GRAGOATÁ n. 28 1o semestre 2010 Política Editorial A Revista Gragoatá tem como objetivo a divulgação nacional e internacional de ensaios inéditos, de traduções de ensaios e resenhas de obras que representem contribuições relevantes tanto para reflexão teórica mais ampla quanto para a análise de questões, procedimentos e métodos específicos nas áreas de Língua e Literatura. ISSN 1413-9073 Gragoatá Gragoata 28.indb 1 Niterói n. 28 p. 1- 200 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:43 Programas de Pós-Graduação do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense Direitos desta edição reservados à EdUFF – Editora da Universidade Federal Fluminense Rua Miguel de Frias, 9 – anexo – sobreloja – Icaraí – Niterói – RJ – CEP 24220-008 Tel.: (21) 2629-5287 – Telefax: (21)2629-5288 – http://www.editora.uff.br – E-mail: [email protected] © 2010 by É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da E ditora. 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Editora da UFF CDD 800 APOIO PROPP/CAPES / CNPq UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE Reitor: Vice-Reitor: Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação: Diretor da EdUFF: Roberto de Souza Salles Emannuel Paiva de Andrade Antonio Claudio Lucas da Nóbrega Mauro Romero Leal Passos Conselho Editorial: Mariangela Oliveira (UFF) – Presidente Cláudia Roncarati (UFF) Dalva Calvão (UFF) Eneida Maria de Souza (UFMG) Fernando Muniz (UFF) José Luiz Fiorin (USP) Leila Bárbara (PUC-SP) Lívia de Freitas Reis (UFF) Norimar Pasini Júdice (UFF) Silvio Renato Jorge (UFF) Vera Lúcia Soares (UFF) Conselho Consultivo: Ana Pizarro (Univ. de Santiago do Chile) Cleonice Berardinelli (UFRJ) Célia Pedrosa (UFF) Eurídice Figueiredo (UFF) Evanildo Bechara (UERJ) Hélder Macedo (King’s College) Laura Padilha (UFF) Lourenço de Rosário (Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa) Lucia Teixeira (UFF) Malcolm Coulthard (Univ. de Birmingham) Maria Luiza Braga (UFRJ) Marlene Correia (UFRJ) Michel Laban (Univ. de Paris III) Mieke Bal (Univ. de Amsterdã) Nádia Battela Gotlib (USP) Nélson H. 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Dalva Calvão Norimar Júdice 5 ARTIGOS O narrador tirano: notas para uma poética da narrativa ...... 11 Jacyntho Lins Brandão A poesia e a prosa do mundo ..................................................... 2 7 Célia Pedrosa Uma narratividade em mutação: recepção e produção de Causa Amante, de Maria Gabriela Llansol ............................. 41 Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira Ne-uter ou uma questão de gênero: do neutro na língua à instabilização dos gêneros literários ........................................ 63 Márcia de Oliveira Reis Brandão O gênero duplicado . .................................................................... 81 Gustavo Bernardo Dom Casmurro e a ironia da formação . .................................. 95 Marcelo Brandão Mattos Narrativização e subversão sexual: considerações em torno de Puig, Abreu e Bayly . .............................................................. 111 Anselmo Peres Alós Ficções do excesso e do sacrifício: Roberto Bolaño, Marcelo Mirisola e William Burroughs .................................................. 129 Ângela Maria Dias O relato de viagem – narradores entre a memória, o fictício e o imaginário ............................................................................... 141 Maria Elizabeth Chaves de Mello Gragoata 28.indb 3 3/11/2010 19:47:47 Sistemas de gêneros e recontextualização da ciência na mídia eletrônica . ......................................................................... 153 Désirée Motta-Roth Tensionamento de vozes na primeira página do jornal: o Episódio Aracruz na capa de Zero Hora .............................. 175 Élida Lima e Maria da Glória di Fanti AUTORES COLABORADORES . ............................................ 193 NORMAS PARA APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS ..... 197 4 Gragoata 28.indb 4 3/11/2010 19:47:47 Apresentação As reflexões em torno de questões relativas aos gêneros, tanto no âmbito dos estudos literários, quanto no dos estudos linguísticos, permanecem como um desafio e uma necessidade. Configuram-se como um desafio, na medida em que tais questões têm sido objeto, ao longo do tempo, de variadas e às vezes contraditórias abordagens, oferecendo-se, pois, como um terreno polêmico e controverso. E representam uma necessidade, uma vez que, a despeito de todo o percurso histórico e da variada teia de análises a que já foram submetidas, continuam a provocar indagações e a suscitar dúvidas, constituindo-se como produtivos pontos de partida para a problematização de questões mais amplas, que alimentam e sustentam o pensamento teórico contemporâneo nos dois referidos campos do saber. Tendo em vista, portanto, a atualidade e a pertinência dessas discussões, o número 28 da Revista Gragoatá tem como principal objetivo constituir-se como um espaço aberto ao debate em torno dos gêneros, com enfoque predominante sobre as noções e os recursos da narratividade, considerada em suas configurações contemporâneas, literárias ou não, o que parece significar entender a narrativa como o um lugar privilegiado das práticas textuais, vale dizer, das variadas manifestações dos gêneros que nela se plasmariam. Neste sentido, os ensaios aqui apresentados, em sua diversidade, evidenciam a amplitude da discussão, permitem um fecundo diálogo entre múltiplas propostas e convidam os leitores interessados a acompanharem não apenas reflexões de acentuado cunho teórico, como também produtivas análises focadas em determinas obras literárias ou em material discursivo de origem informativa. O volume se abre, significativamente, com o ensaio O narrador tirano: notas para uma poética da narrativa, no qual Jacyntho Lins Brandão retoma ideias contidas na República de Platão, que configurariam a diegese como o fundamento de todos os discursos, inaugurando-se, assim, como base de toda a teoria da literatura, uma poética da narrativa. Associando as formulações platônicas ao conceito de liberdade pura pensado por Luciano de Samósata, o autor pretende não apenas “pensar a literatura como uma ampla experiência diegética”, mas retirar daí “algumas consequências válidas para a teorização sobre a literatura em geral”, em particular sobre o poder e a liberdade do narrador, entendido, de forma extensa, como aquele que cria ficções, independentemente da forma escrita em que as expõe. Niterói, n. 28, p. 5-9, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 5 5 3/11/2010 19:47:47 Desta forma, o texto de Jacyntho Lins Brandão mergulha nas origens das questões sobre gênero e sobre narratividade, convidando-nos a uma revisão histórica do problema, ao mesmo tempo em que aponta para a permanência e para a produtividade do pensamento filosófico clássico nas manifestações literárias da contemporaneidade. Em A poesia e a prosa do mundo, Célia Pedrosa começa por retomar também conceitos históricos sobre as configurações dos gêneros literários, uma vez que seu texto parte das concepções teóricas dos românticos alemães, que consideravam a prosa como a matriz de todas as manifestações poéticas. Estabelece-se, assim, mais uma vez, a tensão que permeia as relações entre narrativa e poesia, num recorte temporal que, do romantismo europeu, chega à atualidade brasileira, com enfoque específico sobre certa produção poética em que se enfatizam o prosaico e o narrativo. Estruturando seu ensaio sobre uma consistente base teórica, a autora orienta, a partir de certo momento, a sua reflexão para a obra poética de Marília Garcia, que parece resumir vários dos aspectos apontados durante a exposição teórica, desde a presença de recursos da narratividade até a configuração serial que marcaria a prática literária do espaço e do tempo focalizados. Estabelecendo um implícito diálogo com os dois primeiros ensaios, o texto de Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira, Uma narratividade em mutação: recepção e produção de Causa Amante, de Maria Gabriela Llansol, trata de uma das mais radicais experiências de escrita contemporânea em língua portuguesa, aqui analisada a partir do material manuscrito ou datilografado que, paralelamente à confecção do livro analisado, a autora ia compondo. Ao pesquisar tal material, Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira, vai daí desentranhando ideias e preocupações estéticas e existenciais da escritora portuguesa, cuja obra parece constantemente desafiar os pressupostos tradicionais sobre gêneros e, particularmente, sobre a narrativa. Criando um código próprio para sua produção, Llansol rasura os limites entre poesia, prosa ou drama, instituindo como sua preocupação fundamental aquilo que irá denominar como textualidade, espaço de escrita onde o previsível é abolido e onde o inesperado e o mutante – no nível da forma ou da temática – são elementos fundamentais da construção.Referindo-se inicialmente à recepção da obra pela crítica especializada, a autora do artigo passa em seguida a evidenciar elementos do processo de criação do romance Causa Amante, ao cruzar o conteúdo dessa espécie de diários que eram os Cadernos da escritora com o universo ficcional que ia sendo, ao mesmo tempo, construído. Desta leitura resulta, sobretudo, a percepção do trabalho metalinguístico de Llansol, em sua lúcida elaboração de uma narratividade singular, à qual, evidentemente, se associa uma particular visão do mundo. 6 Gragoata 28.indb 6 Niterói, n. 28, p. 5-9, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:47 No artigo seguinte, Ne-uter ou uma questão de gênero: do neutro na língua à instabilização dos gêneros literários, Márcia de Oliveira Reis Brandão demonstra, desde o título, a evidente preocupação com a questão teórica em pauta, mantendo possível o diálogo com os textos anteriores. Tomando como ponto de partida a categoria de neutro desenvolvida por Roland Barthes, a autora discute a existência e a pertinência de uma escrita “sem marcas pré-determinadas”, portanto, sem vinculações exclusivas a modelos fixos e dogmáticos de gêneros e, sobretudo, livre do artificialismo de uma proposta mimeticamente realista. Após explicitar algumas das ideias de Barthes relacionadas à percepção de uma escrita desviante, ambígua e necessariamente metalinguística para que a ilusão de realidade seja quebrada, Márcia Brandão concretiza as reflexões teóricas expostas na análise do romance Budapeste, de Chico Buarque de Holanda, narrativa que, sobretudo por seu cunho acentuadamente metalinguístico, parece, com propriedade, sustentar a viabilidade de uma escrita neutra, desfocando pressupostos anteriores que atribuíam ao gênero romanesco a pretensão de afirmar verdades. É justamente a metalinguagem que constitui o objeto de análise de Gustavo Bernardo, em O gênero duplicado. Afirmando a sua antiguidade, já que se revela presente em todos os gêneros e em todas as épocas, Gustavo Bernardo discute o estatuto deste fenômeno estético que, ao questionar a identidade da própria ficção, coloca também em dúvida a identidade do sujeito e a da própria realidade, possibilitando aos leitores uma postura ativa diante do texto e de seu caráter duplicador. Sintetizando vários “esquemas metaficcionais” e recorrendo a duas litografias do holandês M.C. Escher como forma de ampliar suas reflexões com o recurso da visualidade, o ensaísta se detém ainda na análise de dois contos contemporâneos – um do argentino Julio Cortázar, outro do moçambicano Mia Couto –, que, através de diferenciados recursos, revelam o poder positivamente desarticulador da metalinguagem, de modo particular, a sua capacidade de questionamento de verdades consideradas definitivas. Em Dom Casmurro e a ironia da formação, de Marcelo Brandão Mattos, encontramos, novamente, a reflexão crítica sobre questionamentos de verdades, dessa vez, sob o viés polifônico e irônico do romance machadiano. Com base nos conceitos bakhtinianos, o articulista propõe a leitura de Dom Casmurro como um romance de formação, no qual a marca inovadora do autor introduz contrapontos irônicos à voz narrativa pretensamente autobiográfica, convocando o leitor atento para a percepção de possíveis versões que se ocultam sob a aparência de verdade ou certeza única. O ensaio confirma a originalidade e a atualidade da escrita machadiana, bem como a complexidade do narrador desse romance singular que se constitui, permanentemente, como espécie de modelo de texto que rasura a rigidez de Niterói, n. 28, p. 5-9, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 7 7 3/11/2010 19:47:47 determinadas concepções do gênero, exibindo a força criativa da construção narrativa. Anselmo Peres Alós, em Narrativização e suberversão sexual: considerações em torno de Puig, Abreu e Bayly, concentra sua análise sobre a narrativa latino-americana contemporânea e trabalha com o duplo conceito de gênero, evidenciando de que maneira os romances problematizam a ideia de gênero enquanto representação simbólica e cultural das identidades masculinas e femininas. Tendo como sustentação teórica os pressupostos feministas, os estudos narratológicos e a teoria queer, o artigo destaca o caráter político da ficção do argentino Manuel Puig, do brasileiro Caio Fernando Abreu e do peruano Jaime Bayly que, nos textos analisados, questionam “os regimes heteronormativos do sexo e do gênero” e, distantes de posições unilaterais e dogmáticas, propõem formas de resistência aos dispositivos de regulação das identidades sexuais. Dessa maneira, na visão do ensaísta, a literatura – através de suas estratégias textuais, de modo particular, nos casos analisados, por meio da complexa elaboração dos narradores – revela seu potencial de subversão e acena com a possibilidade de reconfiguração, tanto do corpo sexual, como do corpo social que, secularmente, impõe modelos de comportamento. Coincidentemente, o artigo de Ângela Dias, Ficções do excesso e do sacrifício: Roberto Bolaño, Marcelo Mirisola e William Burroughs, também estabelece uma comparação entre romances de três autores contemporâneos, um chileno, um brasileiro e um americano, analisando suas escritas como manifestações significativas de tendências estéticas atuais, nas quais se revela o papel do sacrifício como marca emblemática, daí derivando uma possível relação entre melancolia e trauma. Recorrendo a um amplo leque teórico, a autora fundamenta sua análise sobre o sacrifício no pensamento de Bataille e destaca o caráter alegórico e a perspectiva da abjeção na construção das narrativas analisadas, diferentes e próximos exemplares dos caminhos do gênero nas sociedades contemporâneas, tanto no que diz respeito à complexidade e à diversidade das técnicas empregadas, quanto no que se refere à reinvenção escrita da violência e do vazio existencial. Concentrando seu olhar sobre outra época e outro tipo de narrativa, Maria Elisabeth Chaves de Mello, em O relato de viagem – narradores entre a memória, o fictício e o imaginário, contribui para um aprofundamento da reflexão sobre as representações do Brasil na ótica dos europeus, focalizando, em narrativas feitas a partir do Renascimento por viajantes franceses, suas perspectivas sobre a natureza, o povo e o quotidiano do Brasil – um mundo novo que deveria ser preservado, mas, simultaneamente, um mundo primitivo que precisaria ser civilizado. Os testemunhos configurados nesses textos, datados sobretudo 8 Gragoata 28.indb 8 Niterói, n. 28, p. 5-9, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:48 do final do século XVIII e do início do XIX, são instigantes não só para o estudo das relações França / Brasil mas também para a observação dos reflexos das narrativas de viagem na formação da nossa literatura e nas representações do Brasil pelos brasileiros. Considerando as complexas redes sociais em que, na atualidade, dialogam gêneros diversificados, Desirée Motta-Roth, no artigo Sistemas de gêneros e recontextualização da ciência na mídia eletrônica, aborda o processo de popularização da ciência, enfocando a transposição da informação científica de publicações especializadas para a mídia eletrônica. Articulando as concepções sociorretórica e sistêmico funcional de gênero discursivo com a perspectiva sócio-histórica e concebendo gênero como evento discursivo recorrente em esferas de atividade humana, a autora discute as relações dialógicas entre gêneros que fazem parte do sistema que produz, veicula e mantém a ciência, destacando que o artigo científico e a notícia de internet que populariza seu conteúdo, embora tenham distintos modos de realização, estão inter-relacionados em uma complexa rede que permite a interação de sujeitos situados em diferentes lugares de um grupo social. Levando em conta o dialogismo da linguagem e pressupostos da abordagem ergológica, Lima e Di Fanti, no artigo Tensionamento de vozes na primeira página do jornal: o episódio Aracruz na capa de Zero Hora, focalizam o discurso da capa desse periódico na cobertura de um evento de ampla divulgação na mídia nacional. Analisando os efeitos de sentido produzidos pela associação dos planos verbal e visual na configuração do texto, as autoras discutem, entre outros aspectos, a questão da fragilidade das normas dos manuais de redação, que recomendam neutralidade e ausência de avaliação do jornalista, e concluem que a estabilidade do gênero é relativa, dando margem a diferentes possibilidades de concretização e implicando postura crítica dos leitores. Como se pode constatar, os artigos que compõem este número da Gragoatá, por suas qualidades e pela diversidade de caminhos para que apontam, criam oportunidades para o alargamento das discussões sobre os temas tratados, cumprindo amplamente com os objetivos da revista, de fazer circular o pensamento, de promover o debate, de provocar novas reflexões, desenhando o espaço acadêmico como o espaço por excelência do diálogo e da crítica. Dalva Calvão Norimar Júdice Niterói, n. 28, p. 5-9, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 9 9 3/11/2010 19:47:48 Gragoata 28.indb 10 3/11/2010 19:47:48 O narrador-tirano: notas para uma poética da narrativa Jacyntho Lins Brandão Recebido 10, abr. 2010 / Aprovado 20, mai. 2010 Resumo O artigo discute o uso do termo diegesis na República de Platão como um princípio fundamental de uma poética da narrativa, relacionando-o com o conceito de liberdade pura (ákratos eleutheria) em Luciano de Samósata. Considerando ambos os parâmetros, explora o estatuto do narrador (diegetés) e seu poder tirânico, ou seja, a capacidade de reportar o crível e o incrível. Palavras chave: Platão, Luciano de Samósata, narrador, narrativa, narrador-tirano. Gragoatá Gragoata 28.indb 11 Niterói, n. 28, p. 11-26, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:48 Gragoatá Jacyntho Lins Brandão Ainda que “narrar” seja uma das funções linguísticas mais básicas, aquela capaz de presentificar o que se encontra afastado no tempo e no espaço, ou seja, a categoria de discurso que rompe com a função da linguagem enquanto subsidiária do mundo no sentido de que aponte para um espaço e um tempo imediatos, a explicitação do que caracteriza a narrativa enquanto tal mostra-se em grande parte refratária a abordagens voltadas para estabelecer o que ela é e o que a diferencia no conjunto dos atos de linguagem possíveis. A primeira razão para essa dificuldade está no próprio fato de a narração constituir uma modalidade linguística fundamental; a segunda, dela decorrente, é que, por ser assim, a narração pode assumir formas muito variadas e torna difícil que se possa justamente defini-la enquanto uma forma. Evidentemente, ainda que muito trabalhada pela crítica e pela teoria literária, a narrativa não se confina ao campo da literatura, embora o próprio fato de que constitua a categoria literária por excelência seja em parte responsável pela complexidade que sua abordagem assume também nos usos não-literários (ver exemplos em JOLLES, 1976). Já salientei em outro trabalho como o gesto primordial que funda a nossa teoria da literatura, com Platão, ancora firmemente a poesia na narrativa, a tal ponto que poderíamos dizer que se trata não propriamente de uma teorização sobre a poesia (ou a literatura, nos termos atuais), mas sobre a diegese (BRANDÃO, 2007). Não está em causa, neste caso, definir um estatuto para a poesia, mas estabelecer um ponto de partida para uma avaliação da dicção (léxis) dos poetas, para cuja produção se pretende estabelecer “leis” (nómoi) relativas ao “como se deve dizer” (hos lektéon). Ora, esse primeiro patamar se expressa como uma pergunta que Sócrates dirige a seu interlocutor Adimanto, nos seguintes termos: “Porventura, tudo quanto é dito por mythológoi e poietaí não acontece ser diégesis ou do que foi, ou do que é, ou do que será?” (República 392d) – pergunta com a qual ele, o interlocutor (o que se pretende que se aplique também a nós, os leitores de Platão), aquiesce(mos) sem nenhuma espécie de dúvida – “Pois, disse ele, que outra coisa seria?” (Tí gàr, éphe, állo?) –, nessa aquiescência tão pronta residindo nossa dificuldade. Sublinhe-se que, sem esse assentimento inicial, que situa a dicção de mitólogos e poetas no campo da diegese, cairia por terra toda demais teorização sobre as espécies desta, a saber: a “diegese simples” (haplè diégesis), a “diegese que se faz através de mimese” (dià miméseos gignoméne) e a “diegese que se faz através de ambas” (di’ amphotéron). Afirmei que nisso se encontra nossa dificuldade porque os problemas de compreensão se acumulam: de um lado, caso se entenda diégesis, sem nenhuma modalização, como “narrativa”, no sentido comum que se dá a este termo (em português e nas línguas modernas em geral), a amplitude da 12 Gragoata 28.indb 12 Niterói, n. 28, p. 11-26, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:48 O narrador-tirano: notas para uma poética da narrativa base da exploração socrática fica comprometida, pois será forçoso excluir dela parte da poesia; de outro, se perderá a perspectiva de que a diegese não se opõe à mimese, sendo esta apenas um traço que, ajuntado àquela, permite a produção de suas diferentes espécies; finalmente, a principal dificuldade decorre do fato de que se proceda a uma ampliação bastante radical, como é próprio de Platão, cujo interesse se volta sempre para uma investigação que parta dos princípios (arkhaí), o que se concretiza pela inclusão no escopo do diálogo não só dos poetas, mas também dos mythológoi, e impõe não só que se tenha de saber o que se denomina por esse termo, como também indica, antes de tudo, que não se trata de um ponto de partida para que se pense apenas, em sentido restrito, a poesia. Será preciso precaver-se de uma primeira tentação: ler as declarações platônicas na chave da Poética de Aristóteles, a qual, ela sim constituindo uma resposta a Platão, acabou por ser considerada, provavelmente por seu caráter mais sistemático, como a fundação da nossa teorização sobre a literatura e o fundamento da tradicional tripartição de gêneros em narrativos, dramáticos e líricos. Nessa esteira, Genette expressa a opinião quase consensual: “Platão só considera aqui as formas de poesia ‘narrativa’, no mais amplo sentido da palavra”, excluindo “deliberadamente toda poesia não representativa, sobretudo o que chamamos de poesia lírica, e, com maior razão, qualquer outra forma de literatura (incluída ainda toda possível ‘representação’ em prosa, como nosso romance ou nosso teatro moderno)” (GENETTE, 1988, p. 188-9). Ainda que com interesses diferentes, de ordem comparativa, também Miner, após observar que a Poética de Aristóteles constitui a primeira “poética explícita” do Ocidente e de salientar “o fato de Aristóteles ter baseado a sua Poética no drama”, declara que constata algo “bastante curioso” nas outras culturas de que se ocupa em seu estudo, a saber, que “todos os outros exemplos de poética têm fundamento não no drama, mas na lírica”, não havendo nenhuma que tenha como ponto de partida a narrativa: “é realmente estranho – ele afirma – o fato de não haver uma poética originadora com base na narrativa”. (MINER, 1996, p. 22-3). Neste último caso, como se vê, simplesmente se desconsidera que haja na República uma “poética explícita” (o que seria verdadeiro, caso se tenha em vista que não se trata de um tratado sobre a poesia); no primeiro, embora se considere que Platão teorizou sim sobre a poesia, exclui-se de seu interesse uma boa parte dela, uma vez que se considera que a diegese diga respeito apenas à “poesia narrativa”, entendida como a que “a tradição posterior, depois de Aristóteles, ao inverter os termos, preferirá dizer ‘mimética’ ou representativa: aquela que ‘conta’ sucessos, reais ou fictícios” (GENETTE, 1988, p. 189-9). Niterói, n. 28, p. 11-31, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 13 13 3/11/2010 19:47:48 Gragoatá Jacyntho Lins Brandão Uma poética da narrativa “Donde Sócrates, se ligando à arte poética por causa de alg un s sonhos, já que, tendo sido então um defensor da verdade por toda sua vida, não era um criador de mentiras nem crível nem hábil, pôs em versos as fábulas de Esopo, uma vez que não existe poesia em que não haja mentira.” (Tradução de Hudson Cardoso Dornelas, inédita) 1 14 Gragoata 28.indb 14 Nos dois casos acima citados, bastante representativos da perspectiva mais comum, procede-se a uma redução do impacto da declaração socrática, cuja amplitude de raiz é preciso recuperar. Não se trata de ter em vista só a poesia que se faz em versos, uma vez que se admite que também tudo quanto é dito por mythológoi, em contraposição ou acréscimo aos poetas, é diegese. Literalmente, mythológoi significa aqueles que dizem “mitos” (ou contam estórias), não necessariamente apenas os poetas, devendo-se admitir que Platão possa ter em vista várias espécies de prosadores. De fato, já em passagem anterior, relativa “ao que se deve dizer” (hà lektéon), se afirmara que “coisas desse tipo proibiremos que digam, mas o contrário disso lhes determinaremos tanto cantar, quanto contar” (áidein te kaì mythologeîn, 392b), o que, ao mesmo tempo que distingue os dois verbos, garante que as duas modalidades se incluem na investigação; num ponto ainda anterior, ao criticar a forma como os poetas apresentam os deuses, já havia Sócrates declarado que as leis que estão eles em curso de estabelecer não permitirão que qualquer pessoa, “nem com metros, nem sem metros, conte mitos” (mét’en métroi, mét’ áneu métrou mythologoûnta, 380c); no Fédon, enfim, encontramos a definição mais pontual a respeito do termo mythológos: na iminência de morrer, tendo sido Sócrates alertado, em sonho, de que não se dedicara, durante sua vida, à música, declara que, “considerando que o poeta deve, se quer ser poeta, poetizar mitos (poieîn mythous) e não lógoi, e, não sendo eu próprio algum tipo de mitólogo (mythologikós), por isso então os mitos que tinha à mão e conhecia, os de Esopo, destes poetizei (epoíesa) os primeiros que me ocorreram” (Fédon 61b). O que traduzi como “poetizar” equivale, neste caso, a “versificar” e mostra como não é a forma – verso ou prosa – que define o mythos, embora se deva entender que todo poeta é mitólogo, o que não quer dizer que todo mitólogo seja poeta. O que Platão entende por mythos e mythología, aliás, já havia sido estabelecido em passagem anterior da própria República: uma terceira espécie de lógos – em princípio dividido entre o verdadeiro (alethés) e a mentira (pseûdos) –, a qual se define, em nova modulação, como “mentira no todo, em que todavia há também algo de verdadeiro” (tò hólon (...) pseûdos éni dè kaì alethê, 377a). Nesse sentido é que Plutarco entende a passagem do Fédon: toda poesia, enquanto mythología, é mentira (nos termos modernos: ficção); não podendo Sócrates, por ser o filósofo por excelência, mentir (por não ser ele mythologikós), restringiu-se a pôr em versos a ficção de Esopo, ao qual cabe, portanto, a responsabilidade e a pecha de mentiroso (Como o jovem deve ouvir os poetas 2).1 Reiteradamente: toda poesia é mythología, mas nem toda mythología é poesia, uma vez que se podem contar mythoi tanto com metros, quanto sem nenhum. Niterói, n. 28, p. 11-26, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:48 O narrador-tirano: notas para uma poética da narrativa Não é portanto a linguagem metrificada que torna complexa a dição (a léxis) do poeta, mas o fato de que ela seja diegese, razão pela qual o problema que se tem em vista se estende também à obra dos que contam estórias em prosa, provando-nos, ao contrário do que crê Miner, que esta constitui efetivamente uma “poética originária” que tem como base a narrativa. Nada de espantar. Afinal, a poética grega constrói-se, como é natural, no esforço para pensar uma determinada experiência de literatura, a grega, no topo da qual pontifica o narrador por excelência, Homero, considerado, por Platão, “mestre e comandante” (didáskalós te kaì hegemón) também dos tragediógrafos (República 595a/598d), no sentido do que tudo procede da “diegese mista” de Homero e os diferentes gêneros se criam a partir de sua dicção, seja pela purificação dos elementos miméticos, gerando a “diegese simples”, seja pela expansão do componente mimético até o ponto máximo em que toda diegese se faça “através de mimese”, como acontece no drama, sem que, todavia, este deixe de ser diegese. Tudo depende do grau em que o “narrador” (diegetés) explicita ou oculta sua função diegética, na distância que vai da “diegese simples” à “diegese mimética”. E aqui tocamos um ponto de essencial importância: não se trata simplesmente de classificar e avaliar os diferentes tipos de diegese, mas de fazê-lo tendo como critério os vários tipos de diegetas, sendo importante recordar que a teorização antiga jamais perderá de vista a figura do “poeta” enquanto agente, um dos vértices do tripé constituído também pela “poesia”, sua ação, e pelo “poema”, seu produto (essa é a organização, por exemplo, do tratado de Filodemo sobre Os poemas; ver OBBINK, 1995). Isso permite que avancemos mais no esforço de compreensão do estatuto da diegese, cujo principal traço está em pressupor um diegeta, cuja função, por seu turno, não se restringe ao campo da poesia e da mitologia, embora se entenda que todo poeta e mitólogo, como vimos, é diegeta. Nos domínios das várias formas de diegese, o poeta e o mitólogo dividem seu espaço com outros diegetas, como o retor, o médico, o historiador, o biógrafo, além daqueles que, como pessoas ou personagens, simplesmente discorrem sobre algum acontecimento, um plano, uma situação, um sonho, uma personalidade, uma vida – todos usos atestados para o verbo diegeîsthai até a época de Platão. Com relação a este, pode-se considerar (e ele parece ter consciência de que) seus diálogos são diegeses a propósito de Sócrates, uma figura cuja memória não se conservou senão em relatos, devidos também a outros “narradores”, como Xenofonte. Acredito que o interesse de Platão pela experimentação diegética que caracteriza seus diálogos, bem como pelos problemas teóricos que esse gênero de discurso levanta, esteja relacionado com a forma como se transmite a herança socrática, uma espécie de biografia filosófica. São relações perigosas que cercam também outras gêneros Niterói, n. 28, p. 11-31, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 15 15 3/11/2010 19:47:48 Gragoatá Jacyntho Lins Brandão “narrativos”, como a história, a qual, a exemplo da filosofia, sempre se esforçou por estabelecer sua distância com relação à poesia, um esforço que só reforça o quanto as diferenças não se encontram dadas de antemão nem são evidentes por si, uma vez que, em todos os casos, se trata de “discorrer” (diegeîsthai) sobre algo fora do campo da experiência imediata. Dizer que o traço mais fundamental da diegese é depender de um diegeta pode parecer tautológico, mas toca no ponto mais básico para uma definição que considere a amplitude dos atos narrativos: trata-se de um discurso que, retirado da esfera do imediato, vem a ser de modo mediato. Essa mediação define não só a função do diegeta, como a natureza da diegese e da ação de diegeîsthai, este último termo, donde os demais são derivados, por sua vez procedendo de hegeîsthai, ‘avançar na frente’, ‘conduzir’, ‘guiar’, ‘comandar’, atividade própria do hegemón, o ‘guia’, o ‘chefe militar’, o ‘comandante’. Pode-se dizer, portanto, que o que distingue o diegeta é uma função hegemônica, pois ele fala de coisas, passadas, presentes ou futuras, as quais, não pertencendo ao campo do imediato, instituem uma experiência mediata, pelo uso de uma técnica (tékhne) que, como qualquer tecnologia, amplia a capacidade humana de perceber o mundo, nele se situar e mover, fazendo que se possa também, de um modo que ultrapassa a experiência corriqueira, compreendê-lo e julgá-lo. Assim, a diegese libera o discurso do constrangimento de poder referir-se apenas ao que se apresenta imediatamente à percepção, tornando espaço e tempo categorias que passam a ter uma quase ilimitada profundidade, por obra e graça do diegeta, que fala do que não se vê, porque distante ou pertencente a passado ou futuro. Ora, essa hegemonia tem como condão gerar crença e desconfiança. Como observou Benjamin, é provável que a narrativa se tenha inicialmente dado, enquanto gênero, como prática de viajantes (contos de marinheiros), em que se põe a maior fé, mas igualmente a maior descrença, na impossibilidade de testar-se a veracidade do narrado, que institui uma experiência de mundo acessível não mais que através da própria narração. Nesse sentido, o efeito de um texto religioso, historiográfico ou poético não é diverso do que se lê, por exemplo, no tratado hipocrático Sobre os ares, as águas e os lugares, quando o autor afirma que “desejo discorrer (diegeîsthai) sobre o restante das águas”, esclarecendo, em seguida, que tratará “tanto das que são doentias, quanto das saudáveis, de quais águas vêm a ser naturalmente más e de quantas são boas” (7, 1), já que, em todos os casos, o diegeta exerce sua função hegemônica, conduzindo o recebedor a uma experiência de mundo que não é a sua, mas que se pretende que se torne assim pela mediação de quem o conduz. O que se experimenta, então, são recursos para dar credibilidade à própria diegese, melhor, ao diegeta, cada uma de suas espécies especializando-se nos que lhe parecem mais 16 Gragoata 28.indb 16 Niterói, n. 28, p. 11-26, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:48 O narrador-tirano: notas para uma poética da narrativa apropriados: a apresentação das credenciais que lhe emprestam autoridade, em termos de um nome, de uma função ou de uma instituição; a referência aos trabalhos, no sentido tanto de experimentação, quanto de sofrimento, que precedem o relato; ou mesmo o ocultamento mais absoluto da figura do diegeta, que entrega toda narração a uma autoridade, muitas vezes divina. Um percurso, portanto, que vai do máximo do humano, em que o historiador se especializa, expondo inclusive suas incertezas e a contradição de suas fontes, como faz Heródoto, até o mínimo do humano, a exemplo do narrador do Gênesis, que propõe ao leitor a palavra divina aparentemente sem qualquer mediação, já que qualquer mediação autoral implicaria, neste último caso, em perda de autoridade. E o poeta? De acordo com a tripartição platônica, ele teria duas possibilidades excludentes, as quais poderíamos interpretar assim: a “diegese simples”, em que não oculta nunca sua mediação; e a “diegese mimética”, quando ele a oculta totalmente, no interesse de proceder a mimese do imediato (a “diegese mista” não passando de uma terceira espécie intermediária, em que as duas outras se mesclam, com predominância variada). Convém insistir que essas são modalidades de dicção (léxis), ou seja, do “como se diz”, e que mesmo naquela que se dá como mimese do imediato se entende que a mediação do poeta ou mitólogo está presente. Assim se constata que estes serão sempre tidos como diegetas e que a teorização platônica, ainda que tratando da poesia e mitologia, constitui uma abordagem que tem como ponto de partida a complexidade que cerca o diegeta (termo que seria mais exato para definir o que comumente se chama de poeta). Assim, do mesmo modo que, no drama, o diegeta se oculta inteiramente para mimetizar o imediato, na “lírica”, ele se expõe inteiramente, numa espécie de, por assim dizer, “mimese” do mediato – ou de uma sorte de grau zero de mimese. Todavia, isso não implica que, adotando essa espécie de léxis, seu discurso (lógos) se torne outra coisa que a terceira espécie a que já se fez referência, ou seja, aquela que, não sendo nem o verdadeiro (alethés), nem o falso (pseûdos), se dá como pseûdos no todo em que todavia há algo de verdadeiro. É essa articulação dos dois níveis de investigação platônicos, “o que se deve dizer” (lógos) e “como se deve dizer” (léxis), que define um estatuto para o poeta e o mitólogo, que o são por jamais abrirem mão de sua função diegética, uma vez que é a mediação que a diegese provê que permite ultrapassar as simples injunções do verdadeiro e do falso num discurso de terceiro tipo. Dizendo de outro modo: caso não se conte com um diegeta, a terceira espécie de discurso não se poderá efetivar, ficando o lógos restrito à imediaticidade do verdadeiro e do falso. Podemos portanto dizer que é o diegeta quem introduz um alto grau de complexidade no campo da linguagem, em virtude Niterói, n. 28, p. 11-31, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 17 17 3/11/2010 19:47:49 Gragoatá Há neste ponto um pr oble m a de orde m textual: os manuscritos trazem akratès he eleuthería, que é a lição adotada por Jacobitz (1887), Homeyer (1965), Mestre e Gómez (2007), além de Macleod (1980), este último anotando que a lição proposta por Du Soul tem toda probabilidade de ser a correta, por retomar as fórmulas platônicas de Resp. 562d e Leg. 723a. A correção para ákratos he eleuthería, seguida por Fritzchius (1860), Som merbrodt (1893) e Kilburn (1959), foi feita por Moïse Du Soul (Solanus), em anotações em exemplar da edição Juntina, as quais foram consideradas por J. F. Reitz, na edição que publicou em Amsterdam, no ano de 1743. As duas leituras implicam em alguma diferença de sentido: a) akratés, derivado de krátos (poder, força), significa, em uso absoluto, ‘sem força’, ou, num sentido moral, ‘desregrado’, ‘imoderado’, ‘licencioso’; b) ákratos, que procede de keránnymi (misturar), tem o sentido de ‘puro’, ‘não-misturado’, do que se desdobra também a acepção de ‘violento’, ‘excessivo’. A questão, portanto, está em saber se Luciano se referia a uma “liberdade desregrada” ou a uma “liberdade pura”, minha posição sendo que a última alternativa estaria mais de acordo com seu pensamento e com a influência que Platão tem em sua obra, além de ser também a mais produtiva em termos de interpretação. 2 18 Gragoata 28.indb 18 Jacyntho Lins Brandão de produzir formas de discurso mediatizadas entre o verdadeiro e o falso. Pode-se ainda afirmar que o que a discussão platônica tem de mais próprio é retroceder a reflexão sobre a poesia a um grau anterior ao da própria poesia e seu produto, o poema, julgando ambos da perspectiva do poeta. Mas como o poeta e o mitólogo dividem com outros “narradores” a “narração” e o “narrado”, a incerteza que cerca sua produção estende-se a todos os demais diegetas. Como separar o poeta, por exemplo, do historiador, cuja obra não deixa de ser também nada mais que diegese de coisas que foram? O esforço de propor soluções é variado, justamente porque a proximidade é flagrante: o poeta engrandece os feitos para embelezá-los, não sendo por isso digno do crédito que o historiador supõe, como assevera Tucídides; já na opinião de Aristóteles, o historiador se atém ao que aconteceu (tà genómena), enquanto o poeta trata do que poderia acontecer (hoîa àn génoito), tendo como critério as regras de necessidade (anánke) e similitude (eikós); etc. (para outros exemplos, ver HARTOG, 2001). Todavia, a opinião que me parece desdobrar mais legitimamente as considerações platônicas encontra-se em Luciano de Samósata, segundo o qual, “da poesia e dos poemas umas são as intenções e eles têm regras próprias (állai hyposkhéseis kaì kanónes ídioi), enquanto as da história são outras. Na poesia, com efeito, há liberdade pura (ákratos eleuthería) e uma única regra (nómos heîs): o que parece ao poeta” (tò dóxan tôi poietêi, Como se deve escrever a história 8). Como se vê, estão em causa a poesia, os poemas e, o mais importante, também o poeta. O narrador-tirano Já tratei em mais um trabalho dessa definição, tanto no interesse de pensar o que deve ser a história, quanto para compreender a poética do próprio Luciano enquanto ficcionista. Voltar a ela agora tem como intenção explorar o estatuto do poeta enquanto diegeta, ou seja, lê-la na chave da tradição platônica, explorando livremente as conexões possíveis. O núcleo de nosso interesse estará em buscar o que significa declarar como “intenção” e “cânon” da poesia esta única “lei”, a dóxa do poeta, uma vez que se goza de “liberdade pura”. Acredito que seja esta expressão, “liberdade pura” (ákratos eleuthería), a que melhor expressa o pensamento de Luciano, de acordo com a correção de Solanus.2 Em mais de um texto ele insiste na liberdade, sem outras determinações, de que gozam “sonhos, poetas e pintores”, os quais, “sendo livres (eleútheroi), modelam (anapláttousin) coisas que jamais existiram nem podem existir” (Hermótimo 72). Mas em Como se deve escrever a história ele exige que também o historiador, dentre outras qualidades, seja livre, a fim de que seja justo, o que se expressa numa bela sucessão de traços: “sem medo, incorruptível, livre (eleútheros), amigo da franqueza e da verdade (...), juiz equânime (...), Niterói, n. 28, p. 11-26, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:49 O narrador-tirano: notas para uma poética da narrativa estrangeiro nos livros e apátrida, autônomo, sem-rei, não se preocupando com o que achará este ou aquele, mas dizendo o que se passou” (Como se deve escrever a história 41). Essa liberdade do historiador se esperaria também em outros homens cultos, como o retor, o filósofo e o médico, embora Luciano afirme não encontrá-la facilmente neles – noutros termos, trata-se de um ideal de vida e postura intelectual baseado na liberdade e na franqueza. Portanto, o poeta não seria diferente, no uso da liberdade, desses outros intelectuais. O que interessa ressaltar, todavia, é que apenas em Como se deve escrever a história a liberdade do poeta recebe uma qualificação: não se trata simplesmente de liberdade, mas de uma “liberdade pura”. É provável que essa determinação se imponha para que se proceda à partilha com relação à liberdade do historiador, sobretudo porque está em questão distinguir a diegese poética da histórica, ambos, poeta e historiador, constituindo espécies de diegetas que têm em comum mediar discursos. Essa expressão, “liberdade pura”, é tomada por Luciano, como defendo, de Platão, o qual, na República, afirma que “quando uma cidade democrática, sedenta de liberdade, tem em seu comando maus escanções (oinokhóon) e, além do que se deve, se embriaga com ela pura” – isto é: com liberdade pura – então, “se os que a governam não são extremamente doces e não lhe concedem muita liberdade (pollèn... eleutherían), ela os acusa e os castiga como criminosos e oligarcas” (República, 562c-e). Que a passagem teve ressonância, ainda que bastante rara, garantenos Plutarco, que aplica a mesma expressão às reformas que Efialto, diminuindo o poder do Aerópago, promoveu em Atenas: “Um desses foi, como se diz, Efialto, que diminuiu o poder do Conselho do Areópago e, conforme a expressão de Platão, serviu liberdade, em abundância e pura, aos cidadãos” (pollèn katà tòn Plátona kaì ákraton toîs polítais eleutherían oinokhóon, Vidas paralelas, Péricles, 7). Nos dois casos, o uso tanto do substantivo oinokhóos (escanção, quem serve o vinho), quanto do verbo oinokhoeîn (servir vinho), não deixa dúvidas de que se trata de metáfora relacionada com o vinho (oînos) que se serve temperado com água (krâsis) ou puro (ákratos). Assim, também a liberdade pode ser ministrada mesclada com outras coisas ou pura e sem mistura. Ora, o percurso descrito por Sócrates, na passagem citada, se estende da cidade regida por uma “reta constituição” até aquela dominada pelo tirano: uma primeira etapa leva da cidade aristocrática, governada pelo rei-filósofo, à timocrática, que tem como seu maior bem o desejo de honras (timaí), o qual predomina nas almas dos cidadãos; desta, quando às honras substitui o desejo do ganho, então se produz a cidade oligárquica, cujo maior bem se considera ser a riqueza; num momento seguinte, da cidade oligárquica surge a cidade democrática, que tem como maior bem a liberdade; finalmente, é dos excessos dessa liberNiterói, n. 28, p. 11-31, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 19 19 3/11/2010 19:47:49 Gragoatá Jacyntho Lins Brandão dade, servida pura, que se chega ao pior dos regimes, a tirania, quando tudo se submete ao desejo de um só, o tirano (República 545c-564b). Não há como reproduzir aqui como se processa, passo a passo, o percurso entre as várias cidades, bastando salientar que cada uma delas se perde pelo excesso do bem que lhe é próprio: honras, riquezas, liberdade. Outra observação: a maior das servidões, sob o regime tirânico, nasce do excesso de liberdade, a qual, quando se experimenta pura, isto é, sem limites, se estende a tudo e a todos, até mesmo aos animais. Nesse contexto não é casual que Sócrates critique os poetas trágicos, por hinerarem a tirania em suas composições, com menção especial a Eurípides, ainda que esse elogio se faça pela boca de personagens em estado de aflição – o que, todavia, não só corrobora as relações entre poesia e tirania, como mostra que, mesmo mimetizando o imediato na representação dramática, não se livra o poeta, enquanto mediador, da responsabilidade pelo que põe na boca de suas criações. Portanto, dizer que na poesia há “liberdade pura”, ao contrário do que deveria haver na história, em que também há liberdade, porém com limites, implica em ter em mente pelo menos três coisas: que o poeta se embriaga de liberdade pura e nesse estado compõe; que embriaga seus ouvintes ou leitores, como os escanções que servem vinho não-temperado; e que, como consequência disso, mantém seus ouvintes ou leitores sob a mais absoluta tirania, em que há uma só lei: a sua própria doxa. Noutros termos: o poeta é um tirano que, abandonando qualquer espécie de temperança, tem como objetivo embriagar os que o ouvem ou leem, para perpetuar sua própria tirania. Menos que apresentar garantias externas com relação ao que dizem (baseadas, poderíamos dizer, em honras e outras riquezas), filósofos, retores, historiadores e outros diegetas desse tipo devem ter como traço principal adotarem uma léxis temperada, sendo-lhes vedado lançar-se aos arroubos só permitidos ao poeta; menos que submissão à verdade, filósofos, retores, historiadores e outros diegetas desse tipo devem adotar uma dicção verossímil, compatível com a narração que fazem – em resumo, diegetas dessa espécie, sob o risco de comprometerem a credibilidade do que relatam, têm como traço principal o não gozar de liberdade pura, mas apenas de uma liberdade mesclada com limites de ordem variada: a prática de vida, com relação aos filósofos; as situações presentes, no caso dos oradores; os acontecimentos passados, quando estão em cena os historiadores. Essas são suas credenciais, enquanto mediadores, aquelas capazes de atribuir autoridade a seus discursos. A tirania do poeta, por seu turno, não tem limites. Afirma Luciano: 20 Gragoata 28.indb 20 Niterói, n. 28, p. 11-26, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:49 O narrador-tirano: notas para uma poética da narrativa Luciano assim define seu objetivo em Narrativas verdadeiras I, 2: “Ora, o próprio repouso poderia até tornar-selhes [aos homens cultos] agradável, se porventura se entregassem a um gênero de leitura que, além de proporcionar um entretenimento simples, como é o resultado duma temática jocosa e divertida, suscitasse motivos de reflexão que não desconvêm às Musas – algo parecido, supon ho, com o que porventura sentirão ao lerem esta minha obra. Efetivamente, o que nela os seduzirá reside não apenas na estranheza do tema, ou na minha intenção de divertir, ou no fato de ter inventado mentiras variadas que têm todo o ar de verossimilhança e de verdade (pseúsmata poikíla pithanôs te kaì enaléthos), mas igualmente na circunstância de, à laia de paródia, cada passo da narrativa fazer alusão a alguns dos antigos poetas, historiadores e filósofos, que escreveram muitas coisas espantosas e fabulosas – autores cujos nomes eu explicitaria, se a simples leitura não bastasse para que tu próprio os identificasses” (tradução de Magueijo, com modificações). Dessa perspectiva, os “mitos” narrados em vários textos platônicos, em especial os que se passam no mundo dos mortos, seriam bons exemplos de narrativas inverossímeis em que há muito de verdadeiro. se um desses poetas atrevidos disser que houve uma vez um homem com três cabeças e seis mãos, e se tu, logo de início, aceitares a coisa por inércia, sem examinares a fundo se isso é possível, mas, pelo contrário, lhe deres crédito, ele logo poderá ajuntar, consequentemente (akoloúthos), o restante: que o dito homem tinha também seis olhos, seis orelhas, emitia simultaneamente três sons de voz, comia com três bocas, tinha trinta dedos, diversamente de qualquer de nós, que tem dez em ambas as mãos; e se tivesse de ir à guerra, três das mãos seguravam, respectivamente, um escudo ligeiro, um escudo oval e um escudo redondo, enquanto, das outras três, uma brandia uma acha, outra arremessava uma lança, e outra usava uma espada. E quem é que depois duvidaria das suas palavras? Na verdade, elas são consequentes com o princípio (akóloutha têi arkhêi) e a respeito deste é que se impunha verificar, desde logo, se havia que aceitá-lo e admiti-lo como válido. (Hermótimo 72, tradução de Custódio Magueijo, com modificações) 3 Note-se bem: não mais, como em Aristóteles, o que distingue o poeta é dizer “o que poderia acontecer” (ou o verossímil) de acordo com “necessidade” e “similitude”, embora isso não signifique que não haja um princípio que governe seu discurso, pelo contrário, ele é regido pelo princípio da “consequência” (akolouthía). Trata-se de um postulado que como que liberta o poeta das injunções da verossimilhança, permitindo-lhe explorar o inverossímil (em que, curiosamente, também pode haver algo de verdadeiro).3 Com efeito, a verossimilhança não deixa de ser um limite que se mescla à liberdade do poeta, não tão diverso dos que constrangem outros tipos de narradores, sendo incompatível com a “liberdade pura”. Noutros termos: num caso, trata-se de mediar um discurso que, sem ser o que é, a isto se assemelha; noutro, de mediar um discurso que mimetiza o verossímil, avançando contudo pelo que não é nem pode ser. De como isso se efetiva há inúmeros exemplos na própria obra de Luciano (como seus diálogos de mortos), embora nenhum tão consequente com o estatuto tirânico do narrador quanto Narrativas verdadeiras (Alethôn diegemáton): neste exercício, o diegeta começa dirigindo-se ao leitor, para expor inteiramente sua mediação, através da declaração de que é “para não ser o único a não ter parte na liberdade de contar estórias” (mythologeîn eleutherías) que “se voltou para a mentira” (epì tôi pseûdos etrapómen), embora de modo mais autêntico que seus antecessores, pois “numa única coisa serei verdadeiro, dizendo que minto” (hèn gàr dè toûto aletheúso légon hóti pseúdomai, 1,4). Posto esse princípio, o narrador, que se chama na narrativa pelo nome próprio de Luciano, está então autorizado, por consequência, a tudo mais: visitas a locais impossíveis, uma viagem à lua, uma estada no interior de uma baleia, uma visita ao mundo dos mortos, onde convive e dialoga com Homero e suas personagens – e assim por diante. Observe-se bem: dizer que a única verdade que dirá é Niterói, n. 28, p. 11-31, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 21 21 3/11/2010 19:47:49 Gragoatá Jacyntho Lins Brandão que mente representa o princípio mais radical porque configura a liberdade mais pura de que um diegeta pode gozar. Acordado este princípio, no prólogo da obra, então o leitor se põe sob a mais absoluta tirania do narrador, que pode mesmo contar tudo que lhe aconteceu em primeira pessoa, mimetizando toda sorte de diegetas, de ficções ou não, que falam com base em experiências confiáveis, embora, como ele assevera ainda na abertura do escrito, “escrevo sobre coisas que nem vi, nem experimentei, nem soube a partir de outros, mais ainda, que de todo não são (méte hólos ónton), nem, por princípio, podem vir a ser” (méte tèn arkhén genésthai dynaménon, Nar. verd. 1, 4). Exercícios de poder Num estudo anterior sobre o romance grego, ensaiei uma classificação dos narradores presentes neste corpus, a saber: a) aqueles que não se põem senão nas margens do texto, ou seja, em títulos e epílogos, como Xenofonte de Éfeso e Cáriton de Afrodísias; b) aqueles que explicitam sua função em proêmios, o que é o caso de Longo; c) aqueles que entregam a diegese a personagens narradoras, numa sucessão de narrativas enquadradas em narrativas, técnica utilizada por Antônio Diógenes e Heliodoro; c) aqueles que se põem como recebedores de uma narrativa feita por uma personagem, opção de Aquiles Tácio; d) aqueles que, como faz Luciano, assumem o papel de narradorespersonagens, ou seja, rompem os limites e se incluem na própria narrativa (BRANDÃO, 2005, p. 110-156). 4 22 Gragoata 28.indb 22 Do ponto de vista de uma poética que tenha como base a narrativa, não seria absurdo considerar que, uma vez que concordemos que o traço mais fundamental da diegese é contar com um diegeta, explícito ou implícito, suas espécies poderiam ser classificadas de acordo com as representações deste, todas tendo em comum deixar em aberto problemas variados de recepção.4 O que pretendo é não mais que tirar da proposta platônica de pensar a literatura como uma ampla experiência diegética, em que o narrador, na perspectiva luciânica, assume formas variadas de poder, impondo ao recebedor contratos de ordem diversa, mas sempre impositivos, algumas consequências válidas para a teorização sobre a literatura em geral, ou seja, viso a dar à teorização platônica, entendida em sua amplitude, a dimensão que, geralmente, ao longo da história, se concedeu apenas à teoria aristotélica da mimese, incluindo-se tudo que diz respeito à verossimilhança, talvez por se tratar de um abordagem menos problemática da poesia e da poética. Acredito que, com isso, se alcançariam ganhos efetivos, capazes de, realçando a figura do diegeta, conduzir a compreensão mais acurada de experimentos que como que explodem as bases da poética aristotélica, como faz, por exemplo, Dorst, em Merlin ou a terra deserta, pois a “diegese mimética”, nesta obra que se classifica como dramática, é interrompida insistentemente por interferências de um narrador não identificado, que, em “diegeses simples” ou “mistas”, relata sucessos não incluídos na representação feita através dos atores, ou mesmo, como acontecia na comédia grega antiga, tece considerações sobre a própria narrativa (DORST, 1984). Não tenho como explorar aqui todas as possibilidades de exercício da diegese, ou seja, as relações que com ela celebra o diegeta, motivo por que pontuarei apenas algumas peculiaridades do exercício de poder da parte do narrador, tendo em vista os experimentos antigos que podem ter informado a percepção, diversa mas complementar, tanto de Platão, quanto de Luciano. O primeiro aspecto importante a ressaltar – e que pode parecer surpreendente – é que a dicção (léxis) mais própria do Niterói, n. 28, p. 11-26, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:49 O narrador-tirano: notas para uma poética da narrativa Cidade de Deus XVIII, 18: “Assim Apuleio, no liv ro que cha mou O asno de ouro, escreveu a si próprio (sibi ipsi) ter ocorrido que, tendo tomado uma poção, conservou a mente humana, tornando-se asno, como ou demonstra ou finge (aut indicauit aut finxit)”. Observe-se que Santo Agostinho admite que Apuleio possa ter “fingido” que se transformou num asno, mas não que isso lhe tenha ocorrido a si mesmo (sibi ipsi). 6 Logo no i n íc io da narrativa, o narrador afirma: “Meu nome é Durocatus. Minha terra a Islândia, que os antigos chamavam de Tule. Minha mãe era Fiolxhilde, sua morte recente me deixa liberdade para escrever.” (KEPLER, 1967). Observe-se que dizer ele que sua mãe já estava morta quando da publicação do livro não impediu que se entendesse que isso fosse apenas um artifício para esconder o fato de que era feiticeira (cf. CHRISTIANSON, 1976). 5 narrador-tirano seria a “diegese simples”, ou seja, trata-se de um diegeta que não deixa o leitor jamais perder o senso de sua mediação, tomada como credencial de seu poder. Nesse tipo de contrato se encontra o perigo, pois o recebedor deve entregar inteiramente ao narrador a condução de um relato que se apresenta como pura diegese. Isso é o que determina que, sobretudo nos gêneros que chamamos de líricos, se torne extremamente complexo, para o ouvinte ou leitor, separar “autor” (a pessoa física) de “narrador”, essas duas categorias que não se encontram dadas de antemão, impondo-se como distintas apenas com dificuldade, uma vez que o diegeta que diz “eu” tende a englobá-las. Para resumir, trata-se do efeito que vai do “A mim parece igual aos deuses”, com Safo, ao “Vou-me embora pra Pasárgada”, de Manuel Bandeira, e que tem como pressuposto, de que tudo mais segue por consequência, admitir-se a possibilidade de que o “poeta”, a “poesia” e o “poema” possam migrar do campo do pseûdos, pois quem diz “eu” com relação ao que tem de mais próprio não tem de prestar contas a nada nem a ninguém externo a sua própria diegese. Há todavia uma outra forma: quando o narrador se vale de mimese ao dizer “eu”, o que implica, noutros termos, que se trata agora de um tirano astuto. Não me refiro ao drama (ou, nos termos platônicos, à “narrativa mimética”), pois este é o gênero que oferece menos dificuldades, por se tratar de um limite extremo, na direção contrária ao que se verifica na diegese simples, mas aos casos em que se mimetiza um narrador em primeira pessoa. Apuleio, por exemplo, ao escrever, no Asno de ouro, a inverossímil história da personagem Lúcio, que, transformado em asno, passa por uma série de aventuras e as narra em primeira pessoa, leva Santo Agostinho a entender que é ele, o próprio Apuleio, que teria verdadeiramente experimentado essa metaformose, em virtude de poderes diabólicos – esse tipo de recepção, saliente-se, não se devendo a um leitor inculto nem ingênuo.5 Outro caso exemplar encontramos na ficção, escrita em latim, por Johann Kepler, o astrônomo, intitulada Sonho ou astronomia da lua: seu protagonista, Durocatus, que fala também em primeira pessoa, é transportado àquele satélite pelo “demônio de Lavânia, espírito da lua”, na companhia de sua mãe Fiolxhilde, entendida em encantamentos e ervas, isso tendo sido motivo para que se entendesse que o autor e sua mãe, Katherine Kepler, fossem, na verdade, os que tinham experimentado a tal viagem, tendo ela sido presa, em 1615, sob acusação de bruxaria, faltando pouco para que não fosse queimada.6 Ambos são exemplos do princípio reclamado por Luciano: caso se admita que possa haver um homem que se transformou em asno, caso se admita que se possa viajar às estrelas e ao mundo dos mortos (caso se admita um machadiano defunto-narrador, caso se admita isso ou aquilo) – então tudo mais decorre por consequência, sobre- Niterói, n. 28, p. 11-31, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 23 23 3/11/2010 19:47:49 Gragoatá Como se deve escrever a história 8: “Pois ele [o poeta] é inspirado e possuído pelas Musas, de modo que, mesmo se quiser atrelar um carro a cavalos voadores, mesmo se puser outros correndo sobre a água ou sobre pontas de espigas (cf. Ilíada XX, 226-9), ninguém se importará. Nem quando o Zeus dos poetas, puxando uma só corrente, levanta ao mesmo tempo a terra e o mar (cf. Ilíada VIII, 248), temem que ela se rompa e que tudo, caindo, se destroce. Quando querem louvar Agamêmnon, ninguém impede que ele tenha a cabeça e os olhos semelhantes aos de Zeus, o peito ao de seu irmão Posídon, a cintura à de Ares (cf. Ilíada II, 478-9)– e, em resumo, o filho de Atreu e Aérope deve ser um composto de todos os deuses, pois nem Zeus, nem Posídon, nem Ares bastam para, cada qual sozinho, dar-lhe uma beleza completa.” (parênteses meus) 7 24 Gragoata 28.indb 24 Jacyntho Lins Brandão tudo quando quem narra fala do que lhe aconteceu. Não se deve esquecer que, no laboratório platônico, a própria República se apresenta como um longo relato de Sócrates, que, por falar em primeira pessoa, deixa em suspenso o saber se, afinal, é este narrador-personagem quem se responsabiliza pelo lógos ou o narrador que se sabe que se esconde detrás do texto, isto é, o próprio Platão. Pergunta ingênua, pois tudo depende de que o leitor admita que lhe seja possível acompanhar, como recebedor direto, uma narrativa socrática (algo tão improvável quanto uma visita ao mundo dos mortos), do mesmo modo que, em outros experimentos, o diegeta (Platão) pretende que seu leitor admita a possibilidade de assistir, como espectador imediato, a diálogos do mesmo filósofo. Finalmente, devemos considerar que poder detém o diegeta que conduz o relato sem apresentar-se com um nome próprio ao leitor, sem nunca dizer “eu” (ou quase nunca, como é o caso de Homero), de que um exemplo extremo poderia ser o narrador do Gênesis. Como se trata aqui de refletir sobre os níveis de tirania do narrador, este último talvez poderia ser entendido como um ponto culminante, uma vez que se trata de alguém que, por evitar o “eu”, se apresenta como isento, distante, completamente exterior à diegese. Na opção javista do Gênesis, o que se pressupõe é nada menos que o distanciamento divino, que acompanha e julga os feitos de um ponto de vista absolutamente exterior, as preferências sendo justificadas por isso. Esse é um tipo de diegeta que, não perdendo jamais as rédeas, demonstra um alto poder de levar o recebedor a compartilhar de suas convicções, a exemplo de Homero: ainda que, na Ilíada, Heitor, mesmo sendo troiano, seja retratado como um dos maiores herois, o que, desde a Antiguidade, se costumava tomar como prova de isenção diegética, isso, conforme Luciano, em última análise, constituiria uma estratégia para engrandecer a vitória de Aquiles (e dos gregos, que lutaram contra uma confederação de povos valorosos); do mesmo modo, no âmbito do próprio exército grego, ele, o narrador da Ilíada, toma o partido de Ulisses contra Tersites, convencendo-nos de que o primeiro é melhor e age de modo justo ao cortar, com violência física, a palavra do outro. Pode-se dizer que esse tipo de narrador que mimetiza o máximo de objetividade seria, afinal, o que mais exerce a tirania possível a quem narra – e não seria então sem justificativa que os exemplos a ele referentes, citados por Luciano, sejam todos tomados de Homero.7 Trata-se, em última análise, de um narrador que, sendo tirano, não se representa como tal, ao ocultar sua liberdade pura e dar a entender que concede a seu recebedor o mais algo grau de liberdade, embora seja ele, o narrador, o único responsável por aquilo que focaliza ou não, por como apresenta, representa e julga o mundo que narra. Niterói, n. 28, p. 11-26, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:50 O narrador-tirano: notas para uma poética da narrativa Por esses poucos exemplos, que menos que esgotar indicam vias de investigação, constata-se como, ao contrário do que se poderia pensar em termos de ilusão, faculdade que se atribui, desde Platão, à mimese, parece ser a diegese a que mais desfaz os limites entre autor e narrador, entre fato e ficção, em qualquer das suas três espécies, podendo ser ela, e não a mimese, considerada como fundamento do poético: desde que se admita o pressuposto imposto pelo narrador, o que se põe como o princípio sem o qual a obra não surtiria seus efeitos, tudo mais decorrerá sempre por consequência. Não se trata, neste caso, de jogar Platão contra Aristóteles, mas de, admitindo-se que se conta com uma “poética originária” que tem como ponto de partida a narrativa, tirar as consequências disso, sobretudo porque o rol de experimentos diegéticos, ficcionais ou não, jamais deixou de crescer ao longo da história, explicitando, ocultando ou modalizando o poder exercido, em diferentes graus, pelo narrador que, de um modo ou de outro, pelo menos no campo da ficção, comporta-se como autêntico tirano. Abstract The article discusses the use of the term diegesis in Plato’s Republic as a fundamental principle of a poetics of narrative, relating it with the concept of pure freedom (ákratos eleuthería) in Lucian of Samosata. Considering both parameters, it explores the status of the narrator (diegetés) and his tyrannical power, i.e. the ability to report both the credible and the unbelievable. Keywords: Plato, Lucian of Samosata, narrator, narrative, tyrant-narrator REFERÊNCIAS AGUSTÍN, San. 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De imediato, lembra Michel Foucault, que como prosa do mundo nomeia a relação representativa entre a sintaxe de palavras e coisas, característica da episteme clássica (1996, p.3469). Mas quer remontar de fato a uma nomeação bem anterior, proposta por Friedrich Schlegel, no contexto do questionamento romântico dessa relação: “A idéia de poesia é a prosa” (Apud BENJAMIN, 1999, p.106). Um fragmento do diálogo que com ele trava o poeta Novalis ajuda a compreendê-la: “Se a poesia quer se estender, ela só o pode na medida em que se limite; na medida em que se contraia, permita a sua matéria ígnea como que partir, e se coagule. Ela adquire uma aparência prosaica, suas partes constitutivas não se encontram numa comunidade tão íntima – portanto não sob leis rítmicas tão rígidas – [.....] torna-se mais capacitada para a exposição do limitado [...] Quanto mais simples, uniformes, quietos são também aqui os movimentos das frases, quanto mais consentânea sua mistura no todo, quanto mais frouxa a conexão, quanto mais transparente e descolorida a expressão – tanto mais perfeita e em oposição à prosa ornada – esta poesia desleixada, aparentemente dependente dos objetos” (Idem, ibidem). Apesar de curta, a passagem aclara uma noção de poesia como efeito da tensão entre expansão e limite, coesão e fragmentação. A contração da matéria especificamente poética equivaleria aí ao afrouxamento das leis formais rítmicas do verso e também a uma aparente “dependência dos objetos” que compõem a prosa do mundo – afrouxamento e dependência que garantiriam, no entanto, a intensidade de sua realização e de seu efeito. Conforme explicado mais adiante, essa poesia prosaica, pela “mistura desregrada de seus membros”, “pelo alongamento de seus estímulos em diferentes direções”, seria bem distinta da “prosa ornada” da narrativa convencional, com suas estratégias de coesão evolutiva. (Idem, p.106). Comentando tal noção no ensaio O conceito de crítica de arte no Romantismo alemão, Walter Benjamin nela ressalta a pluralidade atribuída ao poético-prosaico, por meio da qual se produz, instavelmente portanto, uma linguagem “própria” e “absoluta”. Linguagem que poderia e deveria ser ensinada, como qualquer outro ofício sóbrio de fabricação, antagônico ao êxtase do poeta-demiurgo. Assim expõe um fragmento publicado na Revista Athenäum: “Acredita-se freqüentemente difamar autores através de comparações com elementos fabris. Mas o verdadeiro autor não deve ser também um fabricante? Não deve consagrar sua vida inteira ao negócio de transformar a matéria literária em formas, que sejam, em maior escala, apropriadas e úteis?” (BENJAMIN, idem, p. 109-111). 28 Gragoata 28.indb 28 Niterói, n. 28, p. 27-40, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:50 A poesia e a prosa do mundo É sob um prisma semelhante que tais propostas vão ser retomadas por Jacques Rancière em seu último livro, La palabra muda (2009). Nele o filósofo remonta aos primeiros sinais do que chama uma revolução silenciosa, perceptível no deslizamento léxico do termo literatura, que, a partir de fins do século XVIII, de conjunto de saberes eruditos vai passar a designar um exercício inédito e radical da linguagem (Op.cit., p. 20,). Intensificada com o Romantismo, essa revolução fundou, segundo ele, um modo histórico de escrita, contraditório em si mesmo, do qual a literatura, tal como até nossos dias subsiste, seria ainda um desdobramento. E contraditório porque, desde então, e cada vez mais radicalmente, ela parece sempre ir adiante, mas sempre como que desafiando sua própria impossibilidade, por entre duas desaparições: a da forma singular sob a veste de simples manifestação do coletivo e a desse coletivo sob o virtuosismo de uma fatura individual (Idem, p.75). Nesse sentido, a fundação da literatura teria significado simultaneamente a entrada na era de sua dissolução, seu princípio repousando na incompatibilidade entre o antirrepresentativo e o expressivo. Pois enquanto forma específica de linguagem, ela implica uma relação necessária, adequada ou inadequada, de um pensamento com seu objeto, um e outro constituídos socialmente, relação por meio da qual também o sujeito soberano ao mesmo tempo se funda , fragmenta e naufraga (Idem, p.95). Rancière segue as marcas dessa contradição em alguns momentos da produção literária moderna. E na prosa narrativa nomeada como novela vai apontar um “gênero sem gênero”, emblemático dessa fundação dissoluta. Tal como exercitada por Flaubert, em sua busca do estilo absoluto, avesso à “naturalidade” representativa, e associado, por isso mesmo, à música, a novela se realizaria afinal como poema da prosa (Idem, p.142), desentranhado por entre a virtuose autoral e a banalidade do intercâmbio mundano de informações, bens e serviços (Idem, p.162-163). Essa realização se daria pelo uso antissintático da sintaxe, que tanto fragiliza seus poderes habituais de distinguir e subordinar, quanto permite sua expansão, redobrando-a sobre o silêncio e a desordem que a habitam, como habitam a prosa do mundo. Nas ressonâncias que o empenho de Flaubert provoca na crítica e na poesia de Mallarmé, Rancière vai então apontar, analogamente, as aporias do projeto simbolista de contrapor a poesia à prosa, para liberá-la de toda carga representacional. Pois nessa recusa da representação se atualizaria, apesar de tudo, a mesma tensão originária do moderno, já que ela levaria a identificar a poesia à abstração do pensamento ou à comunicação de puras sensações, uma e outra, mais uma vez paradoxalmente, próprias ao trabalho da prosa. (Idem, p.170). Para escapar a essa Niterói, n. 28, p. 27-40, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 29 29 3/11/2010 19:47:50 Gragoatá A esse respeito, são bem significativas as colocações de Walter Benjamin sobre o valor estético e social do recurso à tipog rafia, associado também ao de toda técnica de reprodução, no pequeno ensaio Guarda-livros juramentado. Nele nos diz justamente de Mallarmé que como “viu em meio à cristalina construção de sua escritura, certamente tradicionalista, a imagem verdadeira do que vinha, empregou pela primeira no coup de dés as tensões gráficas do reclame na configuração da escrita” (BENJAMIN, 2000, p.27). 1 30 Gragoata 28.indb 30 Célia Pedrosa armadilha, só mediante o abandono da palavra ou sua submissão à idéia de música, como propusera também Flaubert quanto à novela. Diante disso, o poeta se dedicaria a tentar restaurar a potência da palavra, agora através de sua materialidade tipográfica, técnica, inscrita na materialidade da página – o que de novo a aproximaria tanto do movimento sintático e espacial da prosa quanto da concretude visual pertinente à relação representativa (Idem, p.178), assim como às práticas culturais de produção e transmissão de informações.1 Segundo Rancière, a impossibilidade do Livro, tematizada por Mallarmé, não seria manifestação de uma impossibilidade central do conceito de literatura, mas da “aporia de la voluntad siempre recomenzada de superar, dándole su doctrina y su comarca propias, la contradicción que hace que la literatura sea”, buscando conjurar sua perda prosaica e marcar os limites fixos desse elemento “próprio” por meio do qual se constituiria em única exceção à “universal reportagem”, conforme expressão do poeta francês (Idem, ibidem). Essa contradição vai ser localizada ainda pelo filósofo tanto no trabalho de Vitor Hugo com o verso alexandrino quanto no artesanato pós-simbolista do verso livre, em suas tentativas de fazer coincidir, de modos inversos, claro, a linha tipográfica e os conjuntos sintáticos, a medida rítmico-poética e a forma discursiva do pensamento (Idem, p.171). A mesma avaliação é feita, aliás, pelo poeta francês Jacques Roubaud, que também aponta nessa trama do alexandrino e do verso livre um efeito de classicização – classicização da síntese, do equilíbrio, da identificação (ROUBAUD, 1978). Perspectiva semelhante é assumida pelo poeta francês Jean-Marie Gleize que aponta, em Les fleurs du mal e Spleen de Paris, de Baudelaire, a tensão entre uma poesia-gato hierática e uma prosa-cão baldia, errática. Para contextualizá-la, além de referir-se a Vitor Hugo e sua resposta à acusação de ter jogado “le vers noble aux chiens noirs de la prose”, retoma também Flaubert, cuja busca de uma “prose très prose” vai motivar então sua proposta de uma “prose em prose(s)” – crítica e objetivante, “musical sem ritmo e rima”, isto é, “relevant dune paradoxale musique, dune autre musique, essentiellement liée aux nouvelles formes de sensibilité et de conscience engendrée par les conditions concrètes de la vie matérielle dans les nouvelles agglomérations urbaines”. (GLEIZE, p. 169). É bem significativo nessa passagem o modo como as expressões “prose très prose” e “prose en prose(s)” duplicam e simultânea e perversamente desestabilizam uma possível identificação de gênero ou forma, reatulizando, portanto, a necessidade romântica de distinção entre uma prosa convencional e aquela que sustenta sua idéia de poesia. E, ainda, o fato de essa distinção ser buscada por meio de uma musicalidade também Niterói, n. 28, p. 27-40, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:50 A poesia e a prosa do mundo No ensaio Re-escrever a modernidade, Lyotard critica o historicismo da definição “pós-moderna” de nossa época, compreendendo-a antes como perlaboração contínua da modernidade (LYOTARD, 1984). Em seu livro História e narração em Walter Benjamin, Jeanne Marie Gagnebin avalia as relações entre história e memória perlaborativa no pensamento do filósofo (GAGNEBIN, 1999). 3 O conceito de autonomia tem sido frequentemente compreendido, ao cont rá rio do que sugerem esses textos seminais do romantismo, como equivalente à autotelia , à autorreferencialidade e ao formalismo que caracterizariam uma concepção hegemônica de poesia moderna, à qual se oporia então uma perspectiva contemporânea, dita pósmoderna, valorizadora da heteronomia. Acreditamos que se deva evitar, nesse tipo de avaliação, a dicotomia que acaba por idealizar ambas as categorias, assim como as obras a que são relacionadas. Nesse sentido, são bastante esclarecedoras as palavras de Jean-Luc Nancy:” falar do fim da arte ou de sua hibridização na cultura, é na verdade endossar que arte era o que a concepção idealista burguesa tinha dela, sem reconhecer que a arte sempre foi uma pergunta sobre o que ela mesma era (NANCY, p. 115). 2 segundo Gleize paradoxal, que, se por um lado se mantém associada à concepção tradicional de poesia não prosaica, através de Baudelaire vem se vincular agora à busca de formas de uma “prosa particular”, ligada à vida urbana contemporânea – musicalidade por isso associada à visualidade telerreal nela dominante (Idem, p.174). Devem ser destacadas até aqui três questões importantes. A primeira diz respeito então à definição da especificidade da poesia justamente pelo modo como ela se inscreve no coração do comum. A segunda reside no fato de que essa definição na verdade, não delimita uma forma, mas propõe uma aproximação irresolvida entre formas e linguagens diversas, nas quais sempre se acentua o paradoxo. A terceira decorre do modo como essa tensão entre poético e prosaico, verso e frase, palavra, ritmo e imagem, pensamento e realidade material, a contrapelo de toda classicização, solicita uma sintaxe, uma narratividade e, consequentemente, uma temporalidade disjuntivas, contrariadas. A referência a essas questões esboça menos uma história que um percurso de constante perlaboração dos paradoxos constitutivos da idéia moderna de literatura. Como perlaboração compreende-se aqui, tal como proposto por Jean-François Lyotard a partir de Freud – reflexão de matriz também benjaminiana – um trabalho da memória que escapa à dicotomia entre endosso e ultrapassamento.2 É essa perspectiva que orienta nossa leitura da poesia brasileira contemporânea, à qual vem se colocando insistentemente justo a questão de seu prosaísmo narrativo, associado também à expansividade formal, à “reaproximação” da realidade cotidiana e à consequente capacidade de fazer da leitura uma experiência comum, do comum – tudo isso em estreita e ambígua proximidade com práticas culturais com e contra as quais ela tanto afirma quanto problematiza sua diferença e autonomia.3 Para efetivá-la, optamos, nos limites desse texto, por seguir pistas fornecidas pela antologia poética organizada pelas poetas brasileiras Waleska Aguirre e Marília Garcia, publicada em Portugal, em 2008, pela Editora Cotovia. Em seu título, A poesia andando: treze poetas no Brasi, conforme explicado em nota introdutória, concentra-se uma tripla referência: ao ensaio escrito por Flora Sussekind, dedicado à tensão entre narrativização e figuração nos poemas de Carlito Azevedo, por essa via referidos aos de João Cabral de Melo Neto (SUSSEKIND, 1998); ao poema de Cabral, do qual o ensaio de Flora toma emprestado o mesmo título; e à opção dos poetas que começam a publicar a partir de 1990, nela reunidos, por “formas narrativas”, de “rotas sendo percorridas” e também por “uma poesia do chão e do prosaico, uma poesia no meio do caminho” (Op.cit., p. 13). Ressalta aí uma apresentação da narrativa como caminho inacabado, como inacabadas se mostram então a aproximação Niterói, n. 28, p. 27-40, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 31 31 3/11/2010 19:47:50 Gragoatá Célia Pedrosa entre poesia e prosa, e, claro, a situação do poeta que a exercita – inacabamento no qual se consuma e simultaneamente se consome a escrita. Não há como não ver aí uma indicação de releitura do enigmaticamente prosaico poema de Drummond, embora as organizadoras enfatizem a poesia de Cabral, e através dessa ênfase nos convidem a rever o contexto de produção e recepção de sua poesia após os anos 60 do século passado. A poesia cabralina então ocupava lugar central, representando exemplarmente um modernismo em que se integravam a crítica do sentimentalismo retórico, característico da ideologia cultural brasileira conservadora, e o racionalismo construtivista, a reflexividade da e sobre a própria linguagem, próprios do vanguardismo cosmopolita. Segundo avaliação de um seus principais canonizadores, Haroldo de Campos, essa integração se dava no âmbito de uma “poesia-prosa”, uma “prosa em poesia (não prosa poética nem poema em prosa, mas poesia que fica do lado da prosa pela importância primordial que confere à informação semântica”(CAMPOS, 1970, p.72). Mais uma vez a necessidade de apresentar a tensão poesia-prosa aciona nomeações várias, como antes, em Gleize, já tivéramos a “prosa-cão”, a “prose très prose”, a “prose en prose(s)”, entre outras. Em vez de definição, portanto, ela parece antes provocar um movimento indecidível de encadeamento e desencadeamento, sugerindo uma interessante associação com o procedimento de serialização. Como se sabe, este foi bem importante em diferentes propostas de arte moderna, associado à dinâmica de produção e reprodução técnica e industrial. Não por acaso foi ressaltado na poesia de Cabral, de modos bem distintos. No ensaio de Haroldo de Campos, por exemplo, indica o artesanato formal insistente mas aberto à inscrição de variações minuciosas e sutis, nessa medida mesmo contraposto à serialidade da produção técnica moderna, e inclusive associado a certo distanciamento dos fatos, certo tédio dos acontecimentos (Op.cit., p.74-75). Trinta anos depois, essa abordagem vai dar lugar a leituras menos dualistas da relação entre sua poesia e a prosa do mundo. Dois ensaios são exemplares a esse respeito. O primeiro, de 1996, escrito por Alcides Villaça, ressalta como a serialidade inscreve, no interior mesmo da decantada geometria da composição cabralina, um movimento para, de aproximações sucessivas do mundo concreto, sempre recomeçado, sempre incompleto. O esforço de construção lógica co-existe assim, segundo o crítico, com a vontade e a impossibilidade de conhecimento pleno do mundo concreto e com o implícito silenciar diante de sua “realidade prima, e tão violenta, que ao tentar apreendê-la, toda linguagem arrebenta”, conforme os versos finais das inúmeras séries do famoso poema Uma faca só lâmina. Mas são essa impossibilidade e esse silêncio que impulsionam ritmos, imagens e afetos, como mostra essa mesma imagem – numa contradição que Villaça nomeia, aliás, 32 Gragoata 28.indb 32 Niterói, n. 28, p. 27-40, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:50 A poesia e a prosa do mundo A esse respeito, cf. no ensaio A volta do sublime, de Italo Moriconi, sua avaliação de uma poesia cabralino-concretista (MORICONI, 1998). R etomamos aqui os termos da proposta romântica de uma idéia prosaica de poesia associada ao afrouxamento das leis ritmicas e da coesão sintática, pela mistura desregrada, desleixada, de componentes. 4 por meio das noções de expansão e limite que nos serviram, desde Schlegel, como ponto de partida para explicar a prosa como idéia de poesia. No segundo, de 1998, já referido, Flora Sussekind aborda em Cabral a serialidade face a uma tensão entre o figurativo e o narrativo, aí percebendo um dispositivo de redimensionamento temporal do poema, não mais concebido como figuração suspensa do momento, do instante. Essa avaliação, porque motivada pela leitura de poemas de Carlito Azevedo, reatualiza a relação entre o poético e o prosaico, possibilitando a inscrição da poesia cabralina numa outra contemporaneidade, numa outra “hora histórica” que, segundo a crítica, se esboçaria na poesia a partir dos anos 90, “por meio desses exercícios com o tempo épico, em território lírico”. (Idem, p. 178). Ao deslocar, desse modo, a leitura de Cabral, essa crítica e essa poesia vão ter também o mérito de repor, agora em clave mais complexa, a demanda de relação entre poesia e vida, entre poesia e prosa do mundo que, nos anos 70 do século passado, transformou em antagonista e obstáculo precisamente a linguagem do poeta pernambucano.4 Esse percurso de dupla perlaboração pode ser perseguido mais pontualmente na poesia de Marília Garcia, que dele tira seu impulso e sua produtividade. Poeta carioca de 31 anos, ela tem publicados dois livros, Encontro às cegas, pela editora Moby Dick, em 2001, e 20 poemas para o seu walkman, pela editora CosacNaify, em 2006, deste último retirando os textos incluídos na antologia portuguesa. O primeiro teve tiragem bem pequena, de cem exemplares, em impressora HP Learjet, parecendo querer resgatar assim um pouco da aura artesanal-marginal da poesia dos 70 – o que se confirmaria no uso da letra manuscrita do título na capa, e no pequeno tamanho, de livro que se quer de bolso, perto do corpo, para circular corpo a corpo. Seus poemas investem, como os daquela, e em oposição à logicidade impessoal e abstratizante enfatizada então na poesia cabralina, numa primeira pessoa explícita, envolvida em flashes de lembranças ou de cenas de uma experiência comum de encontros e desencontros amorosos. Mas neles vem se inscrever uma diferença produzida – face à crença anterior na relação imediata entre palavra poética e essa experiência subjetiva – pela constante presença de um dizer, por sua vez paradoxalmente sempre referido ao não dito, ao silêncio, ao não compreendido, ao ausente, e remetido a outros dizeres falados, ouvidos e lidos, inclusive em língua estrangeira, que entrecortam de travessões, parênteses, aspas e itálicos a sintaxe prosaica dos versos, dando-lhes uma tensa mas dissoluta densidade,5 como no poema Ela não disse: “dos dias em que esteve ausente/guardo a sombra dela/ – sorrindo timidamente – algumas letras/ o sim que ela não disse/ e seus silêncios profundos/ Niterói, n. 28, p. 27-40, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 33 33 3/11/2010 19:47:50 Gragoatá Célia Pedrosa querendo dizer nada, /talvez/ problems and desire/ there’s nothing but problems and desire” (p.13). Recortada e dobrada sobre si mesma, como a sintaxe do poema, também é a subjetividade que nela se expõe, um pouco à maneira de Ana Cristina César, cuja lembrança não pode deixar de ser evocada, como a propósito de tantos outros poetas que, desde os anos 80, na alegria marginal viram também um trampolim para inquietações e dores maiores – e talvez motive aí as várias referências a alturas, vertigens, medo de queda, morte: “amarfanhadas as vestes/ minhas/ tuas ações pormenorizadas revelavam/ detalhes que de tão sutis posso não me lembrar/ subi lentamente um degrau de cada vez/ com passos quase despencados/ e sem saber também o papel que desempenho/ ouvi seu murmurar quase gritado/ farei quando passar meu casamento/ não olhei para baixo porque escadas me dão vertigem” (p.15). Também como em Ana, a exposição é sempre encenação, e os quartos e ruas que são metonímias dessa subjetividade se transformam em camarotes, passarelas, jogos de espelho entre calçadas, desertos shakespereanos, nos quais se acentua o vazio e a estreiteza. As ruas agora tem esquinas sólidas, obstaculizantes, por onde o eu encenado vai como que se “apertando no espaço/ entre dois quartos vazios/ me esforçando/ para lembrar aquele poema que sei de cor/ e perder de vista o resto /(bem sabe o que acontece quando acabou a véspera)/ fico sempre a calcular/ o comprimento/ de um mar de pequenas mortes....” ( p. 19). Sempre no corredor, entre dois quartos, e num tempo entre também, que deixa de ser o do momento plenamente presente, para ser uma ausência de véspera - bela imagem que aproxima, evocando-as e problematizando-as, a lembrança e a iminência – os poemas vão configurando impulsos de ação, entre a sensação e o cálculo, ainda mais entrecortados pelo uso dramático do diálogo, do eu consigo mesmo ou com um interlocutor quase sempre distante ou obliquamente próximo: “olhos desencontrados numa/ dessas sólidas esquinas/ de manhã/ embaixo do relógio,/ manchas de asfalto da epiderme/parecendo tão contundente de lábios/ pálidos e rugir de dedos/’Que farei agora? Que farei? Correrei para fora./Como estou andarei na rua/ com os cabelos soltos assim. Que/faremos amanhã?’” conclui o poema Encontro às cegas II, que assim numerado parece reduplicar não só o título como o próprio livro, inserindo-se nele, portanto, numa estranha seriação, como parte, e desdobramento (p.9). Nesse contexto, este também pode provocar uma dupla leitura, sugerindo de início o descompromisso de relações intensamente casuais, mas ainda uma revisitação mais acre da dicção poética jovem que as tematizava. Pois em todos os poemas a expressão/encenação subjetiva é marcada por essa auto-perquirição angustiada e por uma percepção intensa, violenta até, mas sempre descompassada, da relação consigo e com o outro, 34 Gragoata 28.indb 34 Niterói, n. 28, p. 27-40, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:51 A poesia e a prosa do mundo Na cont racor rente dessa tendência, é fundamental mais uma vez uma outra leitura de Flora Sussekind sobre o poeta, agora no ensaio Com passo de prosa. Voz, figura e movimento na poesia de João Cabral de Melo Neto (SUSSEKIND, 1998). 6 com as palavras que aproximam e distanciam, como “olhos desencontrados”. Sinaliza assim o poema Dogma 4 (onde o 1, o 2, o 3?) “saída esquemática: nem olhei/para trás./ não quis ouvir seu timbre repetindo/ no corredor acha mesmo/ que tinha culpa?/ encontro às cegas/ não deu certo....” (p.16¨). Essa duplicidade reaparece ainda no fato de que esse mesmo encontro às cegas vai ser referido no segundo livro, do qual uma das partes toma-o novamente como título, mas acrescido da explicação entre parênteses: “(em escala industrial)”. Não se trata, como é comum, de uma inclusão no novo livro dos poemas do anterior. A referência sugere essa repetição, que no entanto vem junto a significativas diferenças. A explicação aponta que estas se associam à mudança de suporte, agora um livro maior, com maior número de páginas, em 1500 exemplares de impressão tipográfica. Mais uma vez, Marília chama nossa atenção para a materialidade do livro, relacionada também à da sua circulação, uma e outra apresentadas aí no percurso evocado do artesanato de mimeógrafo ao semi-artesanato da Lear-jet, aperfeiçoado agora na composição tipográfica, ressaltada sua menor ou maior serialidade – percurso no qual figura não só o de vários poetas seus antecessores, mas a própria situação da literatura desde a modernidade, como vimos, sempre no meio do caminho entre o esforço de singularização e as demandas de sua inserção sócio-econômica como produto. O título do novo volume também sugere, por essa via, um interessante jogo de referências. De fato, em 20 poemas para o seu walkman, a apresentação quantitativa, simplesmente numérica, despojada, dos poemas, representa um gesto de endereçamento ao mesmo tempo singular e comum – a 2ª pessoa podendo indicar aí tanto um interlocutor próximo, específico, quanto qualquer interlocutor, genérico – futuro ouvinte de uma poesia escrita mas que se quer oralizada, participando dos percursos comuns do cotidiano. Não podemos deixar de associar esse acréscimo àquele que João Cabral faz ao título do poema Morte e Vida Severina – para ler em voz alta. Aí o endereçamento, decorrente do tipo de leitura, somado à própria forma dramática do texto – a de uma escrita a imitar a voz – indiciava a preocupação com um receptor/expectador, ouvinte, não leitor, pobre e analfabeto como seus personagens, reforçada pelo valor comunitário da definição do poema como auto de natal pernambucano. Esses dados estão presentes de modo bem mais complexo em seus poemas, com diversas outras formas de endereçamento e de situações individuais e coletivas de leitura. São aspectos muito importantes mas bem pouco abordados na fortuna crítica de Cabral, e que se tornam objeto às vezes de uma leitura um tanto quanto nostálgica ou utópica, estimulada com certeza pelo contexto político da época,6 e que ele mesmo aborda em entrevistas e depoimentos. Niterói, n. 28, p. 27-40, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 35 35 3/11/2010 19:47:51 Gragoatá Célia Pedrosa Na poesia de Marília, a referência à oralidade não carrega, de nenhum modo, nostalgia de um valor comunitário pré-industrial, nem tampouco de um valor messiânico-pedagógico característicamente burguês, como em algumas manifestações da poesia moderna e mesmo contemporânea. Nela o endereçamento tem como suporte agora uma voz que reproduz a escrita tipográfica, e se quer reproduzida por sua vez numa prótese técnica da boca e do ouvido. A oralidade se mostra, nesse caso, um dado dúplice, não só porque integra corporeidade e tecnologia, mas por representar um empenho de comunicabilidade e compartilhamento que implica, por um lado, uma recepção isolada, individualizada e individualista,e, por outro, uma reprodutibilidade potencialmente ampla, global, errática. Essa contradição inalienável da cultura contemporânea na qual se radicalizam, por força da intensificação dos processos de produção e reprodução tecnológica, a tensões próprias à arte moderna – intensificação com a qual a poesia de Marília convive e se escreve, inclusive transformando a materialidade desses processos em tema, questão e procedimento formal, como estamos vendo. Nesse sentido apontam as diferenças inscritas nos poemas do primeiro livro quando agora ele se torna parte integrante do segundo, abrindo-se em uma nova série de pequenos textos que mantêm a nomeação de poemas e retomam imagens e temas dos anteriores, embora substituam a divisão clara em versos e a enunciação em primeira pessoa, pelo fluxo contínuo e pela terceira pessoa mais caracteristicamente narrativos. Essas mudanças tanto servem para alongar quanto para concentrar o discurso, atribuindo-lhe assim uma corporeidade concreta, visível, cujos limites se confundem com os limites materiais da página e cuja objetividade se confirmaria pela perspectivização distanciada de um sujeito-narrador face a um sujeito-personagem. Essa corporeidade é no entanto tecida também numa sintaxe desarticulada, como a dos poemas em verso, que encadeia sem estabelecer relações claras de causalidade ou contiguidade, apresentando cenas impregnadas de uma temporalidade acelerada, análoga à fugacidade das figurações. Vejamos um texto em cujo título, colocado entre chaves, ao mesmo tempo interior e exterior a ele, portanto, já se figura essa sintaxe desarticulada – [um quarto cor de grafite com um buraco no alto sem janela]: “em pé olhando pra fora sobre a cômoda algo derretido a cera amarela um vídeo clip una canción sinfin vem de paris depois de anos-luz país de dores anônimas diz que queria um mundo calculado fatos que se reduzem a tapas agora poderia sair sem olhar não tema as hélices que fazem sua voz girar dos dias ausentes guarda a sombra dela e o blaugrana do estádio a mudança de tom ao telefone o conta-me coisas e o filme de hh em silêncio queria dizer nada quase nada talvez trouble and desire there’s nothing but trouble and desire” (p.55). 36 Gragoata 28.indb 36 Niterói, n. 28, p. 27-40, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:51 A poesia e a prosa do mundo A idéia de espaço de passagem é ressaltada pela poeta em ensaio que escreveu sobre a poesia de Emmanuel Hocquard,citado, inclusive, no poema de abertura dessa sua coletânea. (GARCIA,2008). 7 Note-se a feição inicialmente descritiva do título, que apresenta o quarto-metonímia da intimidade apenas pela estranha combinação de cor escura, ausência de janela e buraco no alto, indiciando um fechamento que já perturba o movimento narrativo que se segue. Sob suspeita fica então o olhar para fora que o inicia. E que, mais que um contato com o exterior, parece indicar uma subjetividade em ruptura com sua própria intimidade, figurada pelo quarto, que no entanto à revelia dela e da direção de seu olhar, vai se armando em referências interiores mas exteriorizadas e desarticuladas a um objeto, uma canção, um vídeo-clip, uma cidade e uma frase, uma sombra e outra cidade, palavras em línguas diversas, um filme, uma voz ao telefone.... Ressalta aí o que pode ser considerada uma das principais marcas da estranha e prosaica singularidade da poesia de Marília – a figuração visual e a narrativização intrinsecamente associadas, de modo que pessoas, objetos e lugares se apresentam e dissolvem como parte do fluxo discursivo, ao mesmo tempo em que este vai se desdobrando e detendo nesses esboços de figuração. Tudo então intensamente móvel e travado, como propõem inúmeras imagens: “ritmo de degrau seguindo/ cortado” (p.7), “a voz cortada outra/ vez antes de seguir pelas ramblas” (p.8), “(o túnel estreito sempre/em linha reta e depois/ o reflexo congelado/ na linha 14” (p.11),”(um cão/ lambia o pé, a mesma imagem/ congelada)” (p.23), “funciona como um movimento/ disritmico que/ entremescla os dois/ níveis” (p.37). Assim se performa o poema como um estar no meio do caminho, entre o dentro e o fora, entre o quarto e a rua, entre a materialidade das palavras e a das coisas que estas solicitam, como entre olhos desencontrados: “o contorno dos lábios com frases tiradas de um guia” (p.55), “o sapato molhado um sistema certo para dizer o que quer” (p.56), “caminha sem rumo todos os dias senta-se para ler no primeiro café” (p.57), “busca as palavras exatas esquecendo oito dias”(p.58), “seu olhar a forma de uma cidade destruída refletia e no cidade vira de costas” (p.55). Concretiza-se assim uma outra forma de movimento para em que tudo se desloca incessantemente, em viagem e em torno da idéia de viagem – lida, lembrada, planejada, sonhada, e assim mesmo também vivida em ato, de táxi, de metrô, de avião, trem, navio. Nessa viagem os lugares são apenas espaços de passagem, em que se indistinguem a chegada e a partida. Identificam-se assim quartos, hotéis, praças, ilhas, ruas, cafés, aeroportos, sempre estreitos corredores, figurados também de passagem, como as pessoas e objetos neles encontrados ou entrevistos, apenas uma mancha de cor, uma rua nevada, um cartaz de néon, uma cômoda parisiense, um pulôver vermelho, um modo de andar, um caderno verde.7 Entretecendo-os com fragmentos de fala, de informações científicas, metereológicas, de referências cinematográficas, musicais, literárias, o fluxo discursivo faz com que Niterói, n. 28, p. 27-40, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 37 37 3/11/2010 19:47:51 Gragoatá Célia Pedrosa a impressão de imediatez dada pelos verbos no presente revele uma inextricável mediação, intensificada ainda pela constante associação da voz a tecnologias da comunicação que introduzem distância espacial e temporal em cada registro. Em analogia com a intensificação do movimento físico, geográfico, social e comunicativo na sociedade contemporânea, aqui também se encena um movimento intenso, mas que nunca alcança um objetivo, que nem sequer o propõe claramente, que sempre se pergunta sobre isso, associando viagem a discurso e ambos a um “perigoso encadeamento das coisas”, que perturba a aparente naturalidade de imagens e informações, conforme vemos no poema M.A., que vale a pena reproduzir integralmente: “é como o perigoso encadeamento das coisas murmurou ao sair/ da sala./ antes de filmar/ tudo observou a posição do sol naquela tarde com casas árabes e imaginou a sequência dos diálogos/ em camadas. Quase uma língua em curvas ou/ ficar parado no escuro. As duas diante diante/ da lente não se viam jamais: alternavam / a posição (a de branco sorria sobre o fundo de algas)/ depois enquadrou o deslocamento/ para hong kong num vôo/ atrasado. como seguir tentando um ângulo inverso se quando passam os dias tudo piora? Como seguir o horário girado que adquirem depois de anos de escassez? Sentou num dos bancos de frente para as duas (há algo que custa dizer/ e não sabe o que é, um peso geral de/ coisas talvez)/ de onde vem o nome patagônia? E os pingüins? Como precisar a sequência/ daquelas imagens?e como fazia para/ nadar tão perto das/ rochas?. Percebe-se então que também nos poemas divididos em versos esse perigoso encadeamento se apresenta por meio de uma mesma sintaxe descompassada, uma articulação desencontrada de espaço e tempo, nesse desencontro escavando o atraso em que o ser se confunde com o estar e continuar, mas um estar e um continuar entre, nunca totalmente dentro, nem totalmente fora . Diz o poema II. Rue de Fleurus: “... o livro começa/ com uma pergunta ao acaso sobre esta/ cidade, mas o principal nem supõe – como chegar ao ponto de encontro/ com o filme começado. todas as vezes/ perdia a estação e traçava rotas/ diversas (tentava explicar trocando de cabines/ e ligando diversas vezes por/ dia, em deslocamentos/ aéreos.)” (p.12). O esforço de performar esse ser/ estar entre, no meio do caminho, é colocado então no modo no livro se instala a passagem, isto é, o jogo de proximidade e distanciamento, entre poemas artesanais e poemas em produção serial, entre poemas divididos em versos e poemas que seguem os limites da página, entre expressão e narrativização, entre inovação e repetição. E mais ainda, no modo como em uns e outros se encena a passagem entre primeira e terceira pessoa, entre ser a si e ser outro, em meio aos outros. Assim Marília submete mais uma vez ao trabalho de perlaboração a tensão moderna entre poético e prosaico, 38 Gragoata 28.indb 38 Niterói, n. 28, p. 27-40, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:51 A poesia e a prosa do mundo subjetivo e objetivo, singular e comum. Ao fazê-lo, reapresenta como questão a identificação entre narratividade e experiência que vem sendo enfatizada como marca de uma poesia contemporânea enfim reencontrada com a vida. Face a esse idealismo do fim, do reencontro, da identificação, empírica ou formal, sua poesia se propõe, assim como à vida, à experiência e à subjetividade, como constante e inconstante percurso de deslocamento, tramado paradoxalmente por entre a banalidade do mundo e das práticas de produção e recepção repetitivas, seriais, por meio do qual elas adquirem a concretude alegórica de uma predicalidade interminável, própria da finitude material, corporal,8 ao mesmo tempo loquaz e muda como a prosa do mundo.9 Abstract A reading of the tension between poetry and prose at the foundation and along the history of modern literature, in order to contextualize contemporary Brazilian poetry, here seen from the perspective of its emphasis on the prosaic and the narrative associated to serial composition, as means to stage both individual and collective experience and the role of writing in shaping experience. Keywords: Poetry. Prose. Narrativity. Seriality REFERÊNCIAS Apoiamo-nos aqui na retomada feita por Wi l ly T h ayer da ref lexão benjam i n ia na sobre a relação entre arte,desauratização e produção e reprodução seriais. (THAYER, 2007) 9 Retomamos aqui os termos com que Ran cière nos convida a ler tensão poético/prosaico, no já referido La palabra muda. 8 BENJAMIN, Walter. O conceito de crítica de arte no Romantismo alemão. São Paulo: Iluminuras, 1999. _______________. Guarda-livros juramentado, Material escolar. In: Obras escolhidas II. São Paulo: Brasiliense, 2000. CAMPOS, Haroldo de. O geômetra engajado. In:_______________. Metalinguagem. Rio de Janeiro: Vozes, 1970. FOUCAULT, Michel. A prosa do mundo. In:___________. As palavras e as coisas. Lisboa: Portugália, 1996. GAGNEBIN, Jeanne-Marie. História e narração em Walter Benjamin. São Paulo: Perspectiva, 1994. GARCIA, Marília. Um teste de solidão: passagens em Emmanuel Hocquard. In: PEDROSA, Celia e ALVES, Ida (orgs.). Subjetividades em devir. 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Textualidade llansoliana Este trabalho representa o resultado de parte da pesquisa realizada sob os auspícios da CAPES junto à Universidade Nova de Lisboa, de novembro de 2009 a fevereiro de 2010, no acervo do Espaço Llansol em Portugal. 1 Gragoatá Gragoata 28.indb 41 Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:51 Gragoatá Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira Para João Barrento e Maria Etelvina Santos Há três coisas que metem medo: (...) A primeira é a mutação. (...) O mutante é o fora-de-série, que traz a série consigo. (Llansol, Livro das Comunidades, 1977) Parte I – Recepção As obras publicadas de Maria Gabriela Llansol, considera ndo as primeiras edições, são as seguintes: Os Pregos na Erva (1962); Depois de Os pregos na Erva (1973); O Livro das Comun idades (1977), A Restante Vida (1983) e Na Casa de Julho e Agosto (1984), estes últimos integrando a primeira trilogia, Geografia de Rebeldes; Causa Amante (1984), Contos do Mal Errante (1986) e Da Sebe ao Ser (1988), integrando a segunda trilogia, O Litoral do Mundo; Amar um Cão (1990); O Raio sobre o Lápis (1990); Um Beijo Dado Mais Tarde (1990); Hölder, de Hölderlin (2000); Lisboaleipzig I. O encontro inesperado do diverso (1994); Lisboaleipzig II. O ensaio de música (1994); Ardente Texto Joshua (1999); Onde Vais, Drama-Poesia? (2000); Cantileno (2000); Parasceve. Puzzles e Ironias (2001); O Senhor de Herbais. Breves ensaios literários sobre a reprodução estética do mundo, e suas tentações (2002); O Começo de Um Livro é Precioso (2003); O Jogo da Liberdade da Alma (2003); Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004 (2006); Diários: Um Falcão no Punho. Diário I (1985); Finita. Diário II (2005); Inquérito às Quatro Confidências. Diário III (1996). Durante a sua vida (1931-2008) Llansol publicou ainda textos avulsos e traduções de autores franceses. 3 Foucault trata da “posição transdiscursiva” como uma autoria que se consagra para além da obra individual, fundando paradigmas que permanecem na história da cultura. Cf. O que é um autor? 1992, p.57-67. 2 42 Gragoata 28.indb 42 A narrativa de Maria Gabriela Llansol sobrevém como mutação no quadro do romance português contemporâneo. Segundo Maria Alzira Seixo, caminha para a “ficção poética” (SEIXO, 1986b, p. 26), a exemplo do que fizeram Raul Brandão em Húmus e Carlos de Oliveira em Finisterra, nela se dando o “predomínio narrativo de actuação indicial” em que a categoria lukacsiana da “aventura” se aplica a todos os elementos romanescos: herói, narrador, personagens, espaço (“de definição parcelar e sujeito a ser animizado”) e tempo (“de constante alteração, seja o da história, seja o tempo de uma intervenção cultural […]: doutrinas, religiões, heresias”). Assim “a ficção auto-referenciase pela constante mutação dos seus planos [...]” (SEIXO, 1986b, p. 26) que passa pelo “corp´a` screver”: Alteridade pura, este texto é exatamente o `outro´ de quem ultrapassou o espelho e do lado de lá o recorda, ou acorda. Centrais aqui a história, o texto e o ser. Ligados numa metafísica que pretende que a escrita seja a própria expressão física das coisas. Envolvente poesia, reflexiva prosa, dramaturgia de textos (e de tempos e de vozes). (SEIXO, 1986b, p. 27) Nesta nova maneira de conceber a narratividade desde O Livro das Comunidades até a última publicação em vida,2 Llansol aposta numa textualidade que ultrapassa a dicotomia formaconteúdo, firmando um pacto de fidelidade quanto à verdade sobre si e sobre o mundo cujas matrizes estão, não apenas nos nomes portugueses citados acima, mas em autores transdiscursivos3 que reviraram os pressupostos da representação literária, tais como Mallarmé e Rimbaud, e os artistas das vanguardas modernistas – futuristas, dadaístas e surrealistas. Seixo mostra como Llansol faz um atentado violento aos protocolos romanescos de leitura pela “coexistência de registros discursivos: romanesco, lírico e reflexivo [...]” (SEIXO, 1986c, p. 29), além da “mancha de prosa” e do padrão de versículos (SEIXO, 1986c, p. 30). A narrativa se faz por pequenos núcleos independentes que se alojam numa sintagmática total do livro em que a frase é um sintagma hesitante, permeada de paradas, encadeadas como litania, “de teor profético e encantatório” (SEIXO, 1986c, p. 30). A aventura do herói é atípica, pontilhada de elipses, de que se contam apenas os episódios de ressonância lírica, já que os fatos estão contados nos livros de História ou outros. Ao destacar a ausência de espelhamento mimético que é substituído Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:52 Uma narrativa em mutação recepção e produção de causa amante de Maria Gabriela Llansol pela “continuidade orgânica entre o real e as palavras, entre o mundo e a escrita” (SEIXO, 1986c, p. 33), a crítica portuguesa emite o seu julgamento de valor sobre Causa Amante: [...] penso que esta obra é privilegiada para o pensamento do literário atual – desde que se entenda que a compreensão da literatura passa por definições e por classificações que, no entanto, serão constantemente ultrapassadas pelos textos, os quais, em última análise, têm sempre razão. (SEIXO, 1986c, p. 33) Por esta e outras razões escolhemos Causa Amante para observar a dimensão mutante de uma escrita que abdica dos pressupostos da narrativa e se aproxima da poesia, mas ultrapassa qualquer dicotomia ou mesclagem que possa circunscrevê-la a “ficção lírica”, prosa poética ou poema em prosa. Cremos que uma das formas de entender a escrita llansoliana é a do exame do processo de sua produção tal como registrada nos inúmeros Cadernos manuscritos da autora, transposta depois para dossiês e outros datiloscritos que seguiam para a edição final. Esta é a nossa proposta quanto a Causa Amante, mas antes disso, e para melhor ilustrar a surpresa e o estranhamento causados nos críticos e leitores de primeira hora, começamos por uma abordagem da recepção deste livro até a data. Os primeiros amantes A pesquisa em Portugal abrangeu a Biblioteca Nacional em Lisboa, as bibliotecas da Universidade Nova de Lisboa, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – Clássica e da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, assim como o acervo do Espaço Llansol, casa em Sintra que abriga o espólio completo da autora e onde viveu nos últimos anos. 5 A pesquisa no Brasil limitou-se ao exame da produção relacionada às especialistas Lúcia Castelo Branco e Maria de Lourdes Soares, ligadas aos dois pólos atuais de investigação da obra de Llansol, respectivamente em Belo Horizonte (UFMG) e no Rio de Janeiro (UFRJ). 6 Diário de Lisboa, 23 Fev. 84; Espinho Vareiro, Mar. 84; Vária, 28 Fev. 84; e Jornal de Letras, 10 Abr. 84. 4 O acervo bibliográfico sobre Causa Amante não é extenso em Portugal4 e inexistente no Brasil.5 No ano do lançamento (1984), registramos quatorze referências das quais são relevantes as de Eduardo Prado Coelho, Regina Loure, Paula Morão, Teresa Joaquim e Maria Alzira Seixo. As demais são notas elogiosas e breves, a metade anônima (quatro)6 e as restantes assinadas por Eduardo Prado Coelho (três) e António Colaço. A primeira e única polêmica surge com a resenha de Miguel Esteves Cardoso, respondida com farpas por Eduardo Prado Coelho. Dois anos depois, por ocasião da reedição do romance, registram-se ainda dois outros artigos de Maria Alzira Seixo e o Posfácio de Augusto Joaquim, totalizando até a data dezessete referências bibliográficas, entre as quais não se inclui nenhuma dissertação ou tese. Na recepção inicial, deparamo-nos com a boa acolhida de Eduardo Prado Coelho que, numa nota curta de fevereiro de 1984, vai direto à essência do texto, entendendo-o não “como uma ficção, antes como um vazio de ficção que se retrai, e [que] nesse retraimento nos atrai para a espessura de uma escrita que nos inicia em esquecidos rituais” (COELHO, fev.1984). No mês seguinte, o crítico volta a recomendar o “livro de que ninguém fala, mas de que muitos gostam” (COELHO, mar.1984), apontando provavelmente para o artigo de Regina Loure, publicado na mesma edição do jornal, em que a articulista situa o desconcerto Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 43 43 3/11/2010 19:47:52 Gragoatá Comentário publicado na Secção Opções do Jornal de Letras e Artes de 3 de setembro de 1984. 7 44 Gragoata 28.indb 44 Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira que a obra provoca no leitor: “Este é um livro que não basta ler, porque lê-lo dá vontade de o habitar. Mas habitar o quê? onde?” (LOURE, mar.1984). Sob o título “Entre tudo e nada”, retirado da progressão dos “passos” da primeira parte do romance, o artigo enfatiza a incerteza que rege Causa Amante, litoral ou margem flutuante movido por um “centro móvel” que refaz histórias não registradas para onde se deslocam as figuras, e onde habita igualmente a própria obra da autora, afastada para as margens da literatura portuguesa: “Há um esboço de assunto que ora é o centro do livro, ora é uma das suas margens, espécie de eixo em torno do qual a ´acção` se desenrola” (LOURE, mar.1984). Além do princípio místico ou religioso (re-ligare) que pontua as obras de Llansol, a resenhista ressalta a equivalência ontológica entre os diferentes elementos da natureza – homem, animal, planta, rocha – numa tentativa persistente de escutar o mundo, trazendo-lhe à memória os livros de Clarice Lispector. Antes de ser romance ou mesmo ficção, Causa Amante é para ela “o encontro inesperado do diverso” (LLANSOL, 1984, p. 18). Como antecipamos, a primeira resistência ao livro surge em abril, na nota de Miguel Esteves Cardoso que a princípio elogia a capa, coisa de somenos importância (“refrescantemente sóbria e impressionantemente inovadora”), para compensar os pequenos golpes ao estilo da autora (“escreve bem, às vezes muito bem e só aqui e ali menos mal”) e, sobretudo, deplorar o caráter desestruturado da obra que “poderia ter sido um livro bonito” (CARDOSO, abr.1984). Em resposta, Eduardo Prado Coelho volta a recomendar o livro, orientando o leitor a não cometer “o desatino de supor que se trata de um ´romance’ ” nem muito menos ter “o mau gosto de insinuar que este livro até podia ser ´bonito` - isto é”, não fazer “o que fez Miguel Esteves Cardoso em sua anacrônica avaliação” (COELHO, abr.1984). Isto prova a originalidade controvertida do lançamento e explica em parte porque não se enquadra na categoria “obra premiável”, tal como se expressa Eduardo Prado Coelho em setembro, ao comentar o Prêmio Novela e Romance daquele ano.7 Em maio de 1984 aparece a recensão de Paula Morão que reproduz a capa do livro e ocupa cinco colunas da Coluna “Livros” do Expresso (Revista), tendo como título “Um animal chamado escrita” (MORÃO, mai.1984), extraído da epígrafe que é uma citação do livro. A resenha ressalta a “escrita multímoda” de Llansol feita de “uma multiplicidade de registros” literários (diarismo, memorialismo, lirismo, reconstituição histórica e epistolografia) e de vozes narrativas a partir de uma “narradora-matriz” que, “fazendo-se e desfazendo-se, constitui a figura central de que saem e a que regressam todas as outras”, estratégias que permitem compreender a ciclicidade dos elementos dos seus livros, que se iluminam reciprocamente. A resenha destaca ainda alguns elementos pontuais da obra, como o diálogo com Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:52 Uma narrativa em mutação recepção e produção de causa amante de Maria Gabriela Llansol Publicada inicialmente na Revista Colóquio /Letras, nº 83 (Janeiro de 1985), pp. 99-100, a recensão foi inserida na Parte III do volume da autora, A Palavra do Romance; Ensaio de Genologia e Análise, Lisboa, Livros Horizonte, 1986, com o título “Causa Amante de Maria Gabriela Llansol”. 8 a pintura de Rubens, o retorno do “pobre” de A restante vida, a função das beguinas “de construir o ´nome` e as ´cosmogonias` e de transformar um ´ser vivo` num ´ser escrito”, trabalho já antecipado em O Livro das Comunidades. No mesmo mês, a resenha de Teresa Joaquim (cunhada da autora), intitulada “Causa Amante, a outra face”, ocupa seis colunas do Diário de Notícias e começa por ressaltar o caráter metamorfoseante das figuras, que são mais do que a princípio se apresentam, assinalando a dificuldade da leitura que impõe um descentramento em relação à cultura, como já havia notado Regina Loure. Insiste na tópica do bom e mau encontro que rege a ficção de Llansol para exprimir a horizontalidade de todos os elementos na Natureza, destacando o papel misericordioso de Coração de Urso que se associa ao pensamento de Rilke. Com muitas citações, o texto não oferece uma orientação didática aos leitores, mas, em compensação, deixa claro que o livro propõe “a arte de realizar os encontros”, inscrevendo-os na continuidade de várias culturas e na “desritmada penetração de épocas” (JOAQUIM, 1984), em que os seres têm a chance de uma nova vida e um lugar onde se abrigar. Encerrando as referências de 1984, a nota de António Colaço no Diário Popular, em outubro, se insere numa reportagem sobre a Bélgica na coluna “Um país onde apetece viver” ocasião em que, a propósito da “beguinaria, espécie de convento fundado pela Condessa de Flandres, Margarida de Constantinopla” (COLAÇO, 1984), contempla a edificação envolta por uma cerca e a associa à passagem do livro Causa Amante em que Llansol evoca a casa das beguinas em Brabante. Em janeiro de 1985, aparece a primeira recensão crítica em revista especializada, assinada por Maria Alzira Seixo,8 em que o desenvolvimento das ideias é ainda aproximativo e menos elucidativo se a comparamos com os dois outros artigos publicados pela autora no volume de 1986. De tom elogioso, predomina na resenha a hesitação diante da peculiar narrativa llansoliana que não se enquadra em nenhum padrão, apesar de manter uma homogeneidade sintática e semântica que comunica e emociona, sobretudo pela “paisagem das ficções” e pelo “movimento da escrita”. Há uma preocupação em reconhecer afinidades do texto com “a prosa poética, com o ritmo dos salmos, com a proclamação profética, com a ficcionalidade pura - sem no entanto se resolver pela integração no poema em prosa ou no romance de marca tradicional.” (SEIXO, 1986a, p. 231). Como marca da própria textualidade, a presença da heresia é referida como “caminho de liberdade, signo da mutação do ser no mundo” (SEIXO, 1986a, p. 232). Também aqui aparece a menção – quase obrigatória – ao misticismo em Llansol, visto como “ancoragem da relação entre a religiosidade anímica e o quotidiano concreto, Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 45 45 3/11/2010 19:47:52 Gragoatá Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira entre a perda mística e o encontro da matéria textual” (SEIXO, 1986a, p. 230). No outro artigo da sua coletânea, Seixo faz comparações entre Llansol, Saramago e Mário Cláudio, destacando singularidades e diferenças no tocante à alteridade e à autorreferencialidade que em Llansol se manifesta, quanto ao primeiro aspecto, como o próprio texto, “o ´outro` de quem ultrapassou o espelho e do lado de lá o recorda, ou acorda” (SEIXO, 1986b, p. 27) e, quanto ao segundo aspecto, na forma da “mutação dos seus planos, não entendida como busca ou incerteza mas antes como respiração larga, tensa ou distensa, de um enorme desejo de escrever” (SEIXO, 1996b, p. 26) sendo a escrita “a própria expressão física das coisas” (SEIXO, 1986b, p. 27). No artigo seguinte, Seixo dedica-se, mais uma vez, a se interrogar a respeito do surpreendente “sintagma totalizante” (SEIXO, 1986c, p. 30) que mantém coesa a escrita de Causa Amante, apesar da “floresta de registos discursivos” (SEIXO, 1986c, p. 33) que lembra o texto de Nerval. Volta a falar em “ficção lírica”, advertindo, através de citação da autora – “uma ficção não pode ser simples, é o encontro inesperado do diverso” – que tal “frase é uma ´mise en abyme` discursiva da sua ficção em termos de processo da aventura e da desarticulação narrativa” (SEIXO, 1986c, p. 29). Impedida de alcançar uma palavra definitiva sobre a obra, acaba por reafirmar a sabedoria dos textos quando se trata de renovar o arsenal teórico para a compreensão da literatura contemporânea. Encerrando a recepção de Causa Amante, chegamos ao ensaio de Augusto Joaquim, marido e primeiro crítico de Maria Gabriela Llansol, publicado como Posfácio da 2a edição do livro. Na sua análise o autor adota uma teoria não-estruturalista, baseada na concepção orgânica, oposta aos modelos tradicionais, por meio da qual relaciona todos os elementos em rede rizomática e os interpreta como adiamento da entropia das formas. Trata-se de uma abordagem singular, baseada na Física (e por isso custosa de entender), que utiliza operadores que dão conta da dinâmica energética que circula no texto, através de trocas e sobreposições, deslocações e mutações entre as figuras, os seres criados, a paisagem e o tempo. Este “primeiro leitor a desejar que o texto se aproximasse do humano” (JOAQUIM, 1996, p. 169) recorta dois fragmentos do livro – a interpelação de Dom Sebastião e o Passo I - e neles aplica uma microanálise que serve de paradigma para outras cenas e outros livros de Llansol. O estudo crítico tem ainda um valor testemunhal, pois situa sua convivência com Llansol e a percepção da sua escrita como fruto de desejo e cálculo, para além de qualquer casualismo dadaísta. Para a compreensão do texto llansoliano, Augusto invoca a força da oralidade (experiências de leitura em voz alta), conectando-a aos daïmons silentes e sonoros dos gregos antigos, divindades ligadas à natureza e aos afetos humanos que na sua 46 Gragoata 28.indb 46 Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:52 Uma narrativa em mutação recepção e produção de causa amante de Maria Gabriela Llansol linguagem crítica são uma Energia Livre de Origem Vibratogênea (ELOV). Diz que o novo e o desconhecido em Llansol é um visitante que não se impõe, mas se insinua, eliminando a solidão; e que neste encontro “não será com velocidade pensante que se continuará o diálogo” (JOAQUIM, 1996, p. 174), vivência que o levou ao recolhimento e à transformação do seu olhar sobre o mundo. Como um daïmon, o livro Causa Amante também é formado por segmentos doadores de ELOV, um dispositivo ou engenho de natureza orgânica (ou grave), à exceção de certos fragmentos potenciométricos ou agudos que obedeceriam ao modelo ideológico que “articula de maneira rígida e indissolúvel o valor e o afecto” (JOAQUIM, 1996, p. 181-2). O procedimento deixa ver formas de captação de dispersão que provam que “o rei [Dom Sebastião] não estava a ser insensato” ao se lançar em Alcácer Quibir, e “que o intento da Causa Amante é libertar o rei do destino inexorável que o espera, encontrar-lhe outro dispositivo em que possa ser um pensante sensível” (JOAQUIM, 1996, p. 184), o que efetivamente acontece com a sua transformação em dom arbusto. A análise deste trecho serve de contraponto aos demais, em especial ao do Passo I, de natureza orgânica, onde vigora uma “abertura mútua” entre os componentes da cena que geram uma intensificação energética neguentrópica. Aqui o texto desliza, desloca-se num movimento em que as formas de captação não têm nenhuma rigidez, retroalimentando-se recíproca e indefinidamente em pontos de “coincidência das similitudes” (JOAQUIM, 1996, p. 191), o que nos reenvia ao mundo das semelhanças em que ainda vivia Dom Quixote. Tal poética de captação por deslocação e abertura mútua seria chamada por Llansol de “as artes das beguinas” que estão constantemente contrapondo-se ao desperdício de energia em sua dimensão “migratória”. Apesar de posteriores à 1a edição, as análises de Augusto Joaquim e de Maria Alzira Seixo são incontornáveis para os estudiosos do texto, ainda que se deva render tributo aos comentários dos “amantes” de primeira hora que corajosamente abriram voz em favor da estranha e surpreendente forma de Causa Amante. Parte II - Produção Segundo Augusto Joaquim, rebelde significa ir “contra a ordem estabelecida da entropia.” (JOAQUIM, 1996, p. 184) 9 Com esta obra Maria Gabriela Llansol iniciou uma nova trilogia, não mais de rebeldes,9 mas de desviantes que habitam O Litoral do Mundo I, num amplo afresco sobre a história de Portugal ao qual se agregam Contos do Mal Errante (1986) e Da Sebe ao Ser (1988). Ainda que escrito em terras estrangeiras (Lovaina, Jodoigne e Herbais, na Bélgica), a paisagem predominante por onde circulam as figuras é Portugal: Cabo Espichel, Convento dos Capuchos de Sintra, Igreja de Santa Engrácia, Terreiro do Paço, Calçada da Graça, Calçada de Santana. O texto foi produzido em Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 47 47 3/11/2010 19:47:53 Gragoatá A referência aos Cadernos se fará sempre à série 1, seguida do número do Caderno (06 a 10), acompanhado do número da página, também de forma abreviada - Cad.1.06, p. – conforme o padrão usado no Espaço Llansol, em Sintra, Portugal, onde se realizam pesquisas subsidiadas pela Fundação Calouste Gulbenkian voltadas para o espólio da autora sob a responsabilidade de João Barrento e Maria Etelvina dos Santos. Há duas séries de Cadernos já digitalizados (1 e 2), a primeira incluindo 76 cadernos manuscritos, dos quais 20% aproximadamente já dispõem de índice remissivo. Os cadernos oscilam mais ou menos entre 200 a 300 folhas manuscritas do tamanho A5 ou metade da A4. 11 Os hypomnemata são uma forma antiga de escrita entre diário e caderno de anotações estudada por Foucault como escrita de si em O que é um autor?, 1992. 10 48 Gragoata 28.indb 48 Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira parte nos Cadernos da autora referentes ao período de janeiro de 1979 a setembro de 1980, já digitalizados e categorizados em índice remissivo.10 Llansol usou extensivamente essa espécie de hypomnemata11 para compor suas obras, cujos trechos ficcionais quase sempre sofrem alguma alteração ao serem transcritos para os dossiês e/ou livros. Para a observação da escrita de Causa Amante interessounos a consulta aos Cadernos 1.06, 1.07, 1.08, 1.09 e 1.10, relativa ao período da produção do texto, bem como o Dossiê da obra, versão datiloscrita intermediária entre os cadernos e a edição publicada que não examinaremos neste trabalho. Dossiês e Cadernos são certamente objetos próprios de uma investigação de crítica textual e aguardam pesquisadores especializados. Para os estudiosos do literário, são elementos capazes de relevar os meandros da produção do texto e as vicissitudes da voz narrativa que, juntamente com as figuras, habitam as cenas da autoria e do “enredo” da obra. É bom acentuar que não corremos atrás do eu autoral, por sabê-lo de antemão inalcançável em sua unicidade; tentamos no entanto nos aproximar da “plurivocidade” autoral de que fala Foucault, da “subjetividade do não-sujeito” referida por Barthes, da “voz narrativa” fantasmática intuída em Blanchot, do gesto do autor acenado por Agamben, da voz partilhada escutada por Jean-Luc Nancy, da individuação sem sujeito defendida por Deleuze e Parnet, enfim, do vazio que realiza e se retira incessantemente da escrita. Cadernos e nascimento do texto “Uma das maiores bênçãos da minha vida foi ter um caderno à mão.” (Llansol, Cad.1.50, p. 11) Falar de gênese implica uma visão totalizante que não se ajusta à concepção da escrita-devir que marca os textos da autora portuguesa. Gênese lembra a mão divina que criou o mundo de um jato só, enquanto o fiat humano, em especial o daquele que escreve, é muito menos autocontrolado e se filia, não a Deus, mas a seu antípoda, o errante Caim. Onde nasce a escrita de Maria Gabriela Llansol? Certamente não chegaremos a um resultado palpável sobre este lugar porque um corp´ a ´screver, apesar de ter um cérebro pensante, é muito mais do que “ele” sabe em razão da filogênese que se espraia rizomaticamente não só para o passado e o futuro, mas também para todas as direções do presente. Isto quer dizer que não há uma semente primeira onde repousa e germina a linguagem e o pensamento, mas ao contrário, para além de um inconsciente individual ou coletivo, a mente humana se cria e se alimenta de associações múltiplas vindas de tudo à sua volta, produzindo registros em permanente fluxo através de encontros Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:53 Uma narrativa em mutação recepção e produção de causa amante de Maria Gabriela Llansol e capturas, apropriações e reterritorializações, como nos ensina Deleuze. Sabemos que a escrita de Llansol nasce e se transforma nos cadernos e nos dossiês, mas esta sucessão aparentemente causal dos seus rastros – os documentos deixados – não representa tão só a história de uma escrita mas escritas que se diferenciam em momentos distintos. Se o livro editado é a forma final pela qual a sociedade literária consagra uma escrita e se não há como partilhar a escrita senão desta forma, isto não invalida as escritas anteriores. Não só porque deixam de ser consideradas como a origem impura de um produto final acabado, mas sobretudo porque revelam o trabalho simultaneamente intencional e casual, de cálculo e de delírio, que rege o braço que escreve. O fascínio da crítica textual decorre em parte deste olhar para as alteridades da escrita, como bifurcações que se abrem e que se abandonam no instante da produção, igualmente importantes para o corpo que os escreve, mas necessariamente rejeitadas para que o livro alcance uma edição final. É a melhor forma? Não podemos responder a esta questão, nem nos interessa fazêlo. Fiquemos por ora com a observação inspirada em Yi King, livro da tessitura das transformações, muito consultado pela autora: Eis porque me apaixona a trama transformativa da minha escrita. Diria nossa escrita, referindo-me a outros escritores, porque tudo o que se transforma, e transforma, o tomo como nosso. […] Quando eu olhava os tecidos com tanta admiração e desejo, não sabia por que”. (Cad. 1.06, p. 271) A riqueza própria dos Cadernos justificaria uma descrição e análise independentemente das obras que lá se esboçam. No entanto o nosso objetivo aos examiná-los é recolher passagens que direta ou indiretamente se relacionam com a produção do romance, sem nos determos muito nas passagens ficcionais que serão transferidas depois para o dossiê e para a edição final de Causa Amante, onde estão para serem lidas e interpretadas. Na comparação dos trechos produzidos nos Cadernos e o Dossiê, há certamente muitas alterações sob a forma de substituições e expurgos, cuja exposição não faz parte dos nossos propósitos neste artigo. Por ora apenas registramos alguns casos exemplares que mostram o exercício da autoria como um processo múltiplo e associativo que agencia relações, acontecimentos, objetos, leituras, enfim, uma infinidade de linhas de fuga impossíveis de serem mapeadas com precisão. Sabemos que a criação de Causa Amante se conecta de alguma forma com a neve que cai sobre Jodoigne, no Brabante, região da Bélgica, em 5 de janeiro de 1979, quando Llansol se refere ao romance A Montanha Mágica (1924) de Thomas Mann e à necessidade de consultar uma Enciclopédia para saber quem ela é (a neve) “sob o ponto de vista físico” (“O que é para poder se tornar quem é”) (Cad.1.06, p. 148). Sabemos que a primeira Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 49 49 3/11/2010 19:47:53 Gragoatá Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira frase de Causa Amante faz referência a este ambiente: “estou coberta pelo nascimento de Ana de Peñalosa e a neve, que ia fundir-se, voltou a cair” (CA, 11).12 O que não podemos saber é como a leitura de Mann (embora cientes de que a diegese do romance se passa num sanatório nos Alpes) e a neve que caía sobre Jodoigne se conectaram dando lugar a um terceiro que não é um nem outro mas um “entre ambos”, dando razão a Augusto Joaquim quando fala de “captação por rede” e de uma “termodinâmica do sentido” nesta passagem por ele analisada (JOAQUIM, 1996, 188-9). Tentando entender este processo de transposição, a própria Llansol fala sobre a passagem “do nível do sonho” para o nível da composição do romance, “isto é, para um nível nebuloso penetrado por um esforço de decifração” (Cad.1,07, p. 55), constituindo aquilo que Augusto chama “entresser” e que faz surgir um outro desconhecido. A autora confessa estar assustada diante do texto, “grande texto que já várias vezes […] [a] atraiu com as suas inúmeras formas, tempos e destinos” (Cad.1.06, p.150), momento em que se delineia o primeiro título do romance que lhe promete muitas recompensas: Trago o nascimento de Ana de Peñalosa dentro de mim, vai durar anos se eu puder escrever um livro que dure. Que o momento em que tal livro fora acabado, pense em mim, nos dias, e noites, incompletos em que o procurava com o pensamento de que só assim, saltar sobre a nossa morte, eu mais meus seres amados também finitos, me era possível. (Cad.1-06, 159) (negrito nosso) Doravante as citações à Causa Amante se referem à segunda edição (1986), sob a forma abreviada CA seguida da(s) página(s). 12 50 Gragoata 28.indb 50 Algum dia após esta reflexão surge a cena da neve no Caderno, que estava em gestação - “Estou coberta pelo nascimento […] e a neve […]” – (Cad.1.06, p.160, 9 de Janeiro) –, transposta depois para o Passo I-Aqui do romance (CA, 11); no final do mês (27 de janeiro) aparece a outra cena - “é hoje que verdadeiramente, o nascimento de Ana de Peñalosa, nasce (…)” (Cad.1.06, p.181) que se encontra no Passo II-É (CA,13-14). Isto demonstra que o nascimento do livro, então chamado “O nascimento de Ana de Penãlosa”, só acontece após a narradora ter sido por ele coberta, ou seja, inseminada. O texto é um ser que deve amadurecer por si mesmo para vir à luz: “Outro dia, apenas com algumas páginas escritas, ele tinha-se apresentado para nascer; mas era apenas um início, um horizonte fechado. Não estavam determinados nem a perspectiva, nem o lugar.” (CA, 13). Por isso a leitura de Llansol deve ser literal: quando ela diz “coberta”, é exatamente “coberta” aquilo que quer dizer, e não uma metáfora abstrata para idealizar a produção autoral. Só mais adiante ela introduz as aspas para confirmar o título do livro, ao mesmo tempo em que se subordina ao seu fluxo: “O nascimento de Ana de Peñalosa” começa a desenrolar-se com / nas palavras e eu vou com ele” (Cad.1,06, p.192), idéia que se repete meses depois (junho Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:53 Uma narrativa em mutação recepção e produção de causa amante de Maria Gabriela Llansol de 1979) quando compara a produção do livro a um fluxo em mancha poética: faça o que fizer, esteja ocupada no que estiver ocupada, vejo-o sempre cair, refluir como uma cascata. (Cad.1.07, p. 57) Na posição de um observador externo, Llansol examina o seu próprio processo criativo feito de melancolia, vaguidade e captação auditiva, pelo qual os “seres nasceram pela voz”, sendo “seus corpos secundários e insignificantes” (Cad.1,07, p. 170): Neste período sempre por detrás das palavras ainda não pronunciadas, está o nascimento de Ana de Peñalosa, sem ser vago apenas não todo presente. Não vindo aos olhos, antes de vir ao ouvido. Parece-me que é com os olhos que ouço sempre primeiro as palavras, com seu traço, som, melancolia (…) (Cad.1.06, p. 194-5) A este trecho segue-se a preocupação em esboçar a intriga do livro, dele só recebendo “uma voz envolvente” (Cad.1.06, 198) a que se submete a ponto de saltar da paisagem do Cabo Espichel (parte I do livro – tempo histórico “presente”) para o bairro de Alfama, em Lisboa, onde se situa a Igreja de Santa Engrácia (parte II do livro - século XVII), o que demonstra que a produção dos segmentos/fragmentos do livro não corresponde à ordem em que aparecem na edição final.13 O tempo em Llansol é diferente, conforme dirá mais tarde: “Esta noite tive a percepção de que o tempo não era linear, o tempo deixou de ser linear; é uma estrela.” (Cad.1.07, p. 50). Escrita e pesquisa Como exemplo citamos o trecho de CA, p. 37, iniciado por “Ainda bem (…) não é verossímil” que antecede a passagem da mesma página “ela está sentada debaixo (…)” (Cad.1.07, p. 268), embora tenha sido produzida depois (Cad.1.07, p. 272). 13 Os cadernos relativos à produção de Causa Amante apresentam tópicos recorrentes que expressam preocupações e, por vezes, obsessões da função autoral quanto à genealogia e destinação da escrita, às limitações do autor, aos influxos aceitos e recusados, às vicissitudes próprias ao ato de compor uma obra. Ressalta deste conjunto o cuidado com a pesquisa como pré-condição da escrita: “Estudo para escrever. Porque é preciso estudar para escrever. A realidade não está na existência da superfície. A superfície precisa de ser colorida” (Cad. 1.47, p. 9). As cenas de Lisboa (parte II, Capítulo I - Movimento) se nutrem provavelmente de um “grosso volume” constantemente sob consulta (Cad.1.06, p.198), fornecendo a necessária precisão histórica e geográfica: “Necessito de ler passo a passo As pere- Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 51 51 3/11/2010 19:47:54 Gragoatá Volume encontrável na biblioteca da autora - Rubens et son temps, Coleção Time Life Le mode des Arts, 4ª ed. 1978 – cuja capa traz o retrato de Clara Serena. Na folha de rosto deste volume há duas anotações de Llansol: a primeira é: “31 Outubro 1979/Jodoigne” seguida da sua assinatura; a segunda faz referência à “2ª leitura em Sintra/ 4/5/96”. Estas anotações coincidem, respectivamente, com a produção original de Causa Amante e a publicação da 2ª edição. 15 Para compor Levantado do chão José Saramago fez uma pesquisa preliminar junto aos camponeses do Ribatejo, para realizar O Memorial do Convento visitou Mafra e para escrever a História do Cerco de Lisboa releu passagens da História de Portugal. 14 52 Gragoata 28.indb 52 Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira grinações em Lisboa [de Norberto de Araújo]” (Cad.1.06, p.286). Trata-se de um volume existente na biblioteca da casa na qual Llansol pesquisa “a exatidão de Lisboa” com o seu “sentimento de Lisboa” (Cad.1.06, p. 286), a ele voltando mais tarde (Fevereiro de 1980) para estudar as muralhas da cidade: “Lisboa, que dentro de si não cabia, ´cerca nova`, extravasava dos Primitivos muros” [seguem-se as anotações tiradas do livro] (Cad.1.06, p. 257). Pensa em comprar a Enciclopédia Ilustrada de Costume e da Moda (em francês) pois “é uma primeira penetração na concisão de um mundo histórico em que desej [a] exercitar-[se] para `O nascimento de Ana de Peñalosa” (Cad.1.06, p. 207, 12 de fevereiro de 1979) ao mesmo tempo em que levanta dados sobre a construção e a reconstrução da Igreja de Santa Engrácia, a profanação do sacrário e a queda da cúpula orbicular nos séculos XVI e XVII (Cad.1.06, p. 216). No dia seguinte todo este material passa a ser digerido por sua imaginação: “Hoje quase não trabalho. Leio como se percorresse água corrente; deito-me na cama e leio, vejo gravuras começo a imaginar, apoiada em fatos, a História”. (Cad.1.06, p. 207). Compondo a obra no estrangeiro, preocupa-se em realizar pesquisas no local da diegese quando surge a oportunidade de visitar a família em meados de 1979: “Preciso de preparar, pela antevisão, o que vou ver realmente em Portugal para trazer para o meu livro. Escrever aqui.” (Cad.1.07, p.46). A pesquisa não é uma atividade puramente racional e se guia também pela intuição: “Levanto-me disposta a abrir ao acaso as obras completas de São João da Cruz, a receber inteiramente o que vou ler” (Cad.1.08, p. 193). Por vezes o influxo se dá de modo não planejado, tal como em novembro de 1979 quando Llansol menciona a chegada pelo Correio do álbum sobre Rubens,14 pintor flamengo sobre o qual comenta: “Antuérpia revive. Desejo contar a história das beguinas que, por momentos, está superior a meus próprios olhos” (Cad.1.07, p. 235). Se a princípio o interesse da encomenda foi motivado pelo Flandres onde habitam beguinas, ao folhear o álbum encontra informações sobre Clara Serena, a filha de Rubens, cuja imagem pintada pelo pai a impressionara desde criança quando ainda desconhecia o nome e a identidade da retratada. Acaba por fazer de Clara Serena uma figura de beguina no cabo Espichel, que lá chega junto com “os invasores, que podiam ser os perturbadores”, mas que se inserem “de maneira serena”, mesclando-se com “a rapariga que temia a impostura da língua”, o duplo de Llansol que aparece em outras obras. Como se vê, a pesquisa não é um trabalho realizado a priori, como já vimos acontecer com outros escritores,15 mas se faz no decurso da composição do livro fazendo-o incidir para um lado ou para outro. Em meio às pesquisas iniciais, estão cenas da biografia de Ana de Peñalosa quando testemunha a profanação do sacrário da Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:54 Uma narrativa em mutação recepção e produção de causa amante de Maria Gabriela Llansol Igreja de Santa Engrácia onde o povo se comprime entre velhas paredes para ver o milagroso caso da morta incorruptível. No meio da multidão estão duas mulheres especiais com as quais Ana de Peñalosa se relaciona, mas cujo diálogo não passou para o livro: Alice (que secretamente espera curar-se com um milagre) e Engrácia (mulher analfabeta que dobra o nome da santa e da Igreja) são metamorfoses de pessoas relacionadas à vida real da autora, a saber, sua tia Alice (que sofreu uma operação da vista conforme está em Cad.1.06, p. 269), e Amélia, a antiga criada da família de grande importância no destino de Llansol. Os sonhos, sempre cuidadosamente anotados nos Cadernos, contribuem para a fatura da obra, tal como se dá no caso da cegueira, por duas vezes tema onírico: no primeiro sonho é a própria autora que precisa fazer uma operação nos olhos e no segundo ela se recusa a admitir que a sua gata Cisca esteja cega. Desta mesclagem entre sonho, realidade e imaginação, a autora do Caderno conclui: “Estabelecia um paralelo entre mim e entre as imaginadas Alice e Ana de Peñalosa. A cegueira de Alice protege Ana de Peñalosa dos ardores da iluminação, (…)”. (Cad.1.07, p. 68). A narração das relações entre a criada Amélia e a figura Engrácia, de tom sublime e grave, toca no ponto frágil da biografia: “Há horas longas e penetrantes que são horas de escrita diferida.” (Cad.1.07, p. 41). Este diferimento banha o intróito da parte II de Causa Amante (em itálico, tal como o primeiro intróito que abre o livro), quando a narrativa de 3ª pessoa iniciada banalmente em minúscula – “estava deitada na sua própria cama (…)” – assume a voz em 1ª pessoa para lembrar fatos da infância envolvendo a criada: ofereceram-me uma colher de prata […]; foi um presente de Engrácia que, mesmo antes de eu ter nascido, já tinha importância na minha vida. […] Engrácia […] abria-me outra época para além da citadina, e rodeava-me de dimensões e de contos a percorrer. […] A Engrácia chamava-lhe Mélito; agora, que aprendi a decompor as palavras compreendo que era “meu mito” que lhe chamava. (Cad.1.06, p.204-5; CA, 75 e 77) Toda esta passagem de forte ressonância pessoal, transfigurada ficcionalmente no livro, será mais bem compreendida na entrevista a João Mendes, quando confessa que a criada, na verdade chamada Maria Amélia (daí a remissão ao diminutivo Mélito, que tudo e nada tem a ver com “meu mito”), fora persuadida pelos patrões a desfazer o embrião que concebera do filho solteiro da família, futuro pai da autora, para não conspurcar o caminho dos filhos legítimos, episódio que é o centro do livro Um beijo dado mais tarde (1990). No depoimento Llansol mostra que a fronteira entre a realidade e a invenção (alucinação) é precária e instabiliza igualmente os contornos da autobiografia e da ficção, sabedoria que herdou da criada analfabeta: Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 53 53 3/11/2010 19:47:54 Gragoatá Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira Essa criada e a estória que lhe acontecera, a que só tive acesso por alusões, foi o primeiro sinal de que era necessário revolver o mundo. Escusam de me vir dizer que o mundo, a que o texto faz apelo, não existe, porque isso é o que eu sei, desde o princípio. Porque os que falam confundem, deliberadamente ou não, realidade e existência. Há muito real que não consegue existir, e há muitíssima existência que não tem (nem nunca teve) realidade alguma. A maior parte do que existe é miséria alucinada. Quando essa criada me contava estórias, e a criança, por ser muito inteligente, lhe respondia «mas, Amélia, isso não existe», ela dizia-lhe «menina, não diga que não existe, porque não sabe, procure onde está». (LLANSOL, Entrevista, 1995) O esforço de composição do livro em curso é grande, “obra de esforço largo” (Cad.1.06, p. 211), que por vezes desanima a escrevente que não consegue “articular duradoura e especialmente a escrita” (Cad.1.06, p. 29), mas que paradoxalmente deixa um PS a revelar sua submissão à corrente do escrever: ”Nunca escrevi um livro assim; nunca assim fui escrita por um livro”. Imediatamente após esta frase, compõe no diário outra cena de Lisboa em que a analfabeta Engrácia pede a Ana de Peñalosa que escreva “uma carta de amor, de seu amante para ela”. (CA, p. 84 e Cad.1.06, p. 219), o que novamente nos remete ao tema dos amores paternos que antecederam o nascimento da autora. Em todo este trecho do Caderno (8 a 21 de fevereiro), a produção do texto se faz por conjugação de elementos vivos, que se conectam dinamicamente por uma lógica não-linear ou vibratogênea (para usar o termo de Augusto Joaquim): há o plano da realidade em que a dificuldade da escrita, ao ser verbalizada, cria a escrita que, por sua vez, produz a própria escriptora; há o plano da ficcionalidade em que uma carta é escrita por uma mulher culta (Ana) a pedido de outra analfabeta (Engrácia); e há o plano da inter-relação entre o biográfico e o literário quando se pensa na pobre Amélia que teria gostado de ser amada pelo pai de Gabriela, dele merecendo uma carta de amor. Coroando estas penetrações mútuas, Ana de Peñalosa se emociona e conclui que a tal carta tem o mesmo peso afetivo de uma mensagem de Luís M. ou de São João da Cruz, respectivamente, filho adotivo e mestre da beguina. Escrita e metaescrita Falar da pesquisa e da composição do livro não deixa de ser uma tarefa metalinguística, no entanto observemos mais detidamente esta consciência em processo de autorreferencialidade. Ao inaugurar um novo caderno (o 7º da série 1), Llansol assinala a data da escrita de Causa Amante: “Durante o tempo em que escrevo ´O nascimento de Ana de Peñalosa`, começado a 6 de janeiro do mesmo ano, […] 1979”. Referir-se ao nascimento 54 Gragoata 28.indb 54 Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:54 Uma narrativa em mutação recepção e produção de causa amante de Maria Gabriela Llansol de um livro, também chamado “Nascimento […]”, não é casual pois Llansol está deprimida e também deseja renascer: “Nestes dias devo nascer conscientemente num mundo desconhecido e não creio sequer que esse mundo já existe para me receber” (Cad.1.07, p. 4). Desejar o próprio nascimento não é recurso metafórico, já que realmente nascemos e morremos a cada dia: “Escrevo, reconstituo, remodelo o meu Diário em face da morte. Gravemente, não tristemente. Morrer e continuar a nascer para a frente.” (Cad.1.07, p. 15). De forma lacônica, Llansol comunica em 18 de agosto de 1979 que terminou Na casa de Julho e Agosto, mostrando que a composição de um livro se faz em simultâneo a outro, num afã de proteção da “incompletude” (Cad.1.07, p. 102) que não lhe permite intervalos entre uma obra e outra. Em fevereiro do ano seguinte, ela esboça uma trilogia em que aparece o título que será atribuído ao romance em elaboração: “1. Causa Amante / 2. Numerosas Linhas / 3. Com João, última história contada por Margarida” (Cad.1.08, p. 194). Algum tempo depois (Março de 1980), no meio do desenvolvimento de dois livros (Causa Amante e Com João), a autora não sabe o que se passa consigo: “o fato de pensar livros semelhantes põe constantemente minha vida em perigo; mas também a defende do perigo. Como tudo isso se passa?” No entanto se autotranquiliza de alguma forma: “Mas eu não tenho que contar tudo / que ver tudo ao mesmo tempo” e diante da impotência de abarcar a totalidade, afirma o possível da sua potência: “Criar para o mundo o que é o núcleo (a imagem) da minha vontade” (Cad.1.08, p. 337). Na experiência radical de indecidibilidade no devir da escrita, Llansol extrai satisfação: “Sinto prazer em tentar adivinhar quem virá primeiro. Causa Amante? Com João? Numerosas Linhas? Todos são intuições do tronco principal sobre o qual reflito e exerço a minha escolha.” (Cad.1.08, p. 390) Na maioria das vezes os fragmentos são produzidos de um só jato, como espasmos intensos, intercalados com meditações de todo tipo, inclusive com as lamentações de que não consegue criar na velocidade que gostaria. Mas também há episódios que são escritos e reescritos nos Cadernos até que atinjam a forma desejada, sem contar as possíveis alterações na passagem para o datiloscrito (dossiê) e deste para a forma final editada. Exemplo do primeiro caso é o episódio sobre Margarida, cuja versão no Caderno (Cad. 1.06, pp. 268-271) se reproduz integralmente no livro (CA, pp. 37-38); e do segundo caso são as várias versões relacionadas aos episódios de Clara Serena e Luís M. Llansol mantém um alto senso autocrítico quando está a criar e a aproveitar o material criado, como se vê nas cenas da Arrábida e dos Capuchos (transpostas para CA, 53) - “Está bem, mas o começo do texto tem que ser menos rápido” (Cad.1.08, p. 160) - pois fazer o texto equivale a desfazer o já feito, como diz Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 55 55 3/11/2010 19:47:54 Gragoatá Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira a propósito de uma cena já composta e endereçada ao suposto livro chamado “Numerosas Linhas”: Durante esta época de fim de ano, escrevi vertiginosamente, e o que escrevi ficou guardado tudo em texto. Hoje nem quis trabalhar sobre alguns rascunhos, e tudo me pareceu falso em relação à verdade da escrita e transitório. Era o encontro de Margarida e Ana de Peñalosa, entre “Numerosas Linhas”. Nada aproveitei, nem aproveitarei, creio, e fiz bem assim. É preciso rejeitar, podar a árvore. (Cad.1.08, p.139, 4 janeiro de 1980). A escrita das figuras Compondo a obra, Llansol pensa na emergência de “personagens” para além do seu controle, como vivos que tomam outros destinos: “Penso numa página desfeita de um meu livro Causa Amante. Escrevi este texto para ler no Natal, era o texto de Úrsula. Outro ser que veio ao livro. Vários seres que culminam em pontes semelhantes e se diferenciam.” (Cad.1.08, p. 73) Tal como se dá no enredo, não há controle consciente rígido na criação das figuras: “É preciso que o olhar se perca é absolutamente preciso; é preciso que eu recrie nos anos e tenha a voz dessa figura, eu” (Cad.1.07 p. 163-164). Referindo-se à criação da figura de Luís M., diz que o primeiro indício captado foi, por ser o mais reconhecível, “O que era a Língua” (Cad.1.07 p. 164). Pergunta-se sobre a natureza desses seres que lhe chegam, sem para isso obter uma resposta: Penso em vós, todos sem exceção, todos os seres. Quem são estes seres? Como os experimentam nossos sentidos – Serão os arquétipos? E os arquétipos, o que são exatamente? Nenhuma das minhas perguntas é uma pergunta frustrada. (Cad.1.08, p. 73) Confessa que pela primeira vez enfrenta problemas da organização, de continuar a escrever cingindo-se ao pensamento por que chama, sem ouvir as vozes que a chamam e lhe tomam o ouvido e a voz na sua consonância musical. Diante das interrogações sobre o nascimento do texto sobre Úrsula, inicia um arrazoado sobre esta figura, acabando por concluir: “Praticamente os meus textos até aqui não me davam trabalho” (Cad.1.08, p. 73). Fazer nascer a figura de uma personagem histórica é equivalente a compor o livro em conjunto, trabalho em que se estabelece uma estreita relação entre os dois lados, com reciprocidade de influxos e interpenetrabilidade de épocas: Falo, tantas vezes em Ana de Peñalosa, que de fato viveu, que hoje compreendo também que ela me protegeria, me seria benéfica. Saberia ela, faria parte da imensidade da sua percepção 56 Gragoata 28.indb 56 Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:55 Uma narrativa em mutação recepção e produção de causa amante de Maria Gabriela Llansol [?] que um dia eu me referiria a ela, a traria comigo a outro século, para juntas, contemplarmos o feito e o porfazer, o nostálgico e o errado, relatarmos em conjunto como tudo, afinal, se tinha passado com nós mesmas? Tento atingir seu rosto, suas atitudes, seu meio ambiente, sua presença trespassada pela conversa de S. João da Cruz. E nas diferenças e nas similitudes na experiência que também nos fez sofrer, procuro a direção para um livro que vindo de nós, representa nossa maneira de viver, somente vistos um pouco mais além. (Cad.1.07, p. 103) Publicação e crises da escrita Ao longo da produção do livro, Llansol experimenta crises existenciais de vários tipos, a maioria ligada a dinheiro, desentendimentos com Augusto e principalmente indiferença dos editores, como notamos no trecho abaixo em que se identifica e se distingue de Virgínia Wolf: O nó de todas estas dificuldades, expectativas, começará a desatar-se? E a Moraes? E a carta de condução do Augusto? E o empréstimo? É a primeira vez que falo tão claramente de coisas concretas, Mas todo este clima intrincado me impede de escrever e, vendo Virgínia Wolf, o seu destino, compreendo como é necessário viver e escrever e não viver sozinha com a escrita. Viver sozinha com a escrita será uma atividade temerária. Não desejaria preparar nenhuma experiência de decadência, nem a do desprezo do corpo, nem a de forma de atividade, pois que estou multiplamente, viva. (Cad.1.07, p. 276-277) Pode-se observar a extensão do seu tormento com os editores quando fá-lo transbordar para a ficção no episódio em que Ana de Peñalosa assume o papel de escritora a testemunhar o processo de Inquisição de Jorge Anés. Há um momento em que interpela Engrácia para que leve as “páginas escritas, que já estão impressas e agrupadas em cadernos, para serem lidas […]” (CA, 94). Se no romance Ana de Peñalosa se lamenta – “[…] nem sequer tenho quem me escute, […]” (CA, 93) -, no Caderno, Llansol diz: “nem sequer tenho editor” (Cad. 1.06, p.250). No livro, Ana diz: “Se eu pudesse escrever e imprimir eu própria, pedir a Engrácia Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 57 57 3/11/2010 19:47:55 Gragoatá Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira que pusesse os livros em circulação, livro escrito seria livro lido” (CA, 94). Tais palavras refratam o que escreve no Caderno em março do mesmo ano: Gostaria de editar-me a mim mesma, sem obstáculos. Gostaria que não me deixassem apagar de tristeza, de um vago sentimento de inutilidade por escrever sobre uma língua que arde sobre si mesma que se devora a si mesma: mas eu não trocaria por nenhuma, que me conduzisse ao sucesso, mesmo à riqueza, por que é uma espécie de paixão, de desenho de mim mesma, que me faz feliz e infeliz, e que me oferece todo o conhecimento limitado que possuo. (Cad.1.06, p. 242) Assim como Ana de Peñalosa teme pela perda dos escritos e pela desaparição de Jorge Anés em Causa Amante, Llansol se preocupa com o esquecimento dos poetas no Caderno. Inspirada num filme sobre Garcia Lorca, escreve que “Um poeta é como os outros homens simplesmente quando o matam, matam uma voz mais ele” (Cad. 1.07, p. 224), atingida por esta espécie de morte que é a do autor não-editado: Enfim, pensei também que a Moraes [Editora] talvez se prepare para calar-se; demorar a resposta é já um sinal do livro que eu lhe enviei. Eu poderia, lentamente, contribuir para a morte da voz, aderindo a esse abandono. Mas o livro escrito faz parte da minha consciência da vida em si, que sou com ele. Preciso apenas de saber que um dia será publicado, dado a ler para ter, finalmente, uma face de homem, embora eu creia que o homem é apenas um dos seres. (Cad.1.07, p. 225) No data do seu aniversário, 27 de novembro de 1979, a autora recebe uma boa notícia da Editora que a leva à exaltação e reafirmação do seu projeto: Faço hoje 48 anos; a carta desejada da Moraes, chegou hoje. O livro não será posto fora do caminho, segue seu caminho para ser publicado e eu exalto-me até dores de cabeça, sentindo de novo que sou capaz de poder e de seguir a minha estrela. […] A carta da Moraes reconduziu-me ao livro a causa amante, do esforço de encontrar-me com o meu prazer perfeito. No entanto, em abril de 1980, a Editora Moraes volta atrás e Llansol parece desabar “como alguém que não pode exercer a sua profissão, comunicar” (Cad.1.08, p. 43) e que assim perde 58 Gragoata 28.indb 58 Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:55 Uma narrativa em mutação recepção e produção de causa amante de Maria Gabriela Llansol seu “trabalho” (Cad.1.08, p. 276). De modo cáustico, destila o seu desprezo pela classe dos editores: Como me libertar (procurar não necessitar) do Editor que gera o livro, e anota na coluna do haver, a margem do lucro. Tornou-se avarento porque deve oferecer, sem margem para o erro ou um pouco de previdência da cultura, a folha de texto comestível que as massas procuram. De qualquer modo, julgo mais salutar para mim, não por o preço senão do nosso trabalho, não importa qual, na edição de um livro que para mim é uma série de combustões. (Cad.1.08, p.43) Estas crises explicam o motivo da sua admiração por “essas pessoas da Flandres, no século XVI, Moretus, Rubens, Balthazar”16 (Cad.1.07, p. 246), bem diferentes dos editores atuais que não se interessam em publicar livros que “não são fáceis e muito menos êxitos comerciais (…)”, dando como exemplo A restante Vida, que “tem tardado porque a Moraes queria conseguir para apresentá-lo um prefácio esclarecedor (…)” (Cad.1.08, p. 227). De todo modo, quando a autora se vê às voltas com tais problemas procura se consolar a si mesma: “De qualquer modo, eu escrevo. É o que importa” (Cad.1.07, p. 3). Confirmando a noção de que o escritor não escreve para ninguém em particular, mas para o futuro, Llansol não sabe “se quereria publicar os [seus] livros enquanto for viva” (Cad.1.08, p. 319), mas, em aparente contradição, ela se manifesta: “Os livros que hei de escrever serão uma longa paciência; gostaria que eles encontrassem um lugar durável fora da minha vida.” (Cad.1.08, p. 73) Algumas conclusões provisórias Jean e seu filho Balthazar Moretus foram editores importantes da Antuérpia no século XVI e XVII, para os quais Rubens, pintor e pai de Clara Serena, trabalhou como ilustrador. 16 A leitura dos Cadernos relativos ao período de produção de Causa Amante revelou o modo como Maria Gabriela Llansol agencia os seus pensamentos numa unidade a que ela é obrigada a chegar para levar os seus textos ao destinatário na forma final de livro, mostrando a proliferação, o caos e o cálculo que regem a composição da obra. Talvez haja aí uma “utopia”: o testemunho de resistência contra as formas tradicionais da ficção e a “impostura da língua” pela exibição do seu processo de criação nos cadernos e demais manuscritos que a escritora abriu à possibilidade de consulta pouco antes de morrer. Ao visualizarmos as várias escritas em busca da obra, percebemos melhor como ela está rizomaticamente interconectada com a biografia através de um projeto várias vezes referido (continuar a escrever o mesmo livro em todos) que se confirma pelo extremo cuidado em fixar a data em todos os seus escritos. Ao fazer tais anotações Llansol se apóia numa possibilidade de leitura conjugada de sua obra a partir de cortes sincrônicos de sua vida, sem esquecer evidentemente que entre os diversos cortes acontecem imensas contaminações e transformações. Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 59 59 3/11/2010 19:47:55 Gragoatá Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira O desejo impossível da simultaneidade, bem próprio aos ficcionistas, é um tema obsedante também para Llansol: “Disse ao Augusto que queria ter tudo, no mesmo instante, mas ele disse-me que, na vida, recolhe-se tudo por fragmentos (por morceaux)” (Cad.1.08.p.175). No entanto ao datar todos os fragmentos produzidos ao longo do tempo, Llansol fixa marcos que permitem ao futuro leitor uma experiência viva de simultaneidade entre vida e obra, substituindo a narratividade fechada e circunscrita por uma textualidade espraiada e em permanente mutação. A partir de pontos fulcrais de temporalidade, que em geral os escritores abandonam em favor de um ideal de obra perfeita que esconde as costuras ou expõe no máximo uma retórica dos avessos, a abertura radical do processo constitutivo do texto em Llansol revela uma generosidade inaudita que abdica do desejo de notoriedade no âmbito das Letras em favor de um compartilhamento de segredos com o leitor. Daí provém a sua preocupação com as edições, pois a escrita precisa se processar em outras consciências para justificar a consciência de quem a disparou como um dardo em mutação. Como se pode notar, os Cadernos manuscritos de Llansol são registros de cunho diarístico, mas não típicos diários, pois não funcionam como pura tagarelice que colmata o medo do vazio, tal como descreveu Blanchot a propósito de Amiel que em catorze mil páginas arruinou a sua vida numa escrita “fantasma de atividade intelectual”. (BLANCHOT, 2005, p. 275) Abstract Causa Amante (1984) shows the scale mutant of text of Llansol, created in notebooks manuscripts, consolidated in “dossiers” dactiloscripts and published with arduous effort in books. First we talk about the reception of the first and second edition; after we examined the backstage of production of the text, by choosing some current topics for reflection: search for the novel, metalanguage, setting up of figures characters, difficulties of editing. Ostracized of standard narrative traditional, the novel is composed and re-composed always by a process which serves as paradigm to text signed by Maria Gabriela Llansol. Keywords: Reception. Production. Text of Llansol 60 Gragoata 28.indb 60 Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:55 Uma narrativa em mutação recepção e produção de causa amante de Maria Gabriela Llansol REFERÊNCIAS AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007. BARTHES, Roland. O rumor da língua. 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Niterói, n. 28, p. 41-62, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 61 61 3/11/2010 19:47:55 Gragoatá Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira SEIXO, Maria Alzira. “Causa Amante de Maria Gabriela Llansol”. In: A palavra do romance; Ensaio de Genologia e Análise. Lisboa, Livros Horizonte, 1986a, p. 229-232. . “Alteridade e auto-referencialidade no romance português de hoje (A propósito das obras de J. Saramago, M. Cláudio e Maria Gabriela Llansol)”. In: SEIXO, 1986b, p. 21-27. . “Para uma tipologia do discurso ficcional (Pensando a obra de Maria Gabriela Llansol)”. 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Experiência Gragoatá Gragoata 28.indb 63 Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:56 Gragoatá Na novela de Balzac, o narrador relata a um personagem feminino, surpreso com a figura de um ancião enfeitado e maquilado, a história de um escultor que se apaixona por uma cantora sem saber, na verdade, tratar-se de um castrado. Inspirado em sua figura, que reuniria em um único ser toda a beleza que até então só teria encontrado fragmentada, o artista esculpe uma estátua e pretende raptar a jovem para viverem um grande amor. Ao descobrir tratar-se de um castrado, enfurecido, tenta destruir a escultura e matar aquele que o enganara, mas termina assassinado por empregados do protetor do eunuco. O ancião é, na verdade, o castrado. Cf. BALZAC, H. Obras Completas, 1956, p.553587. 2 A noção de composição está sendo por nós utilizada na acepção que Barthes lhe atribui no próprio artigo para referir-se à arte. Segundo o autor, esta constitui uma espécie de compósito capaz de reunir em uma única realização características contraditórias ou dispersas, sem que, entretanto, estas se anulem, apagando a diferença. 3 O foco do artigo está na questão da castração vinculada à ausência de marca, em oposição à presença, em determ i nadas formas li nguísticas, como meio de constituir a significação. Sabemos, entretanto, conforme o próprio Barthes ressalta, na nota adiante reproduzida, que o tema da castração é basilar para a “Teoria da Sexualidade” proposta por Freud. De acordo com o Vocabulário da Psicanálise de Laplanche e Pontalis: “COMPLEXO DE CASTRAÇÃO - Complexo centrado no fantasma (fantasia) da castração, que vem trazer uma resposta ao enigma posto à criança pela diferença anatômica dos sexos (presença ou ausência 1 64 Gragoata 28.indb 64 Márcia de Oliveira Reis Brandão I - O Neutro: do gênero linguístico aos gêneros literários Em “Masculino, Feminino, Neutro”, Roland Barthes (BARTHES, 1976) dá início à análise, desenvolvida posteriormente em seu livro S/Z (1999), da novela Sarrasine, de Honoré de Balzac.1 O artigo insere-se numa leitura estrutural da narrativa, procurando identificar os elementos que conduzem a possíveis interpretações do texto, pois, como o próprio autor declara, “esta novela comporta várias entradas” (BARTHES, 1976, p.12). Tais elementos estariam associados a determinadas perguntas que envolveriam “suspenses de ser” – “Quem é? / O que é?” – e “suspenses de fazer” – “Quem fez?” / Qual será o desfecho dessa ação?”. Essa estrutura regeria as obras que seguem um paradigma narrativo tradicional. O romance moderno, se não abandonou completamente essa forma de composição, a relegou para um plano contingencial. A ênfase se deslocou para o modo como o texto se constrói – e desconstrói – daí muitas vezes seu aspecto metaficcional, e sua última página, outras tantas vezes, longe de representar o seu fim, deixar a narrativa em aberto. De modo análogo, seus personagens adquirem função muito mais por sua “composição”2 do que por sua “definição”. Na narrativa moderna, os personagens se apresentam multifacetados e em constante alteração, por esta razão, não importa defini-los, mas sim apresentá-los em sua complexidade, apontando para a subjetividade como algo em devir. Segundo a leitura de Sarrasine proposta por Barthes no artigo, o texto seguiria o padrão narrativo tradicional, o que o leva a retomar em sua análise pressupostos da linguística. O autor assinala que, “a lingüística está fundada principalmente sobre a análise de modelos assertivos: a asserção representa a norma [...] e a interrogação o desvio (da mesma forma que a negação)” (BARTHES, 1976, p.5, parênteses do autor). O modelo assertivo, entretanto, seria, no caso das narrativas, um instrumento através do qual o modelo interrogativo (o suspense e sua decifração), fim último da narração, seria alimentado. Embora destaque a importância desse modelo suspensivo – interrogativo – e o utilize para conduzir a leitura de Sarrasine, visando ao que denomina “decifração do texto”, a ênfase, e a consequente relevância do artigo de Barthes, está na identificação de elementos do discurso que corroboram na construção do enigma da narrativa. São os signos de que essa se constitui que trazem para a pauta a questão do masculino/feminino/ neutro. São esses mesmos signos que confundem o personagem central da trama e, ao mesmo tempo, permitem deslindar seu enigma. Tendo como eixo o personagem balzaquiano, a análise prioriza a relação entre o castrado3 e o neutro. Reportando-se sempre à questão linguística, Barthes assinala que, assim como Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:56 Ne-uter ou uma questão de gênero: do neutro na língua à instabililização dos gêneros literários Continuação nota 3 de pênis): esta diferença é atribuída a um corte do pênis da criança do sexo feminino. A estrutura e os efeitos do complexo de castração são diferentes no rapaz e na menina. O rapaz teme a castração como realização de uma ameaça paterna em resposta às suas atividades sexuais, do que lhe advém uma intensa angústia da castração. Na menina, a ausência do pênis é sentida como um dano sofrido que ela procura negar, compensar ou reparar” (LAPLANCHE; PONTALIS, 1983, p.111). Barthes: “Na perspectiva de uma análise psicológica – que não é a deste estudo – seria fácil mostrar que Sarrasine ama em Zambinella o próprio castrado; notaríamos então sua agressividade em relação àquilo que ele acredita portanto ser uma mulher; sua insistência em declarar que ama em Zambinella aquilo que a faz um castrado (“Oh! Frágil criatura! Como poderia ser diferente?” e até a feminilidade mesma do nome Sarrasine, escolhido contra o masculino correntemente atestado pelo onomástico francês (Sarrazin) (BARTHES, 1976, p.14)”. Nos dois casos, entretanto, o aspecto determinante é a vinculação do tema da castração e do neutro a um menos, a uma falta, a uma ausência. ocorre com o castrado, o que marca o neutro na língua francesa seria uma falta, instaurada devido ao padrão binário sexual – masculino/feminino – institucionalizado. A distinção, na verdade, que a língua fracassa em reproduzir (“se a ausência de marca faz dela o feminino, de que poderia ser feito o neutro?” (BARTHES, 1976, p.10)), não é sexual e sim entre “animado” e “inanimado”. O centro do texto deslocar-se-ia, então, da questão sexual para a da vida: Sarrasine, finalmente, quando decifra o enigma, é incapaz de proferi-lo e... morre. Essa é a metáfora da novela, nos diz Barthes: A segunda pergunta (Quê?) dá à novela toda a sua especialidade. É ainda o ancião, e é principalmente Zambinella que a representam: de que natureza são eles? A pergunta, para falar a verdade, não tem por objetivo uma escolha de nomes, mas a possibilidade mesma da nomeação: o que é sugerido, a título interrogativo, é antes de tudo a categoria do inominável, da coisa, no sentido fantástico do termo; o suspense de ser, aqui, não é ignorância, mas enigma: o ancião atemoriza como uma coisa de que não se pode achar o nome (ele amedronta, não se pode tocá-lo), e Sarrasine morre quando pode dar a Zambinella seu verdadeiro nome: de todas as coisas, ela é a mais terrível, ela é o nada... (BARTHES, 1976, p.6, grifos do autor). A questão do neutro na novela está prioritariamente vinculada ao discurso enquanto atualização da língua, pois, conforme assinala o autor relembrando o padrão assertivo da língua francesa, ele, o neutro, não é o inexpressivo, mas o morfologicamente não-marcado. No texto metaforizado na figura do castrado, ele é, portanto, aquilo que não pode ser nomeado, e, no universo predominantemente linguístico do homem, o que não pode ser nomeado é nada. O personagem Zambinella, o neutro, representa, em Sarrasine, a privação da vida, e, finalmente, a privação da arte. O prólogo do texto é responsável por iniciar o jogo que a narrativa implementará a partir dos contrastes entre feminino e masculino, calor e frio, vida e morte. A pintura de um Adônis, feita com base na escultura, que posteriormente sabemos ser a re-criação de Zambinella por Sarrasine, é considerada, por uma das personagens, perfeita demais para representar um homem. Barthes retoma, então, a partir das duas modalidades artísticas, a pintura e a escultura, a relação entre superfície e profundidade: Poder-se-ia dizer que a estátua, comportando uma espessura a ser investigada, arrasta o escultor a uma paixão da decifração e à verdade do referente, enquanto a pintura (feita por outro, não se deve esquecer) sendo imediata, sem profundidade, sem reverso e sem coração, retém o artista na verdade da ilusão; pintor, Sarrasine não tentou virar a tela e não arriscou descobrir ali com horror o nada de seu segredo... (BARTHES, 1976, p.14, grifos do autor). Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 65 65 3/11/2010 19:47:56 Gragoatá Márcia de Oliveira Reis Brandão Assim como a pintura, a arte da escrita, em oposição à escultura, também estaria no nível da superfície, tendo em vista o aspecto sucessivo da linguagem, por esta razão, a narrativa partilharia com o personagem Sarrasine o processo de reconhecimento quanto à situação do castrado. Primeiramente, este seria apresentado com as marcas linguísticas do feminino [a Zambinella], enquanto esta é, para o protagonista, uma mulher, passando, então, à ausência de marca [Zambinella] quando é revelada a sua real condição. O tema do neutro, como apagamento de marcas pautadas na oposição paradigmática, apontando para a indeterminação e mobilizando a falta, discutido no artigo, retorna em O Grau Zero da Escrita (BARTHES, 2004). Segundo Barthes, a forma narrativa aproximaria as escritas romanesca e histórica. O autor destaca o uso do passé simple em francês para a escrita do romance. Esse tempo verbal, ausente da linguagem oral, reuniria características especiais e determinantes para distinguir a escrita. Um dos aspectos mais importantes do uso do passé simple, é que este, ao abolir a duração, especialmente no caso da escrita da História, destituiria a realidade de sua espessura. Ao abstrair a duração, a forma romanesca excluiria o conflito, a tensão entre os tempos, integrando o sistema de segurança das Belas Letras, que se manteria inalterado e portador do sentido. De modo análogo, a adoção da terceira pessoa permitiria alcançar-se a imparcialidade necessária para a verossimilhança da narração, integrando também tal sistema. É exatamente a espessura da escrita, seu mergulho em usos precedentes – “a linguagem nunca é inocente: as palavras têm uma memória segunda que se prolonga misteriosamente no meio das significações novas” (BARTHES, 2004, p.15) – que, paradoxalmente, leva o pensador a postular para ela um grau zero ou a neutralidade. O que se denomina como escrita neutra é uma escrita sem marcas pré-determinadas, que se afasta de um projeto realista-naturalista revelado como artificial. O próprio Barthes, entretanto, reconhece a utopia de uma escrita neutra ou branca: [...] nessas escritas neutras, chamadas aqui “o grau zero da escrita”, pode-se facilmente discernir o movimento mesmo de uma negação, e a impotência de completá-la num lapso de tempo, como se a Literatura, tendente há um século a transmudar a sua superfície numa forma sem hereditariedade, não mais encontrasse pureza a não ser na ausência de todo signo, propondo enfim o cumprimento desse sonho órfico: um escritor sem literatura (BARTHES, 2004, p.6-7, grifo nosso). Do reconhecimento da impossibilidade de se alcançar “o grau zero”, o autor retoma o “Neutro” como uma categoria que envolve uma pluralidade de significados. Da relação linguística entre animado e inanimado, foco da análise em seu artigo inau66 Gragoata 28.indb 66 Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:56 Ne-uter ou uma questão de gênero: do neutro na língua à instabililização dos gêneros literários gural, buscará identificar enunciadores do que denominou de “Neutro” ou, mais precisamente, “desejo de neutro” (BARTHES, 2003b, p.5). O autor traz, então, para a cena, a possibilidade de promoverem-se infinitos deslocamentos e substituições de significados. O que concebe como “Neutro” é antes uma travessia. Assim, para apresentá-lo, durante curso ministrado no Collège de France, elege vinte e três figuras pelas quais declara “passear o neutro” (BARTHES, 2003b, p.21) e que constituiriam atualizações de seu tema. Na abordagem de tais figuras, germinam outras, criando-se não só uma rede de leituras, mas uma rede de significados que se suplementam continuamente. Barthes, ele mesmo o declara, exibe (apresenta) “Neutros”. A categoria proposta pelo autor, portanto, será marcada pelo paradoxo: simultaneamente menos e plural, manifestando-se através da multiplicidade das figurações propostas. Entre estas, o matiz entre “taceo e sileo” é analisado como constituinte da figura “silêncio”. O termo latino sileo estaria associado ao estado físico das coisas, ausência de movimento, ruído – “Em suma, silere remeteria de preferência a uma estado de virgindade perene das coisas, antes de nascerem ou depois de desaparecerem (silentes = os mortos)” (BARTHES, 2003b, p.49) – enquanto taceo, do verbo Tacere, representaria a ausência de fala, relacionando-se ao discurso enquanto traço distintivo do homem. A relação entre a morte, o silêncio e o neutro é também destacada na abertura de seu curso, quando Barthes informa que a reflexão será alimentada por autores que já faleceram e declara se sentir dilacerado pelo contraste entre a vitalidade de suas obras e a tristeza de sabê-los mortos. Note-se, entretanto, que a postulação da “morte do autor” como forma de afirmar a prevalência do texto, da matéria escrita, então denominada “escrita neutra”, já se fizera força motriz de artigo homônimo. Também em “Da obra ao texto” (BARTHES, 1987b), o pensador procurava apontar a necessidade de afastar-se a figura do autor, que a partir da valorização do indivíduo pela ideologia capitalista teria quase sido transformada em instituição, para que se deixasse falar a linguagem. No que tange à sua vinculação com o neutro, a morte seria o ápice da neutralidade, não remetendo, entretanto, à extinção da possibilidade de significação, mas sim para a dissolução do conflito, mantendo ativa a relação fundamental à qual remete o “neutro”: vida e morte, já enfatizada no artigo sobre Sarrasine. É importante notar que suas proposições sobre o “neutro” permitem desconstruir a visão tradicional que o concebe como ausência de posição, imobilismo. O neutro barthesiano não é o inexpressivo. O autor resgata a categoria como alternativa à determinação, como forma de evitar o conflito porque este, segundo indica, mantém a ordem opositiva “ou isto ou aquilo” Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 67 67 3/11/2010 19:47:57 Gragoatá Márcia de Oliveira Reis Brandão predominante na cultura ocidental. Na relação entre animado e inanimado, vida e morte, que desde o artigo inaugural sobre o tema foi dado central de sua perspectiva interpretativa, esses elementos são concebidos como complementares e não excludentes. O “Neutro”, portanto, remete sim a uma indeterminação, está “entre o sim e o não”, como estamos, todos, após a derrocada das certezas que predominaram até a época moderna. Mas, como diz o próprio autor no resumo que elaborou para o anuário do Collège de France: “o Neutro não corresponde obrigatoriamente à imagem pobre essencialmente depreciada que dele faz a dóxa, mas pode constituir um valor forte, ativo” (BARTHES, 2003b, p.431). O que a categoria acentua é a possibilidade de variação contínua, de se atualizar em múltiplas figurações, sendo, portanto, não um devir em, mas sim um devir-devir. II - A instabilização dos gêneros em Budapeste, de Chico Buarque A escrita é esse neutro, esse compósito, esse oblíquo para onde foge o nosso sujeito, o preto-e-branco aonde vem perder-se toda a identidade, a começar precisamente pela do corpo que escreve (BARTHES, 1987a, p.49). Como infância do homem, a experiência é a simples diferença entre humano e lingüístico. Que o homem não seja sempre já falante, que ele tenha sido e seja ainda in-fante, isto é a experiência (AGAMBEN, 2005, p. 62). Budapeste, terceiro romance de Chico Buarque traz para a cena a figura de um ghost-writer. José Costa, narrador-protagonista, é um Doutor em Letras que se dedica a escrever textos dos mais diversos tipos por encomenda, atividade que desenvolve sob a chancela de uma agência da qual é sócio juntamente com um amigo de juventude. Casado com Vanda, uma apresentadora de telejornal, com quem tem um filho, parece satisfeito com o anonimato e com a vida sem grandes emoções, apenas perturbada pela vaidade que, às vezes, lhe sobe à cabeça. Tal sentimento se manifesta de forma paradoxal: o narrador se regozija em saber que aqueles textos apreciados e cuja autoria é sua são considerados obras de outros, mas ao mesmo tempo parece ressentir-se da falta de reconhecimento. A relação que mantém com a escrita parece abalar-se definitivamente a partir de seu contato com uma língua estrangeira: o húngaro. Ao ser forçado, devido a problemas no avião, a pernoitar na cidade de Budapeste quando retornava de um encontro internacional exatamente de ghost-writers, o narrador se surpreende com aquela língua forte, mas que não compreende, e pouco a pouco é tomado por uma espécie de fascinação pelo que lhe parece inapreensível. 68 Gragoata 28.indb 68 Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:57 Ne-uter ou uma questão de gênero: do neutro na língua à instabililização dos gêneros literários A parada em Budapeste e as emoções experimentadas face ao contato inicial com a língua magiar constituem o primeiro capítulo do romance, marcado pela concisão, pelo confinamento do narrador ao espaço do hotel e inaugurado por uma projeção a um tempo futuro na narrativa, quando retorna à cidade, conhece Kriska, que então se torna sua professora de húngaro, e começa junto a ela uma nova vida. Em Infância e História, Giorgio Agamben (AGAMBEN, 2005) destaca o que denomina “infância” como uma experiência seminal para a constituição da história. A “infância” não se restringiria a uma etapa cronológica determinada na vida do homem. Embora possa ser associada a um espaço-tempo específico da existência, o que a caracterizaria prioritariamente seria a experiência. Retomando a análise desenvolvida por Benjamin sobre a experiência a partir da Modernidade, e consequentemente da função da narrativa como meio de transmiti-la, Agamben aponta para a perda, na época contemporânea, da possibilidade de uma experiência originária. Esta passa, então, a ser vivenciada apenas no ato do homem ingressar na linguagem: Uma experiência originária, portanto, longe de ser algo subjetivo, não poderia ser nada além daquilo que, no homem, está antes do sujeito, vale dizer, antes da linguagem: uma experiência “muda”, no sentido literal do termo, uma in-fância do homem, da qual a linguagem deveria, precisamente, assinalar o limite” (AGAMBEN, 2005, p.58). Agamben deixa claro que o que postula como “infância” é uma forma dotada de especificidade que, simultaneamente, é testemunho da cisão entre língua e discurso, entre “in-fante” e “sujeito” e remete a uma experiência que continuamente repete o ingresso do homem na linguagem. O homem estaria, assim, sempre à beira /à margem da linguagem e o silêncio não seria o seu negativo, mas parte dela com seus vazios, lacunas e hesitações. A breve estada do narrador em Budapeste e os sentimentos de estranhamento e privação experimentados no contato com a língua húngara parecem remeter exatamente a esse espaçotempo. É o que o narrador parece buscar nas primeiras páginas do texto, diante da TV. Enquanto assiste ao noticiário, ao perceber que durante uma entrevista outra língua surgiria, o narrador retira o volume, concentrando-se na grafia das legendas, a fim de evitar a interferência de outras naquela que lhe parece, a princípio, a mais estrangeira de todas as línguas: Aí entrou na tela uma moça de xale vermelho e coque negro, ameaçou falar espanhol, zapeei no susto [...] Cortei o som, me fixei nas legendas, e observando em letras pela primeira vez palavras húngaras, tive a impressão de ver seus esqueletos: ö az álom elötti talajon táncol (BUARQUE, 2003, p.9). Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 69 69 3/11/2010 19:47:57 Gragoatá Márcia de Oliveira Reis Brandão O segundo capítulo traz novamente o aparato televisivo como ponto de partida. Entretanto, se no capítulo de abertura ele é responsável pelo choque causado no contato com o húngaro, aqui ele testemunha uma espécie de imobilidade em que se encontra o narrador, acentuada pelo fato de que quem “está” na TV é sua própria mulher: “A narração estava arrastada, a voz sem brilho, com certeza a Vanda tinha gravado aquele texto de manhã bem cedo” (BARTHES, 2003, p.13). É nesse capítulo que se dá a conhecer a história de José Costa e se indicia a relação entre a questão da escrita e da autoria – e dos gêneros literários – e a fragmentação da subjetividade que serão mobilizadas no texto. Conforme destaca Agamben, quando a criança diz “eu”, marca-se o ingresso do homem na linguagem: Os animais não entram na língua: já estão sempre nela. O homem, ao invés disso, na medida em que tem uma infância, em que não é já sempre falante, cinde esta língua una e apresentase como aquele que, para falar, deve constituir-se como sujeito da linguagem, deve dizer “eu” (AGAMBEN, 2005, p.64). Em Budapeste, o protagonista parece exatamente recusar esse gesto de ingresso e permanência na linguagem ao abdicar de dizer “eu”, ou, este escrito é “meu” a partir da função de ghost-writer que adota. Entretanto, o romance é narrado em primeira-pessoa, aproximando-se de uma escrita mais “autoral”. Implementa-se, assim, um jogo ficcional a partir do contraste entre a tematização da autoria e a forma de composição da narrativa. A questão da autoria vinculada à constituição da subjetividade e da alteridade, já revelada através de sua atividade profissional, desdobra-se de forma mais explícita nos episódios da terceirização dos serviços, antes exclusivos do narrador, quando seu sócio contrata outros redatores para a agência: Quando me vi cercado de sete redatores, todos de camisas listradas como as minhas, com óculos de leitura iguais aos meus, todos com meu penteado, meus cigarros e minha tosse, me mudei para um quartinho que estava servindo de depósito atrás da sala de recepção. Ali recuperei o gosto pela escrita, pois os artigos para a imprensa me deprimiam, eu já tinha a impressão de estar imitando meus êmulos. Passei a criar autobiografias, no que o Álvaro me apoiou, afirmando tratar-se de mercadoria com farta demanda reprimida (BUARQUE, 2003, p.25). Segundo Émile Benveniste (1976), as formas pronominais pessoais [“eu”, “tu”, “ele”] constituem realidades exclusivamente linguísticas. Elas não remetem nem a um conceito nem a um indivíduo, simplesmente indicam as pessoas do discurso. No caso da forma pronominal “ele” (“ela”), nos diz Benveniste, “seu valor está em ser parte de um discurso enunciado por um “eu””. A forma “ele”, portanto, não se refere nem mesmo ao 70 Gragoata 28.indb 70 Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:57 Ne-uter ou uma questão de gênero: do neutro na língua à instabililização dos gêneros literários Con for me de st aca Florencia Garramuño (2009), Agamben tem na reflexão desenvolvida por Walter Benjamin, especialmente nos textos já mencionados no presente trabalho, “Experiência e pobreza” e “O narrador”, nos quais analisa as relações entre a experiência e a arte de narrar a partir das transformações ocorridas no século XIX, o ponto de partida de suas proposições. Cf. BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política; ensaios sobre literatura e história da cultura, 1994. 4 objeto (“tu”/“te”) a quem o discurso se dirige. A terceira pessoa (pronominal), portanto, está em completa posição de alteridade no que tange à elocução (BENVENISTE, 1976, p.286). Em Budapeste, a questão do “ele” associa-se à dupla terceirização do ato da escrita, pois o narrador não só escreve para outros, assim como passa a ter outros a escreverem em seu lugar, reproduzindo não só o seu estilo, mas também sua aparência. No episódio, portanto, a inserção dessa terceira pessoa não aponta para o reconhecimento da alteridade ou do aspecto fragmentário da subjetividade, mas reafirma a uniformização através da busca da cópia do estilo, da imagem. A produção em série, não só de textos, mas também de escritores de textos no romance, todos à “imagem” e “letra” do narrador, nos remete a uma relação de total reversibilidade entre criador e criatura, levando o protagonista a pensar que era ele a cópia. Não só a escrita, mas o próprio estilo transformam-se em algo passível de reprodução infinita, transformam-se, como atesta a última parte do fragmento, em mercadoria, em demanda reprimida. Ironicamente, para escapar a essa situação o narrador decide criar... autobiografias. A decisão do narrador de “criar a história da vida” de outros permite aclarar a fragilidade das fronteiras entre o real e o ficcional, tema caro à reflexão literária desde a Modernidade, e um dos eixos principais de Budapeste. As noções de gêneros também são perspectivadas, pois a escrita autobiográfica, concebida como o registro da verdade ou “história” de uma vida, desvela-se como ficção. Com o enfraquecimento da oposição paradigmática entre interioridade e exterioridade como aspecto distintivo para a configuração da subjetividade, esta passou a ser concebida como processo: perpassa e é perpassada por diversas forças sociais, culturais, históricas. Por esta razão, se no período de apogeu do capitalismo a afirmação da individualidade estava ligada ao dizer “eu” e remetia a uma determinação, a instabilização dos limites pôs em xeque a própria noção de sujeito. Se a decisão do narrador a princípio parece irônica, ela atesta mais uma vez a perda da autoridade que estaria implicada não só na narrativa, mas principalmente na suposta narrativa de uma vida. Agamben, ao postular a infância como a forma da experiência na época moderna, assinala não a ausência em si do que experimentar, mas, exatamente, a perda da autoridade que sempre esteve implicada no ato de transformá-la em narrativa e, assim, transmiti-la a outros, como propunha Benjamin: Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 71 Porque a experiência tem o seu necessário correlato não no conhecimento, mas na autoridade, ou seja, na palavra e no conto, e hoje ninguém mais parece dispor de autoridade suficiente para garantir uma experiência, e se dela dispõe, nem ao menos o aflora a idéia de fundamentar em uma experiência a própria autoridade (BENJAMIN, 1994, p.23).4 71 3/11/2010 19:47:57 Gragoatá “A comprovação científica da experiência que se efetua no experimento – permitindo traduzir as impressões sensíveis na exatidão de determinações quantitativas e, assim, prever impressões futuras – responde a essa perda de certeza transferindo a experiência o mais completamente possível para fora do homem: aos instrumentos e aos números” (AGAMBEN, G., 2005, p.23) e “[...] não significa que hoje não existam mais experiências. Mas estas se efetuam fora do homem. E, curiosamente, o homem olha para elas com alívio. Uma visita a um museu ou a um lugar de peregrinação turística é, desse ponto de vista, particularmente instrutiva. Posta diante das maiores maravilhas da terra (digamos, o pátio de los leones, no Alhambra) a esmagadora maioria da humanidade recusa-se hoje a experimentá-las: prefere que seja a máquina fotográfica a ter experiência delas” (AGAMBEN, G., 2005, p.26). 5 72 Gragoata 28.indb 72 Márcia de Oliveira Reis Brandão Embora assinale a passagem da experiência para fora do homem, ou seja, a partir da ascensão da Ciência Moderna e, consequentemente, do discurso científico, o que há são “experimentos”5 e não mais “experiência”, o autor prefere não adotar uma postura saudosista e vislumbrar nesse processo, quem sabe, “o germe de uma experiência futura” (AGAMBEN, 2005, p.23), da qual, entretanto, nada se pode prever. Na verdade, a experiência não foi extinta, mas sim transformou-se e também a forma de interpretá-la e tematizá-la. Ao falar na sua transferência para “fora” do homem, Agamben pode ser aproximado das observações de Silviano Santiago (1989) sobre o narrador pós-moderno como “narrador-observador”. Nas narrativas que este produz o que importa não é transmitir uma experiência, apontando para a imobilização do vivido, mas sim ser ponto de partida para outras experiências, contribuindo, assim para a produção histórica. Em “A morte do autor” e “Da obra ao texto”, por nós já mencionados, Barthes assinala a escrita como forma de atualização de um neutro. Segundo destaca, a figura do autor é criação moderna, vinculada ao prestígio individual – que se afirmou com a ascensão do capitalismo – e ao mito do sujeito enquanto identidade constante. Para o autor, a literatura é a forma de abdicar da arrogância, de atualizar a neutralidade, e isso só é possível quando se reconhece sua “condição essencialmente verbal” (BARTHES, 1987a, p.50). Para Barthes a obra é um todo fechado, cujo sentido está imobilizado, instituído. Nesse contexto, o binômio “obra-autor” parece indissociável. Ao se perspectivar a noção de obra, surge um objeto novo: o texto. Este, dotado de materialidade formal, está em contínua produção, “seu movimento constitutivo é a travessia” (BARTHES, 1987b, p. 56, grifo do autor). Barthes reafirma a escrita enquanto forma própria de tematização da realidade, sem, entretanto, ter como fim reproduzi-la – mais uma vez estamos no terreno da mímesis de produção –, mas recusa a leitura vida e obra nos moldes realistas que visava ao estabelecimento de relações de causalidade e reversibilidade entre a escrita e o seu autor. Essa forma de conceber a relação autor/texto está em consonância com as proposições de Garramuño ao tratar da relação entre arte e contexto na época modernista e na contemporaneidade. Mobilizando os conceitos de autonomia e heteronomia, a autora destaca que o período modernista, através da radicalização de práticas vanguardistas, buscava afirmar a arte em uma relação de autonomia para com a realidade. Diferentemente, as manifestações contemporâneas apontariam para a heteronomia. Isto é, reconhecendo o contexto como referência elas não o reproduziriam, mas a partir da diferença que instaurariam face a ele permitiriam sua mediatização e crítica. Esse processo Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:58 Ne-uter ou uma questão de gênero: do neutro na língua à instabililização dos gêneros literários implicaria a desauratização da arte e, consequentemente, a perda do caráter redentor da realidade de que ela seria portadora. Admitir a heteronomia do texto também implica reinserir a experiência no processo de elaboração do ficcional que incorpora, então, o aspecto fragmentário daquela (GARRAMUÑO, 2009). Assim, tanto a experiência quanto a narrativa perdem seu caráter acumulativo, e “percebe-se como se tornou impossível dar continuidade linear ao processo de aprimoramento do homem e da sociedade” (SANTIAGO, 1989, p. 46). A mobilização da figura do ghost-writer e da relação que se estabelece entre o narrador e a escrita em Budapeste permite pôr em xeque exatamente a autoria como afirmação da identidade e da autoridade. O texto implementa um jogo a partir das constantes observações do próprio narrador quanto à preferência pelo anonimato que se contrapõem ao desagrado de ver-se cercado por cópias suas, não tanto no aspecto físico, mas no estilo. O fato de saber-se “totalmente” reproduzível apontaria, assim, para a perda completa da autoria e da autoridade que só o domínio da língua é capaz de prover. Mas essa “renúncia” à autoria, a ser reconhecido, é complexa, como revelam o sentimento de vaidade e o ressentimento pela indiferença de sua mulher aos seus escritos: Referências de viva voz a meu trabalho, elogiosas ou não, aprendi a ouvi-las impassível, desde o tempo em que me misturava ao povo para acompanhar discursos políticos recémescritos. Já quando comecei a escrever para a imprensa, me aprazia entrar nesses bares de Copacabana, onde homens solitários passam a tarde a tomar chope e ler os jornais. Caso encontrasse alguém entretido com um artigo meu, me sentava à mesa ao lado, e era quase certo que daí a pouco o sujeito comentasse o texto comigo, longe de suspeitar que fosse eu o autor [...] depois de casado, nos dias em que estava seguro de haver escrito um texto com grande inspiração, eu dispensava a opinião dos botequins; meu desejo era de que a Vanda o lesse (BUARQUE, 2003, p.102-103). Seja na língua materna, seja no húngaro, o narrador, simultaneamente renuncia à autoria e parece buscar o reconhecimento. Na narrativa, tal necessidade é explicitada tanto por seu desejo de que Vanda reconheça o valor de seus textos, ou ao menos que os leia, quanto no de que Kriska “reconheça” seu domínio da língua húngara. As figuras de Vanda e Kriska – respectivamente sua mulher e sua amante na Hungria – embora remetam à mulher amada, constituem, assim, metáforas da figura do leitor. Tal desejo, embora aparentemente se oponha à tese da escrita como neutro, justamente ao mobilizar a figura do leitor revela-se em consonância com o que ela envolve e desvela o paradoxo de querer-se anônimo e reconhecido, também implicado, conforme mencionamos, em sua decisão de dedicar-se a escrever as Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 73 73 3/11/2010 19:47:58 Gragoatá Márcia de Oliveira Reis Brandão memórias de outros. Ao fazê-lo, o narrador resolve consagrar-se a “atender somente personagens tão obscuros quanto eu [ele]” (BUARQUE, 2003, p.25). A publicação das “memórias romanceadas” (BUARQUE, 2003, p.33) do alemão Kaspar Krabbe introduzirá uma ruptura nessa ordem. A autobiografia criada por José Costa transformase em sucesso editorial, subvertendo a proposição do narrador. A redação da autobiografia inicialmente traz à tona o processo de escrita como um “por vir”, marcado pela indeterminação. Apesar de contar com as fitas com o relato do alemão, o que poderia associar-se à ideia de um roteiro, um projeto a seguir, mais uma vez a falta se desvela na dificuldade que José Costa experimenta na criação do texto. Embora disponha de matéria a ser contada, o narrador “hesita” ao escrever: “[...] esse meu texto estava viciado, patinava, não evoluía. Alguma coisa me atrapalhava, palavras bizarras me vinham à mente, eu esfolava os dedos no teclado e no fim da noite jogava o trabalho fora” (BUARQUE, 2003, p.30). Finalmente, quando consegue escrever, o livro torna-se um fenômeno editorial. Importa notar que as “memórias” do alemão constituem, salvo alguns dados factuais, “totalmente ficção”, pois o narrador declara nem mesmo ter retomado as gravações que este lhe deixara. No processo de composição do livro, o narrador e o personagem – o alemão – fundem-se e o personagem narrador-alemão também é transformado em escriba. O processo de escrita/aprendizagem da língua portuguesa pelo estrangeiro se dá através da escrita em um papel especial: o corpo de mulher. Teresa se associa ao branco da folha de papel. Um duplo de Kriska (ou vice-versa) sobre quem declara o narrador: “[...] eu nunca tinha visto corpo tão branco em minha vida. Era tão branca toda a sua pele que eu não saberia como pegá-la, onde instalar as minhas mãos” (BUARQUE, 2003, p.45). Quando Teresa nega o seu corpo à escrita, o alemão, após a impossibilidade de usar o meio habitual, o papel, desliza de prostitutas a estudantes, transformadas em papel-tela no qual escreve, pinta sua história. A relação de especularidade – José Costa repete, na Hungria, a mesma atividade profissional, repete, em seu relacionamento com Kriska, seu casamento com Vanda, ambos marcados por inexplicáveis e repetidos abandonos, indicia-se, então, na figura daquela que lhe ensina a escrever de trás para diante, o que faz do espelho aparato exigido para a decifração. Como Penélope da Odisséia, a personagem sem nome que substitui Teresa em sua função de folha em branco também desfaz o tecido/escrito; como Sherazade, das Mil e Uma Noites, ela mantém a suspensão: Zelosa dos meus escritos, só ela os sabia ler, mirando-se no espelho, e de noite apagava o que de dia fora escrito, para que eu jamais cessasse de escrever meu livro nela. E engravidou 74 Gragoata 28.indb 74 Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:58 Ne-uter ou uma questão de gênero: do neutro na língua à instabililização dos gêneros literários de mim, e na sua barriga o livro foi ganhando novas formas... (BUARQUE, 2003, p.40). Essa mulher e o ex-marido de Kriska são os únicos personagens dotados de importância na narrativa a não serem nomeados. No caso do ex-marido da húngara, “o Sr....”, ao final da narrativa revela-se ser também ele, como o narrador-protagonista, um ghost-writer e o autor da autobiografia intitulada Budapeste que “narra” justamente a história de Zsoze Kósta, um ghost-writer brasileiro que, entre idas e vindas, retira-se definitivamente para a Hungria. A escrita da vida de Costa/ Kósta pelo ex-marido de Kriska constitui o ápice do processo de desconstrução/instabilização da autoria, da identidade e dos gêneros literários, implementado pela narrativa, explicitado na estupefação do protagonista ante a materialidade do livro em suas mãos quando retorna definitivamente (?) para Budapeste: “A capa furta-cor, eu não entendia a cor daquela capa, o título Budapest, eu não entendia o nome Zsoze Kósta ali impresso, eu não tinha escrito aquele livro” (BUARQUE, 2003, p.167, grifo nosso). A notoriedade, o reconhecimento que José Costa buscara e recusara quase simultaneamente com a sua escrita anônima lhe vêm, de repente, a partir do texto de um outro, repetindo-se em sua vida o que ele fizera à de outros. No caso daquela que oferece seu corpo à escrita, silencia-se o seu nome, assim como ela apaga o escrito, fazendo retornar o vazio, que se transforma em contínua força motriz. A ausência de nome reproduz a própria condição do texto que José Costa escreve para o alemão, sem “autor verdadeiro” – e, afinal, autobiografia, romance, ficção de uma vida? –, a indicar que a história da vida que se conta, que se inventa, pode ser a de qualquer um, que o texto, uma vez escrito, liberta-se da necessidade de portar um nome. A escrita no corpo implica múltiplos aspectos. Em uma época em que se recusa a experiência do próprio espaço, transferida para máquinas fotográficas ou para viagens virtuais, trazer de volta o corpo com sua carnadura, com sua concretude, aponta para a possibilidade de retomá-la, de retornar à existência cotidiana. Se a unificação do conhecimento e da experiência “inverteu a ordem dos fatos” e primeiro se estabelece uma hipótese para depois comprová-la, o recurso ao corpo pode indicar o caminho inverso, como a escrita do alemão feita de trás para diante. De modo análogo, o modo invertido de escrever, assim como a retomada de frases, de cenas e situações com pequenas variações no romance6 inserem a repetição e a circularidade no texto e a põem em xeque a noção teleológica de futuro. Não se vai em direção a fim algum; não há desfecho. Início e fim se confundem. A escrita no corpo – assim como o próprio corpo, unidade orgânica e fragmento – remete simultaneamente à Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 75 75 3/11/2010 19:47:58 Gragoatá Márcia de Oliveira Reis Brandão identidade fraturada do sujeito e à pluralidade do real, ambos em devir, e o que importa é a trajetória, o movimento da escrita, da História. Se o corpo das mulheres se transforma em papel-tela, o corpo do alemão Kasper Kraber, na história que Costa inventa para ele, é também papel sem tinta, pois, devido ao choque quando deparou-se com a terra estrangeira, perdera as linhas, os traços que os pelos traçam no corpo. Sem pelos, ou com poucos pelos como muitos bebês. Como os bebês, muitas vezes, indefiníveis: menino ou menina? O personagem do alemão se aproxima do castrado da novela de Balzac: neutro. Kraber é também retorno à infância, pois não só se inicia em outra língua, assim como, por seu aspecto, aproxima-se do estágio inicial da vida. “Aquele que escreve em mulheres”. “O Ginógrafo” é o título do livro. A própria narrativa aproxima os vocábulos “ginógrafo” e “naufrágio”: No fim da narrativa, quando expulso da Hungria, José Costa volta ao Brasil e procura pelo “seu” livro, o que encontra é uma publicação intitulada O Naufrágio. Quase compostos pelos mesmos grafemas e fonemas, os dois termos se vinculam tanto ao personagem que o narrador cria para o alemão quanto à sua própria história. Dado sutil da narrativa, Costa nos revela que o ariano viera para o Brasil de navio. Cinco vezes a narrativa repete: “sete anos atrás, quando zarpei de Hamburgo e adentrei a baía de Guanabara” (BUARQUE, 2003, p.29) [duas vezes]; (BUARQUE, 2003, p.30) [duas vezes] e (BUARQUE, 2003, p.38) [uma vez]. Naúfrago parece sentir-se o alemão ao primeiro contato com a terra estrangeira, que o leva a cair de cama e ao acordar encontrar-se sem pelos. Viagem, naufrágio, deriva. A ideia de um tecido-escrita que se escreve e se apaga continuamente assim como a hesitação que o narrador de Budapeste parece experimentar entre o Rio e a capital húngara instauram o silêncio na narrativa como uma espécie de ritmo, movimento de ir e vir, que se aproxima daquele executado pelo protagonista do primeiro romance de Chico Buarque. Após escrever o livro, é nosso narrador quem se lança à deriva. E duplica, através de trajetória inversa, a história que criara para o alemão. Inicia o seu movimento de repetidas retiradas entre as duas cidades. É a revelação de sua mulher de que os sons ininteligíveis emitidos por seu filho eram reprodução de sua fala no sono que faz retornar ao narrador a estupefação que lhe causara a língua húngara: “E hoje aquela Budapeste estaria morta e sepultada, não fosse o menino levantá-la do meu sonho” (BUARQUE, 2003, p.31) e motivar sua partida para a cidade. O filho de José Costa é uma criança de cinco anos que parece sofrer de um tipo de afasia, pois fala pouquíssimas palavras, o que o preocupa. O fato de que, apesar de não (ou pouco) falar, a criança reproduza os fonemas que o narrador também fora somente capaz de repro76 Gragoata 28.indb 76 Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:58 Ne-uter ou uma questão de gênero: do neutro na língua à instabililização dos gêneros literários duzir, durante e após a estada em Budapeste, se aproxima do que Agamben denomina experimentum linguae. Assim como seu filho ainda não ingressara no universo da linguagem, também o narrador experimenta situação análoga quanto ao húngaro. Metáfora desvelada, seu filho é duplamente infância: mudo na própria língua; articulador de sons na língua estrangeira. Assim como a subjetividade só se dá a partir do ingresso na linguagem, o sentimento de nacionalidade, de pertencer a um lugar, tem na língua pátria, talvez mais do que no espaço, a sua base. Na narrativa, Costa, ao emitir tais palavras, assim como seu filho, este duplamente in-fante, se aproximam desse estágio inicial. Capazes de reproduzir os fonemas de todas as línguas, não têm língua alguma, não pertencem a nenhum lugar. Mantém-se assim a u-topia, o “não-lugar”. Ao partir para Budapeste, o narrador assume verdadeiramente a condição de in-fante. A impossibilidade da conquista de um domínio perfeito do húngaro, traduzida na denominação de seu poema como exótico e, finalmente, o reconhecimento e autoria compulsórios a partir de um texto cuja autoria, apesar de publicamente negar – “O autor do meu livro não sou eu, me escusei no Clube das Belas-Letras, mas todos fizeram festa e fingiram não me ouvir” (BUARQUE, 2003, p. 170) – permanece como sua, mantêm a falta e simultaneamente revelam o fracasso dos projetos de José Costa, apontando para a impossibilidade de fazer-se do tempo por vir algo previsível. É, talvez, esse fracasso que o ritmo fragmentado da narrativa com os repetidos abandonos e retiradas do narrador, instituído na história narrada, atualize. Talvez por isso o próprio Costa/Kósta encontre no sono/sonho a forma de burlar a determinação: Por sorte me restavam os sonhos, e em sonhos eu estava sempre numa ponte do Danúbio, às horas mortas, a fitar suas águas cor de chumbo. E soltava os pés do chão, e balançava de barriga sobre o parapeito, feliz da vida por saber que poderia, a qualquer momento, dar à minha história um desfecho que ninguém previra (BUARQUE, 2003, p.171). Ao fim da narrativa, em sua derradeira inversão/subversão, como resposta à atitude de Kósta, o Sr.... escreve-lhe sua autobiografia, rompendo definitivamente quaisquer fronteiras entre as formas literárias. Costa/Kósta retorna então à Hungria debaixo do estrondoso sucesso da publicação de Budapeste, título que recebe sua história: Falsificava meu vocabulário, meus pensamentos e devaneios, o canalha inventava o meu romance autobiográfico. E a exemplo da minha caligrafia forjada em seu manuscrito, a história por ele imaginada, de tão semelhante à minha, às vezes me parecia mais autêntica do que se eu próprio a tivesse escrito (BUARQUE, 2003, p.169). Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 77 77 3/11/2010 19:47:58 Gragoatá Márcia de Oliveira Reis Brandão Abstract Having as its starting point the neutral category analised by Roland Barthes in his paper on Sarrasine, written by Honoré de Balzac, and in his seminars presented in 1978 at Collège de France, this paper is an attempt to reflect on literary genres, taking also into consideration the gender as a linguistic aspect. The matter of literary genres has been one of the axis of the criticism since last century. The novel Budapeste, by Chico Buarque, is the counterpoint to deal with the theoretical question of literary genres which is also associated to language and writing, both taken as an experience. Keywords: Gender/literary genres. Neutrality. Experience Referências AGAMBEN, Giorgio. “Infância e História; ensaio sobre a destruição da experiência”. In: ______. Infância e História: destruição da experiência e origem da História. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2005. p. 9-78. BALZAC, H. Obras Completas, Porto Alegre: Editora Globo, v.9, p.553-587. BARTHES, Roland. “A morte do autor”. In: ______. O rumor da língua. Lisboa: Edições Setenta, 1987a. p. 49-53. ______. “Da obra ao texto”. In: ______. O rumor da língua. Lisboa: Edições Setenta, 1987b. p. 55-61. ______. “Masculino, Feminino, Neutro”. In: CARVALHAL, Tania Franco et al. (Org. e trad.). Masculino, Feminino, Neutro: ensaios de semiótica narrativa. Porto Alegre: Globo, 1976. ______. O grau zero da escrita: seguido de novos ensaios críticos. São Paulo: Martins Fontes, 2004. ______. O neutro: anotações de aulas e seminários ministrados no Collège de France, 1977-1978. Texto estabelecido, anotado e apresentado por Thomas Clerc. São Paulo: Martins Fontes, 2003. ______. S/Z. Lisboa: Edições Setenta, 1999. BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política; ensaios sobre literatura e história da cultura, 1994. BENVENISTE, Émile. Problemas de lingüística geral. São Paulo: Ed. Nacional/Ed. da USP, 1976. 78 Gragoata 28.indb 78 Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:59 Ne-uter ou uma questão de gênero: do neutro na língua à instabililização dos gêneros literários BUARQUE, Chico. Budapeste. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. GARRAMUÑO, Florencia. La experiencia opaca: literatura y desencanto. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2009. LAPLANCHE, Jean & PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1983. SANTIAGO, Silviano. “O narrador pós-moderno”. In: ______. Nas malhas da letra. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 38-52. Niterói, n. 28, p. 63-79, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 79 79 3/11/2010 19:47:59 Gragoata 28.indb 80 3/11/2010 19:47:59 O GÊNERO DUPLICADO Gustavo Bernardo Recebido 10, abr. 2010 / Aprovado 30, abr. 2010 Resumo: O fenômeno estético da metaficção questiona a identidade da própria ficção. Ele percorre todos os gêneros literários e duplica a estrutura de cada um deles, assim como os personagens o fazem com seus autores e leitores. Essa duplicação cria um efeito perturbador no leitor, como se o levasse a se perguntar não apenas quem ele é mas também o que é a realidade. Veremos esse fenômeno em contos de Julio Cortázar e Mia Couto. Palavras-Chave: Gênero. Metaficção. Julio Cortázar. Mia Couto Gragoatá Gragoata 28.indb 81 Niterói, n. 28, p. 81-94, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:59 Gragoatá Gustavo Bernardo Uma das perguntas fundamentais do homem em todas as épocas é a pergunta sobre a sua própria identidade: quem sou eu? Essa pergunta é um dos fundamentos da filosofia, mas também da literatura. A pergunta volta na construção dos personagens, duplos espelhados dos escritores e dos leitores, e no fenômeno estético da metaficção. A metaficção é uma ficção que se pergunta ‘quem sou eu’ porque se funda na elaboração da própria ficção. Percorrendo de diferentes maneiras todos os gêneros literários, ela duplica a estrutura de cada um deles assim como os personagens o fazem com seus autores e leitores. Quando a ficção perguntase o que é, ela cria um efeito perturbador no leitor, como se o levasse a se perguntar não apenas quem ele é mas também o que é a realidade. É dessa perturbação e dessa relação perturbadora entre a literatura e a realidade que pretendo tratar. Começo através de uma imagem conhecida (fig. 1). Figura 1 Nessa imagem, a mão esquerda desenha a mão direita que por sua vez desenha a mão esquerda. Duas mãos desenham com zelo uma à outra, aparentemente começando por si mesmas: as mãos já estão tão definidas que parecem sair do próprio desenho que elaboram, e elas agora se dedicam a preparar os punhos da sua camisa (como se só então começassem a desenhar o dono delas mesmas). O desenho dessas mãos encontra-se pregado por tachinhas num pedaço de cortiça – mas o pedaço de cortiça que 82 Gragoata 28.indb 82 Niterói, n. 28, p. 81-94, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:47:59 O gênero duplicado sustenta o desenho é ele mesmo um outro desenho. As mãos que se desenham não estão completas, se ainda não terminaram de se desenhar, mas ao mesmo tempo compõem um quadro completo. As mãos que desenham a si mesmas remetem a paradoxos importantes, como o de representar a complexidade através de uma ideia visual simples. Elas compõem a litogravura chamada, em holandês, de “Tekenenden handen” – em português, “Mãos que se Desenham”. A litogravura foi concebida em 1948 pelo artista holandês Maurits Cornelis Escher (1898-1972), mais conhecido com M. C. Escher. “As mãos de Escher”, como também são chamadas, nos apresentam o enigma da metaficção. Essa ficção peculiar promove uma separação entre a linguagem e a realidade, isto é, explora a ideia de que a linguagem não representa ou “diz” a realidade, mas antes a inventa ou a reinventa. A metaficção existe desde a primeira narrativa. O coro e o “deus ex machina” das tragédias gregas são soluções metaficcionais. Há quatrocentos anos atrás, o personagem Dom Quixote já criticava a narrativa das histórias de... Dom Quixote. Podemos defini-la como uma ficção que explicita sua própria condição de ficção. Ela não esconde que o é, obrigando o leitor a manter a consciência clara de estar lendo um relato ficcional e não um relato “verdadeiro” – obrigando o leitor, portanto, a manter-se em suspenso, ou seja, em estado permanente de dúvida e incerteza. Através da metaficção, percebemos que a obrigação da ficção não é a de dizer a verdade mas sim a de firmar uma verdade – diferença sutil, mas importante. O ato de “dizer a verdade” supõe uma e somente uma verdade prévia à ação de expressá-la, enquanto que o ato de “firmar uma verdade” supõe uma verdade possível entre outras, verdade esta que se constrói no momento mesmo em que se a expressa. Nas palavras ligeiramente jocosas de William Gass, “a verdade, eu estou convencido, sente antipatia pela arte. É melhor quando um escritor tem uma profunda e persistente indiferença por ela, embora como pessoa a verdade possa ser vital para ele” (Gass, 1958: 8 — truth, I am convinced, has antipathy for art. It is best when a writer has a deep and abiding indifference to it, although as a private person it may be vital to him). A verdade “mesma” é cinzenta, sensaborosa e, em última análise, inacessível, ao passo que a verdade do escritor é colorida, suculenta e intensa: “isso ilustra um princípio básico: se eu descrevo muitíssimo bem o meu pêssego, é o poema que fará a minha boca aguar... enquanto o pêssego real se estraga” (Gass, 1958: 32 — this illustrates a basic principle: if I describe my peach too perfectly, it’s the poem which will make my mouth water... while the real peach spoils). A ficção que chama a atenção sobre a sua própria condição ficcional termina por levantar questões relevantes sobre as Niterói, n. 28, p. 81-94, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 83 83 3/11/2010 19:47:59 Gragoatá Gustavo Bernardo relações entre ficção e realidade e, em última análise, questões decisivas sobre a realidade mesma. De acordo com Patricia Waugh, “ao criticar seus próprios métodos de construção, tais escritos não examinam apenas as estruturas fundamentais da ficção narrativa, eles também exploram a possível condição ficcional do mundo externo ao texto ficcional” (Waugh, 1984: 2 — in providing a critique of their own methods of construction, such writings not only examine the fundamental structures of narrative fiction, they also explore the possible fictionality of the world outside the literary fictional text). A reflexão teórica sobre a literatura se amplia, nesse caso, para uma reflexão filosófica sobre o mundo e a nossa existência nele. Entre os esquemas metaficcionais, encontramos: romances sobre uma pessoa escrevendo um romance; contos sobre uma pessoa lendo um conto até se ver de repente dentro do conto que está lendo; histórias que comentam as convenções da própria história, como capítulos, títulos, parágrafos ou enredos; romances não-lineares que possam ser lidos não apenas do princípio para o final; notas de rodapé que continuam a história enquanto a comentam; romances em que o autor é personagem do seu próprio romance; histórias que conversam com o leitor, antecipando, frustrando ou ironizando suas reações à história; personagens que se preocupam seriamente com a circunstância de se encontrarem em meio a uma história de ficção; trabalhos de ficção que saem de dentro de outros trabalhos de ficção; histórias que incorporam aspectos e referências de teoria ou crítica da literatura; obras que criam biografias de escritores imaginários; enredos que sugerem aos leitores que eles se encontram em mundos tão ficcionais quanto aquele dos enredos. A metaficção retoma o paradoxo do mentiroso, cuja versão mais antiga é a do cretense que dizia que todos os cretenses são mentirosos. Se ele estivesse dizendo a verdade, estaria mentindo, logo, não estaria dizendo a verdade. Entretanto, se ele estivesse mentindo, estaria dizendo a verdade, logo, não poderia estar mentindo. Pela reconfiguração moderna do paradoxo, um romancista afirmaria, com toda a sinceridade: “todos os romancistas são mentirosos”. É essa mentira-verdade que me interessa. Vejamo-la primeiro no conto “Continuidade dos parques”, de Julio Cortázar, na tradução de Remy Gorga Filho: Começara a ler o romance dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou à leitura quando regressava de trem à fazenda; deixava-se interessar lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta a seu procurador e discutir com o capataz uma questão de parceria, voltou ao livro na tranquilidade do escritório que 84 Gragoata 28.indb 84 Niterói, n. 28, p. 81-94, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:00 O gênero duplicado dava para o parque de carvalhos. Recostado em sua poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intromissões, deixou que sua mão esquerda acariciasse de quando em quando o veludo verde e se pôs a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a fantasia novelesca absorveu-o quase em seguida. Gozava do prazer meio perverso de se afastar linha a linha daquilo que o rodeava, e sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto respaldo, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que além dos janelões dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra por palavra, absorvido pela trágica desunião dos heróis, deixando-se levar pelas imagens que se formavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte. Primeiro entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, a cara ferida pelo chicotaço de um galho. Ela estancava admiravelmente o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não viera para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal ficava morno junto a seu peito, e debaixo batia a liberdade escondida. Um diálogo envolvente corria pelas páginas como um riacho de serpentes, e sentia-se que tudo estava decidido desde o começo. Mesmo essas carícias que envolviam o corpo do amante, como que desejando retêlo e dissuadi-lo, desenhavam desagradavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada fora esquecido: impedimentos, azares, possíveis erros. A partir dessa hora, cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O reexame cruel mal se interrompia para que a mão de um acariciasse a face do outro. Começava a anoitecer. Já sem se olhar, ligados firmemente à tarefa que os aguardava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao Norte. Do caminho oposto, ele se voltou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu por sua vez, esquivando-se de árvores e cercas, até distinguir na rósea bruma do crepúsculo a alameda que levaria à casa. Os cachorros não deviam latir, e não latiram. O capataz não estaria àquela hora, e não estava. Subiu os três degraus do pórtico e entrou. Pelo sangue galopando em seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma varanda, uma escadaria atapetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e então o punhal na mão, a luz dos janelões, o alto respaldo de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance. “Começara a ler o romance dias antes” (Cortázar, 1956: 11 — no original, 13: Había empezado a leer la novela unos días antes). Assim começa o conto. Esse começo nos joga em um bucólico parque que se comunica com outros parques para formar estranhos “parques comunicantes” (que lembram os vasos comunicantes das antigas aulas de ciência). Niterói, n. 28, p. 81-94, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 85 85 3/11/2010 19:48:00 Gragoatá Gustavo Bernardo Quando lemos a primeira frase do conto, percebemos que há um personagem que é também um leitor: ele estava no meio da leitura de um certo romance. O conto começa in media res, isto é, no meio dos acontecimentos, assim como o personagem se encontrava no meio da sua leitura. Esse começo sugere que o começo da ação propriamente dita é anterior; nós, os leitores do leitor daquele romance, pegamos a história (e a leitura) pelo meio – ou, como se dizia antigamente, “com o bonde andando” (no caso, com o parque andando). O título do conto, “Continuidad de los parques”, sugere um espaço contínuo e contíguo através do qual um parque se comunica com outro parque. Essa sugestão cria um problema: a ficção de Cortázar contém dentro dela uma outra ficção. A circunstância de nos encontrarmos lendo uma pessoa que também está lendo é perturbadora: parece que somos indiscretos; parece que nosso queixo repousa no ombro de alguém para lermos o que este alguém está lendo. Emerge a sensação desagradável de que outrem também possa ler o que estamos lendo, ou seja, de que outrem possa estar com o seu próprio queixo pousado no nosso ombro. Até agora, temos pelo menos três leitores: [1] aquele que lê o conto dentro do conto; [2] cada um de nós quando lê o homem que lê o conto dentro do conto; [3] um possível leitor fantasma que nos lê enquanto lemos o homem que lê o conto dentro do conto. A sucessão de indiscrições se interrompe por aí? Não, nada garante que pare. “Acima” pode haver um quarto leitor, assim como “abaixo” pode haver um quinto leitor – então, por que não um sexto, um sétimo ou mais leitores, “acima” e “abaixo”? Essa multiplicação de leitores e leituras afeta a continuidade dos parques, transformando-a em uma multiplicação infinita de parques e de lugares. Encontramos uma série possivelmente infinita de mãos de Escher. Na sequência da leitura percebemos que o personagem (que continua a ler o seu romance) é um homem rico. Ele vive numa “herdade”, que em espanhol significa uma grande propriedade rural herdada da família. Sua casa é cercada por um parque de carvalhos – o primeiro parque do título. Ele encontra-se sozinho na biblioteca, sentado na sua poltrona preferida, a de veludo verde. Senta-se de costas para a porta para afastar possibilidades de intrusão ou interrupção da leitura. Assim que a recomeça, “la ilusión novelesca” o ganha imediatamente: “palavra por palavra, absorvido pela trágica desunião dos heróis, deixando-se levar pelas imagens que se formavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte” (Cortázar, 1956: 11 — no original, 13: palabra a palabra, absorbido por la sórdida disyuntiva de los héroes, dejándose ir hacia las imágenes que se concertaban y adquirían color y movimiento, fue testigo del último encuentro en la cabaña del monte). 86 Gragoata 28.indb 86 Niterói, n. 28, p. 81-94, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:00 O gênero duplicado Lemos o leitor que lê sobre o encontro na cabana no meio de um outro parque de carvalhos. Os personagens são uma mulher e seu amante. No peito do homem, aperta-se o punhal destinado a tirar a vida do marido da mulher. Para ambos o punhal representa não morte mas esperança, a possibilidade de viverem livremente o seu amor. Tudo indica que o leitor da poltrona de veludo verde adotou a perspectiva do casal, preparando-se ele mesmo para cometer junto com o amante o assassinato do marido abominável. O “diálogo envolvente corria pelas páginas como um riacho de serpentes” (Cortázar, 1956: 12 — no original, 14: un diálogo anhelante corría por las páginas como un arroyo de serpientes), a indicar uma legião de demônios: as palavras que os amantes trocam entre si. Enquanto a acompanha, o homem percebe junto com o casal que “todo estaba decidido desde siempre”, ou seja, que aquela história está escrita, restando-lhe apenas segui-la com seu prazer de leitor. Mesmo as “caricias que enredaban el cuerpo del amante” esboçam a figura do outro corpo que é necessário destruir: o corpo do marido impertinente, inconveniente e inoportuno. Os amantes enfim se separam na porta da cabana: ela se afasta para o outro lado enquanto ele se dirige para a casa. À medida que se aproxima da casa, percebe que tudo corre conforme o previsto: “os cachorros não deviam latir, e não latiram. O capataz não estaria àquela hora, e não estava” (Cortázar, 1956: 12 — no original, 14: Los perros no debían ladrar, y no ladraron. El mayordomo no estaría a esa hora, y no estaba). A mão invisível do narrador (que se confunde com o leitor da poltrona de veludo, leitor este que por sua vez se confunde conosco, leitores do conto de Cortázar) cala os cães da propriedade e garante a ausência do capataz. O amante sobe os degraus da varanda e entra na casa, confirmando a orientação da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma varanda, então uma escadaria atapetada. No alto, duas portas: ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo quarto. Finalmente, o momento derradeiro: a última frase do conto. Por cima do ombro do leitor da poltrona de veludo, nós a lemos: “A porta do salão, e então o punhal na mão, a luz dos janelões, o alto respaldo de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance” (Cortázar, 1956: 13 — no original, 14: La puerta del salón, y entonces el puñal en la mano, la luz de los ventanales, el alto respaldo de un sillón de terciopelo verde, la cabeza del hombre en el sillón leyendo una novela). O conto termina antes que o assassino apunhale o homem que está lendo a novela de um assassino que irá matar o marido da sua amante enquanto ele está lendo a novela de um assassino que irá matar o marido da sua amante enquanto ele está lendo a novela de um assassino que irá matar... Ad infinitum. Niterói, n. 28, p. 81-94, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 87 87 3/11/2010 19:48:00 Gragoatá Gustavo Bernardo Ad nauseam. Se o homem da poltrona de veludo se confunde necessária e metonimicamente com cada leitor do conto de Cortázar, então nós como leitores somos jogados dentro desse círculo infinito tão fascinante quanto nauseante. A história continua na leitura da história que, por sua vez, continua na leitura da história dentro da história: um parque de carvalhos e palavras se comunica com o outro parque de carvalhos e palavras. Podemos dizer que a leitura da leitura que o personagem realiza na sua poltrona estabelece uma comunicação (que não deveria ser possível) entre a ficção e a realidade. No entanto, se a realidade de que trata o conto é a realidade deste personagem, ora, ela também é fictícia. Logo, se há comunicação, ela se dá entre diferentes níveis de ficção. A ponte entre esses níveis diferentes de ficção tem o nome de “metaficção”. É uma ponte interna, e nela se pensa a ficção dentro da ficção. Por ser interna, podemos substituir a metáfora da ponte pela metáfora das escadas – por exemplo, as escadas de Escher, que vemos na litografia “Relatividade”, de 1953 (fig. 2). Figura 2 Nas duas dimensões da imagem, Escher nos apresenta mais do que três dimensões, por paradoxal que isso possa parecer. Ele nos obriga a não descansar os olhos, como se não conseguíssemos ver o quadro que, no entanto, vemos. Suas escadas também representam a metaficção: estabelecem a comunicação entre campos ficcionais. Se aceitarmos que a realidade como a conhecemos não deixa de ser um outro campo de ficções, precisamos aceitar o convite implícito nas escadas de 88 Gragoata 28.indb 88 Niterói, n. 28, p. 81-94, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:01 O gênero duplicado Escher: dar mais um passo (para cima ou para baixo?) e esboçar a hipótese de que só podemos passear no parque da realidade se e somente se entramos no parque da ficção. Ou: de que nós só podemos conhecer a realidade através da ficção. A metaficção representa esse conhecimento e constitui assim uma espécie de metáfora da própria consciência, que não será jamais linear mas sempre labiríntica. Vejamos agora uma ocorrência diferente de metaficção, no conto “Os machos lacrimosos”, de Mia Couto: Eles se encontravam por causa de alegrias. No bar de Matakuane, os homens anedotavam, fabricando risadas. Um único móbil: festejavam a vida. As suas esposas não suportavam aquele disparatar. Afinal, elas, as mulheres, não precisam de ritual para festejar a vida. Elas são a festa da vida. Ou a vida em festa? Para elas, aquela cumplicidade masculina era coisa de tribo. Reminiscência atávica. Mas os homens não se importavam. Fosse atávico e tribal, eles mantinham o cerimonial. Cada um que chegava ao bar disparava, logo à entrada: — Sabem a última? E assim se produziam eles, se consumiam elas. Até que sucedeu a noite em que Luizinho Kapa-Kapa, o grande animador dos encontros, trouxe a notícia tristonha. Estava-se em lua muito minguante e ali, na esplanada, pela primeira vez, os copos ficaram cheios toda a noite. É que Luizinho foi desenrolando a história com voz acabrunhada. Antes de chegar ao busílis do relato, quem sabe um irreversível falecimento, Kapa-Kapa cascateou-se em pranto. E os amigos, copo suspenso, em redor da mesa: — Então, Kapa-Kapa, como é que é? Até o musculoso e calado estivador Silvestre Estalone ajudava a animar o lamentoso: — Verticaliza, homem, verticaliza. Mas o choroso todaviou-se. E foi crescendo de choraminguado para carpideiro. Entre soluços, soltava os fios da fúnebre narrativa. Já nem se percebia palavra, tal maneira as falas vinham envoltas em babas. Na sala surgiu um lenço e rodou de mão em mão, coletando excessos. Tarde de mais: as chamas da tristeza já haviam devorado o coração de Kapa-Kapa. Desistiram de o consolar. Amolecidos, os amigos foram-se rendendo a um descaimento no peito, o singelo peso da lama na alma. Fosse isso a tristeza. E chegou mesmo a escorrer, dissimulata, uma lágrima no rosto barbudo do dono do estabelecimento. Niterói, n. 28, p. 81-94, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 89 89 3/11/2010 19:48:01 Gragoatá Gustavo Bernardo No dia seguinte, quando se sentaram no bar, ainda foi disparado um gracejo: sabem a última? Mas o homem logo se arrependeu: o que ele estava a dar era um ar de sua desgraça. A melancolia se instalara como toalha sobre a mesa. Silvestre Estalone ainda insistiu com nova graça. Mas ninguém riu. Estava-se mais interessado em escutar os novos capítulos da tristeza. E pediram a Luizinho Kapa-Kapa: ele que divulgasse mais detalhes, rasgando véus, desocultando destinos. E o Luizinho desfez-se na vontade: o drama se desfolhou, ante o olhar lacrimoso dos presentes. Não tardou que todos chorassem babas e rebanhos. E foi sucedendo uma e outra noite. Uma e outra rodada de tristeza. Os baristas de Matakuane foram deixando a piada e o riso. E passaram a partilhar lamentos, soluços e lágrimas. E até Silvestre Estalone, o mais macho e sorumbático da tribo, acabou confessando: — Nunca eu pude imaginar, malta. Mas como é bom chorar! Chorar, mas chorar junto, acrescentaram os outros. E até um se lembrou de propor uma associação de choradores. Pudessem mesmo substituir as profissionais carpideiras dos velórios. Mas os restantes se opuseram, firmes. Afinal, ainda restava neles o fundo preconceito macho de que lágrima pública é coisa para o mulherido. E foi sucedendo tão devagar que nem parecia acontecer. Ocorria, porém, que os antigos anedoteiros passaram a mudar de trato com o mundo. Aos primeiros sinais do anoitecer lá um declarava ter que regressar a casa. — Para ajudar a minha gente — confessava, meio envergonhado. E um outro declinava a insistência de mais uma bebida. — Não quero que a minha patroa se zangue — justificava. — Quem quer bebida, pede medida — proverbiavam todos. E mesmo o Silvestre, que era quem sempre fechava o bar, apelava para que olhassem o relógio. Voltassem todos aos seus lares, convidava o ex-boémio. — Sim, vamos para nossas casas. Mas não sem derramarmos mais uma lágrima. — Sim, sai uma para o caminho. E lá vinha mais história de puxar lustro à tristeza. Que chorar era coisa de maricas, isso já nenhum se lembrava. Nos arredores do bar, a noite se adoçava, escutando-se o suave soluçar 90 Gragoata 28.indb 90 Niterói, n. 28, p. 81-94, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:01 O gênero duplicado da rapaziada. As mulheres até recearam ao ver tanta mudança: seus homens, inexplicavelmente, se revelavam mais delicados e atenciosos. E palavras, flores, carinhos: tudo isso elas passaram a receber. Mordedura de mosca, repentina mudança de idade? E acertaram nem sequer perguntar. Aquilo era tão bom, tão inverossímil, que o melhor era deixar dormir a poeira. Hoje quem passa pelo bar de Matakuane pode certificar: chorar é um abrir do peito. O pranto é o consumar de duas viagens: da lágrima para a luz e do homem para uma maior humanidade. Afinal, a pessoa não vem à luz logo em pranto? O choro não é a nossa primeira voz? E é o que, por outras palavras, sentencia Kapa-Kapa: a solução do mundo é termos mais do nosso ser. E a lágrima nos lembra: nós, mais que tudo, não somos água? Se todo texto literário contém a sua própria teoria, só nos cabendo desentranhá-la das entrelinhas, o conto de Mia Couto explicita com todos os esses e erres suas teorias, tanto sobre a catarse quanto sobre o melodrama. Em tom quase de crônica de jornal, atravessado pelos habituais neologismos do autor e vários trocadilhos divertidos, conta-se uma história aparentemente singela e ingênua sobre o próprio poder de se contarem histórias ingênuas e singelas. Nesse sentido, o conto é duplamente metaficcional: porque se dobra sobre o seu próprio tema e porque desenvolve uma dupla teoria da narrativa. No cenário do bar de Matakuane, reconhecemos um legítimo “boteco” brasileiro, ainda que a história não se passe no Brasil. Os nomes dos personagens misturam nomes tribais e apelidos tirados dos filmes americanos mais populares. Luizinho Kapa-Kapa, por exemplo, mistura o diminutivo, que pode ser tanto carinhoso quanto pejorativo (se pensamos nos “machos” do título e do bar), com o sobrenome de guerra: aquele que capa, portanto castra, duas vezes! Silvestre Estalone, por sua vez, é alusão óbvia aos personagens hiper-machões do ator Sylvester Stallone, em especial Rocky e Rambo. Essa conjunção dos elementos da cultura e mesmo da doxa popular, característicos do patriarcalismo tanto de Moçambique quanto do Brasil, é desconstruída pela história através justamente da teoria da catarse. Os neologismos de Mia Couto, às vezes excessivos como já o eram os de sua principal inspiração, o escritor brasileiro João Guimarães Rosa, funcionam muito bem nesse conto porque reforçam sempre a sua ironia, responsável pela desconstrução da ideologia do machismo, ideologia esta, por sua vez, pilar de toda ideologia imperialista. No começo, os personagens se encontram no bar “por causa de alegrias”. De triste, basta a vida, diz o vulgo. É preciso rir e Niterói, n. 28, p. 81-94, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 91 91 3/11/2010 19:48:01 Gragoatá Gustavo Bernardo comemorar, ou mesmo “bebemorar” (este neologismo talvez seja mais propriamente brasileiro). Se pudéssemos entrar no bar ou no conto e perguntar a eles que filme preferem ver, sem dúvida apontariam, primeiro, os de ação, e depois, os que fizessem rir, ou seja, as comédias. Não sabemos o que Aristóteles disse a respeito da catarse através do riso, porque o seu suposto tratado sobre o cômico se teria perdido. Mas a nossa experiência de espectadores e de leitores nos sugere que a alegria não é, como parece, um sentimento integrador. O riso do bêbado no bar, que depois de um certo tempo sempre se transforma em choro convulsivo, mostra que a alegria pode ser, ao contrário, desintegradora – até porque via de regra o cômico parte de uma violência ou de um preconceito. A situação cômica padrão é a da velhinha escorregando na casca de banana e caindo sentada numa poça d’água. De fato, a cena é muito engraçada – menos para ela, decerto, que talvez tenha fraturado o quadril e venha a falecer por conta das complicações derivadas da queda. Nós rimos da velhinha, ou de quem quer que tenha caído, em parte porque não fomos nós a cair, que alívio, em parte deixando escapar nossa agressividade instintiva contra o outro. Em consequência, o sentimento que sucede ao riso não é tão agradável quanto ele, misturando-se o alívio (da raiva liberada) à culpa (pela insensibilidade demonstrada para si mesmo). A tristeza, ao contrário, por mais depressiva que pareça, nos deixa com a sensação de que por um instante podemos ser melhores do que de fato somos. A tristeza advinda da fruição de uma obra de arte, então, nos torna muito melhores do que somos, porque exercitamos sem peias e sem constrangimentos o raro sentimento da compaixão. Essa sensação integradora, essa sensação de finalmente sabermos quem somos e, ainda, que não somos maus, empresta todas as condições para reflexões calmas sobre nossa identidade, sobre o mundo, sobre o cosmos, quiçá sobre a divindade. Nesse sentido, a tristeza se torna condição sine qua non do próprio pensamento, vale dizer, da própria filosofia. É o que os personagens do bar descobrem, surpreendidos e encantados, a partir de uma história tristíssima contada por Luizinho Kapa-Kapa. Quando Luizinho conta uma história tão triste que chega a “todaviar-se”, chorando como um carpideiro, diria melhor, como uma carpideira, os “baristas” de Mia Couto descobrem um prazer que não conheciam: o prazer de chorar. Mas, mais do que o prazer de chorar, descobrem o prazer inenarrável de “chorar junto”, isto é, de fazerem da experiência um ritual coletivo. Ouvir e contar histórias, de preferência bem tristes, logo se torna uma espécie de culto sagrado daquele grupo. 92 Gragoata 28.indb 92 Niterói, n. 28, p. 81-94, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:02 O gênero duplicado A tristeza compartilhada provoca prazer da mesma forma que o fogo gera a água, isto é, que “as chamas da tristeza” provocam rios de lágrimas em todos os presentes. Eles aprendem a elogiar, mais do que as antíteses, os paradoxos em que se percebem mergulhados. Homeopaticamente, a catarse das narrativas tristes purga os maus humores, expelindo-os junto com as lágrimas. Desta forma, todos se tornam melhores do que eram: preocupam-se com a família, preocupam-se com as mulheres, logo, ocupam-se dos afetos que justificam as suas vidas. Ao fazê-lo podem, através do discurso indireto livre do narrador, filosofar, reconhecendo que “chorar é um abrir do peito” e que “o pranto é o consumar de duas viagens: da lágrima para a luz e do homem para uma maior humanidade”. Nas palavras existencialistas de Kapa-Kapa, aquele que algum dia castrou-castrou: “a solução do mundo é termos mais do nosso ser”. Se o nosso ser é essencialmente água, essencialmente líquido, essencialmente devir, porque escorre pelos dedos como as lágrimas pelas faces, ele só se deixa apreender integrado e integralmente quando choramos com o outro e pelo outro. Como diz Mia Couto numa belíssima imagem, “a melancolia se instalara como toalha sobre a mesa” justo para permitir a narrativa, o encontro consigo mesmo, o encontro com outro e, por fim, a filosofia. Como queríamos demonstrar: o gênero duplicado através da metaficção promove aquela reviravolta aninhada no pensamento que termina por devolvê-lo a si mesmo. Abstract: The aesthetic phenomenon of metafiction calls in question the identity of fiction itself. Metafiction goes through all literary genres and duplicates the structure of each one, like the fictitious characters do with theirs authors and readers. That duplication creates a disturbing effect to the readers, as if it leads them to question themselves not only who they are but also what is reality. We will see this phenomenon in short stories written by Julio Cortázar and Mia Couto. Keywords: Genre. Metafiction. Julio Cortázar. Mia Couto. Referências BOOTH, Wayne C. (1961). The Rhetoric of Fiction. Chicago: The University of Chicago Press, 1983. CERVANTES, Miguel de (1605-1615). Don Quijote de La Mancha. Madrid: Galaxia Gutenberg, 2005. Niterói, n. 28, p. 81-94, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 93 93 3/11/2010 19:48:02 Gragoatá Gustavo Bernardo CHALUB, Samira (1998). A metalinguagem. São Paulo: Ática, 2005. CORTÁZAR, Julio (1956). Final del juego. Buenos Aires: Alfaguara, 1993. ______ (1956). Final do jogo. Tradução de Remy Gorga Filho. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1974. COUTO, Mia (2004). O fio das missangas: contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. CURRIE, Mark (org) (1995). Metafiction. New York: Longman. GASS, William H. (1958). Fiction and the Figures of Life. New Hampshire: Nonpareil Books, 2000. GOMES, Helder (2008). “Metaliteratura”. In: Ceia, Carlos (org). E-Dicionário de Termos Literários: em http://www.fcsh.unl.pt/ edtl/verbetes/M/metaliteratura.htm; consultado em dezembro de 2008. HOFSTADTER, Douglas R. (1979). Gödel, Escher e Bach: um entrelaçamento de gênios brilhantes. Tradução de José Viegas Filho. Brasília: EdUNB, 2001. KRAUSE, Gustavo Bernardo (2010). O livro da metaficção. 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Gragoatá Gragoata 28.indb 95 Niterói, n. 28, p. 95-109, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:02 Gragoatá Marcelo Brandão Mattos Os livros de Machado de Assis, amplamente discutidos pela teoria literária e apreciados pelos chamados leitores maduros, permitem voos analíticos mais altos do que se pode alcançar com boa parte da produção literária nacional, quiçá com o que se produz e já se produziu mundialmente. A riqueza do trabalho machadiano ultrapassa os limites da valorização estética ou da original elaboração de um bom enredo a ser narrado, para atingir os altos níveis da composição autoral e suas possibilidades orquestrais. A leitura dos romances e contos do mestre da literatura nacional requer um olhar atento tanto ao que “se passa na tela” de suas produções quanto à engrenagem que bobina o “filme principal”, sem falar – obviamente – de seu engenheiro, engenhoso criador. Nesse sentido, é-nos natural a escolha de um dos romances do autor como rico suporte para a discussão de certos conceitos teóricos, propostos sobretudo por Mikhail Bakhtin, que tratam das configurações romanescas enquanto conscientes escolhas autorais. Propomos, neste trabalho, uma leitura de Dom Casmurro como um romance de formação, no qual está em jogo a composição de um discurso refratado – ou refratário – elaborado segundo o princípio da ironia lukacsiana, que permite a divisão semântica entre o dizer e o querer dizer. Os conceitos teóricos, norteadores do trabalho, seguirão aqui o curso das idéias do romance, de modo que serão discutidos na medida em que forem suscitados segundo a linearidade atribuída por Machado para contar a história de Bentinho e Capitu. Será ela, com a licença de algumas digressões, a nossa condutora de idéias. Abramos, portanto, a obra-prima machadiana. As primeiras palavras do romance são a senha para se desvendar uma mensagem autoral que “dorme na sombra de um livro raro”. Logo nos dois primeiros capítulos, Do Título e Do Livro, já nos encontramos – nós, leitores – diante de uma duplicidade autoral que guarda a essência das idéias impressas na obra. O autor primário, utilizando-nos da terminologia bakhtiniana para denominar o autor real, “individualidade ativa” da criação (Bakhtin, 2003, p. 180), produz um autor ficcional, o autor secundário, “individualidade vista e enformada” (Ibid., p.180), que assume a enunciação do texto. A autoria compartilhada entre criador e criatura se projetará no nível do discurso, na medida em que – veremos depois – também haverá um subliminar discurso do autor principal encoberto pelo aparente discurso do autor secundário e, entre os dois, uma dissonância ou, nas palavras de Bakhtin, uma refração. O enunciador do romance se apresenta como autor de um livro de memórias, uma ficcional autobiografia. O velho Bento registra os momentos que marcaram a sua vida e, justificando “os motivos que lhe põem a pena na mão”, afirma um desejo de “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adoles96 Gragoata 28.indb 96 Niterói, n. 28, p. 95-109, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:02 Dom Casmurro e a ironia da formação As citações do romance, por sua notoriedade e sua vasta publicação em diferentes edições, estão assinaladas apenas com o capítulo referido. * cência” para “recompor o que foi” (Cap. II).* Estão inscritos, na narrativa, os sinais caracterizadores daquilo que a teoria literária – e mais uma vez citamos Bakhtin – define como romance de formação. O teórico russo observa que, nesse tipo de romance, “a vida do herói e seu caráter se tornam de uma grandeza variável” (BAKHTIN, 2003, p. 235), ou seja, a sua imagem futura é condicionada pelas experiências pelas quais passou e por valores assimilados que ajudaram a construí-lo como sujeito. A teoria bakhtiniana propõe uma divisão desse tipo de romance em cinco categorias que, a nós, não nos convém deter além da consideração de que, embora este romance (aqui aberto) seja tipicamente biográfico – terceira categoria proposta por Bakhtin –, não se pode desconsiderar o seu componente histórico, sugerido na quinta categoria bakhtiniana (que o teórico considera a mais importante), na qual “O homem se forma ao mesmo tempo que o mundo, reflete em si mesmo a formação história do mundo.” (ibid., p. 239-240) O sujeito psicologizado criado por Machado de Assis, em busca de um sentido mnemônico para a sua auto-imagem “presente”, condicionado pelas vozes que acompanharam o seu processo de formação, “abandonado” por um autor primário que não endossa seu ponto de vista, é um homem de um tempo em que já se pensa a subjetividade como algo múltiplo, conceito historicamente datado, que contextualiza a produção e a “encenação” da obra. O texto ficticiamente autobiográfico recompõe a história de Bentinho a partir da infância. Ficam registrados os seus sentimentos diante de uma mãe de firmes decisões, a morte de seu pai, a convivência em uma casa de tios, o encantamento com a jovem Capitu, o ingresso no seminário, a amizade com Escobar. Mais tarde, serão narrados a saída do seminário, o casamento com Capitu, as suspeitas da traição da esposa com seu melhor amigo, o nascimento do filho Ezequiel, as crises do casamento, a separação, as mortes de amigos e familiares, e lhe restará a solidão que o acompanhará até a velhice, tempo da “escrita” do livro. O caráter formador do romance é, no plano do discurso ficcional, parte do projeto narrativo de Bento. Quando afirma desejar “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”, o segundo autor declara o seu objetivo de comprovar que “o homem que se tornou” é resultado das agruras pelas quais passou durante a vida. Há uma função argumentativa na seleção de circunstâncias que sustentam, na ficção, a defesa (ou autodefesa) de uma conduta individual no “presente” da narração – ponto em que Bentinho narra os tempos de ação. É a cena de um discurso de autor. Um discurso que simula, portanto, um tom monológico, tessitura de uma única mão. Um discurso no qual A voz do heroi sobre si mesmo e o mundo é tão plena como a palavra comum do autor; não está subordinada à imagem objetificada do heroi como uma de suas características mas Niterói, n. 28, p. 95-109, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 97 97 3/11/2010 19:48:02 Gragoatá Marcelo Brandão Mattos tampouco serve de intérprete para o autor. Ela possui independência excepcional na estrutura da obra, é como se soasse ao lado da palavra do autor, coadunando-se de modo especial com ela e com as vozes plenivalentes de outros herois. (BAKHTIN, 2008, p 5) O conceito bakhtiniano de monologia é, aqui e ao longo deste artigo, tomado com a impropriedade necessária ao jogo autoral de esconder as vozes que disputam a autoria do texto bentiniano, o que justifica as aspas empregadas. O discurso machadiano em nada se refere ao que o teórico denomina por monológico, mas simula tal estrutura como estratégia narrativa de enunciação e criação de uma “voz autoral ficcional”. 1 98 Gragoata 28.indb 98 Nas entrelinhas do texto, contudo, revelar-se-á um subreptício jogo polifônico que compõe todo discurso individual. As pistas da polifonia que circunda o “monológico”1 discurso de Bentinho estão dispersas em toda a obra, cuidadosamente deixadas por Machado de Assis. Já no primeiro capítulo, não se deve ignorar a informação de que o título do livro de Bento foi criado por um “rapaz do bairro” que o encontrou no trem e, considerando-o indelicado, “acabou alcunhando-o Dom Casmurro” (Cap.I). Em seguida, seus “hábitos reclusos e calados deram curso à alcunha, que afinal pegou.” A contribuição do passageiro do trem para o livro (e para a auto-imagem de Bento) pode parecer insignificante, mas marca a presença de um olhar de “outro” – dentre tantos – como definidor dos sentidos contidos em um texto tecido pelas mãos (e pelos olhos) de um só sujeito. Ao fim do capítulo, um desfecho aforístico confirma a idéia de que há uma parceria criativa na obra. Pensando sobre a participação do “poeta do trem” no texto escrito, os autores – o secundário e, com ele, o primário – concluem: “[...] sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto” (grifo nosso). A lúdica seleção, feita pelo autor Bentinho, de um título sugerido por outro para a sua biografia é a primeira senha, do autor Machado, para que seja desvendado pelo leitor o mundo polifônico circundante. Nos capítulos seguintes, Bentinho passa a relatar os seus dias de juventude, começando sua “evocação por uma célebre tarde de novembro” (Cap. II) em que sua família conversava sobre a promessa materna de que ele fosse para o seminário e a perigosa proximidade entre ele e a menina Capitu. São as primeiras vozes a ecoar no “monológico” discurso enunciado por Bento. As últimas aspas são mesmo irônicas e a ironia não é nossa, mas do próprio autor. Machado cria a cena ilusionista: um homem solitário (re)constrói o texto da sua vida e, por mais que tenha autenticidade em suas idéias, elas no fundo vão relevar outras vozes precedentes que sustentam esse discurso unicista. É uma irônica expressão da polifonia, própria de um autor que, embora conectado a uma modernidade por vir, sabia onde estava e para quem estava falando. Se a Dostoiévski, no Velho Mundo, era permitido exibir, em romances como Os irmãos Karamázov, a arquitetura polifônica; ao brasileiro Machado cabia apenas a fina ironia de um discurso dúbio. Afinal, a ideia de um mundo polifônico é, no plano monoteísta, a ruína e ameaça a eternidade divina – como menciona o autor Bentinho (em nome do autor Machado), em trecho que veremos em seguida. Para os leitores Niterói, n. 28, p. 95-109, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:03 Dom Casmurro e a ironia da formação do escritor brasileiro, portanto, era importante que se seguisse, na leitura principal, um texto de aparência monológica, enquanto sob o tapete textual a poeira da polifonia pudesse infiltrar-se, pelas hábeis mãos machadianas, contaminando o aparente texto unicista. Se aqui não há, como na leitura do escritor russo, a clara noção de que a verdade é composta por muitas versões possíveis, cada uma atribuída ao olhar de um sujeito, ao menos em Dom Casmurro é possível depreender o embrião desse conceito polifônico, a ideia de que ninguém nunca está sozinho quando profere um discurso. O próprio Bento, em suas reflexões sobre a vida, citando palavras de “um velho tenor italiano que [aqui] viveu e morreu” (Cap. VIII), concebe a imagem perfeita da representação do mundo como uma ópera. No nono capítulo, em trecho longamente transcrito abaixo, Bentinho relata uma conversa transformadora que teve com um amigo cantor: – A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimirás, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimirás. Há coros a numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente... [...] Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Raiael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, e acaso para reconciliar-se com o céu, compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno. – Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés... – Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada. – Mas, Senhor... – Nada! Nada! Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera Niterói, n. 28, p. 95-109, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 99 99 3/11/2010 19:48:03 Gragoatá Marcelo Brandão Mattos fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos. --Ouvi agora alguns ensaios! --Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor. (Cap. IX) A máxima “a vida é uma ópera”, por si só, já traduz com perfeição a ideia da polifonia “orquestrada” teoricamente por Bakhtin, que atribui a Dostoiévski sua criação artística. A ópera é a metáfora audiovisual de um mundo polifônico. No entanto, há na justificativa apresentada ficcionalmente pelo tenor, para a concepção de sua teoria, argumentos que merecem comentário. A parceria entre Deus e Satanás é a perfeita imagem diatópica da composição de um discurso. Não há texto, por mais monológico que se apresente, que não leve em conta a voz de outro – sobretudo o que lhe remete à diferença. Não há argumentação sem contra-argumentação, não há texto sem hipertexto. E a forma como se dá a parceria entre os dois compositores, na história relatada por Bentinho, é um retrato da dialogia intrínseca a todo processo discursivo. Reparemos que Deus havia “escrito um libreto de ópera do qual abrira mão”. Em seguida, “Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. [...] compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.” A apropriação de um texto alheio para a composição autoral é o procedimento formal próprio de todo ato criativo. Afinal, Um membro de um grupo falante nunca encontra previamente a palavra como uma palavra neutra da língua, isenta de aspirações e avaliações de outros ou despovoada das vozes dos outros. Absolutamente. A palavra, ele a recebe da voz de outro e repleta da voz de outro. (BAKHTIN, 2008, p.232) A recriação da partitura divina pelo rebelde ex-aluno, a partir das suas “lições recebidas”, e a devolução dos escritos ao Pai Eterno para que ele pudesse “emendá-la e fazê-la executar” é a imagem do jogo dialógico que compõe aquela e toda autoria, base conceitual de um universo polifônico. Reforçando o jogo, o autor Bentinho, após narrar o diálogo com o Maestro e as suas ideias sobre o mundo, toma-as para si ao declarar: “Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini, não só pela verossimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem à definição. Cantei um duo tecnicismo, depois um trio, depois um quatro...” (Cap. X) Na sequência, passa a relatar o “duo tecnicismo” que, certa vez, “cantou” com José Dias. Comecei a andar de um lado para outro, estacando para amparar-me, e andava outra vez e estacava. Vozes confusas 100 Gragoata 28.indb 100 Niterói, n. 28, p. 95-109, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:03 Dom Casmurro e a ironia da formação repetiam o discurso do José Dias: "Sempre juntos..." "Em segredinhos..." "Se eles pegam de namoro..." (Cap. XII) A denúncia. Assim Bento se refere à primeira participação de José Dias em sua biografia. Sugere ter sido o “amigo” a primeira voz a sussurrar, para a sua mãe e aos quatro ventos, um possível encontro amoroso entre ele e Capitu. O trecho recupera a cena do terceiro capítulo, em que José Dias conversa com D. Gloria e seus familiares sobre a estranha relação entre os jovens: “Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a dificuldade, porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los.” (Cap. III), diz o pseudomédico. Curiosamente, confessa o autor Bento, nem ele mesmo havia atinado, na época, que haveria amor entre ele e a jovem Capitolina. E questiona-se: “Com que então eu amava Capitu, e Capitu a mim? Realmente, andava cosido às saias dela, mas não me ocorria nada entre nós que fosse deveras secreto.” (Cap. XII) O amor por Capitu, mola mestra da autobiografia de Bento e do romance de Machado, foi elaborado em discurso por José Dias, antes mesmo que os amantes tivessem tempo de se envolver em afeto. Foram, então, as palavras de Dias antecipadoras no enamoramento do casal. A parceria entre Bentinho e José Dias será reforçada adiante, no romance, quando “o agregado” cunhar a célebre frase: “[Os olhos dela] São assim de cigana oblíqua e dissimulada” (Cap. XXV), que será rememorada (e apropriada) por Bento, quando ele estiver prestes a se tornar refém da bela Capitu. Enfeitiçado pela moça, lembrará a “definição que José Dias dera deles, ‘olhos de cigana oblíqua e dissimulada’” (Cap. XXXII) e, como Satanás procedeu com a partitura divina, recriará a definição ocular da amada à sua moda: “Olhos de ressaca”, dirá. “Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.” (idem) O dueto com Dias se consagra nesse momento, quando os olhos de Bento admitem enxergar o que é visto pelos olhos do outro. A sintonia de olhares (logo, de “pensares”) marca o dialogismo que compõe o discurso assinado pelo casmurro autor. São muitas vozes que compõem a história da vida de Bentinho e, logo, sua subjetividade. Serão, por exemplo, de Prima Justina as considerações mais contundentes que o jovem Bento ouvirá sobre as virtudes de Capitu, mencionada então não mais como a cigana dissimulada de José Dias, mas como uma bela pretendente ao amor. A conversa que teve com a prima sobre a Niterói, n. 28, p. 95-109, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 101 101 3/11/2010 19:48:03 Gragoatá Marcelo Brandão Mattos futura esposa será um importante passo de Bento até a consumação da relação amorosa: [Prima Justina] insinuou-me que [Capitu] podia vir a ser uma moça bonita. Eu, que já a achava lindíssima, bradaria que era a mais bela criatura do mundo, se o receio me não fizesse discreto. Entretanto, como prima Justina se metesse a elogiarlhe os modos, a gravidade, os costumes, o trabalhar para os seus, o amor que tinha a minha mãe, tudo isto me acendeu a ponto de elogiá-la também. Quando não era com palavras, era com o gesto de aprovação que dava a cada uma das asserções da outra, e certamente com a felicidade que devia iluminar-me a cara. (Cap. XXII) No refluxo da relação discursiva, no qual o discurso de um afeta o discurso de outro, Justina também se deixa contaminar pelas palavras do primo, que observa: “Creio que prima Justina achou no espetáculo das sensações alheias uma ressurreição vaga das próprias. Também se goza por influição dos lábios que narram.” (Cap. XXII) A aforística conclusão do vigésimo segundo capítulo ratifica as relações que estão emaranhadas ao longo de todo o discurso machadiano (ou “bentiniano”). A “influição” do alheio é um componente genético, e/ou erótico, de todo texto autoral. Voltemos então a pensar na escrita de Bentinho como um projeto “monológico”, já entendendo que o dialogismo e a polifonia estão nas entrelinhas – ou na genética – das suas relações sintático-semânticas. Voltemos a falar em monologia por um motivo muito simples: ela é parte do jogo de cena arquitetado por Machado de Assis. É importante que se pense o texto de Dom Casmurro como projeto subjetivo, como versão de um homem que narra o que viu e ouviu, o que julga a partir desse conhecimento apreendido e o que imagina que houve nos momentos em que nada viu e sobre o qual nem ouviu falar. Deixemos de lado, por ora, os “diálogos” já mencionados: a polifonia intrínseca à voz de Bento e a refração desse discurso diante da mensagem do autor. Afinal, todos sabemos, o romance segue um caminho narrativo rumo ao clímax que o imortalizou: a controvertida relação amorosa entre Bentinho e Capitu, após a suspeita do marido sobre uma suposta traição de sua mulher com o seu melhor amigo Escobar. Há um não-saber autoral que é parte integrante da trama enredada no romance e que precisa ser encenado para se tornar apreensível pelo leitor. O discurso monológico é, nesse contexto, o olhar de um homem limitado ao seu saber subjetivo. O artifício do autor secundário, neste romance, portanto, é muito mais que um projeto estético do escritor, é uma necessidade da composição de uma estratégia discursiva. O autor Bentinho crê naquilo que se projeta diante de seus olhos e, principalmente, em sua mente. Ele atribui à sua versão um status de 102 Gragoata 28.indb 102 Niterói, n. 28, p. 95-109, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:03 Dom Casmurro e a ironia da formação ideia da duplicidade discursiva como forma de ironia foi formulada, dentre outros teóricos, por Lukács, que assim se justifica: “O autor e con h e c i me nto, ou seja, a auto-superação da subjetividade, foi chamado de ironia pelos primeiros teóricos do romance, os estetas do primeiro Romantismo. Como constituinte formal da forma romanesca, significa ela uma cisão interna do sujeito normativamente criador em uma subjetividade como interioridade, que faz frente a complexos de poder alheios e empenha-se por impregnar o mundo alheio com os conteúdos de sua aspiração, e uma subjetividade que desvela a abstração e portanto a limitação dos mundos reciprocamente alheios do sujeito e do objeto, que os compreende em seus limites, concebidos como necessidades e condicionamentos de sua existência, e que, mediante esse desvelamento, ainda que mantenha intacta a dualidade do mundo, ao mesmo tempo vislumbra e configura um mundo unitário no condicionamento recíproco dos elementos essencialmente alheios ent re si.” (LUK ÁCS, 2007, pp. 74-75) 2A verdade. Seria simplista dizer que ele é o narrador da dúvida, como muito se diz no campo da pedagogia literária. O que o romance propõe é algo mais complexo que isso. O que se lê é mais a presunção da certeza, contextualizada em um mundo de versões, do que um teorema sobre a dúvida. A diferença pode parecer meramente retórica, mas revela-se substancial quando se pensa na arquitetura dos dois discursos. Representar a dúvida é evidenciar a ambiguidade, enquanto a representação da verdade presumida requer a ocultação (sem a total anulação) de uma voz em detrimento à outra. A dúvida se traduz em imagem visível, a presunção de certeza necessita da palavra escrita para articular o seu jogo irônico, que esconde no texto um subtexto. A narração na primeira pessoa de Bentinho, arranjada pelas mãos de Machado de Assis, é exemplar para se pensar a duplicidade discursiva própria do projeto romanesco. A monologia, nesse sentido, é o perfeito disfarce do autor primário escondido sob (ou sobre) as palavras do secundário autor, que “assina” o texto de aparência unicista. Acima do autor ficcional, segurando as linhas que o movimentam – metáfora cênica –, há um escritor primário que, através das articulações formais por ele criadas, comunica-se com o leitor. Distanciado do sujeito da enunciação, o primário autor – ardiloso – está livre para questionar, de fora do texto, aquilo que seu personagem narra com convicção. O efeito duplicado é tão sutil que um leitor ingênuo não o perceberá e aceitará, como verdade do autor real e sua obra, uma verdade defendida por um sujeito ficcional ao longo do romance. Certa vez, em um debate sobre o romance de Machado de Assis promovido pela ABL, uma jovem estudante manifestouse contrária à versão, defendida ali por alguns leitores, de que Capitu pudesse não ter traído Bentinho, ou melhor, de que a traição fosse fruto da imaginação do enciumado narrador. A moça alegava ter provas materiais do “crime” da bela personagem. “Capitu teve um filho de Escobar!”, afirmou perante a plateia, segurando uma edição do romance como se fora uma bíblia. E diante da pergunta: “Mas quem diz isso?”, proferiu sem hesitar: “Machado de Assis. Está escrito aqui ó!” O autor, se visse tal cena, escondido onde não pudesse ser notado, daria risadas ou aplaudiria o êxito de um romance planejado para dividir e iludir. O irônico2 efeito de duplicidade discursiva, referido por Bakhtin como a refração do discurso do narrador ou do autor ficcional em face ao discurso do autor real, exige do leitor uma perspicácia de observação. Muito se comenta, por exemplo, do longo período em que Dom Casmurro foi lido simplesmente como a história da traição de Capitu, até que os críticos levantassem a hipótese controversa e ampliassem definitivamente o foco da leitura planejada certamente por Machado de Assis. É preciso levantar o tapete discursivo de Bentinho para enxergar Niterói, n. 28, p. 95-109, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 103 103 3/11/2010 19:48:04 Gragoatá Marcelo Brandão Mattos a “tessitura” do solo engenhosamente construído pelo gênio da literatura brasileira. Refratar o discurso foi, então, a mecânica necessária para que, embora coerente e coeso, o texto de Bentinho pudesse ser questionado e relativizado, para ser reescrito por um atento leitor. A estratégia, diz o teórico russo, consiste no seguinte: “[...] o autor inclui no seu plano o discurso do outro voltado para as suas próprias intenções. A estilização estiliza o estilo do outro no sentido das próprias metas do autor. O que ela faz é apenas tornar essas metas convencionais. O mesmo ocorre com a narração do narrador, que, refratando em si a idéia do autor, não se desvia de seu caminho direto e se mantém nos tons e entonações que de fato lhe são inerentes. Após penetrar a palavra do outro e nela se instalar, a idéia do autor não entra em choque com a idéia do outro mas a acompanha no sentido que esta assume, fazendo apenas este sentido tornar-se convencional.” (BAKHTIN, 2008, p.221) Enquanto se lê o texto principal, ordenado logicamente por um sujeito da ficção, também se procuram as “intenções” do autor real, suas “metas”. Nas entrelinhas, no subtexto, é que se notarão as ideias do autor diante de um saber do outro, o aparente narrador ou o segundo autor. É preciso colher as pistas deixadas pelo escritor nas entranhas do texto narrado para se entender sua mensagem duplicada. Vejamos, por exemplo, um trecho em que Bentinho descreve o comportamento de uma curiosa Capitu, que desejava ter informações detalhadas sobre a conversa de José Dias e a mãe de Bento sobre a ida do moço ao seminário: Capitu quis que lhe repetisse as respostas todas do agregado, as alterações do gesto e até a pirueta, que apenas lhe contara. Pedia o som das palavras. Era minuciosa e atenta; a narração e o diálogo, tudo parecia remoer consigo. Também se pode dizer que conferia, rotulava e pregava na memória a minha exposição. Esta imagem é porventura melhor que a outra, mas a ótima delas é nenhuma. Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda o não disse, aí fica. Se disse, fica também. Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor, à força de repetição. (Cap. XXXI) O tom assertivo e onisciente com que Bentinho produz sua narração (e descrição) encobre a precariedade de suas informações. As suas afirmações de que Capitu “era minuciosa e atenta”, “tudo parecia remoer consigo” e que “conferia, rotulava e pregava na memória a [sua] exposição” não podem ser garantidas por um narrador que, humanizado, está limitado a um saber apreensível. Somente a própria Capitu ou um narrador divinizado, logo distanciado da ação, poderiam confirmar os seus pensamentos e intenções. As impressões de Bentinho, ou o julgamento que faz da amada, ocupam a cena narrativa 104 Gragoata 28.indb 104 Niterói, n. 28, p. 95-109, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:04 Dom Casmurro e a ironia da formação e produzem uma planejada distorção: o “Capitu parece ser” é tomado como um “Capitu é”. A opinião do personagem-autor sobre a amada é vociferada como a verdade soberana de sua caracterização. Essa verdade, entretanto, se restringe ao plano refratado da ficção em relação ao plano ideal do autor primário, onde estão as “metas” que ele deposita em sua criação textual. Há uma senha para se “acessar” o autor real, no entanto, nas brechas que há no discurso do narrador ou do segundo autor, onde estão as pistas que ele deixa para ser revelado como um “outro” no texto de Bentinho, garantindo o efeito irônico ou refratário da obra. No trecho supracitado, quando diz: “Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor, à força de repetição”, Bento (e, por trás dele, o primário autor) chama à responsabilidade um leitor que pode intervir no discurso. Se há o que se “incutir” no leitor, há provavelmente o que se avaliar como juiz de um processo argumentativo. Se nós, leitores, estamos sendo convencidos por um discurso peremptório, é melhor termos cuidado para considerar os prováveis e improváveis em relação àquilo que nos é apresentado. Essa constatação será a chave para a revelação de que, para além da voz de Bentinho, há um Machado que não se compromete ideologicamente ou axiologicamente com as ideias defendidas por seu personagem. Repensemos, nesse ponto, o caso da ABL aqui mencionado, no qual uma estudante indignava-se com as dúvidas, de outros leitores, acerca do que afirmava o enunciador do romance. O desempenho “retórico” do autor Bentinho foi de tal sorte convincente, que não permitiu à leitora enxergar Machado de Assis fora de cena, nos bastidores, divertindo-se com a criação de um texto que imprimia um tom absoluto à versão pessoal de um sujeito inventado, logo, que tornava geral (por descuido de leitura) aquilo que era singular. A suposta paternidade de Escobar, por ela mencionada, é um lance de mestre do criador ilusionista, um sofisma. Machado fornece ao seu narrador um argumento contundente para advogar em seu favor: o filho era do outro. Para prová-lo, contudo, não há documentos, impressões de outras personagens, nada. Apenas os olhos de Bentinho testemunham em seu favor: Nem só os olhos, mas as restantes feições, a cara, o corpo, a pessoa inteira, iam-se apurando com o tempo. Eram como um debuxo primitivo que o artista vai enchendo e colorindo aos poucos, e a figura entra a ver, sorrir, palpitar, falar quase, até que a família pendula o quadro na parede, em memória do que foi e já não pode ser. Aqui podia ser e era. [...] Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete de manhã, ou pedir-me à noite a bênção do costume. (Cap. CXXXII) Niterói, n. 28, p. 95-109, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 105 105 3/11/2010 19:48:04 Gragoatá Marcelo Brandão Mattos Nesse outro trecho, a afirmação de que as “feições” do filho se iam moldando à semelhança do amigo Escobar é, assim como notamos no trecho anterior a esse, narrada como certa e, com desatenção, pode se tornar inquestionável por parte de um leitor que, despercebido, se enlaça ao orador como se estivesse diante de um altar. É preciso entender a estratégica irônica do autor para procurar o avesso do que é tecido na narração. Mais adiante, por exemplo, quando, após longo período de silêncio, Bentinho confessa a Capitu sua desconfiança sobre a paternidade de Ezequiel, a reação da mulher é descrita não por alguém que a vê, mas por outro que acredita penetrar sua alma e, ciente da sua interioridade, desvendar seus mais secretos pensamentos: Grande foi a estupefação de Capitu, e não menor a indignação que lhe sucedeu, tão naturais ambas que fariam duvidar as primeiras testemunhas de vista do nosso foro. Já ouvi que as há para vários casos, questão de preço; eu não creio, tanto mais que a pessoa que me contou isto acabava de perder uma demanda. Mas, haja ou não testemunhas alugadas, a minha era verdadeira; a própria natureza jurava por si, e eu não queria duvidar dela. Assim que, sem atender à linguagem de Capitu, aos seus gestos, à dor que a retorcia, a cousa nenhuma, repeti as palavras ditas duas vezes com tal resolução que a fizeram afrouxar. (Cap. CXXXVIII) A “estupefação” e a “indignação” de Capitu pareceram grandes aos olhos de Bentinho, por um lado, mas intimamente ele prefere interpretá-las como meros jogos de cena da mulher, “tão naturais ambas que fariam duvidar as primeiras testemunhas de vista do nosso foro”, diz ele. A possessiva primeira pessoa do plural, cuidadosamente encaixada na narração de Bento, mais do que uma majestática pronominalização, busca a cumplicidade do leitor com o que o enunciador defende. O autor, por trás de sua criatura, restringe-se a esperar que um leitor atento note que em momento algum há uma alusão à traição de Capitu que não venha do próprio Bentinho. Ninguém confirma o comportamento inadequado da mulher amada. Não há qualquer insinuação a respeito da índole duvidosa da moça de olhos expressivos, a não ser a menção de José Dias, o “falso” médico – é bom aqui lembrar –, ao fato de que ela, ainda menina, parecia ter “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, outra peçachave na narrativa para desviar os olhos leitores da mensagem machadiana encoberta pelo texto de Bentinho. O autor real, escondido para não ser notado, convoca o leitor a descobri-lo na sombra (ou ressuscitá-lo de uma morte impossível). Provocando-o a levantar-se da passiva poltrona receptora para posicionar-se diante do que lê – a partir do questionamento subjetivo diante da verdade defendida pelo autor secundário –, esse autor marca sua presença e garante o sucesso irônico de sua obra: 106 Gragoata 28.indb 106 Niterói, n. 28, p. 95-109, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:04 Dom Casmurro e a ironia da formação ABANE A CABEÇA, LEITOR Abane a cabeça leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes; tudo é possível. Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página, sem crer por isso na veracidade do autor. (Cap. XLV) Não crer na “veracidade do autor” ficcional é, logicamente, entender o jogo dúbio da autoria romanesca entre o dito e o pretendido. Duvidar do autor secundário é estar pronto para decodificar a ironia que constitui o romance, é aventurar-se por um terreno de mistérios. É preciso escavar o romance de Machado de Assis, para retirar das entranhas o seu fundamento. E, encontrada a ossatura do romance, é necessário estar preparado para conviver com a duplicidade discursiva: dois discursos que duelam por uma existência – qual a verdade da obra? Mais do que procurar uma única resposta, o leitor deverá convencer-se de que está diante de um texto impresso sob a égide de uma simbologia biunívoca, onde vale a dupla significação. Deverá convencer-se de que “O homem não tem um território interior soberano, está todo e sempre na fronteira, olhando para dentro de si ele olha o outro nos olhos ou com os olhos do outro.” (BAKHTIN, 2008, p.323) A apreensão da história de Bentinho, portanto, como discurso enunciado sobre a formação de um indivíduo – dentro da ótica bivalente – deve ser repensada. A sua configuração a partir da premissa de que “as experiências formam o sujeito” é inegável e, por esse motivo, não há que se destituir o livro da condição de romance de formação. Entretanto, na medida em que se reconhecem as intenções (“metas”) irônicas do autor primário na composição do texto, e por isso já se sabe que ele quer mais do que narrar uma trajetória de vida, é preciso entender o processo de formação na obra como parte de um jogo autoral. Entender o percurso de vida de Bentinho, suas experiências e seus aprendizados, é aceitar a composição crível de um enunciador. É, sobretudo, entendê-lo como um sujeito complexo, formado a partir de vozes alheias, enviesado em sua forma de pensar por conta da doutrinária formação recebida. Só conhecendo a história pregressa de Bentinho, conseguimos aceitá-lo como sujeito autônomo (em relação aos outros personagens e ao autor) e identificar o foco refratado de seu discurso para só então procurar as ideias autorais na sua sombra. A construção do sujeito Bentinho, articulada por um autor que não advoga em seu favor, revelar-se-á – nesse contexto – o processo de formação de um ponto de vista. Um entre tantos, a convocar o olhar do leitor para a cena jurídica: Quem está com a razão? Ou, melhor que isso: Onde está a razão? Ela existe por si só? Entendida a complexidade da trama tecida no texto de Machado de Assis, o Niterói, n. 28, p. 95-109, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 107 107 3/11/2010 19:48:04 Gragoatá Marcelo Brandão Mattos leitor terá condecorada a sua condição de maturidade. E só com ela poderá perceber que ele é parte integrante do livro. Afinal, Dom Casmurro é um romance de palavras e silêncios. Silêncios que precisam ser preenchidos ou, nas palavras de Drummond, “poemas que esperam ser escritos”. Abstract: Drawing on the concepts of Bakhtin analysis of the novel form, particularly on the polyphonic discourse, the article proposes a reading of the book by Machado de Assis as a novel of formation, which relies on irony to refract the fictional voice built (or formed) in relation to other voices that might question or deconstruct it. Keywords: Dom Casmurro. Irony. Novel of formation. Dialogism and polyphony. Referências e consultas bibliográficas ADORNO, Theodor W. Notas de literatura I. São Paulo: Duas Cidades. Ed.34, 2003. ASSIS, J. M. Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Ática, 12ª ed., 1981. AUERBACH, Erich. Ensaios de literatura ocidental. Trad. Samuel Titan Jr et ali. Ed. 34: São Paulo, 2007. AUERBACH, E. Mimesis. (Tradutor não mencionado). Ed. 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Niterói, n. 28, p. 95-109, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 109 109 3/11/2010 19:48:05 Gragoata 28.indb 110 3/11/2010 19:48:05 NARRATIVIZAÇÃO E SUBVERSÃO SEXUAL: CONSIDERAÇÕES EM TORNO DE PUIG, ABREU E BAYLY Anselmo Peres Alôs Recebido 17, set. 2009 / Aprovado 29, abr. 2010 Resumo: Este trabalho tem por objetivo a realização de uma análise contrastiva de três romances representativos da problematização da identidade homossexual masculina no continente latino-americano: El beso de la mujer araña (Argentina, 1976), de Manuel Puig; Onde andará Dulce Veiga? (Brasil, 1990), de Caio Fernando Abreu e No se lo digas a nadie (Peru, 1994), de Jaime Bayly. A articulação de uma epistemologia queer permite pensar a textualidade como o lugar de encenação de uma ficção política que questiona os regimes heteronomativos do sexo e do gênero, e propõe uma estratégia de resistência baseada tanto nos corpos e nos prazeres quanto nas políticas de representação e reinvenção das masculinidades e das feminilidades. Tomando os pressupostos feministas, os estudos narratológicos e a teoria/epistemologia queer como sustentação teórica, realiza-se uma leitura crítica desses romances, os quais questionam o regime heteronormativo e investem no potencial subversivo de um lugar de enunciação do discurso literário marcado pela diferença e pela resistência aos dispositivos heteronormativos de regulação das identidades sexuais. Neste sentido, a literatura reescreve tanto o corpo sexual, tido como o lugar da subjetividade individual, quanto o corpo social/ nacional, entendido como uma ficção reguladora das sociabilidades corporais e sexuais. Com vistas a uma poética queer, busca-se evidenciar as contradições e impasses que emergem nos romances, particularmente em relação a questões de raça, classe e gênero, bem como as potencialidades e os pontos problemáticos da poética queer como lugar de intervenção cultural. Palavras-Chave: Narratologia. Literatura latino-americana. Poética queer. Gragoatá Gragoata 28.indb 111 Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:05 Gragoatá Anselmo Peres Alôs I got lots of problems Female trouble Maybe I’m twisted Female trouble They say I’m skank But I don’t care Go ahead! Put me in your electric chair I got lots of problems Female trouble Maybe I’m twisted Female trouble Hey! Spare me your morals Look out for yourself What pleases me is paradise I got lots of problems Female trouble Maybe I’m twisted Female trouble Oink! Oink! Oink! Oink! I’m berserk! I like It! Fine! As long as I’m making headlines Ah! Ah! Ah! Yeah! (Versos de John Waters, cantados por Divine na abertura do filme Female Trouble) A literatura, pensada como instituição, não apenas possibilita a representação dos sujeitos: ela funciona também como uma das relações sociais que os produz. É importante percebê-la não apenas como elaboração estética, mas como artefato cultural, como veículo de representações simbólicas e valores sociais. Muito mais do que a voz singular de um artista, o artefato literário é a expressão de uma determinada perspectiva, de um determinado conjunto de interesses (MCGEE, 1992). As tensões geradas pelas premissas das teorizações gays, lésbicas e feministas são extremamente produtivas para o desenvolvimento de novas estratégias textuais e intertextuais, de forma a minar as bases dos estereótipos sexuais cristalizados na cultura (BUTLER, 1993). Gênero e sexualidade, embora categorias distintas, não devem ser completamente desarticulados, 112 Gragoata 28.indb 112 Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:05 Narrativização e subversão sexual: considerações em torno de Puig, Abreu e Bayly Guiana e Uganda são dois dos países que condenam participantes de “atos homossexuais” à prisão perpétua. Entre aqueles que condenam homossexuais à pena de morte, estão Paquistão, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Irã, Chechênia, Sudão, Afeganistão, Nigéria e Mauritânia. De acordo com levantamento da Anistia Internacional, aproximadamente 70 países possuem legislações nas quais a homossexua l idade é considerada delito grave, com previsão de penas de cinco a dez anos de reclusão. 1 visto que se corre o risco do completo apagamento das relações de poder estabelecidas sob o signo da diferença de gênero. Se por um lado gays e lésbicas sofrem os efeitos do discurso heteronormativo, por outro a pertença ao gênero feminino transforma radicalmente a experiência das lésbicas, diferenciando assim a socialização e, consequentemente, a textualização dos significantes gay e lésbica na literatura (BUTLER, 1999, p. 11-20). Questionar a autonomia do sujeito, instituindo-o como uma posicionalidade, ou ainda, como a construção de um interesse, abre espaço para um debate problematizador das identidades nacionais. Benedict Anderson, em Nação e Consciência Nacional (1989), define as nações como comunidades imaginadas, ou seja, não são elas apenas definidas pelos limites territoriais: elas são também imaginadas e narrativizadas, no sentido de constituir a idéia do pluribus unum, a pertença de todos os cidadãos sob a égide de uma identidade partilhada. A literatura, e em especial o gênero romanesco, tem um importante papel nos processos de “imaginação narrativa” das nacionalidades. Edward Said, por sua vez, afirma que este processo de narrativização – via de regra – institui a identidade nacional como una e monolítica, sem que se dê espaço para as diferenças de classe, de raça, de gênero e de orientação sexual, entre outras (SAID, 1995). Tais diferenças, existentes entre os diferentes sujeitos abrigados sob a égide de uma identidade nacional, quando transformadas em capital cultural através da representação literária, abrem fissuras no interior da comunidade imaginada, expondo o que Bhabha identifica como as fronteiras internas da nação (BHABHA, 1998). Em tempos de nascimento de um imaginário global, planetário, ou ainda, transnacional, cabe destacar que muitos são os desterrados, os exilados, os estrangeiros. Alguns fatos poderiam soar como curiosidade de almanaque, tais como a possibilidade de asilo político por discriminação sexual oferecidos por nações como a Alemanha, a Dinamarca, a Holanda, a Suécia e a Noruega (JORNAL DO NUANCES, 1998, p. 8), ao mesmo tempo em que outras nações condenam legalmente comportamentos homossexuais com a pena de morte ou a prisão perpétua.1 Todavia, ao se pensar na heterogeneidade de tratamentos dada aos homossexuais nos mais diversos contextos nacionais, cabe perguntar: qual o lugar reservado para os outsiders sexuais nesse imaginário planetário? De que maneira é representado, no texto literário, o confronto entre as pertenças nacionais e as pertenças sexuais? Textos literários são artefatos culturais, tecnologias discursivas que produzem e disseminam crenças e valores no espaço social. Na medida em que subjetividades e corpos relegados à condição de abjetos usurpam o lugar de autoria, o lugar da produção de capital simbólico e produzem, através de personagens e narradores, percepções de mundo alternativas nas quais as possibilidades eróticas são exploradas, analisadas Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 113 113 3/11/2010 19:48:05 Gragoatá 2 PROBLEMAS FEMININOS (Female Trouble). Direção e roteiro: John Waters. Estados Unidos, 1974, 35 mm. 97 min. A canção Female Trouble, cantada por Divine no início do filme, é, também, de autoria de John Waters. 3 Em inglês, female trouble é uma expressão popular, utilizada para se falar polidamente da menstruação. 114 Gragoata 28.indb 114 Anselmo Peres Alôs e redimensionadas, tais corpos interferem performaticamente no espaço social. Afinal, se tanto os atos quanto os atributos de gêneros são sempre performativos, “então não há identidade preexistente pela qual um ato ou atributo possa ser medido; não haveria atos de gênero verdadeiros ou falsos, reais ou distorcidos, e a postulação de uma identidade de gênero verdadeira se revelaria uma ficção reguladora” (BUTLER, 2003, p. 201). Se a enunciação literária contribuiu em larga escala para a produção performativa das identidades nacionais em variados contextos históricos e geográficos com sucesso (ALÓS, 2008; 2009), poderia a enunciação literária produzir performativamente novas possibilidades e estratégias políticas para se vivenciar o corpo, o gênero e a sexualidade? Se a crítica literária é sempre judicativa, é mister delinear o locus que produz dados julgamentos, o campo epistemológico norteador daquilo que entendo como produção de conhecimento e os vetores ideológicos aos quais o crítico se alinha (EAGLETON, 1978, 1983). Parte-se aqui do pressuposto de que as concepções teóricas envolvidas na tarefa de crítica e interpretação revelam quais os compromissos intelectuais assumidos pelo pesquisador. É a partir deste lugar que se realiza uma aproximação intertextual entre os romances El beso de la mujer araña, do argentino Manuel Puig (1976), Onde andará Dulce Veiga?, do brasileiro Caio Fernando Abreu (1990) e No se lo digas a nadie, do peruano Jaime Bayly (1994). Hugo Achugar, intelectual uruguaio, afirma categoricamente que “se não tenho a liberdade de escrever o que me dá vontade, não faz sentido escrever [...] Em algum lugar, preciso defender a escrita como um espaço de liberdade” (ACHUGAR, 2006, p. 22). Pensar a identidade de gênero como performativa permite pensar, ainda que metaforicamente, que performativizar um determinado gênero é escrever socialmente um determinado gênero. Obviamente, subverter o gênero através dessas paródicas performances do masculino e do feminino não soluciona completamente o problema. Pelo contrário, cria novos problemas a serem resolvidos, problemas que a drag queen Divine, na canção de abertura de um famoso filme de John Waters,2 chama, com toda sua autoridade de travesti, de female trouble. No momento em que um homem homossexual traveste-se e afirma que tem “problemas femininos”, tem-se o elemento cabal para afirmar que a subversão não solucionou o problema de gênero. Afinal, nada mais problemático do que um homem – ainda que travestido – afirmar que tem “problemas femininos”.3 Todavia, a subversão do gênero cria, junto com estes outros problemas, outras maneiras – disjuntivas, alternativas, performativas – de se lidar com os antigos. Novas maneiras para ler-se não apenas os “problemas de gênero” da ficção de Manuel Puig, Caio Fernando Abreu e Jaime Bayly, mas também – por que não? – novas maneiras Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:05 Narrativização e subversão sexual: considerações em torno de Puig, Abreu e Bayly para se interpretar a obra Masculino y Femenino, de Osvaldo Salerno, uma polêmica instalação projetada para ser exibida nas portas dos banheiros da V Bienal do MERCOSUL, ocorrida em Porto Alegre, em 2005 (Fig. 1). Ou ainda, novas maneiras para se compreender a identidade de gênero de performers como Divine, a diva drag avant la lettre de Baltimore (Fig. 2), e também de tantas outras drags anônimas em seu luxo, em seu deboche e em seu descaramento, que, de tão políticas e subversivas em suas performances, não raro são espancadas e assassinadas com requintes de crueldade.4 Figura 1: Masculino y Femenino Osvaldo Salerno (artista plástico paraguaio) Intervenção do artista em sanitários ecológicos (Usina do Gasômetro) Quinta Bienal do Mercosul Porto Alegre, 2005 Foto: Anselmo Peres Alós De acordo com o Grupo Gay da Bahia, a cada dois dias um homossexual é assassinado no Brasil. Cabe destacar que as maiores vítimas da violência homofóbica são as travestis e as drag queens das classes sociais menos abastadas. 4 Se tanto o social quanto o histórico intervêm nos processos de significação do texto literário, pode o literário intervir no histórico e no social? Se o social está implicado no literário, cabe perguntar: poderia então a linguagem poética servir como lugar de investimento político de resistência, no qual a heteronormatividade pudesse ser contestada e subvertida? Através de quais estratégias tal investimento é tornado possível, e com que resultados? Poder-se-ia afirmar que os romances latino-americanos escritos por homens não-heterossexuais endossariam uma postura de afirmação identitária, a partir dos modelos propostos Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 115 115 3/11/2010 19:48:07 Gragoatá Anselmo Peres Alôs pelas subculturas gays “herdeiras” do levante do Stonewall Inn em 1969, ou ainda que, em sua escrita, autores como Manuel Puig, Caio Fernando Abreu e Jaime Bayly estariam preocupados em denunciar a violência homofóbica (seja ela física ou simbólica) no contexto das nações latino-americanas. Mesmo que tais assertivas estejam parcialmente corretas, elas se revelam um tanto reducionistas, frente às complexas problemáticas abordadas por estes três escritores. Figura 2: Cartaz de divulgação do filme Female Trouble, de John Waters (1974). (Em primeiro plano, a drag queen Divine, a grande diva de John Waters). 116 Gragoata 28.indb 116 Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:10 Narrativização e subversão sexual: considerações em torno de Puig, Abreu e Bayly Se é possível afirmar que as apostas em estratégias de visibilidade estão presentes, em maior ou menor grau, nas três narrativas aqui analisadas, também o é afirmar que o investimento político em uma identidade gay centrada e monolítica é contestado, problematizado e mesmo refutado, particularmente no romance Onde andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu. O narrador-protagonista do romance, que sequer é portador de um nome, apresenta uma postura de contestação e resistência – frente às tentativas sugeridas por outros personagens – de se enquadrar em um modelo prêt-à-porter de identidade homossexual masculina. Tal recusa a este modelo identitário hegemônico encontra ecos no gênero performativizado por Molina, personagem de El beso de la mujer araña. Molina consegue, ao mesmo tempo, questionar e subverter tanto o modelo heteronormativo de sexualidade quanto desafiar as estruturas sociais que julgam o sistema hierárquico de gênero como um binarismo restrito ao determinismo biológico. Uma vez que as categorias homem e mulher são desnaturalizadas e passam a ser vistas como dispositivos sociais, nada impediria, em princípio, que cada um desses personagens “assumisse” o gênero que mais lhe fosse conveniente. Assim sendo, por que as categorias homem e mulher continuam pautando, de maneira reiterada, os significados sociais que são atribuídos às performances identitárias de homens e mulheres homossexuais? Cabe aqui rememorar as reflexões realizadas por Monique Wittig (2002), ao afirmar que esta divisão binária somente faz sentido no interior de uma economia simbólica balizada nos imperativos de uma heterossexualidade compulsória, na qual o sistema sexo-gênero se resume a uma oposição hierárquica do gênero masculino ao gênero feminino. Atrelada à divisão binária dos gêneros, encontra-se também aquilo que Judith Butler (2003) chamou de matriz heterossexual, um esquema lógico que, a partir do binarismo fundacional do gênero e da lógica “biologizante” da reprodução sexual, legitima a heterossexualidade e torna a homossexualidade uma expressão libidinal abjeta. A obra de Jaime Bayly permite que se esboce uma resposta para esta primeira questão. No se lo digas a nadie, romance de estréia de Bayly, é apresentado predominantemente por um focalizador cuja localização na hierarquia socioeconômica e racial é privilegiada. A estruturação do universo familiar patriarcal no qual Joaquín Camino está inserido indica que, conjuntamente com os preceitos modalizadores do discurso hegemônico da masculinidade, estão implicadas questões relativas ao prestígio social e à dominação racial. Abrir mão da identidade masculina hegemônica é abrir mão dos privilégios de ser homem no contexto de uma sociedade patriarcal. Fragilizar esta masculinidade, tal como é pressuposta, tem como consequência a abertura de fissuras para que outras vozes também subalternizadas – e não Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 117 117 3/11/2010 19:48:10 Gragoatá Anselmo Peres Alôs somente aquelas que o foram pela lógica heteronormativa – questionem a primazia e a legitimidade da hegemonia branca, masculinista, economicamente mais favorecida e heterossexual. Admitir a existência de algo além, ocupando o entre-lugar formado pela intersecção do masculino e do feminino, abre espaço para que o edifício retórico construído com vistas a naturalizar a heterossexualidade como a única expressão sexual legítima comece a ser desmantelado através do discurso ficcional. Ao questionar os binarismos em torno da construção social das categorias corpo, gênero e orientação sexual, o corpus analisado questiona o próprio lugar epistemológico a partir do qual se produz o conhecimento que legitima os arranjos binários da identidade de gênero e das práticas sexuais. O mais paradigmático enunciado a desestabilizar as categorias analíticas do pensamento hetero (WITTIG, 2002) é aquele inscrito em uma camiseta vestida pelo personagem Joaquín Camino, com a deliberada intenção de provocar a sua mãe: “I can’t even think straight” (BAYLY, 2003, p. 326). Já o narrador-protagonista de Onde andará Dulce Veiga?, por sua vez, dispõe de ampla liberdade para transitar no “espaço aberto” da metrópole paulistana. Mesmo que este personagem questione a fixidez das identidades heteronormativas e homonormativas, o desfecho do romance sinaliza uma mudança interior que liberta o personagem das amarras identitárias, mas não configura um embate direto com as formações ideológicas normativas no espaço social construído pelo narrador. Nesse sentido, a composição do texto literário na obra de Caio Fernando Abreu mobiliza um narrador interno (autodiegético) com alternâncias entre os regimes de focalização interna e externa. Tal artimanha narrativa permite a enunciação de um personagem conflitante e ambivalente, ao mesmo tempo em que evidencia um processo de constituição performativa da identidade sexual do mesmo. As aparentes contradições entre as ações do personagem e o discurso do narrador são resultantes da apresentação de um narrador com um duplo status: como narrador, o jornalista tem pleno conhecimento do desenrolar da história no tempo; como personagem, suas percepções são parciais. Apenas ao final do romance é que há uma co-incidência entre protagonista e narrador. Joaquín Camino, por sua vez, deseja agir sobre estas formações ideológicas, em especial sobre os discursos do patriarcalismo branco e da moral religiosa, para poder enunciar, ainda que a contrapelo, a sua identidade sexual. Porém, ao mesmo tempo em que assume uma postura combativa com relação à heteronormatividade, o jovem mantém uma postura situacionista no que diz respeito aos privilégios que lhe são assegurados por seu pertencimento à elite branca de seu país. Joaquín opõe-se aos modelos patriarcais de família e de masculinidade que lhe são impostos desde a infância e, do mesmo modo, interroga critica118 Gragoata 28.indb 118 Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:10 Narrativização e subversão sexual: considerações em torno de Puig, Abreu e Bayly mente o conformismo de outros personagens, como Gonzalo e Alfonso, em especial a vivência de doble vidas, as quais permitem assegurar as benesses de se viver publicamente como um homem heterossexual, relegando a homossexualidade a uma questão de foro íntimo. Contudo, Joaquín termina optando pelo autoexílio em Miami, nos gay friendly Estados Unidos. Ao invés de se posicionar contra os privilégios de sua classe, o personagem utiliza-os para assegurar uma pacata vida em Miami, vivendo em um apartamento de propriedade da família. É importante não confundir homossociabilidade com homossexualidade. Sendo a homossociabilidade entendida como a sociabilidade estabelecida entre homens, cabe ressaltar que ela é um importante aspecto na manutenção de uma cultura patriarcal. Ao pensar a homossociabilidade entre homens heterossexuais, fica evidente o papel que a homofobia e o sexismo têm na manutenção desse continuum de relações sociais. Isto é de extrema importância para que se possa compreender como e por que motivos o imperativo homossocial masculino por vezes reitera, reforça e legitima a opressão contra as mulheres: I am not assuming or arguing either that patriarchal power is primarly or necessarily homosexual (as distinct from homosocial), or that male homosexual desire has a primary or necessary relationship to misogyny. Either of those arguments would be homophobic and, I believe, inaccurate. I will, however, be arguing that homophobia directed by men against men is misogynistic, and perhaps transhistorically so. (By “misogynistic” I mean not only that it is oppressive of the socalled feminine in men, but that it is oppressive of women) (SEDGWICK, 1990, p. 20). Estes efeitos misóginos da homossociabilidade masculina são importantes para que se compreendam as aparentes contradições nos romances aqui analisados. Em No se lo digas a nadie, ainda que haja a emancipação do personagem Joaquín frente aos valores cultivados por sua família, as mulheres estão sempre subordinadas. Maricucha, a mãe de Joaquín, está ao mesmo tempo subordinada aos valores da direita católica (representados por sua afiliação ao Opus Dei) e à figura de Luis Felipe. Joaquín, por sua vez, é complacente com a violência homossocial em pelo menos dois momentos: quando presencia o espancamento de uma travesti no parque (BAYLY, 2003, p. 225-231), e quando tenta forçar uma garota a fazer sexo oral em troca de cocaína (BAYLY, 2003, p. 248-251). O mesmo ocorre quando o protagonista de Onde andará Dulce Veiga? faz sexo com uma prostituta (ABREU, 1990, p. 110111) ou emite seu juízo de valor com respeito às integrantes do grupo Vaginas Dentatas, ao ouvir pela primeira vez o nome do grupo: “Sapatas, sexistas, adolescentes rebeldes sem causa nem conseqüência” (ABREU, 1990, p. 16). Aqui, mais uma vez, Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 119 119 3/11/2010 19:48:11 Gragoatá Anselmo Peres Alôs é a distinção entre narrador e focalizador que permite constatar uma possível ambivalência do texto, a qual apontaria para duas possíveis leituras. Sabendo que o narrador está enunciando o seu discurso do mesmo lugar que o protagonista, descobre-se, ao final do romance, que o narrador amava e estimava quase todos os outros personagens, fato que se evidencia com a “visão” que este tem em Estrela do Norte: “no centro da minha testa, havia um ponto como a lente na extremidade de um telescópio que eu apontava para as pessoas que eu amava, e que estavam distantes. [...] Voltei-as na direção de Pedro, mas estavam embaçadas” (ABREU, 1990, p. 211). Este “embaçamento”, como oposição à “clareza” com que o narrador pode ver todos os outros personagens, instaura uma dúvida. Posto que a “lente” lhe permite “ver à distância” àqueles que ama, isto poderia ser lido como: a) uma certa “obscuridade” em relação aos sentimentos nutridos por Pedro (seu primeiro amante); ou b) assinalar a morte do amante em decorrência da infecção pelo vírus HIV. Uma vez que, ao final da história, o narrador explicita não haver dúvida alguma sobre os sentimentos que nutria por Pedro, confirma-se a segunda hipótese. Quais seriam, pois, os ideologemas que sustentam a textualização de uma poética queer? Os ideologemas surgem de temas e estratégias discursivas recorrentes nos romances em questão, entendidos como eixos de análise. A partir da leitura dos romances de Manuel Puig, Caio Fernando Abreu e Jayme Bayly, é possível identificar a recorrência de três pontos fundamentais: a) o esforço de se construir um lugar de enunciação literária marcado pelo queer; b) as disjunções entre corpo, gênero e sexualidade; e c) a problematização da identidade e do pertencimento nacional a partir do desejo pelo reconhecimento. Ou, de maneira simplificada, o ideologema da letra, o ideologema do corpo e o ideologema do desejo. Sob o signo da letra, articula-se um ideologema no qual a escrita literária é problematizada a partir de um locus de enunciação consciente de suas implicações políticas mais amplas. Reivindica-se, através do alcance e da legitimidade do discurso literário, o exercício narrativo como um ato performativo, capaz de intervir no social através da projeção de novas configurações de identidade sexual e de gênero. Se para Fredric Jameson (1992, p. 15-103), a interpretação é um ato socialmente simbólico, para os narradores construídos por Puig, Abreu e Bayly a escritura também é um ato socialmente simbólico, com a capacidade de dialogar, desestruturar e subverter os saberes institucionalizados pelos discursos da biologia, da religião e da psicologia, bem como os saberes hegemônicos que circulam sob o rótulo de senso comum. No romance de Puig, o investimento na escrita e em seu potencial disjuntivo com relação aos saberes hegemônicos é 120 Gragoata 28.indb 120 Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:11 Narrativização e subversão sexual: considerações em torno de Puig, Abreu e Bayly Sexualidad y revolución, livro citado por Puig nas notas de rodapé de El beso de la mujer araña, é uma invenção ficcional interna à diegese do romance, tal como o próprio Puig afirma em entrevista a José Amícola e Manfred Engelbert. Esta entrevista foi incluída como apêndice em AMÍCOLA, 1992, p. 270-296. 5 evidenciado pela dobra textual que divide El beso de la mujer araña em dois. Paralelamente à ação apresentada no enredo, que toma como base a temporalidade necessária para o estabelecimento dos diálogos entre Molina e Valentín, as notas de rodapé estabelecem uma dobra textual externa ao enredo (mas interna à narrativa, pelo viés da enunciação do discurso romanesco), na qual a legitimidade do discurso científico é subvertida e substituída pelo discurso “científico” de um personagem. Depois de uma extensa tarefa de revisão bibliográfica com relação ao tema da homossexualidade, o narrador externo (extradiegético), presente nas notas de rodapé, abre espaço para que o livro Sexualidad y revolución (título sintomático da “revolução” que o narrador almeja para a questão da homossexualidade) apresente uma possibilidade para que se compreenda a homossexualidade como um ato de insubordinação frente às hierarquias opressivas a delinear a “coerência” das identidades de sexo e de gênero.5 Em Onde andará Dulce Veiga?, a credibilidade da escritura como processo de constituição identitária é tão forte que o narrador-protagonista chega a cunhar uma peculiar ideia do que concebe por “deus” ou “divindade”, quando afirma ter perdido “o vício paranóico de estar sendo sempre filmado ou avaliado por um deus de olhos multifacetados, como os das moscas, mas não o de estar sendo escrito” (ABREU, 1990, p. 13 - grifo meu). À afirmação final do narrador no romance de Abreu “e eu comecei a cantar” (ABREU, 1990, p. 213), pode ser atribuído o caráter metafórico de e eu comecei a escrever. Em última instância, de nada valeria a experiência vivida se a ela não fosse possível atribuir sentido através de um processo de narrativização, o qual a torna passível de ser compartilhada e lhe dá a permanência e a legitimidade da letra escrita, permitindo a instituição de novas possibilidades identitárias sob a forma de capital cultural. Ao se levar em consideração a assertiva de que a cultura nada mais é do que o conjunto de narrativas que contamos a nós mesmos sobre nós mesmos, e sobre os outros, deduz-se que narrar a si mesmo equivale não apenas a um questionamento individual sobre os saberes e a cultura, mas à produção de novas modalidades de saber. Ao contrário dos romances de Puig e de Abreu, que abordam o tema da intervenção social através da escrita dentro de suas narrativas, em No se lo digas a nadie é um elemento paratextual que anuncia o papel subversivo da escritura. Antes mesmo de dar início à atividade de narrativização da trajetória de Joaquín Camino, há uma advertência no livro, que permite identificar a projeção do autor como significante no romance: “las historias que aquí se narran solo ocurrieron en la imaginación del autor; qualquier semejanza con la realidad es pura coincidencia” (BAYLY, 1994, p. 4). É Mikhail Bakhtin, contudo, que nos alerta para o fato de que, por trás das palavras do narrador, aloja-se o Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 121 121 3/11/2010 19:48:11 Gragoatá Anselmo Peres Alôs juízo de valor do próprio autor, de maneira que tal advertência, ao invés de dissipar o conteúdo ideológico do discurso do narrador, o evidencia: “o autor se realiza e realiza o seu ponto de vista não só no narrador, no seu discurso e na sua linguagem [...] mas também no objeto da narração, e realiza também o ponto de vista do narrador. Por trás do relato do narrador nós lemos um segundo, o relato do autor sobre o que narra o narrador” (BAKHTIN, 1998, p. 118). Se o autor de No se lo digas a nadie afasta-se, em sua advertência ao leitor, do narrador que criou para conduzir sua narrativa, é justamente porque a este narrador é atribuída autoridade para apresentar o enredo como textualização da sociedade, através da legitimidade da instituição literária. É porque prevê o impacto de sua escrita no meio social que o autor salienta seu distanciamento com relação ao narrador engendrado na escrita literária. Tal narrador, por sua vez, manifesta um desacordo tácito com as ideologias nacionalistas (as quais subscrevem as hierarquias de gênero, a premissa heteronormativa, a manutenção do modelo hegemônico de masculinidade, o racismo e o preconceito de classe) do universo que narra. É na contra-identificação do narrador com Luis Felipe e Maricucha, em oposição à identificação solidária com o personagem Joaquín, que se dá a perceber a intervenção cultural operada pelo narrador. Como função textual e pluridiscursiva, o ideologema do corpo refrata os discursos médico, jurídico e psiquiátrico sobre os limites do corpo biológico, bem como a sua inscrição na cultura como significante social. Para Manuel Puig, importa problematizar o regime binário dos corpos sexuados, os quais são tomados como determinantes na constituição do gênero. A subversão do ideologema do corpo em Puig se dá, contudo, na composição de um personagem, Molina, o qual transita entre o gênero masculino e o gênero feminino, a despeito da materialidade do seu corpo biológico masculino. O investimento no corpo como signo de resistência política também é operacionalizado na construção do personagem Valentín, o qual, mesmo estando mergulhado profundamente nos pressupostos de uma masculinidade heterossexual, tem uma aguda percepção do corpo como um lugar de resistência política, uma vez que é através da tortura do corpo que o aparato estatal repressivo tenta disciplinar o guerrilheiro. Puig, Abreu e Bayly sugerem, por meio das vozes narrativas que constituem seus romances, que as imposturas com relação à performatividade do gênero embaçam a legibilidade cultural de certos corpos: os corpos não-heterossexuais. O efeminamento de Molina e a sua orientação sexual colaboram para que Valentín não reconheça a imaginação de Molina como um procedimento cognoscente válido para compreender a tortura, ao mesmo tempo em que Valentín considera a sua própria imaginação como recurso dotado de validade epistemológica para conhecer a verdade sexual do corpo de seu 122 Gragoata 28.indb 122 Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:11 Narrativização e subversão sexual: considerações em torno de Puig, Abreu e Bayly A disforia de gênero (também chamada de “t ranstorno da identidade de gênero”) é caracterizada pelo DSM I V ( D i ag n o s t i c a n d Statistical Manual of Mental Disorders, publicado pela American Psychiatric Association) como um dos transtornos mentais envolvendo identidade e comportamento sexuais. 6 companheiro de cela. Comportamento análogo ao de Valentín é descrito pelo narrador de Onde andará Dulce Veiga?, com relação ao personagem Jacyr(a), na primeira metade do romance. Mesmo que o narrador não compactue com o juízo de valor que apresenta – o que pode ser indiciado na ironia utilizada pelo mesmo – ele denuncia, através dos olhares de soslaio das velhinhas de preto que residem no edifício, a repulsa silenciosa delas com relação ao filho travesti de Jandira de Xangô. “Desviar-se” da identidade de gênero auspiciada pelo seu sexo biológico condena Jacyr(a) a uma condição de degeneração, de marginalidade e de abjeção (no sentido que Judith Butler dá à expressão), o que equivale, em última análise, a condenar o mulato travesti a uma condição de “sujeito de segunda categoria”, quando não de “não-sujeito”, isto é, de sujeito-abjeto. Para Caio Fernando Abreu, o corpo é visto como a matéria-prima que, através de uma “ascese do eu” (ou ainda, de uma tecnologia de subjetivação), servirá como instrumento para se escapar às teias da heteronormatividade. Tal estratégia está representada na proliferação das possibilidades eróticas por parte do protagonista, incluindo-se aí a masturbação, o intercurso sexual com homens e algumas “aventuras” com mulheres. Estes usos do corpo não visam exclusivamente a um gozo de ordem libidinal, visto que também configuram práticas de subjetivação a contrapelo dos discursos heteronormativos. O personagem Jacyr(a) ora se apresenta como homem, ora como Jacyra, assinalando também um reflexo contestatório, na medida em que suas performances de gênero desestabilizam o continuum “sexo – gênero – desejo (heterossexual)” pressuposto pelos discursos hegemônicos que postulam uma identidade de gênero “coerente”. Declinando-se ora no feminino, ora no masculino, Jacyr(a) pleiteia o direito à autodeterminação de identidade de gênero, colocando em xeque o caráter de transtorno psicológico utilizado pelo discurso psiquiátrico para caracterizar a disforia de gênero.6 Finalmente, Jaime Bayly, ao construir o personagem Joaquín, explicita o fato de que, em sociedades masculinistas como a peruana, não é sequer necessário transpor a barreira entre o masculino e o feminino para que o sujeito sofra retaliação. Em No se lo digas a nadie, pequenos indícios de subversão ao modelo hegemônico de masculinidade acionam os dispositivos ideológicos que se materializam no discurso disciplinador da escola e no discurso classificatório da Igreja Católica (o qual sequer pode ser chamado de “salvacionista”, uma vez que a divisão entre “virtuosos” vs. “pecaminosos” premia os primeiros, condenando os segundos ao inferno). A abjeção com relação aos que não desempenham corretamente suas identidades de gênero, tais como as travestis que vivem do trottoir, é apresentada pelo narrador de maneira mais explícita do que nos romances de Abreu ou Puig. No romance de Bayly, a heteronormatividade Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 123 123 3/11/2010 19:48:11 Gragoatá Anselmo Peres Alôs é denunciada através da faceta cruel do discurso homofóbico, que não raro “materializa” seus efeitos através da humilhação verbal, da retaliação e da violência física. É denunciada assim a condição abjeta daqueles corpos que não cumprem de maneira adequada os seus papéis de gênero. A violência homofóbica está representada na obra de Jaime Bayly quando Gustavo, Juan Ignácio e Joaquín, em pleno frenesi causado pelo consumo de cocaína, saem pela noite a espancar travestis. O exercício da sexualidade, acoplado a uma performance disjuntiva de gênero, transforma o corpo das travestis em abjeções ininteligíveis para a “mentalidade hetero”. Destarte, são os corpos das travestis que demarcam, para os personagens Gustavo e Juan Ignácio, os limites da legibilidade cultural das performances de gênero. Se é verdade que, em No se lo digas a nadie, deflagra-se certa tolerância com relação às práticas homossexuais veladas, tais como as de Alfonso ou Gonzalo, também é verdade que elas são aceitas na exata medida em que compactuam com o status quo, ao não deslocar o limite imposto pelas pressuposições relativas à identidade de gênero masculina. As travestis, por sua vez, são consideradas como a escória dentre todos os outsiders sexuais: tal juízo está tão arraigado no pensamento de Gustavo e Juan Ignácio que ambos chegam a associar a idéia de extermínio das travestis a uma prática supostamente ufanista, ao declararem “matemos un cabro, hagamos pátria” (BAYLY, 2003, p. 230). De acordo com Teresa de Lauretis, “the relation of narrative and desire must be sougth within the specificity of a textual practise, where it is materially inscribed” (DE LAURETIS, 1984, p. 106). Pensar o desejo implicado na estrutura narrativa requer, por extensão, considerar que “the very work of narrativity is the engagement of the subject in certain positionalities of meaning and desire” (DE LAURETIS, 1984, p. 106). É nesse sentido que se compreende o ideologema do desejo: a articulação de uma narrativa sempre se dá a partir de uma posicionalidade do sujeito, a qual envolve o desejo e a produção de significados. Assim, a função intertextual identificada no corpus sob a égide do desejo é a de que, ao se representar, no texto literário, um significado para a especificidade de se viver socialmente uma identidade sexual subalternizada, tal especificidade é articulada a partir de um desejo por reconhecimento. Puig, ao deslocar o narrador para as notas de rodapé, coloca os significados instituídos pelo discurso ficcional em paridade com o discurso científico sobre a homossexualidade, como estratégia para legitimar a enunciação de seu narrador (que subscreve a idéia de que a homossexualidade pode configurar um posicionamento revolucionário). Ao mascarar o locus do narrador através da criação de uma “personagem” sexóloga, o narrador de Puig reivindica um terceiro espaço de produção de saber, no qual seja possível a síntese entre a revolução política e a revolução sexual. 124 Gragoata 28.indb 124 Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:12 Narrativização e subversão sexual: considerações em torno de Puig, Abreu e Bayly No romance de Caio Fernando Abreu, a narrativização das experiências vividas por um narrador interno a posteriori desvela um investimento político diferenciado na busca pela autoridade narrativa. Ao invés de deslocar o narrador para uma dobra textual, como Puig, Abreu lança mão da experiência vivida pelo narrador-protagonista para legitimar os significados que este produz ao narrar sua própria história. Tal hipótese pode ser comprovada a partir de uma fala da personagem Dulce Veiga, depois que o jornalista a encontra, em Estrela do Norte: “diga o que você quiser, faça o que você quiser. Não diga nada, se achar melhor. Minta, não será pecado. Mas se contar tudo, não esqueça de dizer que sou feliz aqui. Longe de tudo, perto do meu canto” (ABREU, 1990, p. 212 – grifo meu). O narrador de Abreu, efetivamente, conta tudo, mas por quê? Mais do que o desejo de narrar a descoberta do paradeiro de Dulce Veiga, a cantora desaparecida, é o desejo de contar a sua própria história, e de ter sua identidade (ainda que precária e provisória) reconhecida através de sua narrativa, que o mobiliza em seu papel de narrador. Está implícito, neste gesto, o desejo do narrador de ser reconhecido em suas especificidades que o constituem como sujeito histórico por aqueles que lerão a sua história. Jaime Bayly, por sua vez, recorre a um narrador externo, supostamente neutro com relação aos fatos narrados, na tentativa de evocar o distanciamento entre autor e narrador, bem como entre narrador e personagens, para asseverar os juízos implícitos na voz narrativa. Todavia, como foi possível depreender da análise da conjunção de um narrador externo com um focalizador interno (ao final do romance), desvela-se o fato de que o narrador subscreve o ponto de vista do protagonista. Uma vez mais, o desejo por reconhecimento se mostra constitutivo da narratividade do texto, dado que o narrador se pretende livre de comprometimentos para que seu dizer seja reconhecido como uma verdade que aspira à legibilidade social. Através de seus romances, Manuel Puig, Caio Fernando Abreu e Jaime Bayly projetam uma mesma intencionalidade: a de engendrar significados sociais que textualizem as práticas homossexuais entre homens, deslocando e relativizando os preceitos identitários ditados pela matriz heteronormativa. Destarte, o texto ficcional se faz uma ficção política, na medida em que aciona o desejo de intervenção na cultura a partir da práxis cultural. Em última análise, a leitura comparativa destes três romances evidencia que, tomando por base uma análise dos procedimentos narrativos, é possível apreender as apostas políticas subjacentes em um texto literário. Tal como salienta Bakhtin, “o sujeito que fala no romance [o narrador] é sempre, em certo grau, um ideólogo, e suas palavras são sempre um ideologema. Uma linguagem particular sobre o mundo representa Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 125 125 3/11/2010 19:48:12 Gragoatá Anselmo Peres Alôs sempre um ponto de vista particular sobre o mundo, que aspira a um significado social” (BAKHTIN, 1998, p. 135). Cabe ainda perguntar, contudo, se o investimento político em representações sociais subversivas (as quais desnudam as opressões sofridas pelos outsiders sexuais latino-americanos, bem como as ambivalências com as quais tais sujeitos se deparam) poderia funcionar como mecanismo de intervenção cultural. Conseguiria a literatura redimensionar as estruturas de pensamento mobilizadas para a interpretação desses sujeitos sociais na literatura representados? Fredric Jameson pergunta-se: “o texto é um objeto autônomo ou ‘reflete’ um contexto ou campo e, neste segundo caso, apenas repete ideologicamente esse contexto ou campo, ou possui um acerta força autônoma graças à qual poderia ser visto como uma negação desse contexto?” (JAMESON, 1992, p. 34). Uma vez que os artefatos culturais são aqui compreendidos, tal como sugere Jameson, como atos socialmente simbólicos, e que a literatura pode ser vista como um artefato cultural de caráter performativo, é legítimo e procedente afirmar que as representações subversivas da sexualidade na literatura não funcionam apenas como a negação de um contexto social heteronormativo. Mais do que simplesmente negar esse contexto, elas assumem o caráter de intervenção, já que narrativizam o mundo, as vivências e as maneiras pelas quais os indivíduos se organizam coletivamente, construindo novos sentidos para as práticas sexuais socialmente relegadas ao plano da abjeção. Ao narrar as trajetórias de personagens como Molina, que reivindica a autodeterminação de gênero, como Joaquín, que luta pelo reconhecimento de sua sexualidade no seio da família e da comunidade nacional a qual pertence, ou como o jornalista anônimo que refuta as identidades homossexuais pré-determinadas, estes narradores criam um capital cultural subversivo, o qual erode a legitimidade monolítica das identidades sexuais, abrindo novas possibilidades de auto-reconhecimento para os sujeitos sociais através da literatura. É em torno deste projeto que é estético, mas também ético, que os ideologemas da letra, do corpo e do desejo se superpõem, fazendo do texto literário uma tecnologia de subjetivação na qual, através da leitura, sujeitos outrora ininteligíveis reconheçam a si mesmos como sujeitos plenos, reescrevendo-se de maneira reiterada no campo das representações culturais a partir da politização dos usos do corpo, do cultivo dos prazeres e da busca por afeto. Abstract: This paper aims at analyzing in a contrastive way three representative novels of the problematic of 126 Gragoata 28.indb 126 Niterói, n. 28, p. 111-128, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:12 Narrativização e subversão sexual: considerações em torno de Puig, Abreu e Bayly the male homosexual identity in Latin America: Manuel Puig’s El beso de la mujer araña (Argentine, 1976), Caio Fernando Abreu’s Onde andará Dulce Veiga? (Brazil, 1990) and Jaime Bayly’s No se lo digas a nadie (Peru, 1994). The articulation of a queer epistemology allows us to think about textuality as a place of dramatization of a politic fiction that questions the heteronormative patterns of sex and gender, and proposes a strategy of resistance based both on bodies and pleasures and on politics of representation and reinvention of masculinities and femininities. Taking feminist assumptions, narratology and queer theory/epistemology as theoretical basis, it is made a critical reading of these novels, which are presented against the heteronormative model and invest in the subversive potential of a place of enunciation in the literary discourse marked by difference and resistance to the heteronormative disposals of regulation of sexual identities. At last, the contradictions and impasses that emerge from the novels are analyzed, particularly in which concerns questions of race, class and gender, as well as the potentialities and problematic points of a queer poetics as a place of cultural intervention. 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Abjeção Gragoatá Gragoata 28.indb 129 Niterói, n. 28, p. 129-139, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:12 Gragoatá Aqui aludo à conhecida interpretação de Lyotard em O Pós-Moderno (1986). 1 130 Gragoata 28.indb 130 Ângela Maria Dias A ausência de bússolas existenciais, característica da condição pós-moderna, em função do esclerosamento das grandes narrativas da modernidade,1 pode explicar os surtos de violência atual, na forma de protestos vazios de significações, como, por exemplo, os que ocorreram nos subúrbios parisienses, no outono de 2005. Mas, sobretudo, pode conduzir à apreensão de dois fenômenos cruciais e co-relacionados que, do meu ponto de vista, polarizam as manifestações artísticas e culturais da contemporaneidade: o luto(e/ou a melancolia) e o trauma. A produção artística e literária marcada pelo luto adota o ponto de vista da melancolia, em relação à alteridade. Assim como o constata Benjamin, na estratégia alegórica, o olhar paralisado fita com indiferença a paisagem petrificada da História, ao considerar sua dinâmica como “fora dos eixos”. Um outro tipo de tendência ficcional desenvolve-se em torno do trauma, entendido por Lacan “como um encontro falhado com o real”, na medida em que, conforme o enfatiza Hal Foster, “o real não pode ser representado, mas somente repetido e necessariamente repetido por compulsão” (Foster, p.132). Comentando sobre a obra de Warhol, Foster firma que a repetição implicada no processo traumático é simultaneamente um esvaziamento de significação e uma defesa contra o afeto, por isso, além de não causar um efeito restaurador, o trauma manifesta uma obsessiva fixação num evento tratado então, como objeto de melancolia. Neste sentido, embora reconheça a especificidade de cada fenômeno, surpreendo uma insuspeita implicação entre trauma e melancolia. Se a alegoria é a expressão privilegiada da melancolia, o trauma prefere um tipo de ficção marcada pela perspectiva da abjeção,como um tipo de escrita debruçada sobre a dissolvência de limites e identidades. Nesse sentido, o ponto de vista da indeterminação abjeta constitui a contrapartida à violência da técnica no corpo humano, destroçado na guerra e desterritorializado pelas próteses da velocidade e da comunicação, na cidade moderna. Entendida como modo produtivo e paradoxal, a abjeção conturba a sequência narrativa, desintegra a inteireza da obra e obsta a distância crítica, tanto na economia da composição, quanto na da recepção. Baudelaire inaugura uma nova era na literatura quando integra, em sua poesia, a fascinação paradoxal pela vida urbana, além de inscrever, na própria obra, a violência processada pela técnica contra o corpo, e, a partir de então, conceber a escrita como um rito sacrificial. Daí em diante, a melancolia e o trauma, na condição de molduras ubíquas de construção formal, têm partilhado a lógica auto-sacrificial, tanto como ritual estético auto-reflexivo, quanto como modo de produção. No seu ensaio “A mutilação sacrificial na orelha cortada de Vincent Van Gogh”, Bataille encara o sacrifício como: Niterói, n. 28, p. 129-139, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:12 Ficções do excesso e do sacrifício: Roberto Bolaño, Marcelo Mirisola e William Burroughs (...) a alteração radical da pessoa que pode ser indefinidamente associada a qualquer outra alteração sobrevinda na vida coletiva: por exemplo, a morte de uma pessoa próxima, a iniciação, a consumação da nova colheita... Uma ação como esta seria caracterizada pelo fato de ela ter a potência de libertar os elementos heterogêneos e romper a homogeneidade habitual da pessoa (...) O sacrifício considerado na sua fase essencial seria apenas um dejeto do que era apropriado a uma pessoa ou a um grupo (Bataille, 2004, p.70).2 A tradução é de João Camillo Pena. 2 Assim, o sacrifício, como um ritual que pressupõe a destruição da “habitual homogeneidade da pessoa” é relacionado tanto à abjeção, quanto à melancolia. A parcial identificação com o objeto perdido, operada pelo sujeito melancólico, resulta na dissociação do ego expressa pela melancolia, uma espécie de escrita em que as palavras são o duplo espectral do objeto incorporado pelo melancólico. Ao mesmo tempo, o ritual do sacrifício motiva as palavras a assumirem a perversão autodestrutiva e, contraditoriamente, a contorná-la, escapando do impulso à morte. A abjeção, por seu turno, como um modo de produção paradoxal, está inter-relacionada com a desintegração da unidade ou de qualquer tipo de coerência. A esse respeito, Rosalind Krauss afirma que embora “Bataille tenha empregado o termo num grupo de textos não publicados e escritos na 2ª metade dos anos 30, sob o título ‘Abjection et les forms misérables’, o uso do termo por Julia Kristeva é que tem influenciado a recente teorização do conceito, em relação à prática artística contemporânea” (Bois & Krauss, 1997, p.236, 237). Krauss desenvolve seu argumento explicando que Bataille concebe a noção em duas modalidades. Na primeira, ele identifica a abjeção social com uma força violenta e excludente operando dentro do estado moderno e a aproxima do lumpenproletariado, pelo que este segmento se esquiva à economia da representação social, tornando improvável a sua assimilação. Na segunda, ele considera o termo de um ponto de vista antropológico, no qual o sagrado, como uma força ambivalente, pode funcionar na vida social, tanto numa direção centrípeta e agregadora, quanto numa direção centrífuga, na medida em que significa, simultaneamente, o impuro ou o abjeto e o puro. Em Formless: a User’s Guide, Bois&Krauss defendem que a perspectiva de Bataille sobre a abjeção é ligada ao informe (formless), termo que é concebido como um tipo de operação desclassificatória, que se propõe a rebaixar ou “dessublimar” noções, numa direção contrária aos imperativos do pensamento abstrato e à pura revelação do sentido, embutida na consagração da plenitude formal (Bois & Krauss, 1997,p.25), característica do curso dominante da arte modernista. Nessa direção, o núcleo performativo do informe “não é nem um tema, nem uma Niterói, n. 28, p. 129-139, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 131 131 3/11/2010 19:48:13 Gragoatá Ângela Maria Dias substância, nem um conceito”, e, por isto mesmo, participa do movimento geral do pensamento desenvolvido pelo filósofo, que ele elege chamar de “escatologia” ou “heterologia” (Bois & Krauss, 1997, p.15). Formless: a User’s Guide é concebido como um catálogo de exposição realizada no Centro George Pompidou, em 1996, tendo sido, desde o início, um livro centrado numa proposição coerente, não apenas a respeito do passado da arte moderna (Arp, Duchamp, Picasso), mas também sobre sua recepção contemporânea e, possivelmente, sobre o seu futuro (Bois & Krauss, p.15). Seu argumento central é baseado no verbete sobre o informe, que Bataille escreveu para a revista Documents, publicada entre 1927 e 1930, e voltada para o relacionamento entre certas práticas artísticas e fenômenos etnográficos. INFORME – Um dicionário começa quando ele não mais dá o significado das palavras, mas as suas tarefas. Assim, o informe não é apenas um adjetivo tendo um dado significado, mas um termo que serve para rebaixar as coisas no mundo, que geralmente requer que cada coisa tenha a sua forma. O que ele designa não tem direitos em qualquer sentido e se encontra disforme em todo lugar, como uma aranha ou uma minhoca. Na realidade, para que as mentes acadêmicas sejam felizes, o universo deve tomar forma. Toda filosofia não tem outro objetivo: é uma maneira de vestir tudo o que é. Por outro lado, afirmar que o universo não se parece a nada, e é apenas quantidades disformes, é como dizer que o universo é algo como uma aranha ou uma cusparada (Bataille, 2004, p.31).3 A tradução é de minha autoria, bem como todas as seguintes. 3 132 Gragoata 28.indb 132 Ao pensar a heterologia, como a “ciência do totalmente outro”, Bataille, influenciado por Freud, é levado a observar o duplo uso de muitas palavras (como, por exemplo, pharmacon) que, por sua vez, reflete a dupla função de determinados órgãos (a boca e a genitália, por exemplo), habitualmente reprimida pelo processo civilizatório. Nesta linha, as palavras e os corpos refletiriam a divisão de tudo o que existe, em duas partes inassimiláveis e paradoxais: uma alta e outra baixa, uma bem formada e a outra informe, uma homogênea e a outra heterogênea (Bois & Krauss, 1997,p.52). A esse respeito, Bois & Krauss comentam que a primeira vez na qual o filósofo francês usa o termo “heterogeneidade” (“A mutilação sacrificial e a orelha cortada de Vincent Van Gogh”), quer vinculá-lo à noção de sacrifício entendido como “o poder de liberar elementos heterogêneos e de quebrar a habitual homogeneidade do individual”(Bataille, p.70). Assim, a heterologia, entendida como “o completo reverso do processo filosófico” (Bataille, p.97) vai buscar sempre o outro lado, a margem reprimida e rebaixada de tudo o que é elevado ou ideal, em nome da concretude da matéria elementar, irredutível a qualquer conceito. Esta “desformalização” promovida por Bataille, em nome da matéria – o resto não mais reciclável pelos imperativos do Niterói, n. 28, p. 129-139, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:13 Ficções do excesso e do sacrifício: Roberto Bolaño, Marcelo Mirisola e William Burroughs pensamento abstrato – será tomada por Bois & Krauss para interpretar a posição do filósofo diante da arte moderna, formulada durante a estratégia de Documents. Com este objetivo, os críticos organizaram as obras na exposição, segundo “quatro diferentes vetores”, capazes de manifestarem-se contra a formalização modernista, em consonância com o pensamento de Bataille: a horizontalidade, o baixo materialismo, a pulsação e a entropia. A primeira modalidade destina-se a desfazer a verticalidade do campo visual, implicada tanto na sublimação que separa o observador de seu corpo, quanto na relação hierárquica entre homens e animais. A segunda tenta caracterizar a crítica que Bataille dirige aos materialismos, em função das relações hierárquicas que estabelecem. Contra tal procedimento, o filósofo busca centrar-se num tipo de matéria que não possa ser reabsorvida pela imagem, ou que não possa prestar-se a nenhum tipo de deslocamento metafórico. A terceira modalidade, embora não tenha feito parte do vocabulário do filósofo, é invocada pelos críticos, na medida em que ataca a exclusão do tempo no campo visual, característica do modernismo. E, nesse sentido, a pulsação ativaria o processo de infinita permutação que Bataille adota em sua narrativa A história do olho (1928), “ao anular a metáfora, através de um excesso metafórico” (Bois & Krauss, p.32). Por fim, a entropia que, entendida como degradação de energia rumo à indiferenciação, consiste também num modo compatível com o rebaixamento que o filósofo visa impor às palavras, na direção do informe. Por conseguinte, tanto o informe, entendido como uma operação desformalizadora, quanto o sacrifício, concebido como um modo de produção, encarnariam uma tendência que, subjacente na Modernidade, emerge, com mais clareza, durante a Pós-Modernidade. Nesse sentido, a perspectiva de Bataille sobre a “ruptura da homogeneidade pessoal” como condição para a “maravilhosa liberdade do sacrifício” vai resultar na vinculação entre esta última experiência e os processos de expiação, os períodos de luto e a orgia, como prática (Bataille, p.68, 70). Os três romances que passo, em seguida, a comentar dramatizam tais sintomas. O primeiro é o Noturno do Chile, de Roberto Bolaño, que apresenta uma excelente recriação da cerimônia do luto. Ambientado no Chile dos anos 70, é uma confissão transtornada envolvendo a Opus Dei, Pinochet e sórdidas conexões entre a Igreja e o Estado. O estilo do narrador encena um esforço desesperado para evitar, na eminência da morte, reminiscências e memórias inoportunas e ou intempestivas. Com efeito, Padre Urrutia, entre melancolia, raiva e culpa, tenta, como pode, escapar do lutuoso reconhecimento de sua corrupção moral e da conivência política que sempre manteve com a brutalidade da ditadura chilena. Entretanto, apesar de todo esforço, ele Niterói, n. 28, p. 129-139, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 133 133 3/11/2010 19:48:13 Gragoatá Ângela Maria Dias não consegue. Por isso mesmo, o seu solilóquio termina com a alusão ao dejeto indizível: “E depois se desencadeia a tormenta de merda” (Bolaño, 2000, p.84). O romance desconstrói importantes conquistas da literatura romântica. O nacionalismo é virado de ponta-cabeça e o Chile é apresentado como um país traído, pervertido pelo autoritarismo e pela corrupção social. A música melancólica do título, o “noturno”, por sua qualidade de composição meditativa, indicia a possibilidade de que o narrador desenvolva suas memórias num tom auto-celebratório. Mas a face do “jovem envelhecido” (Bolaño, 2000, p.6), funcionando como o alter-ego de Urrutia, frustra a sua paz e seqüestra a aura de respeitabilidade buscada pelo padre agonizante. Finalmente, a autobiografia que, como um gênero romântico típico, é perfeitamente compatível com o ritmo musical das reminiscências, também é rebaixada e desacreditada, na medida em que a dicção do protagonista, apostando na dignidade e na profundidade emocional do tom a ser adotado, imprime ao início do solilóquio uma solenidade, aos poucos perdida: É preciso esclarecer alguns pontos. Por isso, vou me apoiar no cotovelo e levantar a cabeça, minha nobre e trêmula cabeça, e buscarei no cantinho das reminiscências aqueles atos que me justificam e, portanto, desdizem as infâmias que o jovem envelhecido espalhou para meu descrédito numa só noite relampejante. Meu suposto descrédito (Bolaño, 2000, p.6). A configuração alegórica da narrativa cria um vínculo entre o sistema literário e os destinos nacionais através de muitas alusões eruditas e estórias honoráveis. A referência ao trovador Sordello – um lombardo, do século XIII, nascido em Mântua – funciona neste sentido. Ele é, talvez, mais lembrado por ter sido citado por outros poetas – Dante Alighieri, em De vulgari eloquentia e no Purgatorio d’A Divina Comédia e Pound nos Cantos – e tem-se mantido na tradição como um símbolo de devoção patriótica. Ao combinar a pomposa promessa de imortalidade com “desolação e esquecimento”, a ambígua estória sobre a Colina dos Heróis expõe a fragilidade do discurso auto-consagrador do Padre Urrutia. Assim, a sua perplexidade diante do amigo Farewell faz emergir o poder desconstrutor da narrativa e a corrosão subliminar que promove contra a alienação defensiva dos personagens: Depois Farewell repetiu: entende? entende?, enquanto pedíamos café e as pessoas na rua, apressavam-se premidas por uma ânsia incompreensível de chegar em casa, e suas sombras se projetavam uma atrás da outra, cada vez mais rápido, nas paredes do restaurante onde Farewell e eu mantínhamos con134 Gragoata 28.indb 134 Niterói, n. 28, p. 129-139, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:13 Ficções do excesso e do sacrifício: Roberto Bolaño, Marcelo Mirisola e William Burroughs tra ventos e marés, (...) uma imobilidade apenas interrompida pelos gestos das nossas mãos, que aproximavam as xícaras de café dos lábios, (...) a imobilidade de Farewell, só quebrada então por um ligeiro movimento ocular, foi adquirindo para mim conotações de terror infinito ou de terror disparado para o infinito, que é, aliás, o destino do terror, elevar-se, elevar-se e não terminar nunca, daí nossa aflição (Bolaño, 2000, p.35). Conforme observa Gonzalo Aguiar, a imaginação ficcional de Bolaño produz uma galeria de personagens que participam tanto da criação literária, quanto do terror militarista e, nesse sentido, o criticismo de seus romances poderia ilustrar a frase emblemática de Benjamin, segundo a qual “ nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie”(Benjamin, 1985, p.225). Noturno do Chile termina com o fluxo de memórias de Urrutia transformado em “tormenta de merda” (Bolaño, 2000, p.86). Nada mais apropriado para manifestar o informe como a diferença embutida na aura das belas formas. Animais em Extinção de Marcelo Mirisola, por sua vez, dramatiza a orgia, numa narrativa em que o narrador em primeira pessoa desempenha o papel do algoz. O enredo desenvolve-se pela fala loquaz de um narrador delirante que elege uma prostituta-criança como testemunha de sua própria rememoração. O tom da narrativa é bizarro, uma combinação de ironia ácida com cínico criticismo diante da sociedade e da vida literária brasileiras, numa espécie de sátira desabrida a toda espécie de convencionalismo. A linguagem, repleta de gíria e pornografia, e a distância entre autor e narrador, de tal forma dissolvida, podem levar a crer um leitor menos atento que a obra não passa de uma brincadeira ou de uma piada excessiva. Mirisola é, sem dúvida, um autor provocativo de obra controversa, capaz de suscitar reações bem díspares. Vanusa, a prostituta-criança, que é chamada pelo narrador de “Sherazade às avessas”, é sacrificada e o narrador tenta ocupar o seu lugar, confirmando o que Bataille afirma sobre o processo: “Aquele que sacrifica é livre – livre para abandonar-se ao mesmo fluxo, livre para continuamente identificar-se com a vítima, e vomitar seu próprio ser como vomitou um pedaço de si mesmo ou um absurdo” (Bataille, p. 70). O cinismo do estilo alude à bipolaridade entre as posturas “cynical” e “kynical”,tais como concebidas por Peter Sloterdijk. De acordo com o filósofo alemão, a posição cínica, de um lado, consiste “nas operações da razão iluminista na história (...) concebidas como o eterno retorno do mesmo” e, de outro, produz “o cinismo do poder e suas instituições”. Por sua vez, a “revolta kynical” constitui o antídoto da falsa consciência do homem iluminista, na medida em que encarna a tradição do “anarquismo somático” de Diógenes, o grego kynical (SloterNiterói, n. 28, p. 129-139, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 135 135 3/11/2010 19:48:13 Gragoatá Ângela Maria Dias dijk, XVI).Certamente a inteligência corrosiva da linguagem de Mirisola põe em prática a herança do grego filósofo: sua “vibrante gargalhada satírica” e sua postura desafiadora contra a corrupção da esfera pública. A afetação e o narcisismo dos heróis da mídia constituem, segundo Mirisola, uma espécie de “jardim de infância”, onde todos os assuntos são banalizados e discutidos numa maneira superficial e infantilizada. Seu trabalho constitui uma crônica ácida, na qual os comportamentos sociais e as mentalidades são criticadas a partir de uma perspectiva bem subjetiva e peculiar. A combinação de gêneros – lirismo, narrativa, diário, crônica – concebe uma espécie de auto-ficção, na qual o tom expressionista manifesta “a experiência da subjetividade como uma dinâmica fundamentalmente imprevisível” (Murphy, p.18). Por isso mesmo, o ponto de vista idiossincrático do narrador constitui o centro do enredo e sua verdadeira motivação, o que ocasiona a disposição errática e fragmentária da trama, não necessariamente vinculada a um conflito específico. A “poética iconoclasta” (Murphy, p.39) deste romance o opera segundo um programa de “desestetização” da memória narrativa. Nesse sentido, Scherazade não encarna a heroína imemorial que é responsável pela nobre tarefa de renovar a vida através da capacidade de desdobrar narrativas. Ao invés disso, ela é então subvertida e desclassificada, ao transformar-se em Vanusa, uma prostituta criança e analfabeta, que é testemunha do desespero e da desolação do narrador. Assim, as lembranças e reminiscências do narrador são transformadas em Animais em Extinção e a positividade da atitude memorialista é testemunhada por uma criança sacrificada e cativa, completamente incapaz de entender o que ouve. Esta versão rebaixada do narrador tradicional benjaminiano anula a sabedoria de quem fala – colocando o narrador na pervertida posição de quem se aproveita e maltrata uma criança prostituída, e, de sobra – sequestra a propalada transmissibilidade da experiência, já que não há comunidade e nem comunicabilidade. O que resta, o refugo, o intratável sobejo é então o romance de Mirisola, escritura da solidão de um narrador corrupto, no limite com a pornografia. De acordo com Richard Murphy, este projeto de “dessublimação” é desenvolvido pelas tendências vanguardistas não idealistas e constitui “uma subversão cínica da arte, misturando-a ao nível mais banal da vida, por meio destruição do mais remoto sentido de harmonia estética e estruturação orgânica” (Murphy, p.34). Nesta linha de reflexão, eu sugeriria que Mirisola pode ser visto como um legítimo herdeiro da dessublimização expressionista, ao mesmo tempo como um legítimo operador do informe batailliano. 136 Gragoata 28.indb 136 Niterói, n. 28, p. 129-139, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:14 Ficções do excesso e do sacrifício: Roberto Bolaño, Marcelo Mirisola e William Burroughs Finalmente, Almoço Nu (Naked Lunch) de William Burroughs – um livro que é visto pelo próprio autor como um não romance – pode ser considerado com um exercício metamórfico ou um ato de expiação. Escrito durante nove longos anos de dependência química de drogas e alguns períodos de abstinência, este livro nunca seguiu um plano prévio e foi concluído em virtude da premência do editor, a Olympia Press, em publicá-lo, durante 1959. Almoço Nu, desde o seu título insólito, transforma uma experiência cruel e degradante em literatura vigorosa. Como observa, a respeito, Norman Mailer: Mas o que é fascinante para mim é que há uma estrutura no livro (...) que é, sem dúvida, imperfeita. Eu acho que uma das razões pelas quais não podemos considerá-lo um grande livro, como Em Busca do Tempo Perdido ou, ainda, Ulisses, é a imperfeição da sua estrutura. Não há dúvidas quanto ao talento do autor, ainda que excitado e inflamado pelo vício, que também o fere. Assim, há um sentimento de grande tortura na composição do livro. O que me impressiona é que, através de todas as privações e sofrimentos da dependência, ele ainda mantém um estilo e um esquema no livro, com um sentido profundo. É curioso como todos os seus temas se auto-remetem. Eu não sei como o livro foi composto. Os ingredientes são tão excepcionais que é como se você tivesse um banquete de trinta, quarenta componentes. Você pode comê-los em qualquer ordem, pode misturá-los. Os temas são tão entrelaçados que qualquer página, ao lado de qualquer outra, é capaz de criar uma aura. Pode ser que este livro não tenha outra estrutura que a profundidade da experiência que o autor viveu, ou pode ser, ainda, que haja nele uma firmeza subjacente (Mailer. In: Burroughs, p. XIV, XV). A complexidade e a diversidade das técnicas dispostas nesta miscelânea narrativa desenvolvem uma “teoria da dependência de drogas (...) aplicada como modelo para muitos outros vícios: o vício de sexo, o vício de bens materiais, o vício de poder” (Ginsberg. In: Burroughs, xix). A veia satírica do narrador constitui uma espécie de estilo de escritor religioso comprometido com a imaginação de situações nas quais a humanidade aparece como destituída de alma. Não é por outra razão que Mailer enfatiza no relato a imaginação do Inferno, “como culminação e produto final da revolução científica” (Mailer. In: Burroughs, xviii). Esta ‘gradação fantástica de ritmos velozes’ disposta num método-mosaico (Ginsberg. In: Burroughs, xxxii, xxxiii) manifesta uma espécie de compulsão surrealista. A imaginação futurista dispõe a espiral consumista da produção de necessidades e o incremento da desumanização como as duas faces da mesma moeda. A narrativa de Burroughs, ao propiciar a confluência entre literatura e experiência de limites, configura, assim como os Niterói, n. 28, p. 129-139, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 137 137 3/11/2010 19:48:14 Gragoatá Ângela Maria Dias demais relatos referidos, a correlação entre o sacrifício, como modo de produção do heterogêneo, e o informe, como operação de rebaixamento e emergência do disforme, no âmago da forma. A inscrição do sacrifício nos textos comentados, ao manifestar a diferença, como sintoma, no corpo da escrita em primeira pessoa das três obras, pode apontar para as suas diversas faturas memorialísticas. A primeira, de Roberto Bolaño, perfaz o movimento da ficcionalização da memória, ao apresentar o personagem, Padre Urrutia, em seu doloroso processo de auto-reconhecimento. A segunda, de Marcelo Mirisola, em seu exibicionismo farsesco e dilacerado, consuma a escandalosa autoficção de um autor que não se farta de revelar-se, deslocar-se, deformar-se, a cada livro, em que a confusão entre autor, narrador e personagem os faz deslizarem um pelo outro e confundirem-se, entre sarcasmo e derrisão. A terceira, de William Burroughs, constitui uma espécie de marco precursor da autoficção, na medida em que traduz a tenebrosa experiência do vício em drogas num pesadelo narrativo tormentoso e fragmentário, em que reminiscências pessoais se misturam e se intercalam com ficções mórbidas sobre sadismo e controle social. É como se, o movimento beat, no alvorecer dos anos 60, aqui referido por um de seus ícones, tivesse desmentido antecipadamente a morte do autor, mais adiante decretada pelos franceses. O seu ardor neo-romântico, pela vinculação entre arte e vida que dramatiza, inegavelmente cruza-se ao compromisso com a contemporaneidade, bem nítido pela incorporação literária da fala oral, radicalmente anti-academicista. Nesse sentido, esses atores-escritores podem ser vistos como os precursores da pós-vanguarda, no que souberam atualizar a vertente crítica e dessublimizante das vanguardas modernas, em relação à arte formalista e abstrata da alta modernidade. Abstract: This paper aims to consider the fundamental relationship between melancholy and trauma in today’s artistic and literary life, and to stress the role of sacrifice as a ritual which has been inscribed in the creation process since Modernity. These contemporary frames for aesthetic invention may be processed respectively by allegory and the perception of abjection as correlated modes of fictional production. The paper draws on Bataille´s view of sacrifice to discuss the novels of three significant writers: the Chilean Roberto Bolaño, the Brazilian Marcelo Mirisola, and the American William Burroughs. 138 Gragoata 28.indb 138 Niterói, n. 28, p. 129-139, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:14 Ficções do excesso e do sacrifício: Roberto Bolaño, Marcelo Mirisola e William Burroughs Keywords: Melancholy, Trauma, Sacrifice, Allegory, Abjection Referências BATAILLE, Georges. Visions of Excess: Selected Writings, 1927-1939. Minneapolis, University of Minnesota Press, 2004. BOIS, Yve-Alain & KRAUSS, Rosalind . Formless A User’s Guide. New York, Zone Books, 1997. BOLAÑO, Roberto. By Night in Chile. Trans. Chris Andrews. New York, New Directions Books, 2003. BURROUGHS, William, S. Naked Lunch. New York, Grove Weidenfeld, 1959. 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SLOTERDIJK, Peter. Critique of Cynical Reason. Foreword by Andréas Huyssen. Translation by Michael Eldred. Minneapolis/ London, University of Minnesota Press, 1997. Niterói, n. 28, p. 129-139, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 139 139 3/11/2010 19:48:14 Gragoata 28.indb 140 3/11/2010 19:48:14 O RELATO DE VIAGEM – NARRADORES, ENTRE A MEMORIA, O FICTICIO E O IMAGINARIO Maria Elizabeth Chaves de Mello Recebido 11, abr. 2010 / Aprovado 30, abr. 2010 Resumo: Nosso trabalho propõe reflexões sobre a literatura de viagem de alguns franceses que, tendo vindo ao Brasil a partir do Renascimento, mas especialmente na segunda metade do século XVIII e na primeira do XIX, apresentam, em seus relatos, diferentes maneiras de ver o povo, a natureza, os costumes do país visitado, deixando, em seus diários, testemunhos que nos permitem estudar a relação França/Brasil desde o Renascimento, assim como os movimentos de independência do país que, um dia, foi chamado de «France Antarctique». La Condamine e Francis de Castelnau são alguns desses viajantes responsáveis por elementos importantes no estudo do cruzamento de olhares entre os dois países, que nos parece fundamental para uma melhor compreensão das relações entre os dois povos. Palavras-chave: Literatura de viagem. Cruzamentos de olhares França/ Brasil. Gragoatá Gragoata 28.indb 141 Niterói, n. 28, p. 141-152, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:14 Gragoatá Maria Elizabeth Chaves de Mello Qu’il me soit permis de le dire, il n’y a point d’état plus immoral que celui de voyageur Diderot Escrever sobre narratividade é um grande desafio. Quando falamos em narrativa, supõe-se que se saiba o que é “narrar”. A mão é importante na narrativa. Não seria a relação entre o narrador e sua matéria uma relação artesanal? Segundo Walter Benjamin, o narrador sabe dar conselhos que servem para muitos casos, pois dispõe da experiência (cf. Benjamin, 1994, p. 210). Seu dom é poder contar alguma coisa e contá-la por inteiro. Por outro lado, a memória é a mais épica de todas as faculdades. Mas, se estivermos nos referindo ao relato de viagem, a situação se complica, pois, além da memória, surge a questão do ficcional, do imaginário e do fictício. É preciso, então, estabelecer algumas considerações. Numa narrativa, é necessária uma organização temporal, uma ordem na desordem do diverso, irregular e acidental. Essa ordem seria concomitante ao ato de escrever. No entanto, ao fazermos um texto sobre a narratividade de relatos de viajantes franceses no Brasil, isso não seria, também, nos inserirmos na narratividade? Aliás, como um texto em prosa, crítico ou literário, se relaciona com a narrativa? Estará sempre ligado a ela, de uma maneira ou de outra? Monsieur Jourdain, personagem de Molière na peça Le bourgeois gentilhomme, descobre, a um dado momento, que fala em prosa, sem ter disso consciência. Não estaríamos nós, ao escrevermos um texto sobre viajantes franceses no Brasil, adotando a mesma atitude do personagem, usando a narrativa sem o saber? O termo “literatura de viagem” suscita ambiguidade, dando ao relato um status de gênero, que merece ser problematizado. O escritor viajante é, antes de tudo, um jornalista em missão, afirma François Moureau (cf. 2005, p. 12). Por outro lado, é a viagem que faz o escritor. Mas não basta ser um escritor e viajar, para sentir a necessidade de passar da situação de espectador para a de narrador. Na verdade, a literatura de viagem parece não interessar muito, nem ao ficcionista, nem à narrativa memorialista. Enquanto escritor, Rousseau, por exemplo, não nos conta grande coisa de suas viagens. Em compensação, o memorialista das Confessions pinta com exagero o que vê e se apresenta como herói em contextos e cenários que o valorizam. O que dizer, então, sobre a narrativa de viagens? Ela surge junto com a imprensa e trata, inicialmente, da única coisa que valia a pena ser narrada, aos olhos renascentistas, pós-medievais: as peregrinações, as cruzadas, as viagens à Terra Santa. Marco Polo, mais ou menos na mesma época, impregna os seus relatos de fictício e imaginário, seduzindo os europeus para as viagens a novas terras e o encontro com novos povos. Há quem diga que ele nem sequer esteve na China, o que torna mais interessante, 142 Gragoata 28.indb 142 Niterói, n. 28, p. 141-152, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:15 O relato de viagem - narradores, entre a memória, o fictício e o imaginário ainda, a sua narrativa, pois a liberta da memória, passando a figurá-la nos domínios do fictício e imaginário. A partir dos Descobrimentos, os jesuítas foram os primeiros a divulgarem os relatos de suas missões, ad majorem Dei gloriam. O velho mundo é sacudido nas suas certezas, surge a Utopia de Thomas Morus, em 1516, dando conta das mudanças que ocorriam na concepção dos europeus, diante da descoberta do outro. Durante séculos, o relato de viagem estará ligado à ficção utópica... São franceses os dois primeiros autores a escreverem, no século XVI, sobre o Brasil: André Thevet e Jean de Léry. A baía de Guanabara, berço do sonho de Villegagnon, torna-se, segundo os relatos dos dois viajantes, cenário de guerras de religião, importadas da Europa, e de lutas sangrentas com os índios canibais. Segundo Maria Helena Rouanet, há três aspectos fundamentais nos escritos desses viajantes: ver, descrição completa e pormenorizada de tudo o que se viu e publicação, visando preservar a memória (cf. Rouanet, 1991, p.82). Esses três aspectos serão fundamentais na literatura de viagem sobre o Brasil, na França, sendo responsáveis pela ambiguidade do olhar francês sobre o país, que ora vê a natureza e o povo nativo com um sinal positivo, ora com pessimismo e pavor. Em 1558, André Thevet publica Les singularitez de la France Antarctique – as primeiras impressões sobre a tentativa francesa de colonização do Brasil. Padre católico, Thevet acusa os protestantes do fracasso da empreitada. Anos mais tarde, para responder ao autor, o protestante Jean de Léry escreve l’Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil, autrement dit Amérique, uma das obras primas da literatura de viagem francesa no século XVI. Nela, Léry narra a sua viagem de cerca de um ano na França Antártica, na Baía de Guanabara, cujos habitantes, os tupinambás, são descritos, nos seus costumes e modos de vida. A Histoire d’un voyage só é publicada vinte anos após o retorno do seu autor à Fraça, tempo mais do que suficiente para os franceses terem sido obrigados a deixar o Brasil, e para as guerras de religião explodirem em toda parte, na Europa. A apresentação que Léry faz dos índios interessa, entre outros elementos, pela questão da narrativa, pois ele apresenta, logo no início, a necessidade de por ordem na desordem da memória. Afinal, o texto é publicado vinte anos depois do seu retorno à França: Em primeiro lugar, portanto (para que, começando pelo principal, eu possa continuar na ordem), os selvagens da América, habitantes da terra do Brasil, chamados de Tupinambás, com os quais vivi e frequentei familiarmente durante cerca de um ano, não sendo nem maiores, nem mais gordos, nem menores do que somos na Europa, também não têm o corpo mais monstruoso, nem prodigioso, em relação a nós : mas são mais fortes, robustos e repletos, mais bem dispostos, menos sujeitos à doença : quase não há mancos, cegos, deficientes, Niterói, n. 28, p. 141-152, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 143 143 3/11/2010 19:48:15 Gragoatá Maria Elizabeth Chaves de Mello ou prejudicados, entre eles. Muitos chegam até a idade de cem ou oitenta anos (pois sabem muito bem guardar e contar sua idade pela lua), sendo poucos os que, na velhice, têm os cabelos brancos ou grisalhos. Esses fatos provam, não apenas o bom ar e boa temperatura de seu país, o qual, como já afirmei, aliás, não possui geleiras nem grandes frios, mas bosques, ervas e campos sempre verdejantes ; mas também (como todos bebem, realmente, na fonte de Juvêncio) provam o pouco cuidado e preocupação que eles têm com as coisas deste mundo. (Léry, 1994 : 210-211) Lendo esses textos, podemos afirmar que, no século XVI, os projetos de França Equinocial e França Antártica, a fascinação pelo pau-brasil e pelos costumes indígenas, fazem do Brasil o «avesso da Europa». O Brasil é e tem tudo o que a Europa não é, ou tudo o que ela não tem. Diante dos índios brasileiros levados a Rouen e exibidos na corte como selvagens e exóticos, Montaigne se inspira e escreve uma das páginas mais importantes sobre o homem natural, o ensaio Os canibais, em que ele questiona o epíteto de «selvagens», dado a esses índios, e afirma sua superioridade sobre o europeu, dito «civilizado». Estavam lançadas as bases das teorias sobre a bondade natural do homem, o bon sauvage. Após o fracasso da colonização no Brasil, durante muito tempo, a França voltará o seu olhar sobre o hemisfério norte. É o tempo dos aventureiros na América do Norte, da colonização na América Central e na África. O Brasil é constantemente saqueado por piratas franceses e ingleses, mas só retomará um lugar no imaginário francês durante o século das luzes. De fato, no final do século XVIII, a Europa tornara-se maníaca pelas viagens, pelo encontro com o outro, alargando a cada dia o seu objeto de interesse, estudo e reflexão. Ora, entre essas novas possibilidades que se ofereciam ao Velho Mundo, a América era um dos lugares preferidos para a difusão das luzes, o lugar de teste e prática das doutrinas sobre o homem primitivo e a sociedade civilizada. Assim, a França lança-se às missões científicas, que, sob pretexto de explorações do solo, do clima, da latitude e longitude, do estudo dos povos, da fauna e da flora, vão muito mais longe, no sentido de buscarem garantir a irradiação das idéias do Iluminismo. Cumpre lembrar que esses cientistas viajavam todos, ou quase todos, em missão do governo, com o compromisso de publicarem os seus relatos, de retorno à metrópole. Estes textos, escritos na volta à França, reforçavam a utopia do homem natural, representado pelo indígena. Mas o mito do bon sauvage é ambíguo, servindo tanto a religiosos quanto a ateus: aos primeiros, como base de crítica à moral da civilização do século XVIII, apresentando-lhe o selvagem como isento de todos os vícios e defeitos dessa sociedade; por sua vez, os cientistas livres pensadores, 144 Gragoata 28.indb 144 Niterói, n. 28, p. 141-152, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:15 O relato de viagem - narradores, entre a memória, o fictício e o imaginário não religiosos, servem-se também dos índios para provarem a superioridade do homem natural, baseada no instinto e na razão. Acrescente-se a isso um outro elemento, pois alguns viajantes falam de seres repulsivos, antropófagos e ferozes e teremos o selvagem ora bom, ora mau, dando respaldo a agnósticos e religiosos, e o Brasil torna-se, ao mesmo tempo, um paraíso natural a ser preservado e um mundo primitivo que deve ser ‘civilizado’. Por outro lado, nessa época, um certo subjetivismo literário, se podemos chamá-lo assim, começa a tomar o lugar do academicismo clássico, na Europa, dando origem a gêneros como o diário íntimo, ou as memórias. Embora esses gêneros já sejam frequentes na literatura ocidental há muito mais tempo, é no final dos setecentos que eles passarão a ser impregnados do “eu”, associando memória, fictício e imaginário, como nunca antes. A narrativa de viagens apodera-se do ritmo e da técnica do episódio e do relato histórico, assegurando a cor local, através de um olhar testemunha, subjetivo. Surge, então, a categoria do escritor viajante, com uma dupla função: ser um olhar que escreve e, ao mesmo tempo, um escritor, longe da sua mesa de trabalho, e em permanente ação. Para esse autor, a escrita está diretamente vinculada ao olhar. Ele se distingue de outra categoria, surgida, também, na mesma época: o turista, que viaja por prazer e não escreve, ou escreve apenas cartões e/ou cartas curtas, quase sempre apoiado por um “manual” de viagem, texto anônimo e impessoal, que lhe fornece pronto o roteiro dos prazeres que busca. Ora, o viajante de que falamos aqui não viaja por prazer. Ao contrário, sua viagem deve ser útil, justificada, bem no espírito do Iluminismo. Se os primeiros viajantes a escreverem textos sobre o Brasil eram franceses, religiosos (Thevet, católico; Léry, protestante), narrando a cena da tentativa de colonização francesa do país segundo o ponto de vista de suas respectivas crenças, será também um outro francês, Charles-Marie de la Condamine, cientista e escritor, que reintroduzirá o Brasil na cena da literatura mítica, quando a região havia caído no esquecimento, após o fracasso da tentativa de Villegagnon. Em abril de 1735, La Condamine é encarregado, pela Académie des Sciences, de organizar uma expedição ao Peru, para medir o comprimento de um arco de meridiano perto do equador. Ele desce o Amazonas (é o primeiro cientista a fazê-lo) e chega até Caiena. Em relação à ciência, essa viagem é importante, pois permite a primeira descrição do quinino, assim como a descoberta da borracha e do curare. Na sua volta a Paris, em 1745, La Condamine leva mais de duzentos objetos de história natural. Esse viajante nos fornece, no seu relato – Relation abrégée d’un voyage à l’intérieur de l’Amérique Méridionale. Depuis la côte de la mer du Sud, jusqu’aux côtes du Brésil et de la Guiane, en descendant la rivière des Amazones, lue à l’assemblée publique de l’Académie des Niterói, n. 28, p. 141-152, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 145 145 3/11/2010 19:48:15 Gragoatá Maria Elizabeth Chaves de Mello sciences, le 28 avril - muitos elementos de reflexão, ao falar dos índios amazonenses: Creio ter reconhecido em todos uma mesma característica, cuja base seria a insensibilidade. Deixo em aberto se devemos honrá-la com o nome de apatia, ou aviltá-la, com o de estupidez. Provavelmente, ela nasce do número reduzido de suas ideias, que não vão muito além de suas necessidades. Glutões até a voracidade, quando têm com o que se satifazer; sóbrios, quando a necessidade a isso os obriga, chegando até a ficarem sem nada, parecendo nada desejarem; pusilânimes e poltrões em excesso,se não forem tomados pela bebedeira; inimigos do trabalho, indiferentes a qualquer motivo de glória, de honra ou de reconhecimento, ocupados apenas com o objeto presente, e sempre por ele determinados;sem preocupação com o futuro; incapazes de previsão e de reflexão sobre qualquer coisa; quando nada os perturba, entregam-se a uma alegria pueril, manifestada por saltos e gargalhadas imoderadas, sem sentido e sem objetivo; passam a vida sem pensar e envelhecem sem sair da infância, da qual conservam todos os defeitos (La Condamine, 1745, pp. 52-53). Esse encontro com os índios, que ele descreve como apáticos e estúpidos, sem vontade, pusilânimes e covardes, nos remete às idéias de Montesquieu sobre o efeito do clima nos habitantes das regiões quentes. Autêntico leitor e herdeiro da teoria dos climas do philosophe, La Condamine interesssa-se pela questão dos escravos, pela mistura das raças, pelos costumes nas cidades e povoados onde pernoita, sempre com um olhar minado pelo preconceito, pelas leituras prévias que fizera, fornecendo material rico para estudar aquele momento no Brasil, mas, também, e principalmente, para refletirmos sobre o olhar estrangeiro, herdado do pensamento iluminista francês, sobre a nação que se formava. Esta passagem nos fornece muito material de discussão, já que se trata de um olhar negativo, diferente do bon sauvage, a que a literatura de viagens nos acostumara, desde o texto citado de Jean de Léry. Trata-se aqui do selvagem, habitante de clima quente, com as características que Montesquieu descrevia, para esses homens: a moleza, a malandragem, a pouca aptidão para o trabalho serão o seu traço mais forte. Com a citação acima, torna-se clara a confirmação da hipótese inicial, ou seja, da ambiguidade do olhar europeu sobre as terras americanas, ora vistas como um lugar paradisíaco, ora como o lugar da indolência e da crueldade, ora como o lugar ideal para a difusão das luzes (tema presente em todos esses autores viajantes). No entanto, poucas páginas antes, no seu relato, La Condamine trata de um Brasil do rio e da floresta, da Amazônia, onde o viajante procura, sem encontrá-las, as mulheres guerreiras da mitologia. A narrativa interessa-se pouco pela população, debruçando-se mais sobre a mineralogia, a fauna e a flora, num relato 146 Gragoata 28.indb 146 Niterói, n. 28, p. 141-152, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:15 O relato de viagem - narradores, entre a memória, o fictício e o imaginário pretensamente científico, fonte eventual de lucros coloniais. O homem entra como parte do cenário majestoso e é o último, na ordem de elementos descobertos: Um novo mundo, afastado de todo comércio humano, num mar de água doce, no meio de um labirinto de lagos, rios e canais que penetram, em todos os sentidos, numa floresta imensa que só se alcança através das águas. Eu descobria novas plantas, novos animais, novos homens (idem, p. 47). Aqui vemos um pequeno exemplo do que chamáramos de “avesso da Europa”, na descrição de uma natureza paradisíaca, grandiosa e inaccessível, afastada da civilização, diferente da européia, um lugar do novo e do desconhecido, onde vive o novo homem, representante desse novo mundo. Nessa mesma época, é escrita a Histoire philosophique et politique des Etablissements et du Commerce des Européens dans les deux Indes, do abbé Raynal. Esta obra, publicada em 1770 e, posteriormente, modificada por Diderot, é considerada o primeiro clássico francês anticolonialista. Trata dos efeitos negativos dos descobrimentos sobre as civilizações nativas, com muita desconfiança em relação às narrativas de viagem. Raynal descreve os índios brasileiros de antes das descobertas, como um povo de ateus felizes, hospitaleiros, sociáveis. Percebe-se, aí, já um conflito interessante entre o código da natureza e a civilização europeia, de tanta importância para o estudo de autores como Rousseau e o próprio Diderot, no Supplément au Voyage de Bougainville. O livro, nos seus trinta primeiros capítulos, narra a maneira pela qual Portugal impôs modelos imperialistas, adaptados e adotados, posteriormente, por outras nações europeias. Além do mais, descreve a ascensão e decadência de um povo (o português), esta última devida, principalmente, à política econômica fundada na busca do ouro, com o consequente abandono da agricultura e da indústria. A obra narra, também, a luta dos portugueses contra as outras nações predatórias do Brasil (França e Holanda) e mostra os indígenas brasileiros muito próximos dos habitantes do Tahiti, descritos por Bougainville e idealizados por Diderot: bons sauvages, mais próximos da natureza do que da civilização europeia corrompida, generosos, sem religião (ou adeptos de uma religião da natureza), praticantes da poligamia, enfim, livres e puros. A obra foi censurada em Portugal e na Espanha e proibida pela Inquisição, mesmo na França. Mas há estudos que provam que l’Histoire des deux Indes teve repercussões no Brasil, tanto na Revolta dos Alfaiates, na Bahia, quanto na Conjuração Mineira, ambas de 1789. Fica evidente, no que estamos vendo até agora, essa oscilação, ou tensão, entre imagem positiva e negativa do homem americano, no olhar francês. Ambiguidade e/ou paradoxo que persiste no século XIX, como se pode constatar nos textos de Niterói, n. 28, p. 141-152, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 147 147 3/11/2010 19:48:15 Gragoatá Maria Elizabeth Chaves de Mello Francis de Castelnau, outro cientista naturalista que percorreu o Brasil e o Peru, de 1843 a 1847, voltando, posteriormente, como cônsul na Bahia. A narrativa de sua viagem contém seis volumes – Expédition dans les parties centrales de l’Amérique du Sud, de Rio de Janeiro à Lima, et de Lima au Para, exécutée par ordre du gouvernement français pendant les années 1843 à 1847, sous la direction de Francis de Castelnau. O relato percorre grande parte do Brasil, discorrendo sobre a população, seus hábitos e costumes, assim como sobre os índios e os escravos, a condição da mulher, a cidade e o campo, a mata, os animais, as relações do Brasil com a Europa naquele momento, o imperador, a aristocracia urbana e rural etc. Dada a vastidão de assuntos tratados, bem como a extensão do texto, assim como o pouco conhecimento desse autor pelo público brasileiro, a leitura dessa obra traz contribuições imensas para os estudos literários, históricos, sociológicos e antropológicos. O entusiasmo e interesse de Castelnau pela América do Sul é evidenciado em muitos dos seus textos, tais como este: Poucos lugares se apresentam à imaginação com tanto prestígio quanto a América do Sul; enquanto a parte setentrional desse continente perde cada dia mais o seu caráter primitivo, substituindo-o pelas maravilhas da indústria moderna, a parte Sul, ao contrário, conserva ainda hoje o selo da natureza virgem: aí, nada de estradas de ferro, nem de canais, nem, na maioria das vezes, estrada nenhuma; mas, em toda parte, admiráveis florestas virgens, rios cujas extensões não têm limites, montanhas cujos picos gelados se perdem acima das nuvens, nações selvagens, que desconhecem até o nome da Europa. (CASTELNAU, 1850, vol. I, p.42) Estamos diante da presença da natureza virgem, propícia a desencadear o imaginário do viajante... Mas também se pode observar a ambiguidade do discurso sobre o homem americano do sul, ao mesmo tempo apresentado como selvagem, ignorando a civilização europeia, e, por outro lado, mantendo-se mais próximo da natureza, ao recusar imitar o modelo industrial europeu. Castelnau, embora vivesse em meados do século XIX, era ainda um homem do Iluminismo francês, leitor de Rousseau e Montesquieu, o que se evidencia por esse paradoxo nos seus textos sobre o brasileiro. A América do Sul, especialmente o Brasil, seria mais interessante do que a América do Norte, principalmente porque está mais próxima da natureza, prestando-se mais a ser um laboratório de provas sobre as questões da natureza X cultura, do bon sauvage, e, por isso mesmo, oferecendo mais condições ao trabalho do imaginário. Embora guardando ainda traços dos philosophes, homem do seu século, Castelnau se encanta com a paisagem e oferece muito material de reflexão teórica sobre o romantismo, nos inúmeros momentos em que pretende descrever a natureza deslumbrante que percebe: 148 Gragoata 28.indb 148 Niterói, n. 28, p. 141-152, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:16 O relato de viagem - narradores, entre a memória, o fictício e o imaginário ...no momento em que eu passava pelo lugar em que uma parte da baía do Rio de Janeiro penetra num estreito canal entre picos de montanhas, recebendo o nome de Saco de Jurujuba, vi-me, de repente, diante de um espetáculo tão admirável, que qualquer outro objeto logo se apagou de minha imaginação, e meus olhos ficaram fascinados, sem que eu pudesse desviá-los, pelo quadro mágico que tinha diante de mim. Como o tempo se cobrira totalmente, após o por do sol, uma ligeira bruma escondia os contornos das montanhas; a superfície cinza e mate das águas, que corriam aos meus pés, era tão equilibrada, as grandes formas esbranquiçadas e cortadas dos rochedos, que saíam de seu seio, se destacavam tanto, como claridade no fundo escuro do céu, que quase me senti transportado entre os gelos do polo, não fosse o barulho, de vez em quando, do caule suculento de alguma planta tropical, esmagada pelos dentes de meu despreocupado cavalo. (idem, p. 47) O narrador, em contato com a natureza, perde o domínio da razão e chega a ter alucinações, pensando estar diante dos gelos dos polos...Por outro lado, confessa não encontrar palavras para a sua narrativa e lamenta não ser um grande pintor para dar conta do que vê. Seus relatos se prestam a muitas discussões, entre as quais a da impossibilidade da linguagem escrita de reproduzir os sentimentos e as ideias. Se tivermos a sorte de escolhermos um dia bom para fazer a subida, somos pagos da fadiga pelo soberbo panorama que se descortina do alto do cume a que acabo de me referir; deste posto elevado os contornos da baía são perfeitamente visíveis, assim como a configuração das numerosas ilhas que emergem de sua superfície e a vasta cidade que fica de permeio. De outro lado, a serra da Tijuca, com os seus picos extravagantes, a Gávea, o Bico-de-Papagaio; depois, como que em baixo de nós, ali onde a montanha se torna quase vertical e apresenta um precipício de várias centenas de metros de profundidade, o Jardim Botânico, as restingas de Copacabana, com suas lagoas de água salobra, o mar. Acompanhando a costa pelo lado esquerdo, a vista é por um instante atraída pelo Pão de Açúcar, que limita de um lado a entrada da baía e cujas fortificações se vêem, finalmente, por cima destas últimas, nos longes do horizonte; divisam-se nitidamente as restingas de Taipu e de Maricá, cujas riquezas vegetais são muito enaltecidas. Algumas das vistas que se desfrutam na primeira metade do caminho, tão deliciosas quão variadas, são, no mais alto grau, dignas do pincel de um artista; mais de uma vez lamentei, durante o passeio, a minha insuficiência nesta arte, que me faria mais tarde rever todas aquelas belas cenas da natureza. (pp. 34-35) E, efetivamente, o autor desenha o que vê, como o provam as inúmeras ilustrações e gravuras na sua obra, na esperança de que a narratividade do desenho transmita o que ele não consegue com a linguagem verbal. Muito haveria a dizer sobre estas passagens do texto, mas gostaríamos de enfatizar o seu caráter Niterói, n. 28, p. 141-152, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 149 149 3/11/2010 19:48:16 Gragoatá Maria Elizabeth Chaves de Mello romântico, em que o autor se mostra consciente do trabalho do imaginário diante do real, chegando até a ter alucinações sobre os gelos dos polos, a partir de uma paisagem da natureza tropical. Essa relação entre realidade e ficção atravessa todo o texto de Castelnau, sempre numa linguagem muito bem cuidada, que nos leva a concluir sobre a literariedade do texto, mesmo se admitirmos que o gênero narrativa de viagens não é muito prestigiado enquanto literatura. Além disso, nesses relatos, encontramos muitas informações sobre os costumes e a vida quotidiana no Brasil, tanto na cidade, quanto no campo. Trata-se de verdadeiras crônicas dessa época sobre o país. Castelnau é muito consciente das funções do imaginário, da memória e do esquecimento nos seus textos, ao contrário da maioria dos autores viajantes, que, normalmente, recusam o caráter ficcional de suas narrativas, que eles consideram como meros « documentos ». O autor está na contra mão do seu tempo, legando-nos um texto bem curioso e rico de elementos que podem interessar aos pesquisadores de teoria da literatura, de história e de literatura comparada. Ao ler esses viajantes, resta-nos constatar o que já vinha sendo anunciado desde o início do texto: que o Brasil é, desde o Renascimento, um mito ambíguo para os franceses, ponto de partida de crítica à moral da civilização europeia, pelo fato de oferecer o espetáculo da superioridade do homem natural. Mito de um mundo novo, que deve ser preservado, mas, ao mesmo tempo, um mundo primitivo, que precisa ser civilizado... Essas constatações nos permitem estudar o papel e a função que esses viajantes escritores tiveram na formação do olhar europeu sobre o Brasil. Além de farto material para reflexão sobre o conceito de nação que aqui se elaborava, com a ajuda desse imaginário estrangeiro, cumpre reafirmar que a grande maioria dos viajantes da modernidade negava a literariedade de suas narrativas, por serem cientistas, savants, que olhavam as literaturas e as artes com desprezo. Assim, a discussão sobre o fictício e o imaginário, a partir desses textos, bem como o papel das narrativas de viagem na formação da literatura brasileira e do conceito de Brasil visto pelos brasileiros, podem ser o ponto de partida para novos aprofundamentos nos estudos sobre o Iluminismo e o Romantismo, no cotejo desses relatos com a literatura desses dois movimentos,tanto na França, quanto no Brasil. E onde há sempre lugar para o imaginário... Abstract: Our study attempts at reflections on the travel literature of some French writers who having travelled to Brazil since the Renaissance, but specially on the second half of 18th century and the first half of 19th century, present in their personal 150 Gragoata 28.indb 150 Niterói, n. 28, p. 141-152, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:16 O relato de viagem - narradores, entre a memória, o fictício e o imaginário reports different ways of viewing the people, the nature and the habits of the visited country; thus they offer in their diaries the written data, which allows us to study a crossing of paths of France and Brazil from the Renaissance onwards and also the independence movements of the country once called «France Antarctique». La Condamine and Francis de Castelnau are some of the travellers responsible for important aspects in the study of a catching of eyes between the two countries. It seems of utmost importance so as to reach a better understanding of the relationship between the two peoples. Keywords:Travel literature. A catching of eyes between France and Brazil Referências ARAGO, Jacques Etienne Victor. Promenade autour du monde pendant les années 1817, 18,18,20, sur les corvettes du Roi d’Uranie et la Physicienne commandées par M. Freycinet. Paris: Leblanc, 1822, 2 vv. .BENJAMIN, Walter. O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. BOUGAINVILLE, Louis-Antoine. Voyage autour du monde, Paris: La Découverte, 2007. CASTELNAU, Francis de . Expédition dans les parties centrales de l’Amérique du Sud, de Rio de Janeiro à Lima, et de Lima au Para- exécutée par ordre du gouvernement français, pendant les années 1843 à 1847, sous la direction de Francis de Castelnau. Paris: Chez P. Bertrand, Libraire-Editeur, 1850. 6 vv. CHARTIER, Roger . 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Enfoco o processo discursivo implementado pela midiatização de pesquisas científicas em publicações de popularização da ciência divulgadas na internet. A transposição de um conteúdo ideacional da ciência (a nova pesquisa, sua metodologia e seus resultados) para a mídia eletrônica se dá por um movimento de recontextualização que realoca (partes ou todo de) textos de uma esfera de atividade humana para outra, dando visibilidade a um fluxo contínuo entre gêneros de um mesmo sistema de produção e manutenção da ciência. Este artigo apresenta resultados do Projeto PQ/CNPq “Análise crítica de gêneros com foco em artigos de popularização da ciência”, desenvolvido com apoio da BolsaPQ/CNPq nº 301962/2007-3, e do estágio Pósdoutoral em Linguística Aplicada, realizado no LAEL-PUCSP, sob supervisão da Profa. Dra. Leila Barbara. Agradeço a Patrícia Marcuzzo (PPGL/UFSM) e Anelise Scherer (PIBIC/UFSM) pela leitura da versão anterior deste texto. 1 Gragoatá Gragoata 28.indb 153 Palavras-chave: Gênero discursivo. Esfera de atividade humana. Sociorretórica. Popularização da ciência Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:16 Gragoatá Désirée Motta-Roth Introdução Em sua raiz latina, a palavra “ciência”, scientia, significa “conhecimento” (FERREIRA, 1986) e pode se referir à observação, identificação, descrição e explicação de qualquer objeto ou fenômeno com base em um sistema de ideias vigente. É a busca da humanidade por compreender o universo e seu lugar dentro dele (HORGAN, 1998, p. 15). Em termos práticos, ciência se refere a qualquer questão a ser resolvida, desde que haja tempo e recursos suficientes (IDEM, IBIDEM). Realisticamente, é o apoio das forças econômicas e políticas da sociedade que consagrará qualquer área do conhecimento ou teoria como ciência, garantindo a continuidade ou a mudança de paradigmas (MOTTA-ROTH, no prelo, p.1). A “visão canônica” de ciência e de sua popularização pressupõe dois discursos separados: um discurso de autoridade, dentro das instituições científicas, e um discurso público externo a elas (MYERS, 2003, p.266). Tal divisão só interessaria às próprias instituições científicas como meio de manutenção do poder na sociedade. Se ciência é uma ordem do discurso com gêneros, práticas sociais e ideologias articuladas em redes, textos de popularização são parte essencial dessa rede, uma vez que a sobrevivência das áreas de conhecimento depende do apoio da sociedade mais ampla, via financiamento e políticas públicas (MYERS, 1990, p. 145), que só terá acesso à pesquisa recente pela midiatização da ciência. Neste trabalho, exploro o processo de midiatização ou popularização da ciência (PC) a partir de dois conceitos: sistema de gêneros e recontextualização. Assumo a concepção sociorretórica de gênero discursivo que incorpora a perspectiva sócio-histórica creditada a Mikhail Bakhtin (e outros autores que o atualizam) como um evento discursivo recorrente em esferas de atividade humana. Um evento discursivo é uma atividade dinâmica de uso da linguagem que combina recursos sociais e cognitivos na produção de sentido; é uma ecologia dinâmica e complexa em funcionamento, com pessoas posicionadas em uma rede social, que usam outros sistemas complexos — de linguagem e outros meios semióticos — para interagir umas com as outras (LARSEN-FREEMAN; CAMERON, 2008, p. 161-162; 186). Enfoco o processo discursivo de midiatização eletrônica de pesquisas científicas em um gênero/evento discursivo na internet: a notícia eletrônica de PC. O conteúdo ideacional da ciência (a nova pesquisa, sua metodologia e resultados) é midiatizado por um movimento de reposicionamento de textos (ideias, discursos, ou qualquer coisa que possa ser semiotizada) de uma esfera de atividade humana para outra. Meu argumento é que, em vez de uma separação entre discursos, o processo de recontextualização dá visibilidade a um fluxo (ora contínuo, ora 154 Gragoata 28.indb 154 Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:17 Sistemas de gêneros e recontextualização da ciência na mídia eletrônica com estreitamentos) entre gêneros que integram um mesmo sistema de criação, recriação e manutenção1,2 da ciência. Na primeira seção deste artigo, situo a discussão sobre gêneros discursivos e sistemas de gêneros. Na segunda, abordo o processo de recontextualização para explicar a transposição do objeto da ciência (constituído textualmente no contexto primário de produção científica, com seu sistema de atividades, gêneros discursivos e papeis institucionais) para o contexto (secundário) da mídia, também com seus sistemas específicos. Busco demonstrar o modo como jornalistas recontextualizam a ciência por meio de estratégias discursivas de pedagogização e de midiatização, envolvendo dois princípios: dialogismo e intertextualidade. 1 Gêneros discursivos e sistemas de gêneros A última década do século XX e a primeira década do XXI ensejaram a projeção de múltiplos olhares sobre o fenômeno dos gêneros discursivos. Nessa fase, os estudos da linguagem têm dado especial atenção aos processos e às condições de contextualização do discurso. Referências aos escritos creditados ao círculo de Mikhail Bakhtin (1995; 1992), aos estudos da Sociorretórica (BAZERMAN, 2005; SWALES, 1998) e às análises críticas do discurso (CHOULIARAKI; FAIRCLOUGH, 1999) são cada vez mais frequentes. Especialmente nas duas últimas décadas, as discussões sobre os gêneros discursivos voltam a fixar um ponto mais além dos limites do léxico, da gramática e do texto, na direção do contexto social, do discurso e da ideologia (BERKENKOTTER, 2001). 1.1 Gêneros discursivos Em um fluxo, como p o r e x e m pl o, e n t r e produção de um artigo acadêmico (criação) sua recontextualização na notícia (recriação), desenvolvimento de novas pesquisas, impulsionado pelo interesse da sociedade (manutenção), nessa ordem ou em diversas outras ordens possíveis entre essas etapas. 2 As condições de produção, distribuição e consumo do texto têm sido focalizadas nos estudos dos gêneros que circulam na sociedade. Olham-se as práticas sociais que estão em relação dialética com os gêneros que as constituem e por elas são constituídos, em uma reciprocidade entre a experiência da vida e o conteúdo, o estilo e a construção composicional dos enunciados. Exemplifico essa perspectiva primeiramente com a textografia de John Swales (1998) sobre as práticas sociais e discursivas das formas de vida em três comunidades acadêmicas que convivem diariamente em um mesmo edifício no campus da Universidade de Michigan, Estados Unidos: o departamento de Botânica, o Instituto de Língua Inglesa e um centro de computação. Para analisar o papel dos diferentes gêneros em cada comunidade, Swales busca a visão etnográfica, interna à disciplina, conforme dada por seus membros, em vez da interpretação eminentemente externa do analista do discurso. Ao realizar um estudo a que chama de “textográfico”, Swales busca fazer sentido Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 155 155 3/11/2010 19:48:17 Gragoatá Désirée Motta-Roth de cada comunidade de prática por meio da análise do discurso e da episteme locais. Observa o contexto físico, toma notas de campo, entrevista os participantes e analisa os gêneros mobilizados por esses participantes na sua experiência de trabalho diário. Analisa o sistema complexo dos gêneros discursivos que possibilitam a cada comunidade produzir conhecimento no seu campo específico. O segundo exemplo versa sobre o funcionamento de dois gêneros que atualizam as estruturas sociais da tradição cultural islâmica. Sob a perspectiva da Análise Crítica de Gênero, Al-Ali analisa (respectivamente 2005; 2006) a maneira como o aviso fúnebre e o convite de casamento atualizam e, ao mesmo tempo, são determinados pelas tradições culturais (religiosas, morais, etc.) da sociedade Jordaniana. O estudo sobre o gênero aviso fúnebre nos remete a dois momentos da tradição contemporânea daquela sociedade: a morte natural e a morte de mártires (seja por acidente ou por sacrifício à jihad – a guerra santa islâmica). Al-Ali (2005) analisa as crenças, normas e práticas socioculturais de seu país no discurso. Se o primeiro tipo de anúncio expressa pesar, o segundo incorpora um discurso promocional do falecido para expressar o orgulho e a honra por parte daquele que anuncia o passamento. O autor nos faz ver a influência dos fatores socioculturais sobre eventos discursivos. Nessa perspectiva, o mesmo autor (2006) analisa um corpus de 200 convites de casamento de toda a Jordânia e revela o modo como o poder masculino é exercido em todas as camadas da tessitura textual do gênero. O enunciado simples e curto do convite mostra a cultura islâmica e tribal, onde as tribos do noivo e da noiva são fonte dos valores de prestígio, enquanto a religião islâmica é a fonte de satisfação maior, com ambas – tribo e religião – se sobrepujando a desejos e valores individuais. De uma perspectiva interna à cultura, Al-Ali identifica o lugar social desempoderado, determinado ao gênero feminino em uma sociedade patriarcal e antifeminista. Nesses estudos sobre como a linguagem constitui os sistemas de atividades e relações sociais, os pesquisadores utilizam, como unidade de análise, um conceito de gênero que pressupõe a conexão entre atividade, relações sociais e texto para chegar ao discurso, à ideologia e à cultura. Os planos comunicativos atuantes no discurso e as relações entre texto e contexto (podem ser) são representados em uma adaptação de uma imagem da Linguística Sistêmico Funcional (LSF) (Fig. 1). Na Fig. 1, cada círculo concêntrico, da fonologia ao discurso, engloba os círculos menores e assim subsequentemente (MARTIN 1992, p. 496). A linha mais espessa demarca o contexto que circunscreve os planos da fonologia, da gramática e da semântica, pertinentes ao sistema da língua. A imagem se presta 156 Gragoata 28.indb 156 Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:17 Sistemas de gêneros e recontextualização da ciência na mídia eletrônica a uma analogia visual do desenvolvimento cronológico dos estudos de gêneros discursivos em relação à estratificação dos planos comunicativos. A flecha ascendente indica o percurso cronológico dos estudos, nos séculos XX e XXI, em direção a um entendimento mais rico da conexão entre texto e contexto. Fig. 1 Desenvolvimento cronológico dos estudos de gênero em relação à estratificação dos planos comunicativos (linguístico e contextual) (MOTTA-ROTH, 2008)2,3 Combinação e adaptação minhas de duas figuras de Martin (1992, p. 496) e Hendges (2005, p. 06). 3 No nível intermediário, entre o sistema da língua e o discurso, há os contextos de uso da linguagem. O “Contexto de Cultura” diz respeito a todo o sistema social e é estruturado pelos vários gêneros que uma comunidade mobiliza na sua experiência de vida, enquanto que o “Contexto de Situação” diz respeito a cada situação específica que se realiza linguisticamente em registros específicos de cada gênero discursivo. “Contexto de Situação” é definido como o ambiente do texto, o conjunto de significados possíveis/prováveis (potencialmente disponíveis) em um dado momento da prática social (HALLIDAY, 1989). Registro é a “configuração dos recursos semânticos que o membro da cultura associa com o tipo de situação” (MARTIN, 1992, p. 498). Um artigo científico é um gênero que se realiza em diferentes registros realizados em diferentes revistas científicas de diferentes disciplinas. Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 157 157 3/11/2010 19:48:17 Gragoatá Désirée Motta-Roth “Contexto de Cultura” é o conjunto articulado dos conceitos, dos valores, das crenças, do sistema de atividades e de gêneros tipicamente associados a um grupo social.3,4 Cada experiência individual de um dado contexto de cultura, em que um gênero é mobilizado, pode ser vista com um “Contexto de Situação” em que aquele gênero é atualizado em um registro, um tempo e um espaço social específicos. Gênero é uma conformação de significados recorrentes, organizada em estágios e orientada para o objetivo de realizar práticas sociais (MARTIN, 2002, p. 269). Essa conformação é específica da cultura (HALLIDAY, 1978, p. 145), portanto é uma unidade mais ampla do que o texto – “linguagem que é funcional”, que realiza uma tarefa em algum contexto (HALLIDAY, 1985/1989, p. 5), “uma instância real de linguagem em uso” (FAIRCLOUGH, 2003, p.3) – e menos abrangente do que discurso – visões particulares formuladas na linguagem em uso (IDEM, IBIDEM). O estrato dos gêneros surge em conexão com sistemas de atividades e se localiza entre as situações concretas que vivenciamos e as ideologias que se estabelecem no mundo como um conjunto poderoso de ideias. As atividades sociais podem ser definidas como ações por meio das quais as pessoas tentam alcançar determinados objetivos e que foram motivadas por outras ações do próprio sujeito ou de outros em um processo histórico dinâmico (KOZULIN, 1986, p. xlix). Podemos encontrar diferentes agrupamentos sociais ou “pequenas culturas” que perfazem o entorno social de cada sujeito. Tais grupos sociais se formam a partir de um critério ou um fim específico, de tal modo que um grupo social não pode ser fixado dentro de limites nacionais, étnicos ou econômicos, mas demanda critérios de relevância e interesse para seus membros para poder ser delimitado. Além disso, pela natureza fragmentada e múltipla da condição identitária contemporânea, cada sujeito pertence ao mesmo tempo a vários grupos sociais que lhe delimitam uma parcela de sua complexa identidade. Sobre isso, ver, por exemplo, Holliday (1999). 4 158 Gragoata 28.indb 158 As atividades socialmente reconhecidas são práticas sociais recorrentes mais ou menos estruturadas (como a cerimônia de casamento, a procura de emprego), com papeis sociais correspondentes (as relações de poder entre sogros e noivos, contratante e contratado) aos participantes de cada atividade. A linguagem é o sistema que dá existência material a atividades e papeis sociais. Como evento discursivo, o gênero articula a vida social em sistemas. 1.2 Sistemas de gêneros A influência sócio-histórica associada ao círculo de Mikhail Bakhtin se faz sentir nos conceitos de sistema e conjunto de gêneros, descritos por Bazerman (2005) e Devitt (1991), na constatação sobre o modo como as práticas sociais se inter-relacionam pelo princípio da intertextualidade – como um gênero é produzido e transformado em um processo mediado pela relação deste com outros textos e outros gêneros (BERKENKOTTER, 2001, p. 326-27). Em uma comunidade universitária, por exemplo, o sistema de gêneros é constituído pela interação dos participantes, mediada por textos (orais e escritos), em eventos sócio-historicamente situados, como o projeto de pesquisa, a sessão de orientação e a reunião departamental, a palestra, o artigo, livro e resenha, Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:17 Sistemas de gêneros e recontextualização da ciência na mídia eletrônica para o estabelecimento e o funcionamento dessa comunidade (DEVITT, 1991, p. 340). O sistema de gêneros é formado pela interação de todos os eventos discursivos que conformam essa comunidade ou que estão ligados a ela: as atividades no laboratório de pesquisa, no colegiado departamental, nos escritórios dos pesquisadores, no programa de pós-graduação, nas editoras que publicam os livros dos pesquisadores, nas livrarias que os vendem, nas bibliotecas que os compram, etc. O conceito de sistema é importante porque nos ajuda a entender o modo como vários gêneros diacronicamente resultam de textos anteriores e influenciam textos futuros (IDEM, p. 353-354). Gêneros inter-relacionados poderão “seguir-se uns aos outros em arranjos específicos, porque as condições de sucesso das ações discursivas de cada gênero requerem vários estados de coisas para existir” (BAZERMAN, 1994, p. 98). Portanto a intervenção de cada gênero terá consequências para outros gêneros e atos de fala correspondentes que se seguirão na implementação de nossas intenções em sociedade e, ao mesmo tempo, resulta de todas as instâncias anteriores. Os sistemas de gênero constituem a interação dos sujeitos e nas várias atividades em um dado grupo social e mobilizam a participação de todas as partes no processo de produção de conhecimento (BHATIA, 2004, p. 54). Por exemplo: diariamente, um laboratório de pesquisa de uma universidade se reestrutura pela participação dos vários atores sociais (mais e menos próximos do núcleo central da prática de produção do conhecimento): pesquisadores e alunos de pós-graduação que integram o laboratório de pesquisa, o chefe do departamento ao qual o laboratório está conectado, o editor de um periódico científico que publicará um artigo produzido pela equipe do laboratório, o editor-chefe da editora do livro do pesquisador-coordenador do laboratório, o colega ou aluno de pós-graduação que lerá o artigo e o citará em seu próprio texto ou lerá o livro e escreverá uma resenha sobre ele, o público-alvo para todos esses textos, etc. Além disso, podemos pensar no jornalista que lerá o artigo e escreverá uma notícia para popularizar essa pesquisa em um veículo de comunicação de massa. A participação de todos esses atores sociais se dá em diferentes posições relativas a gêneros discursivos variados: o seminário de pesquisa, envolvendo pesquisadores e alunos de pós-graduação e iniciação científica; a sessão de orientação entre orientador e orientando(s); o artigo, o livro e a resenha, escritos por pesquisador(es) para pesquisadores; a notícia de PC, escrita por jornalista para o grande público, etc. Esses vários gêneros dialeticamente criam um sistema de gêneros e são criados por ele, como uma rede de práticas sociais inter-relacionadas em um mesmo contexto de cultura, com pontos mais e menos próximos dos centros de prestígio e poder. Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 159 159 3/11/2010 19:48:18 Gragoatá Désirée Motta-Roth Fig. 2 Fluxo intertextual do sistema de gênero em um laboratório universitário de Linguística Aplicada (Motta-Roth, 2008; 2007a) A Fig. 2 representa o sistema de gêneros do laboratório e pode ser descrita como: um fluxo intertextual contínuo e não linear entre um projeto de pesquisa, o produto dessa pesquisa (na forma de livro, por exemplo) e a avaliação do mesmo (na forma de uma resenha do livro publicado). Assim, um projeto de pesquisa guardachuva é construído com base em outros textos lidos ou escritos anteriormente pelo grupo ou por outros autores. O projeto é então estudado e implementado, alterado, adaptado, e as idéias advindas daí são buriladas em: 1) sessões de orientação, 2) bancas de trabalhos de alunos, 3) palestras, e pode culminar na 4) publicação de um capítulo de livro que, por sua vez, poderá desencadear a 5) publicação de uma resenha crítica do livro, cuja leitura poderá influenciar novos textos, e assim por diante, num fluxo entre atividades institucionais eminentemente discursivas, orientadas para diferentes objetivos (MOTTA-ROTH, 2008, p. 364). Gêneros, como enunciados relativamente estáveis, são atualizados em novas situações (registros) e seguem-se uns aos outros em contextos específicos, como condições discursivas necessárias para as práticas sociais se realizarem. Cada gênero terá consequências para os outros gêneros (e os atos de fala correspondentes) que se seguem no processo de concretização de nossos objetivos (BAZERMAN, 1994, p. 98). O conceito de sistema de gêneros evidencia o papel de cada texto na manutenção da instituição científica. O conhecimento sobre como gêneros são intertextual e dialogicamente constituídos oferece possibilidades praxiológicas para que 160 Gragoata 28.indb 160 Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:18 Sistemas de gêneros e recontextualização da ciência na mídia eletrônica participantes entrem e saiam de gêneros letrados na pele de escritores, distribuidores e leitores de textos. Um pesquisador em formação pode se posicionar e produzir textos mais alinhados a seus objetivos se puder contar com análises sobre o modo como funciona o sistema de interações sociais, a intertextualidade e o dialogismo entre os gêneros que estruturam a comunidade em que se inscreve (MOTTA-ROTH, 2001). Para alunos de pós-graduação e pesquisadores iniciantes, o conceito de sistema de gêneros (ou de “rede” para SWALES, 2004) é ainda mais importante porque esclarece como cada texto realiza sua parte nessa rede, como os textos juntos delimitam as atividades do grupo social. Também é importante diacronicamente, porque indica como os vários gêneros resultam de textos anteriores e influenciam os textos futuros (DEVITT, 1991, p. 353-354). Sistema de gêneros é a história de todos os eventos discursivos que se caracterizam em gêneros distintos, em ocorrências intertextuais, cada um como um ato em relação aos anteriores e posteriores, como instâncias de recontextualização, conforme argumento na próxima seção. 2 Recontextualização, dialogismo e intertextualidade em notícias de popularização da ciência Faço aqui uma leitura particular de dois conceitos associados ao círculo de Bakhtin – dialogismo e intertextualidade – em combinação com um terceiro –recontextualização, da obra de Basil Bernstein (1971; 1996) - para ilustrar minha discussão sobre sistemas de gênero no processo de midiatização ou popularização da ciência (PC): um processo discursivo de produção, distribuição e consumo de textos sobre novas pesquisas em campos especializados, cujos participantes-atores centrais são a ciência (o cientista), a mídia (o jornalista-mediador na impressa, na televisão, no rádio, etc.) e a sociedade (o público leitor não especialista) (MOTTA-ROTH, 2007b, p.2). Sua audiência-alvo é a sociedade mais ampla do que o grupo social estritamente formado por pesquisadores de uma determinada área de especialidade (MYERS, 2003, p. 265). Tomo o exemplo de um gênero que chamo de “notícia de popularização científica”, em que uma pesquisa (sua metodologia, seus resultados centrais e o significado desses resultados para a sociedade) é reportada em uma linguagem acessível a não especialistas. A notícia é uma combinação entre a manchete, o lide e o relato do evento principal – nesse caso, a realização de uma nova pesquisa, seu contexto, os eventos prévios e a relevância da pesquisa para a vida do leitor não especialista (MOREIRA; MOTTA-ROTH, 2008, p.4). O processo de popularização ilustra o modo como uma prática social integra o processo mais amplo de produção e Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 161 161 3/11/2010 19:48:18 Gragoatá Désirée Motta-Roth manutenção da ciência por meio das relações intertextuais e dialógicas entre os vários textos, gêneros e atores sociais que participam do mesmo sistema de gêneros. 2.1 Recontextualização como coesão entre elos da cadeia histórica da comunicação verbal Na visão de Bernstein (1996, p.32), o texto posiciona sujeitos, é a forma de relação social tornada visível, material. Chama a transferência de textos de um “contexto primário” de produção do discurso para um “contexto secundário” de reprodução do discurso por meio de um contexto intermediário de “recontextualização”. Para ele, a escola atua como campo recontextualizador (que faz a realocação) do discurso teórico-científico, fazendo um trabalho de adaptação deste para o consumo, em um processo de reprodução cultural da estrutura do sistema social, segundo a agenda institucional escolar. Na escola, assim como na sociedade em geral, há uma conexão estreita entre a construção (modelagem, shaping) da experiência, o sistema simbólico e a estrutura social, governada por relações de poder, portanto não só o capital econômico, mas também o capital cultural e simbólico estão sujeitos à apropriação, manipulação e exploração (BERNSTEIN, 1971, p. 172). A escola, como outros contextos socializadores, se realiza na produção textual e privilegia certos significados (relações referenciais) relevantes em detrimento de outros. Os significados relevantes são privilegiados e privilegiantes: as relações referenciais privilegiadas têm prioridade (o que é consagrado como relevante hoje na sociedade e ocupa espaço na mídia, como, por exemplo, as pesquisas em medicina em comparação àquelas em linguística aplicada), e as privilegiantes conferem poder (o que consagra distinção e valor social à pessoa, objeto ou circunstância, como, por exemplo, a carreira médica consagra mais distinção e valor em comparação à docente) (BERNSTEIN, 1996, p. 30-31). Esses signifcados são, portanto, estruturados socialmente, determinados pela natureza das relações sociais e ativam escolhas gramaticais e lexicais específicas (BERNSTEIN, 1971, p.14). Tomo a mídia como um contexto recontextualizador que mediatiza/populariza a ciência para a sociedade. Essa dinâmica envolve o deslocamento do discurso da ciência e do objeto do conhecimento científico, na sua materialidade textual, do seu contexto de produção primário para outro de consumo secundário (BERNSTEIN, 1996, p. 91). Os significados originalmente privilegiados e privilegiantes do artigo são selecionados, simplificados, condensados e elaborados em outro contexto de práticas interativas, por meio de paráfrase, substituições de termos espe162 Gragoata 28.indb 162 Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:18 Sistemas de gêneros e recontextualização da ciência na mídia eletrônica cializados por outros de uso cotidiano, analogias e comparações (MASSARANI; MOREIRA, 2005). [Na] recontextualização, inicialmente há uma descontextualização: textos são selecionados em detrimento de outros e são deslocados para questões, práticas e relações sociais distintas. Simultaneamente, há um reposicionamento e uma refocalização. O texto é modificado por processos de simplificação, condensação e reelaboração, desenvolvidos em meio aos conflitos entre os diferentes interesses que estruturam o campo de recontextualização (LOPES, 2002, p.388). O texto científico original é reposicionado, gerando outras posições de sujeito: se, no artigo científico, havia escritor-especialista/leitor-especialista, na notícia de popularização, há jornalista-especialista/leitor-não especialista. Refocalizam-se outros significados. Por exemplo, em artigos científicos, o foco é o autor e o que foi feito na pesquisa, portanto a primeira pessoa é usada (“We studied the basis for entrainment of circadian rhythms by food and light in mice”). Na midiatização da pesquisa, entretanto, o foco é o leitor, portanto é legítimo o jornalista usar a segunda pessoa para interpelar a audiência (“Your stomach may truly have a mind of its own.”), captar sua atenção e estabelecer relação direta com ela logo de início para introduzir o tema (o da alimentação). Muito embora esses deslocamentos sugiram uma ruptura, penso que recontextualização pressupõe referência cruzada entre textos. Na midiatização da ciência, um artigo científico publicado em uma revista acadêmica é lido por um jornalista que o seleciona, reelabora, refocaliza a partir dos interesses da instituição midiática de informatividade e de captação de audiência: A finalidade do discurso de midiatização da ciência – que corresponde ao objetivo do ato de comunicação e que permite responder à pergunta “estamos aqui para dizer o quê?” – se constitui pelas visadas de informação e de captação. De acordo com Charaudeau (2008), a visada de informação do discurso de midiatização da ciência consiste em transmitir ao interlocutor conhecimentos ou eventos relacionados à ciência [fazer saber], enquanto a visada de captação corresponde a fazer o interlocutor sentir emoções agradáveis ou desagradáveis [suscitar interesse] a fim de captar a maior quantidade de leitores, no caso da mídia impressa (BECKER, 2010, p. 3-4) Ver MOTTA-ROTH e MARCUZZO (no prelo), MOTTA-ROTH e LOVATO (2009) e MOTTAROTH, GERHARDT e LOVATO (2008). 5 Nas notícias de popularização já analisadas em trabalhos recentes,4,5 o diálogo e os contrapontos não podem ser vistos como rupturas entre o discurso da ciência e o da mídia jornalística, mas sim como um fluxo entre os discursos, gêneros e textos, numa relação dialética que estabelece apoio mútuo, mesmo na discordância. Essa relação imbricada se demonstra por índices linguísticos de dialogismo e intertextualidade como a interpe- Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 163 163 3/11/2010 19:48:18 Gragoatá Désirée Motta-Roth lação explícita do leitor, o relato e a citação, ou as estratégias de pedagogização do discurso, como o aposto e a glosa. 2.2 Dialogismo e intertextualidade A Mikhail Bakhtin é creditado o princípio do dialogismo da linguagem, segundo o qual todo ato humano é um texto que conversa com outros textos (1992, p. 332) precedentes aos quais responde e também se antecipa como horizonte de expectativa para respostas de outros textos que se seguirão. “Um ato humano é um texto em potencial, que pode ser entendido (como um ato humano e não como uma ação física) apenas no contexto dialógico de seu tempo” (IDEM, p. 334). Assim, toda compreensão é ativamente responsiva (IDEM, p. 67-9), pois (re)agimos à e por meio da linguagem. As relações dialógicas ...são um fenômeno quase universal, que penetra toda a linguagem humana e todas as relações e manifestações da vida humana (Bakhtin, citado em BRAIT, 2009, p. 56). Existe uma “relação de sentido entre enunciados” (BAKHTIN, 1992, p. 345), uma interação entre discursos, entre atos de fala, entre enunciados completos definidos como textos (IDEM, p. 330) e entre gêneros do discurso, entendidos como as formas dos enunciados, elaboradas por situações recorrentes (IDEM, p.305; 333): Dois enunciados, separados um do outro no espaço e no tempo e que nada sabem um do outro, revelam-se em relação dialógica mediante uma confrontação do sentido (ainda que seja algo insignificante em comum no tema, no ponto de vista, etc.). (IDEM, p. 353-354). Essa relação dialógica liga-se diretamente ao processo de intertextualidade, em que o enunciado produzido por outra pessoa, quando conscientemente percebido e distinguido em sua alteridade, é introduzido em nosso enunciado, em analogia com as relações existentes entre réplicas do diálogo (IDEM, p. 318): Observam-se esses fatos acima de tudo nos casos em que o discurso do outro...é abertamente citado e nitidamente separado (entre aspas) e em que a alternância dos sujeitos falantes e de sua inter-relação dialógica repercute claramente (IDEM, IBIDEM). A intertextualidade identifica o texto como enunciado (IDEM, p. 330). É a capacidade de um texto evocar outros textos existentes na cultura, como um elo na “cadeia de textos” (IDEM, p. 319, 332). Como “um mosaico de citações” (KRISTEVA, 1967 apud FIORIN, 2006, p.163), cada texto reflete os enunciados dos outros e, sobretudo, os elos anteriores (às vezes os próximos, mas também os distantes): 164 Gragoata 28.indb 164 Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:19 Sistemas de gêneros e recontextualização da ciência na mídia eletrônica ...o objeto do discurso [do locutor] se torna, inevitavelmente, o ponto onde se encontram as opiniões de interlocutores imediatos (numa conversa...) ou então as visões do mundo, as tendências, as teorias, etc... (Bakhtin, 1992, p. 319). É dessa interação entre pontos de vista que surgem as “relações dialógicas intertextuais” (Idem, p. 331) Nossos trabalhos recentes (com exemplares do gênero notícia de PC, publicados na mídia nacional e internacional)5,6 sugerem a intertextualidade como princípio constitutivo de notícias de PC em português e inglês. “Há uma multiplicidade de vozes nesses textos que promovem o debate e possibilitam a explicação de novos conceitos e a avaliação do significado de novas pesquisas para a sociedade” (MOTTA-ROTH; MARCUZZO, no prelo, p.7). Meu argumento aqui é que notícias de PC e o artigo científico não existem separadamente, mas integram um mesmo sistema de gêneros que produz e mantém a ciência ao recontextualizar seu objeto pelo princípio do dialogismo e pela capacidade intertextual da popularização. Evidência disso é a referência ao artigo científico que primeiramente relatou a nova pesquisa e que foi lido pelo jornalista para elaborar a notícia. Há aí uma sinalização do fluxo entre a ciência e sua popularização em diferentes graus de remoção (a que distância do contexto original o leitor é remetido) e de concretude (quão evidente e interativa é a sinalização). Exemplo 16,7 Idem nota 4. Home birth to ward i n c r e a s e s r i sk . BBC News, 1 April 2008. Disponível em http://news. bbc.co.uk/2/hi/health/7324555.stm. Acesso em 14/06/2010. 6 7 Por exemplo, em um extremo de alto grau de remoção e baixo grau de concretude, pode haver uma simples menção do artigo científico em uma notícia, como ocorre consistentemente na revista eletrônica BBC News (Exemplo 1), que recontextualiza Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 165 165 3/11/2010 19:48:19 Gragoatá Désirée Motta-Roth simplificada e remotamente a ciência em linguagem corriqueira, com raros termos técnicos e frequentes estratégias linguísticas de pedagogização, como aposto e glosa. Geralmente a referência à publicação do artigo aparece, sem qualquer hiperlink, logo no início da notícia (BJOG: An International Journal of Obstetrics and Gynaecology7,8 (no Exemplo 1), como apelo à autoridade, emprestando credibilidade às fontes do jornalista. Muito frequentemente, há um alto grau de remoção por uma simples menção do artigo científico, harmonizada com linguagem corriqueira e aposto e glosa explicativos. Exemplo 28,9 Originalmente intitulado British Journal of Obstetrics and Gynaecology. 9 C O U RT L A N D, R . Your belly's very own b o dy c lo c k . Nat u r e News, 22 May 20 08. Disponível em http:// w w w. n a t u r e . c o m / n e w s/2 0 0 8/0 8 0 52 2/ f u l l/n e w s. 2 0 0 8. 8 4 8. html, Acesso em 14/06/2010. 8 166 Gragoata 28.indb 166 No entanto, há um médio grau de concretude em função da inserção de hiperlinks (localizados no texto ou perifericamente a ele, dentro da mesma tela) que dão visibilidade ao fluxo entre PC e produção primária da ciência ao direcionar o leitor para as referências bibliográficas na parte inferior da tela, ao final da notícia como no Exemplo 2. Ao clicar no índice sobrescrito em vermelho, ao lado do nome em itálico da Science (revista científica), o leitor é remetido às referências hiperlinkadas de outros endereços eletrônicos (fora da esfera da popularização), que lhe levarão ao resumo acadêmico do artigo original reportado na notícia (Exemplo 3). Aos poucos o leitor vai sendo recontextualizado da esfera midiática para a esfera científica. Uma nova tela, já na revista Science, possibilita a leitura do resumo acadêmico (abstract) do artigo (Exemplo 3). O grau de remoção diminui e de concretude da conexão aumenta, pois dessa tela do resumo, o leitor tem a opção de seguir navegando mais além. Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:19 Sistemas de gêneros e recontextualização da ciência na mídia eletrônica Exemplo 39,10 Hiperlinks, como Read the Full Text, marcado em azul ao final do resumo, exercem uma força centrípeta em direção à esfera de produção primária da ciência, ao conduzir o leitor ao texto integral do artigo (Exemplo 4). Exemplo 410,11 FULLER, P. M.; LU, J.; SAPER. C. B. Abstract de Differential rescue o f l ig h t- a n d f o o dentrainable circadian rhythms. Science, v. 320. n. 5879, p. 1074-1077, 23 May 2008. Disponível em http://www.sciencemag.org/cgi/content/ abstract/320/5879/1074. Acesso em 14/06/2010. 11 FULLER, P. M.; LU, J.; SAPER. C. B. 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Essas opiniões aparecem em citação (discurso direto) ou relato (discurso indireto) e podem ser de apoio (geralmente do próprio cientista que a desenvolveu) ou de discordância da pesquisa (geralmente de outro colega ou de uma instituição), como mostram os Exemplos 6 e 7, respectivamente: Exemplo 612,13 ANTUNES, D. Nadando contra a maré. Ciência Hoje Online, 14/06/2010. Disponível em http://cienciahoj e . u o l . c o m . b r/n o t i cias/2010/06/nadandocontra-a-mare. Acesso em 14/06/2010. 13 Racial clues in bowel cancer find. BBC News, 31 March 2008. Disponível em http:// news.bbc.co.uk/2/hi/ health/7319251.st m . Acesso em 15/06/2010. 14 Idem à nota 8. 12 168 Gragoata 28.indb 168 Professor Malcolm Dunlop, at the Institute of Genetics and Molecular Medicine at the University of Edinburgh and who led the research, said: "This is the first time that a race-specific effect has been found for a genetic marker. Exemplo 713,14 But some researchers in the field have serious concerns about the work. “On the face of it, it’s almost the final nail in saying DMH is the pacemaker, but under the surface there are people who strongly disagree,” says neuroscientist Masashi Yanagisawa of University of Texas Southwestern Medical Center in Dallas, who was not involved in the work. Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:21 Sistemas de gêneros e recontextualização da ciência na mídia eletrônica O Exemplo 6 ilustra a inserção da voz do cientista, representando uma posição enunciativa que destaca a inovação de sua própria pesquisa (first time) e é legitimada por credenciais de cargo (Professor), instituição (Institute of Genetics and Molecular Medicine at the University of Edinburgh) e posição na equipe de pesquisa (led the research). O Exemplo 7 demonstra o contraponto, a inserção de vozes plenivalentes,14,15 de mesmo grau de potência, que oferecem contraponto. Nesse caso, a voz do colega pesquisador, também legitimada por credenciais (some researchers in the field; neuroscientist Masashi Yanagisawa of University of Texas Southwestern Medical Center in Dallas; who was not involved in the work), oferece, ao jornalista e ao leitor, sua crítica à pesquisa (serious concerns about the work; people who strongly disagree). Nas notícias, ocorre a conversacionalização (FAIRCLOUGH, 1995, p.51), cadeias intertextuais como entrelaçamento de representações de vozes variadas em uma rede construída pelo jornalista para impor ordem e interpretação a elas (IDEM, p.77). Análise anterior (MOTTA-ROTH; MARCUZZO, no prelo) indica que vozes mais presentes são as do cientista e do colega, com muito menos ênfase para a voz de instituições governamentais e, com uma voz quase inaudível, o público. A respeito da inexistência da citação da voz do público nos textos da mídia, Fairclough (idem, p.49) observa que, em virtude do pressuposto de que jornalismo depende de fontes legitimadas (por credenciais, por exemplo), ao público é dado o direito a sua experiência, mas não a sua opinião. A tímida inserção da voz do público nas notícias de PC sugere que a visão otimista sobre a atual existência de um processo de democratização da ciência pela mídia é infundada15,16 e que ainda precisamos de mais compreensão sobre ciência para podermos opinar como voz individual. Considerações finais Aqui a conexão com o termo “polifonia” é uma possibilidade que tentarei aprofundar em outro trabalho. 16 Con forme comunicação pessoal de Graciela Rabuske Hendges (UFSM) em 06/04/2010. 15 No presente trabalho, intertextualidade e dialogismo atuaram na recontextualização necessária e inerente ao funcionamento do discurso. Essa recontextualização de textos, pontos de vista, vozes, etc., só é possível pela existência de relações dialógicas entre gêneros que orbitam um mesmo sistema que produz e mantém a ciência. No exame de seu histórico, qualquer problema científico (quer seja tratado de modo autônomo, quer faça parte de um conjunto de pesquisas sobre o problema em questão) enseja uma confrontação dialógica (de enunciados, de opiniões, de pontos de vista) entre os enunciados de cientistas que podem nada saber uns dos outros, e nada podiam saber uns dos outros. O problema comum provocou uma relação dialógica. (Ênfase minha) (BAKHTIN, 1992, p. 354) Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 169 169 3/11/2010 19:48:21 Gragoatá Désirée Motta-Roth A recontextualização de um artigo científico que relata uma nova pesquisa em uma notícia de PC cria “um novo elo na cadeia histórica da comunicação verbal” (IDEM, p. 332) por meio de relações dialógicas e intertextuais. O fluxo discursivo entre ciência, mídia e sociedade não se manifesta de forma linear, como um contínuo, mas é pluridirecional: a ciência informa a mídia, esta informa o público, este, por sua vez, consome a midiatização e, por um processo de emergência (SAWYER, 2003) em que fenômenos macrossociais emergem das ações de vários indivíduos participativos, determina a agenda da mídia, assim como influencia os caminhos da ciência (MOTTA-ROTH, 2007b, p.3). Oliveira (2005, p. 222) aponta que, assim como o artigo científico, a notícia de PC participa de um mesmo sistema semiótico no âmbito da ciência. Ambos estão inter-relacionados em complexas redes intertextuais de referência aos mesmos fatos científicos, mas com modos específicos de realização do significado em diferentes gêneros discursivos. Nessa dinâmica de produção e manutenção da ciência, é evidente a importância do letramento científico popular – o desenvolvimento das habilidades para interagir com outras pessoas no papel de leitor e escritor em torno de conhecimentos especializados. A ciência como formação discursiva e ideológica, como esfera de atividade humana, depende de interlocutores que possam desafiá-la, alimentá-la, levá-la adiante e até derrubála para que novos paradigmas possam ser criados. É parte da cultura da sociedade e se beneficia do conhecimento popular sobre a natureza e a relação dos seres humanos com ela (MYERS, 2003, p. 271). Abstract: In this paper I explore the process of science popularization from the vantage point of two concepts: genre system and recontextualization. I associate the socio-rhetorical and systemic-functional concepts of discourse genre with the socio-historical perspective (as credited to Mikhail Bakhtin and other authors along the same line) to define genre as a recurring discursive event in specific human activity spheres. I focus on the discursive process implemented by the midiatization of scientific research in science popularization publications divulged on the internet. The transposition of an ideational content from science (the new research, its methodology and results) into the electronic media occurs in a recontextualization movement that relocates (parts of or whole) texts from one sphere of human activity to another, providing 170 Gragoata 28.indb 170 Niterói, n. 28, p. 153-174, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:21 Sistemas de gêneros e recontextualização da ciência na mídia eletrônica visibility to the continuous flux between genres of the same system for science production and maintenance. Keywords: Discourse genre. 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A análise parte dos pressupostos teóricos desenvolvidos pelo Círculo de Bakhtin e estabelece interlocução com a abordagem ergológica. Por razões metodológicas, a análise está organizada em dois grupos interdependentes. O primeiro apresenta uma reflexão acerca da capa do jornal em estudo e de efeitos produzidos pelos recursos visuais utilizados (como cor, espaço e elementos gráficos). O segundo grupo analisa os recursos verbais eleitos para a construção da capa, considerando (a) designações utilizadas para a chamada sobre o Episódio Aracruz e, de modo sucinto, (b) elementos verbais utilizados em outras chamadas, que, por constituírem o mesmo projeto gráfico, mantêm uma interlocução e, assim, produzem efeitos diversos. Os resultados da reflexão indicam que os enunciados analisados, não seguindo as prescrições dos manuais de redação jornalística, são altamente avaliativos na intrínseca relação entre os planos verbal e visual, o que revela a relativa estabilidade dos gêneros e ratifica o estatuto lacunar das normas do trabalho. Nesse processo discursivo, a posição do jornal emerge em um emaranhado de vozes na cobertura do Episódio Aracruz, deixando ressoar, dentre outras relações dialógicas, a ruptura com os movimentos sociais, o que exige uma leitura crítica para compreender os sentidos em circulação. Palavras-chave: Relações dialógicas. Capa de jornal impresso. Episódio Aracruz. Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:22 Gragoatá Élida LIMA e Maria da Glória DI FANTI Considerações iniciais Uma pesquisa maior sobre a cobertura jornalística do Episódio Aracruz está sendo desenvolvida em forma de Dissertação de Mestrado pela acadêmica Élida Lima, com a orientação da Profa. Maria da Glória di Fanti, no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Católica de Pelotas (UCPel). 1 176 Gragoata 28.indb 176 Ao observarmos os gêneros produzidos na esfera jornalística, é possível percebermos que as notícias são uma construção discursiva de um fato, tendo em vista constituírem uma elaboração em que entram em jogo diferentes perspectivas, como a do jornalista, do jornal, do público-alvo, dos patrocinadores, das alianças políticas, dentre outros elementos, o que configura uma performance encenada pelos veículos de comunicação. É válido lembrar, sob esse enfoque, que a notícia é uma das modalidades de apresentação das informações no jornalismo, a qual concentra aspectos da realidade, ou melhor dizendo, desenvolve uma versão da realidade. Mas não é uma versão qualquer, pois é produzida por profissionais especializados, os jornalistas. Há de se considerar, nesse contexto, que somente são publicadas aquelas notícias que atendem a certos requisitos mercadológicos, ou seja, é necessário que os fatos eleitos, para serem publicizados, tenham o apelo e o valor exigidos pela esfera jornalística. Assim, a seleção, escolha de um assunto e não de outro, é realizada em consonância com as prerrogativas dessa esfera, como, por exemplo, a publicação de informações de interesse público (que possam atingir um grande número de pessoas). Destaca-se, além disso, que as notícias ganham maior ou menor visibilidade dentro desse espaço de produção de discurso a partir da avaliação dos profissionais da comunicação, no que tange aos saberes, história, interesses e perspectivas ideológicas, que se revelam (em maior ou menor intensidade) em suas produções discursivas. Nesse contexto, chama-nos a atenção a primeira página dos jornais impressos, espaço que reúne uma síntese daquelas notícias consideradas de maior impacto pelos jornalistas. Os fatos que ali figuram, via de regra, ocupam espaços privilegiados nas páginas internas do jornal. Assim, a apresentação “objetiva”, que se instala no dizer da capa do jornal impresso, é importante elemento na cena discursiva construída pelos veículos de comunicação para a apresentação das notícias e, portanto, merecedor de uma análise mais detalhada, uma vez que, na sociedade contemporânea, é através das informações que circulam por este espaço que muitos leitores tomam conhecimento de fatos da atualidade. Nessa perspectiva, temos como objetivo analisar discursivamente a capa do jornal Zero Hora (Porto Alegre-RS) do dia 12 de março de 2006, verificando relações dialógicas estabelecidas de modo a recuperar características e efeitos de sentido da cobertura de um evento de grande repercussão na mídia gaúcha, que denominamos para fins de pesquisa como Episódio Aracruz.1 O fato noticiado ocorreu na madrugada do dia 8 de março de 2006, quando um comboio de 40 ônibus transportou cerca de Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:22 Tensionamento de vozes na primeira página do jornal: o episódio Aracruz na capa de Zero Hora 1,5 mil pessoas de Porto Alegre-RS para o município de Barra do Ribeiro-RS, distante 60 quilômetros da capital gaúcha. No local, o grupo entrou no horto florestal da Aracruz e inutilizou aproximadamente três milhões de mudas de eucaliptos, além de estufas e experimentos. Os manifestantes, que protestavam contra a instalação de florestas de eucalipto no Rio Grande do Sul e, futuramente, de uma indústria de celulose, eram, em sua grande maioria, mulheres integrantes do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), vinculado à Via Campesina. O fato teve grande repercussão nos campos político e jurídico, além de ocupar espaço privilegiado na mídia. A análise tem como base os pressupostos da teoria dialógica do discurso (BAKHTIN, 1929/1997, 1934-1935/1998, 19521953/2003; BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/2004), especialmente noções como dialogismo, enunciado, gêneros do discurso, voz e palavra, que auxiliam na compreensão das construções discursivas historicamente situadas no tempo e espaço. Também estabelecemos uma interlocução com as noções desenvolvidas pela ergologia (SCHWARTZ, 1994, 2003), abordagem que considera o “fazer” do trabalhador como uma atividade viva, sempre inovadora, materializado no debate constante entre normas antecedentes e renormalizações. O aporte dessas teorias possibilita definir a proposta deste estudo no que se refere à observação das notícias destacadas na capa do jornal pela ótica de uma análise dialógica do discurso, sem perder de vista os elaborados processos produtivos e a complexa atividade do jornalista. Este trabalho é constituído por três seções, seguidas das considerações finais. Na primeira, são apresentadas, de forma sucinta, as noções consideradas relevantes para o embasamento teórico da reflexão. A segunda parte contempla uma breve contextualização da esfera midiática, mais precisamente a jornalística, algumas informações sobre o jornal Zero Hora e sobre o episódio ocorrido no horto florestal da empresa Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro-RS, que mereceu ampla cobertura jornalística em Zero Hora. A terceira seção traz considerações analíticas sobre o objeto em análise neste trabalho, qual seja a capa do jornal Zero Hora do dia 12 de março de 2006, que se configura como uma das edições que mais espaço dedicou à cobertura do Episódio Aracruz. 1 Teoria dialógica do discurso e abordagem ergológica Para fundamentar teoricamente a presente reflexão, partimos dos pressupostos da teoria dialógica do discurso, desenvolvida por Mikhail Bakhtin e seu Círculo (BAKHTIN, 1929/1997, 1934-1935/1998, 1952-1953/2003, 1959-1961/2003; BAKHTIN/ VOLOCHINOV, 1929/2004), e estabelecemos interlocução com a abordagem ergológica (SCHWARTZ, 1994, 2003; SCHWARTZ Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 177 177 3/11/2010 19:48:22 Gragoatá Élida LIMA e Maria da Glória DI FANTI e DURRIVE, 2007), que tem na atividade humana o seu objeto de reflexão. Sem desconsiderar as relações lógicas, próprias da linguística do sistema, mas ultrapassando-as, Bakhtin (1929/1997, 1952-1953/2003) propõe o estudo da linguagem a partir da sua propriedade dialógica. Considerando a memória discursiva dos enunciados, a heterogeneidade dos discursos e a antecipação dos dizeres (cada enunciado supõe uma resposta), o dialogismo implica o estabelecimento permanente de relações responsivas (relações dialógicas) com discursos de outrem em diferentes direções, o que garante a dinamicidade de sentidos. Desse modo, para a teoria bakhtiniana, a língua é considerada em situações concretas na materialização de enunciados dialógicos, os quais, funcionando como a unidade mínima de comunicação e um elo na cadeia discursiva, estão sempre em inter-relação com outros enunciados e fazem circular posições avaliativas de sujeitos do discurso. O enunciado, constituído por dimensões verbais e não-verbais, implica também, como observa Bakhtin (1959-1961/2003), uma relação entre o dado e o criado, no sentido de ressaltar sua dimensão de singularidade, de ressignificação, de irrepetibilidade. Mesmo havendo algo que é dado, mesmo que uma repetição linguística, sempre há criação, renovação, reelaboração, pois as condições de produção do discurso são sempre outras. Tais observações são importantes para o entendimento dos gêneros do discurso, formas discursivas com estabilidade relativa que possibilitam as interações verbais. Segundo Bakhtin (1952-1953/2003), falamos por meio de gêneros, o que indica, por um lado, a socialização de práticas discursivas e, por outro, a existência de elementos próprios dos gêneros. O tema, o dizível dinâmico de um dado gênero, configurado pelos sentidos em circulação, a forma composicional, a estrutura em diferentes dimensões, e o estilo verbal, recursos linguísticos, se engendram nas produções enunciativas e oferecem pistas intrínsecas à relação empreendida com a esfera de produção, circulação e recepção do discurso. Nas diferentes manifestações de linguagem, emerge também o estilo – dialógico – do sujeito do discurso nas relações empreendidas com outrem (discursos e sujeitos). Na constituição do enunciado, e também do gênero, há um entrecruzamento de vozes sociais em concorrência, em que se encontram e se distanciam diferentes pontos de vista, visões de mundo. O enunciado, desse modo, se materializa heterogeneamente e, ao mesmo tempo em que responde a discursos diversos (nem sempre observáveis), apresenta posições ideológicas de quem se responsabiliza pelo dizer (BAKHTIN, 1934-1935/1998). Nesse processo, é fundamental observar, na dimensão verbal, as palavras que constituem os enunciados e, em decorrência os gêneros, pois a escolha de uma palavra e não outra e a sua or178 Gragoata 28.indb 178 Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:23 Tensionamento de vozes na primeira página do jornal: o episódio Aracruz na capa de Zero Hora O termo faz referência a Frederick Taylor e ao método por ele criado de racionalização do trabalho. 2 ganização no discurso revelam posições assumidas pelo sujeito tanto em relação ao objeto do discurso como em relação ao outro com quem dialoga (seja o interlocutor, seja outro discurso ou sujeito). A palavra, como salienta Bakhtin/Volochinov (1929/2004), funciona como uma zona fronteiriça entre os interlocutores e é um fenômeno ideológico por natureza, o que a configura como enunciado. Na leitura da teoria bakhtiniana, Di Fanti (2009, p.182) observa que “a palavra se materializa como expressão de certa posição valorativa do sujeito, cuja experiência discursiva se desenvolve em uma interação constante e contínua com os enunciados dos outros”. Dessa forma, todo discurso é carregado de palavras alheias, que são re-acentuadas, singularizadas em um outro dizer, em novas condições enunciativas. Ampliando a perspectiva teórica, estabelecemos diálogo com a ergologia, abordagem que, comprometida com a valorização do humano nas trocas laborais, contribui para a compreensão de características do trabalho no que tange às dimensões éticas e históricas dos saberes presentes nas atividades humanas (SCHWARTZ, 1994, 2003; SCHWARTZ e DURRIVE, 2007). Trata-se de um enfoque que, inspirado na ergonomia da atividade, dentre outros movimentos, questiona o paradigma taylorista,2 o qual considerava o trabalho a partir da perspectiva dos gestores, sem deixar espaço para a contribuição intelectual do trabalhador. Da ergonomia da atividade, a principal contribuição é o reconhecimento da distância entre o trabalho prescrito e o trabalho real, mostrando que o trabalhador não é um mero executor de tarefas, mas sim um ser humano que, em sua prática profissional, sempre faz algo diferente, singular. Ampliando os estudos da ergonomia situada e considerando a complexidade da atividade humana, a Ergologia propõe que a análise do trabalho seja feita a partir de uma perspectiva pluridisciplinar (filosofia, ergonomia da atividade, lingüística etc.). Tal postura deve-se ao fato de se considerar as diferentes dimensões que interferem no fazer do trabalhador, como saberes, experiências, projetos, preocupações e anseios. Para a abordagem ergológica, o ser humano, na atividade de trabalho, é “fabricante” de história, com capacidade de (re) questionar e (re)combinar os saberes, (re)elaborando em permanência novas tarefas para o conhecimento. Schwartz, desse modo, não descarta as prescrições do trabalho, mas sobretudo as redefine no amplo campo das normas antecedentes, as quais, embora mantenham a mesma natureza das prescrições, não se limitam a elas. Para o filósofo, as normas antecedentes são importantes e orientam, em parte, o que vai ser produzido no “vivo da atividade”; entretanto, não pré-definem o real da atividade, já que a história da atividade é sempre inacabada e lacunar (SCHWARTZ, 1994, 2003). Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 179 179 3/11/2010 19:48:23 Gragoatá Élida LIMA e Maria da Glória DI FANTI Considerando a atividade de trabalho como uma atividade industriosa, gerida por um indivíduo complexo, Schwartz (2003) destaca a importância da observação do debate entre normas antecedentes e renormalizações como um meio de criar conhecimento sobre o trabalho. É justamente nesse debate que se pode perceber a atividade de trabalho como lugar de se fazer história, na medida em que o ser humano, tratando daquilo que não é antecipável, subverte as normas, preenche lacunas, chegando a transformar as configurações culturais e sociais, o que nos remete à esfera jornalística. 2 A esfera jornalística, o jornal Zero Hora e o Episódio Aracruz Sobre características discursivas do gênero notícia, consultar Grillo (2004), Sant’Anna (2004), Brait e Rojo (2003). 3 180 Gragoata 28.indb 180 Na sociedade (pós)moderna, a mídia passou a ser o espaço por excelência em que as informações têm curso, trafegam, tomam forma, sendo que os veículos de comunicação encenam uma performance discursiva ao apresentarem as informações do cotidiano como enunciados de determinados gêneros midiáticos. Nessa perspectiva, faz-se necessário problematizar a mídia e suas cenas enunciativas de apresentação de versões da realidade, pois é através das informações que circulam por este espaço que a sociedade contemporânea toma conhecimento dos fatos da atualidade. Dependendo do modo como os enunciados são apresentados, podem, em maior ou menor grau, influenciar a interpretação dos fatos e o comportamento tanto individual quanto coletivo. O gênero jornalístico difere-se dos outros gêneros midiáticos essencialmente por trabalhar com fatos, acontecimentos da sociedade. Uma de suas modalidades, a notícia, é construída a partir de acontecimentos. Em outras palavras, as notícias que não se baseiam em fatos que tenham ocorrido não são notícias. Trata-se ou de fraude, uma falsificação, ou de um texto pertencente aos gêneros midiáticos voltados ao entretenimento. Ou seja, os aspectos da realidade têm relação direta com as notícias. Por ser um referente que não pode fugir do horizonte dos jornalistas, o real, ou melhor, uma versão dos acontecimentos dados como reais, é atributo das notícias apresentadas nos jornais. É assim que, na esfera jornalística, a notícia é o gênero que ocupa maior espaço na mídia impressa e pode ser compreendida, em sua estrutura, como o relato de uma série de fatos a partir do fato mais importante (LAGE, 1998). Os enunciados produzidos nesse gênero, oriundos de diferentes esferas da atividade humana, atendem a linhas mestras que regem as operações jornalísticas, descritas nos manuais de redação e estilo (stylebooks). Os recursos prescritos nesses manuais (precisão dos fatos, texto conciso, discurso citado, exclusão de adjetivos) reclamam efeitos de objetividade, os quais se fazem necessários no gênero jornalístico.3 Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:23 Tensionamento de vozes na primeira página do jornal: o episódio Aracruz na capa de Zero Hora A primeira página do jornal (a capa) destaca-se nesse cenário por anunciar notícias consideradas destaque da edição, que chega ao leitor, dentre outras formas, pela distribuição nos endereços dos assinantes ou nos pontos de comercialização (bancas). Ressalta-se assim que a capa tem um papel importante, pois, além de visar despertar o interesse do leitor pelo conteúdo do jornal, consequentemente, pretende vender o jornal. Ou seja, tem relevância para a saúde financeira do negócio jornal, tanto que há uma preocupação extra com a estética e o designer aplicados a essa página. Por contemplar produções enunciativas (verbais e visuais) que trazem à tona embates ideológicos verificados em diferentes segmentos sociais, a capa de jornal configura-se como vasto e rico material para os estudiosos da linguagem que têm como objeto de investigação o discurso dialógico. Quanto ao jornal Zero Hora, que veicula a capa a ser analisada, é válido destacar que, historicamente, tem deixado ressoar pistas de uma posição contrária aos movimentos sociais de esquerda, seja através das próprias notícias seja por meio de textos publicados nos espaços em que é expressa a opinião da empresa, como nos editoriais. Essa postura assumida por Zero Hora pode ser observada nos outros veículos de comunicação igualmente pertencentes ao Grupo RBS, considerada a maior empresa de comunicação multimídia do Rio Grande do Sul. Além de oito jornais diários, integram o conglomerado uma televisão aberta, afiliada da Rede Globo, uma televisão comunitária, rádios e portais da Internet. Conforme uma pesquisa do Instituto Verificador de Circulação (IVC), publicada em janeiro de 2009, Zero Hora é líder no segmento jornal no estado gaúcho e sétimo colocado no ranking nacional, com uma média diária de 179.934 de circulação em 2008. A fim de contemplar a proposta deste artigo, faz-se necessário contextualizar o episódio que originou a capa dominical do jornal Zero Hora, do dia 12 de março de 2006, que traz com destaque o enunciado “Impunidade radical”. Essa chamada refere-se às notícias publicadas das páginas 4 a 7, 35 e 39 deste dia, as quais integram uma série de reportagens produzida pela equipe de Zero Hora e publicada com destaque no referido jornal durante aproximadamente dez dias, entre 9 e 19 de março, período subsequente à ação de integrantes da Via Campesina, realizada dia 8 de março na Fazenda Barba Negra, em Barra do Ribeiro-RS. Cerca de 1,5 mil manifestantes se deslocaram de Porto Alegre, onde participavam da 2ª Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural, na PUC-RS, para protagonizar um ato de protesto no horto florestal da multinacional de celulose, em Barra do Ribeiro. Além de lideranças do Movimento Sem-Terra (MST), os manifestantes eram, em sua maioria, integrantes do Movimento das Mulheres Camponesas Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 181 181 3/11/2010 19:48:23 Gragoatá Élida LIMA e Maria da Glória DI FANTI (MMC), ambos vinculados à Via Campesina. A participação de grande número de mulheres também tinha como objetivo chamar a atenção para a data da ação (Dia Internacional da Mulher). O ato resultou na inutilização de estufas, experimentos e três milhões de mudas de eucalipto, as quais seriam usadas para a formação de florestas, matéria-prima das indústrias de celulose. Tendo em vista as considerações desenvolvidas sobre a esfera jornalística, o jornal Zero Hora e o Episódio Aracruz, percebe-se a pertinência de se analisar a primeira página do jornal. As estratégias discursivas apresentadas na primeira página têm nas teorias da linguagem uma forte fonte epistêmica, aliada, naturalmente, neste caso, às teorias da comunicação. Além disso, os estudos acerca do trabalho têm se mostrado produtivos para o desenvolvimento de reflexões acerca da atividade jornalística. Logo, é possível contemplar, de algum modo, diferentes áreas do conhecimento de forma a contribuir para a reflexão sobre a construção de efeitos de sentido produzidos na capa de jornal a partir das notícias publicadas sobre temas sociais. 3 O Episódio Aracruz na primeira página de Zero Hora: algumas considerações Para tanto são considerados o Manual de Redação da Folha de São Paulo (SILVA, 2005) e o Guia de Ética e Responsabilidade Social da RBS/Rede Brasil Sul (2004). 4 182 Gragoata 28.indb 182 A esfera jornalística é um espaço privilegiado de instituição e produção de sentidos, a partir de uma encenação discursiva construída pelas informações que ali são publicadas. Para tanto, os profissionais da área lançam mão de estratégias discursivas (eleição de um gênero, seleção lexical, elementos visuais, espaço físico ocupado, seleção de entrevistados, distribuição na página etc.) que manifestam suas escolhas, preferências e posicionamentos diante de fatos do cotidiano. São essas estratégias, ou melhor dizendo, os efeitos de sentido produzidos por elas que serão considerados na análise da capa do jornal Zero Hora do dia 12 de março de 2006, edição que traz ampla cobertura do Episódio Aracruz. Tais efeitos assumem nova e maior dimensão quando se trata dos enunciados da capa do jornal, muitas vezes única página lida pelos leitores, seja por falta de tempo ou cultura para uma leitura mais detalhada, seja pelo custo do exemplar de jornal impresso. Assim, as construções discursivas desse espaço e os múltiplos entendimentos que delas podem emergir merecem atenção especial dos analistas do discurso. Para a análise, tem-se como um dos pontos referenciais os manuais de redação e estilo mais comumente utilizados pelos jornalistas, nos quais estão descritas as normas éticas que regem a atividade dos profissionais da área e indicam os critérios de padronização da produção jornalística.4 As categorias analíticas estão estruturadas, por razões metodológicas, em dois grupos interdependentes. O primeiro deles apresenta uma reflexão Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:23 Tensionamento de vozes na primeira página do jornal: o episódio Aracruz na capa de Zero Hora acerca da capa do jornal em estudo e de efeitos produzidos pelos recursos visuais utilizados (como cor, espaço e elementos gráficos). O segundo grupo analisa os recursos verbais eleitos para a construção da capa, considerando (a) designações utilizadas para a chamada sobre o Episódio Aracruz e, de modo sucinto, (b) elementos verbais utilizados em outras chamadas, que, por constituírem o mesmo projeto gráfico, mantêm uma interlocução e, assim, produzem efeitos diversos. Figura 1: Capa do jornal Zero Hora da edição de 12 de março de 2006 Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 183 183 3/11/2010 19:48:24 Gragoatá Élida LIMA e Maria da Glória DI FANTI A capa do jornal e os recursos visuais Na capa da edição de 12 de março de Zero Hora, foco desta análise, a chamada sobre o Episódio Aracruz ocupa três colunas de largura (das cinco que subdividem a mancha de um jornal tablóide) por 20 centímetros de altura, preenchendo quase 40% do espaço total. Na parte inferior, à direita, há dois anúncios de lojas de varejo, os quais, apesar de comporem a capa de jornal, não serão considerados nesta análise. Além da chamada que remete à notícia sobre o Episódio Aracruz, há a manchete do jornal e outras três chamadas. Na parte superior da página, logo abaixo do nome do periódico e ocupando cinco colunas de largura, estão as chamadas dos cadernos dominicais e suas respectivas ilustrações. Quanto aos aspectos visuais da página, há de se destacar ainda o uso da cor vermelha em diferentes elementos gráficos. Em contextos que tratam de questões sociais, o vermelho nos remete à cor da bandeira do mais importante movimento social de esquerda do Brasil, o MST, com participação ativa na articulação do protesto contra a Aracruz. A cor vermelha aparece nas chamadas dos cadernos dominicais ZH Classificados e Donna ZH. A foto que ilustra o destaque de Donna ZH (a reportagem “Os limites da intimidade de um casal”) também tem um recurso em vermelho: o cobertor que cobre a mulher que está deitada sobre uma cama. O elemento gráfico (uma tarja) localizado acima do nome do jornal, no qual há a inscrição do endereço do site da empresa, neste dia, também é de cor vermelha. Essa tarja é parte integrante do projeto gráfico do jornal Zero Hora, mas varia de cor conforme a diagramação da capa e as cores empregadas. Mesmo não sendo foco desta análise e termos conhecimento de que tal material tenha sido produzido por uma equipe de profissionais de outra área e de fora da redação, é válido ressaltar que o vermelho está presente ainda no principal anúncio da página (lojas Ponto Frio). Assim, independentemente dos motivos que levaram a tal escolha, a eleição da cor vermelha deixa emergir um efeito de busca de unidade entre diferentes elementos visuais que compõem o todo da página, além de se prestar à utilização de uma etiqueta para a chamada que remete ao Episódio Aracruz. A referida etiqueta vermelha é usada como fundo para o enunciado “Impunidade radical” e a linha de apoio “Indulgência estimula repetição de ações violentas no Estado”, que serve de título para a chamada que versa sobre as ações “violentas” protagonizadas pelos movimentos sociais no Rio Grande do Sul nos últimos cinco anos. Esse elemento gráfico se destaca dentre os outros usados na página devido à cor (o matiz vermelho é mais escuro que o usado no anúncio do Ponto Frio) e em função do espaço que ocupa (três colunas de largura e 5,5 centímetros de altura). 184 Gragoata 28.indb 184 Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:24 Tensionamento de vozes na primeira página do jornal: o episódio Aracruz na capa de Zero Hora A utilização de uma etiqueta como elemento gráfico não é por acaso. As quatro fotos (em preto e branco) que ilustram a chamada estão dispostas dentro de um quadro de cor amarelo claro (tom pastel), que oferece um efeito de papel envelhecido, tal como documentos de arquivo. Assim é passada a ideia de que os fatos ali apresentados (todos atos de protesto orquestrados e protagonizados pelos movimentos sociais) fazem parte de um acervo catalogado, arquivo-morto. Etiquetas como a apresentada nessa capa também são usadas por magazines para indicar o preço de produtos, principalmente roupas, em liquidação. Pode-se entender, assim, que para o jornal Zero Hora haveria uma grande “oferta”, uma banalização, de ações violentas no Rio Grande do Sul, as quais, apesar de serem recorrentes, são apenas registradas em documentos já arquivados. Importante dizer que o uso de tais recursos visuais para criar uma página esteticamente harmônica e que prenda a atenção do leitor não se configura como uma quebra das normas éticas que regulam a atividade jornalística. Ao contrário, além de atender às prerrogativas da construção discursiva da capa e lhe conferir uma certa estabilidade, a orquestração dos recursos gráficos para a produção da primeira página de um periódico jornalístico condiz com o que nos ensina Schwartz (2003) sobre o debate entre normas antecedentes e renormalizações (ressignificações), fundamental para a construção dos saberes humanos. O que deve ser ressaltado na capa em foco, no entanto, são as posições ideológicas, avaliativas, que se projetam no conjunto dos recursos verbo-visuais e que devem ser observadas e discutidas, já que o jornal/jornalista, não sendo neutro e estando inserido na história que se faz no dia-a-dia, faz avaliações sobre diferentes segmentos, como é o caso do tom negativo observado em relação às ações atribuídas aos movimentos sociais. A capa do jornal e os recursos verbais Articulados aos expressivos recursos gráficos, os recursos verbais utilizados na capa da edição de 12 de março de 2006 constituem fonte fundamental para observar posições ideológicas empreendidas pelo jornalista/jornal ao produzir a capa de jornal. Para tanto, são observados aspectos relativos (a) às designações utilizadas para a chamada sobre o Episódio Aracruz e, ainda que brevemente, (b) a elementos verbais em outras chamadas que entram em diálogo com a chamada principal. a) Designações utilizadas na chamada principal: efeitos de sentido em circulação Quanto às designações utilizadas para a chamada sobre o Episódio Aracruz, consideramos, dentre as que chamam atenção, a emergência de impunidade, indulgência, punição, radical e violentas. Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 185 185 3/11/2010 19:48:24 Gragoatá Élida LIMA e Maria da Glória DI FANTI Impunidade e radical compõem o título da chamada (“Impunidade radical”), dentro da etiqueta vermelha, enquanto, indulgência e violentas integram o enunciado que, em jornalismo, comumente se designa como linha de apoio: “Indulgência estimula repetição de ações violentas no Estado”. Punição compõe a legenda das quatro fotos em preto e branco. Pela observação desses recursos verbais, indissociados dos visuais, é possível perceber na constituição dos enunciados a circulação de acentos valorativos que orientam para avaliações negativas sobre o Episódio Aracruz. É o caso do título da chamada (“Impunidade radical”) que, em letras grandes, maiores do que as de outras chamadas da capa, faz uma espécie de acusação ao considerar a falta de punição das ações atribuídas aos movimentos sociais. Acrescida à impunidade, a palavra radical, além de reforçar o tom acusatório, passa a idéia de que nada se faz para punir os culpados, como se fosse uma questão fechada. Em outras palavras, os responsáveis por avaliar tais ações teriam a postura de não aplicar as penas cabíveis, independentemente do fato. Na circulação de vozes que emergem da chamada do Episódio Aracruz, é válido observar que a designação radical suscita o conflito entre duas perspectivas diferentes: uma, a observada no título em análise, que desqualifica a posição dos representantes do campo jurídico, outra, comumente observada nos veículos de comunicação, que caracteriza como inflexível o posicionamento de movimentos sociais, como a Via Campesina. Tal ressingularização remete às afirmações de Bakhtin de que não existe neutralidade, sendo o enunciado constituído dialógica e ideologicamente em situações de enunciação ímpares. Remete ainda às noções de Schwartz sobre o “fazer” do trabalhador, que no decorrer de sua atividade oferece contribuições únicas (pois é resultado de suas vivências, sua história) para o trabalho, subvertendo as normas descritas nos manuais, de tal forma a deixar sua marca no que é produzido. O enunciado da linha de apoio, “Indulgência estimula repetição de ações violentas no Estado”, que também é destacado graficamente na página, apresenta uma orientação valorativa que não só reforça a ideia de que não há punição, mas também atribui à falta de aplicação de penas o crescimento de ações violentas de movimentos sociais no Estado. Essa posição axiológica é reiterada por diferentes elementos verbais, como é o caso da palavra violentas, que, qualificando as ações, deixa emergir o conflito entre a posição do jornal e a dos movimentos sociais. No conjunto das designações que integram a chamada principal da capa, a palavra punição suscita uma discussão particular devido ao fato de sobre ela recair grande parte das posições ideológicas antagônicas que circulam nos enunciados. Se considerarmos, conforme o ponto de vista jurídico, que a punição é a aplicação de uma pena civil ou criminal a alguém, 186 Gragoata 28.indb 186 Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:25 Tensionamento de vozes na primeira página do jornal: o episódio Aracruz na capa de Zero Hora que somente pode ocorrer após transcorridas etapas na Polícia Judiciária, no Ministério Público e no Poder Judiciário, perceberemos um claro confronto do jornal não só com os movimentos sociais, mas também com a legislação brasileira. Para apurar os responsáveis por fatos como os descritos por Zero Hora, de acordo com a legislação brasileira, é necessário que seja instaurado inquérito policial, durante o qual serão reunidas provas e identificados os autores dos atos infratores. Somente depois disso o Ministério Público, único órgão em nossa sociedade com poder persecutório, pode denunciar alguém à Justiça. Cabe aos juízes a decisão de acolher ou não tal denúncia para a abertura de um processo judicial, durante o qual será dada a oportunidade de defesa do réu. Ao final, é dada a sentença, que pode condenar ou absolver. Os enunciados que compõem a chamada para o Episódio Aracruz apresentam diferentes acentos de valor, como já observados a partir das designações elencadas, que orientam para a cobrança da punição dos culpados. Essa expressividade é bastante contundente no conjunto de fotografias que, criando efeito de verdade, apela para cenas de destruição, jogando com cores e recursos gráficos. Além disso, a disposição das fotografias, em ordem cronológica, variando de 2001, 2003, 2005 e 2006, dá uma idéia de que está diminuindo o espaço de tempo entre uma ação e outra, o que equivale a um aumento da incidência. Esse direcionamento avaliativo é mais aparente ao observarmos o funcionamento discursivo da designação punição nas fotografias. As três primeiras fotos apresentadas possuem uma mesma legenda – “Punição: nenhuma” – que, se do ponto vista formal, é uma repetição, do ponto de vista enunciativo, configura-se como um novo enunciado a cada ocorrência, com sentido dinâmico que, não deixando de entrar em confronto com os movimentos sociais e com a legislação brasileira, acusa a falta de Justiça em três diferentes ações dos movimentos sociais. O tom acusatório é reiterado pelo uso do pronome “nenhuma” (em referência à “punição”) que apresenta índices valorativos que indica a falta de qualquer medida contra os responsáveis pelos atos. Na quarta fotografia, a do Episódio Aracruz, a legenda sofre um deslocamento bastante sugestivo. No lugar de “nenhuma”, após “punição”, aparece um ponto de interrogação: “Punição: ?”. Esse sinal gráfico, entrando em dissonância com as outras ocorrências das ações que não tiveram punição, remete à incerteza, questionamentos e insegurança. Como em três dos quatro episódios relacionados na capa do Jornal, até a data da edição (12/03/2006), os inquéritos policiais não haviam sido concluídos, é possível perceber o confronto entre as posições assumidas pelo jornal e a legislação brasileira. O quarto e último fato (o Episódio Aracruz) havia ocorrido há quatro dias, tempo insuficiente para a conclusão das etapas processuais no Poder Judiciário. Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 187 187 3/11/2010 19:48:25 Gragoatá Élida LIMA e Maria da Glória DI FANTI Sem nos estendermos na reflexão, mas sem deixarmos de reconhecer a pertinência de ampliar a análise abrangendo outras designações, como os verbos desocupa e se aloja em referência ao MST no linha inferior da chamada principal, é válido fazer algumas considerações antes de passarmos para a outra etapa da análise. Tendo em vista a constituição verbo-visual dos enunciados da chamada principal, é possível perceber uma construção voltada para causar impacto, o que não acontece com as matérias publicadas dentro do corpo do jornal que apresentam um detalhamento. Percebemos, na capa, o confronto com alguns dos preceitos básicos do jornalismo, descritos na maioria dos manuais de redação: evitar tomar para si (jornalista/jornal) a responsabilidade de avaliar fatos do cotidiano, sem que para isso tenha consultado fontes, isto é, especialistas no tema. Essa medida se faz necessária em função de a esfera jornalística se configurar como um campo de passagem, ou seja, trata de fatos de esferas diversas e se utiliza, para tanto, do conhecimento de especialistas de outras áreas que não a jornalística para subsidiar sua produção. Essa prática deve ser objeto de reflexão, uma vez que, sem um olhar crítico, um leitor desavisado possivelmente vai aceitar como “verdade” as versões apresentadas e os efeitos criados pelos enunciados da capa do jornal. b) Elementos verbais em outras chamadas: relações dialógicas desencadeadas A seguir discutimos brevemente duas chamadas secundárias, que, na mesma página, mantêm um diálogo com a chamada sobre o Episódio Aracruz, criando, assim, efeitos de sentido outros. “Quem vai ficar com o pólo gaúcho?” Mesmo em corpo menor que a chamada do Episódio Aracruz, o enunciado em forma de pergunta “Quem vai ficar com o pólo gaúcho?” é manchete da edição de 12 de março de 2006 do jornal Zero Hora. Vale destacar que não é usual a utilização de perguntas, mesmo em títulos, sendo desaconselhado o seu uso pelos manuais de redação por remeter a dúvidas, efeito contrário ao almejado no gênero notícia, que tem como ponto referencial a busca por efeitos de objetividade, veracidade e imparcialidade. O enunciado, construído como um questionamento, põe em xeque a situação de um importante segmento da economia do Rio Grande do Sul: o polo petroquímico. Tal acepção remete a um efeito de incerteza em relação ao futuro do estado do Rio Grande do Sul, o qual é impossível desatrelar do efeito sugerido pela chamada do Episódio Aracruz, que faz referência à impunidade existente no estado gaúcho com relação a “ações violentas”. “Olho por olho” 188 Gragoata 28.indb 188 Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:25 Tensionamento de vozes na primeira página do jornal: o episódio Aracruz na capa de Zero Hora A expressão “Olho por olho, dente por dente” está registrada num dos 282 artigos do Código de Hamurabi (1792-1750 a.C.), o qual instituiu a vingança como preceito jurídico no Império Babilônico. É base também para a Lei de Talião, que prescreve ao transgressor a pena igual ao crime que praticou. A Lei de Talião (do latim Lex Talionis: lex: lei e talis: tal, parelho) consiste na rigorosa reciprocidade do crime e da pena, por isso é frequentemente expressa pela máxima olho por olho, dente por dente. É uma das mais antigas leis existentes. O jornalista/jornal lançou mão de parte da expressão – “Olho por olho” – para identificar uma das chamadas da capa, usando-a como cartola para o título “Crescem casos de justiça com as próprias mãos”. Aqui, novamente, é perceptível o efeito de sentido de que o poder público no Estado não é atuante. O enunciado “Descrédito nas instituições alimenta tentativas de linchamento”, logo abaixo da chamada, segue a mesma orientação avaliativa e indica que os próprios cidadãos estão tomando para si a obrigação de punir os supostos culpados de crimes. O enunciado configura-se como mais uma alusão à impunidade existente no Rio Grande do Sul, explicitada na chamada sobre o Episódio Aracruz. Considerações finais Com o propósito de analisar discursivamente a capa de domingo do jornal Zero Hora do dia 12 de março de 2006 na cobertura do Episódio Aracruz, evento de grande repercussão na mídia gaúcha, procedemos à observação dos enunciados em sua materialidade verbal e visual, procurando verificar relações dialógicas estabelecidas de modo a recuperar efeitos de sentido em circulação. Nessa perspectiva, procuramos observar a chamada relativa ao Episódio e alguns aspectos das chamadas secundárias, que não deixam de ter relevância ao estabelecer diálogo com a principal. Os enunciados eleitos para a construção da chamada sobre o Episódio Aracruz são, sem dúvida, impactantes. Os recursos gráficos utilizados para compor tal chamada – como a cor vermelha, a tarja em forma de etiqueta e as fotografias em preto e branco, criando o efeito de envelhecimento – indissociáveis dos recursos verbais – como as designações “impunidade”, “radical”, “indulgência”, “violentas” e “punição” – não escondem a posição avaliativa do jornal em relação aos movimentos sociais. Tal postura reativa é reiterada pela ordem cronológica da apresentação das fotografias em que se, por um lado, reforça a ideia da “repetição de ações violentas no Estado”, por outro, elenca a falta de aplicação de penas pela Justiça. Nessa textura verbovisual, é possível perceber um confronto ideológico entre a voz de Zero Hora (que cobra medidas punitivas) e a da Justiça (que Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 189 189 3/11/2010 19:48:25 Gragoatá Élida LIMA e Maria da Glória DI FANTI cumpre prazos e tramitação de processos), pois, até a data da publicação do jornal, nenhum dos quatro episódios havia sido julgado; portanto, não poderia ter havido punição. É válido destacar ainda que, pela análise de chamadas secundárias que compõem a capa, várias relações dialógicas são observadas em relação à chamada do Episódio Aracruz, permitindo observar, pela expressividade dos enunciados, efeitos de sentido voltados para o estado de insegurança que se encontra o Rio Grande do Sul. Tais pistas fazem ressoar acentos apreciativos que, ao se distanciarem das prescrições dos manuais de redação, parecem se aproximar da linha editorial da empresa de comunicação, que tem demonstrado, através de editoriais, discordar das ações de movimentos sociais como o MST e a Via Campensina. Os enunciados analisados, apesar de constituirem discursivamente a capa, não seguem em parte as prescrições dos manuais de redação, que recomendam a busca de “isenção” e “neutralidade” e desaconselham o uso de designações que possam fornecer avaliações feitas pelo profissional. Essas interferências do jornalista/jornal, no entanto, não comprometem a esfera jornalística em que está inserida a notícia e a capa de jornal, que, se por um lado, está de acordo com a relativa estabilidade dos enunciados (BAKHTIN, 1952-1953/2003), diferentes possibilidades de concretizar o gênero, desde que algumas recorrências possam ser percebidas, por outro, ratifica o estatuto lacunar das normas e do trabalho (imprevistos), preconizado por Schwartz (2003), em que há sempre espaço para (re)elaborações do trabalhador. No debate entre as normas antecedentes e as renormalizações, o jornal, sem dúvida, não deixa de mostrar suas avaliações na tessitura dos enunciados que compõem a primeira página. A voz de Zero Hora, constituída por um emaranhado nada harmônico de outras vozes, de cunho político, social, jurídico, etc., na cobertura do Episódio Aracruz, deixa ressoar alianças, rompimentos, dentre outras relações dialógicas, com diferentes segmentos da sociedade, o que, sem dúvida, exige uma visão crítica de um leitor nem sempre preparado para tal ato. Abstract: This paper aims to make a discursive analysis of March 12, 2006 first page of Zero Hora (RS), focusing on the ways dialogical relationships are established in order to identify characteristics and sense effects regarding the coverage of an event of great repercussion in “gaucho” media that we call for research shake “Episódio Aracruz”. The analysis is based on theoretical grounds 190 Gragoata 28.indb 190 Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:25 Tensionamento de vozes na primeira página do jornal: o episódio Aracruz na capa de Zero Hora developed by the Bakhtin Circle and establishes an interlocution with an ergological viewpoint. For methodological reasons, the analysis is organized in two interdependent groups. The first one resents a reflection concerning the cover of the periodical studied and the effects produced by visual resources there used (such as color, space and graphic elements). The second one analyzes verbal resources selected for the construction of the cover, considering (a) names used for the lead regarding Episódio Aracruz; and, succinctly, (b) verbal elements used in other leads, that, because of being constituents of the same graphic project, keep an interlocution and, thus, produce different effects. The results of the reflection indicate that the analyzed utterances, by not following the guidelines of newspaper style manuals, are highly evaluative in the intrinsic relationship between the verbal and visual domains, disclosing the relative stability of genres and ratifying the lacunar statute of work norms. In this discursive process, the position of the newspaper emerges in a confusion of voices in the covering of Episódio Aracruz, allowing a resonance amongst other dialogical relationships, the rupture with social movements, what demands a critical reading for understand senses circulating therein. Keywords: Dialogical relationships. Printed newspaper first page. Episódio Aracruz. Referências BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski (1929). 2. ed. Trad. Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997. ___. O discurso no romance (1934-1935). In:___. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Trad. Bernadini et al. 4. ed. São Paulo: Unesp, 1998. p.71-210. ___. Os gêneros do discurso (1952-1953). In:___. Estética da Criação Verbal. 4. ed. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p.261-306. ___. O problema do texto na Lingüística, na Filologia e em outras Ciências Humanas (1959-1961). In: ___. Estética da criação verbal. 4. ed. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p.307-335. BAKHTIN, M./VOLOCHINOV, V. Marxismo e Filosofia da Linguagem (1929). 11.ed. São Paulo: Hucitec, 2004. Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 191 191 3/11/2010 19:48:25 Gragoatá Élida LIMA e Maria da Glória DI FANTI BRAIT, B. e ROJO, R. Gêneros: artimanhas do texto e do discurso. São Paulo: Escolas Associadas, 2003. DI FANTI, M. G. Palavra. In: Flores, V., Barbisan, L., Finatto, M., Teixeira, M. (org.), Dicionário de Linguística da Enunciação. São Paulo: Contexto, 2009. p.182. GRILLO, S. A produção do real em gêneros do jornal impresso. São Paulo: Humanitas, 2004. GUIA de Ética e Responsabilidade Social da RBS/Rede Brasil Sul. Porto Alegre: RBS Publicações, 2004. LAGE, N. Estrutura da Notícia. 4. ed. São Paulo: Editora Ática, 1998. LIMA, E.; DI FANTI, M.G.C. Da constituição dialógica da capa de jornal: efeitos de sentido em perspectiva. In: Anais do XIII Colóquio Internacional de Comunicação para o Desenvolvimento Regional. Pelotas, 2008. SANT´ANNA, V. O trabalho em notícias sobre o Mercosul: heterogeneidade enunciativa e noção de objetividade. São Paulo: Educ, 2004. SCHWARTZ, Y. Travail et philosophie: convocations mutuelles. 2. ed., Toulouse: Octares, 1994. ___. Trabalho e saber. Trabalho & Educação, Revista do Nete, UFMG, vol.12, n.1, jan/jun 2003. p.21-24. ___. DURRIVE, Y. (org.). Trabalho & ergologia: conversas sobre a atividade humana. Trad. Milton Athayde e Jussara Brito et al. Niterói: EDUFF, 2007. SILVA, C.E.L. (coord.). Manual de Redação da Folha de São Paulo. 9. ed. São Paulo: PubliFolha, 2005. 192 Gragoata 28.indb 192 Niterói, n. 28, p. 175-192, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:26 Colaboradores deste número ANGELA MARIA DIAS Professora de Literatura Brasileira e Literatura Comparada da UFF, ex-professora de Teoria Literária da UFRJ, ensaísta e crítica literária. Além de vários artigos em periódicos especializados, publicou recentemente Cruéis Paisagens Literatura Brasileira e Cultura Contemporânea (2007) e organizou, em colaboração com Paula Glenadel, a coletânea Valores do Abjeto (2008). ANSELMO PERES ALÓS Doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor-Leitor de Língua Portuguesa, Literaturas Lusófonas e Cultura Brasileira no Instituto Superior de Ciência e Tecnologia de Moçambique (ISCTEM). É colaborador do Centro Cultural Brasil-Moçambique, em Maputo (Moçambique), onde ministra cursos de Redação Criativa, Literatura e Cultura Brasileira. Publicou vários artigos sobre as relações entre literatura, cultura, gênero e sexualidade, dos quais cabe destacar “Heterotopias do desassossego: literatura e subversão sexual na América Latina” (Revista Cerrados. Brasília, volume 27, ano 18, 2009, p. 231-249), “Madame Satã e a encenação do feminino: impasses de um malandro travestido de vermelho” (Revista Gênero. Niterói, volume 8, 2008, p. 369-385), e “A tecnologia discursiva do sexo: um olhar sobre a heteronormatividade latente na obra de Alex Confort” (Revista Humanidades. São João da Boa Vista (SP), volume 5, 2004, p. 105124). CÉLIA PEDROSA Professora associada da UFF, onde leciona Teoria da Literatura, Literatura Brasileira e Literatura Comparada, e coordena os grupos de pesquisa “Poesia e contemporaneidade” (com a Profª Ida Alves) e “Pensamento teórico-crítico sobre o contemporâneo” (com a Profª Diana Klinger). Pesquisadora do CNpq, tem desenvolvido estudos comparativos sobre poesia contemporânea brasileira, portuguesa e argentina. Além de capítulos de livros e ensaios em periódicos nacionais e estrangeiros, publicou, como co-organizadora, cinco coletâneas de ensaios sobre poesia, sendo as duas últimas Poéticas do olhar e outras leituras de poesia, com a Profª Maria Lucia Camargo (7 Letras, 2006), e Subjetividades em devir. Estudos de poesia moderna e contemporânea, com a profª Ida Alves (7 Letras, 2008). Tem no prelo, pela EdUFF, uma obra individual, Ensaios sobre poesia e contemporaneidade, à qual se soma o livro Antonio Candido: a palavra empenhada (1994, EdUSP/EdUFF). DÉSIRÉE MOTTA-ROTH Professora Associada 3 da Universidade Federal de Santa Maria, Doutora pela Universidade Federal de Santa Catarina, PósDoutora pelo LAEL/PUCSP, Pesquisadora 2 do CNPq. Publicações recentes incluem Redação na universidade (Parábola Editorial, no prelo), HIPERS@BERES-Discursos de popularização da ciência (PPGL Editores, 2009), e artigos em periódicos como Revista Brasileira de Niterói, n. 28, p. 193-196, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 193 193 3/11/2010 19:48:26 Linguística Aplicada (no prelo), Linguagem & Ensino (2009), Linguagem em (Dis)curso (2009) e D.E.L.T.A. (2008). Pesquisa sobre temas ligados à análise crítica de gêneros discursivos, leitura, redação e multiletramento. ÉLIDA LIMA Mestre em Linguística Aplicada pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Católica de Pelotas (UCPel). Graduada em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela mesma instituição. Atuou como jornalista, tendo desempenhado funções de repórter, editora e coordenadora de redação. Atualmente, dedica-se a pesquisas acerca da mídia impressa sob a perspectiva da análise do discurso, realizando uma interlocução da teoria bakhtiniana com estudos da comunicação social. GUSTAVO BERNARDO KRAUSE Professor Adjunto VII da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Tem como últimas publicações: O livro da metaficção, publicado em 2010, no Rio de Janeiro, pela Ed. Tinta Negra; Vilém Flusser: uma o introdução. (Com Rainer Guldin e Anke Finger), publicado em 2008, pela Annablume, em São Paulo. JACYNTHO LINS BRANDÃO Professor Titular de Língua e Literatura Grega da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais e Doutor em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo. Dentre suas publicações mais recentes se incluem os seguintes trabalhos: A poética do hipocentauro (Editora UFMG, 2001); A invenção do romance (Editora UnB, 2005); Antiga Musa: arqueologia da ficção (Faculdade de Letras da UFMG, 2005); “Cyrano de Bergerac e a tradição luciânica” (posfácio a Cyrano de Bergerac, Viagem à Lua (Editora Globo, 2007); e “Luciano e a história” (ensaio que acompanha a tradução de Luciano de Samósata, Como se deve escrever a história, Editora Tessitura, 2009). MARCELO BRANDÃO MATTOS Doutorando em Literatura comparada, na Universidade Federal Fluminense, com projeto de tese intitulado A geração da distopia, sobre narrativas angolanas contemporâneas. Mestre em Literatura portuguesa e literaturas africanas em língua portuguesa, pela mesma universidade, com a dissertação Um banho de rio nos escritos e sobrescritos de Luandino Vieira. Ministrou aulas de Literaturas africanas em língua portuguesa para o Curso de Pós-Graduação Lato Sensu História & Literatura – do século XIX aos tempos atuais, na Faculdade Santa Dorotéia, em Nova Friburgo (RJ). Atuou, como estagiário de docência/ bolsista doutorando, nas disciplinas Literaturas africanas de língua portuguesa II e Literatura portuguesa III do curso de graduação em Letras da UFF. Últimas publicações: “Perspectivas Gragoata 28.indb 194 3/11/2010 19:48:26 sobre verdade e sujeito nos romances A Corte do Norte e O mosteiro” (Revista FronteiraZ, da PUC-SP) e “Os caminhos e descaminhos de A Corte do Norte” (Revista ABRIL, do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF (NEPA). MÁRCIA DE OLIVEIRA REIS BRANDÃO Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (2010). Dedica-se especialmente ao estudo de Teoria da Literatura e da Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: narrativas na modernidade e na contemporaneidade, memória, temporalidade, subjetividade e pensamento francês contemporâneo. Últimas publicações: “O Público e o Privado: domínios entrelaçados em Memorial de Aires” (Anais do I Seminário Machado de Assis: novas perspectivas sobre a obra e o autor, no centenário de sua morte. Rio de Janeiro – Niterói, v. I, UERJ-UFF-UFRJ, 2008); “La Otra Muerte: um conto de Borges ou como distorcer visões, imagens e recordações” (Revista Interletras, Dourados, v. 1, p. 1-10, 2007); “A (Des)construção Narrativa das Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Revista Signo, v. 31, p. 33-42, 2007); “O narrador-personagem memorialista de Machado de Assis” (Revista Scripta, Belo Horizonte: PUCMG, v. 11, p. 133-145, 2007). MARIA ELIZABETH CHAVES DE MELLO Professora associada III do Instituto de Letras da UFF. Realizou pósdoutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Paris (2008), doutorado em Letras na PUC-RIO (1993) e mestrado em Letras na PUCRIO (1986). Foi professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1988-1992) e professora visitante da Université du Québec à Montréal em 2002. Atualmente, atua na pós-graduação em estudos de literatura, na UFF, na linha de pesquisa “Perspectivas teóricas do discurso literário” (orientadora de mestrado e doutorado) e, na graduação, em língua e literatura francesa. É pesquisadora do CNPq na área de Letras, com ênfase em Teoria da Literatura, Literatura Comparada e Literaturas Estrangeiras Modernas. Suas pesquisas giram em torno do tema do cruzamento de olhares entre a Europa e o Brasil e suas conseqüências na literatura e na crítica brasileiras, principalmente em relação ao caso de Machado de Assis, diante dessa troca de olhares. Projeto: Memória, fictício e imaginário na literatura da modernidade. É autora de três livros e de inúmeros artigos em revistas especializadas. MARIA DA GLÓRIA DI FANTI Doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2004), com Doutorado-Sanduíche (2001-2002) no Departamento de Ergologia – Análise Pluridisciplinar de Situações de Trabalho (APST) – na Universidade de Provence (França). Atualmente é professorapesquisadora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Niterói, n. 28, p. 193-196, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 195 195 3/11/2010 19:48:26 Sul (PUCRS) e exerce a função de coordenadora do GT “Linguagem, Enunciação e Trabalho” da ANPOLL. Tem experiência na área de Estudos da Linguagem, com ênfase na abordagem enunciativodiscursiva desenvolvida por Bakhtin e seu Círculo. MARIA LÚCIA WILTSHIRE DE OLIVEIRA Professora Associada da Universidade Federal Fluminense, subárea de Literatura Portuguesa. Mestre (UFF-1991), doutora (USP-1997) e pós-doutora (UNICAMP - 2001), com Estágio Sênior junto à Universidade Nova de Lisboa (2009-10). Tem trabalhos publicados sobre narrativa portuguesa contemporânea em revistas especializadas e anais de congressos. Publicou De Camões a Saramago: leituras da pátria portuguesa (Booklink, 2004) e tem no prelo (EDUFF) Revirando casa e mundo: representações literárias do herói e da família no romance português contemporâneo. Desenvolve no momento pesquisas sobre a escrita e o sujeito na ficção contemporânea, com destaque para a obra de Maria Gabriela Llansol. 196 Gragoata 28.indb 196 Niterói, n. 28, p. 193-196, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:27 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE Instituto de Letras Revista Gragoatá Rua Profesor Marcos Waldemar de Freitas Reis, s/nº Campus do Gragoatá Bloco C - Sala 518 24210-201 - Niterói - RJ e-mail: [email protected] Telefone: 21-2629-2608 Normas de apresentação de trabalhos 1 A Revista Gragoatá, dos Programas de Pós-Graduação em Letras da UFF, aceita originais sob forma de artigos inéditos e resenhas de interesse para estudos de língua e literatura, em língua portuguesa, inglêsa, francesa e espanhola. 2 Os textos serão submetidos a parecer da Comissão Editorial, que poderá sugerir ao autor modificações de estrutura ou conteúdo. 3 Os textos não deverão exceder 25 páginas, no caso dos artigos, e 8 páginas, no caso de resenhas. Devem ser apresentados em duas cópias impressas sem identificação do autor, bem como em CD, com título do artigo em português e em inglês, indicação do autor, sua filiação acadêmica completa e endereço eletrônico no programa Word for Windows 7.0, em fonte Times New Roman (corpo 12, espaço duplo), sem qualquer tipo de formatação, a não ser: 3.1 Indicação de caracteres (negrito e itálico). 3.2 Margens de 3 cm. 3.3 Recuo de 1 cm no início do parágrafo. 3.4 Recuo de 2 cm nas citações. 3.5 Uso de sublinhas ou aspas duplas (não usar CAIXA ALTA). 3.6 Uso de itálicos para termos estrangeiros e títulos de livros e períodicos. 4 As citações bibliográficas serão indicadas no corpo do texto, entre parênteses, com as seguintes informações: sobrenome do autor em caixa alta; vírgula; data da publicação; abreviatura de página (p.) e o número desta. (Ex.: SILVA, 1992, p. 3-23). 5 As notas explicativas, restritas ao mínimo indispensável, deverão ser apresentadas no final do texto. 6 As referências bibliográficas deverão ser apresentadas no final do texto, obedecendo às normas a seguir: Livro: sobrenome do autor, maiúscula inicial do(s) prenome(s), título do livro (itálico), local de publicação, editora,data. Ex.: SHAFF, Adan. História e verdade. São Paulo: Martins Fontes, 1991. Artigo: sobrenome do autor, maiúscula inicial do(s) prenome(s), título do artigo, nome do periódico (itálico), volume e nº do periódico, data. Ex.: COSTA, A.F.C. da. Estrutura da produção editorial dos periódicos biomédicos brasileiros. Trans-in-formação, Campinas, v. 1, n.1, p. 81-104, jan./abr. 1989. Niterói, n. 28, p. 197-200, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 197 197 3/11/2010 19:48:27 7 As ilustrações deverão ter a qualidade necessária para uma boa reprodução gráfica. Deverão ser identificadas, com título ou legenda, e designadas, no texto, de forma abreviada, como figura (Fig. 1, Fig. 2 etc). 8Os originais serão avaliados a partir dos seguintes quesitos: 8.1 adequação ao tema; 8.2 originalidade da reflexão; 8.3 relevância para a área de estudo; 8.4 atualização bibliográfica; 8.5 objetividade e clareza; 8.6 linguagem técnico-científica. 9 A responsabilidade pelo conteúdo dos artigos publicados pela Revista Gragoatá caberá, exclusivamente, aos seus respectivos autores. 10 Os colaboradores terão direito a dois exemplares da revista. Os originais não aprovados não serão devolvidos. Próximos números Número 29 Tema: Abordagens metodológicas Organizadora: Fernando Muniz e Lucia Teixeira Prazo para entrega dos originais: 15 de julho de 2010 Ementa: A questão da metodologia na pesquisa linguística e literária, seus problemas e desdobramentos. Distintas abordagens metodológicas: implicações na prática descritiva e analítica. O tratamento qualitativo e quantitativo na utilização de exemplos, dados e evidências. Método e teoria como suporte de pesquisa. Técnicas hermenêuticas e formalistas – diálogos e contrapontos. Número 30 Tema: Organizadoras: Prazo para entrega dos originais: Ementa: 198 Gragoata 28.indb 198 Niterói, n. 28, p. 197-200, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:27 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE Instituto de Letras Revista Gragoatá Rua Profesor Marcos Waldemar de Freitas Reis, s/nº Campus do Gragoatá Bloco C - Sala 518 24210-201 - Niterói - RJ e-mail: [email protected] Telefone: 21-2629-2608 General Instructions for Submission of Papers 1. The Editorial Board will consider both articles and reviews in the areas of language and literature studies, in Portuguese, English, French and Spanish. 2. In considering the submitted papers, the Editorial Board may suggest changes in their structure or content. Papers should be submitted in CD, with the title both in Portuguese and English, author’s identification, academic affiliation and electronic address, together with two printed copies, without author’s identification, typed in Word for Windows 7.0, double-spaced, Times New Roman font 12, without any other formatting except for: 2.1 bold and italics indication; 2.1 3cm margins; 2.3 1cm indentation for paragraph beginning; 2.4 2cm indentation for long quotations; 2.5 underlining or double inverted commas (NEVER UPPERCASE) for emphasis; 2.6 italics for foreign words and book or journal titles. 3. Papers should be no more than 25 pages in length and reviews no more than 8 pages. 4. Authors are required to resort to as few footnotes as possible, which are to be placed at the end of the text. As for references in the body of the article, they should contain the author’s surname in uppercase as well as date of publication and page number in parentheses (eg.: JOHNSON, 1998, p. 45-47). 5. Bibliographical references should be placed at the end of the text according to the following general format: Book: initial’s author’s pre name(s) in uppercase, author’s surname, title of book (italics), place of publication, publisher and date. (eg.: ELLIS, Rod. Understanding second language acquisition. Oxford: Oxford University Press, 1994). Article: author’s surname, initial’s author’s pre name(s) in uppercase, title of article, name of journal (italics), volume, number and date. (eg.: HINKEL, Eli. Native and nonnative speakers’ pragmatic interpretations of English texts. TESOL Quarterly, v. 28, n° 2, p. 353376, 1994). 6. Tables, graphs and figures should be identified, with a title or legend, and referred to in the body of the work as figure, in abbreviated form (eg.: Fig. 1, Fig. 2 etc.) Niterói, n. 28, p. 197-200, 1. sem. 2010 Gragoata 28.indb 199 199 3/11/2010 19:48:27 7. Papers should contain two abstracts (a Portuguese and an English version), no more than 5 lines in length. In addition, between 3 to 5 keywords, also in Portuguese and in English, are required. 8. Originals will be evaluated from the following items: 8.1 appropriateness to the theme; 8.2 originality of thought; 8.3 relevance for the study area; 8.4 bibliographic update; 8.5 objectivity and clarity; 8.6 technical-scientific language 9. The responsibility for the content of articles published in the journal Gragoatá sole discretion of their respective authors. 10. Authors, whose articles are accepted for publication, will be entitled to receive 2 copies of the journal. Originals will not be returned. 200 Gragoata 28.indb 200 Niterói, n. 28, p. 197-200, 1. sem. 2010 3/11/2010 19:48:27 Gragoata 28.indb 201 3/11/2010 19:48:27 PRIMEIRA EDITORA NEUTRA EM CARBONO DO BRASIL Título conferido pela OSCIP PRIMA (www.prima.org.br) após a implementação de um Programa Socioambiental com vistas à ecoeficiência e ao plantio de árvores referentes à neutralização das emissões dos GEE´s – Gases do Efeito Estufa. Este livro foi composto na fonte Book antiqua.12 Impresso na Flama Ramos Manuseios e Acabamento Gráfico, em papel Pólem Soft 80g (miolo) e Cartão Supremo 250g (capa) produzido em harmonia com o meio ambiente. Esta edição foi impressa em maio de 2010. Tiragem: 400 exemplares Gragoata 28.indb 202 3/11/2010 19:48:28