PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social – Interações Midiáticas Ana Paula Giberti Oliveira Mendes REDES INTERACIONAIS MIDIATIZADAS DA BLOGOSFERA DA SEGURANÇA PÚBLICA: Estudo do processo comunicacional durante o período da mobilização reivindicatória dos agentes da Segurança Pública de Minas Gerais Belo Horizonte 2013 Ana Paula Giberti Oliveira Mendes REDES INTERACIONAIS MIDIATIZADAS DA BLOGOSFERA DA SEGURANÇA PÚBLICA: Estudo do processo comunicacional durante o período da mobilização reivindicatória dos agentes da Segurança Pública de Minas Gerais Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação da Faculdade de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, como requisito para obtenção do título de Mestre em Comunicação. Orientadora: Maria Ângela Mattos Belo Horizonte 2013 FICHA CATALOGRÁFICA Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais M538r Mendes, Ana Paula Giberti Oliveira Redes interacionais midiatizadas da blogosfera da segurança pública: estudo do processo comunicacional durante o período da mobilização reivindicatória dos agentes da Segurança Pública de Minas Gerais / Ana Paula Giberti Oliveira Mendes. Belo Horizonte, 2013. 141f.: il. Orientador: Maria Ângela Mattos Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. 1. Redes sociais. 2. Mídia digital. 3. Segurança pública. 4. Comunicaç~eos digitais. 5. Blogs. I. Mattos, Maria Ângela. II. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. III. Título. CDU: 301.175.1 Ana Paula Giberti Oliveira Mendes REDES INTERACIONAIS MIDIATIZADAS DA BLOGOSFERA DA SEGURANÇA PÚBLICA: Estudo do processo comunicacional durante o período da mobilização reivindicatória dos agentes da Segurança Pública de Minas Gerais Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação da Faculdade de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, como requisito para obtenção do título de Mestre em Comunicação. ____________________________________________ Maria Ângela Mattos (Orientadora) – PUC Minas ____________________________________________ José Márcio Pinto de Moura Barros – PUC Minas ____________________________________________ Márcio Simeone Henriques – UFMG Belo Horizonte, abril de 2013 Dedico este trabalho aos honrosos policiais militares, bombeiros e policiais civis, também aos analistas de Segurança Pública e Defesa Social, guardas municipais, policiais federais, agentes penitenciários, enfim, homens e mulheres que trabalham para a melhoria da Segurança Pública e Defesa Social do nosso país. Esta pesquisa representa um esforço acadêmico-profissional focado em um novo contexto, um momento de novas perspectivas, contornos, culturas e interações. A diversidade e complexidade cultural revelada nos ambientes midiáticos digitais da Segurança Pública exige do Poder Público uma gestão baseada nas novas tecnologias, na gestão da informação e das redes comunicacionais digitais midiáticas, portanto, dedico este trabalho ao Governo do Estado de Minas Gerais e às instituições de Segurança Pública e Defesa Social. Dedico esta pesquisa aos pesquisadores e estudiosos da blogosfera da Segurança Pública, participantes e interessados na temática. Dedico ainda este esforço acadêmico aos profissionais cujo destino a trajetória uniu os esforços pelos estudos da Comunicação Social e Segurança Pública. Quantos conhecimentos podem ser construídos na integração destas duas áreas... Por fim, dedico este estudo a quem consiga enxergar além das nuances... AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus por ter me dado força interior e equilíbrio para superar tantos obstáculos em minha vida. Aos vinte e um anos de idade, ao reaprender a andar, aprendi também que desistir é o caminho mais fácil, e esta opção não faz parte da minha vida! Ao lidar com muitas perdas, aprendi que recomeçar é difícil, mas é necessário e a recompensa sempre virá, se crermos. E veio... Deus me deu uma família que me ergue todos os dias. Hoje, a voracidade diária vem de olhar meus três filhos: Gui, Gabi e Rafa. Agradeço imensamente ao Léo, meu parceiro de longa data, amo você eternamente! Obrigada pela compreensão e por me suportar na ausência, na ansiedade, na euforia e desânimo. Agradeço ao meu pai, grande homem! Louvo minha mãe, por ter me ensinado, a ser tudo... ser de tudo um pouco, mas, sobretudo, a ser do bem! Agradeço ao meu irmão, Lehma e vó Cler, tios, primos e familiares... a todos que amo imensamente! Sou um pouco de cada um de vocês. Pudera enumerá-los... À querida Maria Ângela Mattos, carinhosamente Dedé, minha orientadora, pela paciência. Meus agradecimentos aos mestres de longa caminhada na PUC-MG e na Federal/UFMG. A gloriosos veteranos da Segurança Pública, grandes inspirações, amigos de trabalho que já me ensinaram e os que ainda me ensinam muito. Meus agradecimentos pela confiança a raros e novos companheiros que, diariamente, têm-me guiado no ciclo de produção do conhecimento de Segurança Pública. Aos que confiam e acreditam em mim, minha fidelidade e gratidão! Aos que não tem medo do ofício e acreditam que por mais que seja difícil, sempre vale a pena.... meus sinceros agradecimentos. Estamos na mesma sintonia! Aos que não denigrem, aos que contribuem, aos que integram e não julgam em vão, no final e, afinal, é entre nós, somente nós e Deus. Essa é minha vida! Continuarei honrando meu dever, de forma digna e por onde for, cumprirei minha missão! Assim me encontro e me realizo! Por fim, reverencio a mim mesma, que persisti, mesmo quando tinha tudo para desanimar. Independente do que o destino nos reserva, sou novamente muito grata por tudo que colhi e aprendi. Em meio a canetinhas, lápis de cor, desenhos, para casa, sobretudo muitos planejamentos operacionais, planos de ação, protocolos e muitos relatórios, saiu! Não é preciso ter olhos abertos para ver o sol, nem é preciso ter ouvidos afiados para ouvir o trovão. Para ser vitorioso você precisa ver o que não está visível. (Sun Tzu) Aprendi o silêncio com os faladores, a tolerância com os intolerantes, a bondade com os maldosos; e, por estranho que pareça, sou grato a esses professores. (Khalil Gibran) A complexidade não está à margem do fenômeno real. Ela é o princípio mesmo. O fundamento físico daquilo que nós chamamos realidade não é simples, mas complexo. (Edgar Morim) E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música. (Friedrich Nietzsche) Tudo posso naquele que me fortalece. (Filipenses 4, v. 13) RESUMO Esta pesquisa objetivou investigar o processo comunicacional das redes midiáticas, em particular da blogosfera da Segurança Pública (SP). Para isso, utilizou-se como estudo de caso o blog da Renata, que explora conteúdos midiáticos relacionados à SP e temáticas correlatas à Defesa Social no Estado de Minas Gerais. O suporte foi escolhido por revelar a diversidade interacional de atores da SP nas redes e a convergência do ambiente entre mídia informal, comercial e institucional, por instigar reflexões sobre o uso da rede como um ambiente propício à mobilização e compartilhamento de questões e ações de interesses individuais e coletivos. Para o monitoramento da mídia, investigou-se a interação do blog da Renata no contexto da mobilização reivindicatória salarial da SP em Minas Gerais, no ano de 2011. Como recorte temporal, acompanhou-se os meses de abril a julho, identificados em três períodos: pré-mobilização reivindicatória, mobilização e pós-mobilização reivindicatória, justificado pelo rico e complexo ambiente de interações sociais, mediações simbólicas e disputas de sentido entre atores da SP. A pesquisa fundamentou-se em teorias sobre redes, capital social, esfera pública, deliberação, movimentos sociais, mobilização, midiatização como processo interacional de referência, interação midiatizada e sistema de resposta social, além dos estudos sobre blog e blogosfera da SP. A metodologia compreendeu a revisão da literatura e o monitoramento do processo comunicacional no blog da Renata durante sua atuação no período da mobilização reivindicatória dos agentes da SP a partir de duas categorias analíticas: a dinâmica interacional midiática e o sistema de resposta social. Compreendeu ainda entrevistas, análise e interpretação dos seus conteúdos, postagens, interagendamentos com outros blogs e meios de comunicação – institucionais e comerciais. Palavras-chave: Redes. Processo Comunicacional. Interações Midiatizadas. Sistema de Resposta Social. Blogosfera da Segurança Pública. ABSTRACT This study aimed to investigate the process of communication media networks in particular, the blogosphere Public Safety. For this, we used as a case study Renata's blog that explores media content related to Public Security and the Social Defense related topics in the State of Minas Gerais – Brazil. Support has been chosen to reveal the diversity of actors interactional Public Safety networks and the convergence between media environment alternative, commercial and institutional, for instigating reflections on the use of the network as an environment for mobilization and sharing of issues and actions of personal interests and collective.To monitor the media, we investigated the interaction of Renata's blog in the context of mobilization vindicatory wage of Public Safety at Minas Gerais, in 2011. As time frame, followed up the months from April to July, identified in three periods: beforevindicatory mobilization, mobilization and post-mobilization vindicatory, justified by the rich and complex environment of social interaction, symbolic mediations and disputes between players in order Public Security. The research was based on theories of networks, social capital, public sphere, deliberation, social movements, mobilization, mediatization as interactional process reference, mediated interaction and social response system, in addition to studies on the blog and blogosphere Public Safety. The methodology included a literature review and monitor the communication process Renata's blog on his performance during the period of mobilization vindicatory Public Safety Officers from two analytical categories: a dynamic interactive media system and social response. Also comprised interviews, analysis and interpretation of their content, posts, inter sheduling with other blogs and media – institutional and commercial. Keywords: Networks. Communicational Process. Interactions Midiatizadas. Social Response System. Blogosphere of Public Safety. LISTA DE FIGURAS FIGURA 1: Representação do sistema político de Habermas e o papel da mídia......... 27 FIGURA 2: Dinâmica interacional e transversal............................................................... 40 FIGURA 3: Quadro investigativo da Unesco................................................................... 64 FIGURA 4: Investigação da Unesco referente ao perfil do blogueiro............................... 65 FIGURA 5: Evolução de 2006 a 2009 dos blogs na blogosfera da SP.............................. 66 FIGURA 6: Mapeamento na blogosfera por estados de 2006 a 2009.............................. 66 FIGURA 7: Mapeamento on-line na blogosfera de 2009 a 2012...................................... 67 FIGURA 8: Crescimento acumulado dos blogs da blogosfera de 2006 a 2012................ 69 FIGURA 9: Identidade visual do blog da Renata.............................................................. 71 FIGURA 10: Postagem com figuras políticas no blog da Renata e no Facebook............. 73 FIGURA 11: Exemplo do interagendamento com redes sociais no blog da Renata...... 75 FIGURA 12: Chat no blog da Renata................................................................................ 76 FIGURA 13: Exemplo da dinâmica de comentários no blog da Renata........................... 77 FIGURA 14: Colaborador e moderador do blog da Renata.............................................. 79 FIGURA 15: Exemplo de interagendamento midiático sobre início da mobilização... 85 FIGURA 16: Início das postagens de adesão ao movimento no blog da Renata.......... 85 FIGURA 17: Postagem representativa do contexto reinvindicatório nacional.................. 86 FIGURA 18: Interagendamento do blog da Renata com o jornal Estado de Minas.......... 88 FIGURA 19: Atuação da administradora do site nos atos políticos de mobilização......... 88 FIGURA 20: Postagem com participação dos movimentos sociais e associações............ 89 FIGURA 21: Reunião com instituições............................................................................. 90 FIGURA 22: Mobilização no blog da Renata por meio das remissões e interagendamento.... 90 FIGURA 23: Mobilização no blog da Renata por meio das remissões e interagendamentos... 91 FIGURA 24: Remissões e interagendamentos sobre marco histórico de 1997................. 91 FIGURA 25: Uso das redes cívicas digitais e de mobilização pela blogosfera................. 92 FIGURA 26: Postagem com abordagem de mobilização no blog da Renata.................. 93 FIGURA 27: Blog como instrumento de convencimento e mobilização......................... 93 FIGURA 28: Negação da mobilização reivindicatória pelo governo................................ 95 FIGURA 29: Postagem com abordagem de manifestação em prol da mobilização...... 96 FIGURA 30: Divulgação oficial do reajuste e blogs em contraposição............................ 97 FIGURA 31: Vinculação a associações CUME e Aspra.................................................... 101 FIGURA 32: Interagendamento com jornal on-line Uai................................................... 110 FIGURA 33: Interagendamento entre blog e mídia impressa............................................ 111 FIGURA 34: Blogs de frente política e vínculos midiáticos com movimentos................. 112 FIGURA 35: Interagendamento oficial e informal por meio do blog da Renata.............. 115 FIGURA 36: Links para outros blogs integrantes da blogosfera policial.......................... 116 FIGURA 37: Exemplo de acompanhamento e monitoramento do blog da Renata...... 117 FIGURA 38: Mapa de locais de acesso e zona quente do blog da Renata........................ 119 FIGURA 39: Acessos no blog da Renata........................................................................... 120 FIGURA 40: Estatística de horários de maior acesso ao blog da Renata........................ 121 LISTA DE TABELAS TABELA 1: Levantamento atualizado do crescimento da blogosfera da SP por estados.........68 LISTA DE SIGLAS ASLEMG - Assembleia Legislativa de Minas Gerais ASPRA – Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais CBMMG – Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais CESeC – Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes CMBH - Câmara Municipal de Belo Horizonte CUME – Associação Central Única dos Militares Estaduais PCMG – Polícia Civil de Minas Gerais PEC – Projeto de Emenda Constitucional PMMG – Polícia Militar de Minas Gerais SEDS – Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais SINDPOL – Sindicato dos Servidores da Polícia Civil do Estado de Minas Gerais SP – Segurança Pública SRS – Sistema de resposta social TJMG – Tribunal de Justiça de Minas Gerais Unesco – Organizações das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura URL – Universal Resource Locator, Localizador Uniforme de Recursos SUMÁRIO INTRODUÇÃO................................................................................................................ 13 1 ABORDAGENS TEÓRICAS SOBRE O PROCESSO COMUNICACIONAL EM REDE, A INTERAÇÃO MIDIATIZADA E O SISTEMA DE RESPOSTA SOCIAL............................................................................................................................ 1.1. Redes: atores, conexão e capital social.................................................................... 1.2. Redes digitais como esfera pública e ambiente de deliberação............................ 1.3. Movimentos sociais, ação coletiva, processos de mobilização e visibilidade nas redes midiáticas................................................................................................................ 1.4. Midiatização como processo interacional de referência........................................ 1.5. Sistema de resposta social........................................................................................ 1.6. Redes comunicacionais midiatizadas digitais: blogs.............................................. 2 BLOGOSFERA DA SEGURANÇA PÚBLICA (SP) E O BLOG DA RENATA...... 2.1. Blogosfera da SP........................................................................................................ 2.2. Estudo de caso: o monitoramento de mídia do blog da Renata............................ 2.3. Contextualização da mobilização reivindicatória dos agentes de SP em Minas Gerais, em 2011................................................................................................................ 3 A ANÁLISE DO PROCESSO COMUNICACIONAL NO CONTEXTO DA MOBILIZAÇÃO REIVINDICATÓRIA DOS AGENTES DA SEGURANÇA PÚBLICA (SP) MINEIRA EM 2011.............................................................................. 3.1. A atuação do blog da Renata durante o período da mobilização reivindicatória.................................................................................................................. 3.2. Processo Comunicacional do blog da Renata na mobilização reivindicatória... 3.2.1. Dinâmica interacional midiatizada...................................................................... 3.2.2. Sistema de resposta social..................................................................................... 3.3. Mensuração das participações no blog da Renata................................................. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................... 18 18 24 32 41 49 53 60 60 70 80 83 83 101 101 109 117 122 REFERÊNCIAS............................................................................................................... 127 ANEXOS........................................................................................................................... 137 GLOSSÁRIO.................................................................................................................... 142 13 INTRODUÇÃO A revolução da tecnologia da informação e a reestruturação do capitalismo introduziram uma nova forma de sociedade, a sociedade em rede. (CASTELLS, 2005, p.17). A emergência das tecnologias digitais acarretou mudanças na forma da sociedade contemporânea de se comunicar, possibilitando que esse cenário desterritorializado e pluritemporal traga à tona novos processos de sociabilidade, de práticas sociais e de construção social da realidade. A velocidade da troca de informações assegura maior poder de interlocução aos atores, favorecendo-lhes inserção e intercruzamento entre si, além de abrir novas potencialidades de conexão e participação. Esse complexo e diversificado contexto, permeado por intensas transformações sociais, destaca a necessidade de investigar as expressões/manifestações de um segmento específico: a blogosfera da Segurança Pública (SP), em particular a de Minas Gerais. Sob esse viés, pretende-se pesquisar as características desta rede a fim de compreender o processo comunicacional midiatizado frente a um suporte midiático que integra essa blogosfera temática. Com este fim elegeu-se o blog da Renata como objeto empírico de estudo sobre as práticas de interação midiatizadas dos agentes públicos vinculados ao segmento, composto principalmente pelo Sistema de Defesa Social, a saber: Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais (SEDS), Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) e Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG). O interesse pela blogosfera da SP e de um blog em particular decorre da possibilidade de observar o tensionamento nessa rede de comunicação entre o individual e o coletivo, entre a cooperação e o conflito, bem como o uso motivado dos meios digitais. Este suporte dá visibilidade a assuntos de interesse de agentes públicos do segmento, vinculados tanto a instituições governamentais quanto a movimentos sociais, associações e sindicatos. Em outras palavras, os blogs podem se constituir como lugar de convergência de interesses comuns e, ao mesmo tempo, de tensionamentos diversos, desnudando articulações, oposições, contestações e negociações entre seus usuários. Nesse sentido, percebe-se que o ambiente virtual possibilita as trocas, conversação social e a produção e circulação de sentidos entre os atores que dele participam, logo, funcionando como um possível ambiente interacional e de respostas sociais midiatizadas. Esta dissertação estrutura-se em introdução e três capítulos, seguidos das considerações finais. No primeiro capítulo, apresenta-se o referencial teórico, que ancora o 14 desenvolvimento da pesquisa e auxilia no entendimento das redes como possíveis espaços de interação midiática. Questiona-se sobre as possíveis articulações e ações comunicacionais que ocorrem nos ambientes digitais, discutindo os seguintes conceitos nucleadores da pesquisa: rede, capital social, esfera pública, deliberação, redes cívicas, movimentos sociais e mobilização. Tais conceitos são centrais para compreender como os ambientes digitais formam intercruzamentos e possíveis processos coletivos. Na sequência, outros conceitos são considerados: midiatização, como processo interacional de referência, produção e circulação de sentidos, interação midiatizada e sistema de resposta social. Considera-se, ainda, a teoria referente aos blogs, abrindo caminho para a caracterização do objeto empírico. Autores como Braga (2000, 2006, 2007), Mattos e Villaça (2012), Fausto Neto (2000, 2008), Lemos (1996, 2002, 2009), Sodré (2002), Recuero (2009), Primo (2003, 2005), Matos (2009) foram fundamentais para subsidiar a construção do objeto teórico da dissertação, que privilegiou a correlação entre atores, conexão e laços sociais no contexto da comunicação midiatizada. Além disso, o debate que articula os estudos sobre as novas tecnologias midiáticas e os conceitos de esfera pública, espaço público e deliberação pública apoiaram-se, principalmente, nos pensamentos de Habermas (1993, 1995, 1997), Bohman (2009) e Lemos (2009). Já o estudo sobre o uso coletivo das redes cívicas teve como referências principais estudiosos como Maia (2000, 2002b, 2007, 2008, 2009), Melucci (1984, 1996, 2001) e Henriques (2004, 2005), que discutem em suas obras temáticas relativas à comunicação social, mobilização, movimentos sociais e democratização da comunicação no ambiente sócio-técnicomidiático. Após costurados os conceitos nucleadores realizou-se discussão sobre blogs, seu conceito, histórico e as manifestações dos sujeitos nesse tipo de ambiente digital. Os pesquisadores principais que se dedicam aos estudos nacionais sobre rede foram trazidos à discussão, com ênfase nos trabalhos de Lemos (2002, 2005), Recuero (2002), Amaral e Quadros (2006). O segundo capítulo apresenta, primeiramente, o cenário da blogosfera da SP por meio da pesquisa “A blogosfera policial no Brasil – do tiro ao twitter”, realizada em parceria da Unesco com o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes (CESeC). Esse estudo avaliou blogs publicados pelos próprios agentes de segurança, bem como o perfil dos blogueiros participantes dessa rede. Buscou-se ainda traçar um paralelo entre os dados referentes de 2006 a 2009 pela referida pesquisa e os dados de 2013 sistematizados por esta dissertação. 15 Sequencialmente procedeu-se a caracterização densa do blog da Renata, destacando sua estrutura, recursos de informação, dinâmica de publicação e postagem, bem como os principais personagens: atores presentes nos conteúdos trocados, usuários, administrador, moderador, entre outros. Na sequência, contextualizou-se brevemente o cenário da mobilização reivindicatória dos agentes da SP de 2011 no estado de Minas Gerais, cenário que serviu como pano de fundo para a realização do estudo de caso sobre o blog da Renata. Nesse sentido, o terceiro e último capítulo compreendeu a análise e interpretação do processo comunicacional do blog da Renata, mais especificamente sua atuação durante o processo de mobilização reivindicatória em questão, considerando as regularidades interacionais internas e externas mais relevantes encontradas nos contextos pré-mobilização reivindicatória, mobilização reivindicatória e pós-mobilização reivindicatória. Estabeleceu-se breve diálogo do cenário mineiro de 2011, com dois marcos históricos reivindicatórios do segmento: a greve de 1997 e o movimento salarial de 2004. A análise do processo comunicacional do blog da Renata durante o período cotejou duas categorias: a dinâmica interacional no referido blog e o sistema de resposta social. Por dinâmica interacional entende-se o movimento comunicacional no interior do blog da Renata, isto é, o processo comunicativo entre os atores presentes nessa rede. Já o sistema de resposta social é compreendido como um modelo interacional que extrapola o blog, abrangendo toda a blogosfera da SP e os sistemas de comunicação em geral – informais, institucionais e comerciais. Em síntese, buscou-se perceber nas duas categorias analíticas o contexto interacional micro e macro do blog da Renata, as trocas sociais midiatizadas dentro e fora do blog de modo a identificar os movimentos comunicacionais da blogosfera temática a partir de um blog específico. Como metodologia de investigação da primeira categoria – a dinâmica interacional midiatizada no blog da Renata –, buscou-se analisar as dinâmicas interacionas internas mais representativas e substanciais desencadeadas pelo segmento. Pesquisou-se o modo de associação entre atores da SP, o tipo de relações estabelecidas por meio do suporte, as características de participação dos usuários do blog, o tipo de conteúdo veiculado, seus processos de usos e apropriações. O monitoramento do blog identificou e analisou as interações ativadas pelo suporte: as remissões de conteúdos, isto é, a conversação interna; os discursos, as conversas e os comentários postados; os posicionamentos dos seus administradores e mediadores sobre os conteúdos; os debates e os embates entre os seus usuários no periodo da mobilização reivindicatória. 16 Já os procedimentos metodológicos adotados para analisar a segunda categoria se voltaram a verificar e analisar o interagendamento temático entre o blog da Renata e outros blogs relacionados à SP, bem como, entre estes e as instâncias institucionais e comerciais de comunicação. Realizou-se, sobretudo, busca exploratória para identificar repercursões do blog da Renata em diversos sistemas de comunicação e suas formas de afetação mútuas. Para tanto, acompanhou-se a conversação social externas ao blog por meio dos interagendamentos de conteúdos, e, sobretudo, sua reverberação na blogosfera temática e em outras esferas em todo o período da mobilização reivindicatória dos agentes da SP de Minas Gerais, em 2011. Foram entrevistados a blogueira Renata Pimenta e a Secretaria de Estado de Defesa Social (SEDS), por intermédio de representante da Assessoria de Comunicação Social (conforme anexo n. 2). A entrevista foi de caráter semiestruturado, baseando-se em um roteiro previamente elaborado, com perguntas apoiadas em teorias e hipóteses relacionados ao tema da pesquisa. Os questionamentos objetivaram não só a descrição, mas, sobretudo, explicação e a compreensão da totalidade do fenômeno. Consultou-se por fim, dados estatísticos relacionados ao blog da Renata quanto ao nível de acessos. Tal estratégia possibilitou dimensionar a participação dos atores no blog durante o período da mobilização reivindicatória dos profissionais da SP, visualizados por meio de mapas e gráficos. Essa pesquisa documental também auxiliou no detalhamento e nas características dos locais de acessos, zonas quentes de conexões, quantitativo, horários e crescimento das participações. Utilizou-se do sistema de estatísticas livres on-line whos.amung.us. Em síntese, a partir desta estrutura e metodologia investigativa, objetivou-se responder às duas perguntas nucleadoras relacionadas ao blog da Renata: Como se dá a interação midiatizada no suporte? O blog é utilizado como ambiente de resposta social? Na trilha de pistas e respostas ressalta-se a importância do estudo da Comunicação nas redes digitais para se compreender os movimentos e cenários múltiplos, transversais e complexos de interação midiatizada. Entende-se que o caminho escolhido não deve estabilizar o processo comunicacional, criar topologias, cristalizar as interações e o conhecimento apreendido, mas, sobretudo, reforçar a importância dos estudos referentes à midiatização e da mobilização da SP. Assim, esse cenário mostrou-se potente para se pensar transversalmente o campo de pesquisa de Comunicação e da produção midiática relacionada ao universo da SP nos ambientes digitais. Esta interseção e multidisciplinaridade podem favorecer o entendimento sistêmico de importantes contextos e interações, o entranhamento entre sujeitos, grupos, 17 instituições e mídias, seus vínculos e motivações (individuais e coletivas) refletidas nas trocas midiatizadas. Em suma, esta pesquisa reflete a busca de leitura de um cenário sistêmico interrelacionado, a exploração de um ambiente midiático que não é perceptível em primeiro momento, sendo necessário certo esforço de observação, monitoramento, descrição, análise profunda e interpretação. 18 1 ABORDAGENS TEÓRICAS SOBRE O PROCESSO COMUNICACIONAL EM REDE, A INTERAÇÃO MIDIATIZADA E O SISTEMA DE RESPOSTA SOCIAL Antes de prosseguirmos este trabalho, primeiramente conceituaremos Redes como padrões de conexão de sujeitos ou de um grupo social no ambiente digital, possibilitado pelas ferramentas de conversação e mediação. A partir do pressuposto de inter-relação dos conceitos de atores e conexão, alguns autores se expressam. 1.1 Redes: atores, conexão e capital social No conceito de Recuero (2009) rede pode ser definida como um conjunto de dois elementos: atores (pessoas, instituições ou grupos; os nós da rede) e suas conexões (interações ou laços sociais). (Wasserman e Faust, 1994; Degenne e Forse, 1999). Uma rede, assim, é uma metáfora para observar os padrões de conexão de um grupo social, a partir das conexões estabelecidas entre os diversos atores. A abordagem de rede tem, assim, seu foco na estrutura social, onde não é possível isolar os atores sociais e nem suas conexões. (RECUERO, 2009, p. 21). Entende-se rede, portanto, como um sistema de atores e processos, uma dinâmica dos elementos comunicacionais de um grupo orgânico maior de características fluidas e em movimento. Considera-se nesta pesquisa que a abordagem de rede é uma metáfora representativa de uma dinâmica sistêmica, constituída de forma inter-relacionada por atores e suas conexões. Entende-se ainda que a análise da rede deve representar não a forma verdadeira dos objetos, mas as suas relações ou funções. Sendo assim, uma rede comunicacional é constituída por atores representados midiaticamente. Esses sujeitos, instituições ou grupos em relações, constituidores são, portanto, do processo de interação. Tal dinamicidade traduz características de transversalidade e mutabilidade. Os ambientes digitais favorecem espaços de interação dos atores e eles, por sua vez, ao se apropriarem da rede, fomentam lugares de fala e de representação. Por meio desse uso, os atores dão formas aos fluxos comunicacionais, gerando produtos midiáticos, conteúdos, mensagens e informações. Assim, as redes propiciam aos atores possibilidades de interação por meio de um processo comunicativo midiatizado. A interação consiste em uma relação entre os sujeitos do processo comunicativo, que faz emergir elos sociais, o que resulta em valor, em substrato, unindo e mantendo conectados os pares destas ligações. Segundo Recuero (2009), as conexões em uma rede social são 19 constituídas de laços sociais formados por meio da interação social entre sujeitos. O tipo de interação social está relacionado diretamente ao laço social estabelecido na rede, constituído pelo pertencimento, identidade, interesse e afinidades. Para Goffman (1975), o laço social não depende apenas de interação e, então, os caracteriza e classifica em dois tipos: laços “relacionais” e laços de “associação”. Laços relacionais são aqueles constituídos por meio de relações sociais, que acontecem por meio da interação entre os vários pares de uma rede social. Já os laços de associação independem dessa ação, sendo necessário, unicamente, um pertencimento a um determinado local, instituição ou grupo. Define-se ainda laço como uma efetiva conexão entre os atores que estão envolvidos nas interações. Ele é resultado da sedimentação das relações estabelecidas entre pares, constituídos no tempo e por meio da interação social. Laços consistem em uma ou mais relações específicas, tais como proximidade, contato frequente, fluxos de informação, conflito ou suporte emocional. Os padrões destas relações – a estrutura da rede social – organizam os sistemas de troca, controle, dependência, cooperação e conflito. (WELLMAN, 2001, p. 7). Já os tipos de interação na rede devem ser classificados, segundo Recuero (2009), a partir do grau de “conexão” dos atores na relação e da intensidade na participação. A autora, baseada na ideia de Primo (2003), caracteriza a interação nas redes em dois tipos: a interação “mútua”, que trata de uma construção interativa, e a interação “reativa”, que é sempre limitada e fruto de uma reação dos atores envolvidos no processo. A interação mútua gera “laços dialógicos” e a interação reativa produz “laços associativos”, ou como complementa Recuero: “laços fortes”, caracterizados pela proximidade, intimidade e intencionalidade e “laços fracos”, concebidos como relações esparsas que proporcionam trocas difusas. Ainda para a autora, o laço social se constitui pela “intensidade” da interação (RECUERO, 2009) e esta é sempre “relacional”. Assim, enquanto o laço fraco produz um processo de “associação” (GOFFMAN, 1975), mas não estabelece uma “construção” (BREIGER, 1974) entre os sujeitos, o laço forte produz uma troca “dialógica” (PRIMO, 2003), que é construída pelos sujeitos da interação. Outra característica importante referente aos laços sociais é a definição de “simetria” associada à noção de laços, que se subdividem em dois tipos: “laços simétricos”, que representam reciprocidade de força nos sentidos da conexão, e “laços assimétricos, que possuem esforços e forças desiguais (RECUERO, 2009). Por outro viés teórico, os laços 20 sociais podem ainda ser denominados como “multiplexos”, constituídos de diversos tipos de relações sociais. “(...) qualquer relação é multiplexa se transacionam-se, através dela, variados tipos de trocas concorrentemente” (DEGENNE & FORSÉ, 1999, p.46). Recuero adota a mesma perspectiva conceitual e explica como deve se compreender o termo. O conceito de multiplexidade diz respeito às diversas qualidades e trocas que caracterizam uma determinada conexão social. Diz-se que uma rede é multiplexa quando há uma variação na quantidade de relações sociais que aparecem na rede. No caso das redes sociais na Internet, poderíamos dizer que a multiplexidade pode ser inferida, por exemplo, a partir das ferramentas utilizadas para manter uma mesma conexão social. Outra forma de compreender a multiplexidade pode vir da identificação de diferentes tipos de capital social nas interações entre esses atores, também. (RECUERO, 2009, p.75). Neste breve e conciso raciocínio sobre atores e conexão, o capital social deve ser enfatizado e debatido com mais profundidade, a fim de elucidar como o conceito é preponderante para proporcionar as interligações e a ação comunicativa nas redes digitais. O uso desse conceito auxilia, portanto, na compreensão da força, da intensidade e da integração e coesão das relações sociais presentes nas redes comunicacionais. Em outros termos, capital social refere-se a um valor constituído a partir das interações, uma espécie de valor que cria e mantém uma conexão entre atores. “Considerando-se que o capital social conecta os indivíduos uns aos outros, visando estabelecer formas de cooperação entre eles, percebe-se a importância que a conversação cívica pode ter no desenvolvimento desse tipo de capital. (MATOS, 2009, p. 89). Entende-se essa perspectiva como balizadora no entendimento de uma dinâmica complexa do processo comunicacional que afere qualidade à interação. Esse valor é oriundo de um sistema cíclico da informação e do compartilhamento do conteúdo simbólico, que por sua vez constrói pertencimentos, produz significados, apropriações, ressignificações. Acredita-se que o capital social é o elemento que concretiza as relações de maneira a consolidar processos interacionais dialógicos, mútuos, constituídos por laços fortes, possibilitando conexões multiplexas. Putnam (2000, p.19) explicita que “o capital social refere-se à conexão entre indivíduos – redes sociais e normas de reciprocidade e confiança que emergem dela”. Para o autor, o conceito de capital social é intimamente associado à ideia de virtude cívica, de moralidade e do respectivo fortalecimento através de relações recíprocas. A abordagem articula dois aspectos para a construção do valor social: o “individual” e o “coletivo”. O primeiro aspecto parte dos interesses dos indivíduos em pertencer a uma rede social para 21 benefício próprio, enquanto o “coletivo” refere-se ao capital social individual refletido na esfera coletiva do grupo, sejam eles custos ou benefícios. O autor desenvolve elementos centrais para a vinculação do capital social: a “obrigação moral e as normas da sociedade”, a “confiança” – que se baseia na reciprocidade e no consenso do senso cívico – e as “redes sociais”. (PUTNAM, 2000). Putnam vê o capital social como elemento fundamental para a constituição e o desenvolvimento das comunidades. A confiança é apontada pelo autor como elemento importante para constituição do capital social e preponderante na possibilidade de criação de consenso e senso coletivo, bases para o funcionamento das sociedades saudáveis. As associações voluntárias – base do desenvolvimento da confiança e da reciprocidade, do sentimento de pertencimento, de procura e interesse – dão origem e estímulos às conexões. Essas associações estimulam, na opinião do autor, a cooperação entre os atores e a emergência dos valores e das redes sociais. (PUTNAM, 2000). Outra visão do conceito relacionado ao capital social de grande importância em nossa pesquisa é o de Bourdieu (1983), que relaciona o capital social a um determinado grupo ou rede, tendo como pano de fundo um cenário atravessado por elementos como poder e conflito. Nessa ótica, o capital social teria dois elementos fundantes: o pertencimento a um determinado grupo e o conhecimento e reconhecimento mútuo dos sujeitos envolvidos em um grupo. O pertencimento, o conhecimento e o reconhecimento na visão do autor, resultam na transformação do capital social em capital simbólico, capaz de objetivar as diferenças entre as classes e produzir significados. (BOURDIEU, 1983). O autor sugere que o sentimento de pertencimento e reconhecimento entre sujeitos se transforma em significado comum, transpondo barreiras e elucidando diferenças. Esta visão se integra nesta dissertação ao desenvolvimento das dinâmicas comunicacionais complexas presentes nas redes. Nesse sentido, a noção de capital social proposta por Bourdieu é fundamental para o entendimento do uso das redes como ambiente de conquista de interesses individuais e coletivos, como se evidencia na citação a seguir: (...) conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de interreconhecimento ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros ou por eles mesmos), mas também são unidos por ligações úteis. (...) o volume do capital social que um agente individual possui depende então da extensão da rede de relações que ele pode efetivamente mobilizar e do volume do capital (econômico, cultural e simbólico) que é posse exclusiva de cada um daqueles a quem está ligado. (BOURDIEU, 1998, p. 67). 22 Coleman (1988) diz de um valor mais geral atribuído ao capital social, que não se encontra nos sujeitos em si, mas em sua estrutura de relações. O capital presente na estrutura, na rede e no dispositivo proporciona confiança na ação por parte de indivíduos e grupos. O autor trabalha o caráter estrutural do capital, ou seja, as características que originam o laço social e a base fundada no “pertencimento” e “reciprocidade”. (COLEMAN, 1988). Coleman aponta cinco categorias que unem os atores por meio da rede: a) relacional – que compreende a soma das relações que conectam indivíduos de uma determinada rede; b) normativa – que compreende as normas de comportamento de um determinado grupo e seus valores; c) cognitiva – a soma do conhecimento e das informações comungadas por um determinado grupo; d) confiança no ambiente social – a confiança no comportamento de indivíduos em um determinado ambiente; e) institucional – que inclui as instituições (formais e informais) que se constituem na estruturação geral dos grupos, onde é possível conhecer as regras da interação social e onde o nível de cooperação e coordenação é bastante alto. (COLEMAN, 1988). Conforme Recuero (2009), a operacionalização do conceito de capital social e simbólico, sob a perspectiva de redes sociais, é difícil para a maioria dos estudiosos do tema. Em um esforço para traçar um paralelo entre as ideias de Putnam, Bordieu e Coleman, Recuero acredita que o conceito de Putnam seja amplamente positivo, ou seja, o autor em sua perspectiva teórica lida com os elementos de pertencimento e reciprocidade e não engloba o conflito e a não cooperação. (RECUERO, 2009). O conceito de Bourdieu, por sua vez, é focado na perspectiva marxista de luta de classes e no caráter subjetivo, na medida em que valoriza a capacidade individual em contribuir e utilizar os recursos coletivos para seus próprios fins. Assim, Bordieu enfatiza que as relações sociais são um meio para aumentar a capacidade dos atores sociais para fazerem valer os seus interesses. Em Coleman, por outro lado, o capital social é visto de um ponto de vista quase que puramente estrutural, sem desenvolver as características e as implicações. O autor advoga no modo como o capital social pode se tornar um recurso nas estruturas sociais, que pode ser utilizado, assim como outras formas de capital, para os atores atingirem certos objetivos e interesses. (RECUERO, 2009). Consensualmente, capital social não se restringe a um único tipo. Ellison, Steinfield&Lampe (2007) defendem a distinção de duas formas de capital social: o bridging, que é chamado de conector, refere-se às relações de fora do grupo, mais heterogêneas e o bonding, considerado como fortalecedor, e é focado no fortalecimento em grupos homogêneos. Segundo Matos (2009), o capital social fortalecedor estaria relacionado a grupos 23 mais coesos, mais próximos e densos, cujos elos são mais próximos, tais como a amizade e a família. Já o capital social do tipo conectivo está relacionado aos chamados laços fracos, ou seja, as conexões são mais distantes, têm menor intimidade, sendo mais frequentes nas conexões entre os grupos sociais. Os autores citados ainda acrescentam um terceiro, o maintained, que se refere à manutenção das relações. (MATOS, 2009). O capital social pode ser percebido pelos atores por meio da mediação simbólica da interação. Os atores, ao mesmo tempo, moldam e são moldados, são referência e referenciados pelo conteúdo destas relações, pelos elos e interseções. O capital social pode ainda ser acumulado através do amadurecimento e aprofundamento de um laço social de maneira a aumentar o sentimento de grupo, as raízes e as identificações. (MATOS, 2009). Assim, observa-se que os laços sociais podem ser qualificados de acordo com o tipo de relações estabelecidas e resultantes na rede, isto é, na intensidade desses elos, na força e na reciprocidade da relação. A tipificação das relações é determinante para o entendimento da interação mantida em uma determinada rede, as regularidades e qualidade. O tipo de laço social presente na rede determina o tipo de capital social originado. Os laços podem ser caracterizados pelo tipo de relações estabelecidas, na qualidade, na intensidade, na reciprocidade e no grau de conexão. Para analisar os laços sociais nas redes digitais, é preciso, então, focar no estudo das relações, e, igualmente, considerar o conteúdo informacional das trocas realizadas. É necessário observar os fluxos como instância analítica, e, sobretudo, o caráter dos discursos disseminados de forma individual ou coletivamente. Entende-se que o que não se pode perder de vista é que tais relações e laços possuem origem no sujeito, no aspecto subjetivo, porém, são consequências das conexões coletivas entre atores, isto é, do contexto, os movimentos comunicacionais por meio de redes interpessoais e hipertextuais. Observa-se que quanto mais a parte coletiva do capital social estiver fortalecida, maior a apropriação individual do capital. Essa apropriação do sujeito e de grupos influencia diretamente o capital social encontrado nessas redes e comprova uma situação de interdependência. (MATOS, 2009). O conceito de capital social pode, assim, auxiliar na compreensão dos tipos, características e usos de uma determinada rede social. Para isso, é preciso, portanto, não somente investigar a existência das conexões entre atores nas redes sociais mediadas, mas, sobretudo, analisar o contexto, o conteúdo e o valor contido nessas relações através da observação de movimentos, circulação, apropriações e ressignificações. O estudo das redes e 24 do capital social é um exercício de monitoramento entre fluxos e conteúdos, entre atores e conexões. Observa-se que a comunicação na rede digital influencia consideravelmente o nível de capital social nos grupos envolvidos. Assim, a interação na rede apresenta-se como uma via midiática de construção do capital social, de variações quanto ao grau e à intensidade que, por sua vez, permite aos sujeitos acesso a outras redes, cenários e grupos. Nesse sentido, é coerente afirmar que o capital social é, nesta pesquisa, elemento importante para a compreensão das dinâmicas comunicacionais midiáticas contemporâneas. Tal abordagem favorece a percepção dos elementos que influenciam comportamentos emergentes coletivos. Considerar a existência de valores nas conexões sociais como motor de adesão e manutenção é fundamental para se compreender as dinâmicas presentes nos meios digitais e, certamente, a complexidade dessas novas formas de midiatização e interação. Por fim, o capital social pode estar presente quando os sujeitos se organizam por meio de grupos. A discussão a seguir é estruturada em torno do valor das trocas comunicacionais contido na dimensão coletiva que fomenta práticas comunicacionais deliberativas midiatizadas por meio da atuação de movimentos sociais, sindicatos, entidades e associações que reúnem questões de interesse público, de afetamento mútuo e acometimento comum. 1.2 As redes digitais como esfera pública e ambiente de deliberação Propõe-se neste momento analisar a capacidade das mídias digitais de instaurar um processo comunicativo dialógico no contexto deliberativo de questões de interesse coletivo. Assim, questiona-se: a rede digital pode então ser considerada como uma esfera pública? Será possível a rede midiática funcionar como ambiente de deliberação? A possibilidade de a Internet ser efetivamente considerada uma esfera pública é amplamente discutida no campo da Comunicação Social. “Com a emergência das mídias, os discursos de campos sociais passam a ser enunciados segundo novas regras de inteligibilidades, e assim deslocados pelas tecnologias de comunicação para uma nova forma de ser da esfera pública”. (FAUSTO NETO, 2008, p. 8). Assim, se as redes digitais possibilitam a expansão de conteúdos informacionais e de recursos interacionais para os atores sociais, evidencia-se a necessidade de abordagens mais atuais em relação às discussões de espaço público, esfera pública e deliberação pública. 25 Habermas considerado um dos herdeiros da Teoria Crítica teve as obras marcadas pela influência do pensamento da Escola de Frankfurt. Nessa fase,que vai da década de 1960 à década de 1980, as obras retratam uma linha crítica e pessimista em relação ao processo de emancipação do sujeito. Em “Mudança estrutural da esfera pública”, obra publicada em 1962, o autor traça um panorama da relação entre as esferas pública, privada e íntima da Grécia Antiga ao século XX e mostra como o iluminismo demarcou o início da decadência da vida pública. Já na década de 1980, Habermas1 revê o pensamento, provocando certa ruptura com o pensamento frankfurtiano e formula a teoria da Ação Comunicativa. Adota, então, uma postura otimista sobre a modernidade e passa a trabalhar com o paradigma da Comunicação, compreendendo a sociedade como uma permanente tensão entre o mundo sistêmico e o mundo da vida. A partir do novo paradigma do agir comunicativo, o autor discute a relação espaço público, política, direito e democracia e lança um olhar a partir da concepção de que os sujeitos interagem no espaço público e podem interferir na realidade social. Habermas descreve a esfera pública como espaço destinado ao debate, fora das arenas formais do sistema político, onde as atividades políticas podem ser confrontadas e criticadas através do argumento racional e livre, dando valor à publicidade das ações comuns por meio dos argumentos e discursos, de maneira a formar a opinião pública. Habermas mostra que a democracia está vinculada a um processo de discussão e de organização dos fluxos de poder entre Estado, mercado e sociedade. A democracia, de acordo com essa concepção, está conectada à institucionalização de procedimentos e de condições de comunicação capazes de apontar a sociedade como o local da origem do poder e da criação de legitimidade. Por meio do conceito societário de democracia, Habermas relaciona essa última não apenas à ação coletiva da cidadania como também, aos procedimentos e condições de comunicação correspondentes. “Em uma sociedade descentrada, a soberania popular procedimentalizada e um sistema político ligado às redes periféricas da esfera pública, estão intimamente associados” (HABERMAS, 1994, p. 7). Habermas associa a esfera pública tanto às interações simples quanto as formas organizadas da sociedade. Para o autor, a esfera pública constitui como uma estrutura comunicacional de ação orientada ao entendimento. Assim, Habermas cita a esfera pública 1 Jürgen Habermas, por meio das obras Técnica e ciência como ideologia (1993), Três modelos de democracia, (1995), Direito e democracia (1997), Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa (1984) apresenta a evolução do pensamento relativo ao papel da mídia na sociedade contemporânea. 26 como sendo “(...) o lugar de origem do poder comunicativo, que surge quando os participantes não se restringem a observar-se mutuamente, alimentando-se da liberdade comunicativa que uns concedem aos outros” (HABERMAS, 1997, p.93). Na concepção atual de Habermas, há uma mudança da percepção do ideal de uma esfera pública única e singular, para uma multiplicidade de esferas públicas. Rousiley Maia (2002), aborda a concepção atual de Habermas: Assim sendo, nas obras recentes do autor, há uma mudança crucial da percepção do ideal de uma esfera púbica única e singular, para uma multiplicidade de esferas públicas: ‘Em sociedades complexas, a esfera pública forma uma estrutura intermediária entre o sistema político, de um lado, e os setores privados do mundo da vida e sistemas de ação especializados em termos de funções, de outro lado. Ela representa uma rede supercomplexa que se ramifica espacialmente num sem número de arenas internacionais, nacionais, regionais, comunais e subculturais, que se sobrepõem umas às outras; essa rede se articula objetivamente de acordo com os pontos de vista funcionais, temas, círculos políticos, assumindo a forma de esferas públicas mais ou menos especializadas, porém ainda assim acessível a leigos (…) (MAIA, 2000, p.4 apud HABERMAS, 1997, p.107). Maia conceitua o que seria por Habermas abordado como mudança estrutural da esfera pública, parafraseia o autor e qualifica a concepção atual, além de classificar os tipos de esfera pública. Além disso, a esfera pública deve ser vista de maneira diferenciada, de acordo com ‘a densidade da comunicação, da complexidade organizacional e do alcance’, numa diversidade de associações e organizações – desde movimentos sociais e organizações voluntárias, passando por grupos de iniciativas cidadãs que se mobilizam em torno de causas específicas (tais como violência, fome, menor abandonado, etc.) até grupos de autoajuda, agrupamentos episódicos e dispersos de pais esperando por filhos na saída da escola, aqueles aguardando horas de visita em hospitais, prisões, etc. Habermas propõe três tipos de esfera pública: esfera pública episódica (bares, cafés, encontros na rua); esfera pública de presença organizada (encontro de pais, público que frequenta o teatro, concertos de Rock, reuniões de partido ou congressos de igrejas) e esfera pública abstrata, produzida pela mídia (leitores, ouvintes e espectadores singulares e espalhados globalmente. (MAIA, 2000, p.5 apud HABERMAS, 1997, p.107). Segundo a visão mais recente de Habermas, “é preciso admitir uma coexistência de esferas públicas concorrentes e apreender a dinâmica daqueles processos de comunicação que são excluídos da esfera pública dominante” (HABERMAS, 1992, p.425). Habermas, na passagem frisada, afirma que a esfera pública é o resultado de um processo de discussão voltado para o esclarecimento e a produção de um acordo em torno de questões que são de interesse de todos, usando a linguagem crítica para buscar o entendimento recíproco. Na esfera pública o agir deve ser orientado para o entendimento e só passa a existir a 27 partir do momento em que os atores sociais envolvidos em um diálogo relatam problemas que atinjam um público mais amplo. O agir comunicativo é orientado à amplificação de um contexto, proporcionando a participação de múltiplos atores, de diferentes instâncias e com visibilidade potencializada. (HABERMAS, 1992). O autor consolida esse pensamento mais recente ao argumentar que os meios de comunicação, ao invés de destruírem as esferas públicas e o debate, possibilitam que a comunicação se desligue da condição espaço-tempo, auxiliando na difusão dos conteúdos e informações. Sob essa visão, os meios de comunicação agem ao atribuir a uma causa específica, ampla mobilização, tornando-as mais compreensíveis, estimulando a atenção, a inclusão dos participantes e, ainda, nos moldes atuais, operam a passagem da estrutura espacial das interações simples para a generalização da esfera pública. (MAIA, 2000). Habermas compreende a mídia como uma espécie de “filtro” no sistema político deliberativo. Assim, o autor divide o sistema político e caracteriza-o em três partes principais, permeado pelo papel de interface dos meios. Conforme a figura n° 1, a mídia intermedeia e se relaciona com as seguintes instâncias: a) as deliberações estruturadas ao centro ou no topo; b) as deliberações informais, ou conversações cotidianas na periferia ou na base. c) a mídia como um filtro, intermediando a comunicação entre eles, a e b. FIGURA 1: Representação do sistema político de Habermas e o papel da mídia Fonte: sintetizada pela autora da dissertação. Habermas cita a mídia e os políticos como sendo protagonistas sem os quais a esfera pública não poderia funcionar, ocupando espaço central no sistema, atuando tanto coautores quanto recepcionistas das opiniões públicas. O autor consolida esse pensamento mais recente ao argumentar que os meios de comunicação, ao invés de destruírem as esferas públicas e o debate, auxiliam na difusão dos conteúdos e informações. (HABERMAS, 1992). 28 Habermas reconhece que os sujeitos possuem visão crítica e que não há como pensar a esfera pública na sociedade contemporânea sem haver uma reflexão sobre os conteúdos transmitidos pela mídia, admitindo ainda que a esfera pública não estava condenada, como pensava até então. Assim, o autor reconhece a importância da mídia no processo deliberativo, definindo o espaço midiático como essencial ao fortalecimento e a manutenção das estruturas deliberativas. (HABERMAS, 1992). Sob essa visão, os meios de comunicação agem ao atribuir a uma causa específica, ampla mobilização, tornando-as mais compreensíveis, estimulando a atenção, a inclusão dos participantes “Se, em um primeiro momento, Habermas atribuiu aos media de massa uma função prejudicial à boa condução das práticas democráticas, em suas obras mais maduras, ele defende um potencial ambivalente dos media que pode tanto obstruir quanto sustentar uma esfera pública vigorosa”. (MAIA, 2009, p.48). Para Marques (2003), essa visão de Habermas atribui à mídia a potencialidade de dar visibilidade aos que não tinham poder de voz. “A visibilidade garantida pelos media certamente faz sair da opacidade vários atores, suas demandas e proposições” (MARQUES, 2009, p.23). Desse ponto de vista, a posição de intermediar a comunicação entre os vários sistemas permite que a mídia estabeleça uma função de “ponte”, que favorece a construção e ampliação de arenas de debates, enriquecendo a deliberação pública. Assim, a Comunicação cumpre o mais importante papel nas instâncias de decisão das dimensões “políticas” formais tanto na esfera pública “informal”, isto é, nas arenas comunicativas na vida social. Isso posto, ressalta-se que a esfera pública é formada a partir de uma situação deliberativa e não como precedente do processo de deliberação. Para haver um ambiente de discussão não há de existir, condicionalmente, “territorialidade” pública, isto é, não é o fim em si mesmo. Ressalta-se que a deliberação pública acontece independente de território, em tradução literal, não é condicionada pelo espaço físico público destinado ao debate, mas, sim, pela existência de um ambiente propício para o diálogo. Em outras palavras, mais importante do que a materialidade do local é o processo dialógico democrático formado em instâncias coletivas, sejam físicas, presenciais ou virtuais. Por último, é necessário que tal cenário de discussão não seja fabricado, encenado e principalmente, espetacularizado. (MAIA, 2009). A esfera pública é, portanto, caracterizada como o ambiente da comunicação, como espaços físicos ou ambientes virtuais nos quais as pessoas discutem questões de interesses comuns e formam opiniões. Além da formação dessa esfera de diálogo é necessário que as ações comunicativas tenham continuidade, mantendo um circuito interacional que culmine em constituição de laços sociais, compartilhamento simbólico e trocas democráticas. 29 Com características assimétricas das emissões mediáticas, a Internet instaura elementos deliberativos através de ambientes interacionais, tornando possíveis as ações cívicas dos atores em diferentes níveis e instâncias. Segundo Lemos (2009), a sociedade vive uma reconfiguração cultural, econômica e política ainda sem contornos definidos com as novas mídias. O autor caracteriza “mídias de massa” como mídias de informação e de transmissão e mídias “pós-massiva”, isto é, mídias de comunicação, de diálogo e de conversação. Lemos define como mídias de massa a televisão, os veículos impressos, o rádio e até mesmo a Internet. Na visão de Lemos, mídias pós-massivas são os meios que possuem como função permitir uma conversação aberta e livre, fundamental para a ação política como, por exemplo, as redes digitais. (LEMOS, 2009). Traçando um paralelo entre esses dois tipos de mídia, o autor evidencia que nas mídias massivas a conversação acontece, mas apenas após o consumo da informação, por meio das trocas imediatas, enquanto nas mídias pós-massivas a conversação começa na produção e nas trocas informacionais, correspondida, ou seja, de forma coparticipativa. Para Lemos, “as funções pós-massivas podem resgatar algo da ação política, do debate, do convencimento e da persuasão, outrora desestimulados pela cultura de massa”. (LEMOS, 2009, p.12). Maia (2008) esclarece que as discussões em torno da dimensão tecnológica e o uso democrático dos meios são exageradamente enfatizados, associando-se deterministicamente o potencial das novas tecnologias com a revitalização de instituições e práticas democráticas. Para a autora, a mídia digital oferece inclusividade, oportunidade de expressão, mas, como já dito, não garante por si só, instantaneamente, uma esfera pública igualitária, justa e representativa. Por isso, a Internet apresenta-se como um espaço público, mas não constitui obrigatoriamente uma esfera pública, isto é, favorece a deliberação, mas não garante por si, a democracia. Colocar a questão simplesmente nos termos se ‘a internet é um instrumento de democratização’ pode levar a diversos equívocos. Em primeiro lugar, se as novas tecnologias podem proporcionar um ideal para a comunicação democrática, oferecendo novas possibilidades para a participação descentralizada, elas podem, também, sustentar formas extremas de centralização de poder. (...) Em segundo lugar, é preciso levar em consideração que, para fortalecer a democracia, são necessárias não apenas estruturas comunicacionais eficientes, ou instituições propícias à participação, mas também devem estar presentes a motivação correta, o interesse e a disponibilidade dos próprios cidadãos para se engajar em debates. As novas aplicações tecnológicas, independentemente de favorecer ou dificultar a democracia, devem ser pensadas de maneira associada com os elementos sóciohistóricos próprios dos atores sociais e com os procedimentos da comunicação estabelecida entre os sujeitos comunicantes concretos. (MAIA, 2000, p.01). 30 Os processos de deliberação pública ultrapassaram os limites temporais e espaciais com a emergência das tecnologias ao possibilitar diálogos em ambientes digitais participativos e de maior abrangência, amplitude, visibilidade e publicidade. Com o surgimento das redes digitais os princípios que caracterizam a deliberação estão sendo reconfigurados no contexto virtual. (MARQUES, 2009). Diante dessa possibilidade de revisitação e atualização das potencialidades de deliberação na rede, a Internet passa a ser vista como uma mídia capaz de prover condições de abrigar ambientes públicos de discussão e debates. A deliberação é, então, considerada um instrumento de construção da cidadania ao instaurar uma dinâmica em que diferentes atores podem argumentar e discutir assuntos de interesse comuns. A deliberação é, portanto, um processo que utiliza a reflexividade para auxiliar os cidadãos a construir um entendimento e um raciocínio melhor sobre uma determinada questão que seja de interesse de todos (HABERMAS, 1997; MARQUES, 2009). Bohman (2009) argumenta que a deliberação só alcança sucesso quando os participantes reconhecem que precisam contribuir e influenciar o encaminhamento da solução, mesmo se estes são discordantes dela. Assim, os atores cooperam na deliberação porque esperam que as contribuições possam ser incorporadas na decisão de modo que lhes seja favorável. Entende-se que o resultado das decisões públicas varia e depende de circunstâncias e características como a intencionalidade dos polos emissores e receptores, da subjetividade dos participantes, da competência e da racionalidade dos mediadores do processo (que pode ser virtual e presencial), a clareza e a não objeção à cooperação. (BOHMAN, 2009). Deve-se levar em consideração que para fortalecer a democracia e instaurar uma esfera pública efetiva, não bastam estruturas comunicacionais eficientes e propícias à participação política, mas também outros fatores, como a motivação, o interesse e a disponibilidade dos sujeitos. Mesmo que decisões tomadas pelo público não sejam sempre confiáveis quanto às decisões que seriam tomadas por seus membros mais bem informados, a deliberação pública poderia ainda assim ser defendida positivamente em outros termos: poderíamos simplesmente argumentar que ela é constitutiva da autonomia dos cidadãos. (BOHMAN, 2009, p.35). Ainda de acordo com Bohman (2009), para a Internet ser referenciada como uma esfera pública, ela precisa ser um fórum, no qual os participantes possam expressar opiniões e obter uma resposta dos outros participantes sobre esse mesmo ponto de vista, dando opiniões 31 e acessando as opiniões alheias, de forma democrática, manifestando compromisso de autonomia, liberdade e igualdade entre os pares. O autor ainda considera que não necessariamente, as decisões públicas chegarão a uma solução adequada para a sociedade. (BOHMAN, 2009). A deliberação online, assim como a face a face, se efetiva quando os cidadãos são capazes de argumentar, de entender os argumentos de outros participantes, de aceitá-los e de respondê-los. Deliberação, portanto, sob essa abordagem, mostra-se como um processo comunicativo, seja nas redes digitais, nos meios tradicionais ou mesmo nas formas presenciais de comunicação. Assim, as redes digitais são ambientes de deliberação ao se ocupar da conversação, do diálogo, do compartilhamento do simbólico, abarcando a multiplicidade de narrativas, de objetivos, intencionalidades, imparcialidades, parcialidades, a cooperação, o consenso, o dissenso, o pertencimento, as diferentes faces da experiência e das trocas. Portanto, torna-se preponderante a análise do uso desse meio pelos atores, não somente como espaço, mas como ambiente de interações, apropriações e permutas simbólicas possíveis. A experiência propiciada pelos meios digitais é o exercício midiático da troca, a operação da interação contemporânea por meio da técnica, em um esforço de apropriação e ressignificação pelos atores, por novas maneiras de se manifestar, de agir, de se afirmar por meio das redes. Em suma, as redes comunicacionais propiciam a prática do processo comunicacional, pois criam circunstâncias diversas, discutem, colocam em voga, habilitam o espaço simbólico para discutir, convergir e/ou desintegrar, criam, mantêm, dissolvem e fortalecem os elos das redes. Por fim, a deliberação nas redes digitais se consolida quando são criadas motivações para que os interlocutores do processo participem de modo significativo. Finalizando, Bohman (2009), Maia (2009) e Lemos (2009) contextualizam a Internet e atribuem à rede os requisitos para ser considerada uma esfera pública. Para os autores, a rede digital é capaz de atender a padrões normativos importantes como a reciprocidade, a cooperação, a reflexividade e uso racional da linguagem. É necessário que o modelo teórico de análise compreenda as várias faces possíveis da interação, o fenômeno da midiatização como algo do próprio processo social contemporâneo e a complexidade sistêmica do dispositivo, próprio da análise das redes comunicativas. A experiência nos ambientes digitais é resultante das transformações comunicacionais globalmente, que caracteriza os recentes processos interacionais em níveis amplos, porém, sem conceder aos meios um poder totalizante. A ênfase então paira sobre os atores, o contexto, uso e ação que irão desencadear o 32 movimento dessa dinâmica comunicacional, costurando esta prática como ator, cogestor e pensador estratégico da causa coletiva e pública. (MAIA, 2006). 1.3 Movimentos sociais, ação coletiva, processos de mobilização e visibilidade nas redes midiáticas As redes comunicacionais expõem a experiência de diversas instâncias e camadas sociais, servem como reflexo de um sistema, como via catalisadora de fluxos comunicativos de setores periféricos da sociedade, como ambiente para se construir cenários em diversas esferas e transmitir midiaticamente versões de uma dada construção da realidade ao conjunto da sociedade. O processo comunicacional é o dispositivo propiciador de fluxos, atravessados nos espaços públicos midiáticos que originam e fortalecem os laços sociais e simbólicos. Nesse aspecto, percebe-se que a rede midiática digital, por ter intrinsecamente a capacidade de reunir sujeitos e associá-los em grupos, formata um ambiente profícuo para o debate, a organização de conhecimentos específicos e de trocas de experiências. É, assim, uma possibilidade da experiência em nível individual e coletivo. O agir coletivo é construído por meio de processos comunicativos e práticas deliberativas possibilitadas por negociações sociais nas redes midiáticas. É possível usar as redes para expressar, interpretar, para perceber outros valores e opiniões divergentes, para criar estratégias e ainda avaliá-las diante de um cenário maior. A leitura de cenários propiciada pela experiência da midiatização possibilita, ainda, identificar linhas de argumentos, ideologias, tendências políticas, partidarismos e associações cívicas. As organizações coletivas da sociedade civil se mostram importantes para fazer emergir questões de mobilização social. Essas associações cívicas encontram espaços e dinâmicas para emergir as questões essenciais às causas comuns: a rede e as práticas midiáticas. Desta feita, é atual e positiva a hipótese de que é preciso reconhecer na contemporaneidade a múltipla existência de espaços públicos e, assim, buscar a ampliação do processo comunicacional. É diante do tipo de rede, das instâncias de afetação, dos modos de representação midiática e do tipo de regularidade da interação no ambiente virtual que o sujeito qualifica, dá contornos e movimentos à ação. Os sujeitos e os grupos desenvolvem na sociedade a competência para elaborar discursos, a fim de relacionar os problemas práticos das causas ao conjunto de categorias 33 simbólicas da sociedade, bem como ao sistema normativo formal. Nesse sentido, integram-se às conexões, criam interfaces, pontes comunicativas entre os pares e promove ambientes de conhecimento, de reconhecimento e de divulgação. Estabelecem potencial de convencimento de forma a influenciar nos consensos que orientam a coexistência social, a opinião pública e articula demandas específicas, a fim de que possam ser mais facilmente encampadas por outros atores. Os movimentos sociais, diante deste espaço mediatizado, procuraram transformar as lutas por reconhecimento em lutas por visibilidade. Fazer-se ver e ouvir encontra-se no centro das turbulências políticas do mundo moderno. A busca pela visibilidade vem em função da necessidade de que as reivindicações e preocupações dos indivíduos tenham um reconhecimento público, servindo de apelo de mobilização para os que não compartilham o mesmo contexto espaço/temporal. A grande mídia é vista como um espaço privilegiado para a exposição das causas e ações dos movimentos, configurando-se como um espaço público, visto que oferece ‘visibilidade ampliada das disputas e controvérsias existentes na vida social e se torna central para a divulgação das produções simbólicas que acontecem nos diversos campos sociais’ (HENRIQUES, 2004, p.33). Sob essa perspectiva, a mídia digital funciona como espaço virtual para travar debates e para potencializar o pertencimento e a visibilidade e lutas sociais e político-ideológicas. Por isso, nova atenção tem sido dada aos movimentos sociais, sindicatos, associações e organizações não governamentais para a politização/mobilização de questões nesses ambientes coletivos. As redes comunicacionais digitais apresentam-se na contemporaneidade como o ambiente propício para a amplitude que se quer dar, a agilidade que se pretende gerar, a facilidade de uso que se quer ofertar, a captação de pares que se pretende agregar e a visibilidade que se pretende alcançar. O uso e apropriação dos ambientes digitais pelos movimentos sociais ganham novas proporções, isto é, as formas cívicas de agregação passam por modificações importantes e se misturam ao contexto das mídias, da velocidade das informações, da formação das redes por meio dos suportes midiáticos, a fim de expandirem as causas e alcance de movimentos. Percebe-se que a atuação dos movimentos sociais não atende os mesmos pressupostos de organização e de adesão comunitária do passado. As fronteiras, limites e potenciais modos de mobilização social estão passíveis de transformações diante dos cenários contemporâneos de midiatização. (MELUCCI, 2001). As organizações cívicas modernizam-se, deslocam-se das relações presenciais e ganham também a cena virtual. Assim, o conceito de movimento social de grupos fechados e restritos no imaginário da sociedade contraria as atuais circunstâncias de expansão da comunicação em nível global, transformando-se. 34 A ampliação da sociedade civil, evidenciada principalmente pelo crescimento dos movimentos sociais, lançou novos questionamentos quanto à importância da comunicação na permanência e solidificação destes movimentos. Os media adentraram o cenário das reivindicações sociais, alterando a maneira como os movimentos se apresentam, em decorrência das novas possibilidades de transmissão de informações, imagens e conhecimentos e de uma outra postura dos profissionais da Comunicação frente ao desenvolvimento comunitário. (HENRIQUES, 2004, p.33). As redes sociais favorecem a expansão dos movimentos, a abrangência das causas e a formação das ações coletivas conjuntas e mobilizadoras. Os movimentos potencializados pelas redes digitais ganham maior proporção, saem dos galpões, das reuniões comunitárias, dos sindicatos e alcançam amplos processos de comunicação que rompem com a centralidade da informação. As novas práticas comunicativas ecoam as discussões na medida em que o espaço é difuso, o tempo diferido e os sujeitos são mediados por processos de interação mais acessíveis. (BRAGA, 2006). Essa nova agregação digital depende menos da atitude de militância e da postura proativa em se fazer parte do movimento de modo integral, de se estar presencialmente e de se envolver em tempo e esforço e mais do processo de midiatização2, visto favorecer mais abrangência e visibilidade dos movimentos sociais na esfera pública virtual. Como exemplo, podem-se mencionar os movimentos políticos de policiais, de bombeiros militares, policiais civis e agentes penitenciários – que serão objetos de análise da dissertação -, que travam constantes lutas de visibilidade e que fazem uso das redes digitais como forma de expandir as causas. Observa-se que este segmento adere gradativamente ao fenômeno de midiatização para a mobilização ao fazer uso dos novos meios como forma de criticar, estimular discussões em diferentes níveis e instâncias, divulgar ações, associá-los a uma causa, trazer mais adeptos e influenciar ações políticas. Nesse sentido, a Internet tem se revelado como um ambiente importante de manifestação de causas, de adesão de grupos, de práticas de discussão entre classes, instituições e mídias. Os modos de associativismo contemporâneo e as ações coletivas têm sido investigados por diversos estudiosos. Entre eles, Melucci (1984), tem observado uma diferença estrutural nas formas de agregação dos novos movimentos e agrupamentos. O autor faz referência aos movimentos feministas e ambientalistas para ilustrar tais mudanças de comportamento. Para o autor, os associativismos contemporâneos refletem a luta por reivindicações “não materiais” e de uma “ação política”. Os motivos do comportamento para a ação coletiva apontam também 2 Tal processo será objeto de definição e discussão no próximo tópico do presente capítulo. 35 para a necessidade de por em questão outro elemento importante: a “identidade”. (MELUCCI, 1984). As pessoas escolhem ser, o incalculável; os indivíduos ao escolherem a forma como irão se definir utilizam não somente o cálculo racional, mas também os laços afetivos, assim como a capacidade intuitiva de reconhecimento. A dimensão afetiva constitui uma dimensão fundamentalmente ‘não racional’ sem, no entanto, ser irracional. Ela é significativa e fornece aos atores a capacidade de dar sentido ao ato de pertencimento mútuo. (MELUCCI, 1996, p. 66). Ainda segundo Melucci (1996), a importância da identidade como elemento para ação coletiva se refere ao fato de que é através dos laços sociais que os atores dão sentido ao ato de pertencimento. (MELUCCI, 1996). A ação coletiva está relacionada aos laços afetivos gerados como substrato das interações sociais racionais. Além da identidade, em complemento, apresenta-se uma vertente teórica que ressalta que a mobilização é também desencadeada por “privações materiais” e por “motivos psicológicos”, além do “descontentamento”. A integração de ações comuns existe em decorrência de outros fatores que a influenciam, uma vez que "existe, em qualquer momento, suficiente descontentamento em qualquer sociedade para fornecer o apoio de base para um determinado movimento". (MCCARTHY, 1977, p. 118). Tais elementos propulsores da mobilização são colocados em questão também por Oberschall (1978) que chama a atenção para outro elemento do processo de formação da ação coletiva. Para o autor, a associação cívica se baseia em uma rede de “relações comunitárias preexistentes” ou em uma rede de “associações civis” baseadas em interesses específicos. Os elementos que integram esse processo de mobilização não reconhecem somente os elementos de coesão, mas incluem também os movimentos comunicacionais de conflito (que podem ou não ser hostis). (OBERSCHALL, 1978). Em relação aos elementos condicionantes à ação coletiva, Melucci (1996) abre uma via importante para a vinculação entre o pertencimento, a identidade e a prática democrática na medida em que a sociedade contemporânea passa a conviver densamente com a manifestação da “diferença”. Sob esse aspecto, as sociedades contemporâneas não são formadas apenas por indivíduos que buscam a autopreservação, mas também por atores sociais que, ao interagir, comunicar e influenciar uns aos outros, estabelecem um espaço de tematização e reconhecimento da diferença, e não somente da semelhança e da coesão. (MELUCCI, 1996). 36 Assim, a não identificação também traduz a potencialidade de um pertencimento potencial passivo, o que não o exclui como elemento da ação coletiva. (MELUCCI, 1996). Vale ressaltar que as formas tradicionais de associações não podem ser desconsideradas, pois elas ainda existem em conjunto com os novos elementos condicionantes à ação comum, em complemento ou mesmo, subsidiando e sustentando. Com os cenários contemporâneos e os novos processos midiáticos, as formas históricas de adesão vão sendo substituídas e adaptadas. Assim, por meio da presença dos movimentos sociais contemporâneos nos ambientes digitais, a sociedade recupera importantes elementos condicionantes da ação coletiva, da integração e da mobilização social. (MAIA, 2007). A crescente adesão às novas mídias e a participação dos atores nos ambientes digitais como parte dos processos interacionais atuais contribuem para potencializar o envolvimento e participação dos sujeitos e grupos em questões de engajamento. Essa participação é considerada relevante e significativa para a politização de segmentos. Contudo, é difícil que a sociedade contemporânea alcance um ideal de cultura política discursiva, e que coloque em prática, o debate do que aflige à coletividade, como prática e premissa da vida em conjunto. (MAIA, 2007). Partimos da premissa de que os atores coletivos cívicos – as associações voluntárias, os movimentos sociais ONGs etc. – tendem a ser mais eficazes que os cidadãos isolados para organizar e divulgar informação, para desenvolver aptidões cívicas e políticas dos indivíduos, para superar os obstáculos da ignorância política e da apatia, para representar interesses e sustentar o debate na esfera pública e, ainda, para exercer pressões sobre os representantes políticos e/ou atuar como parceiro em instituições híbridas. Diversos estudos têm apontado que o uso politicamente relevante da informação disponível na internet não se estende a todos, mas, ao invés disso, somente àqueles que já são, de alguma forma, interessados (Lilleker e Jackson, 2004). Contudo, isso não é insignificante, já que o associativismo produz determinados efeitos democráticos que repercutem no desenvolvimento dos próprios cidadãos e no âmbito da política institucional formal. (MAIA, 2007, p.5). O processo do debate é concebido como uma troca argumentativa que se estende no tempo e no espaço. Assim, os grupos e as associações constroem a “presença” nas redes digitais, a fim de articular os próprios interesses e encontrar estratégias com vistas a garantir maior grau de escuta e resposta efetiva para as causas. Entende-se que cada rede tem a própria complexidade no modo de abordar temas coletivos e a repercussão deles é proporcional aos interesses (públicos e privados) de outras redes. As redes cívicas estruturam as relações por meio do compartilhamento do conteúdo simbólico entre os membros da sociedade. Maia (2002b) classifica e sistematiza possíveis tipos de associações cívicas na rede digital. Tal abordagem é oportuna para se entender os 37 modos de agregação e ação coletiva e suas finalidades principais. Segundo o autor, as redes podem ser: a) “Redes para produção de conhecimento técnico-competente”, que se destinam a organizar conhecimento especializado e torná-lo disponível aos movimentos sociais. Tais redes são importantes para subsidiar a qualificação técnica dos membros de organizações da sociedade civil. b) “Redes de memória ativa”, que têm como propósito digitalizar documentos de movimentos sociais (estatutos, jornais, material didático para divulgação, atas, relatos pessoais etc.) para armazenamento livre em portais, na rede, a fim de que se tornem acessíveis para outros movimentos sociais e para a sociedade em geral. c) “Redes para produção de recursos comunicativos” que apresentam, como meta, aperfeiçoar as habilidades para um uso eficaz das oportunidades de comunicação, auxiliando grupos subordinados e marginalizados a articular, de modo autônomo, seus próprios interesses e suas necessidades. d) “Redes de vigilância e solidariedade à distância” que possuem como objetivo defender direitos, protegendo os cidadãos, lutando contra discriminação ou exercendo função de vigilância sobre os dirigentes e outras instituições. A partir desses diferentes tipos e objetivos de rede, entende-se possível identificar no uso da rede, as interações sociais construídas. De forma detalhada, Maia (2002b) elenca os tipos de interação na rede constituídos pelos movimentos sociais: a) “Interpretação de interesses e construção de identidade coletiva”, que busca a superação dos obstáculos de uma dada realidade e se inicia com o esforço de grupos que expressam e atualizam suas identidades, seus valores e interesses. b) “Constituição de esfera pública”, que trata da formação da opinião pública através de uma rede de discursos que se interpenetram e se sobrepõem. Os indivíduos podem acionar os discursos que se encontram publicamente disponíveis, em múltiplas redes de conversação e discussão, constituindo assim, uma esfera pública. c) “Ativismo político, embates institucionais e partilha de poder”, que se referem à luta virtual que os atores coletivos empreendem nas redes. d) “Supervisão e processos de prestação de contas”, que abarca os novos recursos da internet como forma de aprimorar o sistema de democracia representativa, 38 aumentando o fluxo de informações provenientes do governo, tornando as autoridades mais responsivas. A aquisição de informação torna os indivíduos aptos a demandar transparência das instituições do governo e a exigir que dirigentes e representantes de outros poderes prestem contas de suas declarações e ações. Os atores potencializados pelo poder da conexão, de articulação e visibilidade, podem conhecer, se reconhecer e fazer outros se reconhecerem por meio do compartilhamento de conteúdos simbólicos entre os pares. Os atores formatam, assim, visões e opiniões sobre eventos temáticos e participam de um processo de aprendizagem social por meio dos novos meios digitais. Tais ambientes enriquecem a ação dos atores na medida em que favorecem as práticas democráticas, a racionalidade, a reflexão, a significação e ressignificação, qualificando sua motivação e ação. “Aprender é mudar o repertório e as atitudes”, e “a cada momento, através das interações no espaço social e das relações com o mundo natural, o ser humano se modifica, se constrói e elabora sua identidade”. (BRAGA, 2000, p.5). O debate público fomentado pelos movimentos sociais nas redes técnico-midiáticas é útil para formar os elos cooperativos, esclarecer reciprocamente os parceiros, as afinidades, os interesses mútuos, as divergências. A diversidade de discursos e pontos de vista diferentes expostos nesses ambientes torna públicos realidades e contextos políticos também distintos, produzindo interpretações coletivas comungadas com os interesses subjetivos. Como resultado dessa dinâmica de interpretação coletiva, os propósitos comuns são externados, interesses consensuais são generalizados e, por sua vez, ampliados, para que então ocorra novamente outras apropriações em torno dos conteúdos. Essa interação cíclica pode favorecer a construção de resposta e aprendizagem sociais (individual e coletiva). É desse sistema processual relacional que surge o substrato para a mobilização, para as potenciais ações integradoras e para a ação coletiva nos ambientes virtuais. Entretanto, para que exista a mobilização é necessário haver convocação de vontades, que objetiva a mudança de uma dada realidade. (HENRIQUES, 2004). Tal processo é desencadeado por propósitos comuns que, por sua vez, podem ocorrer por meio de práticas deliberativas. Através dos objetivos comuns, os atores sentem-se pertencentes a uma realidade específica e, consequentemente, aderem a uma causa coletiva. O processo é complexo, imprevisível, circunstancial e configura-se como uma dinâmica que equilibra experiências individuais (pertencimentos) e experiências coletivas (causas). Henriques, referenciado em Toro e Weneck, enriquece o desenvolvimento do conceito de mobilização e do processo de convocação de vontades. 39 Entendendo o conceito de TORO & WERNECK (1996), em que a mobilização é entendida como um processo de convocação de vontades para uma mudança de realidade, através de propósitos comuns estabelecidos em consenso, é possível compreender a demanda pela comunicação estrategicamente planejada na estruturação de um projeto mobilizador, uma vez que as pessoas precisam sentir-se como parte do movimento e abraçar verdadeiramente a sua causa. (HENRIQUES, 2004, p.35). Nesse aspecto, a potencialidade das redes cívicas digitais reside precisamente na capacidade de agregação, do enraizamento em esferas sociais diversificadas. E é a partir de tais agregações e da ação coletiva que os movimentos sociais estabelecem respostas sociais midiáticas, que podem emergir impulsos promissores para a integração de ações e de mobilização. As redes digitais instrumentalizam-se como a possibilidade técnica que permite a convocação, a mobilização e ações comuns. Assim, a mobilização é o ato de colocar em movimento a integração, que necessita da deliberação para se concretizar. É importante enfatizar que a própria ação de deliberar é, por si, uma forma de mobilização social, já que os sujeitos estão envoltos em um propósito, em movimento pelo pertencimento e vice versa. Da mesma forma, a integração depende da deliberação e da mobilização para se efetivar sistematicamente. A mobilização, a integração e a deliberação são partes de um sistema complexo, interdependente, dinâmico e em movimento. A comunicação está intimamente relacionada com o ato de deliberar, com a mobilização e na essência, com a integração. (HENRIQUES, 2004). A fim de sintetizar e sistematizar as teorias abordadas, representa-se a seguir a dinâmica inter-relacional e transversal. 40 FIGURA 2: Dinâmica interacional e transversal Fonte: sistematizada pela autora da dissertação. Vale dizer, por último, que todo processo de integração e de mobilização é, em si, um processo comunicacional, constituído pela interação de sujeitos e grupos que compartilham o simbólico, que geram o pertencimento e a corresponsabilidade, em torno de uma realidade específica e de um pertencimento de interesse público. “E a comunicação para mobilização deve ser dialógica, na medida em que defende uma causa de interesse mútuo, que deve ser compartilhada entre os sujeitos, comprometidos com um fim único, comum a todos”. (HENRIQUES, 2004, p.33). Henriques, referenciado em Toro e Weneck, aborda a função da comunicação no processo de mobilização social como esforço de gerar, manter vínculos, compartilhar sentidos e valores: Sendo a participação uma condição intrínseca e essencial para a mobilização, a principal função da comunicação em um projeto de mobilização é gerar e manter vínculos entre os movimentos e seus públicos, promovendo uma rede de interação própria com e entre eles por meio do reconhecimento da existência e importância de cada um e do compartilhamento de sentidos e de valores. (HENRIQUES, 2004, p.35). Na prática contemporânea, constata-se que as interações on-line propiciam a conversação. E é por meio do diálogo que se torna possível o engajamento cívico e o acometimento coletivo. Portanto, as narrativas são propiciadas e, acima de tudo, aperfeiçoadas pelo debate público, pela crítica e por fóruns estabelecidos em prol de causas específicas e amplas. Só há mobilização se uma causa é externada, coletivizada e inserida nas práticas sociais. Assim, pela inter-relação e pela complexidade desse dispositivo, mostra-se extremamente oportuno nessa dissertação tratar de forma relacionada temáticas de rede, deliberação, mobilização e, por último, a midiatização, já que as mídias (sejam elas formais, 41 comerciais ou informais) são essenciais para estabelecer as condições para que as manifestações e as dinâmicas sociais aconteçam. A midiatização é mais do que uma estratégia, ela se apresenta como o modus operandi das práticas de integrar e mobilizar na contemporaneidade. É nessa temática que a próxima discussão se deterá. 1.4. Midiatização como processo interacional de referência Neste item, dar-se-á continuidade à teorização sobre redes, seus elementos, dinâmicas e usos, em que serão discutidos os conceitos fundamentais para o conhecimento do processo comunicativo na perspectiva reticular. Conceitos de midiatização, mediação e interação midiatizada serão abordados inicialmente para subsidiar a discussão sobre as dinâmicas de circulação e a midiatização como processo interacional de referência. A separação é didática, pois prioriza-se, sobretudo, a convergência destes conceitos e suas interdependências. Sodré (2002) considera que a midiatização é uma ordem das mediações com ênfase na tecnointeração, enquanto a interação é uma forma operativa do processo mediador. Isto é, a midiatização é uma qualidade da mediação por se tratar de uma nova forma de operacionalizar tecnicamente a interação, ou melhor, uma forma técnica da mediação que encontra lugar no medium3 para operar. Nesse sentido, a midiatização remete a essa atmosfera de interface entre instâncias técnicas e atores, postos em ação no tempo-espaço por meio das relações, ou, em outras palavras, uma tecnoesfera fluída de interface, que possibilita a interação nas mídias e por meio das mídías, em um contexto reconfigurado. (SODRÉ, 2002). Esse autor evidencia, ainda, uma alteração na mídia tradicional, linear, para uma nova mídia digital, em que o usuário pode inserir-se na realidade, deslocando a contemplação e o “se ver representado” – concepção sobre a experiência estética da relação do espectador com a produção, seja artística ou midiática predominante até então – pela sua participação direta. O “espelho midiático” – analogia criada por Sodré para argumentar que a mídia não é mera reprodução, um reflexo da realidade, e, sim, uma instância de interpelação dos indivíduos e de constituição de identidades pessoais e coletivas –, envolve uma nova relação da sociedade com os meios, mais precisamente uma nova forma de vida. Para Sodré, a analogia do espelho midiático referencia a esfera midiática como uma realidade não conflitante com o real 3 Medium, na ótica de Sodré (2002) não é dispositivo técnico, e, sim, o fluxo comunicacional acoplado a um dispositivo técnico e socialmente produzido pelo mercado capitalista, que se torna uma ambiência existencial. Assim, a Internet, e não o computador,é um medium. 42 tradicional. Em outros termos, o espelho midiático representa uma nova forma social de lidar com os tempos e espaços reconfigurados, uma dimensão baseada na cultura da mídia e experienciada pelos atores sociais. (SODRÉ, 2002) A midiatização é também concebida por Sodré como um novo bios, denominado de bios midiático ou virtual, que é específico justamente porque sugere novas condições antropológicas. Assim, não há mais apenas o biostheoretikos, que trata da contemplação, o biospolitikos, que referencia a vida política e o biosapolaustikos, que contempla a vida prazerosa, conforme propôs Aristóteles em sua Ética a Nicômaco, mas, na condição contemporânea, o autor acrescenta a essa classificação um quarto bios, isto é, o virtual e o midiático. Sodré entende que este novo bios implica em uma nova tecnologia perceptiva e mental, portanto, outro tipo de relacionamento do sujeito com as referências concretas, com o real e com a verdade na relação com a mídia. Nessa nova esfera existencial, o autor considera que a sociedade contemporânea passa a ser regida pela midiatização, virtualização e telerrealização das relações humanas. (SODRÉ, 2002). Em sintonia com a perspectiva de Sodré, Gomes (2006) define que a midiatização é a reconfiguração de uma ecologia comunicacional “(...) a midiatização é a chave da hermenêutica para a compreensão e interpretação da realidade. Nesse sentido a sociedade percebe e se percebe a partir do fenômeno da mídia, agora alargado para além dos dispositivos tecnológicos tradicionais” (GOMES, 2006, p.121). Ao abordar o fenômeno midiático, esse autor revela uma perspectiva otimista em relação aos desdobramentos dela na sociedade. “Assim, aceitar a midiatização como um novo modo de ser no mundo coloca-nos numa nova ambiência que, se bem tenha fundamento no processo desenvolvido até aqui, significa um salto qualitativo no modo de construir sentido social e pessoal”. (GOMES, 2006, p.133). Em linhas gerais, a midiatização é um tipo de mediação socialmente realizada e se refere ao modo como as mídias participam vigorosamente da sociedade, que interage cada vez mais, por intermédio de aparatos midiáticos e tecnológicos. Embora distintos, os conceitos de midiatização e mediação são imprescindíveis para se compreender os processos comunicativos contemporâneos, bem como os modelos de interpretação desse fenômeno. Conforme Sodré (2002), toda e qualquer cultura implica mediações simbólicas que consistem em linguagens, trabalhos, leis, artes etc. Todavia, o sentido do termo “mediação” é decorrente de um poder originário de discriminar, de fazer distinções, portanto, de um lugar simbólico fundador de todo o conhecimento. (SODRÉ, 2002). Assim, o conceito de midiatização, ao contrário de mediação, não recobre a totalidade do campo social, mas representa um espaço de articulação entre as diversas instituições e as 43 organizações midiáticas, sendo regidas por estritas finalidades tecnológicas e mercadológicas. A mediação tem o sentido também de fazer a ponte ou fazer a comunicação entre duas partes, a exemplo da interação entre indivíduos, grupos, organizações sociais e meios de comunicação. (SODRÉ, 2002). Entre os autores já citados, na perspectiva de Martín-Barbero (1997), as mediações referem-se ao contexto no qual os fenômenos midiáticos são vivenciados pelas pessoas e grupos que produzem e ressignificam sentidos. As mediações, nesse caso, não se configuram contrariamente à mídia, mas, sim, como atmosfera na qual os conteúdos midiáticos ganham significado. Assim, sem os atores e sem as trocas simbólicas, frutos das mediações, as mídias estariam esvaziadas, seriam meros instrumentos técnicos. Sob esse prisma, o receptor não é visto como um simples decodificador daquilo qual o emissor depositou na mensagem, mas também um produtor simbólico, que ao interagir com a mídia, traz todas as suas vivências e bases culturais socialmente elaboradas. (MARTÍN-BARBERO, 1997). Daí a proposta metodológica de Martín-Barbero (1977) de deslocamento dos estudos focados nos meios de comunicação para os processos de mediação, considerando a cultura como a instância mediadora central nos processos de comunicação.4 A comunicação se tornou para nós questão de mediações mais do que meios, questão de cultura e, portanto, não só de conhecimentos, mas de reconhecimento. Um reconhecimento que foi, de início, operação de deslocamento metodológico para rever o processo inteiro da comunicação a partir de seu outro lado, o da recepção, o das resistências que aí têm seu lugar, o da apropriação a partir de seus usos. (MARTÍN-BARBERO, 1997, p.16). Desta feita, esse deslocamento do olhar focaliza a processualidade, ou seja, a dinâmica que vai além da instrumentalidade dos meios. As mídias, por sua vez, são vistas como suporte para transportar os sentidos sociais, que propicia as relações que envolvem os processos comunicacionais. Nesse sentido, a mídia deve ser tomada como um dos elementos no contexto das relações entre técnica e atores e como parte integrante do processo comunicacional, constituindo, assim, um tipo de interação social que permite a processualidade da comunicação e uma dimensão técnica de mediação. Importante enfatizar que Martín-Barbero(2004) realiza outros deslocamentos nos estudos de comunicação, que têm levado a uma aproximação cada vez mais estreita com os estudos sobre a midiatização. Nessa direção, o autor propõe nova perspectiva de análise da 4 Tal deslocamento ocorre em meados dos anos de 1980, a partir dos estudos de recepção desenvolvidos pelo autor no contexto da América Latina, expressando-se no próprio título do livro Dos Meios às Mediações: comunicação, cultura e hegemonia, publicado em 1987 na Colômbia e, posteriormente, no Brasil. (Ed. UFRJ, 1997). 44 comunicação, deslocando a ênfase das mediações culturais para as mediações comunicativas da cultura. O autor justifica essa perspectiva ao argumentar que a mediação tecnológica da comunicação na sociedade hoje deixa de ser meramente instrumental para se converter em estrutural. (MARTÍN-BARBERO, 2004). Se a revolução tecnológica deixou de ser uma questão dos meios, para decididamente passar a ser uma questão de fins, é por que estamos ante a configuração de um ecossistema comunicativo conformado não só por novas máquinas ou meios, senão por novas linguagens, sensibilidades, saberes e escrituras, pela hegemonia da experiência audiovisual sobre a tipográfica, e pela reintegração da imagem no campo da produção do conhecimento. O que estamos vivendo (...) é a reconfiguração das mediações que constituem seus modos de interpelação dos sujeitos e a representação dos vínculos que dão coesão à sociedade. (MARTÍN-BARBERO, 2004, p.36). Outra perspectiva relevante para este trabalho diz respeito à ideia defendida por Braga (2007) de que a midiatização se torna um processo interacional de referência para os demais processos e formas de interação social, estando em marcha acelerada e em estágio avançado de implementação. O autor considera que se vive atualmente uma transição da cultura da escrita, enquanto processo interacional de referência, para uma crescente midiatização de base tecnológica. “Com a midiatização, a processualidade diferida e difusa adquiriu diferente amplitude e diversas qualidades adicionais”. (BRAGA, 2007, p. 150).5 Nesse sentido, as formas tradicionais de interação são redirecionadas e redesenhadas a partir dos novos formatos de interação mediados pelos dispositivos tecnomidiáticos.(Favor confirmar grafia correta deste termo) No entanto, embora as práticas convencionais de interação sejam remodeladas, elas não são substituídas nem excluídas. A midiatização tornase, então, um processo relacional da sociedade que tem a mídia como referência central, mas esta não é absoluta, isto é, trata-se de um processo que ainda está em curso, com lacunas e desafios. Assim, na avaliação de Braga, o processo de midiatização deve ser percebido como algo incompleto, um modelo cultural em permanente construção. (BRAGA, 2007). Dessa forma, os processos de referência midiáticos hegemônicos devem ser apreendidos como tendencialmente prevalecentes na sociedade atual. “O fato de que um processo interacional se torne “de referência” não corresponde a anular outros processos, mas 5 Braga (2007) compreende a midiatização sob duas perspectivas: como processos sociais desenvolvidos em torno da lógica da mídia e como processo macro de midiatização da sociedade. Na primeira perspectiva, o autor relaciona a midiatização a instâncias específicas da sociedade, como por exemplo, a adoção da lógica midiática pelos campos da política, da cultura, da religião, da economia, entre outros. Já em relação à segunda, o autor parte do pressuposto de que a sociedade constrói a realidade social mediante processos de interação pelos quais os atores e grupos sociais se relacionam. Vale ressaltar que o autor não vê estas duas perspectivas de forma estanque, visto serem processos complementares e interpenetrados. 45 sim, a funcionar como “organizador principal da sociedade”(BRAGA, 2007, p. 2). Os demais processos interacionais teriam aquele primeiro como o parâmetro. “Assim, dentro da lógica da “mediatização”, os processos sociais de interação mediatizada passam a incluir, abranger os demais, que não desaparecem, mas se ajustam”. (BRAGA, 2007, p. 142). Estes processos interacionais são os principais direcionadores na construção da realidade social, como evidencia o autor: “Construímos socialmente a realidade social, na medida em que tentamos organizar possibilidades de interação”. (BRAGA, 2007, p. 143). Braga considera ainda que a construção social da realidade se dá por meio da interação e pelos processos de mediações sociais ou tecnológicas, que lhe são mais relevantes ou hegemônicas. Nessa ótica, entende-se que a sociedade não apenas produz sua realidade, mas produz seus próprios processos interacionais que a constroem. (BRAGA, 2007). Em paralelo à construção de uma abordagem teórica sobre a midiatização, Braga elabora conceitualmente a noção de “interação social mediática ampla”, que tem o mesmo sentido de “interação midiatizada”. Trata-se de uma espécie de interação que propicia o estabelecimento de um processo comunicativo que vai além da mídia, ultrapassando o contato interacional midiático imediato entre produtores e receptores: O que caracteriza fundamentalmente a interação social mediatizada é dispormos (à diferença do modelo conversacional) de uma produção objetivada e durável, que viabiliza uma comunicação diferida no tempo e no espaço, e permite a ampliação numérica e a diversificação dos interlocutores. Esta caracterização central, mesma, é que exige ultrapassar o recorte simplista ‘ações mútuas entre produtor e receptor’. (BRAGA, 2006, p. 20). A efetividade dessa interação depende de uma competência dos atores em relacionarse com estas instâncias, por meio dos usos e apropriações que fazem dos produtos e conteúdos extraídos destas trocas. Essa competência é construída nas redes por meio das dinâmicas comunicacionais, que são atravessadas por inúmeros fatores de ordem subjetiva, cultural, política, educacional, entre outros. Braga classifica o que entende como estruturante de uma boa interatividade social mediatizada: A interatividade mediatizada depende de uma competência de interagir com os produtos (e através destes, com a sociedade) – interpretação, seleções, percursos, etc. Essa competência não é dada, se constrói junto com a construção de estruturas, por aproximações sucessivas, em constante reelaboração histórica. Uma boa interatividade social em torno de produtos mediáticos solicita portanto: (a) produtos com estruturações eficientes para seus objetivos interativos; e (b) produtores e receptores (a sociedade em geral) com competências bem desenvolvidas para interagir – de suas posições respectivas – com estes produtos. (BRAGA, 2006, p. 21). 46 Daí que a interação midiatizada torna-se um objeto de estudo relevante à medida que seus estudiosos enfatizam a ação qualitativa dos sujeitos e de grupos, como atores conectados, atuantes no processo comunicacional midiáticos, e, sobretudo, consideram a interação como sistema dinâmico e processual, estreitamente relacionado ao processo de mediação e midiatização da sociedade atual. Nessa ótica, Fausto Neto (2008) concebe o fenômeno de midiatização como uma nova natureza sócio-organizacional, passando da linearidade para a descontinuidade, em que noções de comunicação – associadas a totalidades homogêneas, dão lugar às noções de fragmentos e heterogeneidades. Este fenômeno é fortalecido pelos novos dispositivos interacionais, por meio de sua potência produção e de circulação de sentidos. (FAUSTO NETO, 2008). Ocorre a disseminação de novos protocolos técnicos em toda extensão da organização social, e de intensificação de processos que vão transformando tecnologias em meios de produção, circulação e recepção de discursos. Já não se trata mais de reconhecer a centralidade dos meios na tarefa de organização de processos interacionais entre os campos sociais, mas de constatar que a constituição e o funcionamento da sociedade – de suas práticas, lógicas e esquemas de codificação – estão atravessados e permeados por pressupostos e lógicas do que se denominaria a ‘cultura da mídia’. Sua existência não se constitui fenômeno auxiliar, na medida em que as práticas sociais, os processos interacionais e a própria organização social, se fazem tomando como referência o modo de existência desta cultura, suas lógicas e suas operações (FAUSTO NETO, 2008 p.03). De acordo com Fausto Neto, os dispositivos interacionais técnicos possibilitam a organização de novos protocolos comunicativos que sistematizam as dinâmicas de conversação e de circulação do simbólico. “A intensificação de tecnologias voltadas para processos de conexões e de fluxos vai transformando o estatuto dos meios, fazendo com que deixem ser apenas mediadores e se convertam numa complexidade maior”. (FAUSTO NETO, 2005, p. 8). Este novo modo tecnológico e cultural é consequência da dinâmica entre as práticas de conversação e circulação, intrínsecas aos novos processos de midiatização social, especialmente nos meios digitais. As interações processadas nas redes sociotécnicas, por exemplo, ocorrem devido à circulação de conteúdos que se processam continuamente neste ambiente por meio de diversas lógicas de mediação (sociais, culturais, tecnológicas, entre outras). Assim, os atores constituem-se como conectores do processo de construção simbólica, que levam e formam fluxos que obedecem às lógicas diversificadas dessas esferas virtuais. Essa perspectiva é apropriada para se compreender a dinâmica nas redes digitais, pois permite apreender os processos de interagendamento e convergência – social tecnológica e cultural, entre as diversas mídias, além da afetação entre as interações midiatizadas e não 47 midiatizadas. Em outras palavras, os processos midiáticos configuram uma rede social de conversação que age nos meios e se mantém fora deles, mesmo que os atores estejam fora de sua superfície de contato imediato. Imprime-se uma dinâmica de maneira que a modificação de um deles influencie na mudança/alteração do outro, ou seja, as mudanças nas formas de interação acarretam transformações na mídia e as possibilidades tecnológicas afetam as formas de interagir e sociabilizar. (BRAGA, 2007; FAUSTO NETO, 2009). Para apreender essa dinâmica de circulação interacional, Fausto Neto parte da hipótese de que os processos de midiatização crescentes da sociedade, especialmente aqueles ocasionados pela convergência de tecnologias, “deixam nu o funcionamento dos dispositivos circulatórios de discursos, repercutem nos modos de constituição de novos produtos midiáticos e no funcionamento dos vínculos entre as mídias e seus usuários”. (FAUSTO NETO, 2009, p. 1). A expansão da midiatização como um ambiente, com tecnologias elegendo novas formas de vida, com as interações sendo afetadas e/ou configuradas por novas estratégias e modos de organização, colocaria todos – produtores e consumidores – em uma mesma realidade, aquela de fluxos e que permitiria conhecer e reconhecer, ao mesmo tempo. (FAUSTO NETO, 2009, p. 93). A circulação transforma-se, assim, em fator preponderante dos processos de midiatização. De acordo com o autor, a ênfase na circulação como movimento comunicacional origina-se na necessidade de se complexificar a observação das relações nas interseções dos polos, tratando esse fluxo entre partes, processualmente, como elemento essencial no entendimento das práticas de midiatização. Analisar os atores, seus movimentos, conteúdos e o modus operandi deste processo interacional é de suma importância para a pesquisa em comunicação, especialmente para este trabalho e seu objeto empírico. Segundo ainda Fausto Neto, está nas mãos da sociedade fazer funcionar um novo tipo de real em que a interação social não se tece mais com base em laços sociais, mas em ligações sociotécnicas, o que faz com que a sociabilidade dê lugar a informacionalidade. “A midiatização vai além do ambiente e do seu próprio modo de ser, e se constitui a partir de formas e de operações sociotécnicas, organizando-se e funcionando com bases em dispositivos e operações constituídas de materialidades e imaterialidades”. (FAUSTO NETO, 2005, p. 9). Sob esta perspectiva, o termo circulação vincula-se à problematização do processo interacional de referência e da midiatização, como forma operativa, como movimento das relações em torno da mídia, das formas de interação ocorridas no “intervalo”, por meio dos 48 conteúdos compartilhados “entre” atores. Esta lógica acontece neste momento de passagem, nas instâncias da produção à recepção, ao abarcar as dinâmicas de respostas sociais, integrando uma visão sistêmica do processo comunicacional na contemporaneidade, referenciado pelos protocolos midiáticos. Como processo complexo dos fenômenos midiáticos, o conceito de circulação trata, portanto, do movimento das relações que permeia uma atmosfera ágil, fluida, opaca, “inter” e “trans”. O exame do ato comunicacional que se desloca de uma problemática instrumental para o viés da relação, da conversação e da circulação oferece, conforme ainda o autor, o substrato da complexidade interacional midiática, evidenciando a natureza híbrida e transversal da comunicação contemporânea, ou seja, as novas práticas comunicacionais configuram-se como uma questão relacional, processual, interacional, e não só de caráter transmissional, na medida em que os atores lidam de modo voluntário, ou não, com algo que lhe é externo, como algo que lhe precede e que é contínuo, os conteúdos informacionais midiáticos. (FAUSTO NETO, 2009). A discussão realizada até aqui revelou que as crescentes mudanças nos processos da comunicação na sociedade ligados à mídia formatam novos modos de funcionamento e organização das dinâmicas de circulação, característica fundante dos novos meios digitais e elemento importante no estudo da comunicação. Revelou também que este processo interacional é dinâmico e é construído por meio de jogos de negociação de sentidos, segundo protocolos de produção e recepção, apropriação, ressignificação e resposta, condicionadas à circulação e à transversalidade. Diante do exposto, pode-se inferir que a problemática da construção dos sentidos, e dos seus efeitos, passa a ser permeada por mecanismos mais complexos. Em outras palavras, infere-se que a circulação midiática na sociedade amplia-se e intensifica-se com os novos ambientes de relações e trocas sociais que são estruturadas em redes complexas e, sobretudo, sob a influência dos atores e de sua capacidade de respostas. Por isso, não basta estudar a rede sob a perspectiva de seus tipos e topologias, já que são os fluxos que dão contornos aos fenômenos comunicacionais contemporâneos. Nessa medida, deve-se atentar para a emergência e desenvolvimento de um novo modelo comunicacional, que não se baseia apenas na evolução tecnológica, mas no envolvimento da sociedade com o processo, uma vez que suas práticas de conversação e a circulação colocam em movimento, conteúdos simbólicos que dão sentidos à vida social. Certamente, a midiatização é um processo interacional de referência em curso, mas que já aponta para novas perspectivas de estudo, perguntas e desafios que só encontram 49 possíveis caminhos elucidativos ao se adentrar na reticularidade dos processos comunicacionais, na operacionalidade da interação, na circulação de seus conteúdos, nas suas formas de conversação, nos detalhes das relações. O regime de funcionamento da mídia é enriquecido na medida em que surgem problemáticas em torno do sistema de emissão, recepção e circulação de sentidos, como se verá a seguir a partir da formulação do sistema de resposta social, que consiste em um novo modo de olhar os processos interacionais na sociedade contemporânea. 1.5. Sistema de Resposta Social As interpretações sobre os processos midiáticos mostram-se constantemente desafiadas diante de um cenário contemporâneo de mudanças e velocidades. É imprescindível que os métodos de análise e as teorizações acompanhem tal diversificação e a complexidade deste momento tensionado pelas mutações tecnológicas, culturais e sociais. As abordagens conceituais apresentadas até aqui sobre redes, capital social, deliberação, movimentos sociais, bem como sobre midiatização, mediação, interação midiatizada, circulação e sistema interacional de referência, reúnem autores que, de forma consensual, consideram que os sujeitos da comunicação possuem papel ativo na sociedade e no processo comunicacional. Por esta relevância, a interconexão da análise de Braga (2006) sobre o Sistema de Resposta Social (SRS) com o objeto empírico deste trabalho – a blogosfera da Segurança Pública (a ser caracterizado e analisado nos capítulos subsequentes), é referência central para o entendimento de como a sociedade desenvolve suas experiências de “enfrentamento” e “negociação” com o sistema midiático. Segundo o autor, o SRS ou Sistema de Interação Social, consiste em: [...] Um terceiro sistema de processos midiáticos, na sociedade, que completa a processualidade de midiatização social geral, fazendo-a efetivamente funcionar como comunicação. Esse terceiro sistema corresponde a atividades de resposta produtiva e direcionada da sociedade em interação com os processos midiáticos. Denominados esse terceiro componente da processualidade midiática ‘sistema de interação social sobre a mídia’ ou, mais sinteticamente, ‘sistema de resposta social’. (BRAGA, 2006, p. 22). Um sistema de resposta social é então alguma coisa bem mais complexa que a interatividade pontual, ou de retorno entre o receptor e o emissor. Pode incluir tais vetores, mas corresponde ao próprio processo de construção e de manutenção continuada de um desenho de interações – para apreender e constituir continuadamente a realidade. (BRAGA, 2006, p.15). 50 Nessa dimensão, Braga propõe a existência de um sistema de resposta da sociedade, a fim de incorporar a atual diversidade dos modos de produção, recepção e resposta comunicativa. Para tanto, o autor parte da premissa de que a sociedade não é um simples recebedor passivo dos produtos da mídia, pois ela também processa, age e produz a partir do que recebe, interferindo, por meio de inúmeros mecanismos, na própria produção da mídia. Nesse sentido, os três subsistemas – produção, recepção e resposta social – correspondem ao agrupamento de dinâmicas comunicacionais em um todo que os abrange e ora os resume. Em outros termos, trata-se de três processos que se interpenetram e integram uma composição maior, que é o processo comunicacional. (BRAGA, 2006). [...] Desde as primeiras interações midiatizadas, a sociedade age e produz não só com os meios de comunicação ao desenvolvê-los e atribuir-lhes objetivos e processos, mas sobre os seus produtos, redirecionando-os e atribuindo-lhes sentido social. ao fazer isso, chega inclusive, partindo de práticas de uso, a desenvolver novos objetivos e funções para as tecnologias inventadas a serviço inicialmente de pontos de vista relacionados a produção e emissão. [...] Esse terceiro subsistema corresponde a atividades de resposta produtiva e direcionadora da sociedade em interação com os produtos midiáticos. (BRAGA, 2006, p. 22). A proposição de Braga considera que a sociedade não interage com os meios de comunicação e, sim, com os produtos e processos desenvolvidos e transmitidos por eles. Daí que a complexidade de estudar esse sistema está nas respostas diferidas e difusas, que são características próprias da midiatização. Sob esse prisma, o SRS é a forma pela qual a sociedade fala sobre os conteúdos midiáticos postos em circulação pelos meios. Essa dinâmica remete à noção de continuidade entre os processos comunicacionais midiatizados e também os não midiatizados, dentro dos meios e fora dos meios. Deve-se evidenciar, portanto, que tal sistema refere-se à movimentação da sociedade a partir dos estímulos produzidos inicialmente pela mídia e, consequentemente, da forma pela qual os sujeitos se apropriam do produto midiático. O que a sociedade faz com esse produto é então, relacionado como uma resposta, um trabalho social dinâmico caracterizado por fazer circular ideias, informações, reações, interpretações e reinterpretações. Segundo Braga (2006), essa dinâmica é tão abrangente quanto abstrata, e moldada a partir de padrões subjetivos, culturais, hábitos, tendências e objetivos. A perspectiva do SRS vislumbra uma gama de possibilidades contínuas e infinitas de atuação do público junto à mídia e vice-versa, uma vez que valoriza a capacidade de a audiência criticar, avaliar, julgar e resistir aos produtos midiáticos. Assim, credita um papel ativo ao polo da recepção de redimensionar, redirecionar e ressignificar os produtos da 51 emissão. O que resulta em um sistema de mediação dinâmica e contínua, que parte da mídia e que é retomada a ela, ou seja, em um processo de significação e ressignificação, interpretação e reinterpretação. Para o autor, este ciclo de relações sociais com a mídia, em que a emissão produz, a recepção consome, avalia, conversa, ao mesmo tempo em que responde a mídia, torna-se o motor do sistema de resposta da sociedade. Em suma, entende-se esse sistema como uma ação qualitativa de interferência de atores e como dinâmica de intervenções da coletividade em um esforço de compartilhamento simbólico, de aprendizagem, de ação e de controle social. (BRAGA, 2006). Em síntese, o SRS permite ao estudioso ter uma percepção global e processual do processo comunicacional, isto é, uma visão macro e micro dos processos interacionais. Esse olhar sistêmico não desconsidera a importância de se compreender as especificidades do funcionamento de cada subsistema, e estabelece critérios de comparação entre eles. Assim, possibilita promover articulações internas entre os processos de acordo com o seu pertencimento ao sistema e, por fim, estabelecer diferenciais e tensionamentos entre as interações que ocorrem no interior de cada subsistema e entre os subsistemas da produção, recepção, circulação e resposta social. Como ressaltado, o SRS reforça a ideia de que a sociedade não é um agente que apenas recebe, mas também, que responde, organiza e desenvolve ações diversas sobre a mídia. Os atores fomentam e estabelecem por meio desse sistema ações críticas que, por conseguinte, geram processos de associação, formação, pressão, militância, controle, vigilância, enfrentamento, sistematizações, continuidades, associações e aprendizagem individual e coletiva. Geram ainda ações contrapositivas, interpretativas, ressignificativas, proativas, corretoras de percurso, controladoras, seletivas, polemizadoras, de estímulo, de alerta, entre outros. (BRAGA, 2006). A adesão, a crítica, as objeções interpretativas, as pressões exercidas, as ações de militância, a organização da coletividade, os movimentos sociais, o esforço de controle sobre a mídia, as referências históricas criadas, os processo formativos compõem algumas das principais formas de enfrentamento da sociedade em relação à mídia convencional. De acordo com Braga, essas ações são voltadas para a própria sociedade e conforme sua abrangência podem ter um sentido direto ou indireto de resposta sobre a mídia, que vai se caracterizar, então, por meio da circulação, como uma reação da sociedade, necessariamente diferida e difusa. (BRAGA, 2006). O autor advoga ainda, que há uma variedade possível de ações de interação e que, muitas delas, utilizam a própria mídia como veículo dessas ações. Esse aspecto, segundo o 52 autor, comprova a superação da visão dualista entre mídia e sociedade, com a crítica midiática sendo acolhida pela própria mídia. Assim, a sociedade pode utilizar a própria mídia para divulgar suas ideias, criticar, referenciar, sistematizar, aprender, apreender, integrar e mobilizar, evidenciando a extensa variedade de ações de interferência e interação, já que é por meio dessas características emergentes nestes dispositivos sociais que a sociedade pode exercer sua liberdade e seu poder crítico.Sob esta perspectiva, a Internet pode ser vista como um ambiente midiático favorável para a discussão das dinâmicas interacionais no interior dos subsistemas e entre os mesmos, tanto no sentido experimentar tais dinâmicas como de se observar as interrelações entre emissores, receptores e respostas sociais, integrantes de um sistema interacional complexo de um cenário contemporâneo amplo. (BRAGA, 2006). Embora reconheça a multiplicidade de processos com que a sociedade age sobre a mídia, alguns inclusive de interesse da própria mídia, Braga enfatiza que a teorização referente ao SRS não corresponde a uma visão ingênua de que a sociedade está preparada para enfrentar e corrigir distorções do sistema de produção da mídia, nem tampouco, que há equilíbrio na relação mídia, atores e sociedade. (BRAGA, 2006). Por fim, é importante retomar a necessidade de articular o objeto de estudo desta pesquisa com o sistema de resposta social, de forma a conjugar as características desse sistema à mídia digital. Nesse sentido, os atores em conexão, por meio dos conteúdos em circulação nos ambientes digitais, constituem um sistema de resposta à produção de outras mídias e, sobretudo, não podem ser consideradas apenas como uma manifestação extramidiática, mas, sim, um fenômeno complexo dinâmico processual de compartilhamento de significados, de modo transversal e sobreposto. Os blogs são exemplos de um esforço coletivo atravessados por múltiplas vozes, que podem funcionar como instrumentos de crítica e de ações na mídia e da mídia. Dessa forma, os suportes digitais não só servem como oportunidade de manifestação do sujeito e de grupos, mas, também, de parâmetro instantâneo para os veículos de comunicação oficiais, formais e comerciais para se pautarem, e, sobretudo, se avaliarem. Contrariamente aos fatores que tornam a visão processual e sistêmica interacional quase imperceptível, entende-se as mídias, em especial as redes digitais, como suportes relacionais que favorecem a ação de atores sociais e, que, sobretudo, revelam os processos aqui abordados. Tais dispositivos estruturam inter-relações dentro da mídia, com outros meios, com a sociedade, enfim, traçam fluxos interacionais no interior, nas bordas e no exterior das redes. Estes dispositivos constituem subsistemas que integram uma visão sistêmica interacional. Parte-se, portanto, do princípio da existência desses suportes digitais como estruturantes de relações sociais complexas e como indicativos de que a sociedade 53 interage com suas mídias, se pautam por elas e nelas se inserem. Assim, abordam-se a seguir, outras perspectivas conceituais deste fenômeno comunicacional, especialmente, a abordagem dos blogs e da blogosfera. 1.6. Redes comunicacionais midiatizadas: blogs O termo weblog foi primeiramente usado por Jorn Barger, em 1998, para referir-se a um conjunto de sites que “colecionavam” e divulgavam links interessantes na Web (BLOOD, 2000). Daí o termo web+log (arquivo Web) e seu diminutivo blog, que foi usado por Jorn para descrever a atividade de loggingthe web. Nesta época, os blogs eram poucos e quase nada diferenciados de um site comum na Web. Autores como David Winer consideram como o primeiro blog o primeiro site da Web, mantido por Tim Berners-Lee, da CERN, criador da World Wide Web, em março de 1989. O site tinha como função apontar todos os novos sites que eram colocados no ar. Foi o surgimento das ferramentas de conversação e publicação que alavancou os blogs. Em 1999, a pitas.com lançou a primeira ferramenta de manutenção de sites via Web, seguida, no mesmo ano, pelo lançamento da plataforma blogger.com.br. Esses sistemas proporcionaram maior acessibilidade e facilidade na publicação e manutenção dos sites, que não mais exigiam o conhecimento técnico da linguagem HTML e, por isso, passaram a ser rapidamente adotados e apropriados para os mais diversos usos. A agregação das ferramentas de comentários, postagens e inserção de links foi fundamental para a popularização dos blogs. Ainda em 1999, a compra do Blogger pela Google foi percebida uma consagração dos blogs nessa época, coroando sua usabilidade (AMARAL, RECUERO, MONTARDO, 2008). Os blogs foram inicialmente definidos como uma ferramenta de publicação que constituía um formato muito subjetivo e particular. Diante de um cenário de popularização dos blogs, uma das primeiras apropriações que rapidamente foi notada diz respeito ao uso destas ferramentas como oportunidade de se originar construções simbólicas individuais. Assim, os blogs começaram a ser utilizados como espaços de expressão pessoal, publicação de relatos, experiências, pensamentos e suas percepções do coletivo. O uso do blog, ainda hoje, é considerado em sua maior parte como um diário pessoal e entendido por muitos autores como o mais popular uso da ferramenta. Tal acepção nos remete a uma espécie de ponto de encontro, uma referência de pertencimentos, uma comunidade virtual onde se constitui um nó. 54 No que diz respeito à abordagem teórica relacionada a blogs, pode-se dizer que é variada e extensa, e vários autores se manifestam de formas diversas. Uma definição mais frequente é aquela que conceitua o blog a partir da presença de textos organizados por ordem cronológica reversa, datados e atualizados com alguma frequência. Os vários usos têm em comum o formato constituído pelos textos colocados no topo da página e frequentemente atualizados, bem como a possibilidade de uma lista de links apontando para sites similares e a contínua inserção de comentários. Desta maneira, os blogs constituem um website em frequente atualização, onde o conteúdo, sendo este, texto, fotos, arquivos de som ou vídeo, são postados em uma estrutura regular e posicionados em ordem cronológica reversa. A frequência das postagens é uma característica importante, comum às diversificadas abordagens e igualmente discutida. Gilmor (2004) foca na estrutura apenas a partir da presença de links e dos textos curtos publicados em ordem cronológica reversa. Barbosa (2003), por sua vez, propõe a visão do blog como uma ferramenta que facilita a publicação pessoal, anexando à sua estrutura o caráter discursivo e de pessoalidade. Garfunkel (2004) identifica e reúne os seguintes traços característicos de um blog: website de cunho subjetivo ou não-comercial, tipicamente produzido por um único indivíduo; formato de um diário organizado em ordem cronológica reversa, em geral atualizado todos os dias ou com bastante frequência; referências a outros sítios da web e excertos comentados de outras fontes e impressões pessoais e, por fim, relatos da vida diária. (GILMOR, 2004, BARBOSA 2003, GARFUNKEL 2004). Primo e Smaniotto (2006) caracterizam os blogs de acordo com sua estrutura, ou seja, “blog/texto”, “blog/programa” e “blog/lugar”, o que permite a distinção entre os aspectos tecnológicos e humanos desse novo mecanismo de produção e divulgação de conteúdo online. O “blog/texto” é o conjunto de todo o conteúdo produzido pelo blog, disponibilizado em posts, geralmente textos escritos, mas que podem também ser imagens, áudios e vídeos, uma vez que tal denominação leva em consideração que texto não é apenas a mensagem divulgada por signos verbais. “Blog/programa” pode ser entendido como uma ferramenta informática utilizada para a produção do “blog/texto”. É a estrutura lógica técnica moldada para formatar os recursos de linguagem. “Blog/lugar” seria a localização do blog/texto na www indicada por um endereço específico. (PRIMO E SMANIOTTO, 2006). Pedersen e Macafee (2007) concebem o blog a partir de sua função primária, isto é, por conter características tradicionais e prioritárias aos meios de comunicação em torno de meramente divulgar as informações aos seus públicos de forma segmentada, por meio da Internet. Nesta concepção, a participação e instantaneidade não é um pressuposto obrigatório. 55 De igual forma, nem todos os autores que abordam os blogs como objeto empírico, referem-se à ferramenta de comentários como essencial para a definição deste suporte e ainda, não abordam o suporte tendo como foco principal a conversação e as trocas exercitadas no ambiente com seus pares. (PEDERSEN E MACAFEE, 2007). Outros autores buscam compreender os blogs como artefatos culturais. Essa percepção representa uma aproximação do contexto sócio-histórico de apropriação dos artefatos tecnológicos, a partir do olhar subjetivo dos próprios atores que interagem com as novas tecnologias e atuam nestas. Segundo Espinosa (2007), um blog é “um artefato cultural, de forma a evitar qualquer confusão conceitual, pode ser definido como um repositório vivo de significados compartilhados produzido por uma comunidade de ideias”. (ESPINOSA, 2007, p. 272). Assim, o blog é definido também como sendo um suporte de comunicação utilizado para publicar informações para um grupo. “Weblogs constituem uma conversação massivamente descentralizada onde milhões de autores escrevem para a sua própria audiência”. (MARLOW, 2004, p. 32). Blood (2002), em uma das primeiras obras a respeito dos blogs, explica que a conversação é uma forma de apropriação do suporte. A percepção dos blogs como espaços de sociabilidade, como constituintes de redes sociais está presente nesta vertente. Assim, vale aqui ressaltar que o uso subjetivo do blog não se remete exclusivamente à sua utilização como diário pessoal, mas também, como uma forma de se tornar mediador midiático que utiliza dos ambientes digitais para dizer de algo de seu interesse, seja do ponto de vista individual, da coletividade ou das instituições. O gestor deste conteúdo pode, por exemplo, utilizar desse meio para se relacionar, para fazer ecoar temáticas de militâncias, divulgar pensamentos e ações referentes à hobbys,à instituições, às relações de consumo, a fins promocionais, como método de observação de pautas e contextos jornalísticos ou até mesmo, como objetos de percepção e análise de risco para imagem das organizações. Enfim, com todas as interfaces possíveis com que o sujeito, os grupos, a mídia e até as instituições potencialmentese deparam e das quais sintam a necessidade de expor seus conteúdos à coletividade. (BLOOD, 2002). De acordo com Amaral, Recuero e Montardo, Os blogs constituem hoje uma realidade em muitas áreas, criando sinergias e reconfigurações na indústria cultural, na política, no entretenimento, nas redes de sociabilidade, nas artes. Os blogs são criados para os mais diversos fins, refletindo um desejo reprimido pela cultura de massa: o de ser ator na emissão, na produção de conteúdo e na partilha de experiências. (AMARAL, RECUERO E MONTARDO, 2009, p. 8). 56 Assim, percebe-se a predominância do uso deste suporte como ambiente aproximativo, subjetivo, explorado como diário pessoal, construído por meio de uma estrutura discursiva centralizada, ou estendido em diversas situações, para o uso coletivo, com estrutura discursiva, mas, sobretudo, com fortes características descentralizadoras e de compartilhamentos mais abrangentes. De toda forma, há, em sua apropriação, um forte elemento de personalização e de pessoalidade gerados no âmbito da emissão, da recepção e em seus interagendamentos. Nesse mesmo sentido, dois autores, Trammell e Keshelashvili (2005), apesar de reconhecerem que o blog é muitas vezes definido a partir de sua estrutura, consideram que por sua vocação midiática, o blog torna-se uma aproximação da personalização de seu autor, que é expressa a partir de suas escolhas de publicação. (TRAMMELL & KESHELASHVILI, 2005). Gumbrecht (2004) explica que os blogs são formas de publicação que fortalecem a expressão individual em público. Nesse sentido, os blogs apresentam-se como espaço de recepção, de publicação, de disseminação e de visibilidade diferenciadas, ou seja, tornam-se uma forma de apropriação e reapropriação de um contexto. (GUMBRECHT, 2004). Os blogs, mesmo aqueles que não têm como característica a expressão da opinião do autor, são personalizados. Até mesmo os blogs que não passam de uma coleção de links e de comentários curtos dizem algo sobre os seus autores. Nesse sentido, Rocha (2003) aponta o blog como um espaço de expressão de sentimentos, que poderia ser percebido como outra forma de constituição da personalização. Os blogs são formas de representação da identidade de seus atores/autores. Mesmo os blogs que não são especificamente opinativos, contêm no seu repertório de links e textos, seu autor espelhado nessas escolhas. (ROCHA, 2003). O blog é também compreendido como uma escrita pessoal e íntima e um espaço de narrativa do sujeito, conforme Lemos intitula como “narrativa de si”. (LEMOS, 2002). Nesse sentido, explica-se o fato do interesse do sujeito em poder participar de grupos virtuais, pois representa uma oportunidade de se colocar na cena midiática, de se expressar, desfrutar ambientes comuns de pertencimento e poder compartilhar um imaginário coletivo. Essa difusão de significados comunicacionais é denominada por Silva (2003) como “tecnologias do imaginário”. Tais estruturas midiáticas funcionam como dispositivos de produção de nexos, mitos, pontos de vistas, visões de mundo e de estilos de vida. (SILVA, 2003). Diante disso, o blog é uma forma individual e coletiva de expressão personalizada, que marca a percepção do “outro” por meio do potencial de interconexão das redes. Cada blog é 57 um nó na infinita rede que firma fluxos interacionais multiplexos por meio de variados graus de pertencimento e intensidade de laços sociais estabelecidos entre os atores. Essas perspectivas conceituais auxiliam-nos no entendimento de como os blogs são compreendidos atualmente. O blog como “diário pessoal” é a forma mais popular de seu uso. Como “estrutura organizada” de textos, independente das participações e comentários, indiferente de seus usos, em um contexto mais geral. Como “meios de comunicação”, os blogs são compreendidos por meio de sua função comunicativa e dos elementos que dela decorrem, dando contornos mais tradicionais à função de divulgação. Como “mídia”, enfatiza-se a interatividade e seu papel como potencializador de novas formas de relações sociais. Como “artefatos culturais”, os blogs são apropriados pelos atores e constituídos por meio de subjetividades e motivações ou, por último, como forma de “conversação”. Independentemente de os blogs serem interpretados sob um viés estrutural (ferramenta), funcional (com propriedades inerentes ao meio de comunicar) ou como artefato social (apropriação sob o ponto de vista cultural, antropológico, em que as novas tecnologias permitem a manifestação da subjetividade), eles consolidam e consistem em ambientes que permitem a comunicação mediada por meios digitais, que inauguraram recentes formas de se socializar, com contornos ainda tênues e parciais, mas que favorecem, sobretudo, a interação online, sob os mais variados interesses. Sob este ponto de vista, o blog favorece um ambiente comunicacional complexo e possibilita a ação de atores e suas comunicações reticulares, intercruzadas, que se manifestam em um espaço virtual agregador de uma multiplicidade de narrativas. Este suporte contemporâneo permite um ambiente de trocas simbólicas e de interação social, resultantes do interesse individual e coletivo, que fomenta diálogos, estimula a visibilidade e articula processos comunicativos mediados e potencializados tecnicamente. O blog passa a ser visto como um locus de compartilhamento simbólico, que se torna infinitamente mutável, moldável à intencionalidade dos atores. (LEMOS, 2002). Não se trata, portanto, nunca de algo determinante. A experiência qualitativa com os meios de comunicação só pode estimular o potencial crítico, criativo ou o imaginário de uma pessoa se houver interesse, assim como capacidade cultural e educacional para usufruir de tais potenciais. Além disso, como em qualquer outra mídia, a prática de comunicação no blog vem carregada de intencionalidade e ideologismos. (LEMOS, 2002). É um ambiente de trocas informacionais, potencializado pelos atores pela interferência no processo de emissão, recepção e respostas sociais, porém, seu uso deve ser mais do que nunca, questionado, problematizado e pesquisado. 58 Assim, características importantes em relação aos blogs devem ser descritas, como é o caso do estudo das características do público e da utilização do ambiente coletivo. Os estudos de Amaral e Quadros (2006) descrevem os conflitos e distúrbios nas comunidades blogueiras e o comportamento desse público. Também está presente nessas análises a conceituação de trolls e dos que visitam um determinado blog, mas não comentam ou participam (FERREIRA & VIEIRA, 2008). “Os trolls constituem tanto uma persona que causa distúrbio às relações sociais como podem, a partir de suas acusações, gerar debates que garantem a participação de um maior número de participantes, assim como podem atrair ainda mais trolls.” (AMARAL & QUADROS, 2006). Desta forma, o ambiente digital tem sido regularmente ocupado por práticas políticas, para externar conflitos e para expor distúrbios. (RECUERO, 2009). Na tentativa de sintetizar as diversas visões, percebe-se que os ambientes digitais são espaços virtuais sociais, de compartilhamentos simbólicos que podem representar tanto as dinâmicas colaborativas e cooperativas quanto às práticas em torno do conflito. Nos dois casos, notam-se as estratégias de captação de audiência e participação por meio da exploração de conteúdos polêmicos e que vão provocar movimentos de estabilização, agregação ou desestabilização e desagregação. A espetacularização de determinadas situações atrai novos seguidores seduzidos pela ideia do embate, do confronto, do questionamento, da denúncia, e das revelações possíveis sobre algo. A manutenção desta audiência é sempre alimentada pela novidade, pelo fato, pela revelação e exclusividade. Por fim, percebe-se que os blogs estão na ordem atual dos debates sobre novas tecnologias, mídia, redes, deliberação, mobilização. Por isso, acredita-se na necessidade de estudar as dinâmicas comunicacionais proporcionados pelos meios digitais para que se possa perceber qual a profundidade, a intensidade e abrangência das redes de sociabilidade. Este conhecimento serve como base traçar este fenômeno singular de forma mais próxima dos novos hábitos coletivos e das práticas sociais contemporâneas. O que momentaneamente se pode afirmar é que as redes de sociabilidade digitais, certamente, fazem parte das reconfigurações do mundo globalizado, como efeitos da ampliação das informações, das novas relações com o tempo e da expoente desterritorialização das relações sociais, reconfigurando substancialmente as superfícies e interfaces interacionais simbólicas de contato. O que interessa, portanto, é a potencialidade comunicacional desses ambientes constituído pelos atores como novas formas de sociabilidade, de relação, de respostas sociais, de variados usos e conteúdos, de múltiplas possibilidades de se manifestar e se reconhecer 59 coletivamente, bem como, de compartilhar significados intrínsecos. Assim, adentra-se nos processos de compartilhamento, construções narrativas coletivas reveladas nos ambientes digitais, por meio da discussão adiante sobre blogosfera da Segurança Pública e o estudo de caso do blog da Renata. 60 2 BLOGOSFERA DA SEGURANÇA PÚBLICA (SP) E O BLOG DA RENATA Este capítulo destina-se à exploração do ambiente virtual relacionado às discussões de Segurança Pública. Nesse sentido, objetiva-se a investigação da blogosfera da SP a partir do blog da Renata, suporte midiático que reúne atores no estado de Minas Gerais, observados do ponto de vista da interação sob a luz do movimento reivindicatório da SP de 2011. Apresentase o cenário da blogosfera da SP, o blog da Renata e breve contexto do movimento para possível greve do segmento. 2.1 Blogosfera da SP O termo blogsosfera (blog+esfera) tem similaridade com a palavra mais antiga "logosfera". "Logo" é um elemento que significa palavra e "esfera" pode ser interpretado como "mundo", como representação geográfica do planeta Terra. As relações entre os conceitos resultam na definição "o mundo das palavras", isto é, o universo do discurso. O termo também se aproxima na pronúncia e no significado do termo "noosfera", isto é, o mundo do pensamento. Entende-se nesta pesquisa a blogosfera como o termo coletivo que compreende todos os blogs (ou weblogs) como uma comunidade ou rede social. Muitos blogs estão densamente interconectados, isto é, atores leem os blogs uns dos outros, criam links para eles, referem-se a eles na própria escrita e postam comentários nos blogs uns dos outros. Por causa disso, os blogs interconectados criam a própria cultura. O conceito de blogosfera é importante para a compreensão dos blogs, na medida em que qualifica os tipos e os segmenta. A blogosfera é, portanto, o conjunto de blogs em torno de peculiaridades grupais e de segmentos que, de forma coletiva, dialogam em condições reticulares. A participação e o compartilhamento é que operam o agrupamento desses “nós”. Orihuela define blogosfera como “um sistema complexo, autorregulado, extraordinariamente dinâmico e especialmente perceptível à informação que produz os meios tradicionais, em particular no que se refere a assuntos políticos e tecnológicos” (ORIHUELA, 2007, p.8). Assim, os blogs representam o conjunto de conteúdos publicados por atores enquanto a blogosfera é um fenômeno social, uma esfera midiatizada e cenário temático de envolvimento de um grupo de interesse. Dada a emergência desses suportes midiáticos, surgem no ciberespaço diversos sites e serviços voltados a produzir e veicular informações para grupos de interesse no ambiente da Internet, além do monitoramento, entre outras 61 funções. Portais como technorati.com e bloglines.com usam os links criados pelos blogueiros para rastrear as interconexões entre os blogs, a fim de acompanhar esses ambientes segmentados. Aproveitando as vantagens dos links em hipertexto, que funcionam como marcadores dos assuntos que os blogueiros estão discutindo, esses sites seguem o movimento de uma conversa de um blog a outro e dessa maneira, permitem rastros, clareiam temáticas, alcances e adesões. As plataformas também podem ajudar pesquisadores a descobrir com que velocidade um conteúdo pode autopropagar-se pela blogosfera. A prática de espalhar informações é incorporada por alguns teóricos como “memes”. O termo é usado para descrever o fluxo informacional que se espalha por meio da Internet por meio de algum assunto, mensagem e conteúdo, isto é, uma idéia propagada via redes digitais. “Essa influência é relativa às interações entre os indivíduos e na própria rede social (BOYD, 2004), podendo gerar agregação (BOYD, 2004); competição e cooperação (HEYLIGHEN, 1994) e outras dinâmicas”. (RECUERO, 2004, p. 10). A partir dessa breve caracterização, foca-se, agora, a blogosfera da Segurança Pública, chamada também de blogosfera policial, que é constituída por blogs segmentados relacionados à SP e à criminalidade no Brasil, formando a blogosfera e os blogs segmentados. Adota-se o primeiro termo, uma vez que abrange todas as categorias da SP e da defesa social, e não somente os blogs relacionados à prática policial. Adota-se o segundo termo com prioridade por representar com abrangência devida as temáticas relacionadas a todas as categorias da SP e defesa social e não somente, os blogs relacionados à prática policial. Parte-se da visão sistêmica que considera várias instituições como parte de um conjunto, envolvidas com a temática da SP, Defesa Social, da ordem social, da proteção e prevenção, da ostensividade, da investigação, da repressão, da vida e do patrimônio e ainda do prisional e socioeducativo. Esse ambiente digital temático tem-se mostrado como uma rica fonte de pesquisas e disponibilização de informações e reflexões sobre as práticas e rotinas dos agentes públicos de SP, além promover uma interação direta entre eles. Ademais o próprio agente da SP passa a ser ator do seu próprio agendamento. Esse ambiente abre espaço também para a participação de diversos segmentos da sociedade no debate de questões ligadas ao setor, incluindo a imprensa, movimentos organizados da sociedade civil, entre outros. Os processos de midiatização digitais podem ainda favorecer uma horizontalidade das informações entre camadas operacionais e estratégias, entre instâncias municipais, federais e estaduais, tornando-se uma via alternativa de comunicação, paralela à formal e às mídias convencionais. 62 Em outras palavras, os blogs temáticos da SP6 passam a se tornar ponto de encontro e fonte de informação não só para os agentes envolvidos nas instituições de SP, como também para os membros da sociedade civil, entre pesquisadores e estudiosos, instituições, instâncias políticas, movimentos sociais, enfim, aqueles que, por inúmeros motivos, se interessam ou estão envolvidos pelo universo ali exposto. A blogosfera da SP contribui, assim, para dinamizar as práticas comunicativas das instituições, bem como subsidiar a elaboração de diagnóstico comunicacional interinstitucional e extrainstitucional, por meio de uma leitura de cenários do segmento, de seus inputs, outputs, riscos, ameaças, oportunidades de mobilização participação de variados atores nos assuntos relacionados às temáticas públicas. A internet tem se revelado um instrumento capaz de revolucionar todos os setores da atividade humana. A economia, a cultura, a política, o jornalismo e a publicidade são alguns exemplos de áreas que foram – e continuam a ser – radicalmente modificadas pelo nascimento do universo virtual. A difusão rápida de informações; a horizontalização das relações; a formação de redes sociais a partir de tópicos de interesse; a transparência; a possibilidade de contato direto entre prestadores e usuários de serviços são características evidentes desta nova realidade. Elas também estão modificando o cenário da Segurança Pública, impactando profundamente as forças policiais. (UNESCO, 2009, p. 17). As várias forças pouco ou nada se relacionavam entre si e era comum que os integrantes de uma corporação como a Polícia Militar manifestassem desconfiança e animosidade em relação aos colegas de outra instituição, como a Polícia Civil. Os blogs estão subvertendo a hierarquia nos quartéis e nas delegacias (o blog de um soldado pode ser tão importante quanto o de um coronel) e criando canais de troca entre as forças policiais e delas com os demais grupos e instituições. (UNESCO, 2009, p.17). Os blogs temáticos do segmento passam a se tornar ponto de encontro e fonte de informação não só para os agentes envolvidos nas instituições de SP, como também para os membros da sociedade civil, entre pesquisadores e estudiosos, instituições, instâncias políticas, movimentos sociais, enfim, aqueles que, por inúmeros motivos, se interessam ou estão envolvidos pelo universo ali exposto. O Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), da Universidade Cândido Mendes, realizou à convite das Organizações das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura – Unesco, a primeira pesquisa deste importante fenômeno no debate sobre SP e criminalidade no Brasil, intitulada como “A blogosfera policial no Brasil: do tiro ao twitter”. (UNESCO, 2009). 6 Uma busca na Internet pelo termo blogosfera da SP, em novembro de 2012, resultou em 715.000 resultados, com inúmeras remissões para sites de todo Brasil, inclusive internacionais. 63 A pesquisa da CESeC realizou uma análise sobre a existência de blogs policiais utilizando-se de entrevistas, questionários diretos aos blogs e mesas redondas para compor o perfil do blogueiro policial. Por meio de um formulário, 73 blogueiros, autores de 70 blogs, responderam às questões da CESeC; o resultado divulgado pela Unesco comprovou o interesse dos vários segmentos da SP pela nova esfera midiática. O estudo cita a representatividade de vários órgãos da SP na rede digital, entretanto a pesquisa da CESeC revela a predominância do policial militar na rede. A análise do estudo da Universidade Cândido Mendes reflete, portanto, a representação dominante dos blogs temáticos relacionados ao conteúdo da Polícia Militar em âmbito nacional e, assim, retrata o perfil dos blogueiros na rede. Certificou-se que os profissionais que mantêm blogs são, em sua maioria, oriundos da Polícia Militar, totalizando a participação quantitativa em 58%, seguida da Guarda Municipal (presentes em alguns estados brasileiros) com 15,1% e da Polícia Civil, 13,7%. Identificou-se que os blogs sobre segurança, criminalidade e defesa social são representativos de várias instituições e do interesse recíproco pelos blogs da SP, independente do tamanho e abrangência. A maior representatividade dos militares reflete, no entanto, não somente o maior interesse dos policiais pela rede, mas também o quantitativo de efetivos superior às demais instituições de SP. Outra informação importante levantada pela investigação de 2006 a 2009 refere-se às camadas e postos que os blogueiros representam: 58% dos administradores do suporte provêm de níveis de carreira baixos das instituições policiais. Oficiais e delegados juntos representam 42%. O cenário de envolvimento das classes institucionais mais operacionais não reflete o nível intelectual dos autores dos blogs, sendo que 62% destes entrevistados têm curso superior completo e níveis de especialização. Somente 12,7% cursaram apenas o ensino médio. Os participantes da pesquisa com até 29 anos são aproximadamente um terço da amostra, mas os que têm 30 anos ou mais representam 72,5%. Em relação ao gênero, a pesquisa retratou que a predominância masculina na área de segurança foi acentuada: apenas três mulheres estão entre os 73 entrevistados. Quanto aos objetivos dos blogs, quando questionados sobre as motivações que os levaram a criar os suportes, os entrevistados consideraram prioritário expressar os próprios pontos de vista sobre segurança e justiça. Outro ponto aparente no estudo foi a pretensão de se falar para a própria categoria e divulgar assuntos de interesse de grupo ligados a instituições. Segundo o estudo, os blogs são também utilizados como ambiente para realizar críticas sobre o ambiente organizacional. 64 A seguir, apresenta-se de forma ilustrativa as categorias de análise que traçam o perfil do blogueiro na pesquisa da Unesco, utilizadas como referência essencial nesta dissertação. FIGURA 3: Quadro investigativo da Unesco Fonte: CESec Unesco/2009 A visitação a essa temática, sob os vários pontos de vista possíveis, auxilia na construção de um cenário da rede midiática da SP brasileira, como forma de conhecimento das várias faces comunicacionais. A seguir, consolidam-se pontos importantes da investigação da Unesco que ampliam a visão sobre os autores dos blogs, ao clarear como é vista institucionalmente a autoria desses conteúdos digitais. É relevante também a mensuração do público leitor do blog, a repercussão entre colegas e companheiros e, principalmente, a expectativa em relação à influência do blog nas políticas de SP e com a repercussão na mídia de forma geral. 65 FIGURA 4: Investigação da Unesco referente ao perfil do blogueiro Fonte: CESec Unesco/2009 De forma sintetizada e na média analisada, a pesquisa da Unesco retratou o perfil do blogueiro como na maioria militares oficiais, com curso superior, de 30 a 40 anos, do sexo masculino, com dedicação de mais de 10h semanais ao blog, sem objetivo financeiro e sem geração de receita com o blog. Em relação aos objetivos com o suporte, a maioria dos blogueiros cita buscar: informar, divulgar, atualizar e expressar pontos de vistas. Para os blogueiros, a atividade significa um meio de expressão política. Relativo à divulgação do blog, a maioria das opiniões demonstraram que os blogs se conhecem e reconhecem pela troca de links entre parceiros e de modo offline, por meio do boca a boca e das relações presenciais. Referente à repercussão a opinião é dividida, isto é, entre oficiais superiores a avaliação dos blogs é negativa, entre colegas é positiva. Para os blogueiros, os blogs possuem influência nas decisões e políticas de segurança e possui como principais leitores e participantes do suporte, colegas das instituições e de outras forças, outros blogueiros, superiores, autoridades, jornalistas e interessados no tema em geral. A pesquisa divulgada pela Unesco em 2009 apresenta um cenário de estudo e uma contribuição concreta para se trilhar o caminho na direção do cruzamento das temáticas midiatização e SP, e ainda, configura-se como um ponto de partida para o conhecimento a respeito de um ambiente público deliberativo segmentado. O estudo contribuiu também na medida em que coloca em evidência a evolução e existência de um fenômeno social e não mais um evento isolado, além de aprimorar a visão de que novos elos foram e estão sendo construídos, novas redes foram e estão sendo formadas e que contatos já existentes são fortalecidos, ampliados. A pesquisa da Unesco recorreu ao levantamento de informações sobre o crescimento da blogosfera mantidos pelos blogs temáticos. O estudo considerou levantamentos feitos pelos 66 próprios blogs deste segmento, que mantêm cadastros sobre os suportes ligados a SP, identificando um universo de 80 blogs, sendo 65 blogs em âmbito nacional. A pesquisa utilizou como amostragem o período de análise do ano de 2006 até 2009 e utilizou como referência a atualização de dados dos blogs Abordagem Policial e Blogosfera Policial. Para composição dos dados, a pesquisa recorreu também ao blog Stive. O mapeamento do cenário da criação dos blogs desse universo foi acompanhada pela CESeC, conforme ilustrado à seguir: FIGURA 5: Evolução de 2006 a 2009 dos blogs na blogosfera da SP Fonte: CESec Unesco/2009 O crescimento por estados anualmente foi apresentado pelo estudo, conforme ilustrado a seguir pela figura n° 6, que representou o crescimento relativo ao ano de 2006 a 2009. Tais informações são importantes nesta análise na medida em que representam o uso da mídia digital por este segmento, como superfícies de contato coletivo, como suporte de interagendamento e como dispositivo de circulação simbólica. FIGURA 6: Mapeamento na blogosfera por estados de 2006 a 2009 Fonte: CESec Unesco/2009 67 Em diálogo com as informações apuradas pelos pesquisadores do CESeC, considerando que já se passaram três anos da pesquisa divulgada pela Unesco e de forma a complementar a investigação desta dissertação de mestrado, percebeu-se a necessidade de se atualizar o crescimento da blogosfera da SP para monitoramento do fenômeno. Em um esforço de observação e acompanhamento, utilizou-se da mesma metodologia de pesquisa do estudo da CESeC, tendo como referência a investigação de dados dos blogs Abordagem Policial e Blogosfera Policial e do mapeamento do avanço dessa rede nos estados brasileiros. Conforme levantamento feito por esta dissertação em 10 de dezembro de 2012, em um cruzamento de dados e informações, os dados apresentam um crescimento considerável: as fontes de dados apresentaram o cadastro atual de 188 e 179 blogs relacionados à temática, respectivamente. Recorreu-se também ao mapeamento oferecido pelo blog Stive, referência na rede, que apontou 135 blogs ativos na blogosfera da SP. Tal monitoramento incidiu sobre a contagem, a distribuição geográfica dos blogs e o detalhamento de conteúdo por instituição, como se vê na figura a seguir. FIGURA 7: Mapeamento on-line na blogosfera de 2009 a 2012 Fonte: blogs Abordagem Policial, Blogosfera Policial e Stive Tendo como referência a atualização do ano de 2009 até 10 de dezembro de 2012, do número de 188 blogs considerados como referenciais no blog Abordagem Policial, 39 são do Rio de Janeiro, 36 de Minas Gerais, 11 de São Paulo, 10 de Goiás, nove da Bahia, oito do Rio Grande do Norte, sete do Distrito Federal, cinco do Ceará, quatro do Rio Grande do Sul, três de Santa Catarina, três do Amazonas, três de Pernambuco, três do Pará, dois de Alagoas, dois de Sergipe, um de Amapá, um do Espírito Santo, um do Acre, um do Paraná e um de Rondônia. Vinte e sete desses blogs não são regionalizados e abordam questões de maneira ampla e nacional e, ainda, dois blogs referenciados por meio da fonte são internacionais. Todos os 68 links no ciberespaço foram checados para testar a efetividade da referência de 188 blogs temáticos ativos. Com mais detalhes, identifica-se que Minas Gerais possuía em 2009 10 blogs e em 2012 expande a rede para 36. O Rio de Janeiro cresceu de 22 para 39 blogs nos mesmos anos de referência, enquanto São Paulo manteve a amplitude, até a data da atualização. Minas Gerais configura-se como o estado onde houve maior crescimento em números de blogs, totalizando um exponencial aumento de 260%. O nosso referencial empírico é Minas Gerais e a escolha do blog utilizado nesta pesquisa como estudo de caso reúne características que norteiam a investigação: a região, o caráter subjetivo do blog, o contexto de efervescência do uso do suporte desencadeado pelas ações conjuntas, mobilizações em torno dos movimentos sociais, potenciais greves e a aproximação movimentos sociais, associações, outras formas alternativas de mídia, pela convergência de mídias, pelo tipo de conteúdo disseminado e principalmente, pela discussão que o meio alcança entre atores do segmento. A seguir, consolida-se por estados da federação, o número de blogs integrantes da blogosfera da SP, atualizados e constatados como ativos por esta dissertação: TABELA 1: Levantamento atualizado do crescimento da blogosfera da SP por estados Rio de Janeiro Minas Gerais São Paulo Goiás Bahia Rio Grande do Norte Distrito Federal Ceará Rio Grande do Sul Santa Catarina Amazonas Pernambuco Pará Alagoas Sergipe Amapá Espírito Santo Acre Paraná Rondônia Questões de maneira ampla e nacional (não são regionalizados, 2 blogs referenciados por meio desta fonte são internacionais) 39 36 11 10 9 8 7 5 4 3 3 3 3 2 2 1 1 1 1 1 27 Fonte: Sintetizada pela autora da dissertação em 10 de dezembro de 2012 69 A linha de evolução temporal por crescimento dos blogs integrantes da blogosfera da SP pode ser observada pelo gráfico a seguir, que representa o crescimento acumulado do ano de 2006 a 2012. Utilizou-se a mesma linha de raciocínio que a pesquisa da CESeC, a fim de que fosse possível dar continuidade à linha de evolução temporal da blogosfera temática. A seguir, por meio da figura n° 8, apresenta-se a comparação com a pesquisa referenciada do ano de 2006 até 2009 e os novos dados, colhidos por esta pesquisa de mestrado. FIGURA 8: Crescimento acumulado dos blogs da blogosfera de 2006 a 2012 Fonte: CESeC Unesco/2009, blogs Abordagem Policial, Blogosfera Policial, Stive, sintetizada pela autora da dissertação. Tratando os dados dos blogs citados como referência desse mapeamento, identificouse por meio do blog Abordagem Policial que também houve aumento do número de estados com blogs integrantes à blogosfera. No ano de 2009 o número era de 17 estados enquanto em 2012, há a presença do suporte midiático em 20 estados brasileiros. Tais informações refletem a demanda e o uso dessas redes locais e globais, do crescimento expoente, da amplitude, abrangência nos estados e até fora dele. A partir da investigação promovida pela Unesco em 2009 e por meio da comparação dos outros dados de dezembro de 2012 levantados por esta dissertação, identifica-se que a blogosfera da SP se apresenta como um universo quantitativo em expansão. A abordagem continuada desse fenômeno contribui para a evolução dos estudos da cena midiática da SP. A blogosfera permite que as conexões, a conversação e a circulação aconteçam independentemente de espaço físico ou tempo comum. Com isso, permite que interações sociais ganhem maior amplitude e visibilidade, interligando atores e locais diversos. Vale frisar, neste momento, que é um cenário mutável e ágil, já que muitos blogs são criados regularmente e alguns, por vezes, tornam-se inoperantes. Da mesma maneira a efervescência da interação nessas redes, a circulação de conteúdos e a conversação entre atores de forma direta, difusa e diferida, evidenciam um 70 crescente processo de midiatização do segmento da blogosfera da SP em âmbito nacional. Sequencialmente, a fim de se conhecer a fundo e investigar as práticas interacionais desse ambiente midiático será caracterizado a seguir o “blog da Renata”. O suporte selecionado servirá como ambiente de observação do processo comunicacional midiático para posterior análise. 2.2 Estudo de caso: o monitoramento de mídia do blog da Renata O blog da Renata se constitui como objeto para estudo de caso e busca-se apresentá-lo e caracterizá-lo em termos de recursos interativos, estruturais e dinâmicas. O suporte retrata um ambiente digital de interação social e de interfaces individuais e coletivas. Utilizou-se de método de observação condensado em formulário de entrevista (contido no anexo n° 1). Recorreu-se a diálogos no ambiente da blogosfera da SP, comentários entre blogueiros, entrevistas com administradores, moderadores e personagens do blog. Observou-se a dinâmica de publicação, as vozes implícitas e explícitas, o tipo de conteúdo e discurso propagado. O blog da Renata foi criado em 14 de maio de 2007 pela blogueira Renata Pimenta, de 38 anos. A criadora do blog não é agente de SP e nem ligada a nenhuma instituição do Sistema de Defesa Social SP, localizado em Ribeirão das Neves, município de Minas Gerais. O blog apresenta uma “pimenta” como logomarca que vincula o blog ao sobrenome da administradora e insinua a característica do suporte como ferramenta de incitação, de questionamentos e de contraposições à política relacionada aos assuntos de SP e suas instituições integrantes. O símbolo da “malagueta vermelha” divulgado no blog reforça a mensagem cujo sentido remete a um contexto provocador, desafiador, de conteúdos e discussões apimentados. “A Renata criou uma marca que é a “cara dela" que é o nome mais a pimenta em todas as imagens que ela posta de notícias” (...) (BLOG DA RENATA, 2012). Como retratação dessa marca, ilustra-se a seguir duas principais representações gráficas do blog. 71 FIGURA 9: Identidade visual do blog da Renata Fonte: blog da Renata Segundo a criadora do blog, ela não é agente da corporação, mas é atuante nos assuntos relacionados à SP. A blogueira afirma que influenciada por um outro blog integrante da blogosfera policial, Diário de um PM, iniciou as primeiras postagens quando trabalhava na Associação das Praças Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais – ASPRA. Em relação à repercussão, a administradora do blog comenta a seguir o reconhecimento do blog junto à categoria policial em âmbito nacional. Tive noção do sucesso do blog em Brasília, nas manifestações da PEC 300, nas manifestações de reajuste salarial em MG e em qualquer lugar que eu passe que tenha policiais e bombeiros sempre me reconhecem e me tratam com o maior carinho, sinceramente eu fico muito feliz, com as manifestações. (BLOG PAPO DE PM, 2011). Em relação ao conteúdo, os objetivos do site e da afinidade com a temática da Segurança Pública, Pimenta externa os motivos de ter criado o blog e detalha sua atuação no suporte. Decidi criar um blog sobre Segurança Pública porque trabalhei na ASPRA por 10 anos e lá eu vivi de perto a luta da entidade pelo direito dos militares, agradeço muito ao Sub Gonzaga e ao Sgt Barbosa por terem passado para mim a vontade de aprender e gostar de política e de Segurança Pública. (BLOG PAPO DE PM, 2011). Se você for criar um blog tenha certeza que ele vai te dar o maior trabalho, exigir horas de dedicação, dinheiro para pagar contas de telefone, pois muitas vezes antes de publicar alguma matéria entro em contato com o denunciado para saber a versão dele, claro sem citar a fonte. (BLOG PAPO DE PM, 2011). A criadora do blog opina e estimula temas polêmicos, além de inflamar criticas as ações político-estatais, como o exemplo que se vê a seguir. Sou totalmente contra também ao programa do governo estadual que disponibiliza um cartão no valor de 900 reais para custear tratamento de dependentes, acho q eu se o governo abrir clínicas é muito melhor que colocar o dinheiro nas mãos dos familiares, infelizmente acho que serão desviados os recursos. (BLOG PAPO DE PM, 2011). 72 São recorrentes posts destinados às classes de profissionais da SP que instigam os descontentamentos do segmento. Os conteúdos são objetos de conversação entre blogs integrantes da blogosfera da SP, como enfatiza Pimenta: "Nós somos os indesejáveis, chefiados pelos incompetentes, fazendo o indispensável para os ingratos". (BLOG PAPO DE PM, 2011). A fonte de consulta e remissões internas de conteúdos do blog da Renata origina-se dos meios oficiais das instituições da SP, da mídia comercial, de agentes do segmento e grupos relacionados. Há diversos links hipertextuais dos principais atores presentes nos conteúdos propagados pelo blog, sendo eles predominantemente: as mídias comerciais on-line e os sites da Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais (SEDS), Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) e Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG). Há ainda a replicação de conteúdos de outros blogs integrantes da blogosfera da SP e a crescente adesão de batalhões, companhias e delegacias. Os conteúdos são gerados também por meio de telefone e por contatos interpessoais. “Tenho vários colaboradores que me ligam e mandam notícias quentinhas, para que nada passe batido” (BLOG DA RENATA, 2012). São recorrentes no blog manifestações de entidades de classe, movimentos sociais, associações, sindicatos das classes dos profissionais de SP e Defesa Social. O vínculo político não é explícito no blog, sendo necessário um maior esforço de acompanhamento, monitoramento e exploração dos conteúdos para identificá-los. Nas postagens, Pimenta demonstra a ligação com associações de classe e movimentos sociais, a exemplo da ligação funcional anterior com a Associação das Praças Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais (ASPRA) até a saída em janeiro de 2011, e, atualmente, com a Central Única dos Militares (CUME). A seguir, a blogueira evidencia a relação com os movimentos e questiona sobre as entidades de classe representativas dos militares: (...) em MG temos 28 entidades em todo o Estado, quantas são atuantes? quantas defendem os direitos dos militares? quantas estão realmente interessadas em serem entidades de classe realmente? vejo que a maioria usam as entidades como palanque eleitoral ou para obter vantagem pessoal, isso é ruim pois quanto mais entidades mais fracas ficam as classes e podem reparar que dessas 28 poucas tem expressão no cenário e sequer participam de questões voltadas a classe. São verdadeiras "moitas", quanto aos sites e jornais enviados mais parecem catálogos de vendas, somente oferecem descontos aos associados. Acho que deveriam contratar militares da reserva em condições de debater para irem aos batalhões, hoje vejo que estão interessadas apenas em associar, arrecadar e muitos de seus funcionários não sabem se quer falar do que está acontecendo no cenário político de interesse da classe, mal sabem falar dos benefícios de serem associados. Acho que militar que muito mais que isso. (BLOG PAPO DE PM, 2012). 73 Pimenta expõe a vinculação eleitoral no suporte midiático. A blogueira contrapõe as críticas sobre a pretensão de utilizar a mídia com objetivo eleitoral. No entanto, não nega o apoio a candidatos de forma pública na rede. Pimenta nega a possível posição partidária e intenção política apesar da popularidade do blog junto à classe. A blogueira testemunha a respeito da possível vinculação política no trecho identificado no blog Papo de PM a seguir: Não penso em ser candidata a nenhum cargo político, sou blogueira e acho que é por isso que estou aqui, a classe deve ser representada por militares, existem uns bons por ai e eu sou a favor que PM vote em PM, tenho até um blog sobre isso. (BLOG PAPO DE PM, 2011). A atuação política de Pimenta é revelada nos conteúdos midiáticos do suporte, por meio dos vínculos entre outros blogs ligados a outros movimentos sociais no período de eleições e, também, em contextos reivindicatórios da classe. Identificou-se o uso eleitoral do Facebook da Renata Pimenta, conforme se exibe na figura n° 11. FIGURA 10: Postagem com figuras políticas no blog da Renata e no Facebook Fonte: blog da Renata Nas eleições municipais de 2012, das figuras políticas apoiadas pelo blog, dois foram eleitos: um representante da classe foi o vereador mais votado em Belo Horizonte e o outro com votação expressiva na capital. Vamos lutar sempre, não vamos desistir, no pleito eleitoral de 2012 vamos votar e fortalecer a classe de Segurança Pública, se está chateado com algum parlamentar procure-o, esclareça as dúvidas, veja o que ele está fazendo por nossa classe e se ele não te convencer tenho certeza que outros virão, e lembrem-se "Juntos somos muito mais fortes... (BLOG PAPO DE PM, 2011). 74 Em relação ao vínculo financeiro, o blog da Renata recebe patrocínio e é mantido com ajuda financeira de empresas que fornecem empréstimos com descontos em folha de pagamento à classe de agentes da SP. O alvo comercial da empresa patrocinadora é o empréstimo financeiro com desconto em folha a militares e agentes de SP. A divulgação é constante e se dá por meio do blog, como se apresenta a seguir: “Tenho uma parceria a Tânia da Sintax Empréstimos, me paga um valor mensal para bancar as despesas do blog, pois no momento estou desempregada e estou a procura de outros parceiros (...) (BLOG DA RENATA, 2011). A contínua discussão entre participantes sobre a insatisfação da classe alimenta e mantêm ativos as parcerias do suporte, bem como a adesão a sindicatos, mantidos por descontos em folhas pelas afiliações da classe. Referente à estrutura do suporte, o blog apresenta recursos de informação como links a outros blogs integrantes da blogosfera da SP, links para sites de associações, acesso à legislação, documentos, arquivo de postagens e comentários, ferramentas de participação em redes sociais e ainda, conversação on-line. Além da URL na Internet mantida na plataforma Blogger, a criadora do blog mantém um perfil no Facebook, com o número máximo atingido de 5.000 amigos e outros 6.476 assinantes; no Twitter são 443 seguidores, 9589 tweets, além do MSN e outras redes sociais como o Orkut. A adesão a estas ferramentas é crescente e o acompanhamento cresce diariamente. Em última atualização, em pesquisa realizada no dia 5 de fevereiro de 2013, já existe criado um novo perfil, intitulado perfil 2, devido aos constantes pedidos de aceitação de amizades no Facebook. As veiculações postadas no blog da Renata são replicadas nas demais plataformas (com maior ênfase no Facebook) e acompanhadas por seus seguidores. A possibilidade de se conectar pelo suporte a outras plataformas de comunicação, liga diversos grupos e comunidades, integrando-as à blogosfera da SP. Observa-se que, quando o participante se interconecta ao blog por meio de redes sociais, especialmente pelo Facebook, o perfil do sujeito não se apresenta anônimo e oculto. Por meio desta extensão da rede, a característica do usuário, a cultura, os interesses, particularidades, redes de amigos, comentários, postagens, históricos, preferências, acontecimentos, fluxos e vestígios estão visíveis. Assim, além dos comentários via blog, é possível observar as manifestações dos participantes nas diversas ferramentas sociais. A adesão pelo Facebook, inclusive sem o anonimato recorrente, pode ser visualizada na figura a seguir, já que mostra a vinculação do sujeito na rede em interlocução com o blog da Renata e em interconexão com outras plataformas e redes sociais. Como se verifica na 75 Figura n. 11, a participação, os comentários, as conexões, links e o perfil estão bem explícitos na rede. FIGURA 11: Exemplo do interagendamento com redes sociais no blog da Renata Fonte: blog da Renata Já os agentes na plataforma blogger nem sempre são identificados por meio dos perfis, o que possibilita a visualização de todo o conteúdo independente da obrigatoriedade por optar pelo login para utilizar o sistema. Para postagem de comentários no blog há a possibilidade de escolha e opção para a identidade pretendida, podendo optar pelo anonimato. Muitos usuários escolhem utilizar o blog para as interações nas quais não desejam ser reconhecidos pelos demais, mantendo um nickname ou mesmo, escolhendo o perfil “anônimo”. Esse distanciamento estimula a inserção de conteúdos mais polêmicos visualizados recorrentemente no blog da Renata, denúncias e críticas acirradas sem possibilidades de retaliações e represálias. O blog conta ainda com um chat on-line que possui um alto grau de participação e possibilita a conversação on-line entre atores da SP, conforme representação a seguir. 76 FIGURA 12: Chat no blog da Renata Fonte: blog da Renata Na ferramenta interna do suporte há a opção em se identificar e de se manter o anonimato. Ressalta-se, no entanto, que por meio dessa ferramenta interna ao blog, as mensagens não ficam armazenadas e não passam por um moderador. No que diz respeito à participação e moderação, o blog da Renata mantém a participação dos agentes de SP por meio do chat on-line e, principalmente, dos comentários. Depois de publicado, um comentário ou mesmo um post permanece no suporte, permitindo ao participante a identificação, acompanhamento e percepção das trocas sociais mesmo distantes no tempo e no espaço de onde foram realizadas. O registro dessas publicações fica armazenado no histórico do site por data regressiva. A exclusão dessas participações só é possível se o administrador do blog deletar. Identificouse ao recorrer às mensagens e postagens antigas, que é comum a inexistência de comentários, de texto, imagens e vídeos em retrospectiva. Em pesquisa mais densa e em profundidade, averiguou-se que toda publicação, postagem e análise de comentário faz parte de uma rotina das duas figuras representativas do site: a administradora sem vínculo com as instituições de SP e o moderador. A identidade do moderador não é explícita e somente torna-se perceptível ao se interagir com o blog, na dinâmica de postagens de comentários como participante do suporte. Vale ressaltar a área de interação e inclusão de comentários no blog, onde o moderador explicita o ambiente como fonte intencional para se divulgar denúncias, sugestões, reclamações e ocorrências. Na mesma interface de contato do blog com os participantes do suporte, há explícita indicação de que o conteúdo é “analisado” e “filtrado” pelo moderador. No site, percebe-se a dinâmica de inclusão ou reprovação de comentários. Foi detectado que as postagens do blog passam invariavelmente pelo moderador que classifica as informações a serem divulgadas no suporte. Para postagem de qualquer comentário, o usuário recebe expressamente o aviso de aprovação prévia até que ocorra a publicação da postagem. As 77 afirmativas acima são demonstradas por meio de testes no exercício de entendimento desta dinâmica do blog em relação aos comentários dos participantes. A seguir, a figura n° 13 representa a dinâmica de comentários no blog da Renata, a interface do participante para inclusão de comentários, o filtro de moderação e o aviso do moderador da análise da postagem. Há também a identificação da interlocução com outras plataformas e redes sociais. FIGURA 13: Exemplo da dinâmica de comentários no blog da Renata Fonte: blog da Renata Na entrevista realizada com Renata Pimenta (conforme anexo n.1), foi possível identificar que o blog é acompanhado pela blogueira e mais três pessoas. Conforme relato da administradora do blog, um policial militar é responsável pela liberação dos comentários, com uma média de 200 a 300, diariamente. As outras duas pessoas, também policiais militares, são responsáveis pelas publicações de conteúdo do blog da Renata. A identidade desses três policiais militares é preservada no suporte. Pimenta é a única que diz atuar no blog sem ligação com instituições de SP e se descreve em entrevista como “a paisana”. Conforme relato identificado em interagendamento com outro blog integrante da blogosfera da SP (Papo de PM), Pimenta revela a dinâmica de atualização do blog e a presença dos militares, conforme exposto a seguir: [...] acordo cedo para atualizar o blog e muitas vezes quando acesso já está recheado de notícias graças ao Sgt Wellington, ele é muito antenado e competente. Atualizo Blog, respondo e-mails e saio da internet lá pelas 10h e só retorno 14h, tenho várias atividades durante o dia, mas onde vou levo meu notebook e meu modem para acessá-lo. (BLOG PAPO DE PM, 2012). 78 O militar que atua como moderador explicita o entendimento das redes temáticas formadas, das dinâmicas de publicação do blog, do conteúdo e dos atores envolvidos, além de enfatizar a preocupação com o fortalecimento do site na blogosfera da SP. Com o afastamento temporário da Renata devido a problemas familiares, tomei a liberdade de verificar quase todos os blogs que seguimos, pelo menos os mais atualizados, pois muitos foram abandonados, achei algumas postagens em que ela faz questão de citar nos blogs que vão surgindo e também citar fontes de matérias, dando preferências para os Blogs, mesmo a origem da postagem ser de mídias de grande divulgação, mas a recíproca não está acontecendo na maioria dos blogs, pode-se contar nos dedos quantos blogs são independentes e criam suas próprias matérias, a maioria esmagadora cito também esse é CTRLC E CTRLV, deveríamos fortalecer a blogosfera policial citando que a matéria foi encontrada em tal blog e em tal site, mas por mesquinharia e vaidade a maioria dos blogueiros prefere citar os jornais de grande circulação, deixando assim a blogosfera enfraquecida. (BLOG DA RENATA, 2012). Em relação ainda à dinâmica de divulgação de conteúdos, verificou-se que para publicação no suporte, recorre-se aos links jornalísticos comerciais on-line em quase sua totalidade, e-mails recebidos de assessorias de comunicação nas unidades territoriais das instituições, pesquisas nos sites institucionais e na blogosfera da SP. Identificou-se que esta rotina de divulgação e publicação dos conteúdos é também realizada por militares. Esse blog é um dos primeiros a ser atualizado logo pela manhã e por solicitação da Renata, faço um apanhado de notícias de outros blogs através das atualizações e fazemos questão de citar e não copiar a matéria toda deixando sempre um link para continuar lendo no blog que achamos a notícia, como fontes esse ou aquele blog, depois vamos para os jornais, revistas, resenhas de notícias, e-mails que recebemos com ocorrências através das assessorias de comunicações das unidades PM/BM e também pesquisamos em sites institucionais PM/BM/PC/EB/PF e nos sites das entidades de classe e parlamentares, não só de MG , mas de todo Brasil. Depois que atualizamos na parte da manhã não voltamos mais nas atualizações de outros blogs, pois recebemos resenhas de notícias e Clipping de vários jornais e blogs do país, se alguma matéria for publicada em seu blog e for reproduzida aqui saiba que não a conseguimos através de atualizações. (BLOG DA RENATA, 2012). Verificou-se o nome dos policiais assinando as postagens, que registra e informa alguns conteúdos postados. Em investigação, identificou-se que por curto período a página inicial do blog constou o nome de dois policiais militares, sendo um soldado e um sargento. Os dois militares foram divulgados como colaboradores do blog, entretanto, somente a presença do sargento foi constatada nas publicações. Apesar dos nomes terem figurado temporariamente na página principal, a participação dessas duas vozes é discreta, opaca e ocultada na maioria das publicações. Permanece assim, a assinatura da Renata na maioria das postagens. 79 Identificou-se que a presença do soldado não foi explícita e expressiva no blog. A identidade do terceiro militar vinculado às publicações do blog da Renata não foi constatada na interação do suporte. Verificou-se também que na maioria das vezes, a autoria do post é citada somente como colaborador, sem nominações. FIGURA 14: Colaborador e moderador do blog da Renata Fonte: blog da Renata O suporte proporciona relevantes dinâmicas interacionais internas e externas complexas. Entretanto, é importante enfatizar que o blog da Renata apresenta um aspecto híbrido, misturado e de diferentes presenças. Este cenário exige um olhar em profundidade da impressão imediata e pode evitar conclusões precoces. Algumas peculiaridades necessitam de um olhar para além da superfície, de forma a desvelar traços implícitos e ocultos. Identificaram-se particularidades no blog da Renata que emergiram e ressaltaram-se na investigação do suporte, como se verá adiante. O blog da Renata reflete um contexto de produções midiáticas da SP no ambiente virtual e “sugere” produzir e veicular mensagens descomprometidas e desvinculadas política e ideologicamente da estrutura governamental e da mídia comercial. O blog oferece conteúdo informativo relacionado à SP, de contexto local e global, explora conteúdos informacionais e responde midiaticamente a grupos de interesse aglutinados em torno de temáticas relacionadas ao segmento. Por meio dos conteúdos alternativos do blog, demonstra a tentativa de aferir um cunho mais realístico, mais próximo da realidade e rotina operacional das instituições e os agentes em contraposição à informação formal oriunda dos órgãos de SP, planejada institucionalmente. O suporte busca ainda fomentar uma versão paralela ao posicionamento da mídia convencional. O suporte midiático em análise “promete” dar voz e visibilidade às instituições e os atores integrantes, como também responder socialmente às questões relacionadas ao segmento, às representações midiáticas das instituições, à função, aos estigmas, estereótipos, conflitos e à realidade de fatias representativas e grupos da SP. 80 Por meio de uma comunicação de caráter mais informal, o blog “tenta” expor sua visão própria sobre as profissões e instituições relacionadas à SP, às funções e papéis sociais. O suporte interacional em questão busca colocar em discussão conteúdos midiáticos que abordam as reivindicações de uma classe profissional, a rotina operacional dos agentes públicos, os estigmas, estereótipos, conflitos e fatos noticiosos que remetam à vivência, à experiência e à realidade de fatias representativas de grupos da SP. Desta maneira, a divulgação dos “bastidores” da SP é evidenciada e explorada pela administração do blog como um diferencial, uma vez que “promete” uma esfera informativa mais próxima do real, com traços que sugerem a valoração da informação no que não é dito, do que é ocultado, não preparado, traçado, planejado institucionalmente. O blog da Renata possui uma peculiaridade que instiga a análise do ponto de vista da comunicação: a administração frisa e anuncia uma informação “travestida” de denúncia, espelhando-se em uma espécie de notícia de bastidores e, assim, tenta produzir notas que insinuam um cenário opaco e escondido. O blog age na intencionalidade de “construir” e “vender” uma realidade dita “nua e crua”. Toda dinâmica midiática construída é embasada com foco no discurso do descontentamento e da insatisfação. É importante dizer que algumas nuances identificadas não são perceptíveis à primeira vista, como é o caso da presença dos moderadores e do vínculo político do blog, sendo somente possíveis de identificação na análise interacional dos processos comunicacionais dentro do blog, nas tramas, isto é, no entranhamento analítico dos fluxos midiáticos e no monitoramento da mídia. 2.3 Contextualização da mobilização reivindicatória da SP de 2011 A mobilização reivindicatória da Segurança Pública em Minas Gerais, em 2011, apresentou-se como um movimento inicial da Polícia Civil de Minas Gerais em busca de melhorias para o segmento, iniciada por meio de uma postura reivindicatória da classe por avanços estruturais nas condições de trabalho e por reajustes de salário das classes de delegado, investigador e perito. Posteriormente, a mobilização reivindicatória desencadeou a adesão de outros órgãos do Sistema de Defesa Social de Minas Gerais, entre eles a Polícia Militar de Minas Gerais e o Corpo de Bombeiros Militar, representando igualmente a tentativa de oposição aos baixos salários e à falta de estrutura de unidades, batalhões e companhias. O movimento salarial fomentou também a adesão dos agentes penitenciários do Sistema de Defesa Social, das 81 unidades penitenciárias e revelou a insatisfação dos órgãos de SP estaduais, bem como de outras esferas, como a municipal e também federal que posteriormente iniciou movimentos próprios. O processo comunicacional revelou uma sequência de acontecimentos no suporte midiático que se iniciou com a divulgação de conteúdos relacionados a insatisfações do segmento e descontentamentos da classe. Essa divulgação desencadeou, por sua vez, uma dinâmica crescente de manifestação no blog da Renata via postagens, comentários, denúncias, críticas e em outros meios comerciais, como jornais online, impressos, televisivos. Identificou-se o interagendamento midiático do blog da Renata a partir de notícias na mídia comercial de forma regular, com predominância de trocas entre ferramentas on-line do ambiente virtual. Observou-se também a dinâmica de conversação com entre os representantes das entidades da categoria e instâncias governamentais. Percebeu-se ainda crescente interagendamento entre os blogs integrantes da blogosfera da SP, articulando e constituindo uma rede de discussão no contexto digital. Identificou-se, por fim, que este processo comunicacional foi atravessado por momentos de estabilização, desestabilização, cooperação, conflito, mobilização, integração e desintegração de interesses e ações comuns. No período pré-mobilização, no final do mês de abril, já existia na rede de forma esparsa, nuances de incitação à greve dos agentes de SP. Já no período da mobilização reivindicatória, tornaram-se recorrentes as postagens de mobilização de greve, inicialmente por parte de integrantes da PCMG e depois por parte dos agentes da PMMG. Nesse período, o uso do suporte e do ambiente digital com fins político-ideológicos se torna mais claro por meio da presença visível de lideranças de movimentos sociais e sindicatos. Há na rede uma grande efervescência de opiniões e participação dos agentes de SP, mantendo, ainda, em quase sua totalidade, o caráter de anonimato, particularmente no blog da Renata. É importante destacar que a mobilização deflagrada revela as interações presenciais de adesão e mobilização e redes copresenciais fortalecidas que condicionam o uso do suporte e, sobretudo, sustentam o blog. O suporte midiático a partir desse momento passa a ter papel subsidiário às ações de movimentos sociais. O blog atua como principal meio de divulgação da greve. O suporte age de forma direta nos informativos dirigidos à classe, buscando adesão ao movimento, bem como o compartilhamento dos agentes no processo de negociações, até o desfecho e desmobilização. No período pós-mobilização o blog discute o processo da mobilização reivindicatória, avaliando o processo. Nota-se uma avaliação das articulações, dos movimentos e críticas à atuação conjunta. Percebe-se que a temática prevalece no ambiente mesmo com o 82 encerramento da greve, com menor força. O blog passa, então, a alternar os conteúdos rotineiros nas regularidades interacionais identificadas. Anteriormente a esta mobilização dos órgãos da SP de Minas Gerais, ocorreram dois grandes marcos reivindicatórios: a greve de 1997 e a mobilização salarial de 2004 da Polícia Militar de Minas Gerais. Sem garantia constitucional para os servidores da SP estadual, os dois movimentos foram fatos de grande repercussão e tensionamento entre os níveis governamentais, institucionais e operacionais. Com maior impacto, adesão e teor de insatisfação, a mobilização reivindicatória do ano de 1997 desencadeou fatos trágicos, tanto para a corporação quanto para os níveis estratégicos de gestão. Nesse movimento, um cabo da Polícia Militar de Minas Gerais foi morto em uma manifestação no Palácio do Governo, deixando um cenário desastroso de mobilização, negociações e de revolta, amplamente divulgado na ocasião pela mídia impressa e televisiva. Os dois acontecimentos, a greve de 1997 e o movimento salarial de 2004, são utilizados como referência e resgate histórico do poder de mobilização da classe e como pano de fundo de coesão do segmento, além de comporem os registros históricos da mídia impressa e televisiva como forma de entender e contrapor cenários e contextos nesta investigação. Nesse sentido, o paralelo entre esses três movimentos é fundamental para se compreender como a dinâmica interacional da mobilização de 2011 foi propulsora de respostas sociais, sobretudo em decorrência do contexto atual de convergências de técnico-mídiáticas. Após o período de adesão e mobilização dos órgãos de SP de Minas Gerais no ano de 2011, que durou em torno de três meses, o governador de Minas Gerais, por meio das negociações entre instituições e Secretaria de Estado de Defesa Social, anunciou um aumento gradual para área de SP (PMMG, CBMMG, PCMG e Agentes Penitenciários) de 10% para o mês de outubro de 2011; 12% em outubro de 2012; 12% em outubro de 2013; 10% em junho de 2014; 15% em dezembro de 2014 e 12% em abril de 2015, totalizando 100,73% de aumento acumulados no período, tendo em vista serem os aumentos concedidos cumulativamente. 83 3 A ANÁLISE DO PROCESSO COMUNICACIONAL NO CONTEXTO DA MOBILIZAÇÃO REIVINDICATÓRIA DOS AGENTES DA SEGURANÇA PÚBLICA (SP) MINEIRA EM 2011 A partir do monitoramento dos processos comunicacionais engendrados pelo blog da Renata e fora dele, durante toda a atuação no período de mobilização reivindicatória dos agentes da Segurança Pública de Minas Gerais, em 2011, foi constituído o corpus qualitativo da pesquisa, o qual será analisado a partir de duas categorias separadas metodologicamente, porém, interligadas e integradas ao sistema interacional midiatizado, quais sejam: a dinâmica interacional e o sistema de resposta social. A primeira categoria analítica compreende as relações micro no blog da Renata, ou seja, os elementos dinâmicos observados internamente na interação entre os atores sociais e usuários do blog, vistos por meio da análise das remissões de conteúdo, tais como: as características dessa rede, as representações midiáticas dos atores mais manifestadas no blog, os usos e regularidades desta interação. Já a segunda compreende a dimensão macro do processo comunicacional, em que o sistema de resposta social e seu modus operandi, para além do blog, merece destaque, abrangendo os seguintes aspectos: o interagendamento de conteúdos entre o blog estudado e outros da blogosfera da SP, entre estes e os meios de comunicação ligados aos órgãos governamentais, às entidades representativas dos agentes públicos e às mídias comerciais. Antes da análise do processo comunicacional propriamente dito, a partir das duas categorias assinaladas anteriormente, faz-se necessário discorrer sobre a atuação do blog da Renata durante o período da mobilização reivindicatória dos servidores da SP, como será abordado no primeiro tópico deste capítulo. 3.1. Contextualização da mobilização reivindicatória dos agentes de SP em Minas Gerais, em 2011 O período principal do monitoramento da atuação do blog da Renata compreendeu os meses de abril a julho de 2011, intervalo em que se constatou grande efervescência da mobilização dos agentes públicos da Segurança Pública. Tal atuação incidiu sobre as postagens mais frequentes, de maior volume, mais polêmicas e de intensa disputa de sentidos. Para fins metodológicos, o período de mobilização reivindicatória foi dividido em três frações 84 temporais: a “pré-mobilização reivindicatória”, a “mobilização reivindicatória” e a “pósmobilização reivindicatória”. Nesses três momentos buscou-se analisar como se deu os fluxos de mobilização (movimentos interacionais de remissão na instância micro e de interagendamento na instância macro) entre os agentes públicos envolvidos no processo da greve, o aumento da adesão e da participação da categoria, a conversação e discussão sobre os assuntos relacionados ao movimento de mobilização desde o início ao seu desfecho, sejam interna ou externamente, isto é, no blog, na blogosfera da SP, nos meios oficiais, comerciais ou para além deles. Para mapear essa rede, analisar e interpretar o processo comunicacional, construiu-se um formulário (ver anexo n. 3) que estabeleceu focos estratégicos para a investigação da atuação do blog da Renata no contexto reivindicatório. Procurou-se observar de forma constante no blog: “quem está falando”, “como esses atores estão falando”, “de quem estão falando”, “de que forma”, “com que abrangência e visibilidade interna e externa ao blog” “com quais pessoas”, “porque falam”, “em qual contexto” e “com qual objetivo”. No período de pré-mobilização reivindicatória, ocorrido no mês de abril de 2011, identificaram-se as primeiras manifestações no blog da Renata com o foco nas reivindicações dos agentes de SP, especificamente da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), incitadas pela presença de sindicatos e associações, especialmente o Sindicato dos Policiais Civis do Estado de Minas Gerais (SINDPOL). O blog deu visibilidade a estratégias variadas de organização da classe de militares, tendo à frente as associações sindicais vinculadas à PCMG em articulação com a PMMG. O movimento apresentava-se ainda fragmentado, sem coesão nos órgãos, com manifestações germinando dentro das instituições da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) e do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG). A partir da intensificação da divulgação de conteúdos grevistas do blog, foram-se intensificando as tentativas de associações e adesão das classes profissionais de SP estadual de maneira a fortalecer as reivindicações comuns do segmento. Em maio, houve tentativas de paralisações organizadas pela SINDPOL e manifestações públicas que se mostraram, no primeiro momento, incipientes, mas presentes no blog, em suas remissões e interagendamentos entre blogs da blogosfera da SP e mídia comercial on-line, como mostra a figura 15. 85 FIGURA 15: Exemplo de interagendamento midiático sobre início da mobilização Fonte: Jornal Estado de Minas - UAI on-line Desta forma, no período de mobilização reivindicatória, os conteúdos divulgados pelo suporte digital tornam-se cada vez mais frequentes e impactantes. Os conteúdos do blog da Renata passam a explorar o apoio conjunto de órgãos de segurança, como estratégia para conseguir apoio dos agentes públicos da PMMG e também do CBMMG. A figura a seguir mostra a remissão de conteúdo interno e o início das postagens no blog da Renata, que expressava adesão do movimento de mobilização da categoria. FIGURA 16: Início das postagens de adesão ao movimento no blog da Renata Fonte: blog da Renata Ressalte-se que o alcance das estratégias de mobilização é ampliado a partir dos interagendamentos da blogosfera da SP com as mídias comerciais, incidindo-se especialmente nas mídias on-line, como o Jornal o Tempo on-line, Hoje em Dia on-line, G1 e Estado de Minas, Uai on-line, meios de comunicação do Estado de Minas Gerais. Tais interagendamentos possibilitaram a publicidade da causa e a geração de novos vínculos e outros adeptos, fortalecendo e expandindo os processos de mobilização no blog e fora dele. Outro conteúdo recorrente diz respeito às informações sobre a mobilização reivindicatória da SP em âmbito nacional, com menções a movimentos de paralisações em 86 outros estados da federação. As reinvindicações nacionais giravam em torno do aumento salarial, melhores condições de trabalho e votação do Projeto de Emenda Constitucional – PEC 300, de 2008, que instituiu o teto de salário nacional para a categoria, ainda almejado pelo segmento. Houve ênfase nos movimentos de Goiás e Rio de Janeiro, que se mostraram mais organizados. No último Estado, a mobilização reivindicatória também ganhou repercussão na mídia e houve intensa participação dos meios de comunicação informais, com articulação de blogs integrantes da blogosfera do segmento de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Esta organização aconteceu em paralelo à mobilização em Minas Gerais, reforçando o clima de insatisfação, de questionamento, de reivindicações. No blog da Renata foi divulgado, conforme figura 17, o mapeamento dos estados brasileiros em mobilização reivindicatória, construído a partir da interface dos blogs integrantes da blogosfera da SP e subdividido em três categorias: estados com mobilização reivindicatória já deflagrada, estados com mobilização reivindicatória branca, ou seja, em processos neutros e iniciais, e estados com iminência de mobilização reivindicatória. Tal detalhamento retrata a articulação da rede midiática digital com sindicatos, associações e movimentos de outros estados. Identificou-se ainda o uso da rede como ambiente de articulação local e nacional e como locus de vigilância, monitoramento e solidariedade. Esse cenário pode ser visto na postagem a seguir, que representa o engajamento sociopolítico e a incitação para possíveis greves em âmbito nacional. O interagendamento entre os blogs revelou como a blogosfera aproxima contextos e possibilidades de interação, de informação, de integração e de mobilização,conforme se demonstra na Figura n.17: FIGURA 17: Postagem representativa do contexto reivindicatório nacional Fonte: blog da Renata 87 Com a intensificação dos conteúdos reivindicatórios pela blogosfera temática e pelo blog da Renata, com a adesão à causa por parte de agentes da SP vinculados a outros órgãos e com a divulgação ampla do clima de descontentamento nacional, as lideranças dos movimentos sociais tornam suas posições políticas mais claras. Passam a ser também visíveis no ambiente digital: a coordenação dos movimentos sociais, os vínculos dos administradores dos blogs, dos representantes das entidades e associações com o movimento social de mobilização reivindicatória. Diante do exposto, aumenta na rede midiática a concentração de conteúdos e de esforços para a mobilização e a paralisação dos serviços públicos relacionados ao segmento. Fica aparente na rede o envolvimento dos representantes dos movimentos sociais e das associações sindicais ligadas à área da SP como personagens dos principais conteúdos divulgados pelo blog da Renata. No período da mobilização reivindicatória, percebeu-se o cunho político-ideológico do blog, a partir de maior volume de postagens relacionado à organização de greve, de conteúdos polêmicos, de denúncias e da formulação de possíveis linhas de negociações junto às instituições e governo. É possível, assim, visualizar a atuação do blog como agente midiático propulsor das discussões em torno das possíveis manifestações a serem organizadas pelos movimentos sociais das instituições de SP, com envolvimento dos sindicatos, entidades e agentes públicos da PCMG, PMMG e CBMMG. Em junho de 2011, o movimento torna-se coeso e explícito na rede e ganha repercussão na mídia comercial e atenção da sociedade civil em geral, o que contribuiu para ampliar a mobilização do segmento. A recorrência dos fluxos midiáticos de remissão e interagendamento (internos e externos) neste período desencadeou uma paralisação com a participação estimada de cerca de 12.000 policiais civis, militares e bombeiros em manifestação no centro de Belo Horizonte, conforme reportagem do jornal Estado de Minas, mostrada na figura n.18: 88 FIGURA 18: Interagendamento do blog da Renata com o jornal Estado de Minas Fonte: Jornal Estado de Minas - UAI on-line por meio do blog Amigos da Caserna Já na figura 19, identificou-se a atuação de Renata Pimenta, administradora do blog da Renata, nos atos políticos de mobilização e o uso político do suporte midiático por parte dos líderes políticos da classe. Nessa mesma figura, as postagens do blog mostram a participação dessas lideranças na convocação e nos atos, como a queima de contracheques na região central de Belo Horizonte e as reuniões de deliberação e mobilização no Clube de Oficiais da Polícia Militar de Minas Gerais. Nessa mesma imagem, ficam visíveis e explícitos os vínculos políticos do blog e os objetivos de organização e mobilização, antes ocultos. FIGURA 19: Atuação da administradora do site nos atos políticos de mobilização Fonte: blog da Renata e site ASPRA A postagem n. 20 divulga uma imagem do vídeo gravado pelo vice-presidente da ASPRA, no ano de 2011, subtenente Gonzaga, que explicita os motivos de repúdio às ações dos comandos das instituições e a insatisfação da classe quanto às políticas governamentais do segmento. Vale destacar que a utilização desse tipo de recursos, como vídeos, áudios, fotos foi frequente na blogosfera da SP. FIGURA 20: Postagem com participação dos movimentos sociais e associações 89 Fonte: blog da Renata e site ASPRA Frise-se que o blog da Renata exerceu papel influente durante todo o período de mobilização da categoria, dando voz aos diversos grupos que atuavam diretamente no movimento reivindicatório, além de estimular a adesão de novos pares à causa e à sua participação. Após divulgação massiva da insatisfação dos movimentos sociais não somente nesse blog, mas na blogosfera da SP, a mobilização reivindicatória foi fortalecida e expandida no âmbito de Minas Gerais. As discussões ganharam também ampla visibilidade na mídia comercial, fazendo crescer o poder de mobilização do segmento de SP e, consequentemente, ampliando as possibilidades de negociação com a instância governamental. A entrevista com o vice-presidente da ASPRA, subtenente Gonzaga, publicada no blog da Renata, externa a expectativa em acordo com o governo. O representante da associação alertava “se nada for decidido no dia 25 de maio, entraremos em mobilização reivindicatória”. (BLOG DA RENATA, 2011). Assim, os posicionamentos políticos se desnudam e a convocação à mobilização se mostra cada vez mais presente no blog. Com a grande expectativa que se cria em torno da espetacularização do cenário de insatisfação, a figura de líderes políticos ganha maior visibilidade. Aos poucos a recorrência do anonimato na autoria das publicações do blog, sempre presente nas redes, ganha rostos. A autoria dos posts e conteúdos do blog da Renata podem ser vinculados e identificados, entretanto, o anonimato dos comentários dos agentes de SP participantes, persiste. A figura 21 revela a presença de líderes conduzindo o processo de negociação do movimento, como se vê nas postagens que mostram o vice-presidente da ASPRA, deputados e vereadores. A postagem exemplifica ainda o interagendamento do blog da Renata com o blog do Cabo Fernando, que divulga e compartilha informações sobre audiência com representantes das instituições de SP e com o Comando Geral da Polícia Militar de Minas Gerais, na Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves, o centro do governo do Estado. FIGURA 21: Reunião com instituições 90 Fonte: blog da Renata A figura 22 exemplifica, por sua vez, matérias noticiadas pelos meios de comunicação comerciais sobre o movimento de paralisação, replicadas no blog e repercutidas na blogosfera da SP. O clima de descontentamento é alimentado fortemente por meio de postagens no blog da Renata sobre adesão, informes e notas oficiais das entidades sindicais, além de replicados regularmente na blogosfera da SP. FIGURA 22: Mobilização no blog da Renata por meio das remissões e interagendamentos Fonte: blog da Renata No decorrer do processo, as negociações não são bem-sucedidas e a organização com foco na paralisação se torna pública e notória. As negociações entre entidades representativas, instituições e governo não atendem às reivindicações da classe, o que gerou por parte das lideranças dos movimentos sociais a manifestação na rede do descontentamento, a incitação e o clamor pela greve, como se vê na figura 23, que reproduz nota oficial dos sindicatos de classe. FIGURA 23: Mobilização no blog da Renata por meio das remissões e interagendamentos 91 Fonte: blog da Renata Há que se destacar que, naquele período, o caráter ideológico do movimento foi extremamente explorado, inclusive relembrando o marco histórico da mobilização reivindicatória da Polícia Militar de 1997. O resgate da greve de 1997 confirmou-se como tentativa dos movimentos sociais de explorar o lado simbólico das lutas sociais travadas com o governo em prol do atendimento das reivindicações da classe. Já o movimento de 2004 não foi agendado na rede, pois refletiu reivindicação de proporção combativa, porém, a referência de 1997 mostrou-se contínua por representar para a classe um teor de luta histórica que revelou a força da mobilização do segmento e de pressão ao governo, conforme fica explícito na figura 24, que demonstra as remissões e interagendamentos fomentados pelo blog da Renata. FIGURA 24: Remissões e interagendamentos sobre marco histórico de 1997 Fonte: blog da Renata e Youtube 92 Na figura 25 fica evidenciada a repercussão da mobilização reivindicatória no ambiente digital e as estratégias de adesão e mobilização à causa. Além da recorrência ao contexto da mobilização reivindicatória de 1997, essa postagem parece ter tido a finalidade de usar como estratégia de visibilidade a grande repercussão paralela das manifestações no Rio de Janeiro. FIGURA 25: Uso das redes cívicas digitais e de mobilização pela blogosfera Fonte: blog da Renata Outra estratégia frequente foi a incitação adotada pelo blog da Renata, com foco nas unidades da PMMG, aos que trabalhassem contra a mobilização, pois divulgou várias postagens de repúdio aos militares que não apoiassem e agissem contra o segmento, além de reiterar que os posicionamentos contrários à mobilização seriam considerados como traição à classe, como se vê na figura n. 26. A passividade dos agentes de SP também foi amplamente criticada pelo blog por meio das remissões de conteúdo como comportamento inaceitável diante da importância da causa coletiva. 93 FIGURA 26: Postagem com abordagem de mobilização no blog da Renata Fonte: blog da Renata Aliado às relações copresenciais, os blogs foram suportes midiáticos digitais importantes para impulsionar a dinâmica interacional entre seus usuários, por meio do monitoramento dos fluxos comunicacionais do segmento e divulgação das etapas iniciais de mobilização, do seu desenvolvimento e do término do movimento, conforme mostra a figura 27: FIGURA 27: blog como instrumento de convencimento e mobilização Fonte: blog da Renata Frise-se que os blogs da blogosfera da SP, e o blog da Renata, em particular, funcionaram como suporte importante da informação aos atores do segmento, adesão ao movimento dentro do Estado de Minas Gerais e, ainda, de difusão em articulação com outros estados da federação. As postagens seguintes revelam que os blogs da blogosfera da SP serviram para dinamizar o processo de mobilização presencial, encabeçado pelas entidades 94 sindicais e associações. Os movimentos interacionais de remissão e interagendamento proporcionaram a amplitude das conversações em torno da mobilização (interna e externamente). Destaca-se, ainda, o uso do blog como ambiente de uso individual e coletivo, como suporte agregador de atores, como meio de divulgação de conteúdos extramídia (comercial), e como mídia paralela aos meios formais (institucionais). Em relação ao interagendamento formal, aspecto relevante da análise foi a forma de retratar os acontecimentos por meio das assessorias oficiais do governo e das instituições. No caso do blog da Renata, não houve repercussão de nenhum posicionamento estatal. Em contrapartida, o blog abriu amplo espaço para divulgação de conteúdos de incitação ao movimento das associações e sindicatos. Assim, não se percebeu por nenhuma via de comunicação, a discussão entre instâncias formais dos órgãos e deliberação entre atores informais (blog) e formais (instituições) no momento da crise. Nas entrevistas dirigidas às mídias comerciais, o governo negou a crise no segmento e a existência da mobilização reivindicatória. Esse posicionamento oficial perdurou por todo o período da organização coletiva. Mesmo o silêncio formal, do ponto de vista da análise midiática, torna-se importante e diz da estratégia utilizada e o tipo de conversação social vista na rede a partir desse posicionamento. O cenário da mobilização do setor ganhou maior repercussão na mídia comercial quando passou a divulgar e a expandir a fala estatal e se contrapor às representações midiáticas dos agentes da SP. A fala oficial contrapunha o movimento organizado e as paralisações reveladas nas mídias. A fala dos agentes de SP refletia a incoerência no contexto. O blog da Renata e a blogosfera como um todo se constituíram como fontes alternativas de informação à mídia comercial, repercutindo a crise entre seus usuários, a mobilização e o cenário de paralisação. Tal situação pode ser mostrada na postagem no blog a seguir, por meio da figura 28. 95 FIGURA 28: Negação da mobilização reivindicatória pelo governo Fonte: blog da Renata Os interagendamentos entre mídia comercial e blogs foram constantes, manifestandose com maior expressão no jornal o Tempo on-line, que emitiu conteúdos mais combativos ao governo e enquadrou a coesão do movimento de classe. A cobertuda midiática do movimento foi amplamente difundida na blogosfera da SP e o jornal Hoje em Dia e a versão on-line do Estado de Minas também cobriram as manifestações, assumindo posição editorial menos oposicionista. Observou-se que o processo interacional nas redes digitais e, em particular, no blog da Renata, foi recorrentemente marcado por processos de conflitos entre instâncias, estabilidades e instabilidades na mobilização, vinculações, associações políticas e rompimentos de alianças. Os períodos consolidados como pré-mobilização reivindicatória, mobilização reivindicatória e pós-mobilização reivindicatória engendraram forças de coesão coletiva e disputas de sentido em níveis diferentes. Verificou-se, assim, que a coesão interna, a ação coletiva dos profissionais ligados aos órgãos da SP e a sincronia interinstitucional se deram quando o cenário retratava motivos comuns de reivindicação. Os processos iniciais reivindicatórios e a busca por melhores condições salariais e estruturais de trabalho aproximaram as entidades de forma interinstitucional, ou seja, por meio do blog foi possível visualizar as discussões pelos órgãos da SP sobre as questões comuns. Até a “mobilização reivindicatória”, as entidades de classe se apoiaram mutuamente, aderindo à causa coletiva e se fortalecendo. A integração se deu especificamente até esse período, limitando-se ao momento das negociações. À medida que o processo de negociação retratou realidades e necessidades em graus diferentes, as atuações dos órgãos de SP fragmentaram-se, minimizando as condições para efetiva ação coletiva. A partir desse momento, os interesses não convergiram mais para objetivos comuns, tornando o movimento coletivo vulnerável e passível de interferências e de 96 enfraquecimento. As reivindicações passam a ser conduzidas de forma individualizada e não mais conjunta entre as forças de SP e minimizam-se as forças correlatas. Os conflitos e divergências das relações presenciais ressoaram também no ambiente virtual. O processo comunicacional observado revelou momentos de instabilidade dentro das próprias instituições, entre essas, entre líderes de movimentos e entre governo. A seguir, verifica-se na figura 29 o interagendamento do blog da Renata com o blog Amigos da Caserna – igualmente de grande repercussão e atuante na blogosfera da SP mineira. A figura mostra as várias versões, os posicionamentos, narrativos e enredos emergentes nessa blogosfera sobre os acontecimentos ligados ao segmento com a efervescência interacional no contexto da mobilização reivindicatória e em seu desenrolar. Os conflitos tornam-se aparentes midiaticamente entre líderes, movimentos e blogs e as discordâncias em relação à condução das negociações pelas entidades e associações começam a ser questionadas internamente no suporte e entre os blogs da blogosfera da SP, como se vê a seguir: FIGURA 29: Postagem com abordagem de manifestação em prol da mobilização Fonte: blog da Renata e blog Amigos da Caserma Ressalte-se que no período de mobilização reivindicatória não houve nenhuma divulgação pelos sites oficiais de qualquer posicionamento oficial do governo. Os meios de informação oficiais permaneceram em silêncio, negando e não respondendo às efetivas paralisações, principalmente da PCMG. Tal posicionamento por parte do governo em negação à crise demonstrou tentativa de neutralização dos acontecimentos, de estabilidade do governo e de controle da situação. Todavia, os interagendamentos continuavam entre a mídia informal e comercial, isto é, mídia informal (blogs da área da SP) e comercial (jornais, internet, revistas, televisiva, entre outros). 97 A remissão dos conteúdos oficiais governamentais por meio do blog da Renata e entre blogs ocorreu somente para divulgar oficialmente o reajuste, no período pós-mobilização, quando informado pelo site do governo de Minas, o Agência Minas. A conversação midiática entre mídia informal e comercial manteve o debate e reverberou os conteúdos nos blogs, na blogosfera e nos portais comerciais on-line. A contestação e crítica dos blogs ao desfecho da reivindicação, aos movimentos e governo neste período foram intensas. Identificou-se posicionamento comum dos blogs da SP de repúdio ao acordo entre líderes dos sindicatos e governo. Os blogs denunciavam suposta traição dos sindicatos e associações: a figura n 30 mostra a publicação no blog do Cabo Fernando (interagendada por meio do link no blog da Renata) quanto à divulgação oficial do governo. Identificou-se também, a cobertura da mídia televisiva sobre o posicionamento da classe em relação à assembléia que determinou o desfecho da mobilização reivindicatória. FIGURA 30: Divulgação oficial do reajuste e blogs em contraposição Fonte: blog da Renata e blog Amigos da Caserma Percebeu-se que, até agosto de 2011, mesmo após o fechamento das negociações, foram recorrentes as postagem relacionadas à mobilização reivindicatória. Houve, naturalmente, diminuição das participações no blog, mas não se constatou interrupção das postagens referentes às contestações da mobilização reivindicatória e, tampouco, dos comentários. Após a finalização do movimento de reivindicação, o blog focou nas discussões do período de negociação, nos atores envolvidos e no desfecho do processo. A administradora do blog da Renata, Renata Pimenta, antes associada aos líderes políticos da negociação, passa a acusar os representantes dos movimentos de incitar a mobilização e trair a classe com a aceitação prematura e desvirtuada das reivindicações. As instituições também se acusaram 98 mutuamente do acordo incipiente e desequilibrado da liderança do movimento com os órgãos governamentais. Na blogosfera da área da SP ficou evidente a insatisfação da classe com a negociação entre líderes do movimento reivindicatório e governo, porém, tal sentimento não ganhou força de mobilização contra as associações, sindicatos e governo. Por fim, o blog da Renata criticou o comportamento do segmento da SP quanto à sua capacidade de mobilização. “(...) lembro ainda de cada militar que estava na assembleia onde tudo já estava acertado com o governo e pergunto aos nobres militares que hj me criticam: o que vcs fizeram para mudar o cenário?” (BLOG DA RENATA, 2011). Para Pimenta, o setor só reagiu em oposição e crítica à negociação no ambiente virtual, mas não materializou o descontentamento da classe com a negociação final. “Alguns blogueiros só copiam e colam e sequer dão suas opiniões pessoais sobre os acontecimentos na PMBM. Poderiam ter-se rebelado contra as associações e realizado uma dessassociação em massa e isso ocorreu? NÃO”. (BLOG DA RENATA, 2011). Após o processo de maior efervescência da mobilização reivindicatória, o blog rompeu alianças com os líderes dos movimentos e posteriormente as retomou, permitindo constatar que alianças foram rompidas e refeitas diversas vezes. Ora, o blog demonstrava articulação, ora rompimento, em outros momentos. Tal instabilidade político-ideológica demonstrou incoerência na atuação do blog com postura híbrida e volúvel. É possível verificar no blog da Renata reações de seus participantes referentes ao processo de negociação da mobilização reivindicatória, como se pode ver no depoimento a seguir. Tal instabilidade é percebida e discutida no ambiente do suporte, em interagendamento com o blog do Cabo Fernando: Com referência ao seu apoio político ao Ten. Gonzaga, apesar de eu não o engolir e para mim ele ser igualzinho aos demais lideres que estiveram naquele tradicional dia da ‘TRAIÇÃO’, pois tenho comigo que ele participou durante toda a trama e adianto mais, para mim ele foi um dos organizadores de tudo (...) agora o que não pode é o que um determinado blog esta fazendo, quando posto qualquer matéria de denúncia contra os dois pupilos deles ‘Cabo Julio e Cabo Coelho’, eles imediatamente começam a me meter a ripa e a postar em seus blogs coisas que não tem nada a ver sobre mim, na tentativa de desviar minhas denuncias contra esses falsos lideres. (BLOG do CABO FERNANDO, em 22 de setembro de 2012. Acesso em: 2 out. 2012). Assim, as discussões no interior (remissões na instância micro) e fora do suporte (interagendamentos na instância macro) revelaram a atuação político-ideológica do blog como mídia focada no esforço de mobilização, que, por sua vez, foi criticada na blogosfera da SP como cenário fabricado, encenado. As consequências dessa negociação entre os líderes do 99 movimento foram debatidas nos blogs regularmente, principalmente pelo blog da Caserna e blog do Cabo Fernando, conforme se verifica a seguir: [...] em completo desrespeito aos presentes, aproximadamente uns 6000 policiais e bombeiros militares, da ativa, reserva, reformados e pensionistas, que atenderam ao chamado e compareceram a assembleia geral extraordinária, defenderam ardorosamente a proposta mutilada e completamente desfigurada, com um vergonhoso parcelamento do reajuste em suaves parcelas até 2015. E o pior desta estratégia, que culminou no acordo com o governo a revelia da decisão e aprovação dos policiais e bombeiros militares, é que com este acordo, tais lideranças impediram qualquer reivindicação salarial até 2015, inviabilizando por conseguinte que haja qualquer movimento reivindicatório, claro está, que com grandes eventos para acontecer, teríamos muitas possibilidades de pressionar por melhores condições de trabalho, valorização profissional, respeito a dignidade, bem como pela implantação de um piso salarial compatível, que valorize a profissão, a atividade de Segurança Pública e a vida dos profissionais. Assim além de acumularmos até 2015, perdas inflacionárias e do poder aquisitivo, já que quando atingirmos o suposto piso salarial de R$4.000,00, a defasagem salarial já haverá corroído seu valor, e um dos graves efeitos deste mal acordo, é que teremos que enfrentar longos e penosos 04 anos, resultado da ação deliberada das lideranças que nos representavam, que na verdade já estavam agindo em conluio, de olho nas eleições e suas pretensões políticas. Mas o que mais impressiona, que mesmo denunciando a dita manobra, que muitos intitularam de traição, vemos contraditoriamente alguns candidatos serem apoiados e ovacionados exatamente por quem deveria agora, tornar a denunciar o que sabemos foi uma decisão unilateral das lideranças, violando a soberania da assembleia geral, capitulada nos estatutos das associações de classe, e a dignidade e cidadania de todos os associados (BLOG DA RENATA, por José Luiz Barbosa, em 19 de julho de 2012. Acesso em: 26 out. 2012). O discurso de incitação predominou no blog da Renata, alegando suposta traição aos líderes políticos que integraram a negociação e principalmente com o governo, por meio do cenário de condições salariais e estruturais sempre debatidos. Observa-se que a temática de reivindicação e de greve, mesmo após o período de encerramento da mobilização, foi discutida e retomada frequentemente e o conteúdo de insatisfação não acabou. Os posicionamentos dos atores da SP continuaram a ser expostos na rede, inclusive em projeção ao cenário de paralisação anunciado, relacionado à Copa das Confederações 2013, Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas 2016, como fica explícito no depoimento a seguir: “Tudo que nós falamos aqui em 2011, está servindo para outras PMs do Brasil, lembram-se na mobilização de 2011, antes da traição? Pois é, não esqueçam, 2016 está chegando” (BLOG DA RENATA, 2012). Identificou-se, após o desfecho da mobilização reivindicatória, que o endereço do site <renataaspra.blogspot.com> não é mais vinculado à ASPRA, agora acessado pelo <renatapimenta.com>. A mudança na URL aconteceu após o período da mobilização reivindicatória e não representou independência político-ideológica do blog, apesar de desejar transparecer rompimento político com o antigo movimento. Após esta desvinculação, a 100 blogueira se associa a outro movimento, confirmando a permanência do foco políticoideológico e o caráter de instabilidade, de incoerência e hibridez do blog. Atualmente, Renata Pimenta participa da Associação Central Única dos Militares Estaduais – CUME, e a blogueira passa a divulgar a fundação recente dessa entidade, ocorrida em 3 de setembro de 2012. Como constatado na ASPRA, a CUME é também vinculada a vereadores e conta com apoio político ligado à classe de militares. Novamente, toda dinâmica de adesão, informação, mobilização começa a ser criada, pautada na base do descontentamento e de interesses político-ideológicos. Adiante, identificou-se o momento dessa transição da blogueira, que passou a direcionar suas ações para outro movimento social, conforme postagem de informação e comentário anônimo no blog, conforme se vê abaixo. Identificaram-se também os links para o site dessa nova entidade no blog da Renata e a criação do estatuto, afiliações e missão. Nosso estado tem que ter apenas uma associação, por que aí ela se mostra forte, com pulso pra falarmos/reivindicarmos/exigirmos respeito. Enquanto tivermos várias associações, estaremos fadados ao que estamos vivenciando. Se nasce forte a CUME, ela deve pensar em estratégias (trazendo os militares que estão nas outras associações, ou então coalisão), visão esta que o governador nos verá com um olhar de união, raça e poder. O que vemos hoje é praça desunido, praça se unindo a certos oficiais pra puxar saco (vê se são promovidos) pisoteando no praça que trabalha. Se a visão da CUME foi de aliança, união, já tem minha apreciação. Temos que termos apenas um candidato pra deputado estadual, federal e senador, além dos vereadores e a CUME poderá pensar nisso como estratégia – não deixemos essa avalanche de candidatos militares para sangrar nosso voto naqueles que realmente vão lutar por uma classe unida e respeitada em seu ambiente de trabalho e remuneração justa. Pensem Nisso! CUME já tens meu respeito! (BLOG DA RENATA, “comentário anônimo”, em 04 de setembro de 2012. Acesso em: 8 set. 2012). Verificou-se, posteriormente, que o blog da Renata refez sua associação à ASPRA (inclusive com a divulgação na página principal do blog da Renata). “É o seguinte, estou sendo questionada sobre o apoio que estou dando à Chapa Novo Tempo da ASPRA, que tem como presidente o Cabo Bahia (...) eu ia prestar serviço lá, como faço para a CUME, mas aí ele pediu para esperar passar as eleições”. (BLOG DA RENATA, 2012). Esse depoimento revela claramente que a blogueira tem ligações com as duas associações, como se vê na figura 31, publicadas no blog. 101 FIGURA 31: Vinculação a associações CUME e ASPRA Fonte: blog da Renata 3.2 Processo Comunicacional do blog da Renata na mobilização reivindicatória Como assinalado anteriormente, a partir do monitoramento dos processos comunicacionais engendrados no interior do blog da Renata e fora dele, durante sua atuação em todo o período de mobilização reivindicatória dos agentes da Segurança Pública de Minas Gerais, em 2011, foi constituído um corpus qualitativo da pesquisa que será analisado a partir de duas categorias, a dinâmica interacional e o sistema de resposta social. A partir da atuação do blog já demonstrada, retoma-se, para análise, as dinâmicas de remissão e interagendamento representados, tendo como referência para a interpretação a interdiscursividade (vistos na dinâmica interacional interna do blog) e a hipertextualidade (representado por meio da dinâmica externa do blog, por meio do sistema de resposta social). Estes dois movimentos foram observados e interpretados como características relevantes do processo interacional, tanto do ponto de vista da dinâmica micro (pelas interações e remissões), quanto macro ao blog (por meio dos interagendamentos). Ressalta-se, entretanto, que se trata de uma separação metodológica, já que este modus operandi apresentou-se transversal, interligado, integrado e sistêmico, como se verá adiante. 3.2.1 A Dinâmica interacional midiatizada Parte-se do pressuposto de que o blog da Renata não representou no período da mobilização reivindicatória dos agentes de SP, em 2011, mero suporte midiático de transporte de conteúdos, mas, sobretudo, um ambiente de rede que favoreceu aos seus participantes uma relevante dinâmica interacional midiatizada. Esse ambiente foi integrado por um sistema cíclico interacional, com movimentos internos transversais e ágeis. Assim, foram considerados os seguintes aspectos relacionados à processualidade do ambiente: o tipo de “Rede” fomentada, a “Representação Midiática dos Atores”, os “Usos e Regularidades do 102 Suporte” estabelecidas pelos seus usuários e reveladas no blog por meio de remissões internas de conteúdos. Em relação ao primeiro aspecto, identificou-se no blog da Renata a constituição dos seguintes tipos de rede abordados por Maia (2002b), no capítulo conceitual deste trabalho: “Rede de Memória Ativa”, “Rede de Produção de Conhecimento Técnico Competente”, “Rede de Produção de Recursos Comunicativos” e “Rede de Vigilância e Solidariedade à Distância”. No período da mobilização reivindicatória da SP de 2011, o primeiro tipo de rede funcionou como registro do cenário, como também, como registro histórico ao resgatar outros marcos reivindicatórios, mais especificamente, a greve da SP de 1997 e o movimento salarial de 2004. (MAIA, 2002b). Quanto ao segundo tipo, o blog da Renata não propiciou a formação de uma rede destinada à produção de conhecimento técnico-competente, mas abriu espaços para a manifestação de posições de descontentamento e de reivindicações por parte dos seus usuários. Apesar de haver links e diretórios com textos técnicos, legislações e outros documentos relacionados ao segmento, o blog foi mais utilizado como suporte midiático de uso político. Já em relação ao terceiro tipo de rede – “Redes para Produção de Recursos Comunicativos” –, identificou-se que o blog da Renata atuou como instância midiática que estimulou a conversação e que fomentou discussões que se reverberam no segmento SP. No período da mobilização reivindicatória de 2011, o blog agiu fortemente como fonte de recursos comunicativos, estimulando a presença dos atores e o compartilhamento de ideias entre seus atores, tanto no interior dessa rede midiática quanto fora dela. No que tange às “Redes de Vigilância e Solidariedade à Distância”, percebeu-se tais características como predominantes no blog da Renata, que atuou como rede de solidariedade/fomento ao movimento quanto como redes críticas às instâncias formais de poder (também presentes na quase totalidade dos blogs integrantes da blogosfera da SP). No entanto, não foi observado no blog, o foco na defesa de direitos e proteção aos cidadãos. Já em relação à manifestação dos atores sociais presentes no blog da Renata durante o período da reivindicação salarial da SP, em 2011, foi observada a existência dos seguintes tipos de representação midiática: a “Representação Oficial”, a “Representação Figurada”, a “Representação Institucional e Social” e a “Representação do Anonimato e Disfarce da Autoria”. 103 No período investigado, a “Representação Oficial” tornou-se menos presente. Quanto mais o ambiente retratava tensionamentos e conflitos, principalmente nos períodos de organização das paralisações, menor foi identificada a incidência da identificação do sujeito, minimizando a aparição deste tipo de representação oficial. Quanto à “Representação Figurada”, observou-se que o participante do blog se representa midiaticamente por meio de nomes figurados. Este tipo de representação foi utilizado com frequência por participantes assíduos do blog e do seu chat interno. A representação pôde ser identificada por meio do uso de apelidos e nicknames, uso da patente ou ainda, pelos números de companhias, regiões ou batalhões relacionados aos usuários. Percebeu-se que essa estratégia foi usada com a finalidade de se direcionar os comentários e de se vincular a localização dos batalhões, companhias, delegacias, entretanto, sem comprometimento da identidade oficial. No blog da Renata, a “Representação Institucional e Social” foi normalmente utilizada por grupos mais coesos do segmento que se expressam como vozes majoritárias dentro do blog. Identificou-se que essa forma de representação foi utilizada por movimentos sociais, grupos e associações de classe, com fins eminentemente político-ideológicos. De maneira geral, esse tipo de representação consolidou a voz coletiva do ambiente. Apesar de representar também a voz oficial, formal e institucional de atores identificados, a representação oficial, especialmente das instituições de SP e Governo, não foi observada na mobilização reivindicatória. Assim, neste período, não se verificou a representação institucional pelos órgãos de SP e Estado. Quanto à “Representação do Anonimato e Disfarce da Autoria”, verificou-se que a maioria dos participantes do blog da Renata não se identificam e as participações anônimas são normalmente associadas aos conteúdos mais polêmicos e às críticas. De todas as formas de representação no suporte, este tipo apresentou maior incidência e regularidade, além de ser predominante na blogosfera da SP de forma geral. Entretanto, apesar do participante do blog não se identificar, averiguou-se que seu comentário fica postado no suporte de forma anônima. A possibilidade de não identificação dos usuários estimulou o uso da mídia como canal de crítica, denúncia e espaço partidário para o uso de incitações. Assim, o anonimato foi usado como forma de proteção do agente de SP (tanto dos participantes como dos emissores do blog) para não sofrer com as consequências organizacionais e pessoais de seus comentários. A maior parte desses comentários esteve relacionada às denúncias, ataques e críticas, conforme exposto: “mobilização reivindicatória greve” (BLOG DA RENATA, 2012). 104 A investigação revelou também que o blog foi utilizado como espaço de discussões em torno da proibição do direito à mobilização reivindicatória pelos agentes de SP de acordo com a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 142, § 3º, IV. Notou-se intensa discussão sobre a ambivalência e antagonismo refletidos na restrição constitucional ao direito de greve dos agentes de SP e, ao mesmo tempo, pela portaria interministerial, do Ministério da Justiça, n. 2, de 15 de dezembro de 2010, que legitima a livre expressão da classe. Por se tratar de um ambiente onde se fomenta a livre manifestação dos participantes e promove discussões em torno de figuras políticas, Pimenta enfatiza em entrevista (ver anexo n. 1) a necessidade da figura do moderador, como responsável pela liberação ou reprovação dos comentários no blog. Pimenta relata a respeito de vários processos por danos morais contra o blog, devido às publicações e comentários expostos. Os processos estão relacionados à divulgação de críticas aos profissionais das instituições de SP. Em pesquisa mais aprofundada, utilizando como recurso de informação os processos on-line do Tribunal de Justiça de Minas Gerais – TJMG verificou-se que as causas são normalmente iniciadas por profissionais (via instituições e também como pessoa física) em defesa e contraposição aos conteúdos emanados pelo blog, com maior frequência, atribuídos a casos de abusos de autoridade, denúncias de desvios de função e de envolvimento em corrupção. A existência de ações judiciais de repúdio às divulgações, contrárias à publicização dos conteúdos do blog, pode ser demonstrada por meio do trecho a seguir: “Já tive muitos problemas com oficiais superiores, parlamentares, entidades de classe, fui muito perseguida e cheguei ao ponto de denunciar várias pessoas por perseguição”. (BLOG DA RENATA, 2011). Já em relação ao disfarce da autoria no ambiente digital, constatou-se que o blog é informado como criação de uma esposa de policial, porém, a moderação, as publicações e conteúdos são geridos por dois policiais militares. A presença dos policiais é confirmada por Pimenta e enfatizada como colaboração editorial. Quanto aos usos e regularidades interacionais identificados no blog da Renata, detectou-se os seguintes aspectos: o “Uso político e Ideológico Ligados a Movimentos Sociais”, o meio como canal de “Críticas, Questionamentos e Denúncias”, o blog como ambiente de “Monitoramento e Vigilância dos Assuntos Relacionados à SP entre Diferentes Instâncias”, o suporte como via de “Divulgação de Ações Extra-Mídia”, como ambiente de “Deliberação da SP”, “Constituição de esfera pública” e “Supervisão e Processos de Prestação de Contas”. Em relação ao primeiro aspecto, identificou-se o uso do suporte como meio de pressão política e de mobilização, além de canal de comunicação entre líderes de associações, 105 movimentos e como ambiente fomentador das reivindicações salariais e estruturais da categoria. Identificou-se ainda que o blog da Renata, além de firmar-se como ambiente de uso político-partidário no período da mobilização reivindicatória de 2011, deixou aparente os embates institucionais, interinstitucionais, as lutas e correlações de poder e ainda, suas próprias conquistas por visibilidade. Tal situação pôde ser verificada por meio das postagens no blog das participações de Pimenta nas paralisações, nas publicações de passeatas, nas vinculações com os sindicatos, associações e lideranças políticas. O blog propiciou exposição dos descontentamentos, posicionamentos políticos e ideológicos, funcionando como polo alternativo de informação e instrumento midiático de pressão social. Em relação ao uso do blog da Renata como canal de “Críticas, Questionamentos e Denúncias”, constatou-se esse tipo de utilização como recorrente e dominante no suporte, com discurso e conteúdo direcionados a esta função. Na mobilização reivindicatória da SP de 2011, o ambiente foi explorado como via de divulgação de críticas direcionadas, com foco na mobilização reivindicatória. O teor de questionamentos e denúncias, por sua vez, revelou os vínculos políticos, a relação das associações, movimentos e sindicatos com os administradores do blog. Constatou-se que o estímulo do ambiente como espaço de exposição da realidade dos agentes de SP (ciclo descontentamento/questionamentos/reivindicação) justifica o tipo de patrocínio regular do blog, que é vinculado à cessão de empréstimos financeiros à classe. O uso do suporte como ambiente de “Monitoramento e Vigilância dos Assuntos Relacionados à SP entre Diferentes Instâncias” foi verificado pela discussão e acompanhamento gerado pelos conteúdos do blog entre agentes de SP e entre as instâncias da mídia formal e comercial. Na mobilização reivindicatória de 2011, foi percebido como regular o movimento de monitoramento e vigilância entre as diferentes instâncias de afetação comunicacional. Notou-se o uso regular no blog desse tipo de divulgação, no período da mobilização reivindicatória e ainda, fora dele. O uso do blog da Renata como ambiente de “Divulgação de Ações Extra-Mídia” pôde ser verificado pela atuação do suporte como um meio alternativo, isto é, uma via paralela à mídia comercial, de propagação dos conteúdos relacionados ao segmento e de divulgação institucional (no âmbito individual ou coletivo). Identificou-se tal uso em movimentos de boicote à imprensa e na divulgação e organização da mobilização reivindicatória da SP de 2011. Notou-se a utilização do suporte como forma de divulgação das ações de assuntos não contemplados pela mídia comercial ou pelas assessorias de comunicação dos órgãos governamentais ligadas à SP. Identificou-se tal situação no envio de releases diretos dos 106 batalhões, companhias e delegacias diretamente ao blog da Renata, com o foco direcionado nas ações de rotina, mais próximas das camadas operacionais. Identificou-se o uso do ambiente relacionado à “Interpretação de Interesses e Construção de Identidade Coletiva”. Nesse sentido, além de Maia (2002b), dialoga-se com Habermas (1997) e Marques (2009), ao corroborar que a mídia estimula a deliberação e os processos de reflexividade, auxiliando os cidadãos a construir um entendimento sobre uma determinada questão de interesse de todos. (HABERMAS, 1997; MARQUES, 2009). A ação dos atores no blog da Renata representou este padrão comunicativo ao reunir os sujeitos em discussão sobre causas comuns, pois, no período investigado, o blog atuou como instância de coesão, de construção de cenários da classe e de construção coletiva. Nesse aspecto, observou-se como regularidade interacional o uso do ambiente virtual como possibilidade de leitura do contexto do segmento da SP, de significação e ressignificação da classe, logo, como locus de construção social da realidade. Como observado por Braga (2006), a mídia, neste caso, a interação social por meio do blog da Renata, referenciou os modos de ser, individual e coletivamente, por meio das dinâmicas de apropriação e de reapropriação de conteúdos e produtos midiáticos. O ambiente como via de “Deliberação da SP” foi identificado por abrigar o debate e discussão dos atores do segmento em torno de políticas, função e realidades da classe. No âmbito da mobilização reivindicatória da SP de 2011, esse tipo de objetivação pelos atores foi recorrente no blog da Renata (e na blogosfera temática em geral) ao estabelecerem motivação e interesse no ambiente para discussão em torno da causa coletiva. Notou-se esse tipo de regularidade com mais ênfase no período da mobilização reivindicatória, já que fora dos períodos estabelecidos como mais polêmicos e efervescentes interacionalmente, observou-se a diminuição do interesse pelas discussões. Ainda em relação ao uso do blog como ambiente de discussão da SP, do ponto de vista deliberativo, o blog demonstrou desequilíbrio. O processo de deliberação coletiva no blog revelou condições desiguais de participação, tanto em relação aos sujeitos como também de envolvimento equilibrado das instituições. Apesar da estrutura comunicativa propícia à participação, averiguou-se o filtro das participações pelo moderador como fator determinante para o condicionamento político-ideológico do suporte. Quanto à “Constituição de Esfera Pública”, o blog da Renata pôde ser considerado somente como espaço público, pois ele funcionou como ambiente de agregação e de deliberação na mobilização reivindicatória da SP de 2011 e nos assuntos convergentes relacionados aos servidores da área, como, por exemplo, os conteúdos de reivindicação 107 salarial, estrutural, denúncias, entre outros. Sob essa perspectiva, destaca-se o papel do moderador do blog, que atuou como filtro, isto é, como direcionador das publicações e discussões no ambiente. Por esse viés, não se identificou equilíbrio entre as discussões dos participantes e o ambiente, consequentemente, não se mostrou como instância democrática de debate e estabelecimento de consenso, mas, somente, como ambiente virtual de divulgação, acompanhamento e influência político-idelológica. Tendo como pano de fundo o conteúdo abordado no capítulo teórico por Bohman (2009), apesar de fomentar discussões, observou-se que o suporte não ofereceu condições equitativas e equilibradas para as deliberações. (BOHMAN, 2009). Corroborando também com os preceitos de Maia (2000), afirma que não basta que os suportes digitais apresentem-se como um espaço público, já que, por si só, não constituem obrigatoriamente uma esfera pública, isto é, favorece a deliberação, mas não garante a democracia. (MAIA, 2000). Assim, o blog da Renata mostrou claramente filtragens/seleções (de conteúdo), vinculações e uso partidário, caracterizando o suporte com uso direcionado, logo, como espaço público e não como esfera pública. Identificou-se o uso do blog da Renata como ambiente de “Supervisão e Processos de Prestação de Contas”, porém, apesar de atuar como instrumento de acompanhamento das temáticas de SP e monitoramento das instâncias de poder existentes, observou-se que a supervisão e a cobrança social não foram descoladas das objetivações políticas do blog. Assim, mesmo atuando como canal de questionamentos, o ambiente revelou que o suporte foi utilizado com fins políticos, ora de contraposição ao governo, ora de apoio. Percebeu-se, no período da mobilização reivindicatória de 2011, que o blog atuou como instância de observação política, de incitação de discussão social, de oposição à instância governamental, de ataques e de denúncias institucionais. Por fim, as dinâmicas interacionais micro no blog foram observadas, a partir das “remissões” , dos “conteúdos” postados e dos processos de “coesão", presentes no processo de reivindicação da categoria. Como pano de fundo, quanto ao processo comunicacional desenhado internamente no blog, identificou-se o fluxo permeado pelos atores em conexão, estabelecendo elementos para a constituição do “capital social” e da “mobilização”. Em relação às remissões (como apresentado na atuação do blog, no tópico 3.2), esse fluxo interno midiático representou o movimento interacional interno entre os participantes do blog e sua potencialidade de amplitude da conversação (como se verá na próxima categoria de análise, sob a perspectiva macro). Em relação ao conteúdo, identificou-se que a reivindicação política foi preponderante no blog da Renata, isto é, no período da mobilização, esse tipo de 108 enfoque foi fundamental para motivar a adesão, o interesse, a participação, a vigilância e a interação de seus usuários internamente (e externamente, como se verá na próxima categoria analítica). A coesão foi demonstrada por meio dos elos mantidos na rede pela força dos laços sociais formados pelo pertencimento à causa e reciprocidade na temática pelos agentes de SP. Por meio do blog, foi possível observar o interesse mútuo que fomentou o capital social e simbólico, construído por meio dos processos de deliberação. As manifestações interacionais verificadas no blog da Renata dialogaram com as teorias abordadas nesta dissertação relacionadas à constituição de capital social. Os processos interacionais firmados no blog apresentaram tanto laços fortes como fracos, relacionais e de associação. Baseada nos estudos de Recuero (2009), abordada no capítulo teórico, a rede proporcionada pelo blog da Renata apresentou laços multiplexos, de relações de força simétricas e assimétricas, de intensidade e grau de conexões diferenciadas. (RECUERO, 2009). A dinâmica interacional microrrevelada no blog da Renata por meio da interação dos atores e das remissões, ainda refletiu relações permeadas por cooperações e conflitos de diversas ordens. Identificou-se essa disputa de sentidos pela constatação da multiplicidade de atores e agentes de variadas instituições de SP, emitindo diferentes opiniões e motivações nas deliberações virtuais, a fim de produzirem um ambiente de mobilização. As coparticipações na rede expuseram, refletiram, contrapuseram e convergiram posicionamentos, estabelecidos e mantidos pelo pertencimento nas temáticas comuns de reivindicação. Em relação à mobilização, o processo manifestado no blog da Renata dependeu da intensidade e identificação dos atores internamente (identidade/pertencimento), importância (do conteúdo) e agregação (força dos laços/grau de coesão); são elementos que somados e inter-relacionados apresentaram-se como indutores da ação comum. No período da mobilização reivindicatória, esses fatores foram observados como preponderantes para a mobilização social e ação coletiva, relacionados e em diálogo com a próxima abordagem, presentes na categoria 2. Logo, os conceitos de rede defendidos por Recuero (2009) e Matos (2009), de capital social, abordados por Matos (2009), interação midiatizada, esclarecidos por Braga (2000, 2006, 2007), de deliberação, explorados por Habermas (1993, 1995, 1997), de movimentos sociais, abordados por Melucci (1996, 2001) e de mobilização pesquisado por Henriques (2004, 2005) estarão sempre destinados a serem revisitados, reinventados e reinterpretados. 109 Eles estão vivos nas redes digitais e engendrados pelos processos interativos midiáticos e ainda, relacionados com o sistema de resposta social, foco de análise e interpretação adiante. Em suma, por meio das interações internas no blog da Renata foi possível visualizar uma complexidade de relações. Vale reiterar que tais impressões não são ofertadas e perceptíveis em primeiro momento, mas fruto de observação, exploração, análise em profundidade e interpretação. O tipo de rede, o tipo de representação midiática e os tipos e regularidade interacionais se fazem perceber por meio da discussão, conversação e circulação midiática operada na rede, de forma micro e macro. É justamente nos usos e regularidades no blog macro que a próxima análise se atém. A próxima categoria, portanto, aborda a processualidade, isto é, o modus operandi do sistema de resposta social externos ao suporte. Por meio da visualização e identificação dos modos de afetar e intercruzar os meios de comunicação comerciais, os formais, os movimentos sociais, da blogosfera da SP, redes sociais e a sociedade, apresenta-se adiante, a segunda perspectiva analítica e sua interpretação. 3.2.2. O Sistema de Resposta Social - SRS Entende-se por Sistema de Resposta Social (SRS) o processo de interação macro da sociedade com os meios de comunicação, mas que vai além deles, à medida que é uma resposta ampla, difusa e diferida no tempo e no espaço. Trata-se de um processo interacional que ocorre, sobretudo, a partir da apropriação, ressignificação e produção de novos sentidos dos conteúdos midiáticos, indo além de uma resposta/retorno pontual por parte dos atores sociais. Como salientado por Braga (2006), o SRS corresponde a um modelo de conversação social sobre os conteúdos simbólicos mediados pelos dispositivos técnico-midiáticos que se alteram continuadamente à medida que circulam na esfera pública, podendo ter um sentido direto ou indireto, diferido e difuso. Em diálogo com esta perspectiva interacional, foi possível averiguar que o SRS foi alimentado no blog da Renata por dois tipos de movimentos interacionais: as remissões corresponderam à interação dentro do blog, com repercussão interna (abordado na primeira categoria de análise), e os interagendamentos, que demonstraram a transversalidade de conteúdos do blog com as outras mídias, isto é, conversações reverberadas (em outros blogs e mídias sociais, comerciais e institucionais) durante todo período da mobilização reivindicatória de 2011, em situações de convergência. 110 Verificou-se que os fluxos comunicacionais nesse período apresentaram-se como um sistema de resposta social, como um modo de afetação mútua, de reverberação, de conversação social entre atores sociais relacionados à discussão da SP, uma vez que tal sistema se manifestou tanto no interior do blog quanto fora dele por meio de conversações entre os agentes envolvidos e da repercussão de suas postagens em diversos meios e instâncias de comunicação. Nesse sentido, foi possível acompanhar a conversação do blog com a mídia convencional e vice-versa, e ainda, a postagem de links sobre notícias publicadas nos meios de comunicação externos relacionados às temáticas de interesse da SP, além de replicar notícias sobre o movimento reivindicatório, publicadas nos meios externos ao blog. Por sua vez, tais meios repercutiam notícias e informações divulgadas no blog, monitorando e ecoando assim, seus conteúdos. Em relação aos interagendamentos no período da mobilização reivindicatória com a mídia comercial em Minas Gerais, os principais jornais que o blog continuamente recorreu foram: O Tempo on-line, Estado de Minas, por meio do jornal on-line Uai, Hoje em Dia e G1, da Globo.com, conforme novo detalhamento a seguir: FIGURA 32: Interagendamento com jornal on-line Uai Fonte: blog da Renata e Jornal Estado de Minas – UAI on-line Identificou-se, também, durante este período interagendamentos entre o blog e jornais de outros estados, além de menções no blog sobre programas de televisão e rádio, bem como de inserção de vídeos e links de emissoras com reportagens ligadas a temas de interesse dos agentes de SP, porém, com menos regularidades. Além do interagendamento entre o blog e a mídia televisiva, particularmente a TV Alterosa e as rádios CBN e Itatiaia. Embora o interagendamento do blog e da mídia on-line tenha sido predominante, verificou-se que as mídias impressas colocaram, em suas pautas, temáticas discutidas pela classe de SP no blog da Renata, como se demonstra na figura n. 33 a seguir: 111 FIGURA 33: Interagendamento entre blog e mídia impressa Fonte: Jornal Hoje em Dia e Estado de Minas Ainda em relação à mídia comercial, o blog supervisionou os agendamentos relacionados ao segmento da SP, além de promover a continuidade de discussões. Isso contribuiu para que os participantes do blog fizessem críticas, tomassem posicionamentos e exercessem pressão sobre os conteúdos veiculados nas mídias que contrariassem seus interesses e pontos de vista. Esse movimento interacional, de acordo com Braga (2006), assume a função de reordenar, reorganizar e ressignificar os conteúdos e produtos midiáticos. Assim, o esforço de crítica, de enfrentamento e controle da mídia se dá também por meio da própria mídia. Braga (2006) considera que uma das características desse sistema interacional diz respeito ao uso da mídia (individual/coletivo) como ambiente propício para o exercício da militância, de partilha, de poder e de posicionamento de argumentos. Em outros termos, a dinâmica interacional do blog da Renata com a mídia comercial mostrou a validade e pertinência do pensamento de Braga, que considera que os atores potencializados pela possibilidade de interconexão, articulação e visibilidade, podem então conhecer, se reconhecer e fazer os outros se reconhecerem por meio das trocas sociais e do compartilhamento do simbólico. (BRAGA, 2000). Corrobora-se a validade do SRS formulado por Braga (2006) ao considerar que a mídia, como processo interacional de referência, transforma os demais processos sociais, mas não os excluem. Nesse sentido, o redesenho e redirecionamento do processo interacional se dá não apenas na interação entre mídias e atores sociais, mas também fora e além do ambiente midiático, como já foi assinalado anteriormente. Daí que a repercussão dos assuntos tratados no blog também foram objetos de discussões em outras instâncias sociais, não necessariamente mediadas por algum suporte técnico-midiático. Verificou-se, portanto, que os conteúdos discutidos no blog reverberaram em instâncias sociais mais amplas, a exemplo do tema das paralisações e organizações coletivas, que também repercutiram na Assembleia Legislativa de Minas Gerais - ASLEMG e na Câmara Municipal de Belo Horizonte – CMBH. O blog da Renata atuou aí como instrumento 112 de divulgação de conteúdos relacionados à mobilização e organização para greve, assumindo uma função importante de circulação de discursos relacionados ao segmento da SP. A temática da greve repercutiu nas relações entre os agentes públicos, tanto no interior de seus ambientes de trabalho quanto nos seus movimentos organizados, ampliando e diversificando suas formas de interação. A partir deste envolvimento social macro, retoma-se Maia (2002b) para destacar que as redes cívicas contemporâneas configuram as relações entre seus membros por meio do compartilhamento simbólico. Assim, o blog afirmou-se como ambiente virtual propício para travar discussões e potencializar o pertencimento e a visibilidade de lutas sociais e político-ideológicas. Como se verificou na pesquisa empírica, o blog da Renata foi utilizado pelas entidades, movimentos sociais e sindicatos da categoria, com objetivo de dar abrangência, visibilidade e mobilização a suas causas. A regularidade de postagens com estes atores e os desenhos dessas interações revelaram os rastros comunicacionais deixados no suporte e desnudaram as articulações e parcerias entre o blog e frentes políticas. Tais vínculos, em especial com a Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais – ASPRA, Sindicato da Polícia Civil – SINDPOL e outras lideranças políticas, podem ser demonstrados pelos links internos ao blog e interagendamentos entre suporte e entidades/figuras políticas, conforme figura n. 34: FIGURA 34: blogs de frentes política e vínculos midiáticos com movimentos Fonte: blog da Renata e ASPRA Em relação à dinâmica midiática com os meios formais, de forma geral, o blog retransmite conteúdos de cunho institucional das janelas on-line oficiais (por meio dos sites institucionais) à seus atores. Conforme visto em Braga (2006), esse fluxo (emissão/recepção/resposta) credita um papel ativo ao blog da Renata de redimensionar, redirecionar e ressignificar os produtos, modificando conteúdos e produzindo subsequentemente novos discursos. O blog então “customiza”, isto é, dá nova roupagem nas 113 publicações originadas dos sites institucionais. Assim, verificou-se a ressignificação dos conteúdos por meio da interferência midiática dos atores. Já no período da mobilização reivindicatória da SP mineira em 2011, identificou-se somente a conversação entre blogs, blogosfera da SP, redes sociais e mídias comerciais, isto é, não se constatou interagendamentos oficiais com o blog da Renata. No entanto, é importante ressaltar que não se constatou a resposta direta, isto é, a conversação linear específica, publicizada, , da instância formal para o blog no período da mobilização; porém, certificou-se o acompanhamento silencioso da esfera formal dos conteúdos temáticos trocados no ambiente digital (no blog e na blogosfera da SP). Nesse aspecto, o SRS com as instâncias formais/institucionais,7 foi fomentado em paralelo, pelos agentes de SP e não pelos meios oficiais e deu-se essencialmente por meio de comentários/discussões no blog (replicados na blogosfera, redes sociais e mídias). As formas de comunicação governamentais e institucionais se mostraram insuficientes e não subsidiaram a demanda por informação (pelos blogs, pela blogosfera, pelas mídias, pelo cidadão e pelos interessados de forma geral nas ações, atuações e políticas públicas relacionadas à mobilização reivindicatória da SP). Constatou-se uma insuficiência na política de comunicação formal, pela aparente necessidade de os atores se comunicarem, compartilharem realidades e se posicionarem como agentes públicos por meio do blog. Dessa forma, verificou-se que inexistem, por parte dos meios oficiais, suportes dialógicos oficiais que promovam a discussão pública com a sociedade, bem como uma comunicação mais direta com os servidores da SP. No período da mobilização, as informações referentes ao Sistema de Defesa Social foram visualizados de forma superior nas instâncias informais (a exemplo do blog da Renata) do que nas comunicações oficiais. Por meio do blog foi possível vislumbrar conteúdos relacionados aos órgãos de SP e de seus atores, o que não ocorreu nos meios oficiais (SEDS, PMMG PCMG e CBMMG), já que tais instituições, apesar de serem parte de um sistema, não organizam a comunicação de forma colegiada, isto é, tratadas de forma integrada. 7 Ressalte-se que não se teve como objetivo nesta pesquisa proceder a uma análise dos canais de comunicação de cada instituição que compõe o Sistema de Defesa Social, nem mesmo, o aprofundamento das processualidades e da gestão dessas vias de informação que caracterizam as formas de interface das instituições com o blog da Renata, (ou mesmo, com a blogosfera, mídia comercial ou com a sociedade civil). No entanto, para se analisar o interagendamento tornou-se necessário investigar as mídias on-line da SEDS, da PMMG, da PCMG e do CBMMG, isto é, portais governamentais destinados à sociedade em geral, inclusive à mídia comercial, para esclarecimento e divulgação das funções/rotinas das instituições. 114 Em síntese, o blog da Renata e a blogosfera temática espelharam, de um lado, um ambiente de fragmentação da comunicação oficial dos órgãos de SP e, de outro, a efervescência de questionamentos e posicionamentos dos seus agentes por meio de suas instâncias de comunicação, a exemplo dos suportes digitais – blogs, redes sociais etc. Verificou-se por meio da observação e monitoramento das postagens que o ambiente digital retrata essa demanda reprimida, publicizando assuntos considerados restritos pelos organismos governamentais. Em entrevista com jornalista da Assessoria de Comunicação da SEDS, confirmou-se que as mídias convencionais recorrentemente solicitam da área responsável posicionamento do Governo referente à divulgação ou postagem dos blogs relacionados à classe dos agentes de SP (especialmente em relação aos militares e aos agentes penitenciários). Essa afirmação revela que há repercussão das discussões travadas nos ambientes digitais relacionados à SP, e ainda, que é demandada dos meios institucionais, respostas oficiais sobre questões de interesse do segmento. Foi também extraído dessa entrevista que novas políticas governamentais em relação à comunicação oficial têm sido elaboradas para atender à demanda por informação das redes digitais. Nesse aspecto, de acordo com o plano plurianual do governo de Minas Gerais, todas as assessorias institucionais devem ter profissional responsável pela gestão das redes sociais, emitindo divulgação on-line das respectivas ações das pastas (Secretarias de Governo). Foi verificado também, a publicação do Decreto Estadual n. 45.241, de 2009, que dispõe sobre o acesso às novas ferramentas interativas da Web 2.0 em uso nos órgãos e entidades da Administração Pública, inclusive ao livre uso de blogs, comunidades virtuais, sites, entre outros, o que demonstra a crescente importância dada aos meios digitais como política de comunicação oficial. Identificou-se ainda, que o blog utiliza da prerrogativa da lei federal de acesso à informação, de n.12.527, de 18 de novembro de 2011, que obriga os órgãos públicos a prestarem, em 48 horas, informações à sociedade civil, como forma de pressionar e exigir as respostas institucionais necessárias. Ademais, observou-se que a mídia comercial recorre aos blogs como fonte de informação e, ainda, que os meios formais recorrem aos blogs para leitura de cenário. Na referida entrevista com o jornalista da Assessoria de Comunicação da SEDS, apurou-se o acompanhamento das redes digitais por parte das instituições como norteador da postura da classe e organizações do segmento. Apesar da negação das paralisações pelo Governo, constatou-se por parte dos órgãos o monitoramento sistemático do cenário das 115 paralisações/organizações da classe da SP por meio da blogosfera temática e, em especial, do blog da Renata. Somente após a divulgação oficial do reajuste da classe (período pós-mobilização), identificou-se novamente a resposta direta, isto é, conversação linear e explícita entre o blog e instituições/governo. Tal conversação foi visualizada por meio de questionamentos após negociação e desfecho das reivindicações. Notou-se conversação visível entre os administradores do blog e Governo por meio de questionamentos pontuais do blog à Secretaria de Governo (prerrogativa Lei Estadual n. 12.527), em relação ao alto número de efetivos administrativos fora das ruas e necessidade de aumento do efetivo operacional (assunto constante de controvérsias e reivindicações da classe), conforme figura n. 35 a seguir: FIGURA 35: Interagendamento oficial e informal por meio do blog da Renata Fonte: blog da Renata Em relação ao SRS com a blogosfera da SP confirmou-se o interagendamento com outros blogs de forma regular. Esses interagendamentos podem ser vistos com grande recorrência no suporte, com links diários para interfaces integrantes da blogosfera temática. Existe, nas barras laterais acesso direto a blogs ligados ideológica e politicamente ao blog da Renata, condicionando/influenciando a visita aos suportes. Há também a menção da origem da notícia no blog da Renata, com remissão para a postagem original. Constatou-se uma espécie de clipping diário para que o participante tenha acesso a outros blogs integrantes da temática com hiperlinks direcionados à rede de blogs da SP, de mesma linha políticoideológica. Os links ilustrados adiante demonstram conexões na blogosfera temática exploradas pelo blog no período da mobilização reivindicatória, conforme figura n. 36 a seguir: 116 FIGURA 36: links para outros blogs integrantes da blogosfera policial Fonte: blog da Renata Observou-se a ocorrência da resposta social por meio dos interagendamentos entre toda a blogosfera da SP e meios de comunicação institucionais e comerciais no período prémobilização reivindicatória, mobilização reivindicatória e pós-mobilização reivindicatória. Observou-se, sobretudo, que as tentativas de organização e mobilização social ocorreram em grande parte por meio dos interagendamentos e da conversação social entre o blog da Renata e pela rede virtual formada pela blogosfera temática. As redes sociais foram responsáveis por dar agilidade, dinamicidade, poder de adesão e por manter em efervescência a publicização da mobilização da SP de 2011. Identificou-se que, além da convergência de mídias (comerciais e formais), entre blogs da blogosfera da SP, ocorreu neste período ampla transversalidade entre redes sociais. Assim, comprovou-se o SRS por meio dos interagendamentos com redes sociais e outras plataformas digitais on-line, em conexão com o blog da Renata, como por exemplo, o Facebook e o Twitter. No Facebook, as interações referentes à mobilização reivindicatória da classe aconteceram em grande parte com as replicações das postagens do blog da Renata. O recurso foi preponderante para a rápida mobilização, divulgação e participação em atos e manifestações políticas. No caso do Twitter, a dinâmica apresentou-se peculiar e merece ser demonstrada neste momento, já que ilustra (por meio da figura a seguir n. 37), o acompanhamento das atividades do blog da Renata por atores da rede de SP, em tempo real. Identificou-se o monitoramento das menções e comentários on-line do blog nas redes sociais por agentes da SP, instituições, movimentos sociais e a mídia comercial, formando uma rede de vigilância, observação e conversação. Essas interações podem ser vistas por meio do acompanhamento pelos atores citados como seguidores dos conteúdos do blog da Renata, pelo Twitter: 117 FIGURA 37: Exemplo de acompanhamento e monitoramento do blog da Renata Fonte Twitter do blog da Renata A temática da reivindicação extrapolou a dinâmica interna do blog da Renata, repercutindo em outras instâncias sociais e promovendo a conversação social. Em suma, entende-se o SRS como processo interacional que possibilita a interferência de atores nos produtos midiáticos e intervenções coletivas por meio do esforço de compartilhamento simbólico. (BRAGA, 20006). O SRS é visto, portanto, como uma dinâmica interacional que estimula processos sociais midiáticos de diferentes ordens. Por meio da ação de atores (individuais/coletivos) no blog da Renata foi possível visualizar processos de crítica, pressão, militância, controle, vigilância, enfrentamento, continuidades, associações, aprendizagem, ações contrapositivas, interpretativas, ressignificativas, corretoras de percurso, polemizadoras, de estímulo, de alerta, entre outros. A adesão, a crítica, as objeções interpretativas, as pressões exercidas, as ações de militância, a organização da coletividade, os movimentos, o esforço de controle sobre a mídia, as referências históricas criadas, os processo formativos compõem algumas das principais formas de manifestação e de resposta social percebidos na rede. (BRAGA, 2006). Nesse sentido, a análise da resposta social por meio do blog da Renata na mobilização reivindicatória de 2011 foi preponderante para a constatação das conexões entre atores, blogs, entre instituições, entre movimentos, entre mídias e na demonstração de um modus operandi que revelou uma dinâmica ampla de conversação e circulação social. 3.3. Mensuração das participações no blog da Renata O desenvolvimento da pesquisa mostrou a influência da rede midiática digital por meio do crescimento da blogosfera da SP em nível nacional, número de blogs criados recentemente em Minas Gerais, da participação em comentários, interagendamentos, remissão de postagens, observação da mídia como referência para pautas jornalísticas e, sobretudo, a 118 constatação do ambiente como locus de adesão de agentes de variadas instituições e de relações midiatizadas. No entanto, para completude da investigação, utiliza-se da demonstração estatística que auxilie, direcione e subsidie a análise da dinâmica interacional e do sistema de resposta social, revelando a mensuração da demanda interna pelo blog e o crescimento dos acessos no suporte e os fluxos de circulação externos. Como o caráter processual foi o objeto principal desta investigação, neste momento, subsidiariamente, recorre-se a dados técnicos que revelem características da participação estabelecidas no blog da Renata. Estes dados e análise não representam a interação na rede e a demonstração do SRS, mas demonstra informações importantes que complementam a investigação sobre o processo comunicacional no blog da Renata. Para isso, recorreu-se a balizadores que pudessem retratar, mapear e detalhar o cenário de conexões e a rede fomentada a partir do blog a saber: “Locais de acesso”, com indicação das cidades com predominância e maior incidência de conexões, “Zona quente de acesso”, que demonstra a região de maior participação geograficamente, “Crescimento de acessos”, com histórico de acessos por ano, recorrendo ao período da mobilização reivindicatória de 2011, e “Horários de acesso”, com picos das participações durante 24 horas. Em relação aos locais de acesso, indicam-se no mapa os locais predominantes de participação no blog, com indicação das cidades com maior incidência de conexões. No blog da Renata identificou-se, por meio dos comentários, que a maior concentração de participações são referentes à Região Metropolitana de Belo Horizonte. Verificaram-se as localidades de acesso predominantes na cidade de Belo Horizonte, mas com inúmeros acessos em outros municípios do estado de Minas Gerais, mesmo com menor envolvimento do interior. Identificam-se os acessos pelo blog da Renata, nacionalmente, como se vê no mapa adiante, por meio da figura n. 38. Essas conexões nacionais remetem à rede de monitoramento, solidariedade, vínculos e vigilância entre movimentos sociais de outros estados. (BRAGA, 2006; MAIA, 2002b) Identificaram-se também acessos internacionais ao blog da Renata. Convém ressaltar que tal registro ao endereço do blog, internacionalmente, não significa necessariamente o interesse de países estrangeiros pelos conteúdos do suporte. Hackers, por exemplo, utilizam de IP internacional como forma de invadir sites e não deixar rastros. Demonstram-se as zonas quentes de acesso, que mostram a região de maior participação geograficamente. Nessa análise cartográfica, não se objetivou detalhar as cidades onde se relacionam os locais de acesso, mas apresenta-se a visão geral de um fenômeno de 119 crescimento, especificando macroáreas de adesão e participação, conforme metodologia de georreferenciamento. O mapa revela a homogeneidade das conexões ao blog da Renata, com abrangência e concentração nacional. Assim, nessa representação, tanto os acessos da Região Metropolitana da Belo Horizonte quanto do interior se unificam, revelando a uniformidade das participações nos municípios, no estado e fora dele. A título de informação, o Sistema de Defesa Social de Minas Gerais, têm, atualmente, representatividade nos 853 municípios de Minas Gerais. FIGURA 38: Mapa de locais de acesso e zona quente do blog da Renata Fonte: whos.amung.us A interpretação do gráfico adiante é de suma importância para esta investigação, uma vez que aponta a evolução de acessos de 2008 até 2012. O número de 2008 a 2012, representado por meio da figura n. 39, significa o máximo de conexões diárias registradas no blog. No ano de criação, o blog da Renata obteve zero de participação, porém, o número não representa as conexões estabelecidas, já que se constatou que o sistema de aferição só foi sincronizado ao suporte após ele ter sido “hackeado”, em 2008. Desse modo, a análise de 2009 é representativa do crescimento de participações, contabilizando 69 pessoas por dia no site. Em 2010, o número cresce para 403 acessos diários e, em 2011, período da mobilização reivindicatória da SP mineira, tem um exponencial avanço, contabilizando o referente a 1.137 acessos por dia. O mapa de acessos demonstra crescimento considerável no ano de 2011 com maior número de participações. O crescimento demonstra que o período da mobilização reivindicatória foi preponderante para a observação, participação e acompanhamento dos conteúdos midiáticos do blog da Renata nas redes digitais temáticas. Como se identificou no estudo de caso, na análise da atuação do blog na mobilização reivindicatória da SP de 2011 e no modus operandi 120 do sistema de resposta social do blog da Renata, a temática de reivindicação atiça o interesse e a curiosidade pelos canais de comunicação coletivos do segmento. O número de acessos diários representa uma importante parcela do efetivo das instituições de SP conectados, mesmo se considerando as participações assíduas, já que em pesquisa à SEDS (conforme anexo 2), identificou-se que, somados o efetivo da PMMG (cerca de 46.000), PCMG (cerca de 12.000) e CBMMG (cerca de 5.000), estaria em torno de 63.000 servidores. É importante recuperar neste momento que a figura n. 46 comprovou a maior incidência de acessos em Belo Horizonte, seguido em menor proporção pelo interior do estado, onde é menor o efetivo administrativo, com maior presença de agentes operacionais em atividades externas de campo e a menor acessibilidade à informação. Em 2012, a referência de acessos caiu drasticamente para 178 conexões diárias, o que demonstra que o acesso está diretamente vinculado aos conteúdos mais polêmicos do segmento. A adesão crescente e a exponencial capacidade de agregação no período de 2011 justifica o emergente uso político das redes digitais pelos movimentos sociais, à utilização do suporte como mídia de mobilização e discussão em torno dos assuntos reivindicatórios e interesses coletivos. A figura n. 39, a seguir, subsidia a análise produzida: FIGURA 39: Acessos no blog da Renata Fonte: whos.amung.us Outra identificação importante refere-se aos horários de maior acesso ao blog da Renata, que retrata os períodos de maior utilização entre 10, 11, 12 e 13 horas e após as 16 até às 22 horas. Os horários tendenciam a análise para a identificação do uso no horário de almoço dos agentes públicos e após o término do trabalho, que naturalmente remete ao contexto operacional da classe. É importante considerar também a limitação de acessos aos 121 blogs nas instituições, já que os endereços URLs, em parte das instituições relacionadas, possuem políticas de restrições específicas. O gráfico, a seguir, demonstrado pela figura n. 40, atesta os intervalos e picos mais importantes: FIGURA 40: Estatística de Horários de maior acesso ao blog da Renata Fonte: whos.amung.us 122 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Na tentativa de ampliar o estudo das redes comunicacionais para além do instrumentalismo, objetivou-se com esta pesquisa analisar o processo comunicacional, a dinâmica interacional e o sistema de resposta social que emergem nos ambientes midiáticos digitais, especialmente na blogosfera da Segurança Pública. Propôs-se pensar a comunicação para além de uma visão cartesiana, da simples disseminação de informações, mas, sim, adiante no entendimento linear da informação, como dispositivo estruturante de processos complexos. Diante desse rico e diversificado locus de relações, compreende-se que a complexidade tornou-se central no entendimento das dinâmicas das redes formadas, no intercâmbio de seus significados. A ótica da complexidade assume a subjetividade e a multiplicidade, a ordem e a desordem, a cooperação e o conflito, a associação e a dissociação, o informal e o formal, enfim, os dialogismos que devem acompanhar todo raciocínio. A percepção dessa realidade exige um mapeamento capaz de abarcar uma lógica conectiva abrangente e, consequentemente, uma visão aglutinadora e sistêmica. Considerar a comunicação sob o ponto de vista da complexidade significa, então, olhar para além dos polos, iluminar a circulação, as conversações, de forma a ultrapassar a superfície e especializar-se em uma visão que escape, sobretudo, dos radicalismos, que pairam sobre a ordenação ou sob o caos completo. Buscou-se, portanto, pesquisar o fenômeno da midiatização por uma visão da interação entre as partes, entre atores, nas interfaces, abarcando as comunicações transversais, centrais e também periféricas. O foco desse estudo, portanto, iluminou os elos, as interseções e as mediações estabelecidas por meio da noção de rede, por meio da interação nas tramas desse dispositivo midiático. O estudo do processo comunicacional midiático na contemporaneidade, sob o ponto de vista desta pesquisa, deve ser suficiente para vislumbrar e, ainda, absorver a heterogeneidade. Estudar as redes comunicacionais significa partir de regularidades interacionais sem deixar de observar e compreender os elementos dinâmicos, suas vozes, silêncios, sem perder de vista a noção de continuidade, e, sobretudo, sua compreensão sistêmica. Compreender a rede significa, portanto, perceber e ler este cenário, inicialmente opaco, turvo, confuso, misturado, mas, acima de tudo, desvendar as interações presentes, sem cristalizá-lo, sem topologias, com os movimentos que lhe são próprios. 123 A blogosfera da SP demonstrou a convergência entre atores e conexões, a potencialidade de conversação instituída, as dinâmicas sociais midiatizadas propiciadas pela capacidade de agregação, velocidade e visibilidade das redes. Ao introduzir como estudo de caso o monitoramento de mídia por meio do blog da Renata, tentou-se reproduzir o cenário de mobilização para reivindicação salarial e estrutural da SP de 2011 e, por sua vez, o contexto, o cenário de interação que o suporte refletiu (interno e externo), seus atores, suas conexões, vínculos, conteúdos e intencionalidades. Assim, o acompanhamento do blog da Renata possibilitou a reflexão relacionada a temáticas relevantes no campo da Comunicação Social: os estudos sobre redes, a constituição de capital social, deliberação digital, movimentos sociais na rede, mobilização, interação midiatizada e sistema de resposta social. Constatou-se entre os atores da SP de Minas Gerais, o interesse latente de expressão em torno dos assuntos relacionados às reivindicações, descontentamentos, vivência, pressões, discordâncias e condições comuns de trabalho. Verificou-se que o ambiente midiático virtual fomenta socialmente conversações relativas às questões próprias do segmento, às representações das instituições, aos estereótipos da classe, à realidade de fatias representativas e grupos de interesse. Ressalte-se que o processo interacional fomentado pelos atores na blogosfera da SP foi predominantemente rico, transversal e deliberativo, mas, por meio do blog da Renata, não constituiu uma esfera pública democrática efetiva. Observou-se que o suporte midiático deu visibilidade a manifestação/atuação de seus atores integrantes, porém, o uso da mídia foi condicionado. Assim, o blog da Renata não produziu mensagens descomprometidas e desvinculadas, retratando interesses de associações, sindicatos, movimentos sociais. Em suma, o blog não se sustentou como ambiente equitativo e de função cívica, sobressaindo a incitação oposicionista e os ataques. O processo de midiatização revelou a potencialidade desse dispositivo midiático como suporte agregador e mobilizador, como meio de vigilância, monitoramento, expressão e visibilidade, e por outro lado, transpareceu a intencionalidade na atuação do blog da Renata no período da mobilização reivindicatória de 2011. O ambiente demonstrou força de coesão e mobilização, e, sobretudo, como os ambientes digitais servem contemporaneamente as novas formas de organização coletiva. O rápido desfecho da mobilização reivindicatória (e a negociação menos radical com a classe, contrariamente como ocorrido na greve de 1997) é justificada, inclusive, pela possibilidade de visibilidade da situação revelada nas redes (possível em 2004 e 2011 por meio da Internet). A visibilidade das dinâmicas interacionais e 124 as conversações sociais proporcionaram maior agilidade e direcionamento por parte do governo para tomadas de decisão e intervenção. Infere-se que as informações dispostas nas redes midiáticas atuam como indicativo e termômetro da situação, como referencial contextual, facilitadoras da percepção de cenários, riscos, probabilidades e consequências. O suporte midiático engendrou importantes conversações e serviu como ambiente de trocas e disputas de sentidos sociais, internas e externas ao blog. Os movimentos de remissão (observados quanto ao critério de interdiscursividade, em instância micro) e de interagendamentos (sob a perspectiva da hipertextualidade, vistos em instância macro) também foram analisados e interpretados como características relevantes do processo interacional. Essa transversalidade foi efetiva por meio dos sistemas de circulação e conversação gerados e pela convergência das mídias. O SRS ocorreu por meio dos blogs integrantes da blogosfera da SP, com a mídia comercial, movimentos sociais, redes sociais e mídia oficial (instituições de SP e Governo). Observou-se que as deliberações em torno da possível greve na blogosfera da SP e nas redes sociais foi forte e expressiva, a mobilização por meio dos blogs foi crescente, com a adesão do segmento. O blog atuou como uma espécie de filtro e intermediou os conteúdos midiáticos ao segmento, influenciando as trocas. Os blogs da blogosfera da SP, em especial o blog da Renata, difundiram amplamente o contexto de paralisação e mobilização de forma partidária. O interagendamento midiático do blog da Renata com publicações da mídia comercial foi crescente, com predominância de trocas entre ferramentas on-line do ambiente virtual, confirmando a tendência de expressão do segmento nas redes virtuais. Em relação ao interagendamento com as instâncias formais e com os movimentos sociais, o blog demonstrou, expôs e articulou uma movimentação paralela, que contrapôs o silêncio oficial. Diante da posição silenciosa do governo, os atores da SP colocaram em prática as inúmeras possibilidades de uso do suporte midiático como ambiente de resposta social. O amplo interagendamento entre os blogs integrantes da blogosfera da SP consolidou uma rede de discussão entre as vias informais digitais de comunicação. Verificou-se, também, o interagendamento entre redes sociais e ferramentas de comunicação. A convergência com diversos tipos de mídias foram verificadas, no entanto, conclui-se da emergência das estratégias de uso do ambiente on-line, por meio da blogosfera, blogs e redes sociais. Assim, verificou-se o uso da rede midiática digital como tendência no envolvimento, na ação coletiva, difusão, organização, agregação e mobilização, devido a sua capacidade de circulação/alcance. 125 Conclui-se que o processo comunicacional do blog configurou uma interação, que possibilitou que os atores do segmento da SP continuassem na absorção dos conteúdos emitidos, que se manteve na mídia e fora dela. Desta forma, o blog atuou como dispositivo interacional que estabeleceu trocas difusas no espaço e diferidas no tempo, diretas e indiretas, simétricas e assimétricas, processos informacionais lineares, bidirecionais e não lineares, isto é, como se viu, dinâmicas comunicativas recíprocas e não recíprocas. Daí a ação dos atores nesse espaço público midiático foi potencializada, proporcionando a amplificação de uma realidade social e a participação de diferentes instâncias (mídias, estado/instituições e sociedade). A presença dos atores no blog revelou diferentes formas de reverberação social e representou a ampliação da percepção do cenário dos acontecimentos. O blog serviu como instrumento para as estratégias de mobilização, fortalecido pelos movimentos de interagendamento com a mídia comercial. O blog atuou como suporte que favoreceu e dinamizou os processos interacionais dos agentes de SP, de coesão de grupos, de vínculos e laços. Em síntese, o processo comunicacional se configurou por momentos de mobilização na rede, coesão, cooperação entre agentes de SP, estabilização, difusão, conflito, integração, desestabilização, desintegração de interesses e dispersão das forças do segmento, consolidando assim, a interação no ambiente como dispositivo constituidor de significados e sentidos. No período da mobilização reivindicatória da SP de 2011, este ambiente, por um lado, retratou angústias, vozes contidas e realidades organizacionais discordantes, por outro viés, mostrou a riqueza e complexidade de um processo comunicacional inter-relacionado cooperativo (subjetivo e coletivo), próprio de um jogo de enunciados. Após leitura desse cenário denso, misturado, opaco e diverso, conclui-se que o blog funcionou como dispositivo midiático interacional peculiar sob a perspectiva da ação dos atores conectados, da coleta, divulgação, difusão e mobilização cadenciada pelas reivindicações da classe e colocada em prática pelos movimentos sociais organizados. Por fim, afirma-se da necessidade de escapar da superficialidade que implica pensar que o processo comunicacional é produto da imparcialidade, da concordância e da reciprocidade. É por meio do estudo da interação, nas tramas das redes, que se tornam possíveis as nuances singulares à investigação, isto é, identificar os atores, as conexões, as linhas ideológicas, os discursos, a discussão fomentada, os propósitos, bem como, as estratégias e os meios utilizados. 126 A mobilização reivindicatória de 2011 serviu como referência para interpretar os processos comunicacionais midiatizados do segmento de SP, e, sobretudo, as emergentes formas de mobilização por meio dos ambientes on-line. As redes propiciaram além da ação individual, coletiva, conversação, debate, discussão e a interpretação, a visualização da contrainformação, do contra-argumento, da ressignificação, do convencimento e da persuasão. Esta janela virtual permitiu o olhar da dinâmica interacional nas redes temáticas de SP, a construção e leitura de seus fluxos comunicativos e a constituição de um sistema de resposta social em uma fração temporal de exponencial presença nas redes digitais. Sob o olhar da Comunicação, interessou para esta análise os movimentos comunicacionais desse ambiente diverso. O objeto de estudo apresentado revelou a complexidade do processo comunicacional por meio da interação nas redes digitais temáticas e das diferentes formas de manifestação desse rico fenômeno comunicacional, a midiatização. Esta investigação serviu para sistematizar estudos sobre a interação midiatizada do segmento da SP, levantar a importância do cruzamento das temáticas entre Comunicação Social e SP, e, sobretudo, contribuir para novas discussões, novos olhares, novas perspectivas no campo empírico e acadêmico. Este estudo foi tão somente um ponto de partida para novos desdobramentos, perspectivas e visões. 127 REFERÊNCIAS AMARAL, Adriana; QUADROS, Claudia I. Agruras do blog: o jornalismo cor-de-rosa no ciberespaço. In: Razón y Palabra, v. 53, p. 03, 2006. Disponível em: http://www.razonypalabra.org.mx/anteriores/n53/amaralquadros.html. AMARAL, Adriana; RECUERO, Raquel; MONTARDO, Sandra. Blogs: mapeando um objeto. In: AMARAL, Adriana; RECUERO, Raquel; MONTARDO, Sandra (Orgs.). Blogs.com: estudos sobre blogs e Comunicação. 2009. São Paulo: Momento Editorial, 2009, p. 27- 53. BALDISSERA, Rudimar. Comunicação organizacional: o treinamento de recursos humanos como rito de passagem. São Leopoldo: Unisinos, 2000. BAUDRILLARD, Jean. Tela total – mito-ironias da era do virtual e da imagem. Trad. Juremir M. da Silva. Porto Alegre: Sulina, 1997. BARABÁSI, A. L.; ALBERT, R. Emergence of Scaling in Random Networks.Science, v. 286, p. 509 -512, 15 out. 1999. BARBOSA, Jan Alyne. Weblogs: Múltiplas utilizações, um conceito. XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – BH/MG – 2 a 6 set. 2003. BLOOD, Rebecca. 2002. We’ve got Blog. How Weblogs are changing our Culture. Perseus Books Group; 1st edition, 2002. BLOOD, Rebecca. 2000. Weblogs: a history and perspective. Disponível http://www.rebeccablood.net/essays/weblog_history.html. Acesso em: 20 jul. 2012. em: BOHMAN, James. (2004). Expanding dialogue: the internet, the public shere and prospects for transnational democracy. BOHMAN, James. O que é deliberação pública? Uma abordagem dialógica. In: MARQUES, Angela Cristina Salgueiro (Org. e trad.). A deliberação pública e suas dimensões sociais, políticas e comunicativas: textos fundamentais. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009, p.31-84. BOYD, Danah. Friendster and Publicity Articulated Social Networkind. Conference on Human Factors Computing Systems (CHI, 2004), Vienna, Abril, 2004. BOURDIEU, P. The forms of Capital. Originalmente publicado em “ÖkonomischesKapital, kulturellesKapital, sozialesKapital” In: SozialeUngleichheiten (SozialeWelt, Sonderheft) BRAGA, J. L. Dispositivos Interacionais. Trabalho selecionado pelo GT Epistemologia da Comunicação. In: ENCONTRO DA COMPÓS, NA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDEDO SUL, XX, Porto Alegre, 2011. Anais... Porto Alegre, 15 p. BRAGA, J. L. Nem rara nem ausente - tentativa. Matrizes. 2010a, p. 65-81. 128 BRAGA, J. L. Disciplina ou campo? O desafio da consolidação dos estudos em Comunicação. In: J. FERREIRA; F.J.P. PIMENTA; L. SIGNATES (Orgs.). Estudos da Comunicação: transversalidades epistemológicas. São Leopoldo: Unisinos, 2010b, p. 19-38. BRAGA, J. L. Midiatização como processo interacional de referência. In: A.S. MÉDOLA; D.CORREA ARAÚJO; F. BRUNO (Orgs.). Imagem, visibilidade e cultura midiatica. Porto Alegre: Sulinas, 2007, p. 141-167. BRAGA, J. L. Interatividade & Recepção. In: A. FAUSTO NETO; A. HOHLFELDT; J.L. AIDARPRADO; S. DAYRELL PORTO (Orgs.). Interação e Sentidos no Ciberespaço e na Sociedade. Porto Alegre: Edipucrs, 2000, p. 109-136. BRAGA, José Luiz. A sociedade enfrenta sua mídia – Dispositivos sociais de crítica midiática. São Paulo: Paulus, 2006. BRAGA, José Luiz. Midiatização: a complexidade de um novo processo social. In: Revista do Instituto Humanitas Unisinos. São Leopoldo, edição 289, p. 9-12, 13 abr. 2009. Disponível em: www.unisinos.br/ihu (Entrevista). BRAGA, José Luiz. Interação e Recepção. In: Encontro da Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em Comunicação, 9. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2000. Anais... Brasília: Compós, 2000. BRASIL. Portaria Interministerial do Ministério da Justiça, n. 02, de 15 de dezembro de 2010. BRASIL. Lei n. 12.527, de 18 de novembro de 2011. BRASIL. Constituição Federal, 1988, art. 142, § 3º, IV. BRASIL. Projeto de Emenda Constitucional, PEC300, 2008. BREIGER, R. The Duality of Persons and Groups. Social Forces, v. 53, n. 2, p.181- 190, 1974. CASTELLS, Manuel. Asociedadeem rede. 2. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2005. CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. A Era da Informação: economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, 1999. CASTRO, M.C.P.S. Na tessitura da Cena, a Vida – Comunicação, Sociabilidade e Política. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997. COLEMAN, J. S. Social Capital and the Creation of Human Capital.American Journal of Sociology, n. 94 (1988), p. S95-S120. DEGENNE, Alain; FORSÉ, Michel. Introducing Social Networks. London: Sage, 1999. 129 DURKHEIM, E. Os pensadores. Trad. Carlos Alberto R. de Moura. São Paulo: Abril Cultural, 1978. DURKHEIM, E. Da divisão do trabalho social. As regras do método sociológico. O suicídio. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Abril Cultural, 1978. ESPINOSA, Horacio. Intersticios de sociabilidad: una autoetnografíadel consumo de TIC. AtheneaDigital,12,272-277.2007. Disponível em: http://psicologiasocial.uab.es/athenea/index.php/atheneaDigital/article/view/448. Acesso em: 4 jun. 2012. FAUSTO NETO, Antônio. Olhares sobre a recepção através das bordas da circulação. In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO, 18. Belo Horizonte, 2009. Anais. Brasília: Compós, 2000. FAUSTO NETO, Antônio. Fragmentos de uma “analítica” da midiatização. Matrizes. Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo, São Paulo: ECA/USP, p. 89-105, abr. 2008. FAUSTO NETO, Antônio. Contratos de leitura: entre regulações e deslocamentos. Revista Diálogos Possíveis, Salvador: FSBA, ano 6, n.2, jul./dez. 2007. FAUSTO NETO, Antônio. Enunciação mediática: autorreferencialidade e “zonas de pregnâncias”. Revista Designs. Barcelona: Gedisa, 2008. FAUSTO NETO, Antônio. (...) “Nada tira, nada envolve, nada completa” Leituras em recepção do discurso midiático religioso. Revista Famecos, Porto Alegre: Famecos, n. 36, agosto 2008. FERRARA, Lucrecia D’Aléssio. Epistemologia da Comunicação: além do sujeito eaquém do objeto. In: LOPES, Maria Immacolata Vassalo de (Org.). Epistemologia da Comunicação. São Paulo: Loyola, 2003, p. 55-67. OLIVEIRA JÚNIOR, Firmino Geraldo. A polícia caiu na rede: interações e representações mediadas pelo blog diário de um policial militar na blogosfera policial brasileira. Belo Horizonte, 2010. FRAGOSO, S. (2006) WTF a CrazyBrazilianInvasion. In: CATaC - Cultural Attitudes Towards Technology and Communication, 2006, Tartu. In: Fifth International Conference on Cultural Attitudes Towards Technology and Communication 2006. Murdoch - Australia: School of Information Technology - Murdoch University, 2006. v. 1. p.255-274. FRANÇA, Vera. Sujeitos da Comunicação, sujeitos em comunicação. In: GUIMARÃES, César; FRANÇA, Vera (Orgs). Na mídia, na rua: narrativas do cotidiano. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. FRANÇA, Vera V. Paradigmas da Comunicação: conhecer o quê? In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO, 10. Brasília: Universidade de Brasília, 2001. Anais. Brasília: Compós, 2000. 130 FRANÇA, Vera V. Interações comunicativas: a matriz conceitual de G. H. MEAD. In: PRIMO, Alex et al. (Org.). Comunicação e Interações. Livro da Compós 2008. Porto Alegre: Sulina, 2008. GIDDENS, Anthony (1991). As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp. GOFFMAN, Erwin. A Representação do Eu na Vida Cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1975. GOHN, Maria da Glória. Mídia, Terceiro Setor e MST. Petrópolis: Vozes, 2000. GOMES, Pedro Gilberto. A midiatização, um processo social. In: Filosofia e Ética da Comunicação na Midiatização da Sociedade. São Leopoldo: Unisinos, 2006. GOMES, Pedro Gilberto. O processo de midiatização da sociedade. Paper PPGCOM São Leopoldo: Unisinos, 2007. GOMES, Pedro Gilberto. Filosofia e Ética da Comunicação na Midiatização. São Leopoldo: Sulina, 2006. GOMES, W. Internet e participação política em sociedades democráticas. Revista Famecos, Porto Alegre, n. 27, ago. 2005. GOMES, Luis A. Comunicação e complexidade: conhecimento, cotidiano e poder nos blogs. Tese (Doutorado), defendida no Programa de Pós-graduação em Comunicação da PUCRS, 2007. Disponível em: http://tede.pucrs.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=941. Acesso em: 3 jun. 2012. GRANOVETTER, M. The Strenght of Weak Ties. American Journal of Sociology, n. 78, p. 1360-1380, 1973. GUMBRECHT, H. U. Cascatas de modernidade. Modernização dos sentidos. São Paulo: Ed. 34, 1998. HABERMAS, Jürgen. Técnica e ciência como ideologia. Lisboa: Edições 70, 1993. HABERMAS, J. Três modelos de democracia. Lua Nova, n. 36, p. 39-54, 1995. HABERMAS, J. Direito e democracia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. HABERMAS, J. Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984. HENRIQUES, Márcio S. et. al. Comunicação e Estratégias de Mobilização Social. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. HENRIQUES, Márcio S. Comunicação, comunidades e os desafios da mobilização social. Anais do XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Rio de Janeiro: UERJ, 2005. 131 HENRIQUES, Márcio S.; MAFRA, Rennan L. M. Estratégias comunicativas para a ação coresponsável: um estudo de caso. Anais do VIII Simpósio da Pesquisa em Comunicação da Região Sudeste - Sipec. Vitória/ES: VIII Sipec, 2001. (CD ROM) HENRIQUES, M. S. Mobilização Social e Responsabilidade das Empresas: algumas considerações sobre os desafios políticos às organizações contemporâneas. In: NASSAR, Paulo. (Org.). Comunicação Empresarial Estratégica: práticas em Minas Gerais. São Paulo: Aberje, 2009, v. 1. HENRIQUES, Márcio Simeone (Org). Comunicação e estratégias de mobilização social. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. JENKINS, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2008. KASTRUP, Virgínia. A rede: Ama figura empírica da ontologia do presente. In: PARENTE, André (Org.). Tramas da rede: novas dimensões filosóficas, estéticas e políticas da comunicação. Porto Alegre: Sulina, 2004. LANDOWSKI, Eric. Da interação entre Comunicação e Semiótica. In: PRIMO, Alex et al. (Orgs.). Comunicação e Interações. Livro da Compós. Porto Alegre: Sulina, 2008. LEMOS, Andre. Nova esfera conversacional. In: MARQUES, Ângela et al. Esfera Pública, Redes e Jornalismo. Rio de Janeiro: E-papers, 2009. LEMOS, André. Bobynet e netcyborgs: sociabilidade e novas tecnologias na cultura contemporânea. In: RUBIM, Antonio Albino Canelas et al. Comunicação e Sociabilidade nas Culturas Contemporâneas. Petrópolis: Vozes, 1999. LEMOS, André. As Estruturas Antropológicas do Ciberespaço. Textos de Cultura e Comunicação, Salvador: Facom/UFBA, n.35, 1996, p.12-27. LEMOS, André. A arte da vida. Diários pessoais e webcams na Internet. Cultura da Rede. Revista Comunicação e Linguagem, Lisboa, 2002. LEMOS, André; NOVAS, Lorena. Cibercultura e tsunamis. Tecnologias de comunicação móvel e mobilização social. Revista Famecos, Porto Alegre, n. 26, p. 29-40, 2005. LÉVY, P. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996. LÉVY, P. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1998. LÉVY, P. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999. FERRARA,Lucrecia D’Aléssio. Epistemologia da Comunicação: além do sujeito e aquém do objeto. In: LOPES, Maria Immacolata Vassalo de. (Org.). Epistemologia da Comunicação. São Paulo: Edições Loyola, 2003. LUHMANN, Niklas. A realidade dos meios de comunicação. São Paulo: Paulus, 2005. 132 MAIA, Rousiley C. M. Democracia e Internet como esfera pública: aproximando as condições do discurso e da deliberação. In: CONGRESSO INTERNACIONAL: Internet, Democracia e Bens públicos. Belo Horizonte: FAFICH/UFMG, 2000. MAIA, Rousiley. C. M. Redes cívicas e internet: do ambiente informativo denso às condições da deliberação pública. In: EISEMBERG, J.; CEPICK, M. (Orgs.). Internet e Política. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002b, p. 46-72. MAIA, Rousiley, C. M. Redes Cívicas e Internet: efeitos democráticos do associativismo. 2007. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/participacao/images/pdfs/democraciadigital/maia2008.pdf MAIA, Rousiley C. M. Mídia e deliberação. São Paulo:, Ed. FGV, 2009. MAIA, Rousiley C. M. Democracia e a internet como esfera pública virtual: aproximação às condições da deliberação. In: GOMES, Wilson; MAIA, Rousiley. Comunicação e Democracia: problemas e perspectivas. São Paulo: Paullus, 2008, p.277-292. MAIA, Rousiley Castro. Mídia, esfera pública e identidades coletivas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006. MCLUHAN, Marshall. Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem. São Paulo: Cultrix, 1964. MCCARTHY, J.D. & ZALD, M.N. The Trend of Social Movements in America: Professionalization and Resource Mobilization. Morristown, General Learnings, 1973. MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense, 1987. MAFFESOLI, Michel. O Tempo das Tribos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000. MARQUES, Angela Cristina Salgueiro. As interseções entre o processo comunicativo e a deliberação pública. In: MARQUES, Angela Cristina Salgueiro (Org. e Trad.) A deliberação pública e suas dimensões, políticas e comunicativas: textos fundamentais. Belo Horizonte: Autentica Editora, 2009, p.11-27. MARTÍN-BARBERO, Jesus. Os métodos: dos meios às mediações. In: Dos meios às mediações. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997. MARTÍN-BARBERO, Jesus. Tecnicidades, identidades, alteridades: mudanças e opacidades da comunicação no novo século. In: MORAES, Denis de (Org.). Sociedade Midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006. MATTOS, M., VILLAÇA, R.. Aportes para nova visada da metapesquisa em comunicação. Comunicação & Sociedade, Brasil, 33, jun. 2012. Disponível em: https://www.metodista.br/revistas/revistas-etodista/index.php/CSO/article/view/2583/2943. Acesso em: 10 set. 2012. 133 MATOS, H. Capital social e comunicação. Summus, 2009. MATTOS, M., VILLAÇA, R.. Interações midiatizadas: desafios e perspectivas para a construção de um capital teórico. Revista Comunicação Midiática, v.7, n.1, p.22-39, jan./abr. 2012. MEDRADO, Benedito; SPINK, Mary Jane P. Produção de sentido no cotidiano: uma abordagem teórico-metodológica para análise das práticas discursivas. In: SPINK, Mary Jane P. (Org.). Práticas Discursivas e Produção de Sentido no Cotidiano – Aproximações Teórico-Metodológicas. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2004. MELUCCI, Alberto. Challenging codes: collective action in the information age. Cambridge: Syndicate of the University of Cambridge, 1996. MELUCCI, Alberto. A invenção do presente. Movimentos sociais nas sociedades complexas. Petrópolis/RJ: Vozes, 2001. MELUCCI, Alberto. (Org.) AltriCodici. Areedi Movimento nella Metropoli. Bolonha, II Mulino, 1984. MONTORO, Tânia (Org.). Comunicação, Cultura, Cidadania e Mobilização Social. Brasília/Salvador: UnB, 1997. MORIN, E. Le Moigne, J. A inteligência da complexidade. Trad. M. Flaci. São Paulo: Peirópolis, 2000. MORIN, E. Introdução ao pensamento complexo. Lisboa, Piaget, 2003. OLIVEIRA, A. C. Interação nas mídias. In: PRIMO, A. et al. (Orgs.). Comunicação e interações. Porto Alegre: Sulina, 2008. p. 27-42. [Livro da Compós 2008]. MORIN, Edgar. A ciência com consciência. 6. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002a. MORIN, E. O método: 3. O conhecimento do conhecimento. Porto Alegre: Sulina, 1999. MORIN, E. Por uma reforma do pensamento. In: PENA-VEGA, Alfredo; NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do (Orgs.). O pensar complexo: Edgar Morin e a crise da modernidade. 3. ed. Rio de Janeiro: Garamond, 1999a. OBERSCHALL. Anthony. Theories of Social Conflict. Annual Review of Sociology, v. 4: 291-315, 1978. ORIHUELA, José Luis. La revolutionthelos blogs. La Esfera, 2006. OROZCO GÓMEZ, Guillermo. Comunicação social e mudança tecnológica: um cenário de múltiplos desordenamentos. IN: MORAES, Dênis de (Org.). Sociedade Midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006. PEDERSEN, S.; MACAFEE, C. The practices and popularity of British bloggers. In: B. Martens; M. Dobreva (Eds.). ELPUB 2006. Digital Spectrum: Integrating Technology and 134 Culture – Proceedings of the 10th International Conference on Electronic Publishing, 155164, 2006. PINTO, Júlio. Comunicação organizacional ou comunicação no contexto das organizações? In: OLIVEIRA, I. L.; SOARES, A.T. (Org.). Interfaces e Tendências da Comunicação no Contexto das Organizações. São Caetano do Sul, SP: Difusão Editora, 2008. PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS. Pró-Reitoria de Graduação. Sistema de Bibliotecas. Padrão PUC Minas de normalização: normas da ABNT para apresentação de projetos de pesquisa. Belo Horizonte, 2008. Disponível em: <http://www.pucminas.br/ biblioteca/>. Acesso em: 26 nov. 2012. PRIMO, A.; SMANIOTTO, A. R. Blogs como espaços de conversação: interações conversacionais na comunidade de blogs insanus. E-Compos, v. 1, n. 5, p. 1-21, 2006. PRIMO, Alex; TRÄSEL, Marcelo. Webjornalismo participativo e a produção aberta de notícias. Contracampo, Niterói, v. 14, p. 37-56, 2006. PRIMO, A. Conflito e cooperação em interações mediadas por Computador. Trabalho apresentado no GT de Tecnologias Informacionais da Comunicação e Sociedade da XIII Compós. Niterói, RJ, 2005. PRIMO, Alex Fernando Teixeira. Interação Mútua e Interação Reativa: uma proposta de estudo. In: INTERCOM 1998 - XXI CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, Rio de Janeiro, 1998. RECUERO, Raquel da Cunha. Weblogs, Webrings e Comunidades Virtuais. In: VI SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE COMUNICAÇÃO. Porto Alegre, 2002. Disponível em: http://pontomidia.com.br/raquel/webrings.pdf. Acesso em: 4 jul. 2012. RECUERO, Raquel da Cunha. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2009. SANTAELA, Lúcia. O homem e as máquinas. In: A arte no século XXI: a humanização das tecnologias, 2000. SANTAELLA, Lúcia. As linguagens como antídotos ao midiacentrismo. MATRIZes, v.1, p.75-98, 2007. SANTAELLA, L. Cultura das mídias. São Paulo: Experimento, 1992. SANTAELLA, L. Linguagem líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007. New York: The Free, 1964. SIBILIA, Paula. O "eu" dos blogs e das webcams: autor, narrador ou personagem?. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 27, 2004. Porto Alegre. Anais. São Paulo: Intercom, 2004. SILVA, Juremir M. Em busca da complexidade esquecida. In: CASTRO, Gustavo de (Org.). Ensaio de complexidade. Porto Alegre: Sulina, 1997. 135 SILVA, Juremir M. Tecnologias do Imaginário. Sulina, 2003. SIMMEL, Georg. O indivíduo e a liberdade. In: SOUZA, Jessé; ÖELZE, Berthold (Orgs.). Simmel e a Modernidade. Brasília: Unb, 1998b. p.109-117. SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho. Petrópolis: Vozes, 2004. SODRÉ, Muniz. Eticidade, campo comunicacional e midiatização. In: MORAES, Denis. Sociedade Midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006. SCHERER-WARREN, I. Das Mobilizações às Redes de Movimentos Sociais, v. 21, n.1, p. 109-130, jan./abr. 2008. THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes, 2002. TORO, Jose Bernardo; WERNECK, Nísia Maria Duarte. Mobilização Social: Um modo de construir a democracia e a participação. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. TRAMMELL, K. D.; KESHELASHVILI, A. Examining the new influences: A selfpresentation study of A-list blogs. Journalismand Mass Communication Quarterly, p. 968982, 2005. UNESCO. CESeC. A Blogosfera policial no Brasil; do tiro ao Twitter, 2009. WELLMANN, Barry. Using social network analysis to study computer networks (tutorial). Disponível em: <http://www.informatik.unitrier.de/~ley/db/ conf/group/group1997.html#Wellman97>. WINKLER, I. Participação Política Mediada pela Internet: O Uso das Novas Tecnologias pelos Movimentos Sociais. Anais do III EnEO. Florianópolis, 2010. ZYGMUNT, Bauman. Modernidade líquida. Folha de S. Paulo, Caderno Mais!, 19 out. 2003. Entrevista concedida a Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke, 2003. 136 ANEXOS ANEXO A - ROTEIRO DE ENTREVISTAS DIRECIONADA BLOG DA RENATA 1. Quais as características sobre o blog da Renata? 2. Qual o histórico do blog da Renata? 3. Qual o perfil da blogueira? 4. Quais são os motivos de criar um blog sobre segurança pública? 5. Qual o pensamento da blogueira sobre os outros blogs da blogosfera da segurança pública? 6. Como a blogueira afere e percebe a repercussão e popularidade do blog? 7. Quem colabora com as postagens? 8. Qual sua média de visitantes únicos? 9. Qual o recurso de manutenção do blog? Existe custo? Há retorno financeiro com o 10. blog? Quais são os impedimentos em relação ao blog. Quais são os pontos negativos em relação ao blog? 11. Como é a rotina de publicação e pessoal? 12. Outros aspectos percebidos e não citados pelo blog: a. Pontos omitidos: b. Mensagens subliminares: c. Rastros na rede: d. Trajetória: e. Demais: ANEXO B - ROTEIRO DE ENTREVISTAS DIRECIONADAS À SEDS 1. A assessoria de comunicação recebe solicitação de esclarecimentos de conteúdos publicados em blogs? 2. Quais as ferramentas de comunicação disponíveis de acesso ao público em geral? 3. Existe alguma política de comunicação voltada para a mídia digital? 4. Existe monitoramento de mídia na instituição? 5. Todos os servidores tem acesso liberado? Há política de restrição? 6. Qual o número de efetivo da instituição? 7. Como é formatada a assessoria? Direcionada à mídia externa? Existe divisão? ANEXO C - FORMULÁRIO PARA PROCESSO DE IDENTIFICAÇÃO UTILIZADO PARA A ANÁLISE DO PROCESSO COMUNICACIONAL, INTERAÇÃO CONTEXTO, CONTEÚDO E A ATUAÇÃO DO BLOG DA RENATA ENQUANTO AMBIENTE DIGITAL MIDIATIZADO: Especificações das publicações 1. Quantidade de recursos interacionais disponibilizados: Comentários Links Posts relacionados 137 2. Quantidade de recursos audiovisuais disponibilizados (com ou sem download): ( ) Fotos ( ) Gráficos ( ) Vídeos ( ) Desenhos ( )Áudios 3. Categorias em que se encontra o post: ( ) Blogosfera policial ( ) Cotidiano policial ( ) Curiosidades ( ) Dicas ( ) Equipamentos e viaturas ( ) Mortes de policiais ( ) Notícias polêmicas ( ) Opinião polêmica ( ) Política ( ) Política salarial ( ) Sobre o blog ( ) Violência, conflitos urbanos ( ) Discussões sobre segurança pública ( ) Outros 4. Conversação e resposta social com outras mídias: ( ) Televisão ( ) Rádio ( ) Impresso ( ) Internet Nome do veículo: Tipo de abordagem: 5. Conteúdo dos comentários: ( ) Favorável ( ) Discordante ( ) Imparcial ou neutro 6. Conteúdo das matérias veiculadas por outras mídias: ( ) Favorável ( ) Discordante ( ) Imparcial ou neutro 7. Observações sobre o cenário e contexto relacionado à publicação: 8. Diferenciação das participações relacionadas ao Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais – CBMMG: 9. Diferenciação das participações relacionadas à Polícia Militar de Minas Gerais – PMMG: 10. Diferenciação das participações relacionadas à Polícia Civil de Minas Gerais – PCMG: 11. Diferenciação das participações relacionadas à Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais – SEDS: 12. Diferenciação das participações relacionadas ao Governo de Minas Gerais: 13. Diferenciação das participações relacionadas aos grupos presentes: 14. Diferenciação das participações relacionadas à participação individual: 15. Observações sobre a perspectiva da interação e midiatização no período da mobilização reivindicatória de 2011: 16. Observações sobre o blog em relação à resposta social midiatizada no período da mobilização reivindicatória de 2011: 17. Observações sobre o blog em relação à expansão da visibilidade e repercussão no período da mobilização reivindicatória de 2011: 18. Observações sobre as publicações em relação ao agendamento midiático no período da mobilização reivindicatória de 2011: 19. Observações sobre as publicações em relação ao interagendamento midiático no período da mobilização reivindicatória de 2011: 20. Observações sobre as publicações em relação às remissões midiáticas no período da mobilização reivindicatória de 2011: 138 21. Observação das interações e resposta social dentro do período da mobilização reivindicatória de 2011 e fora dele: ( ) Se repetem ( ) Não se repetem ANEXO D - CONSULTAS NA WEB FREQUENTES PARA A INVESTIGAÇÃO D.1. BLOGOSFERA DE SEGURANÇA PÚBLICA, INCLUINDO POLICIAIS, BOMBEIROS, CIVIS, GUARDAS MUNICIPAIS, FEDERAIS E AGENTES PENITENCIÁRIOS www.blogdarenata.com www.amigosdacaserna.com.br www.blogdocabofernando.com www.profissaobombeiro.blogspot.com www. macapa180graus.blogspot.com www. abordagempolicial.com www.blitzpolicial.blogspot.com www.fortesinvictos.wordpress.com www.poderdepolicia.blogspot.com www.policiamentomontado.blogspot.com www.grupotransparenciapcba.blogspot.com www.coronelbessa.blogspot.com www.pensandoseguranca.blogspot.com www.sobrevivenciapolicial.blogspot.com www.segurancapublica.net www.blogandoseguranca.blogspot.com www.aderivaldo23.wordpress.com www. blogdoprotogenes.com.br www.sargentoroque.com www.pm.go.gov.br/blog www.coronelantonio.com.br www.coronelqueiroz.com.br www.stive.com.br www.majoraraujo.com.br www.jusmilitar.blogspot.com www.policialdopovo.wordpress.com www.blogdocabojulio.blogspot.com www.pracinha.stive.com.br www. defesapessoaldopm.blogspot.com www.rotam19.wordpress.com www.universopolicial.com www.papodepm.com www. claudiomarinofdias.blogspot.com www. capitaoassis.blogspot.com www. soldadopi.stive.com.br www.blog.cevipol.com.br www.pmerj.org/blog www.bpfma-rj.blogspot.com www.capitaoluizalexandre.blogspot.com www.casodepolicia.com 139 www.choquedecidadania.blogspot.com www.diariobombeiromilitar.blogspot.com www.diariodeumpm.net www.falandodepolicia.blogspot.com www.grupopcerj.tumblr.com www.justicasalarialpm.blogspot.com www.militarlegal.blogspot.com www.numot5.blogspot.com www.oalvodachibata.blogspot.com www.pracasdapmerj.blogspot.com www.projeto200anos.blogspot.com www.marius-sergius.blogspot.com www.agendadacidadania.blogspot.com www.marceloitagiba.com www.wanderbymedeiros.blogspot.com www.coturnocarioca.blogspot.com www.cronicasdeumsargentodepolicia.blogspot.com www.esposadepracadapm.blogspot.com www.recruta-pm.blogspot.com www.somospracas.blogspot.com www.termocircunstanciado.com.br www.contodefardas.blogspot.com www.emirlarangeira.blogspot.com www.falodepolicia.blogspot.com www.verdadepolicial.blogsome.com www.cordeldaboladefogo.blogspot.com www. policial.blog.br/martinezpmsc www. thiagoldamaceno.wordpress.com www.verbeat.org/blogs/cultcoolfreak www.pilotopolicial.com.br www.sargentolago.stive.com.br www.sgtpmespfilipino.blogspot.com www.investigadordepolicia.blog.br www.flitparalisante.wordpress.com www.eliteparalisante.blogspot.com www.ligeirinho-ligeirinho.com www.choque-pmse.blogspot.com www.capitaomano.blogspot.com www. tatico11.blogspot.com www. honestidadedoi.blogspot.com www. blogdainseguranca.blogspot.com www.valteman.blogspot.com www.acassg-bm-bergenthal.blogspot.com www.depoimento-anonimo.blogspot.com www.missaodepaz.wordpress.com www.unpolicebrasil.blogspot.com D.2. REDES E INDEXADORES BLOGGER (www.blogspot.com) 140 INFOWESTER (www.infowester.com) INTERNEY (www.interney.net) WINNEXT (www.winnext.com.br) WHOS.AMUNG (whos.amung.us.) D.3. MÍDIAS COMERCIAIS O GLOBO (www.oglobo.com) PORTAL G1 (www.g1.com.br) PORTAL HOJE EM DIA (www.hojeemdiaonline.com.br) PORTAL O TEMPO (www.otempoonline.com.br) PORTAL UAI (www.portaluai.com.br) PORTAL UOL (www.uol.com.br) TECHNORATTI (www.technoratti.com) D.4. REDES SOCIAIS ORKUT (www.orkut.com.br) TWITTER (www.twitter.com) D.5. INSTITUCIONAIS E GOVERNAMENTAIS SEDS – (www.seds.mg.gov.br) PMMG – (www.pmmg.mg.gov.br) PCMG - (www.pcmg.mg.gov.br) CBMMG - (www.cbmmg.mg.gov.br) GOVERNO DE MINAS GERAIS – (www.agenciaminas.mg.gov.br) MINISTÉRIO DA JUSTIÇA (www.mj.gov.br) D.6. FONTES DE PESQUISA DIRECIONADA CESEC UNESCO (http://www.brasilia.unesco.org/noticias/ultimas/unesco-e-cesecestudaraoblogosfera-policial) UNESCO - (www.unesco.org.br) TJMG – (www.tjmg.mg.gov.br) WIKIPÉDIA (www.wikipedia.org) WORDPRESS (www.wordpress.com) YOUTUBE (www.youtube.com) D.7. MOVIMENTOS SOCIAIS, ASSOCIAÇÕES E SINDICATOS ASPRA - (www.aspra.org.br) SINDPOL – (www.sindpolmg.org.br) CUME – (www.cume.org.br) 141 GLOSSÁRIO Interagendamento - O conceito de interagendamento, aqui proposto, traz em si um aprofundamento do agendamento transversal midiático do blog da Renata, convergindo o agendamento de vários veículos em um único meio. Remissão - O termo remissão, proposto também por este trabalho, revela o silenciamento da resposta midiática, isto é, a interconexão com outros meios sem a conversação entre mídias. Blog (Weblog) – Página pessoal atualizada com frequência e disposta em ordem cronológica inversa (iniciando pelo post mais atual). Caracterizada pelo tom informal e pela diversidade de temas que pode abordar, pode ser escrita por uma ou mais pessoas e costuma expressar as opiniões e ideias de quem a escreve. Blogosfera – Comunidade virtual formada por quem faz, hospeda e visualiza blogs. Comentários – Ferramenta que possibilita aos visitantes deixarem comentários sobre o que o autor escreveu. Post – Nome dado a cada publicação de texto ou imagem feita pelo autor, com título, data, hora etc. Blogueiro(a) – Autor do blog. Moderador – Responsável pela seleção de comentários postados no blog e publicações do site. Blogroll – Lista de links para outros blogs ou sites, geralmente disposta na lateral do blog.