Revista Santa Cruz - 1
EDITORIAL
Cheio do Espírito Santo, voltou Jesus do Jordão
e foi levado pelo Espírito ao deserto (Lc 4,1).
Seguidores de Jesus, levado ao deserto prestes a dar sua vida
em favor do mundo, iniciamos mais um triênio na Província
Santa Cruz, após um período intenso que sucedeu o Capítulo
Provincial, em outubro passado. A vida se revela como novidade.
Os olhos contemplam outros horizontes, escutamos outras
vozes. Como peregrinos e forasteiros, seguimos nosso caminho,
festejando a vocação de nossos irmãos, acenando agradecidos
pela história construída em tantos lugares onde não estaremos
mais, louvando o Senhor da vida pelo fim da jornada de alguns
de nossos irmãos.
O tempo da quaresma nos prepara para a grande Festa da Vida.
Ao partilharmos um pouco de nossa caminhada provincial,
rendamos graças ao Deus de nossas vidas, “porque vós, Senhor,
sois amor. Vós sois o sumo bem, eterno, do qual vem todo bem,
sem o qual não há nenhum bem” (cf. Paráfrase ao Pai-Nosso, 2).
Boa leitura a todos!
Revista Santa Cruz - 1
RECADO DO
LEITOR
Paz e Bem! Junto-me aos frades da PSC, neste
momento de pesar pela passagem de Frei Nicolau. Ele
foi meu guardião no postulantado, em 1997, com quem
aprendi muito. Que Deus o acolha em seu Reino Celestial.
Att. José Geraldo Estevam
Prezados confrades da PSC, meus sentimentos pelo
falecimento do Frei Nicolau, tive a oportunidade de conviver
com ele no postulantado de São João del-Rei, uma grande
pessoa, boa conversa e muito trabalhador. Que descanse
em paz pax et Bonum! Abraços, Pedro Carlos F. Santos
Caros irmãos, hoje à noite [18/12] devo fazer a pregação
na novena de Natal aqui na comunidade de São Salvador de
Jerusalém sobre o tema: “Alegrai-vos sempre no Senhor, Ele
está perto”. Alegria na hora da morte de um irmão é difícil,
nem todos somos como São Francisco que podia ser feliz
quando a irmã morte se aproximou. Mas, com a morte de
frei Nicolau que foi chamado para ficar para sempre junto
do Senhor, é inquestionável como o Senhor está perto. A
toda a Província, deixo aqui meus sentimentos de pesar,
mas também de gratidão pelo irmão que está agora na
alegria para sempre. Abraço fraterno. Geraldo van Buul.
Paz e bem! Muito nos entristeceu a notícia do
falecimento de Frei Nicolau. Mais um que muito trabalhou
na evangelização, com sua maneira bem especial, inclusive
aqui conosco em Pirapora, foi ao encontro do PAI. Com seu
trabalho, cheio de fé, disponibilidade e dedicação, com
certeza, Deus o acolheu com muita alegria! Aos senhores
2 - Revista Santa Cruz
da Província Santa Cruz, nossos sentimentos! De uma coisa
tenham certeza: ele conseguiu firmemente afirmar que “Deus
é o centro da vida sacerdotal”. Abraço fraterno, Célia e Amélio
Sangiovanni.
Eu não me assustei com a notícia do falecimento de
nosso confrade Nicolau, porque na semana passada eu
o visitei junto com frei Donizetti e não tivemos nenhum
contato e eu fiquei assustado com tantos fios e caninhos
que estavam ligados nele. Eu quero compartilhar com vocês
este momento em que lembramos aquele confrade que
realmente só descansou, porque foi obrigado. Quando ele
recebeu a notícia do médico que ia só operar no mês de
janeiro ele queria voltar no mesmo dia a São João del-Rei. Ele
fez a sua opção por Minas Gerais e como ele foi tão atuante
em tantas paróquias da nossa Província, otimista e confiante.
Que ele encontre muito satisfeito a irmã morte depois de ter
servido tantas pessoas na sua caminhada de cristão. Que ele
descanse em paz. Recebam vocês todos, meus irmãos, os
meus pêsames. Seu irmão em São Francisco, Dom frei Hugo.
Caros irmãos. Cheguei a Roma pelas 18h30min. Frei
Fábio me acolheu no aeroporto e logo me deu a noticia
do falecimento de frei Orlando Moraes. Mesmo tendo
conhecimento de como ele estava frágil de saúde, o impacto
da chegada da irmã morte sempre nos assusta e nos convida
a refletir sobre a nossa condição de peregrinos e forasteiros
neste mundo. Agradeçamos ao Bom Deus pelo bem que ele
derramou entre nós através do nosso confrade frei Orlando,
que agora foi chamado à morada eterna. Frei Orlando, com
sua simplicidade e humildade, foi sempre uma boa presença
na fraternidade e um testemunho para o povo de Deus que
com ele conviveu. Pela dedicação aos trabalhos manuais,
sobretudo de alfaiate, marceneiro e na horta, ele demonstrava
seu amor fraterno. Longos anos vividos em São João delRei, onde ele, ao seu modo, apreciava a religiosidade, a arte
e a música barroca. Lutou contra a doença e, muitas vezes,
venceu, inclusive um câncer de estômago que o obrigou
a deixar retirá-lo. Mas ultimamente vinha cada vez mais
debilitado. Deus deu a ele o descanso. Que encontre acolhida
Revista Santa Cruz - 3
na Casa do Pai e o nosso Seráfico Pai São Francisco com todos
os Santos se alegrem com a sua chegada para o banquete
eterno.
Que o Senhor da Vida mande novas vocações
franciscanas para manter aceso neste mundo e na nossa
Província o carisma franciscano.
Com meus sentimentos de pesar, mas também na
certeza da ressurreição envio a todos o meu fraterno abraço
e enquanto posso a Bênção do Senhor Pai Filho e Espírito
Santo.
Frei Chiquinho
Lisse, 10 de janeiro de 2013. Prezados
irmãos, no dia 1o de fevereiro próximo, a
Província Santa Cruz vai ter uma festa única
na história da Província, pois dois bispos,
Dom Belisário e Dom Célio, vão comemorar
os 50 anos de entrada no noviciado, em
Daltro Filho (RS). Eu estava no segundo
ano de filosofia. Mando-lhes uma foto que
tirei no dia 31 de agosto de 1967 no nosso
convento de Divinópolis, na qual estão os
freis Belisário e Célio. Desejo-lhes sucesso
com a edição da Santa Cruz, que tem uma
ótima qualidade. Pax et bonum. Com um
abraço, ‘Norberto’.
ERRATA: na Revista Santa Cruz do mês de outubro de 2012; página
178: a Foto mostra Frei Prick com quatro Senhoras. Ao contrário do
que publicamos, elas não são suas parentes, mas irmãs de Oirschot,
que trabalharam no Brasil. A Irmã primeira da esquerda (Gencian) foi
coordenadora do Hospital Felício Rocho.
4 - Revista Santa Cruz
SUMÁRIO
EDITORIAL.................................................................................................... 01
RECADO DO LEITOR
......................................................................................................................... 02
DOCUMENTAÇÃO
......................................................................................................................... 06
VIDA DA PROVÍNCIA
1. Profissão Solene de Frei Arlaton Luiz
( Frei Waldelir Soares Araújo) .................................................................. 08
2. Província acolhe novos irmãos
(Frei Arlaton Luiz) ...................................................................................... 11
3. Entrevista com frei Feliciano van Sambeek
(Frei Adenilton Reis Pereira Mendes) .................................................... 13
4. Frei Mariano Gijsen, 60 anos de Ministério Presbiteral
(Frei Luciano Lopes) .................................................................................. 20
5. Relato da Experiência de Missão em Angola-África
(Frei Rogério de Sousa Rodrigues) ........................................................ 23
MEMÓRIA
1. Memória Histórica da Paróquia São Januário - UBÁ/MG
Primórdios da Cidade de Ubá
......................................................................................................................... 28
UMAS E OUTRAS
- Humor franciscano .................................................................................. 42
Revista Santa Cruz - 5
DOCUMENTAÇÃO
CARTA A TODA A ORDEM, POR
OCASIÃO DA JORNADA DA VIDA
CONSAGRADA
Dois de fevereiro é o dia da Vida
Consagrada e a nossa recordação
vai a todos os consagrados,
particularmente àqueles que
professamos a Forma de Vida
deixada por São Francisco. Neste
dia, enquanto rendemos graças
ao Senhor por nos ter chamado
a abraçar a vida franciscana e por
nos sustentar nesse propósito,
acolhemos o convite que nos
faz a Igreja e renovemos a nossa
consagração Àquele ao qual
prometemos seguir mais de
perto (cf. CCGG 5,2); Àquele que,
seguindo o exemplo de Francisco, desejamos ardentemente
descobrir como o Tudo na nossa
existência (cf. LA 4); Àquele que
confessamos como ‘bem pleno,
todo bem, todo o bem, verdadeiro
e sumo bem’ (RnB 23,9).
6 - Revista Santa Cruz
Diante da Tumba do Apóstolo
Pedro, onde terei a graça de
concelebrar com o Santo Padre,
rezarei por todos vós, meus caros
irmãos, a fim de que possais
continuar consolidando-vos no
santo serviço que haveis tomado
com ardente desejo (1LAg 32).
Possais continuar ‘crescendo do
bem ao melhor, de virtude em
virtude (1LAg 32), afeiçoado com o
mais profundo do coração, Àquele
cujo afeto apaixona (4LAg 9,11).
Rezai também por mim a fim que,
convosco, consiga a mesma meta à
qual todos foram chamados.
O meu pensamento e a minha
oração hoje vão especialmente
aos frades que trabalham e
testemunham o Evangelho em
situações de fronteira, de modo
particular na Síria, Líbia e Egito.
Pelas notícias que tenho, os frades
que vivem nestes países estão
fisicamente bem, mas a situação
que atravessam é muito difícil,
especialmente na Líbia e Síria. Deus
não queira, mas pelo que sabemos
os momentos estão muito difíceis.
A decisão dos frades de permanecer
nesses países, agravadas pelas
ameaças que estão recebendo
alguns deles, é uma manifestação
clara de seu amor por Jesus e pelos
pobres. Enquanto, em nome de
toda a Ordem manifesto a eles uma
imensa gratidão por esse serviço à
fronteira da missão, asseguro a eles
a oração de todos nós. Não estais
sós, meus caros irmãos. Convosco
estamos todos nós, frades dispersos
pelo mundo inteiro, mas convosco
está, sobretudo, Jesus, que não
vos abandonará. A vós digo o que
o Seráfico Pai dizia aos seus filhos:
“confiai em Deus e Ele cuidará de
vós”.
E com o Beato Junípero Serra,
missionário e apóstolo da Califórnia,
que celebramos neste ano o III
centenário de seu nascimento, vos
digo: Avante, sempre avante!
Caros irmãos, rezemos pela paz
e reconciliação nestes países, em
todo o mundo. Rezemos pelos
nossos países e em todo o mundo.
Rezemos pelos nossos irmãos na
Líbia, Síria e Egito. O Senhor seja a
sua segurança, guarda e defensor
(cf. LodAl 4,5).
A todos vós acompanhe a bênção
do Pai São Francisco.
Vosso irmão, ministro e servo.
Fr. José Rodríguez Carballo, ofm
Ministro Geral, OFM
Revista Santa Cruz - 7
VIDA DA
PROVÍNCIA
Nesta sessão, expressamos nossa
alegria pela vocação de quatro de
nossos irmãos. Frei Arlaton Luiz, por
ocasião de sua profissão solene, dia
02 de fevereiro de 2013; frei Feliciano
e frei Mariano, pelos seus 60 anos
de vida presbiteral; e Frei Rogério
Rodrigues, que nos conta de sua
experiência em terras angolanas, no
ano passado.
1. PROFISSÃO SOLENE DE FREI
ARLATON LUIZ
Frei Waldelir Soares Araújo, ofm
8 - Revista Santa Cruz
Iluminados com as luzes da
solenidade da Apresentação do
Senhor, Frei Arlaton Luiz Soares
de Oliveira, ofm, consagrou sua
vida solenemente a Jesus Cristo,
esposo da Igreja. A celebração foi
presidida pelo Ministro Provincial
Frei Francisco Carvalho Neto.
Escutando o chamado do
próprio Senhor que diz, ”vem e
segue-me” (Mt 19, 21), muitos
frades de várias fraternidades da
Província Santa Cruz, postulantes,
religiosos, familiares e amigos
de Frei Arlaton, acorreram, com
suas lâmpadas acesas para
Revista Santa Cruz - 9
testemunhar este importante
momento em sua vida.
Nas mãos do Ministro Provincial,
Frei Arlaton afirmou seu desejo
de se consagrar definitivamente
na Ordem dos Frades Menores,
fazendo-se assim servo de todos
por causa do Evangelho. Em
seus agradecimentos, o neoprofesso ressaltou, de maneira
10 - Revista Santa Cruz
positiva, os anos de formação, os
companheiros que fizeram parte
de sua caminhada e sua família,
que foi a sua primeira experiência
de vivência em fraternidade.
Desejamos ao nosso confrade
muita perseverança e felicidades
em sua consagração, que nosso
pai São Francisco o oriente nos
caminhos do Senhor.
2. PROVÍNCIA ACOLHE NOVOS
IRMÃOS
Frei Arlaton Luiz
Neste ano de 2013, 15 jovens de
diversas regiões de Minas Gerais
e também do Espírito Santo,
iniciaram seu itinerário formativo
em nossa Província. Destes, 9
ingressaram no Postulantado e 5
no Aspirantado. Atualmente são 14
postulantes, sendo 9 do primeiro
ano e 5 do segundo, e 20 aspirantes
que cursam o Ensino médio, em
Santos Dumont. Dois estão no
primeiro ano, 6 no segundo e 12 no
terceiro.
O ingresso no Aspirantado
ocorreu no dia 3 de fevereiro e no
Postulantado, dia 31 de janeiro. Os
novos postulantes foram acolhidos
em uma celebração realizada no
dia 24 de fevereiro, pelo Ministro
Provincial Frei Francisco Carvalho
Neto.
Postulantes, juntos com o formador, frei Geraldo Luciano, e frades da fraternidade.
Revista Santa Cruz - 11
Aspirantes, em Santos Dumont ,com frei João Ricardo, formador
Esses jovens prosseguirão sua trajetória formativa com o intuito de
conhecer mais de perto a vida franciscana.
12 - Revista Santa Cruz
3. ENTREVISTAS
Este ano, temos a alegria de celebrar
os 60 anos de vida presbiteral de dois
de nossos irmãos. Nesta ocasião,
frei Feliciano e frei Mariano, mesmo
convalescente, nos contam um
pouco de sua caminhada.
ENTREVISTA COM FREI
FELICIANO VAN SAMBEEK
Frei Adenilton Reis Pereira
Mendes, ofm
RSC: Frei Feliciano fale-nos um
pouco de sua família, sua vocação.
Frei Feliciano: No sul católico da
Holanda, havia muitas vocações
sacerdotais e religiosas. Em
cada paróquia sempre uns cinco
meninos estudavam em algum
seminário menor. Cada ano havia
a Primeira Missa de um ou dois
sacerdotes novos. Muitos deles
foram trabalhar fora da Holanda.
Eu tinha cinco tios Padres. Dois
eram párocos na nossa terra, dois
missionários na África, mais meu
tio frei Geraldo van Sambeek no
Brasil. Ele pediu para vir ao Brasil
por causa de frei José de Haas,
conterrâneo seu. Meu tio João
era bispo na Tanzânia. Depois, eu
tinha sete primos Padres. Deles,
um era missionário no Haiti, um na
Tanzânia e meu primo frei Edgar
Groot, no Brasil. Edgar era da turma
de frei Felix. Todos tinham grande
prestígio na família e na região. Sem
falar das freiras, inclusive, minha
única irmã se tornou religiosa
Ursulina.
Em casa, eu era o quarto dos
cinco filhos. Em 1939, meu pai
me mandou para o internato
Ruwenberg dos Fráteres da
Misericórdia. Eles davam ensino
primário excelente e favoreciam as
vocações. Lá, terminei o primário,
em 1940. Aí, meu pai me perguntou:
“o que Você quer ser?” Falei: “Padre”.
“Muito bem, disse papai, vou
mandar você para o seminário
dos franciscanos em Venray”. Lá,
eu estudei interno, e meu irmão
Martinho também. Papai foi colega
dos freis Florentino e Baltazar
Bröllmann e de frei Liberto Soppe.
No Gymnasium Immaculatae
Conceptionis estudei todo o tempo
da Segunda Guerra Mundial, de
1940 a 1946. Era colega de frei
Hildeberto Polman e de frei Elias
Hooij.
No Convento em frente ao
ginásio, comprava os livrinhos de
frei Fidêncio sobre São Francisco.
Entrei para a Ordem Terceira dos
internos. Um colega me falou: “se
você pretende entrar para a Ordem
Primeira, deve começar na Ordem
Terceira”.
Revista Santa Cruz - 13
Quando meu pai me visitava
no seminário, ele chamava frei
Bartolomeu para a sala de visita, e
frei Rumoldo, e outros freis idosos
que tinham sido professores dele.
Papai oferecia vinho e charutos,
enquanto lembrava os velhos
tempos. Ouvi frei Rumoldo dizer
a meu pai: “ser frei é muito bom,
menos quando se é velho!” Ora, de
lá para cá as coisas melhoraram,
pois acho excelente o trato que
recebemos aqui em Carlos Prates.
Na nossa terra, a nossa família
tinha poucos laços sociais. Meu
pai e dois irmãos dele eram sócios
na fábrica de sapatos, fundada
por meu avô paterno. Tio Walter
era vice-prefeito, mas meu pai se
isolava da política local. Aliás, nós,
os cinco filhos, todos estudávamos
como internos.
RSC: E seu ingresso na Ordem
Franciscana?
Frei Feliciano van Sambeek
14 - Revista Santa Cruz
Frei Feliciano: A entrada do Noviciado em Vlodrop, em setembro
de 1946, foi uma transição grande,
mas nós estávamos mentalmente
preparados. Éramos 36 noviços.
Quase todos vieram dos três
seminários franciscanos: Venray,
Megen e Katwijk. Eu já conhecia
Hildeberto Polman desde 1940.
No noviciado, cheguei a conhecer
Mariano, Adalberto e Fortunato. O
inverno 46/47 foi duro em Vlodrop:
durante seis semanas fez 13 graus
abaixo de zero. E nós de sandálias,
sem meias.
RSC: Por que o senhor optou pelo
Brasil?
Frei Feliciano: Na ordenação, em
15 de março de 1953, éramos 25
frades. Desde o noviciado, em 1946,
optei pelo Brasil por causa do tio
frei Geraldo e do primo frei Edgar.
Neste ano de 1953, houve um apelo
do Comissariado de Divinópolis
para mandar mais frades para o
Brasil. Este apelo rendeu a vinda de
Mariano, Hildeberto, Adalberto e
Fortunato van Vugt.
Mas, antes de partir, havia o
chamado “ano pastoral”. Parte
do programa era por conta de
Frei Odulfo van der Vat (+1966),
missiólogo, historiador e ex-missionário do Brasil. Cada semana, ele
dava para os “brasileiros” durante
uma hora e meia língua portuguesa,
e uma hora e meia, “vida brasileira”.
Contou tudo sobre o clima, o povo
brasileiro, os costumes, a política, as
reduções jesuíticas no Rio Grande
do Sul, o Império, o Padroado,
Marquês de Pombal, a expulsão
dos Jesuítas, a perseguição aos
religiosos, as ordens desfalcadas, a
abertura depois da Proclamação da
República, as confrarias, as Ordens
Terceiras, a restauração da vida
religiosa, etc.
RSC: Conte-nos sobre sua
adaptação ao chegar ao Brasil.
sociedade europeia, e o Brasil
é católico. Colegas nossos que
foram para Paquistão, Indonésia ou
Nova Guiné, eles sim, enfrentaram
um outro mundo. Além do mais,
nós estávamos preparados para
tudo. A primeira hospedagem
foi em Cascadura, uma casa
velha, poeirenta, caindo aos
pedaços. Achávamos que todo o
Comissariado seria assim. Quando
cheguei ao magnífico Colégio
de São João del-Rei, me achei no
luxo. Já em Cascadura, comecei a
entender e falar o português, graças
às aulas de frei
Odulfo. Desde
o primeiro dia a
gente celebrava para o povo, porque tudo
era em latim.
Mas uma vez
me enganei feio
sobre a índole
do povo brasileiro. Foi na segunda manhã
Frades no navio quando chegaram ao Rio de Janeiro em 5 de outubro após o desemde 1954: frei Paciano van Schaijck, frei Mariano Gijsen, frei Hildeberto
barque. Frei HilPolman, frei Feliciano van Sambeek, Emílio Boudens (seminarista).
deberto e eu
acordamos
com
estrondos
e exFrei Feliciano: De navio francês,
chegamos ao Rio de Janeiro no plosões debaixo da nossa janela.
dia 5 de outubro de 1954. Muitas Falei com Hildeberto: “Está vendo?
vezes os brasileiros nos perguntam América Latina é assim. Faz dois
sobre as dificuldades na mudança meses, Getúlio Vargas se suicidou e
para o Brasil. Eram mínimas. No agora tem revolução”. Ao descermos
Brasil, há a cultura europeia, para a missa, perguntamos a frei
Revista Santa Cruz - 15
Solano Geubels (+1979) sobre a
revolução. “Revolução que nada.
Os tiros? Estava saindo a procissão!”
me forçou a estudar a relação entre
ciência e fé. Ambas emanam do
mesmo Autor, e nunca pode haver
contradição verdadeira entre elas.
RSC: Boa parte de sua vida o senhor
exerceu o ofício de professor. Partilhe
conosco como foi essa experiência.
O que me ajudou muito no ensino
da Física foi a aparelhagem da marca
alemã Phywe. O laboratório de São
João del-Rei virou cinza, mas ainda
tinha um laboratório igual em Belo
Horizonte. Fazendo experiências,
as aulas de Física ficam bem mais
interessantes. Muitos alunos se
tornaram engenheiros, professores
de Física e pesquisadores.
Frei Feliciano: Quando cheguei
ao Brasil, os confrades do Comissariado se dedicavam a três
setores: pastoral paroquial, ensino e
formação. A surdez me limitou, mas
não me impediu de trabalhar como
Padre e Professor. Uma grande
sorte foi que o Definitório me
mandou estudar Física na UFMG.
Gostei de estudar e de lecionar. Fiz
vestibular em fevereiro de l956 e
me formei em 1961. Lecionei na Rua
Pernambuco, em São João del-Rei e
em Santos Dumont. O magistério
me deu muita satisfação científica
e humana. O estudo da Física
fortaleceu minha fé, porquanto ela
A maioria dos freis que
atuavam no ensino ajudava nas
paróquias nos fins de semana
e nas férias. Morando na Rua
Pernambuco, prestei serviços na
Baleia, em Contagem, Fazenda do
Rosário, bairro Santa Inês, bairro
União, favela do Cafezal, bairro
Mangabeiras e no Vale do Jatobá.
De 1965 a 1967, fui diretor e
guardião em São João delRei. Dei conta do recado, com
a ajuda de Estêvão, Jordano,
Metelo, Diogo, Augusto,
Paciano e Ângelo. Dava
também regências e aulas,
inclusive na Faculdade Dom
Bosco. Mas, algumas noites,
senti meu coração reclamar.
Lembrei-me dos casos de
Bertrando e Concórdio, e
Frei Feliciano dando aula de física no ColégioSanto pensei: “melhor ser soldado
raso”. Achei bom quando frei
Antônio, em Belo Horizonte.
16 - Revista Santa Cruz
Geraldinho me sucedeu. E, anos
depois, veio o caso de frei Hilário.
Frei Diogo Reesink e frei Feliciano, em 1966.
RSC: E seu trabalho nas paróquias?
Delfim, os rapazes vão perder a
fé. Eles falam com os pais para
chegar cedo e assistir nossa missa
dominical”. No aniversário do bispo,
nossos seminaristas fizeram seresta
para ele, cantando “Para mim a
chuva no telhado, o evangelho é a
boa-nova” etc. O bispo batia ritmo
com o pé episcopal, e falou: “que
bonito, que bonito, pode até cantar
na igreja”. Falei: “Dom Delfim, é isso
que fazemos na capela do Colégio”.
Falando em música: fui seresteiro,
maltratando um teclado.
A partir de 1986, a Província
me mandou para as paróquias.
Gostei muito de conhecer mais da
Província: Corinto, Santos Dumont
(CJF e paróquia S. Miguel), São
Dimas, Taiobeiras, Pirapora, Cabo
Verde, S. João del-Rei, outra vez
Taiobeiras, Rua Pernambuco,
Areias, e agora Carlos Prates.
Frei Feliciano: Em São João delRei, apoiei a aceitação da
nova paróquia, apesar das
complicações com a Venerável
Ordem Terceira. Pensei: “o
Colégio vai acabar. Havendo
paróquia, os freis afeiçoados
a São João poderão ficar
morando lá”. E assim aconteceu,
pois ficaram Metelo, Jordano, Frei Feliciano em um batizado na Paróquia Santo
Antônio, em Belo Horizonte.
Seráfico, Orlando e Estanislau.
Uma vez, o bispo Dom Delfim
Ribeiro Guedes me chamou,
querendo proibir as missas “Yê
Yê Yê” no Colégio, com bateria,
guitarra e vibrafone. Falei: “Dom
Há gente que pede para lembrar
algum fato marcante da minha
trajetória. Fato marcante há,
mas não é edificante. Agradeço
a clemência dos confrades e a
Revista Santa Cruz - 17
paciência dos guardiães e do
Provincial que pude superar tal fato
marcante. Pensando nessas coisas,
vejo que não vou deixar nenhuma
obra importante para a Província,
nem na pastoral, nem na física. Isto
nunca veio na minha cabeça. Vou
pensar no caso, quem sabe.
RSC: O senhor viveu as renovações
do Concílio Vaticano II. Como foi esse
período em sua experiência?
Frei Feliciano: Eu vivi as mudanças
conciliares com entusiasmo.
Briguei muito com a Venerável
Ordem sobre: virar o altar, celebrar
em português, tocar violão, essas
coisas.
Mas observo, com espanto,
viradas de 180 graus na Vida
Religiosa. No modo de pensar
antigo,
o
religioso
devia
diferenciar-se o mais possível das
“pessoas no mundo”, no modo de
pensar, de falar, de vestir, de viver.
A tendência atual é de nos igualar
o mais possível à vida do povo.
Na nossa formação, foi-nos
ensinado que os superiores
determinariam nosso serviço. Hoje,
os superiores perguntam o que
queremos fazer. Antigamente, a
Província dizia aos frades o que
fazer. Agora os frades dizem à
Província o que fazer.
18 - Revista Santa Cruz
Foi-nos ensinado que observar
o silêncio é uma virtude. Hoje
silêncio é defeito. Tem que ter
conversa, comunicação. Ficar
calado é defeito.
O mestre nos instruiu para reduzir
os contatos e correspondências
com familiares e parentes. Nem
havia visitas ou férias na casa dos
pais. Hoje, o contato com familiares
parece totalmente liberado.
No modo de celebrar a liturgia,
nosso mestre insistia que não
podia haver nenhuma palavra ou
gesto pessoal. O povo não podia
dizer “gosto mais da Missa do Padre
A do que do Padre B”. Hoje parece
que quem improvisa mais celebra
melhor.
No nosso tempo de filosofia e
teologia, todo o tempo fora do
Ofício era dedicado ao estudo.
Pastoral nem pensar. Até no “ano
pastoral” depois da ordenação o
trabalho pastoral era restrito a ouvir
confissões e Missas nas paróquias
vizinhas. Hoje, até a localização da
casa de estudo é escolhida em vista
da pastoral. Pelo que vi na casa do
bairro Mineirão em 1992, o tempo
dedicado ao estudo era mínimo.
Não digo que as inovações estão
erradas. Apenas observo com
espanto.
Frei Feliciano com as
irmãs Clarissas do
Mosteiro Santa Clara,
em Belo Horizonte.
RSC: Ao celebrar 60
anos de vida presbiteral, que mensagem o
senhor deixa para seus
confrades?
Frei Feliciano: Fazendo um balanço,
depois de 60 anos de
sacerdócio, agradeço
a Deus pela minha
vocação franciscana e
sacerdotal. Fui feliz na
Frei Feliciano e Frei Mariano, 2013.
vida fraterna que tive
com meus confrades holandeses gratificante por causa da fé do
e brasileiros. Quero agradecer- povo, e o respeito e o carinho que
lhes pela paciência que tiveram o povo tem para com seus Padres.
comigo. Agradeço aos meus su- Além do mais, eu gostava de visitar
periores por ter-me admitido ao as comunidades rurais e ver os
sacerdócio e por ter-me mandado morros e as serras pela porta aberta
para o Brasil. Tenho sido muito feliz
da capela.
por viver neste país maravilhoso e
Velho é quem parou de sonhar
conviver com seu povo carinhoso.
A gente viveu longe dos paren- e começou a se lamentar. Não
tes mas, em compensação, curti lamento, e ainda tenho alguns
muitas amizades.
sonhos. Porém, meu maior sonho é
Fui feliz no magistério e na que Deus me conceda uma morte
paróquia. A pastoral paroquial é tranquila. Paz e Bem.
Revista Santa Cruz - 19
4. FREI MARIANO GIJSEN,
60 ANOS DE MINISTÉRIO
PRESBITERAL
Frei Luciano Lopes, ofm
Frei Mariano Gijsen
RSC: Frei Mariano, conte-nos
um pouco sobre sua família e sua
infância.
Frei Mariano: fui batizado com
o nome de Frans Lucas Ferdinand
Gijsen. Minha mãe se chamava
Dorothea Witteveen e meu pai,
Cornelius Ferdinand Gijsen. Éramos
sete irmãos: quatro homens e três
mulheres.
Nasci no dia 18 de fevereiro de
1921, na cidade de Den Haag, na
Holanda. Em minha infância, meus
pais me educaram na fé católica.
Gostava de servir o altar, como
coroinha. Meu pai me incentivava
muito a participar das missas. Ele
tinha feito um altar de brincadeira
no sótão e tudo que o padre usava
na missa ele comprou. Eu brincava
20 - Revista Santa Cruz
de celebrar missa, convidava os
irmãos e irmãs, batendo num
pequeno sino. A brincadeira mais
tarde acabou séria.
Depois, fui estudar no seminário
menor, para fazer o ensino colegial.
Tive o melhor professor de física
e matemática da cidade de Venraay. Essas eram minhas matérias
prediletas. Após os estudos, resolvi
sair do Seminário e ficar oito anos
fora da casa de formação. Nesse
tempo, trabalhei no escritório da
Paróquia e na livraria de meu pai.
RSC: Como foi para o senhor o
período da Guerra?
Frei Mariano: meu pai foi levado
pelos soldados alemães de trem
até a cidade de Vught, a 112 km
distante de nossa cidade. Alistei-me
no exército da Holanda e, em 1940,
com 19 anos de idade fui tentar
livrar o pai da prisão. Propus aos
alemães uma troca, que soltassem
o meu pai e eu ficasse em seu lugar.
Eles aceitaram e fiquei preso por
seis semanas.
RSC: Partilhe conosco sobre seu
percurso vocacional e seu desejo
missionário.
Frei Mariano: Quando terminou
a guerra, voltou minha vontade de
ser frade franciscano. Com o apoio
de meu pai e do pároco, ingressei
na Ordem no dia 7 de setembro de
1946. Fiz minha profissão solene
no dia 8 de setembro de 1950, e
fui ordenado presbítero em minha
cidade natal, Den Haag no dia 15
de março de 1953. Minha primeira
missa foi em Wassenaar, a 13 km dali.
Há muito tempo eu queria ser
missionário. Pensei a princípio ir
para Indonésia ou Nova Guiné,
mas acabei escolhendo o Brasil.
A minha irmã, Corrie Gijsen van
Doornik, já tinha vindo morar no
Brasil, em 1953. De certa forma, ela
influenciou minha escolha e acabei
optando em vir para o Brasil, em
1954. Em nossa viagem para o Rio
de Janeiro, viemos Frei Hildeberto
Polman, Frei Paciano van Schaijik,
Frei Feliciano van Sambeek e eu.
RSC: No Brasil, por onde o senhor
passou?
Frei Mariano: A primeira cidade
mineira onde morei foi em Teófilo Otoni, onde também estudei
a língua portuguesa. Em 1957,
fui para Salinas, como vigário
paroquial. Depois, em meados
de 1958, fui para Ubá; como Frei
Pedro Schretlen foi gozar férias na
Holanda, fiquei como substituto,
sendo vigário paroquial. No ano
de 1959, fui para Divinópolis, onde
permaneci por 12 anos, fiquei
como pároco de 1962 a 1965 e, no
ano seguinte, fui eleito definidor.
Depois fui morar em Cascadura, no
Rio de Janeiro, no ano de 1971. Ao
ver os problemas sociais daquele
local, das crianças, adolescentes
e jovens carentes, quis encontrar
uma forma de ajudá-los.
RSC: E seus trabalhos com os
menores?
Frei Mariano: A Campanha da
Fraternidade de 1987 teve como
tema: “Fraternidade e o Menor”.
Como lema: “Quem acolhe o menor,
a mim acolhe”. Fiquei muito tocado
por essa realidade. A imagem de
Jesus Cristo está no menor. A partir
daí, no mesmo ano, comecei meus
trabalhos no Rio de Janeiro como
capelão da Fundação Nacional do
Bem-estar do menor (FUNABEM),
instituição federal encarregada de
lidar com menores infratores.
Porém, em 1978, um dos menores
me deu um tiro que me acertou o
lado esquerdo abaixo da barriga.
Fiquei vários dias hospitalizado.
Depois, voltei para Minas Gerais, no
ano de 1980, fui vigário paroquial
de Carlos Prates. Retornei para
Revista Santa Cruz - 21
o Rio de Janeiro em 1986, como
pároco da Pároquia Santo Sepulcro
de Cascadura. Em agosto de 1989,
vim para Belo Horizonte e dei
continuidade aos trabalhos feitos
no Rio de Janeiro. Assim foi criada a
“Associação Irmão Sol”, que acolhe,
até os dias de hoje, os meninos e
meninas de rua.
recebessem como seus próprios
filhos, oferecendo-lhes valores
sociais e referências de vida. As
casas de acolhida da Associação
Irmão Sol passaram então a ser
geridas por um casal que acolhiam
os meninos de rua, os educavam
e com eles conviviam juntamente
com seus filhos biológicos.
O objetivo desse projeto é
prover um lar para as crianças, darlhes um ‘pai’ e uma ‘mãe’, que os
Para mim, o Projeto Irmão Sol ajudou e continua ajudando muitas crianças, adolescentes e jovens, recebendo novos
valores morais que os
libertam da excessiva
agressividade e das
práticas antissociais.
Crianças assistidas pela Associação Irmão
Sol, em Belo Horizonte.
Frei Mariano Gijsen sendo homenageado
pelo prefeito de BH, Márcio Lacerda,
pelos trabalhos da Associação Irmão Sol
(5/09/2011)
22 - Revista Santa Cruz
5. RELATO DA EXPERIÊNCIA DE
MISSÃO EM ANGOLA-ÁFRICA
Durante o ano de 2012, frei
Rogério Rodrigues, após ter feito
sua profissão solene, passou o ano
de presença franciscana em Angola, junto à Fundação Imaculada
Mãe de Deus de Angola, ligada à
Província da Imaculada Conceição
do Brasil. Nesta oportunidade, ele
partilha conosco como foi esua
experiência.
conduzidos para a fraternidade de
Viana, onde ficamos até regularizar
a nossa documentação. Quando
saiu o nosso Visto de permanência,
fomos para as nossas respectivas
fraternidades. Fr. Felipe ficou em
Viana, Fr. Lucas em Kibala, e eu, em
Malange.
Fr. Rogério de Sousa Rodrigues, ofm
Aos 09 dias do mês de fevereiro
de 2012, embarcavam no aeroporto
internacional de Guarulhos, em
São Paulo, os freis: Jandir, da
Província Imaculada Conceição do
Brasil, de São Paulo; Felipe e Lucas,
da Província Santíssimo Nome, de
Goiás, e eu, Rogério, da Província Santa Cruz, de Minas Gerais,
com destino a Angola, para uma
experiência de missão ad gentes
junto ao povo angolano.
No dia 10, às 14h, desembarcamos
no Aeroporto Internacional ‘04
de Fevereiro’, de Luanda, sendo
recebidos pelos freis: Sebastião
Kremer e Manuel. Frei Jandir
foi para sua nova fraternidade
do Bairro Palanka, e nós fomos
Frei Rogério e demais frades que com ele
foram para Angola
Fiquei um mês e meio em Viana,
onde já iniciei as atividades em
Angola. No mesmo dia em que
chegamos, participamos da vigília
em preparação para a ereção da
nossa nova paróquia, no bairro
Estalagem, em Viana, que contou
com um grande número de fiéis
que passaram a noite toda em
oração. No dia 12 de fevereiro,
participamos da missa festiva
presidida pelo Bispo D. Joaquim,
que fez a ereção da paróquia
Nossa Senhora de Fátima e deu a
Revista Santa Cruz - 23
posse aos dois párocos: Fr. Ângelo
e Fr. Antônio. Estiveram presentes
uma grande multidão de fiéis,
padres, religiosos e religiosas nessa
celebração.
Frei Rogério e o Ministro Geral Frei José
Rodrigues Carballo
Ainda em Viana, tive a oportunidade de começar a conhecer
um pouco da realidade e cultura
angolana. Visitei todas as comunidades da paróquia, rezando
com o povo a Via-Sacra e, em algumas, presidindo celebrações, visitei algumas famílias do bairro,
participei do retiro dos religiosos
de Viana e da reunião dos missionários, do encontro com o nosso
Ministro Geral Fr. José C. Rodriguez,
em sua visita à Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola,
do encontro com a Família Franciscana de Luanda, de celebrações
com as Irmãs Hospitaleiras e
assessorei um encontro vocacional
em nossa casa de Viana. Com
isso, pude conhecer um pouco as
24 - Revista Santa Cruz
riquezas e sofrimentos do povo
angolano e da realidade que estaria por vivenciar durante o ano.
Tendo saído o meu Visto de
permanência no país, no dia 24
de março, nas primeiras vésperas
da solenidade da Anunciação do
Senhor, cheguei à Fraternidade
Seminário Monte Alverne, em
Malange, onde residi durante nove
meses, ajudando na secretaria da
escola da missão e dando aula
de psicologia. Além de ajudar a
fraternidade nos trabalhos da casa,
ajudei a pastoral da saúde, levando eucaristia para os enfermos,
visitando as famílias, fazendo curativos e encomendações. Nos
finais de semana, tinha atividades
nas aldeias e alguns eventos na
Paróquia Mártires de Uganda,
no serviço de animação vocacional da arquidiocese. Participei
de celebrações festivas e de
confraternizações, das reuniões
de missionários e do convívio
com os aspirantes. Trabalhos estes
que me ajudaram a conhecer um
pouco da cultura e realidade do
povo angolano e, de forma mais
específica, do povo malangino,
através da escuta das histórias
deles e da vivência no dia a dia. E
um dos relatos que ouvi do pósguerra, e que muito me marcou,
foi que, logo após a guerra, os
missionários estiveram em uma
aldeia e, na despedida, os aldeães
Frei Rogério num tanque de guerra, resquício da guerra em Angola, terminada em 2003.
disseram: “Não nos deixem órfãos”,
pois naquele momento eles tinham
apenas o apoio da Igreja e se ela os
deixassem, ficariam sozinhos, sem
um porto seguro.
No segundo dia em que cheguei
à Malange, tive a oportunidade
de ter o primeiro contato com
os catequistas das aldeias em
um encontro de formação na
comunidade de Cangandala e,
durante o ano, estivemos reunidos
em outros encontros. Juntamente
com frei Ivair, que andou comigo
apresentando as aldeias, celebramos o Domingo de Ramos
na Aldeia do Xacanária, o Tríduo
Pascal nas aldeias do Tumbua,
Bembo e Mulamba e, durante
o ano, acompanhamos a aldeia
do Mutemba, onde iniciamos a
reconstrução da Igreja de Santa
Maria. Durante o ano, estive
celebrando com o povo das
aldeias do Quisamba, Clemente,
Camembe, Suingue, Tamba, Kulamagia, Tumba Quicala, Cajiza,
além de outras aldeias que visitei da
nossa missão da Katepa. Conheci
também as missões de Calandula,
de Mussolo e do Lombe.
Pude conhecer as maravilhas das
quedas de Calandula, Musselege
e do Rio Kwanza, belezas que
me encantaram, como também
as misérias de um povo sofrido
e esquecido pelo descaso do
governo nas aldeias e nas cidades.
Presenciei realidades duras e
sofridas que mexeram muito
comigo, de ver pessoas que
são privadas de atendimento
Revista Santa Cruz - 25
adequado da saúde, da escola, de
uma alimentação saudável, da falta
de água tratada e rede de esgoto, e
de moradias mais dignas, que são
coisas de direito do povo para ter
um mínimo de dignidade.
Apesar de ser um povo marcado pela guerra que terminou
recentemente, traz consigo um
ar de alegria e esperança de dias
melhores, mesmo com a crença
do feitiço que existe lá, pelo
qual acusam os tios ou vizinhos
como responsáveis pela morte de
um ente querido, podendo até
matá-los. Este foi um assunto da
assembleia arquidiocesana deste
ano, na qual foi discutida a feitiçaria
e a banalização da vida. Contudo,
o povo tem uma fé fervorosa, as
celebrações são marcadas pelo
canto e pela dança e eles têm um
respeito pelo sagrado e pela pessoa
do religioso.
Quando eu fui, tinha a intenção
de contribuir com a missão de
lá, mas era tudo novo para mim.
Contudo, conforme foram surgindo
as necessidades, ajudava naquilo
que era possível e, assim, foi toda
a minha temporada. Quando
cheguei, nos meus primeiros dias,
ouvi de frei Pappy, um angolano,
que eles estão lá por falta de opção
e que nós estamos por amor,
pois deixamos nossa pátria para
estarmos com eles. Na hora não
compreendi o que ele quis dizer
com isto, pois ainda não conhecia
Angola e o povo angolano.
Recordei-me, então, de nosso
confrade frei Raul, que certa vez
Frei Rogério com jovens em uma escola, em Angola
26 - Revista Santa Cruz
Frei Rogério em meio às crianças num povoado de Angola
disse que não amamos aquilo que
não conhecemos; só conseguimos
amar a partir do momento em que
conhecemos. Porém, foi com o
passar dos dias, semanas e meses
que eu pude conhecer aquele
povo e passei a amá-lo. Dessa
forma, compreendi melhor a fala
dos nossos dois confrades quando
eu estava quase voltando ao
Brasil, pois começou a bater uma
saudade já antecipada daquele
povo, porque, conhecendo-o,
aprendi a amá-lo. São pessoas
boas, generosas e acolhedoras que
marcaram a minha estadia nesse
período que lá passei.
No dia 27 de dezembro, retornei trazendo saudades e muito
aprendizado, foi uma experiência muito rica e ímpar, aprendi
bastante com o povo angolano e
tenho o desejo de um dia poder
voltar.
Finalizo este pequeno relato da
experiência que tive em Angola, a
qual foi muito positiva para mim,
com um trecho de uma música
que aprendi lá e que muito me
marcou: “Como hei de agradecer a
tamanha graça que o Senhor me
concedeu?...”
Revista Santa Cruz - 27
MEMÓRIA
MEMÓRIA HISTÓRICA DA
PARÓQUIA SÃO JANUÁRIO,
UBÁ – MG
Em fevereiro de 2013, os frades
menores encerraram sua presença
junto à paróquia São Januário,
em Ubá. Apresentamos aqui um
pequeno histórico das quase
seis décadas junto a essa cidade,
aproveitando antigas publicações
da PSC.
PRIMÓRDIOS DA CIDADE DE UBÁ
Tudo indica que a cidade de Ubá
começou com um movimento
povoador, no fim do século
XVIII e começos do século XIX,
quando ocorreu em Minas Gerais
a decadência da mineração
28 - Revista Santa Cruz
aurífera. Famílias inteiras que dela
participavam, deixaram as regiões
de Ouro Preto, Mariana, Ouro
Branco, Itabira e Guarapiranga,
procurando terras onde pudessem
se dedicar ao cultivo da terra.
Uma das famílias, o casal CapitãoMor Antônio Januário Carneiro
e Francisca Januário de Paula
Carneiro, ali se estabeleceu e iniciou
a construção da Fazenda Boa
Esperança, onde existe atualmente
o Ginásio São José.
Dotado de profundo espírito
religioso, decidiu o Capitão doar
parte da fazenda para a construção
de uma capela em louvor ao
santo de sua devoção. Em 1815,
concedida a licença do Príncipe
Regente D. João, naquele local
foi construído o pequeno templo
dedicado a São Januário e o Padre
Manuel de Jesus Maria celebrou
a primeira missa. Casas beirando
o caminho, nas proximidades da
igrejinha, cresceram rapidamente,
dispersando-se pelas imediações.
Desde dezembro de 1950,
os franciscanos já atuavam na
paróquia Nossa Senhora da
Encarnação, na vizinha cidade de
Guiricema. Era grande o interesse
da Província Santa Cruz em
trabalhar nesta região da Zona
da Mata Mineira, tão rica em
vocações. O contrato assinado
com o bispo de Leopoldina, Dom
Delfim Ribeiro Guedes, previa a
permanência dos franciscanos
em Guiricema por cinco anos. Em
janeiro de 1957, vencido o tempo
planejado, o Definitório provincial
e a diocese, após estudarem a
situação, resolveram proceder
com a entrega da paróquia em
Guiricema e em troca aceitar a
paróquia São Januário, em Ubá,
em caráter definitivo. Para lá
foram então enviados frei Pedro
Schretlen, como primeiro vigário franciscano, e frei Cornélio
Gottenbos, como coadjutor, que
chegaram à cidade em 28 de
janeiro de 1957. Frei Cornélio
conhecia muito bem essa região e
sua realidade, visto que seu último
posto de trabalho foi exatamente
em Guiricema (RSC 1957, p. 6-7).
Os dois frades entregaram-se logo
à cura de almas do bom povo da
“Cidade Carinho”.
Pouco depois de assumir a
paróquia e iniciar o que seria o
maior projeto de sua vida, frei
Pedro foi de férias para a Holanda,
de maio de 1958 a janeiro de
1959; frei Mariano Gijsen assumiu
o posto de substituto do vigário
durante essas férias. Em setembro,
ainda de 1958, frei Hilário (Myron)
Meekes, recém-chegado ao Brasil,
deu uma passadinha por Ubá,
a fim de aprender o idioma e se
aclimatar, antes de seguir para
Divinópolis e concluir seu curso
de teologia (RSC 1958, p. 59 e 150).
Revista Santa Cruz - 29
FREI PEDRO SCHRETLEN
Frei Pedro Schretlen (1896-1972)
Em seu In Memoriam, escrito por
frei Olavo Timmers: “Frei Sabino
Staphorst o descreve como um
‘vigário de mão cheia, que conhece
todo mundo pelo nome e trabalha
como um burro (referindo-se
à quantidade, não à qualidade
de seu trabalho). É adorado por
seus paroquianos’. Participou
das importantes fundações do
Colégio Cristo Rei, em Ladainha,
no nordeste mineiro, e do ginásio
São Francisco, em Pará de Minas.
Trabalhou também no Ginásio
Santo Antônio de São João del-Rei
e depois na fundação do Colégio
Santo Antônio, em Belo Horizonte.
Foi pároco em Pirapora até ser
nomeado para Ubá, em janeiro de
1957.
30 - Revista Santa Cruz
Frade experiente e muito empreendedor, ao chegar à cidade
tratou logo de conhecer seus
paroquianos e a realidade em
que eles viviam. Mas, ainda em
novembro de 1957, frei Pedro sofreu
um ataque de ‘angina pectoris’,
complicada por uma trombose
pulmonar, por isso ele ficou algum
tempo em Belo Horizonte, a fim
de submeter-se a um tratamento
médico. Mais fortalecido, em julho
de 1958, foi pelo resto do ano em
férias na Holanda. Frei Mariano
Gijsen o substituiu dignamente
durante esse período. Voltou em
janeiro de 1959. Com seus sessenta
e tantos anos, não pensava ainda
em descansar. Pelo contrário,
desenvolveu atividade como no
tempo de Ladainha e Pará de
Minas. Com espírito de civismo
patriótico (pela Lei Municipal nº.
386, de 19 de fevereiro de 1959, foilhe concedido o título de cidadão
honorário ubaense) e com caridade
cristã, construiu em Ubá aqueles
monumentos que testemunharão
à futura geração os sinais de sua
presença: a Associação Beneficente
Católica (ABC), o lactário, a
maternidade, o Hospital Santa
Isabel, a nova casa paroquial, a
matriz reformada. E, sobretudo,
a renovação e reanimação do
espírito religioso e comunitário dos
paroquianos de São Januário (RSC
1972, p. 152-162).
Ubá 1: fachada do Hospital Santa Isabel (6 de setembro de 1965) [na placa se lê: “Moderno
Hospital Santa Isabel: esta obra deve-se à generosidade dos católicos alemães”]
Quando de sua viagem à Holanda, era desejo dos familiares de
frei Pedro que este não voltasse
mais ao Brasil. Para não contrariar,
de antemão, este desejo tão
natural, levou consigo sua coleção
filatélica, seu único “hobby”, e
seus poucos apetrechos, como se
fosse para ficar na sua terra natal.
De lá, escreveu aos seus confrades
de Ubá que seu coração estava
hesitando entre dois amores: Brasil
e Holanda. Afinal, despediu-se
para sempre de seus caros e, em
novembro de 1971, voltou com
toda a sua bagagem. Esperava
viver ainda por algum tempo;
não calculava deixar, em breve,
este mundo que achava bastante
divertido. Não era um ‘bon vivant’.
Mas, com espírito franciscano,
sabia apreciar os benefícios e
encantos que o Criador nos deu
para gozar com parcimônia.
Por isso, todo o mundo gostava
daquele frade “simpático”, pois
com compreensão, sabia avaliar
e desculpar os modos dos outros,
e nunca com desdém desprezava
qualquer ‘pecador ou publicano’.
Os médicos lhe impuseram um
rigoroso regime para salvar-se
agora da morte iminente, visando
ao ‘milagre’ de libertá-lo das
consequências da pancreatite
que o arrastou ao hospital no dia
Revista Santa Cruz - 31
26 de agosto: durante um ano
inteiro abster-se de álcool, da sua
‘cervejinha’. Não escapou desta vez.
Aos 28 de agosto de 1972, recebeu
os santos sacramentos em conforto
da sua alma e em alívio das dores.
Aos 2 de outubro, levaram-no ao
hospital, “seu” hospital, e poucos
dias depois, de ambulância, ao
Hospital Felício Rocho, em Belo
Horizonte, onde foi operado. Os
médicos constataram câncer nos
rins. Voltou ao meio de seu povo,
onde, no Hospital Santa Isabel,
faleceu aos 11 de dezembro de
1972. No dia seguinte foi enterrado
no túmulo que ele mandou fazer
para si, ao lado do seu confrade e
cooperador frei Cornélio.
FREI CORNÉLIO GOTTENBOS
Frei Cornélio Gottenbos (1916-1970).
De acordo com seu In Memoriam,
Frei Cornélio veio para o Brasil
em 1955. Sua saúde era bastante
precária – vivia com um só pulmão
– e, como ouviu de outros frades
missionários que o clima do Brasil
era favorável à sua condição de
saúde, tomou a decisão de se
entregar à cura de almas no alémmar. Foi enviado para Abaeté, onde
tomou o primeiro contato com
o idioma antes de ser nomeado
coadjutor em Guiricema. Já que frei
Cornélio se havia treinado bastante
nas lides pastorais, ele pôde, desde
sua chegada a Ubá, sem demora,
lançar-se de cheio ao trabalho.
32 - Revista Santa Cruz
Frei Cornélio com crianças
da primeira eucaristia (20
de janeiro de 1959).
Ubá e, principalmente a paróquia
São Januário, haviam de ser o
terreno principal onde seu zelo
apostólico desenvolver-se-ia em
toda sua plenitude. Um confrade,
que com ele aí trabalhou nos
primeiros tempos, esboçou com
pinceladas fortes a imagem desse
apóstolo, principalmente entre
os pobres e necessitados, assim:
‘Frei Cornélio tinha duas paixões:
crianças e pobres. A cruzada, ele
a tinha muito bem organizada;
as crianças gostavam dele como
padre e amigo.
Os pobres de São
Sebastião eram sua
grande preocupação:
as viúvas, as famílias numerosas, os
pequenos sem casa,
roupa, alimentação.
Ele, que vivia com um
só pulmão, andava de bicicleta
no calor de Ubá, diariamente até
o bairro dos pobres para darlhes toda a assistência, e brigava
para poder conseguir o que era
necessário. Brigava mesmo, pois
frei Cornélio não era mole não.
Tinha uma natureza enérgica,
não se acomodava. Tinha sua
opinião e seguia à risca aquilo
que considerava justo e certo.
Os políticos sofreram com ele,
porque era franco, mas justamente
com essa franqueza ganhou seus
melhores amigos” (RSC 1970, p.
150-154).
No dia 16 de abril de
1969, frei Cornélio viajou
em gozo de férias, sendo
substituído por frei Fidelis.
Regressou no fim desse
mesmo ano, parecendo bem
Festa de São Januário.
Ano desconhecido.
Revista Santa Cruz - 33
animado. Com todo o entusiasmo,
reiniciou seus trabalhos à frente
da paróquia. O Hospital Santa
Isabel, que tanto exigira de suas
energias na fase da construção,
encontrava-se em dificuldades
de funcionamento. Não foram
poucos os esforços envidados por
frei Cornélio, buscando contornar inúmeros problemas. Também
não faltaram as decepções nos
entrechoques de má vontade de
alguns e pessimismo de outros.
Mas tudo foi superado, como já
indicamos, graças à abnegação e
firmeza admiráveis do frei.
TUDO MUDOU
Fernanda Carneiro
Ubá, 1957. Há 50 anos, a igreja
de São Januário estava em estado
lastimável. O padre Jésus, que
renunciou ao cargo de pároco, não é pecado lembrar – espantava
os fiéis. Os paramentos e objetos
litúrgicos estavam decompostos,
a instalação elétrica arruinada,
a casa paroquial depenada, a
igreja esvaziada e abandonada.
Em 28 de janeiro de 1957, tudo
mudou. Chegaram os franciscanos.
Matriz de São Januário, ainda com duas torres.
34 - Revista Santa Cruz
Ao tomarmos conhecimento da
situação depauperada da antiga
casa paroquial, constatamos que
eles não reclamaram em nada dessa
falta de tudo. Frei Pedro Schretlen,
aos 61 anos, tornou-se pároco da
Igreja São Januário de Ubá, com seu
coadjutor frei Cornélio Gottenbos,
com 41 anos, ambos holandeses.
Dois exemplos de sacerdócio –
amor, simplicidade, doação e larga
cultura humanista. Realizaram
obras de mestres. Em 1964, chegou
frei Martinho (Warken), fervoroso,
com sua banca de livros, e em 1965,
frei Júlio (Loenen) fundando a JEC
– Juventude Estudantil Católica,
ambos conscientizadores do papel
dos jovens no mundo. A Igreja
fervilhava... E outros franciscanos
vieram, e até hoje aqui estão. Conta
Dona Olga Carneiro que, depois
da missa de apresentação dos
frades, na fila de cumprimentos,
ela confidenciou a frei Pedro –
“Seja bem-vindo, frei Pedro, mas eu
tenho de lhe confessar um pecado:
eu não gostava do padre anterior”.
E eis que ele soltou uma sonora
gargalhada. Assim era ele. Foi o
início de uma amizade para ela e
cada um de nós. Era só deparar
com aquele sorriso que nossos
corações se abriam para sua palavra
bem-humorada e carregada de
sentido. Sua voz era de barítono,
um vozeirão mesmo. Era divertido
observar o seu modo de agir, seus
gestos bruscos, seu modo todo
especial de bater a porta do sacrário,
de jogar a chave sobre o altar. O
espírito de cooperação imperou.
As mulheres reestruturaram a casa
paroquial, a instalação elétrica foi
refeita, e logo no primeiro mês...
dez mil comunhões! Um espanto.
Os paroquianos conheceram uma
nova pedagogia. Os sermões de
frei Pedro, na missa das dez, eram
feitos em série... quanta sabedoria!
Dirigiam-se aos homens, às
mulheres, e a Igreja lotava. Pedro
e Cornélio – dois irmãos, dois
amigos, uma só prática: o amor ao
próximo. Frei Pedro, alegre, culto,
extrovertido, espontâneo e festeiro,
sem contar os whisquinhos que
gostava de tomar; frei Cornélio,
tímido, suave, realizador. Está lá,
registrado no Livro de Tombo e
em nossos corações: “Frei Pedro foi
mais ubaense que os aqui nascidos,
porque foi ubaense por opção, por
amor”.
A Associação Beneficente Católica – ABC
No ano de 1981, frei João José
van der Slot foi a Ubá, conferir
“in loco” a história das grandes
obras sociais que surgiram com a
chegada dos franciscanos à cidade.
Vamos conferir o que ele descobriu: “Ubá possui uma periferia
com população bastante pobre.
Revista Santa Cruz - 35
Existem as favelas. E também na
zona rural a pobreza é grande. Foi
isto que sentiram frei Pedro e frei
Cornélio. E diante dessa situação,
procuraram meios para aliviar os
sofrimentos do povo humilde. O
primeiro passo foi a criação da
Associação Beneficente Católica,
mais conhecida como ABC. Isto se
deu no dia 16 de março de 1958.
Nesse dia foi inaugurada também a
primeira obra da ABC: o lactário e a
sopa para crianças pobres. Para isto
foi construído um barracão ao lado
da igreja de São Sebastião.
Em 1960, surgiu mais uma obra:
uma vila de casas para viúvas com
quatro ou mais filhos menores.
No início, foram feitas duas casas.
Porém, era o grande sonho de
frei Pedro e frei Cornélio construir
uma maternidade e um hospital
infantil. Se o lactário e a vila das
viúvas já foram construídos com
bastante dificuldade, mais difícil
seria a construção de um hospital.
Mas os dois não desistiram da
ideia. E, com a ajuda de muitos, foi
realizado também esse ideal. Em
1962, a Prefeitura Municipal de Ubá
doou um terreno de trinta e seis
mil metros quadrados, destinado
à construção do hospital. A ideia
de fazer uma maternidade e um
hospital infantil foi abandonada,
no sentido que se fez um hospital
só, o Hospital Santa Isabel, com
36 - Revista Santa Cruz
três unidades: Hospital das Clínicas ‘São Boaventura’, Hospital
Infantil ‘Antonina Coelho’ e a
Maternidade ‘Hilda Nogueira da
Gama’. Com a ajuda da “Misereor”
(Obra Social da Igreja Católica da
Alemanha) e com outras verbas
do Estado e da Federação, como
também o auxílio da comunidade
local, os freis conseguiram iniciar
essa grande obra. Dizer que a
ABC é uma obra franciscana não é
demais. E isto por vários motivos.
Em primeiro lugar, ela foi iniciada
pelos franciscanos e até agora
(1981) um franciscano foi o diretor
da obra. Depois, embora ela
esteja situada dentro da Paróquia
São Januário, não está ligada
diretamente a essa paróquia,
mas bem mais à Província Santa Cruz.
Com pedra fundamental lançada
em 1963, o HSI foi inaugurado no
ano de 1969, como Maternidade
e Hospital Infantil Santa Isabel, da
Associação Beneficente Católica,
tendo como Diretor o Frei Cornélio
Gottenbos, e como Presidente o Dr.
Ivahir da Rocha Reis. Desde o início
do funcionamento, o hospital tem
como propósito destinar 2/3 dos
leitos hospitalares aos pacientes
carentes, o que tem sido cumprido
até os dias atuais, quando mais
de 70% dos leitos e serviços são
destinados aos usuários do SUS.
Presença de outros confrades
Por ser uma comunidade famosa
em sua hospitalidade, vários frades
vindos da Holanda para trabalhar
no Brasil foram encaminhados
para lá, a fim de aclimataremse, aprenderem o idioma e se
treinarem nas lides paroquiais,
como: frei Oscar van der Neut
(1961-1962), frei Antônio Francisco
Blankendaal (1962-1964), Frei José
da Cruz Kokkelkoren (1964).
Passaram por lá também vários
vigários cooperadores, que muito
ajudaram na cura de almas do bom
povo de Ubá. Frei João Maria van
Dam trabalhou na paróquia de
março de 1960 a maio de 1961;
frei Edmar Polman, de maio de
1961 a janeiro
de 1962. Frei
Solano Geubels,
durante todo o
ano de 1962. Frei
Venâncio Goris
ficou um pouco
mais, de maio de
1963 a fevereiro de 1966. Frei Solano Geubels
Frei Martinho
(1903-1979).
Warken, de janeiro a dezembro
de 1964. Frei Júlio Loenen, que
chegou em dezembro de 1964 e
permaneceu até janeiro de 1970.
Em março de 1971, frei Pedro
completou seu jubileu áureo de
presbítero com uma animada
comemoração. Em recompensa de
uma vida sacerdotal tão fecunda,
foi-lhe concedido o prazer de
celebrar esse jubileu de ordenação
com seus parentes na Holanda,
partindo para lá no dia 20 de abril.
Enquanto isto, a paróquia ganhava
a ajuda de mais um cooperador:
frei Fortunato van Vugt, em julho
de 1971 (RSC 1971, p. 143).
Durante os meses de maio a
dezembro de 1973, frei Francisco
Antônio de Kerkhof substituiu a frei
Fortunato, durante as férias deste
na Holanda.
Na Lista Capitular de 1974, frei
Humberto foi confirmado como
vigário de Ubá, fato este ratificado algumas páginas depois,
mudando efetivamente a direção da paróquia. Frei Fortunato
assumiu como vigário em fevereiro
deste ano, tendo frei Humberto
como seu coadjutor (RSC 1974,
p. 150, 178). Mas frei Fortunato
viria a ficar pouco tempo em Ubá,
sendo novamente transferido em
setembro de 1975.
Frei João José van der Slot foi
o novo padre nomeado para
comandar a Paróquia São Januário
e tomou posse em setembro de
1975 (RSC 1975, p. 171).
Em fevereiro de 1977, com a
realização de mais um Capítulo provincial, a paróquia teve
Revista Santa Cruz - 37
novamente mudado seu vigário:
frei Adriano de
Wit chegou para
ficar um bom
tempo em Ubá,
contando com a
incansável ajuda
de frei Humberto
(RSC 1977 p. 139).
Frei Adriano de Wit
Mas, como em
dezembro de 1977, frei Humberto
resolveu voltar à pátria e passar
ali seu “otium cum dignidade”, a
Província foi buscar um coadjutor
ali pertinho, em Visconde do Rio
Branco. Frei Helano van Koppen
atendeu prontamente ao chamado
de seus superiores e se mudou
para Ubá em 21 de dezembro (RSC
1977, p. 213).
Frei Adriano contou com a ajuda
de uma série de bons coadjutores:
frei Helano van Koppen (dezembro
de 1977 a junho de 1978), frei Bento
van den Broek (junho de 1978 a
fevereiro de 1980), frei José da Cruz
Kokkelkoren (novembro de 1978 a
fevereiro de 1980 e, novamente, de
janeiro de 1983 a março de 1998),
frei Cristiano Teunissen (fevereiro
de 1980 a março de 1983), frei
Aurélio Peters (fevereiro a agosto
de 1980).
O Capítulo Provincial realizado
em janeiro de 1986 promoveu
mudanças na equipe paroquial.
Com a transferência de frei Adriano
para Salinas, frei José da Cruz foi
38 - Revista Santa Cruz
nomeado novo pároco de São
Januário, ajudado por frei Ambrósio
Boude, seu vigário paroquial. Frei
Marcos Monteiro Rodrigues foi
enviado em outubro de 1986, para
ajudar nessa paróquia em pleno
crescimento (RSC 1986, p. 379).
Frei José da Cruz e Frei Marcos Monteiro em
frente à casa paroquial
Durante os meses de março a maio
de 1992, frei Alexandre Noordeloos
ajudou na pastoral da paróquia.
Em maio, a comunidade teve a
alegria de receber novamente
a frei Adriano de Wit, desta vez
como vigário paroquial. A chegada
de frei Adriano foi muito bem-vinda também para os frades da
comunidade, já que frei Ambrósio
apresentava alguns problemas de
saúde que o afastavam do trabalho
pastoral. No final de agosto desse
ano, foi inaugurada mais uma ala
do Hospital Santa Isabel que é
hoje um moderníssimo hospital
com competente corpo clínico e
equipamento adequado (RSC 1992,
p. 90, 148).
Os anos mais recentes
No dia 4 de julho de 1993, a
paróquia e a comunidade provincial sofreram com o falecimento
repentino de frei Ambrósio, que
se encontrava no Convento São
Francisco das Chagas, em Belo
Horizonte, para tratamentos médicos. Depois de avisados do ocorrido, o bom povo de Ubá pediu
ao Governo provincial a honra de
sepultar este grande amigo em sua
cidade. Pedido aceito.
Nos dias 8 a 18 de agosto de 1994,
o então Promotor Vocacional dos
franciscanos, frei Juvenil Batista da
Cruz, esteve na paróquia pregando
a novena do padroeiro. Foi uma
oportunidade de fervorosa oração e
devoção em pleno mês vocacional.
O entusiasmo e a participação foram
tão intensos que até o pregador
se comoveu: “Fiquei ligeiramente
apaixonado pelo povo ubaense!”
(RSC 1994, p. 220).
Frei José Roberto Garcia Lima
se mudou para a cidade no dia
13 de maio de 1995, sendo ele o
responsável por acompanhar a
pastoral da juventude. No dia 1º.
de outubro de 1995, foi criada a
Paróquia de São Sebastião, desmembrada da Paróquia São Januário. Durante as férias de frei José da Cruz na Holanda, de outubro
de 1995 a fevereiro de 1996, frei
Daniel Navarro o substituiu à frente
da paróquia. Ao final de 1995,
foi inaugurada a UTI Irmã Dulce
e o Auditório Santo Antônio, do
Hospital Santa Isabel. A UTI está
credenciada e todos têm acesso a
ela (RSC 1995, p. 268, 384, 386).
Frei Juvenil foi
nomeado pároco
de Ubá, pelo Congresso Capitular,
em dezembro de
1997. Como vigários paroquiais:
frei José da Cruz e Frei Juvenil Batista
frei Marcos. A partir de então, a
paróquia contou também com
a ajuda de um jovem frade de
profissão temporária, que durante
um ano esteve ali durante o tempo
de presença franciscana. O primeiro
formando a fazer essa experiência
foi frei Cláudio Augusto de Barros
(RSC 1997, p. 499).
A posse de frei Juvenil aconteceu
no dia 6 de fevereiro de 1998, às 19
horas. Em dezembro de 1999, foram
enviados dois formandos para o
tempo de experiência franciscana,
são eles: frei Geraldo Machado
de Oliveira e frei Vicente Paulo do
Nascimento (RSC 1999, p. 408).
O Capítulo Provincial, realizado
em outubro de 2000, transferiu
frei Marcos para o Convento em
Divinópolis. Para auxiliar frei Ju-
Revista Santa Cruz - 39
venil, foi enviado o diácono frei
Donizete Afonso da Silva, que
chegou em janeiro de 2001 (RSC
2000, p. 432-434).
A Matriz de São
Januário foi reinaugurada no dia 11 de
novembro de 2001.
Com a ajuda de seus
paroquianos, frei Juvenil devolveu à comunidade a igreja
totalmente reformulada. A “missa de reinauguração” foi
presidida pelo bispo de Leopoldina, Dom Célio de Oliveira Goulart,
ofm. O Ministro provincial, frei
Luciano Brod, também se fez
presente (RSC 2002, p. 6).
Ainda nesse ano de 2001, frei
Juvenil aproveitou para fazer
uma boa reforma na casa paroquial. Para isto, ele e frei Donizete
se mudaram, até o fim da reforma, para a Rua Esperanto, 194,
40 - Revista Santa Cruz
no bairro Santa Cruz (RSC 2001,
p. 98). Assim como frei Cornélio
Gottenbos fazia antigamente, frei
Donizete percorria a cidade de
ponta a ponta com sua
inseparável bicicleta, até
que, em 28 de agosto de
2002, foi transferido para
Jequitinhonha (RSC 2002,
p. 14, 129). Frei Juvenil ficou
sozinho na paróquia até
a nomeação de seu novo
auxiliar, frei Francisco do
Carmo Carvalho, recém-
ordenado diácono e que ficou em
Ubá de agosto de 2003 até o final
do mesmo ano, quando frei Juvenil
ficou novamente sozinho à frente
dessa grande paróquia.
Com o Capítulo de 2006, frei Juvenil foi para Belo Horizonte. Para
assumir a paróquia São Januário, foi
nomeado frei Marcelo Garcia dos
Santos, tendo frei Márcio Carneiro
Cabral como vigário paroquial (RSC
Especial Capítulo 2006, p. 269).
Frei Marcelo Garcia dos Santos
tomou posse na paróquia em 3
de março de 2007 (RSC 2007, p. 7).
Com a entrega da vizinha paróquia
de Guidoval, frei Adriano de Wit
se juntou aos confrades de Ubá.
Nomeado vigário paroquial em
abril de 2007, só chegou à cidade
no final de agosto, depois de
merecidas férias na Holanda (RSC
2007, p. 70).
Frei Márcio se despediu da
paróquia em dezembro de 2009,
após a realização de mais um
Capítulo Provincial. Para auxiliar frei
Marcelo e frei Adriano, foi nomeado
frei Teodoro Verkuijlen, que não
demorou a chegar, trazendo seu
marcante bom humor e muita
disposição para seu novo trabalho
paroquial.
Ordenação presbiteral de Frei Eron (19 de
março de 2010)
Dia 19 de março de 2010, às 19h,
na Matriz de São Januário, Frei
Eron Costa Cerrato foi ordenado
presbítero por Dom Frei Dario
Campos - OFM, bispo da diocese de
Leopoldina. Frei Eron, nascido na
cidade, voltou à terra natal para ser
ordenado sacerdote na presença
de seus familiares e amigos. A
comunidade paroquial se cobriu
de emoção para tão importante
data. A Matriz ficou pequena para
a multidão que se comprimia para
louvar e agradecer a Deus pelo
dom da vocação de Frei Eron.
Ubá comemorou, no dia 7 de abril
de 2011, os 170 anos de criação da
Paróquia de São Januário com uma
Missa em Ação de Graças na Igreja
Matriz. A cerimônia contou com a
presença do bispo de Leopoldina
Dom Dario Campos, que concelebrou a Missa com o pároco Frei
Marcelo Garcia dos Santos e com o
padre Carlos, da Paróquia de Nossa
Senhora do Rosário.
O anúncio da entrega da paróquia
São Januário ao bispo diocesano
de Leopoldina, Dom José Eudes
Campos do Nascimento, foi publicada após decisão do Congresso Capitular, em dezembro de
2012. A celebração de despedida
se deu no dia 28 de fevereiro de
2013, encerrando assim os 56 anos
de presença dos frades na Cidade
Carinho.
Fontes: Revista Santa Cruz / Arquivo
Provincial / Arquivo da Paróquia São
Januário, Ubá.
Revista Santa Cruz - 41
UMAS E
OUTRAS
Momento virtual
Nossos frades dão mostras de
que o mundo virtual chegou
mesmo à nossa vida. Sobretudo os
adolescentes têm na internet uma
fonte inesgotável de interação.
Prova disso são frei Joel Postma e
frei Basílio de Resende, que depois
que descobriram o ‘feicibuque’, suas
vidas nunca mais foram as mesmas.
42 - Revista Santa Cruz
No caso de Frei Ademilson, ocorreu
que, ao bater o maior papo virtual
com frei José Silva, lá pelas tantas,
descobriu que não se tratava de
nosso confrade de Salinas, mas
de um personagem apocalíptico.
Coisas da vida pós-moderna.
Pêsames inesperados
O hábito e o monge
Frei Elias é a prova de que o
hábito não faz o monge. Durante
suas férias, é capaz de marcar os
compromissos e depois correr
feito louco atrás de um hábito
emprestado. Por sorte, tem
encontrado modelos bem iguais
ao seu biótipo. Mas, se continuar
assim, vai acabar usando burel
pega-frango, tamanhos extralarge. Mas se “pé de pobre não tem
tamanho”, corpo de frade também
não.
A saída de frei Leonardo de Divinópolis, após tão pouco tempo,
foi motivo de cobertura televisiva
e tudo mais. Na celebração de
despedida, berrantes, oferendas e
tantos outros símbolos lembraram
o carinho do frade pela religiosidade popular. Até aí, tudo bem.
O problema foi a chamada do
noticiário ao dizer: “Divinópolis se
despede de frei Leonardo”. Não
tardou para muitas pessoas nas
redes sociais darem os pêsames à
província pela ‘perda’ de um frade
tão bacana. Liga não, gente, ele tá
vivinho da Silva. Só se mudou pra
‘capitar’.
Revista Santa Cruz - 43
Cadê, cadê, Cadêêê
começou a chorar e o frade sem
saber onde colocá-lo. Vale a dica
de um curso de babá para os
momentos de apuros.
Frade nota zero
O hit de Frei Paulo Afonso está
‘bombando’ na internet. A pedido
de frei Joel, foi feito um vídeo da
música durante a visita do Ministro
Geral à Província. O próximo passo
deverá ser a coreografia. Alguém se
habilita?
Cadê o Menino Jesus?
Durante a celebração do Natal,
Frei Márcio Cabral ia se esquecendo
do dono da festa. O Menino Jesus
44 - Revista Santa Cruz
Se no mundo estudantil, o maior
elogio é o aluno nota dez, no caso
de nosso confrade, frei Luciano
Brod, a alegria veio em ter levado
um belo de um zero. Mas não foi
em nada relacionado às aulas, se
bem que o frade dá uma aula de
bom exemplo ao ter tirado zero
no exame do bafômetro. E saiu
todo feliz: “Tirei zero, tirei zero”. E
ainda levou uma lembrancinha do
guarda pelo bom comportamento.
Quem vê tamanho não vê
coração
Nossas felicitações ao novo
mestre de postulantes, frei Geraldo
Luciano, - Lucianinho, para os
íntimos - pelo seu aniversário. A
data tem de ser lembrada porque,
embora a fita métrica diga que o
frade é apenas uma criança, nosso
irmão chega ao meio século de
vida. No aniversário, enfeitado
com motivos da Turma da Mônica,
houve muitos docinhos, balões,
chapeuzinho de papel, pula-pula e
muita música pra galerinha dançar.
Parabéns, confrade, continue não
só com o corpinho de criança. Pena
que a Xuxa não pôde vir.
Nova Tábula capitular
Em tempo, devemos lembrar
que a lista de transferências dos
irmãos após o capítulo provincial
saiu meio incompleta. Alguns
nomes deveriam ser incluídos, mas
agora queremos reparar o lapso:
Maricota, Jurema, Carminha, Beth e
Carlão, galináceos do convento de
São João del-Rei, após o tempo de
postulantado, foram aceitos para
o noviciado, em Montes Claros,
e acompanharam o guardião, frei
Jaime Eduardo. Sadã, canino da
fraternidade Boaventura, em Betim,
ainda não tem fraternidade, mas já
está certa a transferência. Pedimos
aos confrades que atualizem os
dados no Conspecto Provincial.
Revista Santa Cruz - 45
Repeteco de nomes
Ao ligar para algumas casas da
Província, a pessoa deverá dizer
bem com quem deseja falar, afinal, em alguns lugares há muitos
nomes repetidos. Na fraternidade
Boaventura há dois freis Luiz
(Luiz Antônio e Luís Fernando);
no convento em Betim há dois
Lucianos (Brod e Lopes); na Duns
Scotus há dois Vicentes (Lopes
e Ronaldo), em Carlos Prates há
3 Franciscos (Prick, Carvalho e
Alexandre). Quando quiser ligar, a
dica é ser bem preciso: o baixo ou o
alto, o gordo ou o magro, o bonito
ou o feio, e se, mesmo assim,
houver empate, peça pelo RG.
46 - Revista Santa Cruz
GP da PSC
Bem, amigos, nosso campeonato
automotivo de 2013 começa com a
corda toda. Frei Basílio inaugura um
novo modelo: um carro que solta
os faróis, que ficam dependurados,
proporcionando ao piloto iluminar
trechos em 360o. A atração promete
ser uma arma secreta nas provas
noturnas. Já frei Eron Cerrato
também resolveu inaugurar um
novo modelo na equipe da Pastoral
Vocacional. Por falar no promotor
vocacional, para salvar o GPS que
estava por ser roubado, o frade
reagiu, dando uns tabefes no mãoleve. Só parou quando o irmão
ladrão lhe mostrou uma faca. Por
sorte, nada de mais aconteceu.
Outro veículo que promete é o
caminhãozinho utilizado para a
mudança dos confrades. O modelo
é próprio para Rallys de longa
duração, em provas que se iniciem
no norte de Minas, passe por várias
cidades, venha à Grande-BH e
retorne a seu destino. Pelo jeito,
2013 será de fortes emoções!
Homenagem póstuma
Em dezembro passado, nossa
Província se despediu de Frei
Nicolau Schwendler. Nosso confrade era conhecido pelos seus
sutis exageros. Em suas narrativas,
deixou alguns detalhes não esclarecidos: como não lembrar os
vinte sacos de laranja colhidos
na horta do postulantado? Ou os
diversos canteiros de alface na
mesma horta? Alguém se lembra
do frei contando da Semana Santa,
em que ele pregou para dez mil
pessoas (dez minutos em português e dez minutos em alemão),
sem microfone? Lembram-se de
seus atendimentos de confissões,
em que duzentas absolvições
eram-lhe ‘café pequeno’? Segundo
Frei Nicolau, por pouco sua vida
não deu uma guinada, por ter sido
chamado por um grande time de
futebol, dado seu excepcional
talento esportivo. De manga de
camisa, mesmo no frio; com seus
grunhidos em alto e bom som, café
sempre muito forte.... farás falta,
frei Nicolau.
Revista Santa Cruz - 47
CELEBRAÇÃO DE DESPEDIDA DOS FRADES DA PARÓQUIA SÃO JANUÁRIO,
UBÁ, MINAS GERAIS, 28 DE FEVEREIRO DE 2013.
48 - Revista Santa Cruz
Revista Santa Cruz - 49
50 - Revista Santa Cruz
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LEIA A REVISTA SANTA CRUZ, Ano 77 - 2013 - janeiro/março