Universidade Estadual de Santa Cruz
Programa Regional de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente
Mestrado em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente
PERCEPÇÃO AMBIENTAL E REVITALIZAÇÃO: as praças
do bairro Salobrinho, Ilhéus, Bahia
SILVIA KIMO COSTA
ILHÉUS, BAHIA
2008
SILVIA KIMO COSTA
PERCEPÇÃO AMBIENTAL E REVITALIZAÇÃO: as praças
do bairro Salobrinho, Ilhéus, Bahia
Dissertação apresentada ao Programa Regional de
Pós-graduação em Desenvolvimento Regional e
Meio
Ambiente,
Sub-programa
Universidade
Estadual de Santa Cruz, como parte dos requisitos
para obtenção do título de Mestre em
Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente.
Orientador: Professor Dr. Paulo dos Santos Terra
ii
SILVIA KIMO COSTA
PERCEPÇÃO AMBIENTAL E REVITALIZAÇÃO: as praças do bairro Salobrinho,
Ilhéus, Bahia
Ilhéus, Bahia, 12 de fevereiro de 2008
________________________________________
Dr. Paulo dos Santos Terra
UESC (Orientador)
________________________________________
Dra. Elaine Cavalcante Gomes
Dep. Arquitetura e Urbanismo - UFV
________________________________________
Dr. Milton Ferreira
PRODEMA/ UESC
iii
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus pela oportunidade de viver e dar continuidade ao
aprendizado espiritual.
Aos meus pais que não mediram esforços e sacrifícios para me proporcionar
o que considero de mais valioso: o conhecimento.
Ao meu marido e amigo Marcio, por nunca deixar que eu esmorecesse frente
a qualquer obstáculo; por suas palavras, que nem sempre foram as que eu queria
ouvir, mas sim as que eu precisava ouvir; pelo incentivo e por acreditar que sou
capaz de alcançar meus objetivos.
Ao meu filho Lucas, que tanto amo, e que embora ainda tão jovem, é capaz
de enxergar fundo em meu coração e com um simples olhar ou sorriso, demonstrar
que é preciso parar, sossegar, observar as coisas mais simples da vida e aproveitar
momentos que sem dúvidas jamais irão se repetir.
Ao meu irmão e amigo William, pela paciência que só os irmãos possuem.
Às minhas melhores amigas, as super enfermeiras Natiane e Carlinha;
Jussiara - êta mulher retada!!! Helga – um verdadeiro raio de sol, e meu amigo
Gustavo.
Ao meu orientador Prof. Paulo Terra por sua paciência, sensibilidade e ética
ao orientar.
À minha amiga Profa. Cristina Rangel que muito contribuiu para com esse
trabalho; obrigado pela paciência, por muitas vezes deixar de almoçar para tirar
iv
minhas dúvidas, e até mesmo atender meus telefonemas às 7:00 horas da manhã
para discutir Fenomenologia Existencial.
À Universidade Federal de Viçosa, por ter me proporcionado uma excelente
formação acadêmica em Arquitetura e Urbanismo. Tenho orgulho de dizer que fui
uma aluna UFV.
À Universidade Estadual de Santa Cruz - PRODEMA.
v
LISTA DE FIGURAS
Figura 1. Croqui representando o Adro da igreja no período
colonial. (Fonte: ROBBA e MACEDO, 2003, p. 19).
Pg. 32
Figura 2. Imagem Salobrinho/ UESC. (Fonte: ASCOM/ Universidade
Pg. 50
Estadual de Santa Cruz, 2007).
Figura 3. Mesorregiões da Bahia com destaque para a mesorregião
Sul baiano. (Fonte: IBGE 2006, adaptado por ROCHA, 2006).
51
Figura 4. Microrregião Cacaueira (Ilhéus-Itabuna) na mesorregião
Sul baiano. (Fonte: IBGE 2006, adaptado por ROCHA, 2006).
Pg. 51
Figura 5. Imagem da cidade de Ilhéus. (Fonte: Prefeitura do Campus/
Pg. 52
Universidade Estadual de Santa Cruz, 2007).
Figura 6. Imagem cidade de Ilhéus/ bairro Salobrinho. (Fonte: Google
Pg. 55
Earth. 2007 Europa Technologies, Image © 2007 TerraMetrics).
Figura 7. Imagem bairro Salobrinho. (Fonte: Prefeitura do campus/
Universidade Estadual de Santa Cruz, 2007).
Pg. 55
Figura 8: Praça João Francisco de Carvalho. (Fotografia: Silvia Kimo
Pg. 59
Costa, 2006).
Figura 9. Praça quadrangular e retangular. (Fonte: DE ANGELIS,
Pg. 60
CASTRO e NETO, 2004, p. 66).
Figura 10: Praça Santo Antônio. (Fotografia: Silvia Kimo Costa, 2006).
vi
Pg. 61
Figura 11. Praça triangular. (Fonte: DE ANGELIS, CASTRO e NETO, 2004,
Pg. 61
p. 66).
Mapa temático do Salobrinho desenvolvido sobre fotografia aérea
cedida pela CEPLAC.
Pg. 63
Figura 12: Planta Baixa - Praça João Francisco de Carvalho.
Pg. 110
(Desenho: Silvia Kimo Costa, 2007).
Figura 13: Planta Baixa - Praça Santo Antônio. (Desenho: Silvia Kimo
Pg. 111
Costa, 2007).
Figura 14: Perspectiva – Requalificação da Praça João Francisco
de Carvalho. (Desenho: Silvia Kimo Costa, 2007).
Figura 15: Perspectiva – Requalificação da Praça Santo Antônio.
(Desenho: Silvia Kimo Costa, 2007).
vii
Pg. 113
Pg. 115
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 – As praças ao Longo da História
Pg. 30
Quadro 2 – Classificação das praças
Pg. 35
Quadro 3 - Teóricos fenomenológicos e seus principais métodos de
coleta e análise de dados
Pg. 65
Quadro 4 – Objetivos específicos da pesquisa e métodos utilizados
para alcançá-los
Pg. 68
Quadro 5 - Levantamento quantitativo dos equipamentos e
estruturas existentes da praça João Francisco de Carvalho
Pg. 108
Quadro 6 - Levantamento quantitativo dos equipamentos e
estruturas existentes da praça Santo Antônio
Pg. 109
Quadro 7 - Avaliação qualitativa dos equipamentos e estruturas
existentes da praça João Francisco de Carvalho
Pg. 109
Quadro 8 - Avaliação qualitativa dos equipamentos e estruturas
existentes da praça Santo Antônio
Pg. 110
Quadro 9 - Principais elementos físicos que diretamente
influenciam o vivenciar da praça João Francisco de Carvalho
Pg. 109
Quadro 10 - Principais elementos físicos que diretamente
influenciam o vivenciar da praça Santo Antônio
Pg. 111
Quadro 11 - Principais elementos de ordem conceitual e simbólica
referentes à praça João Francisco de Carvalho e Santo Antônio
que diretamente influenciam a forma como seus usuários as
vivenciam
Pg. 112
viii
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - O que o usuário faria se pudesse modificar a praça
Santo Antônio (Conjunto de essência geral: Valores e sentimentos).
Pg. 82
Tabela 2 - O que o usuário faria se pudesse modificar a praça João
Francisco de Carvalho (Conjunto de essência geral: Valores e sentimentos).
Pg. 82
Tabela 3 - O que o usuário não gosta na praça Santo Antônio
Pg. 83
(Conjunto de essência geral: Valores e sentimentos).
Tabela 4 - O que o usuário não gosta na praça João Francisco de
Carvalho (Conjunto de essência geral: Valores e sentimentos).
Pg. 83
Tabela 5 - O que leva o usuário a freqüentar a praça João
Francisco de Carvalho (Conjunto de essência geral: Uso e Identificação das
Pg. 86
praças).
Tabela 6 - Qual é a função da praça? (Conjunto de essência geral:
Pg. 86
Funções da praça João Francisco de Carvalho).
Tabela 7 - Qual é a função da praça? (Conjunto de essência geral:
Pg. 87
Funções da praça Santo Antônio).
Tabela 8 - Palavras que vêm à mente referentes à Praça João
Francisco de Carvalho (Conjunto de essência geral: Funções da praça).
Pg. 87
Tabela 9 - Palavras que vêm à mente referentes à Praça Santo
Antônio (Conjunto de essência geral: Funções da praça).
Pg. 87
Tabela 10 - Quem deve cuidar da praça João Francisco de
Carvalho? (Conjunto de essência geral: Administração).
Pg. 90
ix
Tabela 11 - Quem deve cuidar da praça Santo Antônio? (Conjunto de
Pg. 90
essência geral: Administração).
Tabela 12 - Como o usuário cuidaria da praça João Francisco de
Carvalho (Conjunto de essência geral: Administração).
Pg. 91
Tabela 13 - Como o usuário cuidaria da praça Santo Antônio
Pg. 91
(Conjunto de essência geral: Administração).
Tabela 14 - Nível de escolaridade dos usuários da praça João
Francisco de Carvalho.
Pg. 102
Tabela 15 - Nível de escolaridade dos usuários da praça Santo
Antônio.
Pg. 103
Tabela 16 - Freqüência de usuários na praça João Francisco de
Carvalho (Conjunto de essência geral: Identificação e uso das praças).
Pg. 104
Tabela 17 - Tempo de permanência dos usuários na praça João
Francisco de Carvalho (Conjunto de essência geral: Identificação e uso das
Pg. 104
praças).
Tabela 18 - Tempo de permanência dos usuários na praça Santo
Antônio (Conjunto de essência geral: Identificação e uso das praças).
x
Pg. 105
LISTA DE ANEXOS
Anexo 1 – Parecer Consubstanciado – Comitê de Ética em
Pesquisa (CEP/ UESC)
Pg. 123
Anexo 2 – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
Pg. 124
Anexo 3 – Questionário - Perfil sócio-econômico-cultural dos
moradores do entorno imediato e usuários das praças João
Francisco de Carvalho e Santo Antônio.
Pg. 125
Anexo 4 – Roteiro de Entrevista semi-estruturada
Pg. 126
xi
LISTA DE ABREVIATURAS E SÍMBOLOS
CEPLAC - Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira
CEP – Comitê de Ética em Pesquisa
PMI - Prefeitura Municipal de Ilhéus
TCLE – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
UESC - Universidade Estadual de Santa Cruz
UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
xii
RESUMO
Ao longo da história a praça vem assumindo feições diversas frente a uma
sociedade em constante mutação, constituindo-se em foco ou síntese de uma
cidade ou bairro, sobre os quais sua influência se irradia e dos quais se torna um
símbolo. Por esse motivo tornou-se alvo constante de propaganda e veiculação
política, ocasionando intervenções que resultam em espaços que não condizem com
os anseios de seus usuários. Intervir num espaço público como este é uma tarefa
complexa, pois o mesmo não é apenas físico, no qual o indivíduo se movimenta e o
sente à parte de si, mas sim constantemente experienciado e (re) construído pelas
relações sociais. Isso exige do profissional arquiteto e urbanista, determinados
procedimentos de estudo e análise que enfoquem o espaço enquanto vivenciado,
percebido. Sendo assim, o presente trabalho buscou discutir a intervenção em
espaços públicos urbanos, mais especificamente a revitalização, tomando como
estudo de caso as praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio, Salobrinho,
Ilhéus, Bahia, apontando a reconstituição da percepção ambiental de seus usuários
e moradores do entorno imediato como ferramenta imprescindível ao processo. Este
estudo baseou-se no aporte teórico-metodológico da Fenomenologia, no intuito de
abordar tais praças como são experienciadas. Através da reconstituição da
percepção ambiental foi possível identificar os elementos signíficos que influenciam
o vivenciar destes espaços e verificar se os mesmos necessitam ou não ser
revitalizados. Como produto final, com base nos resultados obtidos, foram propostos
os projetos preliminares de revitalização para ambas as praças.
Palavras-chave: Percepção ambiental, Fenomenologia, Praças.
xiii
ABSTRACT
Across the history, with the growth evolution of society, there have been significant
changes concerning the role of the puclic square in urban life, for this reason, this
urban space can be considered a focus or synthesis of cities or neighborhoods,
from it’s influence irradiates and which can become a symbol. This great visibility
open importance within the city transforming it an object of political dissemination
and propaganda, promoting changes that do not consider the space users’s real
necessities and desires. Alter this kind of urban space is a complex task, because
the process request from the urban planner to understand that the public square is
not only a fisical, material, space where man can walks and senses it apart from
him, but also a space constantly experienced and rebuilt by social relationships.
This will request studies and analysis under an environmental perception
perpspective. So, this research had as principal goal, to study how users from
public squares João Francisco de Carvalho and Santo Antonio, bove of them
located in Salobrinho neighborhood, Ilheus, Bahia, Brasil, were experiencing and
living it. This research makes use of theoretical and methodological underpinnings
from phenomenology to acess space. The results permited to identify fisical and
symbolical elements which inlfuence the way how these spaces have been
experienced, and to verify if they need to be revitalized or not. As final product,
based upon the results, it was proposed a preliminar revitalization urban design for
these publics squares.
Key Words: Environmental Perception, Phenomenology, Public Square.
xiv
SUMÁRIO
Agradecimentos
IV
Lista de figuras
VI
Lista de quadros
VIII
Lista de tabelas
IX
Lista de anexos
XI
Lista de abreviaturas e símbolos
XII
Resumo
XIII
Abstract
XIV
1. INTRODUÇÃO
18
1.1. Objetivo Geral
21
1.2. Objetivos Específicos
21
2. FUNDAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS
22
2.1. Espaço urbano - Espaço Público - Praça
22
2.2. A Praça como elemento da cidade
27
2.3. Vivenciando e experienciando o espaço
36
2.4. Renovar, reabilitar ou requalificar o espaço?
44
xv
3. LOCAL E OBJETO DE ESTUDO
49
3.1. A escolha da praça como objeto de estudo
49
3.2. A cidade de Ilhéus – breve relato
51
3.3. Caracterização estrutural-urbana do Salobrinho
54
3.4. Histórico de ocupação do bairro
56
3.5. Caracterização estrutural-urbana das praças João Francisco
de Carvalho e Santo Antônio
59
4. METODOLOGIA
64
4.1. Amostra
69
4.2. Métodos de coleta de dados
71
4.2.1. Pesquisa bibliográfica
71
4.2.2. Roteiros de observação como observador participante
72
4.2.3. Roteiro de entrevista semi-estruturada e mapas mentais
74
4.3. Métodos de análise dos dados
76
4.3.1. Método de análise do roteiro de entrevista semi-estruturada
76
4.3.2. Método de análise dos mapas mentais
78
5. RESULTADOS E DISCUSSÕES
81
5.1. Os Conjuntos de Essências Específicos
81
5.2. Imagens imediatas do espaço vivido – mapas mentais
92
5.3. Outras variáveis que influenciam a percepção das praças
João Francisco de Carvalho e Santo Antônio.
102
5.4. Concluindo a análise
105
5.5. Renovar, reabilitar ou requalificar as praças João Francisco
de Carvalho e Santo Antônio?
106
xvi
6. REQUALIFICANDO AS PRAÇAS JOÃO FRANCISCO DE
CARVALHO E SANTO ANTÔNIO
108
6.1. Levantamento espacial
108
6.2. Representação gráfica
110
6.3. Elaboração dos projetos
111
6.3.1. Projeto preliminar de requalificação da praça João
Francisco de Carvalho
112
6.3.2. Projeto preliminar de requalificação da praça Santo Antônio
113
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
115
8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
117
9. ANEXOS
122
xvii
1. INTRODUÇÃO
Ao longo da história o ambiente construído praça vem assumindo feições
diversas frente uma sociedade em constante mutação. Foi espaço para a democracia
direta na Ágora Grega; o adro da igreja, mercado, largo e o terreiro no período colonial;
os jardins dos grandes palácios europeus no século XVIII; foi elemento para
transformação urbanística e embelezamento das cidades no final do século XIX, e palco
para manifestações no século XX.
Atualmente, este ambiente construído pode ser definido como um espaço social,
que possibilita uma integração voluntária à vida de agrupamentos recreativos sociais e
culturais; simbólico, exercendo importante papel na identidade do bairro ou da cidade;
e, do ponto de vista ecológico, imprescindível para a qualidade do meio ambiente
urbano, pois sua configuração paisagística contribui para a melhoria da qualidade do ar,
ameniza a impermeabilização do solo e modera o microclima, reduzindo as ilhas de
calor.
Em virtude da magnitude desse espaço público que condensa e representa
aspectos tão importantes para a sociedade como, lazer, convívio social, simbolismo e
qualidade de vida, a praça tornou-se um objeto para a veiculação política e
propaganda. Conseqüentemente, as concepções de novas praças ou revitalizações
naquelas já existentes são norteadas por ditames políticos, que resultam em espaços
que não atendem as necessidades dos seus usuários, nem se inserem na paisagem de
18
forma harmônica. As propostas, na maioria das vezes, não atentam para o potencial da
área, anseios da população, mobiliário adequado, inserção na malha urbana,
localização, distribuição e características do entorno imediato.
É nesse contexto que se inserem os objetos de estudo da presente pesquisa, as
praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio, ambas localizadas no bairro
Salobrinho, em Ilhéus, Bahia.
Em breve relato; o Salobrinho é um bairro que não apresenta contigüidade ao
espaço densamente construído da cidade de Ilhéus. Possui ocupação desordenada e é
desprovido de infraestrutura básica e serviços urbanos. Dentre os poucos espaços do
bairro, configurados para lazer e convívio social, os principais são as praças João
Francisco de Carvalho e Santo Antônio. A primeira foi construída em 1989, fruto de
campanhas para as eleições municipais, e passa por “revitalizações”, em todos
períodos eleitorais. As modificações variam desde a quebra ou pavimentação do piso, à
retirada e reconstrução dos canteiros. Entretanto, tais “reformas” não contemplam as
verdadeiras necessidades e anseios dos seus usuários. A praça Santo Antônio, assim
nomeada na década de 1970, também é alvo de veiculação política, mas nunca sofreu
qualquer intervenção permanecendo com infraestrutura extremamente precária,
desprovida de mobiliário urbano, e apresentando poucas árvores para amenizar o
intenso calor tropical.
Intervir nestas praças é uma tarefa complexa, uma vez que as gratificações
afetivas que trazem a cada um de seus usuários geram microrritualizações, repetição
de gestos e hábitos do cotidiano, que contribuem pouco a pouco para a construção e
fortalecimento de sentimentos para com as mesmas. Sendo assim, antes do processo
de intervenção, é necessário procedimentos de estudo e análise que valorizem a soma
19
dessas gratificações afetivas, próprias a cada um dos usuários envolvidos. É preciso
considerar tais espaços como são vividos e percebidos. E ao considerar o espaço tal
como é vivido, reconstituindo a percepção daqueles que dele usufruem, então
questionar: será oportuno, suficiente e necessário revitalizá-los?
Sendo assim, a presente pesquisa objetivou reconstituir a percepção ambiental
dos usuários e moradores do entorno imediato às praças João Francisco de Carvalho e
Santo Antônio, buscando desvendar as relações espaciais simbólicas, impressas pela
forma de sentir, pensar e agir, numa abordagem destas praças tais como são vividas e,
com base nos resultados obtidos, se necessário, esboçar os projetos de revitalização
para estes espaços.
O estudo da percepção ambiental fundamentou-se na abordagem teóricometodológica da Fenomenologia, no intuito de desvendar o espaço experienciado sem
comprometer sua riqueza e complexidade de significados.
20
1.1.
Objetivo Geral
Reconstituir a percepção ambiental dos usuários e moradores do entorno
imediato às praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio, ambas situadas no
bairro Salobrinho, Ilhéus, Bahia e, com base nos resultados obtidos, se necessário,
esboçar um projeto de intervenção urbana - revitalização para esses espaços.
1.2.
Objetivos Específicos
1. Levantar a história da configuração espacial do bairro e das praças João
Francisco de Carvalho e Santo Antônio;
2. Identificar por quem, quando, e como estas praças são usadas; as formas de
interação entre os diferentes agentes produtores das mesmas e como se dá o convívio
entre os diferentes segmentos sociais que as utilizam;
3. Investigar como os usuários e moradores do entorno imediato a estas praças
as experienciam;
4. Esboçar um projeto de revitalização, se necessário, tendo como base os
resultados obtidos com a pesquisa.
21
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA
2.1. Espaço urbano
Espaço Público
Praça
As concepções de novas praças ou intervenções naquelas já existentes vêm
sendo marcadas por ditames políticos, resultando em espaços cuja configuração, não
atende as necessidades daqueles interessados em sua existência, os usuários. Tais
intervenções são mal sucedidas, e a reflexão relativa às transformações espaciais
decorrentes desses processos, exige do arquiteto e urbanista uma reavaliação
conceitual partindo de concepções referentes à cidade, e aos espaços urbano e público
nesse contexto.
O que é o “urbano”? Urbano seria o oposto do rural? Um aglomerado de estruturas
diversas, edificações e vias? O urbano é a cidade?
De fato, não é possível pensar o urbano sem resgatar da memória imagens
referentes às cidades. De acordo com Monte-Mór (2006, p. 06), os adjetivos “urbano” e
“rural”, referem-se respectivamente à cidade e ao campo1, e dizem respeito “a uma
gama de relações culturais, sócio-econômicas e espaciais entre formas e processos
1
Nos dias atuais, quase já não é possível perceber com clareza as fronteiras entre o urbano e o rural.
Onde começa o urbano? Onde termina o rural? Em termos legais, no Brasil, as cidades são definidas
pelos perímetros urbanos das sedes municipais, que incluem os perímetros das vilas e dos distritos
municipais. Contudo, as áreas urbanizadas englobam amplas regiões cincunvizinhas às cidades que se
estendem sobre territórios limítrofes e distantes em um processo expansivo iniciado no século XIX e
acentuado no século XX (MONTE-MÓR, 2006).
22
derivados da cidade e do campo”. Ainda segundo o autor, a cidade e o campo, são
elementos sócio-espaciais opostos e complementares, pois constituem a centralidade e
a periferia do poder na organização social. As cidades garantem a diversidade, a escala
da vida social, a competição e a cooperação. Os campos garantem diversidades dentro
das homogeneidades extensivas e escalas de produção. Também contém processos
de competição e cooperação, mesmo que gerenciados pelas cidades, limitados pela
auto-suficiência.
Para Santos Filho (2004) o urbano é a espacialização das relações sociais; uma
atribuição do social contemporâneo, aglutinador e denso. Lacaze (1993), considera o
urbano um local natural, muitas vezes predestinado como etapa dos intinerários de
transporte, mas resultante de uma dimensão política. É local construído, onde cada
etapa de seu desenvolvimento produz novos bairros, transforma as estruturas
existentes, cria ou reorganiza os monumentos simbólicos que detêm sua identidade.
Também é espaço econômico, privilegiado de produção, de troca, de prestações de
serviço e consumo. Constitui-se num espaço social de grande intensidade, capaz de
dinamizar as interações entre grupos até o conflito, conferindo riqueza de significado
aos lugares. E é espaço político e administrativo particular, que requer modos de
gestão específicos.
Segundo Oliva (2001), o urbano é um espaço (re) produzido pelas relações
sociais. De acordo com Leite (2002), todo espaço urbano é antes uma propriedade
pública. Nele podem ser instituídas práticas sociais que venham a caracterizar a
dimensão propriamente política dos espaços públicos.
23
Quando as ações atribuem sentidos de lugar e pertencimento a certos espaços
urbanos, e, de outro modo, essas espacialidades incidem igualmente na
construção de sentidos para as ações, os espaços urbanos podem se constituir
como espaços públicos: locais onde as diferenças se publicizam e se
confrontam politicamente (LEITE, 2002, p. 02).
O espaço público2 pode ser entendido então como uma categoria a partir da
interface entre os conceitos de esfera pública – categoria ação – e de espaço urbano –
referência espacial. O espaço público se constitui no espaço urbano, mas ele está além
da rua, como uma dimensão sócio-espacial da vida urbana, caracterizada pelas ações
que atribuem sentidos a certos espaços da cidade e são por eles influenciadas.
Segundo Santos Filho (2004), o espaço público refere-se ao local do debate e da
ação3. Trata-se de uma base formal para lidar com o movimento de convivência entre o
consenso e o conflito. Também se constitui num espaço simbólico e centro do
funcionamento democrático. Para o autor o espaço público se insere no território
coletivo, juntamente com o espaço comum e o espaço político. O espaço comum4 é
simbolizado pelas trocas comerciais. É simultaneamente físico, definido por um
território, e simbólico, quando definido por redes de intercâmbio. É o lugar de troca e diz
respeito à circulação e à expressão. O espaço político5 é o lugar da decisão e da ação,
tem a ver com os limites territoriais sobre os quais se exercem a soberania e a
2
Numa conceituação geral, um espaço público é considerado como aquele que, dentro do território
urbano tradicional, seja de uso comum e de posse coletiva - pertencente ao poder público (SANTOS
FILHO, 2004). A palavra público apareceu no século XIV, advinda do latim publicus que significa à todos.
Público se refere a tornar público, para publicar do latim publicare o que pressupõe uma ampliação do
espaço comum e a atribuição de um valor normativo àquilo que é acessível a todos (WOLTON, 2007).
3
A idéia de que as cidades possuem uma esfera pública, pertencente e usada pela coletividade e uma
esfera privada, cuja posse e manutenção respondem aos interesses de um ou mais indivíduos
específicos, é bastante antiga, mas virá a se definir plenamente com a urbanística grega durante a
Antigüidade Clássica. Para os gregos, a Ágora era o espaço que inserido na Polis, representava o
espírito público desejado pela coletividade da população e onde se exercia a cidadania (BENEVOLO,
1999).
4
A palavra comum apareceu no século IX e está ligada à idéia de comunal e de comunidade. Deriva do
latim communis (WOLTON, 2007).
5
A palavra política emergiu entre o século XIII e o século XIV, deriva do latim politicus e de acordo com
palavra grega politik refere-se à arte de gerir os assuntos da cidade (WOLTON, 2007).
24
autoridade. Ainda segundo o autor, o espaço público inicialmente foi apenas espaço
físico, afirmou-se e tornou-se simbólico a partir dos séculos XVI e XVII, com a
separação entre o sagrado e o temporal e a redefinição do privado. Adquiriu valor
normativo àquilo que é acessível a todos, uma passagem do comum, das trocas e
mercados,
ao
público,
onde
se
estabeleceu
o
princípio
de
liberdade
e,
conseqüentemente, o espaço da discussão e da deliberação, oferecendo condição para
o desenho de um espaço político.
E por fim, o que é a cidade?
A cidade é a forma concreta do urbano, experiência tátil, “espaço perceptivo
concreto e se refere à condição social pós-moderna, pois não se pode pensar o mundo
contemporâneo sem o urbano que é um universo simbólico, porque a forma espacial
pode ser manipulada de várias maneiras, produzindo vários significados” (SANTOS
FILHO, 2004, p. 05). É a espacialização da condição urbana, do público, é construção
coletiva que sintetiza, em espaço real, concreto, físico, resultante de uma experiência
perceptiva do espaço (HARVEY, 1980), o desenho do espaço público que pode ser
entendido como a cidade real.
As transformações na cidade real dependem das interações que ocorrem na
esfera social, ou seja, a forma como se articulam as relações e representações sociais
no espaço público interferem diretamente em seus desenhos urbanos. Por que? Porque
a interação entre a forma espacial, o significado simbólico e o comportamento espacial
são definidos pela experiência simbólica do espaço (HARVEY, 1992).
Com base neste fundamento fica claro porque espaços públicos, como as praças,
são constantes objetos de veiculação política e propaganda. Estes espaços são
25
abertos, amplos, moldados a partir e para permitir o convívio social; adquirindo grande
visibilidade dentro do contexto urbano e importância simbólica.
Segundo Robba e Macedo (2003), em anos que precedem as eleições municipais
é comum que as prefeituras invistam em reformas deste espaço público para chamar a
atenção do eleitor. Algumas propostas realmente trazem melhorias urgentes e
necessárias para as cidades, mas em alguns casos as praças são reformadas sem
necessidade. Muitas ainda funcionavam em pleno vigor e vitalidade e apenas
necessitavam de um programa de manutenção eficiente e constante.
Algumas intervenções são propostas de criação de novas praças, que em geral se
dão em áreas menos consolidadas e em bairros periféricos, no entanto os projetos são
simples, de baixo orçamento, formalmente mais modestos e executados sem considerar
os anseios das comunidades locais onde estão sendo implantados.
Intervenções em espaços públicos, desnecessárias e incoerentes com a
percepção de seus usuários, aliadas à falta de manutenção sistemática, compromete
sua existência (ROBBA e MACEDO, 2003). Muitas vezes a ausência de usuários em
uma praça é conseqüência da falta de manutenção deste espaço. Sem usuários o
espaço público perde seu significado, já que o mesmo não é apenas um espaço
constituído de formas tridimensionais, mas acima de tudo é um espaço (re) produzido
constantemente pelas relações sociais, e pelas vivências e experiências de seus
usuários.
Um espaço público, como a praça, a cada momento se redefine na história e se
reveste de manifestações próprias, assumindo formas espaciais diversas (SANTOS
FILHO, 2004). Ela se instaura no urbano e se traduz como um elemento imprescindível
para a cidade.
26
2.2. A praça como elemento da cidade
A praça – espaço público - é a espacialização da arena, onde as relações entre os
homens são discutidas e “onde se estabelece a passagem do abstrato - a discussão e a
reflexão coletiva, a cidade ideal, pensada – para a cidade real” (SANTOS FILHO, 2004,
p. 07). Também pode ser considerada ponto nodal, “foco ou síntese de um bairro, sobre
o qual sua influência se irradia e do qual é símbolo” (LYNCH, 1980, p. 53). Por isso
caracteriza-se como um lugar onde as articulações entre público e privado se
apresentam de forma peculiar e como outros espaços abertos dentro do contexto
urbano, possui várias funções simbólicas importantes, congregando indícios para a
percepção e discernimento das relações espaciais da cidade, dando um caráter à
mesma pela sua singularidade (GOMES, 1997).
Historicamente, as praças remontam do período greco-romano. A Ágora dos
gregos e o Fórum dos romanos foram os primeiros espaços urbanos intencionalmente
projetados para cumprirem o papel social que as praças desempenham nos dias atuais.
Ambos espaços possuíam aspecto simbólico extremamente importante na cultura de
cada um desses povos, pois materializavam a idéia de público. A Ágora grega se
delimitava por mercados e demais edifícios; era o espaço no qual a limitação da esfera
pública urbana estava claramente decidida. Lá se praticava a democracia direta, em
que as idéias dos cidadãos eram debatidas e discutidas. O Fórum romano representava
a monumentalidade do Estado, em que o indivíduo que por ele passasse estava
espacialmente subordinado aos prédios públicos que o configuravam. O espaço de
27
discussão não era uma “praça” pública e aberta como a Ágora, tratava-se de um
espaço fechado de edifícios, com acesso mais restrito (BENEVOLO, 1999).
De acordo com De Angelis, Castro e Neto (2004), posteriormente, as praças que
se formaram, nas cidades européias normalmente estavam relacionadas com a
configuração natural de um espaço livre a partir dos planos de edifícios que foram
sendo construídos ao redor de construções importantes, como igrejas e prédios
públicos. Constituíam-se em espaços desordenados que serviam de mercado, para
espetacularização do cotidiano, atividades então profanas como jogos, festas e teatro,
ou exercício da justiça.
Foi somente a partir do Renascimento que a praça converteu-se em um dos
principais elementos urbanísticos para transformação e embelezamento das cidades, se
inserindo em definitivo na estrutura urbana.
A praça do século XIX tornou-se um ícone social do espaço urbano, representada
por meio de figuras e elementos significativos como canteiros, fontes, quiosques,
caminhos e coretos, permitindo não só o passeio como a contemplação da Natureza.
Segundo Robba e Macedo (2003), no início do século XX, o lazer contemplativo, o
passeio, e a convivência permaneceram como forma de utilização intrínseca a este
espaço, e no decorrer dos anos foi sendo adaptado à nova dinâmica da cidade,
incorporando outras atividades como o lazer cultural, o lazer esportivo, e a recreação
infantil.
Ainda segundo os autores, atualmente, a praça é representativa de uma nova
conjuntura urbana na qual muitas formas de expressão são aceitas. Não há regras ou
dogmas, o que leva a uma fértil e vigorosa (re) produção de espaços livres urbanos. Há
novas tecnologias construtivas e novos materiais vêm sendo explorados, abrindo um
28
leque de infinitas possibilidades. Os projetos caracterizam-se pelo restauro do velho e
novo uso; pela reconfiguração e mudanças estruturais; pela colagem decorativa;
irreverência, e pelo formalismo gráfico em contraposição à praça ajardinada do século
XIX. Além disso, o programa de uso é permissivo, aceitando novas interpretações,
incorporando formas de utilização mais consagradas, e adaptando-se às necessidades
urbanísticas da cidade do século XXI (ROBBA e MACEDO, 2003).
Algumas das principais tipologias de praças, ao longo da história, estão
sintetizadas no quadro 1.
29
QUADRO 1
As Praças ao longo da história
Ágora Grega
Fórum Romano
Praças Medievais
Praça Maior
Praça de Armas
Praça Renascentista
Praça Barroca
Praça Eclética
Praça Romântica
Praça Moderna
Constituía-se no centro dinâmico da cidade grega. Era o local de reunião dos cidadãos. Um espaço aberto, foco de composição urbanística
onde se fazia uso da palavra, falava-se de política e se formavam as correntes de opinião.
Diferencia-se da Ágora por seu traçado complexo, desordenado, em que se misturam os edifícios destinados à basílica, a praça central, o
mercado, os templos e o teatro, sem uma relação explícita entre eles.
Geralmente irregular, resultando de um vazio aberto na estrutura urbana. Era um espaço social, local do mercado e ponto de encontro político.
Também espaço para espetacularização do cotidiano e das relações sociais. Na praça medieval o privado é público. Evidencia-se também seu
caráter de centralidade simbólica, onde se destacam duas funções: 1. local de relação social; 2. sede institucional da comunidade, onde o
indivíduo se expõe aos olhos do outro. Exemplos de praças medievais: Piazza Del Campo, Siena/ Itália e Piazza Sordello, Mantova/ Itália.
Constituiu-se no elemento central do urbanismo das cidades hispânicas e hispano-americanas. Originou-se a partir do século XIII nos
mercados que se realizam fora do tecido urbano, nas zonas externas aos muros dos castelos. Ao longo do século XIV, a praça maior sofreu
uma evolução funcional convertendo-se num lugar de reuniões e contatos dos habitantes das cidades. No século XV, a praça maior passou a
ser utilizada como cenário para torneios, touradas, jogos, mercado semanal, representações teatrais e prática da justiça. Exemplos de praça
maior: Praça da cidade de Madrid/ Espanha, Praça da cidade de Segovia/ Espanha.
É considerada por diversos autores como uma variante da praça maior, pois apresenta morfologia similar (amplo espaço aberto) e pelo menos
um uso comum (mercado). Possuía duas formas distintas: 1. a praça urbana, que localizava-se no centro da cidade fortificada, de onde partiam
vias que levavam aos principais portões e pontos de defesa da poli; 2. um descampado, dentro ou fora dos muros das cidades fortificadas, esta
localiza-se próxima aos alojamentos militares e funcionava como local para exercícios, treinamentos e artes de guerra. Exemplo de praça de
guerra: praça de armas da cidade de Belém/ Pará, Brasil.
Caracterizou-se pelo enriquecimento de seu espaço através da introdução de elementos que proporcionavam perspectiva: pórticos, criando
visuais filtrantes; fontes, colunas, obeliscos, e pavimentação, acentuando seu caráter axiforme. Exemplo de praça renascentista: Piazza de San
Marco da cidade de Venezia/ Itália.
Está atrelada ao movimento Barroco que se distingue do Renascimento pela necessidade da direção e do movimento, onde a emoção,
causada pelo impacto cênico, comove e subjuga. A praça Barroca caracterizou-se pela imaginação, e tinha por finalidade persuadir e criar uma
nova realidade, monumental e “infinita”. Nesta concepção os espaços abertos são valorizados pela arquitetura, e o mercado dá lugar aos
jardins, árvores, bancos e pérgulas. Exemplo de praça barroca: Piazza de San Pietro da cidade de Roma/ Itália.
É marcada pelo modelo de praça ajardinada apresentando programa de atividades definido em três categorias: passeio, convivência social e
contemplação da natureza. Os principais elementos característicos deste espaço são: traçado em cruz e variações; área de estar com ponto
focal; passeio perimetral; canteiros geométricos; simetria; eixos; grande quantidade de áreas permeáveis; elementos como coretos, espelhos
d’água, estátuas, monumentos e fontes; vegetação arbustiva e forrações; vegetação arbórea plantada ao longo dos caminhos; utilização de
espécies exóticas européias; gramados e poda topiária. Exemplo de praça Eclética: Praça Paris na cidade do Rio de Janeiro/ Brasil.
Presente no contexto social e artístico da cidade que se industrializava do século XIX e também no começo do século XX. Essa praça é
marcada pelo traçado em linhas orgânicas e sinuosas; vegetação exuberante; e presença de equipamentos como grutas artificiais, malocas,
castelinhos e pontes imitando troncos de árvores. O programa de atividades, assim como na praça Eclética, era o passeio e contemplação da
Natureza. Exemplo de praça Romântica: Praça da República na cidade de São Paulo/ Brasil.
Tornou-se um elemento imprescindível à sadia qualidade do meio ambiente urbano. Constitui-se num espaço livre ajardinado, não
necessariamente submetido a alguma edificação de grande importância no contexto urbano como Igrejas, ou edifícios cívicos, e é projetado
para permitir o lazer contemplativo, o lazer cultural, o lazer esportivo e a recreação infantil. A praça moderna é baseada na estruturação formal
e funcional do espaço e é idealizada para a permanência e não para o simples caminhar dos transeuntes. Exemplo de praça Moderna: Praça
Vinícius de Moraes na cidade de São Paulo/ Brasil.
Fonte: DE ANGELIS 2000; ROBBA e MACEDO, 2003.
Organização: COSTA 2007
30
No Brasil, a praça tem sua gênese nas primeiras vilas e povoados coloniais.
Segundo Murilo Marx (apud: ROBBA e MACEDO, 2003), as cidades coloniais eram
fundadas a partir da doação de uma área de sesmaria para determinado santo, com a
conseqüente construção de uma capela e instituição de paróquia em seu louvor. O
concessionário da sesmaria outorgava à Igreja o direito sobre um pedaço de terra. A
capelania e seu outorgado, o padre ou sacerdote que respondia pela paróquia tinha o
direito de repartir a área doada e conceder pedaços de chão para quem o solicitasse,
iniciando assim, um assentamento urbano. O centro era destinado à capela e as áreas
onde surgiam o cemitério e o rossio. Havendo sobra, o espaço era retalhado em lotes
que por sua vez eram concedidos aos agregados da sesmaria, que pagavam o foro à
paróquia.
Em volta da capela eram construídos pouco a pouco o casario e as edificações
que compunham a freguesia, arraial ou vila e no centro era deixado um espaço livre, o
adro da Igreja. Tal espaço formava a praça (figura 1). À medida que o povoado crescia,
o adro da igreja se consolidava como um elo importante entre a comunidade e a
paróquia. Podia ser chamado de largo, terreiro ou rossio – a praça - espaço de
interação de todos os elementos da sociedade, abarcando os vários extratos sociais.
Ali a população da cidade colonial manifestava sua territorialidade, os fiéis
demonstravam sua fé, os poderosos, seu poder, e os pobres, sua pobreza. Era
um espaço polivalente palco de muitas manifestações dos costumes e hábitos
da população, lugar de articulação entre os diversos estratos da sociedade
colonial. (ROBBA e MACEDO, 2003, p. 22).
31
A praça6 colonial podia ser usada como mercado, área de manifestação de cunho
militar e político, área de recreação e de comércio.
De acordo com Robba e Macedo (2003), os jardins foram inseridos no final do
século XIX e início do século XX. As praças mais importantes passaram a ser ornadas
com canteiros de árvores e flores ornamentais. As praças coloniais mais antigas e
tradicionais receberam vegetação e tratamento de jardim, o que ocasionou a perda de
peculiaridades como largo, pátio e terreiro.
Figura 1. Adro da igreja no período colonial.
Fonte: Robba e Macedo (2003, p.19)
6
Abrindo um parêntese, sob um enfoque antropológico, pode-se afirmar que a praça no Brasil tem suas
origens antes mesmo das praças coloniais, uma vez que os índios construíam suas ocas alinhadas
formando um círculo, cujo centro vazio, era o local das reuniões, festas e ritos (DE ANGELIS, CASTRO e
NETO, 2004).
32
Ainda segundo os autores, nesse período surgiu uma nova tipologia urbana, a
praça ajardinada, símbolo da transição do modelo de urbanização colonial para um
modelo de cidade moderna, bela, higiênica e pitoresca. Uma área destinada à
contemplação da natureza e ao descanso, às atividades de recreação, convivência da
população e passeio. A cidade moderna não mais comportava padrões urbanísticos
ecléticos. O espaço urbano precisava ser planejado de forma funcional para atender
necessidades como habitação, trabalho, lazer e recreação.
Nos anos a partir de 1940 os espaços livres nas cidades brasileiras passaram a
ser concebidos de acordo com seu programa de uso, englobando atividades esportivas
e recreação infantil. Na década de 1970, com a transformação de algumas cidades
brasileiras em metrópoles, como Rio de Janeiro e São Paulo, tornou-se necessária a
reconstrução e ampliação da infra-estrutura urbana, principalmente quanto ao
transporte, habitação e lazer. Naquele momento, observou-se o adensamento das
áreas centrais e a expansão dos limites periféricos da malha urbana, nesse contexto, os
espaços públicos reafirmaram-se como indispensável opção de lazer para as cidades.
As praças, então, espalharam-se e espalham-se até os dias atuais, por todos os
bairros, como elementos necessários para a manutenção da qualidade de vida na
cidade.
Sendo assim, em função de sua trajetória histórica as praças podem ser
conceituadas, atualmente, como: “espaços livres públicos urbanos destinados ao lazer,
ao convívio da população, acessíveis aos cidadãos e livres de veículos” (ROBBA e
MACEDO, 2003, p. 17). E possui valores ambientais, funcionais, estéticos e simbólicos:
-Valores ambientais: contribui para diminuir a impermeabilização do solo e
equilibrar a temperatura, reduzindo as ilhas de calor e a incidência solar (XIAO e
33
MCPHERSON, 2003; MCPHERSON e SIMPSON, 2000; SIMPSON e MACPHERSON,
1996; WOLF, 1998).
-Valores funcionais e sociais: constituem-se numa das mais importantes opções
de lazer urbano, pois propiciam o convívio entre as pessoas, recreação, divertimento e
entretenimento, livre participação social, e uma integração voluntária à vida de
agrupamentos recreativos, culturais e sociais, incrementando a cultura popular
(MACHADO, 1993).
-Valores estéticos e simbólicos: as praças são espaços simbolicamente
importantes, pois se tornam objetos referenciais e cênicos na paisagem da cidade,
exercendo importante papel na identidade do bairro ou da rua. São ainda objeto de
embelezamento urbano, resgatando a imagem da natureza na cidade e podem ser
associados a oásis em meio à urbanização maciça (ROBBA e MACEDO, 2003).
Além de seus valores, cabe salientar suas diferentes classificações, na maioria,
referentes às formas como esta se insere na malha urbana (quadro 2).
34
QUADRO 2
Classificação das praças
Praça jardim
Praça seca
Praça azul
Praça amarela
históricos
ou Praças nas quais a água possui papel Praias em geral
Quanto ao sentido da Espaços nos quais a Largos
da espaços que suportam fundamental. Belvederes e jardins de
palavra praça (ROBBA e contemplação
formação
vegetal
e intensa
circulação
de várzea possuem tal característica.
MACEDO, 2003).
circulação
são pedestres.
privilegiados.
Praça radial
Praça em leque
Praça de junção
Praça
Praça de junção axial
Praça triangular
tangencial
quadrangular e ou de atravessamento
retangular
direto
Quanto às vias públicas
Quando
diversas
vias
São
consideradas
uma
São
as
que
permitem
São
fruto
do
A
intersecção
ortogonal São resultado da
como
elemento
confluem
simetricamente
parte
menor
da
anterior,
um
circulação
cruzamento
de
4
de
duas
vias
propicia
o interseção de 3 vias.
estruturador (RIGOTTI,
ou não, a um único foco onde a confluência em um giratória, a partir de vias, sendo 2 a 2 aparecimento
desse
1956).
no centro de um amplo ponto é limitada a poucas uma única via que faz paralelas entre si. arquétipo.
espaço.
vias que partem em raios a
circulação
da
de um único setor.
mesma.
Praça de descanso
Praça de circulação
Quanto à tipologia ou
Praça de estacionamento
Praças de mercado
arquétipo
(RIGOTTI,
Praças de estação
Praças de igreja e palácios
1956).
Praça para edifícios públicos
Praças de reuniões
Praças monumentais
Praças com função recreativa
Praças com função de circulação
Praças de significação Praças de significação
visual
simbólica
Caracterizada por ser um Aquela
da
qual
as Aquela
que
se
reconhece
pelo Aquela que devido à sua localização,
marco
urbano
de
fácil
pessoas
não
recordam
desenvolvimento
de
atividades
de converte-se em lugar de passagem obrigatória
Quanto às categorias
recordação.
É
quase
por
si,
mas
pelo
entretenimento.
de veículos e pedestres.
(MATAS COLOM et al,
sempre
de
desenho monumento ou edificação
1983).
monumental
e
se geralmente pública.
relaciona
com
algum
acontecimento
de
importância nacional.
Fonte: DE ANGELIS, CASTRO e NETO, 2004, p. 64-67.
Organização: COSTA 2007.
35
A praça, por ser um importante elemento simbólico da cidade, tem sido objeto de
interesse dos agentes da transformação urbana, tanto por parte do poder público,
quanto pelo mercado imobiliário, ocasionando processos de intervenção geralmente
pautados em parâmetros urbanísticos que consideram o espaço apenas como físico,
separado de quem o usufrui.
Entretanto ao abordar o espaço enquanto vivido, torna-se possível identificar a
presença ou ausência das gratificações afetivas que o mesmo pode trazer a cada um
de seus usuários, considerando na realidade das percepções e da vida psíquica
pessoal, desvendando-os enquanto experienciados, possibilitado assim, propostas de
intervenções mais condizentes com as necessidades e aspirações de seus usuários.
2.3. Vivendo e experienciando o espaço
Desvendar o espaço experienciado é uma tarefa complexa, pois o mundo vivido
não é absolutamente óbvio, e seus significados não se apresentam por si mesmos,
precisam ser descobertos. Schroeder (2002), afirma que o primeiro passo está na
interpretação do espaço a partir de suas representações cognitivas7 e significativas.
Segundo o autor, isso só é possível através da apreensão da vivência tal como é, e
uma das principais ferramentas para desempenhar tal tarefa é o estudo da percepção
ambiental.
7
Cognição – processo mental com o qual intermediamos nossa relação com o mundo conferindo
significados às informações estruturadas e selecionadas conforme nossos interesses (FERREIRA, 2005).
36
De acordo com Ferreira (2005), a percepção se constitui na forma mais
elementar de interação do homem com o mundo; seja através da visão, do tato, do
paladar ou olfato, o ser humano estabelece um conhecimento sensível do que o rodeia.
Para Moreira (2004), a percepção pode ser entendida como o processo pelo qual a
estimulação sensorial é transformada em experiência organizada. Como cada indivíduo
experiencia o mundo de maneira única, “há tantos mundos quantas forem as
percepções, pois cada um vê o seu entorno e mais além, a partir de referenciais,
informações e conhecimentos adquiridos ao longo da vida” (ROCHA, 2003, p. 41).
Segundo Ittelson (1978), a percepção não depende somente dos aspectos
físicos, interpessoais, e culturais do ambiente, mas também das necessidades, ações,
motivos e processos cognitivos de quem o experiencia. Dessa forma, é a percepção
que determina a forma do indivíduo ver, interpretar e interferir em seu meio.
A primeira instituição a propor o estudo da percepção ambiental, como
ferramenta para apreender o espaço tal como é vivido, experienciado, foi a UNESCO
num programa intitulado “L homme et la biosphere” – “o homem e a biosfera” (AMORIM
FILHO, 1999). O objetivo foi reconstituir a percepção dos moradores locais em relação
às áreas protegidas – tanto no contexto urbano: parques urbanos, jardins botânicos;
como no contexto natural: remanescentes de matas nativas, áreas de proteção
ambiental - uma vez que, em muitos casos, estes não concordavam, ou não eram
consultados, sobre a escolha de uso dos espaços da sua vida cotidiana. A intenção foi
tornar o processo participativo, no sentido de levar em conta não só a percepção dos
tomadores de decisão, mas acima de tudo as necessidades e aspirações daqueles que
vivenciam estes espaços cotidianamente.
37
Atualmente, o estudo da percepção ambiental vem auxiliando na compreensão
da relação homem/ natureza, homem/ ambiente construído, e no processo de gestão e
planejamento participativo8 em diversos lugares, com o objetivo de promover a melhoria
da qualidade de vida de seus habitantes.
Schroeder (1996), em parceria com o Otawa National Forest, estudou como as
pessoas experienciavam e estavam emocionalmente relacionadas ao Black River
situado ao norte de Michigan, Estados Unidos, e como estas experiências estavam
influenciando a qualidade de vida destas pessoas.
Também no estado de Michigan, Estados Unidos, Ryan (2005), estudou a
relação entre apego ao lugar e ambiente experienciado em três áreas naturais urbanas.
Os resultados mostraram que o grau de experiência do indivíduo em relação ao lugar
influencia diretamente no apego para com o mesmo. De acordo com o autor as pessoas
experienciam áreas naturais urbanas através de uma variedade de atividades e
oportunidades. Essas diferentes experiências podem levar a atitudes discrepantes de
uso e gerenciamento das mesmas. Algumas atitudes ocasionam modificações na
paisagem que podem ser percebidas tanto como positivas quanto indesejáveis. Dessa
forma, entender o apego que as pessoas têm para com esses espaços pode ser o
primeiro passo para compreender a raiz dessas controvérsias.
Ferreira (2005), buscou analisar o papel dos diferentes grupos sociais na gestão
ambiental em unidades de conservação a partir do estudo de suas percepções,
tomando como estudo de caso a Estação Ecológica de Juréia-Itatins, São Paulo. Este
8
De acordo com lacaze (1993, p. 58-59), o termo participativo foi incorporado ao urbanismo na década
de 1960, originando o Urbanismo Participativo/ Planejamento Urbano Participativo. Essa vertente baseiase no princípio fundamental de que somente o espaço tal como é vivido e percebido pelos habitantes
constitui-se no verdadeiro suporte da conduta urbanística.
38
estudo buscou verificar se os conflitos sociais decorrentes da proibição jurídica frente à
ocupação humana no interior de uma área natural protegida de uso restrito, estavam
sendo potencializados devido às diferentes percepções ambientais dos distintos grupos
sociais que atuam nesta unidade de conservação.
Silva (2002), estudou a percepção ambiental dos espaços urbanos preservados
no mundo, mais especificamente as áreas naturais urbanas, através de um apanhado
histórico acerca da concepção de natureza e da relação homem/ mundo natural,
abordando o conhecimento das percepções como um campo em descoberta que pode
determinar sentimentos, idéias, o imaginário, necessidades, expectativas e interpretação
da sociedade sobre a realidade dos fatos cotidianos e as relações que a envolve.
Kashiwagi e Kozel (2005), estudaram o processo de percepção dos espaços
marginalizados no urbano, tomando como estudo de caso a Favela do Parolin, Curitiba,
Paraná, visando investigar as causas dos constantes insucessos nos processos de
intervenção urbana nesses espaços marginais. Este estudo buscou compreender como
os moradores da Favela vivenciavam o espaço, contrapondo essa visão ao espaço
concebido da cidade legal.
Rocha (2003), estudou os signos e significados do centro da cidade de Itabuna,
Bahia, destacando a importância dos espaços geográficos para seus habitantes.
Espaços esses que representam um mundo em si mesmo, na percepção dos
moradores.
Machado (1993), estudou a praça da Liberdade em Belo Horizonte, Minas
Gerais, enfocando tal espaço como fenômeno experienciado pelos usuários. Este
estudo identificou as percepções, atitudes e valores envolvidos na interação
usuário/praça. Gomes (1997), estudou a percepção da praça enquanto ambiente
39
construído, salientando sua importância referencial e simbólica, imprescindível ao
discernimento das relações espaciais em uma cidade.
Tais estudos têm importantes implicações, uma vez que as ligações afetivas para
com o espaço experienciado e seus significados devem ser, imprescindivelmente
considerados, principalmente quando podem ser afetados ou modificados por aqueles
que não o vivenciam. Isso evidencia a importância do estudo da percepção ambiental
como instrumento de auxílio à gestão e planejamento para os espaços experienciados
cotidianamente pelo homem, sejam naturais ou pertencentes ao contexto urbano.
Com base em Chauí (1999, p. 120 - 125), a percepção ambiental pode ser
estudada segundo três concepções: Empirista, Intelectualista e Fenomenológica.
Para os empiristas, as sensações são respostas físico-fisiológicas a estímulos
externos que agem sobre os órgãos dos sentidos, sistema nervoso, e cérebro, de forma
pontual. Como cada sensação é independente das outras cabe à percepção ordená-las
- ambas são agentes passivos diante das atividades do campo exterior sobre o corpo.
Para os intelectualistas, sensação e percepção são fenômenos que estão
diretamente relacionados com a capacidade intelectual do sujeito do conhecimento – a
sensação só é processada e conduzida a uma percepção quando ocorre uma atividade
de entendimento do que se sente, quando se processa racionalmente, através do
pensamento, as sensações.
Tanto para os empiristas quanto para os intelectualistas, somatórias de
sensações, organizadas em percepções, sintetizam o objeto percebido.
40
Já a Fenomenologia9 do conhecimento considera que não há diferença entre
percepção e sensação, elas ocorrem concomitantemente - a percepção é uma
experiência dotada de significação. Segundo Ferreira (2005), o ser humano tem
percepções globais de uma estrutura ou formato, em que o real é descrito no ato do
sentido e da significação. Trata-se de um ato de comunicação que opera pelo
pensamento e pela percepção, estabelecendo uma interação entre aquilo que é
percebido e aquele que o percebe.
Para a Fenomenologia, a percepção é um modo de a consciência relacionar-se
com o mundo exterior pela mediação do corpo, considerando a realidade do ponto de
vista qualitativo, é uma vivência (CHAUÍ, 1999).
De acordo com Merleau – Ponty (1999, p. 279), sob enfoque fenomenológico, “a
percepção não se apresenta como um acontecimento no mundo ao qual se possa
aplicar, por exemplo, a teoria da causalidade, mas a cada momento como uma recriação ou uma re-constituição do mundo”. Pois a percepção está atrelada aos meios,
situações, através dos quais o indivíduo experiencia o ambiente, definindo diversos
real-worlds. E mais, o indivíduo nunca é passivo ao experienciá-lo, ele age e faz parte
da situação (ITTELSON, 1978).
9
O termo fenomenologia deriva de duas palavras de raiz grega: phainomenon – aquilo que se mostra a
partir de si mesmo e logos – ciência ou estudo. A palavra foi usada pela primeira vez pelo astrônomo,
matemático, físico e filósofo suíço-alemão Johann Heinrich Lambert (1728 – 1777) e, posteriormente,
com sentido diferente, por G. W. F. Hegel, na obra “Fenomenologia do Espírito” (original de 1807). Como
movimento filosófico e com o sentido e as ramificações que ostenta até o presente, a Fenomenologia
nasceu no início do século XX com a obra “Investigações Lógicas”, de Edmund Husserl (1859 – 1938)
publicado em dois volumes, o primeiro em 1900 e o segundo em 1901 (MOREIRA, 2004).
Os estudos da percepção ambiental, sob enfoque fenomenológico, estão atrelados ao pensamento
geográfico, incluídos no final da década de 1960, ao movimento denominado Geografia Humanística,
cuja orientação epistemológica reside na Fenomenologia Existencial. Seus estudos consideram as
noções de mundo vivido, de intencionalidade, valores e representações humanas no contato com o
espaço, contrapondo-se à quantificação, e sistematização da corrente positivista (HOLZER, 1997).
41
A presente pesquisa fundamentou-se no estudo da percepção sob o aporte
teórico-metodológico da Fenomenologia, pois de acordo com Relph (1979), a
Fenomenologia permite identificar e interpretar as estruturas da experiência vivida,
possibilitando compreender suas origens, desenvolvimento e transformação, sem
comprometer sua riqueza e complexidade de significados. Segundo o autor, a
Fenomenologia é um método de abordagem do espaço tal como é vivido.
A Fenomenologia, segundo Holzer (1997), é a ciência das essências, que se
refere à existência humana e como esta experiencia o mundo. De acordo com Moreira
(2004, p.63), a Fenomenologia “é o estudo ou a ciência do fenômeno, sendo que por
fenômeno, em sentido mais genérico, entende-se tudo o que aparece, que se
manifesta, ou se revela por si mesmo”.
Ainda segundo Moreira (2004), ao interpretar Moustakas (1994), quando este
afirma que o que aparece na consciência é o fenômeno, que a máxima da
fenomenologia é o retorno às próprias coisas e que num sentido amplo, é aquilo que
provê o ímpeto para a existência e para a geração de novo conhecimento, o fenômeno
está além da aparência das coisas físicas na consciência, englobando também a
aparência de algo intuído, julgado, imaginado, fantasiado, desejado, temido. O
fenômeno inclui todas as formas de estar consciente de algo, incluindo os sentimentos,
pensamentos, desejos e vontades.
Segundo Embree (1997), há cinco tendências dominantes e sucessivas, algumas
superpostas, na Fenomenologia do século XX: 1. A Fenomenologia descritiva que diz
respeito a uma abordagem reflexiva, evidencial tanto nos encontros como dos objetos
como encontrados, é considerada o começo da Fenomenologia; 2. A Fenomenologia
realista que enfatiza a busca pelas essências universais de vários tipos de assuntos,
42
incluindo ações humanas, os motivos e o self; 3. A Fenomenologia constitutiva que
incorpora o escopo da Fenomenologia e a filosofia das ciências naturais; 4. A
Fenomenologia existencial que diz respeito a ação, conflito, desejo, opressão, e 5. A
Fenomenologia hermenêutica que aborda a existência humana como interpretativa.
De acordo com Moreira (2004), todas essas tendências têm sua influência na
pesquisa empírica nas ciências humanas e sociais, incluindo disciplinas aplicadas
como: administração, educação, serviço social, arquitetura, cinema, literatura, música,
dentre outras. Segundo o autor (p.108) a Fenomenologia, enquanto método de
pesquisa, “enfoca fenômenos subjetivos da crença de que verdades essenciais acerca
da realidade são baseadas na experiência vivida”. Dessa forma é importante a
experiência tal como se apresenta, e não o que se possa pensar, ler ou dizer sobre ela.
Trata-se da Redução Fenomenológica ou Transcendental também conhecida
como epoqué que significa “suspensão de julgamento”. A epoqué é o método básico da
investigação fenomenológica, através dela são colocados entre parêntesis, juntamente
com quaisquer opiniões, todas as crenças acerca da existência externa dos objetos da
consciência. Assim, a consciência fenomenológica pode ater-se ao dado tal como se
apresenta e descrevê-lo em sua pureza, quer seja fornecido pela percepção, intuição,
recordação, imaginação ou julgamento. O que interessa é a experiência vivida no
mundo do dia-a-dia da pessoa.
Para Moreira (2004) na aplicação do método fenomenológico, o fenômeno é
algum tipo de experiência vivida, comum a diversas pessoas, que em suma constituirse-ão na essência dessa experiência. Sendo que por essência, entende-se “a maneira
característica do aparecer de um dado fenômeno. Aquilo que é inerente ao fenômeno,
sem o quê ele não é o mesmo fenômeno” (MOREIRA, 2004, p. 84).
43
Na presente pesquisa, é justamente a essência da experiência, impressa pela
forma que os usuários pensam, agem, sentem as praças João Francisco de Carvalho e
Santo Antônio que possibilita desvendar suas relações espaciais simbólicas e sua
configuração no espaço ideal. E a partir da configuração do espaço ideal, reconfigurar o
espaço real.
A intenção não é a criação de uma nova metodologia para a intervenção em
espaços públicos urbanos. Mas um convite a um exercício árduo e complexo, que tenha
como objetivo a concepção e/ ou revitalização de espaços que realmente leve em
consideração seu significado para aqueles que dele usufruem.
2.4. Renovar, reabilitar ou requalificar o espaço?
Até o momento, o presente trabalho vem discutindo a problemática dos
processos de intervenção urbana no espaço público convidando o profissional arquiteto
e urbanista a reflexões tanto conceituais quanto metodológicas. No entanto, é
pertinente discutir em que sentido termos como “intervenção urbana” e “revitalização”
estão sendo empregados.
No que se refere ao termo intervenção urbana, não se trata, pois, do utilizado
para designar os movimentos artísticos relacionados às intervenções visuais das
grandes metrópoles, mas, daquele associado às necessidades de reestruturação dos
espaços que compõem o contexto urbano. Dentro dessa concepção, segundo Simões
Júnior (1994), na linha do tempo, existem três momentos relacionados ao processo de
intervenção urbana nas cidades: o embelezamento urbano, que foi marcado pela
44
implementação do plano Haussmann em Paris em 1850; a renovação urbana,
marcada pela prevalência dos ideais modernistas inaugurados com a Carta de Atenas
em 1933; e atualmente a revitalização urbana, identificada por uma nova postura de
intervenção que em reação à renovação, busca referenciais mais humanos,
relacionando preservação e desenvolvimento.
De acordo com Guerra et al (2005, p. 25), o termo “revitalização urbana” pode
ser entendido como:
O desenvolvimento de estratégias e processos com caráter inclusivo e
integrador capaz de provocar iniciativas, projetos e atuações de caráter
transversal e setorial, sendo também um instrumento de gestão coletiva do
território com capacidade para utilizar como recursos próprios, programas
urbanos muito diferenciados, de cariz mais social, econômico e cultural.
Segundo o autor essa definição está atrelada tanto às políticas territoriais do final
do século XX - que não ficaram à margem do aumento da competitividade, da procura
por inovação e da mercantilização dos valores fundiários e imobiliários - quanto à
consolidação do conceito de Desenvolvimento Sustentável, que referente ao meio
ambiente urbano, aplica-se a todos os espaços de uso comum do povo ou de
importância simbólica, histórica e cultural.
De acordo com Andrade Silva (2004), do termo revitalização urbana deriva
outros termos: renovação, requalificação, reabilitação. Já para Guerra et al (2005), tais
termos integram-se numa intervenção mais vasta que é a revitalização.
Independente dos termos renovação, reabilitação, requalificação derivarem ou se
integrarem, ou não, ao termo revitalização, é importante trazê-los à tona, no sentido de
compreender o que se pretende com o presente trabalho. Ou seja, referente ao objetivo
proposto de esboço de um projeto de intervenção urbana – revitalização das praças
45
João Francisco de Carvalho e Santo Antônio (se necessária) elaborado com base nos
resultados obtidos com a pesquisa, a intenção seria renovar, reabilitar ou requalificar
estes espaços?
Segundo Guerra et al (2005), o conceito de renovação urbana está relacionado
à idéia de demolição do edificado e conseqüente substituição por uma nova construção,
geralmente com características morfológicas e tipológicas diferentes. Nesse processo, o
espaço urbano a ser renovado é considerado caduco, insalubre, sem valor patrimonial e
impeditivo a modernização. Essa idéia atinge as intervenções de larga escala, e
segundo o autor, implica numa mudança estrutural que abrange três dimensões
básicas: dimensão morfológica, referente à forma da cidade e da paisagem; dimensão
funcional refere-se à base econômica e às funções a ela associadas que podem
desaparecer ou ser substituídas; dimensão social trata da esfera sociológica, e é
geralmente pautada na substituição de residentes ou visitantes por outros com níveis
de rendimento, instrução e estilo de vida diferentes.
Já a reabilitação urbana readequa o tecido urbano degradado, dando ênfase ao
seu caráter. Enquanto a renovação urbana faz um tratamento extremo/ drástico do
tecido edificado, e conseqüentemente do tecido social e econômico, a reabilitação não
destrói o tecido, mas a readapta às novas situações de funcionalidade urbana.
De acordo com Guerra et al (2005), na reabilitação se fazem duas intervenções
complementares: a primeira no tecido edificado, implicando na reabilitação dos
edifícios, na demolição de alguns, no restauro de outros, na construção de novos, e
construção de equipamentos; e a segunda na paisagem urbana, na medida em que as
intervenções de reabilitação surgem associadas a atuações de melhoramento do
espaço público. Ainda segundo o autor, esta política de intervenção urbanística é
46
fundamentada nas preocupações com o patrimônio histórico-arquitetônico e com a
manutenção da população nos centros das cidades.
A Carta de Lisboa (1995), define reabilitação urbana como:
Uma estratégia de gestão urbana que procura requalificar a cidade existente
através de intervenções múltiplas destinadas a valorizar as potencialidades
sociais, econômicas e funcionais, a fim de melhorar a qualidade de vida das
populações residentes; isso exige o melhoramento das condições físicas do
parque construído pela sua reabilitação e instalação de equipamentos,
infraestruturas, espaços públicos, mantendo a identidade e as características
da área da cidade a que dizem respeito.
Em 2001, o Sexto Programa de Ação em Matéria do Meio Ambiente da
Comunidade Européia enfatizou que a promoção da reabilitação urbana em oposição à
construção em novos locais, é uma forma eficaz de impedir que a expansão urbana se
faça às custas do ambiente. Ou seja, para uma política de Desenvolvimento
Sustentável que assegure o bem estar da população em longo prazo, e defenda o
patrimônio para as futuras gerações, a reabilitação do espaço urbano é de extrema
importância.
Quanto a requalificação urbana, esta se constitui num instrumento para a
melhoria das condições de vida das populações, promovendo a construção ou
recuperação de equipamentos e infra-estruturas e a valorização do espaço público, com
medidas de dinamização social e econômica. Nesse processo Guerra et al (2005, p.21)
salienta que “a requalificação urbana procura a (re) introdução de qualidades urbanas,
de acessibilidade e centralidade a uma determinada área, provocando mudanças de
valor seja no nível econômico, cultural, paisagístico ou social”.
Com base no exposto, pode-se afirmar, de antemão, que a intenção não seria
renovar as praças, pois não se pretende destruir o que existe, ou substituí-las por uma
47
infraestrutura alienígena ao local, que não condiz com seus usuários. Entretanto,
também não se pode afirmar que estes espaços seriam somente reabilitados ou
somente requalificados, pois cabe lembrar que estas praças não estão sendo
abordadas apenas enquanto espaços físicos, mas acima de tudo como espaços
vividos, sendo assim, o processo de revitalização vai depender justamente de como
estas praças estão sendo vivenciadas.
48
3. O LOCAL E OS OBJETOS DE ESTUDO
3.1. A escolha da praça como objeto de estudo e mais especificamente das
praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio
A escolha da praça como objeto de estudo está vinculada ao Capítulo VI do
Título VIII, da Constituição Federal, que ao tratar do Meio Ambiente, proclama no art.
225 que “todos têm direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de
uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder
Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras
gerações”.
Segundo Arruda (2007), esse meio ambiente ecologicamente equilibrado a que
todos têm direito, deve ser entendido em todas dimensões, seja o ambiente natural,
urbano, cultural ou do trabalho. E no que se refere ao meio ambiente urbano que pode
ser definido “pelas relações dos homens com o espaço construído e com a natureza em
aglomerações de população e atividades humanas; pela percepção visual e atribuição
de significado às conformações e configurações da aglomeração; e pela apropriação e
utilização e ocupação do espaço construído e dos recursos naturais” (MOREIRA, 1999,
p. 04), a praça, como já abordado no decorrer deste trabalho, se apresenta com
relevantes valores não só simbólicos e sócio-culturais, mas também ambientais, sendo
imprescindível à sadia qualidade de vida nos aglomerados urbanos.
O art. 66, I, do Código Civil brasileiro de 2002, enfatiza ainda mais a relevância
da praça, como espaço construído que propicia um ambiente ecologicamente
49
equilibrado nos centros urbanos, ao defini-la como “bem de uso comum, a par de
contribuir para o embelezamento das cidades e auxiliarem nas condições sanitárias e
higiênicas dos núcleos urbanos, assim como promoverem o intercâmbio social e cultural
dos cidadãos”.
A escolha das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio se deu por
duas razões:
1a. A problemática referente aos processos de intervenção pelos quais vêm
sofrendo tais espaços, que além de serem ocasionados por ditames políticos, não
consideram os verdadeiros anseios e necessidades de seus usuários.
2a. Ambas estão inseridas no Salobrinho; um bairro que além de não apresentar
contigüidade ao espaço densamente construído da cidade de Ilhéus, possui uma
característica peculiar: abriga a Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC (Figura
2), cujo planejamento e infraestrutura contrastam com as precárias condições
urbanísticas do bairro.
Figura 2. Imagem Salobrinho/ UESC, 2005.
Fonte: ASCOM/ Universidade Estadual de Santa Cruz, 2007.
50
3.2. A cidade de Ilhéus – breve relato
A cidade de Ilhéus localiza-se na Mesorregião Sul da Bahia, situada a 462 Km de
Salvador (figura 3), na Microrregião Cacaueira (figura 4).
Vale
São-Franciscano
da Bahia
Centro Norte
Baiano
Nordeste
Baiano
Extremo Oeste
Baiano
Metropolitana
de Salvador
Centro Sul
Baiano
Sul
Baiano
0
50
100 km
Figura 3. Mesorregiões da Bahia com destaque
para a mesorregião Sul baiano.
Fonte: IBGE 2006, adaptado por ROCHA, 2006.
Figura 4. Microrregião Cacaueira (IlhéusItabuna) na mesorregião Sul baiano.
Fonte: IBGE 2006, adaptado por
ROCHA, 2006.
De acordo com Rocha (2006), essa microrregião possui clima tropical úmido,
sem estação seca, cujas temperaturas médias anuais variam entre as máximas
superiores a 24ºC e as mínimas de 21ºC. Os índices pluviométricos apresentam
gradiente decrescente com totais anuais superiores a 1.000mm e, em alguns locais,
atingindo 2.300mm. As chuvas ocorrem, normalmente, durante o ano todo, não
havendo, portanto, uma estação seca definida.
51
A vegetação original foi, predominantemente, a Mata Atlântica, hoje existente
apenas em alguns nichos, tendo sido degradada de forma sistemática desde a chegada
dos primeiros colonizadores europeus. Segundo Andrade (2003, apud: ROCHA 2006),
os solos regionais variam bastante, predominando os latossolos e podzólicos que
embora profundos, em sua maioria, são de baixa fertilidade natural, necessitando
correção. Os solos mais férteis são ocupados pela cacauicultura e os de menor
fertilidade são utilizados pela pecuária e pela silvicultura.
Urbanisticamente a cidade de Ilhéus (figura 5) apresenta conformação resultante
de um processo de ocupação que se estende ao longo de 474 anos.
Figura 5. Imagem da cidade de Ilhéus, 2005.
Fonte: Prefeitura do Campus/ Universidade Estadual de Santa Cruz, 2007.
Segundo Torezani (2005), no século XVI sua conformação era típica de um
vilarejo colonial – igreja matriz, adro e poucas casas da freguesia - cuja economia se
baseava na auto-suficiência proporcionada pela lavoura açucareira. Em virtude das
52
invasões francesas e holandesas durantes os séculos XVII e XVIII, a vila só começou a
se expandir a partir do século XIX quando passou à categoria de cidade. Mas foi no
século XX, com a epopéia do cacau, que a cidade realmente floresceu.
As décadas de 1920 e 1930 foram marcadas por luxo e riqueza advindas da
lavoura cacaueira, que se refletiram no primeiro traçado urbano planejado e na
construção de edifícios públicos como o Palácio do Paranaguá que abriga a Prefeitura
Municipal, até os dias atuais, a sede da Associação Comercial de Ilhéus, o Ilhéus Hotel,
o primeiro elevador no interior do Nordeste e o Teatro Municipal. O centro da cidade
expandiu-se numa ilha artificial formada pelos rios Almada, Cachoeira e Itacanoeira e
pelos canais jacaré e Itaípe, este último construído no século XIX para facilitar a
passagem das canoas que traziam cacau da região do rio Almada para o embarque no
porto.
Entretanto em virtude da crise da lavoura cacaueira, na década de 1980, a
economia da região ficou gravemente comprometida, ocasionando a falência de
diversos setores o que levou a um rápido empobrecimento da classe trabalhadora e da
classe média regional. Este contexto provocou um elevado êxodo rural - urbano
comprometendo a infraestrutura urbana como um todo. Além do inchaço central e
ocupação irregular, uma série de povoados, alguns afastados do espaço densamente
construído da cidade, começaram a surgir e os já existentes se tornarem ainda mais
aglomerados, como é o caso dos bairros Teotônio Vilela, Banco da Vitória e Salobrinho.
Atualmente, a cidade de Ilhéus apresenta aspecto desordenado e seus
parâmetros urbanísticos não mais atendem a conformação do espaço urbano. Há
diferenças discrepantes entre os bairros no que se refere à infraestrutura e serviços, e a
estagnação do setor de construção civil elevou a aquisição e locação de imóveis a
53
preços exorbitantes, contribuindo ainda mais para a expansão das ocupações
irregulares.
O
Plano
Diretor
Urbano,
aprovado
em
2006,
traz
um
novo
macrozoneamento, englobando todas as áreas subnormais, que já perfazem 70% da
cidade, e diretrizes para minimizar a degradação urbana e ambiental.
3.3. Caracterização estrutural-urbana do Salobrinho
O Salobrinho é um bairro que não apresenta contigüidade ao espaço
densamente construído da cidade de Ilhéus (figura 6). Localiza-se no Km 16 às
margens da rodovia Ilhéus/ Itabuna, nas coordenadas geográficas: 14º, 47’ e 56’’ S e
39º, 10’ e 36’’ W, e apresenta conformação espacial aparentemente desordenada
(figura 7). A infraestrutura urbanística é precária não havendo saneamento básico,
drenagem pluvial e coleta de lixo; também há poucas vias pavimentas, passeios para o
trânsito de pedestres, e pouca iluminação pública.
Como os parâmetros urbanísticos do município (dimensionamento padrão de
lotes, índices de ocupação, limites de afastamentos laterais, frontais e de fundo e
gabarito máximo permitido), não podem ser aplicados ao bairro, em virtude de seu
histórico de ocupação, que caracterizou a área como um assentamento subnormal, as
edificações ocupam praticamente 100% dos terrenos onde estão implantadas,
ocasionando
alto
índice
de
insalubridade.
A
tipologia
das
residências
e
estabelecimentos comerciais varia desde o sapê, adobe, à estrutura em alvenaria com
acabamento em chapisco, emboço e reboco, revestidos com pintura ou cerâmica.
54
Salobrinho/ UESC
Figura 6. Imagem cidade de Ilhéus/ bairro Salobrinho.
Fonte: Google Earth. 2007 Europa Technologies, Image © 2007 TerraMetrics.
Figura 7. Imagem bairro Salobrinho, 2004.
Fonte: Prefeitura do campus/ Universidade Estadual de Santa Cruz, 2007.
55
3.4. Histórico de ocupação do bairro
A ocupação da área iniciou-se na década de 1920. De acordo com Pereira
(1984, p. 20), o Salobrinho, nessa época podia ser definido como “Uma velha barcaça
perdida no meio do mato, e algumas casinhas feitas de sopapo”. Segundo o autor, o
Salobrinho foi uma fazenda de nome Boa Vista, cujo proprietário era o Sr. João
Francisco de Carvalho, e se constituía de capoeiras habitadas por grande quantidade
de animais silvestres e formigas-de-mandioca.
A sede localizava-se às margens da estrada de rodagem, que foi construída em
1927 para interligar a cidade de Ilhéus à Itabuna. Em 1947 essa estrada sofreu grande
reforma e o eixo Ilhéus/ Itabuna foi deslocado para o atual Km 16.
Segundo Pereira (1984), em 1952, era quase que impossível notar a existência
de casas na localidade, até que a descoberta de uma suposta jazida de “pedras
preciosas” atraiu centenas de retirantes. Logo um amontoado de casas foi surgindo e
se espalhando em meio ao matagal. O sistema de aquisição de um lote para
construção era feito através de uma enfiteuse10, que de acordo com Arantes de Bem
(2005), consistia num direito real sobre coisa alheia, transmissível por herança, sendo
reconhecido pela doutrina como o mais amplo direito sobre propriedade alheia.
Com o passar dos anos e chegada de mais retirantes, a fazenda transformou-se
num arraial; foram estabelecidos os primeiros pontos comerciais, na maioria armarinhos
e açougues, e há registros de uma única indústria, um curtume que se situava à
10
O Código Civil de 2002 vedou a criação de novas enfiteuses e subenfiteuses, sendo mantidas as
existentes até sua extinção. Em seu lugar instituiu o direito de superfície, sem a perpetuidade, vedado o
prazo indeterminado, mas transferível a terceiros e, por morte do superficiário, aos seus herdeiros. Neste
não poderá ser estipulado pelo concedente qualquer pagamento de transferência, a exemplo dos
laudêmios enfitêuticos (ARANTES DE BEM, 2005).
56
margem do Rio Cachoeira. Nessa época a única praça existente era a “praça do
dendê”. Tratava-se de uma área livre, sem qualquer infraestrutura, conhecida por esse
nome devido à forte predominância da planta no local. O autor relata que o lugar era um
tanto quanto assustador, pois a exuberância dos dendesais o transformava num
pequeno e denso bosque, ideal para furtos e sustos.
Até então não havia escola local, e as crianças eram alfabetizadas pelos próprios
pais. O primeiro grupo escolar foi construído em 1963, no governo do Prefeito Herval
Soledade, seguido pelo Movimento Brasileiro de Alfabetização - MOBRAL. O autor
destaca a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira – CEPLAC; essa
instituição impulsionou o crescimento do arraial e se constituiu na mola propulsora que
veio garantir a sobrevivência de centenas de famílias. Com o advento da Universidade
Estadual de Santa Cruz – UESC, posteriormente, este impulsionamento só se
acentuou. Em 1974, iniciou-se a construção do sistema de abastecimento de água,
convênio firmado entre a CEPLAC, Secretaria de Saúde e Prefeitura Municipal de
Ilhéus. Este sistema foi recuperado e ampliado e um reservatório foi construído com
capacidade de abastecer todo o povoado.
Na década de 1980, o arraial passava a bairro, já contava com um número de
800 casas, e seu índice demográfico atingia a casa dos 4.000 habitantes. Existiam 74
casas comerciais, sendo que destas 50% eram botequins improvisados. A “praça do
dendê” deu lugar à praça Santo Antônio, um espaço circundado por estabelecimentos
residenciais e que até os dias atuais se caracteriza por pouca vegetação rasteira,
pequenas árvores, e ausência de mobiliário urbano; e no ano de 1989, no governo do
prefeito Antônio Olímpio, foi inaugurada a praça João Francisco de Carvalho, localizada
às margens da rodovia Ilhéus/ Itabuna. Sua infraestrutura, que se mantém até os dias
57
atuais, apesar das “reformas” realizadas, apresentava conformação retangular, com
piso em concreto e canteiros laterais e centrais suspensos em estrutura de alvenaria.
Outras áreas destinadas ao lazer também surgiram nessa época como, o “campo
de futebol” localizado próximo ao Rio Cachoeira, que margeia o bairro, que se constitui
numa área descampada e não ocupada por construções, com duas traves de madeira
em cada lado.
Nos anos que se seguiram até a década de 1990, o Salobrinho continuou a
crescer em virtude, principalmente, do forte fluxo migratório advindo da zona rural
ocasionado
pela
crise
cacaueira.
Segundo
Moreira
e
Trevizan
(2005),
a
desestabilização do setor produtivo da região de Ilhéus, baseado na cacauicultura, teria
contribuído para o desemprego no setor rural e o fechamento de estabelecimentos no
setor industrial e de serviços, levando a um rápido empobrecimento da classe
trabalhadora e da classe média regional. Este contexto teria provocado a busca por
espaços mais compatíveis com as novas condições de vida na região.
Atualmente o bairro Salobrinho possui 7.500 habitantes com média populacional
de
4,2
habitantes
por
residência
(IBGE,
sendo
2002);
continua
crescendo
desordenadamente, acentuando ainda mais seus problemas sanitário-ambientais e,
como, segundo o Código Civil de 2002, o aforamento por enfiteuse não é mais
permitido, o trâmite para aquisição ou ocupação de lotes e imóveis é obscuro perante o
poder público municipal.
58
3.5. Caracterização estrutural-urbana das praças João Francisco de Carvalho e
Santo Antônio
A praça João Francisco de Carvalho (figura 8), fundada em 1989, localiza-se às
margens da rodovia Ilhéus/ Itabuna (mapa temático do Salobrinho), numa cota de
elevação de 1.75m em relação ao nível da rodovia, ocupando área equivalente a
312m2. Pode ser classificada como praça originária do traçado viário, pelo cruzamento
de quatro vias proporcionando o subtipo de praças quadrangulares e retangulares
(figura 9). Além da conformação retangular, apresenta canteiros laterais e centrais
elevados sobre estrutura em alvenaria e impermeabilização do solo através da
concretagem. Não há mobiliário urbano e as poucas árvores existentes possuem raízes
aéreas que comprometem a pavimentação. O acesso a este espaço se dá através de
escadarias.
Figura 8: Praça João Francisco de Carvalho
Fotografia: Silvia Kimo Costa, 2006.
59
Figura 9. Praça quadrangular e retangular.
Fonte: De Angelis, Castro e Neto (2004, p. 66).
Esta praça também se caracteriza pela predominância de pontos comercias,
tanto em seu entorno imediato, quanto em seu espaço físico. Atualmente vem servindo
como ponto de chegada e saída do ônibus que transita nos sentidos Salobrinho –
centro da cidade de Ilhéus, Salobrinho – centro da cidade de Itabuna, cidade de Ilhéus
– cidade de Itabuna, e vice versa. Em virtude de tais características este espaço público
vem sendo freqüentado por três grupos sociais principais: 1. pessoas que estão na
praça em tempo curto apenas para esperar o ônibus; 2. pessoas que a freqüentam para
atividades relacionadas ao lazer e ao convívio social e 3. pessoas que a utilizam como
ponto comercial.
A praça Santo Antônio (figura 10) localiza-se no interior do bairro (mapa temático
do Salobrinho), paralela à rua São Jorge, em frente ao posto de saúde, e constitui-se
num espaço com pouca vegetação rasteira, pequenas árvores, e ausência de mobiliário
60
urbano. A classificação à que mais se aproxima é a de praça originária do traçado
viário, de conformação triangular criada a partir da interseção de três vias (figura 11).
Figura 10: Praça Santo Antônio
Fotografia: Silvia Kimo Costa, 2006.
Figura 11. Praça triangular
Fonte: De Angelis, Castro e Neto (2004, p. 66).
61
Sua implantação varia da cota mais baixa, nível da rua, à cota de elevação de
mais ou menos 1.50m, nível de algumas residências do entorno e ocupa área
equivalente a 245m2. Não possui acessos específicos.
Sua origem remete à antiga praça do Dendê, área de propriedade do Sr. Antônio
Arcanjo de Carvalho, herdeiro do antigo proprietário da Fazenda Boa Vista, Sr. João
Francisco de Carvalho. Contam os moradores mais antigos do bairro, que Sr. Antônio
Arcanjo doou a área dos dendezais para a construção de casas. A ocupação iniciou-se
no sentido da cota mais baixa, nível da rua, para a mais alta, sob orientação do Sr.
Antônio Arcanjo, ocasionando o surgimento de uma clareira central. Essa clareira a
princípio seria destinada à abrigar uma feira livre. Entretanto, com o adoecimento de Sr.
Antônio Arcanjo, este pediu, antes de falecer, que a área fosse nomeada praça Santo
Antônio.
O entorno imediato desse espaço é caracterizado pela predominância de
residências, e seus usuários são na grande maioria crianças na faixa etária dos 4 aos
12 anos. O espaço é utilizado para brincadeiras e atividades esportivas como futebol.
62
Mapa temático desenvolvido sobre fotografia aérea cedida pela CEPLAC.
63
4. METODOLOGIA
Os métodos para estudo da percepção ambiental vêm sendo estruturados desde
a década de 1960; dentre eles o Guidelines for field studies in Environmental
Perception, publicado pela UNESCO, dispõe de uma série de técnicas de pesquisa que
se baseiam em três abordagens principais: observar, ouvir e entrevistar sendo esta
última a mais utilizada (WHYTE, 1977). Similarmente, de acordo com Moreira (2004), o
método
fenomenológico
apresenta
quatro
estratégias
básicas:
entrevista,
os
participantes descrevem verbalmente suas experiências de um fenômeno; descrição
escrita de experiências pelo próprio participante; relatos autobiográficos em forma
escrita e oral; observação participante, o pesquisador parte das observações do
comportamento verbal e não verbal dos participantes, de seu meio ambiente, das
anotações que ele mesmo fez quando em campo, de áudio e videoteipes disponíveis,
etc.
Segundo Moreira (2004), a mais utilizada dessas estratégias também é a
entrevista oral, geralmente aberta e com poucos participantes. Já os resultados da
pesquisa são descritos a partir da orientação dos participantes, utilizando-se palavras
reais dos participantes para ajudar na descrição. O pesquisador então identifica temas
nos dados e a partir dos temas é desenvolvida uma explicação estrutural. Moreira
destaca, dentre os principais métodos fenomenológicos, os propostos pelos teóricos
Van Kaam, Colaizzi, Giorgi e Sanders (quadro 3).
64
TEÓRICOS
QUADRO 3
Teóricos fenomenológicos e seus principais métodos de coleta e análise de dados
ETAPAS
ETAPA 1
VAN KAAM (1959) - tal teórico
destrincha
as
entrevistas
interpretando cada frase ou
pensamento como “expressão”; a
seguir aquela frase ou conjunto
de frases que tenham um sentido
bem definido são classificadas
em “momento de experiência”. Os
“momentos de experiência”, por
sua vez, quando extraídos de seu
contexto são classificados como
“constituintes descritivos”. Os
“constituintes
descritivos”
constantes
no
relato
dos
diferentes participantes recebem
um rótulo comum, este rótulo
representa
as
essências
encontradas para o fenômeno.
COLAIZZI (1978) - tal método
supõe que as descrições das
experiências
vividas
dos
participantes já foram coletadas e
transpostas na forma escrita.
Obter um
núcleo de
experiências
comuns.
Ler todas as
descrições dos
participantes de
forma a adquirir
uma visão
geral.
ETAPA 2
Listar e preparar um
agrupamento preliminar
rudimentar de cada
expressão apresentada
pelos participantes.
Extrair frases ou
sentenças de cada
protocolo (entrevistas
transcritas) que digam
respeito, diretamente, ao
fenômeno investigado extração de assertivas
significativas.
ETAPA 3
Redução e eliminação
- cada expressão deve
ser testada em relação
a dois requisitos:
1. o momento da
experiência é um
constituinte necessário
e suficiente da
experiência?
2. é possível extrair
esse momento e
rotulá-lo sem violar a
formulação
apresentada pelo
participante?
Realizar formulação
dos sentidos - colocar
em palavras o sentido
de cada assertiva
significativa (passar
daquilo que os
participantes dizem
para o que significa).
ETAPA 4
ETAPA 5
Identificar os
constituintes descritivos
e agrupar aqueles que
são relevantes comuns
em um núcleo, rotulá-los
de forma abstrata,
expressando o tema
comum.
Avaliar os
constituintes
identificados
segundo as
seguintes
condições:
1. ser expresso
explicitamente na
descrição;
2. ser expresso
explícita ou
implicitamente em
algumas ou na
maioria das
descrições;
3. ser compatível
com a descrição na
qual ele não está
expresso.
Organizar os sentidos
formulados em conjunto
de temas. Testar os
conjuntos de temas
contra os protocolos
originais para validá-los.
Pergunta-se: existe algo
nos protocolos originais
(entrevistas transcritas)
que não foi levado em
conta nos conjuntos de
temas? Estes conjuntos
de temas propõem algo
que não esteja nos
protocolos?
Integrar os
resultados obtidos,
até o momento,
numa descrição do
tópico investigado.
A seguir formular a
descrição exaustiva
do fenômeno
investigado em uma
declaração de sua
estrutura, da forma
mais inequívoca
possível.
ETAPA 6
Passo final de
validação retornar a cada
participante
numa entrevista
simples e
perguntar-lhe
sobre a
adequação dos
resultados
obtidos.
Continua
65
ETAPAS
TEÓRICOS
ETAPA 1
ETAPA 2
ETAPA 3
SANDERS (1982) - segundo esta
estudiosa,
existem
três
componentes fundamentais na
estrutura
fenomenológica
de
pesquisa:
determinação
dos
limites do que e quem deve ser
investigado; coleta de dados e
análise fenomenológica.
Determinação dos
limites do que e
quem
deve
ser
investigado:
1. "do que" - os
assuntos naturais à
abordagem
fenomenológica são
aqueles que não
podem
ser
quantificados.
2. "quem" - pessoas
que
têm
características sob
observação ou que
podem
oferecer
informações
confiáveis sobre o
fenômeno
investigado.
Coleta dos dados (pode
ser efetuada através):
1.
entrevistas
em
profundidade com os
participantes, gravadas
em áudio e transcritas
posteriormente
(registrando as palavras
exatas dos entrevistados
para melhor qualidade
da análise);
2. estudo documental
efetuado sobre material
escrito
pelos
participantes;
3.
técnicas
de
observação participante.
Análise fenomenológica
dos dados - constitui-se
na análise do conteúdo
das
transcrições
e
engloba as seguintes
etapas:
1.
descrição
do
fenômeno
tal
como
revelado
nas
transcrições
das
entrevistas;
2. identificar temas ou
variantes que emergem
das descrições;
3. o pesquisador deve
juntar os temas em
conjuntos de essências
que
caracterizam
a
estrutura do fenômeno.
Leitura geral da
descrição (pode ser
uma
entrevista
transcrita)
para
captar o sentido
geral do texto.
Capitado o sentido geral
do
texto,
deve-se
proceder nova leitura
com o objetivo de
discriminar unidades de
sentido
dentro
da
perspectiva
que
lhe
interessa
(sociológica,
psicológica, etc) com
foco
no
fenômeno
estudado.
GIORGI (1985) - este método
parte das descrições por escrito
dos participantes. O objetivo é a
obtenção
de
unidades
de
significação (temas ou essências)
contidas
nas
descrições
e
reveladoras da estrutura do
fenômeno. Tal método apresenta
quatro passos.
Uma vez delineadas as
unidades de sentido, o
pesquisador corre por
todas as unidades de
sentido e expressa o que
ela contém, de acordo
com a perspectiva que
lhe interessa, de uma
forma mais direta.
ETAPA 4
ETAPA 5
ETAPA 6
O
pesquisador
sintetiza todas as
unidades de sentido
e as transforma em
uma
declaração
consistente
em
relação
à
experiência
do
sujeito.
Essa
declaração constituise na estrutura da
experiência.
Fonte: MOREIRA, 2004, p. 119-125.
Organização: Silvia Kimo Costa, 2007.
66
O método fenomenológico utilizado para coleta e análise de dados, na presente
pesquisa, foi o proposto por Sanders (1982), pois “o quê” está sendo investigado dos
moradores do entorno imediato e usuários em relação às praças João Francisco de
Carvalho e Santo Antônio, não pode ser simplesmente quantificada, mas sim analisada
a partir de sua descrição tal como é. Dessa forma, fez–se necessário uma amostra que
realmente freqüentasse tais espaços, ou seja, “quem”, pessoas que têm características
sob observação ou que podem oferecer informações confiáveis sobre o fenômeno
investigado e que tivessem disponibilidade para se submeterem a uma entrevista semiestruturada, devidamente gravada em fita K7. Cabe salientar que para melhor
qualidade na análise dos dados, as entrevistas foram transcritas utilizando-se as
palavras exatas dos participantes.
Também se utilizou o recurso dos mapas mentais. Estes aplicados ao fim de
cada entrevista, objetivando reforçar a existência de diferentes percepções do mesmo
fenômeno por pessoas diferentes.
Em uma breve revisão, os mapas mentais constituem-se em imagens11 não
decodificadas pela razão; imagens provenientes da apreensão de significados, que por
sua vez decorrem da construção mental e de símbolos advindos do mundo percebido;
um mundo em que a visão dos lugares, do território, onde o homem vive, é própria
(KASHIWAGI e KOZEL, 2005). Segundo Wood (1992), os mapas mentais são
11
A preocupação em desvendar essas imagens surgiu na década de 1960, e um dos pioneiros a associar
a percepção do meio ambiente ao comportamento e ação humana, utilizando-se os mapas mentais foi o
arquiteto norte americano Kevin Lynch. Esse arquiteto propôs uma metodologia voltada ao entendimento
da forma visual urbana, decompondo a imagem em três componentes: identidade, estrutura e significado.
Para Lynch uma cidade legível é uma cidade imaginável. A imaginabilidade constitui-se na característica
em determinado objeto físico que lhe confere uma alta probabilidade de evocar uma imagem forte em
qualquer observador. É aquela forma, cor ou disposição que facilita a criação de imagens mentais
claramente identificadas, poderosamente estruturadas e extremamente úteis ao ambiente (LYNCH,
1980).
67
caricaturas científicas dos fenômenos que representam, cujos detalhes e complexidade
de significados são selecionados, simplificados e, em seguida, enfatizados de uma
maneira que retratam o que o autor do mapa acredita ser essencial a respeito do
espaço referido no mesmo.
Para análise dos mapas mentais foi utilizado o método desenvolvido por Kozel
(2001).
Antes de descrever cada método de coleta e análise de dados, detalhadamente,
convém relembrar os objetivos específicos da presente pesquisa e como estes foram
contemplados (quadro 4).
QUADRO 4
Objetivos específicos da pesquisa e métodos utilizados para alcançá-los
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
1. levantar a história da configuração espacial do bairro
e das praças João Francisco de Carvalho e Santo
Antônio;
2. identificar por quem, quando, e como estas praças
são usadas; as formas de interação entre os diferentes
agentes produtores das mesmas e como se dá o
convívio entre os diferentes segmentos sociais que as
utilizam;
MÉTODOS
1. Pesquisa bibliográfica, conforme proposto por Lakatos
e Marconi (1995).
2. Roteiros de observação como observador participante
segundo o método fenomenológico (MOREIRA, 2004).
3. Roteiro de entrevistas semi-estruturadas e mapas
3. investigar como os usuários e moradores do entorno
mentais. O primeiro aplicado e analisado com base no
imediato a estas praças as vivenciam e as
método fenomenológico (MOREIRA, 2004) e o segundo
experienciam;
aplicado e analisado segundo Kozel (2001).
4. esboçar um projeto de intervenção urbana – 4. Projeto preliminar desenvolvido com auxílio de
revitalização, tendo como base os dados obtidos com a ferramentas técnicas para desenho como, croquis,
pesquisa.
perspectivas e softwares (autocad).
Elaboração: Silvia Kimo Costa, 2007.
68
4.1. Amostra
A amostra se constituiu dos usuários e moradores do entorno imediato às praças
João Francisco de Carvalho e Santo Antônio. Cabe salientar que de acordo com o
método fenomenológico, as amostras não devem ser grandes, compreendendo
um universo que varia de 7 a 15 pessoas, em virtude da complexidade da análise
dos dados. Segundo Moreira (2004) o que importa não é a quantidade e sim a
qualidade, os participantes devem ser aqueles com disponibilidade de tempo e que
possam fornecer descrição de sua experiência vivida tal como é. Outro ponto
importante é que à medida que as respostas começam a se repetir, quando a
impressão sobre o fenômeno estudado torna-se freqüente e semelhante, o ciclo se
fecha.
4.1.1. Amostra da praça João Francisco de Carvalho
Foram visitados 15 estabelecimentos, residenciais e comerciais, pertencentes ao
entorno imediato à referida praça. Dentre os 15 estabelecimentos, 5 concordaram em
participar da pesquisa mas não concordaram em assinar o TCLE12 – Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (anexo 2) - mesmo compreendendo do que se
tratava a pesquisa, e segundo recomendado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da
Segundo o Conselho Nacional de Saúde, Resolução no 196/1996, seção IV – Consentimento Livre e
Esclarecido, “o respeito devido à dignidade humana exige que toda pesquisa se processe após
consentimento livre esclarecido dos sujeitos, indivíduos ou grupos que por si e/ ou por seus
representantes legais manifestem a sua anuência à participação da pesquisa”. O Parecer
Consubstanciado aprovando o exercício da presente pesquisa se encontra em anexo (anexo 1).
12
69
Universidade Estadual de Santa Cruz, foram descartados automaticamente, e 3 se
encontravam sem moradores. Os 7 restantes (4 estabelecimentos residenciais e 3
comerciais), concordaram em participar, assinando o TCLE e fornecendo ou a
numeração da documentação13 ou os nomes dos pais para registro.
Quanto aos usuários, foram abordados em torno de 50 pessoas, entretanto
priorizou-se aqueles que tinham residência em pontos do bairro não pertencentes ao
entorno imediato à praça, e que não estavam no local exclusivamente para esperar o
ônibus, perfazendo um total de 30 pessoas. Dos 30, 10 possuíam disponibilidade de
tempo para participar, mas somente 7 concordaram em assinar o TCLE e fornecer
numeração de documentos ou os nomes dos pais para registro.
Ao todo 14 pessoas, dentre moradores do entorno imediato e usuários da praça
João Francisco de Carvalho participaram na íntegra da pesquisa.
4.1.2. Amostra da praça Santo Antônio
Foram visitados 13 estabelecimentos residenciais e 1 municipal, pertencentes ao
entorno imediato da referida praça. No posto de saúde, defronte à praça, obteve-se
informações acerca do uso, horários, e tempo de freqüência dos eventuais usuários.
Conforme relatado, estes correspondem ao público infantil, que usa o espaço para
brincadeiras e atividades esportivas como o futebol. Dos 13 estabelecimentos visitados,
4 residências estavam sem moradores. Dos 9 restantes, 2 não concordaram em
13
O fornecimento da numeração de algum documento pessoal tem por objetivo validar a assinatura,
evitando possíveis homônimos.
70
participar da pesquisa mesmo compreendendo do que se tratava, alegando
indisposição ou indisponibilidade de tempo, e outros 2 alegando analfabetismo, mesmo
após explicado que esse fator não representava problema para pesquisa e que os
depoimentos seriam de grande importância para o trabalho. Assim, 5 concordaram em
participar, assinando o TCLE e fornecendo ou a numeração da documentação ou os
nomes dos pais para registro.
Amostra total: 19 pessoas.
4.2. Métodos de coleta de dados
4.2.1. Pesquisa bibliográfica
Este método baseou-se no proposto por Lakatos e Marconi (1995) e teve como
objetivo a pesquisa de elementos históricos, geográficos, sócio-econômicos, que
possibilitassem a compreensão do bairro Salobrinho e das praças nesse contexto. As
fontes foram documentos como: produções bibliográficas e produções científicas –
monografias, dissertações e artigos – sobre o bairro Salobrinho, fotografias em diversas
épocas e reportagens sobre o mesmo, disponíveis no acervo da biblioteca da UESC;
ASCOM/ UESC; Prefeitura do Campus/ UESC e na Prefeitura Municipal de Ilhéus.
O histórico do bairro foi escrito com base na produção bibliográfica, Salobrinho:
encantos e desencantos de um povoado (PEREIRA, 1984). A foto aérea datada de
1970, utilizada para a confecção do mapa temático através dos recursos do SIG –
71
Sistema de Informações Geográficas, foi fornecida pela Comissão Executiva do Plano
da
Lavoura
Cacaueira
–
CEPLAC.
Também
foi
consultada
a
planta
de
macrozoneamento14 do município de Ilhéus, e a versão mais recente do Plano Diretor
Urbano (disponível: www.ilheus.ba.gov.br).
A caracterização urbano-estrutural das praças foi realizada através dos roteiros
observação e registrada em fotografias. Seu histórico foi obtido oralmente, fornecido por
residentes antigos do bairro, identificados no entorno imediato às praças, durante a
aplicação do roteiro de entrevista semi-estruturada.
4.2.2. Roteiros de observação como observador participante
Este método baseou-se no proposto por Moreira (2004). Segundo o autor a
observação participante pode ser conceituada como “uma estratégia de campo que
combina ao mesmo tempo a participação ativa com os sujeitos, a observação intensiva
em ambientes naturais, entrevistas abertas informais e análise documental” (MOREIRA,
2004, p. 52). Dentro da observação participante, dependendo do grau de envolvimento,
o pesquisador pode tornar-se: um participante completo15, participante como
observador16, observador total ou completo17, e observador como participante. Este
14
A planta de macrozoneamento está disponível na Secretaria de Planejamento Urbano da PMI
(Prefeitura Municipal de Ilhéus) e apresenta todas as áreas que foram consideradas ZEIS dentro do
município, sendo uma delas o bairro Salobrinho.
15
O pesquisador entra no ambiente de pesquisa sem revelar sua identidade e torna-se um membro
rotineiro do grupo a ser estudado; mantém-se sempre como um observador disfarçado, cujo interesse
científico é completamente desconhecido dos sujeitos.
16
O pesquisador tem consentimento prévio dos sujeitos da pesquisa para empreender seu estudo e
observá-los em seu ambiente.
72
último categoria em que se insere o envolvimento da pesquisadora com os sujeitos da
pesquisa, caracteriza-se por pouca interação com os sujeitos, com contato breve, em
que é administrado um questionário, ou entrevista, seja estruturada ou semiestruturada, e não existe tentativa de se estabelecer confiança ou desenvolver um bom
relacionamento entre as partes.
Através dos roteiros de observação foi possível verificar os grupos sociais que vêm
utilizando as praças em estudo, realizar os levantamentos quantitativo e qualitativo dos
equipamentos e estruturas existentes nestes espaços e colher informações necessárias
para efetuar o desenho ao nível técnico dos mesmos.
Os roteiros foram realizados de segunda a domingo, a princípio em períodos
alternados, alguns dias pela manhã das 7:30 às 12:00 horas, outros pela tarde das
12:00 às 18:00 horas e, posteriormente, o dia todo de segunda a domingo
concomitantemente com a aplicação do roteiro de entrevista semi-estruturada e mapa
mental. As informações referentes ao período noturno das 18:00 às 23:00 horas, por
questão de segurança18, foram obtidas com base em relatos dos moradores do entorno
imediato às praças, dos pontos comerciais localizados na praça João Francisco de
Carvalho e do Posto de Saúde localizado defronte à praça Santo Antônio.
17
Neste caso não há interação alguma com os sujeitos. Um exemplo são os experimentos em
laboratórios.
18
Refere-se à segurança do pesquisador. As praças no período noturno são vazias e sem policiamento.
73
4.2.3. Roteiro de entrevistas semi-estruturadas e mapas mentais
O método de entrevistas semi-estruturadas baseou-se no proposto por Moreira
(2004). De acordo com o autor, a entrevista pode ser definida como “uma conversa
entre duas ou mais pessoas com um propósito em mente” (MOREIRA, 2004, p. 54). As
entrevistas podem ser completamente abertas ou não estruturadas; fechadas ou
completamente estruturadas e semi-estruturadas ou parcialmente abertas. Esta última
categoria em que insere a pesquisa, fica entre as duas outras categorias apresentadas.
Na entrevista semi-estruturada, o pesquisador pergunta algumas questões em ordem
pré-determinada, e dentro da cada questão o entrevistado tem liberdade de resposta.
Essa categoria também permite que outras questões possam ser levantadas,
dependendo das respostas dos entrevistados, ou seja, podem existir questões
suplementares sempre que algo de interessante e não previsto na lista original de
questões venha aparecer.
A aplicação dos mapas mentais baseou-se em Kozel (2001). O mapa mental foi
proposto após a entrevista semi-estruturada, solicitando ao participante que
desenhasse as praças em papel ofício A4, estando o mesmo livre para utilizar lápis,
lapiseira, caneta, hidrocores, lápis de cores e outros utensílios para compor seu
desenho e que estivessem a disposição. Caso o participante não se sentisse à vontade
para desenhar, ele poderia descrevê-las verbalmente. Essa descrição foi devidamente
registrada em fita K7.
74
Esta etapa, como um todo, buscou investigar como os usuários e moradores do
entorno imediato às praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio as percebem as vivenciam - e por sua vez consistiu em quatro etapas seqüenciais:
1. Leitura do TCLE – Termo de consentimento Livre e Esclarecido - após a leitura
do TCLE, fazia-se uma breve discussão sobre o exposto no mesmo e caso o sujeito
concordasse em participar da pesquisa, este era convidado a assinar o referido
documento e fornecer a numeração da identidade ou do CPF, em seguida procedia-se
com a entrega de uma cópia do TCLE para o participante. Entretanto, cabe salientar
que mesmo concordando em participar da pesquisa e assinando o TCLE, boa parte dos
sujeitos abordados desistiram de participar da pesquisa tão logo foi solicitado a
numeração de alguma documentação pessoal. Sendo assim, em acordo com o Comitê
de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Santa Cruz, foi proposto, como
alternativa, o registro dos nomes completo do pai e da mãe daqueles que
concordassem em participar da pesquisa, resguardando assim o participante de
fornecer a numeração de sua documentação;
2. Aplicação do formulário de identificação do participante (anexo 3) – este
formulário teve como objetivo a coleta de informações como: nome completo, idade,
endereço residencial, nível de escolaridade, renda familiar e atividade ocupacional.
Essas informações permitiram ter uma noção do perfil sócio-econômico-cultural dos
participantes da pesquisa e foram de suma importância, uma vez que a percepção
ambiental varia de acordo com a idade, cultura, escolaridade, visão de mundo, dentre
outras variáveis;
3. Aplicação do roteiro de entrevista semi-estruturada (anexo 4) – aplicado logo
após o formulário de identificação e devidamente gravado em fita k7, este roteiro
75
buscou investigar quatro aspectos em relação às praças através de perguntas
associadas a cada um respectivamente: 1. identificação e uso das praças; 2. função
das praças; 3. valores e sentimentos e 4. administração;
4. Aplicação do mapa mental – solicitado logo após a aplicação do roteiro de
entrevista semi-estruturada. O uso do mapa mental alia-se à procura de elementos que
surgem com mais constância na lembrança das pessoas, quando instadas a falar ou
desenhar as praças.
O tempo para conclusão das 4 etapas variou entre 40 a 50 minutos por
participante.
4.3. Métodos de análise dos dados
4.3.1. Método fenomenológico - análise do roteiro de entrevista semi-estruturada
O roteiro de entrevista semi - estruturada foi analisado com base no método
fenomenológico proposto por Sanders (1982), constituindo-se das seguintes etapas:
1. Transcrição, na íntegra, das entrevistas gravadas. De acordo com Sanders
(1982, p. 357), as transcrições “identificam e descrevem as qualidades da experiência e
da consciência humanas que dão à pessoa sendo estudada a sua identidade própria”;
2. Descrição do fenômeno tal como revelado nas transcrições da entrevistas;
3. Identificação dos temas ou invariantes que emergem das descrições. Os temas
referem-se a elementos comuns que aparecem dentro das descrições e entre elas. A
76
autora salienta que o que identifica o tema é sua importância e centralidade, e não a
freqüência com que ocorre;
4. Junção dos temas em conjuntos de essências que caracterizam a estrutura do
fenômeno.
É importante informar que a confecção do roteiro de entrevistas semi-estruturada
foi norteada por 4 conjuntos de essências gerais: 1. Identificação e uso das praças; 2.
Função das praças; 3. Valores e sentimentos e 4. Administração. Dentro de cada
conjunto de essência foram estipulados os seguintes questionamentos:
1. Identificação e uso das praças
a) Você freqüenta as praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio?
b) Qual, ou quais dias da semana você as freqüenta?
c) Em média, qual é o seu tempo de permanência nessas praças?
d) Qual, ou quais os motivos que o (a) levam a estas praças?
2. Função das praças
a) Para você qual (is) é (são) a (s) função (ões) das praças João Francisco de
Carvalho e Santo Antônio?
b) Diga cinco palavras relacionadas com estas praças.
3. Valores e sentimentos
a) Diga o que você gosta e o que não gosta nessas praças.
b) Se você pudesse modificar essas praças, o que você faria?
77
4. Administração
a) Quem deve cuidar dessas praças?
b) Como você cuida dessas praças?
A partir das repostas referentes aos questionamentos de cada conjunto de
essência geral, foram identificados os temas ou invariantes e após a análise destes foi
possível delinear conjuntos de essências específicos para caracterizar como os
usuários e moradores do entorno imediato às praças em questão as estão vivenciando.
4.3.2. Método de análise dos mapas mentais
Para análise dos mapas mentais utilizou-se o método desenvolvido por Kozel
(2001), composto pelas seguintes etapas: 1. Interpretação quanto à forma de
representação dos elementos na imagem; 2. Distribuição dos elementos da imagem; 3.
Classificação quanto à especificação dos ícones e, apresentação de outros aspectos e
particularidades, quando houver.
1. Interpretação quanto à forma de representação dos elementos na imagem
Trata-se de uma primeira análise cujo objetivo é observar a diversidade de formas
nas representações. Segundo Kozel (2001), essa diversidade de formas pode ser
78
classificada como: 1.1. Ícones19 - formas que representam elementos naturais,
paisagem construída, vivida, elementos humanos e móveis; 1.2. Letras – palavras que
complementam as representações gráficas; e 1.3. Mapas - a forma de representação
cartográfica que evidenciam a espacialização do lugar.
2. Distribuição dos elementos da imagem
Nesta etapa busca-se verificar a disposição da imagem. Estas podem estar
dispostas das seguintes maneiras:
2.1. Imagem representada em perspectiva;
2.2. Imagem representada em forma horizontal;
2.3. Imagem representada em forma circular;
2.4. Imagem representada em forma de quadros e quadras (refere-se ao traçado
urbano);
2.5. Imagem representada de maneira dispersa;
2.6. Imagem representada isoladamente.
3. Classificação quanto à especificação dos ícones
Segundo Kozel (2001), esta etapa tem por objetivo o aprofundamento da análise,
especificando os ícones que compõem as imagens em quatro grupos:
3.1. Representando elementos da paisagem natural – ícones inerentes aos
elementos naturais existentes no ambiente como montanhas, rios, lagos, sol, nuvens,
flores, árvores e vegetação em geral;
19
Um ícone constitui-se no signo cujo significado tem uma relação de analogia com o que ele representa,
ex: o desenho de uma flor é um ícone na medida em que a forma como está representada se parece com
a de uma flor (SANTAELLA, 2005).
79
3.2. Representando elementos da paisagem construída – relacionam-se ao tecido
urbano construído pelo homem, casas, prédios, igrejas, pontos comerciais, escadas,
calçadas, ruas;
3.3. Representação de elementos móveis – meios de transporte como carros,
ônibus, caminhões de lixo, bicicletas, barcos, aviões;
3.4. Representação de elementos humanos – crianças, adultos, pessoas em geral.
80
5. RESULTADOS E DISCUSSÕES
5.1. Os Conjuntos de Essências Específicos
Como já abordado, o método fenomenológico para análise das entrevistas semiestruturadas foi o proposto por Sanders (1982), que se constituiu das etapas de
transcrição, na íntegra, das entrevistas gravadas, na identificação dos temas ou
invariantes que emergem das respostas dos participantes da pesquisa e por fim na
junção dos temas em conjuntos de essências para caracterizar a estrutura do fenômeno
estudado. Na presente pesquisa, este método de análise permitiu delinear três
conjuntos de essências específicos: 1. os elementos físicos que influenciam o
vivenciar das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio; 2. o que as
praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio representam para o bairro; 3.
a percepção do morador do bairro Salobrinho sobre os cuidados para com as
praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio.
O primeiro, “os elementos físicos que influenciam o vivenciar das praças
João Francisco de Carvalho e Santo Antônio”, surgiu a partir dos questionamentos
do conjunto de essência geral “valores e sentimentos”. A intenção foi verificar quais os
elementos físico-estruturais vêm influenciando a forma como estas praças são
experienciadas.
Sendo assim conforme observado na tabela 1, referente ao que o usuário faria
se pudesse modificar a praça Santo Antônio; na tabela 2, referente ao que o usuário
81
faria se pudesse modificar a praça João Francisco de Carvalho; na tabela 3, referente
ao que o usuário não gosta na praça Santo Antônio e na tabela 4, referente ao que o
usuário não gosta na praça João Francisco de Carvalho; os principais elementos são:
na praça Santo Antônio: a falta de uma infraestrutura que a permita ser reconhecida
como tal, arborização inadequada e ausência de mobiliário urbano, como mesas e
bancos; na praça João Francisco de Carvalho: o aspecto da infraestrutura como um
todo, a falta de uma área recreativa específica para o público infantil, a desorganização
espacial, a deterioração e sujeira do local, e a presença de um ponto comercial que
fornece bebidas alcoólicas.
Tabela 1
O que o usuário faria se pudesse modificar a praça Santo Antônio
Palavras ou frases chaves
Sujeitos da pesquisa
Colocaria arborização apropriada
Reconstruiria do zero, faria uma praça
mesmo, e colocaria área recreativa para as
crianças e mobiliário urbano (bancos,
mesas)
20%
80%
Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos
Tabela 2
O que o usuário faria se pudesse modificar a praça João Francisco de
Carvalho
Palavras ou frases chaves
Sujeitos da pesquisa
Modificaria ou melhoraria a infraestrutura
49%
Retiraria o ponto comercial, o bar
13%
Reconstruiria do zero
19%
Proporcionaria manutenção e limpeza
19%
Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos
82
Tabela 3
O que o usuário não gosta na praça Santo Antônio
Palavras ou frases chaves
Sujeitos da pesquisa
Conduta das pessoas em relação ao
espaço
Infraestrutura
20%
40%
Não gosto porque é um espaço vazio
20%
É indiferente
20%
Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos
Tabela 4
O que o usuário não gosta na praça João Francisco de Carvalho
Palavras ou frases chaves
Sujeitos da pesquisa
Desorganização
8%
Infraestrutura
38%
Sujeira
23%
Do estabelecimento comercial, o bar
15%
É indiferente
8%
Não tem nada de que não goste
8%
Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos
É importante salientar o impacto “do estabelecimento comercial, o bar” no
vivenciar da praça João Francisco de Carvalho. Embora essa frase chave não tenha
sido constatada na maioria das entrevistas, cabe ressaltar que de acordo com Sanders
(1982), o que importa não é a quantidade de vezes em que um tema ou invariante
emerge, mas sim a ênfase que foi dada a ele por parte do entrevistado. Sendo assim,
conforme pode ser observado nos depoimentos transcritos, a presença do bar compete
pela utilização do espaço e inibe a freqüência do público infantil. Além disso, este
estabelecimento constitui-se em propriedade privada, confrontando com a praça
83
enquanto
espaço
público,
representando
uma
apropriação
da
mesma.
Conseqüentemente isso reflete na interação entre os grupos sociais que a utilizam. De
um lado tem-se o usuário que a freqüenta em busca de um tipo de lazer e convívio
social que não estão vinculados à presença de estabelecimentos comerciais, do outro o
usuário que está na praça constantemente porque trabalha nela e aquele que a
freqüenta única e exclusivamente em virtude da presença do estabelecimento
comercial.
Rapaz se eu pudesse eu faria essa praça todinha novamente, entendeu!
Mudava tudo. Porque o seguinte, o piso que eu falei nesse instante é
emendado, tem um bar que eu acho que no lugar daquele bar deveria ser uma
praça infantil, ter um parquezinho infantil pra uma criança, às vezes traz uma
criança e não tem como brincar porque tem um local que empata. Esse bar
que é tão na frente da praça (...) (ENTREVISTA 04. Praça João Francisco de
Carvalho. Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos).
Não gosto das pessoas que convivem aqui. Que aqui tem esse bar que faz
muita zoada. Os meninos de menores gostam muito de beber e ficam fazendo
zoada, não deixam agente se divertir (ENTREVISTA 08: Praça João Francisco
de Carvalho. Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos).
Eu de minha parte tirava esse bar daí (...) Esse bar que tomou o espaço da
praça (ENTREVISTA 12: Praça João Francisco de Carvalho. Conjunto de
essência geral: Valores e Sentimentos).
O segundo conjunto de essência específico, “o que as praças João Francisco
de Carvalho e Santo Antônio representam para o bairro”, emergiu dos
questionamentos referentes aos conjuntos de essência geral “Identificação e uso das
praças” e “função das praças”. Através desse conjunto de essência específico buscouse compreender a importância simbólica desses espaços para os moradores do bairro.
84
Segundo Lynch (1980), a praça pode ser considerada foco ou síntese de um
bairro ou cidade, sobre o qual sua influência se irradia e do qual se torna símbolo.
Sendo que por símbolo entende-se o signo que se refere ao objeto denotado em virtude
de uma associação de idéias produzida por uma convenção (ROCHA, 2003). Essa
convenção não é imutável, ela vem se desenvolvendo ao longo dos tempos,
incorporando novos conceitos, desfazendo-se de outros, produzindo novas associações
de idéias. Por esse motivo, ao longo da história, a praça já obteve diversas
conformações e exerceu várias funções. Na atualidade, a praça pode ser definida como
aquele signo urbano cuja infraestrutura seja acessível aos cidadãos e livres de veículos,
propiciando condições para atividades de lazer, convívio social, integração voluntária à
vida de agrupamentos recreativos, culturais e sociais, e que contribua para o
embelezamento, funcionalidade e saúde urbana para as cidades (MACHADO, 1993;
ROBBA e MACEDO, 2003; ANGELIS, CASTRO e NETO, 2004).
A leitura do signo praça enquanto símbolo é feita através do grau de
conhecimento que se tem sobre tal elemento urbano, da forma como os usuários a
experienciam e do valor que atribuem ao mesmo. Sendo assim, embora os usuários
das praças em estudo apontem principalmente o lazer e o convívio social, como
palavras referentes ao que essas praças simbolizam, como observado na tabela 5,
referente aos motivos de freqüência, especificamente da praça João Francisco de
Carvalho, e nas tabelas 6 e 7, referentes à função da praça; também chamam atenção
para seus anseios em relação ao que estes espaços necessitam: infraestrutura,
limpeza, organização, conforme exposto nas tabelas 8 e 9, referentes às palavras que
vêm à mente quando o usuário é instado a pensar sobre a praça.
85
Tabela 5
O que leva o usuário a freqüentar a praça João Francisco de Carvalho
Palavras ou frases chaves
Sujeitos da pesquisa
Falta de opção
13%
Lazer
7%
Convívio social
33%
Trabalho
20%
Espaço para debates
7%
Busca por ar livre
7%
Movimento
13%
Conjunto de essência geral: Identificação e Uso das Praças
OBS: A palavra “movimento” foi empregada pelos usuários para descrever o vai e
vem das pessoas. “Trabalho” foi emprega pelo usuário que possui ou trabalha em
algum ponto comercial localizado no espaço físico da praça ou em seu entorno
imediato. A expressão “Convívio Social” foi empregada para descrever as
brincadeiras, o bate-papo com os amigos (as), o namoro. “Lazer” refere-se ao que
o usuário descreveu como distração, relaxamento, passar o tempo. “Um espaço
para debates” foi expresso pelos usuários que consideram a praça como um local
de diálogo comunitário. “Busca por ar livre” o usuário atentou para a função de
moderador de microclima da praça.
Tabela 6
Qual é a função da praça?
Palavras ou frases chaves
Sujeitos da pesquisa
Lazer e convívio social
27%
Lazer
40%
Lazer, espaço recreativo para crianças e
convívio social
Convívio social
13%
Espaço recreativo para crianças
13%
7%
Conjunto de essência geral: Função da praça
Praça João Francisco de Carvalho
86
Tabela 7
Qual é a função da praça?
Palavras ou frases chaves
Sujeitos da pesquisa
Convívio social
40%
Lazer
60%
Conjunto de essência geral: Função da praça
Praça Santo Antônio
Tabela 8
Palavras que vêm à mente referentes à Praça João Francisco de Carvalho
Palavras ou frases chaves
Sujeitos da pesquisa
Palavras referentes ao que a
necessita (anseios dos usuários)
Palavras referentes ao que a
representa
Declarou falta de opção
praça
27%
praça
46%
7%
Não declarou
20%
Conjunto de essência geral: Função das praças
OBS: As “palavras referentes ao que a praça representa” dizem respeito ao que o
usuário designou por lazer, trabalho, bate papo, diversão, distração, brincadeira,
namoro, local para passeio, centro de discussão comunitária, atividades e
apresentações culturais. As “palavras referentes ao que a praça necessita” refere-se
aos anseios do usuário como: limpeza, organização, ordem, infraestrutura.
Tabela 9
Palavras que vêm à mente referentes à Praça Santo Antônio
Palavras ou frases chaves
Sujeitos da pesquisa
Palavras referentes ao que a
necessita (anseios dos usuários)
Palavras referentes ao que a
representa
praça
40%
praça
60%
Conjunto de essência geral: Função das praças
Ou seja, os usuários das praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio
contrapõem o conhecimento que possuem e que lhes permite reconhecer o signo
87
urbano praça com a forma como as estão vivenciando. Isso também pode ser verificado
nos depoimentos transcritos:
Na verdade isso aqui não é uma praça né. É um campo de criar cavalo e
galinha. Não tem como freqüentar, não tem um banco, não tem praça
(ENTREVISTA 15. Praça Santo Antônio. Conjunto de essência geral:
Identificação e Uso da praça).
Aqui eu faria a mesma coisa da outra praça lá da frente e lá acrescentaria mais
algumas coisas pras crianças brincarem como, escorregadeiras, gangorras,
bancos, tudo isso. Tudo que uma praça deveria ter agente poderia tá fazendo
nessa aqui também (ENTREVISTA 19. Praça Santo Antônio. Conjunto de
essência geral: Valores e Sentimentos).
Realmente é uma praça que eu não tenho grande...entendeu? Eu não tenho o
que ver nela. É uma praça simples, mal cuidada, que não tem grande coisa pra
ver...não tem mesmo. Se você perguntar dez, entrevistar dez, vão falar a
mesma coisa (ENTREVISTA 02. Praça João Francisco de Carvalho. Conjunto
de essência geral: Identificação e Uso da praça.)
Nessa praça, infelizmente, eu gosto mesmo é só de vim conversar com os
amigos, porque infelizmente...a praça...não gosto dela em nada, e por que!
Porque não tem nada de agradável. Se é o piso este é emendado, tem um bar
no meio da praça que incomoda, entendeu. Não tem organização. Não tem
estrutura pra lhe trazer satisfação (ENTREVISTA 04. Praça João Francisco de
Carvalho. Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos).
Eu não gosto da estrutura dela, é uma praça muito mal feita, muito mal
acabada, suja, tá entendendo. As árvores não são podadas, é uma coisa
entregue às baratas. É necessário que se tenha mais um pouco de respeito por
essa praça, porque é o lazer pras crianças daqui do bairro, e pras pessoas
também; todos que freqüentam a praça (ENTREVISTA 07. Praça João
Francisco de Carvalho. Conjunto de essência geral: Valores e Sentimentos).
É interessante observar, conforme verificado nas tabelas 5 e 8, que a praça João
Francisco de Carvalho também representa trabalho. Neste caso, este tema ou
invariante não está associado apenas ao bar, mas também a outros estabelecimentos
comerciais como o armarinho e a bomboniere (também situados no espaço físico da
88
praça). A bomboniere, conforme pode ser verificado no depoimento transcrito, é
considerada um ponto positivo na percepção dos usuários.
Venho aqui por aqui é divertido; mais pra encontrar os amigos, tem a
bomboniere que vende sorvete, que é ótima, muito gostoso (ENTREVISTA 08.
Praça João Francisco de Carvalho. Conjunto de essência geral: Uso e
Identificação das praças).
O terceiro conjunto de essência específico “a percepção do morador do bairro
Salobrinho sobre os cuidados para com as praças João Francisco de Carvalho e
Santo Antônio” emergiu dos questionamentos referentes ao conjunto de essência geral
“Administração”.
Através
desse
conjunto
de
essência
específico
buscou-se
compreender a conduta dos usuários para com estas praças.
As diretrizes para criação e intervenções em espaços públicos voltados para o
lazer sejam praças, parques urbanos, jardins botânicos, estão dispostos, previstos e
regulamentados no Plano Diretor Urbano das cidades, que deve ser construído de
maneira participativa, cabendo ao poder público local sua execução. Entretanto, a
manutenção e conservação desses espaços envolve a participação de toda sociedade,
desde a conduta individual de seus usuários a programas que propõem parcerias do
Poder Público com a iniciativa privada 20.
Sendo assim, como observado nas tabelas 10 e 11, referentes a quem deve
cuidar da praça; e nas tabelas 12 e 13, referentes a como o usuário cuidaria da praça;
20
Um exemplo é o programa Adote uma Praça, que permite a qualquer entidade civil assumir a
responsabilidade de urbanizar e manter áreas verdes públicas do seu município. Essa parceria auxilia na
criação de uma consciência ecológica a partir da responsabilidade com a manutenção do espaço. O
município de Ilhéus vem adotando o programa desde 2006 e algumas praças na região central da cidade
já foram reformadas. Entretanto, em virtude da falta de manutenção por parte do poder público e zelo por
parte dos usuários, estas mesmas já se encontram em processo de degradação.
89
para os moradores do bairro Salobrinho, a construção, reforma e manutenção das
Praças João Francisco de Carvalho e Santo Antônio são de responsabilidade do Poder
Público Municipal, mas cabe à comunidade zelar pela conduta positiva em relação a
esses espaços através da conscientização de adultos e crianças, contribuindo para que
as praças permaneçam limpas e conservadas.
Tabela 10
Quem deve cuidar da praça João Francisco de Carvalho?
Palavras ou frases chaves
Sujeitos da pesquisa
Não respondeu
5%
Comunidade
25%
Poder Público Local
65%
Poder Público Estadual
5%
Conjunto de essência geral: Administração
Tabela 11
Quem deve cuidar da praça Santo Antônio?
Palavras ou frases chaves
Sujeitos da pesquisa
Poder Público Local e Comunidade
40%
Poder Público Local
60%
Conjunto de essência geral: Administração
90
Tabela 12
Como o usuário cuidaria da praça João Francisco de Carvalho
Palavras ou frases chaves
Sujeitos da pesquisa
Através de uma intervenção física –
modificação estrutural (anseio do usuário)
Através do zêlo
11%
Não sabe
11%
Através da limpeza
46%
Organizando
5%
Cuidando dos jardins e da arborização
11%
Estipulando regras para o uso do espaço
11%
5%
Conjunto de essência geral: Administração
Tabela 13
Como o usuário cuidaria da praça Santo Antônio
Palavras ou frases chaves
Sujeitos da pesquisa
Através de uma intervenção física –
modificação estrutural (anseio do usuário)
Através da limpeza
13%
Estipulando regras para o uso do espaço
13%
Conscientizando adultos e crianças acerca
do uso e conduta para com a praça
(educação ambiental)
37%
37%
Conjunto de essência geral: Administração
A partir dos conjuntos de essências específicos foi possível verificar os
elementos signíficos que contribuem para desvendar o vivenciar das praças João
Francisco de Carvalho e Santo Antônio e o grau de importância de cada um para seus
usuários. Esses elementos variam desde os que compõem a infraestrutura dessas
praças, o espaço real, aos configurados apenas no espaço ideal, baseados no que os
usuários, conceitualmente, entendem pelo signo urbano praça e o que este representa.
91
Tais elementos signíficos também foram constatados nos mapas mentais.
Através dessas imagens imediatas do espaço vivido, provenientes da apreensão de
significados e decorrentes da construção mental e de símbolos advindos do mundo
percebido, cada participante da pesquisa representou aquilo que acredita ser essencial
quando vivencia as referidas praças.
5.2. Imagens imediatas do espaço vivido – os mapas mentais
As representações mentais constituem-se nas imagens imediatas que cada
usuário ou morador do entorno imediato às praças João Francisco de Carvalho e Santo
Antônio têm das mesmas. De acordo com Kashiwagi e Kozel (2005), essas imagens
são únicas, pois são frutos de suas relações com esses espaços, com si mesmos, e de
sua capacidade de abstrair do mundo real o que é visível apenas em si mesmos.
A interpretação dos mapas mentais baseou-se no método de análise
desenvolvido por Kozel (2001), cuja seqüência de etapas sugere, primeiramente, a
análise quanto à forma de representação dos elementos na imagem, seguida pela
análise quanto à distribuição dos elementos na imagem (disposição da imagem) e por
fim análise quanto à especificação dos ícones.
Sendo assim, na primeira etapa, verificou-se uma predominância maior de
ícones e letras (estas últimas na maioria das vezes associadas aos ícones) como pode
ser observado, a seguir, nos mapas mentais 1 e 2.
92
Ícones
Letras
MAPA MENTAL 1. Praça João Francisco de Carvalho.
Imagem representada em forma horizontal
Entrevista semi-estruturada 01.
MAPA MENTAL 2. Praça João Francisco de Carvalho.
Imagem representada em forma horizontal
Entrevista semi-estruturada 07.
93
No que se refere à distribuição dos elementos da imagem (disposição da
imagem), verificou-se tanto a representação em forma horizontal, apresentando
elementos que indicam os limites ou a conformação das praças, como pode ser
observado nos mapas mentais 1 e 2, já expostos, e nos mapas 3 e 4, como também a
representação de maneira dispersa, apresentando ícones desenhados aleatoriamente,
mapas mentais 5 e 6.
MAPA MENTAL 3. Praça João Francisco de Carvalho.
Imagem representada em forma horizontal.
Entrevista semi-estruturada 13.
94
MAPA MENTAL 4. Praça Santo Antônio.
Imagem representada em forma horizontal.
Entrevista semi-estruturada 15.
MAPA MENTAL 5. Praça João Francisco de Carvalho.
Imagem representada de maneira dispersa
Entrevista semi-estruturada 10.
95
Elemento móvel
Carro
MAPA MENTAL 6. Praça Santo Antônio.
Imagem representada de maneira dispersa
Entrevista semi-estruturada 19.
Segundo Kashiwagi e Kozel (2005), o aparecimento da disposição da imagem
dispersa geralmente está relacionada a participantes que se encontram distantes da
área de estudo. No caso da presente pesquisa seriam os usuários que não pertencem
ao entorno imediato às praças. Entretanto, isso não foi verificado. Os mapas mentais
que se apresentam de forma dispersa pertencem a moradores do entorno, mas que
raramente as freqüentam. É interessante relatar que ambas praças podem ser vistas de
suas janelas, mas não pertencem aos espaços que cotidianamente experienciam.
Após as análises preliminares, foram observados os ícones que compõem as
imagens, que segundo Kozel (2001) podem ser classificados em quatro grupos:
representando elementos da paisagem natural, representando elementos da paisagem
construída, representando elementos móveis, e representando elementos humanos.
96
Dentre os mapas analisados apenas um apresentou ícones representando
elementos humanos – pessoas em geral (mapa mental 7), e outro apresentou ícones
representando elementos móveis – carro (mapa mental 6, já exposto). Os demais
apresentaram ícones referentes à paisagem natural – vegetação e árvores; e elementos
referentes à paisagem construída – rua, escadas, calçada, casas e estabelecimentos
comerciais. (mapas mentais 1, 2, 3, 4 e 5, já expostos e mapas mentais 8, 9, 10, 11 e
12).
Elemento humano
MAPA MENTAL 7. Praça João Francisco de Carvalho.
Imagem representada em forma horizontal.
Entrevista semi-estruturada 09.
97
MAPA MENTAL 8. Praça João Francisco de Carvalho.
Imagem representada em forma horizontal.
Entrevista semi-estruturada 08.
MAPA MENTAL 9. Praça Santo Antônio.
Imagem representada em forma horizontal.
Entrevista semi-estruturada 16.
98
MAPA MENTAL 10. Praça João Francisco de Carvalho.
Imagem representada em forma horizontal.
Entrevista semi-estruturada 04.
MAPA MENTAL 11. Praça Santo Antônio.
Imagem representada em forma horizontal.
Entrevista semi-estruturada 12.
99
MAPA MENTAL 12. Praça Santo Antônio.
Imagem representada em forma horizontal.
Entrevista semi-estruturada 18.
Como observado nos mapas mentais 4, 6, 9, 11 e12, referentes à praça Santo
Antônio a percepção de seus usuários é expressa numa imagem que se caracteriza por
uma área composta por árvores e cercada por residências, o que confirma o vivenciar
deste espaço, pela falta de uma infraestrutura que o permita ser reconhecido como
praça.
Já na praça João Francisco de Carvalho, em virtude do local onde está inserida,
da infraestrutura existente, que proporciona maior diversidade de elementos, e das
formas como vem sendo experienciada, a apreensão imediata da mesma torna-se
seletiva, ou seja, os usuários tendem a chamar atenção e a registrar elementos/ fatos
do vivido numa escala de importância.
100
Sendo assim, de maneira geral, observa-se a forte presença dos ícones naturais
em todos os mapas mentais, mais especificamente as árvores (contidas em quadrados
de alvenaria). As árvores são grandes, exuberantes, promovem sombreamento, e
também, no caso da referida praça, possuem raízes aéreas que comprometem o piso
da mesma.
Em seqüência, os elementos construídos como os estabelecimentos comerciais
representam forte impacto no vivenciar deste espaço. Há a predominância da
bomboniere, que segundo os usuários, pode ser considerada um ponto positivo e em
contrapartida o bar, um ponto negativo. Ainda como elementos construídos, aparecem
a conformação da praça, com as escadarias, delimitação dos canteiros e a boca de
lobo, esta última representada pelas letras “paradão”, “sujeira pura”, “água parada”.
Na praça João Francisco de Carvalho, ao contrário da praça Santo Antônio, não
é a ausência de uma infraestrutura que influencia o seu vivenciar, mas sim os
elementos físico-estruturais que a configuram, seja de forma positiva ou negativa.
Observa-se que os elementos humanos são praticamente desconsiderados em
ambas as praças. Apenas um participante da pesquisa os representou em seu mapa
mental; este mesmo participante está entre os poucos que, durante a entrevista semiestruturada, referiu-se ao signo urbano praça como local para atividades culturais e
reuniões comunitárias.
É importante salientar que a maioria dos elementos signíficos presentes nos
mapas mentais também foram constatados nos conjuntos de essências específicos.
101
5.3. Outras variáveis que influenciam a percepção das praças João Francisco de
Carvalho e Santo Antônio.
É importante ressaltar que a percepção pode variar de acordo com a cultura do
indivíduo, tempo histórico, idade, situação psicológica, dentre outros (ROCHA, 2003).
No caso das praças estudadas, de maneira geral, sua apreensão, pelos usuários e
moradores de seu entorno imediato, foi similar. Entretanto observou-se que há uma
variação na forma de expressão, na construção das frases e conteúdo da informação.
Quanto maior o grau de escolaridade do entrevistado, mais amplo é o vocabulário e
mais atualizado é o conhecimento sobre o tema abordado. Nas tabelas 14 e 15,
referentes ao nível de escolaridade dos participantes da pesquisa, observa-se que na
praça João Francisco de Carvalho a maioria dos entrevistados completou apenas o
ensino fundamental II e na praça Santo Antônio a maioria completou o ensino médio.
Tabela 14
Nível de escolaridade dos usuários da praça João Francisco de Carvalho
Grau de escolaridade
Sujeitos da pesquisa
Curso superior incompleto
7%
Ensino médio completo
29%
Ensino fundamental II completo
36%
Ensino Fundamental II incompleto
14%
Ensino Fundamental I incompleto
7%
Nenhum
7%
102
Tabela 15
Nível de escolaridade dos usuários da praça Santo Antônio
Grau de escolaridade
Sujeitos da pesquisa
Ensino médio completo
60%
Ensino fundamental II completo
20%
Ensino fundamental I completo
20%
Nos depoimentos transcritos verifica-se a influência que o grau de conhecimento
adquirido tem na percepção desses espaços.
Do meu ponto de vista, uma praça quando é bem organizada, traz várias
formas de diversão. Às vezes se você tem crianças, pode trazê-las para brincar
na praça, se você não tem, então traz uma dama e joga com uma amiga ou um
amigo, entendeu?! Então a praça tem várias funções, diversão, é um espaço
para pensamento, para ficar mais à vontade...
(ENTREVISTA 04. Conjunto de essência geral: Qual é a função das praças.
Praça João Francisco de Carvalho. Grau de escolaridade do entrevistado:
Cursando ensino médio).
Vixie! Pra brincar com as crianças! Pras crianças brincar...
(ENTREVISTA 10. Conjunto de essência geral: Qual é a função das praças.
Praça João Francisco de Carvalho. Grau de escolaridade do entrevistado:
Ensino fundamental II incompleto).
Olha, pra mim, a função da praça é principalmente a de reunir pessoas. É na
praça que agente conhece novas pessoas, faz novos contatos. Então quando
eu penso na praça, eu penso em confraternização, em reunião de pessoas
(ENTREVISTA 16. Conjunto de essência geral: Qual é a função das praças.
Praça Santo Antônio. Grau de escolaridade do entrevistado: ensino médio
completo/ cursando ensino superior UESC).
Outro ponto a ser considerado é que em alguns casos, o participante da pesquisa
não considerou a freqüência como referente à sua constante permanência nas praças,
fosse por motivo de trabalho ou por residir em seu entorno imediato, mas por outras
razões. E embora, conforme verificado durante os roteiros de observação, a praça João
103
Francisco de Carvalho venha funcionando como ponto de ônibus intermunicipal Ilhéus/
Itabuna e vice versa, os entrevistados associaram a freqüência ao espaço
principalmente às atividades relacionadas ao lazer, restringindo-a aos finais de semana,
conforme pode ser constatado na tabela 16, referente à freqüência, especificamente
praça João Francisco de Carvalho.
Tabela 16
Freqüência de usuários na praça João Francisco de Carvalho
Dias da semana
Sujeitos da pesquisa
Durante a semana e fim de semana
38%
Fim de semana
62%
Conjunto de essência geral: Identificação e uso das praças
Cabe também destacar o tempo de permanência dos participantes da pesquisa
nas referidas praças. Conforme pode ser observado na tabela 17, a maioria não passa
mais do que duas horas na praça João Francisco de Carvalho, e aqueles que passam
de seis horas ou mais associaram a permanência ao trabalho nos estabelecimentos
comerciais, que se encontram dentro do perímetro da praça ou em seu entorno
imediato.
Tabela 17
Tempo de permanência dos usuários na praça João Francisco de
Carvalho
Tempo de permanência
Sujeitos da pesquisa
Meia hora
15%
Uma hora
8%
Duas horas
38%
Três horas
8%
Seis horas ou mais
31%
Conjunto de essência geral: Identificação e uso das praças
104
Já no caso da praça Santo Antônio, a permanência referente a seis horas ou
mais, conforme pode ser verificado na tabela 18, se deve ao fato dos participantes da
pesquisa considerarem a área da praça como parte integrante de suas residências,
uma vez que não há um limite físico claro entre este espaço público e o privado.
Também é importante pontuar que os participantes que alegaram não freqüentá-la
também residem em seu entorno imediato, mas não reconhecem tal espaço como parte
integrante de seu ambiente experienciado.
Tabela 18
Tempo de permanência dos usuários na praça Santo Antônio
Tempo de permanência
Sujeitos da pesquisa
Seis horas ou mais
80%
Não freqüenta
20%
Conjunto de essência geral: Identificação e uso das praças
5.4. Concluindo a análise
Segundo Harvey (1992), a experiência simbólica do espaço pode ser definida
pelas interações entre o significado simbólico, a forma, e o comportamento espacial.
Sendo assim as transformações nas praças João Francisco de Carvalho e Santo
Antônio ocorrem diariamente à medida que se relacionam com seus usuários através
de seus sentimentos e vivências. Trata-se do espaço ideal, e são as transformações
que acontecem no espaço ideal que influenciam a configuração deste no espaço real.
Conforme verificado nos conjuntos de essências específicos e confirmados pelos
mapas mentais o vivenciar das referidas praças é diretamente influenciado por
105
elementos de ordem físico-estrutural que se contrapõem a elementos de ordem
conceitual e simbólica. Ou seja, as sensações e impressões causadas ao vivenciar o
espaço real não condizem com o que os usuários deste espaço entendem pelo signo
urbano praça e o que este representa. Sendo assim, através da manifestação clara de
seu descontentamento, os usuários as reconfiguram no espaço ideal, expondo seus
anseios e necessidades.
5.5. Renovar, reabilitar ou requalificar as praças João Francisco de Carvalho e
Santo Antônio?
Após a reconstituição da percepção ambiental dos usuários e moradores do
entorno imediato às praças em estudo e a constatação de que as mesmas já se
encontram em outro patamar de configuração no espaço ideal, convidando a uma
reconfiguração no espaço real, cabe retomar o questionamento: Em que sentido
acontecerá a revitalização destes espaços? As praças serão renovadas, reabilitadas ou
requalificadas?
Como abordado anteriormente, o conceito renovar não se aplica ao presente
trabalho, pois a idéia não é demolir o edificado e conseqüentemente substituí-lo por
uma nova construção, geralmente com características morfológicas e tipológicas
diferentes. Também não se pode dizer que as praças serão reabilitadas, pois este
conceito envolve uma intervenção que vai além das dimensões destes espaços.
Dessa forma, o conceito que mais se adequa ao presente trabalho é o de
requalificar, pois de acordo com Guerra et al (2005) através desse processo busca-se
promover a construção ou recuperação de equipamentos e infra-estruturas e a
106
valorização do espaço público, permitindo a introdução de qualidades urbanas, de
acessibilidade e centralidade, provocando mudanças de valor seja no nível econômico,
cultural, paisagístico ou social.
107
6. REQUALIFICANDO AS PRAÇAS JOÃO FRANCISCO DE CARVALHO E SANTO
ANTÔNIO – ESBOÇO PRELIMINAR
O esboço preliminar de requalificação das praças João Francisco de Carvalho
e Santo Antônio foi efetuado em três etapas:
6.1. levantamento espacial (cadastro) das referidas praças efetuado em
função dos roteiros de observação e através da ficha para “levantamento quantitativo
dos equipamentos e estruturas existentes” (quadros 5 e 6) e ficha para “avaliação
qualitativa” (quadros 7 e 8), desenvolvidas com base na metodologia para
levantamento, cadastramentos, diagnóstico e avaliação de praças no Brasil proposta
por De Angelis, Castro e Neto (2004).
Quadro 5
Levantamento quantitativo dos equipamentos e estruturas existentes da praça João Francisco de
Carvalho
Equipamentos/ estruturas
Sim
Não
Quantidade
Bancos
X
Iluminação – alta ( X ) baixa ( )
X
1
Lixeiras
X
Sanitários
X
Telefone Público
X
Bebedouros
X
Caminhos
X
Palco/ coreto
X
Obra de arte
X
Espelho d’água ou chafariz
X
Estacionamento
X
Ponto de ônibus
X
1
Ponto de táxi
X
Quadra esportiva
X
Parque infantil
X
Banca de revista
X
Quiosque de alimentação ou similar
X
1 bomboniere e 1 bar
Identificação - placa
X
1
Edificação institucional
X
Templo religioso
X
Fonte: De Angelis, Castro e Neto (2004, p. 61-62).
Adaptado por COSTA, 2007
108
Quadro 6
Levantamento quantitativo dos equipamentos e estruturas existentes da praça Santo Antônio
Equipamentos/ estruturas
Sim
Não
Quantidade
Bancos
X
Iluminação – alta ( X ) baixa ( )
X
Lixeiras
X
Sanitários
X
Telefone Público
X
Bebedouros
X
Caminhos
X
Palco/ coreto
X
Obra de arte
X
Espelho d’água ou chafariz
X
Estacionamento
X
Ponto de ônibus
X
Ponto de táxi
X
Quadra esportiva
X
Parque infantil
X
Banca de revista
X
Quiosque de alimentação ou similar
X
Identificação - placa
X
Edificação institucional
X
1 posto de saúde
Templo religioso
X
Quadro 7
Avaliação qualitativa dos equipamentos e estruturas existentes da praça João
Francisco de Carvalho
Equipamentos/ estruturas
Nota
Ausência
Iluminação – alta ( X ) baixa ( )
regular
Vegetação
regular
Paisagismo
ausente
Localização
boa
Conservação e limpeza
regular
Piso
regular
Segurança
regular
Conforto Ambiental
ausente
Ponto de ônibus
regular
Quiosque de alimentação (bomboniere)
bom
Bar
regular
Identificação - placa
regular
Fonte: De Angelis, Castro e Neto (2004, p. 63).
Adaptado por COSTA, 2007
109
Quadro 8
Avaliação qualitativa dos equipamentos e estruturas existentes da praça Santo
Antônio
Equipamentos/ estruturas
Nota
Ausência
Iluminação – alta ( ) baixa ( )
ausente
Vegetação
regular
Paisagismo
ausente
Localização
boa
Conservação e limpeza
ausente
Piso
ausente
Segurança
ausente
Conforto Ambiental
ausente
Ponto de ônibus
ausente
Edificação institucional (posto de
bom
saúde)
6.2. representação gráfica de ambas as praças, tais como atualmente se
apresentam, com base nos roteiros de observação e medições feitas no local (figuras
12 e 13).
Calçada
Canteiros
Poste de luz
Restaurante/ bar
Armarinho
Escada de acesso
Bomboniere
Quiosque de doces
Chaveiro
Figura 12: Planta Baixa - Praça João Francisco de Carvalho
Sem escala
Desenho: COSTA, 2007
110
Árvores existentes
Área da praça
Rua
Figura 13: Planta Baixa - Praça Santo Antônio
Sem escala
Desenho: COSTA, 2007
6.3. Elaboração do projeto com base nos elementos que diretamente
influenciam o vivenciar desses espaços, constatados nos conjuntos de essências
específicos e confirmados pelos mapas mentais. Os norteadores foram reunidos nos
quadros 9, 10 e 11.
Quadro 9
Principais elementos físicos que diretamente influenciam o vivenciar da
praça João Francisco de Carvalho
1. A infraestrutura como um todo Constatado através dos conjuntos de
(incluindo a falta de mobiliário urbano - essências específicos. Elementos da
mesas, bancos, iluminação adequada) infraestrutura, como conformação da
praça, canteiros e escadarias, também
foram
constatados
nos
mapas
mentais.
2. Arborização e vegetação
Constatado no conjunto de essências
específicos e através dos mapas
mentais.
3. Falta de área recreativa para Constatado através dos conjuntos de
crianças
essências específicos.
4.
Satisfação
ou
insatisfação Constatado através dos conjuntos de
relacionada a alguns estabelecimentos essências específicos. Ícones bar e
comerciais – Satisfação: bomboniere
bomboniere também presentes nos
Insatisfação: bar
mapas mentais.
5. Organização espacial
Constatado através dos conjuntos de
essências específicos.
111
Quadro 10
Principais elementos físicos que diretamente influenciam o vivenciar da
praça Santo Antônio
1. A infraestrutura como um todo (incluindo Constatado através dos conjuntos
a falta de mobiliário urbano - mesas, de essências específicos e mapas
bancos, iluminação adequada)
mentais.
2. Arborização e vegetação
Constatado nos conjuntos de
essências específicos e através
dos mapas mentais.
Quadro 11
Principais elementos de ordem conceitual e simbólica referentes à praça
João Francisco de Carvalho e Santo Antônio que diretamente influenciam
a forma como seus usuários as vivenciam
1. Lazer (a praça enquanto espaço para
Constatado através dos conjuntos
diversão, entretenimento, contemplação,
de essências específicos.
relaxamento).
2. Convívio social (a praça enquanto
espaço para encontrar os amigos (as), Constatado através dos conjuntos
namorar, brincar, apresentar e participar de de essências específicos.
atividades culturais).
6.3.1. Esboço preliminar de requalificação da praça João Francisco de
Carvalho
A conformação retangular desta praça assim como os acessos principais foram
mantidos como atualmente estão configurados, já que tais elementos não se
apresentaram de forma negativa na percepção de seus usuários. Já os pontos de luz
existentes foram removidos, substituídos e mais foram acrescentados. Sugeriu-se
mobiliário urbano como bancos e lixeiras. E os pequenos canteiros laterais e centrais
suspensos em estrutura de alvenaria foram removidos, dando lugar a grandes áreas
circulares na cota do piso (figura 14).
112
Figura 14: Perspectiva– requalificação da Praça João Francisco de Carvalho
Sem escala
Desenho: COSTA, 2007
Estas áreas têm por objetivo abrigar vegetação variada sugerida e as árvores de
grande porte já existentes, oferecendo espaço para acomodação das raízes, de forma
que estas últimas não venham comprometer o piso da praça futuramente. Além disso,
as áreas circulares contribuem para delinear um caminho de percurso pela praça.
A idéia do caminho está aliada ao lúdico, à descoberta. A praça João Francisco
de Carvalho deixa de ser um espaço de trânsito rápido e linear, para se tornar um
espaço onde a cada passo é desvendado um novo lugar. Ou seja, foram criados
“cantinhos” onde aspectos importantes ao processo de microrritualizações de seus
usuários, relacionado aos elementos de ordem conceitual e simbólica como o lazer e
convívio social, foram resgatados e ganharam ênfase.
Sendo assim, elementos como a bomboniere, que se apresenta de forma
positiva na percepção dos usuários, foi mantida e mesas de apoio com guarda-sol
foram introduzidas em sua proximidade. O restaurante/ bar, que se apresenta de
maneira negativa na percepção dos usuários, foi removido (podendo ser relocado no
113
entorno da praça próximo aos outros pontos comerciais já existentes), e em seu lugar
foi sugerido um parque infantil. Também foi sugerido um espaço com mesas para jogos
de dama, xadrez, carteado, dentre outros.
Cabe salientar que a praça continua servindo como ponto de apoio ao trânsito do
ônibus inter-municipal Ilhéus/ Itabuna (vice-versa), mas para que seu espaço físico não
seja completamente ocupado pelo grupo que apenas está no local para esperar o
ônibus foi sugerido um abrigo adequado para o ponto.
6.3.2. Esboço preliminar de requalificação da praça Santo Antônio
Como constatado no presente trabalho, o vivenciar da praça Santo Antônio é
marcado pela falta de uma infraestrutura que a permita ser reconhecida como tal, sendo
assim, a proposta preliminar de requalificação deste espaço foi uma concepção do
mesmo.
A conformação triangular deste espaço foi mantida e os acessos foram criados a
partir da cota da rua. Sugeriu-se uma calçada contornando toda a praça, no intuito de
enfatizar o limite entre o público (a praça em si) e o privado (as residências do entorno).
Assim como na praça João Francisco de Carvalho, o caminho está presente e
delineado por canteiros circulares; foi sugerida a introdução de vegetação variada, e as
árvores de grande porte, já existentes, foram preservadas. Também foram sugeridas
luminárias, lixeiras e bancos (figura 15).
114
Figura 15: Perspectiva– requalificação da Praça Santo Antônio
Sem escala
Desenho: COSTA, 2007
Como os usuários mais freqüentes da praça Santo Antônio são crianças, na
maioria advindas de seu entorno imediato, a idéia foi criar um espaço que não só
atendesse os anseios do usuário adulto, mas também possibilitasse brincadeiras
infantis como: “esconde, esconde”; “pega, pega”; “jogar bola”, dentre outras, e que não
estivessem exclusivamente atreladas à existência de um playground. Dessa a forma a
praça Santo Antônio, antes caracterizada como um local desprovido de qualquer
infraestrutura, torna-se um espaço lúdico e convidativo a usuários de todas as idades.
Cabe relatar que como ambas propostas são esboços preliminares, não se
priorizou o detalhamento do mobiliário urbano ou especificou-se a vegetação a ser
introduzida.
115
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trabalho buscou-se discutir a intervenção em espaços públicos urbanos,
mais especificamente a revitalização, tomando como estudo de caso as praças João
Francisco de Carvalho e Santo Antônio, apontando a reconstituição da percepção
ambiental de seus usuários e moradores do entorno imediato como ferramenta
imprescindível ao processo.
O ponto de partida foi o redirecionamento do espaço como apenas físico para o
de espaço vivido, abordando a percepção sob o aporte teórico-metodológico da
Fenomenologia,
buscando
desvendar
o
vivenciar
das
referidas
praças
sem
comprometer sua riqueza e complexidade de significados. Nesse contexto, foi
fundamental o levantamento histórico da configuração das praças e do bairro onde
estão inseridas, assim como a identificação dos grupos sociais que as utilizam e como
estes vêm se interagindo.
Através da reconstituição da percepção ambiental foi possível identificar os
elementos signíficos que diretamente influenciam no vivenciar destas praças, assim
como constatar se as mesmas necessitam ou não ser revitalizadas.
Como foi verificado que os elementos signíficos no espaço ideal convidam a uma
reconfiguração do espaço real, a proposta de revitalização sugerida foi a de
requalificação, no intuito de promover a construção ou recuperação tanto da
infraestrutura como dos equipamentos, introduzir ou reconstituir qualidades urbanas,
sejam de acessibilidade, de centralidade, simbólicas ou ecológicas, contribuindo dessa
116
forma, para resgatar e valorizar as microrritualizações geradas pelas gratificações
afetivas de cada usuário para com estas praças.
Os projetos preliminares de requalificação concluem o último objetivo específico
proposto pelo presente trabalho: esboçar um projeto de revitalização, tendo como base
os resultados obtidos com a pesquisa. Entretanto, cabe salientar que qualquer processo
de intervenção ou planejamento urbano é participativo e contínuo. Sendo assim, os
projetos preliminares serão apresentados aos usuários das praças, objetivando não só
aguçar-lhes ainda mais a percepção em relação a estes espaços, como desencadear o
surgimento de novas idéias e possibilidades.
“Nós não somente experienciamos o ambiente como também o modificamos. E
o fato de modificá-lo também muda como o experienciamos. O homem não só
responde ao seu ambiente, como também o (re) cria” (ITTELSON, 1978, p.
211).
O processo de intervenção urbana em espaços públicos como as praças com
base na reconstituição da percepção ambiental de seus usuários, sob a abordagem
Fenomenológica, possibilita restabelecer o contato entre o mundo e as significações, no
qual o espaço é vivido e constantemente (re) construído a partir daqueles que o
experienciam.
117
8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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xvii, 112 f. : il. ; anexos.
Orientador: Paulo dos Santos Terra.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual
de Santa Cruz. Programa Regional de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente.
Inclui bibliografia.
1. Urbanização - Aspectos Ambientais. 2. Praças Salobrinho, Ilhéus (BA). 3. Avaliação paisagística.
I. Título.
CDD 363.7
Download

PERCEPÇÃO AMBIENTAL E REVITALIZAÇÃO: as praças do