O EMPREENDEDORISMO NA INTERNET: ESTUDO DE CASO Eliane Ferreira da Silva ∗ RESUMO O empreendedorismo tem suscitado interesse em todo o mundo, desde ações em governos nacionais, organizações multinacionais e até na iniciativa privada e na ação individual. A história revela que esse sempre foi um tema fundamental na sociedade. Conseqüentemente, torna-se de interesse para os pesquisadores e a educação em geral. Dentre os muitos frutos de uma ação empreendedora, este artigo chama a atenção para um caso em especial que, além de um exemplo coroado de êxito, inspirou o tema de uma pesquisa de doutorado. O trabalho mostra como surgiu a idéia para o tema e inicia um breve estudo que faz uma abordagem sobre as questões relativas ao empreendedorismo. Desta forma, remete-nos para a história, a conceituação e os pressupostos com ele relacionados. Insere-se, portanto, no âmbito da pesquisa qualitativa e interpretativista, maneira bastante usada na pesquisa em Ciências Sociais. A metodologia busca subsídios na Análise de Conteúdo e tem como objetivos introduzir a reflexão sobre um tema relevante e atual para os educadores, assim como para todos os leitores, que podem também ser empreendedores em potencial, e contribuir para novos estudos e ações empreendedoras. PONTO DE PARTIDA Quase diariamente nossos hóspedes pediam para acessar a Internet para leitura de e-mails, conferência bancária, etc. Temporariamente, eu cedia o computador e me afastava um pouco; aproveitava para ler alguma outra coisa. Além das consultas comuns, eles também se reuniam em frente ao computador para rir. Eu andava muito ocupada com a minha dissertação de mestrado. A distância, eu percebia que inclusive o meu marido estava familiarizado e participava em comentar o que todos estavam vendo e achando engraçado. Não demorou muito, certa vez, de longe me chamaram e perguntaram: “Não vai ver a charge do dia?” Eu realmente fiquei curiosa. Charge?! Mas como, charge? Que coincidência! Eu estava trabalhando também com charge e história em quadrinhos, mas era a impressa, tradicional. Eu descobri que todo aquele interesse e conversa animada envolvia a leitura da charge eletrônica. Logo percebi que se tratava de uma idéia pioneira. Reunia a noção de charge com as possibilidades de aplicação dos recursos das novas tecnologias. Uma forma inovadora de utilizar uma concepção já existente. Uma leitura cativante. Com certeza, prende a atenção do leitor. Realmente, tratava-se de um site inovador, uma ação empreendedora. O chargista utilizava o antigo gênero textual, agora vestido com tecnologia, para criar charges animadas com som e movimento. Também aproveitava o princípio do Karaokê para introduzir uma outra renovação da charge animada, a chamada “chargeokê”. Castells (2000, p. 392) faz alusão a novos meios de comunicação eletrônica que não divergem das culturas tradicionais; de fato absorvem-nas. Ele dá como exemplo a invenção do Karaokê pelos japoneses. Esse novo meio de comunicação demonstra a rapidez com que se propaga e difunde a comunicação em meio eletrônico. Segundo o citado autor, é comum no Japão, na Espanha e em outros lugares as pessoas cantarem juntos em bares. A máquina de Karaokê estende e amplia esse hábito, incorpora recursos tecnológicos, todavia mantêm um padrão social e cultural muito difundido. Nessa visão, o chargista Maurício Ricardo Quirino retoma a antiga concepção da charge de uma forma original, temperada com humor e apropriando-se do princípio do Karaokê para a configuração de uma nova derivação da charge. Os internautas, ao cantarem, interagem com a criação do chargista. Com isso, as leituras das charges passavam a ser participativas. Ao leitor abria-se a oportunidade para cantar junto com os personagens, ao som de uma música famosa, com uma nova letra que transmitia as informações e idéias do chargista. A idéia desse feito empreendedor me inspirou para o projeto de doutorado. A partir daí, outros trabalhos estão sendo desenvolvidos, assim como este artigo. Assim, analisamos a questão do empreendedorismo, tendo em vista o exemplo da criação das charges de um modo geral e, especialmente o nosso objeto de estudo – a charge eletrônica. A metodologia empregada é a Análise de conteúdo que, segundo Bardin (1977, p. 214) é um método que pode ser aplicado a uma grande diversidade de materiais, ou suportes de comunicação, bem como permite abordar uma ampla variedade de investigações, como: representações, ideologias, comportamentos, opiniões, crenças, propósitos, valores, etc.. É relevante, por se tratar de uma pesquisa que pode contribuir para o ensino do empreendedorismo e a educação de um modo geral. Ao mesmo tempo, incentiva os educadores para maior integração na prática educativa e o uso de meios que possibilitem aos alunos condições de participação ativa e crítica. Dessa forma, os educadores podem vincular o ensino com a vida concreta e com outras possibilidades de leitura dos acontecimentos e informações de sua época histórica. Nessa perspectiva, inicialmente abordaremos a definição do termo “empreendedorismo”, sua importância histórica e seu conceito na opinião de alguns importantes estudiosos do assunto. A seguir, faremos uma breve retrospectiva histórica para mostrar que a criação do fenômeno charge estava intimamente ligada ao perfil de sujeitos considerados como empreendedores para suas épocas (HORN, 1999; MIRALLES, 1984). Finalmente, terminaremos por enfocar o nosso caso atual de empreendedorismo conforme dito: a charge eletrônica. Mas, afinal, o que é um empreendedor e qual é o seu papel? Como era usado o termo no passado? O empreendedor atual, dessa nossa era do empreendedorismo, difere do empreendedor do passado? Como vemos o chargista empreendedor do passado e o de agora? Em que diferem? Ao procurar responder a essas perguntas, observamos de perto o caso atual do “charge.com”, retomamos do passado outros exemplos de chargistas, fazemos algumas conexões oportunas e chamamos a atenção para o papel dos educadores. O dicionário Aurélio registra empreendedor como alguém ativo, arrojado. Dornelas (2001, p. 15) define-o como aquele que faz as coisas acontecerem, se antecipa aos fatos e tem uma visão futura. Ele também considera que há algumas habilidades técnicas, gerenciais e de cunho pessoal que são requeridas. Podemos observar que todas elas envolvem uma boa educação desde cedo. Isto aumenta ainda mais a importância da Educação na formação do indivíduo, visto que as habilidades técnicas e gerenciais podem ser adquiridas. Quanto às qualidades pessoais, elas podem ser incentivadas, melhoradas e desenvolvidas. Sendo assim, os educadores podem contribuir com programas de capacitação e criar possibilidades de inserir o tema no âmbito do ensino. Segundo Dornelas (2001, p. 27), o termo empreendedor (entrepreneur) possui suas raízes na França e significa em sua essência “aquele que assume riscos e começa algo novo”. O citado autor também identifica o primeiro uso da palavra empreendedorismo como tendo sido atribuída à pessoa de Marco Pólo. O seu feito empreendedor foi assinar um contrato para vender as mercadorias de um homem rico. Em uma observação histórica sobre o surgimento do empreendedorismo, Dornelas (2001, p. 27) também faz referência ao uso do termo em outros períodos da história. Podemos citar a Idade Média, o Século XVII e o Século XVIII pela importância do avanço na ampliação do significado do termo. Na idade Média, o termo era empregado para referir-se ao indivíduo que “gerenciava grandes projetos de produção”. No século XVII, segundo Dornelas (2001, p. 28), foram associados “os primeiros indícios de relação entre assumir riscos e empreendedorismo”. Enquanto que, no século XVIII, o citado autor menciona ter ocorrido uma importante diferenciação entre o capitalista e o empreendedor, “provavelmente devido ao início da industrialização”. Ao observarmos as concepções de outros autores, o que chama a atenção de Bernardi (2003: p. 64) são as virtudes do sujeito, tais como: otimismo, persistência, criatividade, dinamismo, senso de oportunidade, para citar apenas algumas da sua relação. Leite (2002, p. 51) distingue o empreendedor como ágil, persistente e, em geral, trabalha com um tipo de capital intangível: boas idéias. Ele é capaz de estimular a criação do futuro (LEITE, 2002, p. 167). Leite (2002) concorda com os demais autores ao mencionar a palavra empreendedorismo e seu conceito. Ela foi empregada no século XVII, na França. Naquela ocasião, o uso atribuído era para descrever um sujeito que assumia o risco de criar um novo empreendimento (LEITE, 2002, p. 51). Historicamente, o papel do empreendedor mostrou-se fundamental para a sociedade. Segundo Leite (2002, p. 51) o empreendedor é um dos ativos mais importantes de qualquer economia. São muitos os exemplos empreendedores de artistas do passado. Em uma observação histórica sobre o surgimento do empreendedorismo na criação da charge, passaremos agora a chamar a atenção para alguns relacionados com a sua criação e produção. O primeiro aconteceu na França, a partir do século XVII, com o trabalho do italiano Agostino Carracci, quando foi lançada a moda da caricatura. (LIMA, 1963; AGOSTINHO, 1993; HAUTENCOUER, 1963). Somente no século XVIII aproveitaram a idéia de incluir os elementos cômicos como uma característica explícita e sempre presente. Sobretudo na Inglaterra, as charges florescem nos trabalhos de artista como: William Hogarth (1697-1764), escritor inglês de sátiras. Por ser diferente e inovador para a sua época, atraiu a admiração pelos seus trabalhos também no exterior. Ele passou a ser muito conhecido por suas estampas e pinturas satíricas. (FONSECA, 1999; SOUZA, 1986). Thomas Rowlandson foi um outro renomado pintor e empreendedor caricaturista inglês. Ele ilustrou a vida da Inglaterra no século XVIII. Essa iniciativa serve como testemunho histórico de pormenores de sua época na preservação da memória. (The Columbia…, 2003; WOOD, 2000). Já o empreendedor inglês James Gilbray foi o precursor da charge política. Ele tem seu nome associado a caricaturas políticas de intensa expressividade. Elas foram especialmente dirigidas contra o rei George III, da Inglaterra e Napoleão I, da França. Seu trabalho empreendedor influenciou outros chargistas a utilizarem crítica mordaz, feroz. A partir daí, aparece a produção freqüente do vulgar, do obsceno, do indecente, do imoral e do grosseiro associados à charge. (The Columbia…, 2003; HAUSER, 1961). Também na Inglaterra, no final do século XIX, foi criada uma publicação empreendedora - a Revista Punch. Essa idéia inovadora foi um marco histórico, pois desde então, na linguagem jornalística, passaram a usar a charge como parceira fundamental para a informação e comunicação fácil e rápida dos leitores. (FONSECA, 1999). A história revela que sempre houve empreendedores. No entanto, o momento atual, segundo Dornelas (2001, p. 21), pode ser chamado de era do empreendedorismo. Cada vez mais estão surgindo novos empreendedores, nas mais diversas áreas. Eles buscam alcançar novos paradigmas para eliminar barreiras e implementar idéias inovadoras no uso das novas tecnologias. Esse é o caso de chargistas como Maurício Ricardo Quirino, o idealizador do atual “charges.com”. Nesse cenário de reflexões, passaremos ao nosso exemplo, o “charges.com” (como é conhecido), fruto de um ato empreendedor, um trabalho pioneiro no Brasil, criação do jornalista e cartunista Maurício Ricardo Quirino, publicado em fevereiro de 2000. Originalmente, ele fez parte do portal “zip.net”, que deixou de existir. Um pouco da sua história pode ser lida no próprio site. Por tornar-se um sucesso na Internet, despertou o interesse de grandes portais; em dezembro de 2001, passou a ser veiculado pelo portal “Globo.com”. Daí em diante, ficou consagrado nacional e internacionalmente e recebe especial atenção dos próprios brasileiros que residem no exterior, para se manterem atualizados, além de fazer sucesso em Portugal e em alguns outros países de língua portuguesa. O próprio site possui um tesauro para a recuperação da informação da charge, com entradas por assunto ou data de publicação on-line. No caso da “charges-okê”, ainda possui a possibilidade de se recuperar a informação através do nome da música envolvida no tema. Como se trata de músicas populares e de sucesso, torna-se apropriada esta possibilidade, pois, geralmente, as pessoas guardam na memória a música e a letra com seu refrão, senão alguma parte dela. Além disso, ao se conectar, é possível visualizar o arquivo pela tela do computador, onde aparece uma imagem ilustrativa da charge e seu título. Os arquivos do site são organizados em ordem cronológica, da mais recente até a mais antiga disponível. Com isso, o leitor obtém um indício do tema tratado em cada charge e o que pode estar sendo envolvido em seu tema. Ao utilizar os recursos das novas tecnologias, da interatividade e da multimídia, o site insere-se no novo quadro de leitura e escrita incrementado pela Internet e possibilita a transmissão das memórias históricas e culturais do país, propagadas pela comunidade virtual, em tempo real, até as partes mais distantes e de difícil acesso. CONCLUSÃO Certamente, o avanço tecnológico contribuiu para inovação da técnica e do produto final. Podemos dizer, com o exemplo da charge eletrônica, que o incremento do empreendedorismo torna-se uma conseqüência das rápidas mudanças tecnológicas, uma busca para conseguir o melhor uso, inventar e inovar com os recursos disponíveis. Por isso, o contexto atual da nossa sociedade da informação, com a rapidez das mudanças tecnológicas, alimentou as necessidades de reflexões sobre as novas relações de trabalho e a importância do papel do empreendedor, uma tentativa de identificar o que o difere do passado. Isso faz surgir uma renovação de conceitos antes enraizados. Por conseguinte, maior ênfase para a pesquisa e o ensino sobre o assunto. Nesse breve estudo, podemos concluir que uma diferença relevante observada no processo empreendedor foi o avanço tecnológico como recurso para inovação. Por outro lado, a pesquisa e o ensino sobre a cultura empreendedora passaram a despertar interesse em todo o mundo. O tema não é novo. No entanto, mais recentemente, está obtendo destaque, em especial, nos países capitalistas como, por exemplo, os Estados Unidos da América. No Brasil, as escolas e as universidades passaram a demonstrar vivo interesse pelo seu ensino. De certa forma, em decorrência da globalização, há uma injunção das exigências das empresas, que, por sua vez, também atuam sobre seus funcionários. Tudo isso age como força motivadora para conhecer o processo empreededor e sua revolução histórica. Um aspecto vital que podemos constatar é que foi derrubado o mito de que o empreendedor já nasce como tal. Para os estudiosos, é perfeitamente possível desenvolver o espírito empreendedor. Bhide (2002, p. 63) afirma que as pessoas que procuram oportunidades de empreendedorismo são bem sucedidas e normalmente geram muitas idéias. Quando questionado sobre a possibilidade de ensinar empreendedorismo, Dornelas (2001, p. 38) diz acreditar que o processo empreendedor pode ser ensinado e entendido por qualquer pessoa. No entanto, ser bem-sucedido é o resultado de uma série de fatores. Com certeza, podemos perceber que o ensino do empreendedorismo pode transformar pessoas e idéias e também ajuda na formação de melhores profissionais. Por isso, a educação assume um papel fundamental em sintonia com o seu tempo e com as necessidades de um sempre crescente número de pessoas desejosas de inserir-se nesses novos contextos. Os exemplos aqui mencionados mostraram ser empreendedores, pois os diversos chargistas mostraram a sua capacidade voltada para a inovação, fizeram investimentos, expandiram novos mercados, produtos e técnicas. Realmente, podemos dizer, apoiados por Leite 2002, p. 168), que esses chargistas desbravaram novos mercados. O mais importante de tudo o que merece ser destacado é a influência de uma ação empreendedora. Nos diversos exemplos mencionados, podemos constatar que uma ação empreendedora dá frutos. Ela influencia, inspira, e promove novos empreendedores e ações empreendedoras. REFERÊCIAS AGOSTINHO, Alcione Torres. A charge. São Paulo: USP, 1993. BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977. BERNARDI, Luiz Antonio. Manual de empreendedorismo e gestão: fundamentos, estratégias e dinâmicas. São Paulo: Atlas, 2003. BHIDE, Amar. Como os empreendedores constroem estratégias que dão certo. In: HARVARD Busineess Review. Empreendedorismo e estratégia. 3. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2002. cap. 3. CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede - a era da informação: economia, sociedade e cultura, v. 1. São Paulo: Paz e Terra, 2000. CHARGES. com: banco de dados. Disponível em: <http://www.charges.com.br>. Acesso em: 10 de maio de 2004. DORNELAS, José Carlos Assis. Empreendedorismo: transformando idéias em negócios. Rio de Janeiro: Elsevier, 2001. FONSECA, Joaquim. Caricatura: a imagem gráfica do humor. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1999. HAUSER, Arnold. Introduccion a la Historia Del Arte. Madrid: Guadarrama, 1961. HAUTECOEUR, LOUIS. História geral da arte. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1963. HORN, Maurice. The World encyclopedia of cartoons: contemporary graphic artists. London: Chelsea House Pub, 1999. LEITE, Emanuel. O fenômeno do empreendedorismo. Recife: Bagaço, 2002. LIMA, Herman. História da caricatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1963. MIRALLES, José Maria. Artistas que revolucionaram o mundo. Lisboa: Civilização, 1984. NOVO Aurélio: século XXI dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Lexicon Informática [2002?]. 1 CD. SOUZA, Luciana Coutinho P. de. Charge política: o poder e a fenda. São Paulo: PUC, 1986. WOOD, Art. Great cartoonists: and their art. North Belmont, Australia: Pelican Pub Co, 2000. ∗ Instituição: UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE – BRASIL e-mail: [email protected] . Endereço para contato: Alameda das Mansões, 1170 ap. 802 – Candelária NATAL – RN – BRASIL - CEP 59067-010 - telefones: 206 8385 9418 6673.