Revista Design em Foco ISSN: 1807-3778 [email protected] Universidade do Estado da Bahia Brasil dos Santos Filho, Eudaldo Francisco Comunicação Visual Forense: uma análise preliminar Revista Design em Foco, vol. II, núm. 1, janeiro-junho, 2005, pp. 41-50 Universidade do Estado da Bahia Bahia, Brasil Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=66120104 Como citar este artigo Número completo Mais artigos Home da revista no Redalyc Sistema de Informação Científica Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe , Espanha e Portugal Projeto acadêmico sem fins lucrativos desenvolvido no âmbito da iniciativa Acesso Aberto 41 Revista Design em Foco • v. II nº1 • Jan./Jun. 2005 Comunicação Visual Forense: uma análise preliminar Forensis Visual Communication: a preliminary analysis Resumo Sobre o autor: Eudaldo Francisco dos Santos Filho Designer Gráfico formado pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Perito Técnico de Polícia do Departamento de Polícia Técnica da Bahia. Professor do Curso de Bacharelado em Desnho Industrial da UNEB. Coordenador do Curso de Design de Produto da Faculdade da Cidade do Salvador (FCS). Este trabalho apresenta uma reflexão sobre a relação entre duas áreas de conhecimento até então estanques, a Criminalística e o Design, analisando as possibilidades de interfaces dos conhecimentos, no sentido de tornar efetiva, a atuação do Designer no meio da produção prática e teórica da Criminalística. Ressaltase a importância da introdução no âmbito da criminalística de conceitos da comunicação visual apoiando a prática pericial, dando forma bi ou tri dimensional às teses levantadas pelos Peritos, tanto em local de crime quanto em objetos internos de perícia. Em conseqüência de tais considerações, o trabalho levanta a hipótese de um termo tecnicamente novo, tanto no meio do Design quanto na Criminalística que é a “Comunicação Visual Forense”, que aqui é tratada em uma perspectiva preliminar, em função do aprofundamento conceitual, teórico e prático que o termo e conseqüente área de atuação ainda merecem. Abstract This work presents a reflection on the relation between two areas of the human knowledge that until now seems apart, Criminalistics and Design, analyzing the possible interfaces within both areas, aiming to offer a more productive contribution of the Designer into Criminalistics. This paper reinforces the importance of the introduction of concepts of Visual Communication in the Criminalistic area, supporting the forensic expert exams, giving two or three-dimensional form to theses constructed by Forensic Experts, in the local of crime and internal objects exams. From these considerations exposed here, the paper raises the hypothesis of a new technical term in both areas, i.e., “Forensis Visual Communication”, that is here preliminarily treated, once the concept deserves a deep approach, both in theoretical and practical aspects. Palavras-chave Criminalística, Design, Comunicação Visual Forense, Local de Crime. Keywords Criminalistic, Design, Forensis Visual Communication, Local of Crime. 1. Introdução Este artigo apresenta parte das conclusões extraídas da pesquisa que envolve as atividades e interações possíveis entre o Design e a Criminalística, que está inserido no Programa Integrado de Pesquisa “Estudos Interdisciplinares em Desenho”, parceria entre a Revista Design em Foco • v. II nº1 • Jan./Jun. 2005 42 Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e a Universidade do estado da Bahia (UNEB). Os estudos partem, também, das observações feitas na VI Conferência Internacional da Academia Européia de Design (EAD), realizada em Bremen, Alemanha, em março de 2005, quando se observou uma corrente de pensamento e pesquisa chamada Design Against Crime (em português, Design contra o Crime). Consiste na demonstração das possibilidades de se trabalhar na relação interdisciplinar entre os campos do Design e da Criminalística, como aperfeiçoamento das investigações periciais em local de crime, em especial na Bahia, onde as observações primeiras são feitas, respaldadas em meios computacionais. Acredita-se que o incentivo à apropriação dos conhecimentos e conteúdos do Design pelo perito, principalmente a Comunicação Visual, possa contribuir para a sistematização científica da perícia, no que tange a levantamento de Local de Crime e Retrato Falado, bem como as Perícias Iconográficas. O designer por meio dos recursos de formulações visuais e para a otimização de ferramentas gráficas como auxílio aos exames periciais, pode contribuir nos aspectos ilustrativos nas perícias internas e externas. O projeto, de modo geral, tem como objetivo o estudo científico de mecanismos gráficos de apoio às investigações periciais, internas e externas, a exemplo da grafoscopia, do registro de acidente de trânsito, da balística, do crime contra o patrimônio, do crime contra a vida, da datiloscopia, da engenharia legal e do retrato falado. O termo “Comunicação Visual Forense” cunhado aqui neste artigo traz uma visão e uma terminologia mais completa da relação que pode existir, se sistematizado, entre o Design e a Criminalística no sentido do apoio gráfico possível à atividade pericial, por parte de profissionais que tenham conhecimentos e formação sedimentados nessa área. As imagens, como contribuição visual, presentes neste artigo permeiam muitas áreas da criminalística, como já exposto, desde as atuações internas às externas, mais precisamente: O crime contra a vida, o retrato falado e suas variações de atuação de acordo com a demanda, o crime de trânsito, a engenharia legal; nessas áreas principalmente, demonstraremos aqui rudimentos destas atuações e exemplos, alguns ainda embrionários. Sabe-se da envergadura que pode atingir este trabalho, na construção de procedimentos e técnicas fundamentadas que construam métodos e práticas específicas em cada área particular retrocitada; tais passos serão ainda trilhados em trabalhos futuros. 2. A Criminalística A criminalística é uma área do conhecimento humano de caráter científico que estuda o crime, sua natureza e autoria. Tem como organização pública responsável pelas investigações criminais o Departamento de Polícia Técnica que, por sua vez, está sob a administração direta do Estado. É uma ciência respaldada pelas mais diversas áreas do conhecimento humano, como a arte e a ciência e, mais particularmente, de interesse desta pesquisa, do Design, por sua vez apoiados por recursos computacionais. Esta ciência tem na pessoa do perito o profissional que corporifica sua natureza e Revista Design em Foco • v. II nº1 • Jan./Jun. 2005 43 objetivo de formuladora de teses e fornecedora de laudos periciais precisos, éticos e técnica e cientificamente elaborados, a respeito dos mais diversos eventos e fatos de natureza delituosa. Esta ciência recebeu tal denominação a partir do conceito aplicado pelo Professor de Direito Penal e de Processo Penal de Universidades Alemãs, Franz Von Littsz (1851-1919), segundo o qual todas as ciências auxiliares do Direito Penal fariam parte de um conjunto chamado de Criminalística. No entanto, a ciência que nasceu à luz da criminologia, na sua gênese, reduzia-se à análise de elementos intrínsecos e extrínsecos ao corpo humano e ao objeto de delito a cargo da medicina-legal. Esta tentativa de estudo da materialidade dos fatos, a qual remonta ao século XIX, não resistiu ao avanço tecnológico generalizado que se implantou na sociedade moderna, a partir do século XX. Surgiram novos paradigmas que não se coadunaram com as antigas práticas de investigação criminal, exigindo assim a aplicação de sistemáticas de trabalho mais modernas, que pudessem atender com mais eficiência e responsabilidade ética, a natural evolução do ato criminoso. Tais mudanças provocaram avanços significativos na parceria de algumas ciências, algumas áreas técnicas e a criminalística, facilitando e dando mais credibilidade ao trabalho do perito. Dentre outras, pode-se destacar a Matemática, a Biologia, a Toxicologia, a Criminologia, a Psiquiatria Forense, a Sexologia Forense, a Medicina Legal, a Antropologia, a Estatística, a Física e a Química. Porém, a aplicação de novas condutas e as sistemáticas de trabalho que envolvam as disciplinas da área do Design, assim como a aplicação das novas tecnologias informacionais, podem conferir mais qualidade e fidelidade as informações visuais que constem nos documentos gerados pelos Peritos. Algumas práticas corriqueiras do design podem servir com muita competência algumas áreas que ainda estão a desejar na prática do Perito Criminal, como nas investigações internas (i.e. Grafoscopia, Retrato Falado, Perícia Papiloscópica) e externas (i.e. Crime Contra a Vida, Acidente de Veículo, Balística, Crime Contra o Patrimônio) ao Instituto. Cada perito atua dentro de sua área de formação, embasado pelas ciências que representam, numa postura multidisciplinar. Neste sentido, o perito, ao usar os conhecimentos e os conteúdos do Design, procede como um profissional que desenvolveu habilidades e conceitos que fomentam a análise de elementos–formais ordenados numa perspectiva projetual para reprodução, concepção de Design defendida por Vilas-Boas (2000, p.12). Tratando sólidos físicos tridimensionais e espaços, com propósito de conhecimento do seu esqueleto estrutural, coletando elementos que facilitem o seu dimensionamento, reprodução e posterior visualização de acordo com o interesse do caso. Tais posturas capacitam o perito para a pesquisa gráfica, a análise e a interpretação da narrativa gráfica e visual, como também os indícios, os vestígios e a natureza do crime, subsidiando, decisivamente, a Polícia e, por conseguinte, a organização judicial Revista Design em Foco • v. II nº1 • Jan./Jun. 2005 44 das atividades relacionadas com as instituições de segurança pública e justiça realizadas por órgãos públicos. 3. O Design e a Criminalística O Desenho, compreendido não apenas enquanto habilidade ou aptidão, mas, principalmente, enquanto área do conhecimento humano, é um sinal não verbal que, para a ciência criminalística, funciona como uma anotação gráfica de caráter científico – linguagem gráfica científica, visto que descreve ou explica o fenômeno ocorrido no Local de Crime. Permite o registro visual e a narração dos fatos. A prática profissional do Perito do setor de Desenho necessita de habilidades cognitivas e visuais na tradução e transcrição gráfica dos fatos que consolidam o delito com precisão. Os resultados da análise gráfica realizada pelo Perito com habilidades gráficas, trazem a concepção de Desenho Científico Documental, que complementa e amplia o conceito de Desenho Científico, muito usado na botânica, que, segundo Munari (1998, p.71), “é aquele por meio do qual se representa um objeto, uma planta, um animal, exatamente como é, sem cuidados com estilo, sem intenções estéticas, só para mostrar o objeto em todos os detalhes possíveis”. Tal complementação se dá na medida em que o primeiro, o Desenho Científico Documental, tem um caráter de Narração Criminal Documental, i.e., anotação gráfica científica de função social e de cidadania, que funciona como uma Ilustração Científica, comprobatória de um fato social, que se estende à concepção de anotação gráfica de função documental, ilustrativa e comunicativa da Taxonomia, por exemplo. Desenhar, para o Perito, pode ser considerado como um método científico de se conhecer e apropriar dos fatos, um instrumento de investigação, exploração e experimentação para subsidiar uma reflexão, conceituação e sua formulação de hipóteses. Conforme define Trujillo: Método é a forma de proceder ao longo de um caminho. Na ciência os métodos constituem os instrumentos básicos que ordenam de início o pensamento em sistemas, traçam de modo ordenado a forma de proceder do cientista ao longo de um percurso para alcançar um objetivo (apud Lakatos, 1992, p.39). Para a Criminalística, no desenhar enquanto método, apesar de estar baseado nos processos da visão, não cabem a fantasia, a imaginação e, sim, a observação cuidadosa, o detalhamento e a atenção voltados para a realidade dos fatos e para a elaboração de hipóteses e teses. Dentre outras vertentes do campo de conhecimento na disciplina Desenho, o Perito, nas suas investigações, volta suas habilidades para o desenho expressional no trato com o Retrato Falado, ao tentar identificar a fisionomia do autor do delito a partir de depoimentos da vítima e ou testemunhas. No caso de Acidente de Trânsito, estudos gráficos do crime e acidente que envolve veículo de tração animal e Revista Design em Foco • v. II nº1 • Jan./Jun. 2005 45 motora, o Perito lança mão do desenho projetivo e descritivo. Em relação ao Local de Crime, área onde tenha ocorrido a consumação do delito ou qualquer fato que reclame as providências da polícia, em quanto levantamento cadastral e ao buscar identificar o autor do crime através das marcas deixadas como evidências, o perito utiliza-se da planimetria e altimetria. Na investigação Datiloscópica, o estudo da identificação através da impressão dactilar, o Perito detém, mesmo que inconscientemente, a noção do desenho índice. Segundo Derdyk: o desenho como índice humano pode manifestar-se não só através das marcas gráficas depositadas no papel (ponto linha, textura, manchas), mas também através de sinais como um risco no muro, uma impressão digital, a impressão da mão numa superfície mineral, a famosa pegada do homem na lua... (1994, p.20). O desenho descritivo pode ser usado na Balística, quando do estudo da trajetória do projétil. O desenho arquitetônico na investigação do Crime contra o Patrimônio, onde tanto o imóvel quanto o modus operandi são objetos de estudo. O desenho topográfico e o desenho arquitetônico são usados na Engenharia Legal, nas investigações de incêndios e abalos estruturais em edificações. Estas áreas, com a evolução tecnológica, necessitam buscar na computação gráfica o campo para a sistematização tecnológica do Desenho e dos vestígios criminosos a serem analisados, com organização de bancos de dados e aplicação de softwares específicos para uso da perícia criminal. Dentre estas áreas citadas, o Design pode desenvolver sistemas e métodos decisivos de abordagem, tanto do local de crime quanto do objeto de perícia interno. Com a utilização da Comunicação Visual vários aspectos das áreas descritas nos parágrafos anteriores podem ser contemplados no sentido de prestar apoio aos exames periciais, dando-lhes a expressão gráfica que consubstanciará as possíveis teses e hipóteses engendradas pelo Perito. 4. O Design, a Criminalística e a Comunicação Visual Forense O Design, tanto o de Produto quanto o Gráfico, pode aqui ser considerado como a área do conhecimento que funcionará como suporte técnico e científico para a Criminalística na decomposição e análise estrutural de peças gráficas, imagens e objetos comunicacionais, artísticos e de produtos industrializados, bem como na elaboração final de teses periciais, sem denotar juízo de valor estético ou qualitativo. Para o ICSID – Conselho Internacional de Desenho Industrial, Design is a creative activity whose aim is to establish the multifaceted qualities of objects, processes, services and their systems in whole life-cycles. Therefore, design is the central factor of innovative humanisation of technologies and the crucial factor of cultural and economic exchange (ICSID, 2005). 46 Revista Design em Foco • v. II nº1 • Jan./Jun. 2005 Quanto ao Design Gráfico, Villas-Boas o define como sendo: a atividade profissional e a conseqüente área do conhecimento cujo objeto é a elaboração de projetos para reprodução por meio gráfico de peças expressamente comunicacionais, cujas peças tem como suporte o papel e como técnica de reprodução a impressão (2000, p. 10). Associados às novas tecnologias informacionais, Design e Criminalística oportunizarão uma nova abordagem de problemas relativos à comunicação entre o autor do exame pericial (Perito emissor) e a autoridade requisitante (receptor), otimizando as possibilidades de formulações de hipóteses, tendo uma poderosa ferramenta informativa: a Comunicação Visual, com suas infindáveis variáveis no que se refere ao registro, construção e pesquisa do fato em quase todas as áreas da Criminalística. O Perito modernizado deve, além do domínio do desenhar, deter conhecimento sobre os parâmetros conceituais necessários para a análise de objetos comunicacionais, artísticos, de produto e informacionais, para que o profissional tenha controle das variáveis envolvidos na análise final dos vestígios encontrados no local de delito e assim, subsidiar cientificamente e eticamente suas hipóteses. A interface de conhecimentos e práticas na atividade pericial gera uma frutífera fonte de informação e ferramenta de trabalho, que é a Comunicação Visual Forense, que pode agregar, dentro de um mesmo universo, o desenho enquanto expressão gráfica, o design e comunicação visual como base teórica e os meios computacionais como suporte técnico, pode subsidiar com competência vários campos da criminalística. 5. O Design e os Setores Perícias Internas e Externas1 5.1 Investigações Periciais Internas No estudo científico de mecanismos gráficos de apoio às investigações periciais internas, que tem como conceito, aquelas cujo objeto de perícia são examinados dentro dos Institutos de criminalística, responsável pela realização de exames periciais e elaboração de pareceres a nível interno. 1 A avaliação foi feita pelo autor a partir de um questionário aplicado em funcionários do Departamento de Polícia Técnica da Bahia. Dentre os exames pode-se citar os de Documentoscopia que, para elaborarem suas teses e pareceres finais, o Perito pode utilizar-se do conhecimento do Design, não apenas nas perícias em documentos com escrita datilográfica para a confecção de gabaritos que possibilitem a identificação das características da máquina utilizada. Especialidades como Desenho Industrial, Desenho Descritivo, Desenho Analítico e Design de Produto enriqueceriam a Coordenação de Documentoscopia com a elaboração de Desenhos Mecânicos e detalhamento estético do produto com a descrição das máquinas fornecidas para exames (calculadoras, registradoras e datilográficas). Pode contar também, com os fundamentos do design gráfico para analisar os grafismos contábeis públicos ou particulares, os documentos ou qualquer material gráfico, datilografado ou impresso, bem como selos, estampilhas, papéis de crédito, papel-moeda e moedas, além de Revista Design em Foco • v. II nº1 • Jan./Jun. 2005 47 material de jogo, escritas secretas, convencionais, criptografadas, títulos e diplomas, fornecendo assim laudos e pareceres técnicos mais consistentes reforçando sua confiabilidade. Atualmente programas gráficos de tratamento de imagem podem fornecer eficientes meios de análise de documentos questionados, ficou muito evidente, durante as pesquisas, também a utilização de pesquisas iconográficas em obras de arte quanto a atribuição de autoria e ou plágio, bem como a de constatação de fraude em rótulos de produtos a partir da análise do processo de impressão. No caso da Perícia Papiloscópica, o conhecimento do Desenho, atualmente, é usado para reproduzir os pontos característicos encontrados nas impressões digitais. A otimização deste processo se daria, atribuindo aos pontos característicos, através da ligação destes, um formato poligonal que seria posteriormente digitalizado e comparado através de softwares específicos, que cadastre e armazene os fragmentos de impressões digitais em bancos de dados. Esse processo facilitaria a organização e a manutenção do funcionamento do Arquivo Monodatilar dos criminosos reincidentes e fortaleceria a confiabilidade ao fornecer laudos e pareceres técnicos subsidiados por um banco de dados informatizado e com a criação de softwares que apresentem os desenhos de pontos característicos de uma impressão digital. Uma outra atividade beneficiada pela catalogação informatizada de padrões através de reproduções gráficas, pode ser a de Cadastramento de Amostras. Essa, por ser responsável pela coleta e análise do material que serve como vestígios, pode agilizar a identificação do tipo e da origem dos espécimes encontrados, com a sistematização e elaboração de um banco de padrões gráficos, como marcas de pneus, calçados, rótulos e impressos de segurança, dentre outros. Isso agilizaria a identificação da procedência e/ou falsidade da peça e a documentação do laudo e pareceres técnicos. 5.2 Investigações Periciais Externas No que se refere aos estudos científicos de mecanismos gráficos de apoio às investigações periciais externas, o órgão responsável pela supervisão dos trabalhos realizados pelo Perito em local onde se encontra o objeto em que se realizarão os exames, também se diversificam em natureza de exames. Nesse caso, das investigações periciais externas, os crimes contra a vida é o evento de maior representatividade na aplicação em larga escala do conhecimento da comunicação visual. O levantamento dos vestígios e instrumentos de crime, das marcas e manchas, dos dados papiloscópicos, a reconstituição do crime, a elaboração das ilustrações fotográficas e gráficas, a modelagem e montagens de perícias realizadas, necessitam de uma associação do desenho, em croquis com vistas técnicas e descritivas alimentando de dados a computação gráfica. Essa, coadjuvada com a comunicação visual, na análise e seleção das imagens computadorizadas, fornece informações mais precisas e auxilia no armazenamento virtual dos dados gráficos periciais. Revista Design em Foco • v. II nº1 • Jan./Jun. 2005 48 Nas perícias de crimes contra o patrimônio, fica claro como o desenho pode desenvolver atividades de apoio à dinâmica das ações delituosas em ambientes fechados, constatando e convertendo em gráficos explicativos a cronologia dos fatos e atos perpetrados em crimes contra o patrimônio, como também a natureza e a forma de marcas de violência física contra objetos e superfícies, inclusive, estabelecendo a dinâmica dos eventos. Nesse tipo de perícia, realizam-se levantamentos papiloscópicos, avaliação de dados e objetos vinculados ao delitos e elaboração ilustrações fotográficas, gráficas, modelagens e montagens de perícias realizadas. Com o conhecimento de Design agregado a esses procedimentos poderíamos conferir mais precisão e qualidade ao relato do modus operandi dos autores do delito contra o patrimônio. Atualmente o tipo de perícia que mais utiliza os conhecimentos do Desenho, chegando a índices próximos dos cem por cento, é a de Crimes de Trânsito, podendo ser considerada como pioneira na Criminalística Baiana, na utilização de artifícios gráficos, como parte obrigatória na elaboração dos seus laudos. O levantamento de objetos, de marcas, de vestígios, deixados pelos veículos envolvidos em acidentes e a reconstituição destes, são realizados graficamente e por fotografia. Tudo isso pode ser arquivado e organizado digitalmente, assim como a modelagem e simulações de perícias realizadas. Essa foi a primeira área da criminalística a entender a necessidade fundamental da comunicação visual na conclusão dos seus pareceres. Por último, como área de investigação pericial externa, está a perícia de engenharia legal e balística. Nesse setor, as possibilidades da pesquisa e contribuição da Comunicação Visual Forense aliadas à informática, são inúmeras. No desenho tridimensionalizado da edificação, por exemplo, por apresentar uma ampla possibilidade de ângulos diferenciados de visão e detalhamento, facilita a identificação de um ou mais focos em caso de incêndio e explosão, ou reconstituição do edifício, na dinâmica e na extensão dos danos do local de desabamento ou desmoronamento. Além do acidente de trabalho e precipitação que, por vezes, tornaria bem mais clara a tentativa de elucidação com registros gráficos que auxiliassem a argumentação. No caso da perícia e exames de projéteis e suas trajetórias, a geometria descritiva ajuda no raciocínio tridimensional da trajetória do projétil, entre outros. 6. Considerações Finais Do uso do dedo como instrumento e das paredes das cavernas como suporte nos desenhos rupestres ao uso do mouse e da tela do computador na programação visual, o homem deixa marcas que são capazes de reconstruir a sua história, seus hábitos, seu cotidiano e seus feitos. O desenho que, no século XIX, foi um auxiliar das ciências exatas e naturais, independente da evolução tecnológica, torna-se cada vez mais necessário à criminalística, no que se refere às investigações em Local de Crime. O conteúdo, o conhecimento e a prática sistemática do desenho, associados aos conhecimentos da linguagem visual e as novas tecnologias gráficas, transformam-se em instrumentos eficazes na identificação e catalogação de vestígios, 49 Revista Design em Foco • v. II nº1 • Jan./Jun. 2005 que podem inocentar ou condenar os feitos humanos. O Design e a Comunicação Visual Forense se transformam em documento e mecanismo de análise comprobatória pericial. Diante disso é que acreditamos na pertinência deste termo, área de estudo e concentração dentro da atividade pericial, que adestrados nos conhecimentos do Design poderiam auxiliar definitivamente a Criminalística no seu mister, apontar, quando possível, a materialidade do crime. A pesquisa aqui apresentada representa um levantamento diagnóstico da necessidade de inserção da habilidade e dos conhecimentos do Design, pelo Perito, nas investigações periciais. Acredita-se que tais áreas de conhecimento agindo interdisciplinarmente, contribuem na coleta e armazenamento de dados periciais, na construção de uma metodologia científica e uma dinâmica para o trabalho do Perito, além de servirem para subsidiar pareceres e técnicas no exercício desta atividade. Atualmente, estas áreas de conhecimento estão sendo usadas empiricamente, tanto nas perícias internas quanto nas perícias externas. Figura 1 - Esqueleto de vítima de crime com posicionamento de entrada e saída de projétil. Figura 2 - Perceptiva aerotrifugada de local de crime com supressão de paredes e cobertura. Figura 4 - Utilização dos conhecimentos dos elementos visuais para questão de autoria e plágio de obra de arte. Figura 3 - Crime de trânsito paramétrico e registro de dinâmica. Figura 5 - Reconstituição de local de crime. Revista Design em Foco • v. II nº1 • Jan./Jun. 2005 50 7. Referências CAVALCANTE, Ascendino. Criminalística básica. Porto Alegre: Clube dos Editores, 1995. DERDYK, Edith. Formas de pensar o desenho: desenvolvimento do grafismo infantil. São Paulo: Scipione, 1994. Coleção Fundamentos para o magistério, série Pensamento e Ação no Magistério. DOREA, Luis Eduardo. As manchas de sangue como indício em local de crime. Salvador: Franco Produções, 1989. DOREA, Luis Eduardo. Local de crime. Porto Alegre: Sagra-dc Luzzatto,1995 GOMES, Luiz Vidal de Negreiros. Criatividade: desenho/design/ produto. Santa Maria: sCHDs, 2001 ICSID – International Council of Societies of Industrial Design. The concept of design. 2005. Disponível na internet: < http:// www.designaroundtheworld.com/about/Definition_of_Design>. Acesso em 15/01/2005. LAKATOS, Eva Maria e MARCONI, Mariana de Andrade. Metodologia científica. 2ed. São Paulo: Atlas, 1992. MASSIRONI, Manfredo. 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