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Pierre Ducassè — História das Técnicas
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PIERRE DUCASSÈ — HISTÓRIA DAS TÉCNICAS
TERCEIRA PARTE: A IDADE MÉDIA E AS TÉCNICAS
Pierre Ducassè — História das Técnicas (Trad. Jorge Borges de Macedo).
Mem-Martins, Europa-América, s.d., (3ª ed.), 160 pp.
Título original: Histoire des Techniques. Paris, PUF, s.d. (Col.
“Que-sais-je?”)
Índice das matérias da parte 3/5:
TERCEIRA PARTE
A IDADE MÉDIA E AS TÉCNICAS
CAPÍTULO I — A decadência das técnicas
•
O fim do mundo romano
•
A reconquista medieval
•
O papel da Igreja
•
A colonização agrícola
CAPÍTULO II — A conquista das forças motoras: os transportes
•
A atrelagem antiga
•
A atreIagem moderna
•
Evolução técnica e transformações sociais
•
O renascimento do comércio
•
O artesanato e as corporações
CAPÍTULO III — A conquista das forças motoras: os moinhos
•
O moinho de água
•
O moinho de vento
•
As minas e a metalurgia
•
A Idade de ouro da cristandade
CAPÍTULO IV — Preparação dos tempos modernos
•
O capitalismo e o maquinismo
Índice geral
3. A Idade Média e as Técnicas
Índice
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Pierre Ducassè — História das Técnicas
•
•
•
•
•
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•
•
•
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A bússola
O leme vertical
As técnicas do mar
Os transportes terrestres
A hidráulica e a mecânica
A metalurgia e os seus derivados
O relógio
A tipografia
Invenções e aquisições medievais
CAPÍTULO V — Valor técnico da Idade Média
Nota: para consultar as restantes partes da obra, consulta o
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***
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3. A Idade Média e as Técnicas
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TERCEIRA PARTE — A IDADE MÉDIA E AS TÉCNICAS
CAPÍTULO I — A DECADÊNCIA DAS TÉCNICAS
O fim do mundo romano. — Desde o fim do século IV até ao fim do século VI d. C. imensas
migrações de povos destruíram a homogeneidade do Império Romano. Estas sucessivas
infiltrações, por vezes violentas, acabaram por desconjuntar o quadro administrativo e militar
do velho mundo. Com ele, desapareceram as possibilidades de circulação e de troca e todas
as condições materiais e morais de progresso técnico, ou mesmo de trabalho regular.
As desordens, cada vez mais frequentes, o conflito entre as cidades e os campos, a
destruição e pilhagem dos centros urbanos, a deterioração das estradas, das pontes e dos
aquedutos, a insegurança dos transportes, acompanharam o progressivo enfraquecimento da
organização romana. A decomposição política, a desorganização administrativa1) e a lentidão
das trocas2) provocaram o grande abaixamento da quantidade e qualidade de bens produzidos:
uma indizível miséria se estendeu pelas terras do Ocidente3) e a fome tornou-se endémica.
Durante vários séculos, os povos que Roma tinha civilidade desceram muito abaixo da
cultura e da capacidade da Antiguidade, mesmo pré-helénica. Desceram a um nível comparável
ao dos últimos tempos da Pré-História.
A reconquista medieval. — O desastre foi tal, os sofrimentos tão longos e tão duros, que
obrigaram o homem a retomar o esforço técnico a partir de origens mais humildes e a elevá-lo
a um nível superior. Tal foi a gigantesca obra da Idade Média, que terminou pelo decisivo triunfo
do progresso industrial. Este resultado foi, em grande parte, obra contínua dos mais obscuros
e infelizes dos homens: os homens da gleba e dos trabalhos servis. Foi suscitada, encorajada,
por vezes, pelos chefes políticos, mas, sobretudo e de uma forma mais coerente, pela Igreja,
a única potência que conservou no meio do naufrágio uma armadura administrativa, uma
tradição intelectual e, com o dogma religioso, uma imagem eficaz da elevada civilização antiga.
1
Em particular, a paragem dos serviços postais.
2
Estes fenómenos foram acompanhados, no Ocidente, pelo encerramento dos domínios sobre si próprios. uma
espécie de economia agrícola «fechada», um retorno à troca.
3
O Império Romano do Oriente, protegido pela sua situação geográfica, manteve ainda, durante quinhentos a
seiscentos anos, a superioridade da sua estrutura administrativa e militar. Conservou, e em alguns pontos
aperfeiçoou, as técnicas da Antiguidade, particularmente em matéria de tecelagem e de trabalhos artísticos. Mas
não produziu inovações e foi definitivamente ultrapassado pelo engenho técnico do novo mundo ocidental quando
este encontrou as suas bases sociais e políticas.
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3. A Idade Média e as Técnicas
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O papel da Igreja. — O ideal místico dos chefes da Igreja estava de acordo com o seu
sentido prático. Administradores de grandes domínios, para os quais desejavam um rendimento
menos incerto, testemunhas esclarecidas da degradação política e social e da miséria universal,
atribuíram a si próprios a missão de «fazer abominar o gládio» e de fazer encontrar de novo o
sentido da terra às populações ignorantes ou rebeldes ao trabalho. Desbravamento,
colonização agrícola, valorização do solo e melhoramento das culturas por toda a parte foram
estimulados pela Igreja, sobretudo pelas ordens monásticas, cuja glória mais duradoura provém
ainda, nos nossos campos, do serviço que então prestaram à civilização4) . Foi preciso, com
efeito, retomar quase no seu início a obra técnica da adaptação da terra às leis da produção
agrícola.
A colonização agrícola. — A floresta espessa alternava com a charneca e com territórios
desertos, que haviam voltado, em virtude de séculos de abandono, à selvajaria primitiva. Não
é, portanto, de admirar a lendária popularidade destes monges desbravadores estabelecidos
nas florestas e nas terras desertas. Tais eram os Beneditinos, que, em virtude da sua regra,
usavam um podão à cintura, insígnia da sua ocupação principal, tal como S. Columbano, que
só se deslocava com uma escolta de lenhadores. Mas a batalha da terra exigia sobretudo que
se achassem e se ensinassem de novo as técnicas elementares5) . São ainda monges como S.
Mauro e os Beneditinos que começam a vulgarizar a relha do arado com aiveca e a grade.
Desde o século VI ao século X, em pequena escala, depois sobretudo do século IX ao século
XIII, a obra de colonização agrícola e de aproveitamento da terra foi metodicamente realizada
pelas ordens monásticas. Logo após, sob a direcção de bispos, reis e grandes proprietários, os
«pioneiros» arrasam as florestas a machado, desbravam a charneca e queimam os troncos, os
espinheiros e os silvados para fertilizar a terra e tentam secar os pântanos e regular o curso dos
rios.
Contudo, estes esforços só conseguem um fraco rendimento, pois a técnica continua a ser
primitiva, se bem que se comece a divulgar o afolhamento trienal6) se torne conhecido o uso
da marga. Mas, como o estrume é pouco abundante, a cultura esgota o solo. A utensilagem
ainda consiste apenas, em geral, na charrua primitiva, quando não é simplesmente na grade
ou na enxada. Sem capitais, adubos, transportes, a exploração do solo não pode progredir. A
4
Estes esforços tornaram-se progressivamente possíveis e frutuosos pela população crescente, a reurbanização
e o papel da moeda.
5
Os monges desta época preferiam grandemente a um abade orador um bom arador, quer dizer, um bom condutor
de charrua. Um abade desse género foi Teodulfo, arquitecto, mercador, magistrado, mas acima de tudo perito de
terras e de agricultura, quer dizer, condutor de charrua. Depois de sua morte o povo quis que na igreja se
pendurasse, em sinal de veneração, a charrua que toda a sua vida tão bem soubera conduzir à frente da todos os
lavradores.
6
Reservando a terra ao pousio um ano em três, em vez de um ano em dois.
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limitação proprietária de todas as terras leva a multiplicar por toda a parte as diversas culturas,
com um sucesso muito desigual.
Dificuldades semelhantes limitaram o progresso dos ofícios, que a Igreja também favorecia
reorganizando as suas oficinas e estimulando nas suas explorações a perícia dos trabalhadores
de todas as especialidades. Para que atingissem o seu pleno desenvolvimento, faltava a estes
esforços a organização da vida urbana, assim como faltava às técnicas da terra um intercâmbio
de produtos suficientemente vasto.
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CAPÍTULO II — A CONQUISTA DAS FORÇAS MOTORAS: OS TRANSPORTES
A partir dos séculos x e XI surgiram uma e outra destas condições, e o seu efeito juntou-se
ao efeito de uma outra descoberta técnica fundamental, ligada a todo o ulterior desenvolvimento
dos transportes: o aperfeiçoamento da atrelagem.
A atrelagem antiga. — Entre os Antigos, a atrelagem dos cavalos fazia-se principalmente
por meio de uma tira de couro macio, que apertava o pescoço no lugar em que a traqueia passa
sob a pele, não tendo essa correia qualquer contacto com as espáduas (v. fig. 14). Quando a
atrelagem funcionava, a cinta carregava na garganta e prejudicava a respiração do cavalo,
sobretudo se este baixava a cabeça, pois, quando assim sucedia, os músculos do pescoço não
protegiam a traqueia. É por isso que o animal levantava o pescoço, atitude que é fielmente
reproduzida pelos documentos antigos. Nos andamentos lentos ou para um esforço limitado do
animal, este género de atrelagem não tinha inconvenientes. Mas tornava-se extremamente
defeituoso quando era preciso obter do cavalo um esforço considerável, pois para isso tinha de
baixar o pescoço e levar o peso para a frente, em vez de o lançar para trás.
A atreIagem moderna. — Foi por volta do século X d. C., quer dizer, no fim da primeira fase
da Idade Média, muito antes do período mais brilhante da cristandade, que um boieiro, arrieiro
ou um ‘simples condutor de animais de tracção realizou a invenção capital que havia de permitir
modificar a força da tracção animal e facilitar os transportes. Foi a invenção da coelheira,
armação rígida que se apoia na base óssea das omoplatas e aproveita assim toda a força do
animal (v. fig. 15).
Com a coelheira moderna, o cavalo tem a garganta completamente livre e pode com toda a
liberdade tomar a posição mais favorável ao seu esforço. Pode baixar o pescoço, dobrar a
espinha, curvar-se para a frente, fazer peso sobre a coelheira e agir pela queda periódica do
seu centro de gravidade. Esta invenção técnica, de extraordinária importância, foi, aliás,
acompanhada por uma série de aperfeiçoamentos ou de inovações que melhoraram e
aumentaram os seus efeitos. Um desses aperfeiçoamentos diz respeito ao próprio cavalo: a
ferradura de cravas, inventada, ou, talvez, reinventada, mas, em qualquer caso,
sistematicamente desenvolvida na Idade Média. Capaz de facilitar ao animal o agarrar-se aos
mais variados solos, este dispositivo evitava o esfolamento ou o ferimento dos cascos, tão
frequentes nos cavalos antigos. Os outros aperfeiçoamentos dizem respeito à atrelagem de
vários cavalos em fila e à construção de estradas.
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A atrelagem em fila, que parece ter sido desconhecida na Antiguidade, foi inventada, ou em
qualquer caso sistematicamente aplicada, na Idade Média7) . É o único tipo de atrelagem que
permite explorar racionalmente a força de tracção no que se refere às estradas que a
Antiguidade tinha concebido rígidas e lajeadas8) e a partir da Idade Média, em que são
construídas flexíveis e pavimentadas.
A escolha de materiais novos e os processos de construção estavam perfeitamente de acordo
com as condições geográficas em que se desenvolvia a actividade medieval. O génio da
adaptação técnica que a civilização ocidental começava então a desenvolver mostrou-se desde
então extremamente eficaz para o desenvolvimento e extensão dos transportes terrestres.
Estes, sob o ponto de vista do número de veículos, da sua velocidade e tonelagem, depressa
deixaram de se poder comparar com as técnicas análogas da Antiguidade.
Evolução técnica e transformações sociais. — A evolução técnica, cujo efeito se devia
ampliar com o tempo, progredia no mesmo sentido que todas as causas económicas, religiosas
e sociais que iam transformar em homens livres a maioria dos trabalhadores. O progresso
técnico, sem ser a causa propriamente dita desta evolução, será, nesta época, um dos grandes
aliados das classes inferiores no seu esforço de emancipação. Este esforço, de resto, teria sido
menos feliz, ou mesmo ineficaz, sem a centralização urbana, por um lado, e, por outro lado, sem
a extensão das trocas. Estes dois grandes progressos, favorecidos pela nova técnica dos
transportes, caracterizam o movimento de renascimento comercial que inicia a grande época
medieval.
O renascimento do comércio. — O comércio, desde o século VIII, tinha sido comprometido
pelas invasões dos Normandos, dos Húngaros e, sobretudo, dos Sarracenos. Mas a partir do
século XI a reacção eficaz do Ocidente permitiu que os germes do renascimento industrial e
comercial tomassem um decisivo desenvolvimento9) .
7
A atrelagem moderna é conhecida na China do século II e. C. Parece ter-se transmitido pela Ásia no século VII.
A sua expansão na Europa data apenas, na realidade, dos séculos X e Xl. (Cf, Haudricourt.)
8
V. p. 52 deste volume.
9
A vontade de defender e cristandade e de espalhar a fé cristã entre os Pagãos e os Muçulmanos desenvolve a
expansão económica para o oriente e para o norte, As .Cruzadas são acompanhadas de uma formidável
efervescência humana, de um recrudescimento de desejos: favorecem a criação de novas correntes entre o
Oriente e o Ocidente e a utilização do Mediterrâneo, de novo aberto às ligações entre o novo mundo medieval e
a velha civilização bizantina. Associada ao progresso da produção industrial e agrícola, a vida comercial
expande-se de forma absolutamente nova e aperfeiçoa-se com as técnicas das trocas, proporcionadas às suas
novas necessidades: as grandes feiras, o início do comércio internacional, as grandes associações mercantis (ou
guildas), que, sob o nome de «hansas», ficaram célebres. A extensão da cunhagem e da circulação da moeda, a
nova organização do crédito, desenvolvem e economia monetária à custa das trocas e da permuta de produtos.
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Esta revolução do comércio provoca, pela abertura de novos mercados, pelo nascimento de
novas necessidades, toda a produção industrial e agrícola. O poder dos capitais móveis, que
se afirma a partir desta época, consuma o fim da economia fechada e a passagem à economia
urbana, prelúdio decisivo da economia nacional.
O artesanato e as corporações. — Com efeito, é o agrupamento urbano que dá relevo e
valor a todo o desenvolvimento da técnica no grande período medieval: à volta da casa da
cidade, onde se juntam as corporações10) , comprimem-se as oficinas dos artesãos e os balcões
de comércio. O artesanato das cidades, cuja sorte andou estreitamente ligada à conquista e à
defesa das liberdades comunais, foi o depositário por excelência da técnica medieval e a sua
expressão mais viva. A sua superioridade revela-se tanto no trabalho manual, como no trabalho
mecânico propriamente dito. Nas indústrias téxteis e nas indústrias de arte manifesta-se a
habilidade dos operários, submetidos a uma minuciosa formação e preocupados em conseguir
uma obra perfeita. O Ocidente, em tudo que se refere à tecelagem, mobiliário e decoração,
começa a poder concorrer com a técnica oriental, e depressa a ultrapassa11) .
Mas a grande conquista é a das forças motoras. O trabalho da Idade Média antecipa-se, com
efeito, à indústria moderna, pelo uso das energias naturais, pela utilização sistemática do vento
e da hulha branca.
10
As corporações, em que se reuniam os membros dos diferentes corpos de ofícios para defesa dos seus
interesses comuns, tinham sido primeiro, e talvez antes de tudo, agrupamentos religiosos, Também aqui o ideal
religioso e a obra da Igreja preparavam as vias do progresso técnico, As corporações, que desempenharam um
papel oportuno na origem, acabaram por entravar o progresso técnico. Retardaram-no primeiramente pela fixidez
dos seus estatutos, mas essa acção foi muito mais breve em geral que a que resultava das consequências sociais
dos estatutos. As forças económicas impuseram modificações.
11
O enriquecimento dos trabalhadores e dos camponeses, divulgando o uso da roupa interior, terá, entre outras
consequências, a vantagem de facilitar o fabrico do papel e a extensão da impressão.
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CAPÍTULO III — A CONQUISTA DAS FORÇAS MOTORAS: OS MOINHOS
O moinho de água. — Para dizer a verdade, não se trata de uma invenção propriamente
dita, surgida com todas as suas peças no meio do artesanato medieval. Muito pelo contrário,
é a herança de uma longa série de esforços. A pré-história tinha conhecido, depois do
esmagamento dos grão sobre a pedra, o uso do almofariz com o pilão, ou o rolo de pedra, num
movimento de vaivém sobre uma base alongada. Dois ou três séculos antes da Era Cristã
apareceu a mó giratória, movida pelo homem, pelo cavalo ou pelo burro. A ideia de associar a
acção de uma roda movida por urna corrente de água12) à rotação uniforme da mó nasceu
pouco depois e sabemos que no (último século antes da Era Cristã já funcionavam moinhos de
água no Oriente Mediterrânico.
Inventado pelos Antigos, o moinho de água tornou-se uma verdadeira «instituição» técnica
nova, em virtude da expansão que lhe foi dada pela Idade Média. Esta expansão não foi
desejada pelos Antigos enquanto dispuseram à vontade de forças humanas para as mós.
Começou a ser utilizada por volta do fim do Império Romano, em virtude do despovoamento e
da diminuição da mão-de-obra servil.
O moinho de vento. — Na Idade Média, os senhores laicos, à imitação das grandes
colectividades monásticas, sentiram a utilidade do mecanismo colectivo, cujo uso depressa
quiseram impor, obtendo uni monopólio em seu benefício13) .
Através da influência de todos esses senhores e a bem ou a mal, a moagem mecânica por
meio do moinho de água, a que se pôde juntar, a partir do século XII, o moinho de vento14) ,
venceu os moinhos primitivos.
12
(V. pp. 47 e segs. e fig. 16.)
13
Resultou daí uma guerra surda entre os pequenos produtores e os detentores do monopólio: os fidalgos e os
abades. Às escondidas, se mós continuavam a moer o trigo proibido, e isto, em alguns países da Europa, até ao
século XIX. E não há dúvida de que esta forma de concorrência desumana entre duas técnicas tão desiguais ainda
se não extinguiu.
14
O uso do moinho de vento punha um problema mecânico muito original. A necessidade de apresentar sempre
as asas ao vento obrigava, com efeito, a tornar toda a estrutura do aparelho (ou pelo menos uma parte importante
desta) móvel sobre um eixo de forma a poder facilmente orientá-la por rotação. Os mais antigos e os mais
pequenos moinhos giravam à volta de um eixo central, ficado ao solo, de forma mais ou menos permanente. De
uma maneira geral, o moinho de vento constituía um mais complexo mecanismo que o moinho hidráulico de
potência equivalente, Deste modo, o seu desenvolvimento foi mais tardio.
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As minas e a metalurgia. — Ao mesmo tempo que se desenvolvem os moinhos e se
generaliza a utilização da energia animal e da energia hidráulica, aperfeiçoa-se a metalurgia,
assim como o trabalho das minas. Se bem que a hulha comece a ser conhecida e utilizada, na
base do tratamento dos minerais15) está ainda o combustível vegetal, como o carvão de
madeira, Os fornos são ainda fracos e o trabalho faz-se, em grande parte, à mão, mas as
pequenas forjas multiplicam-se por toda a parte onde se encontra a madeira, o minério e as
quedas de água. Algumas regiões adquirem uma grande reputação pelo bem acabado dos seus
trabalhos de latão, cobre e ferro forjado. Toda a variedade de ofícios artísticos — os esmaltes
e a vidraria —, associados à arquitectura, pintura religiosa e iluminura, caracterizam a mestria
do artesão medieval, cujo valo; ultrapassando o plano da pura técnica, adquire grande poder
de evocação espiritual e de elevação religiosa.
A Idade de ouro da cristandade. — O mais brilhante período da Idade Média, que começa
com o século XII, constitui um verdadeiro renascimento espiritual e material. A vida artística e
religiosa antecipa-se, sob muitos pontos de vista, ao progresso técnico. Este não atingiu ainda
o seu apogeu. Contudo, a sua acção geral faz-se já sentir sobre toda a civilização
contemporânea e sobre a própria base desta civilização: a produção agrícola16) .
A charrua com relha de ferro é puxada por atrelagens possantes: a luta pelo solo começa a
dar rendimento. Cultivam-se os legumes do Oriente e os frutos da região mediterrânica.
Aclimatam-se plantas téxteis. Este imenso esforço enriquece todo o solo da Europa. A Itália, a
Alemanha, a Espanha, a Inglaterra e a Holanda transformam-se em regiões férteis. A França
tornou-se o «mais belo reino do mundo, depois do Reino do Céu» na frase de Froissart, que a
escreveu antes da segunda metade do século XIV, isto é, antes das devastações da peste
negra. A França devia ter então 20 a 22 milhões de habitantes (38 a 41 por quilómetro
quadrado), quase o mesmo número que há-de atingir em meados do século XVIII.
15
O mineral, sob a forma de óxido reduzido pelo carvão de madeira em fornos de fraca capacidade, dá
directamente ferro e aço, processo ainda muito imperfeito, perdendo-se ferro no estado de escórias.
16
Entre os séculos Xl e XII, sob a influência do progresso económico e industrial nascido da civilização urbana as
necessidades do consumo tinham aumentado. O esforço de colonização da terra, que havia marcado o primeiro
ressurgimento ocidental, foi também retomado e completado. (Sobre o eficácia limitada e sobre a extensão relativa
da primeira obra de colonização da terra, v. p 60.) A Igreja e os melhores senhores feudais, preocupados em
manter os seus rendimentos, continuaram a encorajar o esforço das multidões camponesas, que transformaram
em lameiros, em campos de feno e em culturas as ferras cobertas de grandes florestas, O Artois, a Picardia, o
Ponthieu, a Ilha-de-França, a Normandia, a Champanha, o Morvan, a Alta Borgonha, a região do Mosa ex dos
Vosgos, a Bretanha, o Poitou, o Loire, a Aquitânia, o Sueste, todos os campos franceses, em três séculos tomaram
a sua fisionomia actual. As técnicas de defesa contra as águas, de drenagem, de irrigação, foram sistematicamente
aplicadas à conquista dos litorais, dos veles fluviais, dos pântanos, à drenagem das landes e florestas, à
regularização do curso dos rios. Fizeram-se esforços para encontrar os processos da antiga agronomia romana
e aperfeiçoou-se a adubação e a correcção do podar alimentar das terras. Em Espanha, os Árabes reorganizaram
e completaram a admirável rede de irrigação estabelecida pelos Romanos.
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CAPÍTULO IV — PREPARAÇÃO DOS TEMPOS MODERNOS
O capitalismo e o maquinismo. — As crises políticas e religiosas, as invasões, as
epidemias, fizeram nesta população europeia pavorosas devastações na última parte do século
XIV e no decurso do século XV. Mas, por uma notável coincidência, o despovoamento, fazendo
rarear a mão-de-obra, parece ter acelerado o desenvolvimento do maquinismo, prodigiosa
ampliação de um fenómeno que era já sensível na decadência do Império Romano. O fim da
Idade Média, que prepara a Europa moderna pela extensão do maquinismo, é também
testemunha das primeiras intervenções do capitalismo no esforço para a produção industrial.
Esta evolução é acompanhada por grandes progressos técnicos, especialmente no que se
refere aos transportes marítimos17) .
A bússola. — No domínio da navegação de longo curso, as expedições transoceânicas dos
Vikings, nos fins da Idade Média, tinham constituído uma extraordinária antecipação18) . As suas
explorações só foram renovadas após a descoberta de novos processos técnicos, dos quais os
mais célebres são o leme vertical e a bússola. A bússola, transmitida pela China ou reinventada
pelo Ocidente por volta do século XII, foi primeiramente uma agulha magnetizada, metida numa
palhinha e flutuando na água de uma vasilha. Só muito mais tarde é que se imaginou montá-la
sobre um eixo, ligando-a a uma rosa-dos-ventos.
O leme vertical. — O leme no cadaste19) , quer dizer, uma peça de madeira plana, girando
sobre gonzos, associada a uma barra que serve para a orientar, começa no século xii a
substituir o leme de flanco ou de cauda, quer dizer, o remo-pangaio, que era o que então servia
para manobrar o barco. Se bem que o leme axial (leme vertical fixado por charneira de ferro
sobre o cadaste dos barcos) pareça estar directamente ligado ao desenvolvimento da
navegação moderna, a sua verdadeira eficácia e mesmo a sua utilidade para a navegação à
17
Os instrumentos de navegação astrolábio, balestilha, quadrante — foram utilizados a partir desta época, ou, pelo
menos, o seu uso generalizou-se.
18
Construtores de barcos de sólidos cascos, se bem que incompleta-mente cobertos (os drakkars, que navegavam
à vela e a remo), estes extraordinários navegadores tinham realizado, por volte do uno 000, quer dizer, cinco
séculos entes de Colombo, a travessia do Atlântico, provendo assim que a sua técnica de navegação e a sua
técnica de construção naval estavam verdadeiramente à altura da sua audácia. (Cf. Histoire de Ia navigation, por
A. Thomazi, pp. 30 e segs.).
19
Cadaste: a parte saliente da popa.
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3. A Idade Média e as Técnicas
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vela da época em que se tinha imposto continua ainda sem explicação técnica satisfatória, o
que constitui um irritante mistério para o historiador.
As técnicas do mar. — O desenvolvimento dos processos científicos de navegação é mais
compreensível. O progresso da cartografia20) e a arte de determinar a posição do navio no mar
ampliaram-se, com surpreendente rapidez, desde que os Portugueses, a partir do século XV,
iniciaram a época dos Descobrimentos. Mas estas conquistas tinham sido precedidas por uma
imensa ampliação da prática de navegar. Foi em resultado do extraordinário impulso dado às
viagens por mar (mesmo entre os povos pequenos) pelos Cruzados e pelas peregrinações à
Terra Santa que as técnicas do mar entraram de novo e verdadeiramente nos costumes do
Ocidente.
Os transportes terrestres. — Da mesma forma, os transportes terrestres fizeram, a partir
do século XII, progressos sensíveis, limitados pela falta de condições das pontes e estradas.
No século XIV, os comboios de mercadorias, para irem de Paris a Nápoles, pela garganta do
monte Cenis, não demoravam mais de trinta e cinco dias.
A hidráulica e a mecânica. — Na mesma época escava-se e delimita-se o leito dos rios.
Inventam-se, na Lombardia, as primeiras caldeiras de cisternas e abre-se, entre o Báltico e o
Elba, o primeiro canal de navegação marítima. De uma maneira geral, desenvolve-se o
aproveitamento das forças hidráulicas, que se liga Intimamente com a multiplicação e
diversidade dos mecanismos postos em movimento21) .
20
As primeiras cartas marítimas foram grosseiros esquemas de uma parte do litoral. Alguns selvagens, habitantes
das ilhas Marshall (Hocart, p. 331), faziam cartas com pedaços de paus dispostos em forma de grade. As nervuras
das folhas de coqueiros dispostas em curva e transversalmente indicavam as correntes e as ilhas eram
representadas por seixos. No século Xl utilizavam-se às vezes mapas-múndi de grandes dimensões para
determinar as posições e resolver os problemas da navegação. Mas seriam precisos mapas-múndi enormes para
que fossem verdadeiramente úteis. Durante muito tempo as cartas marítimas consideravam plana a superfície e
que se referiam. O erro podia ser desprezado enquanto e superfície não fosse muito extensa. O progresso consistia
em obter uma projecção plana, suficientemente exacta e utilizável. Os geógrafos árabes e, no século XV, os
Portugueses, chegaram a esse resultado por processos empíricos e obtiveram assim os portulanos. Mas no século
XIV queria-se que na carta geográfica e rota e seguir pudesse estar representada por uma linha recta que fizesse
com o meridiano do lugar o mesmo ângulo que o eixo do navio fez com a direcção do norte e ainda que se
pudessem medir distâncias na carta. Este difícil problema só foi resolvido em meados do século XVI com a
invenção do geógrafo flamengo Kremer, chamado Mercator, cujo sistema de projecção conserva os ângulos e as
distâncias.
21
Desde a segunda metade do século XII que a energia dos cursos de água era aplicada e todas as operações que
consistiam em calcar, esmagar, comprimir. Esta adaptação do movimento circular ao levantamento de um malho
(que o peso fazia em seguida cair) representou um papel muito importante numa série de ofícios (pisoamento de
(segue...)
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A metalurgia e os seus derivados. — Um impulso semelhante se observa no progresso da
metalurgia22) , donde resultou um prodigioso desenvolvimento das indústrias daí derivadas,
como sejam a fundição, o fabrico de armas e a serralharia. Em todas há a assinalar qualquer
aperfeiçoamento técnico importante. As invenções mais célebres dizem respeito à relojoaria e
a tipografia.
O relógio. — Na história dos instrumentos da medição do tempo, iniciada pela sombra do
gnómon, seguida por todas as variedades do quadrante solar, o relógio de pesos representa
um grande progresso mecânico preparado e mesmo sugerido durante muito tempo pelo relógio
hidráulico dos Antigos. Substituindo a corrente de água e o regulador correspondente pela força
do peso, controlada por um engenhoso sistema de regulamentação do movimento (anteriores
à aplicação do pêndulo, que data do século XVII), o relógio de pesos do século XIV23) prepara
o uso dos aparelhos baseados na progressiva suspensão de uma mola, quer dizer, de relógios
cujo aperfeiçoamento nos séculos XVII e XVIII virá finalmente permitir aos navegadores resolver
o problema das longitudes24) . O relógio de pesos e seus derivados, elevando-se pouco a pouco
ao plano de instrumentos de ciência, fizeram apelo a delicadas combinações que supõem uma
grande habilidade técnica e representam um campo de invenção característico do Ocidente.
21
(...segue)
tecidos, preparação de atanados e de madeiras para obras, fabrico de papel, etc.). Os moinhos hidráulicos
concebidos pare estes usos serão e origem de uma grande família de máquinas industriais (v. na fig. 25 o esquema
de um mecanismo semelhante aplicado a pilões movidos e vapor; sobre estes pontos deve consultar-se Usher).
A aplicação do motor hidráulico ao trabalho de serração só veio a desenvolver-se com nitidez por volte do fim do
século XIV, e da mesma forma no que diz respeito a mós para polimento e afiação dos instrumentos. De uma
maneira geral, o emprego da força hidráulica, assim como de força do vento e da força animal, antes de 1400, era
ainda limitado e parte em acção aparelhagem assaz rudimentar. Mas a ideia da produção artificial e da transmissão
do movimento impunha-se aos técnicos.
22
A descoberta de fundição (elemento essencial do processo indirecto na metalurgia do ferro) está ligada aos
aperfeiçoamentos do forno. A força hidráulica foi aplicada aos foles de forja e partir dou principiou do século XIII.
Assim se obteve uma temperatura mais elevada e regular. A carburação mais activa deu a fundição, correndo na
base do forno o ferro fundido susceptível de fornecer peças moldadas. O Forno, que, a partir de então, se pôde
ampliar, transformou-se no forno de fole (3 m de altura) e em seguida, nos fins do século XIII, no alto-forno (5 m
de altura).
23
A história moderna do relógio mecânico ilustra-se com a instalação (entre 1364 e 1370) do relógio de De Vick,
por Carlos V, na torre do actual Palácio de Justiça de Paris. Esta inovação marca o fim das tentativas empíricas.
Coincide, por um lado, com o início dos métodos modernos de apreciação do tempo (horas iguais) e, por outro
lado, com o inicio do progressivo refinamento das concepções mecânicas e dos processos da construção de
engrenagens. É preciso notar, aliás, que, para a maior parte das classes sociais, o interesse da precisão na medida
dos intervalos de tempo evoluiu muito mais lentamente que o refinamento técnico dos instrumentos de medida
(Usher).
24
Cf. pp. 96 e segs.
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3. A Idade Média e as Técnicas
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Pierre Ducassè — História das Técnicas
14/19
A tipografia. — A tipografia, pelo contrário, cuja influência sobre a civilização foi pouco
menos que incalculável, é o resultado de lentas e remotas transmissões técnicas.
No que diz respeito ao uso dos caracteres de impressão, assim como no que diz respeito à
fabricação de papel, os Chineses estão mil anos adiantados sobre a civilização do Ocidente25)
. Foram eles que pensaram em servir-se da tinta e de gravuras de madeira para reproduzir a
escrita. A contribuição técnica do Ocidente, que desenvolveu também a gravura em madeira,
consistiu sobretudo na obtenção de caracteres metálicos móveis, bastante nítidos, susceptíveis
de resistir à pressão e ao desgaste e de serem obtidos em número suficiente de maneira a
permitir um resultado industrial26) .
Invenções e aquisições medievais. — A laca, a seda, o binóculo, a pólvora para canhão,
são técnicas transmitidas pela China aos Ocidentais. O Ocidente não fez mais que aperfeiçoar
o emprego desta última descoberta27) . Neste caso, trata-se apenas de transmissão ou
adaptação, tal como no que diz respeito à difusão dos números árabes, que facilitaram todos
os cálculos e, em particular, a montagem dos livros de contas. Pelo contrário, a Idade Média é
o autêntico inventor de uma multidão de mecanismos e processos úteis, tais como a roda
dentada (descoberta em 1298), as lunetas e os óculos, no século XII.
Datam também da Idade Média (século XI) o melhoramento e a grande utilização do modo
de iluminação pela vela de sebo ou círio de cera (quer dizer, a iluminação sem fumo). Vem da
Idade Média (por volta do século XII) a utilização da chaminé doméstica, que se torna o local
central da casa. Da Idade Média é a renovação da, utilização do vidro transparente, depois da
invenção do vitral (século XII?). Quaisquer que sejam a natureza e a origem destas
transformações técnicas, são um singular testemunho em favor do génio ocidental:
engenhosidade e perícia «da mão, da observação e do espírito»; faculdade de renovação, até
no seio das massas artesanais; obscura vontade de criar uma civilização técnica mesmo com
recursos tirados de outras civilizações.
25
Pode mesmo dizer-se que, em sentido lato, e tipografia existe desde os tempos da pré-história (exactamente
desde o Paleolítico Superior), uma vez que os homens nessa época procuravam sistematicamente reproduzir
impressões de mãos nas paredes das cavernas. E entre os primitivos encontra-se o hábito de fazer impressões
na casca das árvores (com folhas ou pedaços de madeira), na cerâmica ou em argila.
26
Na sua completa realização, a tipografia envolve e invenção do papel e o fabrico de tinta à base de óleo, o
desenvolvimento de gravura em madeira ou em metal e o desenvolvimento de fundição dos tipos e de reprodução
em metal das formas de madeira, o desenvolvimento da prensa e do trabalho de prensa de impressão. A
adaptação destas diversas técnicas define-se melhor entre 1440 e 1455. O completo desenvolvimento de
tipografia, mais que qualquer outra realização, representa de forma significativa a passagem da técnica medieval
à técnica moderna. (Cf. Usher, loc. cit., pp. 200 a 202.).
27
Da mesma forma, a China conhecia já, com uma feição original, algumas das nossas mais recentes
«descobertas», que são somente reinvenções: granadas de mão, gases deletérios, torpedos, tanques, navios
couraçados, submarinos, aeronaves.
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3. A Idade Média e as Técnicas
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Pierre Ducassè — História das Técnicas
15/19
CAPÍTULO V — VALOR TÉCNICO DA IDADE MÉDIA
Quer se trate de verdadeiras invenções ou de engenhosas adaptações, as conquistas
técnicas da Idade Média distinguem-se das invenções da Antiguidade por duas características
bastante importantes. O primeiro carácter é, com efeito, o de aumentar o rendimento das forças
utilizadas, quer sejam naturais ou inanimadas. Directa ou indirectamente, conduzem à economia
do trabalho humano, assegurando-lhe uma maior eficácia: a este respeito, a tenacidade
medieval está nitidamente na origem dos progressos modernos.
O outro carácter, não menos importante, destes esforços técnicos, é corresponder tão
estritamente às necessidades da sociedade e às suas leis de desenvolvimento, pelo que nunca
correram o risco de ser esquecidos. Muito pelo contrário, são eles que agem energicamente
sobre a estrutura social.
Os dois caracteres essenciais da técnica medieval suscitam a ideia de uma imensa força
social de renovação. À ordem passiva dos impérios, à servidão do trabalho romano, sucede a
convergência de esforços feita por grandes colectividades de seres livres, ainda pouco ágeis,
mas já transformados em directores de forças. A técnica medieval está no caminho de um novo
mundo de produtores. Lentamente amadurecida, construiu bases prodigiosamente resistentes
para a civilização do Ocidente. Foram os seus pacientes esforços, as suas sólidas adaptações,
que forneceram as bases indestrutíveis ao progresso industrial e agrícola do mundo moderno,
cujas verdadeiras e decisivas conquistas mergulharam sempre as suas raízes no génio
medieval.
[Fim da 3ª parte]
***
Índice geral das 5 partes que constituem a obra
PREFÁCIO — A técnica e a vida
• Natureza e técnica
• O cérebro, a mão, a sociedade
• Técnica e civilização
PRIMEIRA PARTE — AS TÉCNICAS PRIMITIVAS
CAPÍTULO I — O utensílio, o fogo e a linguagem
• A pedra lascada
• O trabalho em osso
• O fogo
Índice geral
3. A Idade Média e as Técnicas
Índice
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Pierre Ducassè — História das Técnicas
16/19
• A linguagem
CAPÍTULO II — O instinto «mecânico» dos primeiros homens
• A fricção
• A modelagem
• As armadilhas
CAPÍTULO III — A arte, a medicina e a cirurgia
CAPÍTULO IV — O mundo neolítico e a aurora da civilização
•
A extensão das técnicas primitivas
•
A pedra polida
•
A cerâmica
•
A cultura do solo
•
A metalurgia
•
Os itinerários e os transportes
SEGUNDA PARTE — A SABEDORIA INDUSTRIOSA DA ANTIGUIDADE
CAPÍTULO I — A capacidade técnica dos grandes impérios
•
O Egipto
•
O progresso da metalurgia e da cerâmica
•
A arquitectura e a tecelagem
•
O tear de tecer
CAPÍTULO II — O milagre grego
•
As origens
•
À procura da perfeição técnica
•
A ideia da ciência pura
CAPÍTULO III — A invenção grega
•
As matemáticas puras
•
As actividades industriais
•
A arte militar
•
As técnicas do mar
•
A mecânica
•
A estática
•
As ideias técnicas
•
A origem do moinho hidráulico
•
As máquinas motoras
•
Esterilidade prática das invenções gregas
CAPÍTULO IV — A organização romana
•
As insuficiências técnicas
•
Os progressos especiais
•
A arquitectura, a arte militar e o direito
CAPÍTULO V — Incapacidade relativa do progresso técnico na Antiguidade
•
A escravatura
•
Decadência da economia antiga
Índice geral
3. A Idade Média e as Técnicas
Índice
Índice
Pierre Ducassè — História das Técnicas
17/19
TERCEIRA PARTE — A IDADE MÉDIA E AS TÉCNICAS
CAPÍTULO I — A decadência das técnicas
•
O fim do mundo romano
•
A reconquista medieval
•
O papel da Igreja
•
A colonização agrícola
CAPÍTULO II — A conquista das forças motoras: os transportes
•
A atrelagem antiga
•
A atreIagem moderna
•
Evolução técnica e transformações sociais
•
O renascimento do comércio
•
O artesanato e as corporações
CAPÍTULO III — A conquista das forças motoras: os moinhos
•
O moinho de água
•
O moinho de vento
•
As minas e a metalurgia
•
A Idade de ouro da cristandade
CAPÍTULO IV — Preparação dos tempos modernos
•
O capitalismo e o maquinismo
•
A bússola
•
O leme vertical
•
As técnicas do mar
•
Os transportes terrestres
•
A hidráulica e a mecânica
•
A metalurgia e os seus derivados
•
O relógio
•
A tipografia
•
Invenções e aquisições medievais
CAPÍTULO V — Valor técnico da Idade Média
QUARTA PARTE — O ESPÍRITO MODERNO E OS PROGRESSOS DA INDÚSTRIA
CAPÍTULO I — A filosofia moderna e a reabilitação das técnicas
•
Técnica e filosofia
•
Descartes
•
Leibniz
•
As ciências experimentais
CAPÍTULO II — A organização da produção industrial
•
A economia nacional
•
Minas e a metalurgia
•
Formação da técnica moderna
•
Os progressos da agricultura
CAPÍTULO III — O espírito prático do século XVIII
Índice geral
3. A Idade Média e as Técnicas
Índice
Índice
Pierre Ducassè — História das Técnicas
18/19
•
Voltaire
•
Franklin
•
Diderot
•
Os construtores de autómatos
•
As máquinas de fiar e de tecer
CAPÍTULO IV — O papel prático da ciência
•
A astronomia e a navegação
•
A ciência e a técnica dos meios gasosos
•
Os aeróstatos
•
A máquina a vapor
•
As bombas a fogo
•
A máquina de Savery
•
A máquina atmosférica de Newcomen
•
A obra crítica de Watt sobre a bomba a fogo
•
A máquina de efeito duplo
•
Os aperfeiçoamentos da máquina a vapor
•
A alta pressão
•
O escravo mecânico
CAPÍTULO V — Revolução industrial e revolução agrícola
•
A indústria na Inglaterra
•
A revolução agrícola
QUINTA PARTE — O PROGRESSO DAS TÉCNICAS NOS SÉCULOS XIX E XX
CAPÍTULO I — Ciência e técnica
•
Do empirismo à ciência
•
A Revolução Francesa e a ciência
•
Do instrumento científico ao aparelho industrial
•
A indústria ao serviço da ciência
•
O progresso das técnicas
•
A óptica
•
Os metais
•
A química
•
A medicina e a cirurgia
CAPÍTULO II — A conquista da energia
•
As turbinas hidráulicas
•
As turbinas a vapor
•
O dirigível
•
O avião
•
Os submarinos
•
Os acumuladores
•
O dínamo
•
A hulha branca
Índice geral
3. A Idade Média e as Técnicas
Índice
Índice
Pierre Ducassè — História das Técnicas
19/19
•
As transmissões
CAPÍTULO III — As novas fontes de energia
CAPÍTULO IV — As extensões racionais da técnica
•
O maquinismo
•
A vida agrícola e a técnica
•
As crises
•
A exploração do homem pela máquina
•
A taylorização
•
O reinado das técnicas
BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA
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TERCEIRA PARTE: A IDADE MÉDIA E AS TÉCNICAS