PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS
Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social – Interações Midiáticas
Ana Paula Giberti Oliveira Mendes
REDES INTERACIONAIS MIDIATIZADAS DA BLOGOSFERA DA SEGURANÇA
PÚBLICA: Estudo do processo comunicacional durante o período da mobilização
reivindicatória dos agentes da Segurança Pública de Minas Gerais
Belo Horizonte
2013
Ana Paula Giberti Oliveira Mendes
REDES INTERACIONAIS MIDIATIZADAS DA BLOGOSFERA DA SEGURANÇA
PÚBLICA: Estudo do processo comunicacional durante o período da mobilização
reivindicatória dos agentes da Segurança Pública de Minas Gerais
Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação da Faculdade de Comunicação Social da
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais,
como requisito para obtenção do título de Mestre em
Comunicação.
Orientadora: Maria Ângela Mattos
Belo Horizonte
2013
FICHA CATALOGRÁFICA
Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
M538r
Mendes, Ana Paula Giberti Oliveira
Redes interacionais midiatizadas da blogosfera da segurança pública:
estudo do processo comunicacional durante o período da mobilização
reivindicatória dos agentes da Segurança Pública de Minas Gerais / Ana Paula
Giberti Oliveira Mendes. Belo Horizonte, 2013.
141f.: il.
Orientador: Maria Ângela Mattos
Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social.
1. Redes sociais. 2. Mídia digital. 3. Segurança pública. 4. Comunicaç~eos
digitais. 5. Blogs. I. Mattos, Maria Ângela. II. Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. III.
Título.
CDU: 301.175.1
Ana Paula Giberti Oliveira Mendes
REDES INTERACIONAIS MIDIATIZADAS DA BLOGOSFERA DA SEGURANÇA
PÚBLICA: Estudo do processo comunicacional durante o período da mobilização
reivindicatória dos agentes da Segurança Pública de Minas Gerais
Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação da Faculdade de Comunicação Social da
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais,
como requisito para obtenção do título de Mestre em
Comunicação.
____________________________________________
Maria Ângela Mattos (Orientadora) – PUC Minas
____________________________________________
José Márcio Pinto de Moura Barros – PUC Minas
____________________________________________
Márcio Simeone Henriques – UFMG
Belo Horizonte, abril de 2013
Dedico este trabalho aos honrosos policiais militares, bombeiros e policiais civis, também aos
analistas de Segurança Pública e Defesa Social, guardas municipais, policiais federais,
agentes penitenciários, enfim, homens e mulheres que trabalham para a melhoria da
Segurança Pública e Defesa Social do nosso país.
Esta pesquisa representa um esforço acadêmico-profissional focado em um novo contexto, um
momento de novas perspectivas, contornos, culturas e interações. A diversidade e
complexidade cultural revelada nos ambientes midiáticos digitais da Segurança Pública exige
do Poder Público uma gestão baseada nas novas tecnologias, na gestão da informação e das
redes comunicacionais digitais midiáticas, portanto, dedico este trabalho ao Governo do
Estado de Minas Gerais e às instituições de Segurança Pública e Defesa Social.
Dedico esta pesquisa aos pesquisadores e estudiosos da blogosfera da Segurança Pública,
participantes e interessados na temática.
Dedico ainda este esforço acadêmico aos profissionais cujo destino a trajetória uniu os
esforços pelos estudos da Comunicação Social e Segurança Pública. Quantos conhecimentos
podem ser construídos na integração destas duas áreas...
Por fim, dedico este estudo a quem consiga enxergar além das nuances...
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus por ter me dado força interior e equilíbrio para superar tantos
obstáculos em minha vida. Aos vinte e um anos de idade, ao reaprender a andar, aprendi
também que desistir é o caminho mais fácil, e esta opção não faz parte da minha vida! Ao
lidar com muitas perdas, aprendi que recomeçar é difícil, mas é necessário e a recompensa
sempre virá, se crermos. E veio... Deus me deu uma família que me ergue todos os dias. Hoje,
a voracidade diária vem de olhar meus três filhos: Gui, Gabi e Rafa. Agradeço imensamente
ao Léo, meu parceiro de longa data, amo você eternamente! Obrigada pela compreensão e por
me suportar na ausência, na ansiedade, na euforia e desânimo.
Agradeço ao meu pai, grande homem! Louvo minha mãe, por ter me ensinado, a ser
tudo... ser de tudo um pouco, mas, sobretudo, a ser do bem! Agradeço ao meu irmão, Lehma e
vó Cler, tios, primos e familiares... a todos que amo imensamente! Sou um pouco de cada um
de vocês. Pudera enumerá-los...
À querida Maria Ângela Mattos, carinhosamente Dedé, minha orientadora, pela
paciência. Meus agradecimentos aos mestres de longa caminhada na PUC-MG e na
Federal/UFMG.
A gloriosos veteranos da Segurança Pública, grandes inspirações, amigos de trabalho
que já me ensinaram e os que ainda me ensinam muito. Meus agradecimentos pela confiança
a raros e novos companheiros que, diariamente, têm-me guiado no ciclo de produção do
conhecimento de Segurança Pública.
Aos que confiam e acreditam em mim, minha fidelidade e gratidão! Aos que não tem
medo do ofício e acreditam que por mais que seja difícil, sempre vale a pena.... meus sinceros
agradecimentos. Estamos na mesma sintonia! Aos que não denigrem, aos que contribuem, aos
que integram e não julgam em vão, no final e, afinal, é entre nós, somente nós e Deus.
Essa é minha vida! Continuarei honrando meu dever, de forma digna e por onde for,
cumprirei minha missão! Assim me encontro e me realizo! Por fim, reverencio a mim mesma,
que persisti, mesmo quando tinha tudo para desanimar. Independente do que o destino nos
reserva, sou novamente muito grata por tudo que colhi e aprendi. Em meio a canetinhas, lápis
de cor, desenhos, para casa, sobretudo muitos planejamentos operacionais, planos de ação,
protocolos e muitos relatórios, saiu!
Não é preciso ter olhos abertos para ver o sol, nem é preciso ter ouvidos afiados para ouvir o trovão. Para ser
vitorioso você precisa ver o que não está visível. (Sun Tzu)
Aprendi o silêncio com os faladores, a tolerância com os intolerantes, a bondade com os maldosos; e, por
estranho que pareça, sou grato a esses professores. (Khalil Gibran)
A complexidade não está à margem do fenômeno real. Ela é o princípio mesmo.
O fundamento físico daquilo que nós chamamos realidade não é simples, mas complexo. (Edgar Morim)
E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que
não podiam escutar a música. (Friedrich Nietzsche)
Tudo posso naquele que me fortalece. (Filipenses 4, v. 13)
RESUMO
Esta pesquisa objetivou investigar o processo comunicacional das redes midiáticas, em
particular da blogosfera da Segurança Pública (SP). Para isso, utilizou-se como estudo de caso
o blog da Renata, que explora conteúdos midiáticos relacionados à SP e temáticas correlatas à
Defesa Social no Estado de Minas Gerais. O suporte foi escolhido por revelar a diversidade
interacional de atores da SP nas redes e a convergência do ambiente entre mídia informal,
comercial e institucional, por instigar reflexões sobre o uso da rede como um ambiente
propício à mobilização e compartilhamento de questões e ações de interesses individuais e
coletivos. Para o monitoramento da mídia, investigou-se a interação do blog da Renata no
contexto da mobilização reivindicatória salarial da SP em Minas Gerais, no ano de 2011.
Como recorte temporal, acompanhou-se os meses de abril a julho, identificados em três
períodos: pré-mobilização reivindicatória, mobilização e pós-mobilização reivindicatória,
justificado pelo rico e complexo ambiente de interações sociais, mediações simbólicas e
disputas de sentido entre atores da SP. A pesquisa fundamentou-se em teorias sobre redes,
capital social, esfera pública, deliberação, movimentos sociais, mobilização, midiatização
como processo interacional de referência, interação midiatizada e sistema de resposta social,
além dos estudos sobre blog e blogosfera da SP. A metodologia compreendeu a revisão da
literatura e o monitoramento do processo comunicacional no blog da Renata durante sua
atuação no período da mobilização reivindicatória dos agentes da SP a partir de duas
categorias analíticas: a dinâmica interacional midiática e o sistema de resposta social.
Compreendeu ainda entrevistas, análise e interpretação dos seus conteúdos, postagens,
interagendamentos com outros blogs e meios de comunicação – institucionais e comerciais.
Palavras-chave: Redes. Processo Comunicacional. Interações Midiatizadas. Sistema de
Resposta Social. Blogosfera da Segurança Pública.
ABSTRACT
This study aimed to investigate the process of communication media networks in particular,
the blogosphere Public Safety. For this, we used as a case study Renata's blog that explores
media content related to Public Security and the Social Defense related topics in the State of
Minas Gerais – Brazil. Support has been chosen to reveal the diversity of actors interactional
Public Safety networks and the convergence between media environment alternative,
commercial and institutional, for instigating reflections on the use of the network as an
environment for mobilization and sharing of issues and actions of personal interests and
collective.To monitor the media, we investigated the interaction of Renata's blog in the
context of mobilization vindicatory wage of Public Safety at Minas Gerais, in 2011. As time
frame, followed up the months from April to July, identified in three periods: beforevindicatory mobilization, mobilization and post-mobilization vindicatory, justified by the rich
and complex environment of social interaction, symbolic mediations and disputes between
players in order Public Security. The research was based on theories of networks, social
capital, public sphere, deliberation, social movements, mobilization, mediatization as
interactional process reference, mediated interaction and social response system, in addition to
studies on the blog and blogosphere Public Safety. The methodology included a literature
review and monitor the communication process Renata's blog on his performance during the
period of mobilization vindicatory Public Safety Officers from two analytical categories: a
dynamic interactive media system and social response. Also comprised interviews, analysis
and interpretation of their content, posts, inter sheduling with other blogs and media –
institutional and commercial.
Keywords: Networks. Communicational Process. Interactions Midiatizadas. Social Response
System. Blogosphere of Public Safety.
LISTA DE FIGURAS
FIGURA 1: Representação do sistema político de Habermas e o papel da mídia.........
27
FIGURA 2: Dinâmica interacional e transversal...............................................................
40
FIGURA 3: Quadro investigativo da Unesco...................................................................
64
FIGURA 4: Investigação da Unesco referente ao perfil do blogueiro............................... 65
FIGURA 5: Evolução de 2006 a 2009 dos blogs na blogosfera da SP..............................
66
FIGURA 6: Mapeamento na blogosfera por estados de 2006 a 2009..............................
66
FIGURA 7: Mapeamento on-line na blogosfera de 2009 a 2012......................................
67
FIGURA 8: Crescimento acumulado dos blogs da blogosfera de 2006 a 2012................
69
FIGURA 9: Identidade visual do blog da Renata..............................................................
71
FIGURA 10: Postagem com figuras políticas no blog da Renata e no Facebook.............
73
FIGURA 11: Exemplo do interagendamento com redes sociais no blog da Renata......
75
FIGURA 12: Chat no blog da Renata................................................................................
76
FIGURA 13: Exemplo da dinâmica de comentários no blog da Renata...........................
77
FIGURA 14: Colaborador e moderador do blog da Renata..............................................
79
FIGURA 15: Exemplo de interagendamento midiático sobre início da mobilização...
85
FIGURA 16: Início das postagens de adesão ao movimento no blog da Renata..........
85
FIGURA 17: Postagem representativa do contexto reinvindicatório nacional.................. 86
FIGURA 18: Interagendamento do blog da Renata com o jornal Estado de Minas.......... 88
FIGURA 19: Atuação da administradora do site nos atos políticos de mobilização.........
88
FIGURA 20: Postagem com participação dos movimentos sociais e associações............
89
FIGURA 21: Reunião com instituições.............................................................................
90
FIGURA 22: Mobilização no blog da Renata por meio das remissões e interagendamento....
90
FIGURA 23: Mobilização no blog da Renata por meio das remissões e interagendamentos... 91
FIGURA 24: Remissões e interagendamentos sobre marco histórico de 1997.................
91
FIGURA 25: Uso das redes cívicas digitais e de mobilização pela blogosfera.................
92
FIGURA 26: Postagem com abordagem de mobilização no blog da Renata..................
93
FIGURA 27: Blog como instrumento de convencimento e mobilização.........................
93
FIGURA 28: Negação da mobilização reivindicatória pelo governo................................
95
FIGURA 29: Postagem com abordagem de manifestação em prol da mobilização......
96
FIGURA 30: Divulgação oficial do reajuste e blogs em contraposição............................
97
FIGURA 31: Vinculação a associações CUME e Aspra.................................................... 101
FIGURA 32: Interagendamento com jornal on-line Uai...................................................
110
FIGURA 33: Interagendamento entre blog e mídia impressa............................................ 111
FIGURA 34: Blogs de frente política e vínculos midiáticos com movimentos................. 112
FIGURA 35: Interagendamento oficial e informal por meio do blog da Renata..............
115
FIGURA 36: Links para outros blogs integrantes da blogosfera policial..........................
116
FIGURA 37: Exemplo de acompanhamento e monitoramento do blog da Renata......
117
FIGURA 38: Mapa de locais de acesso e zona quente do blog da Renata........................
119
FIGURA 39: Acessos no blog da Renata........................................................................... 120
FIGURA 40: Estatística de horários de maior acesso ao blog da Renata........................
121
LISTA DE TABELAS
TABELA 1: Levantamento atualizado do crescimento da blogosfera da SP por estados.........68
LISTA DE SIGLAS
ASLEMG - Assembleia Legislativa de Minas Gerais
ASPRA – Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais
CBMMG – Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais
CESeC – Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes
CMBH - Câmara Municipal de Belo Horizonte
CUME – Associação Central Única dos Militares Estaduais
PCMG – Polícia Civil de Minas Gerais
PEC – Projeto de Emenda Constitucional
PMMG – Polícia Militar de Minas Gerais
SEDS – Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais
SINDPOL – Sindicato dos Servidores da Polícia Civil do Estado de Minas Gerais
SP – Segurança Pública
SRS – Sistema de resposta social
TJMG – Tribunal de Justiça de Minas Gerais
Unesco – Organizações das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura
URL – Universal Resource Locator, Localizador Uniforme de Recursos
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO................................................................................................................ 13
1 ABORDAGENS TEÓRICAS SOBRE O PROCESSO COMUNICACIONAL
EM REDE, A INTERAÇÃO MIDIATIZADA E O SISTEMA DE RESPOSTA
SOCIAL............................................................................................................................
1.1. Redes: atores, conexão e capital social....................................................................
1.2. Redes digitais como esfera pública e ambiente de deliberação............................
1.3. Movimentos sociais, ação coletiva, processos de mobilização e visibilidade nas
redes midiáticas................................................................................................................
1.4. Midiatização como processo interacional de referência........................................
1.5. Sistema de resposta social........................................................................................
1.6. Redes comunicacionais midiatizadas digitais: blogs..............................................
2 BLOGOSFERA DA SEGURANÇA PÚBLICA (SP) E O BLOG DA RENATA......
2.1. Blogosfera da SP........................................................................................................
2.2. Estudo de caso: o monitoramento de mídia do blog da Renata............................
2.3. Contextualização da mobilização reivindicatória dos agentes de SP em Minas
Gerais, em 2011................................................................................................................
3 A ANÁLISE DO PROCESSO COMUNICACIONAL NO CONTEXTO DA
MOBILIZAÇÃO REIVINDICATÓRIA DOS AGENTES DA SEGURANÇA
PÚBLICA (SP) MINEIRA EM 2011..............................................................................
3.1. A atuação do blog da Renata durante o período da mobilização
reivindicatória..................................................................................................................
3.2. Processo Comunicacional do blog da Renata na mobilização reivindicatória...
3.2.1. Dinâmica interacional midiatizada......................................................................
3.2.2. Sistema de resposta social.....................................................................................
3.3. Mensuração das participações no blog da Renata.................................................
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................
18
18
24
32
41
49
53
60
60
70
80
83
83
101
101
109
117
122
REFERÊNCIAS............................................................................................................... 127
ANEXOS........................................................................................................................... 137
GLOSSÁRIO.................................................................................................................... 142
13
INTRODUÇÃO
A revolução da tecnologia da informação e a
reestruturação do capitalismo introduziram uma
nova forma de sociedade, a sociedade em rede.
(CASTELLS, 2005, p.17).
A emergência das tecnologias digitais acarretou mudanças na forma da sociedade
contemporânea de se comunicar, possibilitando que esse cenário desterritorializado e
pluritemporal traga à tona novos processos de sociabilidade, de práticas sociais e de
construção social da realidade. A velocidade da troca de informações assegura maior poder de
interlocução aos atores, favorecendo-lhes inserção e intercruzamento entre si, além de abrir
novas potencialidades de conexão e participação.
Esse complexo e diversificado contexto, permeado por intensas transformações
sociais, destaca a necessidade de investigar as expressões/manifestações de um segmento
específico: a blogosfera da Segurança Pública (SP), em particular a de Minas Gerais. Sob esse
viés, pretende-se pesquisar as características desta rede a fim de compreender o processo
comunicacional midiatizado frente a um suporte midiático que integra essa blogosfera
temática. Com este fim elegeu-se o blog da Renata como objeto empírico de estudo sobre as
práticas de interação midiatizadas dos agentes públicos vinculados ao segmento, composto
principalmente pelo Sistema de Defesa Social, a saber: Secretaria de Estado de Defesa Social
de Minas Gerais (SEDS), Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), Polícia Civil de Minas
Gerais (PCMG) e Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG).
O interesse pela blogosfera da SP e de um blog em particular decorre da possibilidade
de observar o tensionamento nessa rede de comunicação entre o individual e o coletivo, entre
a cooperação e o conflito, bem como o uso motivado dos meios digitais. Este suporte dá
visibilidade a assuntos de interesse de agentes públicos do segmento, vinculados tanto a
instituições governamentais quanto a movimentos sociais, associações e sindicatos. Em outras
palavras, os blogs podem se constituir como lugar de convergência de interesses comuns e, ao
mesmo tempo, de tensionamentos diversos, desnudando articulações, oposições, contestações
e negociações entre seus usuários. Nesse sentido, percebe-se que o ambiente virtual possibilita
as trocas, conversação social e a produção e circulação de sentidos entre os atores que dele
participam, logo, funcionando como um possível ambiente interacional e de respostas sociais
midiatizadas.
Esta dissertação estrutura-se em introdução e três capítulos, seguidos das
considerações finais. No primeiro capítulo, apresenta-se o referencial teórico, que ancora o
14
desenvolvimento da pesquisa e auxilia no entendimento das redes como possíveis espaços de
interação midiática. Questiona-se sobre as possíveis articulações e ações comunicacionais que
ocorrem nos ambientes digitais, discutindo os seguintes conceitos nucleadores da pesquisa:
rede, capital social, esfera pública, deliberação, redes cívicas, movimentos sociais e
mobilização. Tais conceitos são centrais para compreender como os ambientes digitais
formam intercruzamentos e possíveis processos coletivos. Na sequência, outros conceitos são
considerados: midiatização, como processo interacional de referência, produção e circulação
de sentidos, interação midiatizada e sistema de resposta social. Considera-se, ainda, a teoria
referente aos blogs, abrindo caminho para a caracterização do objeto empírico.
Autores como Braga (2000, 2006, 2007), Mattos e Villaça (2012), Fausto Neto (2000,
2008), Lemos (1996, 2002, 2009), Sodré (2002), Recuero (2009), Primo (2003, 2005), Matos
(2009) foram fundamentais para subsidiar a construção do objeto teórico da dissertação, que
privilegiou a correlação entre atores, conexão e laços sociais no contexto da comunicação
midiatizada.
Além disso, o debate que articula os estudos sobre as novas tecnologias midiáticas e os
conceitos de esfera pública, espaço público e deliberação pública apoiaram-se,
principalmente, nos pensamentos de Habermas (1993, 1995, 1997), Bohman (2009) e Lemos
(2009). Já o estudo sobre o uso coletivo das redes cívicas teve como referências principais
estudiosos como Maia (2000, 2002b, 2007, 2008, 2009), Melucci (1984, 1996, 2001) e
Henriques (2004, 2005), que discutem em suas obras temáticas relativas à comunicação
social, mobilização, movimentos sociais e democratização da comunicação no ambiente
sócio-técnicomidiático.
Após costurados os conceitos nucleadores realizou-se discussão sobre blogs, seu
conceito, histórico e as manifestações dos sujeitos nesse tipo de ambiente digital. Os
pesquisadores principais que se dedicam aos estudos nacionais sobre rede foram trazidos à
discussão, com ênfase nos trabalhos de Lemos (2002, 2005), Recuero (2002), Amaral e
Quadros (2006).
O segundo capítulo apresenta, primeiramente, o cenário da blogosfera da SP por meio
da pesquisa “A blogosfera policial no Brasil – do tiro ao twitter”, realizada em parceria da
Unesco com o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes
(CESeC). Esse estudo avaliou blogs publicados pelos próprios agentes de segurança, bem
como o perfil dos blogueiros participantes dessa rede. Buscou-se ainda traçar um paralelo
entre os dados referentes de 2006 a 2009 pela referida pesquisa e os dados de 2013
sistematizados por esta dissertação.
15
Sequencialmente procedeu-se a caracterização densa do blog da Renata, destacando
sua estrutura, recursos de informação, dinâmica de publicação e postagem, bem como os
principais personagens: atores presentes nos conteúdos trocados, usuários, administrador,
moderador, entre outros.
Na sequência, contextualizou-se brevemente o cenário da mobilização reivindicatória
dos agentes da SP de 2011 no estado de Minas Gerais, cenário que serviu como pano de fundo
para a realização do estudo de caso sobre o blog da Renata.
Nesse sentido, o terceiro e último capítulo compreendeu a análise e interpretação do
processo comunicacional do blog da Renata, mais especificamente sua atuação durante o
processo de mobilização reivindicatória em questão, considerando as regularidades
interacionais internas e externas mais relevantes encontradas nos contextos pré-mobilização
reivindicatória, mobilização reivindicatória e pós-mobilização reivindicatória. Estabeleceu-se
breve diálogo do cenário mineiro de 2011, com dois marcos históricos reivindicatórios do
segmento: a greve de 1997 e o movimento salarial de 2004.
A análise do processo comunicacional do blog da Renata durante o período cotejou
duas categorias: a dinâmica interacional no referido blog e o sistema de resposta social. Por
dinâmica interacional entende-se o movimento comunicacional no interior do blog da Renata,
isto é, o processo comunicativo entre os atores presentes nessa rede. Já o sistema de resposta
social é compreendido como um modelo interacional que extrapola o blog, abrangendo toda a
blogosfera da SP e os sistemas de comunicação em geral – informais, institucionais e
comerciais. Em síntese, buscou-se perceber nas duas categorias analíticas o contexto
interacional micro e macro do blog da Renata, as trocas sociais midiatizadas dentro e fora do
blog de modo a identificar os movimentos comunicacionais da blogosfera temática a partir de
um blog específico.
Como metodologia de investigação da primeira categoria – a dinâmica interacional
midiatizada no blog da Renata –, buscou-se analisar as dinâmicas interacionas internas mais
representativas e substanciais desencadeadas pelo segmento. Pesquisou-se o modo de
associação entre atores da SP, o tipo de relações estabelecidas por meio do suporte, as
características de participação dos usuários do blog, o tipo de conteúdo veiculado, seus
processos de usos e apropriações. O monitoramento do blog identificou e analisou as
interações ativadas pelo suporte: as remissões de conteúdos, isto é, a conversação interna; os
discursos, as conversas e os comentários postados; os posicionamentos dos seus
administradores e mediadores sobre os conteúdos; os debates e os embates entre os seus
usuários no periodo da mobilização reivindicatória.
16
Já os procedimentos metodológicos adotados para analisar a segunda categoria se
voltaram a verificar e analisar o interagendamento temático entre o blog da Renata e outros
blogs relacionados à SP, bem como, entre estes e as instâncias institucionais e comerciais de
comunicação. Realizou-se, sobretudo, busca exploratória para identificar repercursões do blog
da Renata em diversos sistemas de comunicação e suas formas de afetação mútuas. Para tanto,
acompanhou-se a conversação social externas ao blog por meio dos interagendamentos de
conteúdos, e, sobretudo, sua reverberação na blogosfera temática e em outras esferas em todo
o período da mobilização reivindicatória dos agentes da SP de Minas Gerais, em 2011.
Foram entrevistados a blogueira Renata Pimenta e a Secretaria de Estado de Defesa
Social (SEDS), por intermédio de representante da Assessoria de Comunicação Social
(conforme anexo n. 2). A entrevista foi de caráter semiestruturado, baseando-se em um roteiro
previamente elaborado, com perguntas apoiadas em teorias e hipóteses relacionados ao tema
da pesquisa. Os questionamentos objetivaram não só a descrição, mas, sobretudo, explicação
e a compreensão da totalidade do fenômeno.
Consultou-se por fim, dados estatísticos relacionados ao blog da Renata quanto ao
nível de acessos. Tal estratégia possibilitou dimensionar a participação dos atores no blog
durante o período da mobilização reivindicatória dos profissionais da SP, visualizados por
meio de mapas e gráficos. Essa pesquisa documental também auxiliou no detalhamento e nas
características dos locais de acessos, zonas quentes de conexões, quantitativo, horários e
crescimento das participações. Utilizou-se do sistema de estatísticas livres on-line
whos.amung.us.
Em síntese, a partir desta estrutura e metodologia investigativa, objetivou-se responder
às duas perguntas nucleadoras relacionadas ao blog da Renata: Como se dá a interação
midiatizada no suporte? O blog é utilizado como ambiente de resposta social?
Na trilha de pistas e respostas ressalta-se a importância do estudo da Comunicação nas
redes digitais para se compreender os movimentos e cenários múltiplos, transversais e
complexos de interação midiatizada. Entende-se que o caminho escolhido não deve estabilizar
o processo comunicacional, criar topologias, cristalizar as interações e o conhecimento
apreendido, mas, sobretudo, reforçar a importância dos estudos referentes à midiatização e da
mobilização da SP.
Assim, esse cenário mostrou-se potente para se pensar transversalmente o campo de
pesquisa de Comunicação e da produção midiática relacionada ao universo da SP nos
ambientes digitais. Esta interseção e multidisciplinaridade podem favorecer o entendimento
sistêmico de importantes contextos e interações, o entranhamento entre sujeitos, grupos,
17
instituições e mídias, seus vínculos e motivações (individuais e coletivas) refletidas nas trocas
midiatizadas. Em suma, esta pesquisa reflete a busca de leitura de um cenário sistêmico interrelacionado, a exploração de um ambiente midiático que não é perceptível em primeiro
momento, sendo necessário certo esforço de observação, monitoramento, descrição, análise
profunda e interpretação.
18
1 ABORDAGENS TEÓRICAS SOBRE O PROCESSO COMUNICACIONAL EM
REDE, A INTERAÇÃO MIDIATIZADA E O SISTEMA DE RESPOSTA SOCIAL
Antes de prosseguirmos este trabalho, primeiramente conceituaremos Redes como
padrões de conexão de sujeitos ou de um grupo social no ambiente digital, possibilitado pelas
ferramentas de conversação e mediação. A partir do pressuposto de inter-relação dos conceitos
de atores e conexão, alguns autores se expressam.
1.1 Redes: atores, conexão e capital social
No conceito de Recuero (2009) rede pode ser definida
como um conjunto de dois elementos: atores (pessoas, instituições ou grupos; os nós
da rede) e suas conexões (interações ou laços sociais). (Wasserman e Faust, 1994;
Degenne e Forse, 1999). Uma rede, assim, é uma metáfora para observar os padrões
de conexão de um grupo social, a partir das conexões estabelecidas entre os diversos
atores. A abordagem de rede tem, assim, seu foco na estrutura social, onde não é
possível isolar os atores sociais e nem suas conexões. (RECUERO, 2009, p. 21).
Entende-se rede, portanto, como um sistema de atores e processos, uma dinâmica dos
elementos comunicacionais de um grupo orgânico maior de características fluidas e em
movimento. Considera-se nesta pesquisa que a abordagem de rede é uma metáfora
representativa de uma dinâmica sistêmica, constituída de forma inter-relacionada por atores e
suas conexões.
Entende-se ainda que a análise da rede deve representar não a forma verdadeira dos
objetos, mas as suas relações ou funções. Sendo assim, uma rede comunicacional é
constituída por atores representados midiaticamente. Esses sujeitos, instituições ou grupos em
relações, constituidores são, portanto, do processo de interação. Tal dinamicidade traduz
características de transversalidade e mutabilidade.
Os ambientes digitais favorecem espaços de interação dos atores e eles, por sua vez, ao
se apropriarem da rede, fomentam lugares de fala e de representação. Por meio desse uso, os
atores dão formas aos fluxos comunicacionais, gerando produtos midiáticos, conteúdos,
mensagens e informações. Assim, as redes propiciam aos atores possibilidades de interação
por meio de um processo comunicativo midiatizado.
A interação consiste em uma relação entre os sujeitos do processo comunicativo, que
faz emergir elos sociais, o que resulta em valor, em substrato, unindo e mantendo conectados
os pares destas ligações. Segundo Recuero (2009), as conexões em uma rede social são
19
constituídas de laços sociais formados por meio da interação social entre sujeitos. O tipo de
interação social está relacionado diretamente ao laço social estabelecido na rede, constituído
pelo pertencimento, identidade, interesse e afinidades.
Para Goffman (1975), o laço social não depende apenas de interação e, então, os
caracteriza e classifica em dois tipos: laços “relacionais” e laços de “associação”. Laços
relacionais são aqueles constituídos por meio de relações sociais, que acontecem por meio da
interação entre os vários pares de uma rede social. Já os laços de associação independem
dessa ação, sendo necessário, unicamente, um pertencimento a um determinado local,
instituição ou grupo.
Define-se ainda laço como uma efetiva conexão entre os atores que estão envolvidos
nas interações. Ele é resultado da sedimentação das relações estabelecidas entre pares,
constituídos no tempo e por meio da interação social.
Laços consistem em uma ou mais relações específicas, tais como proximidade,
contato frequente, fluxos de informação, conflito ou suporte emocional. Os padrões
destas relações – a estrutura da rede social – organizam os sistemas de troca,
controle, dependência, cooperação e conflito. (WELLMAN, 2001, p. 7).
Já os tipos de interação na rede devem ser classificados, segundo Recuero (2009), a
partir do grau de “conexão” dos atores na relação e da intensidade na participação. A autora,
baseada na ideia de Primo (2003), caracteriza a interação nas redes em dois tipos: a interação
“mútua”, que trata de uma construção interativa, e a interação “reativa”, que é sempre
limitada e fruto de uma reação dos atores envolvidos no processo. A interação mútua gera
“laços dialógicos” e a interação reativa produz “laços associativos”, ou como complementa
Recuero: “laços fortes”, caracterizados pela proximidade, intimidade e intencionalidade e
“laços fracos”, concebidos como relações esparsas que proporcionam trocas difusas.
Ainda para a autora, o laço social se constitui pela “intensidade” da interação
(RECUERO, 2009) e esta é sempre “relacional”. Assim, enquanto o laço fraco produz um
processo de “associação” (GOFFMAN, 1975), mas não estabelece uma “construção”
(BREIGER, 1974) entre os sujeitos, o laço forte produz uma troca “dialógica” (PRIMO,
2003), que é construída pelos sujeitos da interação.
Outra característica importante referente aos laços sociais é a definição de “simetria”
associada à noção de laços, que se subdividem em dois tipos: “laços simétricos”, que
representam reciprocidade de força nos sentidos da conexão, e “laços assimétricos, que
possuem esforços e forças desiguais (RECUERO, 2009). Por outro viés teórico, os laços
20
sociais podem ainda ser denominados como “multiplexos”, constituídos de diversos tipos de
relações sociais. “(...) qualquer relação é multiplexa se transacionam-se, através dela, variados
tipos de trocas concorrentemente” (DEGENNE & FORSÉ, 1999, p.46). Recuero adota a
mesma perspectiva conceitual e explica como deve se compreender o termo.
O conceito de multiplexidade diz respeito às diversas qualidades e trocas que
caracterizam uma determinada conexão social. Diz-se que uma rede é multiplexa
quando há uma variação na quantidade de relações sociais que aparecem na rede. No
caso das redes sociais na Internet, poderíamos dizer que a multiplexidade pode ser
inferida, por exemplo, a partir das ferramentas utilizadas para manter uma mesma
conexão social. Outra forma de compreender a multiplexidade pode vir da
identificação de diferentes tipos de capital social nas interações entre esses atores,
também. (RECUERO, 2009, p.75).
Neste breve e conciso raciocínio sobre atores e conexão, o capital social deve ser
enfatizado e debatido com mais profundidade, a fim de elucidar como o conceito é
preponderante para proporcionar as interligações e a ação comunicativa nas redes digitais. O
uso desse conceito auxilia, portanto, na compreensão da força, da intensidade e da integração
e coesão das relações sociais presentes nas redes comunicacionais. Em outros termos, capital
social refere-se a um valor constituído a partir das interações, uma espécie de valor que cria e
mantém uma conexão entre atores. “Considerando-se que o capital social conecta os
indivíduos uns aos outros, visando estabelecer formas de cooperação entre eles, percebe-se a
importância que a conversação cívica pode ter no desenvolvimento desse tipo de capital.
(MATOS, 2009, p. 89).
Entende-se essa perspectiva como balizadora no entendimento de uma dinâmica
complexa do processo comunicacional que afere qualidade à interação. Esse valor é oriundo
de um sistema cíclico da informação e do compartilhamento do conteúdo simbólico, que por
sua vez constrói pertencimentos, produz significados, apropriações, ressignificações.
Acredita-se que o capital social é o elemento que concretiza as relações de maneira a
consolidar processos interacionais dialógicos, mútuos, constituídos por laços fortes,
possibilitando conexões multiplexas.
Putnam (2000, p.19) explicita que “o capital social refere-se à conexão entre
indivíduos – redes sociais e normas de reciprocidade e confiança que emergem dela”. Para o
autor, o conceito de capital social é intimamente associado à ideia de virtude cívica, de
moralidade e do respectivo fortalecimento através de relações recíprocas. A abordagem
articula dois aspectos para a construção do valor social: o “individual” e o “coletivo”. O
primeiro aspecto parte dos interesses dos indivíduos em pertencer a uma rede social para
21
benefício próprio, enquanto o “coletivo” refere-se ao capital social individual refletido na
esfera coletiva do grupo, sejam eles custos ou benefícios. O autor desenvolve elementos
centrais para a vinculação do capital social: a “obrigação moral e as normas da sociedade”, a
“confiança” – que se baseia na reciprocidade e no consenso do senso cívico – e as “redes
sociais”. (PUTNAM, 2000).
Putnam vê o capital social como elemento fundamental para a constituição e o
desenvolvimento das comunidades. A confiança é apontada pelo autor como elemento
importante para constituição do capital social e preponderante na possibilidade de criação de
consenso e senso coletivo, bases para o funcionamento das sociedades saudáveis. As
associações voluntárias – base do desenvolvimento da confiança e da reciprocidade, do
sentimento de pertencimento, de procura e interesse – dão origem e estímulos às conexões.
Essas associações estimulam, na opinião do autor, a cooperação entre os atores e a emergência
dos valores e das redes sociais. (PUTNAM, 2000).
Outra visão do conceito relacionado ao capital social de grande importância em nossa
pesquisa é o de Bourdieu (1983), que relaciona o capital social a um determinado grupo ou
rede, tendo como pano de fundo um cenário atravessado por elementos como poder e conflito.
Nessa ótica, o capital social teria dois elementos fundantes: o pertencimento a um
determinado grupo e o conhecimento e reconhecimento mútuo dos sujeitos envolvidos em um
grupo. O pertencimento, o conhecimento e o reconhecimento na visão do autor, resultam na
transformação do capital social em capital simbólico, capaz de objetivar as diferenças entre as
classes e produzir significados. (BOURDIEU, 1983).
O autor sugere que o sentimento de pertencimento e reconhecimento entre sujeitos se
transforma em significado comum, transpondo barreiras e elucidando diferenças. Esta visão se
integra nesta dissertação ao desenvolvimento das dinâmicas comunicacionais complexas
presentes nas redes. Nesse sentido, a noção de capital social proposta por Bourdieu é
fundamental para o entendimento do uso das redes como ambiente de conquista de interesses
individuais e coletivos, como se evidencia na citação a seguir:
(...) conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede
durável de relações ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de interreconhecimento ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, conjunto de agentes
que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem
percebidas pelo observador, pelos outros ou por eles mesmos), mas também são
unidos por ligações úteis. (...) o volume do capital social que um agente individual
possui depende então da extensão da rede de relações que ele pode efetivamente
mobilizar e do volume do capital (econômico, cultural e simbólico) que é posse
exclusiva de cada um daqueles a quem está ligado. (BOURDIEU, 1998, p. 67).
22
Coleman (1988) diz de um valor mais geral atribuído ao capital social, que não se
encontra nos sujeitos em si, mas em sua estrutura de relações. O capital presente na estrutura,
na rede e no dispositivo proporciona confiança na ação por parte de indivíduos e grupos. O
autor trabalha o caráter estrutural do capital, ou seja, as características que originam o laço
social e a base fundada no “pertencimento” e “reciprocidade”. (COLEMAN, 1988).
Coleman aponta cinco categorias que unem os atores por meio da rede: a) relacional –
que compreende a soma das relações que conectam indivíduos de uma determinada rede; b)
normativa – que compreende as normas de comportamento de um determinado grupo e seus
valores; c) cognitiva – a soma do conhecimento e das informações comungadas por um
determinado grupo; d) confiança no ambiente social – a confiança no comportamento de
indivíduos em um determinado ambiente; e) institucional – que inclui as instituições (formais
e informais) que se constituem na estruturação geral dos grupos, onde é possível conhecer as
regras da interação social e onde o nível de cooperação e coordenação é bastante alto.
(COLEMAN, 1988).
Conforme Recuero (2009), a operacionalização do conceito de capital social e
simbólico, sob a perspectiva de redes sociais, é difícil para a maioria dos estudiosos do tema.
Em um esforço para traçar um paralelo entre as ideias de Putnam, Bordieu e Coleman,
Recuero acredita que o conceito de Putnam seja amplamente positivo, ou seja, o autor em sua
perspectiva teórica lida com os elementos de pertencimento e reciprocidade e não engloba o
conflito e a não cooperação. (RECUERO, 2009).
O conceito de Bourdieu, por sua vez, é focado na perspectiva marxista de luta de
classes e no caráter subjetivo, na medida em que valoriza a capacidade individual em
contribuir e utilizar os recursos coletivos para seus próprios fins. Assim, Bordieu enfatiza que
as relações sociais são um meio para aumentar a capacidade dos atores sociais para fazerem
valer os seus interesses. Em Coleman, por outro lado, o capital social é visto de um ponto de
vista quase que puramente estrutural, sem desenvolver as características e as implicações. O
autor advoga no modo como o capital social pode se tornar um recurso nas estruturas sociais,
que pode ser utilizado, assim como outras formas de capital, para os atores atingirem certos
objetivos e interesses. (RECUERO, 2009).
Consensualmente, capital social não se restringe a um único tipo. Ellison,
Steinfield&Lampe (2007) defendem a distinção de duas formas de capital social: o bridging,
que é chamado de conector, refere-se às relações de fora do grupo, mais heterogêneas e o
bonding, considerado como fortalecedor, e é focado no fortalecimento em grupos
homogêneos. Segundo Matos (2009), o capital social fortalecedor estaria relacionado a grupos
23
mais coesos, mais próximos e densos, cujos elos são mais próximos, tais como a amizade e a
família. Já o capital social do tipo conectivo está relacionado aos chamados laços fracos, ou
seja, as conexões são mais distantes, têm menor intimidade, sendo mais frequentes nas
conexões entre os grupos sociais. Os autores citados ainda acrescentam um terceiro, o
maintained, que se refere à manutenção das relações. (MATOS, 2009).
O capital social pode ser percebido pelos atores por meio da mediação simbólica da
interação. Os atores, ao mesmo tempo, moldam e são moldados, são referência e
referenciados pelo conteúdo destas relações, pelos elos e interseções. O capital social pode
ainda ser acumulado através do amadurecimento e aprofundamento de um laço social de
maneira a aumentar o sentimento de grupo, as raízes e as identificações. (MATOS, 2009).
Assim, observa-se que os laços sociais podem ser qualificados de acordo com o tipo
de relações estabelecidas e resultantes na rede, isto é, na intensidade desses elos, na força e na
reciprocidade da relação. A tipificação das relações é determinante para o entendimento da
interação mantida em uma determinada rede, as regularidades e qualidade.
O tipo de laço social presente na rede determina o tipo de capital social originado. Os
laços podem ser caracterizados pelo tipo de relações estabelecidas, na qualidade, na
intensidade, na reciprocidade e no grau de conexão.
Para analisar os laços sociais nas redes digitais, é preciso, então, focar no estudo das
relações, e, igualmente, considerar o conteúdo informacional das trocas realizadas. É
necessário observar os fluxos como instância analítica, e, sobretudo, o caráter dos discursos
disseminados de forma individual ou coletivamente. Entende-se que o que não se pode perder
de vista é que tais relações e laços possuem origem no sujeito, no aspecto subjetivo, porém,
são consequências das conexões coletivas entre atores, isto é, do contexto, os movimentos
comunicacionais por meio de redes interpessoais e hipertextuais.
Observa-se que quanto mais a parte coletiva do capital social estiver fortalecida, maior
a apropriação individual do capital. Essa apropriação do sujeito e de grupos influencia
diretamente o capital social encontrado nessas redes e comprova uma situação de
interdependência. (MATOS, 2009).
O conceito de capital social pode, assim, auxiliar na compreensão dos tipos,
características e usos de uma determinada rede social. Para isso, é preciso, portanto, não
somente investigar a existência das conexões entre atores nas redes sociais mediadas, mas,
sobretudo, analisar o contexto, o conteúdo e o valor contido nessas relações através da
observação de movimentos, circulação, apropriações e ressignificações. O estudo das redes e
24
do capital social é um exercício de monitoramento entre fluxos e conteúdos, entre atores e
conexões.
Observa-se que a comunicação na rede digital influencia consideravelmente o nível de
capital social nos grupos envolvidos. Assim, a interação na rede apresenta-se como uma via
midiática de construção do capital social, de variações quanto ao grau e à intensidade que, por
sua vez, permite aos sujeitos acesso a outras redes, cenários e grupos.
Nesse sentido, é coerente afirmar que o capital social é, nesta pesquisa, elemento
importante para a compreensão das dinâmicas comunicacionais midiáticas contemporâneas.
Tal abordagem favorece a percepção dos elementos que influenciam comportamentos
emergentes coletivos. Considerar a existência de valores nas conexões sociais como motor de
adesão e manutenção é fundamental para se compreender as dinâmicas presentes nos meios
digitais e, certamente, a complexidade dessas novas formas de midiatização e interação.
Por fim, o capital social pode estar presente quando os sujeitos se organizam por meio
de grupos. A discussão a seguir é estruturada em torno do valor das trocas comunicacionais
contido na dimensão coletiva que fomenta práticas comunicacionais deliberativas
midiatizadas por meio da atuação de movimentos sociais, sindicatos, entidades e associações
que reúnem questões de interesse público, de afetamento mútuo e acometimento comum.
1.2 As redes digitais como esfera pública e ambiente de deliberação
Propõe-se neste momento analisar a capacidade das mídias digitais de instaurar um
processo comunicativo dialógico no contexto deliberativo de questões de interesse coletivo.
Assim, questiona-se: a rede digital pode então ser considerada como uma esfera pública? Será
possível a rede midiática funcionar como ambiente de deliberação? A possibilidade de a
Internet ser efetivamente considerada uma esfera pública é amplamente discutida no campo
da Comunicação Social. “Com a emergência das mídias, os discursos de campos sociais
passam a ser enunciados segundo novas regras de inteligibilidades, e assim deslocados pelas
tecnologias de comunicação para uma nova forma de ser da esfera pública”. (FAUSTO
NETO, 2008, p. 8).
Assim, se as redes digitais possibilitam a expansão de conteúdos
informacionais e de recursos interacionais para os atores sociais, evidencia-se a necessidade
de abordagens mais atuais em relação às discussões de espaço público, esfera pública e
deliberação pública.
25
Habermas considerado um dos herdeiros da Teoria Crítica teve as obras marcadas pela
influência do pensamento da Escola de Frankfurt. Nessa fase,que vai da década de 1960 à
década de 1980, as obras retratam uma linha crítica e pessimista em relação ao processo de
emancipação do sujeito. Em “Mudança estrutural da esfera pública”, obra publicada em 1962,
o autor traça um panorama da relação entre as esferas pública, privada e íntima da Grécia
Antiga ao século XX e mostra como o iluminismo demarcou o início da decadência da vida
pública.
Já na década de 1980, Habermas1 revê o pensamento, provocando certa ruptura com o
pensamento frankfurtiano e formula a teoria da Ação Comunicativa. Adota, então, uma
postura otimista sobre a modernidade e passa a trabalhar com o paradigma da Comunicação,
compreendendo a sociedade como uma permanente tensão entre o mundo sistêmico e o
mundo da vida. A partir do novo paradigma do agir comunicativo, o autor discute a relação
espaço público, política, direito e democracia e lança um olhar a partir da concepção de que
os sujeitos interagem no espaço público e podem interferir na realidade social.
Habermas descreve a esfera pública como espaço destinado ao debate, fora das arenas
formais do sistema político, onde as atividades políticas podem ser confrontadas e criticadas
através do argumento racional e livre, dando valor à publicidade das ações comuns por meio
dos argumentos e discursos, de maneira a formar a opinião pública.
Habermas mostra que a democracia está vinculada a um processo de discussão e de
organização dos fluxos de poder entre Estado, mercado e sociedade. A democracia, de acordo
com essa concepção, está conectada à institucionalização de procedimentos e de condições de
comunicação capazes de apontar a sociedade como o local da origem do poder e da criação de
legitimidade. Por meio do conceito societário de democracia, Habermas relaciona essa última
não apenas à ação coletiva da cidadania como também, aos procedimentos e condições de
comunicação correspondentes. “Em uma sociedade descentrada, a soberania popular
procedimentalizada e um sistema político ligado às redes periféricas da esfera pública, estão
intimamente associados” (HABERMAS, 1994, p. 7).
Habermas associa a esfera pública tanto às interações simples quanto as formas
organizadas da sociedade. Para o autor, a esfera pública constitui como uma estrutura
comunicacional de ação orientada ao entendimento. Assim, Habermas cita a esfera pública
1
Jürgen Habermas, por meio das obras Técnica e ciência como ideologia (1993), Três modelos de democracia,
(1995), Direito e democracia (1997), Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma
categoria da sociedade burguesa (1984) apresenta a evolução do pensamento relativo ao papel da mídia na
sociedade contemporânea.
26
como sendo “(...) o lugar de origem do poder comunicativo, que surge quando os participantes
não se restringem a observar-se mutuamente, alimentando-se da liberdade comunicativa que
uns concedem aos outros” (HABERMAS, 1997, p.93).
Na concepção atual de Habermas, há uma mudança da percepção do ideal de uma
esfera pública única e singular, para uma multiplicidade de esferas públicas. Rousiley Maia
(2002), aborda a concepção atual de Habermas:
Assim sendo, nas obras recentes do autor, há uma mudança crucial da percepção do
ideal de uma esfera púbica única e singular, para uma multiplicidade de esferas
públicas: ‘Em sociedades complexas, a esfera pública forma uma estrutura
intermediária entre o sistema político, de um lado, e os setores privados do mundo
da vida e sistemas de ação especializados em termos de funções, de outro lado. Ela
representa uma rede supercomplexa que se ramifica espacialmente num sem número
de arenas internacionais, nacionais, regionais, comunais e subculturais, que se
sobrepõem umas às outras; essa rede se articula objetivamente de acordo com os
pontos de vista funcionais, temas, círculos políticos, assumindo a forma de esferas
públicas mais ou menos especializadas, porém ainda assim acessível a leigos (…)
(MAIA, 2000, p.4 apud HABERMAS, 1997, p.107).
Maia conceitua o que seria por Habermas abordado como mudança estrutural da esfera
pública, parafraseia o autor e qualifica a concepção atual, além de classificar os tipos de esfera
pública.
Além disso, a esfera pública deve ser vista de maneira diferenciada, de acordo com
‘a densidade da comunicação, da complexidade organizacional e do alcance’, numa
diversidade de associações e organizações – desde movimentos sociais e
organizações voluntárias, passando por grupos de iniciativas cidadãs que se
mobilizam em torno de causas específicas (tais como violência, fome, menor
abandonado, etc.) até grupos de autoajuda, agrupamentos episódicos e dispersos de
pais esperando por filhos na saída da escola, aqueles aguardando horas de visita em
hospitais, prisões, etc. Habermas propõe três tipos de esfera pública: esfera pública
episódica (bares, cafés, encontros na rua); esfera pública de presença organizada
(encontro de pais, público que frequenta o teatro, concertos de Rock, reuniões de
partido ou congressos de igrejas) e esfera pública abstrata, produzida pela mídia
(leitores, ouvintes e espectadores singulares e espalhados globalmente. (MAIA,
2000, p.5 apud HABERMAS, 1997, p.107).
Segundo a visão mais recente de Habermas, “é preciso admitir uma coexistência de
esferas públicas concorrentes e apreender a dinâmica daqueles processos de comunicação que
são excluídos da esfera pública dominante” (HABERMAS, 1992, p.425). Habermas, na
passagem frisada, afirma que a esfera pública é o resultado de um processo de discussão
voltado para o esclarecimento e a produção de um acordo em torno de questões que são de
interesse de todos, usando a linguagem crítica para buscar o entendimento recíproco.
Na esfera pública o agir deve ser orientado para o entendimento e só passa a existir a
27
partir do momento em que os atores sociais envolvidos em um diálogo relatam problemas que
atinjam um público mais amplo. O agir comunicativo é orientado à amplificação de um
contexto, proporcionando a participação de múltiplos atores, de diferentes instâncias e com
visibilidade potencializada. (HABERMAS, 1992).
O autor consolida esse pensamento mais recente ao argumentar que os meios de
comunicação, ao invés de destruírem as esferas públicas e o debate, possibilitam que a
comunicação se desligue da condição espaço-tempo, auxiliando na difusão dos conteúdos e
informações. Sob essa visão, os meios de comunicação agem ao atribuir a uma causa
específica, ampla mobilização, tornando-as mais compreensíveis, estimulando a atenção, a
inclusão dos participantes e, ainda, nos moldes atuais, operam a passagem da estrutura
espacial das interações simples para a generalização da esfera pública. (MAIA, 2000).
Habermas compreende a mídia como uma espécie de “filtro” no sistema político
deliberativo. Assim, o autor divide o sistema político e caracteriza-o em três partes principais,
permeado pelo papel de interface dos meios. Conforme a figura n° 1, a mídia intermedeia e se
relaciona com as seguintes instâncias: a) as deliberações estruturadas ao centro ou no topo; b)
as deliberações informais, ou conversações cotidianas na periferia ou na base. c) a mídia
como um filtro, intermediando a comunicação entre eles, a e b.
FIGURA 1: Representação do sistema político de Habermas e o papel da mídia
Fonte: sintetizada pela autora da dissertação.
Habermas cita a mídia e os políticos como sendo protagonistas sem os quais a esfera
pública não poderia funcionar, ocupando espaço central no sistema, atuando tanto coautores
quanto recepcionistas das opiniões públicas. O autor consolida esse pensamento mais recente
ao argumentar que os meios de comunicação, ao invés de destruírem as esferas públicas e o
debate, auxiliam na difusão dos conteúdos e informações. (HABERMAS, 1992).
28
Habermas reconhece que os sujeitos possuem visão crítica e que não há como pensar a
esfera pública na sociedade contemporânea sem haver uma reflexão sobre os conteúdos
transmitidos pela mídia, admitindo ainda que a esfera pública não estava condenada, como
pensava até então. Assim, o autor reconhece a importância da mídia no processo deliberativo,
definindo o espaço midiático como essencial ao fortalecimento e a manutenção das estruturas
deliberativas. (HABERMAS, 1992).
Sob essa visão, os meios de comunicação agem ao atribuir a uma causa específica,
ampla mobilização, tornando-as mais compreensíveis, estimulando a atenção, a inclusão dos
participantes “Se, em um primeiro momento, Habermas atribuiu aos media de massa uma
função prejudicial à boa condução das práticas democráticas, em suas obras mais maduras, ele
defende um potencial ambivalente dos media que pode tanto obstruir quanto sustentar uma
esfera pública vigorosa”. (MAIA, 2009, p.48).
Para Marques (2003), essa visão de Habermas atribui à mídia a potencialidade de dar
visibilidade aos que não tinham poder de voz. “A visibilidade garantida pelos media
certamente faz sair da opacidade vários atores, suas demandas e proposições” (MARQUES,
2009, p.23). Desse ponto de vista, a posição de intermediar a comunicação entre os vários
sistemas permite que a mídia estabeleça uma função de “ponte”, que favorece a construção e
ampliação de arenas de debates, enriquecendo a deliberação pública. Assim, a Comunicação
cumpre o mais importante papel nas instâncias de decisão das dimensões “políticas” formais
tanto na esfera pública “informal”, isto é, nas arenas comunicativas na vida social.
Isso posto, ressalta-se que a esfera pública é formada a partir de uma situação
deliberativa e não como precedente do processo de deliberação. Para haver um ambiente de
discussão não há de existir, condicionalmente, “territorialidade” pública, isto é, não é o fim
em si mesmo. Ressalta-se que a deliberação pública acontece independente de território, em
tradução literal, não é condicionada pelo espaço físico público destinado ao debate, mas, sim,
pela existência de um ambiente propício para o diálogo. Em outras palavras, mais importante
do que a materialidade do local é o processo dialógico democrático formado em instâncias
coletivas, sejam físicas, presenciais ou virtuais. Por último, é necessário que tal cenário de
discussão não seja fabricado, encenado e principalmente, espetacularizado. (MAIA, 2009).
A esfera pública é, portanto, caracterizada como o ambiente da comunicação, como
espaços físicos ou ambientes virtuais nos quais as pessoas discutem questões de interesses
comuns e formam opiniões. Além da formação dessa esfera de diálogo é necessário que as
ações comunicativas tenham continuidade, mantendo um circuito interacional que culmine em
constituição de laços sociais, compartilhamento simbólico e trocas democráticas.
29
Com características assimétricas das emissões mediáticas, a Internet instaura
elementos deliberativos através de ambientes interacionais, tornando possíveis as ações
cívicas dos atores em diferentes níveis e instâncias. Segundo Lemos (2009), a sociedade vive
uma reconfiguração cultural, econômica e política ainda sem contornos definidos com as
novas mídias.
O autor caracteriza “mídias de massa” como mídias de informação e de transmissão e
mídias “pós-massiva”, isto é, mídias de comunicação, de diálogo e de conversação. Lemos
define como mídias de massa a televisão, os veículos impressos, o rádio e até mesmo a
Internet. Na visão de Lemos, mídias pós-massivas são os meios que possuem como função
permitir uma conversação aberta e livre, fundamental para a ação política como, por exemplo,
as redes digitais. (LEMOS, 2009).
Traçando um paralelo entre esses dois tipos de mídia, o autor evidencia que nas mídias
massivas a conversação acontece, mas apenas após o consumo da informação, por meio das
trocas imediatas, enquanto nas mídias pós-massivas a conversação começa na produção e nas
trocas informacionais, correspondida, ou seja, de forma coparticipativa. Para Lemos, “as
funções pós-massivas podem resgatar algo da ação política, do debate, do convencimento e da
persuasão, outrora desestimulados pela cultura de massa”. (LEMOS, 2009, p.12).
Maia (2008) esclarece que as discussões em torno da dimensão tecnológica e o uso
democrático dos meios são exageradamente enfatizados, associando-se deterministicamente o
potencial das novas tecnologias com a revitalização de instituições e práticas democráticas.
Para a autora, a mídia digital oferece inclusividade, oportunidade de expressão, mas, como já
dito, não garante por si só, instantaneamente, uma esfera pública igualitária, justa e
representativa. Por isso, a Internet apresenta-se como um espaço público, mas não constitui
obrigatoriamente uma esfera pública, isto é, favorece a deliberação, mas não garante por si, a
democracia.
Colocar a questão simplesmente nos termos se ‘a internet é um instrumento de
democratização’ pode levar a diversos equívocos. Em primeiro lugar, se as novas
tecnologias podem proporcionar um ideal para a comunicação democrática,
oferecendo novas possibilidades para a participação descentralizada, elas podem,
também, sustentar formas extremas de centralização de poder. (...) Em segundo
lugar, é preciso levar em consideração que, para fortalecer a democracia, são
necessárias não apenas estruturas comunicacionais eficientes, ou instituições
propícias à participação, mas também devem estar presentes a motivação correta, o
interesse e a disponibilidade dos próprios cidadãos para se engajar em debates. As
novas aplicações tecnológicas, independentemente de favorecer ou dificultar a
democracia, devem ser pensadas de maneira associada com os elementos sóciohistóricos próprios dos atores sociais e com os procedimentos da comunicação
estabelecida entre os sujeitos comunicantes concretos. (MAIA, 2000, p.01).
30
Os processos de deliberação pública ultrapassaram os limites temporais e espaciais
com a emergência das tecnologias ao possibilitar diálogos em ambientes digitais
participativos e de maior abrangência, amplitude, visibilidade e publicidade. Com o
surgimento das redes digitais os princípios que caracterizam a deliberação estão sendo
reconfigurados no contexto virtual. (MARQUES, 2009).
Diante dessa possibilidade de revisitação e atualização das potencialidades de
deliberação na rede, a Internet passa a ser vista como uma mídia capaz de prover condições de
abrigar ambientes públicos de discussão e debates. A deliberação é, então, considerada um
instrumento de construção da cidadania ao instaurar uma dinâmica em que diferentes atores
podem argumentar e discutir assuntos de interesse comuns. A deliberação é, portanto, um
processo que utiliza a reflexividade para auxiliar os cidadãos a construir um entendimento e
um raciocínio melhor sobre uma determinada questão que seja de interesse de todos
(HABERMAS, 1997; MARQUES, 2009).
Bohman (2009) argumenta que a deliberação só alcança sucesso quando os
participantes reconhecem que precisam contribuir e influenciar o encaminhamento da solução,
mesmo se estes são discordantes dela. Assim, os atores cooperam na deliberação porque
esperam que as contribuições possam ser incorporadas na decisão de modo que lhes seja
favorável. Entende-se que o resultado das decisões públicas varia e depende de circunstâncias
e características como a intencionalidade dos polos emissores e receptores, da subjetividade
dos participantes, da competência e da racionalidade dos mediadores do processo (que pode
ser virtual e presencial), a clareza e a não objeção à cooperação. (BOHMAN, 2009).
Deve-se levar em consideração que para fortalecer a democracia e instaurar uma esfera
pública efetiva, não bastam estruturas comunicacionais eficientes e propícias à participação
política, mas também outros fatores, como a motivação, o interesse e a disponibilidade dos
sujeitos.
Mesmo que decisões tomadas pelo público não sejam sempre confiáveis quanto às
decisões que seriam tomadas por seus membros mais bem informados, a deliberação
pública poderia ainda assim ser defendida positivamente em outros termos:
poderíamos simplesmente argumentar que ela é constitutiva da autonomia dos
cidadãos. (BOHMAN, 2009, p.35).
Ainda de acordo com Bohman (2009), para a Internet ser referenciada como uma
esfera pública, ela precisa ser um fórum, no qual os participantes possam expressar opiniões e
obter uma resposta dos outros participantes sobre esse mesmo ponto de vista, dando opiniões
31
e acessando as opiniões alheias, de forma democrática, manifestando compromisso de
autonomia, liberdade e igualdade entre os pares. O autor ainda considera que não
necessariamente, as decisões públicas chegarão a uma solução adequada para a sociedade.
(BOHMAN, 2009).
A deliberação online, assim como a face a face, se efetiva quando os cidadãos são
capazes de argumentar, de entender os argumentos de outros participantes, de aceitá-los e de
respondê-los. Deliberação, portanto, sob essa abordagem, mostra-se como um processo
comunicativo, seja nas redes digitais, nos meios tradicionais ou mesmo nas formas presenciais
de comunicação.
Assim, as redes digitais são ambientes de deliberação ao se ocupar da conversação, do
diálogo, do compartilhamento do simbólico, abarcando a multiplicidade de narrativas, de
objetivos, intencionalidades, imparcialidades, parcialidades, a cooperação, o consenso, o
dissenso, o pertencimento, as diferentes faces da experiência e das trocas. Portanto, torna-se
preponderante a análise do uso desse meio pelos atores, não somente como espaço, mas como
ambiente de interações, apropriações e permutas simbólicas possíveis. A experiência
propiciada pelos meios digitais é o exercício midiático da troca, a operação da interação
contemporânea por meio da técnica, em um esforço de apropriação e ressignificação pelos
atores, por novas maneiras de se manifestar, de agir, de se afirmar por meio das redes.
Em suma, as redes comunicacionais propiciam a prática do processo comunicacional,
pois criam circunstâncias diversas, discutem, colocam em voga, habilitam o espaço simbólico
para discutir, convergir e/ou desintegrar, criam, mantêm, dissolvem e fortalecem os elos das
redes. Por fim, a deliberação nas redes digitais se consolida quando são criadas motivações
para que os interlocutores do processo participem de modo significativo.
Finalizando, Bohman (2009), Maia (2009) e Lemos (2009) contextualizam a Internet e
atribuem à rede os requisitos para ser considerada uma esfera pública. Para os autores, a rede
digital é capaz de atender a padrões normativos importantes como a reciprocidade, a
cooperação, a reflexividade e uso racional da linguagem. É necessário que o modelo teórico
de análise compreenda as várias faces possíveis da interação, o fenômeno da midiatização
como algo do próprio processo social contemporâneo e a complexidade sistêmica do
dispositivo, próprio da análise das redes comunicativas. A experiência nos ambientes digitais
é resultante das transformações comunicacionais globalmente, que caracteriza os recentes
processos interacionais em níveis amplos, porém, sem conceder aos meios um poder
totalizante.
A ênfase então paira sobre os atores, o contexto, uso e ação que irão desencadear o
32
movimento dessa dinâmica comunicacional, costurando esta prática como ator, cogestor e
pensador estratégico da causa coletiva e pública. (MAIA, 2006).
1.3 Movimentos sociais, ação coletiva, processos de mobilização e visibilidade nas redes
midiáticas
As redes comunicacionais expõem a experiência de diversas instâncias e camadas
sociais, servem como reflexo de um sistema, como via catalisadora de fluxos comunicativos
de setores periféricos da sociedade, como ambiente para se construir cenários em diversas
esferas e transmitir midiaticamente versões de uma dada construção da realidade ao conjunto
da sociedade.
O processo comunicacional é o dispositivo propiciador de fluxos, atravessados nos
espaços públicos midiáticos que originam e fortalecem os laços sociais e simbólicos. Nesse
aspecto, percebe-se que a rede midiática digital, por ter intrinsecamente a capacidade de
reunir sujeitos e associá-los em grupos, formata um ambiente profícuo para o debate, a
organização de conhecimentos específicos e de trocas de experiências. É, assim, uma
possibilidade da experiência em nível individual e coletivo. O agir coletivo é construído por
meio de processos comunicativos e práticas deliberativas possibilitadas por negociações
sociais nas redes midiáticas.
É possível usar as redes para expressar, interpretar, para perceber outros valores e
opiniões divergentes, para criar estratégias e ainda avaliá-las diante de um cenário maior. A
leitura de cenários propiciada pela experiência da midiatização possibilita, ainda, identificar
linhas de argumentos, ideologias, tendências políticas, partidarismos e associações cívicas.
As organizações coletivas da sociedade civil se mostram importantes para fazer
emergir questões de mobilização social. Essas associações cívicas encontram espaços e
dinâmicas para emergir as questões essenciais às causas comuns: a rede e as práticas
midiáticas. Desta feita, é atual e positiva a hipótese de que é preciso reconhecer na
contemporaneidade a múltipla existência de espaços públicos e, assim, buscar a ampliação do
processo comunicacional. É diante do tipo de rede, das instâncias de afetação, dos modos de
representação midiática e do tipo de regularidade da interação no ambiente virtual que o
sujeito qualifica, dá contornos e movimentos à ação.
Os sujeitos e os grupos desenvolvem na sociedade a competência para elaborar
discursos, a fim de relacionar os problemas práticos das causas ao conjunto de categorias
33
simbólicas da sociedade, bem como ao sistema normativo formal. Nesse sentido, integram-se
às conexões, criam interfaces, pontes comunicativas entre os pares e promove ambientes de
conhecimento, de reconhecimento e de divulgação. Estabelecem potencial de convencimento
de forma a influenciar nos consensos que orientam a coexistência social, a opinião pública e
articula demandas específicas, a fim de que possam ser mais facilmente encampadas por
outros atores.
Os movimentos sociais, diante deste espaço mediatizado, procuraram transformar as
lutas por reconhecimento em lutas por visibilidade. Fazer-se ver e ouvir encontra-se
no centro das turbulências políticas do mundo moderno. A busca pela visibilidade
vem em função da necessidade de que as reivindicações e preocupações dos
indivíduos tenham um reconhecimento público, servindo de apelo de mobilização
para os que não compartilham o mesmo contexto espaço/temporal. A grande mídia é
vista como um espaço privilegiado para a exposição das causas e ações dos
movimentos, configurando-se como um espaço público, visto que oferece
‘visibilidade ampliada das disputas e controvérsias existentes na vida social e se
torna central para a divulgação das produções simbólicas que acontecem nos
diversos campos sociais’ (HENRIQUES, 2004, p.33).
Sob essa perspectiva, a mídia digital funciona como espaço virtual para travar debates
e para potencializar o pertencimento e a visibilidade e lutas sociais e político-ideológicas. Por
isso, nova atenção tem sido dada aos movimentos sociais, sindicatos, associações e
organizações não governamentais para a politização/mobilização de questões nesses
ambientes coletivos. As redes comunicacionais digitais apresentam-se na contemporaneidade
como o ambiente propício para a amplitude que se quer dar, a agilidade que se pretende gerar,
a facilidade de uso que se quer ofertar, a captação de pares que se pretende agregar e a
visibilidade que se pretende alcançar.
O uso e apropriação dos ambientes digitais pelos movimentos sociais ganham novas
proporções, isto é, as formas cívicas de agregação passam por modificações importantes e se
misturam ao contexto das mídias, da velocidade das informações, da formação das redes por
meio dos suportes midiáticos, a fim de expandirem as causas e alcance de movimentos.
Percebe-se que a atuação dos movimentos sociais não atende os mesmos pressupostos de
organização e de adesão comunitária do passado. As fronteiras, limites e potenciais modos de
mobilização social estão passíveis de transformações diante dos cenários contemporâneos de
midiatização. (MELUCCI, 2001).
As organizações cívicas modernizam-se, deslocam-se das relações presenciais e
ganham também a cena virtual. Assim, o conceito de movimento social de grupos fechados e
restritos no imaginário da sociedade contraria as atuais circunstâncias de expansão da
comunicação em nível global, transformando-se.
34
A ampliação da sociedade civil, evidenciada principalmente pelo crescimento dos
movimentos sociais, lançou novos questionamentos quanto à importância da
comunicação na permanência e solidificação destes movimentos. Os media
adentraram o cenário das reivindicações sociais, alterando a maneira como os
movimentos se apresentam, em decorrência das novas possibilidades de transmissão
de informações, imagens e conhecimentos e de uma outra postura dos profissionais
da Comunicação frente ao desenvolvimento comunitário. (HENRIQUES, 2004,
p.33).
As redes sociais favorecem a expansão dos movimentos, a abrangência das causas e a
formação das ações coletivas conjuntas e mobilizadoras. Os movimentos potencializados
pelas redes digitais ganham maior proporção, saem dos galpões, das reuniões comunitárias,
dos sindicatos e alcançam amplos processos de comunicação que rompem com a centralidade
da informação. As novas práticas comunicativas ecoam as discussões na medida em que o
espaço é difuso, o tempo diferido e os sujeitos são mediados por processos de interação mais
acessíveis. (BRAGA, 2006).
Essa nova agregação digital depende menos da atitude de militância e da postura
proativa em se fazer parte do movimento de modo integral, de se estar presencialmente e de se
envolver em tempo e esforço e mais do processo de midiatização2, visto favorecer mais
abrangência e visibilidade dos movimentos sociais na esfera pública virtual. Como exemplo,
podem-se mencionar os movimentos políticos de policiais, de bombeiros militares, policiais
civis e agentes penitenciários – que serão objetos de análise da dissertação -, que travam
constantes lutas de visibilidade e que fazem uso das redes digitais como forma de expandir as
causas.
Observa-se que este segmento adere gradativamente ao fenômeno de midiatização
para a mobilização ao fazer uso dos novos meios como forma de criticar, estimular discussões
em diferentes níveis e instâncias, divulgar ações, associá-los a uma causa, trazer mais adeptos
e influenciar ações políticas. Nesse sentido, a Internet tem se revelado como um ambiente
importante de manifestação de causas, de adesão de grupos, de práticas de discussão entre
classes, instituições e mídias.
Os modos de associativismo contemporâneo e as ações coletivas têm sido investigados
por diversos estudiosos. Entre eles, Melucci (1984), tem observado uma diferença estrutural
nas formas de agregação dos novos movimentos e agrupamentos. O autor faz referência aos
movimentos feministas e ambientalistas para ilustrar tais mudanças de comportamento. Para o
autor, os associativismos contemporâneos refletem a luta por reivindicações “não materiais” e
de uma “ação política”. Os motivos do comportamento para a ação coletiva apontam também
2
Tal processo será objeto de definição e discussão no próximo tópico do presente capítulo.
35
para a necessidade de por em questão outro elemento importante: a “identidade”. (MELUCCI,
1984).
As pessoas escolhem ser, o incalculável; os indivíduos ao escolherem a forma como
irão se definir utilizam não somente o cálculo racional, mas também os laços
afetivos, assim como a capacidade intuitiva de reconhecimento. A dimensão afetiva
constitui uma dimensão fundamentalmente ‘não racional’ sem, no entanto, ser
irracional. Ela é significativa e fornece aos atores a capacidade de dar sentido ao ato
de pertencimento mútuo. (MELUCCI, 1996, p. 66).
Ainda segundo Melucci (1996), a importância da identidade como elemento para ação
coletiva se refere ao fato de que é através dos laços sociais que os atores dão sentido ao ato de
pertencimento. (MELUCCI, 1996).
A ação coletiva está relacionada aos laços afetivos gerados como substrato das
interações sociais racionais. Além da identidade, em complemento, apresenta-se uma vertente
teórica que ressalta que a mobilização é também desencadeada por “privações materiais” e
por “motivos psicológicos”, além do “descontentamento”. A integração de ações comuns
existe em decorrência de outros fatores que a influenciam, uma vez que "existe, em qualquer
momento, suficiente descontentamento em qualquer sociedade para fornecer o apoio de base
para um determinado movimento". (MCCARTHY, 1977, p. 118).
Tais elementos propulsores da mobilização são colocados em questão também por
Oberschall (1978) que chama a atenção para outro elemento do processo de formação da ação
coletiva. Para o autor, a associação cívica se baseia em uma rede de “relações comunitárias
preexistentes” ou em uma rede de “associações civis” baseadas em interesses específicos. Os
elementos que integram esse processo de mobilização não reconhecem somente os elementos
de coesão, mas incluem também os movimentos comunicacionais de conflito (que podem ou
não ser hostis). (OBERSCHALL, 1978).
Em relação aos elementos condicionantes à ação coletiva, Melucci (1996) abre uma
via importante para a vinculação entre o pertencimento, a identidade e a prática democrática
na medida em que a sociedade contemporânea passa a conviver densamente com a
manifestação da “diferença”. Sob esse aspecto, as sociedades contemporâneas não são
formadas apenas por indivíduos que buscam a autopreservação, mas também por atores
sociais que, ao interagir, comunicar e influenciar uns aos outros, estabelecem um espaço de
tematização e reconhecimento da diferença, e não somente da semelhança e da coesão.
(MELUCCI, 1996).
36
Assim, a não identificação também traduz a potencialidade de um pertencimento
potencial passivo, o que não o exclui como elemento da ação coletiva. (MELUCCI, 1996).
Vale ressaltar que as formas tradicionais de associações não podem ser
desconsideradas, pois elas ainda existem em conjunto com os novos elementos condicionantes
à ação comum, em complemento ou mesmo, subsidiando e sustentando. Com os cenários
contemporâneos e os novos processos midiáticos, as formas históricas de adesão vão sendo
substituídas e adaptadas. Assim, por meio da presença dos movimentos sociais
contemporâneos nos ambientes digitais, a sociedade recupera importantes elementos
condicionantes da ação coletiva, da integração e da mobilização social. (MAIA, 2007).
A crescente adesão às novas mídias e a participação dos atores nos ambientes digitais
como parte dos processos interacionais atuais contribuem para potencializar o envolvimento e
participação dos sujeitos e grupos em questões de engajamento. Essa participação é
considerada relevante e significativa para a politização de segmentos. Contudo, é difícil que a
sociedade contemporânea alcance um ideal de cultura política discursiva, e que coloque em
prática, o debate do que aflige à coletividade, como prática e premissa da vida em conjunto.
(MAIA, 2007).
Partimos da premissa de que os atores coletivos cívicos – as associações voluntárias,
os movimentos sociais ONGs etc. – tendem a ser mais eficazes que os cidadãos
isolados para organizar e divulgar informação, para desenvolver aptidões cívicas e
políticas dos indivíduos, para superar os obstáculos da ignorância política e da
apatia, para representar interesses e sustentar o debate na esfera pública e, ainda,
para exercer pressões sobre os representantes políticos e/ou atuar como parceiro em
instituições híbridas. Diversos estudos têm apontado que o uso politicamente
relevante da informação disponível na internet não se estende a todos, mas, ao invés
disso, somente àqueles que já são, de alguma forma, interessados (Lilleker e
Jackson, 2004). Contudo, isso não é insignificante, já que o associativismo produz
determinados efeitos democráticos que repercutem no desenvolvimento dos próprios
cidadãos e no âmbito da política institucional formal. (MAIA, 2007, p.5).
O processo do debate é concebido como uma troca argumentativa que se estende no
tempo e no espaço. Assim, os grupos e as associações constroem a “presença” nas redes
digitais, a fim de articular os próprios interesses e encontrar estratégias com vistas a garantir
maior grau de escuta e resposta efetiva para as causas. Entende-se que cada rede tem a própria
complexidade no modo de abordar temas coletivos e a repercussão deles é proporcional aos
interesses (públicos e privados) de outras redes.
As redes cívicas estruturam as relações por meio do compartilhamento do conteúdo
simbólico entre os membros da sociedade. Maia (2002b) classifica e sistematiza possíveis
tipos de associações cívicas na rede digital. Tal abordagem é oportuna para se entender os
37
modos de agregação e ação coletiva e suas finalidades principais. Segundo o autor, as redes
podem ser:
a)
“Redes para produção de conhecimento técnico-competente”, que se destinam a
organizar conhecimento especializado e torná-lo disponível aos movimentos sociais.
Tais redes são importantes para subsidiar a qualificação técnica dos membros de
organizações da sociedade civil.
b) “Redes de memória ativa”, que têm como propósito digitalizar documentos de
movimentos sociais (estatutos, jornais, material didático para divulgação, atas, relatos
pessoais etc.) para armazenamento livre em portais, na rede, a fim de que se tornem
acessíveis para outros movimentos sociais e para a sociedade em geral.
c)
“Redes para produção de recursos comunicativos” que apresentam, como meta,
aperfeiçoar as habilidades para um uso eficaz das oportunidades de comunicação,
auxiliando grupos subordinados e marginalizados a articular, de modo autônomo, seus
próprios interesses e suas necessidades.
d) “Redes de vigilância e solidariedade à distância” que possuem como objetivo
defender direitos, protegendo os cidadãos, lutando contra discriminação ou exercendo
função de vigilância sobre os dirigentes e outras instituições.
A partir desses diferentes tipos e objetivos de rede, entende-se possível identificar no
uso da rede, as interações sociais construídas. De forma detalhada, Maia (2002b) elenca os
tipos de interação na rede constituídos pelos movimentos sociais:
a) “Interpretação de interesses e construção de identidade coletiva”, que busca a
superação dos obstáculos de uma dada realidade e se inicia com o esforço de grupos
que expressam e atualizam suas identidades, seus valores e interesses.
b) “Constituição de esfera pública”, que trata da formação da opinião pública através
de uma rede de discursos que se interpenetram e se sobrepõem. Os indivíduos podem
acionar os discursos que se encontram publicamente disponíveis, em múltiplas redes
de conversação e discussão, constituindo assim, uma esfera pública.
c) “Ativismo político, embates institucionais e partilha de poder”, que se referem à
luta virtual que os atores coletivos empreendem nas redes.
d) “Supervisão e processos de prestação de contas”, que abarca os novos recursos da
internet como forma de aprimorar o sistema de democracia representativa,
38
aumentando o fluxo de informações provenientes do governo, tornando as autoridades
mais responsivas. A aquisição de informação torna os indivíduos aptos a demandar
transparência das instituições do governo e a exigir que dirigentes e representantes de
outros poderes prestem contas de suas declarações e ações.
Os atores potencializados pelo poder da conexão, de articulação e visibilidade, podem
conhecer, se reconhecer e fazer outros se reconhecerem por meio do compartilhamento de
conteúdos simbólicos entre os pares. Os atores formatam, assim, visões e opiniões sobre
eventos temáticos e participam de um processo de aprendizagem social por meio dos novos
meios digitais. Tais ambientes enriquecem a ação dos atores na medida em que favorecem as
práticas democráticas, a racionalidade, a reflexão, a significação e ressignificação,
qualificando sua motivação e ação. “Aprender é mudar o repertório e as atitudes”, e “a cada
momento, através das interações no espaço social e das relações com o mundo natural, o ser
humano se modifica, se constrói e elabora sua identidade”. (BRAGA, 2000, p.5).
O debate público fomentado pelos movimentos sociais nas redes técnico-midiáticas é
útil para formar os elos cooperativos, esclarecer reciprocamente os parceiros, as afinidades, os
interesses mútuos, as divergências. A diversidade de discursos e pontos de vista diferentes
expostos nesses ambientes torna públicos realidades e contextos políticos também distintos,
produzindo interpretações coletivas comungadas com os interesses subjetivos.
Como resultado dessa dinâmica de interpretação coletiva, os propósitos comuns são
externados, interesses consensuais são generalizados e, por sua vez, ampliados, para que então
ocorra novamente outras apropriações em torno dos conteúdos. Essa interação cíclica pode
favorecer a construção de resposta e aprendizagem sociais (individual e coletiva). É desse
sistema processual relacional que surge o substrato para a mobilização, para as potenciais
ações integradoras e para a ação coletiva nos ambientes virtuais.
Entretanto, para que exista a mobilização é necessário haver convocação de vontades,
que objetiva a mudança de uma dada realidade. (HENRIQUES, 2004). Tal processo é
desencadeado por propósitos comuns que, por sua vez, podem ocorrer por meio de práticas
deliberativas. Através dos objetivos comuns, os atores sentem-se pertencentes a uma realidade
específica e, consequentemente, aderem a uma causa coletiva. O processo é complexo,
imprevisível, circunstancial e configura-se como uma dinâmica que equilibra experiências
individuais (pertencimentos) e experiências coletivas (causas). Henriques, referenciado em
Toro e Weneck, enriquece o desenvolvimento do conceito de mobilização e do processo de
convocação de vontades.
39
Entendendo o conceito de TORO & WERNECK (1996), em que a mobilização é
entendida como um processo de convocação de vontades para uma mudança de
realidade, através de propósitos comuns estabelecidos em consenso, é possível
compreender a demanda pela comunicação estrategicamente planejada na
estruturação de um projeto mobilizador, uma vez que as pessoas precisam sentir-se
como parte do movimento e abraçar verdadeiramente a sua causa. (HENRIQUES,
2004, p.35).
Nesse aspecto, a potencialidade das redes cívicas digitais reside precisamente na
capacidade de agregação, do enraizamento em esferas sociais diversificadas. E é a partir de
tais agregações e da ação coletiva que os movimentos sociais estabelecem respostas sociais
midiáticas, que podem emergir impulsos promissores para a integração de ações e de
mobilização. As redes digitais instrumentalizam-se como a possibilidade técnica que permite
a convocação, a mobilização e ações comuns.
Assim, a mobilização é o ato de colocar em movimento a integração, que necessita da
deliberação para se concretizar. É importante enfatizar que a própria ação de deliberar é, por
si, uma forma de mobilização social, já que os sujeitos estão envoltos em um propósito, em
movimento pelo pertencimento e vice versa. Da mesma forma, a integração depende da
deliberação e da mobilização para se efetivar sistematicamente.
A mobilização, a integração e a deliberação são partes de um sistema complexo,
interdependente, dinâmico e em movimento. A comunicação está intimamente relacionada
com o ato de deliberar, com a mobilização e na essência, com a integração. (HENRIQUES,
2004). A fim de sintetizar e sistematizar as teorias abordadas, representa-se a seguir a
dinâmica inter-relacional e transversal.
40
FIGURA 2: Dinâmica interacional e transversal
Fonte: sistematizada pela autora da dissertação.
Vale dizer, por último, que todo processo de integração e de mobilização é, em si, um
processo comunicacional, constituído pela interação de sujeitos e grupos que compartilham o
simbólico, que geram o pertencimento e a corresponsabilidade, em torno de uma realidade
específica e de um pertencimento de interesse público. “E a comunicação para mobilização
deve ser dialógica, na medida em que defende uma causa de interesse mútuo, que deve ser
compartilhada entre os sujeitos, comprometidos com um fim único, comum a todos”.
(HENRIQUES, 2004, p.33).
Henriques, referenciado em Toro e Weneck, aborda a função da comunicação no
processo de mobilização social como esforço de gerar, manter vínculos, compartilhar sentidos
e valores:
Sendo a participação uma condição intrínseca e essencial para a mobilização, a
principal função da comunicação em um projeto de mobilização é gerar e manter
vínculos entre os movimentos e seus públicos, promovendo uma rede de interação
própria com e entre eles por meio do reconhecimento da existência e importância de
cada um e do compartilhamento de sentidos e de valores. (HENRIQUES, 2004,
p.35).
Na prática contemporânea, constata-se que as interações on-line propiciam a
conversação. E é por meio do diálogo que se torna possível o engajamento cívico e o
acometimento coletivo. Portanto, as narrativas são propiciadas e, acima de tudo, aperfeiçoadas
pelo debate público, pela crítica e por fóruns estabelecidos em prol de causas específicas e
amplas.
Só há mobilização se uma causa é externada, coletivizada e inserida nas práticas
sociais. Assim, pela inter-relação e pela complexidade desse dispositivo, mostra-se
extremamente oportuno nessa dissertação tratar de forma relacionada temáticas de rede,
deliberação, mobilização e, por último, a midiatização, já que as mídias (sejam elas formais,
41
comerciais ou informais) são essenciais para estabelecer as condições para que as
manifestações e as dinâmicas sociais aconteçam.
A midiatização é mais do que uma estratégia, ela se apresenta como o modus operandi
das práticas de integrar e mobilizar na contemporaneidade. É nessa temática que a próxima
discussão se deterá.
1.4. Midiatização como processo interacional de referência
Neste item, dar-se-á continuidade à teorização sobre redes, seus elementos, dinâmicas
e usos, em que serão discutidos os conceitos fundamentais para o conhecimento do processo
comunicativo na perspectiva reticular. Conceitos de midiatização, mediação e interação
midiatizada serão abordados inicialmente para subsidiar a discussão sobre as dinâmicas de
circulação e a midiatização como processo interacional de referência. A separação é didática,
pois prioriza-se, sobretudo, a convergência destes conceitos e suas interdependências.
Sodré (2002) considera que a midiatização é uma ordem das mediações com ênfase na
tecnointeração, enquanto a interação é uma forma operativa do processo mediador. Isto é, a
midiatização é uma qualidade da mediação por se tratar de uma nova forma de
operacionalizar tecnicamente a interação, ou melhor, uma forma técnica da mediação que
encontra lugar no medium3 para operar. Nesse sentido, a midiatização remete a essa atmosfera
de interface entre instâncias técnicas e atores, postos em ação no tempo-espaço por meio das
relações, ou, em outras palavras, uma tecnoesfera fluída de interface, que possibilita a
interação nas mídias e por meio das mídías, em um contexto reconfigurado. (SODRÉ, 2002).
Esse autor evidencia, ainda, uma alteração na mídia tradicional, linear, para uma nova
mídia digital, em que o usuário pode inserir-se na realidade, deslocando a contemplação e o
“se ver representado” – concepção sobre a experiência estética da relação do espectador com
a produção, seja artística ou midiática predominante até então – pela sua participação direta.
O “espelho midiático” – analogia criada por Sodré para argumentar que a mídia não é mera
reprodução, um reflexo da realidade, e, sim, uma instância de interpelação dos indivíduos e de
constituição de identidades pessoais e coletivas –, envolve uma nova relação da sociedade
com os meios, mais precisamente uma nova forma de vida. Para Sodré, a analogia do espelho
midiático referencia a esfera midiática como uma realidade não conflitante com o real
3
Medium, na ótica de Sodré (2002) não é dispositivo técnico, e, sim, o fluxo comunicacional acoplado a um
dispositivo técnico e socialmente produzido pelo mercado capitalista, que se torna uma ambiência existencial.
Assim, a Internet, e não o computador,é um medium.
42
tradicional. Em outros termos, o espelho midiático representa uma nova forma social de lidar
com os tempos e espaços reconfigurados, uma dimensão baseada na cultura da mídia e
experienciada pelos atores sociais. (SODRÉ, 2002)
A midiatização é também concebida por Sodré como um novo bios, denominado de
bios midiático ou virtual, que é específico justamente porque sugere novas condições
antropológicas. Assim, não há mais apenas o biostheoretikos, que trata da contemplação, o
biospolitikos, que referencia a vida política e o biosapolaustikos, que contempla a vida
prazerosa, conforme propôs Aristóteles em sua Ética a Nicômaco, mas, na condição
contemporânea, o autor acrescenta a essa classificação um quarto bios, isto é, o virtual e o
midiático. Sodré entende que este novo bios implica em uma nova tecnologia perceptiva e
mental, portanto, outro tipo de relacionamento do sujeito com as referências concretas, com o
real e com a verdade na relação com a mídia. Nessa nova esfera existencial, o autor considera
que a sociedade contemporânea passa a ser regida pela midiatização, virtualização e
telerrealização das relações humanas. (SODRÉ, 2002).
Em sintonia com a perspectiva de Sodré, Gomes (2006) define que a midiatização é a
reconfiguração de uma ecologia comunicacional “(...) a midiatização é a chave da
hermenêutica para a compreensão e interpretação da realidade. Nesse sentido a sociedade
percebe e se percebe a partir do fenômeno da mídia, agora alargado para além dos dispositivos
tecnológicos tradicionais” (GOMES, 2006, p.121). Ao abordar o fenômeno midiático, esse
autor revela uma perspectiva otimista em relação aos desdobramentos dela na sociedade.
“Assim, aceitar a midiatização como um novo modo de ser no mundo coloca-nos numa nova
ambiência que, se bem tenha fundamento no processo desenvolvido até aqui, significa um
salto qualitativo no modo de construir sentido social e pessoal”. (GOMES, 2006, p.133).
Em linhas gerais, a midiatização é um tipo de mediação socialmente realizada e se
refere ao modo como as mídias participam vigorosamente da sociedade, que interage cada vez
mais, por intermédio de aparatos midiáticos e tecnológicos. Embora distintos, os conceitos de
midiatização e mediação são imprescindíveis para se compreender os processos
comunicativos contemporâneos, bem como os modelos de interpretação desse fenômeno.
Conforme Sodré (2002), toda e qualquer cultura implica mediações simbólicas que consistem
em linguagens, trabalhos, leis, artes etc. Todavia, o sentido do termo “mediação” é decorrente
de um poder originário de discriminar, de fazer distinções, portanto, de um lugar simbólico
fundador de todo o conhecimento. (SODRÉ, 2002).
Assim, o conceito de midiatização, ao contrário de mediação, não recobre a totalidade
do campo social, mas representa um espaço de articulação entre as diversas instituições e as
43
organizações midiáticas, sendo regidas por estritas finalidades tecnológicas e mercadológicas.
A mediação tem o sentido também de fazer a ponte ou fazer a comunicação entre duas partes,
a exemplo da interação entre indivíduos, grupos, organizações sociais e meios de
comunicação. (SODRÉ, 2002).
Entre os autores já citados, na perspectiva de Martín-Barbero (1997), as mediações
referem-se ao contexto no qual os fenômenos midiáticos são vivenciados pelas pessoas e
grupos que produzem e ressignificam sentidos. As mediações, nesse caso, não se configuram
contrariamente à mídia, mas, sim, como atmosfera na qual os conteúdos midiáticos ganham
significado. Assim, sem os atores e sem as trocas simbólicas, frutos das mediações, as mídias
estariam esvaziadas, seriam meros instrumentos técnicos. Sob esse prisma, o receptor não é
visto como um simples decodificador daquilo qual o emissor depositou na mensagem, mas
também um produtor simbólico, que ao interagir com a mídia, traz todas as suas vivências e
bases culturais socialmente elaboradas. (MARTÍN-BARBERO, 1997).
Daí a proposta metodológica de Martín-Barbero (1977) de deslocamento dos estudos
focados nos meios de comunicação para os processos de mediação, considerando a cultura
como a instância mediadora central nos processos de comunicação.4
A comunicação se tornou para nós questão de mediações mais do que meios, questão
de cultura e, portanto, não só de conhecimentos, mas de reconhecimento. Um
reconhecimento que foi, de início, operação de deslocamento metodológico para
rever o processo inteiro da comunicação a partir de seu outro lado, o da recepção, o
das resistências que aí têm seu lugar, o da apropriação a partir de seus usos.
(MARTÍN-BARBERO, 1997, p.16).
Desta feita, esse deslocamento do olhar focaliza a processualidade, ou seja, a dinâmica
que vai além da instrumentalidade dos meios. As mídias, por sua vez, são vistas como suporte
para transportar os sentidos sociais, que propicia as relações que envolvem os processos
comunicacionais. Nesse sentido, a mídia deve ser tomada como um dos elementos no
contexto das relações entre técnica e atores e como parte integrante do processo
comunicacional, constituindo, assim, um tipo de interação social que permite a
processualidade da comunicação e uma dimensão técnica de mediação.
Importante enfatizar que Martín-Barbero(2004) realiza outros deslocamentos nos
estudos de comunicação, que têm levado a uma aproximação cada vez mais estreita com os
estudos sobre a midiatização. Nessa direção, o autor propõe nova perspectiva de análise da
4
Tal deslocamento ocorre em meados dos anos de 1980, a partir dos estudos de recepção desenvolvidos pelo
autor no contexto da América Latina, expressando-se no próprio título do livro Dos Meios às Mediações:
comunicação, cultura e hegemonia, publicado em 1987 na Colômbia e, posteriormente, no Brasil. (Ed. UFRJ,
1997).
44
comunicação, deslocando a ênfase das mediações culturais para as mediações comunicativas
da cultura. O autor justifica essa perspectiva ao argumentar que a mediação tecnológica da
comunicação na sociedade hoje deixa de ser meramente instrumental para se converter em
estrutural. (MARTÍN-BARBERO, 2004).
Se a revolução tecnológica deixou de ser uma questão dos meios, para decididamente
passar a ser uma questão de fins, é por que estamos ante a configuração de um
ecossistema comunicativo conformado não só por novas máquinas ou meios, senão
por novas linguagens, sensibilidades, saberes e escrituras, pela hegemonia da
experiência audiovisual sobre a tipográfica, e pela reintegração da imagem no campo
da produção do conhecimento. O que estamos vivendo (...) é a reconfiguração das
mediações que constituem seus modos de interpelação dos sujeitos e a representação
dos vínculos que dão coesão à sociedade. (MARTÍN-BARBERO, 2004, p.36).
Outra perspectiva relevante para este trabalho diz respeito à ideia defendida por Braga
(2007) de que a midiatização se torna um processo interacional de referência para os demais
processos e formas de interação social, estando em marcha acelerada e em estágio avançado
de implementação. O autor considera que se vive atualmente uma transição da cultura da
escrita, enquanto processo interacional de referência, para uma crescente midiatização de base
tecnológica. “Com a midiatização, a processualidade diferida e difusa adquiriu diferente
amplitude e diversas qualidades adicionais”. (BRAGA, 2007, p. 150).5
Nesse sentido, as formas tradicionais de interação são redirecionadas e redesenhadas a
partir dos novos formatos de interação mediados pelos dispositivos tecnomidiáticos.(Favor
confirmar grafia correta deste termo) No entanto, embora as práticas convencionais de
interação sejam remodeladas, elas não são substituídas nem excluídas. A midiatização tornase, então, um processo relacional da sociedade que tem a mídia como referência central, mas
esta não é absoluta, isto é, trata-se de um processo que ainda está em curso, com lacunas e
desafios. Assim, na avaliação de Braga, o processo de midiatização deve ser percebido como
algo incompleto, um modelo cultural em permanente construção. (BRAGA, 2007).
Dessa forma, os processos de referência midiáticos hegemônicos devem ser
apreendidos como tendencialmente prevalecentes na sociedade atual. “O fato de que um
processo interacional se torne “de referência” não corresponde a anular outros processos, mas
5
Braga (2007) compreende a midiatização sob duas perspectivas: como processos sociais desenvolvidos em
torno da lógica da mídia e como processo macro de midiatização da sociedade. Na primeira perspectiva, o autor
relaciona a midiatização a instâncias específicas da sociedade, como por exemplo, a adoção da lógica midiática
pelos campos da política, da cultura, da religião, da economia, entre outros. Já em relação à segunda, o autor
parte do pressuposto de que a sociedade constrói a realidade social mediante processos de interação pelos quais
os atores e grupos sociais se relacionam. Vale ressaltar que o autor não vê estas duas perspectivas de forma
estanque, visto serem processos complementares e interpenetrados.
45
sim, a funcionar como “organizador principal da sociedade”(BRAGA, 2007, p. 2). Os demais
processos interacionais teriam aquele primeiro como o parâmetro. “Assim, dentro da lógica da
“mediatização”, os processos sociais de interação mediatizada passam a incluir, abranger os
demais, que não desaparecem, mas se ajustam”. (BRAGA, 2007, p. 142).
Estes processos interacionais são os principais direcionadores na construção da
realidade social, como evidencia o autor: “Construímos socialmente a realidade social, na
medida em que tentamos organizar possibilidades de interação”. (BRAGA, 2007, p. 143).
Braga considera ainda que a construção social da realidade se dá por meio da interação e
pelos processos de mediações sociais ou tecnológicas, que lhe são mais relevantes ou
hegemônicas. Nessa ótica, entende-se que a sociedade não apenas produz sua realidade, mas
produz seus próprios processos interacionais que a constroem. (BRAGA, 2007).
Em paralelo à construção de uma abordagem teórica sobre a midiatização, Braga
elabora conceitualmente a noção de “interação social mediática ampla”, que tem o mesmo
sentido de “interação midiatizada”. Trata-se de uma espécie de interação que propicia o
estabelecimento de um processo comunicativo que vai além da mídia, ultrapassando o contato
interacional midiático imediato entre produtores e receptores:
O que caracteriza fundamentalmente a interação social mediatizada é dispormos (à
diferença do modelo conversacional) de uma produção objetivada e durável, que
viabiliza uma comunicação diferida no tempo e no espaço, e permite a ampliação
numérica e a diversificação dos interlocutores. Esta caracterização central, mesma, é
que exige ultrapassar o recorte simplista ‘ações mútuas entre produtor e receptor’.
(BRAGA, 2006, p. 20).
A efetividade dessa interação depende de uma competência dos atores em relacionarse com estas instâncias, por meio dos usos e apropriações que fazem dos produtos e conteúdos
extraídos destas trocas. Essa competência é construída nas redes por meio das dinâmicas
comunicacionais, que são atravessadas por inúmeros fatores de ordem subjetiva, cultural,
política, educacional, entre outros. Braga classifica o que entende como estruturante de uma
boa interatividade social mediatizada:
A interatividade mediatizada depende de uma competência de interagir com os
produtos (e através destes, com a sociedade) – interpretação, seleções, percursos,
etc. Essa competência não é dada, se constrói junto com a construção de estruturas,
por aproximações sucessivas, em constante reelaboração histórica. Uma boa
interatividade social em torno de produtos mediáticos solicita portanto: (a) produtos
com estruturações eficientes para seus objetivos interativos; e (b) produtores e
receptores (a sociedade em geral) com competências bem desenvolvidas para
interagir – de suas posições respectivas – com estes produtos. (BRAGA, 2006, p.
21).
46
Daí que a interação midiatizada torna-se um objeto de estudo relevante à medida que
seus estudiosos enfatizam a ação qualitativa dos sujeitos e de grupos, como atores conectados,
atuantes no processo comunicacional midiáticos, e, sobretudo, consideram a interação como
sistema dinâmico e processual, estreitamente relacionado ao processo de mediação e
midiatização da sociedade atual. Nessa ótica, Fausto Neto (2008) concebe o fenômeno de
midiatização como uma nova natureza sócio-organizacional, passando da linearidade para a
descontinuidade, em que noções de comunicação – associadas a totalidades homogêneas, dão
lugar às noções de fragmentos e heterogeneidades. Este fenômeno é fortalecido pelos novos
dispositivos interacionais, por meio de sua potência produção e de circulação de sentidos.
(FAUSTO NETO, 2008).
Ocorre a disseminação de novos protocolos técnicos em toda extensão da
organização social, e de intensificação de processos que vão transformando
tecnologias em meios de produção, circulação e recepção de discursos. Já não se
trata mais de reconhecer a centralidade dos meios na tarefa de organização de
processos interacionais entre os campos sociais, mas de constatar que a constituição
e o funcionamento da sociedade – de suas práticas, lógicas e esquemas de
codificação – estão atravessados e permeados por pressupostos e lógicas do que se
denominaria a ‘cultura da mídia’. Sua existência não se constitui fenômeno auxiliar,
na medida em que as práticas sociais, os processos interacionais e a própria
organização social, se fazem tomando como referência o modo de existência desta
cultura, suas lógicas e suas operações (FAUSTO NETO, 2008 p.03).
De acordo com Fausto Neto, os dispositivos interacionais técnicos possibilitam a
organização de novos protocolos comunicativos que sistematizam as dinâmicas de
conversação e de circulação do simbólico. “A intensificação de tecnologias voltadas para
processos de conexões e de fluxos vai transformando o estatuto dos meios, fazendo com que
deixem ser apenas mediadores e se convertam numa complexidade maior”. (FAUSTO NETO,
2005, p. 8).
Este novo modo tecnológico e cultural é consequência da dinâmica entre as práticas de
conversação e circulação, intrínsecas aos novos processos de midiatização social,
especialmente nos meios digitais. As interações processadas nas redes sociotécnicas, por
exemplo, ocorrem devido à circulação de conteúdos que se processam continuamente neste
ambiente por meio de diversas lógicas de mediação (sociais, culturais, tecnológicas, entre
outras). Assim, os atores constituem-se como conectores do processo de construção simbólica,
que levam e formam fluxos que obedecem às lógicas diversificadas dessas esferas virtuais.
Essa perspectiva é apropriada para se compreender a dinâmica nas redes digitais, pois
permite apreender os processos de interagendamento e convergência – social tecnológica e
cultural, entre as diversas mídias, além da afetação entre as interações midiatizadas e não
47
midiatizadas. Em outras palavras, os processos midiáticos configuram uma rede social de
conversação que age nos meios e se mantém fora deles, mesmo que os atores estejam fora de
sua superfície de contato imediato. Imprime-se uma dinâmica de maneira que a modificação
de um deles influencie na mudança/alteração do outro, ou seja, as mudanças nas formas de
interação acarretam transformações na mídia e as possibilidades tecnológicas afetam as
formas de interagir e sociabilizar. (BRAGA, 2007; FAUSTO NETO, 2009).
Para apreender essa dinâmica de circulação interacional, Fausto Neto parte da hipótese
de que os processos de midiatização crescentes da sociedade, especialmente aqueles
ocasionados pela convergência de tecnologias, “deixam nu o funcionamento dos dispositivos
circulatórios de discursos, repercutem nos modos de constituição de novos produtos
midiáticos e no funcionamento dos vínculos entre as mídias e seus usuários”. (FAUSTO
NETO, 2009, p. 1).
A expansão da midiatização como um ambiente, com tecnologias elegendo novas
formas de vida, com as interações sendo afetadas e/ou configuradas por novas
estratégias e modos de organização, colocaria todos – produtores e consumidores –
em uma mesma realidade, aquela de fluxos e que permitiria conhecer e reconhecer,
ao mesmo tempo. (FAUSTO NETO, 2009, p. 93).
A circulação transforma-se, assim, em fator preponderante dos processos de
midiatização. De acordo com o autor, a ênfase na circulação como movimento
comunicacional origina-se na necessidade de se complexificar a observação das relações nas
interseções dos polos, tratando esse fluxo entre partes, processualmente, como elemento
essencial no entendimento das práticas de midiatização. Analisar os atores, seus movimentos,
conteúdos e o modus operandi deste processo interacional é de suma importância para a
pesquisa em comunicação, especialmente para este trabalho e seu objeto empírico.
Segundo ainda Fausto Neto, está nas mãos da sociedade fazer funcionar um novo tipo
de real em que a interação social não se tece mais com base em laços sociais, mas em ligações
sociotécnicas, o que faz com que a sociabilidade dê lugar a informacionalidade. “A
midiatização vai além do ambiente e do seu próprio modo de ser, e se constitui a partir de
formas e de operações sociotécnicas, organizando-se e funcionando com bases em
dispositivos e operações constituídas de materialidades e imaterialidades”. (FAUSTO NETO,
2005, p. 9).
Sob esta perspectiva, o termo circulação vincula-se à problematização do processo
interacional de referência e da midiatização, como forma operativa, como movimento das
relações em torno da mídia, das formas de interação ocorridas no “intervalo”, por meio dos
48
conteúdos compartilhados “entre” atores. Esta lógica acontece neste momento de passagem,
nas instâncias da produção à recepção, ao abarcar as dinâmicas de respostas sociais,
integrando uma visão sistêmica do processo comunicacional na contemporaneidade,
referenciado pelos protocolos midiáticos. Como processo complexo dos fenômenos
midiáticos, o conceito de circulação trata, portanto, do movimento das relações que permeia
uma atmosfera ágil, fluida, opaca, “inter” e “trans”.
O exame do ato comunicacional que se desloca de uma problemática instrumental para
o viés da relação, da conversação e da circulação oferece, conforme ainda o autor, o substrato
da complexidade interacional midiática, evidenciando a natureza híbrida e transversal da
comunicação contemporânea, ou seja, as novas práticas comunicacionais configuram-se como
uma questão relacional, processual, interacional, e não só de caráter transmissional, na medida
em que os atores lidam de modo voluntário, ou não, com algo que lhe é externo, como algo
que lhe precede e que é contínuo, os conteúdos informacionais midiáticos. (FAUSTO NETO,
2009).
A discussão realizada até aqui revelou que as crescentes mudanças nos processos da
comunicação na sociedade ligados à mídia formatam novos modos de funcionamento e
organização das dinâmicas de circulação, característica fundante dos novos meios digitais e
elemento importante no estudo da comunicação. Revelou também que este processo
interacional é dinâmico e é construído por meio de jogos de negociação de sentidos, segundo
protocolos de produção e recepção, apropriação, ressignificação e resposta, condicionadas à
circulação e à transversalidade.
Diante do exposto, pode-se inferir que a problemática da construção dos sentidos, e
dos seus efeitos, passa a ser permeada por mecanismos mais complexos. Em outras palavras,
infere-se que a circulação midiática na sociedade amplia-se e intensifica-se com os novos
ambientes de relações e trocas sociais que são estruturadas em redes complexas e, sobretudo,
sob a influência dos atores e de sua capacidade de respostas. Por isso, não basta estudar a rede
sob a perspectiva de seus tipos e topologias, já que são os fluxos que dão contornos aos
fenômenos comunicacionais contemporâneos. Nessa medida, deve-se atentar para a
emergência e desenvolvimento de um novo modelo comunicacional, que não se baseia apenas
na evolução tecnológica, mas no envolvimento da sociedade com o processo, uma vez que
suas práticas de conversação e a circulação colocam em movimento, conteúdos simbólicos
que dão sentidos à vida social.
Certamente, a midiatização é um processo interacional de referência em curso, mas
que já aponta para novas perspectivas de estudo, perguntas e desafios que só encontram
49
possíveis caminhos elucidativos ao se adentrar na reticularidade dos processos
comunicacionais, na operacionalidade da interação, na circulação de seus conteúdos, nas suas
formas de conversação, nos detalhes das relações. O regime de funcionamento da mídia é
enriquecido na medida em que surgem problemáticas em torno do sistema de emissão,
recepção e circulação de sentidos, como se verá a seguir a partir da formulação do sistema de
resposta social, que consiste em um novo modo de olhar os processos interacionais na
sociedade contemporânea.
1.5. Sistema de Resposta Social
As interpretações sobre os processos midiáticos mostram-se constantemente
desafiadas diante de um cenário contemporâneo de mudanças e velocidades. É imprescindível
que os métodos de análise e as teorizações acompanhem tal diversificação e a complexidade
deste momento tensionado pelas mutações tecnológicas, culturais e sociais. As abordagens
conceituais apresentadas até aqui sobre redes, capital social, deliberação, movimentos sociais,
bem como sobre midiatização, mediação, interação midiatizada, circulação e sistema
interacional de referência, reúnem autores que, de forma consensual, consideram que os
sujeitos da comunicação possuem papel ativo na sociedade e no processo comunicacional.
Por esta relevância, a interconexão da análise de Braga (2006) sobre o Sistema de
Resposta Social (SRS) com o objeto empírico deste trabalho – a blogosfera da Segurança
Pública (a ser caracterizado e analisado nos capítulos subsequentes), é referência central para
o entendimento de como a sociedade desenvolve suas experiências de “enfrentamento” e
“negociação” com o sistema midiático. Segundo o autor, o SRS ou Sistema de Interação
Social, consiste em:
[...] Um terceiro sistema de processos midiáticos, na sociedade, que completa a
processualidade de midiatização social geral, fazendo-a efetivamente funcionar
como comunicação. Esse terceiro sistema corresponde a atividades de resposta
produtiva e direcionada da sociedade em interação com os processos midiáticos.
Denominados esse terceiro componente da processualidade midiática ‘sistema de
interação social sobre a mídia’ ou, mais sinteticamente, ‘sistema de resposta social’.
(BRAGA, 2006, p. 22).
Um sistema de resposta social é então alguma coisa bem mais complexa que a
interatividade pontual, ou de retorno entre o receptor e o emissor. Pode incluir tais
vetores, mas corresponde ao próprio processo de construção e de manutenção
continuada de um desenho de interações – para apreender e constituir
continuadamente a realidade. (BRAGA, 2006, p.15).
50
Nessa dimensão, Braga propõe a existência de um sistema de resposta da sociedade, a
fim de incorporar a atual diversidade dos modos de produção, recepção e resposta
comunicativa. Para tanto, o autor parte da premissa de que a sociedade não é um simples
recebedor passivo dos produtos da mídia, pois ela também processa, age e produz a partir do
que recebe, interferindo, por meio de inúmeros mecanismos, na própria produção da mídia.
Nesse sentido, os três subsistemas – produção, recepção e resposta social – correspondem ao
agrupamento de dinâmicas comunicacionais em um todo que os abrange e ora os resume. Em
outros termos, trata-se de três processos que se interpenetram e integram uma composição
maior, que é o processo comunicacional. (BRAGA, 2006).
[...] Desde as primeiras interações midiatizadas, a sociedade age e produz não só
com os meios de comunicação ao desenvolvê-los e atribuir-lhes objetivos e
processos, mas sobre os seus produtos, redirecionando-os e atribuindo-lhes sentido
social. ao fazer isso, chega inclusive, partindo de práticas de uso, a desenvolver
novos objetivos e funções para as tecnologias inventadas a serviço inicialmente de
pontos de vista relacionados a produção e emissão. [...] Esse terceiro subsistema
corresponde a atividades de resposta produtiva e direcionadora da sociedade em
interação com os produtos midiáticos. (BRAGA, 2006, p. 22).
A proposição de Braga considera que a sociedade não interage com os meios de
comunicação e, sim, com os produtos e processos desenvolvidos e transmitidos por eles. Daí
que a complexidade de estudar esse sistema está nas respostas diferidas e difusas, que são
características próprias da midiatização. Sob esse prisma, o SRS é a forma pela qual a
sociedade fala sobre os conteúdos midiáticos postos em circulação pelos meios. Essa
dinâmica remete à noção de continuidade entre os processos comunicacionais midiatizados e
também os não midiatizados, dentro dos meios e fora dos meios.
Deve-se evidenciar, portanto, que tal sistema refere-se à movimentação da sociedade a
partir dos estímulos produzidos inicialmente pela mídia e, consequentemente, da forma pela
qual os sujeitos se apropriam do produto midiático. O que a sociedade faz com esse produto é
então, relacionado como uma resposta, um trabalho social dinâmico caracterizado por fazer
circular ideias, informações, reações, interpretações e reinterpretações. Segundo Braga
(2006), essa dinâmica é tão abrangente quanto abstrata, e moldada a partir de padrões
subjetivos, culturais, hábitos, tendências e objetivos.
A perspectiva do SRS vislumbra uma gama de possibilidades contínuas e infinitas de
atuação do público junto à mídia e vice-versa, uma vez que valoriza a capacidade de a
audiência criticar, avaliar, julgar e resistir aos produtos midiáticos. Assim, credita um papel
ativo ao polo da recepção de redimensionar, redirecionar e ressignificar os produtos da
51
emissão. O que resulta em um sistema de mediação dinâmica e contínua, que parte da mídia e
que é retomada a ela, ou seja, em um processo de significação e ressignificação, interpretação
e reinterpretação. Para o autor, este ciclo de relações sociais com a mídia, em que a emissão
produz, a recepção consome, avalia, conversa, ao mesmo tempo em que responde a mídia,
torna-se o motor do sistema de resposta da sociedade. Em suma, entende-se esse sistema
como uma ação qualitativa de interferência de atores e como dinâmica de intervenções da
coletividade em um esforço de compartilhamento simbólico, de aprendizagem, de ação e de
controle social. (BRAGA, 2006).
Em síntese, o SRS permite ao estudioso ter uma percepção global e processual do
processo comunicacional, isto é, uma visão macro e micro dos processos interacionais. Esse
olhar sistêmico não desconsidera a importância de se compreender as especificidades do
funcionamento de cada subsistema, e estabelece critérios de comparação entre eles. Assim,
possibilita promover articulações internas entre os processos de acordo com o seu
pertencimento ao sistema e, por fim, estabelecer diferenciais e tensionamentos entre as
interações que ocorrem no interior de cada subsistema e entre os subsistemas da produção,
recepção, circulação e resposta social.
Como ressaltado, o SRS reforça a ideia de que a sociedade não é um agente que
apenas recebe, mas também, que responde, organiza e desenvolve ações diversas sobre a
mídia. Os atores fomentam e estabelecem por meio desse sistema ações críticas que, por
conseguinte, geram processos de associação, formação, pressão, militância, controle,
vigilância, enfrentamento, sistematizações, continuidades, associações e aprendizagem
individual e coletiva. Geram ainda ações contrapositivas, interpretativas, ressignificativas,
proativas, corretoras de percurso, controladoras, seletivas, polemizadoras, de estímulo, de
alerta, entre outros. (BRAGA, 2006).
A adesão, a crítica, as objeções interpretativas, as pressões exercidas, as ações de
militância, a organização da coletividade, os movimentos sociais, o esforço de controle sobre a
mídia, as referências históricas criadas, os processo formativos compõem algumas das
principais formas de enfrentamento da sociedade em relação à mídia convencional. De acordo
com Braga, essas ações são voltadas para a própria sociedade e conforme sua abrangência
podem ter um sentido direto ou indireto de resposta sobre a mídia, que vai se caracterizar,
então, por meio da circulação, como uma reação da sociedade, necessariamente diferida e
difusa. (BRAGA, 2006).
O autor advoga ainda, que há uma variedade possível de ações de interação e que,
muitas delas, utilizam a própria mídia como veículo dessas ações. Esse aspecto, segundo o
52
autor, comprova a superação da visão dualista entre mídia e sociedade, com a crítica midiática
sendo acolhida pela própria mídia. Assim, a sociedade pode utilizar a própria mídia para
divulgar suas ideias, criticar, referenciar, sistematizar, aprender, apreender, integrar e mobilizar,
evidenciando a extensa variedade de ações de interferência e interação, já que é por meio
dessas características emergentes nestes dispositivos sociais que a sociedade pode exercer sua
liberdade e seu poder crítico.Sob esta perspectiva, a Internet pode ser vista como um ambiente
midiático favorável para a discussão das dinâmicas interacionais no interior dos subsistemas e
entre os mesmos, tanto no sentido experimentar tais dinâmicas como de se observar as interrelações entre emissores, receptores e respostas sociais, integrantes de um sistema interacional
complexo de um cenário contemporâneo amplo. (BRAGA, 2006).
Embora reconheça a multiplicidade de processos com que a sociedade age sobre a
mídia, alguns inclusive de interesse da própria mídia, Braga enfatiza que a teorização referente
ao SRS não corresponde a uma visão ingênua de que a sociedade está preparada para enfrentar
e corrigir distorções do sistema de produção da mídia, nem tampouco, que há equilíbrio na
relação mídia, atores e sociedade. (BRAGA, 2006).
Por fim, é importante retomar a necessidade de articular o objeto de estudo desta
pesquisa com o sistema de resposta social, de forma a conjugar as características desse sistema
à mídia digital. Nesse sentido, os atores em conexão, por meio dos conteúdos em circulação
nos ambientes digitais, constituem um sistema de resposta à produção de outras mídias e,
sobretudo, não podem ser consideradas apenas como uma manifestação extramidiática, mas,
sim, um fenômeno complexo dinâmico processual de compartilhamento de significados, de
modo transversal e sobreposto. Os blogs são exemplos de um esforço coletivo atravessados por
múltiplas vozes, que podem funcionar como instrumentos de crítica e de ações na mídia e da
mídia. Dessa forma, os suportes digitais não só servem como oportunidade de manifestação do
sujeito e de grupos, mas, também, de parâmetro instantâneo para os veículos de comunicação
oficiais, formais e comerciais para se pautarem, e, sobretudo, se avaliarem.
Contrariamente aos fatores que tornam a visão processual e sistêmica interacional
quase imperceptível, entende-se as mídias, em especial as redes digitais, como suportes
relacionais que favorecem a ação de atores sociais e, que, sobretudo, revelam os processos
aqui abordados. Tais dispositivos estruturam inter-relações dentro da mídia, com outros
meios, com a sociedade, enfim, traçam fluxos interacionais no interior, nas bordas e no
exterior das redes. Estes dispositivos constituem subsistemas que integram uma visão
sistêmica interacional. Parte-se, portanto, do princípio da existência desses suportes digitais
como estruturantes de relações sociais complexas e como indicativos de que a sociedade
53
interage com suas mídias, se pautam por elas e nelas se inserem. Assim, abordam-se a seguir,
outras perspectivas conceituais deste fenômeno comunicacional, especialmente, a abordagem
dos blogs e da blogosfera.
1.6. Redes comunicacionais midiatizadas: blogs
O termo weblog foi primeiramente usado por Jorn Barger, em 1998, para referir-se a
um conjunto de sites que “colecionavam” e divulgavam links interessantes na Web (BLOOD,
2000). Daí o termo web+log (arquivo Web) e seu diminutivo blog, que foi usado por Jorn para
descrever a atividade de loggingthe web. Nesta época, os blogs eram poucos e quase nada
diferenciados de um site comum na Web. Autores como David Winer consideram como o
primeiro blog o primeiro site da Web, mantido por Tim Berners-Lee, da CERN, criador da
World Wide Web, em março de 1989. O site tinha como função apontar todos os novos sites
que eram colocados no ar.
Foi o surgimento das ferramentas de conversação e publicação que alavancou os blogs.
Em 1999, a pitas.com lançou a primeira ferramenta de manutenção de sites via Web, seguida,
no mesmo ano, pelo lançamento da plataforma blogger.com.br. Esses sistemas
proporcionaram maior acessibilidade e facilidade na publicação e manutenção dos sites, que
não mais exigiam o conhecimento técnico da linguagem HTML e, por isso, passaram a ser
rapidamente adotados e apropriados para os mais diversos usos. A agregação das ferramentas
de comentários, postagens e inserção de links foi fundamental para a popularização dos blogs.
Ainda em 1999, a compra do Blogger pela Google foi percebida uma consagração dos blogs
nessa época, coroando sua usabilidade (AMARAL, RECUERO, MONTARDO, 2008).
Os blogs foram inicialmente definidos como uma ferramenta de publicação que
constituía um formato muito subjetivo e particular. Diante de um cenário de popularização
dos blogs, uma das primeiras apropriações que rapidamente foi notada diz respeito ao uso
destas ferramentas como oportunidade de se originar construções simbólicas individuais.
Assim, os blogs começaram a ser utilizados como espaços de expressão pessoal, publicação
de relatos, experiências, pensamentos e suas percepções do coletivo. O uso do blog, ainda
hoje, é considerado em sua maior parte como um diário pessoal e entendido por muitos
autores como o mais popular uso da ferramenta. Tal acepção nos remete a uma espécie de
ponto de encontro, uma referência de pertencimentos, uma comunidade virtual onde se
constitui um nó.
54
No que diz respeito à abordagem teórica relacionada a blogs, pode-se dizer que é
variada e extensa, e vários autores se manifestam de formas diversas. Uma definição mais
frequente é aquela que conceitua o blog a partir da presença de textos organizados por ordem
cronológica reversa, datados e atualizados com alguma frequência. Os vários usos têm em
comum o formato constituído pelos textos colocados no topo da página e frequentemente
atualizados, bem como a possibilidade de uma lista de links apontando para sites similares e a
contínua inserção de comentários. Desta maneira, os blogs constituem um website em
frequente atualização, onde o conteúdo, sendo este, texto, fotos, arquivos de som ou vídeo,
são postados em uma estrutura regular e posicionados em ordem cronológica reversa. A
frequência das postagens é uma característica importante, comum às diversificadas
abordagens e igualmente discutida.
Gilmor (2004) foca na estrutura apenas a partir da presença de links e dos textos curtos
publicados em ordem cronológica reversa. Barbosa (2003), por sua vez, propõe a visão do
blog como uma ferramenta que facilita a publicação pessoal, anexando à sua estrutura o
caráter discursivo e de pessoalidade. Garfunkel (2004) identifica e reúne os seguintes traços
característicos de um blog: website de cunho subjetivo ou não-comercial, tipicamente
produzido por um único indivíduo; formato de um diário organizado em ordem cronológica
reversa, em geral atualizado todos os dias ou com bastante frequência; referências a outros
sítios da web e excertos comentados de outras fontes e impressões pessoais e, por fim, relatos
da vida diária. (GILMOR, 2004, BARBOSA 2003, GARFUNKEL 2004).
Primo e Smaniotto (2006) caracterizam os blogs de acordo com sua estrutura, ou seja,
“blog/texto”, “blog/programa” e “blog/lugar”, o que permite a distinção entre os aspectos
tecnológicos e humanos desse novo mecanismo de produção e divulgação de conteúdo online. O “blog/texto” é o conjunto de todo o conteúdo produzido pelo blog, disponibilizado em
posts, geralmente textos escritos, mas que podem também ser imagens, áudios e vídeos, uma
vez que tal denominação leva em consideração que texto não é apenas a mensagem divulgada
por signos verbais. “Blog/programa” pode ser entendido como uma ferramenta informática
utilizada para a produção do “blog/texto”. É a estrutura lógica técnica moldada para formatar
os recursos de linguagem. “Blog/lugar” seria a localização do blog/texto na www indicada por
um endereço específico. (PRIMO E SMANIOTTO, 2006).
Pedersen e Macafee (2007) concebem o blog a partir de sua função primária, isto é,
por conter características tradicionais e prioritárias aos meios de comunicação em torno de
meramente divulgar as informações aos seus públicos de forma segmentada, por meio da
Internet. Nesta concepção, a participação e instantaneidade não é um pressuposto obrigatório.
55
De igual forma, nem todos os autores que abordam os blogs como objeto empírico, referem-se
à ferramenta de comentários como essencial para a definição deste suporte e ainda, não
abordam o suporte tendo como foco principal a conversação e as trocas exercitadas no
ambiente com seus pares. (PEDERSEN E MACAFEE, 2007).
Outros autores buscam compreender os blogs como artefatos culturais. Essa percepção
representa uma aproximação do contexto sócio-histórico de apropriação dos artefatos
tecnológicos, a partir do olhar subjetivo dos próprios atores que interagem com as novas
tecnologias e atuam nestas. Segundo Espinosa (2007), um blog é “um artefato cultural, de
forma a evitar qualquer confusão conceitual, pode ser definido como um repositório vivo de
significados compartilhados produzido por uma comunidade de ideias”. (ESPINOSA, 2007,
p. 272).
Assim, o blog é definido também como sendo um suporte de comunicação utilizado
para publicar informações para um grupo. “Weblogs constituem uma conversação
massivamente descentralizada onde milhões de autores escrevem para a sua própria
audiência”. (MARLOW, 2004, p. 32).
Blood (2002), em uma das primeiras obras a respeito dos blogs, explica que a
conversação é uma forma de apropriação do suporte. A percepção dos blogs como espaços de
sociabilidade, como constituintes de redes sociais está presente nesta vertente. Assim, vale
aqui ressaltar que o uso subjetivo do blog não se remete exclusivamente à sua utilização como
diário pessoal, mas também, como uma forma de se tornar mediador midiático que utiliza dos
ambientes digitais para dizer de algo de seu interesse, seja do ponto de vista individual, da
coletividade ou das instituições. O gestor deste conteúdo pode, por exemplo, utilizar desse
meio para se relacionar, para fazer ecoar temáticas de militâncias, divulgar pensamentos e
ações referentes à hobbys,à instituições, às relações de consumo, a fins promocionais, como
método de observação de pautas e contextos jornalísticos ou até mesmo, como objetos de
percepção e análise de risco para imagem das organizações. Enfim, com todas as interfaces
possíveis com que o sujeito, os grupos, a mídia e até as instituições potencialmentese deparam
e das quais sintam a necessidade de expor seus conteúdos à coletividade. (BLOOD, 2002). De
acordo com Amaral, Recuero e Montardo,
Os blogs constituem hoje uma realidade em muitas áreas, criando sinergias e
reconfigurações na indústria cultural, na política, no entretenimento, nas redes de
sociabilidade, nas artes. Os blogs são criados para os mais diversos fins, refletindo
um desejo reprimido pela cultura de massa: o de ser ator na emissão, na produção de
conteúdo e na partilha de experiências. (AMARAL, RECUERO E MONTARDO,
2009, p. 8).
56
Assim, percebe-se a predominância do uso deste suporte como ambiente aproximativo,
subjetivo, explorado como diário pessoal, construído por meio de uma estrutura discursiva
centralizada, ou estendido em diversas situações, para o uso coletivo, com estrutura
discursiva,
mas,
sobretudo,
com
fortes
características
descentralizadoras
e
de
compartilhamentos mais abrangentes. De toda forma, há, em sua apropriação, um forte
elemento de personalização e de pessoalidade gerados no âmbito da emissão, da recepção e
em seus interagendamentos.
Nesse mesmo sentido, dois autores, Trammell e Keshelashvili (2005), apesar de
reconhecerem que o blog é muitas vezes definido a partir de sua estrutura, consideram que por
sua vocação midiática, o blog torna-se uma aproximação da personalização de seu autor, que é
expressa a partir de suas escolhas de publicação. (TRAMMELL & KESHELASHVILI, 2005).
Gumbrecht (2004) explica que os blogs são formas de publicação que fortalecem a expressão
individual em público. Nesse sentido, os blogs apresentam-se como espaço de recepção, de
publicação, de disseminação e de visibilidade diferenciadas, ou seja, tornam-se uma forma de
apropriação e reapropriação de um contexto. (GUMBRECHT, 2004).
Os blogs, mesmo aqueles que não têm como característica a expressão da opinião do
autor, são personalizados. Até mesmo os blogs que não passam de uma coleção de links e de
comentários curtos dizem algo sobre os seus autores. Nesse sentido, Rocha (2003) aponta o
blog como um espaço de expressão de sentimentos, que poderia ser percebido como outra
forma de constituição da personalização. Os blogs são formas de representação da identidade
de seus atores/autores. Mesmo os blogs que não são especificamente opinativos, contêm no
seu repertório de links e textos, seu autor espelhado nessas escolhas. (ROCHA, 2003). O blog
é também compreendido como uma escrita pessoal e íntima e um espaço de narrativa do
sujeito, conforme Lemos intitula como “narrativa de si”. (LEMOS, 2002).
Nesse sentido, explica-se o fato do interesse do sujeito em poder participar de grupos
virtuais, pois representa uma oportunidade de se colocar na cena midiática, de se expressar,
desfrutar ambientes comuns de pertencimento e poder compartilhar um imaginário coletivo.
Essa difusão de significados comunicacionais é denominada por Silva (2003) como
“tecnologias do imaginário”. Tais estruturas midiáticas funcionam como dispositivos de
produção de nexos, mitos, pontos de vistas, visões de mundo e de estilos de vida. (SILVA,
2003).
Diante disso, o blog é uma forma individual e coletiva de expressão personalizada, que
marca a percepção do “outro” por meio do potencial de interconexão das redes. Cada blog é
57
um nó na infinita rede que firma fluxos interacionais multiplexos por meio de variados graus
de pertencimento e intensidade de laços sociais estabelecidos entre os atores.
Essas perspectivas conceituais auxiliam-nos no entendimento de como os blogs são
compreendidos atualmente. O blog como “diário pessoal” é a forma mais popular de seu uso.
Como “estrutura organizada” de textos, independente das participações e comentários,
indiferente de seus usos, em um contexto mais geral. Como “meios de comunicação”, os
blogs são compreendidos por meio de sua função comunicativa e dos elementos que dela
decorrem, dando contornos mais tradicionais à função de divulgação. Como “mídia”,
enfatiza-se a interatividade e seu papel como potencializador de novas formas de relações
sociais. Como “artefatos culturais”, os blogs são apropriados pelos atores e constituídos por
meio de subjetividades e motivações ou, por último, como forma de “conversação”.
Independentemente de os blogs serem interpretados sob um viés estrutural (ferramenta),
funcional (com propriedades inerentes ao meio de comunicar) ou como artefato social
(apropriação sob o ponto de vista cultural, antropológico, em que as novas tecnologias
permitem a manifestação da subjetividade), eles consolidam e consistem em ambientes que
permitem a comunicação mediada por meios digitais, que inauguraram recentes formas de se
socializar, com contornos ainda tênues e parciais, mas que favorecem, sobretudo, a interação
online, sob os mais variados interesses.
Sob este ponto de vista, o blog favorece um ambiente comunicacional complexo e
possibilita a ação de atores e suas comunicações reticulares, intercruzadas, que se manifestam
em um espaço virtual agregador de uma multiplicidade de narrativas. Este suporte
contemporâneo permite um ambiente de trocas simbólicas e de interação social, resultantes do
interesse individual e coletivo, que fomenta diálogos, estimula a visibilidade e articula
processos comunicativos mediados e potencializados tecnicamente. O blog passa a ser visto
como um locus de compartilhamento simbólico, que se torna infinitamente mutável, moldável
à intencionalidade dos atores. (LEMOS, 2002).
Não se trata, portanto, nunca de algo determinante. A experiência qualitativa com os
meios de comunicação só pode estimular o potencial crítico, criativo ou o imaginário de uma
pessoa se houver interesse, assim como capacidade cultural e educacional para usufruir de tais
potenciais. Além disso, como em qualquer outra mídia, a prática de comunicação no blog vem
carregada de intencionalidade e ideologismos. (LEMOS, 2002). É um ambiente de trocas
informacionais, potencializado pelos atores pela interferência no processo de emissão,
recepção e respostas sociais, porém, seu uso deve ser mais do que nunca, questionado,
problematizado e pesquisado.
58
Assim, características importantes em relação aos blogs devem ser descritas, como é o
caso do estudo das características do público e da utilização do ambiente coletivo. Os estudos
de Amaral e Quadros (2006) descrevem os conflitos e distúrbios nas comunidades blogueiras
e o comportamento desse público. Também está presente nessas análises a conceituação de
trolls e dos que visitam um determinado blog, mas não comentam ou participam (FERREIRA
& VIEIRA, 2008). “Os trolls constituem tanto uma persona que causa distúrbio às relações
sociais como podem, a partir de suas acusações, gerar debates que garantem a participação de
um maior número de participantes, assim como podem atrair ainda mais trolls.” (AMARAL &
QUADROS, 2006).
Desta forma, o ambiente digital tem sido regularmente ocupado por práticas políticas,
para externar conflitos e para expor distúrbios. (RECUERO, 2009). Na tentativa de sintetizar
as diversas visões, percebe-se que os ambientes digitais são espaços virtuais sociais, de
compartilhamentos simbólicos que podem representar tanto as dinâmicas colaborativas e
cooperativas quanto às práticas em torno do conflito. Nos dois casos, notam-se as estratégias
de captação de audiência e participação por meio da exploração de conteúdos polêmicos e que
vão provocar movimentos de estabilização, agregação ou desestabilização e desagregação. A
espetacularização de determinadas situações atrai novos seguidores seduzidos pela ideia do
embate, do confronto, do questionamento, da denúncia, e das revelações possíveis sobre algo.
A manutenção desta audiência é sempre alimentada pela novidade, pelo fato, pela revelação e
exclusividade.
Por fim, percebe-se que os blogs estão na ordem atual dos debates sobre novas
tecnologias, mídia, redes, deliberação, mobilização. Por isso, acredita-se na necessidade de
estudar as dinâmicas comunicacionais proporcionados pelos meios digitais para que se possa
perceber qual a profundidade, a intensidade e abrangência das redes de sociabilidade. Este
conhecimento serve como base traçar este fenômeno singular de forma mais próxima dos
novos hábitos coletivos e das práticas sociais contemporâneas. O que momentaneamente se
pode afirmar é que as redes de sociabilidade digitais, certamente, fazem parte das
reconfigurações do mundo globalizado, como efeitos da ampliação das informações, das
novas relações com o tempo e da expoente desterritorialização das relações sociais,
reconfigurando substancialmente as superfícies e interfaces interacionais simbólicas de
contato.
O que interessa, portanto, é a potencialidade comunicacional desses ambientes
constituído pelos atores como novas formas de sociabilidade, de relação, de respostas sociais,
de variados usos e conteúdos, de múltiplas possibilidades de se manifestar e se reconhecer
59
coletivamente, bem como, de compartilhar significados intrínsecos. Assim, adentra-se nos
processos de compartilhamento, construções narrativas coletivas reveladas nos ambientes
digitais, por meio da discussão adiante sobre blogosfera da Segurança Pública e o estudo de
caso do blog da Renata.
60
2 BLOGOSFERA DA SEGURANÇA PÚBLICA (SP) E O BLOG DA RENATA
Este capítulo destina-se à exploração do ambiente virtual relacionado às discussões de
Segurança Pública. Nesse sentido, objetiva-se a investigação da blogosfera da SP a partir do
blog da Renata, suporte midiático que reúne atores no estado de Minas Gerais, observados do
ponto de vista da interação sob a luz do movimento reivindicatório da SP de 2011. Apresentase o cenário da blogosfera da SP, o blog da Renata e breve contexto do movimento para
possível greve do segmento.
2.1 Blogosfera da SP
O termo blogsosfera (blog+esfera) tem similaridade com a palavra mais antiga
"logosfera". "Logo" é um elemento que significa palavra e "esfera" pode ser interpretado
como "mundo", como representação geográfica do planeta Terra. As relações entre os
conceitos resultam na definição "o mundo das palavras", isto é, o universo do discurso. O
termo também se aproxima na pronúncia e no significado do termo "noosfera", isto é, o
mundo do pensamento.
Entende-se nesta pesquisa a blogosfera como o termo coletivo que compreende todos
os blogs (ou weblogs) como uma comunidade ou rede social. Muitos blogs estão densamente
interconectados, isto é, atores leem os blogs uns dos outros, criam links para eles, referem-se a
eles na própria escrita e postam comentários nos blogs uns dos outros. Por causa disso, os
blogs interconectados criam a própria cultura. O conceito de blogosfera é importante para a
compreensão dos blogs, na medida em que qualifica os tipos e os segmenta.
A blogosfera é, portanto, o conjunto de blogs em torno de peculiaridades grupais e de
segmentos que, de forma coletiva, dialogam em condições reticulares. A participação e o
compartilhamento é que operam o agrupamento desses “nós”. Orihuela define blogosfera
como “um sistema complexo, autorregulado, extraordinariamente dinâmico e especialmente
perceptível à informação que produz os meios tradicionais, em particular no que se refere a
assuntos políticos e tecnológicos” (ORIHUELA, 2007, p.8).
Assim, os blogs representam o conjunto de conteúdos publicados por atores enquanto
a blogosfera é um fenômeno social, uma esfera midiatizada e cenário temático de
envolvimento de um grupo de interesse. Dada a emergência desses suportes midiáticos,
surgem no ciberespaço diversos sites e serviços voltados a produzir e veicular informações
para grupos de interesse no ambiente da Internet, além do monitoramento, entre outras
61
funções. Portais como technorati.com e bloglines.com usam os links criados pelos blogueiros
para rastrear as interconexões entre os blogs, a fim de acompanhar esses ambientes
segmentados. Aproveitando as vantagens dos links em hipertexto, que funcionam como
marcadores dos assuntos que os blogueiros estão discutindo, esses sites seguem o movimento
de uma conversa de um blog a outro e dessa maneira, permitem rastros, clareiam temáticas,
alcances e adesões. As plataformas também podem ajudar pesquisadores a descobrir com que
velocidade um conteúdo pode autopropagar-se pela blogosfera. A prática de espalhar
informações é incorporada por alguns teóricos como “memes”. O termo é usado para
descrever o fluxo informacional que se espalha por meio da Internet por meio de algum
assunto, mensagem e conteúdo, isto é, uma idéia propagada via redes digitais. “Essa
influência é relativa às interações entre os indivíduos e na própria rede social (BOYD, 2004),
podendo gerar agregação (BOYD, 2004); competição e cooperação (HEYLIGHEN, 1994) e
outras dinâmicas”. (RECUERO, 2004, p. 10).
A partir dessa breve caracterização, foca-se, agora, a blogosfera da Segurança Pública,
chamada também de blogosfera policial, que é constituída por blogs segmentados
relacionados à SP e à criminalidade no Brasil, formando a blogosfera e os blogs segmentados.
Adota-se o primeiro termo, uma vez que abrange todas as categorias da SP e da defesa social,
e não somente os blogs relacionados à prática policial.
Adota-se o segundo termo com prioridade por representar com abrangência devida as
temáticas relacionadas a todas as categorias da SP e defesa social e não somente, os blogs
relacionados à prática policial. Parte-se da visão sistêmica que considera várias instituições
como parte de um conjunto, envolvidas com a temática da SP, Defesa Social, da ordem social,
da proteção e prevenção, da ostensividade, da investigação, da repressão, da vida e do
patrimônio e ainda do prisional e socioeducativo.
Esse ambiente digital temático tem-se mostrado como uma rica fonte de pesquisas e
disponibilização de informações e reflexões sobre as práticas e rotinas dos agentes públicos de
SP, além promover uma interação direta entre eles. Ademais o próprio agente da SP passa a
ser ator do seu próprio agendamento. Esse ambiente abre espaço também para a participação
de diversos segmentos da sociedade no debate de questões ligadas ao setor, incluindo a
imprensa, movimentos organizados da sociedade civil, entre outros.
Os processos de midiatização digitais podem ainda favorecer uma horizontalidade das
informações entre camadas operacionais e estratégias, entre instâncias municipais, federais e
estaduais, tornando-se uma via alternativa de comunicação, paralela à formal e às mídias
convencionais.
62
Em outras palavras, os blogs temáticos da SP6 passam a se tornar ponto de encontro e
fonte de informação não só para os agentes envolvidos nas instituições de SP, como também
para os membros da sociedade civil, entre pesquisadores e estudiosos, instituições, instâncias
políticas, movimentos sociais, enfim, aqueles que, por inúmeros motivos, se interessam ou
estão envolvidos pelo universo ali exposto. A blogosfera da SP contribui, assim, para
dinamizar as práticas comunicativas das instituições, bem como subsidiar a elaboração de
diagnóstico comunicacional interinstitucional e extrainstitucional, por meio de uma leitura de
cenários do segmento, de seus inputs, outputs, riscos, ameaças, oportunidades de mobilização
participação de variados atores nos assuntos relacionados às temáticas públicas.
A internet tem se revelado um instrumento capaz de revolucionar todos os setores da
atividade humana. A economia, a cultura, a política, o jornalismo e a publicidade são
alguns exemplos de áreas que foram – e continuam a ser – radicalmente modificadas
pelo nascimento do universo virtual. A difusão rápida de informações; a
horizontalização das relações; a formação de redes sociais a partir de tópicos de
interesse; a transparência; a possibilidade de contato direto entre prestadores e
usuários de serviços são características evidentes desta nova realidade. Elas também
estão modificando o cenário da Segurança Pública, impactando profundamente as
forças policiais. (UNESCO, 2009, p. 17).
As várias forças pouco ou nada se relacionavam entre si e era comum que os
integrantes de uma corporação como a Polícia Militar manifestassem desconfiança e
animosidade em relação aos colegas de outra instituição, como a Polícia Civil. Os
blogs estão subvertendo a hierarquia nos quartéis e nas delegacias (o blog de um
soldado pode ser tão importante quanto o de um coronel) e criando canais de troca
entre as forças policiais e delas com os demais grupos e instituições. (UNESCO,
2009, p.17).
Os blogs temáticos do segmento passam a se tornar ponto de encontro e fonte de
informação não só para os agentes envolvidos nas instituições de SP, como também para os
membros da sociedade civil, entre pesquisadores e estudiosos, instituições, instâncias
políticas, movimentos sociais, enfim, aqueles que, por inúmeros motivos, se interessam ou
estão envolvidos pelo universo ali exposto.
O Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), da Universidade Cândido
Mendes, realizou à convite das Organizações das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a
Cultura – Unesco, a primeira pesquisa deste importante fenômeno no debate sobre SP e
criminalidade no Brasil, intitulada como “A blogosfera policial no Brasil: do tiro ao twitter”.
(UNESCO, 2009).
6
Uma busca na Internet pelo termo blogosfera da SP, em novembro de 2012, resultou em 715.000 resultados,
com inúmeras remissões para sites de todo Brasil, inclusive internacionais.
63
A pesquisa da CESeC realizou uma análise sobre a existência de blogs policiais
utilizando-se de entrevistas, questionários diretos aos blogs e mesas redondas para compor o
perfil do blogueiro policial. Por meio de um formulário, 73 blogueiros, autores de 70 blogs,
responderam às questões da CESeC; o resultado divulgado pela Unesco comprovou o
interesse dos vários segmentos da SP pela nova esfera midiática.
O estudo cita a representatividade de vários órgãos da SP na rede digital, entretanto a
pesquisa da CESeC revela a predominância do policial militar na rede. A análise do estudo da
Universidade Cândido Mendes reflete, portanto, a representação dominante dos blogs
temáticos relacionados ao conteúdo da Polícia Militar em âmbito nacional e, assim, retrata o
perfil dos blogueiros na rede.
Certificou-se que os profissionais que mantêm blogs são, em sua maioria, oriundos da
Polícia Militar, totalizando a participação quantitativa em 58%, seguida da Guarda Municipal
(presentes em alguns estados brasileiros) com 15,1% e da Polícia Civil, 13,7%. Identificou-se
que os blogs sobre segurança, criminalidade e defesa social são representativos de várias
instituições e do interesse recíproco pelos blogs da SP, independente do tamanho e
abrangência. A maior representatividade dos militares reflete, no entanto, não somente o
maior interesse dos policiais pela rede, mas também o quantitativo de efetivos superior às
demais instituições de SP.
Outra informação importante levantada pela investigação de 2006 a 2009 refere-se às
camadas e postos que os blogueiros representam: 58% dos administradores do suporte provêm
de níveis de carreira baixos das instituições policiais. Oficiais e delegados juntos representam
42%. O cenário de envolvimento das classes institucionais mais operacionais não reflete o
nível intelectual dos autores dos blogs, sendo que 62% destes entrevistados têm curso superior
completo e níveis de especialização. Somente 12,7% cursaram apenas o ensino médio. Os
participantes da pesquisa com até 29 anos são aproximadamente um terço da amostra, mas os
que têm 30 anos ou mais representam 72,5%. Em relação ao gênero, a pesquisa retratou que a
predominância masculina na área de segurança foi acentuada: apenas três mulheres estão
entre os 73 entrevistados.
Quanto aos objetivos dos blogs, quando questionados sobre as motivações que os
levaram a criar os suportes, os entrevistados consideraram prioritário expressar os próprios
pontos de vista sobre segurança e justiça. Outro ponto aparente no estudo foi a pretensão de se
falar para a própria categoria e divulgar assuntos de interesse de grupo ligados a instituições.
Segundo o estudo, os blogs são também utilizados como ambiente para realizar críticas sobre
o ambiente organizacional.
64
A seguir, apresenta-se de forma ilustrativa as categorias de análise que traçam o perfil
do blogueiro na pesquisa da Unesco, utilizadas como referência essencial nesta dissertação.
FIGURA 3: Quadro investigativo da Unesco
Fonte: CESec Unesco/2009
A visitação a essa temática, sob os vários pontos de vista possíveis, auxilia na
construção de um cenário da rede midiática da SP brasileira, como forma de conhecimento
das várias faces comunicacionais. A seguir, consolidam-se pontos importantes da investigação
da Unesco que ampliam a visão sobre os autores dos blogs, ao clarear como é vista
institucionalmente a autoria desses conteúdos digitais. É relevante também a mensuração do
público leitor do blog, a repercussão entre colegas e companheiros e, principalmente, a
expectativa em relação à influência do blog nas políticas de SP e com a repercussão na mídia
de forma geral.
65
FIGURA 4: Investigação da Unesco referente ao perfil do blogueiro
Fonte: CESec Unesco/2009
De forma sintetizada e na média analisada, a pesquisa da Unesco retratou o perfil do
blogueiro como na maioria militares oficiais, com curso superior, de 30 a 40 anos, do sexo
masculino, com dedicação de mais de 10h semanais ao blog, sem objetivo financeiro e sem
geração de receita com o blog. Em relação aos objetivos com o suporte, a maioria dos
blogueiros cita buscar: informar, divulgar, atualizar e expressar pontos de vistas.
Para os blogueiros, a atividade significa um meio de expressão política. Relativo à
divulgação do blog, a maioria das opiniões demonstraram que os blogs se conhecem e
reconhecem pela troca de links entre parceiros e de modo offline, por meio do boca a boca e
das relações presenciais. Referente à repercussão a opinião é dividida, isto é, entre oficiais
superiores a avaliação dos blogs é negativa, entre colegas é positiva. Para os blogueiros, os
blogs possuem influência nas decisões e políticas de segurança e possui como principais
leitores e participantes do suporte, colegas das instituições e de outras forças, outros
blogueiros, superiores, autoridades, jornalistas e interessados no tema em geral.
A pesquisa divulgada pela Unesco em 2009 apresenta um cenário de estudo e uma
contribuição concreta para se trilhar o caminho na direção do cruzamento das temáticas
midiatização e SP, e ainda, configura-se como um ponto de partida para o conhecimento a
respeito de um ambiente público deliberativo segmentado. O estudo contribuiu também na
medida em que coloca em evidência a evolução e existência de um fenômeno social e não
mais um evento isolado, além de aprimorar a visão de que novos elos foram e estão sendo
construídos, novas redes foram e estão sendo formadas e que contatos já existentes são
fortalecidos, ampliados.
A pesquisa da Unesco recorreu ao levantamento de informações sobre o crescimento
da blogosfera mantidos pelos blogs temáticos. O estudo considerou levantamentos feitos pelos
66
próprios blogs deste segmento, que mantêm cadastros sobre os suportes ligados a SP,
identificando um universo de 80 blogs, sendo 65 blogs em âmbito nacional. A pesquisa
utilizou como amostragem o período de análise do ano de 2006 até 2009 e utilizou como
referência a atualização de dados dos blogs Abordagem Policial e Blogosfera Policial. Para
composição dos dados, a pesquisa recorreu também ao blog Stive. O mapeamento do cenário
da criação dos blogs desse universo foi acompanhada pela CESeC, conforme ilustrado à
seguir:
FIGURA 5: Evolução de 2006 a 2009 dos blogs na blogosfera da SP
Fonte: CESec Unesco/2009
O crescimento por estados anualmente foi apresentado pelo estudo, conforme ilustrado
a seguir pela figura n° 6, que representou o crescimento relativo ao ano de 2006 a 2009. Tais
informações são importantes nesta análise na medida em que representam o uso da mídia
digital por este segmento, como superfícies de contato coletivo, como suporte de
interagendamento e como dispositivo de circulação simbólica.
FIGURA 6: Mapeamento na blogosfera por estados de 2006 a 2009
Fonte: CESec Unesco/2009
67
Em diálogo com as informações apuradas pelos pesquisadores do CESeC,
considerando que já se passaram três anos da pesquisa divulgada pela Unesco e de forma a
complementar a investigação desta dissertação de mestrado, percebeu-se a necessidade de se
atualizar o crescimento da blogosfera da SP para monitoramento do fenômeno.
Em um esforço de observação e acompanhamento, utilizou-se da mesma metodologia
de pesquisa do estudo da CESeC, tendo como referência a investigação de dados dos blogs
Abordagem Policial e Blogosfera Policial e do mapeamento do avanço dessa rede nos estados
brasileiros. Conforme levantamento feito por esta dissertação em 10 de dezembro de 2012, em
um cruzamento de dados e informações, os dados apresentam um crescimento considerável:
as fontes de dados apresentaram o cadastro atual de 188 e 179 blogs relacionados à temática,
respectivamente. Recorreu-se também ao mapeamento oferecido pelo blog Stive, referência
na rede, que apontou 135 blogs ativos na blogosfera da SP. Tal monitoramento incidiu sobre a
contagem, a distribuição geográfica dos blogs e o detalhamento de conteúdo por instituição,
como se vê na figura a seguir.
FIGURA 7: Mapeamento on-line na blogosfera de 2009 a 2012
Fonte: blogs Abordagem Policial, Blogosfera Policial e Stive
Tendo como referência a atualização do ano de 2009 até 10 de dezembro de 2012, do
número de 188 blogs considerados como referenciais no blog Abordagem Policial, 39 são do
Rio de Janeiro, 36 de Minas Gerais, 11 de São Paulo, 10 de Goiás, nove da Bahia, oito do Rio
Grande do Norte, sete do Distrito Federal, cinco do Ceará, quatro do Rio Grande do Sul, três
de Santa Catarina, três do Amazonas, três de Pernambuco, três do Pará, dois de Alagoas, dois
de Sergipe, um de Amapá, um do Espírito Santo, um do Acre, um do Paraná e um de
Rondônia.
Vinte e sete desses blogs não são regionalizados e abordam questões de maneira ampla
e nacional e, ainda, dois blogs referenciados por meio da fonte são internacionais. Todos os
68
links no ciberespaço foram checados para testar a efetividade da referência de 188 blogs
temáticos ativos.
Com mais detalhes, identifica-se que Minas Gerais possuía em 2009 10 blogs e em
2012 expande a rede para 36. O Rio de Janeiro cresceu de 22 para 39 blogs nos mesmos anos
de referência, enquanto São Paulo manteve a amplitude, até a data da atualização.
Minas Gerais configura-se como o estado onde houve maior crescimento em números
de blogs, totalizando um exponencial aumento de 260%. O nosso referencial empírico é
Minas Gerais e a escolha do blog utilizado nesta pesquisa como estudo de caso reúne
características que norteiam a investigação: a região, o caráter subjetivo do blog, o contexto
de efervescência do uso do suporte desencadeado pelas ações conjuntas, mobilizações em
torno dos movimentos sociais, potenciais greves e a aproximação movimentos sociais,
associações, outras formas alternativas de mídia, pela convergência de mídias, pelo tipo de
conteúdo disseminado e principalmente, pela discussão que o meio alcança entre atores do
segmento.
A seguir, consolida-se por estados da federação, o número de blogs integrantes da
blogosfera da SP, atualizados e constatados como ativos por esta dissertação:
TABELA 1: Levantamento atualizado do crescimento da blogosfera da SP por estados
Rio de Janeiro
Minas Gerais
São Paulo
Goiás
Bahia
Rio Grande do Norte
Distrito Federal
Ceará
Rio Grande do Sul
Santa Catarina
Amazonas
Pernambuco
Pará
Alagoas
Sergipe
Amapá
Espírito Santo
Acre
Paraná
Rondônia
Questões de maneira ampla e nacional (não são
regionalizados, 2 blogs referenciados por meio desta
fonte são internacionais)
39
36
11
10
9
8
7
5
4
3
3
3
3
2
2
1
1
1
1
1
27
Fonte: Sintetizada pela autora da dissertação em 10 de dezembro de 2012
69
A linha de evolução temporal por crescimento dos blogs integrantes da blogosfera da
SP pode ser observada pelo gráfico a seguir, que representa o crescimento acumulado do ano
de 2006 a 2012. Utilizou-se a mesma linha de raciocínio que a pesquisa da CESeC, a fim de
que fosse possível dar continuidade à linha de evolução temporal da blogosfera temática. A
seguir, por meio da figura n° 8, apresenta-se a comparação com a pesquisa referenciada do
ano de 2006 até 2009 e os novos dados, colhidos por esta pesquisa de mestrado.
FIGURA 8: Crescimento acumulado dos blogs da blogosfera de 2006 a 2012
Fonte: CESeC Unesco/2009, blogs Abordagem Policial, Blogosfera Policial, Stive, sintetizada pela autora
da dissertação.
Tratando os dados dos blogs citados como referência desse mapeamento, identificouse por meio do blog Abordagem Policial que também houve aumento do número de estados
com blogs integrantes à blogosfera. No ano de 2009 o número era de 17 estados enquanto em
2012, há a presença do suporte midiático em 20 estados brasileiros. Tais informações refletem
a demanda e o uso dessas redes locais e globais, do crescimento expoente, da amplitude,
abrangência nos estados e até fora dele.
A partir da investigação promovida pela Unesco em 2009 e por meio da comparação
dos outros dados de dezembro de 2012 levantados por esta dissertação, identifica-se que a
blogosfera da SP se apresenta como um universo quantitativo em expansão.
A abordagem continuada desse fenômeno contribui para a evolução dos estudos da
cena midiática da SP. A blogosfera permite que as conexões, a conversação e a circulação
aconteçam independentemente de espaço físico ou tempo comum. Com isso, permite que
interações sociais ganhem maior amplitude e visibilidade, interligando atores e locais
diversos. Vale frisar, neste momento, que é um cenário mutável e ágil, já que muitos blogs são
criados regularmente e alguns, por vezes, tornam-se inoperantes.
Da mesma maneira a efervescência da interação nessas redes, a circulação de
conteúdos e a conversação entre atores de forma direta, difusa e diferida, evidenciam um
70
crescente processo de midiatização do segmento da blogosfera da SP em âmbito nacional.
Sequencialmente, a fim de se conhecer a fundo e investigar as práticas interacionais desse
ambiente midiático será caracterizado a seguir o “blog da Renata”. O suporte selecionado
servirá como ambiente de observação do processo comunicacional midiático para posterior
análise.
2.2 Estudo de caso: o monitoramento de mídia do blog da Renata
O blog da Renata se constitui como objeto para estudo de caso e busca-se apresentá-lo
e caracterizá-lo em termos de recursos interativos, estruturais e dinâmicas. O suporte retrata
um ambiente digital de interação social e de interfaces individuais e coletivas. Utilizou-se de
método de observação condensado em formulário de entrevista (contido no anexo n° 1).
Recorreu-se a diálogos no ambiente da blogosfera da SP, comentários entre blogueiros,
entrevistas com administradores, moderadores e personagens do blog. Observou-se a
dinâmica de publicação, as vozes implícitas e explícitas, o tipo de conteúdo e discurso
propagado.
O blog da Renata foi criado em 14 de maio de 2007 pela blogueira Renata Pimenta, de
38 anos. A criadora do blog não é agente de SP e nem ligada a nenhuma instituição do
Sistema de Defesa Social SP, localizado em Ribeirão das Neves, município de Minas Gerais.
O blog apresenta uma “pimenta” como logomarca que vincula o blog ao sobrenome da
administradora e insinua a característica do suporte como ferramenta de incitação, de
questionamentos e de contraposições à política relacionada aos assuntos de SP e suas
instituições integrantes. O símbolo da “malagueta vermelha” divulgado no blog reforça a
mensagem cujo sentido remete a um contexto provocador, desafiador, de conteúdos e
discussões apimentados. “A Renata criou uma marca que é a “cara dela" que é o nome mais a
pimenta em todas as imagens que ela posta de notícias” (...) (BLOG DA RENATA, 2012).
Como retratação dessa marca, ilustra-se a seguir duas principais representações gráficas do
blog.
71
FIGURA 9: Identidade visual do blog da Renata
Fonte: blog da Renata
Segundo a criadora do blog, ela não é agente da corporação, mas é atuante nos
assuntos relacionados à SP. A blogueira afirma que influenciada por um outro blog integrante
da blogosfera policial, Diário de um PM, iniciou as primeiras postagens quando trabalhava na
Associação das Praças Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais – ASPRA. Em
relação à repercussão, a administradora do blog comenta a seguir o reconhecimento do blog
junto à categoria policial em âmbito nacional.
Tive noção do sucesso do blog em Brasília, nas manifestações da PEC 300, nas
manifestações de reajuste salarial em MG e em qualquer lugar que eu passe que
tenha policiais e bombeiros sempre me reconhecem e me tratam com o maior
carinho, sinceramente eu fico muito feliz, com as manifestações. (BLOG PAPO DE
PM, 2011).
Em relação ao conteúdo, os objetivos do site e da afinidade com a temática da
Segurança Pública, Pimenta externa os motivos de ter criado o blog e detalha sua atuação no
suporte.
Decidi criar um blog sobre Segurança Pública porque trabalhei na ASPRA por 10
anos e lá eu vivi de perto a luta da entidade pelo direito dos militares, agradeço
muito ao Sub Gonzaga e ao Sgt Barbosa por terem passado para mim a vontade de
aprender e gostar de política e de Segurança Pública. (BLOG PAPO DE PM, 2011).
Se você for criar um blog tenha certeza que ele vai te dar o maior trabalho, exigir
horas de dedicação, dinheiro para pagar contas de telefone, pois muitas vezes antes
de publicar alguma matéria entro em contato com o denunciado para saber a versão
dele, claro sem citar a fonte. (BLOG PAPO DE PM, 2011).
A criadora do blog opina e estimula temas polêmicos, além de inflamar criticas as
ações político-estatais, como o exemplo que se vê a seguir.
Sou totalmente contra também ao programa do governo estadual que disponibiliza
um cartão no valor de 900 reais para custear tratamento de dependentes, acho q eu se
o governo abrir clínicas é muito melhor que colocar o dinheiro nas mãos dos
familiares, infelizmente acho que serão desviados os recursos. (BLOG PAPO DE
PM, 2011).
72
São recorrentes posts destinados às classes de profissionais da SP que instigam os
descontentamentos do segmento. Os conteúdos são objetos de conversação entre blogs
integrantes da blogosfera da SP, como enfatiza Pimenta: "Nós somos os indesejáveis,
chefiados pelos incompetentes, fazendo o indispensável para os ingratos". (BLOG PAPO DE
PM, 2011).
A fonte de consulta e remissões internas de conteúdos do blog da Renata origina-se
dos meios oficiais das instituições da SP, da mídia comercial, de agentes do segmento e
grupos relacionados. Há diversos links hipertextuais dos principais atores presentes nos
conteúdos propagados pelo blog, sendo eles predominantemente: as mídias comerciais on-line
e os sites da Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais (SEDS), Polícia Militar
de Minas Gerais (PMMG), Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) e Corpo de Bombeiros
Militar de Minas Gerais (CBMMG).
Há ainda a replicação de conteúdos de outros blogs integrantes da blogosfera da SP e a
crescente adesão de batalhões, companhias e delegacias. Os conteúdos são gerados também
por meio de telefone e por contatos interpessoais. “Tenho vários colaboradores que me ligam
e mandam notícias quentinhas, para que nada passe batido” (BLOG DA RENATA, 2012).
São recorrentes no blog manifestações de entidades de classe, movimentos sociais,
associações, sindicatos das classes dos profissionais de SP e Defesa Social.
O vínculo político não é explícito no blog, sendo necessário um maior esforço de
acompanhamento, monitoramento e exploração dos conteúdos para identificá-los.
Nas postagens, Pimenta demonstra a ligação com associações de classe e movimentos
sociais, a exemplo da ligação funcional anterior com a Associação das Praças Policiais e
Bombeiros Militares de Minas Gerais (ASPRA) até a saída em janeiro de 2011, e, atualmente,
com a Central Única dos Militares (CUME). A seguir, a blogueira evidencia a relação com os
movimentos e questiona sobre as entidades de classe representativas dos militares:
(...) em MG temos 28 entidades em todo o Estado, quantas são atuantes? quantas
defendem os direitos dos militares? quantas estão realmente interessadas em serem
entidades de classe realmente? vejo que a maioria usam as entidades como palanque
eleitoral ou para obter vantagem pessoal, isso é ruim pois quanto mais entidades
mais fracas ficam as classes e podem reparar que dessas 28 poucas tem expressão no
cenário e sequer participam de questões voltadas a classe. São verdadeiras "moitas",
quanto aos sites e jornais enviados mais parecem catálogos de vendas, somente
oferecem descontos aos associados. Acho que deveriam contratar militares da
reserva em condições de debater para irem aos batalhões, hoje vejo que estão
interessadas apenas em associar, arrecadar e muitos de seus funcionários não sabem
se quer falar do que está acontecendo no cenário político de interesse da classe, mal
sabem falar dos benefícios de serem associados. Acho que militar que muito mais
que isso. (BLOG PAPO DE PM, 2012).
73
Pimenta expõe a vinculação eleitoral no suporte midiático. A blogueira contrapõe as
críticas sobre a pretensão de utilizar a mídia com objetivo eleitoral. No entanto, não nega o
apoio a candidatos de forma pública na rede.
Pimenta nega a possível posição partidária e intenção política apesar da popularidade
do blog junto à classe. A blogueira testemunha a respeito da possível vinculação política no
trecho identificado no blog Papo de PM a seguir:
Não penso em ser candidata a nenhum cargo político, sou blogueira e acho que é por
isso que estou aqui, a classe deve ser representada por militares, existem uns bons
por ai e eu sou a favor que PM vote em PM, tenho até um blog sobre isso. (BLOG
PAPO DE PM, 2011).
A atuação política de Pimenta é revelada nos conteúdos midiáticos do suporte, por
meio dos vínculos entre outros blogs ligados a outros movimentos sociais no período de
eleições e, também, em contextos reivindicatórios da classe. Identificou-se o uso eleitoral do
Facebook da Renata Pimenta, conforme se exibe na figura n° 11.
FIGURA 10: Postagem com figuras políticas no blog da Renata e no Facebook
Fonte: blog da Renata
Nas eleições municipais de 2012, das figuras políticas apoiadas pelo blog, dois foram
eleitos: um representante da classe foi o vereador mais votado em Belo Horizonte e o outro
com votação expressiva na capital.
Vamos lutar sempre, não vamos desistir, no pleito eleitoral de 2012 vamos votar e
fortalecer a classe de Segurança Pública, se está chateado com algum parlamentar
procure-o, esclareça as dúvidas, veja o que ele está fazendo por nossa classe e se ele
não te convencer tenho certeza que outros virão, e lembrem-se "Juntos somos muito
mais fortes... (BLOG PAPO DE PM, 2011).
74
Em relação ao vínculo financeiro, o blog da Renata recebe patrocínio e é mantido com
ajuda financeira de empresas que fornecem empréstimos com descontos em folha de
pagamento à classe de agentes da SP.
O alvo comercial da empresa patrocinadora é o empréstimo financeiro com desconto
em folha a militares e agentes de SP. A divulgação é constante e se dá por meio do blog, como
se apresenta a seguir: “Tenho uma parceria a Tânia da Sintax Empréstimos, me paga um valor
mensal para bancar as despesas do blog, pois no momento estou desempregada e estou a
procura de outros parceiros (...) (BLOG DA RENATA, 2011). A contínua discussão entre
participantes sobre a insatisfação da classe alimenta e mantêm ativos as parcerias do suporte,
bem como a adesão a sindicatos, mantidos por descontos em folhas pelas afiliações da classe.
Referente à estrutura do suporte, o blog apresenta recursos de informação como links a
outros blogs integrantes da blogosfera da SP, links para sites de associações, acesso à
legislação, documentos, arquivo de postagens e comentários, ferramentas de participação em
redes sociais e ainda, conversação on-line.
Além da URL na Internet mantida na plataforma Blogger, a criadora do blog mantém
um perfil no Facebook, com o número máximo atingido de 5.000 amigos e outros 6.476
assinantes; no Twitter são 443 seguidores, 9589 tweets, além do MSN e outras redes sociais
como o Orkut. A adesão a estas ferramentas é crescente e o acompanhamento cresce
diariamente. Em última atualização, em pesquisa realizada no dia 5 de fevereiro de 2013, já
existe criado um novo perfil, intitulado perfil 2, devido aos constantes pedidos de aceitação de
amizades no Facebook. As veiculações postadas no blog da Renata são replicadas nas demais
plataformas (com maior ênfase no Facebook) e acompanhadas por seus seguidores.
A possibilidade de se conectar pelo suporte a outras plataformas de comunicação, liga
diversos grupos e comunidades, integrando-as à blogosfera da SP. Observa-se que, quando o
participante se interconecta ao blog por meio de redes sociais, especialmente pelo Facebook,
o perfil do sujeito não se apresenta anônimo e oculto. Por meio desta extensão da rede, a
característica do usuário, a cultura, os interesses, particularidades, redes de amigos,
comentários, postagens, históricos, preferências, acontecimentos, fluxos e vestígios estão
visíveis. Assim, além dos comentários via blog, é possível observar as manifestações dos
participantes nas diversas ferramentas sociais.
A adesão pelo Facebook, inclusive sem o anonimato recorrente, pode ser visualizada
na figura a seguir, já que mostra a vinculação do sujeito na rede em interlocução com o blog
da Renata e em interconexão com outras plataformas e redes sociais. Como se verifica na
75
Figura n. 11, a participação, os comentários, as conexões, links e o perfil estão bem explícitos
na rede.
FIGURA 11: Exemplo do interagendamento com redes sociais no blog da Renata
Fonte: blog da Renata
Já os agentes na plataforma blogger nem sempre são identificados por meio dos perfis,
o que possibilita a visualização de todo o conteúdo independente da obrigatoriedade por optar
pelo login para utilizar o sistema. Para postagem de comentários no blog há a possibilidade de
escolha e opção para a identidade pretendida, podendo optar pelo anonimato. Muitos usuários
escolhem utilizar o blog para as interações nas quais não desejam ser reconhecidos pelos
demais, mantendo um nickname ou mesmo, escolhendo o perfil “anônimo”.
Esse distanciamento estimula a inserção de conteúdos mais polêmicos visualizados
recorrentemente no blog da Renata, denúncias e críticas acirradas sem possibilidades de
retaliações e represálias.
O blog conta ainda com um chat on-line que possui um alto grau de participação e
possibilita a conversação on-line entre atores da SP, conforme representação a seguir.
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FIGURA 12: Chat no blog da Renata
Fonte: blog da Renata
Na ferramenta interna do suporte há a opção em se identificar e de se manter o
anonimato. Ressalta-se, no entanto, que por meio dessa ferramenta interna ao blog, as
mensagens não ficam armazenadas e não passam por um moderador.
No que diz respeito à participação e moderação, o blog da Renata mantém a
participação dos agentes de SP por meio do chat on-line e, principalmente, dos comentários.
Depois de publicado, um comentário ou mesmo um post permanece no suporte, permitindo ao
participante a identificação, acompanhamento e percepção das trocas sociais mesmo distantes
no tempo e no espaço de onde foram realizadas.
O registro dessas publicações fica armazenado no histórico do site por data regressiva.
A exclusão dessas participações só é possível se o administrador do blog deletar. Identificouse ao recorrer às mensagens e postagens antigas, que é comum a inexistência de comentários,
de texto, imagens e vídeos em retrospectiva.
Em pesquisa mais densa e em profundidade, averiguou-se que toda publicação,
postagem e análise de comentário faz parte de uma rotina das duas figuras representativas do
site: a administradora sem vínculo com as instituições de SP e o moderador. A identidade do
moderador não é explícita e somente torna-se perceptível ao se interagir com o blog, na
dinâmica de postagens de comentários como participante do suporte.
Vale ressaltar a área de interação e inclusão de comentários no blog, onde o moderador
explicita o ambiente como fonte intencional para se divulgar denúncias, sugestões,
reclamações e ocorrências. Na mesma interface de contato do blog com os participantes do
suporte, há explícita indicação de que o conteúdo é “analisado” e “filtrado” pelo moderador.
No site, percebe-se a dinâmica de inclusão ou reprovação de comentários. Foi detectado que
as postagens do blog passam invariavelmente pelo moderador que classifica as informações a
serem divulgadas no suporte. Para postagem de qualquer comentário, o usuário recebe
expressamente o aviso de aprovação prévia até que ocorra a publicação da postagem. As
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afirmativas acima são demonstradas por meio de testes no exercício de entendimento desta
dinâmica do blog em relação aos comentários dos participantes. A seguir, a figura n° 13
representa a dinâmica de comentários no blog da Renata, a interface do participante para
inclusão de comentários, o filtro de moderação e o aviso do moderador da análise da
postagem. Há também a identificação da interlocução com outras plataformas e redes sociais.
FIGURA 13: Exemplo da dinâmica de comentários no blog da Renata
Fonte: blog da Renata
Na entrevista realizada com Renata Pimenta (conforme anexo n.1), foi possível
identificar que o blog é acompanhado pela blogueira e mais três pessoas. Conforme relato da
administradora do blog, um policial militar é responsável pela liberação dos comentários, com
uma média de 200 a 300, diariamente. As outras duas pessoas, também policiais militares, são
responsáveis pelas publicações de conteúdo do blog da Renata. A identidade desses três
policiais militares é preservada no suporte. Pimenta é a única que diz atuar no blog sem
ligação com instituições de SP e se descreve em entrevista como “a paisana”.
Conforme relato identificado em interagendamento com outro blog integrante da
blogosfera da SP (Papo de PM), Pimenta revela a dinâmica de atualização do blog e a
presença dos militares, conforme exposto a seguir:
[...] acordo cedo para atualizar o blog e muitas vezes quando acesso já está recheado
de notícias graças ao Sgt Wellington, ele é muito antenado e competente. Atualizo
Blog, respondo e-mails e saio da internet lá pelas 10h e só retorno 14h, tenho várias
atividades durante o dia, mas onde vou levo meu notebook e meu modem para
acessá-lo. (BLOG PAPO DE PM, 2012).
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O militar que atua como moderador explicita o entendimento das redes temáticas
formadas, das dinâmicas de publicação do blog, do conteúdo e dos atores envolvidos, além de
enfatizar a preocupação com o fortalecimento do site na blogosfera da SP.
Com o afastamento temporário da Renata devido a problemas familiares, tomei a
liberdade de verificar quase todos os blogs que seguimos, pelo menos os mais
atualizados, pois muitos foram abandonados, achei algumas postagens em que ela
faz questão de citar nos blogs que vão surgindo e também citar fontes de matérias,
dando preferências para os Blogs, mesmo a origem da postagem ser de mídias de
grande divulgação, mas a recíproca não está acontecendo na maioria dos blogs,
pode-se contar nos dedos quantos blogs são independentes e criam suas próprias
matérias, a maioria esmagadora cito também esse é CTRLC E CTRLV, deveríamos
fortalecer a blogosfera policial citando que a matéria foi encontrada em tal blog e em
tal site, mas por mesquinharia e vaidade a maioria dos blogueiros prefere citar os
jornais de grande circulação, deixando assim a blogosfera enfraquecida. (BLOG DA
RENATA, 2012).
Em relação ainda à dinâmica de divulgação de conteúdos, verificou-se que para
publicação no suporte, recorre-se aos links jornalísticos comerciais on-line em quase sua
totalidade, e-mails recebidos de assessorias de comunicação nas unidades territoriais das
instituições, pesquisas nos sites institucionais e na blogosfera da SP. Identificou-se que esta
rotina de divulgação e publicação dos conteúdos é também realizada por militares.
Esse blog é um dos primeiros a ser atualizado logo pela manhã e por solicitação da
Renata, faço um apanhado de notícias de outros blogs através das atualizações e
fazemos questão de citar e não copiar a matéria toda deixando sempre um link para
continuar lendo no blog que achamos a notícia, como fontes esse ou aquele blog,
depois vamos para os jornais, revistas, resenhas de notícias, e-mails que recebemos
com ocorrências através das assessorias de comunicações das unidades PM/BM e
também pesquisamos em sites institucionais PM/BM/PC/EB/PF e nos sites das
entidades de classe e parlamentares, não só de MG , mas de todo Brasil. Depois que
atualizamos na parte da manhã não voltamos mais nas atualizações de outros blogs,
pois recebemos resenhas de notícias e Clipping de vários jornais e blogs do país, se
alguma matéria for publicada em seu blog e for reproduzida aqui saiba que não a
conseguimos através de atualizações. (BLOG DA RENATA, 2012).
Verificou-se o nome dos policiais assinando as postagens, que registra e informa
alguns conteúdos postados. Em investigação, identificou-se que por curto período a página
inicial do blog constou o nome de dois policiais militares, sendo um soldado e um sargento.
Os dois militares foram divulgados como colaboradores do blog, entretanto, somente a
presença do sargento foi constatada nas publicações. Apesar dos nomes terem figurado
temporariamente na página principal, a participação dessas duas vozes é discreta, opaca e
ocultada na maioria das publicações. Permanece assim, a assinatura da Renata na maioria das
postagens.
79
Identificou-se que a presença do soldado não foi explícita e expressiva no blog. A
identidade do terceiro militar vinculado às publicações do blog da Renata não foi constatada
na interação do suporte. Verificou-se também que na maioria das vezes, a autoria do post é
citada somente como colaborador, sem nominações.
FIGURA 14: Colaborador e moderador do blog da Renata
Fonte: blog da Renata
O suporte proporciona relevantes dinâmicas interacionais internas e externas
complexas. Entretanto, é importante enfatizar que o blog da Renata apresenta um aspecto
híbrido, misturado e de diferentes presenças. Este cenário exige um olhar em profundidade da
impressão imediata e pode evitar conclusões precoces. Algumas peculiaridades necessitam de
um olhar para além da superfície, de forma a desvelar traços implícitos e ocultos.
Identificaram-se particularidades no blog da Renata que emergiram e ressaltaram-se na
investigação do suporte, como se verá adiante.
O blog da Renata reflete um contexto de produções midiáticas da SP no ambiente
virtual e “sugere” produzir e veicular mensagens descomprometidas e desvinculadas política e
ideologicamente da estrutura governamental e da mídia comercial.
O blog oferece conteúdo informativo relacionado à SP, de contexto local e global,
explora conteúdos informacionais e responde midiaticamente a grupos de interesse
aglutinados em torno de temáticas relacionadas ao segmento. Por meio dos conteúdos
alternativos do blog, demonstra a tentativa de aferir um cunho mais realístico, mais próximo
da realidade e rotina operacional das instituições e os agentes em contraposição à informação
formal oriunda dos órgãos de SP, planejada institucionalmente. O suporte busca ainda
fomentar uma versão paralela ao posicionamento da mídia convencional.
O suporte midiático em análise “promete” dar voz e visibilidade às instituições e os
atores integrantes, como também responder socialmente às questões relacionadas ao
segmento, às representações midiáticas das instituições, à função, aos estigmas, estereótipos,
conflitos e à realidade de fatias representativas e grupos da SP.
80
Por meio de uma comunicação de caráter mais informal, o blog “tenta” expor sua
visão própria sobre as profissões e instituições relacionadas à SP, às funções e papéis sociais.
O suporte interacional em questão busca colocar em discussão conteúdos midiáticos que
abordam as reivindicações de uma classe profissional, a rotina operacional dos agentes
públicos, os estigmas, estereótipos, conflitos e fatos noticiosos que remetam à vivência, à
experiência e à realidade de fatias representativas de grupos da SP.
Desta maneira, a divulgação dos “bastidores” da SP é evidenciada e explorada pela
administração do blog como um diferencial, uma vez que “promete” uma esfera informativa
mais próxima do real, com traços que sugerem a valoração da informação no que não é dito,
do que é ocultado, não preparado, traçado, planejado institucionalmente.
O blog da Renata possui uma peculiaridade que instiga a análise do ponto de vista da
comunicação: a administração frisa e anuncia uma informação “travestida” de denúncia,
espelhando-se em uma espécie de notícia de bastidores e, assim, tenta produzir notas que
insinuam um cenário opaco e escondido. O blog age na intencionalidade de “construir” e
“vender” uma realidade dita “nua e crua”.
Toda dinâmica midiática construída é embasada com foco no discurso do
descontentamento e da insatisfação. É importante dizer que algumas nuances identificadas
não são perceptíveis à primeira vista, como é o caso da presença dos moderadores e do
vínculo político do blog, sendo somente possíveis de identificação na análise interacional dos
processos comunicacionais dentro do blog, nas tramas, isto é, no entranhamento analítico dos
fluxos midiáticos e no monitoramento da mídia.
2.3 Contextualização da mobilização reivindicatória da SP de 2011
A mobilização reivindicatória da Segurança Pública em Minas Gerais, em 2011,
apresentou-se como um movimento inicial da Polícia Civil de Minas Gerais em busca de
melhorias para o segmento, iniciada por meio de uma postura reivindicatória da classe por
avanços estruturais nas condições de trabalho e por reajustes de salário das classes de
delegado, investigador e perito.
Posteriormente, a mobilização reivindicatória desencadeou a adesão de outros órgãos
do Sistema de Defesa Social de Minas Gerais, entre eles a Polícia Militar de Minas Gerais e o
Corpo de Bombeiros Militar, representando igualmente a tentativa de oposição aos baixos
salários e à falta de estrutura de unidades, batalhões e companhias. O movimento salarial
fomentou também a adesão dos agentes penitenciários do Sistema de Defesa Social, das
81
unidades penitenciárias e revelou a insatisfação dos órgãos de SP estaduais, bem como de
outras esferas, como a municipal e também federal que posteriormente iniciou movimentos
próprios.
O processo comunicacional revelou uma sequência de acontecimentos no suporte
midiático que se iniciou com a divulgação de conteúdos relacionados a insatisfações do
segmento e descontentamentos da classe. Essa divulgação desencadeou, por sua vez, uma
dinâmica crescente de manifestação no blog da Renata via postagens, comentários, denúncias,
críticas e em outros meios comerciais, como jornais online, impressos, televisivos.
Identificou-se o interagendamento midiático do blog da Renata a partir de notícias na
mídia comercial de forma regular, com predominância de trocas entre ferramentas on-line do
ambiente virtual. Observou-se também a dinâmica de conversação com entre os
representantes das entidades da categoria e instâncias governamentais. Percebeu-se ainda
crescente interagendamento entre os blogs integrantes da blogosfera da SP, articulando e
constituindo uma rede de discussão no contexto digital. Identificou-se, por fim, que este
processo comunicacional foi atravessado por momentos de estabilização, desestabilização,
cooperação, conflito, mobilização, integração e desintegração de interesses e ações comuns.
No período pré-mobilização, no final do mês de abril, já existia na rede de forma
esparsa, nuances de incitação à greve dos agentes de SP. Já no período da mobilização
reivindicatória, tornaram-se recorrentes as postagens de mobilização de greve, inicialmente
por parte de integrantes da PCMG e depois por parte dos agentes da PMMG. Nesse período, o
uso do suporte e do ambiente digital com fins político-ideológicos se torna mais claro por
meio da presença visível de lideranças de movimentos sociais e sindicatos. Há na rede uma
grande efervescência de opiniões e participação dos agentes de SP, mantendo, ainda, em quase
sua totalidade, o caráter de anonimato, particularmente no blog da Renata.
É importante destacar que a mobilização deflagrada revela as interações presenciais de
adesão e mobilização e redes copresenciais fortalecidas que condicionam o uso do suporte e,
sobretudo, sustentam o blog. O suporte midiático a partir desse momento passa a ter papel
subsidiário às ações de movimentos sociais. O blog atua como principal meio de divulgação
da greve. O suporte age de forma direta nos informativos dirigidos à classe, buscando adesão
ao movimento, bem como o compartilhamento dos agentes no processo de negociações, até o
desfecho e desmobilização.
No período pós-mobilização o blog discute o processo da mobilização reivindicatória,
avaliando o processo. Nota-se uma avaliação das articulações, dos movimentos e críticas à
atuação conjunta. Percebe-se que a temática prevalece no ambiente mesmo com o
82
encerramento da greve, com menor força. O blog passa, então, a alternar os conteúdos
rotineiros nas regularidades interacionais identificadas.
Anteriormente a esta mobilização dos órgãos da SP de Minas Gerais, ocorreram dois
grandes marcos reivindicatórios: a greve de 1997 e a mobilização salarial de 2004 da Polícia
Militar de Minas Gerais. Sem garantia constitucional para os servidores da SP estadual, os
dois movimentos foram fatos de grande repercussão e tensionamento entre os níveis
governamentais, institucionais e operacionais.
Com maior impacto, adesão e teor de insatisfação, a mobilização reivindicatória do
ano de 1997 desencadeou fatos trágicos, tanto para a corporação quanto para os níveis
estratégicos de gestão. Nesse movimento, um cabo da Polícia Militar de Minas Gerais foi
morto em uma manifestação no Palácio do Governo, deixando um cenário desastroso de
mobilização, negociações e de revolta, amplamente divulgado na ocasião pela mídia impressa
e televisiva.
Os dois acontecimentos, a greve de 1997 e o movimento salarial de 2004, são
utilizados como referência e resgate histórico do poder de mobilização da classe e como pano
de fundo de coesão do segmento, além de comporem os registros históricos da mídia impressa
e televisiva como forma de entender e contrapor cenários e contextos nesta investigação.
Nesse sentido, o paralelo entre esses três movimentos é fundamental para se compreender
como a dinâmica interacional da mobilização de 2011 foi propulsora de respostas sociais,
sobretudo em decorrência do contexto atual de convergências de técnico-mídiáticas.
Após o período de adesão e mobilização dos órgãos de SP de Minas Gerais no ano de
2011, que durou em torno de três meses, o governador de Minas Gerais, por meio das
negociações entre instituições e Secretaria de Estado de Defesa Social, anunciou um aumento
gradual para área de SP (PMMG, CBMMG, PCMG e Agentes Penitenciários) de 10% para o
mês de outubro de 2011; 12% em outubro de 2012; 12% em outubro de 2013; 10% em junho
de 2014; 15% em dezembro de 2014 e 12% em abril de 2015, totalizando 100,73% de
aumento acumulados no período, tendo em vista serem os aumentos concedidos
cumulativamente.
83
3 A ANÁLISE DO PROCESSO COMUNICACIONAL NO CONTEXTO DA
MOBILIZAÇÃO REIVINDICATÓRIA DOS AGENTES DA SEGURANÇA PÚBLICA
(SP) MINEIRA EM 2011
A partir do monitoramento dos processos comunicacionais engendrados pelo blog da
Renata e fora dele, durante toda a atuação no período de mobilização reivindicatória dos
agentes da Segurança Pública de Minas Gerais, em 2011, foi constituído o corpus qualitativo
da pesquisa, o qual será analisado a partir de duas categorias separadas metodologicamente,
porém, interligadas e integradas ao sistema interacional midiatizado, quais sejam: a dinâmica
interacional e o sistema de resposta social.
A primeira categoria analítica compreende as relações micro no blog da Renata, ou
seja, os elementos dinâmicos observados internamente na interação entre os atores sociais e
usuários do blog, vistos por meio da análise das remissões de conteúdo, tais como: as
características dessa rede, as representações midiáticas dos atores mais manifestadas no blog,
os usos e regularidades desta interação.
Já a segunda compreende a dimensão macro do processo comunicacional, em que o
sistema de resposta social e seu modus operandi, para além do blog, merece destaque,
abrangendo os seguintes aspectos: o interagendamento de conteúdos entre o blog estudado e
outros da blogosfera da SP, entre estes e os meios de comunicação ligados aos órgãos
governamentais, às entidades representativas dos agentes públicos e às mídias comerciais.
Antes da análise do processo comunicacional propriamente dito, a partir das duas
categorias assinaladas anteriormente, faz-se necessário discorrer sobre a atuação do blog da
Renata durante o período da mobilização reivindicatória dos servidores da SP, como será
abordado no primeiro tópico deste capítulo.
3.1. Contextualização da mobilização reivindicatória dos agentes de SP em Minas
Gerais, em 2011
O período principal do monitoramento da atuação do blog da Renata compreendeu os
meses de abril a julho de 2011, intervalo em que se constatou grande efervescência da
mobilização dos agentes públicos da Segurança Pública. Tal atuação incidiu sobre as
postagens mais frequentes, de maior volume, mais polêmicas e de intensa disputa de sentidos.
Para fins metodológicos, o período de mobilização reivindicatória foi dividido em três frações
84
temporais: a “pré-mobilização reivindicatória”, a “mobilização reivindicatória” e a “pósmobilização reivindicatória”.
Nesses três momentos buscou-se analisar como se deu os fluxos de mobilização
(movimentos interacionais de remissão na instância micro e de interagendamento na instância
macro) entre os agentes públicos envolvidos no processo da greve, o aumento da adesão e da
participação da categoria, a conversação e discussão sobre os assuntos relacionados ao
movimento de mobilização desde o início ao seu desfecho, sejam interna ou externamente,
isto é, no blog, na blogosfera da SP, nos meios oficiais, comerciais ou para além deles.
Para mapear essa rede, analisar e interpretar o processo comunicacional, construiu-se
um formulário (ver anexo n. 3) que estabeleceu focos estratégicos para a investigação da
atuação do blog da Renata no contexto reivindicatório. Procurou-se observar de forma
constante no blog: “quem está falando”, “como esses atores estão falando”, “de quem estão
falando”, “de que forma”, “com que abrangência e visibilidade interna e externa ao blog”
“com quais pessoas”, “porque falam”, “em qual contexto” e “com qual objetivo”.
No período de pré-mobilização reivindicatória, ocorrido no mês de abril de 2011,
identificaram-se as primeiras manifestações no blog da Renata com o foco nas reivindicações
dos agentes de SP, especificamente da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), incitadas pela
presença de sindicatos e associações, especialmente o Sindicato dos Policiais Civis do Estado
de Minas Gerais (SINDPOL). O blog deu visibilidade a estratégias variadas de organização da
classe de militares, tendo à frente as associações sindicais vinculadas à PCMG em articulação
com a PMMG. O movimento apresentava-se ainda fragmentado, sem coesão nos órgãos, com
manifestações germinando dentro das instituições da Polícia Militar de Minas Gerais
(PMMG) e do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG). A partir da
intensificação da divulgação de conteúdos grevistas do blog, foram-se intensificando as
tentativas de associações e adesão das classes profissionais de SP estadual de maneira a
fortalecer as reivindicações comuns do segmento.
Em maio, houve tentativas de paralisações organizadas pela SINDPOL e
manifestações públicas que se mostraram, no primeiro momento, incipientes, mas presentes
no blog, em suas remissões e interagendamentos entre blogs da blogosfera da SP e mídia
comercial on-line, como mostra a figura 15.
85
FIGURA 15: Exemplo de interagendamento midiático sobre início da mobilização
Fonte: Jornal Estado de Minas - UAI on-line
Desta forma, no período de mobilização reivindicatória, os conteúdos divulgados pelo
suporte digital tornam-se cada vez mais frequentes e impactantes. Os conteúdos do blog da
Renata passam a explorar o apoio conjunto de órgãos de segurança, como estratégia para
conseguir apoio dos agentes públicos da PMMG e também do CBMMG. A figura a seguir
mostra a remissão de conteúdo interno e o início das postagens no blog da Renata, que
expressava adesão do movimento de mobilização da categoria.
FIGURA 16: Início das postagens de adesão ao movimento no blog da Renata
Fonte: blog da Renata
Ressalte-se que o alcance das estratégias de mobilização é ampliado a partir dos
interagendamentos da blogosfera da SP com as mídias comerciais, incidindo-se especialmente
nas mídias on-line, como o Jornal o Tempo on-line, Hoje em Dia on-line, G1 e Estado de
Minas, Uai on-line, meios de comunicação do Estado de Minas Gerais. Tais
interagendamentos possibilitaram a publicidade da causa e a geração de novos vínculos e
outros adeptos, fortalecendo e expandindo os processos de mobilização no blog e fora dele.
Outro conteúdo recorrente diz respeito às informações sobre a mobilização
reivindicatória da SP em âmbito nacional, com menções a movimentos de paralisações em
86
outros estados da federação. As reinvindicações nacionais giravam em torno do aumento
salarial, melhores condições de trabalho e votação do Projeto de Emenda Constitucional –
PEC 300, de 2008, que instituiu o teto de salário nacional para a categoria, ainda almejado
pelo segmento.
Houve ênfase nos movimentos de Goiás e Rio de Janeiro, que se mostraram mais
organizados. No último Estado, a mobilização reivindicatória também ganhou repercussão na
mídia e houve intensa participação dos meios de comunicação informais, com articulação de
blogs integrantes da blogosfera do segmento de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Esta
organização aconteceu em paralelo à mobilização em Minas Gerais, reforçando o clima de
insatisfação, de questionamento, de reivindicações.
No blog da Renata foi divulgado, conforme figura 17, o mapeamento dos estados
brasileiros em mobilização reivindicatória, construído a partir da interface dos blogs
integrantes da blogosfera da SP e subdividido em três categorias: estados com mobilização
reivindicatória já deflagrada, estados com mobilização reivindicatória branca, ou seja, em
processos neutros e iniciais, e estados com iminência de mobilização reivindicatória.
Tal detalhamento retrata a articulação da rede midiática digital com sindicatos,
associações e movimentos de outros estados. Identificou-se ainda o uso da rede como
ambiente de articulação local e nacional e como locus de vigilância, monitoramento e
solidariedade. Esse cenário pode ser visto na postagem a seguir, que representa o engajamento
sociopolítico e a incitação para possíveis greves em âmbito nacional.
O interagendamento entre os blogs revelou como a blogosfera aproxima contextos e
possibilidades de interação, de informação, de integração e de mobilização,conforme se
demonstra na Figura n.17:
FIGURA 17: Postagem representativa do contexto reivindicatório nacional
Fonte: blog da Renata
87
Com a intensificação dos conteúdos reivindicatórios pela blogosfera temática e pelo
blog da Renata, com a adesão à causa por parte de agentes da SP vinculados a outros órgãos e
com a divulgação ampla do clima de descontentamento nacional, as lideranças dos
movimentos sociais tornam suas posições políticas mais claras. Passam a ser também visíveis
no ambiente digital: a coordenação dos movimentos sociais, os vínculos dos administradores
dos blogs, dos representantes das entidades e associações com o movimento social de
mobilização reivindicatória.
Diante do exposto, aumenta na rede midiática a concentração de conteúdos e de
esforços para a mobilização e a paralisação dos serviços públicos relacionados ao segmento.
Fica aparente na rede o envolvimento dos representantes dos movimentos sociais e das
associações sindicais ligadas à área da SP como personagens dos principais conteúdos
divulgados pelo blog da Renata. No período da mobilização reivindicatória, percebeu-se o
cunho político-ideológico do blog, a partir de maior volume de postagens relacionado à
organização de greve, de conteúdos polêmicos, de denúncias e da formulação de possíveis
linhas de negociações junto às instituições e governo.
É possível, assim, visualizar a atuação do blog como agente midiático propulsor das
discussões em torno das possíveis manifestações a serem organizadas pelos movimentos
sociais das instituições de SP, com envolvimento dos sindicatos, entidades e agentes públicos
da PCMG, PMMG e CBMMG.
Em junho de 2011, o movimento torna-se coeso e explícito na rede e ganha
repercussão na mídia comercial e atenção da sociedade civil em geral, o que contribuiu para
ampliar a mobilização do segmento.
A recorrência dos fluxos midiáticos de remissão e interagendamento (internos e
externos) neste período desencadeou uma paralisação com a participação estimada de cerca de
12.000 policiais civis, militares e bombeiros em manifestação no centro de Belo Horizonte,
conforme reportagem do jornal Estado de Minas, mostrada na figura n.18:
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FIGURA 18: Interagendamento do blog da Renata com o jornal Estado de Minas
Fonte: Jornal Estado de Minas - UAI on-line por meio do blog Amigos da Caserna
Já na figura 19, identificou-se a atuação de Renata Pimenta, administradora do blog da
Renata, nos atos políticos de mobilização e o uso político do suporte midiático por parte dos
líderes políticos da classe. Nessa mesma figura, as postagens do blog mostram a participação
dessas lideranças na convocação e nos atos, como a queima de contracheques na região
central de Belo Horizonte e as reuniões de deliberação e mobilização no Clube de Oficiais da
Polícia Militar de Minas Gerais. Nessa mesma imagem, ficam visíveis e explícitos os vínculos
políticos do blog e os objetivos de organização e mobilização, antes ocultos.
FIGURA 19: Atuação da administradora do site nos atos políticos de mobilização
Fonte: blog da Renata e site ASPRA
A postagem n. 20 divulga uma imagem do vídeo gravado pelo vice-presidente da
ASPRA, no ano de 2011, subtenente Gonzaga, que explicita os motivos de repúdio às ações
dos comandos das instituições e a insatisfação da classe quanto às políticas governamentais do
segmento. Vale destacar que a utilização desse tipo de recursos, como vídeos, áudios, fotos foi
frequente na blogosfera da SP.
FIGURA 20: Postagem com participação dos movimentos sociais e associações
89
Fonte: blog da Renata e site ASPRA
Frise-se que o blog da Renata exerceu papel influente durante todo o período de
mobilização da categoria, dando voz aos diversos grupos que atuavam diretamente no
movimento reivindicatório, além de estimular a adesão de novos pares à causa e à sua
participação. Após divulgação massiva da insatisfação dos movimentos sociais não somente
nesse blog, mas na blogosfera da SP, a mobilização reivindicatória foi fortalecida e expandida
no âmbito de Minas Gerais. As discussões ganharam também ampla visibilidade na mídia
comercial, fazendo crescer o poder de mobilização do segmento de SP e, consequentemente,
ampliando as possibilidades de negociação com a instância governamental.
A entrevista com o vice-presidente da ASPRA, subtenente Gonzaga, publicada no blog
da Renata, externa a expectativa em acordo com o governo. O representante da associação
alertava “se nada for decidido no dia 25 de maio, entraremos em mobilização reivindicatória”.
(BLOG DA RENATA, 2011).
Assim, os posicionamentos políticos se desnudam e a convocação à mobilização se
mostra cada vez mais presente no blog. Com a grande expectativa que se cria em torno da
espetacularização do cenário de insatisfação, a figura de líderes políticos ganha maior
visibilidade. Aos poucos a recorrência do anonimato na autoria das publicações do blog,
sempre presente nas redes, ganha rostos. A autoria dos posts e conteúdos do blog da Renata
podem ser vinculados e identificados, entretanto, o anonimato dos comentários dos agentes de
SP participantes, persiste. A figura 21 revela a presença de líderes conduzindo o processo de
negociação do movimento, como se vê nas postagens que mostram o vice-presidente da
ASPRA, deputados e vereadores. A postagem exemplifica ainda o interagendamento do blog
da Renata com o blog do Cabo Fernando, que divulga e compartilha informações sobre
audiência com representantes das instituições de SP e com o Comando Geral da Polícia
Militar de Minas Gerais, na Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves, o centro do
governo do Estado.
FIGURA 21: Reunião com instituições
90
Fonte: blog da Renata
A figura 22 exemplifica, por sua vez, matérias noticiadas pelos meios de comunicação
comerciais sobre o movimento de paralisação, replicadas no blog e repercutidas na blogosfera
da SP. O clima de descontentamento é alimentado fortemente por meio de postagens no blog
da Renata sobre adesão, informes e notas oficiais das entidades sindicais, além de replicados
regularmente na blogosfera da SP.
FIGURA 22: Mobilização no blog da Renata por meio das remissões e
interagendamentos
Fonte: blog da Renata
No decorrer do processo, as negociações não são bem-sucedidas e a organização com
foco na paralisação se torna pública e notória. As negociações entre entidades representativas,
instituições e governo não atendem às reivindicações da classe, o que gerou por parte das
lideranças dos movimentos sociais a manifestação na rede do descontentamento, a incitação e
o clamor pela greve, como se vê na figura 23, que reproduz nota oficial dos sindicatos de
classe.
FIGURA 23: Mobilização no blog da Renata por meio das remissões e
interagendamentos
91
Fonte: blog da Renata
Há que se destacar que, naquele período, o caráter ideológico do movimento foi
extremamente explorado, inclusive relembrando o marco histórico da mobilização
reivindicatória da Polícia Militar de 1997. O resgate da greve de 1997 confirmou-se como
tentativa dos movimentos sociais de explorar o lado simbólico das lutas sociais travadas com
o governo em prol do atendimento das reivindicações da classe. Já o movimento de 2004 não
foi agendado na rede, pois refletiu reivindicação de proporção combativa, porém, a referência
de 1997 mostrou-se contínua por representar para a classe um teor de luta histórica que
revelou a força da mobilização do segmento e de pressão ao governo, conforme fica explícito
na figura 24, que demonstra as remissões e interagendamentos fomentados pelo blog da
Renata.
FIGURA 24: Remissões e interagendamentos sobre marco histórico de 1997
Fonte: blog da Renata e Youtube
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Na figura 25 fica evidenciada a repercussão da mobilização reivindicatória no
ambiente digital e as estratégias de adesão e mobilização à causa. Além da recorrência ao
contexto da mobilização reivindicatória de 1997, essa postagem parece ter tido a finalidade de
usar como estratégia de visibilidade a grande repercussão paralela das manifestações no Rio
de Janeiro.
FIGURA 25: Uso das redes cívicas digitais e de mobilização pela blogosfera
Fonte: blog da Renata
Outra estratégia frequente foi a incitação adotada pelo blog da Renata, com foco nas
unidades da PMMG, aos que trabalhassem contra a mobilização, pois divulgou várias
postagens de repúdio aos militares que não apoiassem e agissem contra o segmento, além de
reiterar que os posicionamentos contrários à mobilização seriam considerados como traição à
classe, como se vê na figura n. 26. A passividade dos agentes de SP também foi amplamente
criticada pelo blog por meio das remissões de conteúdo como comportamento inaceitável
diante da importância da causa coletiva.
93
FIGURA 26: Postagem com abordagem de mobilização no blog da Renata
Fonte: blog da Renata
Aliado às relações copresenciais, os blogs foram suportes midiáticos digitais
importantes para impulsionar a dinâmica interacional entre seus usuários, por meio do
monitoramento dos fluxos comunicacionais do segmento e divulgação das etapas iniciais de
mobilização, do seu desenvolvimento e do término do movimento, conforme mostra a figura
27:
FIGURA 27: blog como instrumento de convencimento e mobilização
Fonte: blog da Renata
Frise-se que os blogs da blogosfera da SP, e o blog da Renata, em particular,
funcionaram como suporte importante da informação aos atores do segmento, adesão ao
movimento dentro do Estado de Minas Gerais e, ainda, de difusão em articulação com outros
estados da federação. As postagens seguintes revelam que os blogs da blogosfera da SP
serviram para dinamizar o processo de mobilização presencial, encabeçado pelas entidades
94
sindicais e associações. Os movimentos interacionais de remissão e interagendamento
proporcionaram a amplitude das conversações em torno da mobilização (interna e
externamente).
Destaca-se, ainda, o uso do blog como ambiente de uso individual e coletivo, como
suporte agregador de atores, como meio de divulgação de conteúdos extramídia (comercial), e
como mídia paralela aos meios formais (institucionais).
Em relação ao interagendamento formal, aspecto relevante da análise foi a forma de
retratar os acontecimentos por meio das assessorias oficiais do governo e das instituições. No
caso do blog da Renata, não houve repercussão de nenhum posicionamento estatal. Em
contrapartida, o blog abriu amplo espaço para divulgação de conteúdos de incitação ao
movimento das associações e sindicatos. Assim, não se percebeu por nenhuma via de
comunicação, a discussão entre instâncias formais dos órgãos e deliberação entre atores
informais (blog) e formais (instituições) no momento da crise. Nas entrevistas dirigidas às
mídias comerciais, o governo negou a crise no segmento e a existência da mobilização
reivindicatória. Esse posicionamento oficial perdurou por todo o período da organização
coletiva.
Mesmo o silêncio formal, do ponto de vista da análise midiática, torna-se importante e
diz da estratégia utilizada e o tipo de conversação social vista na rede a partir desse
posicionamento. O cenário da mobilização do setor ganhou maior repercussão na mídia
comercial quando passou a divulgar e a expandir a fala estatal e se contrapor às
representações midiáticas dos agentes da SP. A fala oficial contrapunha o movimento
organizado e as paralisações reveladas nas mídias. A fala dos agentes de SP refletia a
incoerência no contexto. O blog da Renata e a blogosfera como um todo se constituíram como
fontes alternativas de informação à mídia comercial, repercutindo a crise entre seus usuários,
a mobilização e o cenário de paralisação. Tal situação pode ser mostrada na postagem no blog
a seguir, por meio da figura 28.
95
FIGURA 28: Negação da mobilização reivindicatória pelo governo
Fonte: blog da Renata
Os interagendamentos entre mídia comercial e blogs foram constantes, manifestandose com maior expressão no jornal o Tempo on-line, que emitiu conteúdos mais combativos ao
governo e enquadrou a coesão do movimento de classe. A cobertuda midiática do movimento
foi amplamente difundida na blogosfera da SP e o jornal Hoje em Dia e a versão on-line do
Estado de Minas também cobriram as manifestações, assumindo posição editorial menos
oposicionista.
Observou-se que o processo interacional nas redes digitais e, em particular, no blog da
Renata, foi recorrentemente marcado por processos de conflitos entre instâncias, estabilidades
e instabilidades na mobilização, vinculações, associações políticas e rompimentos de alianças.
Os períodos consolidados como pré-mobilização reivindicatória, mobilização reivindicatória e
pós-mobilização reivindicatória engendraram forças de coesão coletiva e disputas de sentido
em níveis diferentes.
Verificou-se, assim, que a coesão interna, a ação coletiva dos profissionais ligados aos
órgãos da SP e a sincronia interinstitucional se deram quando o cenário retratava motivos
comuns de reivindicação. Os processos iniciais reivindicatórios e a busca por melhores
condições salariais e estruturais de trabalho aproximaram as entidades de forma
interinstitucional, ou seja, por meio do blog foi possível visualizar as discussões pelos órgãos
da SP sobre as questões comuns. Até a “mobilização reivindicatória”, as entidades de classe
se apoiaram mutuamente, aderindo à causa coletiva e se fortalecendo. A integração se deu
especificamente até esse período, limitando-se ao momento das negociações.
À medida que o processo de negociação retratou realidades e necessidades em graus
diferentes, as atuações dos órgãos de SP fragmentaram-se, minimizando as condições para
efetiva ação coletiva. A partir desse momento, os interesses não convergiram mais para
objetivos comuns, tornando o movimento coletivo vulnerável e passível de interferências e de
96
enfraquecimento. As reivindicações passam a ser conduzidas de forma individualizada e não
mais conjunta entre as forças de SP e minimizam-se as forças correlatas.
Os conflitos e divergências das relações presenciais ressoaram também no ambiente
virtual. O processo comunicacional observado revelou momentos de instabilidade dentro das
próprias instituições, entre essas, entre líderes de movimentos e entre governo.
A seguir, verifica-se na figura 29 o interagendamento do blog da Renata com o blog
Amigos da Caserna – igualmente de grande repercussão e atuante na blogosfera da SP
mineira. A figura mostra as várias versões, os posicionamentos, narrativos e enredos
emergentes nessa blogosfera sobre os acontecimentos ligados ao segmento com a
efervescência interacional no contexto da mobilização reivindicatória e em seu desenrolar. Os
conflitos tornam-se aparentes midiaticamente entre líderes, movimentos e blogs e as
discordâncias em relação à condução das negociações pelas entidades e associações começam
a ser questionadas internamente no suporte e entre os blogs da blogosfera da SP, como se vê a
seguir:
FIGURA 29: Postagem com abordagem de manifestação em prol da mobilização
Fonte: blog da Renata e blog Amigos da Caserma
Ressalte-se que no período de mobilização reivindicatória não houve nenhuma
divulgação pelos sites oficiais de qualquer posicionamento oficial do governo. Os meios de
informação oficiais permaneceram em silêncio, negando e não respondendo às efetivas
paralisações, principalmente da PCMG. Tal posicionamento por parte do governo em negação
à crise demonstrou tentativa de neutralização dos acontecimentos, de estabilidade do governo
e de controle da situação. Todavia, os interagendamentos continuavam entre a mídia informal
e comercial, isto é, mídia informal (blogs da área da SP) e comercial (jornais, internet,
revistas, televisiva, entre outros).
97
A remissão dos conteúdos oficiais governamentais por meio do blog da Renata e entre
blogs ocorreu somente para divulgar oficialmente o reajuste, no período pós-mobilização,
quando informado pelo site do governo de Minas, o Agência Minas. A conversação midiática
entre mídia informal e comercial manteve o debate e reverberou os conteúdos nos blogs, na
blogosfera e nos portais comerciais on-line.
A contestação e crítica dos blogs ao desfecho da reivindicação, aos movimentos e
governo neste período foram intensas. Identificou-se posicionamento comum dos blogs da SP
de repúdio ao acordo entre líderes dos sindicatos e governo. Os blogs denunciavam suposta
traição dos sindicatos e associações: a figura n 30 mostra a publicação no blog do Cabo
Fernando (interagendada por meio do link no blog da Renata) quanto à divulgação oficial do
governo. Identificou-se também, a cobertura da mídia televisiva sobre o posicionamento da
classe em relação à assembléia que determinou o desfecho da mobilização reivindicatória.
FIGURA 30: Divulgação oficial do reajuste e blogs em contraposição
Fonte: blog da Renata e blog Amigos da Caserma
Percebeu-se que, até agosto de 2011, mesmo após o fechamento das negociações,
foram recorrentes as postagem relacionadas à mobilização reivindicatória. Houve,
naturalmente, diminuição das participações no blog, mas não se constatou interrupção das
postagens referentes às contestações da mobilização reivindicatória e, tampouco, dos
comentários.
Após a finalização do movimento de reivindicação, o blog focou nas discussões do
período de negociação, nos atores envolvidos e no desfecho do processo. A administradora do
blog da Renata, Renata Pimenta, antes associada aos líderes políticos da negociação, passa a
acusar os representantes dos movimentos de incitar a mobilização e trair a classe com a
aceitação prematura e desvirtuada das reivindicações. As instituições também se acusaram
98
mutuamente do acordo incipiente e desequilibrado da liderança do movimento com os órgãos
governamentais.
Na blogosfera da área da SP ficou evidente a insatisfação da classe com a negociação
entre líderes do movimento reivindicatório e governo, porém, tal sentimento não ganhou força
de mobilização contra as associações, sindicatos e governo. Por fim, o blog da Renata criticou
o comportamento do segmento da SP quanto à sua capacidade de mobilização. “(...) lembro
ainda de cada militar que estava na assembleia onde tudo já estava acertado com o governo e
pergunto aos nobres militares que hj me criticam: o que vcs fizeram para mudar o cenário?”
(BLOG DA RENATA, 2011).
Para Pimenta, o setor só reagiu em oposição e crítica à negociação no ambiente virtual,
mas não materializou o descontentamento da classe com a negociação final. “Alguns
blogueiros só copiam e colam e sequer dão suas opiniões pessoais sobre os acontecimentos na
PMBM. Poderiam ter-se rebelado contra as associações e realizado uma dessassociação em
massa e isso ocorreu? NÃO”. (BLOG DA RENATA, 2011).
Após o processo de maior efervescência da mobilização reivindicatória, o blog rompeu
alianças com os líderes dos movimentos e posteriormente as retomou, permitindo constatar
que alianças foram rompidas e refeitas diversas vezes. Ora, o blog demonstrava articulação,
ora rompimento, em outros momentos. Tal instabilidade político-ideológica demonstrou
incoerência na atuação do blog com postura híbrida e volúvel. É possível verificar no blog da
Renata reações de seus participantes referentes ao processo de negociação da mobilização
reivindicatória, como se pode ver no depoimento a seguir. Tal instabilidade é percebida e
discutida no ambiente do suporte, em interagendamento com o blog do Cabo Fernando:
Com referência ao seu apoio político ao Ten. Gonzaga, apesar de eu não o engolir e
para mim ele ser igualzinho aos demais lideres que estiveram naquele tradicional dia
da ‘TRAIÇÃO’, pois tenho comigo que ele participou durante toda a trama e adianto
mais, para mim ele foi um dos organizadores de tudo (...) agora o que não pode é o
que um determinado blog esta fazendo, quando posto qualquer matéria de denúncia
contra os dois pupilos deles ‘Cabo Julio e Cabo Coelho’, eles imediatamente
começam a me meter a ripa e a postar em seus blogs coisas que não tem nada a ver
sobre mim, na tentativa de desviar minhas denuncias contra esses falsos lideres.
(BLOG do CABO FERNANDO, em 22 de setembro de 2012. Acesso em: 2 out.
2012).
Assim, as discussões no interior (remissões na instância micro) e fora do suporte
(interagendamentos na instância macro) revelaram a atuação político-ideológica do blog como
mídia focada no esforço de mobilização, que, por sua vez, foi criticada na blogosfera da SP
como cenário fabricado, encenado. As consequências dessa negociação entre os líderes do
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movimento foram debatidas nos blogs regularmente, principalmente pelo blog da Caserna e
blog do Cabo Fernando, conforme se verifica a seguir:
[...] em completo desrespeito aos presentes, aproximadamente uns 6000 policiais e
bombeiros militares, da ativa, reserva, reformados e pensionistas, que atenderam ao
chamado e compareceram a assembleia geral extraordinária, defenderam
ardorosamente a proposta mutilada e completamente desfigurada, com um
vergonhoso parcelamento do reajuste em suaves parcelas até 2015. E o pior desta
estratégia, que culminou no acordo com o governo a revelia da decisão e aprovação
dos policiais e bombeiros militares, é que com este acordo, tais lideranças
impediram qualquer reivindicação salarial até 2015, inviabilizando por conseguinte
que haja qualquer movimento reivindicatório, claro está, que com grandes eventos
para acontecer, teríamos muitas possibilidades de pressionar por melhores condições
de trabalho, valorização profissional, respeito a dignidade, bem como pela
implantação de um piso salarial compatível, que valorize a profissão, a atividade de
Segurança Pública e a vida dos profissionais. Assim além de acumularmos até 2015,
perdas inflacionárias e do poder aquisitivo, já que quando atingirmos o suposto piso
salarial de R$4.000,00, a defasagem salarial já haverá corroído seu valor, e um dos
graves efeitos deste mal acordo, é que teremos que enfrentar longos e penosos 04
anos, resultado da ação deliberada das lideranças que nos representavam, que na
verdade já estavam agindo em conluio, de olho nas eleições e suas pretensões
políticas. Mas o que mais impressiona, que mesmo denunciando a dita manobra, que
muitos intitularam de traição, vemos contraditoriamente alguns candidatos serem
apoiados e ovacionados exatamente por quem deveria agora, tornar a denunciar o
que sabemos foi uma decisão unilateral das lideranças, violando a soberania da
assembleia geral, capitulada nos estatutos das associações de classe, e a dignidade e
cidadania de todos os associados (BLOG DA RENATA, por José Luiz Barbosa, em
19 de julho de 2012. Acesso em: 26 out. 2012).
O discurso de incitação predominou no blog da Renata, alegando suposta traição aos
líderes políticos que integraram a negociação e principalmente com o governo, por meio do
cenário de condições salariais e estruturais sempre debatidos. Observa-se que a temática de
reivindicação e de greve, mesmo após o período de encerramento da mobilização, foi
discutida e retomada frequentemente e o conteúdo de insatisfação não acabou. Os
posicionamentos dos atores da SP continuaram a ser expostos na rede, inclusive em projeção
ao cenário de paralisação anunciado, relacionado à Copa das Confederações 2013, Copa do
Mundo de 2014 e Olimpíadas 2016, como fica explícito no depoimento a seguir: “Tudo que
nós falamos aqui em 2011, está servindo para outras PMs do Brasil, lembram-se na
mobilização de 2011, antes da traição? Pois é, não esqueçam, 2016 está chegando” (BLOG
DA RENATA, 2012).
Identificou-se, após o desfecho da mobilização reivindicatória, que o endereço do site
<renataaspra.blogspot.com> não é mais vinculado à ASPRA, agora acessado pelo
<renatapimenta.com>. A mudança na URL aconteceu após o período da mobilização
reivindicatória e não representou independência político-ideológica do blog, apesar de desejar
transparecer rompimento político com o antigo movimento. Após esta desvinculação, a
100
blogueira se associa a outro movimento, confirmando a permanência do foco políticoideológico e o caráter de instabilidade, de incoerência e hibridez do blog.
Atualmente, Renata Pimenta participa da Associação Central Única dos Militares
Estaduais – CUME, e a blogueira passa a divulgar a fundação recente dessa entidade, ocorrida
em 3 de setembro de 2012. Como constatado na ASPRA, a CUME é também vinculada a
vereadores e conta com apoio político ligado à classe de militares. Novamente, toda dinâmica
de adesão, informação, mobilização começa a ser criada, pautada na base do
descontentamento e de interesses político-ideológicos. Adiante, identificou-se o momento
dessa transição da blogueira, que passou a direcionar suas ações para outro movimento social,
conforme postagem de informação e comentário anônimo no blog, conforme se vê abaixo.
Identificaram-se também os links para o site dessa nova entidade no blog da Renata e a
criação do estatuto, afiliações e missão.
Nosso estado tem que ter apenas uma associação, por que aí ela se mostra forte,
com pulso pra falarmos/reivindicarmos/exigirmos respeito. Enquanto tivermos
várias associações, estaremos fadados ao que estamos vivenciando. Se nasce
forte a CUME, ela deve pensar em estratégias (trazendo os militares que estão
nas outras associações, ou então coalisão), visão esta que o governador nos verá
com um olhar de união, raça e poder. O que vemos hoje é praça desunido, praça
se unindo a certos oficiais pra puxar saco (vê se são promovidos) pisoteando no
praça que trabalha. Se a visão da CUME foi de aliança, união, já tem minha
apreciação. Temos que termos apenas um candidato pra deputado estadual,
federal e senador, além dos vereadores e a CUME poderá pensar nisso como
estratégia – não deixemos essa avalanche de candidatos militares para sangrar
nosso voto naqueles que realmente vão lutar por uma classe unida e respeitada
em seu ambiente de trabalho e remuneração justa. Pensem Nisso! CUME já tens
meu respeito! (BLOG DA RENATA, “comentário anônimo”, em 04 de
setembro de 2012. Acesso em: 8 set. 2012).
Verificou-se, posteriormente, que o blog da Renata refez sua associação à ASPRA
(inclusive com a divulgação na página principal do blog da Renata). “É o seguinte, estou
sendo questionada sobre o apoio que estou dando à Chapa Novo Tempo da ASPRA, que tem
como presidente o Cabo Bahia (...) eu ia prestar serviço lá, como faço para a CUME, mas aí
ele pediu para esperar passar as eleições”. (BLOG DA RENATA, 2012). Esse depoimento
revela claramente que a blogueira tem ligações com as duas associações, como se vê na figura
31, publicadas no blog.
101
FIGURA 31: Vinculação a associações CUME e ASPRA
Fonte: blog da Renata
3.2 Processo Comunicacional do blog da Renata na mobilização reivindicatória
Como assinalado anteriormente, a partir do monitoramento dos processos
comunicacionais engendrados no interior do blog da Renata e fora dele, durante sua atuação
em todo o período de mobilização reivindicatória dos agentes da Segurança Pública de Minas
Gerais, em 2011, foi constituído um corpus qualitativo da pesquisa que será analisado a partir
de duas categorias, a dinâmica interacional e o sistema de resposta social.
A partir da atuação do blog já demonstrada, retoma-se, para análise, as dinâmicas de
remissão e interagendamento representados, tendo como referência para a interpretação a
interdiscursividade (vistos na dinâmica interacional interna do blog) e a hipertextualidade
(representado por meio da dinâmica externa do blog, por meio do sistema de resposta social).
Estes dois movimentos foram observados e interpretados como características relevantes do
processo interacional, tanto do ponto de vista da dinâmica micro (pelas interações e
remissões), quanto macro ao blog (por meio dos interagendamentos). Ressalta-se, entretanto,
que se trata de uma separação metodológica, já que este modus operandi apresentou-se
transversal, interligado, integrado e sistêmico, como se verá adiante.
3.2.1 A Dinâmica interacional midiatizada
Parte-se do pressuposto de que o blog da Renata não representou no período da
mobilização reivindicatória dos agentes de SP, em 2011, mero suporte midiático de transporte
de conteúdos, mas, sobretudo, um ambiente de rede que favoreceu aos seus participantes uma
relevante dinâmica interacional midiatizada. Esse ambiente foi integrado por um sistema
cíclico interacional, com movimentos internos transversais e ágeis. Assim, foram
considerados os seguintes aspectos relacionados à processualidade do ambiente: o tipo de
“Rede” fomentada, a “Representação Midiática dos Atores”, os “Usos e Regularidades do
102
Suporte” estabelecidas pelos seus usuários e reveladas no blog por meio de remissões internas
de conteúdos.
Em relação ao primeiro aspecto, identificou-se no blog da Renata a constituição dos
seguintes tipos de rede abordados por Maia (2002b), no capítulo conceitual deste trabalho:
“Rede de Memória Ativa”, “Rede de Produção de Conhecimento Técnico Competente”,
“Rede de Produção de Recursos Comunicativos” e “Rede de Vigilância e Solidariedade à
Distância”.
No período da mobilização reivindicatória da SP de 2011, o primeiro tipo de rede
funcionou como registro do cenário, como também, como registro histórico ao resgatar outros
marcos reivindicatórios, mais especificamente, a greve da SP de 1997 e o movimento salarial
de 2004. (MAIA, 2002b).
Quanto ao segundo tipo, o blog da Renata não propiciou a formação de uma rede
destinada à produção de conhecimento técnico-competente, mas abriu espaços para a
manifestação de posições de descontentamento e de reivindicações por parte dos seus
usuários. Apesar de haver links e diretórios com textos técnicos, legislações e outros
documentos relacionados ao segmento, o blog foi mais utilizado como suporte midiático de
uso político.
Já em relação ao terceiro tipo de rede – “Redes para Produção de Recursos
Comunicativos” –, identificou-se que o blog da Renata atuou como instância midiática que
estimulou a conversação e que fomentou discussões que se reverberam no segmento SP. No
período da mobilização reivindicatória de 2011, o blog agiu fortemente como fonte de
recursos comunicativos, estimulando a presença dos atores e o compartilhamento de ideias
entre seus atores, tanto no interior dessa rede midiática quanto fora dela.
No que tange às “Redes de Vigilância e Solidariedade à Distância”, percebeu-se tais
características como predominantes no blog da Renata, que atuou como rede de
solidariedade/fomento ao movimento quanto como redes críticas às instâncias formais de
poder (também presentes na quase totalidade dos blogs integrantes da blogosfera da SP). No
entanto, não foi observado no blog, o foco na defesa de direitos e proteção aos cidadãos.
Já em relação à manifestação dos atores sociais presentes no blog da Renata durante o
período da reivindicação salarial da SP, em 2011, foi observada a existência dos seguintes
tipos de representação midiática: a “Representação Oficial”, a “Representação Figurada”, a
“Representação Institucional e Social” e a “Representação do Anonimato e Disfarce da
Autoria”.
103
No período investigado, a “Representação Oficial” tornou-se menos presente. Quanto
mais o ambiente retratava tensionamentos e conflitos, principalmente nos períodos de
organização das paralisações, menor foi identificada a incidência da identificação do sujeito,
minimizando a aparição deste tipo de representação oficial.
Quanto à “Representação Figurada”, observou-se que o participante do blog se
representa midiaticamente por meio de nomes figurados. Este tipo de representação foi
utilizado com frequência por participantes assíduos do blog e do seu chat interno.
A
representação pôde ser identificada por meio do uso de apelidos e nicknames, uso da patente
ou ainda, pelos números de companhias, regiões ou batalhões relacionados aos usuários.
Percebeu-se que essa estratégia foi usada com a finalidade de se direcionar os comentários e
de se vincular a localização dos batalhões, companhias, delegacias, entretanto, sem
comprometimento da identidade oficial.
No blog da Renata, a “Representação Institucional e Social” foi normalmente utilizada
por grupos mais coesos do segmento que se expressam como vozes majoritárias dentro do
blog. Identificou-se que essa forma de representação foi utilizada por movimentos sociais,
grupos e associações de classe, com fins eminentemente político-ideológicos. De maneira
geral, esse tipo de representação consolidou a voz coletiva do ambiente. Apesar de representar
também a voz oficial, formal e institucional de atores identificados, a representação oficial,
especialmente das instituições de SP e Governo, não foi observada na mobilização
reivindicatória. Assim, neste período, não se verificou a representação institucional pelos
órgãos de SP e Estado.
Quanto à “Representação do Anonimato e Disfarce da Autoria”, verificou-se que a
maioria dos participantes do blog da Renata não se identificam e as participações anônimas
são normalmente associadas aos conteúdos mais polêmicos e às críticas. De todas as formas
de representação no suporte, este tipo apresentou maior incidência e regularidade, além de ser
predominante na blogosfera da SP de forma geral. Entretanto, apesar do participante do blog
não se identificar, averiguou-se que seu comentário fica postado no suporte de forma
anônima.
A possibilidade de não identificação dos usuários estimulou o uso da mídia como
canal de crítica, denúncia e espaço partidário para o uso de incitações. Assim, o anonimato foi
usado como forma de proteção do agente de SP (tanto dos participantes como dos emissores
do blog) para não sofrer com as consequências organizacionais e pessoais de seus
comentários. A maior parte desses comentários esteve relacionada às denúncias, ataques e
críticas, conforme exposto: “mobilização reivindicatória greve” (BLOG DA RENATA, 2012).
104
A investigação revelou também que o blog foi utilizado como espaço de discussões em
torno da proibição do direito à mobilização reivindicatória pelos agentes de SP de acordo com
a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 142, § 3º, IV. Notou-se intensa discussão sobre
a ambivalência e antagonismo refletidos na restrição constitucional ao direito de greve dos
agentes de SP e, ao mesmo tempo, pela portaria interministerial, do Ministério da Justiça, n. 2,
de 15 de dezembro de 2010, que legitima a livre expressão da classe.
Por se tratar de um ambiente onde se fomenta a livre manifestação dos participantes e
promove discussões em torno de figuras políticas, Pimenta enfatiza em entrevista (ver anexo
n. 1) a necessidade da figura do moderador, como responsável pela liberação ou reprovação
dos comentários no blog. Pimenta relata a respeito de vários processos por danos morais
contra o blog, devido às publicações e comentários expostos. Os processos estão relacionados
à divulgação de críticas aos profissionais das instituições de SP. Em pesquisa mais
aprofundada, utilizando como recurso de informação os processos on-line do Tribunal de
Justiça de Minas Gerais – TJMG verificou-se que as causas são normalmente iniciadas por
profissionais (via instituições e também como pessoa física) em defesa e contraposição aos
conteúdos emanados pelo blog, com maior frequência, atribuídos a casos de abusos de
autoridade, denúncias de desvios de função e de envolvimento em corrupção. A existência de
ações judiciais de repúdio às divulgações, contrárias à publicização dos conteúdos do blog,
pode ser demonstrada por meio do trecho a seguir: “Já tive muitos problemas com oficiais
superiores, parlamentares, entidades de classe, fui muito perseguida e cheguei ao ponto de
denunciar várias pessoas por perseguição”. (BLOG DA RENATA, 2011).
Já em relação ao disfarce da autoria no ambiente digital, constatou-se que o blog é
informado como criação de uma esposa de policial, porém, a moderação, as publicações e
conteúdos são geridos por dois policiais militares. A presença dos policiais é confirmada por
Pimenta e enfatizada como colaboração editorial.
Quanto aos usos e regularidades interacionais identificados no blog da Renata,
detectou-se os seguintes aspectos: o “Uso político e Ideológico Ligados a Movimentos
Sociais”, o meio como canal de “Críticas, Questionamentos e Denúncias”, o blog como
ambiente de “Monitoramento e Vigilância dos Assuntos Relacionados à SP entre Diferentes
Instâncias”, o suporte como via de “Divulgação de Ações Extra-Mídia”, como ambiente de
“Deliberação da SP”, “Constituição de esfera pública” e “Supervisão e Processos de Prestação
de Contas”.
Em relação ao primeiro aspecto, identificou-se o uso do suporte como meio de pressão
política e de mobilização, além de canal de comunicação entre líderes de associações,
105
movimentos e como ambiente fomentador das reivindicações salariais e estruturais da
categoria.
Identificou-se ainda que o blog da Renata, além de firmar-se como ambiente de uso
político-partidário no período da mobilização reivindicatória de 2011, deixou aparente os
embates institucionais, interinstitucionais, as lutas e correlações de poder e ainda, suas
próprias conquistas por visibilidade. Tal situação pôde ser verificada por meio das postagens
no blog das participações de Pimenta nas paralisações, nas publicações de passeatas, nas
vinculações com os sindicatos, associações e lideranças políticas. O blog propiciou exposição
dos descontentamentos, posicionamentos políticos e ideológicos, funcionando como polo
alternativo de informação e instrumento midiático de pressão social.
Em relação ao uso do blog da Renata como canal de “Críticas, Questionamentos e
Denúncias”, constatou-se esse tipo de utilização como recorrente e dominante no suporte,
com discurso e conteúdo direcionados a esta função. Na mobilização reivindicatória da SP de
2011, o ambiente foi explorado como via de divulgação de críticas direcionadas, com foco na
mobilização reivindicatória. O teor de questionamentos e denúncias, por sua vez, revelou os
vínculos políticos, a relação das associações, movimentos e sindicatos com os administradores
do blog. Constatou-se que o estímulo do ambiente como espaço de exposição da realidade dos
agentes de SP (ciclo descontentamento/questionamentos/reivindicação) justifica o tipo de
patrocínio regular do blog, que é vinculado à cessão de empréstimos financeiros à classe.
O uso do suporte como ambiente de “Monitoramento e Vigilância dos Assuntos
Relacionados à SP entre Diferentes Instâncias” foi verificado pela discussão e
acompanhamento gerado pelos conteúdos do blog entre agentes de SP e entre as instâncias da
mídia formal e comercial. Na mobilização reivindicatória de 2011, foi percebido como regular
o movimento de monitoramento e vigilância entre as diferentes instâncias de afetação
comunicacional. Notou-se o uso regular no blog desse tipo de divulgação, no período da
mobilização reivindicatória e ainda, fora dele.
O uso do blog da Renata como ambiente de “Divulgação de Ações Extra-Mídia” pôde
ser verificado pela atuação do suporte como um meio alternativo, isto é, uma via paralela à
mídia comercial, de propagação dos conteúdos relacionados ao segmento e de divulgação
institucional (no âmbito individual ou coletivo). Identificou-se tal uso em movimentos de
boicote à imprensa e na divulgação e organização da mobilização reivindicatória da SP de
2011. Notou-se a utilização do suporte como forma de divulgação das ações de assuntos não
contemplados pela mídia comercial ou pelas assessorias de comunicação dos órgãos
governamentais ligadas à SP. Identificou-se tal situação no envio de releases diretos dos
106
batalhões, companhias e delegacias diretamente ao blog da Renata, com o foco direcionado
nas ações de rotina, mais próximas das camadas operacionais.
Identificou-se o uso do ambiente relacionado à “Interpretação de Interesses e
Construção de Identidade Coletiva”. Nesse sentido, além de Maia (2002b), dialoga-se com
Habermas (1997) e Marques (2009), ao corroborar que a mídia estimula a deliberação e os
processos de reflexividade, auxiliando os cidadãos a construir um entendimento sobre uma
determinada questão de interesse de todos. (HABERMAS, 1997; MARQUES, 2009).
A ação dos atores no blog da Renata representou este padrão comunicativo ao reunir
os sujeitos em discussão sobre causas comuns, pois, no período investigado, o blog atuou
como instância de coesão, de construção de cenários da classe e de construção coletiva. Nesse
aspecto, observou-se como regularidade interacional o uso do ambiente virtual como
possibilidade de leitura do contexto do segmento da SP, de significação e ressignificação da
classe, logo, como locus de construção social da realidade. Como observado por Braga
(2006), a mídia, neste caso, a interação social por meio do blog da Renata, referenciou os
modos de ser, individual e coletivamente, por meio das dinâmicas de apropriação e de
reapropriação de conteúdos e produtos midiáticos.
O ambiente como via de “Deliberação da SP” foi identificado por abrigar o debate e
discussão dos atores do segmento em torno de políticas, função e realidades da classe. No
âmbito da mobilização reivindicatória da SP de 2011, esse tipo de objetivação pelos atores foi
recorrente no blog da Renata (e na blogosfera temática em geral) ao estabelecerem motivação
e interesse no ambiente para discussão em torno da causa coletiva. Notou-se esse tipo de
regularidade com mais ênfase no período da mobilização reivindicatória, já que fora dos
períodos estabelecidos como mais polêmicos e efervescentes interacionalmente, observou-se a
diminuição do interesse pelas discussões.
Ainda em relação ao uso do blog como ambiente de discussão da SP, do ponto de vista
deliberativo, o blog demonstrou desequilíbrio. O processo de deliberação coletiva no blog
revelou condições desiguais de participação, tanto em relação aos sujeitos como também de
envolvimento equilibrado das instituições. Apesar da estrutura comunicativa propícia à
participação, averiguou-se o filtro das participações pelo moderador como fator determinante
para o condicionamento político-ideológico do suporte.
Quanto à “Constituição de Esfera Pública”, o blog da Renata pôde ser considerado
somente como espaço público, pois ele funcionou como ambiente de agregação e de
deliberação na mobilização reivindicatória da SP de 2011 e nos assuntos convergentes
relacionados aos servidores da área, como, por exemplo, os conteúdos de reivindicação
107
salarial, estrutural, denúncias, entre outros. Sob essa perspectiva, destaca-se o papel do
moderador do blog, que atuou como filtro, isto é, como direcionador das publicações e
discussões no ambiente. Por esse viés, não se identificou equilíbrio entre as discussões dos
participantes e o ambiente, consequentemente, não se mostrou como instância democrática de
debate e estabelecimento de consenso, mas, somente, como ambiente virtual de divulgação,
acompanhamento e influência político-idelológica.
Tendo como pano de fundo o conteúdo abordado no capítulo teórico por Bohman
(2009), apesar de fomentar discussões, observou-se que o suporte não ofereceu condições
equitativas e equilibradas para as deliberações. (BOHMAN, 2009). Corroborando também
com os preceitos de Maia (2000), afirma que não basta que os suportes digitais apresentem-se
como um espaço público, já que, por si só, não constituem obrigatoriamente uma esfera
pública, isto é, favorece a deliberação, mas não garante a democracia. (MAIA, 2000). Assim,
o blog da Renata mostrou claramente filtragens/seleções (de conteúdo), vinculações e uso
partidário, caracterizando o suporte com uso direcionado, logo, como espaço público e não
como esfera pública.
Identificou-se o uso do blog da Renata como ambiente de “Supervisão e Processos de
Prestação de Contas”, porém, apesar de atuar como instrumento de acompanhamento das
temáticas de SP e monitoramento das instâncias de poder existentes, observou-se que a
supervisão e a cobrança social não foram descoladas das objetivações políticas do blog.
Assim, mesmo atuando como canal de questionamentos, o ambiente revelou que o suporte foi
utilizado com fins políticos, ora de contraposição ao governo, ora de apoio. Percebeu-se, no
período da mobilização reivindicatória de 2011, que o blog atuou como instância de
observação política, de incitação de discussão social, de oposição à instância governamental,
de ataques e de denúncias institucionais.
Por fim, as dinâmicas interacionais micro no blog foram observadas, a partir das
“remissões” , dos “conteúdos” postados e dos processos de “coesão", presentes no processo
de reivindicação da categoria. Como pano de fundo, quanto ao processo comunicacional
desenhado internamente no blog, identificou-se o fluxo permeado pelos atores em conexão,
estabelecendo elementos para a constituição do “capital social” e da “mobilização”.
Em relação às remissões (como apresentado na atuação do blog, no tópico 3.2), esse
fluxo interno midiático representou o movimento interacional interno entre os participantes do
blog e sua potencialidade de amplitude da conversação (como se verá na próxima categoria de
análise, sob a perspectiva macro). Em relação ao conteúdo, identificou-se que a reivindicação
política foi preponderante no blog da Renata, isto é, no período da mobilização, esse tipo de
108
enfoque foi fundamental para motivar a adesão, o interesse, a participação, a vigilância e a
interação de seus usuários internamente (e externamente, como se verá na próxima categoria
analítica).
A coesão foi demonstrada por meio dos elos mantidos na rede pela força dos laços
sociais formados pelo pertencimento à causa e reciprocidade na temática pelos agentes de SP.
Por meio do blog, foi possível observar o interesse mútuo que fomentou o capital social e
simbólico, construído por meio dos processos de deliberação.
As manifestações interacionais verificadas no blog da Renata dialogaram com as
teorias abordadas nesta dissertação relacionadas à constituição de capital social. Os processos
interacionais firmados no blog apresentaram tanto laços fortes como fracos, relacionais e de
associação. Baseada nos estudos de Recuero (2009), abordada no capítulo teórico, a rede
proporcionada pelo blog da Renata apresentou laços multiplexos, de relações de força
simétricas e assimétricas, de intensidade e grau de conexões diferenciadas. (RECUERO,
2009).
A dinâmica interacional microrrevelada no blog da Renata por meio da interação dos
atores e das remissões, ainda refletiu relações permeadas por cooperações e conflitos de
diversas ordens. Identificou-se essa disputa de sentidos pela constatação da multiplicidade de
atores e agentes de variadas instituições de SP, emitindo diferentes opiniões e motivações nas
deliberações virtuais, a fim de produzirem um ambiente de mobilização. As coparticipações
na rede expuseram, refletiram, contrapuseram e convergiram posicionamentos, estabelecidos e
mantidos pelo pertencimento nas temáticas comuns de reivindicação.
Em relação à mobilização, o processo manifestado no blog da Renata dependeu da
intensidade e identificação dos atores internamente (identidade/pertencimento), importância
(do conteúdo) e agregação (força dos laços/grau de coesão); são elementos que somados e
inter-relacionados apresentaram-se como indutores da ação comum. No período da
mobilização reivindicatória, esses fatores foram observados como preponderantes para a
mobilização social e ação coletiva, relacionados e em diálogo com a próxima abordagem,
presentes na categoria 2.
Logo, os conceitos de rede defendidos por Recuero (2009) e Matos (2009), de capital
social, abordados por Matos (2009), interação midiatizada, esclarecidos por Braga (2000,
2006, 2007), de deliberação, explorados por Habermas (1993, 1995, 1997), de movimentos
sociais, abordados por Melucci (1996, 2001) e de mobilização pesquisado por Henriques
(2004, 2005) estarão sempre destinados a serem revisitados, reinventados e reinterpretados.
109
Eles estão vivos nas redes digitais e engendrados pelos processos interativos midiáticos e
ainda, relacionados com o sistema de resposta social, foco de análise e interpretação adiante.
Em suma, por meio das interações internas no blog da Renata foi possível visualizar
uma complexidade de relações. Vale reiterar que tais impressões não são ofertadas e
perceptíveis em primeiro momento, mas fruto de observação, exploração, análise em
profundidade e interpretação. O tipo de rede, o tipo de representação midiática e os tipos e
regularidade interacionais se fazem perceber por meio da discussão, conversação e circulação
midiática operada na rede, de forma micro e macro. É justamente nos usos e regularidades no
blog macro que a próxima análise se atém.
A próxima categoria, portanto, aborda a processualidade, isto é, o modus operandi do
sistema de resposta social externos ao suporte. Por meio da visualização e identificação dos
modos de afetar e intercruzar os meios de comunicação comerciais, os formais, os
movimentos sociais, da blogosfera da SP, redes sociais e a sociedade, apresenta-se adiante, a
segunda perspectiva analítica e sua interpretação.
3.2.2. O Sistema de Resposta Social - SRS
Entende-se por Sistema de Resposta Social (SRS) o processo de interação macro da
sociedade com os meios de comunicação, mas que vai além deles, à medida que é uma
resposta ampla, difusa e diferida no tempo e no espaço. Trata-se de um processo interacional
que ocorre, sobretudo, a partir da apropriação, ressignificação e produção de novos sentidos
dos conteúdos midiáticos, indo além de uma resposta/retorno pontual por parte dos atores
sociais. Como salientado por Braga (2006), o SRS corresponde a um modelo de conversação
social sobre os conteúdos simbólicos mediados pelos dispositivos técnico-midiáticos que se
alteram continuadamente à medida que circulam na esfera pública, podendo ter um sentido
direto ou indireto, diferido e difuso.
Em diálogo com esta perspectiva interacional, foi possível averiguar que o SRS foi
alimentado no blog da Renata por dois tipos de movimentos interacionais: as remissões
corresponderam à interação dentro do blog, com repercussão interna (abordado na primeira
categoria de análise), e os interagendamentos, que demonstraram a transversalidade de
conteúdos do blog com as outras mídias, isto é, conversações reverberadas (em outros blogs e
mídias sociais, comerciais e institucionais) durante todo período da mobilização
reivindicatória de 2011, em situações de convergência.
110
Verificou-se que os fluxos comunicacionais nesse período apresentaram-se como um
sistema de resposta social, como um modo de afetação mútua, de reverberação, de
conversação social entre atores sociais relacionados à discussão da SP, uma vez que tal
sistema se manifestou tanto no interior do blog quanto fora dele por meio de conversações
entre os agentes envolvidos e da repercussão de suas postagens em diversos meios e
instâncias de comunicação.
Nesse sentido, foi possível acompanhar a conversação do blog com a mídia
convencional e vice-versa, e ainda, a postagem de links sobre notícias publicadas nos meios
de comunicação externos relacionados às temáticas de interesse da SP, além de replicar
notícias sobre o movimento reivindicatório, publicadas nos meios externos ao blog. Por sua
vez, tais meios repercutiam notícias e informações divulgadas no blog, monitorando e
ecoando assim, seus conteúdos.
Em relação aos interagendamentos no período da mobilização reivindicatória com a
mídia comercial em Minas Gerais, os principais jornais que o blog continuamente recorreu
foram: O Tempo on-line, Estado de Minas, por meio do jornal on-line Uai, Hoje em Dia e G1,
da Globo.com, conforme novo detalhamento a seguir:
FIGURA 32: Interagendamento com jornal on-line Uai
Fonte: blog da Renata e Jornal Estado de Minas – UAI on-line
Identificou-se, também, durante este período interagendamentos entre o blog e jornais
de outros estados, além de menções no blog sobre programas de televisão e rádio, bem como
de inserção de vídeos e links de emissoras com reportagens ligadas a temas de interesse dos
agentes de SP, porém, com menos regularidades. Além do interagendamento entre o blog e a
mídia televisiva, particularmente a TV Alterosa e as rádios CBN e Itatiaia.
Embora o interagendamento do blog e da mídia on-line tenha sido predominante,
verificou-se que as mídias impressas colocaram, em suas pautas, temáticas discutidas pela
classe de SP no blog da Renata, como se demonstra na figura n. 33 a seguir:
111
FIGURA 33: Interagendamento entre blog e mídia impressa
Fonte: Jornal Hoje em Dia e Estado de Minas
Ainda em relação à mídia comercial, o blog supervisionou os agendamentos
relacionados ao segmento da SP, além de promover a continuidade de discussões. Isso
contribuiu para que os participantes do blog fizessem críticas, tomassem posicionamentos e
exercessem pressão sobre os conteúdos veiculados nas mídias que contrariassem seus
interesses e pontos de vista. Esse movimento interacional, de acordo com Braga (2006),
assume a função de reordenar, reorganizar e ressignificar os conteúdos e produtos midiáticos.
Assim, o esforço de crítica, de enfrentamento e controle da mídia se dá também por meio da
própria mídia. Braga (2006) considera que uma das características desse sistema interacional
diz respeito ao uso da mídia (individual/coletivo) como ambiente propício para o exercício da
militância, de partilha, de poder e de posicionamento de argumentos.
Em outros termos, a dinâmica interacional do blog da Renata com a mídia comercial
mostrou a validade e pertinência do pensamento de Braga, que considera que os atores
potencializados pela possibilidade de interconexão, articulação e visibilidade, podem então
conhecer, se reconhecer e fazer os outros se reconhecerem por meio das trocas sociais e do
compartilhamento do simbólico. (BRAGA, 2000).
Corrobora-se a validade do SRS formulado por Braga (2006) ao considerar que a
mídia, como processo interacional de referência, transforma os demais processos sociais, mas
não os excluem. Nesse sentido, o redesenho e redirecionamento do processo interacional se dá
não apenas na interação entre mídias e atores sociais, mas também fora e além do ambiente
midiático, como já foi assinalado anteriormente. Daí que a repercussão dos assuntos tratados
no blog também foram objetos de discussões em outras instâncias sociais, não
necessariamente mediadas por algum suporte técnico-midiático.
Verificou-se, portanto, que os conteúdos discutidos no blog reverberaram em
instâncias sociais mais amplas, a exemplo do tema das paralisações e organizações coletivas,
que também repercutiram na Assembleia Legislativa de Minas Gerais - ASLEMG e na
Câmara Municipal de Belo Horizonte – CMBH. O blog da Renata atuou aí como instrumento
112
de divulgação de conteúdos relacionados à mobilização e organização para greve, assumindo
uma função importante de circulação de discursos relacionados ao segmento da SP.
A temática da greve repercutiu nas relações entre os agentes públicos, tanto no interior
de seus ambientes de trabalho quanto nos seus movimentos organizados, ampliando e
diversificando suas formas de interação. A partir deste envolvimento social macro, retoma-se
Maia (2002b) para destacar que as redes cívicas contemporâneas configuram as relações entre
seus membros por meio do compartilhamento simbólico. Assim, o blog afirmou-se como
ambiente virtual propício para travar discussões e potencializar o pertencimento e a
visibilidade de lutas sociais e político-ideológicas. Como se verificou na pesquisa empírica, o
blog da Renata foi utilizado pelas entidades, movimentos sociais e sindicatos da categoria,
com objetivo de dar abrangência, visibilidade e mobilização a suas causas. A regularidade de
postagens com estes atores e os desenhos dessas interações revelaram os rastros
comunicacionais deixados no suporte e desnudaram as articulações e parcerias entre o blog e
frentes políticas. Tais vínculos, em especial com a Associação dos Praças Policiais e
Bombeiros Militares de Minas Gerais – ASPRA, Sindicato da Polícia Civil – SINDPOL e
outras lideranças políticas, podem ser demonstrados pelos links internos ao blog e
interagendamentos entre suporte e entidades/figuras políticas, conforme figura n. 34:
FIGURA 34: blogs de frentes política e vínculos midiáticos com movimentos
Fonte: blog da Renata e ASPRA
Em relação à dinâmica midiática com os meios formais, de forma geral, o blog
retransmite conteúdos de cunho institucional das janelas on-line oficiais (por meio dos sites
institucionais)
à
seus
atores.
Conforme
visto
em
Braga
(2006),
esse
fluxo
(emissão/recepção/resposta) credita um papel ativo ao blog da Renata de redimensionar,
redirecionar
e
ressignificar
os
produtos,
modificando
conteúdos
e
produzindo
subsequentemente novos discursos. O blog então “customiza”, isto é, dá nova roupagem nas
113
publicações originadas dos sites institucionais. Assim, verificou-se a ressignificação dos
conteúdos por meio da interferência midiática dos atores.
Já no período da mobilização reivindicatória da SP mineira em 2011, identificou-se
somente a conversação entre blogs, blogosfera da SP, redes sociais e mídias comerciais, isto é,
não se constatou interagendamentos oficiais com o blog da Renata. No entanto, é importante
ressaltar que não se constatou a resposta direta, isto é, a conversação linear específica,
publicizada, , da instância formal para o blog no período da mobilização; porém, certificou-se
o acompanhamento silencioso da esfera formal dos conteúdos temáticos trocados no ambiente
digital (no blog e na blogosfera da SP). Nesse aspecto, o SRS com as instâncias
formais/institucionais,7 foi fomentado em paralelo, pelos agentes de SP e não pelos meios
oficiais e deu-se essencialmente por meio de comentários/discussões no blog (replicados na
blogosfera, redes sociais e mídias).
As formas de comunicação governamentais e institucionais se mostraram insuficientes
e não subsidiaram a demanda por informação (pelos blogs, pela blogosfera, pelas mídias, pelo
cidadão e pelos interessados de forma geral nas ações, atuações e políticas públicas
relacionadas à mobilização reivindicatória da SP). Constatou-se uma insuficiência na política
de comunicação formal, pela aparente necessidade de os atores se comunicarem,
compartilharem realidades e se posicionarem como agentes públicos por meio do blog. Dessa
forma, verificou-se que inexistem, por parte dos meios oficiais, suportes dialógicos oficiais
que promovam a discussão pública com a sociedade, bem como uma comunicação mais direta
com os servidores da SP.
No período da mobilização, as informações referentes ao Sistema de Defesa Social
foram visualizados de forma superior nas instâncias informais (a exemplo do blog da Renata)
do que nas comunicações oficiais. Por meio do blog foi possível vislumbrar conteúdos
relacionados aos órgãos de SP e de seus atores, o que não ocorreu nos meios oficiais (SEDS,
PMMG PCMG e CBMMG), já que tais instituições, apesar de serem parte de um sistema, não
organizam a comunicação de forma colegiada, isto é, tratadas de forma integrada.
7
Ressalte-se que não se teve como objetivo nesta pesquisa proceder a uma análise dos canais de comunicação de
cada instituição que compõe o Sistema de Defesa Social, nem mesmo, o aprofundamento das processualidades e
da gestão dessas vias de informação que caracterizam as formas de interface das instituições com o blog da
Renata, (ou mesmo, com a blogosfera, mídia comercial ou com a sociedade civil). No entanto, para se analisar o
interagendamento tornou-se necessário investigar as mídias on-line da SEDS, da PMMG, da PCMG e do
CBMMG, isto é, portais governamentais destinados à sociedade em geral, inclusive à mídia comercial, para
esclarecimento e divulgação das funções/rotinas das instituições.
114
Em síntese, o blog da Renata e a blogosfera temática espelharam, de um lado, um
ambiente de fragmentação da comunicação oficial dos órgãos de SP e, de outro, a
efervescência de questionamentos e posicionamentos dos seus agentes por meio de suas
instâncias de comunicação, a exemplo dos suportes digitais – blogs, redes sociais etc.
Verificou-se por meio da observação e monitoramento das postagens que o ambiente digital
retrata essa demanda reprimida, publicizando assuntos considerados restritos pelos
organismos governamentais.
Em entrevista com jornalista da Assessoria de Comunicação da SEDS, confirmou-se
que as mídias convencionais recorrentemente solicitam da área responsável posicionamento
do Governo referente à divulgação ou postagem dos blogs relacionados à classe dos agentes
de SP (especialmente em relação aos militares e aos agentes penitenciários). Essa afirmação
revela que há repercussão das discussões travadas nos ambientes digitais relacionados à SP, e
ainda, que é demandada dos meios institucionais, respostas oficiais sobre questões de
interesse do segmento.
Foi também extraído dessa entrevista que novas políticas governamentais em relação à
comunicação oficial têm sido elaboradas para atender à demanda por informação das redes
digitais. Nesse aspecto, de acordo com o plano plurianual do governo de Minas Gerais, todas
as assessorias institucionais devem ter profissional responsável pela gestão das redes sociais,
emitindo divulgação on-line das respectivas ações das pastas (Secretarias de Governo). Foi
verificado também, a publicação do Decreto Estadual n. 45.241, de 2009, que dispõe sobre o
acesso às novas ferramentas interativas da Web 2.0 em uso nos órgãos e entidades da
Administração Pública, inclusive ao livre uso de blogs, comunidades virtuais, sites, entre
outros, o que demonstra a crescente importância dada aos meios digitais como política de
comunicação oficial. Identificou-se ainda, que o blog utiliza da prerrogativa da lei federal de
acesso à informação, de n.12.527, de 18 de novembro de 2011, que obriga os órgãos públicos
a prestarem, em 48 horas, informações à sociedade civil, como forma de pressionar e exigir as
respostas institucionais necessárias.
Ademais, observou-se que a mídia comercial recorre aos blogs como fonte de
informação e, ainda, que os meios formais recorrem aos blogs para leitura de cenário. Na
referida entrevista com o jornalista da Assessoria de Comunicação da SEDS, apurou-se o
acompanhamento das redes digitais por parte das instituições como norteador da postura da
classe e organizações do segmento. Apesar da negação das paralisações pelo Governo,
constatou-se por parte dos órgãos o monitoramento sistemático do cenário das
115
paralisações/organizações da classe da SP por meio da blogosfera temática e, em especial, do
blog da Renata.
Somente após a divulgação oficial do reajuste da classe (período pós-mobilização),
identificou-se novamente a resposta direta, isto é, conversação linear e explícita entre o blog e
instituições/governo. Tal conversação foi visualizada por meio de questionamentos após
negociação e desfecho das reivindicações. Notou-se conversação visível entre os
administradores do blog e Governo por meio de questionamentos pontuais do blog à
Secretaria de Governo (prerrogativa Lei Estadual n. 12.527), em relação ao alto número de
efetivos administrativos fora das ruas e necessidade de aumento do efetivo operacional
(assunto constante de controvérsias e reivindicações da classe), conforme figura n. 35 a
seguir:
FIGURA 35: Interagendamento oficial e informal por meio do blog da Renata
Fonte: blog da Renata
Em relação ao SRS com a blogosfera da SP confirmou-se o interagendamento com
outros blogs de forma regular. Esses interagendamentos podem ser vistos com grande
recorrência no suporte, com links diários para interfaces integrantes da blogosfera temática.
Existe, nas barras laterais acesso direto a blogs ligados ideológica e politicamente ao blog da
Renata, condicionando/influenciando a visita aos suportes. Há também a menção da origem
da notícia no blog da Renata, com remissão para a postagem original. Constatou-se uma
espécie de clipping diário para que o participante tenha acesso a outros blogs integrantes da
temática com hiperlinks direcionados à rede de blogs da SP, de mesma linha políticoideológica. Os links ilustrados adiante demonstram conexões na blogosfera temática
exploradas pelo blog no período da mobilização reivindicatória, conforme figura n. 36 a
seguir:
116
FIGURA 36: links para outros blogs integrantes da blogosfera policial
Fonte: blog da Renata
Observou-se a ocorrência da resposta social por meio dos interagendamentos entre
toda a blogosfera da SP e meios de comunicação institucionais e comerciais no período prémobilização reivindicatória, mobilização reivindicatória e pós-mobilização reivindicatória.
Observou-se, sobretudo, que as tentativas de organização e mobilização social ocorreram em
grande parte por meio dos interagendamentos e da conversação social entre o blog da Renata
e pela rede virtual formada pela blogosfera temática. As redes sociais foram responsáveis por
dar agilidade, dinamicidade, poder de adesão e por manter em efervescência a publicização da
mobilização da SP de 2011.
Identificou-se que, além da convergência de mídias (comerciais e formais), entre blogs
da blogosfera da SP, ocorreu neste período ampla transversalidade entre redes sociais. Assim,
comprovou-se o SRS por meio dos interagendamentos com redes sociais e outras plataformas
digitais on-line, em conexão com o blog da Renata, como por exemplo, o Facebook e o
Twitter.
No Facebook, as interações referentes à mobilização reivindicatória da classe
aconteceram em grande parte com as replicações das postagens do blog da Renata. O recurso
foi preponderante para a rápida mobilização, divulgação e participação em atos e
manifestações políticas. No caso do Twitter, a dinâmica apresentou-se peculiar e merece ser
demonstrada neste momento, já que ilustra (por meio da figura a seguir n. 37), o
acompanhamento das atividades do blog da Renata por atores da rede de SP, em tempo real.
Identificou-se o monitoramento das menções e comentários on-line do blog nas redes sociais
por agentes da SP, instituições, movimentos sociais e a mídia comercial, formando uma rede
de vigilância, observação e conversação. Essas interações podem ser vistas por meio do
acompanhamento pelos atores citados como seguidores dos conteúdos do blog da Renata, pelo
Twitter:
117
FIGURA 37: Exemplo de acompanhamento e monitoramento do blog da Renata
Fonte Twitter do blog da Renata
A temática da reivindicação extrapolou a dinâmica interna do blog da Renata,
repercutindo em outras instâncias sociais e promovendo a conversação social. Em suma,
entende-se o SRS como processo interacional que possibilita a interferência de atores nos
produtos midiáticos e intervenções coletivas por meio do esforço de compartilhamento
simbólico. (BRAGA, 20006).
O SRS é visto, portanto, como uma dinâmica interacional que estimula processos
sociais midiáticos de diferentes ordens. Por meio da ação de atores (individuais/coletivos) no
blog da Renata foi possível visualizar processos de crítica, pressão, militância, controle,
vigilância, enfrentamento, continuidades, associações, aprendizagem, ações contrapositivas,
interpretativas, ressignificativas, corretoras de percurso, polemizadoras, de estímulo, de alerta,
entre outros. A adesão, a crítica, as objeções interpretativas, as pressões exercidas, as ações de
militância, a organização da coletividade, os movimentos, o esforço de controle sobre a mídia,
as referências históricas criadas, os processo formativos compõem algumas das principais
formas de manifestação e de resposta social percebidos na rede. (BRAGA, 2006).
Nesse sentido, a análise da resposta social por meio do blog da Renata na mobilização
reivindicatória de 2011 foi preponderante para a constatação das conexões entre atores, blogs,
entre instituições, entre movimentos, entre mídias e na demonstração de um modus operandi
que revelou uma dinâmica ampla de conversação e circulação social.
3.3. Mensuração das participações no blog da Renata
O desenvolvimento da pesquisa mostrou a influência da rede midiática digital por
meio do crescimento da blogosfera da SP em nível nacional, número de blogs criados
recentemente em Minas Gerais, da participação em comentários, interagendamentos, remissão
de postagens, observação da mídia como referência para pautas jornalísticas e, sobretudo, a
118
constatação do ambiente como locus de adesão de agentes de variadas instituições e de
relações midiatizadas.
No entanto, para completude da investigação, utiliza-se da demonstração estatística
que auxilie, direcione e subsidie a análise da dinâmica interacional e do sistema de resposta
social, revelando a mensuração da demanda interna pelo blog e o crescimento dos acessos no
suporte e os fluxos de circulação externos.
Como o caráter processual foi o objeto principal desta investigação, neste momento,
subsidiariamente, recorre-se a dados técnicos que revelem características da participação
estabelecidas no blog da Renata. Estes dados e análise não representam a interação na rede e a
demonstração do SRS, mas demonstra informações importantes que complementam a
investigação sobre o processo comunicacional no blog da Renata.
Para isso, recorreu-se a balizadores que pudessem retratar, mapear e detalhar o cenário
de conexões e a rede fomentada a partir do blog a saber: “Locais de acesso”, com indicação
das cidades com predominância e maior incidência de conexões, “Zona quente de acesso”,
que demonstra a região de maior participação geograficamente, “Crescimento de acessos”,
com histórico de acessos por ano, recorrendo ao período da mobilização reivindicatória de
2011, e “Horários de acesso”, com picos das participações durante 24 horas.
Em relação aos locais de acesso, indicam-se no mapa os locais predominantes de
participação no blog, com indicação das cidades com maior incidência de conexões. No blog
da Renata identificou-se, por meio dos comentários, que a maior concentração de
participações são referentes à Região Metropolitana de Belo Horizonte. Verificaram-se as
localidades de acesso predominantes na cidade de Belo Horizonte, mas com inúmeros acessos
em outros municípios do estado de Minas Gerais, mesmo com menor envolvimento do
interior. Identificam-se os acessos pelo blog da Renata, nacionalmente, como se vê no mapa
adiante, por meio da figura n. 38. Essas conexões nacionais remetem à rede de
monitoramento, solidariedade, vínculos e vigilância entre movimentos sociais de outros
estados. (BRAGA, 2006; MAIA, 2002b)
Identificaram-se também acessos internacionais ao blog da Renata. Convém ressaltar
que tal registro ao endereço do blog, internacionalmente, não significa necessariamente o
interesse de países estrangeiros pelos conteúdos do suporte. Hackers, por exemplo, utilizam
de IP internacional como forma de invadir sites e não deixar rastros.
Demonstram-se as zonas quentes de acesso, que mostram a região de maior
participação geograficamente. Nessa análise cartográfica, não se objetivou detalhar as cidades
onde se relacionam os locais de acesso, mas apresenta-se a visão geral de um fenômeno de
119
crescimento, especificando macroáreas de adesão e participação, conforme metodologia de
georreferenciamento. O mapa revela a homogeneidade das conexões ao blog da Renata, com
abrangência e concentração nacional. Assim, nessa representação, tanto os acessos da Região
Metropolitana da Belo Horizonte quanto do interior se unificam, revelando a uniformidade
das participações nos municípios, no estado e fora dele. A título de informação, o Sistema de
Defesa Social de Minas Gerais, têm, atualmente, representatividade nos 853 municípios de
Minas Gerais.
FIGURA 38: Mapa de locais de acesso e zona quente do blog da Renata
Fonte: whos.amung.us
A interpretação do gráfico adiante é de suma importância para esta investigação, uma
vez que aponta a evolução de acessos de 2008 até 2012. O número de 2008 a 2012,
representado por meio da figura n. 39, significa o máximo de conexões diárias registradas no
blog.
No ano de criação, o blog da Renata obteve zero de participação, porém, o número não
representa as conexões estabelecidas, já que se constatou que o sistema de aferição só foi
sincronizado ao suporte após ele ter sido “hackeado”, em 2008. Desse modo, a análise de
2009 é representativa do crescimento de participações, contabilizando 69 pessoas por dia no
site. Em 2010, o número cresce para 403 acessos diários e, em 2011, período da mobilização
reivindicatória da SP mineira, tem um exponencial avanço, contabilizando o referente a 1.137
acessos por dia. O mapa de acessos demonstra crescimento considerável no ano de 2011 com
maior número de participações.
O crescimento demonstra que o período da mobilização reivindicatória foi
preponderante para a observação, participação e acompanhamento dos conteúdos midiáticos
do blog da Renata nas redes digitais temáticas. Como se identificou no estudo de caso, na
análise da atuação do blog na mobilização reivindicatória da SP de 2011 e no modus operandi
120
do sistema de resposta social do blog da Renata, a temática de reivindicação atiça o interesse e
a curiosidade pelos canais de comunicação coletivos do segmento.
O número de acessos diários representa uma importante parcela do efetivo das
instituições de SP conectados, mesmo se considerando as participações assíduas, já que em
pesquisa à SEDS (conforme anexo 2), identificou-se que, somados o efetivo da PMMG (cerca
de 46.000), PCMG (cerca de 12.000) e CBMMG (cerca de 5.000), estaria em torno de 63.000
servidores. É importante recuperar neste momento que a figura n. 46 comprovou a maior
incidência de acessos em Belo Horizonte, seguido em menor proporção pelo interior do
estado, onde é menor o efetivo administrativo, com maior presença de agentes operacionais
em atividades externas de campo e a menor acessibilidade à informação.
Em 2012, a referência de acessos caiu drasticamente para 178 conexões diárias, o que
demonstra que o acesso está diretamente vinculado aos conteúdos mais polêmicos do
segmento.
A adesão crescente e a exponencial capacidade de agregação no período de 2011
justifica o emergente uso político das redes digitais pelos movimentos sociais, à utilização do
suporte como mídia de mobilização e discussão em torno dos assuntos reivindicatórios e
interesses coletivos. A figura n. 39, a seguir, subsidia a análise produzida:
FIGURA 39: Acessos no blog da Renata
Fonte: whos.amung.us
Outra identificação importante refere-se aos horários de maior acesso ao blog da
Renata, que retrata os períodos de maior utilização entre 10, 11, 12 e 13 horas e após as 16 até
às 22 horas. Os horários tendenciam a análise para a identificação do uso no horário de
almoço dos agentes públicos e após o término do trabalho, que naturalmente remete ao
contexto operacional da classe. É importante considerar também a limitação de acessos aos
121
blogs nas instituições, já que os endereços URLs, em parte das instituições relacionadas,
possuem políticas de restrições específicas. O gráfico, a seguir, demonstrado pela figura n. 40,
atesta os intervalos e picos mais importantes:
FIGURA 40: Estatística de Horários de maior acesso ao blog da Renata
Fonte: whos.amung.us
122
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na tentativa de ampliar o estudo das redes comunicacionais para além do
instrumentalismo, objetivou-se com esta pesquisa analisar o processo comunicacional, a
dinâmica interacional e o sistema de resposta social que emergem nos ambientes midiáticos
digitais, especialmente na blogosfera da Segurança Pública.
Propôs-se pensar a comunicação para além de uma visão cartesiana, da simples
disseminação de informações, mas, sim, adiante no entendimento linear da informação, como
dispositivo estruturante de processos complexos. Diante desse rico e diversificado locus de
relações, compreende-se que a complexidade tornou-se central no entendimento das
dinâmicas das redes formadas, no intercâmbio de seus significados. A ótica da complexidade
assume a subjetividade e a multiplicidade, a ordem e a desordem, a cooperação e o conflito, a
associação e a dissociação, o informal e o formal, enfim, os dialogismos que devem
acompanhar todo raciocínio.
A percepção dessa realidade exige um mapeamento capaz de abarcar uma lógica
conectiva abrangente e, consequentemente, uma visão aglutinadora e sistêmica. Considerar a
comunicação sob o ponto de vista da complexidade significa, então, olhar para além dos
polos, iluminar a circulação, as conversações, de forma a ultrapassar a superfície e
especializar-se em uma visão que escape, sobretudo, dos radicalismos, que pairam sobre a
ordenação ou sob o caos completo.
Buscou-se, portanto, pesquisar o fenômeno da
midiatização por uma visão da interação entre as partes, entre atores, nas interfaces,
abarcando as comunicações transversais, centrais e também periféricas. O foco desse estudo,
portanto, iluminou os elos, as interseções e as mediações estabelecidas por meio da noção de
rede, por meio da interação nas tramas desse dispositivo midiático.
O estudo do processo comunicacional midiático na contemporaneidade, sob o ponto
de vista desta pesquisa, deve ser suficiente para vislumbrar e, ainda, absorver a
heterogeneidade. Estudar as redes comunicacionais significa partir de regularidades
interacionais sem deixar de observar e compreender os elementos dinâmicos, suas vozes,
silêncios, sem perder de vista a noção de continuidade, e, sobretudo, sua compreensão
sistêmica. Compreender a rede significa, portanto, perceber e ler este cenário, inicialmente
opaco, turvo, confuso, misturado, mas, acima de tudo, desvendar as interações presentes, sem
cristalizá-lo, sem topologias, com os movimentos que lhe são próprios.
123
A blogosfera da SP demonstrou a convergência entre atores e conexões, a
potencialidade de conversação instituída, as dinâmicas sociais midiatizadas propiciadas pela
capacidade de agregação, velocidade e visibilidade das redes.
Ao introduzir como estudo de caso o monitoramento de mídia por meio do blog da
Renata, tentou-se reproduzir o cenário de mobilização para reivindicação salarial e estrutural
da SP de 2011 e, por sua vez, o contexto, o cenário de interação que o suporte refletiu (interno
e externo), seus atores, suas conexões, vínculos, conteúdos e intencionalidades. Assim, o
acompanhamento do blog da Renata possibilitou a reflexão relacionada a temáticas relevantes
no campo da Comunicação Social: os estudos sobre redes, a constituição de capital social,
deliberação digital, movimentos sociais na rede, mobilização, interação midiatizada e sistema
de resposta social.
Constatou-se entre os atores da SP de Minas Gerais, o interesse latente de expressão
em torno dos assuntos relacionados às reivindicações, descontentamentos, vivência, pressões,
discordâncias e condições comuns de trabalho. Verificou-se que o ambiente midiático virtual
fomenta socialmente conversações relativas às questões próprias do segmento, às
representações das instituições, aos estereótipos da classe, à realidade de fatias representativas
e grupos de interesse.
Ressalte-se que o processo interacional fomentado pelos atores na blogosfera da SP foi
predominantemente rico, transversal e deliberativo, mas, por meio do blog da Renata, não
constituiu uma esfera pública democrática efetiva.
Observou-se que o suporte midiático deu visibilidade a manifestação/atuação de seus
atores integrantes, porém, o uso da mídia foi condicionado. Assim, o blog da Renata não
produziu mensagens descomprometidas e desvinculadas, retratando interesses de associações,
sindicatos, movimentos sociais. Em suma, o blog não se sustentou como ambiente equitativo
e de função cívica, sobressaindo a incitação oposicionista e os ataques.
O processo de midiatização revelou a potencialidade desse dispositivo midiático como
suporte agregador e mobilizador, como meio de vigilância, monitoramento, expressão e
visibilidade, e por outro lado, transpareceu a intencionalidade na atuação do blog da Renata
no período da mobilização reivindicatória de 2011. O ambiente demonstrou força de coesão e
mobilização, e, sobretudo, como os ambientes digitais servem contemporaneamente as novas
formas de organização coletiva. O rápido desfecho da mobilização reivindicatória (e a
negociação menos radical com a classe, contrariamente como ocorrido na greve de 1997) é
justificada, inclusive, pela possibilidade de visibilidade da situação revelada nas redes
(possível em 2004 e 2011 por meio da Internet). A visibilidade das dinâmicas interacionais e
124
as conversações sociais proporcionaram maior agilidade e direcionamento por parte do
governo para tomadas de decisão e intervenção. Infere-se que as informações dispostas nas
redes midiáticas atuam como indicativo e termômetro da situação, como referencial
contextual, facilitadoras da percepção de cenários, riscos, probabilidades e consequências.
O suporte midiático engendrou importantes conversações e serviu como ambiente de
trocas e disputas de sentidos sociais, internas e externas ao blog. Os movimentos de remissão
(observados quanto ao critério de interdiscursividade, em instância micro) e de
interagendamentos (sob a perspectiva da hipertextualidade, vistos em instância macro)
também foram analisados e interpretados como características relevantes do processo
interacional. Essa transversalidade foi efetiva por meio dos sistemas de circulação e
conversação gerados e pela convergência das mídias. O SRS ocorreu por meio dos blogs
integrantes da blogosfera da SP, com a mídia comercial, movimentos sociais, redes sociais e
mídia oficial (instituições de SP e Governo).
Observou-se que as deliberações em torno da possível greve na blogosfera da SP e nas
redes sociais foi forte e expressiva, a mobilização por meio dos blogs foi crescente, com a
adesão do segmento. O blog atuou como uma espécie de filtro e intermediou os conteúdos
midiáticos ao segmento, influenciando as trocas. Os blogs da blogosfera da SP, em especial o
blog da Renata, difundiram amplamente o contexto de paralisação e mobilização de forma
partidária.
O interagendamento midiático do blog da Renata com publicações da mídia comercial
foi crescente, com predominância de trocas entre ferramentas on-line do ambiente virtual,
confirmando a tendência de expressão do segmento nas redes virtuais. Em relação ao
interagendamento com as instâncias formais e com os movimentos sociais, o blog
demonstrou, expôs e articulou uma movimentação paralela, que contrapôs o silêncio oficial.
Diante da posição silenciosa do governo, os atores da SP colocaram em prática as inúmeras
possibilidades de uso do suporte midiático como ambiente de resposta social. O amplo
interagendamento entre os blogs integrantes da blogosfera da SP consolidou uma rede de
discussão entre as vias informais digitais de comunicação. Verificou-se, também, o
interagendamento entre redes sociais e ferramentas de comunicação. A convergência com
diversos tipos de mídias foram verificadas, no entanto, conclui-se da emergência das
estratégias de uso do ambiente on-line, por meio da blogosfera, blogs e redes sociais. Assim,
verificou-se o uso da rede midiática digital como tendência no envolvimento, na ação
coletiva, difusão, organização, agregação e mobilização, devido a sua capacidade de
circulação/alcance.
125
Conclui-se que o processo comunicacional do blog configurou uma interação, que
possibilitou que os atores do segmento da SP continuassem na absorção dos conteúdos
emitidos, que se manteve na mídia e fora dela. Desta forma, o blog atuou como dispositivo
interacional que estabeleceu trocas difusas no espaço e diferidas no tempo, diretas e indiretas,
simétricas e assimétricas, processos informacionais lineares, bidirecionais e não lineares, isto
é, como se viu, dinâmicas comunicativas recíprocas e não recíprocas.
Daí a ação dos atores nesse espaço público midiático foi potencializada,
proporcionando a amplificação de uma realidade social e a participação de diferentes
instâncias (mídias, estado/instituições e sociedade). A presença dos atores no blog revelou
diferentes formas de reverberação social e representou a ampliação da percepção do cenário
dos acontecimentos. O blog serviu como instrumento para as estratégias de mobilização,
fortalecido pelos movimentos de interagendamento com a mídia comercial. O blog atuou
como suporte que favoreceu e dinamizou os processos interacionais dos agentes de SP, de
coesão de grupos, de vínculos e laços.
Em síntese, o processo comunicacional se configurou por momentos de mobilização
na rede, coesão, cooperação entre agentes de SP, estabilização, difusão, conflito, integração,
desestabilização, desintegração de interesses e dispersão das forças do segmento,
consolidando assim, a interação no ambiente como dispositivo constituidor de significados e
sentidos.
No período da mobilização reivindicatória da SP de 2011, este ambiente, por um lado,
retratou angústias, vozes contidas e realidades organizacionais discordantes, por outro viés,
mostrou a riqueza e complexidade de um processo comunicacional inter-relacionado
cooperativo (subjetivo e coletivo), próprio de um jogo de enunciados. Após leitura desse
cenário denso, misturado, opaco e diverso, conclui-se que o blog funcionou como dispositivo
midiático interacional peculiar sob a perspectiva da ação dos atores conectados, da coleta,
divulgação, difusão e mobilização cadenciada pelas reivindicações da classe e colocada em
prática pelos movimentos sociais organizados.
Por fim, afirma-se da necessidade de escapar da superficialidade que implica pensar
que o processo comunicacional é produto da imparcialidade, da concordância e da
reciprocidade. É por meio do estudo da interação, nas tramas das redes, que se tornam
possíveis as nuances singulares à investigação, isto é, identificar os atores, as conexões, as
linhas ideológicas, os discursos, a discussão fomentada, os propósitos, bem como, as
estratégias e os meios utilizados.
126
A mobilização reivindicatória de 2011 serviu como referência para interpretar os
processos comunicacionais midiatizados do segmento de SP, e, sobretudo, as emergentes
formas de mobilização por meio dos ambientes on-line. As redes propiciaram além da ação
individual, coletiva, conversação, debate, discussão e a interpretação, a visualização da
contrainformação, do contra-argumento, da ressignificação, do convencimento e da persuasão.
Esta janela virtual permitiu o olhar da dinâmica interacional nas redes temáticas de SP, a
construção e leitura de seus fluxos comunicativos e a constituição de um sistema de resposta
social em uma fração temporal de exponencial presença nas redes digitais.
Sob o olhar da Comunicação, interessou para esta análise os movimentos
comunicacionais desse ambiente diverso. O objeto de estudo apresentado revelou a
complexidade do processo comunicacional por meio da interação nas redes digitais temáticas
e das diferentes formas de manifestação desse rico fenômeno comunicacional, a midiatização.
Esta investigação serviu para sistematizar estudos sobre a interação midiatizada do segmento
da SP, levantar a importância do cruzamento das temáticas entre Comunicação Social e SP, e,
sobretudo, contribuir para novas discussões, novos olhares, novas perspectivas no campo
empírico e acadêmico. Este estudo foi tão somente um ponto de partida para novos
desdobramentos, perspectivas e visões.
127
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2003. Entrevista concedida a Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke, 2003.
136
ANEXOS
ANEXO A - ROTEIRO DE ENTREVISTAS DIRECIONADA BLOG DA RENATA
1.
Quais as características sobre o blog da Renata?
2.
Qual o histórico do blog da Renata?
3.
Qual o perfil da blogueira?
4.
Quais são os motivos de criar um blog sobre segurança pública?
5.
Qual o pensamento da blogueira sobre os outros blogs da blogosfera da
segurança pública?
6.
Como a blogueira afere e percebe a repercussão e popularidade do blog?
7.
Quem colabora com as postagens?
8.
Qual sua média de visitantes únicos?
9.
Qual o recurso de manutenção do blog? Existe custo? Há retorno financeiro
com o
10.
blog?
Quais são os impedimentos em relação ao blog. Quais são os pontos negativos em
relação ao blog?
11.
Como é a rotina de publicação e pessoal?
12.
Outros aspectos percebidos e não citados pelo blog:
a.
Pontos omitidos:
b.
Mensagens subliminares:
c.
Rastros na rede:
d.
Trajetória:
e.
Demais:
ANEXO B - ROTEIRO DE ENTREVISTAS DIRECIONADAS À SEDS
1.
A assessoria de comunicação recebe solicitação de esclarecimentos de
conteúdos publicados em blogs?
2.
Quais as ferramentas de comunicação disponíveis de acesso ao público em
geral?
3.
Existe alguma política de comunicação voltada para a mídia digital?
4.
Existe monitoramento de mídia na instituição?
5.
Todos os servidores tem acesso liberado? Há política de restrição?
6.
Qual o número de efetivo da instituição?
7.
Como é formatada a assessoria? Direcionada à mídia externa? Existe divisão?
ANEXO C - FORMULÁRIO PARA PROCESSO DE IDENTIFICAÇÃO UTILIZADO
PARA A ANÁLISE DO PROCESSO COMUNICACIONAL, INTERAÇÃO
CONTEXTO, CONTEÚDO E A ATUAÇÃO DO BLOG DA RENATA ENQUANTO
AMBIENTE DIGITAL MIDIATIZADO:
Especificações das publicações
1. Quantidade de recursos interacionais disponibilizados:
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2. Quantidade de recursos audiovisuais disponibilizados (com ou sem download):
( ) Fotos ( ) Gráficos ( ) Vídeos ( ) Desenhos ( )Áudios
3. Categorias em que se encontra o post:
( ) Blogosfera policial
( ) Cotidiano policial
( ) Curiosidades
( ) Dicas
( ) Equipamentos e viaturas
( ) Mortes de policiais
( ) Notícias polêmicas
( ) Opinião polêmica
( ) Política
( ) Política salarial
( ) Sobre o blog
( ) Violência, conflitos urbanos
( ) Discussões sobre segurança pública
( ) Outros
4. Conversação e resposta social com outras mídias:
( ) Televisão ( ) Rádio ( ) Impresso ( ) Internet
Nome do veículo:
Tipo de abordagem:
5. Conteúdo dos comentários:
( ) Favorável ( ) Discordante ( ) Imparcial ou neutro
6. Conteúdo das matérias veiculadas por outras mídias:
( ) Favorável ( ) Discordante ( ) Imparcial ou neutro
7. Observações sobre o cenário e contexto relacionado à publicação:
8. Diferenciação das participações relacionadas ao Corpo de Bombeiros Militar de
Minas Gerais – CBMMG:
9. Diferenciação das participações relacionadas à Polícia Militar de Minas Gerais –
PMMG:
10. Diferenciação das participações relacionadas à Polícia Civil de Minas Gerais –
PCMG:
11. Diferenciação das participações relacionadas à Secretaria de Estado de Defesa
Social de Minas Gerais – SEDS:
12. Diferenciação das participações relacionadas ao Governo de Minas Gerais:
13. Diferenciação das participações relacionadas aos grupos presentes:
14. Diferenciação das participações relacionadas à participação individual:
15. Observações sobre a perspectiva da interação e midiatização no período da
mobilização reivindicatória de 2011:
16. Observações sobre o blog em relação à resposta social midiatizada no período da
mobilização reivindicatória de 2011:
17. Observações sobre o blog em relação à expansão da visibilidade e repercussão no
período da mobilização reivindicatória de 2011:
18. Observações sobre as publicações em relação ao agendamento midiático no
período da mobilização reivindicatória de 2011:
19. Observações sobre as publicações em relação ao interagendamento midiático no
período da mobilização reivindicatória de 2011:
20. Observações sobre as publicações em relação às remissões midiáticas no período
da mobilização reivindicatória de 2011:
138
21. Observação das interações e resposta social dentro do período da mobilização
reivindicatória de 2011 e fora dele:
( ) Se repetem ( ) Não se repetem
ANEXO D - CONSULTAS NA WEB FREQUENTES PARA A INVESTIGAÇÃO
D.1. BLOGOSFERA DE SEGURANÇA PÚBLICA, INCLUINDO POLICIAIS,
BOMBEIROS, CIVIS, GUARDAS MUNICIPAIS, FEDERAIS E AGENTES
PENITENCIÁRIOS
www.blogdarenata.com
www.amigosdacaserna.com.br
www.blogdocabofernando.com
www.profissaobombeiro.blogspot.com
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www.pmerj.org/blog
www.bpfma-rj.blogspot.com
www.capitaoluizalexandre.blogspot.com
www.casodepolicia.com
139
www.choquedecidadania.blogspot.com
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www.numot5.blogspot.com
www.oalvodachibata.blogspot.com
www.pracasdapmerj.blogspot.com
www.projeto200anos.blogspot.com
www.marius-sergius.blogspot.com
www.agendadacidadania.blogspot.com
www.marceloitagiba.com
www.wanderbymedeiros.blogspot.com
www.coturnocarioca.blogspot.com
www.cronicasdeumsargentodepolicia.blogspot.com
www.esposadepracadapm.blogspot.com
www.recruta-pm.blogspot.com
www.somospracas.blogspot.com
www.termocircunstanciado.com.br
www.contodefardas.blogspot.com
www.emirlarangeira.blogspot.com
www.falodepolicia.blogspot.com
www.verdadepolicial.blogsome.com
www.cordeldaboladefogo.blogspot.com
www. policial.blog.br/martinezpmsc
www. thiagoldamaceno.wordpress.com
www.verbeat.org/blogs/cultcoolfreak
www.pilotopolicial.com.br
www.sargentolago.stive.com.br
www.sgtpmespfilipino.blogspot.com
www.investigadordepolicia.blog.br
www.flitparalisante.wordpress.com
www.eliteparalisante.blogspot.com
www.ligeirinho-ligeirinho.com
www.choque-pmse.blogspot.com
www.capitaomano.blogspot.com
www. tatico11.blogspot.com
www. honestidadedoi.blogspot.com
www. blogdainseguranca.blogspot.com
www.valteman.blogspot.com
www.acassg-bm-bergenthal.blogspot.com
www.depoimento-anonimo.blogspot.com
www.missaodepaz.wordpress.com
www.unpolicebrasil.blogspot.com
D.2. REDES E INDEXADORES
BLOGGER (www.blogspot.com)
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INFOWESTER (www.infowester.com)
INTERNEY (www.interney.net)
WINNEXT (www.winnext.com.br)
WHOS.AMUNG (whos.amung.us.)
D.3. MÍDIAS COMERCIAIS
O GLOBO (www.oglobo.com)
PORTAL G1 (www.g1.com.br)
PORTAL HOJE EM DIA (www.hojeemdiaonline.com.br)
PORTAL O TEMPO (www.otempoonline.com.br)
PORTAL UAI (www.portaluai.com.br)
PORTAL UOL (www.uol.com.br)
TECHNORATTI (www.technoratti.com)
D.4. REDES SOCIAIS
ORKUT (www.orkut.com.br)
TWITTER (www.twitter.com)
D.5. INSTITUCIONAIS E GOVERNAMENTAIS
SEDS – (www.seds.mg.gov.br)
PMMG – (www.pmmg.mg.gov.br)
PCMG - (www.pcmg.mg.gov.br)
CBMMG - (www.cbmmg.mg.gov.br)
GOVERNO DE MINAS GERAIS – (www.agenciaminas.mg.gov.br)
MINISTÉRIO DA JUSTIÇA (www.mj.gov.br)
D.6. FONTES DE PESQUISA DIRECIONADA
CESEC
UNESCO
(http://www.brasilia.unesco.org/noticias/ultimas/unesco-e-cesecestudaraoblogosfera-policial)
UNESCO - (www.unesco.org.br)
TJMG – (www.tjmg.mg.gov.br)
WIKIPÉDIA (www.wikipedia.org)
WORDPRESS (www.wordpress.com)
YOUTUBE (www.youtube.com)
D.7. MOVIMENTOS SOCIAIS, ASSOCIAÇÕES E SINDICATOS
ASPRA - (www.aspra.org.br)
SINDPOL – (www.sindpolmg.org.br)
CUME – (www.cume.org.br)
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GLOSSÁRIO
Interagendamento - O conceito de interagendamento, aqui proposto, traz em si um
aprofundamento do agendamento transversal midiático do blog da Renata, convergindo o
agendamento de vários veículos em um único meio.
Remissão - O termo remissão, proposto também por este trabalho, revela o silenciamento da
resposta midiática, isto é, a interconexão com outros meios sem a conversação entre mídias.
Blog (Weblog) – Página pessoal atualizada com frequência e disposta em ordem cronológica
inversa (iniciando pelo post mais atual). Caracterizada pelo tom informal e pela diversidade
de temas que pode abordar, pode ser escrita por uma ou mais pessoas e costuma expressar as
opiniões e ideias de quem a escreve.
Blogosfera – Comunidade virtual formada por quem faz, hospeda e visualiza blogs.
Comentários – Ferramenta que possibilita aos visitantes deixarem comentários sobre o que o
autor escreveu.
Post – Nome dado a cada publicação de texto ou imagem feita pelo autor, com título, data,
hora etc.
Blogueiro(a) – Autor do blog.
Moderador – Responsável pela seleção de comentários postados no blog e publicações do
site.
Blogroll – Lista de links para outros blogs ou sites, geralmente disposta na lateral do blog.
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Mendes, Ana Paula Giberti Oliveira