não gosto da estrutura dela, é uma praça muito mal feita, muito mal acabada, suja, tá entendendo. As árvores não são podadas, é uma coisa entregue às baratas. É necessário que se tenha mais um pouco de respeito por essa praça, porque é o lazer pras crianças daqui do bairro, e pras pessoas também; todos que freqüentam a praça (ENTREVISTA 07. Praça João Francisco de Carvalho. Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos). É interessante observar, conforme verificado nas tabelas 5 e 8, que a praça João Francisco de Carvalho também representa trabalho. Neste caso, este tema ou invariante não está associado apenas ao bar, mas também a outros estabelecimentos comerciais como o armarinho e a bomboniere (também situados no espaço físico da 88 praça). A bomboniere, conforme pode ser verificado no depoimento transcrito, é considerada um ponto positivo na percepção dos usuários. Venho aqui por aqui é divertido; mais pra encontrar os amigos, tem a bomboniere que vende sorvete, que é ótima, muito gostoso (ENTREVISTA 08. Praça João Francisco de Carvalho. Conjunto de essência geral: Uso e Identificação das praças). O terceiro conjunto de essência específico “a percepção do morador do bairro Salobrinho sobre os cuidados para com as praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio” emergiu dos questionamentos referentes ao conjunto de essência geral “Administração”. Através desse conjunto de essência específico buscou-se compreender a conduta dos usuários para com estas praças. As diretrizes para criação e intervenções em espaços públicos voltados para o lazer sejam praças, parques urbanos, jardins botânicos, estão dispostos, previstos e regulamentados no Plano Diretor Urbano das cidades, que deve ser construído de maneira participativa, cabendo ao poder público local sua execução. Entretanto, a manutenção e conservação desses espaços envolve a participação de toda sociedade, desde a conduta individual de seus usuários a programas que propõem parcerias do Poder Público com a iniciativa privada 20. Sendo assim, como observado nas tabelas 10 e 11, referentes a quem deve cuidar da praça; e nas tabelas 12 e 13, referentes a como o usuário cuidaria da praça; 20 Um exemplo é o programa Adote uma Praça, que permite a qualquer entidade civil assumir a responsabilidade de urbanizar e manter áreas verdes públicas do seu município. Essa parceria auxilia na criação de uma consciência ecológica a partir da responsabilidade com a manutenção do espaço. O município de Ilhéus vem adotando o programa desde 2006 e algumas praças na região central da cidade já foram reformadas. Entretanto, em virtude da falta de manutenção por parte do poder público e zelo por parte dos usuários, estas mesmas já se encontram em processo de degradação. 89 para os moradores do bairro Salobrinho, a construção, reforma e manutenção das Praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio são de responsabilidade do Poder Público Municipal, mas cabe à comunidade zelar pela conduta positiva em relação a esses espaços através da conscientização de adultos e crianças, contribuindo para que as praças permaneçam limpas e conservadas. Tabela 10 Quem deve cuidar da praça João Francisco de Carvalho? Palavras ou frases chaves Sujeitos da pesquisa Não respondeu 5% Comunidade 25% Poder Público Local 65% Poder Público Estadual 5% Conjunto de essência geral: Administração Tabela 11 Quem deve cuidar da praça Santo Antônio? Palavras ou frases chaves Sujeitos da pesquisa Poder Público Local e Comunidade 40% Poder Público Local 60% Conjunto de essência geral: Administração 90 Tabela 12 Como o usuário cuidaria da praça João Francisco de Carvalho Palavras ou frases chaves Sujeitos da pesquisa Através de uma intervenção física – modificação estrutural (anseio do usuário) Através do zêlo 11% Não sabe 11% Através da limpeza 46% Organizando 5% Cuidando dos jardins e da arborização 11% Estipulando regras para o uso do espaço 11% 5% Conjunto de essência geral: Administração Tabela 13 Como o usuário cuidaria da praça Santo Antônio Palavras ou frases chaves Sujeitos da pesquisa Através de uma intervenção física – modificação estrutural (anseio do usuário) Através da limpeza 13% Estipulando regras para o uso do espaço 13% Conscientizando adultos e crianças acerca do uso e conduta para com a praça (educação ambiental) 37% 37% Conjunto de essência geral: Administração A partir dos conjuntos de essências específicos foi possível verificar os elementos signíficos que contribuem para desvendar o vivenciar das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio e o grau de importância de cada um para seus usuários. Esses elementos variam desde os que compõem a infraestrutura dessas praças, o espaço real, aos configurados apenas no espaço ideal, baseados no que os usuários, conceitualmente, entendem pelo signo urbano praça e o que este representa. 91 Tais elementos signíficos também foram constatados nos mapas mentais. Através dessas imagens imediatas do espaço vivido, provenientes da apreensão de significados e decorrentes da construção mental e de símbolos advindos do mundo percebido, cada participante da pesquisa representou aquilo que acredita ser essencial quando vivencia as referidas praças. 5.2. Imagens imediatas do espaço vivido – os mapas mentais As representações mentais constituem-se nas imagens imediatas que cada usuário ou morador do entorno imediato às praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio têm das mesmas. De acordo com Kashiwagi e Kozel (2005), essas imagens são únicas, pois são frutos de suas relações com esses espaços, com si mesmos, e de sua capacidade de abstrair do mundo real o que é visível apenas em si mesmos. A interpretação dos mapas mentais baseou-se no método de análise desenvolvido por Kozel (2001), cuja seqüência de etapas sugere, primeiramente, a análise quanto à forma de representação dos elementos na imagem, seguida pela análise quanto à distribuição dos elementos na imagem (disposição da imagem) e por fim análise quanto à especificação dos ícones. Sendo assim, na primeira etapa, verificou-se uma predominância maior de ícones e letras (estas últimas na maioria das vezes associadas aos ícones) como pode ser observado, a seguir, nos mapas mentais 1 e 2. 92 Ícones Letras MAPA MENTAL 1. Praça João Francisco de Carvalho. Imagem representada em forma horizontal Entrevista semi-estruturada 01. MAPA MENTAL 2. Praça João Francisco de Carvalho. Imagem representada em forma horizontal Entrevista semi-estruturada 07. 93 No que se refere à distribuição dos elementos da imagem (disposição da imagem), verificou-se tanto a representação em forma horizontal, apresentando elementos que indicam os limites ou a conformação das praças, como pode ser observado nos mapas mentais 1 e 2, já expostos, e nos mapas 3 e 4, como também a representação de maneira dispersa, apresentando ícones desenhados aleatoriamente, mapas mentais 5 e 6. MAPA MENTAL 3. Praça João Francisco de Carvalho. Imagem representada em forma horizontal. Entrevista semi-estruturada 13. 94 MAPA MENTAL 4. Praça Santo Antônio. Imagem representada em forma horizontal. Entrevista semi-estruturada 15. MAPA MENTAL 5. Praça João Francisco de Carvalho. Imagem representada de maneira dispersa Entrevista semi-estruturada 10. 95 Elemento móvel Carro MAPA MENTAL 6. Praça Santo Antônio. Imagem representada de maneira dispersa Entrevista semi-estruturada 19. Segundo Kashiwagi e Kozel (2005), o aparecimento da disposição da imagem dispersa geralmente está relacionada a participantes que se encontram distantes da área de estudo. No caso da presente pesquisa seriam os usuários que não pertencem ao entorno imediato às praças. Entretanto, isso não foi verificado. Os mapas mentais que se apresentam de forma dispersa pertencem a moradores do entorno, mas que raramente as freqüentam. É interessante relatar que ambas praças podem ser vistas de suas janelas, mas não pertencem aos espaços que cotidianamente experienciam. Após as análises preliminares, foram observados os ícones que compõem as imagens, que segundo Kozel (2001) podem ser classificados em quatro grupos: representando elementos da paisagem natural, representando elementos da paisagem construída, representando elementos móveis, e representando elementos humanos. 96 Dentre os mapas analisados apenas um apresentou ícones representando elementos humanos – pessoas em geral (mapa mental 7), e outro apresentou ícones representando elementos móveis – carro (mapa mental 6, já exposto). Os demais apresentaram ícones referentes à paisagem natural – vegetação e árvores; e elementos referentes à paisagem construída – rua, escadas, calçada, casas e estabelecimentos comerciais. (mapas mentais 1, 2, 3, 4 e 5, já expostos e mapas mentais 8, 9, 10, 11 e 12). Elemento humano MAPA MENTAL 7. Praça João Francisco de Carvalho. Imagem representada em forma horizontal. Entrevista semi-estruturada 09. 97 MAPA MENTAL 8. Praça João Francisco de Carvalho. Imagem representada em forma horizontal. Entrevista semi-estruturada 08. MAPA MENTAL 9. Praça Santo Antônio. Imagem representada em forma horizontal. Entrevista semi-estruturada 16. 98 MAPA MENTAL 10. Praça João Francisco de Carvalho. Imagem representada em forma horizontal. Entrevista semi-estruturada 04. MAPA MENTAL 11. Praça Santo Antônio. Imagem representada em forma horizontal. Entrevista semi-estruturada 12. 99 MAPA MENTAL 12. Praça Santo Antônio. Imagem representada em forma horizontal. Entrevista semi-estruturada 18. Como observado nos mapas mentais 4, 6, 9, 11 e12, referentes à praça Santo Antônio a percepção de seus usuários é expressa numa imagem que se caracteriza por uma área composta por árvores e cercada por residências, o que confirma o vivenciar deste espaço, pela falta de uma infraestrutura que o permita ser reconhecido como praça. Já na praça João Francisco de Carvalho, em virtude do local onde está inserida, da infraestrutura existente, que proporciona maior diversidade de elementos, e das formas como vem sendo experienciada, a apreensão imediata da mesma torna-se seletiva, ou seja, os usuários tendem a chamar atenção e a registrar elementos/ fatos do vivido numa escala de importância. 100 Sendo assim, de maneira geral, observa-se a forte presença dos ícones naturais em todos os mapas mentais, mais especificamente as árvores (contidas em quadrados de alvenaria). As árvores são grandes, exuberantes, promovem sombreamento, e também, no caso da referida praça, possuem raízes aéreas que comprometem o piso da mesma. Em seqüência, os elementos construídos como os estabelecimentos comerciais representam forte impacto no vivenciar deste espaço. Há a predominância da bomboniere, que segundo os usuários, pode ser considerada um ponto positivo e em contrapartida o bar, um ponto negativo. Ainda como elementos construídos, aparecem a conformação da praça, com as escadarias, delimitação dos canteiros e a boca de lobo, esta última representada pelas letras “paradão”, “sujeira pura”, “água parada”. Na praça João Francisco de Carvalho, ao contrário da praça Santo Antônio, não é a ausência de uma infraestrutura que influencia o seu vivenciar, mas sim os elementos físico-estruturais que a configuram, seja de forma positiva ou negativa. Observa-se que os elementos humanos são praticamente desconsiderados em ambas as praças. Apenas um participante da pesquisa os representou em seu mapa mental; este mesmo participante está entre os poucos que, durante a entrevista semiestruturada, referiu-se ao signo urbano praça como local para atividades culturais e reuniões comunitárias. É importante salientar que a maioria dos elementos signíficos presentes nos mapas mentais também foram constatados nos conjuntos de essências específicos. 101 5.3. Outras variáveis que influenciam a percepção das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio. É importante ressaltar que a percepção pode variar de acordo com a cultura do indivíduo, tempo histórico, idade, situação psicológica, dentre outros (ROCHA, 2003). No caso das praças estudadas, de maneira geral, sua apreensão, pelos usuários e moradores de seu entorno imediato, foi similar. Entretanto observou-se que há uma variação na forma de expressão, na construção das frases e conteúdo da informação. Quanto maior o grau de escolaridade do entrevistado, mais amplo é o vocabulário e mais atualizado é o conhecimento sobre o tema abordado. Nas tabelas 14 e 15, referentes ao nível de escolaridade dos participantes da pesquisa, observa-se que na praça João Francisco de Carvalho a maioria dos entrevistados completou apenas o ensino fundamental II e na praça Santo Antônio a maioria completou o ensino médio. Tabela 14 Nível de escolaridade dos usuários da praça João Francisco de Carvalho Grau de escolaridade Sujeitos da pesquisa Curso superior incompleto 7% Ensino médio completo 29% Ensino fundamental II completo 36% Ensino Fundamental II incompleto 14% Ensino Fundamental I incompleto 7% Nenhum 7% 102 Tabela 15 Nível de escolaridade dos usuários da praça Santo Antônio Grau de escolaridade Sujeitos da pesquisa Ensino médio completo 60% Ensino fundamental II completo 20% Ensino fundamental I completo 20% Nos depoimentos transcritos verifica-se a influência que o grau de conhecimento adquirido tem na percepção desses espaços. Do meu ponto de vista, uma praça quando é bem organizada, traz várias formas de diversão. Às vezes se você tem crianças, pode trazê-las para brincar na praça, se você não tem, então traz uma dama e joga com uma amiga ou um amigo, entendeu?! Então a praça tem várias funções, diversão, é um espaço para pensamento, para ficar mais à vontade... (ENTREVISTA 04. Conjunto de essência geral: Qual é a função das praças. Praça João Francisco de Carvalho. Grau de escolaridade do entrevistado: Cursando ensino médio). Vixie! Pra brincar com as crianças! Pras crianças brincar... (ENTREVISTA 10. Conjunto de essência geral: Qual é a função das praças. Praça João Francisco de Carvalho. Grau de escolaridade do entrevistado: Ensino fundamental II incompleto). Olha, pra mim, a função da praça é principalmente a de reunir pessoas. É na praça que agente conhece novas pessoas, faz novos contatos. Então quando eu penso na praça, eu penso em confraternização, em reunião de pessoas (ENTREVISTA 16. Conjunto de essência geral: Qual é a função das praças. Praça Santo Antônio. Grau de escolaridade do entrevistado: ensino médio completo/ cursando ensino superior UESC). Outro ponto a ser considerado é que em alguns casos, o participante da pesquisa não considerou a freqüência como referente à sua constante permanência nas praças, fosse por motivo de trabalho ou por residir em seu entorno imediato, mas por outras razões. E embora, conforme verificado durante os roteiros de observação, a praça João 103 Francisco de Carvalho venha funcionando como ponto de ônibus intermunicipal Ilhéus/ Itabuna e vice versa, os entrevistados associaram a freqüência ao espaço principalmente às atividades relacionadas ao lazer, restringindo-a aos finais de semana, conforme pode ser constatado na tabela 16, referente à freqüência, especificamente praça João Francisco de Carvalho. Tabela 16 Freqüência de usuários na praça João Francisco de Carvalho Dias da semana Sujeitos da pesquisa Durante a semana e fim de semana 38% Fim de semana 62% Conjunto de essência geral: Identificação e uso das praças Cabe também destacar o tempo de permanência dos participantes da pesquisa nas referidas praças. Conforme pode ser observado na tabela 17, a maioria não passa mais do que duas horas na praça João Francisco de Carvalho, e aqueles que passam de seis horas ou mais associaram a permanência ao trabalho nos estabelecimentos comerciais, que se encontram dentro do perímetro da praça ou em seu entorno imediato. Tabela 17 Tempo de permanência dos usuários na praça João Francisco de Carvalho Tempo de permanência Sujeitos da pesquisa Meia hora 15% Uma hora 8% Duas horas 38% Três horas 8% Seis horas ou mais 31% Conjunto de essência geral: Identificação e uso das praças 104 Já no caso da praça Santo Antônio, a permanência referente a seis horas ou mais, conforme pode ser verificado na tabela 18, se deve ao fato dos participantes da pesquisa considerarem a área da praça como parte integrante de suas residências, uma vez que não há um limite físico claro entre este espaço público e o privado. Também é importante pontuar que os participantes que alegaram não freqüentá-la também residem em seu entorno imediato, mas não reconhecem tal espaço como parte integrante de seu ambiente experienciado. Tabela 18 Tempo de permanência dos usuários na praça Santo Antônio Tempo de permanência Sujeitos da pesquisa Seis horas ou mais 80% Não freqüenta 20% Conjunto de essência geral: Identificação e uso das praças 5.4. Concluindo a análise Segundo Harvey (1992), a experiência simbólica do espaço pode ser definida pelas interações entre o significado simbólico, a forma, e o comportamento espacial. Sendo assim as transformações nas praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio ocorrem diariamente à medida que se relacionam com seus usuários através de seus sentimentos e vivências. Trata-se do espaço ideal, e são as transformações que acontecem no espaço ideal que influenciam a configuração deste no espaço real. Conforme verificado nos conjuntos de essências específicos e confirmados pelos mapas mentais o vivenciar das referidas praças é diretamente influenciado por 105 elementos de ordem físico-estrutural que se contrapõem a elementos de ordem conceitual e simbólica. Ou seja, as sensações e impressões causadas ao vivenciar o espaço real não condizem com o que os usuários deste espaço entendem pelo signo urbano praça e o que este representa. Sendo assim, através da manifestação clara de seu descontentamento, os usuários as reconfiguram no espaço ideal, expondo seus anseios e necessidades. 5.5. Renovar, reabilitar ou requalificar as praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio? Após a reconstituição da percepção ambiental dos usuários e moradores do entorno imediato às praças em estudo e a constatação de que as mesmas já se encontram em outro patamar de configuração no espaço ideal, convidando a uma reconfiguração no espaço real, cabe retomar o questionamento: Em que sentido acontecerá a revitalização destes espaços? As praças serão renovadas, reabilitadas ou requalificadas? Como abordado anteriormente, o conceito renovar não se aplica ao presente trabalho, pois a idéia não é demolir o edificado e conseqüentemente substituí-lo por uma nova construção, geralmente com características morfológicas e tipológicas diferentes. Também não se pode dizer que as praças serão reabilitadas, pois este conceito envolve uma intervenção que vai além das dimensões destes espaços. Dessa forma, o conceito que mais se adequa ao presente trabalho é o de requalificar, pois de acordo com Guerra et al (2005) através desse processo busca-se promover a construção ou recuperação de equipamentos e infra-estruturas e a 106 valorização do espaço público, permitindo a introdução de qualidades urbanas, de acessibilidade e centralidade, provocando mudanças de valor seja no nível econômico, cultural, paisagístico ou social. 107 6. REQUALIFICANDO AS PRAÇAS JOÃO FRANCISCO DE CARVALHO E SANTO ANTÔNIO – ESBOÇO PRELIMINAR O esboço preliminar de requalificação das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio foi efetuado em três etapas: 6.1. levantamento espacial (cadastro) das referidas praças efetuado em função dos roteiros de observação e através da ficha para “levantamento quantitativo dos equipamentos e estruturas existentes” (quadros 5 e 6) e ficha para “avaliação qualitativa” (quadros 7 e 8), desenvolvidas com base na metodologia para levantamento, cadastramentos, diagnóstico e avaliação de praças no Brasil proposta por De Angelis, Castro e Neto (2004). Quadro 5 Levantamento quantitativo dos equipamentos e estruturas existentes da praça João Francisco de Carvalho Equipamentos/ estruturas Sim Não Quantidade Bancos X Iluminação – alta ( X ) baixa ( ) X 1 Lixeiras X Sanitários X Telefone Público X Bebedouros X Caminhos X Palco/ coreto X Obra de arte X Espelho d’água ou chafariz X Estacionamento X Ponto de ônibus X 1 Ponto de táxi X Quadra esportiva X Parque infantil X Banca de revista X Quiosque de alimentação ou similar X 1 bomboniere e 1 bar Identificação - placa X 1 Edificação institucional X Templo religioso X Fonte: De Angelis, Castro e Neto (2004, p. 61-62). Adaptado por COSTA, 2007 108 Quadro 6 Levantamento quantitativo dos equipamentos e estruturas existentes da praça Santo Antônio Equipamentos/ estruturas Sim Não Quantidade Bancos X Iluminação – alta ( X ) baixa ( ) X Lixeiras X Sanitários X Telefone Público X Bebedouros X Caminhos X Palco/ coreto X Obra de arte X Espelho d’água ou chafariz X Estacionamento X Ponto de ônibus X Ponto de táxi X Quadra esportiva X Parque infantil X Banca de revista X Quiosque de alimentação ou similar X Identificação - placa X Edificação institucional X 1 posto de saúde Templo religioso X Quadro 7 Avaliação qualitativa dos equipamentos e estruturas existentes da praça João Francisco de Carvalho Equipamentos/ estruturas Nota Ausência Iluminação – alta ( X ) baixa ( ) regular Vegetação regular Paisagismo ausente Localização boa Conservação e limpeza regular Piso regular Segurança regular Conforto Ambiental ausente Ponto de ônibus regular Quiosque de alimentação (bomboniere) bom Bar regular Identificação - placa regular Fonte: De Angelis, Castro e Neto (2004, p. 63). Adaptado por COSTA, 2007 109 Quadro 8 Avaliação qualitativa dos equipamentos e estruturas existentes da praça Santo Antônio Equipamentos/ estruturas Nota Ausência Iluminação – alta ( ) baixa ( ) ausente Vegetação regular Paisagismo ausente Localização boa Conservação e limpeza ausente Piso ausente Segurança ausente Conforto Ambiental ausente Ponto de ônibus ausente Edificação institucional (posto de bom saúde) 6.2. representação gráfica de ambas as praças, tais como atualmente se apresentam, com base nos roteiros de observação e medições feitas no local (figuras 12 e 13). Calçada Canteiros Poste de luz Restaurante/ bar Armarinho Escada de acesso Bomboniere Quiosque de doces Chaveiro Figura 12: Planta Baixa - Praça João Francisco de Carvalho Sem escala Desenho: COSTA, 2007 110 Árvores existentes Área da praça Rua Figura 13: Planta Baixa - Praça Santo Antônio Sem escala Desenho: COSTA, 2007 6.3. Elaboração do projeto com base nos elementos que diretamente influenciam o vivenciar desses espaços, constatados nos conjuntos de essências específicos e confirmados pelos mapas mentais. Os norteadores foram reunidos nos quadros 9, 10 e 11. Quadro 9 Principais elementos físicos que diretamente influenciam o vivenciar da praça João Francisco de Carvalho 1. A infraestrutura como um todo Constatado através dos conjuntos de (incluindo a falta de mobiliário urbano - essências específicos. Elementos da mesas, bancos, iluminação adequada) infraestrutura, como conformação da praça, canteiros e escadarias, também foram constatados nos mapas mentais. 2. Arborização e vegetação Constatado no conjunto de essências específicos e através dos mapas mentais. 3. Falta de área recreativa para Constatado através dos conjuntos de crianças essências específicos. 4. Satisfação ou insatisfação Constatado através dos conjuntos de relacionada a alguns estabelecimentos essências específicos. Ícones bar e comerciais – Satisfação: bomboniere bomboniere também presentes nos Insatisfação: bar mapas mentais. 5. Organização espacial Constatado através dos conjuntos de essências específicos. 111 Quadro 10 Principais elementos físicos que diretamente influenciam o vivenciar da praça Santo Antônio 1. A infraestrutura como um todo (incluindo Constatado através dos conjuntos a falta de mobiliário urbano - mesas, de essências específicos e mapas bancos, iluminação adequada) mentais. 2. Arborização e vegetação Constatado nos conjuntos de essências específicos e através dos mapas mentais. Quadro 11 Principais elementos de ordem conceitual e simbólica referentes à praça João Francisco de Carvalho e Santo Antônio que diretamente influenciam a forma como seus usuários as vivenciam 1. Lazer (a praça enquanto espaço para Constatado através dos conjuntos diversão, entretenimento, contemplação, de essências específicos. relaxamento). 2. Convívio social (a praça enquanto espaço para encontrar os amigos (as), Constatado através dos conjuntos namorar, brincar, apresentar e participar de de essências específicos. atividades culturais). 6.3.1. Esboço preliminar de requalificação da praça João Francisco de Carvalho A conformação retangular desta praça assim como os acessos principais foram mantidos como atualmente estão configurados, já que tais elementos não se apresentaram de forma negativa na percepção de seus usuários. Já os pontos de luz existentes foram removidos, substituídos e mais foram acrescentados. Sugeriu-se mobiliário urbano como bancos e lixeiras. E os pequenos canteiros laterais e centrais suspensos em estrutura de alvenaria foram removidos, dando lugar a grandes áreas circulares na cota do piso (figura 14). 112 Figura 14: Perspectiva– requalificação da Praça João Francisco de Carvalho Sem escala Desenho: COSTA, 2007 Estas áreas têm por objetivo abrigar vegetação variada sugerida e as árvores de grande porte já existentes, oferecendo espaço para acomodação das raízes, de forma que estas últimas não venham comprometer o piso da praça futuramente. Além disso, as áreas circulares contribuem para delinear um caminho de percurso pela praça. A idéia do caminho está aliada ao lúdico, à descoberta. A praça João Francisco de Carvalho deixa de ser um espaço de trânsito rápido e linear, para se tornar um espaço onde a cada passo é desvendado um novo lugar. Ou seja, foram criados “cantinhos” onde aspectos importantes ao processo de microrritualizações de seus usuários, relacionado aos elementos de ordem conceitual e simbólica como o lazer e convívio social, foram resgatados e ganharam ênfase. Sendo assim, elementos como a bomboniere, que se apresenta de forma positiva na percepção dos usuários, foi mantida e mesas de apoio com guarda-sol foram introduzidas em sua proximidade. O restaurante/ bar, que se apresenta de maneira negativa na percepção dos usuários, foi removido (podendo ser relocado no 113 entorno da praça próximo aos outros pontos comerciais já existentes), e em seu lugar foi sugerido um parque infantil. Também foi sugerido um espaço com mesas para jogos de dama, xadrez, carteado, dentre outros. Cabe salientar que a praça continua servindo como ponto de apoio ao trânsito do ônibus inter-municipal Ilhéus/ Itabuna (vice-versa), mas para que seu espaço físico não seja completamente ocupado pelo grupo que apenas está no local para esperar o ônibus foi sugerido um abrigo adequado para o ponto. 6.3.2. Esboço preliminar de requalificação da praça Santo Antônio Como constatado no presente trabalho, o vivenciar da praça Santo Antônio é marcado pela falta de uma infraestrutura que a permita ser reconhecida como tal, sendo assim, a proposta preliminar de requalificação deste espaço foi uma concepção do mesmo. A conformação triangular deste espaço foi mantida e os acessos foram criados a partir da cota da rua. Sugeriu-se uma calçada contornando toda a praça, no intuito de enfatizar o limite entre o público (a praça em si) e o privado (as residências do entorno). Assim como na praça João Francisco de Carvalho, o caminho está presente e delineado por canteiros circulares; foi sugerida a introdução de vegetação variada, e as árvores de grande porte, já existentes, foram preservadas. Também foram sugeridas luminárias, lixeiras e bancos (figura 15). 114 Figura 15: Perspectiva– requalificação da Praça Santo Antônio Sem escala Desenho: COSTA, 2007 Como os usuários mais freqüentes da praça Santo Antônio são crianças, na maioria advindas de seu entorno imediato, a idéia foi criar um espaço que não só atendesse os anseios do usuário adulto, mas também possibilitasse brincadeiras infantis como: “esconde, esconde”; “pega, pega”; “jogar bola”, dentre outras, e que não estivessem exclusivamente atreladas à existência de um playground. Dessa a forma a praça Santo Antônio, antes caracterizada como um local desprovido de qualquer infraestrutura, torna-se um espaço lúdico e convidativo a usuários de todas as idades. Cabe relatar que como ambas propostas são esboços preliminares, não se priorizou o detalhamento do mobiliário urbano ou especificou-se a vegetação a ser introduzida. 115 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho buscou-se discutir a intervenção em espaços públicos urbanos, mais especificamente a revitalização, tomando como estudo de caso as praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio, apontando a reconstituição da percepção ambiental de seus usuários e moradores do entorno imediato como ferramenta imprescindível ao processo. O ponto de partida foi o redirecionamento do espaço como apenas físico para o de espaço vivido, abordando a percepção sob o aporte teórico-metodológico da Fenomenologia, buscando desvendar o vivenciar das referidas praças sem comprometer sua riqueza e complexidade de significados. Nesse contexto, foi fundamental o levantamento histórico da configuração das praças e do bairro onde estão inseridas, assim como a identificação dos grupos sociais que as utilizam e como estes vêm se interagindo. Através da reconstituição da percepção ambiental foi possível identificar os elementos signíficos que diretamente influenciam no vivenciar destas praças, assim como constatar se as mesmas necessitam ou não ser revitalizadas. Como foi verificado que os elementos signíficos no espaço ideal convidam a uma reconfiguração do espaço real, a proposta de revitalização sugerida foi a de requalificação, no intuito de promover a construção ou recuperação tanto da infraestrutura como dos equipamentos, introduzir ou reconstituir qualidades urbanas, sejam de acessibilidade, de centralidade, simbólicas ou ecológicas, contribuindo dessa 116 forma, para resgatar e valorizar as microrritualizações geradas pelas gratificações afetivas de cada usuário para com estas praças. Os projetos preliminares de requalificação concluem o último objetivo específico proposto pelo presente trabalho: esboçar um projeto de revitalização, tendo como base os resultados obtidos com a pesquisa. Entretanto, cabe salientar que qualquer processo de intervenção ou planejamento urbano é participativo e contínuo. Sendo assim, os projetos preliminares serão apresentados aos usuários das praças, objetivando não só aguçar-lhes ainda mais a percepção em relação a estes espaços, como desencadear o surgimento de novas idéias e possibilidades. “Nós não somente experienciamos o ambiente como também o modificamos. E o fato de modificá-lo também muda como o experienciamos. O homem não só responde ao seu ambiente, como também o (re) cria” (ITTELSON, 1978, p. 211). O processo de intervenção urbana em espaços públicos como as praças com base na reconstituição da percepção ambiental de seus usuários, sob a abordagem Fenomenológica, possibilita restabelecer o contato entre o mundo e as significações, no qual o espaço é vivido e constantemente (re) construído a partir daqueles que o experienciam. 117 8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMORIM FILHO, O. B. A evolução do pensamento geográfico e a fenomenologia. Uberlândia: Revista Sociedade e Natureza, no 11, 1999. p. 67-87. ANDRADE SILVA, H. Revitalização Urbana de Centros Históricos: uma revisão de conceitos, contextos e projetos. Natal: Plano Diretor Urbano de Natal, RN, 2004. p. 127. Disponível: http://www.natal.rn.gov.br/semurb/plano_diretor. Consultado: 25/11/2007. ARANTES DE BEM, J. Aforamento, Enfiteuse e Laudêmio. Wiki-ctm: enciclopédia livre, 2005. p 1-30. Disponível: http://geodesia.ufsc.br/wiki-ctm/index.php. Consultado: 08/08/2007. ARRUDA, D. S. B. Júdice 5 – Praças Públicas. 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Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual de Santa Cruz. Programa Regional de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Inclui bibliografia. 1. Urbanização - Aspectos Ambientais. 2. Praças Salobrinho, Ilhéus (BA). 3. Avaliação paisagística. I. Título. CDD 363.7