1 SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL MEC – SETEC INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MATO-GROSSO CAMPUS CUIABÁ – OCTAYDE JORGE DA SILVA DEPARTAMENTO DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO ILDETE MARIA CARDOSO BANDEIRA ESCOLARIZAÇÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA E INSERÇÃO NO MUNDO DO TRABALHO: UM ESTUDO EM SUPERMERCADOS DA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM-PA. Belém - Pará Outubro de 2009 2 INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MATO-GROSSO CAMPUS CUIABÁ – OCTAYDE JORGE DA SILVA DEPARTAMENTO DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO Curso de Especialização Latu Sensu a Distância: Educação Profissional e Tecnológica Inclusiva ILDETE MARIA CARDOSO BANDEIRA ESCOLARIZAÇÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA E INSERÇÃO NO MUNDO DO TRABALHO: UM ESTUDO EM SUPERMERCADOS DA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM-PA. Belém – PA Outubro de 2009 3 Ficha Catalográfica BANDEIRA, Ildete Maria Cardoso Escolarização de Pessoas com Deficiência e Inserção no Mundo do Trabalho: Um Estudo em Supermercados da Região Metropolitana de Belém-Pa. Belém-PA, 2009 Total de Folhas da Monografia: 91 TAVARES NETO, João Gomes Centro Federal de Educação Tecnológica de Mato Grosso Monografia do Curso de Especialização Latu Sensu a Distência: Educação Profissional e Tecnológica Inclusiva 4 ILDETE MARIA CARDOSO BANDEIRA ESCOLARIZAÇÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA E INSERÇÃO NO MUNDO DO TRABALHO: UM ESTUDO EM SUPERMERCADOS DA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM-PA. Monografia apresentada ao Departamento de Pesquisa e PósGraduação do Curso de Especialização Latu Sensu a Distância: Educação Profissional e Tecnológica Inclusiva, do INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MATOGROSSO - CAMPUS CUIABÁ – OCTAYDE JORGE DA SILVA, como requisito para a obtenção do título de Especialista. Orientador: Profº.( MSc). João Gomes Tavares Neto Belém – PA Outubro de 2009 5 ILDETE MARIA CARDOSO BANDEIRA ESCOLARIZAÇÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA E INSERÇÃO NO MUNDO DO TRABALHO: UM ESTUDO EM SUPERMERCADOS DA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM-PA. Monografia em Educação Profissional e Tecnológica Inclusiva, submetido à Banca Examinadora composta pelos Professores do Programa de Pós-Graduação do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Especialista. Aprovada em: 23 de Outubro de 2009. _____________________________________________ Prof. (MSc, ) João Gomes Tavares Neto (Orientador) ______________________________________________ Profª. (Drª.) Maria Angélica Alberto do Espírito Santo (Membro da Banca) _____________________________________________ Profª. (Drª.) Rosângela da Silva Almeida (Membro da Banca) Belém-Pa Outubro 2009 6 DEDICATÓRIA À minha mãe Gildete e ao meu Luís, meus a voltar irmão incentivadores estudar. Ao meu marido Moisés e meus filhos Rafael, Gabriel e Isabele que me nessa empreitada. apoiaram 7 AGRADECIMENTOS Ao MSc. João Gomes Tavares Neto, pela sua dedicada orientação durante todo o processo de elaboração desse trabalho. À Maria Gildete Cardoso Bandeira, principal responsável por tudo que conquistei ao longo de minha vida. Ao MSc. Luís Cláudio Cardoso Bandeira, grande incentivador pela educação em nossa família. A Ademilson Chaves de Souza, coordenador da educação especial, que permitiu a realização de pesquisas e coleta de dados junto ao setor de profissionalização desta Coordenadoria de Educação Especial-COEES/SEDUC. A Ângelo Guedes Aquino Junior, técnico do setor de profissionalização da COEES/SEDUC, pelas preciosas informações sobre os trabalhadores deficientes no mercado de trabalho na RMB. Ao CINPED - Centro de Inclusão da Pessoa com Deficiência – CINPED/ SETER/ SINE pela oferta de dados estatísticos e outras informações que contribuíram com o trabalho que ora concluímos. Ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso/MEC e seus professores, pela oportunidade de me capacitar e qualificar nesse curso de especialização. 8 “As conquistas “individuais” serão sempre resultado de processo um coletivo vivenciado no grupo (familiar, escolar, vizinhança...)” Vygotsky 9 RESUMO Esta pesquisa problematiza o processo de escolarização de pessoas com deficiência na região metropolitana de Belém, estado do Pará, associado à sua inserção no mundo do trabalho. O despertar para esse tema surgiu da necessidade de discutir a categoria inclusão educacional e social de pessoas com deficiência, considerando os seguintes aspectos: 1)escolarização (acesso ao conhecimento científico e tecnológico apoiado na utilização de tecnologias assistivas); 2) inserção em redes sociais de apoio (família, escola e instituições estaduais). A partir de verificações preliminares, identificou-se a presença significativa de pessoas deficientes, no setor do comércio, em especial, no ramo supermercadista, a partir daí, optamos por desenvolver a pesquisa voltada para este ramo. Utilizamos prioritariamente metodologia qualitativa e quantitativa no processo de investigação, para delinear trajetórias educacionais, familiares e profissionais, bem como de sociabilidades construídas por esses atores. Esse processo qualitativo foi realizado parcialmente devido a dificuldade na obtenção dos dados no setor privativo, que restringe a divulgação de informações. Foram entrevistados trabalhadores desempregados que freqüentam o setor de profissionalização e técnicos da COEES, instituição onde trabalho. Como hipótese, considera-se que, a associação desses fatores tem possibilitado, ao lado do arcabouço legal e do processo de sensibilização do empresariado local, o ingresso e permanência dessas pessoas no mercado de trabalho, bem como, garantido a sua empregabilidade. Palavras-Chave: educação, inclusão, trabalho, redes sociais. 10 SUMMARY This search problematiza the process of education of persons with disabilities in the metropolitan region of Bethlehem, the State of Pará, associated with their integration into the world of work. Awaken to the matter arose from the need to discuss the social and educational inclusion category of persons with disabilities, taking into account the following aspects: (1) schooling (access to scientific and technological knowledge supported the use of technologies assistivas); (2) insertion into social support networks (family, school and State institutions). From preliminary checks, identified the significant presence of disabled people, business, in particular, in supermercadista, from there, we chose to develop targeted search for this class. We use primarily qualitative and quantitative methodology in the research process, to delineate tracks educational, professional and family, as well as sociabilidades built by those actors. This qualitative process was performed partially due to difficulty in obtaining the data in the private sector, which restricts the disclosure of information. Unemployed workers interviewed that attend the professionalisation and COEES technicians, institution where work. As a hypothesis, it is considered that the Association of these factors have made it possible, next to the legal framework and the process of raising awareness of local entrepreneurship, join and stay of those people in the labour market, as well as guaranteed their employability. Keywords: education, inclusion, work, social networking. 11 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Gráfico 1: Número de Pessoas com Deficiência e Matrícula no Sistema de Ensino do Estado do Pará Gráfico 2: Nível de Escolaridade de Deficientes Empregados nos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-PA. Gráfico 3: Percentual de Empregados do sexo masculino e feminino dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-Pa. Gráfico 4: Faixa Etária das Pessoas Deficientes Empregadas nos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-Pa. Gráfico 5: Cursos Profissionalizantes Realizados Pelas Pessoas Deficientes Empregadas nos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-Pa. Gráfico 6: Tempo de Serviço das Pessoas Deficientes Empregadas nos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-Pa. Foto nº. 1: Deficiente Auditivo trabalhando como Embalador em supermercado na Região Metropolitana de Belém-Pará. Foto nº. 2: Deficiente Auditivo trabalhando como Serviços Gerais em supermercado na Região Metropolitana de Belém-Pará. Figura nº. 1: Redes Sociais dos Trabalhadores dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-Pa. 12 LISTA DE ABREVIATURAS ABRAS - Associação Brasileira de Supermercados APPD - Associação Paraense das Pessoas com Deficiência ASPAS - Associação Paraense de Supermercados BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CINPED – Centro de Inclusão da Pessoa com Deficiência CNAE - Classificação Nacional de Atividades econômicas COEES - Coordenadoria de Educação Especial CORDE - Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência CTPS - Carteira de Trabalho e Previdência Social DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos FEBRABAN- Federação Brasileira de Bancos FIPE - Fundação Instituto de Pesquisa Econômicas IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística INEP - Instituto Nacional de Estudos em Pesquisa Educacionais Anísio Teixeira LDBEN – Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LIBRAS - Língua Brasileira de Sinais MEC - Ministério da Educação e Cultura ONU - Organização das Nações Unidas PIB - Produto Interno Bruto PNEEs - Pessoas com Necessidades Educacionais Especiais RMB – Região Metropolitana de Belém SEDUC - Secretaria de Estado de Educação SEDH - Secretaria Especial dos Direitos Humanos 13 SEESP - Secretaria de Educação Especial SETER – Secretaria de Trabalho Emprego e Renda SINE – Sistema Nacional de Emprego UEEs - Unidades Educacionais Especializadas 14 LISTA DE TABELAS E QUADROS Tabela 1: Nível de Escolaridade por Deficiência dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-PA. Empregados dos Tabela 2: Sexo e Faixa Etária das Pessoas Deficientes Empregadas dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-PA. Tabela 3: Faixa Etária por Deficiência dos Empregados dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-PA. Tabela 4: Gênero relacionado com as deficiências dos Empregados dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-Pa Tabela nº. 5: Pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas por Tipo Deficiência e Sexo, no ano 2.000. Tabela nº. 6: Pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas por Nível Deficiência Física no ano 2.000. Tabela 7: Intermediação de Mão-de-obra Formal Pessoas com Deficiências Tabela 8: Movimento da Intermediação da Pessoa com Deficiência ao Mercado de Trabalho Comparação entre os anos de 2007 e 2008 - CINPED Tabela 9: Movimento da Intermediação da Pessoa com Deficiência ao Mercado de Trabalho, Período: 2007 e 2008 - COEES Tabela 10: Nível de Escolaridade por Tempo de Serviço dos Empregados dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-PA. Tabela 11: Tipos de Funções por Deficiência dos Empregados dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-PA. 15 SUMÁRIO INTRODUÇÃO..............................................................................................................16 CAPÍTULO 1 - AS RELAÇÕES CAPITALISTAS E TRANSFORMAÇÃO NO MUNDO DO TRABALHO.....................................................................................................................21 1.1 - As Mudanças no Mundo do Trabalho na Contemporaneidade........................21 1.2 - O Impacto das Transformações do Trabalho na Vida da Pessoa com Deficiência ................................................................................................................27 1.2.1 - A Legislação: como Aríete e Escudo?........................................................ 29 1.3 - Educação Inclusiva e Preparação para o Mundo do Trabalho.........................32 1.3.1 - A Deficiência Através da História................................................................32 1.3.2 - Educação Inclusiva e a Subjetividade Capitalista.......................................34 1.3.3 - O Direito à Educação Inclusiva...................................................................35 1.3.4 - Educação Inclusiva no Estado do Pará......................................................45 CAPÍTULO 2 - A DISCUSSÃO DO OBJETO: PESSOA DEFICIENTE E TRABALHO NO SETOR SUPERMERCADISTA NA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM...............................................................................................................48 2.1 - Um Breve Panorama do Setor Supermercadista no Pará...............................48 2.2 - O emprego de pessoas deficientes nos supermercados da RMB.................. 52 2.2.1. O perfil das pessoas deficientes inseridas no setor supermercadista na Região Metropolitana de Belém.............................................................................. 52 CAPÍTULO 3 - REDES SOCIAIS E INSERÇÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA NO SETOR SUPERMERCADISTA NA RMB..................................75 CONSIDERAÇÕES FINAIS.....................................................................................80 REFERÊNCIAS.......................................................................................................84 ANEXOS..................................................................................................................88 16 INTRODUÇÃO Esta monografia que tem como título “Escolarização de Pessoas com Deficiência e Inserção no Mundo do Trabalho: Um Estudo em Supermercados da Região Metropolitana de Belém-Pa”, constitui uma etapa conclusiva do curso de especialização “lato sensu” Educação Profissional Tecnológica Inclusiva, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso – IFMT. A partir de verificações preliminares, identificou-se a presença significativa de pessoas deficientes, no setor do comércio, em especial, no ramo supermercadista, na região metropolitana de Belém, estado do Pará. Essas pessoas apresentam um nível baixo de escolaridade, o que dificulta à sua inserção no mundo do trabalho, a partir daí, optamos por desenvolver a pesquisa voltada para este ramo. O despertar para esse tema surgiu da necessidade de discutir a problemática da inclusão educacional e social de pessoas com deficiência, considerando os seguintes aspectos: 1) escolarização (acesso ao conhecimento científico e tecnológico apoiado na utilização de tecnologias assistivas); 2) inserção em redes sociais de apoio (família, escola e instituições estaduais). Utilizamos prioritariamente metodologia qualitativa e quantitativa no processo de investigação, para delinear o perfil sócio-educacional de pessoas deficientes inseridas no ramo supermercadista e a partir disso, identificar trajetórias educacionais, familiares e profissionais, bem como as sociabilidades construídas por esses atores. Esse processo qualitativo foi realizado parcialmente devido a dificuldade na obtenção dos dados no setor privativo; que restringe a divulgação de informações. Foram entrevistados trabalhadores desempregados que freqüentam o setor de profissionalização e técnicos da COEES, local onde trabalho. Como hipótese, considerou-se que, a associação desses fatores possibilitaria, ao lado do arcabouço legal e do processo de sensibilização do empresariado local, o ingresso e permanência dessas pessoas no mercado de trabalho, bem como, a garantia de sua empregabilidade. 17 As pesquisas quantitativas e qualitativas foram realizadas junto ao Centro de Inclusão da Pessoa com Deficiência – CINPED/ SETER/ SINE onde foi entrevistada uma técnica desta instituição governamental e onde foram coletados dados estatísticos da instituição. Também recorremos ao setor de profissionalização da Coordenadoria de Educação Especial – COEES/SEDUC, onde realizando entrevistas com técnicos sobre o trabalho de intermediação entre as pessoas deficientes e o local de trabalho; além disso, produzimos a seleção, tabulação e análise de dados coletados por este setor no primeiro trimestre de 2008 em 8 supermercados da região metropolitana de Belém, com 84 deficientes empregados neste segmento do comércio. Foram analisadas as relações de gêneros, os tipos de deficiência, o nível de escolaridade, a faixa etária, o tempo de serviço no emprego atual, e a realização de cursos profissionalizantes e as funções exercidas por esses trabalhadores. No Brasil, em especial no Estado do Pará, a inserção das pessoas com deficiência no mundo do trabalho é muito pequena; dos 10 milhões de brasileiros com deficiência em idade de trabalhar, apenas 2% estão inseridos no mercado formal de trabalho. Destes, 20% ocupam empregos precários, não qualificados, com baixos salários e sem proteção legal. Não é por falta de leis que o deficiente brasileiro vivencia essa realidade de precarização no mundo do trabalho. Eis, por exemplo, o que diz o Decreto 3.298, de 20/12/99, sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, no artigo 2º. “Cabe (...) ao Poder Público assegurar à pessoa portadora de deficiência o pleno exercício de seus direitos básicos, inclusive (...) ao trabalho”. Mas adiante, no artigo 6º, o Decreto aponta como diretriz dessa política de integração “ampliar as alternativas de inserção econômica da pessoa (...) proporcionando a ela qualificação profissional e incorporação no mercado de trabalho” É preciso que a inclusão saia do papel e passe a ser construída e vivenciada em nossa sociedade, com um sistema educacional não discriminatório, que possibilite o acesso à educação, à formação profissional e, consequentemente, o ingresso no mercado de trabalho, este com adequação de suas estruturas humanas, físicas e técnicas as pessoas com deficiência. 18 No sistema capitalista, a exploração do trabalho organizada em larga escala, segundo princípios da organização “científica” do trabalho, também conhecida como Taylorismo e Fordismo, determinou ao longo do século XX, direta ou indiretamente, a vida de grande parte da população. A superação desse paradigma, no último quartel desse século impôs captura da subjetividade operária de modo integral. Os supermercados são espaços físicos da organização do capital e do trabalho com vistas à geração do lucro e de relações sociais em que aquele que compra a força de trabalho se esforça para retirar o máximo de valor daquele que a vende, em troca de um salário. Mesmo que os capitalistas não mencionem o assunto, é este o ângulo mais importante. Por causa dele é que se organizam os processos técnicos. Como resultado desta relação, temos de um lado, a acumulação do capital, e de outro, muitas vezes, o massacre de seres humanos. Todos estes aspectos, na nossa sociedade, não aparecem claramente, nem às nossas vistas e nem à nossa compreensão. Necessário se faz, pois, romper algumas barreiras para visualizar de alguma forma a verdade desses fatos, ou seja, constatar como é consumida e “sucateada” a força humana com vistas à acumulação do capital. É neste contexto de exploração do trabalho que a força de trabalho das Pessoas com Deficiência é absorvida, com um agravante de serem pessoas com limitações maiores que os demais trabalhadores, que tem o seu desenvolvimento atrasado pelos muitos séculos de isolamento e discriminação. Mesmo sabendo dessa realidade as empresas supermercadistas, na cidade de Belém-Pa. exigem perfis aos candidatos aos empregos, semelhantes aos exigidos pelo mercado de trabalho na contemporaneidade para a contratação de força de trabalho: ensino médio completo, curso preferencialmente ser jovem. profissionalizante, experiência comprovada e Como um fator complementar a esse tipo de contratação, o candidato deve apresentar apenas uma “deficiência leve”. Considerando as especificidades desse contexto e as peculiaridades das pessoas deficientes que se movimentam nesse cenário é que este trabalho ora apresentado estrutura-se desenvolve sua discussão estruturado em três capítulos: O primeiro capítulo intitula-se: “As Relações Capitalistas no Mundo do Trabalho”. Nele buscamos a partir dos autores Ricardo Antunes e Giovanne Alves, abordar as relações capitalistas no mundo do trabalho, sua nova morfologia e como 19 ela se configura na contemporaneidade a partir do conceito de precarização e reestruturação produtiva. Procuramos mostrar que esses fenômenos também se apresentam nos supermercados por duas vias: a utilização de tecnologia informática e a nova forma (mais racionalizada) de gestão do trabalho, que vai implicar no processo de seleção e contratação. Essa é a nova morfologia do trabalho que utiliza a força de trabalho de homens e mulheres deficientes em postos de trabalho com menor qualificação e mais baixos salários. Com isso busca-se uma associação entre esse novo contexto do trabalho com a realidade do setor supermercadista na Região Metropolitana de Belém-Pa. Como subitem deste capítulo discutimos a Educação inclusiva e preparação para o Mundo do Trabalho: o que é, como se caracteriza a educação inclusiva, autores que a discutem; como ela se opõe ao paradigma da integração. Apresentamos os dados do IBGE sobre deficiência no Pará; mostramos o crescimento da oferta de vagas na educação especial no Brasil e especialmente no Pará. Trata-se também da subjetividade capitalista que dificulta a inclusão de deficientes nas escolas, pois a educação produz indivíduos/sujeitos egoístas e individualista, que não primam pela solidariedade e igualdade de direitos que necessitam as PNEEs. Discutem-se as teorias educacionais de Paulo Freire e Vygotsky e suas contribuições para a formação do ser humano e sua relação com a sociedade; como o currículo pode facilitar a aprendizagem das pessoas deficientes na escola e alterar as possibilidades de aprendizagem e preparação para o mundo do trabalho. O segundo capítulo, denominado: A discussão do objeto: Pessoa deficiente e trabalho no setor supermercadista na Região Metropolitana de Belém. Caracteriza brevemente o setor supermercadista no estado do Pará e na Região Metropolitana de Belém. Mostra a partir das análises de (Gonçalves, 2009) o processo de modernização pelo qual o setor passa no estado a partir da década de 1990. Em seguida introduz a partir dos dados trabalhados, a discussão sobre o emprego de pessoas com deficiência nos supermercados. Discute-se o emprego de pessoas deficientes nos supermercados da RMB; expomos os principais pontos da pesquisa, desenvolvendo a análise dos dados. 20 Trata-se da Tecnologia assistiva como meio de Inclusão no Mundo do Trabalho e como facilitador do processo de aprendizagem na escola regular e nos cursos profissionalizantes e apresenta-se a proposta do desenho universal como tecnologia que pode ser utilizada por todas as pessoas com e sem deficiência, sem necessidade de adaptação, No terceiro capítulo, intitulado: Capital Social e Redes Sociais e Acesso ao Emprego no Setor Supermercadista na RMB, é realizada uma associação entre os conceitos de capital social e redes sociais com o ingresso de pessoas deficientes no trabalho no contexto da contemporaneidade, ou seja, em um mundo do trabalho em transformação, precário e imerso em novas tecnologias e em novas formas de gestão. Definem-se redes sociais, capital social e Identificam-se os elementos que constituem essas redes de apoio (família, amigos, conhecidos, instituições governamentais) e como elas ajudam ou não, a essas pessoas deficientes a ingressarem e se manterem no mercado de trabalho. 21 CAPÍTULO 1 – AS RELAÇÕES CAPITALISTAS E TRANSFORMAÇÃO NO MUNDO DO TRABALHO 1.1 - AS MUDANÇAS NO MUNDO DO TRABALHO NA CONTEMPORANEIDADE No decorrer do século XX, o processo de acumulação capitalista baseado na produção industrial toma vulto nunca antes imaginável. Se instaura um modelo de sociedade que incorpora a mercadoria como valor fundante da vida social e consolida a exploração do trabalho e do trabalhador como elemento indispensável à produção de valor. Neste período a nova hegemonia capitalista é alcançada com a utilização de um paradigma produtivo baseado na produção em larga escala e na racionalização dos processo de trabalho, denominado de fordismo/taylorismo, que domina a cena no mundo do trabalho e invade toda a vida social. A introdução e consolidação desse novo paradigma, apoiado, segudo (Harvey,1994), em um tripé composto pelo Estado, pelo sindicato e pelas corporações, possibilitou que a atividade econômica recrudescesse trazendo como conseqüência virtuosa um ciclo de estabilidade econômica com significativa oferta de emprego e renda nos países do centro capitalista no período do pós-guerra. Neste período de crescimento econômico e expasão da riqueza, o trabalho e a classe trabalhadora se configuram de uma forma peculiar. Associado a um processo de intensa exploração da força de trabalho, estabilizam-se as relações de emprego e proteção social e legal do trabalho possibilitando à classe trabalhadora planejar sua vida e suas relações sociais na perspectiva de longo prazo. Um conjunto de transformações no núcleo capitalista a partir de meados do século XX impôs a necessidade de alteração substantiva no modelo de acumulação. A desconstrução do tripé (Estado, corporações, sindicatos) que gerou o consenso necessário para o desenvolvimento capitalista no século XX, não suportou mais uma crise cíclica do capitalismo; como resposta a esta crise este modo de produção apresentou um conjunto de transformações nas esferas da produção econômica e das relações de poder, que a partir da década de 70 se desdobram com a 22 intensificação da mundialização do capital, de um processo de reestruturação produtiva e da construção da hegemonia do neoliberalismo. E tudo isso trouxe grandes e danosas conseqüências para o mundo do trabalho. No século XXI a classe trabalhadora em muito se diferencia daquela existente até meados do século XX; mas ao contrário do que pregam alguns teóricos de matiz conservadora, nem o trabalho, nem a classe trabalhadora estão em vias de desaparição, nem ontologicamente perderam seu sentido estruturante. A classe trabalhadora hoje adquiriu um novo sentido. Nas análises de (Antunes, 2005), a compreensão desse fenômeno no qual esta classe está imersa, requer um alargamento conceitual que abranja a totalidade dos trabalhadores assalariados, homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho, a incorporação dos contingentes de trabalhadores precarizados e desempregados, constituindo assim, um conceito ampliado de classe trabalhadora como classe-que-vive-dotrabalho. O que se presencia hoje em termos de transformação do mundo do trabalho, segundo (Antunes & Alves, 2004) é o desenvolvimento de um processo multiforme, com uma diversidade de tendências marcadas fundamentalmente pelas seguintes características: ü Redução do número de trabalhadores estáveis sob a égide de empregos formais isto decorre da diminuição do proletariado industrial clássico como conseqüência da retração do paradigma taylorista/fordista; ü O surgimento de um novo proletariado fabril e de serviços, em escala mundial, imersos nas várias formas de trabalho precarizado: terceirizados, subcontratados, trabalhadores em tempo parcial; ü Expansão significativa do trabalho feminino, que segundo (Antunes e Alves, 2004) “atinge mais de 40% da força de trabalho em diversos países avançados, e que tem sido absorvido pelo capital, preferencialmente no universo do trabalho parttime, precarizado e desregulamentado”. ü Hipertrofia do setor de serviços, que absorve parte dos trabalhadores excluídos da produção fabril, como decorrência da reestruturação produtiva, das políticas neoliberais e do processo de desindustrialização e privatização. ü Crescente exclusão dos muito jovens do âmbito do trabalho protegido e regulamentado; 23 ü Exclusão dos trabalhadores considerados “idosos” pelo capital, com idade próxima de 40 anos e que, uma vez excluídos do trabalho, dificilmente conseguem reingresso no mercado de trabalho. ü Expansão do trabalho no “Terceiro Setor”, desembocando em um tipo de ocupação alternativa destituído de proteção estatutária e legal; ü Crescimento do trabalho em domicílio, marcado pela precarização e flexibilização; Tais características são componentes desse novo cenário em que se insere o mundo do trabalho reformulado. O esforço de compreensão desse novo contexto é que conduz (Antunes, 2005) à elaboração de um conceito ampliado de trabalho, contrariando a idéia neoconservadora de que o trabalho está deslocado do centro das relações sociais no capitalismo e que, com o desenvolvimento tecnológico permanente, perderá importância relativa para as atividades produtivas. Essa concepção ampliada de trabalho, segundo (Alves e Antunes, 2004) (...) compreende a totalidade dos assalariados, homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho. Ela incorpora tanto o núcleo central do proletariado industrial, os trabalhadores produtivos que participam diretamente do processo de criação de mais-valia e da valorização do capital e abrange também os trabalhadores improdutivos, cujos trabalhos não criam diretamente mais-valia, uma vez que são utilizados como serviço, seja para uso público, como os serviços públicos, seja para uso capitalista. A classe trabalhadora, hoje, também incorpora o proletariado rural, que vende a sua força de trabalho para o capital, de que são exemplos os assalariados das regiões agroindustriais, e incorpora também o proletariado precarizado, o proletariado moderno, fabril e de serviços, part-time, que se caracteriza pelo vínculo de trabalho temporário, pelo trabalho precarizado, em expansão na totalidade do mundo produtivo. Inclui, ainda, em nosso entendimento, a totalidade dos trabalhadores desempregados. (p. 342). 24 Neste sentido o trabalho se reformula, mas não perde o seu caráter ontológico. Para compreendermos a significação ontológica do envolvimento do trabalho sob a produção capitalista é importante lançar mão do conceito de subsunção, utilizado por Marx no “Capítulo VI Inédito” de O Capital. O termo “subsunção” indica e caracteriza a relação entre o trabalho e o capital. Expressa que a força de trabalho vem a ser, ela mesma, incluída e como que transformada em capital: o trabalho constitui o capital. Constitui-o negativamente, pois é nele integrado no ato de venda da força de trabalho, pelo qual o capital adquire com o uso dessa força o processo capitalista de produção. Desde a sua origem, o modo capitalista de produção pressupõe um envolvimento operário, ou seja, formas de captura da subjetividade operária pelo capital, ou, mais precisamente, da sua subsunção à lógica do capital. O que muda, como assevera (Alves, 2005) é a forma de implicação do elemento subjetivo na produção do capital, que, sob o taylorismo/fordismo, ainda era meramente formal e com o toyotismo tende a ser real, com o capital buscando capturar a subjetividade operária de modo integral. Sob o signo do toyotismo, o capital não quer apenas se apropriar da força física e da capacidade intelectual do trabalhador, ele quer se apropriar de sua subjetividade e de seu espírito. Se, sob o domínio do taylorismo/fordismo, como analisa (Gramsci, 1985), a “integralização” da subsunção da subjetividade operária à lógica do capital - a “racionalização total” -, ainda era meramente formal, já que, na linha de montagem, as operações produtivas reduziam-se ao “aspecto físico maquinal” (p.344).; sob a égide do toyotismo, o capital busca reconstruir até as últimas conseqüências o “velho nexo psicofísico do trabalho profissional qualificado; busca a participação ativa da inteligência, da fantasia, da iniciativa do trabalho, a que (Gramsci, 1985) se refere. De acordo com (Alves e Antunes, 2004) o fordismo expropriou e transferiu o savoir-faire do operário para a esfera da gerência científica, para os níveis de elaboração, o toyotismo tende a re-transferi-lo para a força de trabalho, mas o faz visando a apropriar-se crescentemente da sua dimensão intelectual, das suas capacidades cognitivas, procurando envolver mais forte e intensamente a subjetividade operária. Suas idéias são absorvidas pelas empresas, após uma análise e comprovação de sua exeqüibilidade e vantagem (lucrativa) para o capital. 25 O saber intelectual do trabalho é transferido para as máquinas informatizadas, que se tornam mais inteligentes. Como a máquina não pode suprimir o trabalho humano, ela necessita de uma maior interação entre a subjetividade que trabalha e o novo maquinário inteligente. O trabalhador terá que se qualificar melhor e preparar-se mais para conseguir trabalho gastará parte do seu “tempo livre” para adquirir “empregabilidade”, retirando do capital a responsabilidade de qualificação do seu empregado. Se vivêssemos em outro modo de produção e de vida, o tempo de trabalho poderia ser muito menor e mais afinado com o tempo de vida fora do trabalho, ambos dotados de sentido e fora dos constrangimentos do capital. Estamos presenciando hoje em tantas partes do mundo e em particular na América Latina, uma desumanização nos estratos mais penalizados pela precarização/exclusão do trabalho, devido a alienação/estranhamento da força humana de trabalho. As diversas formas de "empreendedorismo", "trabalho voluntário" e "trabalho atípico" oscilam frequentemente entre a intensificação do trabalho e sua autoexploração. Os trabalhadores dormem sonhando com o novo "self-made man" e acordam com o pesadelo do desemprego. Empolgam-se pela falácia do empresário-de-si-mesmo, mas esbarram cada vez mais na ladeira da precarização. Com a transformação tecnológica estamos presenciando um processo histórico de desintegração do trabalho, que se dirige para um aumento do antagonismo, o profundamento das contradições do capital. Quanto mais o sistema tecnológico da automação e das novas formas de organização do trabalho avança, mais a alienação tende em direção a limites absolutos, aumentando os focos de contradição entre os desempregados e a sociedade como um todo, entre a “racionalidade” no âmbito produtivo e a “irracionalidade” no universo Societal , aumentando os conflitos sociais. Os que têm emprego trabalham muito, sob o sistema de "metas", "competências", "qualificações", "empregabilidades" etc. E depois de cumprirem direitinho o receituário, vivem a cada dia o risco e a iminência do não trabalho. Há uma nota tristemente confluente: como os assalariados que só dispõem de seu labor poderão sobreviver neste mundo sem trabalho e sem salário? 26 É neste cenário de transformação do mundo do trabalho que esta pesquisa se inscreve. Analisamos o processo de inserção profissional de pessoas com deficiência no ramo de supermercados na Região Metropolitana de Belém. Consideramos que neste ramo do comércio varejista, instaura-se no decorrer das duas últimas décadas um processo de modernização, que implica fundamentalmente em utilização de tecnologia informática e um reordenamento das relações de trabalho apontando para a profissionalização da gestão. Estas mudanças ocorrem em um momento de efervescência da luta por inclusão social das pessoas com deficiência, que ocorre também em escala mundial e que produz seus impactos no âmbito nacional e local. E um dos pontos importante dessa pauta de inclusão é a luta pelo emprego como parte do direito à cidadania. O ramo supermercadista é um sub-setor da economia que responde positivamente a esta demanda por empregos, oriundo dos movimentos políticos que agregam as pessoas com deficiência no Pará. Hoje, na RMB este setor é responsável pelo emprego de um significativo conjunto de trabalhadores com algum tipo de deficiência e é neste contexto de modernização e competitividade permanente em que as grandes redes de supermercados locais estão imersas, que as pessoas com deficiência buscam seus espaços no mercado de trabalho. E esta pesquisa se lança neste cenário onde atuam os trabalhadores com deficiência na tentativa de compreender este movimento. 1.2 - O IMPACTO DAS TRANSFORMAÇÕES DO TRABALHO NA VIDA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA Neste trabalho consideramos os supermercados como um dos espaços físicos de organização do capital e de organização do trabalho com vistas à geração do lucro. Neste espaço aquele que compra a força de trabalho se esforça para retirar o máximo de valor daquele que a vende em troca de um salário. Mesmo que os capitalistas não mencionem é este o ângulo mais importante dessa relação, pois é a partir daí que se desdobra a acumulação de capital. 27 Todos estes aspectos, na nossa sociedade, não aparecem claramente, nem às nossas vistas e nem à nossa compreensão. É necessário romper algumas barreiras para visualizar de alguma forma a verdade desses fatos, ou seja, constatar como é consumida a força de trabalho humana sob a forma de mercadoria. A incapacidade de o capitalismo absorver toda a mão de obra se tornou evidente, com a massa de desempregados ou de pessoas que exercem atividades informais - apesar de nunca ter sido objetivo do capitalismo a absorção plena dos trabalhadores. O capitalismo moderno tornou-se perseguidor de estratégias de otimização, através das quais a segregação/exclusão acabou sendo uma de suas conseqüências mais inerentes. (Moraes 2006). Estudo realizado pela FEBRABAN- (Federação Brasileira de Bancos, 2006) constatou que, em todo o país, 52% dos indivíduos com deficiência estão inativos. Quanto ao vínculo empregatício, a pesquisa demonstra que dentre as pessoas com deficiência que estão no mercado de trabalho, apenas 10,4% possuem Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) assinada. Diante de um contexto de precarização e flexibilização das relações trabalhistas, apontados pelas estatísticas, a inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, cobrada como uma solução de cidadania torna-se uma situação problemática de caráter relevante para a análise sociológica, principalmente por ser um fenômeno que ocorre em uma região periférica. A maioria dos dados da pesquisa refere-se as oito maiores redes de supermercados da RMB, e foram coletados por meio de questionários aplicados pelos técnicos do setor de profissionalização da Coordenadoria de Educação Especial-COEES vinculada à Secretaria de Estado de Educação do Pará – SEDUCPa, junto a 84 pessoas com deficiência empregadas no ramo supermercadista. Estes dados, em linhas gerais nos permitem estabelecer um paralelo com alguns fatores constitutivos do “novo e precário mundo do trabalho” analisado por (Antunes e Alves, 2004, Antunes,2005). Inicialmente, é possível destacar a absorção do trabalho de mulheres com deficiência exercendo funções nos supermercados. Embora haja uma prevalência do trabalho masculino (63%), principalmente em trabalhos onde a escolaridade e 28 qualificação não são dispensáveis, a força de trabalho feminina continua ganhando espaço com (37%) do conjunto investigado. Uma segunda tendência presente no mundo do trabalho e identificada nos dados de nossa pesquisa diz respeito à crescente exclusão dos muito jovens, que já atingiram a idade de ingresso no mercado de trabalho e daqueles considerados idosos, com idade próxima de 40 anos. As pessoas deficientes contratadas pelo setor supermercadista em sua maior freqüência ocupam a faixa etária de 26 a 35 anos (36%) o que vem a confirmar neste nicho a tendência do mundo do trabalho na contemporaneidade. A terceira tendência verificada em nossa pesquisa diz respeito à cobrança por escolaridade e qualificação profissional do trabalhador, como pré-requisito para o ingresso no emprego. Com isso as empresas se eximem da responsabilidade pela qualificação de seu quadro de funcionários e transfere para o empregado a responsabilidade de garantir sua empregabilidade. Embora este tipo de exigência seja um fato, constatamos que mesmo tendo cursos de qualificação as pessoas com deficiência geralmente ocupam funções operacionais em que a qualificação profissional é totalmente dispensável, como desenvolveremos melhor no capítulo seguinte. 1.2.1 - A LEGISLAÇÃO: COMO ARÍETE E ESCUDO? No campo jurídico já existe um arcabouço legal, declarações, convenções e leis importantes foram aprovadas visando à inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Foi uma construção paulatina da garantia jurídica do direito ao trabalho para as pessoas com deficiência. A compreensão sobre a deficiência, em geral, bem como a compreensão sobre as pessoas com deficiência, em particular, tem se modificado no decorrer da História. Um processo contínuo de mudanças dos valores trouxe como conseqüência a mudança de paradigmas que permeiam e caracterizam a relação das sociedades com esse segmento populacional. 29 Há que se registrar que se encontra em efetivação, no país, um movimento cada vez mais freqüente e abrangente de criação de ambientes e contextos inclusivos, particularmente, nas áreas de educação e do trabalho. A Constituição Federal, bem como outros documentos legislativos asseguram direitos iguais ao cidadão brasileiro que tenha uma deficiência; o discurso social, em geral, também tem se caracterizado pela defesa desses direitos. Entretanto, muito ainda precisa ser feito para que possamos constatar que todas as pessoas com deficiência em nosso país, estejam realmente usufruindo seus direitos à educação, à saúde, ao trabalho, enfim, em todas as instâncias da vida social. O Artigo 23 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, sancionada pela Organização das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948 estabeleceu o trabalho como direito humano fundamental: “Todo homem tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego”. O respeito a esse direito é essencial para o fortalecimento e o desenvolvimento de qualquer sociedade e tem sido objeto de uma das mais árduas lutas no mundo ocidental. No Brasil constata-se, entretanto, que embora o número de postos de trabalho tenha estado em curva ascendente, de 1999 a 2001 (Ministério do Trabalho e Emprego, 2002) provocando uma desaceleração no nível de ocupação (nos últimos 12 meses cresceu 3,0%, intensidade menor do que a verificada, na mesma base de comparação, nos três meses anteriores e em setembro de 2006) e que a legislação brasileira, em seu Decreto nº. 3.298/99 preveja o acesso da pessoa com deficiência à educação profissional, “a fim de obter habilitação profissional que lhe proporcione oportunidades de acesso ao mercado de trabalho” (Art. 28), “a inserção da pessoa portadora de deficiência no mercado de trabalho ou sua incorporação ao sistema produtivo mediante regime especial de trabalho protegido” (Art. 34), a contratação de dois a cinco por cento dos cargos de uma empresa com mais de 100 empregados, com beneficiários da Previdência Social reabilitados ou com pessoa portadora de deficiência habilitada (Art. 36), grande parte dessas pessoas ainda continuam excluídas do mercado formal de trabalho. Segundo Maria Salete Aranha, a adequação às cotas legais já fixadas deveria, em tese, dobrar o emprego formal de pessoas com deficiência, gerando 518 mil 30 novos postos de trabalho. Ao analisar dados sobre o emprego de pessoas com deficiência, a partir da “lei de cotas”, verificamos que 45% do emprego formal estão em empresas de menor porte, não sujeitas à legislação. Estabelecimentos com menos de 100 funcionários, que por lei não tem obrigação de contratar pessoas com deficiência apresentam uma taxa média de emprego de pessoas com deficiência de 1,05%, inferior ao conjunto de empresas. Isto pode ser percebido como um sinal da pressão que a lei exerce sobre as empresas de maior porte. Essas, por sua vez, estão longe de se adequar à lei. As empresas que empregam de 100 a 200 funcionários são responsáveis por 8,5% do emprego formal e são obrigadas a reservar 2% de seus postos de trabalho para pessoas com deficiência, apresentam taxa média de emprego para essas pessoas de 2,7%. Nas empresas 201 a 500 funcionários, responsáveis por 12% do emprego formal, verifica-se uma taxa de emprego de pessoas com deficiência de 2,9%, contra a cota exigida por lei de 3%. Nas empresas de 501 a 1.000 funcionários, responsáveis por 8,6% dos postos de trabalho formais, observa-se uma taxa de emprego de pessoas com deficiência de 2,8%, quando a cota exigida é de 4%. É observado na empresas com mais de 1.000 funcionários, 3,6% de taxa de emprego para pessoas com deficiência contra os 5% exigidos (Aranha, 2007). Em 1993, o Decreto nº 914, de 6 de setembro, instituiu a Política Nacional para a lntegração da Pessoa Portadora de Deficiência, estabeleceu como diretriz, em seu Capítulo III, Artigo VIII, “proporcionar ao portador de deficiência, qualificação profissional e incorporação no mercado de trabalho”. De acordo com este documento: §2º. Considera-se pessoa portadora de deficiência habilitada àquela que concluiu curso de educação profissional de nível básico, técnico ou tecnológico, ou curso superior, com certificação ou diplomação expedida por instituição pública ou privada, legalmente credenciada pelo Ministério da Educação ou órgão equivalente, ou aquela com certificado de conclusão de processo de habilitação ou reabilitação profissional fornecido pelo Instituto Nacional do Seguro Social - INSS. §3º. Considera-se também, pessoa portadora de deficiência habilitada àquela que, não tendo se submetido a processo de habilitação ou reabilitação, esteja capacitada para o exercício da função. 31 §4º. A pessoa portadora de deficiência habilitada nos termos dos §§ 2º e 3º deste artigo poderá recorrer à intermediação de órgão integrante do sistema público de emprego, para fins de inclusão laboral na forma deste artigo. §5º. Compete ao Ministério do Trabalho e Emprego estabelecer sistemática de fiscalização, avaliação e controle das empresas, bem como instituir procedimentos e formulários que propiciem estatísticas sobre o número de empregados portadores de deficiência e de vagas preenchidas para fins de acompanhamento do disposto no caput deste artigo. Diante de tantos direitos expressos na legislação cumpre agora garanti-los. Paradoxalmente, o que prevalece são as inúmeras dificuldades de inserção social, vivenciadas pelas pessoas com deficiência, que todo o arcabouço legal ainda não é capaz de concretizar. 1.3 - EDUCAÇÃO INCLUSIVA E PREPARAÇÃO PARA O MUNDO DO TRABALHO 1.3.1 – A DEFICIÊNCIA ATRAVÉS DA HISTÓRIA Na Antiguidade as atividades econômicas que definiam a relação do homem com a sua realidade eram representadas pela agricultura, pela pecuária e pelo artesanato. A deficiência, nessa época, inexistia enquanto problema, sendo que às crianças que apresentavam deficiências imediatamente detectáveis, a atitude adotada era a da “exposição”, ou seja, o abandono ao relento, até a morte. (Aranha, 1979; Pessotti) Na Idade Média, as sociedades passaram a se estruturar em feudos, mantendo ainda como atividades econômicas: a agricultura, a pecuária e o artesanato. Em função da disseminação das idéias cristãs, o diferente não produtivo (pessoa com deficiência) adquiriu, nesse momento histórico, “status” humano, já que passou a ser considerado também possuidor de uma alma. Sendo assim, não mais se fazia aceitável seu extermínio. Gradativamente, sua custódia e cuidado passaram a ser assumidos pela família e pela Igreja. 32 O início da Revolução Burguesa, no final do século XV, caracterizou-se por uma revolução de idéias, mudando o modo clerical de se ver o homem e a sociedade. Isso trouxe em seu bojo a mudança no sistema de produção, a derrubada das monarquias, a queda da hegemonia da Igreja Católica e uma nova forma de produção representada pelo capitalismo mercantil. Iniciou-se, então, a formação dos Estados Modernos, caracterizados por uma nova divisão social do trabalho, iniciando o processo de estabelecimento de contratos de trabalho entre os donos dos meios de produção e os operários, que passaram a vender sua força de trabalho. Neste contexto, começaram a ser formalmente tidos como deficientes os indivíduos não produtivos que oneravam a sociedade, no que se refere ao seu sustento e manutenção. Na eventualidade de atenção a essas pessoas, este se constituía do uso da alquimia e da magia. (Aranha, 2007) O avanço no caminhar da Medicina favoreceu a leitura organicista da deficiência, com as propostas de Paracelso, Cardano e Willis (Pessotti, 1984), a partir das quais a demência e a amência deixaram de ser vistas como problemas teológico e moral e passam a ser vistas como problema médico. Começaram a surgir os primeiros hospitais psiquiátricos instituiu as bases do primeiro paradigma que passou, gradativamente, a caracterizar formalmente as relações das sociedades ocidentais com o segmento populacional constituído pelas pessoas com deficiência: o paradigma da Institucionalização. (Aranha, 2007) Desde seu início, este consistiu da retirada das pessoas de suas comunidades de origem e sua manutenção em instituições residenciais segregadas, denominadas Instituições Totais, em localidades distantes de suas famílias (Polloway et. al., 1996). Pessoas com deficiência mental viveram ou foram mantidas em isolamento relativo e, muitas vezes absoluto, do resto da sociedade. O passar dos séculos testemunhou o fortalecimento do modo de produção capitalista através de mudança para o capitalismo comercial, a não produtividade continuou valorada negativamente, integrando o processo de avaliação social dos indivíduos. Nos séculos XVII e XVIII multiplicaram-se as leituras sobre a deficiência enquanto fenômeno, encaminhando uma especialmente grande nas diversidade áreas de médica atitudes e sociais: educacional, desde institucionalização em conventos e hospícios, até o ensino especial segregado. a 33 No século XIX, o modo de produção capitalista continuou a se fortalecer, mantendo o sistema de valores e de normas sociais. Tornou-se necessária a estruturação de sistemas nacionais de ensino e de escolarização para todos, com o objetivo de formar cidadãos produtivos e a mão de obra necessária para a produção. A atitude de responsabilidade pública pelas necessidades da pessoa com deficiência começou a se desenvolver, embora se mantivesse ainda a tendência de manter a instituição fora do setor público, sob a iniciativa e sustentação do setor privado. No século XX, implantou-se o capitalismo moderno, financeiro, monopolizado. Este se caracterizou pelo surgimento dos grandes capitalistas, detentores do poder que passaram a definir a força de trabalho da qual necessitavam para alcançar os objetivos de aumento do capital. A questão da integração social das minorias e, dentre elas a das pessoas com deficiência, surgiu nesse contexto em meados do século XX, especialmente após as duas grandes guerras. A criação de um grande contingente de pessoas com deficiência aliada ao movimento de defesa dos direitos humanos e às críticas severas às conseqüências da institucionalização, então divulgadas (Braddock, 1978, Bradley, 1977, Goffman, 1962), determinou o questionamento das relações mantidas pelas sociedades ocidentais com os cidadãos com deficiência. Especialmente nos países mais atingidos pelos efeitos das guerras, o número de cidadãos que passaram a necessitar de assistência e de condições para reassumir uma ocupação rentável aumentou muito. Por outro lado, seu retorno ao mundo ocupacional propiciou uma demonstração, em ampla escala, do potencial de trabalho das pessoas que apresentavam uma deficiência. (Aranha, 2007) Fortaleceu-se, aos poucos, a convicção de que as pessoas com deficiência podiam trabalhar e queriam exercer voz ativa na sociedade. Os estados passaram gradativamente a reconhecer sua responsabilidade no cuidado a esse segmento populacional, no que se referia a suas necessidades de educação e de saúde. 34 1.3.2 - EDUCAÇÃO INCLUSIVA E A SUBJETIVIDADE CAPITALISTA Cada tipo de sociedade tem seus valores dominantes e estabelece relações de poder, o que está prescrito, o que pode e o que não pode ser feito. Denomina-se a essas regras, que são implícitas em qualquer forma de organização humana, de Instituições. Segundo Margarete Amorim todas as instituições/organizações se interrelacionam, se influenciam e são influenciadas por cada conjuntura sócio-política, econômica, cultural e ambiental; e pelos avanços tecnológicos atuais. A esse conjunto de instituições, organizações e equipamentos (o Estado, o partido político, a igreja, a educação formal e informal e etc...) é chamado de subjetividade. A subjetividade dominante em nossa sociedade capitalista é a que privilegia o individualismo, o consumo, o lucro, a propriedade privada, os resultados imediatos, a concorrência, a concentração de renda. Essas características convivem com uma indiferença com relação à miséria, a fome, a exclusão... Pode-se também denominá-la de subjetividade capitalista. A subjetividade capitalista pode ser conservada ou contestada. Na lógica conservadora vai ocorrer a reprodução da subjetividade para a manutenção do sistema vigente. A subjetividade capitalista dificulta a inclusão de deficientes nas escolas, pois a educação produz indivíduos/sujeitos egoístas e individualista, que não primam pela solidariedade e igualdade de direitos que necessitam as PNEEs (Pessoas com Necessidades Educacionais Especiais). O processo de aprendizagem mais lento dos mesmos não é compatível com a concorrência que é estimulada pela subjetividade capitalista. Muitas vezes nós, professores, contribuímos para a reprodução da ideologia dominante capitalista com nossas práticas pedagógicas; quando nos preocupamos mais com a nota, em correr com o conteúdo e esquecemos que o aluno é um ser humano e que precisa ser debatido com ele a construção do conhecimento, as suas dificuldades para avançar enquanto cidadão e estimular a análise e a sua participação na sociedade em que vive. Uma proposta educativa onde há espaço para a diferença, ou seja, para a inclusão de deficientes, negros, pobres, homossexuais e etc... não pode se dá com base nos parâmetros da sociedade capitalista, se faz necessários a destruição da 35 mesma e construção de uma sociedade alternativa onde as subjetivações aconteçam em nosso dia-a-dia, ou seja, ações transformadoras e críticas da subjetividade capitalista. O conteúdo curricular e as práticas pedagógicas tem que se voltar para a formação de indivíduos/sujeitos críticos, solidários, cooperativos, livres, inovadores, que lutem por uma sociedade igualitária, mais digna e mais democrática, onde o cidadão possa exercer seus direitos; caso contrários a escola não mudará, pois ela é uma instituição, como as outras, reprodutora da sociedade em que está inserida. 1.3.3 – O DIREITO À EDUCAÇÃO INCLUSIVA Em 13 de dezembro de 2006, a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou o texto da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. No Artigo 24, a Convenção trata do “direito à educação”. A inclusão escolar é o processo de adequação da escola para que todos os alunos possam receber uma educação de qualidade, cada um a partir da realidade com que ele chega à escola, independentemente de raça, etnia, gênero, situação socioeconômica, deficiências etc. É a escola que deve ser capaz de acolher todo tipo de aluno e de lhe oferecer uma educação de qualidade, ou seja, respostas educativas compatíveis com as suas habilidades, necessidades e expectativas. Por sua vez, a integração escolar é o processo tradicional de adequação do aluno às estruturas física, administrativa, curricular, pedagógica e política da escola. A integração trabalha com o pressuposto de que todos os alunos precisam ser capazes de aprender no nível pré-estabelecido pelo sistema de ensino. No caso de alunos com deficiência (intelectual, auditiva, visual, física ou múltipla), a escola comum condicionava a matrícula a uma certa prontidão que somente as escolas especiais (e, em alguns casos, as classes especiais) conseguiriam produzir. 36 O termo ‘necessidades especiais’ não substitui a palavra ‘deficiência’, como se imagina. A maioria das pessoas com deficiência pode apresentar necessidades especiais (na escola, no trabalho, no transporte etc.), mas nem todas as pessoas com necessidades especiais têm deficiência. As necessidades especiais são decorrentes de condições atípicas como, por exemplo: deficiências, insuficiências orgânicas, transtornos mentais, altas habilidades, experiências de vida marcantes etc. Estas condições podem ser agravadas e/ou resultantes de situações socialmente excludentes (trabalho infantil, prostituição, pobreza ou miséria, desnutrição, saneamento básico precário, abuso sexual, falta de estímulo do ambiente e de escolaridade). Nos limites deste trabalho adotaremos o termo pessoa com deficiência como categoria de análise, para nos referirmos aos trabalhadores empregados nos supermercados da RMB. Esta escolha se pauta em dois motivos: o primeiro é que a categoria pessoa deficiente assume uma dimensão política no âmbito do movimento social que organiza essas pessoas; em segundo lugar, e associado a isso, esta escolha identifica a pessoa que goza de proteção legal complementar, para obtenção e garantia de seus direitos de cidadão. Outros dois conceitos controvertidos e mutuamente excludentes que no âmbito desta discussão são os seguintes: integração e inclusão. Estes dois conceitos, tratados como paradigmas que se sucedem ao longo do tempo, têm adquirido força em discussões na área da educação. Na integração escolar, os alunos com deficiência eram o foco da atenção. Na inclusão escolar, o foco se amplia para os alunos com necessidades especiais (dos quais alguns têm deficiência), já que a inclusão traz para dentro da escola toda a diversidade humana. A seguir, parágrafos e letras do Artigo 24 da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência serão mencionados entre colchetes após os comentários. Em primeiro lugar, a Convenção defende um sistema educacional inclusivo em todos os níveis [§ 5]. Em suas linhas, percebemos que a educação inclusiva é o conjunto de princípios e procedimentos implementados pelos sistemas de ensino para adequar a realidade das escolas à realidade do alunado que, por sua vez, deve representar toda a diversidade humana. Nenhum tipo de aluno poderá ser rejeitado pelas escolas [§ 2, “a”]. As escolas passam a ser chamadas inclusivas no 37 momento em que decidem aprender com os alunos o que deve ser eliminado, modificado, substituído ou acrescentado no sistema escolar para que ele se torne totalmente acessível [§ 1; § 2, “b” e “c”; § 5]. Isto permite que cada aluno possa aprender mediante seu estilo de aprendizagem e com o uso de todas as suas inteligências [§ 1, “b”]. Portanto, a escola inclusiva percebe o aluno como um ser único e ajuda-o a aprender como uma pessoa por inteiro [§ 1, “a”]. Para a Convenção, um dos objetivos da educação é a participação efetiva das pessoas com deficiência em uma sociedade livre [§ 1, “c”; § 3], o que exige a construção de escolas capazes de garantir o desenvolvimento integral de todos os alunos, sem exceção. Uma escola em processo de modificação sob o paradigma da inclusão é aquela que adota medidas concretas de acessibilidade [§ 2, “d” e “e”; § 4]. Quem deve adotar estas medidas? Professores, alunos, familiares, técnicos, funcionários, demais componentes da comunidade escolar, autoridades, entre outros. Cada uma destas pessoas tem a responsabilidade de contribuir com a sua parte, por menor que seja, para a construção da inclusividade em suas escolas. Exemplos: Arquitetura. Ajudando a remover barreiras físicas ao redor e dentro da escola, tais como: degraus, buracos e desníveis no chão, pisos escorregadios, portas estreitas, sanitários minúsculos, má iluminação, má ventilação, má localização de móveis e equipamentos e etc. [§ 1; § 2, “b” e “c”]. Comunicação. Aprendendo o básico da língua de sinais brasileira (Libras) para se comunicar com alunos surdos; entendendo o braille e o sorobã para facilitar o aprendizado de alunos cegos; usando letras em tamanho ampliado para facilitar a leitura para alunos com baixa visão; permitindo o uso de computadores de mesa e/ou notebooks para alunos com restrições motoras nas mãos; utilizando desenhos, fotos e figuras para facilitar a comunicação para alunos que tenham estilo visual de aprendizagem e etc. [§ 3, “a”, “b” e “c”; § 4] Métodos, técnicas e teorias. Aprendendo e aplicando os vários estilos de aprendizagem; aprendendo e aplicando a teoria das inteligências múltiplas; utilizando materiais didáticos adequados às necessidades especiais e etc. [§ 1; § 2; § 3 e § 4]. Instrumentos. Adequando a forma como alguns alunos poderão usar o lápis, a caneta, a régua e todos os demais instrumentos de escrita, normalmente 38 utilizados em sala de aula, na biblioteca, na secretaria administrativa, no serviço de reprografia, na lanchonete e etc., na quadra de esportes e etc. [§ 3, “a” e “c”; § 4] Programas. Revendo atentamente todos os programas, regulamentos, portarias e normas da escola, a fim de garantir a eliminação de barreiras invisíveis neles contidas, que possam impedir ou dificultar a participação plena de todos os alunos, com ou sem deficiência, na vida escolar [§ 1]. Atitudes. Participando de atividades de sensibilização e conscientização, promovidas dentro e fora da escola a fim de eliminar preconceitos, estigmas e estereótipos, e estimular a convivência com alunos que tenham as mais diversas características atípicas (deficiência, síndrome, etnia, condição social e etc.) para que todos aprendam a evitar comportamentos discriminatórios. Um ambiente escolar (e também familiar, comunitário e etc.) que não seja preconceituoso melhora a auto-estima dos alunos e isto contribui para que eles realmente aprendam em menos tempo e com mais alegria, mais motivação, mais cooperação, mais amizade e mais felicidade [§ 4] (SASSAKI, 2007). Em 1994, a CORDE (Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência) em seu documento “Subsídios para Planos de Ação dos Governos Federal e Estaduais na Área de Atenção ao Portador de Deficiência”, recomendou “a criação, no Ministério do Trabalho, de núcleo para implementação de programas de formação profissional e de inserção da pessoa portadora de deficiência no mercado de trabalho”. Propôs também, a garantia, à pessoa portadora de deficiência, de acesso ao ensino pré - escolar, de 1.º 2.º e 3.º graus e profissionalizante, no sistema regular e centros de educação especial, reconhecendo o princípio de igualdade de oportunidades educativas e o incentivo de ações que fomentem o trabalho apoiado voltado para a preparação profissional do portador de deficiência (V, 2.2). (Aranha, 2007) Este processo teve importante continuidade com a publicação do Decreto n.º 3.298, de 20 de dezembro de 1999, que regulamentou a Lei n.º 7.853, de 24 de outubro de 1989, que dispõe sobre a Política Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, consolida as normas de proteção e dá outras 39 providências. Optou-se pela transcrição de alguns artigos que tratam da questão do trabalho da pessoa com deficiência, neste capítulo, como subsídio para a reflexão do leitor. Art. 28. O aluno portador de deficiência matriculado ou egresso do ensino fundamental ou médio, de instituições públicas ou privadas terá acesso à educação profissional a fim de obter habilitação profissional que lhe proporcione oportunidades de acesso ao mercado de trabalho. §1º. A educação profissional para a pessoa portadora de deficiência será oferecida nos níveis básico, técnico e tecnológico; em escola regular, em instituições especializadas e nos ambientes de trabalho. §2º. As instituições públicas e privadas que ministram educação profissional deverão obrigatoriamente, oferecer cursos profissionais de nível básico à pessoa portadora de deficiência, condicionando a matrícula à sua capacidade de aproveitamento e não a seu nível de escolaridade. §3º. Entende-se por habilitação profissional o processo destinado a propiciar à pessoa portadora de deficiência, em nível formal e sistematizado, aquisição de conhecimentos e habilidades especificamente associados à determinada profissão ou ocupação. §4º. Os diplomas e certificados de cursos de educação profissional, expedidos por instituição credenciada pelo Ministério da Educação ou órgão equivalente terão validade em todo o território nacional. Art. 29. As escolas e instituições de educação profissional oferecerão, se necessário, serviços de apoio especializado para atender às peculiaridades da pessoa portadora de deficiência tais como: I. Adaptação dos recursos instrucionais: material pedagógico, equipamento e currículo; II. Capacitação dos recursos humanos: professores, instrutores e profissionais especializados; e III. Adequação dos recursos físicos: eliminação de barreiras arquitetônicas, ambientais e de comunicação. As barreiras para a inclusão de deficientes talvez estejam mais em nossas cabeças do que em problemas efetivos. Como durante muito tempo os deficientes estiveram segregados, a sociedade acabou por reforçar seus preconceitos e nos 40 acostumamos a mantê-los sempre isolados e marginalizados. O que contribui em grande parte para a sua exclusão social, ou seja, o problema da inserção dos deficientes no mercado de trabalho não é um fator individual, mas sim coletivo. Depois de tantos séculos de discriminação e desumanização da pessoa com deficiência, a sociedade brasileira deveria ter avançado com relação a sua inclusão social, no entanto, os dados publicados na revista Nova Escola de uma pesquisa realizada no 1º semestre de 2009, pela Fundação Instituto de Pesquisa Econômicas (FIPE) em convênio com o Instituto Nacional de Estudos em Pesquisa Educacionais Anísio Teixeira (INEP) sobre Intolerância com as Diferenças em 500 escolas públicas de todo país, apresentou o índice geral de preconceito com deficientes nas escolas regulares de 96,5% e alcança 96,8% dos alunos e 87,4% dos docentes. A não aceitação desses cidadãos no âmbito escolar demonstra que a sociedade quer o deficiente isolado em suas escolas especializadas; o governo precisa investir mais em políticas públicas de formação da comunidade escolar. A política educacional no Estado do Pará vai ao encontro da Lei Nº. 9.394/96 da LDB no que tange ao atendimento especializado às PNEEs (Pessoas com Necessidades Educacionais Especiais) tem que ocorrer preferencialmente na rede regular de ensino, mas vai de encontro ao art. 59, I- que diz que currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, tem que atender às necessidade dos PNEEs, o que não ocorre nas classes comuns além do pequeno percentual de professores capacitados para atender a clientela especial (art.59,III), o que dificulta a inclusão dos educandos, contribuindo para o não atingimento do nível esperado para a conclusão do nível fundamental, diminuindo a chance de prosseguirem os estudos no nível médio e superior e a inserção no mercado de trabalho ( parágrafo IV). Trabalho em uma escola municipal em Ananindeua, no ensino regular de 5ª a 8ª série há 15 anos e no Estado há 16 anos. Só passei a trabalhar com alunos com necessidades educacionais especiais a cerca de sete anos atrás e posso confirmar o que demonstra a pesquisa divulgada pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura) sobre a expansão das matrículas na educação especial na rede municipal e estadual. Com o passar dos anos o nº de educando vem aumento nas salas de ensino regular, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio, nas escolas municipais e estaduais. Isso é muito bom já podemos considerar como um avanço, 41 pois até bem pouco tempo, se tínhamos alunos com necessidade educacionais especiais não sabíamos. Com a propaganda do governo os pais já se dirigem a escola para matricular os seus filhos, embora algumas não aceitem. Apesar desses primeiros passos, as escolas públicas não oferecem as mínimas condições que garanta o acesso a uma educação de qualidade, pois a grande maioria não possui recursos específicos para cada tipo de deficiência, até mesmo para os ditos “normais”. Não basta garantir escola para todos, há necessidade de se promover uma educação de qualidade para todos, dentro das necessidades específicas de cada educando, do contrário o sucesso não será atingido. As políticas públicas têm que enfrentar as desigualdades sociais e trabalhar de forma articulada entre as várias instâncias da administração pública visando o bem-estar social, que é papel do Estado, enquanto gestor, legislador e normatizador da sociedade. A ele cabe esta articulação entre educação, saúde, habitação, trabalho, segurança e etc., pois o cidadão não resolve toda a sua problemática social apenas freqüentando a escola, mas tendo o conjunto de suas necessidades atendidas, ai sim a educação atingirá os seus objetivos. A gestão democrática é uma alternativa para tenta minimizar esses problemas sociais, a partir da participação da sociedade civil nas diversas esferas de governo, tendo uma administração popular, escutando os que mais precisam do poder público e sabem de suas necessidades. Ninguém melhor que os próprios PNEEs para dizerem como promover políticas públicas que correspondam aos seus anseios, a população precisa ser escutada e atendida. A escola necessita que sejam assegurados, dentro outros aspectos, autonomia administrativa, financeira e pedagógica, para que ocorram mudanças de fato, de acordo com as necessidades de sua comunidade, assim acontecendo a educação para todos. Se o governo deseja que de fato ocorra predominantemente o atendimento escolar, com qualidade e sucesso para as PNEEs na rede regular de ensino,o financiamento de verbas públicas tem que aumentar de forma bastante considerável , pois é preciso prever os custos adicionais ou subvinculados que serão necessários aos projetos de atendimento educacional especializado oferecidos na escola comum ou em outros espaços; como investir na admissão e qualificação de profissionais bem como a provisão de materiais e equipamentos específicos e 42 atacar os baixos salários, a ausência de adequado plano de carreira, a rotatividade de professores. Faltam os representantes do Estado saírem um pouco mais do discurso que somente a educação levará o país a um desenvolvimento econômico e humano, que hoje é freqüente no período das eleições e partir para ações concretas quando são eleitos. A contradição é sentida quando vemos nos seus orçamentos a verba destinada a educação e mais indecente ainda o percentual que é destinado a educação especial, é um dos menores, não dá para atender o básico das necessidades. Por isso não vamos deixar tudo nas mãos desses interesseiros “A inclusão exige igualdade social: compromisso de TODOS (as) para TODOS (as)”. A inclusão social é processo no quais todos os inseridos precisam buscar soluções juntos, deixando o individualismo de lado, quebrando as barreiras impostas a nós pela sociedade capitalista em que vivemos. Se o sistema educacional sofre total influência da sociedade em que está inserido, então precisamos destruir esta sociedade e nos libertar da força coercitiva da mesma, para que enfim sejamos livres para colocarmos em prática essas teorias revolucionárias. “Educação para todos” é princípio constitucional e deveria ser compromisso político de todo governo e um forte instrumento de promoção da cidadania. O compromisso do governo com suas políticas públicas limita-se em ampliar o número de vagas no sistema escolar, não se preocupando com seu o dever de promover o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para a cidadania e qualificação para o trabalho (capítulo V da LDBEN). A política educacional tem que ser pautada em diretrizes como: qualidade social da educação, acesso e permanência na escola com sucesso, valorização e qualificação dos profissionais da educação, construção de espaços comuns e articulados entre as várias instâncias da administração pública, o equacionamento adequado de recursos financeiros e a coerência entre o discurso inclusivo e a prática. Devem-se ter a preocupação várias vezes maiores em se colocar em prática as diretrizes citadas acima quando se trabalha com alunos com necessidades educacionais especiais incluídos no ensino regular, pois para ocorrer o sucesso educacional com esses educandos é necessário que seja oferecido serviços de 43 apoio pedagógico especializado que requer um custo adicional ao Estado o que não ocorre a começar pela verba dedicada a educação especial nos orçamentos dos Estados e das Prefeituras, o que inviabiliza a adequação do espaço escolar para a acessibilidade dos educandos, a aquisição de material permanente e pedagógico (ficam apenas limitados as escolas especializadas), que deveriam estar juntos com o material dos alunos não considerados especiais e o professor do ensino regular, em alguns momentos, deveria contar com o apoio do professor especializado durante toda a aula para manusear equipamentos adequados às condições específicas do educando. Diante das dificuldades de aprendizagem, pela falta de apoio e por não ser escutado, o aluno com necessidades educacionais especiais abandona a escola regular o que promove um atraso muito grande com relação à série que o aluno deveria cursar de acordo com a sua idade, aumentado a discriminação sofrida, pois se retornar a escola as crianças menores pensam que ele é um gigante ou é o novo professor, o que o deixa envergonhado dificultando ainda mais a sua inclusão escolar e consequentemente no mercado de trabalho. A realidade da inclusão das pessoas com necessidades educacionais especiais é contraditória com o discurso dos políticos e com que prega a constituição brasileira e a LDBEN. Vamos todos assumir o papel de sujeitos construtores da escola para todos em nossas práticas pedagógicas, pois assim estaremos plantado a semente de uma sociedade mais justa e solidária, caso contrário a inclusão nunca se realizará. A noção de deficiência ainda é confundida com a de incapacidade. Alguém pode ser considerado parcialmente ou totalmente incapaz de realizar uma atividade em comparação ao que se considera parâmetro normal de um ser humano. O meio ambiente, o contexto cultural e sócio-econômico incapacitam. Se não houver rampas de acesso num edifício, uma pessoa com deficiência motora, em cadeira de rodas não poderá entrar. Se não houver código braille nos botões de um elevador, uma pessoa com deficiência visual não poderá subir sozinho a um determinado andar. A incapacidade é a perda ou a limitação das oportunidades de participar da vida em igualdade de condições com os demais. 44 O currículo na perspectiva da diferença enfatiza que Educar significa introduzir a cunha da diferença em um mundo que sem ela se limitaria a reproduzir o igual e o idêntico, um mundo parado, um mundo morto. (Tomaz Tadeu da Silva, 2000, apud, MAUÉS, 2008). O currículo deve permitir a produção tanto da identidade como da diferença e não ser apenas resultado de um processo final e acabado, sem flexibilidade. Ele deve ser construído a partir do conhecimento, das interpretações e visões de toda a comunidade escolar sobre sua realidade local e do mundo. Partindo desse pressuposto o currículo deve oferecer condições para um ensino significativo, respeitando a cultura do educando, o saber que eles acumularam nas suas experiências de vida, incorporando as contribuições científicas das diferentes áreas do conhecimento, estendendo-se para fora dos muros da escola adicionando os demais currículos da vida em sociedade. Observa-se que a qualidade de ensino e o currículo, normalmente não são adaptados a realidade dos educandos, como teoriza a maioria dos estudiosos em educação, principalmente das PNEEs. Muitas escolas prestam mais atenção aos impedimentos do que aos potenciais de tais pessoas. Para que possam participar integralmente em um ambiente rico de oportunidades educacionais com resultados favoráveis, precisam de apoio adequado e recursos especializados, quando forem necessários; preparação e a dedicação da equipe pedagógica e dos professores; adequações curriculares e de acesso ao currículo que também foi construído por eles. A Educação Especial possui condições de caminhar pelas mesmas vias que a Educação Regular, enfatizando a inclusão em vez da discriminação, o respeito à diversidade em vez da homogeneidade, desde que haja compromisso do poder público em efetuar mudanças estruturais no sistema educacional, tirando as leis do papel e as colocando em prática. O modelo educacional vigente é muito seletivo e competitivo, como a sociedade capitalista em que está inserido. Quem tem dificuldades fica para trás, esquecido e é taxado como “burro” e incompetente. Não há preocupação em trabalhar as dificuldades, as diferenças entre os educandos, respeitando-as. Os alunos são separados em os “bons”, os sem 45 deficiência, os “sem condições”, os com deficiência, constituindo assim uma apartheid no ensino regular. Para transpor essas barreiras atitudinais precisamos construir uma escola, assim como uma sociedade, democrática, mais justa, humana e solidária, onde o sistema ensino apresente mais flexibilidade em seu currículo, condições de trabalho que contribua para melhorar a prática pedagógica, como diminuir o nº de alunos nas salas de aula, material de trabalho adequado para facilitar a aprendizagem do educando com necessidades especiais, acessibilidade nos prédios escolares, etc. 1.3.4 - EDUCAÇÃO INCLUSIVA NO ESTADO DO PARÁ Segundo (Almeida & Tavares Neto, 2005) a educação especial como parte construtiva do sistema educacional não vem recebendo a devida atenção das esferas governamentais, mesmo com a existência de uma considerável estrutura legal, e de uma política nacional definida para esta modalidade de ensino, o atendimento à população de pessoas com algum tipo de necessidade educacional especial ainda é considerado insuficiente. A construção da escola inclusiva, como elemento constitutivo da política educacional no Pará, decorre na indução promovida pela SEESP (Secretaria de Educação Especial), desde 1996 (Almeida e Tavares Neto, 2005). Desde então, por meio de aprovação de projetos encaminhados pela COEES - Coordenadoria de Educação Especial/SEDUC ao FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e contrapartida do Estado, é fomentado este processo, através de cursos de capacitação de técnicos e professores, implantação de salas de recursos multifuncionais, aquisição de equipamentos e materiais didático-pedagógico para as unidades especializadas, a implementação de assessoramento técnico-pedagógico e a realização de pesquisas em educação especial. Assim como a nível nacional, a educação especial no Estado do Pará vem aumentando o número de pessoas com deficiência nas classes regulares de ensino, mas que não apresentam as condições expostas nas leis referentes a esta modalidade de ensino. 46 Apesar dos cursos de formação continuada para os professores das classes regulares e das escolas especiais, o número de docentes atingidos ainda é muito reduzido, o aluno fica perdido na sala de aula por não poder contar com um especialista que o auxilie em suas aulas diariamente. O número de professores itinerantes especializados é insuficiente para atendimento dos alunos matriculados nas escolas públicas. A quantidade de salas de recursos multifuncionais vem crescendo em nosso Estado, mas o número é insuficiente para atender a demanda, assim como a implantação de tecnologias assistivas para atendimento de todos os estudantes com deficiências e altas habilidades, conforme art. 276 da Constituição do Estado do Pará. Os prédios escolares estaduais necessitam, em sua maioria, serem adaptados de acordo com o padrão de infra-estrutura normatizado. O objetivo do Estado é atingir esta meta até 2012 (p.60, 1ª Conferência Estadual de Educação, 2008) vamos torcer que isto aconteça. É nesse contexto que a educação especial no Estado do Pará vem aos poucos se expandindo quantitativamente e qualitativamente, tentando modificar o quadro de educação de exclusão e acelerar o processo de inclusão social das pessoas com deficiência. 47 Capítulo 2 - A discussão do objeto: Pessoa deficiente e trabalho no setor supermercadista na Região Metropolitana de Belém. "Para as pessoas sem deficiência, a tecnologia torna as coisas mais fáceis. Para as pessoas com deficiência, a tecnologia torna as coisas possíveis". (RADABAUGH, 1993) 2.1 - Um Breve Panorama do Setor Supermercadista no Pará. O setor supermercadista integra o segmento do comércio varejista de alimentos¹ e, assim como esse ramo de atividade econômica, apresenta-se com formatos diversificados, que contemplam desde os supermercados de pequeno porte até os grandes hipermercados (DIEESE, 1997, apud, GONÇALVES, 2009). De acordo com a Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), a categoria distingue-se de outras formas do varejo a partir de dois elementos: venda a varejo de multi-produtos e loja de auto-serviço com dois ou mais check-outs (caixas). Portanto, nos supermercados, a venda não depende do atendimento de um balconista (ou vendedor) como no comércio tradicional de armazéns, padarias e mercearias; os produtos devem estar dispostos em formatos self-service e com check-outs na saída (GONÇALVES, 2009). ¹ A Classificação Nacional de Atividades econômicas (CNAE), do IBGE, divide o setor de comércio em três grandes categorias: 1) comércio atacadista, 2) comércio varejista e 3) comércio de veículos e motocicletas e comércio a varejo de combustíveis. A atividade do comércio, tradicionalmente, divide-se em dois grandes blocos ou segm entos alimentícios e não alim entícios, ou ainda, entre bens de consumo duráveis, semi-duráveis e não duráveis (DIEESE, 1999). 48 A classificação do porte se dá em função da área da loja (m²) ou por número de check-outs. Os supermercados de pequeno porte operam em pequenas instalações, com área máxima de 349 m², vendendo alimentos e artigos de primeira necessidade de reduzida variedade. Nos supermercados propriamente ditos, predomina a venda de alimentos frescos, mercearias e artigos de higiene e limpeza, em uma área de venda superior a 350 m². Os hipermercados vendem alimentos, artigos de higiene e limpeza, eletrodomésticos, vestuário e artigos para o lar, e contemplam uma superfície de vendas, em geral, acima de 5.000 m² . A classificação por número de check-outs ocorre da seguinte forma: pequeno porte, até 9 check-outs; médio porte de 10 a 19 check-outs; grande porte, de 20 a 49 check-outs; e hipermercados, com 50 ou mais check-outs (BNDES,1996, apud, LENIR, 2009). Dos oito supermercados objetos dessa pesquisa, situados na Região Metropolitana de Belém (RMB)² quatro (o Y, o L, o F e o N) se enquadram na classificação de grande porte quanto ao número de caixas, pois possuem mais de 20 check-outs e podem ser classificados como hipermercados por contemplarem uma superfície de vendas, em geral, acima de 5.000 m² e quanto ao tipo de produtos vendidos, além dos itens dessa classificação eles possuem restaurantes, lanchonetes, farmácias, postos de gasolina, caixas eletrônicos, sapatarias, padarias e alugam pequenas salas comerciais no subsolo, onde fica o estacionamento “grátis”. Os outros quatro supermercados pesquisados (o C, o A, o P e o B) tomando como referência esses critérios classificatórios podem ser considerados de médio porte, pois possuem até 10 caixas, nestes, predomina a venda de alimentos frescos, mercearias e artigos de higiene e limpeza, em uma área de venda superior a 350 m² e, além disso, não comercializam eletrodomésticos, vestuários, calçados e etc. __________________ ² Região Metropolitana de Belém, criada por Lei Complementar federal em 1973, alterada em 1995, é uma conurbação com 2.249.405 habitantes (segundo estimativas populacionais realizadas em 2008 pelo IBGE). É a área metropolitana mais populosa da Região Norte, a décima do Brasil e a 179ª do mundo. É a décima nona região metropolitana do país em qualidade de vida, e a primeira no Norte-Nordeste. Compreende os seguintes municípios: Ananindeua, Belém, Benevides, Marituba e Santa Bárbara. 49 De acordo com o primeiro censo do setor de supermercados do Pará, realizado em 2007, pela ASPAS (Associação Paraense de Supermercados), em parceria com o Instituto Simetria, o setor responde por aproximadamente 10% do Produto Interno Bruto (PIB) paraense, o que corresponde a 3% do faturamento nacional do setor. As redes do estado possuem cerca de 2.500 lojas, que oferecem um total de 37 mil empregos diretos. De acordo com este censo, 34% das lojas estão situadas nos onze municípios da mesorregião de Belém, onde também estão concentradas a maioria das grandes lojas. O restante das lojas estão situadas nos municípios do interior do estado. Cerca de 90% destas são caracterizadas como de pequeno e médio porte com até 1.000m². Outro elemento importante apontado no censo refere-se ao fato de que: “Quase 12% dos supermercados possuem em seu quadro funcional pessoas com alguma necessidade especial (leia-se, alguma deficiência) e 43% dos lojistas paraenses afirmam desenvolver alguma ação de responsabilidade social”. Segundo (Gonçalves, 2009), no Estado do Pará os grupos líderes do setor, em sua maioria, possuem administração familiar e de capital fechado, o que pode ser um dos fatores que contribui para o desempenho e crescimento desses supermercados. O Estado se destaca com a média de faturamento bruto de R$ 206.781,00 de vendas por funcionário, é um valor elevado se comparado com o arrecadado por São Paulo de R$ 154.919,99 e do Rio de Janeiro de R$ 109.847,00, Unidades Federadas brasileiras que respondem por 55% do faturamento bruto e 49% do número de trabalhadores, enquanto que o Pará com 0,33% do faturamento bruto e 0,20% do número total de Empregados (Gonçalves, 2009). Os investimentos são consideráveis para construir, equipar e manter esses setores do supermercado com ar condicionado, escadas rolantes, implementos tecnológicos como caixas totalmente informatizados com leitor ótico do código de barras, para o pagamento com cartão de crédito, cartões de débito, vale alimentação. Com isso ampliam-se as formas de crédito e diferentes modos de pagamento para que o cliente não deixe de comprar. Segundo (GONÇALVES, 2009) esse processo de modernização do setor supermercadista brasileiro tem sido constante desde a década de 1950, e se intensificou com a entrada de grandes redes internacionais no Brasil. O ingresso 50 no mercado brasileiro de empresas francesas, americanas, portuguesas e holadesas impulsionou mudanças de ordem tecnológica e organizacional instaurando a lógica de permanente busca de um diferencial competitivo caracterizado pelo lançamento de marcas próprias para reduzir a dependência de fornecedores e a busca da fidelização do cliente mediante a qualidade do atendimento ofertado. Este processo de mudança, centrado na implementação tecnológica e no reordenamento das formas de organização do trabalho, consolidam-se e tornam-se difusos no Brasil a partir da década de 90 e hoje se estabelecem como prática comum em nossos hipermercados estaduais. Segundo o ranking nacional, apresentado em 2009, pela ABRAS, os dois grupos paraenses Y Yamada e Lider estão situados respectivamente nos 13º e 14º lugares sendo que o primeiro obteve um faturamento bruto no ano de 2008, na ordem de R$1.183.478.840,00; enquanto o segundo teve o faturamento bruto de R$1.118.767.862,00. A posição ocupada pelos cinco maiores grupos do setor supermercadista paraense os coloca em uma posição extremamente competitiva em um nicho do mercado que ultrapassa em muito o âmbito local e regional, impondo-lhe permanentemente a adoção de estratégias de crescimento que os mantenham nas posições que ocupam no âmbito nacional. E isto implica em inversões de capital cada vez maior no sentido da implementação tecnológica, reorganização e permanente aperfeiçoamento de suas estratégias de gestão administrativa e gestão do trabalho. Com isso as exigências de escolaridade e qualificação para o trabalhador que atua neste ramo tornam-se cada vez mais importantes para as empresas desse setor que tem um perfil mais competitivo fazendo com que as mesmas demandem trabalhadores com as habilidades e competências o mais próximas possível de um perfil exigido por um mercado cada vez mais competitivo. De maneira geral exigese escolaridade mínima de ensino médio completo, noções de informática e experiência profissional como habilidades e competências imprescindíveis para candidatar-se a uma vaga, embora, na maioria dos casos tais atributos exigidos estejam acima das necessidades efetivas para a realização das funções no âmbito dos supermercados. 51 É neste contexto que as pessoas com deficiência buscam a sua inserção neste nicho do mercado de trabalho. Três fatores têm contribuído para que as pessoas deficientes consigam garantir o seu ingresso no contexto de um mercado de trabalho cada vez mais competitivo: o primeiro é de caráter legal, instituído a partir da lei de cotas nº 8.213, de 25/7/91; o segundo é um permanente movimento organizado de setores da sociedade cobrando a inserção dessas pessoas no mercado de trabalho como um direito cidadão e o terceiro é a necessidade de as empresas garantirem a difusão de uma boa imagem de responsabilidade social e compromisso com a inclusão social. Neste sentido empregar pessoas com deficiência tem se tornado elemento constitutivo de uma estratégia de marketing, que configura uma empresa moderna e competitiva, que não declina diante de suas responsabilidades sociais. 2.2 - O emprego de pessoas deficientes nos supermercados da RMB. 2.2.1. O perfil das pessoas deficientes inseridas no setor supermercadista na Região Metropolitana de Belém. Os dados auferidos pelo censo realizado pelo IBGE, no ano 2000, informam que cerca de 15% da população brasileira tem algum tipo de deficiência. Considerando a população paraense nesse ano cerca de 940.800 pessoas tinham algum tipo de deficiência. Deste total, 491.276, desenvolviam algum tipo de atividade, portanto, eram consideradas pelo IBGE como ocupadas. Na Região Metropolitana de Belém estava concentrado um total de 297.327 pessoas com algum tipo de deficiência sendo que Belém ocupava o 1º lugar com 208.707, seguida pelo município de Ananindeua com 68.465 pessoas deficientes (CENSO, 2000). A força de trabalho das pessoas com deficiência é absorvida pelo mercado de trabalho, com restrições associadas à idéia de serem pessoas com limitações maiores que os demais trabalhadores. Um histórico de isolamento e discriminação em que estas pessoas estiveram imersas por séculos tem contribuído para o atraso no seu desenvolvimento pessoal e inserção na vida social, com destaque para a 52 sua escolarização e isto tem gerado algumas desvantagens em comparação com pessoas sem nenhum tipo de deficiência. Isto assume grande destaque quando estas pessoas se lançam ao mercado de trabalho cada vez mais competitivo. No âmbito de nossa pesquisa, constatou-se que as empresas supermercadistas, na cidade de Belém-Pa, embora adotem formalmente o “compromisso social” de garantir em seu quadro funcional um espaço para as pessoas deficientes fazem isso baseadas em alguns critérios que configuram um perfil que pouco se diferencia daquele exigido para o ingresso de qualquer outro funcionário. médio As exigências que compõem esse perfil são as seguintes: ensino completo, curso preferencialmente ser jovem. profissionalizante, experiência comprovada e Como um fator complementar a esse tipo de contratação, o candidato deve apresentar apenas uma “deficiência leve”. O que se discute não é a concessão de privilégios às pessoas com deficiência, pois isto em nada contribuiria para a sua permanência legítima no mercado de trabalho, o que se ressalta é a necessidade de garantir a essas pessoas oportunidades iguais de ingresso e permanência equiparando as oportunidades, atendendo às diferenças individuais e necessidades especiais. Quando se coteja o perfil exigido pelos supermercados para contratação de pessoas deficientes com a sua realidade sócio-educacional e com os dados sobre deficiência no Pará constatam-se com maior clareza as poucas possibilidades que estas pessoas têm de ingressar no mercado de trabalho formal e protegido por estatuto social e legal, se o aspecto escolaridade de fato apresentar-se como indispensável. Os dados oficiais sobre matrícula escolar de pessoas com deficiência no estado do Pará indicam que no ano de 2007 foram matriculados no sistema de ensino um total de 16.205 alunos. Na última década, em decorrência da política de inclusão educacional de pessoas com deficiência desencadeada pelo Ministério da Educação envolvendo todas as unidades federativas, o número de matrículas teve um aumento significativo e o Estado do Pará acompanhou esta expansão. Entretanto, a quantidade de matrícula, está muito aquém do desafio de inserir no processo educacional o segmento da população com algum tipo de deficiência que se encontra na faixa etária compatível com a educação básica, 0-17 anos como indica o gráfico nº. 1 a seguir. E esta reduzida oferta de escolarização para este 53 segmento da população produz barreiras para que as pessoas com deficiência adquiram um pré-requisito importante que facilita o ingresso no mercado de trabalho, considerando que em geral, o fator escolaridade, em especial de nível médio completo constitui-se em fator preponderante para inserção no mercado de trabalho. Gráfico 1: Número de Pessoas com Deficiência e Matrícula no Sistema de Ensino do Estado do Pará NÚMERO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA E MATRICULA NO SISTEMA DE ENSINO DO ESTADO DO PARÁ 1000000 Nº PCD 900000 800000 700000 600000 500000 400000 300000 200000 100000 0 PCD_TOTAL PCD_0-17 PCD_MAT. Situação Fonte: MEC/INEP. 2007, IBGE. Censo 2000. Legenda: Total de Pessoas com Deficiência no Estado do Pará Pessoas com Def. de 0 a 17 - Faixa Etária de Atend. da Educação Básica Pessoas com Def. Matriculadas no Sistema de Ensino Estado do Pará Estudo realizado por Gonçalves, 2009 informa que no ramo supermercadista da RMB, 85% do universo de 5.500 trabalhadores tem o nível médio completo, e que este componente é fundamental para definir a contratação. No contexto de nossa investigação, verificamos que este fenômeno não se repete com a mesma extensão quando se trata da contratação de pessoas com deficiência. Com relação ao nível de escolaridade, embora o ensino médio 54 completo e a qualificação profissional sejam alguns dos componentes desse perfil, na maioria dos casos, a ausência deles não tem se apresentado como elemento impeditivo à contratação. A tabela nº.1e o gráfico nº. 2 mostram que das 84 pessoas deficientes empregadas em supermercados no ano de 2008, apenas 34 (40,48%) tinham o nível médio completo; 2 (2.38%) estavam acima dessa escolaridade; e a maioria, 48 (57.14%), tinha escolaridade abaixo do formalmente exigido. Isto mostra que no ramo supermercadista as exigências sobre o nível de escolaridade existem formalmente, mas não tem sido definitivas na hora da contratação. Obviamente que este fenômeno está associado pelo menos a dois fatores: a obrigatoriedade de contratar imposta pela Lei de cotas e a busca da melhoria da imagem da empresa. Entretanto, avaliamos que a conseqüência mais imediata deste fato, é que isto tem restringido as possibilidades de as pessoas deficientes ocuparem postos mais elevados na hierarquia da empresa. A tabela 3 e o gráfico 4 e 5 mostram que grande parte dos postos de trabalho ocupados são no nível operacional e com menor remuneração, concentrados nas funções de embalador e serviços gerais, funções mais elementares na hierarquia dessas lojas. Tabela 1: Nível de Escolaridade por Deficiência dos Empregados dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-PA. 1º Trimestre/2008 Empregados por Deficiências Nível de Escolaridade Mental Física Auditivo Alfabetizado 0 2 2 0 Ens. Fund. Menor Inc. 0 1 3 0 Ens. Fund. Menor Comp. 0 0 12 0 12 Ens. Fund. Maior Inc. 0 1 12 0 13 Ens. Fund. Maior Comp. 0 3 5 1 09 Ens. Méd. Inc. 0 1 5 0 06 Ens. Méd. Comp. 0 19 12 3 34 Ens. Sup. Inc. 0 1 0 0 1 Ens. Sup. Comp. 0 0 1 0 1 28 52 4 84 TOTAL 0 Fonte: Coordenadoria de Educação Especial-COEES/SEDUC Visual Total 4 4 55 Gráfico 2: Nível de Escolaridade de Deficientes Empregados nos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-PA. Superior Completo Superior Incompleto 1,19% 1,19% 40,48% Médio Completo Médio Incompleto Fundamental Maior Completo 7,14% 10,71% 15,48% Fundamental M aior Incompleto 14,29% Fundamental M enor Completo Fundame ntal Menor Incompleto Alfabetizado 4,76% 4,76% Fonte: Coordenadoria de Educação Especial-COEES/SEDUC Na pesquisa junto aos 84 trabalhadores deficientes do setor supermercadista da Região Metropolitana de Belém, constatou-se que em sua maioria estes são homens (63%) que corresponde a 53 trabalhadores e 31 são mulheres (37%), conforme indica o gráfico nº 3 a prevalência masculina no mundo do trabalho é reproduzida quando se trata da absorção de pessoas com deficiência; a tabela nº. 2 do IBGE confirma este fato tanto para a cidade de Belém quanto para o estado do Pará. Embora se saiba que nas últimas décadas a inserção de mulheres no mundo do trabalho vem aumentando consideravelmente. Segundo (Antunes e Alves, 2005), este fenômeno tem atingido mais de 40% da força de trabalho em diversos países avançados, e esta absorção pelo capital ocorre preferencialmente no universo do trabalho part-time, precarizado e desregulamentado. Tabela 2: Gênero e Faixa Etária das Pessoas Deficientes Empregadas dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-PA. Empregados por Faixa Etária 1º Trimestre/2008 Gênero Total 18 a 25 26 a 35 36 a 45 > 46 Não Informaram Masculino 9 16 21 6 1 53 Feminino 7 14 8 1 1 Total 16 30 Fonte: Coordenadoria de Educação Especial-COEES/SEDUC 29 7 2 31 84 56 Gráfico 3: Percentual de Empregados do sexo masculino e feminino dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-Pa. 37% masculino feminino 63% Fonte: Coordenadoria de Educação Especial – COEES/SEDUC Outro fator verificado na pesquisa diz respeito à faixa etária desses trabalhadores As faixas etárias que se apresentam com maior freqüência estão concentradas entre 26 a 35 anos com um percentual de 35,71 % ; e entre 36 e a 45 anos, com 34,52%, conforme o tabela nº. 3 e o gráfico nº.4 se compararmos este resultado com aquele evidenciado na pesquisa de Gonçalves, 2009 encontraremos uma diferença de 7%. Esta autora informa que cerca de 63% dos trabalhadores investigados em quatro das maiores redes de supermercados da RMB estão entre a faixa etária de 26 a 45 anos e mais; este resultado mostra que o setor tem dado preferência à contratação de funcionários ainda jovens, mas com um certo nível de amadurecimento. No caso das pessoas com deficiência esta constatação desqualifica uma hipótese preliminar de que essa idade mais avançada dos trabalhadores de supermercados seria decorrente da inserção tardia dessas pessoas no processo de escolarização ou de sua exclusão precoce da escola. Embora isto exista em larga escala não há dados empíricos que comprovem efetivamente sua contribuição para a exclusão de pessoas deficientes do mercado de trabalho. 57 Tabela 3: Faixa Etária por Deficiência dos Empregados dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-PA. Empregados por Faixa Etária 1º Trimestre/2008 Deficiência Total 18 a 25 26 a 35 36 a 45 > 46 Não Informaram Def. Física 6 8 10 2 2 28 Def. Visual 1 3 0 0 0 04 Def.Mental 0 0 0 0 0 00 Def. Auditiva 9 19 19 5 0 52 Def. Múltipla 0 0 0 0 0 Total 16 30 Fonte: Coordenadoria de Educação Especial-COEES/SEDUC 29 7 2 00 84 Gráfico 4: Faixa Etária das Pessoas Deficientes Empregadas nos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-Pa. Não Informaram Acima de 46 anos 2,38% 8,34% 34,52% 36 a 45 anos 35,71% 26 a 35 anos 18 a 25 anos 19,05% Fonte: Coordenadoria de Educação Especial-COEES/SEDUC 58 No que concerne ao tipo de pessoa com deficiência que é melhor absorvida pelo mercado de trabalho, o setor supermercadista apresenta uma peculiaridade; dos 84 trabalhadores com deficiência identificados e de ambos os sexos, 52 são deficientes auditivos; 28 são deficientes físicos e apenas 4 são deficientes visuais (Tabela nº. 4) O que contrasta com os dados gerais oferecidos pelo Censo 2000, onde as pessoas com deficiência visual aparecem em 1º lugar, seguidos por deficientes auditivos, deficientes mentais e deficientes físicos. (Tabela nº. 5). Tabela 4: Gênero relacionado com as deficiências dos Empregados dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-Pa 1º Trimestre/2008 Empregados por Sexo Deficiência Masc Fem Total Def. Física 18 10 28 Def. Visual 01 03 04 Def.Mental 00 00 00 Def. Auditiva 34 18 52 Def. Múltipla 00 00 00 Total 53 31 84 Fonte: Coordenadoria de Educação Especial-COEES/SEDUC 59 Tabela nº. 5: Pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas por Tipo de Deficiência e Sexo, no ano 2.000. Localidade Tipo de Deficiência Def. Visual Estado do Def. Auditiva Pará Def. Mental Def. Física TOTAL Sexo Homens 195.936 Mulheres 112.460 Total 308.396 Homens 50.950 Mulheres 17.976 Total 68.926 Homens 13.187 Mulheres 4.218 Total 17.405 Homens 13.022 Mulheres 2.058 Total 15.080 409.806 Homens 32.814 Mulheres 28.124 Total 60.938 Homens 10.391 Def. Visual Belém-Pa. Mulheres 5.023 Total 15.414 Homens 1.711 Mulheres 950 Total 2.661 Def. Auditiva Def. Mental Homens 1.928 Mulheres 529 Total 2.457 Def. Física TOTAL 81.470 Fonte: IBGE Censo Demográfico ano 2000. Os dados apontam que esses postos de trabalho são ocupados em sua maioria por deficientes auditivos e pessoas com deficiências físicas consideradas “leves” pelo setor de recursos humanos das empresas. Não existe uma clara definição de que seja uma deficiência leve, mas os critérios que tem guiado a oferta de vagas para pessoas deficientes no setor supermercadista para definir esse tipo de deficiência tem sido os seguintes: perda parcial da audição, de preferência que use aparelho auditivo, deficiência visual apenas de baixa visão, deficiência física com falta de parte de membros (perna, braço, mão, pé ou dedo). Os dados do IBGE 2000, expostos na tabela nº. 6 corroboram parcialmente esta 60 preferência, na medida em que o número de pessoas deficientes físicas ocupadas é muito mais freqüente quando se trata de falta de membros ou falta de parte destes do que nos casos de tetraplegias, paraplegias ou hemiplegia permanente. Esse conjunto de exigências trás como conseqüências o não preenchimento do número total de vagas para pessoas deficientes prevista na legislação; 100 a 200 empregados, 2%; de 201 a 500, 3%; de 501 a 1.000, 4%; de 1.001 em diante, 5%, exigido pela Lei de Cotas, Lei nº 8.213, de 25/7/91, para cada empresa, como demonstra a tabela 4 e o gráfico 6 do Centro de Inclusão da Pessoa com Deficiência – CINPED/ SETER/ SINE e a tabela 5 da COEES. Tabela nº. 6: Pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas por Nível de Deficiência Física no ano 2.000. Localidade Nível de Deficiência Estado do Tetraplegia, paraplegia ou hemiplegia permanente Falta de membro ou de parte dele (perna, braço, mão, pé ou dedo polegar) 15.080 Pará Def. Físico TOTAL Belém-Pa. Def. Físico TOTAL Tetraplegia, paraplegia ou hemiplegia permanente Falta de membro ou de parte dele (perna, braço, mão, pé ou dedo polegar) 2.457 TOTAL 4.915 10.165 805 1.652 Fonte: IBGE Censo Demográfico 2000. Na pesquisa realizada no CINPED, a técnica informou que as empresas em geral ligam para o posto de atendimento do SINE localizado no CINPED (Centro de Inclusão da Pessoa com Deficiência), efetuam seu cadastro, informando o número de vagas disponíveis, bem como o perfil do trabalhador que irá ocupá-la. O SINE/CINPED, através de seu banco de dados, convoca o trabalhador que se adequa ao perfil da vaga disponibilizada. Mediante uma pré-seleção, esses trabalhadores serão encaminhados às empresas de posse de uma carta de apresentação, a qual deverá ser devolvida pela empresa ao SINE/CINPED com a respectiva resposta. Segundo a entrevistada as empresas estão muito exigentes quanto à qualificação e a escolaridade (exigem nível médio completo). Os deficientes não correspondem à escolaridade exigida e sobram vagas nas empresas. Quando as 61 empresas ligam pedem um deficiente com deficiência leve e que se enquadre no sistema de cotas. A maior parte das empresas não encaminha um relatório sobre o trabalhador aceito por ela, os técnicos do CINPED vão às empresas acompanhar o deficiente. Em entrevistas realizadas com técnicos do setor de profissionalização e colocação profissional da COEES/SEDUC, foi possível identificar que a maioria das empresas do ramo supermercadista tem uma postura considerada excludente quando disponibilizam vagas para contratação de pessoas com deficiência. Os relatos indicam que algumas empresas exigem um perfil totalmente excludente para dificultar a contratação. A maioria dos supermercados apenas telefona para a instituição informando o tipo e o nível de deficiência que preferem (surdos e deficientes físicos não cadeirantes), solicitam o currículo do candidato; grande parte exige nível médio completo, e qualificação profissional e alguns na hora do telefonema relatam as funções a serem exercidas. As empresas alegam que faltam candidatos para preenchimentos das vagas, pois aqueles encaminhados por esta instituição não se enquadram ao perfil desejado, nesses casos as instituições mediadoras pedem auxílio da Justiça do Trabalho para exigir que a empresa mude o grau de exigência e preencha as vagas disponíveis. Dados complementares coletados junto ao CINPED informam que de uma maneira geral as vagas disponíveis em todo o setor produtivo na RMB não são ocupadas em decorrência da inadequação dos candidatos às exigências das empresas. Em dezembro de 2008 foram encaminhadas às empresas 49 candidatos para o preenchimento de 21 vagas, mesmo assim três dessas vagas não foram preenchidas (Tabela 7). Este tipo de exclusão velada tem caráter recorrente. A tabela nº. 8 informa que nos anos de 2007 e 2008, das 600 vagas disponíveis para pessoas deficientes, as instituições governamentais mediadoras enviaram 1.591 candidatos e apenas 442 foram aceitos, deixando de ser preenchidas 158 vagas, cerca de 26% do total. 62 Tabela 7: INTERMEDIAÇÃO DE MÃO-DE-OBRA FORMAL DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIAS Mês/ano: Dez/2008 INTERMEDIAÇÃO Deficiência Encam. Colocados 36 14 Def. Visual 3 1 Def.Mental 0 0 Def. Auditiva 9 3 Def. Múltipla 1 0 Def. Física Vagas Total 21 49 18 Fonte: Centro de Inclusão da Pessoa com Deficiência – CINPED/ SETER/ SINE Tabela 8: Movimento da Intermediação da Pessoa com Deficiência ao Mercado de Trabalho Comparação entre os anos de 2007 e 2008 ANO INSCRITOS VAGAS ENCAMINHAMENTOS 2007 241 296 538 2008 264 304 515 TOTAL 505 600 1053 Fonte: Centro de Inclusão da Pessoa com Deficiência – CINPED/ SETER/ SINE ACEITOS 206 236 442 A Coordenação de Educação Especial/COEES/SEDUC, quando se refere ao encaminhamento de pessoas com deficiência ao mercado de trabalho tem se tornado referência mais importante para estas pessoas, como demonstram os dados da tabela nº.9. No mesmo período (2007 – 2008), esta instituição voltada para a educação cadastrou 1.133 pessoas que demandavam colocação profissional. Após seleção prévia, com base no perfil exigido pelas empresas, encaminhou diretamente para o mercado de trabalho 584 pessoas; sendo que dessas, 427 foram encaminhadas inicialmente para cursos de qualificação profissional; O restante, por não reunir nenhuma condição de preenchimento das exigência das empresas e não reunirem condições de passar por processo de qualificação não puderam ser encaminhadas como candidatos a emprego. 63 Tabela 9: Movimento da Intermediação da Pessoa com Deficiência ao Mercado de Trabalho Período: 2007 e 2008 ANO 2007 2008 TOTAL INSCRITOS ENCAMINHADOS PARA QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL ENCAMINHAMENTOS PARA O MERCADO DE TRABALHO NÃO ENCAMINHADOS PARA O MERC. DE TRAB. 552 197 278 274 581 230 306 275 1.133 427 584 549 Fonte: Coordenadoria de Educação Especial-COEES/SEDUC Constatamos a partir dos dados levantados pela COEES, expostos no gráfico nº.5, que a maioria das pessoas com deficiência, 66,66%, que são absorvidas pelo setor supermercadista na RMB não tem nenhum curso profissionalizante. Para aqueles que fizeram algum curso de qualificação, a maioria (13,0%) optou pela informática básica. O restante 20,34% está diluído em cursos de qualificação que não tem nenhuma associação direta com o trabalho no supermercado. Se por um lado a falta de qualificação para o trabalho não tem impedido a contratação de pessoas com deficiência, por outro lado o fato de ser deficiente, ter uma legislação que cria oportunidades de ingresso no mercado de trabalho em nada ela protege contra o “fantasma” contemporâneo da instabilidade no emprego que assombra o mundo do trabalho na contemporaneidade e que também absorve o setor supermercadista. No gráfico nº. 6 é possível visualizar que apenas 3,57% dos trabalhadores com deficiência empregados em supermercados estão neste emprego entre 11 e 20 anos. A grande maioria está empregada no mesmo lugar entre 1 e 4 anos. Isto aponta para a existência de uma considerável rotatividade desse tipo de trabalhador no ramo supermercadista. 64 Gráfico 5: Cursos Profissionalizantes Realizados Pelas Pessoas Deficientes Empregadas nos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-Pa. -M ar ke tin g -T éc ni co -T éc ni em co A em -T dm -A Au In In éc e i n f m st or te xi ni is al -D nd lia co m tra Ve aç át rd im es ç n em ão i da ão ca e en en -N s de / E E -C d m In to ho n n ão e e an gl ca fe Te om -E Co Ec Pe C Em ao M -P ê In r o u r l s m ot d le ec re zi N e m pu t cl fo p e ag en fo B ag ão tri nh ur pr ga re dr ân ie rm ta á n ç o c i e n a s e s ei sm do e ã çã t i g i m i c te a ou e s s i c o ro ro ia o ta m o o o 61,90% 4,76% 1,19% 1,19% 1,19% 1,19% 1,19% 1,19% 1,19% Série5 Série4 Série3 1,19% 1,19% 1,19% 1,19% 2,38% 2,38% 2,38% 13,10% Fonte: Coordenadoria de Educação Especial-COEES/SEDUC Série2 Série1 65 Gráfico 6: Tempo de Serviço das Pessoas Deficientes Empregadas nos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-Pa. 17,86% Não Informaram De 11 a 20 anos 3,57% Série1 53,57% De 1 a 4 anos Menos de 1 ano Série2 22,62% De 5 a 10 anos 2,38% Fonte: Coordenadoria de Educação Especial-COEES/SEDUC Num mundo do trabalho como o atual, marcado pela precarização, pela incerteza do emprego e da permanência no mesmo emprego por muito tempo, o trabalho está se tornando escasso, até mesmo as pessoas com um nível de escolaridade mais elevado e com cursos profissionalizantes começam a aparecer com maior freqüência nas filas de desempregados no Brasil. Pode-se imaginar a dificuldade ainda maior por parte daquelas pessoas com deficiências mais severas que no decorrer de suas vidas não conseguiram adquirir escolarização nem qualificação para o trabalho, pois a busca do aprendizado profissional ou da escolarização lhes foi dificultada, tanto pelo fato de sofrerem estigmas como por se defrontarem com barreiras arquitetônicas, barreiras atitudinais e a indisponibilidade de tecnologias assistivas nos locais em que estão sendo ofertados os cursos profissionalizantes ou na escola comum. Segundo os técnicos mediadores, apenas algumas instituições que oferecem cursos profissionalizantes às pessoas deficientes e que tem convênio com a COEES, possuem computadores adaptados, o que é fundamental para a aprendizagem dos cegos e surdos que desejam fazer o curso de informática. De acordo com os técnicos entrevistados estes cursos de informática são os mais requisitados, no entanto, não conseguem atender a demanda. Consideram 66 também que seria necessário que se ampliasse a realização de cursos com todo o aparato necessário (tecnologia assistiva e acessibilidade com desenho universal) para outros cursos profissionalizantes, em outras áreas do conhecimento e em espaços difusos pela cidade e pelos equipamentos urbanos, como por exemplo: ônibus com portas mais largas, com plataforma mecanizada para descer e subir a cadeira de rodas e com barras de apoio para as mão; ruas com sinais sonoros para cegos; calçadas com rampas pouco inclinadas para os cadeirantes; piso com autorelevo; sinalização clara e explicita para pessoas com deficiência intelectual; portas das salas de aula ampliadas, construção de banheiros adaptados, elevadores, barras de apoio e o uso de material com textura diferenciada (cujo nome técnico é “podotátil”). Os produtos, equipamentos, ambientes e meios de comunicação devem ser concebidos do ponto de vista do Desenho Universal, que recomenda que tudo (mas tudo mesmo) deve poder ser utilizado por todos, o maior tempo possível, sem necessidade de adaptação, beneficiando pessoas de todas as idades e capacidades. Com baixa escolarização e qualificação insuficiente para o trabalho, as pessoas com deficiência em geral são absorvidas no setor supermercadista naquelas funções que efetivamente dispensam esses dois requisitos. Entretanto, a inserção dessas pessoas, dispensando os elementos constitutivos do perfil exigido, em especial o ensino médio completo, ainda depende da maior ou menor flexibilidade do grupo de supermercados. Observa-se que esta maior flexibilidade ocorre em um dos maiores grupos de supermercados que enfatizam o seu caráter de responsabilidade social como marca empresarial. Podemos tomar como exemplo o supermercado L que apresenta uma postura mais flexível para a inserção de pessoas com deficiência m seu quadro funcional, além de buscar transparecer em seu discurso certa dose de generosidade no tratamento da diversidade humana. Com freqüência envia ofícios de solicitação de mão-de-obra elogiando a superação e dedicação desses profissionais, e assevera que embora tenham dificuldades de preenchimento das vagas existentes em sua empresa, gostariam de contratar muito mais, prevendo o seu crescimento e as saídas espontâneas. Informam também que não tem restrições quanto à escolaridade (realmente a pesquisa constatou que, embora seja um dos maiores 67 supermercados do Estado e do país, o nível de escolaridade dos deficientes em seu grupo é o menor). Tal postura generosa pode ser melhor compreendida com a apreciação dos dados coletados. Dos 84 trabalhadores estudados na RMB, revelam que o ramo supermercadista oferece a maioria das vagas para os deficientes em funções braçais, como embalador (45), ou para serviços gerais (16). Para exercer essas atividades, não há necessidade de muita escolarização ou qualificação específica, provavelmente por este motivo, pela obrigatoriedade do preenchimento das cotas e por desejarem transmitir uma imagem de organização moderna e inclusiva algumas empresas permitem a flexibilidade quanto ao nível de escolaridade e de qualificação de seus empregados. Entretanto, para as funções de maior responsabilidade, que exigem maior nível de comunicação com o público ou com os colegas de trabalho, a utilização de pessoas com deficiência é residual, como no caso dos repositores (6), balconistas (6), operadores de caixa (4), fiscal de caixa (1), fiscal de loja (1), assistente comercial (1) e motorista (1) como reflete a tabela nº.10. Outro ponto que a pesquisa destaca é a permanência no emprego das pessoas com deficiência empregadas em supermercados. O emprego em atividade comercial, de uma maneira geral é marcado por uma alta rotatividade dos empregados. Segundo Gonçalves, 2009, no plano nacional a média de permanência no emprego do trabalhador do comércio é de 12 meses; em um estudo da autora realizado em supermercados no município de Benevides, estado do Pará, essa média de permanência é de 24 meses, o dobro da média nacional. No que concerne às pessoas com deficiência empregadas em supermercados da RMB a maior freqüência está situada entre 12 e 44 meses, representada por 45 trabalhadores (53,57%); em seguida um grupo de 19 trabalhadores (22,62%) situado entre 60 e 120 meses. Merece destaque o fato de que 27 desses trabalhadores componentes desses dois grupos com maior permanência no emprego têm o ensino médio completo conforme a tabela nº. 11. Outros fatores concorrem para a fixação de pessoas deficientes no emprego. Os relatos de técnicos do setor de profissionalização da COEES/SEDUC indicam um de caráter emblemático. Esclarecem que o setor supermercadista contrata, em 68 sua maioria, pessoas surdas que tem dificuldade de se estabilizarem no emprego, pois enfrentam a barreira da comunicação e não conseguem se fazer entender. Isto dificulta o relacionamento com os próprios colegas de trabalho, provocando conflitos onde os técnicos da COEES precisam intervir para melhorar o relacionamento no ambiente de trabalho. Existe uma Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) que viabiliza a comunicação com pessoas surdas, mas a maioria das empresas do setor tem ignorado a necessidade e importância de garantir o acesso a todos os seus empregados não surdos. Tabela 10: Tipos de Funções por Deficiência dos Empregados dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-PA. 1º Trimestre/2008 Tipo de Deficiência Função Mental Física Auditivo Visual Total Embalador 0 9 35 1 45 Serviços Gerais 0 6 7 2 15 Repositor 0 2 6 0 08 Balconista 0 4 2 0 06 Operador de Caixa 0 3 1 0 04 Assistente Comercial 0 1 0 0 01 Auxiliar de Controle 0 0 0 1 01 Encarregado do Refeitório 0 0 1 0 01 Fiscal de Caixa 0 1 0 0 01 Fiscal de Loja 0 1 0 0 01 Motorista 0 1 0 0 01 28 52 4 84 TOTAL 0 Fonte: Coordenadoria de Educação Especial-COEES/SEDUC 69 Foto nº. 1: Deficiente Auditivo trabalhando como Embalador em supermercado na Região Metropolitana de Belém-Pará. Fonte: Coordenadoria de Educação Especial-COEES Foto nº. 2: Deficiente Auditivo trabalhando como Serviços Gerais em supermercado na Região Metropolitana de Belém-Pará. Fonte: Coordenadoria de Educação Especial-COEES 70 Tabela 11: Nível de Escolaridade por Tempo de Serviço dos Empregados dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-PA. 1º Trimestre/2008 Nível de Escolaridade Alfabetizado Ens. Fund. Menor Inc. Ens. Fund. Menor Comp. Ens. Fund. Maior Inc. Ens. Fund. Maior Comp. Tempo de Serviço dos Empregados Menos de 1 ano De 1 a 4 anos De 5 a 10 anos De 11 a 20 anos Não Informaram 1 3 Ens. Méd. Inc. Ens. Médio Completo Ens. Sup. Inc. 2 1 1 1 4 5 6 3 4 2 4 2 23 4 1 1 4 4 2 12 4 13 2 09 06 6 1 Ens. Sup. Completo TOTAL 34 1 1 TOTAL 2 45 19 Fonte: Coordenadoria de Educação Especial-COEES/SEDUC 1 3 15 84 Isto demonstra que os empresários deste setor, embora verbalizem um discurso da inclusão e da responsabilidade social compatível com uma organização moderna, não acreditam na potencialidade dos empregados deficientes, nem tampouco investem na criação de condições propícias para o desenvolvimento de suas potencialidades. No âmbito de nossa pesquisa (preliminarmente) observamos que a retórica da responsabilidade social e da inclusão, incorporada pelo empresariado do setor, em grande parte é apenas substrato ideológico, elemento constitutivo de um discurso que encontram pouca ou nenhuma correspondência em ações concretas. Naturalmente que o fato de uma parte deste setor oferecer um percentual de vagas para pessoas com deficiência pode ser considerado um avanço comparativamente às décadas passadas e a outros ramos do comércio que não compartilham dessa preocupação. Entretanto, se algumas exigências para a contratação impedem efetivamente que a pessoa deficiente ingresse no mercado de trabalho, é possível fazer concessões como a dispensa da escolaridade de nível médio completo. Por outro lado, a ausência de condições efetivas de acessibilidade³, e de tecnologias 71 assistivas dificulta o desempenho dessas pessoas, relegando as mesmas ao exercício quase que exclusivo de funções mais baixas na hierarquia da empresa. "Tecnologia Assistiva é uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social” (Comitê de Ajudas Técnicas, CORDE/SEDH/PR, 2007). São considerados recursos de Tecnologia Assistiva, portanto, desde artefatos simples, como uma colher adaptada, uma bengala ou um lápis com uma empunhadura mais grossa para facilitar a preensão, até sofisticados sistemas computadorizados, utilizados com a finalidade de proporcionar uma maior independência e autonomia à pessoa com deficiência (GALVÃO FILHO e DAMASCENO, 2006). ³ Acessibilidade abrange aspectos do dia-a-dia das pessoas, tais como rotinas e processos sociais, programas e políticas governamentais e institucionais. Uma sociedade acessível torna-se pré-requisito para uma sociedade inclusiva. 72 A redução ou eliminação dessas barreiras possibilitaria a contratação de um contingente maior de pessoas com deficiência e isto conduziria à inclusão (a modificação do ambiente para se adequar às necessidades dos deficientes) superando este contexto de Integração (contratar o trabalhador esperando que este se adapte às condições do local de trabalho). Onde apenas algumas pessoas deficientes conseguem conviver com as barreiras físicas, atitudinais e programáticas da empresa. O paradigma da inclusão e a prática do empoderamento “é o processo pelo qual uma pessoa, ou um grupo de pessoas, usa o seu poder pessoal inerente à sua condição para fazer escolhas e tomar decisões, assumindo assim o controle de sua vida”- Sassaki, 1995, p.6) e representam hoje componentes obrigatórios em todas as ações não-discriminatórias. Conforme destacou Vygostsky, é relevante para o desenvolvimento humano o processo de apropriação, por parte do indivíduo, das experiências presentes em sua cultura. O autor enfatiza a importância da ação, da linguagem e dos processos interativos na construção das estruturas mentais superiores (VYGOTSKY, 1987). O acesso aos recursos oferecidos pela sociedade, escola, tecnologias, etc., influenciam de modo determinante nos processos de aprendizagem da pessoa. Entretanto, as limitações da pessoa com deficiência tendem a se tornar uma barreira para esse aprendizado. Desenvolver recursos de acessibilidade seria uma maneira concreta de neutralizar as barreiras causadas pela deficiência e inserir esse indivíduo nos ambientes ricos para a aprendizagem, proporcionados pela cultura. Outra dificuldade que as limitações de interação trazem consigo são os preconceitos a que o indivíduo com deficiência está sujeito. Desenvolver recursos de acessibilidade também pode significar combater esses preconceitos, pois, no momento em que lhe são dadas as condições para interagir e aprender, explicitando o seu pensamento, o indivíduo com deficiência mais facilmente será tratado como um "diferente-igual"... Ou seja, "diferente" por sua condição de pessoa com deficiência, mas ao mesmo tempo "igual" por interagir, relacionar-se e competir em seu meio com recursos mais poderosos, proporcionados pelas adaptações de acessibilidade de que dispõe. É visto como "igual", portanto, na medida em que suas "diferenças", cada vez mais, são situadas e se assemelham 73 com as diferenças intrínsecas existentes entre todos os seres humanos. Esse indivíduo poderá, então, dar passos maiores em direção à eliminação das discriminações, como conseqüência do respeito conquistado com a convivência, aumentando sua auto-estima, porque passa a poder explicitar melhor seu potencial e seus pensamentos. 74 Capítulo 3 - Redes Sociais e inserção de pessoas com deficiência no setor supermercadista na RMB A inserção de pessoas com deficiência no setor supermercadista da RMB tem sido conseguida, como foi apresentado nos capítulos anteriores, com a cooperação de instituições mediadoras ligadas ao Estado (COEES/SEDUC e CINPED) e instituições políticas que organizam este segmento da população como a APPD. Este capítulo tem a intenção de identificar o conjunto de relações que cada pessoa com deficiência está imerso e de que maneira esse conjunto de interações sociais contribui para que estas pessoas consigam um emprego em uma determinada rede de supermercados. A estrutura do argumento deste trabalho procura demonstrar que há fatores importantes que contribuem para que uma pessoa com deficiência supere as barreiras de suas limitações físicas, mentais e ingressem em um mercado de trabalho de características competitivas. Há de um lado um perfil exigido pelas empresas do setor, que inclui principalmente a escolarização de ensino médio completo, cursos de qualificação para o trabalho e uma deficiência preferencialmente leve. Por outro lado, existe em favor das pessoas deficientes, um arcabouço legal e normativo que impele em determinados momentos à abertura de cotas de vagas para o emprego de pessoas deficientes; também concorre a favor a tentativa de as empresas se mostrarem como instituições modernas e preocupadas com sua imagem de responsabilidade social; além disso, existe a atuação das instituições governamentais e de fora da esfera de governo, que contribuem decisivamente para o ingresso dessas pessoas com deficiência no mercado de trabalho e em especial no ramo supermercadista. Compreende-se que tais instituições atuam sob a forma de redes juntamente com as famílias, os amigos e conhecidos, articuladas no apoio à inserção dessas pessoas no mercado de trabalho. E que essa articulação em redes sociais assume um caráter importante junto ao lado dos outros fatores citados. Tais redes de apoio contribuem de certa forma, para que essas pessoas adquiram aquilo que Bourdieu conceituou de capital social. De acordo com (Robison et al. 2000, apud Aguiar N. p. 14), o conceito de capital social pode ser definido culturalmente como a empatia de uma pessoa ou 75 grupo para com outra pessoa ou grupo que pode produzir um benefício potencial, vantagem e tratamento preferencial para outra pessoa ou grupo de pessoas além do que é esperado numa relação de intercâmbio. Neste sentido, capital social constitui-se no agregado dos recursos reais e potenciais que estão conectados à possessão de uma rede durável de relacionamentos de mútuo conhecimento e reconhecimento, mais ou menos institucionalizada, ou, em outras palavras, ao pertencimento a um grupo, o qual provê a cada um de seus membros, com base no capital apropriado coletivamente, uma “credencial” que os titula ao crédito, nos vários sentidos da palavra. (Bourdieu, 1986, apud, Aguiar, 2007). O capital social é gerado pelas redes de relações sociais, mas são os indivíduos que delas participam que usufruem satisfação para interesses próprios. De acordo com o conceito individualista, a participação em redes sociais constitui um recurso potencial de poder, na medida em que possibilita acesso diferenciado aos recursos existentes nas redes para a realização de seus interesses individuais. (Bourdieu, 1986, apud, Aguiar, 2007) Pesquisas apontam que essas redes de relações sociais constituem um estoque considerável de capital social e podem aumentar segundo pesquisa realizada em Belo Horizonte por Neves e Helal (2007) em até 58% a oportunidade de ingresso no mercado de trabalho. Dados coletados no decorrer da pesquisa no setor de profissionalização da COEES apontam que 90% das pessoas deficientes empregadas no setor supermercadista da região metropolitana de Belém-Pa participam de uma rede de social que ajuda de alguma forma na sua inserção no mundo do trabalho. E esta forma de participação contribui para a construção do seu capital social, ou seja, do intercâmbio que estabelecem com grupos sociais ou pessoas da comunidade, onde estão inseridos, e a partir daí são conduzidos às instituições governamentais ou não governamentais que estabelecem as pontes para o mercado de trabalho. Tais instituições cadastram essas pessoas deficientes, concebem laudo médico que as identificam com detentoras de tal condição e as encaminham para cursos profissionalizantes, fazendo valer os convênios com as escolas profissionalizantes que estão em vigor. Como este laudo médico tem que ser renovado anualmente, tais instituições assumem um papel fundamental no encaminhamento e manutenção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Estas 76 instituições encaminham os candidatos às empresas que disponibilizam vagas para determinados postos de trabalho e estabelecem os critérios mínimos para a admissão do empregado. Os candidatos que se adequam ao perfil exigido pelas empresas são encaminhados por essas instituições mediadoras para entrevista de emprego. No processo da pesquisa entrevistamos uma pessoa deficiente físico que está desempregado e à procura de emprego na área administrativa. Ele afirmou que está direta ou indiretamente ligada a um conjunto de instituições que lhe prestam apoio quando ele busca uma vaga no mercado de trabalho. Neste sentido foi possível identificar que esta pessoa deficiente está vinculada a um conjunto de instituições, da família às instituições governamentais e não-governamentais, como por exemplo, a APPD e COEES e esse conjunto de instituições tem funcionado como rede de contatos que interferem positivamente no sentido de facilitar sua colocação no mercado de trabalho. Segundo este informante tudo começa com a família, que é o primeiro espaço de inclusão da pessoa deficiente. Com o apoio desta e de amigos e conhecidos mais próximos estas pessoas adquirem informações que as levam às instituições que efetivamente são capazes de intermediar sua inserção no mercado de trabalho. Este tipo de informação encontrada de modo recorrente em outras entrevistas junto a outras pessoas deficientes nos permitiu identificar como estas iterações se articulam em rede e melhoram as oportunidades de inserção dessas pessoas deficientes no mercado de trabalho, conforme figura abaixo. 77 Redes Sociais dos Trabalhadores dos Supermercados da Região Metropolitana de Belém-Pa. Indivíduo e FAMÍLIA Unidades Educacionais Especializadas - UEEs Laudo Médico Instituições Mediadoras: COEES, SINPED/ SINE, APPD Instituições promotoras de Cursos Profissionalizan tes Escola Regular Escola Regular SUPERMERCADOS Fonte: Entrevistas orais com trabalhadores desempregados e técnicos do setor de Profissionalização da COEES O que chama atenção no movimento interno dessas redes de apoio são os tipos de laços que as unem. A maioria dos atores envolvidos e que facilitam o encaminhamento ao mercado de trabalho em geral, e ao setor supermercadista em particular, mantém vínculos superficiais e marcados pela impessoalidade. Com exceção da família ou dos parentes e amigos, todos os outros atores envolvidos (instituições governamentais e instituições de fora da esfera do governo, instituições educacionais) mantêm certo distanciamento e formalidade em relação à pessoa com deficiência. O contato entre eles não é aprofundado e geralmente não é permanente. Neste sentido podemos associar tal padrão interativo identificado nessas redes de apoio com os tipos de laços sociais definidos por (Mark Granovetter, 1973). Granovetter analisa o ingresso de executivos no mercado de trabalho nos Estados Unidos no final da década de 70 e chega à conclusão que a maioria desses executivos ingressou no mercado de trabalho ou movimentavam-se nele em busca de melhores oportunidades a partir de informações privilegiadas que circulam por entre redes sociais. De um modo geral as informações privilegiadas ou as ofertas de emprego chegavam aos indivíduos por intermédio de pessoas que não mantêm com estes, vínculos permanentes ou profundos. Não são os familiares, os parentes ou os amigos próximos que criavam essas oportunidades, 78 mas os conhecidos, aqueles que não cultivam e mantém vínculos permanentes, que atuavam de maneira mais efetiva na criação de oportunidades de emprego. Granovetter classifica os laços sociais em duas categorias: laços fortes e laços fracos. Segundo Raud-Mattedi (2006) “a força de um laço é uma combinação (provavelmente linear) da quantidade de tempo, da intensidade emocional, da intimidade (a confiança mútua) e dos serviços recíprocos que caracterizam esse laço”(p.64). Portanto, os laços fortes são vínculos que combinam positivamente estas características. Pressupõem a existência de convívio longo associado à intensidade emocional, a um considerável grau de intimidade, bem como a maior quantidade e qualidade de serviços oferecidos reciprocamente entre os indivíduos; em geral tais laços existem nas relações mais imediatas do indivíduo: família, amizade; e fazem parte daquilo que Granovetter identifica como imbricação do tipo relacional. Em contrapartida, os laços fracos se definem pelo caráter esparso da interação, pela baixa intensidade emocional, pela inexistência de intimidade e pela baixa reciprocidade de serviços mutuamente ofertados. Estes laços tecem dois tipos de imbricação: uma “imbricação relacional” que constitui as interações imediatas, diretas e permanentes que cada indivíduo ou agente econômico vivencia; e outra, a qual Granovetter associa a um tipo de “imbricação estrutural” definida como “universos sociais distintos” os quais o indivíduo tem acesso a partir da mediação de parentes e amigos, mas fundamentalmente a partir de laços mantidos com conhecidos (Raud-Matteli, 2006). Na inserção de pessoas deficientes no ramo supermercadista da RMB, o que tem prevalecido, em confirmação ao estudo de Granovetter, são os laços fracos como fios condutores mais efetivos para a inserção de pessoas com deficiência ao mercado de trabalho. Neste caso específico, são as instituições que estabelecem pontes com as empresas, no sentido de garantir a ocupação de um posto de trabalho por uma pessoa deficiente. Seus técnicos embora não cultivem laços profundos e de forte carga afetiva com as pessoas deficientes, transmitem informações, referenciam estas pessoas e em geral, por meio de negociação direta tentam diminuir as exigências das empresas para garantir o emprego de certas pessoas com deficiência. 79 CONSIDERAÇÕES FINAIS A inclusão das pessoas com deficiência no mundo do trabalho é um processo que deve ocorrer concomitantemente às mudanças em contextos sociais mais amplos. É uma luta permanente reivindicar inclusão social de grupos minoritários no contexto de uma sociedade excludente que privilegia os interesses de mercado e a busca permanente do lucro. Mesmo considerando tais dificuldades estruturais, o desenrolar desse processo de luta pela inclusão tem apontado algumas alternativas que se impõem mesmo diante de uma sociedade marcada por uma estrutura excludente. Alterações de caráter pontual podem contribuir significativamente para esse processo de inclusão de pessoas com deficiência no mundo do trabalho; dentre essas mudanças destacamos três como fatores necessários, a propósito do que se observou nesta pesquisa sobre a inserção de pessoas com deficiência no ramo supermercadista da RMB: 1) a adaptação do local de trabalho possibilitando uma melhor circulação de pessoas com deficiência nestes ambientes; 2) a oferta mais extensa de escolarização efetiva além da complementação por meio de cursos profissionalizantes 3) uma melhor preparação do sistema de ensino, tendo em vista o acolhimento e a formação dessas pessoas. Consideram-se fatores preponderantes para essa mudança uma atuação mais engajada de profissionais da educação e a utilização de Tecnologia Assistiva seguindo a proposta do Desenho Universal. Estes dois fatores combinados concorreriam para que se efetive a interação das pessoas com deficiência com os colegas sem necessidades especiais, isolando cada um com seu equipamento, mas disponibilizando equipamentos que sejam de uso comum e que sejam úteis para TODOS. Por outro lado, as empresas precisam oferecer qualificação profissional no próprio local e horário de trabalho, para que o trabalhador possa utilizar o seu tempo livre para o lazer junto à família, o descanso, o cuidado com a saúde, a interação com a sua comunidade; cuidando da subjetividade humana e sendo mais feliz, não lhe restando apenas o horário de dormir para recuperar sua força para entregá-la novamente ao capitalista no dia seguinte. As jornadas dos trabalhadores do ramo supermercadista em geral são extensas, ocupando cerca de 80 doze horas diárias, entre trabalho efetivo e intervalos longos entre a 1ª e 2ª parte da jornada; trabalho sem dia certo de descanso, apesar da legislação vigente mobilizando o trabalhador durante todos os dias da semana. Tudo isso impõe aos funcionários em geral, e para as pessoas com deficiência que trabalham neste cenário a quase indisponibilidade do tempo livre para o laser, para o estudo, para o cultivo de relações familiares e de amizade (Gonçalves, 2008). A inserção de trabalhadores jovens no mundo do trabalho e com comprovação de experiência em carteira, como exige o perfil encaminhado pelos supermercados, poderia ocorrer em uma proporção mais elevada se os jovens com deficiência, assim como os sem deficiência, passassem a fazer parte de um programa do governo “meu primeiro emprego”. A rede de supermercados da RMB, como foi constatado no decorrer da pesquisa privilegia a contratação de funcionários com determinados tipos de deficiências, excluindo outros. A abertura para a contratação de funcionários com todos os tipos e níveis de deficiência seria importante para a flexibilização do perfil exigido para a contratação. Hoje, este perfil, de modo velado, tem priorizado a contratação de pessoas surdas e com “deficiências leves” desenvolvendo funções, em geral, na esfera operacional, em especial na função de embalador – criando um mito de que trabalhador adequado para os supermercados e para a função de embalador é o deficiente auditivo. Todos podem ser trabalhadores produtivos e competentes desde que as condições de trabalho estejam adequadas a eles e não o contrário. Os donos de supermercados e/ou chefes dos Recursos Humanos necessitam participar de cursos de formação sobre tecnologia assistiva e de como lidar com os limites e os potenciais dos deficientes; como trabalhar com os funcionários não deficientes a vida em grupo, proporcionando a estes momentos de troca de conhecimentos, como por exemplo, com a ajuda de um intérprete, o funcionário surdo (a maioria absoluta do setor) pode transmitir o básico de sua linguagem. Somente dessa maneira teremos um ambiente inclusivo e humanizado, proporcionando a ascensão funcional e uma permanência mais longa desses trabalhadores. A Justiça do Trabalho e as Instituições Governamentais e as Organizações Intermediadoras precisam fazer um trabalho mais incisivo junto às empresas 81 brasileiras, visando à promoção dos direitos das pessoas com deficiência, mudando o perfil excludente exigido pelas empresas, principalmente com os jovens, os idosos e os deficientes com limitações mais severas; fazendo valer a Lei de Cotas, Lei nº 8.213, de 25/7/91 principalmente junto às grandes empresas, pois segundo pesquisas do Ministério do Trabalho e Emprego, 2002, estas empregam abaixo do exigido pela lei, enquanto as pequenas acima do percentual exigido. E segundo estudo realizado pela FEBRABAN dos 48% dos deficientes ativos apenas 10,4% possuem Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) assinada. Esses dados demonstram que está correndo atualmente uma desaceleração no nível de ocupação, o que indignifica a pessoa com deficiência. A escolarização como um dos fatores exigidos para a inserção das pessoas com deficiência, necessita ter seu grau flexionado pelas redes de supermercado e o sistema de ensino tem que oferecer mais condições e oportunidades para que esses cidadãos tenham seu nível e escolaridade elevado facilitando seu ingresso no mundo do trabalho. Apesar do aumento das matrículas dos deficientes no ensino especial e na rede regular de ensino, nas escolas públicas e particulares em todo Brasil (MEC/INEP), a permanência e o sucesso ainda são baixos, segundo entrevista concedida por instituições intermediadoras da região metropolitana de Belém, muitas pessoas com deficiência não conseguem o emprego por não possuírem o nível médio completo. Há necessidade de o governo aumentar os investimentos em capacitação dos profissionais da educação, na acessibilidade, nos equipamentos tecnológicos, com a proposta inclusiva do Desenho Universal. Os currículos escolares devem incluir programas específicos de treinamento profissional para inserção no mundo do trabalho e na vida adulta, como preceitua a Declaração de Salamanca. A rede de relacionamentos pode ser fonte de recursos para profissionais que trabalham com famílias, mas a necessidade de ampliar as informações sobre deficiência em uma rede mais ampla que envolva parentes, amigos, vizinhanças deve ser considerada. A Empregabilidade da pessoa com deficiência e a sua inserção no mercado de trabalho depende do apoio de redes sociais. A pesquisa apontou, que estes fatores não resultam apenas do esforço individual do trabalhador de estudar e se 82 qualificar, mas das pessoas e instituições que estão à sua volta, com atitudes acolhedoras, que lhes proporcione amor e autonomia possibilitando a superação das barreiras que dificultam o acesso ao mundo do trabalho. 83 REFERÊNCIA AGUIAR, Neuma (org.). Capital social e redes sociais. 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ANO: _______________ ( ) 1º Trimestre ( ) 2º Trimestre ( ) 3º Trimestre ( ) 4º Trimestre 1 – Dados Pessoais: Nome: ________________________________________________________________________ Data de Nascimento:__________________ Idade: _________ Naturalidade: _______________ Endereço: _____________________________________________________________________ Bairro: _____________________ Fone: _________________ Contato: _____________________ Tempo de Atendimento na Escola Especial: _________________________ anos Programa que Freqüentou: ________________________________________________________ Faz uso de Medicamento: Sim ( ) Não ( ) Quais? ________________________________________________________________________ Tipo de Deficiência: ______________________________________________________________ Escola: ________________________________________________________________________ Série: ________________ Turno: ___________________________________________________ Participa de Atendimento em Escola Especial: Sim ( Ano: _________________________ ) Não ( ) Qual? ____________________ Nível de Escolaridade: ( ) Alfabetização ( ) Educação de Jovens e Adultos ( ) Completo ( ) Incompleto Ano: ___________________ ( ) Ensino Fundamental Série: ______________________ ( ) Ensino Médio ( ) Completo ( ) Incompleto Ano: _______ Série: ____________________ ( ) Ensino Superior ( ) Completo ( ) Incompleto Ano: _______ Série: __________________ Modalidade de Educação Profissional: ( ) Completo ( ) Incompleto ( ) Ano: ______ Cursos Profissionalizantes: Quais? _______________________________________________________________________ 2 – Dados Funcionais: Nome da Empresa: __________________________________________________________ Endereço: __________________________________________________________________ Bairro: __________________________________ Horário de trabalho: ________________________ Função: ___________________________ Data da Admissão: ___/___/___ Data de Demissão: ___/___/___ Chefe Imediato: _____________________________________ Fone: ___________________ Anexo nº. 2 89 OFÍCIO MODELO Belém, 17 de dezembro de 2008 OF. Nº 001/2008 Assunto: Seleção de Pessoas Portadoras de Deficiência Prezado Senhor (a), A empresa L Ltda, é reconhecida pela comunidade em geral, por ser uma das pioneiras na inclusão de portadores de deficiência no mercado de trabalho. Em conformidade com o Decreto nº 3.298, temos procurado agregar valor ao Grupo L, contratando esses profissionais que, com certeza, são grandes exemplos de superação e dedicação para todos nós. No entanto, o Grupo L, é uma empresa que cresce muito, aumentando seus postos de trabalho em quantidade significativa. Temos tido dificuldade para admitir o total de pessoas em questão, que realmente necessitamos. Gostaríamos até de contratar pessoas a mais, prevendo o nosso crescimento e as saídas espontâneas, mas estamos com falta de candidatos. Diante do exposto, a empresa L Ltda, vem por meio deste solicitar o encaminhamento de candidatos portadores de deficiência ou reabilitados pelo INSS, para processo de seleção. Informamos que não temos restrição quanto à escolaridade ou outros quesitos, pois procuramos avaliar como a pessoa é capaz de contribuir dentro das funções que temos. Aguardamos retorno positivo para que possamos agendar um encontro com os candidatos e aproveitamos o ensejo, para renovar nossos votos de estima e consideração. Atenciosamente, _____________________________ Coord. Rec. Humanos À COORDENADORIA DE EDUCAÇÃO ESPECIAL (COEES)