UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE - UNESC
CURSO DE PSICOLOGIA
ALEXANDER DE MELO LUIZ
Dos Heróis Gregos ao Batman, uma evolução histórica, cultural
e social
CRICIÚMA, 2010
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UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE - UNESC
CURSO DE PSICOLOGIA
Dos Heróis Gregos ao Batman, uma evolução histórica, cultural e social
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado
como requisito parcial para a obtenção do Grau
de Bacharel em Psicologia, do curso de
Psicologia da Universidade do Extremo Sul
Catarinense - UNESC.
Orientador (a) Professor (a): Elisiênia Cardoso
de Souza Frasson Fragnani.
CRICIÚMA, 2010
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ALEXANDER DE MELO LUIZ
Dos Heróis Gregos ao Batman, uma evolução histórica, cultural e social
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado
como requisito parcial para a obtenção do Grau
de Bacharel em Psicologia, do curso de
Psicologia da Universidade do Extremo Sul
Catarinense - UNESC.
BANCA EXAMINADORA
Prof.ª Elisiênia C.de S. F. Fragnani – Mestre em Psicologia– (UNESC) –
Orientadora
Prof. Paulo de Tarso Ferreira Correa –Mestre– (UNESC)
Profª Elenice de Freitas Sais – Especialista – (UNESC)
CRICIÚMA, 2010
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AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus por ter me iluminado nos momentos mais difíceis,
a minha mãe que com sua força e determinação sempre me deu apoio, ao meu
pai pelo seu bom humor e pensamento positivo e a minha orientadora pela
colaboração neste trabalho.
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SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO................................................................................................6
2. OBJETIVOS....................................................................................................8
3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA......................................................................9
4. METODOLOGIA............................................................................................13
REFERENCIAS.................................................................................................14
NORMAS DA REVISTA....................................................................................16
ARTIGO.............................................................................................................22
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1) INTRODUÇÃO
Através desse projeto, por meio de pesquisa bibliográfica, se buscará
um maior entendimento do personagem heróico através dos mitos da Grécia
Antiga e do período da Idade Média até as Histórias em Quadrinhos (HQ) da
nossa contemporaneidade (Modernidade e Pós-Modernidade).
O presente estudo será feito pelo fato de se acreditar que os contos
míticos da antiguidade dão um recorte de todos os aspectos inerentes às
sociedades vigentes.
Na Grécia Antiga se desenvolvem dois tipos de Heróis, o paladino épico,
que prezava pela honra e moralidade, e o herói trágico que era desmoralizado
no desenrolar do drama.
Na Idade Média, as características dos personagens heróicos mudam
nos mitos, mas a moralidade ainda se encontrava presente. Num primeiro
momento a moral cristã tratou de reprimir o corpo e quando as características
do corpo são suprimidas, a sexualidade também o é. Nesse ínterim, se
destacam os santos como os grandes heróis do momento. Depois, de alguns
séculos com a chegada dos romances corteses um novo tipo de herói ganha
popularidade, o honroso cavaleiro que luta pela justiça e pela sua amada
donzela.
Nos nossos contemporâneos (modernidade e pós-modernidade) com a
chegada dos veículos de comunicação em massa (populares) um novo tipo de
herói começa a se destacar, os paladinos das histórias em quadrinhos.
Dentre os primeiros personagens criados nas HQs está Batman, objeto
do nosso estudo. Ao longo de mais de 70 anos ele faz parte da nossa história,
influenciando as crianças, jovens (e porque não) adultos do mundo inteiro.
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Desde a modernidade, onde o período histórico estabelecia um herói com forte
apelo nacionalista e de ações corretas, até a pós-modernidade onde o herói
vira um sujeito multifacetado, onde atitudes repreensíveis podem ser feitas pelo
próprio paladino ele continua presente no nosso imaginário coletivo.
Por fim, chega-se a conclusão que o caráter moral sempre esteve
presente no herói, mas nos últimos tempos a barreira entre o bem e o mal não
passa de uma linha muito tênue, onde cabe o paladino se equilibrar, mas nada
o impede de perder o equilíbrio, e de vez em quando, cair no lado das atitudes
obscuras.
O que era fixo (o conceito de bom e mal) em outros períodos históricos,
acaba por se desmanchar no ar na Pós-Modernidade, onde num mundo de
constantes mudanças modelos fixos e rígidos de herói não são vistos com bons
olhos pelo público como anteriormente.
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2) OBJETIVOS
2.1) Objetivo Geral
Estudar os heróis a fim de descobrir quais são as características sociais,
culturais e psicológicas que eles representam.
2.2) Objetivos específicos
* Fazer revisão bibliográfica de obras que falam dos heróis e mitos.
* Compreender os aspectos históricos, culturais e sociais da Grécia Antiga, da
Idade Média, da Modernidade e Pós-Modernidade.
* Classificar os tipos de heróis.
* Conhecer as histórias em quadrinhos do Batman.
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3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Doron e Parot (2000, p. 505) denominam o mito como sendo uma
narrativa de acontecimentos fictícios, atribuídos a deuses, a heróis humanos, a
seres sobrenaturais, que explicam a origem e o destino do mundo, da
humanidade, da sociedade e das forças divinas‖.
Gorender destaca que para muitos estudiosos contemporâneos o mito é
tido como uma falácia primitivista e fantasiosa. Nós aqui procuramos entendêlo como uma forma de conhecimento diferente do racionalismo científico que se
caracteriza pela sabedoria popular dos povos antigos, onde aspectos sociais
de diversas civilizações estão representadas neles, conforme Abbagnano
(2000).
Mas, sem sombra de dúvida, nas fábulas o herói é o personagem que
mais representa os desejos humanos. O que existe na civilização são desejos
individuais que estão à margem da sociedade, estes são vistos como tabu.
Gera-se, com isso uma impossibilidade do sujeito sair do seu conflito, pois,
estes desejos realizáveis se tornam irrealizáveis graças à interdição social.
Esta vontade fica sublimada na psique humana cabendo a figura mítica do
herói a execução desse desejo reprimido. (Callois 1972).
Para
entender
o
personagem
mítico
heróico
o
dividimos
em
determinados períodos da história onde o universo fantástico foi rico e evoluiu
esplendorosamente.
Começaremos por dois momentos históricos da Antiguidade Grega:
Arcaica (800 à 450 a.c) e Clássica (por volta dos séculos IV e V) conforme
Aymard e Auboyer (1971).
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Na Grécia Arcaica se destaca o culto a diversos deuses que são
conhecidos pelo nosso imaginário coletivo, como: Zeus, Afrodite, Apolo, Hades,
dentre outros tantos. Do acasalamento entre os humanos e deuses, nascem os
heróis gregos explica Kothe (1985). Esses heróis são conhecidos como
semideuses, embora não sejam eternos, teem habilidades além do humano.
Tanto que Chevalier (2000) comenta que ele é uma espécie de ―deus caído‖ ou
―homem divinalizado‖.
Os heróis da Época Arcaica são classificados como épicos, e estão
comumente ligados as obras de Homero, Ilíada e Odisséia. Nestes heróis
aparece uma forte noção de honra e moralidade, sendo que eles sempre são
um exemplo a ser seguido. Pois, a natureza deles são sempre as mais
elevadas moralmente de acordo com Kothe (1985).
O herói do Período Clássico Grego é o Paladino Trágico que ao
contrário do Épico decai moralmente. O herói aqui não é mais um exemplo a
ser seguido. Como pontua Vernant e Pierre-Naquet (1977) ele virou problema.
O paladino começa a ser questionado, o que ele faz não é mais verdade
absoluta, geralmente o que ocorre é que seus atos são dignos de reprovação,
como Édipo que se vê enredado pelo destino depois de descobrir que não
passa de um parricida e incestuoso.
O que ocorre com os heróis da Grécia Antiga é que o primeiro (épico)
vem manifestar a vontade dos deuses tida nessa época como soberana. Já o
segundo (trágico) vem questionar por meio de seus atos amorais, a própria
hegemonia
divina,
que
diferentemente
do
Arcadismo,
passou
a
ter
concorrência no Período Clássico com a justiça dos homens, ou seja, os
11
aspectos normativos da Grécia (algo parecido com o direito que conhecemos
hoje).
Já a Idade Média (V-XV d.c) se destacam dois tipos de heróis. O
primeiro é o Santo Cristão, cuja origem nos remonta a Alta Idade Média (V-XI)
onde a igreja dominava. Com o passar do tempo, devido a ascensão de uma
nova classe, a cavalaria, junto aos heróicos santos, vieram os honrosos
cavaleiros. Cuja moral elevada, sempre permeava histórias de romance na
Baixa Idade Média (XII-XIII). (FRANCO JÚNIOR 1996, LE GOFF 1994).
Depois de enquadrarmos os tipos de heróis destes dois momentos
históricos
(Grécia
Antiga
e
Idade
Média)
chegamos
à
nossa
contemporaneidade, cujos períodos estudados serão o Moderno (século XVIII à
última década do século XX) e a Pós-Modernidade (final da década de 80 até
os idos atuais).
Oliveira (2007) define modernidade como um período histórico onde as
estruturas sociais que compõem o indivíduo estão bem delineadas. A pessoa
sabe a que grupo pertence (gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade),
sua identidade é sentida de forma indissolúvel, não fragmentada.
Hall (2001) entende que dentre as características da Modernidade estão
as culturas nacionais. O sujeito é tido como um ser único e indissolúvel
pertencente há algo maior, o país, com toda a sua vastidão histórica, social e
cultural. Esta característica patriótica fica bem clara no embate que houve
durante as duas guerras mundiais e também na guerra fria onde cada nação
lutava pela sua hegemonia. Tanto que em 1986 a HQ Batman: Cavaleiro das
Trevas, mostrava todo um medo de aniquilação que o mundo estava passando
devido o embate entre a falida União Soviética e os Estados Unidos. Krakhecke
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(2007) pontua que uma suposta bomba é solta pela URSS atingindo uma ilha
fictícia do caribe nessa história em quadrinhos. Aqui fica claro a dimensão
nacionalista da Modernidade representada pela União Soviética e Estados
Unidos e também a tensão mundial em relação à bomba atômica. O próprio
Krakhecke (2007) pontua que o arsenal presente nesses dois países daria para
acabar com o planeta não uma, mas duas vezes!
Na Pós-modernidade todas as convicções fixas se desmancham no ar.
Oliveira (2007) entende que a Pós-modernidade tem como característica a
fragmentação dos grupos rígidos. Portanto, a idéia de sujeito único e imutável,
já não pode ser mais aplicada a nossa época, tal como a idéia de um herói com
características puras (somente boas). Vieira (2008) entende que as mudanças
ligeiras da atualidade vão de encontro aos modelos rígidos nas histórias em
quadrinhos. Ele pontua que os heróis não atendem a certos padrões e
hegemonias, não sendo possível classificar os tipos de heróis, quiçá os vilões
dos paladinos. Tanto que Vargas (2007) comenta sobre a linha tênue que
separa o heroísmo e a lucidez de Batman da loucura e vilania do Coringa em
Asilo Arkham (.Grant Morrison e Dave Mc Kean 2003).
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4. METODOLOGIA
Buscou-se estudar primeiro os diversos períodos históricos da civilização
humana, a fim de descobrir e estudar as épocas em que os contos míticos
heróicos evoluíram plenamente, representando toda uma gana de aspectos
das sociedades escolhidas. Baseado nisso, as eras antigas estudadas no
presente trabalho foram a Grécia Antiga e a Idade Média.
Afim, de estudar os momentos históricos pelo qual o personagem em
questão (Batman) passou, foram estudados os períodos atuais da nossa
história moderna e pós-moderna. Com isto, procurou-se entender as
representações sociais, históricas, culturais e psicológicas presente nas
histórias em quadrinhos.
Por último, foram lidos artigos e algumas HQs de Batman, para elucidar
a influência dele nas pessoas e de como os momentos históricos estão
representados nas histórias em quadrinhos do Homem-Morcego.
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REFERÊNCIAS
* GORENDER, Miriam Elza. Batman e o parricídio. UFRJ, Rio de Janeiro, (não
consta o ano no artigo). 5 p.
* Chevalier, Jean. Dicionário de Símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos,
formas, figuras, cores, números. Rio de Janeiro, 15ª Edição. José Olympio,
2000. 996 p.
* DORON, Roland ; PAROT, Françoise. Dicionário de Psicologia. São Paulo.
Editora Ática, 200. 863 p.
* OLIVEIRA, de Luísa. A jornada do herói na trajetória de Batman. BOLETIM
DE PSICOLOGIA, 2007, VOL. LVII, Nº 127: 139-152 BOLETIM DE
PSICOLOGIA, 2007, VOL. LVII, Nº 127: 139-152.
* Vernant, Jean-Pierre ; Vidal-Naquet, Pierre. Mito e tragédia na Grécia
Antiga. 1ª edição. Livraria Duas Cidades, 1977. 163 p.
* LE GOFF, Jacques. O imaginário Medieval. Portugal. Editora Estampa,
1994. 367 p.
* FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Eva barbada: Ensaios de mitologia medieval.
São Paulo. Editora da Universidade de São Paulo, 1996. 247 p.
15
* HALL, Stuart. A identidade cultural na Pós- modernidade. Rio de Janeiro,
5ª edição. DP&A editora, 2001. 102 p.
* VARGAS, Alexandre Linck. A morte do homem no morcego. Palhoça.
Dissertação-mestrado: Universidade do Sul de Santa Catarina, 2007. 132 p.
* KRAKHECKE, Carlos André. A Guerra Fria da década de 1980 nas
Histórias em Quadrinhos Batman- O Cavaleiro das Trevas e Watchmen.
História, imagem e narrativas. PUCRS/PPGH, Rio Grande do Sul, Brasil. 2007.
25 p.
* Abbagnano, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo. Martins Fontes,
2000. 1014 p.
* VIEIRA, Marcos. Corpo, identidade e poder nos quadrinhos de superheróis: Um estudo de representações. Rio de Janeiro. II Seminário PPGCOM.
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, 2008. 15 p.
* Kothe, Flávio R. O herói. 1ª edição. Editora ática, 1985. 94 p.
* CAILLOIS, Roger. O mito e o homem moderno. Lisboa. Edições 70, 1972.
137 p.
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17
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exemplos:
LIVROS: FREIRE, P. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros
escritos. São Paulo: Ed. Unesp, 2000.
20
ARTIGOS em REVISTAS: TEIXEIRA, R.R. Modelos comunicacionais e
práticas de saúde. Interface — Comunic., Saúde, Educ., v.1, n.1, p.7-40,
1997.
TESES: IYDA, M. Mudanças nas relações de produção e migração: o caso
de Botucatu e São Manuel. 1979. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de
Saúde Pública, Universidade de São Paulo, São Paulo.
EVENTOS: PAIM, J.S. O SUS no ensino médico: retórica ou realidade. In:
CONGRESSO BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO MÉDICA, 33., 1995, São Paulo.
Anais... São Paulo, 1995. p.5.
CAPÍTULOS DE LIVROS: QUÉAU, P. O tempo do virtual. In: PARENTE, A.
(Org.). Imagem máquina: a era das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro: Ed.
34, 1996. p.91-9.
DOCUMENTOS ELETRÔNICOS: WAGNER, C.D.; PERSSON, P.B. Chaos in
cardiovascular system: an update. Cardiovasc. Res., v.40, p.257-64, 1998.
Disponível em: <http://www.probe.br/science.html>. Acesso em: 20 jun. 1999.
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21
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da revista.
22
Dos Heróis Gregos ao Batman, uma evolução histórica, cultural e social
The Greek Heroes to the Batman, the historic, cultural and social
evolution
Los Héroes Griegos al Batman, una evolución histórica, cultural e social
Alexander de Melo Luiz
Acadêmico do curso de Psicologia da Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC
Endereço: Rua Etelvina de Oliveira Muniz, bairro Morro Estevão, Criciúma-SC.
E-mail: [email protected]
Elisienia C. S. Frasson Fragnani.
Professora MSc. Orientadora de TCC do curso de Psicologia da Universidade do Extremo Sul
Catarinense - UNESC –
E-mail: [email protected]
RESUMO
A representação do Herói, nas mais diversas culturas, engendra características
dos tempos em que os mitos envolvendo esses paladinos foram feitas. Na
Grécia Antiga as histórias homéricas e do teatro clássico elucidam o paradigma
que há entre o homem e deus, no qual o fruto de toda a repugnância e desejos
humanos são projetados nos personagens dessas fábulas. Na Idade Média, o
corpo tratou de ser subjugado pela doutrina cristã, garantindo a hegemonia do
dogma cristão sobre os ritos pagãos. Já na época contemporânea, o que se vê,
é que longe de ser uma linguagem esquecida, os mitos ainda continuam
presentes em nossa vida, servindo de alimento para a alma sofredora e
representando, através das histórias em quadrinhos do Batman, o contexto
Moderno e Pós-moderno da contemporaneidade.
Palavras-chave: herói, mito, história em quadrinhos, Batman.
ABSTRACT
The representation of the Hero, in the most diverse cultures, produces
characteristics of the times where the myths involving these paladins had been
made. In Old Greece Homeric’s histories and of the classic theater elucidate the
paradigm that has between the man and god, in which the origin of all the
human repugnance and desires are projected in the personages of these
fables. In the Average Age, the body dealt with being overwhelmed by the
Christian doctrine, guaranteeing the hegemony of the Christian dogma on the
heathen rites. Already at the time contemporary, what she sees is that far from
being a forgotten language, the myths still continue gifts in our life, serving of
23
food for the sufferer soul and representing, through histories in Comics of the
Batman, the Modern context and After-modern of the contemporary age.
Keywords: Hero, Myth, Comics, Batman
RESUMEN
La representación del héroe, en las culturas malas varios, producir las
características de los tiempos, por tanto, los mitos que implicaban la estos
paladines habían sido hechos. En las viejas historias homéricas de y del teatro
el clásico aclarar su paradigma que tiene entre el hombre y Dios, en acerca de
la fruta a lo largo del repugnancia humana y los deseos se proyectan en los
personajes de estas fábulas. En la edad media, el cuerpo trató ser abrumado
por la doctrina cristiana, garantizando la hegemonía del dogma cristiano en los
paganos ritos. Ya cuando el contemporáneo, qué ella ve es ése mucho!! Ser
una lengua olvidada, Los mitos todavía persiste los manguitos en nuestra vida,
servicio del alimenta el alma de la víctima y representación, con historias en los
tebeos del Batman, el contexto moderno y postmodernismo de la
contemporaneidad.
Palabras claves: Héroe, Mito, Tebeos, Batman.
Introdução
Nesta revisão bibliográfica procurou-se compreender o significado do Herói na
composição do homem moderno e pós-moderno.
Para isto, procurou-se compreender as definições inerentes ao mito e a figura
heróica, a fim de entender os significados culturais, históricos, sociais e
psicológicos do maravilhoso, na época da Grécia Antiga, Idade Medieval até os
dias atuais. Tendo por objetivo analisar os aspectos inerentes à época
Moderna e Pós-Moderna. Serão usadas como base algumas Histórias em
24
quadrinhos do Batman, bem como suas representações no social e psicológico
no indivíduo contemporâneo.
O Mito, O Herói
Tendo em pauta a riqueza mitológica inerente aos mitos gregos, começaremos
a jornada explicando o que é mito e a denominação de Herói. (Aymard e
Auboyer, 1971)
Doron e Parot (2000, p. 505) denominam o mito, como sendo ―uma narrativa de
acontecimentos fictícios, atribuídos aos deuses, aos heróis humanos, aos s eres
sobrenaturais, que explicam a origem e o destino do mundo, da humanidade,
da sociedade e das forças divinas‖.
Já Abbagnano (2000) nos remete a três correntes distintas para explicar os
mitos, são elas: (1) O mito como forma de intelectualidade; (2) O mito como
forma autônoma de pensamento de vida; (3) O mito como instrumento de
estudo social.
O mito como forma atenuada de intelectualidade é entendido como um
produto inferior ou alterado da atividade racional. Baseado neste ponto de
vista, ele é tido como atividade anterior à ciência. Ou seja, é um construto de
falácia primitivista criado para explicar coisas que o homem desconhecia antes
da origem da ciência.
O mito como forma autônoma de pensamento ou de vida, não é entendido
como subordinado à ciência. Ele é antes de tudo uma forma original de
25
conhecimento, pontua Abbagnano (2000). A alegoria é, pois, uma verdade
autêntica (verdade essencial) sob forma fantástica ou poética em que se
transmite a sabedoria dos antepassados.
Mito como instrumento de estudo social: aqui nem a desvalorização do mito
e nem a supervalorização do maravilhoso, são atribuídos ao conteúdo
alegórico, explica Abbagnano (2000). Então, os contos míticos podem ser
estudados sob o critério societário, tanto nos povos antigos, como nas
sociedades atuais.
Rossi (2008) assegura que o mito é uma maneira de comunicação que faz
parte de um conjunto alegórico (constituído de símbolos e metáforas), no qual,
através da alegoria e figuras de linguagem, o momento sociocultural é
representado.
Doron e Parot (2000) falam que o mito é uma narrativa fictícia, na qual figuras
divinas (deuses), heróicas (semideuses) e seres sobrenaturais (criaturas
míticas como cíclope, sereias, minotauros) povoam essas obras. São essas
figuras os personagens que representam toda uma gama de eventos
mundanos da sociedade Grega Antiga, que foram evoluindo no decorrer dos
séculos até chegar aos mitos modernos.
O herói pode ser definido, de acordo com Doron e Parot (2000, p.387) como:
Personagem lendário que supera provas e realiza façanhas bem
acima das capacidades normalmente atribuídas aos seres humanos.
Esse caráter fora das normas faz do herói uma figura extraordinária
(os semideuses da mitologia) que transpõe limites e o coloca além
das leis naturais e sociais. Sua filiação anula, às vezes, os laços
habituais de parentesco e o faz opor-se dramaticamente àquele que
ocupa o lugar do pai. Associadas à força de figuração dos heróis,
suas imagens estruturam a vida psíquica, simbolizando a dramaturgia
das tensões interiores e alimentando as funções da imaginação.
26
Os heróis podem ser estudados desde a Grécia Antiga, e alguns são
chamados semideuses; por serem frutos de um acasalamento entre um ser
humano (homem ou mulher) com uma figura divina (deus ou deusa),
simbolizando a união entre as forças terrestres e celestes. (Kothe, 1985;
Chevalier, 2000).
Em suas características, o herói não é imortal; porém, conserva em sua vida
terrena um poder além do ser humano normal, sendo uma espécie de ―deus
caído‖ ou ―homem divinalizado‖, já que eles possuem habilidades fora do
comum de acordo com Chevalier (2000) e Burkert (1993).
A primeira classificação encontrada para heróis retoma a própria histórica da
Grécia, berço cultural ocidental, e fonte de explicações sobre nossa existência.
Aymard e Auboyer (1971) classificam os heróis gregos da Grécia Antiga, em
dois períodos, Arcaico (800 a 450 a.c) representado pelo herói épico e o
Clássico (séculos V-IV a.c) representado pelo herói trágico.
No período arcaico, os heróis épicos possuem nas fábulas uma elevação
moral. As histórias Homéricas, segundo Del Prado (1996) iam além de se ter
bons cavalos, armaduras e armas, essas poesias prezavam pela moralidade.
Este Herói é sempre um exemplo a ser seguido. (Vernant; Pierre-Naquet,
1977).
Como exemplos de heróis dessa época estão: Hércules, Ulisses e Aquiles.
Burkert (1993) comenta que Hércules em seu status divino, é visto como um
deus, podendo estar, tanto no mundo Olímpico (dos deuses) quanto no mundo
27
Ctônico (dos mortos). Já Ulisses é um sujeito muito sagaz e inteligente que usa
destes atributos para sair das mais complicadas situações. Por último, temos
Aquiles que assume a tangência de um herói, se caracterizando pelo uso da
força e coragem presentes no guerreiro.
Já o trágico, do período clássico, decai no desenrolar do drama. O que decai,
acima de tudo, são as suas ações imorais. É o tipo de herói que problematiza
determinada situação conforme Vernant e Pierre-Naquet (1977). Então, nem
sempre o caminho escolhido pelo Herói da tragédia é um exemplo a ser
seguido. Como exemplo, temos os semideuses Édipo e Prometeu. Édipo se vê
enredado pelas artimanhas do destino, predestinado a matar seu pai e casa
com sua mãe. Já Prometeu representa o herói que salvará toda a humanidade
através de seu conhecimento. (Souza, 1950).
Considerando as diferenças dentre o herói épico e trágico temos como
distinção a participação dos deuses na história. O Épico sempre é ajudado por
uma divindade, já o Trágico se vê ―esmagado‖ pelas forças divinas, há um deus
que controla o destino do herói que em vez de lhe ajudar, o repudia. (Vernant e
Pierre-Naquet, 1977).
O Herói e sua evolução histórica, cultural e social
Para falarmos sobre a gama de aspectos inerentes aos heróis, precisamos
situar que o nascimento deles está vinculado a uma época, em uma história
que lhes sustenta e dá significado.
28
Os heróis da era arcaica, supracitados, foram criados em uma Grécia onde a
aristocracia era forte; esses possuíam poder e eram grandes proprietários de
terras. Naquele tempo nada valia mais do que o espaço territorial, conforme
destacam Aymar e Auboyer (1971). Havia também a nobreza, denominada
Genos (hereditariedade), na qual se valorizavam mais os aspectos de grupo
como o de família, do que o individual. (Savioli, 2006).
Em plena época de extensão de fronteiras os heróis gregos representam a
ideia política de que os governantes eram superiores ao governados. (Aymard;
Auboyer, 1971; Abbagnano, 2000).
Foi durante essa época que ocorreu a guerra contra os Persas, em que todo o
povo grego se aliou para expulsá-los dos seus domínios, conforme Aymard e
Auboyer (1971).
Na Grécia clássica, a intensa evolução do teatro e demais esferas da
sociedade poderiam evoluir. Isto ocorreu graças à mudança de foco do país,
que sai da luta contra um ente estrangeiro para a evolução interior, nos mais
variados aspectos artísticos, democráticos e intelectuais.
Porém, novos revanchismos se fizeram presentes na Grécia. Desta vez, os
embates são internos. Destacam-se nesse âmbito a batalha entre a culta
Atenas e a militarista Sparta. E após 27 anos de batalha, Sparta se consagra
como vencedora. (Senett, 2003).
Um aspecto a ser considerado nessa época é a ênfase que se dava ao corpo
humano. O corpo era e ainda é sinônimo de poder. O corpo daqueles que eram
29
vigorosos eram considerados quentes e, portanto, poderiam usar de menos
vestuário.
Para Kothe (1985) e Souza (1950), outro aspecto que o herói trágico
implicitamente traz e que historicamente coincide com a queda do politeísmo
grego, no período helênico, no qual se enfatizava a razão e a ciência.
Tanto em uma época quanto outra, arcaica e clássica, Koethe (1985), pontua
que os heróis da antiguidade (épicos e trágicos) vêm mostrar ao público o
caráter elevado do nobre que tenta a todo custo recuperar o estágio inicial dos
acontecimentos, o status quo em sua sociedade.
A busca pelo status quo sempre foi a marca que todos os nobres perseguiam.
Segundo esse prisma, os aristocratas da Grécia arcaica utilizavam da figura
heróica, para reforçarem ainda mais a importância das coisas continuarem
como estavam, para que assim, pudessem continuar governando. Cabendo ao
herói zelar pelo status quo da nobreza.
Com o passar dos séculos subseqüentes, o que ocorre no ocidente é que todo
universo mítico e maravilhoso da Grécia, é acoplado a outras civilizações
posteriores, como ocorre com a mitologia Greco-romana, cuja origem serviu
para anunciar um novo tipo de mitologia (entendido como Maravilhoso para Le
Goeff) na Idade Média.
Le Goeff (1994) divide a Idade Medieval (século V ao XV d.c) em dois
períodos principais. A alta idade média (V-XI) e a baixa idade média (séculos
XII e XIII).
30
Na alta idade média existia uma preocupação muito forte do cristianismo contra
os outros dogmas e culturas descritas pela igreja como pagãs (cultura céltica,
germânica e irlandesa). Pois, estes cultos eram tidos pela igreja como
perigosos, de acordo com Le Goeff (1994). Isto ocorria por que o cristianismo
buscava uma hegemonia dogmática e cultural no começo da Idade Média.
Portanto, tudo que era contrário ao dogma Cristão era tido como inimigo aos
seus olhos. Isso tratou de tornar o maravilhoso pouco rico, pois culturalmente,
o que se aceitava era a mitologia da igreja, ou seja, a verdade absoluta era a
que estava escrita na bíblia, suprimindo outras culturas.
Nessa época havia uma grande repressão dos aspectos corporais, pois é no
corpo que o pecado encontrava guarida para acontecer, como exemplo, têm-se
a gula e a luxúria. Comparando os gêneros, a mulher sofre mais repressão
sexual que o homem.
Os heróis desta época eram, sobretudo, os santos. Franco Júnior (1996)
denomina-o como uma santificação que seguia normas da igreja cristã, em que
a principal regra era as confirmações dos milagres. Destacam-se como
exemplos neste período todos os santos da época, de uma maneira geral, mas
em grau de importância, ninguém teve maior expressividade do que Jesus
Cristo.
Na baixa idade média passou a existir uma pressão política sobre a igreja cristã
no ocidente. Isto se deu, devido à subida de status social de uma nova classe,
a cavalaria. Além disso, a igreja já não se preocupava tanto, como outrora, com
as culturas pagãs. Estas encontraram guarida para penetrarem na civilização
Medieval através dos romances corteses. Le Goeff (1994) pondera que a
31
repressão sexual da alta idade média foi ―afrouxada‖ durante os séculos XII e
XIII. Nessas histórias havia sempre um romance entre um cavaleiro, cuja
principal característica era a honra, com uma mulher: rainha, princesa, feiticeira
e fada.
Nesses romances havia um sincretismo de culturas entre o cristianismo e as
fábulas populares antigas pagãs. Baseado nisto, poder-se-ia afirmar que
existiam dois flancos míticos na época medieval: o laico e o clérigo. Franco
Júnior (1996) entende o clérigo como os contos presentes na bíblia. Contudo, o
laico é o que se encontra no folclore popular das civilizações pagãs.
Dentre os heróis cavalheirescos da baixa idade média podemos citar Tristão e
Isolda. Fugindo do que era entendido como civilizado na época; castelo e
cidade, cujo domínio era do cristianismo e dos reis para o selvagem; floresta,
onde eremitas de dogmas pagãos realizavam seus cultos e trabalhadores
rudimentares trabalhavam. Tem-se também, as famosas histórias arturescas,
nais quais fica bem clara a confluência exercida entre o selvagem, portanto
pagão, e o cristianismo, tido como civilizado. (Le Goeff, 1994; Franco Júnior,
1996).
O herói ainda está muito em evidência atualmente. Ao contrário, do que muita
gente pensa, ele está presente no nosso mundo contemporâneo nas mais
diversas mídias: televisão, livros e histórias em quadrinhos.
Vamos nos ater a Modernidade (século XVIII à última década do século XX) e
a Pós-Modernidade (Final da década de 80 até os idos atuais) para que mais
adiante se possa explicar o contexto social e histórico da figura heróica das
histórias em quadrinhos.
32
No começo da Modernidade ocorre um aprimoramento da tecnologia, com o
surgimento da máquina a vapor, produção em série e em larga escala. (Vieira e
Vieira, 2004).
Oliveira (2008) define modernidade como um período histórico, no qual as
estruturas sociais que compõem o indivíduo estão bem delineadas. A pessoa
sabe a que grupo pertence (gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade),
sua identidade é sentida de forma indissolúvel, não fragmentada.
Hall (2001) entende que entre as características da Modernidade estão as
culturas nacionais. O sujeito é tido como um ser único e indissolúvel
pertencente há algo maior, o país; com toda a sua vastidão histórica, social e
cultural. Esta característica patriótica fica bem clara no embate que houve
durante as duas guerras mundiais e também na guerra fria em que cada nação
lutava pela sua hegemonia.
Depois da 2º Guerra Mundial o mundo se viu dividido, política e filosoficamente,
entre duas correntes de pensamento: o liberalismo econômico capitalista e o
comunista materialista, de acordo com Vieira e Vieira (2004).
O capitalismo e o comunismo se acirravam pelo poder mundial. O exemplo
mais marcante que se tem desse embate é o da Guerra Fria (1947-1989), que
durante décadas foi encabeçada pela União Soviética comunista, contra os
Estados Unidos capitalista. A busca pelo poder e tecnologia travaram uma luta
ínfima, sobretudo, na conquista do espaço e do armamento pesado se
destacando. Nesse ínterim, a bomba atômica. A preocupação por parte de toda
a população do mundo por uma 3º guerra mundial estava iminente. (krakhecke,
2007).
33
Dentre os heróis das histórias em quadrinhos que eclodiram nesse momento
da Modernidade podem-se citar o Superman, o Batman, o Capitão-América e
Watchmen. Krakheche (2007) identifica que durante o período da Guerra Fria,
muitas vezes, os antagonistas destes heróis, culturalmente norte-americanos,
eram os soviéticos.
Contudo, devido aos grandes gastos com armamento e tecnologia, junto com
uma estagnação econômica de muitos anos o regime soviético comunista se
desmantela em 1989, abrindo sua economia para o mundo Liberal Capitalista.
(Krakhecke, 2007). Este desmantelamento do comunismo soviético é tido por
Vieira e Vieira (2004) como uma das causas que possibilitaram a eclosão de
um novo momento histórico, tido por muitos, como Pós-moderno. As
idealizações nacionalistas acabam por ruir, não existem mais dois lados da
moeda (comunista e capitalista). O mundo política e economicamente, atende
por uma uniformidade, conhecida agora como Neoliberal, acabando com o
modelo cultural fixo de nacionalidade.
Oliveira (2007) entende que a Pós-modernidade tem como característica a
fragmentação dos grupos rígidos. Portanto, a ideia de sujeito único e imutável,
já não pode ser mais aplicada à nossa época. Hall (2001) entende que
atualmente
há
uma
fragmentação
das
identidades
que
geram
uma
multiplicidade de estilos. Num mundo onde as pessoas estão interligadas e que
o tempo e o espaço não são mais barreiras gigantescas, onde se pode saber o
que está acontecendo do outro lado do mundo, simplesmente ligando a
televisão, não dá mais para se dizer que determinada cultura pertence
simplesmente a uma nação ou região.
34
Além, da fragmentação nacionalista, tem-se de acordo com Vieira e Vieira
(2004) uma grande evolução da tecnologia cibernética. Se o grande marco da
era Moderna foi a máquina a vapor, na Pós-Modernidade o objeto símbolo é o
Micro-computador, principalmente no que concerne a década de 90 em diante.
Desta forma, tecnologias novas são lançadas rapidamente, o que era novo se
torna velho com uma rapidez impressionante e a fronteira entre espaço-tempo
é minimizada.
No meio desse salto tecnológico, a partir dos anos 90, surge nas HQs de todo
mundo a colorização digital, que nos quadrinhos culmina numa maior riqueza
de cores e entretons. Entretanto, Batman continua ainda mais sombrio do que
anteriormente. (Busch e Vogelman,200-).
Nesse sentido, as histórias em quadrinhos podem ser tidas como recortes de
uma determinada sociedade. Krakhecke (2007), assim como Jarcem e Nassau
(2007), entendem que as histórias em quadrinhos retratam a realidade histórica
e social. As histórias em quadrinhos não surgem à margem de uma época,
nascem a fim de representar os valores que regulam determinada sociedade.
Porém, é importante citar que as sociedades mudam através dos tempos, e é
devido a essa mudança social que os heróis das HQs também se veem
obrigados a mudar. Esta flexibilização é que garante o sucesso de alguns
desses personagens, geração após geração de acordo com Busch e Vogelman
(200-).
Baseado nas características distintas de Batman, nas mais diversas gerações,
a história do homem morcego foi dividida em 4 grandes momentos: a) o
35
primeiro ano de Batman (1939), b) de 1940 a 1967, c) de 1968 a 1986 e d) de
1987 aos dias atuais.
Considerando as histórias em quadrinhos do Batman, as principais obras
correspondentes aos períodos supracitados são: Detetive Comics (DC) nº 27 e
39, Batman 1, Batman: Cavaleiro das Trevas, Piada Mortal e Asilo Arkham.
Em Batman 1 (2007) traz várias histórias clássicas de Batman. Em ―O Retorno
do Coringa‖ da década de 40, o caráter pedagógico de Batman que ensina as
crianças atributos de boa índole, como respeito e nacionalismo. Na HQ
Batman: Cavaleiro das Trevas (1986) fica explícito o medo que os cidadãos
dos Estados Unidos e do mundo tinham da bomba atômica. Em Asilo Arkham
(1989) e A Piada Mortal de 1988, ocorre o recorte de uma eclosão de um novo
tempo pós-moderno. E por último, a HQ Crise de Identidade (2004) a qual
Batman, integrante da liga da justiça, junto com Superman, Robin, Flash,
dentre outros, vive num liame bastante complexo e estreito entre herói e vilão.
(Krakhecke, 2007; Vieira, 2008; Busch e Vogelman (200-).
Aprofundando os aspectos históricos, culturais e sociais de cada época, o
primeiro momento correspondente a sua origem, representando o período
entre guerras, e projeta o sentimento de proteção às pessoas, através da luta
contra o mal. Batman, personagem criado por Bob Kane em 1939, é um entre
muitos heróis criados nessa época, cuja missão era a constante luta entre o
bem com o mal. (Araújo, 2002; Jarcem e Nassau, 2007).
Jarcem e Nassau (2007) difundem que mais de quatrocentos heróis foram
criados nesse período. Mas, nem todos vingaram. Muitos se alistaram na
guerra, e eram verdadeiras armas ideológicas do estado.
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Oliveira (2007) entende que o grande fluxo de criação dos heróis se deu devido
há uma idealização de alguém que pudesse salvar a humanidade das forças do
mal. Com Batman isto ocorre explicitamente na cena em que seus pais são
mortos por um bandido (DC Nº 39). Depois do fato, o pequeno Bruce jura lutar
pela justiça contra o mal que assolava a cidade. Ironicamente, nos heróis
criados naquela época, o mal, representado nessas histórias, era a eclosão da
própria 2º guerra mundial que ameaçava acabar com o mundo pela própria
estupidez humana.
Vieira e Vieira (2004) afirmam que no período entre guerras, destacaram-se as
tecnologias mecânicas, portanto, esse era o sinônimo de evolução na época. E
realmente foi até a chegada da 2ª Guerra mundial. Na Detective Comics nº 27,
Bruce Wayne já aparecia com um carro da época, o Ford Coupe, 1939
(tecnologia mecânica).
O segundo momento de 1940 a 1967, foi marcado pela solidificação dos
estados nacionais. A partir de 1940, Batman começa a tomar uma postura
moral mais elevada. O herói começa a ser um sujeito ―politicamente correto‖,
ou seja, um indivíduo portador de moral, tornando-se quase didático de acordo
com Busch e Vogelman (200-). O uniforme de Batman passa a ser menos
sombrio, mais azul. Isto se deu porque existia uma conotação pejorativa
daquela época que dizia que as pessoas más vestiam preto.
Batman, então, é visto como um herói responsável, zelando pelo menino
prodígio (Robin). Tanto que numa edição especial, Batman 1, lançada pela
Panini em 2007, aparecem na história ―O Retorno do Coringa‖ (década de 40),
37
as regras de ouro para ser um recruta de Robin, que são respeito, bondade,
inteligência, nacionalismo e obediência, conforme Busch e Vogelman (200-).
Os autores mostravam consciência do que passavam as crianças. Eles sabiam
que eram formadores de opinião e por isso, tratavam de ensinar bons
costumes, ao invés de apresentar histórias com menos valores e mais ação, se
estendendo essa conduta pelos anos subsequentes.
Esse apelo pela moralidade se deu, conforme Vargas (2007) devido a um
código de ética imposto às HQs, já que estas eram acusadas de promulgar a
preguiça e a delinquência infantil. Portanto, Batman entre os anos 40, 50 e 60,
raramente batia em seres humanos. As vitimas de Batman eram ET’s do
espaço sideral e máquinas tecnológicas.
Outra causa fazia jus ao momento histórico da época como pontuam Beiras et
all (2007), no passado ideais corporais de masculinidade e virilidade eram
sinônimos de barba no rosto e pelos pelo corpo. Com base nisto, pode-se
entrar no meandro de que Batman estava num tempo em que o gentleman de
corpo saudável, com sua boa educação e gentileza, eram tidos com padrão de
masculinidade.
Coube ao herói ensinar então, a gentileza e o caminho correto para as
criancinhas, adentrando nesse padrão de homem/herói fixo e nacionalista
próprio da modernidade; num cenário pós-guerra, uma nova corrente emergia
pelo mundo, se solidificando nesta época nos Estados Unidos. A esta filosofia
política e econômica (e por que não nacionalista?) foi dado o nome de
liberalismo econômico. (Hall, 2001; Vieira e Vieira, 2004).
38
De 1968 a 1986, representando o terceiro momento, que é caracterizado pelo
sentimento humano de medo frente à aniquilação por meio da bomba atômica,
devido ao embate ideológico entre os norte-americanos e os soviéticos. Em
Batman: Cavaleiro das Trevas, lançado em 1986, aparece o embate entre os
Estados Unidos e a União Soviética demonstrado explicitamente.
Nessa história em quadrinhos, o momento histórico é retratado através de uma
suposta ilha caribenha que está à espera do pior: uma bomba atômica, lançada
pelos russos.
A população de Gotham City fica em pânico, tal como está toda a população
mundial, devido à corrida armamentista proposta pela União Soviética e
Estados Unidos. Segundo Krakhecke (2007), Frank Miller expressou muito bem
nesta HQ, o medo da dizimação de toda a humanidade. Haja vista que o
arsenal vigente das duas nações daria para destruir o mundo não só uma, mas
duas vezes.
E por fim, o último momento, de 1987 aos dias atuais, marcando o advento de
uma nova era, na qual o que era fixo e indissolúvel se desmancha no ar.
(Oliveira, 2007; Hall, 2001; Krakhecke, 2007).
Hall (2001) entende a identidade como um processo inacabado, ou seja, a
identidade é um processo que está em constante andamento. Então, não se
pode falar de um indivíduo que tem certa identidade específica, pois ela é
construída e reconstruída durante toda a vida da pessoa. Ao passo, que
somente se pode falar de um processo de identificação, em que no desenrolar
da vida, a pessoa se identifica com várias coisas. Estas identificações com o
passar dos anos se tornaram cada vez mais avassaladoras. As mudanças, com
39
o advindo da Pós-Modernidade, geraram um caráter de mudança e
movimentos constantes. O que restava de indissolúvel do indivíduo (e talvez a
única), que é a sua identificação para com a sua nação, é desfragmentada.
(Hall, 2001).
No meio dessa multiplicidade de identidades e dessa celebração do não fixo e
do imutável, os heróis das HQs assim como o mundo, vem participando do
mesmo pressuposto Pós-Moderno.
Vieira (2008) percebe que as mudanças ligeiras da atualidade vão ao encontro
dos modelos rígidos nas histórias em quadrinhos. Os heróis não atendem a
certos padrões e hegemonias, não sendo possível classificar os tipos de heróis,
quiçá os vilões dos paladinos. Tanto que Vargas (2007) comenta sobre a linha
tênue que separa o heroísmo e a lucidez de Batman da loucura e vilania do
Coringa em Asilo Arkham (Grant Morrison e Dave Mc Kean, 2003) e a Piada
Mortal (Moore e Bolland, 1999) vem anunciar um novo tempo das histórias em
quadrinhos: a dificuldade que há em rotular rigidamente os tipos de heróis e de
vilões. Tanto que em Guerra ao Crime (2004) fica muito difícil distinguir os
heróis dos vilões, conforme Vieira (2008).
Beiras ET all (2007) compreendem que as histórias em quadrinhos,
especificamente, as histórias de Batman e Super-homem, reproduzem um ideal
inserido na sociedade que funciona como uma normatização de poder. Essa
homogeneidade dos quadrinhos da forma andrógena musculosa, tentam por
fim, segundo esses autores, reproduzir certos valores, que fazem com que as
mulheres, grupos étnicos e padrões corporais que fogem do padrão dominante
atlético, se encontrem à margem da sociedade.
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Cirne (1997) e Vieira (2008) não são tão generalistas quanto Beiras e
colaboradores. Eles pontuam que existem HQs do Batman que devem ser
criticadas com generosidade, haja vista a qualidade literária de certas histórias
como Asilo Arkham (1989) e A Piada Mortal (1988). Sob essa ótica, as
histórias em quadrinhos não seriam somente uma reprodução de formas
corporais e sociais hegemônicas. O que ocorre é uma multiplicidade cultural,
na qual diversos personagens diferentes atuam de maneira complementar,
desconstruindo a ideia de que a comunicação de massa poderia controlar
livremente a opinião das pessoas.
Em Saga do Crime (2004) fica difícil delimitar os vilões dos mocinhos. O
conceito do herói que antes era aquele que vela e protege, agora é trocado por
aquele que vigia, de acordo com Vieira (2008). Se o paladino de antes era o
homem da lei, agora ele virou um vigilante. Essa expressão, na verdade é
muito tênue, pois a lei antes fixa, se torna deveras subjetiva e nesse ínterim,
muitas vezes, o herói pega o governo para si, influenciando e governando os
outros.
Batman é considerado um herói da modernidade e pós-modernidade. Conserva
em sua origem aspectos, como o patriotismo, que zela pela retidão de caráter,
com identidade definida e pertencente a um grupo social, no qual ele colabora
ajudando as pessoas do seu meio. Como pós-moderno ele representa uma
figura camaleônica, assumindo características de movimento e mudança.
(Vieira, 2008 e Araújo, 2002).
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Aspectos Psicológicos do Batman
Batman desde a sua criação sempre possuiu características psicológicas
antagônicas, sendo ao mesmo tempo positivo e negativo.
Dentre os aspectos psicológicos positivos, conforme Araújo (2002) estão a
retidão de caráter, inteligência, honestidade e aparência corporal perfeita.
Dentre os aspectos psicológicos negativos, citam-se as associações inerentes
as trevas em Batman.
Prova disto está no seu uniforme, segundo Busch e Vogelman (200-) que
descrevem a criação em 1939 do uniforme, sempre teve um caráter sombrio,
tendo como cores predominantes o preto e cinza.
Até o morcego, símbolo-mor de Batman é ambíguo. Nas leis mosaicas esse
mamífero de asas é tido como pavoroso e impuro, além de ter comportamento
noturno como Batman. Porém, na China, ele significa longevidade e felicidade
de acordo com Chevalier (2000).
O aspecto Psicológico que fez com que o pequeno Bruce em sua tenra infância
virasse Batman, foi ilustrado por Bob Kane numa das primeiras histórias em
quadrinhos do Homem-Morcego em 1939 (Detective Comics nº 39), sendo a
causa motivadora de seu heroísmo, a morte de seus pais.
Como indivíduo, o pequeno Bruce estabelece uma promessa que vai muito
além da necessidade de proteger a sociedade contra os criminosos. Pois o
indivíduo deve superar suas dores e individualismos para ajudar toda uma
sociedade. (Araújo, 2002).
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Campbell (1997) baseado em diversos estudos dos mitos, das mais diversas
culturas, fixou diversos estágios que em seus estudos estavam presentes nas
fábulas do mundo todo, nos quais os heróis deviam passar para alcançar seu
objetivo. O primeiro desses estágios é o chamado para a aventura. O herói
recebe um chamado que vai iniciar toda a sua aventura. Conforme Oliveira
(2007), o chamado da aventura em Batman está na fatídica cena em que o
menino Bruce vê seus pais serem assassinados por um criminoso. É neste
momento que ele jura buscar justiça combatendo todo o mal fétido de Gotham
City, tornando-se mais tarde o Homem-Morcego.
A partir da década de 40, o herói que só queria buscar justiça através do
combate contra os criminosos da cidade, começa a possuir um caráter mais
bonzinho se tornando moralmente correto, não sendo muito diferente de uma
espécie de professor para as criancinhas, conforme Busch e Vogelman (200-).
A modernidade atendia pelo padrão fixo de homem gentil e educado, e isto se
estenderá até o final da década de 60.
Busch e Vogelman (200-) relatam que a partir de 1968, Batman assumiu
características mais violentas e investigativas. O herói assume uma postura
durona, contrastando com o moral Batman dos anos 40, 50, 60. Este Batman,
muitas vezes pode ser confundido com um anti-herói, pois há um conflito entre
o bem e o mal em Batman que vai até 87.
Em Batman: Cavaleiro das Trevas de Frank Miller (1987) há uma dualidade
entre o bem e o mal. De um lado temos um herói que quer salvar Gotham City
de uma suposta bomba atômica. Porém, por outro lado conforme Vargas
(2007), existe um herói egoísta e cínico em perseguir, que de certa forma,
43
sente prazer no sofrimento alheio. De 1968 até 1987 o Homem-Morcego se
destaca pela violência fora do comum.
Beiras ET all (2007) comentam que Batman costuma ser mais violento com os
seus oponentes do que o Super-homem. O autor (2007) não descarta a
possibilidade de Batman fazer isso para compensar a sua falta de poder nas
relações humanas. Isto se justifica pela questão do Superman ser um homem
bem educado, pelo fato de ter sido uma criança afetuosamente bem cuidada
pelos pais adotivos. Já com Batman isto não ocorre, pois seus pais morreram
quando ele era ainda criança, e a falta de acompanhamento parental, sob esse
prisma, teria tornado o Cavaleiro das trevas um sujeito violento. Pois, a falta de
amor parental, nesse caso encontrou guarida para se desenvolver em forma de
violência.
Vieira e Vieira (2004) entendem que a Pós-modernidade é um Período recente,
que data de 20 anos atrás (mais ou menos por volta da década de 90). Dentre
as coisas que a caracterizam, está a possibilidade de movimento e mudança
rápida nas pessoas, gerando multipluralidades, as quais podemos entender
também, como uma pluralização de identidades, conforme Hall (2001).
Batman agora não pode mais ser entendido como um herói fixo, cujas
características estão bem delimitadas. Batman, sujeito lúcido, tipo de herói
racional? (Oliveira, 2007).
Na época pós-moderna não. Tanto que o próprio Batman chega a admitir sua
suposta loucura em Asilo Arkham (Morrison e Mc Kean, 2003, p. 107): ―(...) sou
mais forte do que eles. Do que este lugar. Eles precisam saber. Sim, Arkham
44
tinha razão. Ás vezes, é só a loucura que nos faz ser aquilo quem somos. Ou
talvez o destino‖. Mas, que loucura é essa que faz Batman ser o que é?
Gorender(200-) cogita que a neurose de Batman está na morte dos seus pais e
no desejo reprimido que Batman teve em matar seus pais na tenra infância, ou
então, por se achar culpado pelo fato de admitir que a melhor coisa que lhe
aconteceu foi à morte de seus entes paternos. Haja vista que Batman só se
tornou o que é por essa tragédia.
Contudo, chega-se a conclusão de que Batman passou por uma grande
evolução durante os anos. Deixando de ser um herói gentil, moral e
pedagógico (1940-67), passando a ser um atleta de alta-performance, atlético e
questionador das suas próprias ações a partir de 1988 em diante.
Modernidade e Pós-Modernidade: o eu, o nós e o entre.
Nesta parte do trabalho são relacionadas às semelhanças, as divergências
entre os heróis da antiguidade, do Batman e do homem moderno.
Compreende-se que Batman tenha percorrido em sua dinâmica psicológica
uma trajetória de vida entre o individual (vingança) e o coletivo, tal como os
heróis da antiguidade.
Para Caillois (1972) a heroicidade de Batman, ainda que não de forma tão
suntuosa que um Aquiles ou Perseu, representa a possibilidade nos dias atuais
de tornar realizável o irrealizável. A dimensão humana é presente em todos os
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mitos, reforçando o que Rossi (2008), argumenta no sentido de que mitos e
heróis são constituídos de símbolos, metáforas, alegorias e figuras de
linguagem, representando o momento sociocultural. Por isso Batman,
personifica o homem moderno e pós-moderno em sua trajetória evolutiva.
Comparando os heróis da Grécia antiga, pode-se perceber a função social do
mito, consagrando-se a vitória da própria coletividade. Batman vencendo os
criminosos de Gotham representa todo o grupo ao qual ele pertence e
representa, nesse caso o homem moderno.
Hall (2001) fala do sentimento de pertença nacionalista da modernidade. Sob
esse prisma Batman é o herói épico de Gotham City, pode-se dizer que de
1940 até 1967 o Homem-Morcego foi, assim como o Heitor que representa
Tróia, o representante de Gotham.
Outra característica inerente ao Batman de 1940 é que ele simplesmente é um
homem gentil que preza pela gentileza, ensinando o caminho correto para as
crianças (Busch e Vogelman, 200-). Seu papel, portanto, é bem delineado e ele
não tem conflitos de identidade, característica essa, que é própria da
Modernidade.
Já como características do herói trágico, Batman, se assemelha ao homem,
porque o caminho escolhido por cada um, nem sempre é o exemplo a ser
seguido pelos demais, principalmente nas décadas de 80 a 90, com os
quadrinhos Piada Mortal (1988) e Asilo Arkham (1989).
Contudo, o homem pós-moderno, começa a se preocupar com sua
fragmentação, com seu sentido de continuidade, com suas ações; assim, como
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Batman que em suas últimas aparições, questiona seus atos, refletindo sobre
os efeitos negativos que esses possam oferecer. (Oliveira, 2007).
De todos os heróis modernos, Batman é considerado por Araújo (2002), como
um personagem, que realiza façanhas utilizando-se de sua inteligência, a
despeito de não ser um semideus. Conferindo-lhe ainda mais, o aspecto
humano, tão singular e necessário para configurar o imaginário da vida
psíquica do homem.
Conforme Doron e Parot (2000), simboliza a dramaturgia das tensões
interiores. Embora Oliveira (2007), referencie o Cavaleiro das trevas como
sendo o herói da razão, já que o caminho a ser escolhido por Batman é
simplesmente deter os criminosos sem se questionar profundamente em
relação a isso. Oliveira (2007) argumenta que a luta entre o bem e o mal, ao
que se coloca ao homem moderno, é o eterno conflito de Batman, que se
pergunta se os ―fins justificam os meios‖.
Batman representa como herói pós-moderno, muitas vezes, o momento de
solidão, no qual todos estão aprisionados. Existe a tecnologia, redes sociais;
mas, é preciso, muitas vezes, ocultar para resguardar a própria identidade, de
uma competição imposta pela cultura econômica e que organiza a vida social.
O que simboliza tal alegoria é a utilização da máscara.
Contudo, essa pode ser compreendida também, (Vernant e Pierre-Naquet,
1977) como acessório utilizado nos teatros gregos, representando as
características dramáticas de determinado personagem da peça trágica grega
Clássica. Stein (2002) pontua que a máscara naquela época chamava-se
Persona.
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Na psicologia, um dos principais autores, que estudaram este conceito foi Jung.
A persona foi um termo escolhido por Jung para representar a pessoa tal como
ela é apresentada pela sociedade. A persona está ligada aos papéis que
determinado sujeito exerce no social, sendo de suma importância para a
convivência humana. Um sujeito pode ter inúmeras ―máscaras‖ dentro do
convívio entre os outros. (Stein, 2002)
Mas, se identificar com este grande número de personas pode ser muito difícil,
ainda mais, se a questão inerente a identidade for estreita. Bauman (1998)
entende o conflito do indivíduo Moderno como o de um nômade que tem o
sonho de encontrar um lugar onde possa fixar, a fim de se identificar com o que
realmente se é. Sob esse prisma se fixar numa coisa só é cada vez mais difícil,
e de certa forma, ser algo indissolúvel é uma grande mentira.
São justamente os conceitos de fixação e unicidade do sujeito que se
desmancham no ar com a vinda da Pós-modernidade. A nova era atende pelo
nome de movimento e mudança conforme Hall (2001). A unicidade fixa de
homem gentil e moralmente correto da Modernidade entre 1940-1967 se
desmancha no ar. O que se tem daí em diante é a pergunta indubitável do que
é ser bom e mau. Acaba-se descobrindo que se é uma pluralidade de coisas, e
Batman descobre sua maldade, paixão e loucura escondidas, acima de tudo
em seu rival coringa que expõe todo seu eu desconhecido, desfragmentando a
unicidade racional do Homem-Morcego, assim como a unicidade do homem
pós-moderno. (Cirne, 1997; Santos, 2009; Oliveira, 2007).
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Analogamente como Batman, o homem moderno e pós-moderno, utilizando-se
da classificação de Campbell (1997) passa como herói (cada qual com suas
particularidades) pelos estágios de separação, iniciação e retorno.
No estágio da separação, Batman e homem se veem obrigados a se
separarem do que é conhecido por eles. Exemplo disso para o Batman é a
morte de seus pais. Para todos nós, todas as situações que nos exigem uma
ruptura com algo que costumeiramente nos era familiar. No estágio da
iniciação está a separação total do que é conhecido, afim de que o herói
possa provar suas habilidades contra os inimigos, para conseguir o seu
objetivo conforme Campbell (1997). Para o Batman Moderno, assim como para
o homem da modernidade, manter-se fixo na sua unicidade é para o indivíduo
Pós-Moderno, descobrir toda a pluralidade do seu ser e não enlouquecer no
meio de tantos movimentos divergentes e mudanças bruscas. No estágio do
retorno o herói reconhece sua própria unicidade e entende que as coisas
fazem parte de uma coisa só. Porém, num mundo pós-moderno, onde há uma
fragmentação do sujeito, isso se torna impossível, no que concerne aos
estudos de Hall (2001).
Mas, Oliveira (2007) lança uma luz no fim do túnel, utilizando-se de Jung. A
autora fala do processo de individuação de Jung (busca pela totalidade
psíquica: União do inconsciente e consciente), refletindo que o Batman nos
últimos anos vem mantendo contato com os aspectos do seu inconsciente, nos
quais as dualidades estão sendo experimentadas por Batman. Esse processo
de individuação por parte dele, visa integrar todos os aspectos pouco
conhecidos do Homem-morcego, evitando assim uma menor unilateralidade.
Assim como nós, representando nosso estágio atual de buscar e lutar por essa
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unicidade. De tudo isso, entre o bem e o mal, e a procura atual para
identificarmos quem somos, Batman e Homem, se renovam. A ressurreição
pode ser entendida como a tomada de consciência do homem atual, de sua
própria condição e busca pelo processo unificador.
Conclusão
Dentre os objetivos desse trabalho estão compreender os aspectos históricos,
culturais e sociais desde a Grécia antiga até a nossa contemporaneidade.
O que pode ser compreendido através desse trabalho é que elementos da
coletividade de civilizações antigas ainda estão presentes na nossa atualidade,
como a característica peculiar do corpo dos heróis gregos. Já na Grécia antiga
havia uma hegemonia do biotipo musculoso no homem e da erotização das
curvas femininas, tanto que os heróis, deuses e deusas possuíam essas
características corporais. Na nossa atualidade o padrão corporal continua o
mesmo desses tempos remotos gregos. O que se tem é o ideal de corpo
perfeito tirado das academias.
Muitos são os pesquisadores que subestimam o poder do mito, entendendo-o
como uma falácia primitivista e fantasiosa, conforme explica Gorender (200-).
Mas, o mito vai muito, além disso. Eles são uma forma autônoma de
conhecimento permeada por um conjunto de alegorias e metáforas, em que a
sabedoria dos antepassados pode ser passada através dos tempos, pontua
Rossi (2008). Tal fato se sustenta, ao comparar os heróis da Grécia
(principalmente), da Idade Média e da época atual.
Ao estudar o herói Batman, pode-se verificar o quanto realmente as formas de
representação que surgem através das mais variadas formas de artes,
significam a identificação do homem de cada época às suas angústias mais
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profundas, ajudando-lhes a dar continuidade na ―tramacidade‖ da existência
humana.
Portanto, concorda-se com Martin-Barbero (apud Vieira, 2008), que descreve
que em nosso racionalismo instrumental vivente, há uma demanda por mitos e
heróis em que mecanismos de identificação e projeção estão inseridos nos
quadrinhos. Sob esse ponto de vista, o mito funciona como uma resposta
empírica e, portanto, mais rápida para as questões problemáticas humanas que
não podem ser explicadas pelo racionalismo científico.
Em sua dimensão social, o mito e o herói, representam o momento e os valores
de determinada sociedade, conforme foi observado nas várias fases do
Batman. Em sua dimensão psicológica, o estudo do herói propicia o
reconhecimento de conflitos psicológicos e possibilidades de superação, nesse
caso, a ressurreição. Relacionando principalmente com o homem, esse através
do herói, em específico, o Batman, pode de forma simbólica sobreviver a esses
tempos. Não negando a quem se é (homem pós-moderno), com suas múltiplas
características e às vezes antagônicas; mas, com esperança de que algo
possa valer e ter significado na vida humana.
Batman, assim como todo estudo sobre heróis, nos ensina, a despeito de
nossas imperfeições, a capacidade de lutar e ainda continuar em caminhos que
podem ser satisfatórios, embora de difíceis escolhas para a humanidade.
De outra forma, a figura do herói engrandece a alma humana, humilhada pelos
complexos. O que existe são desejos individuais que estão à margem da
sociedade, estes são vistos como tabu. Gera-se, com isso uma impossibilidade
do sujeito sair do seu conflito, pois, estes desejos realizáveis se tornam
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irrealizáveis, graças à interdição social. Esta vontade fica sublimada na psique
humana, cabendo à figura mítica do herói, a execução desse desejo reprimido.
(Callois 1972).
A importância de estudar os mitos para a Psicologia, em específico a vertente
clínica, está no fato de conteúdos inconscientes poderem ser descobertos
através da linguagem onírica e mítica. Podendo-se descobrir o que o paciente
esconde e até o que ele não sabe conscientemente.
Por fim, é importante explicar que através da revisão bibliográfica de diversas
obras, procurou-se elencar as características inerentes aos mitos e tipos
heróicos
da
história
Grega
Antiga,
da
Idade
Média
e
da
nossa
contemporaneidade, a fim de se atingir o objetivo de uma classificação do herói
Batman.
Num momento pós-moderno onde as mudanças acontecem de maneira rápida
e flexível, padrões rígidos de heróis são dispensados pelo público em geral. O
herói bonzinho que luta pela justiça já não é mais tão bem visto pelo público. O
que se tem é um herói mais complexo que se permite errar e mudar de opinião
de uma hora pra outra. Deste modo o conceito do que é mal e bom acaba
sendo somente um ponto de vista complexo, sujeito a mudanças e a uma gana
de interpretações diferentes. Pois, num mundo multicultural, onde a identidade
humana se vê fragmentada, o herói representante do modelo (sobre)humano,
vem representar essa característica múltipla das pessoas, onde identidades
rígidas acabam por se desfragmentar, assim é com o herói, que não é mais
somente o sujeito bom que luta contra o mal, revelando muito mais
complexidades nas obras pós-modernas, como certos desvios de caráter e
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uma tendência maior em cometer erros, não beirando mais a perfeição dos
heróis épicos antigos.
Colaboradores
*A professora MSc. Elisienia Cardoso de Souza Frasson Fragnani orientou o
artigo, resultante do Trabalho de Conclusão de Curso do acadêmico Alexander
de Melo Luiz.
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Dos Heróis Gregos ao Batman, uma evolução histórica, cultural e