AS REPRESENTAÇÕES DISCURSIVAS DE GÊNERO E SEXUALIDADE A
PARTIR DE VÍDEOS DA PRISÃO DE SUJEITOS LGBT NO YOUTUBE
BOTELHO, Wanessa da Silva¹
Resumo: “Eu cobrei quarenta, mas ele só me deu vinte reais!”. Essa frase popularizou
uma personagem bastante conhecida nas redes sociais, a travesti Vanessa conhecida
como “Vanessão”. Como este caso, existem outros na internet, especialmente no
Youtube. Alguns questionamentos precisam ser feitos diante deste contexto, como: o
alto número de visualizações destes vídeos contribuem para a visibilidade LGBT? As
representações gênero e sexualidade nos enunciados destes vídeos demonstram quais
entendimentos sobre a diversidade sexual? Os vídeos examinados e selecionados
seguirão um roteiro de Análise Documental previamente elaborado a partir de alguns
autores, onde se buscará separar o necessário do secundário a partir de questões que
envolvem representações discursivas sobre a prisão de sujeitos LGBT na mídia.
Palavras-chave: gênero; sexualidade; mídia; homofobia; sistema prisional.
A Constituição Federal de 1989, a partir do Artigo 5°, reconhece a segurança
como um direito individual, sendo dever do Estado e direito de todos, visando à “[...]
preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio [...]”
(BRASIL, 1989). Nesse sentido, a ideia de um Estado Punitivo (WACQUANT, 2001)
no Brasil se faz necessária, pois se recorre ao Direito Penal para todo e qualquer conflito
de ordem social, garantindo a segurança e os direitos para toda a sociedade.
Nas palavras de Garland (1999, p.62), “[...] a segregação punitiva – penas de
longa duração em prisões ‘sem frescuras’ e uma existência estigmatizada, controlada de
perto, para aqueles que são, finalmente, libertados – é cada vez mais a escolha que se
impõe”.
Por fim, essa sociedade auxilia as tarefas da segurança pública garantida pelo
Estado, agindo “[...] na socialização dos indivíduos, na perpetuação dos mecanismos
informais de controle social e de autocontrole, a partir da perspectiva de que não é
somente o controle pelo Estado que garante a segurança de todos [...]” (FONTOURA,
RIVERO e RODRIGUES, 2009, p. 143).
No texto é adotada a sigla LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e travestis e
transexuais) já que desde a I Conferência Nacional LGBT, que aconteceu em 2009, os
estudos fazem o seu uso. No texto também são ignorados os fatores raça/cor, idade e
nível de escolaridade, sendo os critérios levados em conta apenas a identidade de gênero
e orientação sexual dos sujeitos observados nos vídeos.
_______________________
¹ - Graduanda em Comunicação Social pela Universidade Federal do Tocantins - UFT e Bolsista de
Pesquisa do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Extensão em Sexualidade, Corporalidades e Direitos – UFT.
<[email protected]>
Pouco ou quase nada é divulgado sobre as formas de tratamento no sistema
prisional para sujeitos LBGT, especialmente travestis e mulheres transexuais – as mais
estigmatizadas – como são tratados e como são presos a partir dos sistemas prisionais e
da segurança pública.
Segundo a organização não governamental Transgender Europe (2014), o Brasil
é o primeiro no mundo nas estatísticas de morte de travestis e transexuais (602 mortes
entre os anos de 2008 e 2014), caracterizando a população de travestis e de transexuais
como uma das mais vulneráveis do sistema penal e de segurança do país (Aguinsky, B.
G.; Ferreira, G. G.; Cipriani, M., 2014), sendo punida, criminalizada e encarcerada nas
prisões hoje socializantes, a partir da definição de Wacquant (2008).
A partir desse cenário, a presente pesquisa, que ainda está em andamento, tem
como objetivos mapear os vídeos do site Youtube que tratam dos “casos de prisão” de
sujeitos que se autointitulam LGBT; compreender como a Internet transforma esses
vídeos em “dispositivos pedagógicos” de (in)visibilidade LGBT; e identificar o perfil
político-cultural dos visualizadores dos vídeos do Youtube sobre os “casos de prisão” de
pessoas LGBT.
Mídia como veículo de propagação de informações
A Internet se constituiu como o meio de relacionamento social com a
especificidade de interação online, formando uma cadeia em expansão de diversos
conjuntos de interesses caracterizados por vários graus, sejam eles familiares ou criados
com a finalidade de troca de informações, como notícias, vídeos e fotos, possuindo a
opção de serem compartilhados com vários níveis de restrição. Segundo John B.
Thompson (1998), a análise dos meios de comunicação com relação às formas de ação e
interação facilitadas por eles, é exatamente o que se necessita para dar sentido à nova
mídia – a Internet – e para desvendar suas consequências sociais, políticas e pessoais.
Quando a visibilidade é obtida em meios de comunicação de massa, como a
televisão (DAL FORNO, 2011), um reconhecimento é feito pelo público e uma atenção
é voltada para a causa. Entretanto, o contrário também é previsto, e essa visibilidade
pode causar danos e prejudicar quem não é aceito nos veículos de massa, o que acontece
com os casos de travestis e transexuais, visto que as práticas e vivências dessas pessoas
são estigmatizadas.
Identidade, gênero e sexualidade estão cada vez mais presentes nos veículos de
massa, principalmente na Internet, que é um meio disponível para todas as classes
sociais. “Os meios de comunicação refletem as profundas ansiedades de gênero que
caracterizam a época atual e trabalham com essas ansiedades.” (CARVALHO;
ADELMAN; ROCHA, 2007, p. 124).
Sujeitos LGBT no Youtube
O levantamento dos vídeos existentes no Youtube nos trouxe dados dos
anos de 2007, 2009, 2011, 2012, 2014 e 2015. O mais antigo encontrado é datado do
ano de 2007, o famoso vídeo da travesti “Vanessão” e o mais novo, de 2015, retrata o
polêmico caso da travesti Verônica Bolina, que causou repercussão em todo o país. São
oito anos de diferença observados e, segundo os vídeos, os casos de pessoas LGBT no
sistema prisional são cada vez mais recorrentes e as medidas de segurança pública para
esses sujeitos estão regredindo. No quadro abaixo, estão os primeiros dados:
1
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3
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9
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11
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13
14
15
Quadro 1 – Vídeos com ano, cidade e link selecionados para análise.
Ano
Cidade - Estado
Link
2007
Ji-paraná – RO
https://www.youtube.com/watch?v=OjdFsDo3hjY
2009
Recife – PE
https://www.youtube.com/watch?v=ry4wVa1KgJ0
2011
Salvador – BA
https://www.youtube.com/watch?v=dBlle3zUVEc
2011
Rio de Janeiro – RJ
https://www.youtube.com/watch?v=U9kEJY4B_Ys
2011
Londrina – PR
https://www.youtube.com/watch?v=tUNRV4sNZz4
2011
Ji-paraná – RO
https://www.youtube.com/watch?v=eN8uqWgRR8A
2011
Cuiabá – MT
https://www.youtube.com/watch?v=98FfCrHARtw
2011
Natal – RN
https://www.youtube.com/watch?v=UxLz7LOFrlk
2012
Goiânia – GO
https://www.youtube.com/watch?v=ZJufJza8IDM
2012
Maringá – PR
https://www.youtube.com/watch?v=u8FIVa7J5EU
2012
Maringá – PR
https://www.youtube.com/watch?v=VKKas8s16TA
2014
Curitiba – PR
https://www.youtube.com/watch?v=QymqnQNAcD4
2014
Recife – PE
https://www.youtube.com/watch?v=nVLj8f05RNU
2015
Cuiabá – MT
https://www.youtube.com/watch?v=tSvd0KBm6xs
2015
São Paulo – SP
https://www.youtube.com/watch?v=Eg0bBzwxxaQ
Fonte: Pesquisa direta
Os vídeos selecionados para análise são dos anos de 2011 e 2012, tendo em vista
que estes são os primeiros anos em que foram feitos estudos oficiais sobre a violência
homofóbica no Brasil e na América Latina (BRASIL, 2013a), com dois relatórios
oficiais apresentados pela Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República
(SDH).
De acordo com esses relatórios, deveriam ser referidos como crimes
homofóbicos aqueles que têm como motivo a não aceitação e o ódio por parte do(a)
agressor(a) em relação à vítima, devido à sua identidade de gênero e/ou orientação
sexual, por ela ser lésbica, gay, bissexual, travesti ou transexual, englobando a
humilhação, a ofensa e a extorsão (DHNET, 2010 e BRASIL, 2008b).
Segundo Daniel Borrillo, o termo homofobia pode ser considerado como
“la hostilidad general, psicológica y social, respecto a aquellos y aquellas de
quienes se supone que desean a individuos de su propio sexo o tienen
prácticas sexuales con ellos. Forma específica del sexismo, la homofobia
rechaza también a todos los que no se conforman con el papel
predeterminado por su sexo biológico. Construcción ideológica consistente
en la promoción de una forma de sexualidad (hetero) en detrimento de otra
(homo), la homofobia organiza una jerarquización de las sexualidades y
extrae de ella consecuencias políticas.” (BORRILLO, 2001, p. 36).
Além disso, o critério regional também é válido. São vídeos de todas as regiões
do país, com uma frequência maior do Sul e Nordeste, ambas obtendo um número
maior de casos publicados no site.
Quadro 2 – Vídeos analisados e descritos
Ano
1 2011
Cidade/Estado
Salvador – BA
Link
https://www.youtube.
com/watch?v=dBlle3z
UVEc
https://www.youtube.c
om/watch?v=U9kEJY4
B_Ys
Descrição
Prisão de três transexuais acusadas de
roubo.
2 2011
Rio de Janeiro –
RJ
3 2011
Londrina – PR
4 2011
Ji-Paraná – RO
5 2011
Cuiabá – MT
https://www.youtube.c
om/watch?v=98FfCrH
ARtw
Casal gay briga por ciúmes e acaba
parando na delegacia.
6 2011
Natal – RN
https://www.youtube.c Duas travestis, um adolescente –
om/watch?v=UxLz7LO também travesti – e um empresário
Frlk
fazem confusão em motel e acabam
Segundo relato de uma “vítima”, uma
travesti teria cometido roubo, o
ameaçando com uma suposta faca
ensanguentada e contaminada com o
vírus HIV.
https://www.youtube.c Briga entre uma travesti e um cliente.
om/watch?v=tUNRV4s A travesti foi agredida e o cliente
NZz4
afirma que a bateu porque ela o
roubou.
https://www.youtube.c Confusão entre um caminhoneiro e
om/watch?v=eN8uqWg uma travesti. A travesti foi acusada de
RR8A
destruir a cabine de uma caminhonete.
7 2012
Goiânia – GO
https://www.youtube.c
om/watch?v=ZJufJza8I
DM
8 2012
Maringá – PR
https://www.youtube.c
om/watch?v=u8FIVa7J
5EU
9 2012
Maringá – PR
https://www.youtube.c
om/watch?v=VKKas8s
16TA
parando na delegacia. O empresário
não quis pagar o valor combinado e
ainda foi acusado de exploração de
menores e as travestis, de extorsão.
Uma travesti é acusada de possuir um
prostíbulo de travestis, todas menores
de idade. Uma denúncia foi feita e
todas foram parar na delegacia.
Segundo um cliente, duas travestis o
roubaram após uma suposta carona
dada. As travestis afirmam que depois
do programa, ele não quis pagar o
valor combinado.
Dois clientes combinaram pagar o
programa e o quarto de motel, mas
foram embora antes, dando “calote”. A
travesti acabou parando na delegacia.
Fonte: Pesquisa direta
Em todos os vídeos é possível perceber certa dose de ironia e sarcasmo dos
responsáveis pela propagação da notícia, que são repórteres, jornalistas e apresentadores
de TV. Com unanimidade – exceto por um vídeo – são retratados fatos que ocorreram
com travestis ou transexuais (a maioria não é definida de modo correto). Também em
todos os acontecimentos, os sujeitos estão com suas vestimentas em más condições, a
maioria violentada e humilhada, caracterizando a falta de preparo do Sistema Punitivo
do Brasil em relação aos LGBT.
Os sujeitos dos vídeos são relacionados às mulheres, já que são semelhantes a
elas e não possuem a virilidade masculina, um óbvio retrato do machismo. Além disso,
o travesti e o transexual rompem estereótipos e também as funções de gênero, criando
um “problema” de ordem da sociedade.
Os relatórios feitos pela Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da
República, citados acima, trazem a informação de que a conduta da mídia é invisibilizar
esses casos, sob a alegação de que os mesmos não têm “valor-notícia”, reforçando a
pressuposição de que travestis e transexuais são estigmatizados pela nossa sociedade
sexista e homofóbica. “Se não for violência física, principalmente assassinato, as
violações contra LGBT não precisam ser noticiadas.” (MELLO, AVELAR, BRITO,
2014).
Já que o sistema prisional e policial não é adequado às questões LGBT, os
relatórios apontam o que são as soluções instauradas para que os esforços realizados
pelo movimento de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais para combater a
violência sejam praticadas. São elas: criação de delegacias especializadas, uma atuação
maior da defensoria pública, a regulamentação de visitas íntimas para casais de pessoas
do mesmo sexo e um controle da informação sobre esses casos. Essas iniciativas estão
crescendo para evitar que mais situações de conflito aconteçam.
Diante disso, podemos chegar à conclusão que:
“A segurança pública parece proferir, dentre outras instituições pertencentes
ao poder público estatal, uma parcela desses discursos ditadores da norma.
Influencia, consequentemente, a concepção social acerca de determinados
segmentos sociais, interferindo diretamente – por sua ação ou omissão
expositiva – na forma como esses sujeitos serão entendidos. No que tange às
pessoas trans, especificamente, a conduta governamental – acompanhada da
inerente autoridade – é capaz de, a partir do tratamento dispensado a estes
grupos, contribuir para a transformação da imagem obscura que lhes é
conferida repetidamente ou, por outro lado, reforçar os estereótipos e a
ignorância que cerca a compreensão de suas identidades.” (Gershenson;
Ferreira; Cipriani, 2013, p. 49).
Concluindo, o uso da Internet para a divulgação e compartilhamento dos vídeos
de sujeitos LGBT mostra que essa mídia globalizada pode veicular imagens e
mensagem que chocam, ou que não se adéquam ao comportamento tradicional, ou aos
valores que são associados a um estilo de vida tradicional, ao contrário da televisão,
essa que pressupõe uma junção do mundo real e um mundo imaginário, onde os
telespectadores são rotineiramente forçados a se relacionar com o que lhe é habitual ou
não.
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