ISSN: 2237-6569
Messias Bernardo da Silva131
E-mail: [email protected]
RESUMO: Tomando como base as pesquisas realizadas por João Jose Reis na
Bahia Oitocentista e Claudia Rodrigues e Luiz Lima Vailati no Rio de Janeiro
e São Paulo em torno do processo de morte e morrer, este artigo tem por objetivo identificar como se dava o processo de morte e morrer em Escada - PE na
segunda metade do século XIX, especificamente entre 1864 -1888, procurando
descrever as crenças e as atitudes vivenciadas pela sociedade e pela Igreja Católica para garantir a partida e a entrada do moribundo no além-mundo. Sendo
assim, esta pesquisa está fundamentada nos escrutínios de fontes primárias,
tais como os registros de óbitos da Freguesia de Nossa Senhora da apresentação
da Escada, pois as mesmas permitem ao historiador adentrar em alguns aspectos da sociedade estudada fazendo-o conhecer partes das estruturas sociais,
culturais, políticas, econômicas e religiosas da mesma.
Palavras-Chave: Religiosidade, morte, ritos, moribundo.
ABSTRACT: Based on the research conducted by João Jose Reis in Bahia nineteenth, Claudia Rodrigues and Luiz Lima Vailati in Rio de Janeiro and Sao
Paulo around the process of death and dying, this article aims at thinking how
was the process of death and dying in Escada - PE in the second half of the
nineteenth century, specifically between 1864 -1888, describing the beliefs and
attitudes experienced by society and escadense Church to ensure the entry and
departure of the dying in the afterlife. Thus, this research is grounded in scrutiny of primary sources, such as the death records of the Freguesia de Nossa
Senhora da Apresentação da Escada, because they allow the historian to enter
in some aspects of society studied making him see parts of social structures
cultural, political, economic and religious of the same.
131 Graduado em historia pela Faculdade de Formação de Professores da Mata Sul e Especializando em Ensino em História do Brasil pela Faculdade Integrada da Vitória de Santo
Antão.
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ISSN: 2237-6569
Keywords: Religiosity, death, rites, dying.
A morte, desde os séculos III e IV, como afirma Philippe Áries sempre permeou o imaginário popular cristão. No Brasil, a morte e os ritos funerários vão se tornar objeto de interesse, apenas na virada do século XIX, pela
natureza festiva e espetacular com que se apresentavam as práticas fúnebres e
as características que compartilhavam com as demais manifestações religiosas,
pareciam atingir nos ritos fúnebres uma de suas formas mais radical (VAILATI, 2010). Essa ludicidade e religiosidade presentes nos ritos fúnebres no Brasil
oitocentista despertaram o interesse dos estrangeiros132 que estiveram por aqui
nesse período, fazendo-os ora admirarem-se, ora indignarem-se com os ritos
fúnebres, vendo em suas práticas a falta de respeito e compaixão pelo morto.
Estas práticas fúnebres têm despertado a atenção dos historiadores
que, nas últimas décadas, têm se debruçado sobre esta temática procurando
entender o que tem motivado as sociedades a vivenciar a morte de formas tão
dispares. As pesquisas em torno desta temática tomam corpo no campo historiográfico a partir da década de 70, com o advento da História Nova quando
os campos epistemológicos da história passaram a ser entendidos como tributários de temas e problemas das mentalidades (SILVA e. FUNARI, 2000), e os
historiadores que seguem essa linha de pensamento têm voltado sua atenção
para as atitudes e concepções das sociedades em torno do processo de morte
e morrer procurando entender e explicitar as raízes dessas atitudes e concepções133.
132 Oriundos, em sua maioria, da Europa Central Setentrional e dos Estados Unidos, eram
esses viajantes aqueles cuja entrada no país fora franqueada quando do estabelecimento da
corte de D. João VI no Rio de Janeiro. Vindo com uma persistência que se prolongou até
os estertores do século e da qual resultou uma exaustiva literatura constituída de relatos e
memórias, esses cientistas, artistas, missionários, comerciantes, agentes governamentais, militares ou meros aventureiros reagiram à observação dessas cerimônias com sentimentos que
variavam de indignação à admiração.
133 ARIÉS, Philippe. Sobre a história da morte no ocidente: desde a Idade Média. Rio de janeiro:
Teorema, 2003. ARIÈS, Philippe. O Homem diante da Morte, Rio de Janeiro: Francisco Alves,
1981. CASTRO, Vanessa de. Das igrejas ao cemitério: políticas públicas sobre a morte no Recife
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1999. VAILAT, Luiz Lima. A morte menina: infância e morte no Brasil dos oitocentos (Rio de
Janeiro e São Paulo). São Paulo: Alameda, 2010.
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Tomando como base esta linha de pensamento, este artigo tem
por objetivo pensar como se dava o processo de morte e morrer em Escada134-PE na segunda metade do século XIX, especificamente entre 1864 a
1888, procurando descrever as crenças e as atitudes vivenciadas pela sociedade e pela Igreja Católica para garantir a partida e a entrada do moribundo no além-mundo.
Partindo do pressuposto que a morte não é um evento único e
homogêneo e que em Escada – PE, entre 1864 a 1888, ela era vivenciada
de forma extremamente complexa e multifacetada onde, “não havia separação radical, como hoje temos entre a vida e a morte, entre o sagrado e o
profano, entre as cidades dos vivos e a dos mortos (REIS, 1991, p74)”, onde
a religiosidade e a fé do moribundo foi o ponto culminante para garantir
a sua entrada no céu e gozar das coisas celestiais de forma plena e eficaz.
A escolha deste recorte temporal se deu devido ao fato de termos
encontrado a abundância de fontes sobre o período que ainda não havia
sido compulsada por historiadores de nosso país. Corpus este encontrado
nos arquivos135 nos proporcionando trabalhar com registros de crianças e
adultos, do sexo masculino e feminino permitindo-nos trabalhar de forma
comparativa com as fontes de adultos e crianças, de mulheres e homens
abrindo assim um leque para podermos entender como se dava os ritos
fúnebres de crianças e adultos e as suas respectivas diferenças em torno do
processo de morte e morrer em Escada neste período. Outro motivo que
nos proporcionou trabalhar com as fontes citadas é que neste período a
religião oficial no Brasil era o catolicismo, por isso, este artigo busca compreender as práticas fúnebres católicas no período citado.
Sendo assim, esta pesquisa está fundamentada nos escrutínios de
134 Primitivamente o município foi uma aldeia de índios das tribos Potiguaras, Tabujares e
Mariquitos (Indeterminado, pois os arquivos que provam a existências dessas tribos foram
perdidos na histórica cheia de setenta que a atingiu). O nome “Escada” provém da capela erguida por missionários da Congregação do Oratório, vinda de Portugal para a catequese dos índios. Como a capela estava localizada no alto do terreno, foi construída uma escada para dar
acesso a um “nicho” em louvor a Nossa Senhora d’Apresentação, que ficou conhecida como
Nossa Senhora da Escada. O distrito de Escada foi criado pela Carta Régia de 27 de abril de
1786 e por Lei Municipal em 6 de março de 1893. A Lei Provincial nº 326, de 19 de abril de
1854, criou o município de Escada, com território desmembrado do município do Cabo de
Santo Agostinho. A sede municipal foi elevada à cidade pela Lei Provincial nº 1.093, de 24
de maio de 1873. É formado pela Sede Administrativa, distritos de Massuassú e Frexeiras.
135 Todas as fontes, primária, citadas neste artigo foram encontradas no arquivo da Arquidiocese de Olinda e Recife Cúria Metropolitana.
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fontes primárias, tais como os registros de óbitos da Freguesia de Nossa Senhora da apresentação da Escada, pois as mesmas permitem ao historiador
adentrar em alguns aspectos da sociedade estudada fazendo-o conhecer
partes das estruturas sociais, culturais, políticas, econômicas e religiosas da
mesma. Como escreveu Luiz Lima Vailati:
Os livros de registros de óbito, produzidos pelos
padres responsáveis de cada paróquia, informam, em geral, além do nome da criança falecida e sua condição social (livre, escrava, enjeitada, de mãe solteira, etc.), os procedimentos
rituais utilizados (encomendações, etc.), local de
enterramento (dentro da Igreja, no cemitério, no
adro), e o tipo de mortalha. É um testemunho
privilegiado, portanto, para a observação das
mutações nas práticas da morte infantil, assim
como a distinções relacionadas com o sexo e
condição social da criança. (VAILATI, 2010, p.
27).
Portanto, pesquisar sobre a morte é adentrar no universo de representações e ritos extremamente complexos e multidisciplinares. O estudo da morte não é uma pesquisa hermética, é uma pesquisa que abrange
todos os setores da sociedade e podemos perceber essa multiplicidade através das análises dos registros de óbitos da Freguesia de Nossa Senhora da
Apresentação da Escada no período de 1864 a 1888, onde podemos traçar
o perfil da sociedade escadense, mostrando as diferenças e as condições
sociais das pessoas.
Uma sociedade composta por brancos, pardos e pretos como deixa claro os 203 registros de óbitos analisados donde podemos verificar o
registro de 11% de brancos, 22% pardos e 9% de pretos, enquanto que os
outros 58%, não foram especificados. Acreditamos que as limitações deste
perfil social são inerentes as transformações sofridas pela mentalidade da
sociedade escadense, pois a partir de meados de 1878, expressões como
desta Matriz, meus parochianoz e com relação à cor da pele aos poucos
foram desaparecendo da confecção de registro de óbito, como podemos
perceber no registro abaixo:
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Aos onse de julho de mil oitocentos e setenta e
oito, faleceu de moléstia interna, o parvulo João
com dois annos de idade, filho de Domingos
Roque da Costa e Alexandrina Maria, foi sepultado no Cemitério vestido de Menino Deos, de
que fez este assento que assignei136.
A partir de 1878, já não é possível fazer um levantamento exato
da população baseado na cor da pele, pelo fato de não encontrarmos referências nos registros de óbitos analisados, como nos do período de 1864 a
1877, que davam ênfase a cor do falecido, a condição social e na maioria
dos casos, colocando-o como “O Meu Parochiano”. Neste sentido, à medida
que a pesquisa avança essa tendência se confirma dificultando o levantamento exato da população por cor e classes sociais.
Portanto, a morte se apresenta não como um evento estanque,
mas como um processo que está em constante evolução e que, as formas
de registrá-la, assim como os rituais e as atitudes em torno dela, vão se
modificando à medida que a sociedade se transforma com suas idéias e
concepções. É o que vamos perceber no decorrer desse artigo.
A morte não é vivenciada de forma linear e homogênea, ela é um
processo extremamente complexo e cercado por misticismo e crenças que
permeiam o imaginário social em torno desse evento. Por isso, em muitas
sociedades a morte não é vista como mera destruição da parte física do ser
humano, mas como a passagem ou transição do morto para o outro mundo, para uma vida de gozo, felicidade e prosperidade, sem perturbações
terrenas. Como afirma Claudia Rodrigues:
Encarada como momento de passagem na vida,
a morte é um aspecto que se destaca nas sociedades de cultura cristã. Estas geralmente lhe
atribuem à dimensão de “chave” de entrada na
eternidade, enquanto tal chave pode ser vista
como sinônimo de uma esperança escatológica.
(RODRIGUES, 1997, p.150)
136 Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, p. 01,
Livro 03, 1874 a 1879.
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Por isso, é de fundamental importância a perfeição dos ritos funerários, tanto o de separação137 quanto o de incorporação138, como escreve o
antropólogo Arnold Van Gennep em seus estudos sobre ritos de passagem,
mostrando as dificuldades e os problemas criados pelos mortos quando
os ritos fúnebres não são realizados com perfeição e os mortos não conseguem seguir o seu destino, na descrição de Arnold Van Gennep:
As pessoas para quem não se observam os ritos
funerários são condenadas a uma penosa existência, pois nunca pode entrar no mundo dos
mortos ou se incorporar a sociedade lá estabelecida. Estes são os mais perigosos dos mortos.
Eles desejam ser reincorporados ao mundo dos
vivos, e porque não podem sê-lo, se comportam
em relação a ele como forasteiros hostis. Eles
carecem dos meios de subsistência que os outros mortos encontram em seu próprio mundo e
consequentemente devem obtê-los à custa dos
vivos. Ademais, estes mortos sem lugar ou casa
às vezes possuem um desejo intenso de vingança. (GENNEP apud REIS, 1991, p.89).
Comentando a citação de Gennep, Reis diz que:
Ao contrário, se o morto passa ao outro lado feliz e plenamente realizado, ele poderá interceder
pelos vivos juntos aos deuses, inclusive facilitando-lhes a futura incorporação na comunidade
dos mortos. Daí terem as pessoas todo o interesse em cuidar bem de seus mortos, assim como
da própria morte. (REIS, 1991, pp.89-90)
Associado a esse medo, havia a preocupação com a morte repen137 São exemplos de ritos de separação a lavagem e o transporte do cadáver, a queima de
objetos pessoais do morto, cerimônias de purificação, de sepultamento, rituais periódicos de
expulsão do espírito do morto da casa, da vila, enfim, do meio dos vivos ,o luto e tabus em
geral.
138 Ritos de incorporação seriam aqueles dirigidos a propiciar a reunião do morto com
aqueles que seguiriam antes, como por exemplo, a comida servida para a sua viagem, a extrema-unção, o próprio enterro do cadáver.
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tina em que o moribundo não estava devidamente preparado para ela. Para
ter uma boa morte era de fundamental importância que fossem tomadas
determinadas medidas para assegurar que o moribundo mesmo sendo
acometido por uma morte repentina tenha pagado por suas faltas terrenas.
Isso era feito através dos ritos de incorporação como os sacramentos que eram ministrados com o moribundo ainda consciente, ou seja,
com suas faculdades mentais funcionando perfeitamente, e os ritos de separação como a preparação do cadáver através da lavagem, o transporte do
cadáver e consequentemente a sua última roupa para a viagem.
A passagem como coloca a historiadora Claudia Rodrigues, demandava cautela, para que nada desse errado por se tratar de uma viagem
definitiva. Portanto, era de fundamental importância que ao moribundo
fossem ministrados todos os rituais de forma perfeita, garantindo que
o morto seguisse seu caminho de forma perfeita, completa, por isso As
Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia139, alertava seus vigários
a visitarem seus paroquianos para que “estes não viessem a morrer sem os
cuidados necessários”.
A sociedade escadense do período estudado compartilhava desse
misticismo em torno do processo de morte e morrer, a preocupação com
os ritos de incorporação e separação como bem explicitam os registros de
óbitos da freguesia.
1.1 OS SACRAMENTOS
A morte como um todo é um processo extremamente rico em
suas representações, onde cada sociedade a concebe de determinada forma. A morte, como a própria sociedade, é um processo que está em constante transformação, à medida que o ser humano muda consequentemente
a morte vai acompanhando essas mudanças, que percebemos em suas práticas e representações, como percebeu Ariés no estudo desenvolvido na
139 Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia feitas, e ordenadas pelo Ilustríssimo e
Reverendíssimo Senhor D. Sebastião Monteiro da Vide, arcebispo de 1702 a 1722: propostas, e aceitas em o Sínodo Diocesano que o dito Senhor celebrou em 12 de junho do ano
de 1707. Impressas em Lisboa no ano de 1719, em Coimbra em 1720 com todas as licenças
necessárias. A obra teve por origem um sínodo que objetivava a organização da vida religiosa
no Brasil Colônia e é considerado um dos mais importantes documentos de cunho religioso
dos tempos coloniais.
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Europa pré-industrial. Sendo assim, a morte se apresenta como um evento
que está atrelado a uma concepção de mundo e que vai se adaptando a ele
conforme suas transformações.
Na medida em que cada sociedade é ímpar em suas múltiplas representações culturais e religiosas, possuindo sua própria visão de mundo,
com seus mitos e crenças a morte do indivíduo se transforma em um momento especial, onde ritos e práticas fúnebres são realizados em função dos
mesmos. Sendo assim aos mortos são depositados todos os cuidados baseados nestas crenças e mitos. Como acontece nas sociedades cristãs onde
os sacramentos são de suma importância para a saúde espiritual do morto,
libertando-o de seus pecados terrenos, de suas transgressões, deixando-os
aptos para adentrar no outro mundo e gozar das coisas espirituais.
Nas sociedades cristãs os sacramentos são vistos como meios eficazes para a salvação do moribundo, em número de sete: batismo, confirmação, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, extrema-unção, ordem
e matrimônio. Os sacramentos estão presentes em todas as fases da vida do
cristão católico, desde o batismo ao matrimônio, até a morte.
Há uma grande preocupação da Igreja para com os fiéis, para que
eles não saiam dessa vida sem os sacramentos; ministrando-os na vida dos
fieis desde a base, ou seja, desde criança. E essa preocupação está visível
nos registros de óbitos de crianças analisados na Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, conforme registro do ano de 1881:
Aos sete de Agosto de mil oitocentos e oitenta
e hum, faleceu depois de nascido e baptizado
privadamente José filho legítimo de Estevão José
dos Santos, e Antônia Pais Barbosa, foi sepultado no cemitério desta cidade vestido de preto,
do que fiz este assento que assinei140
O batismo era uma forma de garantir a salvação da criança caso
ela viesse a morrer, porque segundo a concepção dos doutores da Igreja
servia para tirar a criança do estado de culpa e colocá-la no estado da graça, caso contrário morreria sem a salvação:
140 Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, p. 215,
Livro 03 1878 a 1888.
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Devem os pais ter muito cuidado em não dilatarem o baptismo a seus filhos, por que lhes
não succeda sahírem desta vida sem elle, e perderem para sempre a salvação [...] Como seja
muito perigoso dilatar o baptismo das crianças,
com o qual passão do estado de culpa ao da
graça, e morrendo sem ele perdem a salvação,
mandamos, conformando-nos com o costume
universal do nosso Reino, que sejão baptizadas
até os oitos depois de nascidas. (VIDE Apud VAILATI, 2010, p. 214).
Tendo em vista a importância dos sacramentos e particularmente o batismo que, segundo As Constituições Primeiras do Arcebispado da
Bahia, “causa effeitos maravilhosos, porque por elle se perdoarão todos os
pecados, assim original, como actuaes, ainda que sejão muitos e mui graves”. (GRANADA apud VAILATI, 2010, p. 215).
Em Escada (Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada), na segunda metade do século XIX, a sociedade partilhava dessa
crença no poder dos sacramentos como o centro irradiador e mediador do
perdão, conforme Rodrigues:
Os sacramentos eram, para o cristão, sinais que
simbolizavam o sagrado e pertenciam ao universo da comunicação entre Deus (emissor) e o
fiel (receptor), mas eram sinais eficazes da graça
que o emissor comunicava ao receptor para sua
salvação. Os sacramentos, enquanto sinais do
encontro de Deus com o homem, em momentos
existenciais densos, supunham, expressavam e
alimentavam a fé. Nesse sentido, eram administrados pela Igreja em determinados nós existenciais da vida e da morte. (RODRIGUES, 1997,
p. 176)
De acordo com os registros de óbitos analisados, os sacramentos
eram ministrados a todos os fieis, independente de serem escravos ou não.
No caso de ser criança era ministrado o batismo, sendo adulto, no momen145
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to em que sentia a presença da morte e quando havia tempo recorria-se
ao vigário local e era ministrada a penitência (o moribundo confessava e
pedia o perdão dos seus pecados); eucaristia (entrava em comunhão com
o corpo de Cristo ressuscitado, de forma a garantir, também, a sua própria
ressurreição) e a extrema-unção (era ungido com o óleo da salvação, de
forma a eliminar todos os sinais da maligna), ou seja, todos os sacramentos
eram ministrados na hora da morte, como podemos perceber no documento abaixo:
Aos seis de Junho de mil oitocentos e setenta
e nove, faleceu de bixiga com todos os sacramentos João Pinto da Silva, casado com Maria
da conceição, foi sepultado no cemitério dessa
cidade, vestido de branco, vindo do hospital, do
que se fez este assento que assignei141
Isto se coaduna com a grande preocupação por partes das Constituições Primeiras do arcebispado da Bahia para com o sacramento, recomendando aos padres visitarem seus fregueses enfermos e lhe admoestar
os sacramentos que ainda não tinham recebido tendo cada um dos sacramentos uma função específica como a penitência que segundo as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia é.
a segunda tábua depois do naufrágio; porque
tanto que um homem batizado naufragou pela
culpa mortal, perdendo a graça de Deus, que
no batismo tinha recebido, não lhe resta outro
remédio para se salvar neste naufrágio, mais
que esta tábua do sacramento da Penitência,
confessando inteiramente, e com dor os seus
pecados ao legítimo ministro, e alcançando por
este meio a absolvição deles. (VIDE Apud RODRIGUES, 1997, p.177).
A eucaristia era administrada ao enfermo impossibilitado de sair
de casa, ela reconfortava o moribundo, revigorando as suas forças e permitindo-lhe fazer a sua viagem de forma eficaz, segundo a concepção cristã,
141 Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, p. 134,
Livro 03 1878 a 1888.
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quem morresse depois de ter comungado veria a eucaristia realizar o seu
poder de ressurreição para a glória. Como escreve Damien Sicard:
Quando vires que a sua morte está se aproximando, importante que ele comungue do santo
sacrifício, mesmo já tendo se alimentado neste
dia, porque a comunhão será, para ele, defesa
e ajuda para a ressurreição dos justos. É por
ela que ele ressuscitará’ (SICARD Apud RODRIGUES, 1997, p.178)
Além da eucaristia outro sacramento, talvez o mais importante
entre todos, já que tinha a função especial de ajudar, confortar e auxiliar o
moribundo na hora da morte, momento em que se considerava serem mais
fortes e perigosas às tentações do inimigo comum dos cristãos por ele saber
que tinha pouco tempo para tentá-lo, era a extrema unção.
Seguindo essa linha de pensamento Cláudia Rodrigues diz que, a
extrema unção é um:
Sacramento específico diante da morte possuía efeitos particulares: perdoava os pecados,
aliviando a alma do enfermo; dava-lhe saúde
corporal quando assim conviesse à sua alma e
o consolava, dando-lhe confiança e força para
que na hora da agonia pudesse “resistir aos assaltos do inimigo, e levar com paciência as dores da enfermidade”. As condições para o seu
recebimento eram a enfermidade - grave, com
perigo de vida, e a manutenção da esperança
em viver. (RODRIGUES, 1997, p.179)
A mentalidade cristã em torno do processo de morte e morrer,
na segunda metade do século XIX estava arraigada pela ideia de que a boa
morte era aquela em que o moribundo estava preparado para o momento
e para tanto se fazia imprescindível a administração dos sacramentos que
tinham como função, preparar o moribundo espiritualmente para o momento, livre, sem pecado, sem mácula, pronto para encontrar-se com o
Cristo e ressuscitar com Ele.
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Mas, os sacramentos não eram ministrados a todos em Escada no
período estudado. Ou seja, nem todos tinham uma boa morte, segundo as
constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia:
As condições para o seu recebimento eram a
enfermidade grave, com perigo de vida, e a manutenção da esperança em viver. Não deveria
ser administrada aos inocentes; aos atingidos
por morte violenta por justiça; aos que entrassem em batalha; aos excomungados impenitentes e que estivessem em pecado publico e aos
dementes. Por outro lado, não deveria ser ministrada em tempo interdito, nem pela segunda
vez ao enfermo que já a tivesse recebido durante
a doença, a não ser que esta fosse prolongada e o enfermo tornasse a cair em perigo de
vida. Neste caso seria administrada tantas vezes
quanto fosse necessário. (VIDE Apud RODRIGUES, 1997, p. 179).
A análise dos registros de óbitos da Freguesia de Nossa Senhora
da Apresentação da Escada nos mostrou que a maior parte dos habitantes desta Freguesia não recorria aos sacramentos como recurso para obter
uma boa morte, talvez pela ausência do vigário ou a localização da residência do moribundo, ou seja, a distância da paróquia que dificultava a visita
do vigário, ou como mostra os registros, por morrer repentinamente como
o preto Manoel José que morreu em Maio de 1878:
Aos trinta de Maio de mil oitocentos e setenta e oito, faleceo de bixiga com [...], sem os sacramentos por ser repentinamente o meu parochiano Manoel José, preto, solteiro
representando trinta e cinco annos pouco mais ou menos.
Foi sepultada no cemitério desta cidade, vestida de branco: do que fes este assento que assignei142
Nos registros analisados, 14% dos homens e mulheres moribundos receberam todos os sacramentos, segundo a concepção cristã do que
é uma boa morte, apenas estes estavam preparados totalmente para a hora
142 Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, p88,
Livro 02 1870 a 1878.
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da morte, livre de todos os pecados, sem culpa, prontos para receber a salvação.
Alguns por falta de tempo receberam apenas uma parte dos sacramentos ou um dos sacramentos, como, por exemplo, o parochiano Francisco dos Anjos, no ano de 1878:
Aos vinte e sete de Maio de mil oitocentos e setenta e oito, faleceu de hidropesia, com partes
dos sacramentos e foi sepultado no cemitério
desta cidade vestido de branco, o meu parochiano Antonio Francisco dos Anjos e Carlota
Maria da conceição; do que se fes este assento
que assignei143.
De acordo com os registros de óbitos de adultos, 29% dos homens
e mulheres do período estudado receberam apenas parte dos sacramentos,
se formos fazer uma comparação com os índices de recurso aos sacramentos na região em relação aos de regiões como Salvador, Rio de Janeiro e São
Paulo, que apresentavam em média índices em torno de 60% de recurso
aos sacramentos, vamos perceber que em Escada, os mesmos seriam em
torno de 43% (10% recebendo todos + 29% recebendo parte deles).
Acreditamos que, os motivos alegados para o aumento do número
de moribundos que morreram sem receber os sacramentos, são os mesmos
dos alegados nas demais pesquisas, realizadas por Reis e Claudia Rodrigues, sendo que, a especificidade que se busca demonstrar (mas não se
comprova) seria a da “negligência” do pároco. No entanto, com a falta de
provas, somos levados a concordar com Claudia Rodrigues quando escreve
que,
Grande parte destas omissões de registro estivessem relacionados a outros fatores que não a
recusa aos sinais sagrados. Pode ter sido a causada pela morosidade em acionar o sacerdote a
tempo- diante de uma morte repentina, acidental- ou pela dificuldade de ele, ainda que tivesse
143 Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, p.8, Livro
02 1870 a 1878.
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sido contactado, chegar à casa do moribundo
com prontidão. (RODRIGUES, 1997, p180)
Esses dados nos revelam que os sacramentos na Freguesia estudada eram de suma importância para a mentalidade da época fazendo os
fieis irem a sua procura para receber a salvação, como aponta Rodrigues,
sendo que, na maioria das vezes não havia tempo de serem totalmente ou
em parte ministrados.
Por isso, em 48% dos registros analisados os “parochianos” não
receberam os sacramentos, uns pelos motivos já apontados, e outros por
morrer na hora do parto como, por exemplo, Francisca Maria da Conceição que morreu sem a confissão por ter morrido na hora do parto, como
está escrito no seu registro de óbito, no ano de 1879:
Aos dez de Maio de mil oitocentos e setenta
e nove faleceu de parto sem confissão por ser
repentinamente Francisca Maria da Conceição
com vinte e cinco annos de idade casada com
João Gomes dos Anjos, foi sepultada no cemitério desta cidade vestida de branco do que se fes
este assento que assine144.
Outros não receberam os sacramentos por morrer por facada, ou
por causa da sua condição social, já que a maioria das pessoas que morreram nos engenhos não recebeu os sacramentos e os que receberam foram
sepultados de forma solene como no caso do Capitão Teme Dias de Araújo
que morreu e foi sepultado da seguinte maneira, conforme indica seu registro de óbito;
Aos vinte quatro de julho de mil oitocentos e oitenta e hum, faleceu uma [ilegível] com todos
os sacramentos Capitão Theme Dias de Araujo,
com trinta annos de idade casado com D...foi
sepultado no cemitério da Capela do Engenho
Noruega desta freguesia vestido de abito preto
solenemente encomendado, que se fes este as144 Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, p.222,
Livro 03 de 1878 a 1888.
150
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sento que assignei145.
Entre as pessoas que morreram nos engenhos foram poucas que
tiveram uma boa morte, pois não foi registrado se receberam ou não os sacramentos. Entre os registros analisados, em 9% não havia a nomenclatura
“sacramentos”, ficando impossível saber se receberam ou não receberam os
sacramentos e a ausência dessa nomenclatura se dá em sua maioria com
os registros de óbitos das pessoas que morreram nos engenhos, como por
exemplo, o registro de óbito de Maria moradora do engenho Sibiró Grande:
Aos nove de abril De Mil oitocentos e setenta
e três, faleceo de tísica, Maria, parda, casada
com, Joaquim Claudeiro dos Santos, com idade
vinte annos, e foi sepultado no cemitério de Sibiró Grande, vestida de branco. E para constar fis
escrever este assento que assignei146.
Diferente dos moradores da cidade que sempre vinha especificando no registro o porquê recebeu e o porquê não recebeu o sacramento,
como assentado, por exemplo, no registro de óbito de João Jorge que morreu repentinamente e passou sem os sacramentos e “foi sepultado no cemitério dessa Matriz”:
Aos vinte e seis de fevereiro de mil oitocentos e
setenta, faleceu repentinamente e passou sem
os sacramentos, João Jorge, pardo, que representava ter quarenta annos, casado com Joaquina Maria, foi sepultado no cemitério desta
Matriz de branco e para constar fes este assento
e assignei.147
Pelos dados apresentados, somo levados a supor que, na Freguesia
de Nossa Senhora da Apresentação da Escada no período estudado, foram
145 Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, p.207,
Livro 03 de 1878 a 1888.
146 Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, p.207,
Livro 03 de 1869a 1876.
147 Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, p.12,
Livro 01 de 1864a 1869.
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poucos os que morreram e garantiram, segundo a concepção cristã em torno do processo de morte e morrer, a salvação. Pois, mais da metade morreram sem receber das mãos do mediador (vigário) entre Deus e o moribundo a salvação que vinha através dos sacramentos. Prática esta que tinha a
função de purificar, libertar e preparar o moribundo para o além-mundo,
deixando-o apto para gozar das bênçãos celestiais.
Sendo assim, de acordo com a concepção cristã frente a morte,
e o que diz as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, a maior
parte dos moribundos que morreram em Escada no período estudado, acabou caindo nas garras de satanás, sem forças para suportar as tentações e
a dor de estar partindo de forma tão solitária, abandonado à própria sorte,
morrendo sem o perdão merecido, sem o passaporte de entrada no além
-mundo.
A morte, como as constituições colocam, é o momento em que
o moribundo está fraco físico e espiritualmente e que, segundo Ariés, ele
está em meio a um processo, ou melhor, um julgamento em que a sua alma
está sendo disputada pelas forças sobrenaturais e ele é o espectador desse
conflito espiritual. Como afirma Áries:
Passa-se qualquer coisa que perturba a simplicidade da cerimônia e que os presentes não veem
um espetáculo reservado exclusivamente ao moribundo, que, aliás, o contempla com um pouco
de inquietação e bastante indiferença. Seres sobrenaturais invadiram o quarto e aglomeraramse junto da cabeceira do doente. De um lado,
a Trindade, a Virgem, toda a corte celeste; do
outro Satanás e o exército dos demônios monstruosos. A primeira interpretação é de uma luta
cósmica entre as potências celestiais do bem e
do mal que disputam a posse do moribundo,
como um estranho, esteja em jogo o que estiver.
(ÁRIES, 2003, p.34)
Essa mentalidade cristã, em torno do processo de morte e morrer,
estudada por Áries, em grande medida é semelhante à estudada por Reis na
Bahia e muito próxima ao nosso contexto, por que segundo Reis:
152
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A Bahia da primeira metade do século XIX tinha uma cultura funerária com as características
que acabo de descrever. E era assim em grande
parte por suas raízes em Portugal e África. Em
ambos os lugares encontramos a ideia de que o
indivíduo devia se preparar para a morte, arrumando bem a sua vida, cuidando dos seus santos de devoção ou fazendo sacrifícios aos seus
deuses e ancestrais. Tanto na África como em
Portugal, os vivos – e quanto maior o número
destes melhor- muito podiam fazer pelos mortos,
tornando sua passagem para o além mais segura, definitiva, até alegre, e assim defendendo-se
de serem atormentados por suas almas penadas. (REIS, 1991, p.90)
E as constituições primeiras vêm reforçar a explicação de Reis já
que ela deixa explícito o cuidado que os padres deveriam tomar para com
os moribundos em seus últimos momentos de vida, que segundo ela era o
momento de maior carência e fraqueza espiritual. Além dos sacramentos, a
mortalha vem reforçar e garantir a partida e a salvação do moribundo após
a morte.
1.2 VESTUÁRIO FÚNEBRE
Não é pra ele sair de lá, é só para mudar de roupa, que
não vai se enterrar com essas calças imundas e esse paletó remendado.
Nem sem gravata, ele nunca foi a nenhuma festa sem gravata- acudiu Rosália, a mais velha das raparigas, noutros
tempos xodó de Archanjo.
Outra muda ele não tem.
Por isso não. Dou minha roupa azul, de casimira, fiz para
o meu casamento e está como nova – ofereceu João dos
Prazeres, mestre de marcenaria, residente nas proximidades. – Por isso não – repetiu e foi em busca da roupa.
Jorge Amado, Tenda dos Milagres, 2010.
O fragmento do texto, extraído do livro “Tenda dos Milagres”’, dá
153
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ênfase à importância da veste do morto (Archanjo), mostrando a importância que tinha a roupa na hora da morte, a maneira como o defunto deveria ser vestido antes de ser enterrado, sendo o enterro comparado a uma
festa em que o mesmo deveria ir de calças limpas, paletó e gravata.
Esse episódio se passa na Bahia em 1943, e traduz bem a concepção em torno do processo de morte e morrer na sociedade cristã, a preocupação de como o morto se apresentaria no outro lado. Vestir o cadáver
com a roupa certa podia significar se não um gesto suficiente, pelo menos
necessário à salvação. E a mentalidade cristã estava arraigada por esse poder espiritual da roupa fúnebre, uma mentalidade que não separava a alma
do corpo, em que os dois estavam ligados até após a morte, de acordo com
Vailati:
Tendo origem em tempos nos quais a crença na
separação entre o corpo e a alma não era algo
bem definido, a ideia de que a forma como se
era enterrado era também como se entraria no
além chegou ao século XIX no Brasil. Assumindo
uma dimensão de insondável importância, devia-se cuidar do aspecto pelo qual o corpo se
ia apresentar no ‘Reino dos Mortos’ e disso dependia mesmo a direção que a alma irremediavelmente tomaria na geografia do outro mundo.
De tal modo a escolha da ultima roupa interferia
nos destinos da alma que muitos que testavam
procuravam informar como queriam estar vestido nessa ocasião. (VAILATI, 2010, pp.128, 127)
A roupa fúnebre, a mortalha era de suma importância para a salvação da alma do moribundo, por isso devia o morto ser enterrado com os
seus melhores trajes, essas são crenças que estavam arraigadas no imaginário cristão do século XIX e primeira metade do XX no Brasil, mostrando
que o uso da mortalha ou a roupa fúnebre não era um elemento neutro,
ou seja, que era vestida no defunto apenas por vestir, ela era vestida com
diversos objetivos, entre eles o de aparecer no outro mundo de forma respeitável, de garantir a intervenção dos santos de devoção, por isso muitos
dos testadores estudados por Reis na Bahia preferiam ser sepultado em
trajes de santos.
154
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Ser sepultado vestido de mortalha de santo era ter a certeza de
que o Santo representado pela mortalha iria interceder pela alma do morto
junto a Deus. Ao mesmo tempo em que protegia com a força do santo que
invocava, ela servia de salvo- conduto na viagem rumo ao paraíso. Pode-se
até pensá-la como uma espécie de disfarce de pecador. São muitos os sentidos atribuídos às mortalhas, esses sentidos estão atrelados à concepção que
cada sociedade tem frente à morte. De acordo com Reis:
Embora não tenhamos informações precisas sobre os múltiplos sentidos atribuídos às mortalhas
por nossos antepassados, o certo é que não era
um elemento neutro. Seu uso exprimia a importância ritual do cadáver na integração do morto
ao outro mundo e na sua ressurreição no fim
deste mundo. Era uma representação do desejo
de graça junto a Deus, especialmente a mortalha de santo, que de alguma forma antecipava
a fantasia de reunião a corte celeste. [...] vestir
o cadáver com a roupa certa podia significar, se
não um gesto suficiente, pelo menos necessário
à salvação. (REIS, 1991, p.124)
A simbologia da veste funerária estava presente tanto entre cristãos como entre africanos, sendo o seu uso uma forma de garantir uma
boa morte, um passaporte para a vida eterna entre os cristãos. E entre os
africanos tratava-se de se preparar para o encontro com os ancestrais. Neste caso, a mortalha tinha a função de possibilitar que a alma ao abandonar
o corpo fosse ao encontro dos seus ancestrais e não ficasse vagando pelo
mundo intermediário entre o céu e a terra, atormentando a vida dos vivos.
Sendo assim o uso da mortalha certa, com a cor adequada era de
fundamental importância. Como escreve Claudia Rodrigues:
Nesse sentido, para cristãos e africanos, tinha
grande importância a cor e o tipo da mortalha.
Seu uso tinha a função ritual de integrar o morto no outro mundo. Determinadas cores, mal
empregadas, poderiam, na concepção cristã,
dificultar o desprendimento da alma, funcionam
155
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como uma espécie de barreira à entrada no
Além; outras, pelo contrário, poderiam servir de
identificação e passaporte (RODRIGUES, 1997,
p.196).
Além de falar pelo morto, servindo de passaporte e garantindo ao
mesmo uma viagem segura após a morte, a mortalha seria o ponto principal para proporcionar (segundo a mentalidade cristã e africana) o encontro
entre a alma do morto e seus ancestrais. Da mesma forma que a mortalha
tem o poder de conduzir o moribundo ao outro mundo em segurança,
facilitando a sua entrada no mesmo, Reis diz que enquanto sujeito social a
mortalha falava sobre o morto, a idade, o sexo e sua posição na sociedade.
A pesquisa que nós realizamos, através dos registros de óbitos,
na Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, no período de
1864 a 1888, nos revelou que havia uma grande diferença entre as mortalhas de adultos e crianças, entre o sexo masculino e feminino.
Aos Dezessete de Janeiro de mil oitocentos e setenta e três, faleceu de asmas, Manoel de Barros, casado com R. Maria da Conceição, pardo
com quarenta e cinco annos de idade, foi sepultado no cemitério de Sibiró Grande, vestido de
branco. E para constar fis escrever este assento
que assinei.148
Aos oito de junho de mil oitocentos e oitenta e
hum, faleceu de febre, com parte dos sacramentos Anna Falisvana solteira com desenove annos
de idade, filha legitima de Bernardino Gomes, e
Isabel Maria do Espírito Santo, foi sepultada no
cemitério desta cidade, vestida de Nossa Senhora, do que se fes este assento que assinei.149
Aos deis de Junho de mil oitocentos e oitenta e
hum, faleceu com febre João com dois annos
de idade filho legítimo de Antonio Francisco de
Santanna, e Maria Manoella, foi sepultado no
148
Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada,
p.207, Livro 03 de 1869a 1876.
149
Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada,
p.78 Livro 03 de 1878 a 1888.
156
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cemitério desta cidade vestido de Menino Deos,
do que se fes este assento que assinei.150
No período estudado havia mortalha de cor branca, de preta, de
azul, de Nossa Senhora e Menino Deus, infelizmente alguns registros de
óbito analisados não especificaram a cor da mortalha ou santo de devoção.
Além de calar sobre a cor da mortalha, muito dos registros calaram sobre
a cor do moribundo, como ficou explícito no início do texto sendo impossível fazer um estudo da condição social dos mortos baseado no tipo de
mortalha que ele estava usando no momento do seu enterro.
Sendo assim, vamos mostrar como se vestiam homens, mulheres
e crianças na Freguesia no período estudado mostrando as crenças e o mist
icismo por trás do vestuário fúnebre. Entre os adultos (homens e mulheres) predominou o uso do branco. Segundo os registros de óbito analisados
58% de homens e mulheres foram amortalhados de branco.
O branco é por excelência a cor funerária de diversas sociedades
e concepções, Reis em seus estudos desenvolvidos sobre a Bahia do século
XIX, acerca da morte, assinala que:
Na verdade, várias nações africanas da Bahia
faziam do branco a cor mortuária. Para os edos
do Benim o branco simbolizava a pureza ritual
e paz, ofure na língua local. Entre os iorubas
estava associado ao orixá Obatalá ou Orisala,
senhor da criação e zelador da vida, cuja corsímbolo é o branco (REIS, 1991, p.118).
Mas, se a cor fúnebre africana é o branco ela também se relaciona
basicamente e simbolicamente com a concepção cristã em torno do processo de morte e morrer, pois enquanto na concepção africana ela aproximava
o morto dos seus antepassados tornando-o um ser místico, na concepção
cristã ela proporcionava à salvação e consequentemente a vida eterna. O
branco é às vezes usado nos funerais cristãos para simbolizar a alegria da
vida eterna, que promete a cada crente. (HUNTINGTON e METCALF
apud REIS, 1991).
150
Idem
157
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Outra simbologia atribuída ao branco de acordo com a mentalidade cristã frente à morte é que nos casos das mortalhas havia relação mais
direta com o branco do Santo Sundário o pano que envolveu o cadáver
de cristo e com a qual ele mais tarde ressuscitou e ascendeu ao céu (REIS,
1991). Essa analise de Reis se aproxima da de Claudia Rodrigues quando
escreve que;
Para os cristãos, a cor simbolizava a esperança
na vida eterna, prometida através da Ressurreição, expressando, também, uma identificação
com o santo sudário- tecido branco que envolve
o corpo de Jesus Cristo após a morte no Calvário e com o qual ressuscitou. (RODRIGUES,
1997, p 201)
De acordo com os registros de óbitos assinalados explicitando a
preocupação da Igreja com os sacramentos, desenvolvendo o papel de mediadora entre o moribundo e Deus, procurando salvar a sua alma, somos
levados a supor que o simbolismo atribuído à mortalha de cor branca na
Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada é puramente religioso, ou seja, está atrelado às concepções expostas acima, por isso um
úmero tão grande de pessoas vestidas de branco, contrastando com uso da
cor preta em apenas 16% da documentação compulsada.
Como a cristandade sempre se valeu de símbolos e alegorias para
perpetuar a sua concepção de mundo, esse simbolismo é perpassado na
hora da morte onde a roupa expressa a condição espiritual do morto, como
a cor preta que, segundo os doutores da Igreja é a cor da “penitência” (REIS,
1991).
Para entender melhor essa simbologia Reis faz uma analogia entre
o sexo e a morte e assinala que:
Na relação tão frequente entre a sexualidade e a
morte, lembramos que a tradição de que quem
já perdeu a virgindade, deve ser vestida de preto
na hora da morte, e as mulheres podem ter sido
mais obrigadas a esse costume no passado. Já
o branco seria a cor da pureza virginal e a cor
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que, para a mulher, marca outro importante ritual da vida, o casamento, ritual de despedida
da virgindade e da abertura a procriação. (REIS,
1991, p.120)
Na freguesia pesquisada, entre os 16% que vestiram preto, o número de mulheres se equipara ao de homens, logo somos levados a supor
que o preto utilizado na Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da
Escada está ligado às faltas cometidas tanto por homens quanto por mulheres, sendo que 6% das mulheres foram enterradas vestidas de Nossa Senhora.
Não sabemos se era um grupo específico, ou seja, um grupo de
devotas da Santa, ou se foram mulheres que compartilhavam da mesma
mentalidade estudada por Reis na Bahia oitocentista onde o vestir-se de
Santo era uma representação do desejo de graça junto a Deus, uma forma
de pedir ao Santo que a/o represente junto à corte celeste, a mortalha da
Santa servia como salvo conduto na viagem além-mundo.
Nos casos das crianças que estudaremos a seguir, o simbolismo
por trás das mortalhas de Nossa Senhora não difere muito das definições
encontradas nas usadas por adultos. A melhor definição e que se aproxima
mais da nossa pesquisa é a que a mortalha funciona como uma chave para
facilitar a entrada do moribundo ao além-mundo.
Infelizmente em 20% dos registros de óbitos analisados não encontramos referências à cor da roupa fúnebre. Isso aconteceu normalmente com os registros de óbitos das pessoas que residiam nos engenhos e fazendas na época.
Diferente dos rituais fúnebres ministrados aos moribundos adultos que tem início com ele ainda em vida através dos sacramentos. À exceção do batismo, os rituais em torno da morte infantil se concentram no
momento após comprovada a morte do parvulo como assinala os registros
analisados. Pois, diferente dos adultos não vemos ou não identificamos
menção a sacramentos ou outro cuidado por parte da Igreja nos registros
de crianças como no exemplo a seguir:
Aos quatro de julho de mil oitocentos e seten159
Revista História e Diversidade
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ta e sete, faleceu de moléstia interna o parvulo
Avelino, branco, dois annos incompleto, filho legítimo de Candido José de Siqueira, e Laurinha
Maria da Conceição, foi sepultado no cemitério
desta cidade vestido de preto, do que se fez este
assento que assinei.151
Outro aspecto que notamos através da análise dos registros de
óbitos de crianças na Freguesia pesquisada em torno do gestual da morte
infantil é o aspecto religioso, ou seja, a crença por trás das vestes fúnebres
usadas pelas crianças. Diferentemente do que hoje isso possa parecer, essa
dimensão do gestual funerário está bem longe de ter uma importância secundária e restrita ao plano estético, ou de mero decoro. (VAILATI, 2010)
Lima assinala que a importância que era dada à morte da criança
diz respeito a uma:
Crença no papel de intermediária que a criança morta ocupa entre vivos e as autoridades celestes. Essa função se assentava no estado de
pureza com a qual ela era caracterizada e que
já garantia prerrogativas especiais a crianças
enquanto viva. Isso fica bem exemplificado em
práticas como a participação dos pequenos em
procissões religiosas e, significativamente, na
sua participação nos rituais fúnebres tradicionais. (VAILATI, 2010, p.130)
Essa preocupação com o gestual da morte infantil colocando-a
com esse poder de mediação entre homens e as entidades celestes, são notadas através das análises das roupas fúnebres usadas pelas crianças mortas
da nossa pesquisa, onde segundo registros de óbitos analisados, 41% dos
meninos e meninas foram vestidos de branco na hora da morte como ocorreu:
Aos vinte e cinco de fevereiro de mil oitocentos e
setenta faleceu de [...] a parvula Rosalina, parda
151
Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada,
p.36 Livro 03 de 1878 a 1888.
160
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com treis meses de idade, filha legítima de José
Antonio, e Delfina Maria do Rosário, foi sepultada no cemitério desta Matriz de branco, e para
constar fis escrever este assento que assinei. 152
Na concepção cristã, o branco é por excelência a cor dos mártires
da Igreja, como lembra Royston Pike:“El branco u oro se usa em todas las
festividades principales de La trindad, de Cristo y de La Virgen María, asi
como em lãs de los Santos que fueram confessores o virgenes, pero no mártires”. (PIKE apud VAILATI, 2010).
A simbologia cristã atribuída ao branco enquanto cor fúnebre é
extremamente complexa, alguns estudiosos da semiologia cristã atribuem
ao branco, atributos como a cor da alegria, cor da inocência e da pureza
virginal, como escreveu Pike. Acreditamos que na Freguesia estudada a
mentalidade em torno do processo de morte e morrer estava arraigada pela
crença de que a criança seria a mediadora entre os homens na terra e Deus
no Céu, por isso todos os cuidados para com a criança morta, atribuindolhes atributos divinos.
Além do branco, que o cristianismo desde a sua fundação atribuiu-lhe características divinas, estando presente em quase todas as manifestações religiosas, como está explícito na fala de Pike acima, o imaginário
popular assim como o cristão têm a cor branca como a cor da paz, da alegria, da inocência e da ressurreição do Messias (o Cristo).
Na Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação outras duas mortalhas que expressam esses atributos divinos atribuídos às crianças após a
morte, são as mortalhas de Nossa Senhora e as do Menino Deus. A primeira, de acordo com os registros analisados aparece em 20% dos casos entre
as crianças do sexo feminino e a segunda aparece em 18% dos registros de
crianças do sexo masculino analisados. Sendo apresentados nos registros
de óbitos da seguinte maneira:
Aos treis de Julho de mil oitocentos e setenta e
oito, faleceu Maria com três meses de idade, filha legitima de Francisco Gonçalves, falecido, e
152
Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada,
p.12 Livro 1 de 1864 a 1869
161
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de Agostinha Maria da Conceição, foi sepultada
no cemitério vestida de Nossa Senhora, do que
fes este assento que assignei. 153
Aos onse de julho de mil oitocentos e setenta e
oito, faleceu de moléstia interna o parvulo com
dois annos de idade filho de Domingo Roque
da Costa e Alexandrina Maria, foi sepultado no
cemitério vestido de Menino Deos, do que se fes
este assento que assignei.154
Segundo Thomas Ewbank, era costume no Brasil oitocentista as
crianças serem enterradas envolvidas em mortalhas de Santo:
As crianças com menos de dez e onze anos vestidas de frades, freiras, santos e anjos. Quando
se veste de São João o cadáver de um menino, coloca-se uma pena em uma das mãos e
um livro na outra. Quando é enterrada como
São José, um bordão coroado de flores toma o
lugar da pena, pois José tinha um cajado que
florescia como o de Arão. A criança que tem o
mesmo nome que São Francisco ou Santo Antônio usa geralmente como mortalha um hábito
de monge e capuz. Para os maiores São Miguel
Arcanjo é o modelo. Veste-se então o pequeno
cadáver com uma túnica, uma saia curta presa
por um cinto, um capacete dourado e apertadas
botas vermelhas, com a mão direita apoiada
sobre punho de uma espada. As meninas representam “madonas” e outras figuras populares.
(EWBANK apud VAILATI, 2010, p.129)
Lima, comentando a fala de Ewbank, diz que a preferência pela
veste de Santos já a primeira vista não nos causa estranheza, visto que como
já foi falado nesse trabalho;
153 Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, p.80
Livro 03 de 1878 a 1888.
154 Idem, p.81.
162
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Isso estava de acordo com a crença na qual o
falecido, vestido desse modo, seria favorecido
pela intervenção do santo- que o receberia e
o guiaria em direção ao Céu- de cujo hábito
escolhera por mortalha. Assim seu protetor em
vida não lhe faltaria na morte. Era, em suma,
uma demonstração de fé que certamente seria
reconhecida em tão decisivo momento. Desta
forma, era natural que se escolhessem santos de
sua predileção ou patronos de sua irmandade.
Era comum, como nos ensina a passagem citada acima, que se vestissem as crianças com o
hábito do santo de seu nome. (VAILATI, 2010,
p.130)
O caráter religioso atribuído aos rituais fúnebres infantis é indiscutível do ponto de vista cristão, onde a morte é vista como a transição
entre um mundo de luta e de provações em que o cristão procura de todas
as formas conseguir obter a salvação e consequentemente a vida eterna.
A criança morta, nessa concepção de mundo é colocada como a
chave que vai abrir as portas do além-mundo para facilitar a entrada das
pessoas que ficaram, barganhando junto à corte celeste, as petições dos
seus parentes e amigos terrenos e consequentemente a sua entrada no além
-mundo de forma que seus parentes não fiquem penando no mundo intermediário entre o céu e a terra, atormentando a vida dos vivos.
Outras duas mortalhas que vêm reforçar essa concepção religiosa
em torno da morte infantil na Freguesia estudada é a de cor preta e a azul,
como podemos observar nos registros a seguir:
Aos sete de Agosto de mil oitocentos e oitenta e
hum faleceu, depois de ter nascido e baptisado
privadamente Jose filho legitimo de Estevão Jose
dos Santos, e Antonia Inês Barbosa, foi sepultado no cemitério desta cidade vestido de preto,
do que fes este assento que assignei. 155
155 Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, p.213
Livro 03 de 1878 a 1888.
163
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Aos trese de Maio de mil oitocentos e setenta e
oito, faleceu de moléstia interna e foi sepultado
no cemitério desta cidade, com mortalha asul, o
parvulo Joaquim, com oito meses de idade, filho
legítimo de meus parochianos Romão Francisco
das Chagas, e Josepha Maria da Conceição; do
que se fes esse assento que assignei.156
A primeira aparece em 5% e a segunda em 4% dos registros analisados. Segundo Lima ao funeral infantil era dado um caráter festivo, por
isso era comum algumas crianças se vestirem com cores fortes, vivas;
Evidentemente assim como o branco, essas mortalhas em cores vivas marcam uma forte distinção das dos adultos, em geral pretas, roxas e
de outras core escuras. Isso está, certamente, de
acordo com uma concepção de morte infantil
que via a salvação como garantida e que, por
isso, fazia com que elementos festivos, como é
o caso do uso de cores gritantes, não estivessem ausentes nos funerais de crianças. (VAILATI,
1991, p.139).
E assim era vivenciada a morte na Freguesia estudada de acordo
com os registros analisados entre 1864 e 1888, a preocupação com a passagem do morto para o além-mundo e a importância dos ritos de incorporação e separação como responsáveis pela partida de forma segura, preparado para adentrar os reinos celestiais e com as bênções da Igreja. De certa
forma, a preocupação como o morto e com a morte reflete o medo dos
vivos, e a maneira como eles esperam estar e ser tratados após a sua morte,
por isso diferentemente segundo sua cultura, suas crenças, sua época, os
homens atribuem aos mortos uma vida no além, descrevem os lugares de
sua morada e assim representam o que esperam para si próprios.
Por isso são muitas as sociedades nas quais prevalecem a noção
de que a realização dos rituais fúnebres adequados é de fundamental
importância para a segurança dos mortos e dos vivos e percebemos essa
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Livro 02 de 1870 a 1878.
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importância através das análises realizadas nos registros de óbitos da
Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada.
Sendo assim, o imaginário da morte e da evolução dos mortos
no além constitui universalmente uma parte essencial das crenças religiosas das sociedades, onde aos mortos são depositados todos os cuidados
possíveis para garantir a sua entrada no além-mundo e promover a sua
existência no mesmo. Os registros nos colocaram em um mundo de representação em torno do processo de morte e morrer, um mundo imagético,
criado através de concepções religiosas, tendo como base as doutrinas da
religião católica, mundo esse criado e idealizado a partir das Constituições
Primeira do Arcebispado da Bahia.
ARQUIVO DA ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE CÚRIA
METROPOLITANA
Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, Livro 1 de 1864 a 1869
Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, Livro 03 de 1878 a 1888.
Registro de óbito da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação da Escada, Livro 02 de 1870 a 1878.
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Paulo: Annablume: Fapesp, 2002. DAMMATA, Roberto. A casa
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Janeiro: Guanabara Koogan, 1997.
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de Editoração, 1997.
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2010.
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