Revista Santa Cruz - 1 EDITORIAL Cheio do Espírito Santo, voltou Jesus do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto (Lc 4,1). Seguidores de Jesus, levado ao deserto prestes a dar sua vida em favor do mundo, iniciamos mais um triênio na Província Santa Cruz, após um período intenso que sucedeu o Capítulo Provincial, em outubro passado. A vida se revela como novidade. Os olhos contemplam outros horizontes, escutamos outras vozes. Como peregrinos e forasteiros, seguimos nosso caminho, festejando a vocação de nossos irmãos, acenando agradecidos pela história construída em tantos lugares onde não estaremos mais, louvando o Senhor da vida pelo fim da jornada de alguns de nossos irmãos. O tempo da quaresma nos prepara para a grande Festa da Vida. Ao partilharmos um pouco de nossa caminhada provincial, rendamos graças ao Deus de nossas vidas, “porque vós, Senhor, sois amor. Vós sois o sumo bem, eterno, do qual vem todo bem, sem o qual não há nenhum bem” (cf. Paráfrase ao Pai-Nosso, 2). Boa leitura a todos! Revista Santa Cruz - 1 RECADO DO LEITOR Paz e Bem! Junto-me aos frades da PSC, neste momento de pesar pela passagem de Frei Nicolau. Ele foi meu guardião no postulantado, em 1997, com quem aprendi muito. Que Deus o acolha em seu Reino Celestial. Att. José Geraldo Estevam Prezados confrades da PSC, meus sentimentos pelo falecimento do Frei Nicolau, tive a oportunidade de conviver com ele no postulantado de São João del-Rei, uma grande pessoa, boa conversa e muito trabalhador. Que descanse em paz pax et Bonum! Abraços, Pedro Carlos F. Santos Caros irmãos, hoje à noite [18/12] devo fazer a pregação na novena de Natal aqui na comunidade de São Salvador de Jerusalém sobre o tema: “Alegrai-vos sempre no Senhor, Ele está perto”. Alegria na hora da morte de um irmão é difícil, nem todos somos como São Francisco que podia ser feliz quando a irmã morte se aproximou. Mas, com a morte de frei Nicolau que foi chamado para ficar para sempre junto do Senhor, é inquestionável como o Senhor está perto. A toda a Província, deixo aqui meus sentimentos de pesar, mas também de gratidão pelo irmão que está agora na alegria para sempre. Abraço fraterno. Geraldo van Buul. Paz e bem! Muito nos entristeceu a notícia do falecimento de Frei Nicolau. Mais um que muito trabalhou na evangelização, com sua maneira bem especial, inclusive aqui conosco em Pirapora, foi ao encontro do PAI. Com seu trabalho, cheio de fé, disponibilidade e dedicação, com certeza, Deus o acolheu com muita alegria! Aos senhores 2 - Revista Santa Cruz da Província Santa Cruz, nossos sentimentos! De uma coisa tenham certeza: ele conseguiu firmemente afirmar que “Deus é o centro da vida sacerdotal”. Abraço fraterno, Célia e Amélio Sangiovanni. Eu não me assustei com a notícia do falecimento de nosso confrade Nicolau, porque na semana passada eu o visitei junto com frei Donizetti e não tivemos nenhum contato e eu fiquei assustado com tantos fios e caninhos que estavam ligados nele. Eu quero compartilhar com vocês este momento em que lembramos aquele confrade que realmente só descansou, porque foi obrigado. Quando ele recebeu a notícia do médico que ia só operar no mês de janeiro ele queria voltar no mesmo dia a São João del-Rei. Ele fez a sua opção por Minas Gerais e como ele foi tão atuante em tantas paróquias da nossa Província, otimista e confiante. Que ele encontre muito satisfeito a irmã morte depois de ter servido tantas pessoas na sua caminhada de cristão. Que ele descanse em paz. Recebam vocês todos, meus irmãos, os meus pêsames. Seu irmão em São Francisco, Dom frei Hugo. Caros irmãos. Cheguei a Roma pelas 18h30min. Frei Fábio me acolheu no aeroporto e logo me deu a noticia do falecimento de frei Orlando Moraes. Mesmo tendo conhecimento de como ele estava frágil de saúde, o impacto da chegada da irmã morte sempre nos assusta e nos convida a refletir sobre a nossa condição de peregrinos e forasteiros neste mundo. Agradeçamos ao Bom Deus pelo bem que ele derramou entre nós através do nosso confrade frei Orlando, que agora foi chamado à morada eterna. Frei Orlando, com sua simplicidade e humildade, foi sempre uma boa presença na fraternidade e um testemunho para o povo de Deus que com ele conviveu. Pela dedicação aos trabalhos manuais, sobretudo de alfaiate, marceneiro e na horta, ele demonstrava seu amor fraterno. Longos anos vividos em São João delRei, onde ele, ao seu modo, apreciava a religiosidade, a arte e a música barroca. Lutou contra a doença e, muitas vezes, venceu, inclusive um câncer de estômago que o obrigou a deixar retirá-lo. Mas ultimamente vinha cada vez mais debilitado. Deus deu a ele o descanso. Que encontre acolhida Revista Santa Cruz - 3 na Casa do Pai e o nosso Seráfico Pai São Francisco com todos os Santos se alegrem com a sua chegada para o banquete eterno. Que o Senhor da Vida mande novas vocações franciscanas para manter aceso neste mundo e na nossa Província o carisma franciscano. Com meus sentimentos de pesar, mas também na certeza da ressurreição envio a todos o meu fraterno abraço e enquanto posso a Bênção do Senhor Pai Filho e Espírito Santo. Frei Chiquinho Lisse, 10 de janeiro de 2013. Prezados irmãos, no dia 1o de fevereiro próximo, a Província Santa Cruz vai ter uma festa única na história da Província, pois dois bispos, Dom Belisário e Dom Célio, vão comemorar os 50 anos de entrada no noviciado, em Daltro Filho (RS). Eu estava no segundo ano de filosofia. Mando-lhes uma foto que tirei no dia 31 de agosto de 1967 no nosso convento de Divinópolis, na qual estão os freis Belisário e Célio. Desejo-lhes sucesso com a edição da Santa Cruz, que tem uma ótima qualidade. Pax et bonum. Com um abraço, ‘Norberto’. ERRATA: na Revista Santa Cruz do mês de outubro de 2012; página 178: a Foto mostra Frei Prick com quatro Senhoras. Ao contrário do que publicamos, elas não são suas parentes, mas irmãs de Oirschot, que trabalharam no Brasil. A Irmã primeira da esquerda (Gencian) foi coordenadora do Hospital Felício Rocho. 4 - Revista Santa Cruz SUMÁRIO EDITORIAL.................................................................................................... 01 RECADO DO LEITOR ......................................................................................................................... 02 DOCUMENTAÇÃO ......................................................................................................................... 06 VIDA DA PROVÍNCIA 1. Profissão Solene de Frei Arlaton Luiz ( Frei Waldelir Soares Araújo) .................................................................. 08 2. Província acolhe novos irmãos (Frei Arlaton Luiz) ...................................................................................... 11 3. Entrevista com frei Feliciano van Sambeek (Frei Adenilton Reis Pereira Mendes) .................................................... 13 4. Frei Mariano Gijsen, 60 anos de Ministério Presbiteral (Frei Luciano Lopes) .................................................................................. 20 5. Relato da Experiência de Missão em Angola-África (Frei Rogério de Sousa Rodrigues) ........................................................ 23 MEMÓRIA 1. Memória Histórica da Paróquia São Januário - UBÁ/MG Primórdios da Cidade de Ubá ......................................................................................................................... 28 UMAS E OUTRAS - Humor franciscano .................................................................................. 42 Revista Santa Cruz - 5 DOCUMENTAÇÃO CARTA A TODA A ORDEM, POR OCASIÃO DA JORNADA DA VIDA CONSAGRADA Dois de fevereiro é o dia da Vida Consagrada e a nossa recordação vai a todos os consagrados, particularmente àqueles que professamos a Forma de Vida deixada por São Francisco. Neste dia, enquanto rendemos graças ao Senhor por nos ter chamado a abraçar a vida franciscana e por nos sustentar nesse propósito, acolhemos o convite que nos faz a Igreja e renovemos a nossa consagração Àquele ao qual prometemos seguir mais de perto (cf. CCGG 5,2); Àquele que, seguindo o exemplo de Francisco, desejamos ardentemente descobrir como o Tudo na nossa existência (cf. LA 4); Àquele que confessamos como ‘bem pleno, todo bem, todo o bem, verdadeiro e sumo bem’ (RnB 23,9). 6 - Revista Santa Cruz Diante da Tumba do Apóstolo Pedro, onde terei a graça de concelebrar com o Santo Padre, rezarei por todos vós, meus caros irmãos, a fim de que possais continuar consolidando-vos no santo serviço que haveis tomado com ardente desejo (1LAg 32). Possais continuar ‘crescendo do bem ao melhor, de virtude em virtude (1LAg 32), afeiçoado com o mais profundo do coração, Àquele cujo afeto apaixona (4LAg 9,11). Rezai também por mim a fim que, convosco, consiga a mesma meta à qual todos foram chamados. O meu pensamento e a minha oração hoje vão especialmente aos frades que trabalham e testemunham o Evangelho em situações de fronteira, de modo particular na Síria, Líbia e Egito. Pelas notícias que tenho, os frades que vivem nestes países estão fisicamente bem, mas a situação que atravessam é muito difícil, especialmente na Líbia e Síria. Deus não queira, mas pelo que sabemos os momentos estão muito difíceis. A decisão dos frades de permanecer nesses países, agravadas pelas ameaças que estão recebendo alguns deles, é uma manifestação clara de seu amor por Jesus e pelos pobres. Enquanto, em nome de toda a Ordem manifesto a eles uma imensa gratidão por esse serviço à fronteira da missão, asseguro a eles a oração de todos nós. Não estais sós, meus caros irmãos. Convosco estamos todos nós, frades dispersos pelo mundo inteiro, mas convosco está, sobretudo, Jesus, que não vos abandonará. A vós digo o que o Seráfico Pai dizia aos seus filhos: “confiai em Deus e Ele cuidará de vós”. E com o Beato Junípero Serra, missionário e apóstolo da Califórnia, que celebramos neste ano o III centenário de seu nascimento, vos digo: Avante, sempre avante! Caros irmãos, rezemos pela paz e reconciliação nestes países, em todo o mundo. Rezemos pelos nossos países e em todo o mundo. Rezemos pelos nossos irmãos na Líbia, Síria e Egito. O Senhor seja a sua segurança, guarda e defensor (cf. LodAl 4,5). A todos vós acompanhe a bênção do Pai São Francisco. Vosso irmão, ministro e servo. Fr. José Rodríguez Carballo, ofm Ministro Geral, OFM Revista Santa Cruz - 7 VIDA DA PROVÍNCIA Nesta sessão, expressamos nossa alegria pela vocação de quatro de nossos irmãos. Frei Arlaton Luiz, por ocasião de sua profissão solene, dia 02 de fevereiro de 2013; frei Feliciano e frei Mariano, pelos seus 60 anos de vida presbiteral; e Frei Rogério Rodrigues, que nos conta de sua experiência em terras angolanas, no ano passado. 1. PROFISSÃO SOLENE DE FREI ARLATON LUIZ Frei Waldelir Soares Araújo, ofm 8 - Revista Santa Cruz Iluminados com as luzes da solenidade da Apresentação do Senhor, Frei Arlaton Luiz Soares de Oliveira, ofm, consagrou sua vida solenemente a Jesus Cristo, esposo da Igreja. A celebração foi presidida pelo Ministro Provincial Frei Francisco Carvalho Neto. Escutando o chamado do próprio Senhor que diz, ”vem e segue-me” (Mt 19, 21), muitos frades de várias fraternidades da Província Santa Cruz, postulantes, religiosos, familiares e amigos de Frei Arlaton, acorreram, com suas lâmpadas acesas para Revista Santa Cruz - 9 testemunhar este importante momento em sua vida. Nas mãos do Ministro Provincial, Frei Arlaton afirmou seu desejo de se consagrar definitivamente na Ordem dos Frades Menores, fazendo-se assim servo de todos por causa do Evangelho. Em seus agradecimentos, o neoprofesso ressaltou, de maneira 10 - Revista Santa Cruz positiva, os anos de formação, os companheiros que fizeram parte de sua caminhada e sua família, que foi a sua primeira experiência de vivência em fraternidade. Desejamos ao nosso confrade muita perseverança e felicidades em sua consagração, que nosso pai São Francisco o oriente nos caminhos do Senhor. 2. PROVÍNCIA ACOLHE NOVOS IRMÃOS Frei Arlaton Luiz Neste ano de 2013, 15 jovens de diversas regiões de Minas Gerais e também do Espírito Santo, iniciaram seu itinerário formativo em nossa Província. Destes, 9 ingressaram no Postulantado e 5 no Aspirantado. Atualmente são 14 postulantes, sendo 9 do primeiro ano e 5 do segundo, e 20 aspirantes que cursam o Ensino médio, em Santos Dumont. Dois estão no primeiro ano, 6 no segundo e 12 no terceiro. O ingresso no Aspirantado ocorreu no dia 3 de fevereiro e no Postulantado, dia 31 de janeiro. Os novos postulantes foram acolhidos em uma celebração realizada no dia 24 de fevereiro, pelo Ministro Provincial Frei Francisco Carvalho Neto. Postulantes, juntos com o formador, frei Geraldo Luciano, e frades da fraternidade. Revista Santa Cruz - 11 Aspirantes, em Santos Dumont ,com frei João Ricardo, formador Esses jovens prosseguirão sua trajetória formativa com o intuito de conhecer mais de perto a vida franciscana. 12 - Revista Santa Cruz 3. ENTREVISTAS Este ano, temos a alegria de celebrar os 60 anos de vida presbiteral de dois de nossos irmãos. Nesta ocasião, frei Feliciano e frei Mariano, mesmo convalescente, nos contam um pouco de sua caminhada. ENTREVISTA COM FREI FELICIANO VAN SAMBEEK Frei Adenilton Reis Pereira Mendes, ofm RSC: Frei Feliciano fale-nos um pouco de sua família, sua vocação. Frei Feliciano: No sul católico da Holanda, havia muitas vocações sacerdotais e religiosas. Em cada paróquia sempre uns cinco meninos estudavam em algum seminário menor. Cada ano havia a Primeira Missa de um ou dois sacerdotes novos. Muitos deles foram trabalhar fora da Holanda. Eu tinha cinco tios Padres. Dois eram párocos na nossa terra, dois missionários na África, mais meu tio frei Geraldo van Sambeek no Brasil. Ele pediu para vir ao Brasil por causa de frei José de Haas, conterrâneo seu. Meu tio João era bispo na Tanzânia. Depois, eu tinha sete primos Padres. Deles, um era missionário no Haiti, um na Tanzânia e meu primo frei Edgar Groot, no Brasil. Edgar era da turma de frei Felix. Todos tinham grande prestígio na família e na região. Sem falar das freiras, inclusive, minha única irmã se tornou religiosa Ursulina. Em casa, eu era o quarto dos cinco filhos. Em 1939, meu pai me mandou para o internato Ruwenberg dos Fráteres da Misericórdia. Eles davam ensino primário excelente e favoreciam as vocações. Lá, terminei o primário, em 1940. Aí, meu pai me perguntou: “o que Você quer ser?” Falei: “Padre”. “Muito bem, disse papai, vou mandar você para o seminário dos franciscanos em Venray”. Lá, eu estudei interno, e meu irmão Martinho também. Papai foi colega dos freis Florentino e Baltazar Bröllmann e de frei Liberto Soppe. No Gymnasium Immaculatae Conceptionis estudei todo o tempo da Segunda Guerra Mundial, de 1940 a 1946. Era colega de frei Hildeberto Polman e de frei Elias Hooij. No Convento em frente ao ginásio, comprava os livrinhos de frei Fidêncio sobre São Francisco. Entrei para a Ordem Terceira dos internos. Um colega me falou: “se você pretende entrar para a Ordem Primeira, deve começar na Ordem Terceira”. Revista Santa Cruz - 13 Quando meu pai me visitava no seminário, ele chamava frei Bartolomeu para a sala de visita, e frei Rumoldo, e outros freis idosos que tinham sido professores dele. Papai oferecia vinho e charutos, enquanto lembrava os velhos tempos. Ouvi frei Rumoldo dizer a meu pai: “ser frei é muito bom, menos quando se é velho!” Ora, de lá para cá as coisas melhoraram, pois acho excelente o trato que recebemos aqui em Carlos Prates. Na nossa terra, a nossa família tinha poucos laços sociais. Meu pai e dois irmãos dele eram sócios na fábrica de sapatos, fundada por meu avô paterno. Tio Walter era vice-prefeito, mas meu pai se isolava da política local. Aliás, nós, os cinco filhos, todos estudávamos como internos. RSC: E seu ingresso na Ordem Franciscana? Frei Feliciano van Sambeek 14 - Revista Santa Cruz Frei Feliciano: A entrada do Noviciado em Vlodrop, em setembro de 1946, foi uma transição grande, mas nós estávamos mentalmente preparados. Éramos 36 noviços. Quase todos vieram dos três seminários franciscanos: Venray, Megen e Katwijk. Eu já conhecia Hildeberto Polman desde 1940. No noviciado, cheguei a conhecer Mariano, Adalberto e Fortunato. O inverno 46/47 foi duro em Vlodrop: durante seis semanas fez 13 graus abaixo de zero. E nós de sandálias, sem meias. RSC: Por que o senhor optou pelo Brasil? Frei Feliciano: Na ordenação, em 15 de março de 1953, éramos 25 frades. Desde o noviciado, em 1946, optei pelo Brasil por causa do tio frei Geraldo e do primo frei Edgar. Neste ano de 1953, houve um apelo do Comissariado de Divinópolis para mandar mais frades para o Brasil. Este apelo rendeu a vinda de Mariano, Hildeberto, Adalberto e Fortunato van Vugt. Mas, antes de partir, havia o chamado “ano pastoral”. Parte do programa era por conta de Frei Odulfo van der Vat (+1966), missiólogo, historiador e ex-missionário do Brasil. Cada semana, ele dava para os “brasileiros” durante uma hora e meia língua portuguesa, e uma hora e meia, “vida brasileira”. Contou tudo sobre o clima, o povo brasileiro, os costumes, a política, as reduções jesuíticas no Rio Grande do Sul, o Império, o Padroado, Marquês de Pombal, a expulsão dos Jesuítas, a perseguição aos religiosos, as ordens desfalcadas, a abertura depois da Proclamação da República, as confrarias, as Ordens Terceiras, a restauração da vida religiosa, etc. RSC: Conte-nos sobre sua adaptação ao chegar ao Brasil. sociedade europeia, e o Brasil é católico. Colegas nossos que foram para Paquistão, Indonésia ou Nova Guiné, eles sim, enfrentaram um outro mundo. Além do mais, nós estávamos preparados para tudo. A primeira hospedagem foi em Cascadura, uma casa velha, poeirenta, caindo aos pedaços. Achávamos que todo o Comissariado seria assim. Quando cheguei ao magnífico Colégio de São João del-Rei, me achei no luxo. Já em Cascadura, comecei a entender e falar o português, graças às aulas de frei Odulfo. Desde o primeiro dia a gente celebrava para o povo, porque tudo era em latim. Mas uma vez me enganei feio sobre a índole do povo brasileiro. Foi na segunda manhã Frades no navio quando chegaram ao Rio de Janeiro em 5 de outubro após o desemde 1954: frei Paciano van Schaijck, frei Mariano Gijsen, frei Hildeberto barque. Frei HilPolman, frei Feliciano van Sambeek, Emílio Boudens (seminarista). deberto e eu acordamos com estrondos e exFrei Feliciano: De navio francês, chegamos ao Rio de Janeiro no plosões debaixo da nossa janela. dia 5 de outubro de 1954. Muitas Falei com Hildeberto: “Está vendo? vezes os brasileiros nos perguntam América Latina é assim. Faz dois sobre as dificuldades na mudança meses, Getúlio Vargas se suicidou e para o Brasil. Eram mínimas. No agora tem revolução”. Ao descermos Brasil, há a cultura europeia, para a missa, perguntamos a frei Revista Santa Cruz - 15 Solano Geubels (+1979) sobre a revolução. “Revolução que nada. Os tiros? Estava saindo a procissão!” me forçou a estudar a relação entre ciência e fé. Ambas emanam do mesmo Autor, e nunca pode haver contradição verdadeira entre elas. RSC: Boa parte de sua vida o senhor exerceu o ofício de professor. Partilhe conosco como foi essa experiência. O que me ajudou muito no ensino da Física foi a aparelhagem da marca alemã Phywe. O laboratório de São João del-Rei virou cinza, mas ainda tinha um laboratório igual em Belo Horizonte. Fazendo experiências, as aulas de Física ficam bem mais interessantes. Muitos alunos se tornaram engenheiros, professores de Física e pesquisadores. Frei Feliciano: Quando cheguei ao Brasil, os confrades do Comissariado se dedicavam a três setores: pastoral paroquial, ensino e formação. A surdez me limitou, mas não me impediu de trabalhar como Padre e Professor. Uma grande sorte foi que o Definitório me mandou estudar Física na UFMG. Gostei de estudar e de lecionar. Fiz vestibular em fevereiro de l956 e me formei em 1961. Lecionei na Rua Pernambuco, em São João del-Rei e em Santos Dumont. O magistério me deu muita satisfação científica e humana. O estudo da Física fortaleceu minha fé, porquanto ela A maioria dos freis que atuavam no ensino ajudava nas paróquias nos fins de semana e nas férias. Morando na Rua Pernambuco, prestei serviços na Baleia, em Contagem, Fazenda do Rosário, bairro Santa Inês, bairro União, favela do Cafezal, bairro Mangabeiras e no Vale do Jatobá. De 1965 a 1967, fui diretor e guardião em São João delRei. Dei conta do recado, com a ajuda de Estêvão, Jordano, Metelo, Diogo, Augusto, Paciano e Ângelo. Dava também regências e aulas, inclusive na Faculdade Dom Bosco. Mas, algumas noites, senti meu coração reclamar. Lembrei-me dos casos de Bertrando e Concórdio, e Frei Feliciano dando aula de física no ColégioSanto pensei: “melhor ser soldado raso”. Achei bom quando frei Antônio, em Belo Horizonte. 16 - Revista Santa Cruz Geraldinho me sucedeu. E, anos depois, veio o caso de frei Hilário. Frei Diogo Reesink e frei Feliciano, em 1966. RSC: E seu trabalho nas paróquias? Delfim, os rapazes vão perder a fé. Eles falam com os pais para chegar cedo e assistir nossa missa dominical”. No aniversário do bispo, nossos seminaristas fizeram seresta para ele, cantando “Para mim a chuva no telhado, o evangelho é a boa-nova” etc. O bispo batia ritmo com o pé episcopal, e falou: “que bonito, que bonito, pode até cantar na igreja”. Falei: “Dom Delfim, é isso que fazemos na capela do Colégio”. Falando em música: fui seresteiro, maltratando um teclado. A partir de 1986, a Província me mandou para as paróquias. Gostei muito de conhecer mais da Província: Corinto, Santos Dumont (CJF e paróquia S. Miguel), São Dimas, Taiobeiras, Pirapora, Cabo Verde, S. João del-Rei, outra vez Taiobeiras, Rua Pernambuco, Areias, e agora Carlos Prates. Frei Feliciano: Em São João delRei, apoiei a aceitação da nova paróquia, apesar das complicações com a Venerável Ordem Terceira. Pensei: “o Colégio vai acabar. Havendo paróquia, os freis afeiçoados a São João poderão ficar morando lá”. E assim aconteceu, pois ficaram Metelo, Jordano, Frei Feliciano em um batizado na Paróquia Santo Antônio, em Belo Horizonte. Seráfico, Orlando e Estanislau. Uma vez, o bispo Dom Delfim Ribeiro Guedes me chamou, querendo proibir as missas “Yê Yê Yê” no Colégio, com bateria, guitarra e vibrafone. Falei: “Dom Há gente que pede para lembrar algum fato marcante da minha trajetória. Fato marcante há, mas não é edificante. Agradeço a clemência dos confrades e a Revista Santa Cruz - 17 paciência dos guardiães e do Provincial que pude superar tal fato marcante. Pensando nessas coisas, vejo que não vou deixar nenhuma obra importante para a Província, nem na pastoral, nem na física. Isto nunca veio na minha cabeça. Vou pensar no caso, quem sabe. RSC: O senhor viveu as renovações do Concílio Vaticano II. Como foi esse período em sua experiência? Frei Feliciano: Eu vivi as mudanças conciliares com entusiasmo. Briguei muito com a Venerável Ordem sobre: virar o altar, celebrar em português, tocar violão, essas coisas. Mas observo, com espanto, viradas de 180 graus na Vida Religiosa. No modo de pensar antigo, o religioso devia diferenciar-se o mais possível das “pessoas no mundo”, no modo de pensar, de falar, de vestir, de viver. A tendência atual é de nos igualar o mais possível à vida do povo. Na nossa formação, foi-nos ensinado que os superiores determinariam nosso serviço. Hoje, os superiores perguntam o que queremos fazer. Antigamente, a Província dizia aos frades o que fazer. Agora os frades dizem à Província o que fazer. 18 - Revista Santa Cruz Foi-nos ensinado que observar o silêncio é uma virtude. Hoje silêncio é defeito. Tem que ter conversa, comunicação. Ficar calado é defeito. O mestre nos instruiu para reduzir os contatos e correspondências com familiares e parentes. Nem havia visitas ou férias na casa dos pais. Hoje, o contato com familiares parece totalmente liberado. No modo de celebrar a liturgia, nosso mestre insistia que não podia haver nenhuma palavra ou gesto pessoal. O povo não podia dizer “gosto mais da Missa do Padre A do que do Padre B”. Hoje parece que quem improvisa mais celebra melhor. No nosso tempo de filosofia e teologia, todo o tempo fora do Ofício era dedicado ao estudo. Pastoral nem pensar. Até no “ano pastoral” depois da ordenação o trabalho pastoral era restrito a ouvir confissões e Missas nas paróquias vizinhas. Hoje, até a localização da casa de estudo é escolhida em vista da pastoral. Pelo que vi na casa do bairro Mineirão em 1992, o tempo dedicado ao estudo era mínimo. Não digo que as inovações estão erradas. Apenas observo com espanto. Frei Feliciano com as irmãs Clarissas do Mosteiro Santa Clara, em Belo Horizonte. RSC: Ao celebrar 60 anos de vida presbiteral, que mensagem o senhor deixa para seus confrades? Frei Feliciano: Fazendo um balanço, depois de 60 anos de sacerdócio, agradeço a Deus pela minha vocação franciscana e sacerdotal. Fui feliz na Frei Feliciano e Frei Mariano, 2013. vida fraterna que tive com meus confrades holandeses gratificante por causa da fé do e brasileiros. Quero agradecer- povo, e o respeito e o carinho que lhes pela paciência que tiveram o povo tem para com seus Padres. comigo. Agradeço aos meus su- Além do mais, eu gostava de visitar periores por ter-me admitido ao as comunidades rurais e ver os sacerdócio e por ter-me mandado morros e as serras pela porta aberta para o Brasil. Tenho sido muito feliz da capela. por viver neste país maravilhoso e Velho é quem parou de sonhar conviver com seu povo carinhoso. A gente viveu longe dos paren- e começou a se lamentar. Não tes mas, em compensação, curti lamento, e ainda tenho alguns muitas amizades. sonhos. Porém, meu maior sonho é Fui feliz no magistério e na que Deus me conceda uma morte paróquia. A pastoral paroquial é tranquila. Paz e Bem. Revista Santa Cruz - 19 4. FREI MARIANO GIJSEN, 60 ANOS DE MINISTÉRIO PRESBITERAL Frei Luciano Lopes, ofm Frei Mariano Gijsen RSC: Frei Mariano, conte-nos um pouco sobre sua família e sua infância. Frei Mariano: fui batizado com o nome de Frans Lucas Ferdinand Gijsen. Minha mãe se chamava Dorothea Witteveen e meu pai, Cornelius Ferdinand Gijsen. Éramos sete irmãos: quatro homens e três mulheres. Nasci no dia 18 de fevereiro de 1921, na cidade de Den Haag, na Holanda. Em minha infância, meus pais me educaram na fé católica. Gostava de servir o altar, como coroinha. Meu pai me incentivava muito a participar das missas. Ele tinha feito um altar de brincadeira no sótão e tudo que o padre usava na missa ele comprou. Eu brincava 20 - Revista Santa Cruz de celebrar missa, convidava os irmãos e irmãs, batendo num pequeno sino. A brincadeira mais tarde acabou séria. Depois, fui estudar no seminário menor, para fazer o ensino colegial. Tive o melhor professor de física e matemática da cidade de Venraay. Essas eram minhas matérias prediletas. Após os estudos, resolvi sair do Seminário e ficar oito anos fora da casa de formação. Nesse tempo, trabalhei no escritório da Paróquia e na livraria de meu pai. RSC: Como foi para o senhor o período da Guerra? Frei Mariano: meu pai foi levado pelos soldados alemães de trem até a cidade de Vught, a 112 km distante de nossa cidade. Alistei-me no exército da Holanda e, em 1940, com 19 anos de idade fui tentar livrar o pai da prisão. Propus aos alemães uma troca, que soltassem o meu pai e eu ficasse em seu lugar. Eles aceitaram e fiquei preso por seis semanas. RSC: Partilhe conosco sobre seu percurso vocacional e seu desejo missionário. Frei Mariano: Quando terminou a guerra, voltou minha vontade de ser frade franciscano. Com o apoio de meu pai e do pároco, ingressei na Ordem no dia 7 de setembro de 1946. Fiz minha profissão solene no dia 8 de setembro de 1950, e fui ordenado presbítero em minha cidade natal, Den Haag no dia 15 de março de 1953. Minha primeira missa foi em Wassenaar, a 13 km dali. Há muito tempo eu queria ser missionário. Pensei a princípio ir para Indonésia ou Nova Guiné, mas acabei escolhendo o Brasil. A minha irmã, Corrie Gijsen van Doornik, já tinha vindo morar no Brasil, em 1953. De certa forma, ela influenciou minha escolha e acabei optando em vir para o Brasil, em 1954. Em nossa viagem para o Rio de Janeiro, viemos Frei Hildeberto Polman, Frei Paciano van Schaijik, Frei Feliciano van Sambeek e eu. RSC: No Brasil, por onde o senhor passou? Frei Mariano: A primeira cidade mineira onde morei foi em Teófilo Otoni, onde também estudei a língua portuguesa. Em 1957, fui para Salinas, como vigário paroquial. Depois, em meados de 1958, fui para Ubá; como Frei Pedro Schretlen foi gozar férias na Holanda, fiquei como substituto, sendo vigário paroquial. No ano de 1959, fui para Divinópolis, onde permaneci por 12 anos, fiquei como pároco de 1962 a 1965 e, no ano seguinte, fui eleito definidor. Depois fui morar em Cascadura, no Rio de Janeiro, no ano de 1971. Ao ver os problemas sociais daquele local, das crianças, adolescentes e jovens carentes, quis encontrar uma forma de ajudá-los. RSC: E seus trabalhos com os menores? Frei Mariano: A Campanha da Fraternidade de 1987 teve como tema: “Fraternidade e o Menor”. Como lema: “Quem acolhe o menor, a mim acolhe”. Fiquei muito tocado por essa realidade. A imagem de Jesus Cristo está no menor. A partir daí, no mesmo ano, comecei meus trabalhos no Rio de Janeiro como capelão da Fundação Nacional do Bem-estar do menor (FUNABEM), instituição federal encarregada de lidar com menores infratores. Porém, em 1978, um dos menores me deu um tiro que me acertou o lado esquerdo abaixo da barriga. Fiquei vários dias hospitalizado. Depois, voltei para Minas Gerais, no ano de 1980, fui vigário paroquial de Carlos Prates. Retornei para Revista Santa Cruz - 21 o Rio de Janeiro em 1986, como pároco da Pároquia Santo Sepulcro de Cascadura. Em agosto de 1989, vim para Belo Horizonte e dei continuidade aos trabalhos feitos no Rio de Janeiro. Assim foi criada a “Associação Irmão Sol”, que acolhe, até os dias de hoje, os meninos e meninas de rua. recebessem como seus próprios filhos, oferecendo-lhes valores sociais e referências de vida. As casas de acolhida da Associação Irmão Sol passaram então a ser geridas por um casal que acolhiam os meninos de rua, os educavam e com eles conviviam juntamente com seus filhos biológicos. O objetivo desse projeto é prover um lar para as crianças, darlhes um ‘pai’ e uma ‘mãe’, que os Para mim, o Projeto Irmão Sol ajudou e continua ajudando muitas crianças, adolescentes e jovens, recebendo novos valores morais que os libertam da excessiva agressividade e das práticas antissociais. Crianças assistidas pela Associação Irmão Sol, em Belo Horizonte. Frei Mariano Gijsen sendo homenageado pelo prefeito de BH, Márcio Lacerda, pelos trabalhos da Associação Irmão Sol (5/09/2011) 22 - Revista Santa Cruz 5. RELATO DA EXPERIÊNCIA DE MISSÃO EM ANGOLA-ÁFRICA Durante o ano de 2012, frei Rogério Rodrigues, após ter feito sua profissão solene, passou o ano de presença franciscana em Angola, junto à Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola, ligada à Província da Imaculada Conceição do Brasil. Nesta oportunidade, ele partilha conosco como foi esua experiência. conduzidos para a fraternidade de Viana, onde ficamos até regularizar a nossa documentação. Quando saiu o nosso Visto de permanência, fomos para as nossas respectivas fraternidades. Fr. Felipe ficou em Viana, Fr. Lucas em Kibala, e eu, em Malange. Fr. Rogério de Sousa Rodrigues, ofm Aos 09 dias do mês de fevereiro de 2012, embarcavam no aeroporto internacional de Guarulhos, em São Paulo, os freis: Jandir, da Província Imaculada Conceição do Brasil, de São Paulo; Felipe e Lucas, da Província Santíssimo Nome, de Goiás, e eu, Rogério, da Província Santa Cruz, de Minas Gerais, com destino a Angola, para uma experiência de missão ad gentes junto ao povo angolano. No dia 10, às 14h, desembarcamos no Aeroporto Internacional ‘04 de Fevereiro’, de Luanda, sendo recebidos pelos freis: Sebastião Kremer e Manuel. Frei Jandir foi para sua nova fraternidade do Bairro Palanka, e nós fomos Frei Rogério e demais frades que com ele foram para Angola Fiquei um mês e meio em Viana, onde já iniciei as atividades em Angola. No mesmo dia em que chegamos, participamos da vigília em preparação para a ereção da nossa nova paróquia, no bairro Estalagem, em Viana, que contou com um grande número de fiéis que passaram a noite toda em oração. No dia 12 de fevereiro, participamos da missa festiva presidida pelo Bispo D. Joaquim, que fez a ereção da paróquia Nossa Senhora de Fátima e deu a Revista Santa Cruz - 23 posse aos dois párocos: Fr. Ângelo e Fr. Antônio. Estiveram presentes uma grande multidão de fiéis, padres, religiosos e religiosas nessa celebração. Frei Rogério e o Ministro Geral Frei José Rodrigues Carballo Ainda em Viana, tive a oportunidade de começar a conhecer um pouco da realidade e cultura angolana. Visitei todas as comunidades da paróquia, rezando com o povo a Via-Sacra e, em algumas, presidindo celebrações, visitei algumas famílias do bairro, participei do retiro dos religiosos de Viana e da reunião dos missionários, do encontro com o nosso Ministro Geral Fr. José C. Rodriguez, em sua visita à Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola, do encontro com a Família Franciscana de Luanda, de celebrações com as Irmãs Hospitaleiras e assessorei um encontro vocacional em nossa casa de Viana. Com isso, pude conhecer um pouco as 24 - Revista Santa Cruz riquezas e sofrimentos do povo angolano e da realidade que estaria por vivenciar durante o ano. Tendo saído o meu Visto de permanência no país, no dia 24 de março, nas primeiras vésperas da solenidade da Anunciação do Senhor, cheguei à Fraternidade Seminário Monte Alverne, em Malange, onde residi durante nove meses, ajudando na secretaria da escola da missão e dando aula de psicologia. Além de ajudar a fraternidade nos trabalhos da casa, ajudei a pastoral da saúde, levando eucaristia para os enfermos, visitando as famílias, fazendo curativos e encomendações. Nos finais de semana, tinha atividades nas aldeias e alguns eventos na Paróquia Mártires de Uganda, no serviço de animação vocacional da arquidiocese. Participei de celebrações festivas e de confraternizações, das reuniões de missionários e do convívio com os aspirantes. Trabalhos estes que me ajudaram a conhecer um pouco da cultura e realidade do povo angolano e, de forma mais específica, do povo malangino, através da escuta das histórias deles e da vivência no dia a dia. E um dos relatos que ouvi do pósguerra, e que muito me marcou, foi que, logo após a guerra, os missionários estiveram em uma aldeia e, na despedida, os aldeães Frei Rogério num tanque de guerra, resquício da guerra em Angola, terminada em 2003. disseram: “Não nos deixem órfãos”, pois naquele momento eles tinham apenas o apoio da Igreja e se ela os deixassem, ficariam sozinhos, sem um porto seguro. No segundo dia em que cheguei à Malange, tive a oportunidade de ter o primeiro contato com os catequistas das aldeias em um encontro de formação na comunidade de Cangandala e, durante o ano, estivemos reunidos em outros encontros. Juntamente com frei Ivair, que andou comigo apresentando as aldeias, celebramos o Domingo de Ramos na Aldeia do Xacanária, o Tríduo Pascal nas aldeias do Tumbua, Bembo e Mulamba e, durante o ano, acompanhamos a aldeia do Mutemba, onde iniciamos a reconstrução da Igreja de Santa Maria. Durante o ano, estive celebrando com o povo das aldeias do Quisamba, Clemente, Camembe, Suingue, Tamba, Kulamagia, Tumba Quicala, Cajiza, além de outras aldeias que visitei da nossa missão da Katepa. Conheci também as missões de Calandula, de Mussolo e do Lombe. Pude conhecer as maravilhas das quedas de Calandula, Musselege e do Rio Kwanza, belezas que me encantaram, como também as misérias de um povo sofrido e esquecido pelo descaso do governo nas aldeias e nas cidades. Presenciei realidades duras e sofridas que mexeram muito comigo, de ver pessoas que são privadas de atendimento Revista Santa Cruz - 25 adequado da saúde, da escola, de uma alimentação saudável, da falta de água tratada e rede de esgoto, e de moradias mais dignas, que são coisas de direito do povo para ter um mínimo de dignidade. Apesar de ser um povo marcado pela guerra que terminou recentemente, traz consigo um ar de alegria e esperança de dias melhores, mesmo com a crença do feitiço que existe lá, pelo qual acusam os tios ou vizinhos como responsáveis pela morte de um ente querido, podendo até matá-los. Este foi um assunto da assembleia arquidiocesana deste ano, na qual foi discutida a feitiçaria e a banalização da vida. Contudo, o povo tem uma fé fervorosa, as celebrações são marcadas pelo canto e pela dança e eles têm um respeito pelo sagrado e pela pessoa do religioso. Quando eu fui, tinha a intenção de contribuir com a missão de lá, mas era tudo novo para mim. Contudo, conforme foram surgindo as necessidades, ajudava naquilo que era possível e, assim, foi toda a minha temporada. Quando cheguei, nos meus primeiros dias, ouvi de frei Pappy, um angolano, que eles estão lá por falta de opção e que nós estamos por amor, pois deixamos nossa pátria para estarmos com eles. Na hora não compreendi o que ele quis dizer com isto, pois ainda não conhecia Angola e o povo angolano. Recordei-me, então, de nosso confrade frei Raul, que certa vez Frei Rogério com jovens em uma escola, em Angola 26 - Revista Santa Cruz Frei Rogério em meio às crianças num povoado de Angola disse que não amamos aquilo que não conhecemos; só conseguimos amar a partir do momento em que conhecemos. Porém, foi com o passar dos dias, semanas e meses que eu pude conhecer aquele povo e passei a amá-lo. Dessa forma, compreendi melhor a fala dos nossos dois confrades quando eu estava quase voltando ao Brasil, pois começou a bater uma saudade já antecipada daquele povo, porque, conhecendo-o, aprendi a amá-lo. São pessoas boas, generosas e acolhedoras que marcaram a minha estadia nesse período que lá passei. No dia 27 de dezembro, retornei trazendo saudades e muito aprendizado, foi uma experiência muito rica e ímpar, aprendi bastante com o povo angolano e tenho o desejo de um dia poder voltar. Finalizo este pequeno relato da experiência que tive em Angola, a qual foi muito positiva para mim, com um trecho de uma música que aprendi lá e que muito me marcou: “Como hei de agradecer a tamanha graça que o Senhor me concedeu?...” Revista Santa Cruz - 27 MEMÓRIA MEMÓRIA HISTÓRICA DA PARÓQUIA SÃO JANUÁRIO, UBÁ – MG Em fevereiro de 2013, os frades menores encerraram sua presença junto à paróquia São Januário, em Ubá. Apresentamos aqui um pequeno histórico das quase seis décadas junto a essa cidade, aproveitando antigas publicações da PSC. PRIMÓRDIOS DA CIDADE DE UBÁ Tudo indica que a cidade de Ubá começou com um movimento povoador, no fim do século XVIII e começos do século XIX, quando ocorreu em Minas Gerais a decadência da mineração 28 - Revista Santa Cruz aurífera. Famílias inteiras que dela participavam, deixaram as regiões de Ouro Preto, Mariana, Ouro Branco, Itabira e Guarapiranga, procurando terras onde pudessem se dedicar ao cultivo da terra. Uma das famílias, o casal CapitãoMor Antônio Januário Carneiro e Francisca Januário de Paula Carneiro, ali se estabeleceu e iniciou a construção da Fazenda Boa Esperança, onde existe atualmente o Ginásio São José. Dotado de profundo espírito religioso, decidiu o Capitão doar parte da fazenda para a construção de uma capela em louvor ao santo de sua devoção. Em 1815, concedida a licença do Príncipe Regente D. João, naquele local foi construído o pequeno templo dedicado a São Januário e o Padre Manuel de Jesus Maria celebrou a primeira missa. Casas beirando o caminho, nas proximidades da igrejinha, cresceram rapidamente, dispersando-se pelas imediações. Desde dezembro de 1950, os franciscanos já atuavam na paróquia Nossa Senhora da Encarnação, na vizinha cidade de Guiricema. Era grande o interesse da Província Santa Cruz em trabalhar nesta região da Zona da Mata Mineira, tão rica em vocações. O contrato assinado com o bispo de Leopoldina, Dom Delfim Ribeiro Guedes, previa a permanência dos franciscanos em Guiricema por cinco anos. Em janeiro de 1957, vencido o tempo planejado, o Definitório provincial e a diocese, após estudarem a situação, resolveram proceder com a entrega da paróquia em Guiricema e em troca aceitar a paróquia São Januário, em Ubá, em caráter definitivo. Para lá foram então enviados frei Pedro Schretlen, como primeiro vigário franciscano, e frei Cornélio Gottenbos, como coadjutor, que chegaram à cidade em 28 de janeiro de 1957. Frei Cornélio conhecia muito bem essa região e sua realidade, visto que seu último posto de trabalho foi exatamente em Guiricema (RSC 1957, p. 6-7). Os dois frades entregaram-se logo à cura de almas do bom povo da “Cidade Carinho”. Pouco depois de assumir a paróquia e iniciar o que seria o maior projeto de sua vida, frei Pedro foi de férias para a Holanda, de maio de 1958 a janeiro de 1959; frei Mariano Gijsen assumiu o posto de substituto do vigário durante essas férias. Em setembro, ainda de 1958, frei Hilário (Myron) Meekes, recém-chegado ao Brasil, deu uma passadinha por Ubá, a fim de aprender o idioma e se aclimatar, antes de seguir para Divinópolis e concluir seu curso de teologia (RSC 1958, p. 59 e 150). Revista Santa Cruz - 29 FREI PEDRO SCHRETLEN Frei Pedro Schretlen (1896-1972) Em seu In Memoriam, escrito por frei Olavo Timmers: “Frei Sabino Staphorst o descreve como um ‘vigário de mão cheia, que conhece todo mundo pelo nome e trabalha como um burro (referindo-se à quantidade, não à qualidade de seu trabalho). É adorado por seus paroquianos’. Participou das importantes fundações do Colégio Cristo Rei, em Ladainha, no nordeste mineiro, e do ginásio São Francisco, em Pará de Minas. Trabalhou também no Ginásio Santo Antônio de São João del-Rei e depois na fundação do Colégio Santo Antônio, em Belo Horizonte. Foi pároco em Pirapora até ser nomeado para Ubá, em janeiro de 1957. 30 - Revista Santa Cruz Frade experiente e muito empreendedor, ao chegar à cidade tratou logo de conhecer seus paroquianos e a realidade em que eles viviam. Mas, ainda em novembro de 1957, frei Pedro sofreu um ataque de ‘angina pectoris’, complicada por uma trombose pulmonar, por isso ele ficou algum tempo em Belo Horizonte, a fim de submeter-se a um tratamento médico. Mais fortalecido, em julho de 1958, foi pelo resto do ano em férias na Holanda. Frei Mariano Gijsen o substituiu dignamente durante esse período. Voltou em janeiro de 1959. Com seus sessenta e tantos anos, não pensava ainda em descansar. Pelo contrário, desenvolveu atividade como no tempo de Ladainha e Pará de Minas. Com espírito de civismo patriótico (pela Lei Municipal nº. 386, de 19 de fevereiro de 1959, foilhe concedido o título de cidadão honorário ubaense) e com caridade cristã, construiu em Ubá aqueles monumentos que testemunharão à futura geração os sinais de sua presença: a Associação Beneficente Católica (ABC), o lactário, a maternidade, o Hospital Santa Isabel, a nova casa paroquial, a matriz reformada. E, sobretudo, a renovação e reanimação do espírito religioso e comunitário dos paroquianos de São Januário (RSC 1972, p. 152-162). Ubá 1: fachada do Hospital Santa Isabel (6 de setembro de 1965) [na placa se lê: “Moderno Hospital Santa Isabel: esta obra deve-se à generosidade dos católicos alemães”] Quando de sua viagem à Holanda, era desejo dos familiares de frei Pedro que este não voltasse mais ao Brasil. Para não contrariar, de antemão, este desejo tão natural, levou consigo sua coleção filatélica, seu único “hobby”, e seus poucos apetrechos, como se fosse para ficar na sua terra natal. De lá, escreveu aos seus confrades de Ubá que seu coração estava hesitando entre dois amores: Brasil e Holanda. Afinal, despediu-se para sempre de seus caros e, em novembro de 1971, voltou com toda a sua bagagem. Esperava viver ainda por algum tempo; não calculava deixar, em breve, este mundo que achava bastante divertido. Não era um ‘bon vivant’. Mas, com espírito franciscano, sabia apreciar os benefícios e encantos que o Criador nos deu para gozar com parcimônia. Por isso, todo o mundo gostava daquele frade “simpático”, pois com compreensão, sabia avaliar e desculpar os modos dos outros, e nunca com desdém desprezava qualquer ‘pecador ou publicano’. Os médicos lhe impuseram um rigoroso regime para salvar-se agora da morte iminente, visando ao ‘milagre’ de libertá-lo das consequências da pancreatite que o arrastou ao hospital no dia Revista Santa Cruz - 31 26 de agosto: durante um ano inteiro abster-se de álcool, da sua ‘cervejinha’. Não escapou desta vez. Aos 28 de agosto de 1972, recebeu os santos sacramentos em conforto da sua alma e em alívio das dores. Aos 2 de outubro, levaram-no ao hospital, “seu” hospital, e poucos dias depois, de ambulância, ao Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, onde foi operado. Os médicos constataram câncer nos rins. Voltou ao meio de seu povo, onde, no Hospital Santa Isabel, faleceu aos 11 de dezembro de 1972. No dia seguinte foi enterrado no túmulo que ele mandou fazer para si, ao lado do seu confrade e cooperador frei Cornélio. FREI CORNÉLIO GOTTENBOS Frei Cornélio Gottenbos (1916-1970). De acordo com seu In Memoriam, Frei Cornélio veio para o Brasil em 1955. Sua saúde era bastante precária – vivia com um só pulmão – e, como ouviu de outros frades missionários que o clima do Brasil era favorável à sua condição de saúde, tomou a decisão de se entregar à cura de almas no alémmar. Foi enviado para Abaeté, onde tomou o primeiro contato com o idioma antes de ser nomeado coadjutor em Guiricema. Já que frei Cornélio se havia treinado bastante nas lides pastorais, ele pôde, desde sua chegada a Ubá, sem demora, lançar-se de cheio ao trabalho. 32 - Revista Santa Cruz Frei Cornélio com crianças da primeira eucaristia (20 de janeiro de 1959). Ubá e, principalmente a paróquia São Januário, haviam de ser o terreno principal onde seu zelo apostólico desenvolver-se-ia em toda sua plenitude. Um confrade, que com ele aí trabalhou nos primeiros tempos, esboçou com pinceladas fortes a imagem desse apóstolo, principalmente entre os pobres e necessitados, assim: ‘Frei Cornélio tinha duas paixões: crianças e pobres. A cruzada, ele a tinha muito bem organizada; as crianças gostavam dele como padre e amigo. Os pobres de São Sebastião eram sua grande preocupação: as viúvas, as famílias numerosas, os pequenos sem casa, roupa, alimentação. Ele, que vivia com um só pulmão, andava de bicicleta no calor de Ubá, diariamente até o bairro dos pobres para darlhes toda a assistência, e brigava para poder conseguir o que era necessário. Brigava mesmo, pois frei Cornélio não era mole não. Tinha uma natureza enérgica, não se acomodava. Tinha sua opinião e seguia à risca aquilo que considerava justo e certo. Os políticos sofreram com ele, porque era franco, mas justamente com essa franqueza ganhou seus melhores amigos” (RSC 1970, p. 150-154). No dia 16 de abril de 1969, frei Cornélio viajou em gozo de férias, sendo substituído por frei Fidelis. Regressou no fim desse mesmo ano, parecendo bem Festa de São Januário. Ano desconhecido. Revista Santa Cruz - 33 animado. Com todo o entusiasmo, reiniciou seus trabalhos à frente da paróquia. O Hospital Santa Isabel, que tanto exigira de suas energias na fase da construção, encontrava-se em dificuldades de funcionamento. Não foram poucos os esforços envidados por frei Cornélio, buscando contornar inúmeros problemas. Também não faltaram as decepções nos entrechoques de má vontade de alguns e pessimismo de outros. Mas tudo foi superado, como já indicamos, graças à abnegação e firmeza admiráveis do frei. TUDO MUDOU Fernanda Carneiro Ubá, 1957. Há 50 anos, a igreja de São Januário estava em estado lastimável. O padre Jésus, que renunciou ao cargo de pároco, não é pecado lembrar – espantava os fiéis. Os paramentos e objetos litúrgicos estavam decompostos, a instalação elétrica arruinada, a casa paroquial depenada, a igreja esvaziada e abandonada. Em 28 de janeiro de 1957, tudo mudou. Chegaram os franciscanos. Matriz de São Januário, ainda com duas torres. 34 - Revista Santa Cruz Ao tomarmos conhecimento da situação depauperada da antiga casa paroquial, constatamos que eles não reclamaram em nada dessa falta de tudo. Frei Pedro Schretlen, aos 61 anos, tornou-se pároco da Igreja São Januário de Ubá, com seu coadjutor frei Cornélio Gottenbos, com 41 anos, ambos holandeses. Dois exemplos de sacerdócio – amor, simplicidade, doação e larga cultura humanista. Realizaram obras de mestres. Em 1964, chegou frei Martinho (Warken), fervoroso, com sua banca de livros, e em 1965, frei Júlio (Loenen) fundando a JEC – Juventude Estudantil Católica, ambos conscientizadores do papel dos jovens no mundo. A Igreja fervilhava... E outros franciscanos vieram, e até hoje aqui estão. Conta Dona Olga Carneiro que, depois da missa de apresentação dos frades, na fila de cumprimentos, ela confidenciou a frei Pedro – “Seja bem-vindo, frei Pedro, mas eu tenho de lhe confessar um pecado: eu não gostava do padre anterior”. E eis que ele soltou uma sonora gargalhada. Assim era ele. Foi o início de uma amizade para ela e cada um de nós. Era só deparar com aquele sorriso que nossos corações se abriam para sua palavra bem-humorada e carregada de sentido. Sua voz era de barítono, um vozeirão mesmo. Era divertido observar o seu modo de agir, seus gestos bruscos, seu modo todo especial de bater a porta do sacrário, de jogar a chave sobre o altar. O espírito de cooperação imperou. As mulheres reestruturaram a casa paroquial, a instalação elétrica foi refeita, e logo no primeiro mês... dez mil comunhões! Um espanto. Os paroquianos conheceram uma nova pedagogia. Os sermões de frei Pedro, na missa das dez, eram feitos em série... quanta sabedoria! Dirigiam-se aos homens, às mulheres, e a Igreja lotava. Pedro e Cornélio – dois irmãos, dois amigos, uma só prática: o amor ao próximo. Frei Pedro, alegre, culto, extrovertido, espontâneo e festeiro, sem contar os whisquinhos que gostava de tomar; frei Cornélio, tímido, suave, realizador. Está lá, registrado no Livro de Tombo e em nossos corações: “Frei Pedro foi mais ubaense que os aqui nascidos, porque foi ubaense por opção, por amor”. A Associação Beneficente Católica – ABC No ano de 1981, frei João José van der Slot foi a Ubá, conferir “in loco” a história das grandes obras sociais que surgiram com a chegada dos franciscanos à cidade. Vamos conferir o que ele descobriu: “Ubá possui uma periferia com população bastante pobre. Revista Santa Cruz - 35 Existem as favelas. E também na zona rural a pobreza é grande. Foi isto que sentiram frei Pedro e frei Cornélio. E diante dessa situação, procuraram meios para aliviar os sofrimentos do povo humilde. O primeiro passo foi a criação da Associação Beneficente Católica, mais conhecida como ABC. Isto se deu no dia 16 de março de 1958. Nesse dia foi inaugurada também a primeira obra da ABC: o lactário e a sopa para crianças pobres. Para isto foi construído um barracão ao lado da igreja de São Sebastião. Em 1960, surgiu mais uma obra: uma vila de casas para viúvas com quatro ou mais filhos menores. No início, foram feitas duas casas. Porém, era o grande sonho de frei Pedro e frei Cornélio construir uma maternidade e um hospital infantil. Se o lactário e a vila das viúvas já foram construídos com bastante dificuldade, mais difícil seria a construção de um hospital. Mas os dois não desistiram da ideia. E, com a ajuda de muitos, foi realizado também esse ideal. Em 1962, a Prefeitura Municipal de Ubá doou um terreno de trinta e seis mil metros quadrados, destinado à construção do hospital. A ideia de fazer uma maternidade e um hospital infantil foi abandonada, no sentido que se fez um hospital só, o Hospital Santa Isabel, com 36 - Revista Santa Cruz três unidades: Hospital das Clínicas ‘São Boaventura’, Hospital Infantil ‘Antonina Coelho’ e a Maternidade ‘Hilda Nogueira da Gama’. Com a ajuda da “Misereor” (Obra Social da Igreja Católica da Alemanha) e com outras verbas do Estado e da Federação, como também o auxílio da comunidade local, os freis conseguiram iniciar essa grande obra. Dizer que a ABC é uma obra franciscana não é demais. E isto por vários motivos. Em primeiro lugar, ela foi iniciada pelos franciscanos e até agora (1981) um franciscano foi o diretor da obra. Depois, embora ela esteja situada dentro da Paróquia São Januário, não está ligada diretamente a essa paróquia, mas bem mais à Província Santa Cruz. Com pedra fundamental lançada em 1963, o HSI foi inaugurado no ano de 1969, como Maternidade e Hospital Infantil Santa Isabel, da Associação Beneficente Católica, tendo como Diretor o Frei Cornélio Gottenbos, e como Presidente o Dr. Ivahir da Rocha Reis. Desde o início do funcionamento, o hospital tem como propósito destinar 2/3 dos leitos hospitalares aos pacientes carentes, o que tem sido cumprido até os dias atuais, quando mais de 70% dos leitos e serviços são destinados aos usuários do SUS. Presença de outros confrades Por ser uma comunidade famosa em sua hospitalidade, vários frades vindos da Holanda para trabalhar no Brasil foram encaminhados para lá, a fim de aclimataremse, aprenderem o idioma e se treinarem nas lides paroquiais, como: frei Oscar van der Neut (1961-1962), frei Antônio Francisco Blankendaal (1962-1964), Frei José da Cruz Kokkelkoren (1964). Passaram por lá também vários vigários cooperadores, que muito ajudaram na cura de almas do bom povo de Ubá. Frei João Maria van Dam trabalhou na paróquia de março de 1960 a maio de 1961; frei Edmar Polman, de maio de 1961 a janeiro de 1962. Frei Solano Geubels, durante todo o ano de 1962. Frei Venâncio Goris ficou um pouco mais, de maio de 1963 a fevereiro de 1966. Frei Solano Geubels Frei Martinho (1903-1979). Warken, de janeiro a dezembro de 1964. Frei Júlio Loenen, que chegou em dezembro de 1964 e permaneceu até janeiro de 1970. Em março de 1971, frei Pedro completou seu jubileu áureo de presbítero com uma animada comemoração. Em recompensa de uma vida sacerdotal tão fecunda, foi-lhe concedido o prazer de celebrar esse jubileu de ordenação com seus parentes na Holanda, partindo para lá no dia 20 de abril. Enquanto isto, a paróquia ganhava a ajuda de mais um cooperador: frei Fortunato van Vugt, em julho de 1971 (RSC 1971, p. 143). Durante os meses de maio a dezembro de 1973, frei Francisco Antônio de Kerkhof substituiu a frei Fortunato, durante as férias deste na Holanda. Na Lista Capitular de 1974, frei Humberto foi confirmado como vigário de Ubá, fato este ratificado algumas páginas depois, mudando efetivamente a direção da paróquia. Frei Fortunato assumiu como vigário em fevereiro deste ano, tendo frei Humberto como seu coadjutor (RSC 1974, p. 150, 178). Mas frei Fortunato viria a ficar pouco tempo em Ubá, sendo novamente transferido em setembro de 1975. Frei João José van der Slot foi o novo padre nomeado para comandar a Paróquia São Januário e tomou posse em setembro de 1975 (RSC 1975, p. 171). Em fevereiro de 1977, com a realização de mais um Capítulo provincial, a paróquia teve Revista Santa Cruz - 37 novamente mudado seu vigário: frei Adriano de Wit chegou para ficar um bom tempo em Ubá, contando com a incansável ajuda de frei Humberto (RSC 1977 p. 139). Frei Adriano de Wit Mas, como em dezembro de 1977, frei Humberto resolveu voltar à pátria e passar ali seu “otium cum dignidade”, a Província foi buscar um coadjutor ali pertinho, em Visconde do Rio Branco. Frei Helano van Koppen atendeu prontamente ao chamado de seus superiores e se mudou para Ubá em 21 de dezembro (RSC 1977, p. 213). Frei Adriano contou com a ajuda de uma série de bons coadjutores: frei Helano van Koppen (dezembro de 1977 a junho de 1978), frei Bento van den Broek (junho de 1978 a fevereiro de 1980), frei José da Cruz Kokkelkoren (novembro de 1978 a fevereiro de 1980 e, novamente, de janeiro de 1983 a março de 1998), frei Cristiano Teunissen (fevereiro de 1980 a março de 1983), frei Aurélio Peters (fevereiro a agosto de 1980). O Capítulo Provincial realizado em janeiro de 1986 promoveu mudanças na equipe paroquial. Com a transferência de frei Adriano para Salinas, frei José da Cruz foi 38 - Revista Santa Cruz nomeado novo pároco de São Januário, ajudado por frei Ambrósio Boude, seu vigário paroquial. Frei Marcos Monteiro Rodrigues foi enviado em outubro de 1986, para ajudar nessa paróquia em pleno crescimento (RSC 1986, p. 379). Frei José da Cruz e Frei Marcos Monteiro em frente à casa paroquial Durante os meses de março a maio de 1992, frei Alexandre Noordeloos ajudou na pastoral da paróquia. Em maio, a comunidade teve a alegria de receber novamente a frei Adriano de Wit, desta vez como vigário paroquial. A chegada de frei Adriano foi muito bem-vinda também para os frades da comunidade, já que frei Ambrósio apresentava alguns problemas de saúde que o afastavam do trabalho pastoral. No final de agosto desse ano, foi inaugurada mais uma ala do Hospital Santa Isabel que é hoje um moderníssimo hospital com competente corpo clínico e equipamento adequado (RSC 1992, p. 90, 148). Os anos mais recentes No dia 4 de julho de 1993, a paróquia e a comunidade provincial sofreram com o falecimento repentino de frei Ambrósio, que se encontrava no Convento São Francisco das Chagas, em Belo Horizonte, para tratamentos médicos. Depois de avisados do ocorrido, o bom povo de Ubá pediu ao Governo provincial a honra de sepultar este grande amigo em sua cidade. Pedido aceito. Nos dias 8 a 18 de agosto de 1994, o então Promotor Vocacional dos franciscanos, frei Juvenil Batista da Cruz, esteve na paróquia pregando a novena do padroeiro. Foi uma oportunidade de fervorosa oração e devoção em pleno mês vocacional. O entusiasmo e a participação foram tão intensos que até o pregador se comoveu: “Fiquei ligeiramente apaixonado pelo povo ubaense!” (RSC 1994, p. 220). Frei José Roberto Garcia Lima se mudou para a cidade no dia 13 de maio de 1995, sendo ele o responsável por acompanhar a pastoral da juventude. No dia 1º. de outubro de 1995, foi criada a Paróquia de São Sebastião, desmembrada da Paróquia São Januário. Durante as férias de frei José da Cruz na Holanda, de outubro de 1995 a fevereiro de 1996, frei Daniel Navarro o substituiu à frente da paróquia. Ao final de 1995, foi inaugurada a UTI Irmã Dulce e o Auditório Santo Antônio, do Hospital Santa Isabel. A UTI está credenciada e todos têm acesso a ela (RSC 1995, p. 268, 384, 386). Frei Juvenil foi nomeado pároco de Ubá, pelo Congresso Capitular, em dezembro de 1997. Como vigários paroquiais: frei José da Cruz e Frei Juvenil Batista frei Marcos. A partir de então, a paróquia contou também com a ajuda de um jovem frade de profissão temporária, que durante um ano esteve ali durante o tempo de presença franciscana. O primeiro formando a fazer essa experiência foi frei Cláudio Augusto de Barros (RSC 1997, p. 499). A posse de frei Juvenil aconteceu no dia 6 de fevereiro de 1998, às 19 horas. Em dezembro de 1999, foram enviados dois formandos para o tempo de experiência franciscana, são eles: frei Geraldo Machado de Oliveira e frei Vicente Paulo do Nascimento (RSC 1999, p. 408). O Capítulo Provincial, realizado em outubro de 2000, transferiu frei Marcos para o Convento em Divinópolis. Para auxiliar frei Ju- Revista Santa Cruz - 39 venil, foi enviado o diácono frei Donizete Afonso da Silva, que chegou em janeiro de 2001 (RSC 2000, p. 432-434). A Matriz de São Januário foi reinaugurada no dia 11 de novembro de 2001. Com a ajuda de seus paroquianos, frei Juvenil devolveu à comunidade a igreja totalmente reformulada. A “missa de reinauguração” foi presidida pelo bispo de Leopoldina, Dom Célio de Oliveira Goulart, ofm. O Ministro provincial, frei Luciano Brod, também se fez presente (RSC 2002, p. 6). Ainda nesse ano de 2001, frei Juvenil aproveitou para fazer uma boa reforma na casa paroquial. Para isto, ele e frei Donizete se mudaram, até o fim da reforma, para a Rua Esperanto, 194, 40 - Revista Santa Cruz no bairro Santa Cruz (RSC 2001, p. 98). Assim como frei Cornélio Gottenbos fazia antigamente, frei Donizete percorria a cidade de ponta a ponta com sua inseparável bicicleta, até que, em 28 de agosto de 2002, foi transferido para Jequitinhonha (RSC 2002, p. 14, 129). Frei Juvenil ficou sozinho na paróquia até a nomeação de seu novo auxiliar, frei Francisco do Carmo Carvalho, recém- ordenado diácono e que ficou em Ubá de agosto de 2003 até o final do mesmo ano, quando frei Juvenil ficou novamente sozinho à frente dessa grande paróquia. Com o Capítulo de 2006, frei Juvenil foi para Belo Horizonte. Para assumir a paróquia São Januário, foi nomeado frei Marcelo Garcia dos Santos, tendo frei Márcio Carneiro Cabral como vigário paroquial (RSC Especial Capítulo 2006, p. 269). Frei Marcelo Garcia dos Santos tomou posse na paróquia em 3 de março de 2007 (RSC 2007, p. 7). Com a entrega da vizinha paróquia de Guidoval, frei Adriano de Wit se juntou aos confrades de Ubá. Nomeado vigário paroquial em abril de 2007, só chegou à cidade no final de agosto, depois de merecidas férias na Holanda (RSC 2007, p. 70). Frei Márcio se despediu da paróquia em dezembro de 2009, após a realização de mais um Capítulo Provincial. Para auxiliar frei Marcelo e frei Adriano, foi nomeado frei Teodoro Verkuijlen, que não demorou a chegar, trazendo seu marcante bom humor e muita disposição para seu novo trabalho paroquial. Ordenação presbiteral de Frei Eron (19 de março de 2010) Dia 19 de março de 2010, às 19h, na Matriz de São Januário, Frei Eron Costa Cerrato foi ordenado presbítero por Dom Frei Dario Campos - OFM, bispo da diocese de Leopoldina. Frei Eron, nascido na cidade, voltou à terra natal para ser ordenado sacerdote na presença de seus familiares e amigos. A comunidade paroquial se cobriu de emoção para tão importante data. A Matriz ficou pequena para a multidão que se comprimia para louvar e agradecer a Deus pelo dom da vocação de Frei Eron. Ubá comemorou, no dia 7 de abril de 2011, os 170 anos de criação da Paróquia de São Januário com uma Missa em Ação de Graças na Igreja Matriz. A cerimônia contou com a presença do bispo de Leopoldina Dom Dario Campos, que concelebrou a Missa com o pároco Frei Marcelo Garcia dos Santos e com o padre Carlos, da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário. O anúncio da entrega da paróquia São Januário ao bispo diocesano de Leopoldina, Dom José Eudes Campos do Nascimento, foi publicada após decisão do Congresso Capitular, em dezembro de 2012. A celebração de despedida se deu no dia 28 de fevereiro de 2013, encerrando assim os 56 anos de presença dos frades na Cidade Carinho. Fontes: Revista Santa Cruz / Arquivo Provincial / Arquivo da Paróquia São Januário, Ubá. Revista Santa Cruz - 41 UMAS E OUTRAS Momento virtual Nossos frades dão mostras de que o mundo virtual chegou mesmo à nossa vida. Sobretudo os adolescentes têm na internet uma fonte inesgotável de interação. Prova disso são frei Joel Postma e frei Basílio de Resende, que depois que descobriram o ‘feicibuque’, suas vidas nunca mais foram as mesmas. 42 - Revista Santa Cruz No caso de Frei Ademilson, ocorreu que, ao bater o maior papo virtual com frei José Silva, lá pelas tantas, descobriu que não se tratava de nosso confrade de Salinas, mas de um personagem apocalíptico. Coisas da vida pós-moderna. Pêsames inesperados O hábito e o monge Frei Elias é a prova de que o hábito não faz o monge. Durante suas férias, é capaz de marcar os compromissos e depois correr feito louco atrás de um hábito emprestado. Por sorte, tem encontrado modelos bem iguais ao seu biótipo. Mas, se continuar assim, vai acabar usando burel pega-frango, tamanhos extralarge. Mas se “pé de pobre não tem tamanho”, corpo de frade também não. A saída de frei Leonardo de Divinópolis, após tão pouco tempo, foi motivo de cobertura televisiva e tudo mais. Na celebração de despedida, berrantes, oferendas e tantos outros símbolos lembraram o carinho do frade pela religiosidade popular. Até aí, tudo bem. O problema foi a chamada do noticiário ao dizer: “Divinópolis se despede de frei Leonardo”. Não tardou para muitas pessoas nas redes sociais darem os pêsames à província pela ‘perda’ de um frade tão bacana. Liga não, gente, ele tá vivinho da Silva. Só se mudou pra ‘capitar’. Revista Santa Cruz - 43 Cadê, cadê, Cadêêê começou a chorar e o frade sem saber onde colocá-lo. Vale a dica de um curso de babá para os momentos de apuros. Frade nota zero O hit de Frei Paulo Afonso está ‘bombando’ na internet. A pedido de frei Joel, foi feito um vídeo da música durante a visita do Ministro Geral à Província. O próximo passo deverá ser a coreografia. Alguém se habilita? Cadê o Menino Jesus? Durante a celebração do Natal, Frei Márcio Cabral ia se esquecendo do dono da festa. O Menino Jesus 44 - Revista Santa Cruz Se no mundo estudantil, o maior elogio é o aluno nota dez, no caso de nosso confrade, frei Luciano Brod, a alegria veio em ter levado um belo de um zero. Mas não foi em nada relacionado às aulas, se bem que o frade dá uma aula de bom exemplo ao ter tirado zero no exame do bafômetro. E saiu todo feliz: “Tirei zero, tirei zero”. E ainda levou uma lembrancinha do guarda pelo bom comportamento. Quem vê tamanho não vê coração Nossas felicitações ao novo mestre de postulantes, frei Geraldo Luciano, - Lucianinho, para os íntimos - pelo seu aniversário. A data tem de ser lembrada porque, embora a fita métrica diga que o frade é apenas uma criança, nosso irmão chega ao meio século de vida. No aniversário, enfeitado com motivos da Turma da Mônica, houve muitos docinhos, balões, chapeuzinho de papel, pula-pula e muita música pra galerinha dançar. Parabéns, confrade, continue não só com o corpinho de criança. Pena que a Xuxa não pôde vir. Nova Tábula capitular Em tempo, devemos lembrar que a lista de transferências dos irmãos após o capítulo provincial saiu meio incompleta. Alguns nomes deveriam ser incluídos, mas agora queremos reparar o lapso: Maricota, Jurema, Carminha, Beth e Carlão, galináceos do convento de São João del-Rei, após o tempo de postulantado, foram aceitos para o noviciado, em Montes Claros, e acompanharam o guardião, frei Jaime Eduardo. Sadã, canino da fraternidade Boaventura, em Betim, ainda não tem fraternidade, mas já está certa a transferência. Pedimos aos confrades que atualizem os dados no Conspecto Provincial. Revista Santa Cruz - 45 Repeteco de nomes Ao ligar para algumas casas da Província, a pessoa deverá dizer bem com quem deseja falar, afinal, em alguns lugares há muitos nomes repetidos. Na fraternidade Boaventura há dois freis Luiz (Luiz Antônio e Luís Fernando); no convento em Betim há dois Lucianos (Brod e Lopes); na Duns Scotus há dois Vicentes (Lopes e Ronaldo), em Carlos Prates há 3 Franciscos (Prick, Carvalho e Alexandre). Quando quiser ligar, a dica é ser bem preciso: o baixo ou o alto, o gordo ou o magro, o bonito ou o feio, e se, mesmo assim, houver empate, peça pelo RG. 46 - Revista Santa Cruz GP da PSC Bem, amigos, nosso campeonato automotivo de 2013 começa com a corda toda. Frei Basílio inaugura um novo modelo: um carro que solta os faróis, que ficam dependurados, proporcionando ao piloto iluminar trechos em 360o. A atração promete ser uma arma secreta nas provas noturnas. Já frei Eron Cerrato também resolveu inaugurar um novo modelo na equipe da Pastoral Vocacional. Por falar no promotor vocacional, para salvar o GPS que estava por ser roubado, o frade reagiu, dando uns tabefes no mãoleve. Só parou quando o irmão ladrão lhe mostrou uma faca. Por sorte, nada de mais aconteceu. Outro veículo que promete é o caminhãozinho utilizado para a mudança dos confrades. O modelo é próprio para Rallys de longa duração, em provas que se iniciem no norte de Minas, passe por várias cidades, venha à Grande-BH e retorne a seu destino. Pelo jeito, 2013 será de fortes emoções! Homenagem póstuma Em dezembro passado, nossa Província se despediu de Frei Nicolau Schwendler. Nosso confrade era conhecido pelos seus sutis exageros. Em suas narrativas, deixou alguns detalhes não esclarecidos: como não lembrar os vinte sacos de laranja colhidos na horta do postulantado? Ou os diversos canteiros de alface na mesma horta? Alguém se lembra do frei contando da Semana Santa, em que ele pregou para dez mil pessoas (dez minutos em português e dez minutos em alemão), sem microfone? Lembram-se de seus atendimentos de confissões, em que duzentas absolvições eram-lhe ‘café pequeno’? Segundo Frei Nicolau, por pouco sua vida não deu uma guinada, por ter sido chamado por um grande time de futebol, dado seu excepcional talento esportivo. De manga de camisa, mesmo no frio; com seus grunhidos em alto e bom som, café sempre muito forte.... farás falta, frei Nicolau. Revista Santa Cruz - 47 CELEBRAÇÃO DE DESPEDIDA DOS FRADES DA PARÓQUIA SÃO JANUÁRIO, UBÁ, MINAS GERAIS, 28 DE FEVEREIRO DE 2013. 48 - Revista Santa Cruz Revista Santa Cruz - 49 50 - Revista Santa Cruz