Universidade do Estado do Pará Centro de Ciências Biológicas e da Saúde Escola de Enfermagem “Magalhães Barata” Mestrado Associado de Enfermagem UEPA-UFAM Vera Lúcia Gomes de Oliveira CAMINHO DAS PEDRAS: Cuidar cotidiano em situações de urgência e emergência em uma comunidade quilombola da Amazônia Paraense Belém - Pará 2012 Vera Lúcia Gomes de Oliveira CAMINHO DAS PEDRAS: Cuidar cotidiano em situações de urgência e emergência em uma comunidade quilombola da Amazônia Paraense Dissertação apresentada como requisito para obtenção do título de Mestre em Enfermagem no Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade do Estado do Pará e Universidade Federal do Amazonas Orientadora: Profª Drª Elizabeth Teixeira Belém - Pará 2012 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Biblioteca do Curso de Enfermagem da UEPA – Belém -PA O48c Oliveira, Vera Lúcia Gomes de Caminhos das pedras: Cuidar cotidiano em situações de urgência e emergência em uma comunidade quilombola da Amazônia Paraense / Vera Lúcia Gomes de Oliveira; orientadora Elizabeth Teixeira. – Belém: [s.n.], 2012. 118 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade do Estado do Pará, 2012. 1. Urgência e emergência. 2. Enfermagem 3. Cuidar cotidiano. 4. Populações Tradicionais I. Teixeira, Elizabeth. II. Título. CDD: 21 ed. 610.73610981 Vera Lúcia Gomes de Oliveira CAMINHO DAS PEDRAS Cuidar cotidiano em situações de urgência e emergência em uma comunidade quilombola da Amazônia Paraense Dissertação apresentada como requisito para obtenção do título de Mestre em Enfermagem no Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade do Estado do Pará e Universidade Federal do Amazonas Orientadora: Profª Drª Elizabeth Teixeira Apreciado em 13/08/2012 Banca Examinadora ____________________________ Orientadora Profª Dra. Elizabeth Teixeira Universidade do Estado do Pará ____________________________ Examinador Externo Profº Dr. Hilton Pereira da silva Universidade Federal do Pará ____________________________ Examinador Interno Profª Drª Laura Maria Vidal Nogueira Universidade do Estado do Pará _________________________________ Suplente Interno Profª Drª Nair Chase Universidade Federal de Manaus A Deus por me conceder saúde e graças de realizar este curso de mestrado AGRADECIMENTOS Primeiramente a DEUS, por ter me dado à vida e manter minha serenidade e força nos momentos mais adversos da minha saúde. Aos meus pais GILDA E JOÃO (im memória), sem eles nada seria possível. A Dra. Elizabeth Teixeira, minha orientadora, por sua disponibilidade, ensinamentos e apoio fundamentais durante todo o processo de criação e elaboração desta dissertação, mesmo quando foi necessário um puxão de orelha. E por acreditar nessa proposta desde o início. A minha companheira por sua compreensão, por tantas horas, dias e meses ausentes para a construção da dissertação. Aos meus filhos AYUNE E AYÚ, o carinho e companhia nas madrugadas. A minhas amigas, Marcia Helena, Margareth Braun sempre juntas até mesmo nos momentos mais difíceis e a todas as minhas colegas de mestrado pela afeição e pelas nossas conversas, onde vários insights foram possíveis; As professoras Dra. Mary Elizabeth de Santana e Dra. Antônia Margareth Moita Sá, pelo apoio, ensinamento e exemplo de vida. A associação dos moradores da comunidade quilombola do Abacatal, por ter acreditado e permitido a realização dessa pesquisa. Aos meus amigos Gedel, Vera Lúcia e Rose da Secretaria Municipal de cidadania, Assistência social e Trabalho, estes que apresentaram a comunidade e seus lideres. A todos que participaram como atores dessa pesquisa na comunidade quilombola “Abacatal”, como a Santana, Francisdalva, Vanusa, Pedro (Pepê) e sua esposa, e em especial a Vivia Cardoso que abriu a porta de sua casa juntamente com sua família para me acolher e fazer desta o meu pouso durante um ano e dois meses nessa comunidade. A Universidade do Estado do Pará juntamente com a Fapespa - que me concederam bolsa de auxílio para a efetivação desta pesquisa. Aos doutores Hilton Pereira, Nair Chase e Dra. Laura Vidal, pelas contribuições importantes enquanto membros da banca examinadora. Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode as seis horas da manhã Com um sorriso......... Chico Buarque de Holanda RESUMO OLIVEIRA, Vera Lúcia Gomes. CAMINHO DAS PEDRAS: O cuidar cotidiano em situações de urgência e emergência em uma comunidade quilombola da Amazônia paraense. 2012. 100f. Dissertação (Mestrado Associado em Enfermagem)Universidade do Estado do Pará/ Universidade Federal de Manaus. Pará, 2012. Introdução: O cuidado cotidiano de saúde comporta uma ação individual (cuidar do eu), uma ação coletiva (cuidar do outro e/ou família), uma ação local (cuidar da casa e do lugar de vida); portanto, comporta multiextensões, envolvendo um conjunto de aspectos interativos, cognitivos e conectivos, comportando, enfim, multidimensões. Objetivo geral: Descrever o cuidado cotidiano em situações de urgência e emergência dos moradores de uma comunidade Quilombola da Amazônia Paraense. Objetivos específicos: a) Identificar os tipos de situações de urgência e emergência mais frequentes na comunidade quilombola; b) Caracterizar as multidimensões dos cuidados prestados e itinerários percorridos em situações de urgência e emergência. Metodologia: Estudo exploratório e descritivo, de natureza qualitativa. Foram sujeitos 20 moradores adultos. A produção de dados foi por meio de entrevista semi-estruturada.A análise de dados foi por meio da análise ídeocentral. Resultados: Identificamos três modos de cuidar,os que cuidam com procedimentos realizados na própria comunidade(23%);os que cuidam com procedimentos e encaminham para fora da comunidade, com 40%; os que só encaminham para fora da comunidade,com 37%. As situações mais frequentes com o sujeito e/família, foram os sinais e sintomas com 38% (Dor, febre, diárreia, vômito, sangramento, tontura, hemorragia, edema),seguidos de acidentes com arma branca, e ocorrências clínicas, provenientes de doenças crônicas degerativas, urgências traumatologicas e acidente ofídico; com os vizinhos e amigos foram os traumas contusos(04) e urgências clinicas (04);na comunidade predominou as picadas de cobra. Na dimensão interativa evidenciou-se a procura pelo membro mais velho da família; os itinerários terapeuticos são com o uso da bicicleta até o caminhar por 8 km. Na dimensão cognitiva constatou-se conhecimento sobre o cuidar paliativo e desconhecimento sobre o cuidar avaliativo. Na dimensão conectiva emergiram: conexão homem-vegetal e conexão homem-animal; utiliza-se recursos naturais para o cuidar-cuidado como os remédios caseiros. Conclui-se que há limites e desafios enfrentados no cuidado cotidiano. Sugere-se ações-intervenções educativas; e ampliação do acesso/acessibilidade à rede de atenção local. Palavras chave: Urgência e Emergência; Enfermagem; Cuidar Cotidiano; População Tradicional. ABSTRACT OLIVEIRA, Vera Lúcia Gomes de. WAY OF STONES: The routine care in situations of urgency and emergency care in a community quilombola the Amazon state of Pará. 2012. 100f. Dissertation (Master's Associate in Nursing) - University of the State of Para / Universidade Federal do Manaus. Para 2012. Introduction: The health care routine includes an individual action (take care of me), a collective action (taking care of others and / or family), a local action (take care of home and place of living), so it behaves multiextensões involving a set of interactive features, cognitive and connectives, behaving, in short, multi-dimensions. General Objective: To describe the routine care in emergency situations and emergency residents of a community Quilombola Amazon Para. Specific Objectives: a) Identify the types of emergencies and more frequent emergency in quilombo b) characterize the multiple dimensions of care and itineraries flown in emergency situations and emergency. Methodology: exploratory and descriptive qualitative. The subjects were 20 adult residents. The production data was through semi-estruturada.A data analysis was by analysis ideo-centric. Results: Three modes of care, those who care with procedures performed in the community, with 23%, those who care with procedures and forward out of the community, with 40% leads only to those outside the community, with 37% . The most frequent situations with the subject and / family, were the signs and symptoms with 38% (pain, fever, diarrhea, vomiting, bleeding, dizziness, hemorrhage, edema), followed by injuries from knives, and clinical events, from degerativas chronic diseases, emergencies and traumatologicas snakebite, with neighbors and friends were blunt trauma (04) and emergency clinics (04); community predominated snake bites. In the interactive dimension revealed a demand by the oldest member of the family; therapeutic itineraries are using the bicycle to the walk for 8 km. In the cognitive dimension was found knowledge about palliative care and ignorance about the care assessment. In connective dimension emerged: plant and connection man-man-animal connection, it uses up natural resources for the carecare such as home remedies. It is concluded that there are limits and challenges faced in daily care. It is suggested actions, educational interventions, and expanding access / accessibility to the network of local attention. Keywords: Urgent and Emergency, Nursing, Care for Everyday Life, Traditional Population. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Fotografia 1 Sede Social da comunidade quilombola 26 Fotografia 2 Barracão de Sagrado coração de Jesus 26 Fotografia 3 Escola Municipal Manoel Gregório Rosa Filho 27 Fotografia 4 Casa da Farinha 27 Figura 1 “Mapa” da Comunidade Abacatal 28 Figura 2 Unidade de Transporte de Feridos (projetada pelo médico Dominique Jean Larrey 33 Diagrama 1 Cuidar Cotidiano de Saúde 43 Quadro 1 Perfil dos Sujeitos 55 Quadro 2 Perfil Familiar dos Sujeitos 57 Quadro 3 Perfil Domiciliar dos Sujeitos 58 Fotografia 5 Estrada de acesso à comunidade no verão 60 6 Estrada de acesso a comunidade no inverno 61 7 Estrada de acesso a portaria da comunidade 61 Fotografia 8 Casa de Alvenaria 61 Fotografia 9 Casa de Madeira 62 Fotografia 10 Casa de Alvenaria sem reboco 62 Fotografia 11 Casa de pau a pique 62 Fotografia 12 As crianças brincando no quintal 63 Fotografia 13 Conversando e identificando sua cultura 63 Fotografia 14 Brincando com caroço de tucumã 63 Fotografia 15 Moradores descascando a mandioca 64 Fotografia 16 Interior da casa de farinha 64 Fotografia 17 Fazendo a farinha 64 Fotografia 18 Peneirando e torrando a mandioca 65 Fotografia 19 Fervendo o tucupi 65 Fotografia 20 Peneirando a farinha 65 Fotografia 21 Área roçada e plantada 66 Fotografia 22 Cuidando da Roça 66 Fotografia 23 Colheita de mandioca 66 Fotografia 24 Missa do círio do sagrado coração de jesus 67 Fotografia 25 O início da procissão 67 Fotografia 26 Acompanhando a procissão 67 Fotografia 27 A procissão 68 Fotografia 28 O barracão do sagrado coração de jesus 68 Fotografia 29 O leilão na festa do sagrado coração de jesus 68 Fotografia 30 Caminhada dos jovens 69 Fotografia 31 Parada no igarapé em dia de sol 69 Fotografia 32 fixação da cruz 69 Fotografia 33 Um dos meios de transporte 70 Fotografia 34 A bicicleta como instrumento na pesquisa 70 Fotografia 35 Cuidando das crianças 70 Fotografia 36 cuidando da família 71 Fotografia 37 Cuidando do alimento 71 Fotografia 38 O cuidado cotidiano doméstico 71 Figura 3 Áreas de serviços de saúde de Ananindeua 72 Figura 4 Tipos de situações de urgência e emergência com 74 os sujeitos e/ou família, comunidade Figura 5 Tipos de situações de urgência e emergência com vizinhos, amigos 75 Figura 6 Situações mais frequentes de urgência e emergência 75 Figura 7 Os modos de cuidar dos sujeitos na comunidade 76 Diagrama 2 Os encontros em situações de urgência e emergência 78 Diagrama 3 Saberes – conhecimentos (desconhecimentos) no cuidar em situações de urgência e emergência 85 Diagrama 4 As conexões com a natureza no cuidado cotidiano em situações de urgência e emergência 89 LISTA DE SIGLAS ANANIN Moeda utilizada na compra de materiais no Projeto Boutique Solidária, em homenagem ao nome da cidade “Ananindeua”. APH Atendimento Pré-hospitalar CETAS Centro de Estudos e Tratamentos Alternativos para Saúde CONSUN Conselho Universitário COREN Conselho Regional de Enfermagem ELETRONORTE Centrais Elétricas do Norte do Brasil FAF Ferimento por Arma de Fogo IENPSAD Intervenção de Enfermagem no Processo Saúde Doença INCRA Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária ITERPA Instituto de Terras do Pará NUP Núcleo de Pesquisa PCR Parada Cardiorespiratória PESCA Prática Educativa de Saúde nas Comunidades Amazônicas RCP Reanimação Cardiorrespiratória SAMU Serviço de Atendimento Móvel de Urgência SAV Suporte Avançado de Vida SBV Suporte Básico de Vida SEMCAT Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Trabalho SESPA Secretaria de Estado de Saúde Publica do Pará SUAS Sistema Único de Assistência Social SUS Sistema Único de Saúde TCC Trabalho de Conclusão de Curso TCE Traumatismo Crânio Encefálico TCLE Termo de Consentimento Livre Esclarecido THEMAG Empresa de Engenharia e Consultoria UEPA Universidade do Estado do Pará UFAM Universidade Federal do Amazonas UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO 16 1.1 APROXIMAÇÃO – IMPLICAÇÃO COM SITUAÇÕES DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA 17 1.2 ENCONTROS DECISIVOS COM O CONTEXTO COMUNIDADE QUILOMBOLA 21 1.3 OBJETO DE ESTUDO, QUESTÕES E OBJETIVOS 24 1.4 TRILHAS METODOLÓGICAS 25 2. BASES CONCEITUAIS E HISTÓRICAS 31 2.1 SITUAÇÕES DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA 32 2.2 CUIDAR, CUIDADO E CUIDADO COTIDIANO EM SAÚDE 39 2.3 LINHAS HISTÓRICAS: QUILOMBO, QUILOMBOLAS E POLÍTICAS PÚBLICAS. 44 3. CUIDAR COTIDIANO DE SAÚDE EM SITUAÇÕES DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA 53 3.1 QUEM SÃO E DE ONDE FALAM OS SUJEITOS DO ESTUDO 54 3.2 AS SITUAÇÕES DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA 73 3.2.1 AS SITUAÇÕES DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA QUE DEMANDAM CUIDADO 73 3.2.2 OS CUIDADOS PRESTADOS NAS SITUAÇÕES DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA 76 3.2.3 AS DIMENSÕES DO CUIDAR COTIDIANO EM SITUAÇÕES DE 77 URGÊNCIA E EMERGÊNCIA 4. CONSIDERAÇÕES TRANSITÓRIAS REFERÊNCIAS 93 96 APÊNDICES 103 ANEXOS 114 16 1 INTRODUÇÃO Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal 17 1.1 APROXIMAÇÃO - IMPLICAÇÃO COM “SITUAÇÕES DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA” Comecei a me envolver com situações de Urgência e Emergência na Graduação em Enfermagem (1979 a 1982) e na Habilitação em Enfermagem Médico-Cirúrgica (1984), onde teve inicio a minha trajetória teórico-prática. Na graduação, o despertar ocorreu na disciplina enfermagem médico-cirúrgica I, no 3º ano, nas práticas de laboratório e na unidade de Urgência e Emergência do Pronto Socorro Municipal “Mario Pinot”, onde passei a desenvolver habilidades no que se refere às técnicas de imobilização, transporte de pacientes, administração de medicamentos e parada cardiopulmonar (RCP), além de participar ativamente do processo de assistência direta aos pacientes em várias etapas de seu tratamento frente aos agravos que foram vítimas. Neste momento foi se consolidando o despertar para essa área de conhecimento, haja vista, que me via útil neste contexto por sua dinâmica e diversidade de casos, os quais necessitavam de uma resposta imediata e assistência de qualidade e eficaz. Nesta instituição eram atendidos todos os pacientes vindos da capital e de todos os municípios do estado do Pará. Diante deste quadro, com o objetivo de buscar novos conhecimentos e melhorar os já adquiridos, passamos a realizar, em acordo com a supervisora docente, os chamados estágios-plantões em datas comemorativas e alguns finais de semana. Atividades extracurriculares estas que mais uma vez me fizeram concluir que estava me encontrando na área do conhecimento de Urgência e Emergência. Em 1984 me submeti a processo seletivo para estágio na própria instituição, realizado pela Coordenação de Educação Continuada, sendo aprovada em 1º lugar; a partir daí comecei a me familiarizar com as normas e rotinas desta instituição, não mais como acadêmica, mas sim, como estagiária, haja vista que nossas atribuições tinham um caráter profissional; fui adquirindo experiências no que se refere ao cuidar de pacientes que chegavam com quadros clínicos críticos. Em 3 de janeiro de 1985 iniciei minhas atividades profissionais em Urgência e Emergência. Fui chamada para realizar um treinamento de ingresso na Secretaria de Estado de Saúde Pública (SESPA), no Distrito de Mosqueiro, para um período de 2 meses; mais uma vez, a maioria das atividades eram voltadas para o atendimento de situações de Urgência e Emergência. Encontrei-me e me apaixonei 18 por essa área de conhecimento ao realizar cuidados a pacientes na sua grande maioria com agravos que requeriam atendimento de pequena e média complexidade. Foi neste momento da estrada da vida que soube o caminho que iria percorrer e a área em que iria aprofundar meus conhecimentos e habilidades enquanto Enfermeira. Em março do mesmo ano fui lotada na Unidade Mista de Saúde do município de Gurupá, no baixo amazonas, onde atuei até dezembro de 1985. Passei 32 horas navegando sobre as águas do Rio Amazonas para chegar ao 8º Centro Regional de Saúde – SESPA, localizado no município de Breves.Quando cheguei ao município de Gurupá, foi numa noite chuvosa e escura, e não havia nenhum conhecido ou alguém que fosse me receber. Desci do CATAMARÃ PARÁ, em uma balsa que estava ancorada no trapiche cheio de carretas; foi quando percebi que estava cheia de bagagens e caixas de livros; ali senti que era chegada a hora de ser “apenas eu”. Na unidade onde fui lotada, além do horário comercial, tínhamos os sobreavisos, e era aí que apareciam os casos de urgência e emergência; eu fazia questão de prestar todos os cuidados de enfermagem e às vezes até os que não eram diretamente de enfermagem, ficando satisfeita quando obtinha um bom resultado e constatava a recuperação dos pacientes. No final do ano de 1985, fui admitida no Conselho Regional de Enfermagem do Pará (COREN-PA), como fiscal, até 1988; como o COREN é o órgão responsável pela fiscalização do exercício profissional de enfermagem, passei a realizar viagens de supervisão nas mais diversas regiões desse nosso Estado do Pará, da área metropolitana de Belém até a zona bragantina; Marajó; baixo amazonas, etc. Durante essas viagens passei a ter um olhar diferenciado frente as diversas situações percebidas e vivenciadas; um olhar inicialmente voltado para a prevenção de possíveis acidentes, e depois para as situações de urgência e emergência; e quando chegava para supervisão em instituições de saúde bem como em empresas que tinham um ambulatório, como a Camargo Correia em Tucuruí; Vale do Rio Doce em Serra dos Carajás, tinha uma atenção especial à área de atendimento de Urgência e Emergência. Nestes locais percebi enquanto Enfermeira que devemos tomar o cotidiano dos indivíduos como referência para uma prática educativa voltada para a melhoria da qualidade de vida. Após conversas com alguns profissionais de enfermagem e pacientes passei a realizar palestras sobre o atendimento em situações de Urgência e Emergência, específicas para cada região, 19 município, e porque não dizer, localidade. Dentre os assuntos mais abordados estavam os acidentes ofídicos, fraturas, acidentes automobilísticos, afogamento, soterramento e outros. Era frequente nos momentos de trocas de experiências ouvir relatos sobre o uso de plantas no tratamento de algumas situações de Urgência e Emergência. Em 1989, por meio da ELETRONORTE/THEMAG, se deu a minha ida ao município de Tucuruí para compor uma equipe multiprofissional que tinha como objetivo realizar educação em saúde com as populações que foram afetadas com a construção da barragem; as atividades eram desenvolvidas na parte baixa da barragem, ou seja, a juzante da hidroelétrica, em vários lugarejos dos municípios que compunham a área inundada como Baião, Mocajuba, Cametá e Limoeiro do Ajurú; realizei cursos de manuseio do eco-sistema na construção de fossas, primeiros socorros, saneamento básico e outros, além de fazer levantamento de condições de vida. Nosso meio de transporte e moradia era um barco de médio porte, onde era feito o planejamento para as ações previamente agendadas para serem desenvolvidas, articulado com as lideranças das comunidades; em geral eram realizadas em barracões improvisados ou até mesmo dentro de nossa casa (Barco João Pinto). Neste meu caminhar tive oportunidade de atender algumas situações de urgência como picada de cobra, ferimento por terçado, queda e outros, e isso se dava por ter sempre comigo o material mínimo necessário para esse tipo de atendimento. No exercício do dia-a-dia enquanto enfermeira assistencial na Unidade de Urgência e Emergência Dr. Augusto Chaves Rodrigues, no Município de Marituba, no período de 1992 a 2004, observei a importância de se promover um atendimento rápido e eficaz para a estabilização hemodinâmica das vítimas, reconhecendo o mais breve possível os agravos decorrentes dos traumas sofridos e o quanto precisamos de uma integração e articulação entre os profissionais e as instituições de saúde para a qualidade do atendimento, e consequentemente, o bem estar dos pacientes; nesta unidade eu fazia parte de um grupo de enfermeiras responsáveis pelo planejamento e organização da unidade, além de atuar como enfermeira assistente em plantões noturnos com escala fixa nas terças-feiras e um plantão de 24 horas em um final de semana. Esta unidade era gerenciada pela Secretaria de Estado de Saúde Pública (SESPA); era de pequena a média complexidade e o atendimento era em Clinica Médica e Cirúrgica, Clínica Pediátrica, Odontologia, 20 Ortopedia e Traumatologia e Pacientes Críticos; contávamos com uma cadeia de apoio diagnóstico com laboratório, ultrassonografia e Raio x. Durante todos esses anos tive a oportunidade de conviver, presenciar e atuar no atendimento de vítimas das mais variadas situações desde um simples trauma como um corte superficial até um traumatismo craneoencefálico (TCE) e parada cardiorespiratória (PCR). Ainda neste período fui responsável em planejar e executar a I Jornada de Urgência e Emergência da unidade. De 2004 a 2006 trilhei um caminho um pouco diferente; por meio das asas de um avião, aterrizei na cidade de São Paulo com o objetivo de fazer um curso voltado para o manuseio das chamadas terapias alternativas, e assim foi feito; conclui o Curso de Terapeuta Corporal pelo Centro de Estudos e Tratamento Alternativo para Saúde (CETAS). De volta à terra natal, no dia 30 de junho de 2006 fui admitida para exercer minhas funções de Enfermeira no Hospital do Pronto Socorro Municipal Humberto Maradei Pereira no município de Belém; um grande sonho foi realizado, o de trabalhar neste local; esta instituição realiza atendimentos de pequena e média complexidade com uma demanda espontânea superior a sua capacidade. Neste caminho tracei trilhas de especificidade, partindo das urgências clínicas, traumatologia, clínica cirúrgica, unidade de reanimação, centro de terapia intensiva; e foi neste trilhar que mais uma vez percebi a grande paixão, que me faz viver intensamente, o cuidar de pessoas que necessitam de atendimento de urgência e emergência. Tenho certeza que contribui para a melhoria da assistência prestada aos pacientes. Foi ainda nessa instituição que tive oportunidade de fazer cursos de capacitação. No dia 01 de janeiro de 2009, tive que sair da função de enfermeira assistente, mas permaneci na unidade acompanhando alunos em estágio supervisionado em Enfermagem em Urgência e Emergência. Na docência minha trajetória se fortaleceu a partir da aprovação no concurso público para a Fundação Educacional do Estado do Pará, hoje Universidade do Estado do Pará, na Escola de Enfermagem “Magalhães Barata”, para a Disciplina Enfermagem Médico-Cirúrgica; e assim, me tornava funcionária pública estadual. Foram muitas as atividades que passei a desenvolver já em pleno exercício da função; e comecei uma especialização em Metodologia do Ensino Superior para a área da Saúde, em 1993, pela Fundação Educacional do Estado do Pará. No ano seguinte, passei a acompanhar alunos em aulas práticas no centro 21 cirúrgico do Hospital dos Servidores do Estado; posteriormente passei a realizar esses acompanhamentos nas dependências do Pronto Socorro Municipal Mario Pinot, ficando ai por um longo período. Em paralelo a essa atividade, passei a desempenhar a função de Coordenadora da Disciplina Enfermagem em Urgência e Emergência, de 1999 a 2001, sendo reconduzida por mais 2 anos; participei de bancas de qualificação e defesa de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), fui membro do colegiado de curso, em 2000, e conselheira do Conselho Universitário (CONSUN) em 2002; participei de vários eventos regionais e estaduais, sempre voltados para a urgência e emergência e administrando aulas teóricas e práticas. No segundo semestre de 2006 fui coordenadora do Núcleo de Pesquisa do Curso de Enfermagem (NUP) e coordenadora da jornada de qualificação e defesa de TCC. Em 2009 passei a fazer parte do Grupo de Pesquisa Intervenções de Enfermagem no Processo Saúde Doença (IENPSAD), desenvolvendo o projeto de pesquisa “Percepção da Equipe de Enfermagem diante de paciente vítima de violência urbana”. Em 2010 fui aprovada no processo seletivo para o Mestrado Associado em Enfermagem UEPA /UFAM, e passei a fazer parte do Grupo de Pesquisa Práticas Educativas em Saúde e Cuidado na Amazônia (PESCA). Todas essas aproximações com situações de urgência e emergência foram determinantes para a opção pelo tema-objeto de minha dissertação; mas, outros encontros também foram decisivos para a concretização do estudo, do que trato a seguir. 1.2 ENCONTROS DECISIVOS COM O CONTEXTO “COMUNIDADE QUILOMBOLA”. Durante minha trajetória como Enfermeira assistente no Hospital do Pronto Socorro Municipal, tive meu primeiro contato com moradores da comunidade quilombola de Bom Jesus do bairro do Tapanã, ocasião em que um morador foi levado pelo Serviço de Atendimento Móvel em Urgência (SAMU), apresentando traumatismo abdominal ocasionado por queda; seus familiares relataram dificuldades de atendimento em outros locais. Essa informação foi resignificada durante uma sessão no Congresso Médico Amazônico de 2010, realizado no Centro de Convenções Hangar, em que emergiu a temática “comunidade quilombola”, na apresentação dos projetos das doutorandas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, e as dificuldades de acesso aos serviços de saúde por essas populações foram destacadas, passando a despertar meu interesse. 22 Em seguida, passei a procurar na internet dados sobre “comunidades quilombolas” na grande Belém. Tive acesso a informações sobre as comunidades, Bom Jesus no bairro do Tapanã e Abacatal no município de Ananindeua. Optei por me aproximar da comunidade quilombola Abacatal, por ainda conservar características peculiares; e comecei a realizar leituras acerca dessa comunidade. A origem dessa comunidade esta ligada aos vários engenhos de cana-deaçúcar que existiram ao longo dos séculos XVII e XIX as margens de rios como Guamá, Bujarú, Acará e Mojú. O engenho do Uriboca, do Conde Coma Mello, era uma dessas propriedades e é nele que se inicia a história da comunidade quilombola Abacatal. Sua localização é as margens do Igarapé Uriboquinha, que desemboca no rio Guamá. No início do ano de 2011 tive contato com a Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Trabalho (SEMCAT) do Município de Ananindeua, e com o coordenador das ações sociais na comunidade quilombola Abacatal; por meio dele, com as coordenadoras da equipe de Gestão, Trabalho e Articulação Interinstitucional e as assistentes sociais da equipe. Em fevereiro, conheci um dos projetos da secretaria, denominado “Boutique Solidária”, projeto destinado ás comunidades carentes do município; fazem parte moradores responsáveis em arrecadar donativos, realizar consertos e vender as peças às comunidades, utilizando uma moeda própria, o “ANANIN”, nome dado para homenagear o símbolo do município, que é uma árvore. Nesta oportunidade fui convidada para participar da Pré-Conferência para a VII Conferência Municipal de Assistência Social, com o tema central “Os Avanços na Consolidação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) com a Valorização dos Trabalhadores e a Qualificação da Gestão, dos Serviços, Programas, Projetos e Benefícios”. A partir de minha inserção no município, busquei condições para me aproximar da comunidade quilombola. Em maio nos encaminhamos para a comunidade quilombola Abacatal; nosso meio de transporte foi uma Kombi, e durante o percurso de aproximadamente 01h30min em estradas e caminhos de terra, com grandes atoleiros e atravessia de um pequeno córrego, percorremos 8 kilometros até o acesso a comunidade. No trajeto até a localidade observei as marcas da destruição do meio ambiente e, em alguns momentos, pude ver “covões,” abertos nas proximidades da entrada de Abacatal, o que evidenciou degradação do solo. Perto do centro de 23 Abacatal, a paisagem chega a surpreender agradavelmente. A vegetação é exuberante, o clima é quente, e o silêncio só é interrompido pelos gritos das crianças e o canto dos passarinhos, o verde é imponente e as arvores frutíferas. As condições das estradas, face às chuvas, são precárias, trazendo dificuldades para o acesso. Quando lá chegamos os moradores já estavam reunidos no barracão comunitário com todas as lideranças, fui apresentada pela assistente social, e esta solicitou que eu justificasse a minha presença. Em poucas palavras fiz um relato claro e breve dos meus objetivos junto à comunidade; logo depois fui apresentada as lideranças da Associação dos Moradores da Comunidade de Abacatal e Aurá e as lideranças locais. Em conversa com alguns moradores fiquei sabendo que as 83 famílias que residem na comunidade constituem-se de aproximadamente 400 pessoas entre descendentes de escravos em sua 8ª geração, e outros residentes ligados a estes por parentesco. No final do evento tive permissão para realizar estudos e frequentar quantas vezes fosse necessário à comunidade, fui ainda apresentada a outros membros da comunidade, como “a professora”; também visitei a residência de uma das líderes, e a Escola de Ensino Fundamental Manoel Gregório Rosa Filho. Após as visitas fui convidada por um dos líderes para participar das Festividades do Sagrado Coração de Jesus, o que aceitei imediatamente. Neste encontro iniciei minha inserção no contexto “comunidade quilombola”. Em junho após um dia de muita chuva, em companhia de um acadêmico de enfermagem e monitor, fui até a comunidade; quando lá chegamos à maioria dos moradores já estavam tomando café e esperando o inicio da missa e procissão do SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS; fiz-me presente no evento religioso acompanhando a procissão que percorreu toda a extensão da comunidade, ficando o percurso em torno de 2,5 kilometros; durante o trajeto fizemos algumas paradas na frente de casas onde havia pessoas doentes e houve queima de fogos de artifícios; as casas estavam decoradas e as famílias se colocavam na frente saudando os passantes; foram ofertados vários tipos de comidas: maniçoba, arroz com galinha,churrasco, e realizado um leilão com as ofertas dos devotos com o objetivo de levantar recursos para a reforma do barracão. Nessa oportunidade tive o prazer de conhecer e conversar com alguns dos moradores mais antigos, descendentes de escravos. Estes me relataram suas lutas para conseguir que suas terras fossem regulamentadas e tituladas, o que só aconteceu em maio de 1999. Conheci a agente comunitária de saúde, a diretora da 24 escola, líderes e membros da Associação dos Moradores e o Presidente da Associação dos Moradores. Um dos moradores ficou todo o tempo comigo, sempre repassando as informações e é claro contando as histórias de luta da comunidade quilombola Abacatal. Foi neste encontro que me foi relatado sobre o nome da comunidade “ABACABAL”; por ter na região muitas plantações de ABACABA se pensou no nome da árvore para o nome da comunidade; no entanto na hora de registrar no cartório o nome da comunidade, ocorreu “um erro”, e então ficou “ABACATAL”; não há quase nada de plantação de abacate na comunidade. Esses e outros encontros foram decisivos, pois pude constatar não só as dificuldades de acesso e atendimento a unidades de Urgência e Emergência, como também pude verificar que no dia-a-dia da comunidade há inúmeras “manifestações” de cuidar-cuidado, pois os moradores recorrem a diferentes estratégias e recursos para “dar conta” das necessidades de saúde das famílias. A partir dos encontros passei a refletir sobre o “cuidar cotidiano”. Com base nesse conceito, emerge o objeto de estudo da dissertação, do que trato a seguir. 1.3 OBJETO DE ESTUDO, QUESTÕES E OBJETIVOS. O cuidar cotidiano de saúde indica a disposição para a vida e a sobrevivência, indica tanto um pensar como um fazer, envolvido e envolvendo-se com os ecossistemas onde está circunscrito. A noção de cuidar cotidiano de saúde comporta a promoção, a prevenção, o diagnóstico, o tratamento, a cura e a reabilitação. Portanto, comporta multiterapêuticas. O cuidar cotidiano de saúde também comporta uma ação individual (cuidar do eu ou auto cuidado), uma ação coletiva (cuidar do outro e/ou família), e uma ação local (cuidar da casa e do lugar de vida). Portanto, comporta multiextensões (cuidar do eu, cuidar do outro/família, cuidar da casa, cuidar do lugar). Ainda envolve um conjunto de aspectos interativos, cognitivos e conectivos, comportando, enfim, multidimensões (TEIXEIRA, 2001). Meu interesse em conhecer as manifestações do cuidar cotidiano em situações de urgência e emergência entre famílias quilombolas da comunidade Abacatal , município de Ananindeua, área metropolitana de Belém foi o objeto de estudo da dissertação que se ancora na premissa de que as práticas cotidianas de saúde representam um importante aspecto na perspectiva das populações 25 quilombolas alcançarem acesso, acessibilidade e direito ao cuidado de saúde individual e coletivo. A identificação e valorização de seus saberes e fazeres passa a ser uma questão relevante para avançarmos na busca da garantia do direito à saúde. Além disso, é importante estudar as multiterapêuticas do cuidar cotidiano de saúde, pois nos auxiliará a obter novos conhecimentos e estabelecer outras e diferentes interações entre e com diferentes atores-sujeitos-usuários. Nesse modo de pensar, Leininger (apud GEORGE, 2000) faz uma distinção entre dois sistemas de saúde existentes na sociedade: um que se refere aos sistemas de cuidados populares de saúde, ou sistemas “folk”; e outro que diz respeito aos sistemas de cuidados profissionais de saúde. A autora pressupõe, ainda, que todos os tipos de culturas possuem práticas de cuidado à saúde desses dois tipos de sistemas, realizada por profissionais e comunitários. Ao me deparar com relatos e dados sobre as dificuldades de acesso ao atendimento na rede do Sistema Único de Saúde pelos moradores da comunidade quilombola, precisei, ampliar o fenômeno a ser estudado. Nesse sentido formulei as seguintes questões norteadoras: a) Quais os tipos de situações de urgência e emergência mais frequentes na comunidade quilombola? b) Quais os cuidados cotidianos realizados no atendimento dessas situações de urgência e emergência? Nesse sentido, esse estudo teve como objetivo geral: Descrever os cuidados cotidianos em situações de urgência e emergência dos moradores de uma Comunidade Quilombola da Amazônia Paraense. E como objetivos específicos: a) Identificar os tipos de situações de urgência e emergência mais frequentes na comunidade quilombola; b) Caracterizar as dimensões do cuidado cotidiano em situações de urgência e emergência. 1.4 TRILHAS METODOLÓGICAS Para atender aos objetivos da pesquisa optei pela abordagem qualitativadescritiva. A abordagem foi escolhida por proporcionar a produção de um estudo a partir dos sujeitos, que possuem em comum, o cotidiano onde desenvolvem suas atividades de cuidado. Na abordagem qualitativa como afirma Teixeira (2003), o social é visto como um mundo de significados passível de investigação e a linguagem dos atores sociais e suas práticas são as matérias primas dessa abordagem. É o nível dos significados, motivos, aspirações, atitudes, crenças e valores, que se expressa pela 26 linguagem comum e na vida cotidiana, o objeto da abordagem qualitativa. O estudo teve um enfoque retrospectivo, com ênfase nos acontecimentos já passados, ou seja, nas situações de urgência e emergência já ocorridas na comunidade até o momento da pesquisa. Os sujeitos da pesquisa foram 20 moradores adultos da comunidade quilombola Abacatal. Os dois kilometros e meio da área geográfica da comunidade no sentido longitudinal, à direita e á esquerda. Durante a realização das visitas nas primeiras casas da comunidade, constatei repetições de informações muito rapidamente. Assim, para garantir a diversidade de situações e experiências de cuidado e poder atingir outras áreas, optei por dividir a comunidade em setores; cada setor foi nomeado de acordo com referências marcantes na localidade. Fotografia 1:Setor SEDE fica próximo ou em frente à sede social da comunidade (05 famílias). Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal- 2011 Fotografia 2: Setor BARRACÃO fica próximo ao barracão de festividades (04 famílias). Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 27 Fotografia 3: Setor ESCOLA fica próximo ao caminho em frente à escola (06 famílias). Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 4: Setor CASA DE FARINHA fica próximo à Casa de Farinha (05famílias). Fonte: comunidade Quilombola Abacatal – 2011 De cada setor foi escolhido o descendente ou remanescente que referiu ter realizado algum cuidado em situação de urgência e emergência, com indicativo dos entrevistados durante sua fala ou por conversa com alguns membros da associação; levando-se em consideração manifestações de até (01) ano. Quem referiu que teve envolvimento ou quem foi citado por alguém, foi o “sujeito”. No setor Sede foram 05 pessoas, no setor Barracão 04, no setor Escola 06 e no setor Casa da Farinha 05 entrevistados. Três não quiseram participar, um tem deficiência auditiva, um se mudou da comunidade e cinco foram considerados agregados. A comunidade quilombola Abacatal é constituída por 83 famílias, com um total de 71 casas (05 se encontram abandonadas e 02 estão com famílias agregadas recém-chegadas); está localizada no município de Ananindeua vizinho a 28 cidade de Belém, no Estado do Pará, a mais ou menos 1 hora de distância de Belém (em carro) e uma distância de Ananindeua de 8 km; possui uma área de 308 hectares aproximadamente; mais recentemente recebeu titulação de 218 hectares, num total de 526. Para ilustrar o “lócus” do estudo, apresento a seguir um desenho feito por um menino de 10 anos, morador da comunidade (Anthonny). O mesmo é bastante fiel ao “mapa” da comunidade e por isso optei por incluí-lo. FIGURA 1: “Mapa” da Comunidade Abacatal Fonte: Anthonny Cardoso de 10 anos – 2012 29 É no engenho do Uriboca, do Conde Coma de Mello, uma das propriedades da região que se inicia a história da comunidade quilombola de Abacatal. As terras da comunidade foram deixadas como herança pelo Conde Coma de Mello para três de suas filhas: Maria do Ó Rosas de Moraes, Maria Filistina Barbosa e Maria Margarida Rodrigues da Costa. As “Três Marias”, como são chamadas, foram filhas do conde com sua escrava Olímpia. A memória dessa época esta materializada no Caminho das Pedras construído pelos escravos da antiga fazenda ligando o igarapé Uriboquinha à casa do conde. Esse caminho tem uns 500 metros de comprimento e meio de largura; essa história foi contada por Vivia Cardoso da Conceição, uma jovem liderança da comunidade. A produção de dados foi realizada de outubro de 2011 a março de 2012, e se deu por meio de entrevistas com os “sujeitos”, moradores adultos da comunidade quilombola Abacatal. Segundo Minayo (2001): A entrevista privilegia a obtenção de informações através da fala individual, a qual revela condições estruturais, sistema de valores, normas e símbolos e transmite, através de um porta-voz, representações de determinados grupos (p. 65). A entrevista foi marcada antecipadamente e realizada com privacidade; todos os entrevistados tiveram suas identidades preservadas, e são citados e identificados pelas letras “Q” (de quilombola) e “C” (de casa), combinadas ao número da ordem das casas: o primeiro entrevistado é o QC-01. As respostas foram registradas por meio de um gravador. O roteiro foi semi-estruturado. Para Triviños (1987): A entrevista semi-estruturada possibilita ao informante discorrer sobre suas experiências, a partir do foco principal proposto pelo pesquisador. Ao mesmo tempo em que permite respostas livres e espontâneas do informante, valoriza a atuação do entrevistador. Assim será possível extrair o máximo de veracidade dos entrevistados, possibilitando aos entrevistados uma maior compreensão do tema (p. 146). A entrevista foi precedida de esclarecimentos sobre o estudo e leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (Apêndice A); além disso, foi esclarecido que não haveria qualquer tipo de remuneração pelas informações obtidas; foram realizadas perguntas sobre dados pessoais e sobre o tema em questão. As entrevistas e as conversas com os moradores foram realizadas na sua maioria em ambiente domiciliar e guiada por um roteiro (Apêndice B). A análise dos dados seguiu os passos da técnica denominada por Teixeira (2009) como “análise ídeo-central” uma modalidade de análise temática que 30 visa evidenciar idéias centrais ou idéias-chave nucleares dos discursos; idéias que emergem das respostas obtidas questão-por-questão. Ao final da análise, poder-seá reunir as idéias-chave, resignificando-as, reagrupando-as e/ou reorganizando-as em outros núcleos de sentido. A amostra “foi por saturação, de acordo com Turato (2008) que diz”: [...] o pesquisador fecha o grupo quando, após as informações coletadas com certo número de sujeitos, novas entrevistas passam a apresentar uma quantidade de repetições em seu conteúdo [...]”. O projeto foi autorizado pela Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Trabalho (SEMCAT) do Município de Ananindeua e pela Coordenação da Associação da Comunidade Quilombola Abacatal, posteriormente, submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem “Magalhães Barata” - Universidade do Estado do Pará, protocolo CAAE – 005.0321.000-11/2011 (Apêndice C). Dessa forma, objetivou-se atender às exigências da Resolução 196/96 do Ministério da Saúde, que regulamenta a pesquisa em seres humanos. Aos sujeitos do estudo foi fornecido um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, com as devidas informações quanto aos objetivos da pesquisa, anonimato, consentimento escrito e permissão para utilização de imagens, com esclarecimento prévio de possíveis dúvidas. 31 2 BASES CONCEITUAIS E HISTÓRICAS Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 32 2.1. SITUAÇÕES DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA PRIMÓRDIOS DO ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR: uma breve linha do tempo. Condições de risco para a vida das pessoas sempre existiram e junto com esses riscos, pelo instinto de preservação da vida, o ser humano teve a preocupação de buscar o mais precocemente possível, um suporte para manter as suas condições vitais. Embora não descrito com a finalidade de explicitar um atendimento a uma vítima de violência, um dos primeiros registros identificados está na Bíblia, no livro de Lucas, capítulo 10, versículos 30 a 34; “ [...]; certo homem descia de Jericó e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto. Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo. Semelhantemente, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo. Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicandolhe óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele”( BIBLIA SAGRADA, 1969). Falar em preservação da vida ao longo dos séculos implica lembrar como foi possível ressuscitar indivíduos “aparentemente mortos”. Isso só foi considerado possibilidade científica, a partir do século XVIII. Até então, há registros de sucesso, mas envoltos em misticismo e crenças religiosas. As manobras de ressuscitação foram desenvolvidas e tornaram-se realidade após os anos 1960(TIMERMAN; GONZÁLES; RAMIRES, 2007). O socorro sistematizado emergencial prestado às vítimas de situações críticas teve suas bases alicerçadas durante a guerra civil americana, onde eram perdidas muitas vidas, principalmente de soldados, por falta de atendimento imediato. Foi identificada a necessidade de providências para agilizar o atendimento às vítimas ainda no campo de batalha. Alguns conceitos como segurança da cena (evitar tornar-se mais uma vítima, evitar a ocorrência de novas vítimas), exame primário (tratamento das lesões em risco de vida, evitar mais dano) e a própria questão do transporte rápido (para o local de tratamento definitivo), são oriundos dessa época (NATIONAL TECHNICIANS, 2004). ASSOCIATION OF EMERGENCY MEDICAL 33 Tecnicamente, o marco da criação da ambulância projetada deve-se ao médico Dominique Jean Larrey (1766 – 1842), considerado “Pai da Medicina Militar” (Figura 2). Como cirurgião do exército napoleônico, identificou a necessidade de resgatar os feridos não apenas após o término do conflito, mas ainda durante a batalha. Larrey, necessitando estabelecer atendimento imediato, projetou Unidades de Transporte de Feridos, que batizou como “ambulâncias voadoras”, pois tinham como características serem leves e velozes. O aumento da velocidade deu-se pelo uso, inicialmente, de dois cavalos lado a lado e posteriormente perfilados, bem como madeira leve, rodas pequenas e teto arredondado para evitar retenção de água na madeira durante a chuva (FERRARI, 2006). FIGURA 2: Unidade de Transporte de Feridos (projetada pelo Médico Dominique Jean Larrey) . Fonte: hptt/ wikipedia.org/wiki/Ambulância – Segundo Silva et al (2010), o atendimento pré-hospitalar (APH) tem por característica atender a vítima nos primeiros minutos após o agravo, de maneira a prestar atendimento adequado e transporte rápido para um estabelecimento de referência. Tem o objetivo de estabilizar as condições vitais e reduzir a morbimortalidade, por meio de condutas adequadas durante a fase de estabilização e transporte, assim como as iatrogenias que possam culminar com adventos variados, desde as incapacidades físicas temporárias ou permanentes até a morte. O APH móvel primário é o socorro oferecido mediante o pedido de um cidadão; o secundário é a solicitação de um serviço de saúde, no qual o usuário está 34 recebendo um primeiro atendimento e necessita ser conduzido a um serviço de maior complexidade (BRASIL, 2002). No contexto do APH, as ações são divididas em suporte básico (SBV) e suporte avançado de vida (SAV). O SBV é a estrutura de apoio oferecida a vítimas com risco de morte desconhecidas por profissionais de saúde, por meio de medidas conservadoras não invasivas, tais como: imobilização cervical, contenção de sangramento, curativo oclusivo e imobilização em prancha longa. Inclui ainda ações que visam à qualidade da circulação e oxigenação tecidual, aumentando a chance de sobrevida. O SAV corresponde à estrutura de apoio oferecida por profissionais médicos onde há risco de morte, por intermédio de medidas não invasivas ou invasivas, tais como: intubação endotraqueal, toracocentese, drenagem torácica, pericardiocentese, etc (TIMERMAN, RAMIREZ, 2007). O serviço pré-hospitalar, desenvolvido no Brasil, atua baseado em duas correntes metodológicas: o sistema europeu e o sistema americano O Serviço de Atendimento Móvel em Urgências (SAMU) tem origem francesa e foi criado por anestesistas intensivistas e emergenciais devido à necessidade da assistência préhospitalar, pois os pacientes chegavam ao hospital muitas vezes com piora do caso ou mesmo mortos, por não receberem atendimento precoce e adequado. Este sistema tem como referencial o médico, tanto na regulação do sistema, como no atendimento e monitoramento do paciente, até a recepção hospitalar. É um serviço ligado ao sistema de saúde, hierarquizado e regionalizado, possuindo comunicação direta com os centros hospitalares. Já o sistema norte americano trabalha com paramédicos (com um período de formação de três anos após o segundo grau). Os paramédicos começaram a desenvolver suas atividades nos EUA, devido a Guerra do Vietnã, pois havia necessidade de atendimento médico imediato e como não era possível contar com a presença médica, em todas as frentes de combate, alguns soldados foram treinados para realizarem a assistência necessária. No Brasil, a implantação de serviços pré-hospitalares, municipais e estaduais, vem escolhendo o modelo metodológico de acordo com realidades, demandas, perfis de morbimortalidade, recursos técnicos, tecnológicos e financeiros(ROCHA et al,2003). Em uma emergência, a Enfermagem deve estabelecer prioridades de assistência de acordo com a avaliação preliminar, garantindo assim a identificação e o tratamento das situações que ameaçam a vida do paciente. Consideramos relevante que a enfermeira de emergência tenha presente, nesta situação, arte, 35 habilidade, conhecimento, emoção, sentido; vivencie e compartilhe informações para um processo rápido, preciso,hábil e eficiente ao prestar assistência de Enfermagem, além de prestar uma assistência globalizada ao ser humano e família. O tempo que transcorre da hora do trauma até os primeiros procedimentos tem sido considerado um fator crítico (NAZÁRIO, 1999). Cunningham (1997) escreve que a primeira hora, imediatamente após o trauma, é um período em que a ressuscitação e a estabilização são consideradas mais benéficas para o paciente, a chamada golden hour. Neste contexto, a enfermagem participa nas situações de urgência quanto nas de emergência, tanto na prevenção de situações, quanto na orientação sobre o cuidado adequado quando da ocorrência. O Ministério da Saúde implementa a assistência pré-hospitalar no âmbito do SUS, em um primeiro nível de atenção, aos indivíduos com quadros agudos, de natureza clínica, traumática ou psiquiátrica, quando ocorrem fora do ambiente hospitalar, podendo acarretar sofrimento, sequelas ou morte. Nesse contexto, deve existir um forte potencial ordenador da assistência, como forma de responder demandas de urgência ocorridas no domicílio, no local de trabalho, em vias públicas ou onde o indivíduo vier a precisar do SUS, com recursos necessários e adequados para a complexidade da condição do paciente. Vale lembrar que historicamente nível de resposta pré-hospitalar às urgências e emergências tem sido insuficiente, provocando a superlotação dos hospitais e prontos socorros, mesmo quando a situação clínica não é característica de um atendimento de emergência. Essa realidade, aliada a falta de orientação adequada ou suficiente da população contribui para que esses serviços não consigam oferecer atendimento qualificado e humanizado. ESCLARECENDO OS CONCEITOS DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA Segundo Carvalho (2007), a urgência é caracterizada como um evento grave, que deve ser resolvido urgentemente, mas que não possui um caráter imediatista, ou seja, deve haver um empenho para ser tratada e pode ser planejada para que a pessoa não corra risco de morte. Já a emergência é uma situação gravíssima que deve ser tratada imediatamente, caso contrário, a pessoa vai morrer ou apresentará uma sequela irreversível. A constituição federal promulgada em 1988, no Brasil, estabelece que a saúde é um dever do Estado e um direito da população. A partir disso, apregoa-se 36 que as ações e os serviços de saúde devem ser promovidos por um Sistema Único de Saúde (SUS), organizado em torno dos princípios da universalidade, integralidade e equidade, e articulado por mecanismos de referência e contrareferência, visando uma assistência resolutiva aos usuários em todos os seus níveis de complexidade a partir da superação do modelo hospitalocêntrico e curativista (PINHO, 2006). A portaria nº 1863, de 29 de setembro de 2003, instituiu a Política Nacional de Atenção às Urgências, a serem implantadas em todas as unidades federadas, respeitadas as competências das três esferas de gestão (BRASIL, 2003). A Política Nacional de Atenção às Urgências e Emergências, por meio da Portaria nº 2048, de 05/11/2002, aprova o Regulamento Técnico dos Sistemas Estaduais de Urgência e Emergência, que propõe que a atenção às urgências flua em todos os níveis do SUS, organizando a assistência desde as unidades de saúde até os cuidados pós-hospitalares, na convalescença, recuperação e reabilitação. Os pressupostos principais dessa política estão alicerçados em cinco pilares: humanização, organização das redes assistenciais, estratégias promocionais, regionalização médica de urgências, qualificação e educação permanente em consonância com os preceitos do Sistema Único de Saúde (BRASIL, 2002). Dessa forma, foram estabelecidos os princípios e diretrizes dos Sistemas Estaduais de Urgência e Emergência, as normas e critérios de funcionamento, a classificação e os critérios para a habilitação de serviços que devem participar dos planos estaduais de atendimento às Urgências e Emergências, a saber: Regulação Médica de Urgência e Emergência, Atendimento Pré-hospitalar Fixo, Atendimento Pré-hospitalar Móvel, Atendimento Hospitalar, Transporte Inter-hospitalar; a criação de Núcleos de Educação em Urgência, com a proposição de grades curriculares para capacitação de recursos humanos na área (BRASIL, 2003). As situações de urgência se caracterizam por serem ocorrências perigosas, de aparecimento rápido, mas não necessariamente imprevistas e súbitas, necessitando de solução em curto prazo; enquanto as situações de emergência são ocorrências ou situações perigosas, de aparecimento súbito e imprevisto, necessitando de imediata solução. Ambos os termos têm em comum serem quadros nosológicos graves e se não tratados, podem causar mal irreversível ou morte. A emergência o aparecimento ou agravamento é súbito e imprevisto, necessitando de solução imediata - é um 37 estado de agudeza; na urgência o aparecimento é rápido, mas não é súbito e imprevisto e a solução pode ser em curto prazo - é um estado de semi-agudeza. Um politraumatismo; fraturas expostas com hemorragias; ferimento por arma fogo (FAF) ou ferimento por arma branca (FAB) com evisceração (vísceras expostas); hemorragias volumosas; infarto agudo do miocárdio e atropelamento são emergências; estado de dor, ferimento perfuro cortante sem hemorragias, podem ser feitas posteriormente, em curto prazo, sendo por isso apenas urgências. É importante frisar que em uma situação de urgência se não for realizado o suporte básico de vida, esta situação pode vir a se tornar uma emergência. A diferença entre emergência e urgência reside em dois pontos: 1] na primeira o aparecimento é súbito e imprevisto, na segunda não; 2] a primeira exige solução imediata; a segunda, em curto prazo, havendo apenas premência ou insistência de solução. Ambas têm em comum a periculosidade. REVENDO A LITERATURA Foram consultadas as bases de dados LILACS, SCIELO, BDENF com os descritores cuidar cotidiano, urgência e emergência e quilombola. Não foi encontrado nenhum artigo nessa busca. Quando utilizamos os descritores enfermagem, e urgência e emergência, encontramos 32 artigos; destes 20 atenderam aos critérios: artigos originais completos; em português; entre 2001 e 2011. A maioria dos estudos é de três (3) autores na modalidade pesquisa de campo, publicados em revistas de enfermagem. Predominam estudos com abordagem qualitativa; os sujeitos mais consultados são os profissionais enfermeiros; para a coleta de dados a técnica que predominou foi a entrevista; para a analise de dados, a técnica de análise de conteúdo foi a mais referida.Os resultados – evidências revelaram 02 eixos, a seguir destacados. A formação do enfermeiro para o atendimento pré-hospitalar. Evidenciou-se que os enfermeiros do APH se sentem seguros, preparados e motivados para atuar. Porém nenhum recebeu preparação específica durante a formação acadêmica, no entanto consideram a experiência anterior no âmbito intra-hospitalar como importante para o desenvolvimento da função. A falta de preparo nas universidades leva os enfermeiros a buscar compensar essa lacuna e complementar sua formação (ROMANZINI; BOCK, 2006). 38 Para Avelar e Paiva (2010), para ser Enfermeiro do SAMU o profissional deve além de gostar de trabalhar em urgência, estar sempre se aperfeiçoando, possuir experiência e habilidade técnica, boa vontade e interesse, demonstrar dedicação e compromisso; agilidade e objetividade na avaliação dos pacientes, e na realização de procedimentos, auto controle e adaptar-se as adversidades e aos diferentes locais de atendimento e com os colegas da equipe. Os procedimentos assistenciais de maior complexidade e a organização do cenário de cuidar constituem as principais atividades desenvolvidas pelos Enfermeiros em seu cotidiano de trabalho. Evidenciou-se que os conteúdos teóricos e as habilidades propostas pela Portaria 2.048 são temas básicos para a capacitação dos enfermeiros que atuam em APH. No Brasil, os cursos de especialização em emergência ou em APH ainda são recentes. Diferente dos enfermeiros americanos e franceses, o enfermeiro brasileiro vem se qualificando nessa área, por meio de cursos de especialização (lato sensu), atendendo as diretrizes do Ministério da Educação e do Conselho Federal de Enfermagem. A constatação da necessidade de desenvolver competências específicas e diferenciadas reforça a importância do planejamento de programas de capacitação e especialização direcionados aos enfermeiros que atuam em APH. As condições de trabalho da equipe de enfermagem no atendimento de emergência. Evidenciou-se de uma forma geral que os Enfermeiros consideram o ambiente, o processo de trabalho, assim como a estrutura organizacional das unidades de emergência são fatores estressantes que levam à insatisfação e esta consequentemente, pode gerar agravos à saúde mental e física do trabalhador, prejuízos no seu desempenho profissional e absenteísmo (CARVALHO; LOPES, 2006). Para Silveira et al (2009), os Enfermeiros avaliam os estressores no ambiente de trabalho de maneira semelhante, porém, buscam estratégias de enfrentamento através do lazer; meditação, cuidar de si, e da família; assim como estabelecer e manter o diálogo. A interferência dos estressores na assistência ao usuário esta a demanda. 39 Garlet et al (2009), nos revelam que a equipe de saúde tem insatisfação com a procura excessiva de pacientes, cujas necessidades não podem ser classificadas como urgência ou emergência, apontando o número de atendimentos como justificativa para a resistência em realizar o trabalho e o descompromisso com a produção do cuidado. Salomé et al (2009) resaltam que os profissionais de enfermagem vivenciam momentos de estresse, cansaço, esgotamento e frustração no seu cotidiano de trabalho devido a sobrecarga de trabalho, provocada pela falta de material, de profissionais. Ferrareze et al (2006) ressaltam a complexidade existente nas urgência e emergências, revelando a importância de se rever as questões que permeiam o relacionamento interpessoal da equipe de enfermagem nesse contexto, tendo em vista os problemas emergentes e as circunstâncias e peculiaridades que o ambiente ocasional aos seus profissionais; também evidenciam o nível de ansiedade e de tensão provocados, sobretudo, pela elevada responsabilidade que a enfermagem enfrenta em seu cotidiano profissional. 2.2 CUIDAR, CUIDADO E CUIDADO COTIDIANO EM SAÚDE. A palavra cuidar vem do latim “cogitare” e é igual a pensar, meditar, tratar de, zelar, o que se opõe ao descuido e ao descaso; representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro. É igual a pensado, previsto, aplicação do espírito a uma coisa, atenção zelosa, incumbência, responsabilidade (BOFF, 1999). Para Watson (2004), cuidar consiste em concentrar esforços transpessoais (além do pessoal) de um ser humano para outro, visando proteger, promover e preservar a humanidade. Ainda para a autora cuidar significa desvelo, solicitude, diligência, zelo, atenção e se concretiza no contexto da vida em sociedade. Para Neves (2002), o cuidar, independente do pouco ou nenhum valor a ele atribuído, continuará sendo essencial para a sobrevivência das espécies, promoção da vida e preservação do planeta. O processo de cuidar para Waldow (2004), é o desenvolvimento de ações/atitudes e comportamentos com base em conhecimentos científicos, experiências, intuição e pensamento crítico, realizado para e com o paciente e/ou 40 cliente; ser cuidado tem o sentido de promover, manter e/ ou recuperar a dignidade e a totalidade humana. Florence Nightingale foi pioneira em demonstrar os feitos do processo de cuidado na promoção da saúde das pessoas, ao cuidar de soldados na guerra da Criméia; em meio à escuridão nas tendas de atendimentos dos soldados feridos, tinha a preocupação com o meio em que estavam inseridos tanto os cuidadores como os soldados o que ampliou a perspectiva do processo de cuidado. Com o passar do tempo a fundamentação epistemológica do cuidar foi se constituindo (NEVES, 2002). Os cuidados manifestam-se na preservação do potencial saudável dos cidadãos e depende de uma concepção ética que contemple a vida como um bem valioso em si. Isso significa solidarizar-se, evocando relacionamentos compartilhados entre cidadãos em comunidade; dependendo das circunstâncias e da doutrina adotada se transmite uma noção de obrigação, dever e compromisso social (BOFF, 1999). Segundo Watson (1985) para cuidar é necessário aceitar a pessoa não somente como ela é, mas também como ela poderá vir a ser; um ambiente de cuidado é aquele que oferece o desenvolvimento do potencial humano (autorealização) e permite a liberdade de escolha; o cuidado possui maior capacidade de autogenia, quando comparado com a cura, ou seja, por ser autógeno, o cuidado gera cuidado; a prática do cuidado integra conhecimentos biofísicos com conhecimentos do comportamento humano para gerar e promover saúde para quem está doente; a prática do cuidado é o centro ou a essência da enfermagem. Não podemos pensar em modelos de cuidado sem fazer reflexões pessoais e coletivas, que passam pela compreensão do valor desse cuidado no contexto sócio-político e cultural em que se insere. Isso porque cada comunidade tem uma maneira própria e peculiar de cuidar de si e dos outros. Saber cuidar inclui o aprender e o fazer, ou seja, habilidades e atitudes frente a situações socioambientais; exige incorporar-se no trabalho coletivo, em práticas que exercitem a solidariedade em prol de um ambiente saudável (TEIXEIRA, 2008). Para Coelho (2000), cuidar e cuidado são sinônimos, mas distinguem-se ao passo que se completam; o cuidar é o processo que o enfermeiro desenvolve ainda no campo das ideias, ou seja, engloba todo o pensar acerca das ações mais 41 simples até as mais complexas destinadas ao atendimento do indivíduo e suas necessidades, levando em consideração a realidade das condições estruturais, ambientais e da equipe disponível. O cuidado representa a execução dessas ações por qualquer membro da equipe de enfermagem, configurando a assistência direta e imediata. Por isso, quando voltados à prática assistencial, deve-se abordar conjuntamente cuidar/cuidado. Para Silva et al (2008), cuidado provém do latim cogitatu: pensado,imaginado e meditado. A origem etimológica é cogitâtus: refletido. O cuidado também se refere a dedicação, cujo comportamento, aparência, formação moral e intelectual são primorosos (falando de pessoas); é também atenção especial, comportamento precavido, zelo, desvelo que se dedica a alguém ou algo. O cuidado nasce quando se conhece a essência de todas as coisas, quando se descobre os propósitos e finalidades da vida, quando o homem se compromete e assume a responsabilidade de zelar, atender e preocupar-se com o outro (BOFF, 1999). O cuidado manifesta-se, na preservação do potencial saudável dos cidadãos e depende de uma concepção ética que contemple a vida como um bem valioso em si. Por ser um conceito de amplo espectro, pode incorporar diversos significados. compartilhados Ora quer entre dizer cidadãos solidarizar-se, em evocando comunidades, ora, relacionamentos dependendo das circunstâncias e da doutrina adotada, transmite uma noção de obrigação, dever e compromisso social (SILVA et al ,2008). O cuidado significa desvelo, solicitude, diligência, zelo, atenção e se concretiza no contexto da vida em sociedade. Cuidar também implica colocar-se no lugar do outro, em situações diversas, quer na dimensão pessoal, quer na social. É um modo de estar com o outro, no que se refere a questões especiais da vida dos cidadãos e de suas relações sociais, dentre estas o nascimento, a promoção e a recuperação da saúde e a própria morte. Por cotidiano entendemos o espaço – território das práticas humanas realizadas pelos atores sociais no seu dia-a-dia, mas não se resuma à mecanicidade da rotina. Apesar de serem, na maioria das vezes, vistas como algo banal ou insignificante, as ações cotidianas compõem um campo extremamente frutífero para o desenvolvimento das relações sociais e, consequentemente, de estudos sobre a sociedade. Dentre as principais características do cotidiano, podemos apontar a 42 probabilidade, a espontaneidade, a sociabilidade, a polissemia e a heterogeneidade nas relações humanas (MEDEIROS, 2007). O foco no cotidiano se justifica por ser este o lócus onde as experiências, relações e práticas acontecem de modo dinâmico. Santos (2006), afirma que o cotidiano representa o aspecto de um lugar que é compartilhado entre pessoas, grupos e instituições, numa relação dialética de conflito e cooperação, que é à base da vida comum. Assim, estudar os atores e suas práticas no dia a dia é fundamental, pois localiza aspectos objetivos e subjetivos que constroem a vida institucional e social. Para Heller (1994), é na vida cotidiana que se produzem as relações sociais entre os homens. É através da cotidianidade que o indivíduo se insere na sociedade, reproduzindo as atividades e a cultura existentes. A cópia, a mimese, e a primeira forma que o homem tem de se relacionar e de aprender. É por meio dessa reprodução do indivíduo que acontece a reprodução social. Estar inserido na sociedade é organizar uma vida cotidiana capaz de conduzir a uma continuidade, em interação com os outros à sua volta e com o modo de produção da sociedade. Pinheiro (2006) corrobora essa assertiva, ao afirmar que a demanda dos serviços de saúde se constrói cotidianamente, fruto de uma inter-relação entre as normas e as práticas que orientam os diferentes atores envolvidos (indivíduos, profissionais e a instituição). Nas pesquisas desenvolvidas pela autora, o cotidiano é o lugar onde os elementos da demanda em saúde surgem da interação entre os sujeitos, e na sua relação com a oferta dos serviços, em face de um determinado projeto político institucional. É também no cotidiano que a sociedade encontra a oportunidade de se transformar e se reconstruir. Uma mudança que se inicia com pequenas alterações na vida de cada indivíduo, até alcançar o âmbito da coletividade. Para Morin (1992), há que se retornar ao conhecimento cotidiano, pois as ideias, os saberes, as crenças, as percepções e outras manifestações ricas de significados se dão e habitam no mundo da vida, partindo dele e a ele retornando de intensas relações. Para Teixeira (2001) o cuidar cotidiano de saúde constitue-se de uma dimensão cognitiva (OS SABERES), uma interativa (OS ENCONTROS) e uma conectiva (NATUEZA). Estas dimensões se desdobram em extensões do cuidar (cuidar do eu, do outro e da família, da casa e do lugar),demonstrando que o cuidar 43 cotidiano se operacionaliza em quatro (04) extensões. Tanto as multidimensões como as multiextensões, com base em redes que constroem e nós que impõem, são atravessadas, ao mesmo tempo em que dão origem a dois (02) ciclos (benefício – risco e cuidar – descuidar), apontando para uma complexidade do cuidar cotidiano de saúde, como representado no Diagrama. Diagrama 1: Cuidar cotidiano de saúde Dimensão Interativa (OS ENCONTROS) Cuidar do Eu Ciclo Cuidar do Outro Cuidar-Descuidar Ciclo Benefício-Risco Cuidar da Casa Cuidar do Lugar Dimensão Cognitiva (OS SABERES) Dimensão Conectiva (A NATUREZA) Fonte: Teixeira (2001) Os ciclos benefício – risco e cuidar – descuidar perpassam as dimensões e extensões, e estabelecem a dinâmica complexa e dialógica do cuidar cotidiano; e indicam-nos os desafios enfrentados pelos moradores no dia-a-dia, bem como aqueles a serem enfrentados pelas políticas públicas, com vistas ao alcance de uma qualidade de vida em sociedade. 44 2.3 LINHAS HISTÓRICAS: QUILOMBO, QUILOMBOLAS E POLITICAS PÚBLICAS. Os Quilombos representam uma das maiores expressões de luta organizada no Brasil, em resistência ao sistema colonial-escravista, atuando sobre questões estruturais, em diferentes momentos histórico-culturais do país, sob a inspiração, liderança e orientação político ideológica de africanos escravizados e de seus descendentes de africanos nascidos no Brasil. O processo de colonização e escravidão no Brasil durou mais de 300 anos. O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão, através de uma lei que atirou os ex-escravizados numa sociedade na qual estes não tinham condições mínimas de sobrevivência. Quilombo é um movimento amplo e permanente que se caracteriza pelas seguintes dimensões: vivência de povos africanos que se recusavam à submissão, à exploração, à violência do sistema colonial e do escravismo; formas associativas que se criavam em florestas de difícil acesso, com defesa e organização sócio- econômico política própria; sustentação da continuidade africana através de genuínos grupos de resistência política e cultural (NASCIMENTO, 1980, p.32) . As comunidades de quilombos se constituíram a partir de uma grande diversidade de processos, que incluem as fugas com ocupação de terras livres e geralmente isoladas, mas também as heranças, doações, recebimento de terras como pagamentos de serviços prestados ao Estado, simples permanências nas terras que ocupavam e cultivavam no interior de grandes propriedades, bem como a compra de terras, tanto durante a vigência do sistema escravocrata quanto após sua abolição (CPISP, 2009). Sabe-se que os quilombolas carregam consigo e ainda praticam os costumes de seus antepassados, entre esses costumes está à prática do uso das plantas medicinais como uma alternativa para as curas e tratamentos de suas enfermidades, assim como outros meios de tratamento (NASCIMENTO, 1980). Segundo Marin & Castro (2004), os quilombos não pertencem somente a nosso passado escravista. Tampouco se configuram como comunidades isoladas, no tempo e no espaço, sem qualquer participação em nossa estrutura social. Ao contrário, as mais de 2 mil comunidades quilombolas espalhadas pelo território brasileiro mantêm-se vivas e atuantes, lutando pelo direito de propriedade de suas terras consagrado pela constituição federal desde 1988.Para Schmitt (2002): 45 Quilombolas é designação comum aos escravos refugiados em quilombos, ou descendentes de escravos negros cujos antepassados no período da escravidão fugiram dos engenhos de cana-de-açúcar, fazendas e pequenas propriedades onde executavam diversos trabalhos braçais para formar pequenos vilarejos chamados de quilombos (p.4). Local isolado, formado por escravos negros fugidos. Esta talvez seja a primeira ideia que vem à mente quando se pensa em quilombo. Essa noção remetenos a um passado remoto de nossa História, ligado exclusivamente ao período no qual houve escravidão no País. Quilombo seria, pois, uma forma de se rebelar contra esse sistema e aonde os negros iriam se esconder e se isolar do restante da população. Consagrada pela “história oficial”, essa visão ainda permanece arraigada no senso comum. Por isso o espanto quando se fala sobre comunidades quilombolas presentes e atuantes nos dias de hoje, passados mais de cem anos do fim do sistema escravocrata (CPISP, 2009). A palavra "quilombo” tem origem nos termos "kilombo" (quimbundo) ou "ochilombo” (umbundo), e esta presente em outras línguas faladas ainda hoje por diversos povos Bantus que habitam a região de Angola, na África Ocidental. Originalmente, designava apenas um lugar de pouso utilizado por populações nômades ou em deslocamento; posteriormente passou a designar também as paragens e acampamentos das caravanas que faziam o comércio de cera, escravos e outros itens cobiçados pelos colonizadores.Foi no Brasil que o termo "quilombo" ganhou o sentido de comunidades autônomas de escravos fugitivos. Havia escravidão, porém, em alguns quilombos (MOURA, 2003). Um quilombo era um local de refúgio dos escravos no Brasil, em sua maioria afrodescendentes (negros e mestiços), havendo minorias indígenas e brancas.Tradicionalmente, os quilombos eram das regiões de grande concentração de escravos, afastados dos centros urbanos e em locais de difícil acesso. Embrenhados nas matas, selvas ou montanhas, esses núcleos se transformaram em aldeias, dedicando-se à economia de subsistência e às vezes ao comércio, alguns tendo mesmo prosperado(PENTEADO, 2004). Existem registros de quilombos em todas as regiões do país. Primeiramente um destaque especial ao estado de Alagoas, mais precisamente no interior na cidade de União dos Palmares, que até hoje concentra o principal e maior quilombo que já existiu: o quilombo dos Palmares. Segundo os registros existem 46 quilombos nos seguintes estados brasileiros: Pernambuco, Bahia, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Rio de Janeiro e São Paulo.Os seus habitantes,denominados de "quilombolas", eram originalmente agrupamentos de ex– escravos fugidos de seus senhores desde os primeiros tempos do período colonial. Em algumas épocas e locais, tentaram reproduzir a organização social africana, inclusive com a escolha de reis tribais (MARIN ; CASTRO, 2009). A palavra africana remonta aos séculos XVI e XVII. Para o historiador Joel Rufino dos Santos, o nome vem da África Ocidental, partindo do norte de Angola, próximo ao Rio Kuanga, onde portugueses e holandeses iniciam o tráfico negreiro. Os africanos capturados por outros africanos eram recolhidos a depósitos provisórios, prisões a céu aberto, ajuntamentos que foram chamados de quilombos. Transferido para o Brasil, o nome terá outro significado e outro contexto. Nas diversas nações e sociedades que se formaram no Novo Mundo as comunidades formadas por negros escravos, em sua maioria fugida do trabalho forçado e da ação das forças escravocratas, foram chamadas de quilombos, no Brasil; de palenques, na Colômbia e em Cuba; de cumbes, na Venezuela; de marrons no Haiti , Caribe; Jamaica e sul dos Estados Unidos, de cimarrones, em diversas partes da América Espanhola(REIS; GOMES, 1996). Para o rei de Portugal, em documento de 02 de dezembro de 1740, quilombo era “toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões neles” (SIQUEIRA; CARDOSO, 1995). As comunidades remanescentes de quilombos são detentoras de direitos culturais e históricos, assegurados pelos artigos 215 e 216 da Constituição Federal que tratam das questões relativas à preservação dos valores culturais da população negra, e elevam as terras dos remanescentes de quilombos à condição de Território Cultural Nacional. Organizadas para garantir seu direito imemorial à propriedade da terra, as comunidades remanescentes de quilombos são preservadoras do seu meio, respeitam o local onde vivem e reivindicam condições que permitam à sua comunidade a permanência em suas terras. Esta população sofre constantes ameaças de subtração e expropriação territorial dos mais diversificados inimigos que cobiçam seus territórios por vários motivos: pela fertilidade do solo, pela riqueza em recursos naturais, pela qualidade da madeira, da água, a riqueza do subsolo (MARIN; CASTRO, 1999). 47 Hoje, no Brasil, estudos realizados por diferentes profissionais educadores, sociólogos, antropólogos, historiadores e juristas buscam determinados critérios para denominar a luta quilombola: comunidades negras rurais, terras de pretos, remanescentes de comunidades de quilombos, hoje comunidades remanescentes de quilombos compreendendo: descendentes dos primeiros habitantes da terra; trabalhadores rurais que ali mantém sua residência habitual ou permaneçam emocionalmente vinculados. Os debates em torno destas designações ganham sentido, sobretudo, para efeito de medidas legais, jurídicas ou definição de direitos sociais, econômicos e políticos para os quilombolas e seus descendentes. Por exemplo, direito à legalização da terra, à moradia, à educação, à saúde, ao lazer (LINHARES, 2002). O Quilombo dos Palmares, se localizava em Alagoas (Serra da Barriga). Com a fuga em massa nessa época, em 1670, o quilombo abrigava mais de 50 mil escravos. Os quilombolas começaram a se organizar e se tornarem muito fortes nessa região, vistos como ameaça pela sociedade colonial. Já eram conhecidos a essa época, pois por toda essa estrutura e tamanho, já não tinham mais como ser ignorados. Houve expedições para destruir essa comunidade, porém os quilombolas resistiram. Um tratado foi criado entre o governo de Pernambuco e um dos principais líderes do Quilombo de Palmares, Ganga Zumba. Esse tratado levou o nome de “Acordo de Recife” que consistia no reconhecimento do governo à liberdade de todos os negros nascidos em Palmares. Mas nem todos estavam de acordo com Zumba, pois muitos quilombos consideravam traição ter qualquer tipo de pacto junto ao governo. Os opositores o envenenaram. De sua morte em diante, Palmares foi comandado por Zumbi que era resistente a qualquer tipo de negociação com a autoridade. Após inúmeros conflitos Zumbi foi morto e degolado por bandeirantes. Hoje, Zumbi é uma figura importante para a sociedade afro brasileira, que o considera como um grande herói e um valente que lutou pelos direitos do seu povo até a sua morte. Os escravos refugiados nos quilombos eram designados como quilombolas. Indignados com a sua situação e o tratamento fornecido a eles, às vezes tratado como animais pelos senhores de engenho, no período de escravidão, que consiste entre os séculos XVII e XVIII os negros se rebelavam e fugiam em bandos, ou, quando conseguiam, sozinhos, mas os escravos fugitivos formavam uma comunidade nomeada Quilombo. Local onde eles podiam divulgar e vivenciar 48 sua própria cultura sem repressão. Claro que por serem fugitivos buscavam montar essa comunidade em lugar bem distante e no meio da mata para não serem encontrados por seus ex-senhores. Na época do ciclo da cana-de-açúcar, após a invasão dos holandeses, muitas terras foram abandonadas, com isso uma grande parte de escravos buscaram os quilombos para estarem junto aos seus (MARIN; CASTRO, 2004). Para Caldeira (1998), os habitantes dos quilombos, chamados “quilombolas”, eram escravos fugidos de seus senhores desde as primeiras fases do período colonial. A maioria dos quilombolas sofria com a perseguição dos donos de terras, pois havia interesse em retomar um escravo fugitivo e puni-lo como exemplo para os demais. A história da escravidão no Pará foi marcada pela resistência de negros e índios que buscaram a sua liberdade por meio da fuga, da construção dos quilombos e da participação na Cabanagem. No século XXI, os descendentes dos quilombos prosseguem na trajetória de luta constante por seus direitos. O alvo principal agora é a titulação das suas terras duramente conquistadas. Desde 1998, o Pará conta com uma legislação que regulamenta o processo de titulação dessa categoria de terras. Inovadora, essa legislação garante o direito à auto-identificação das comunidades sem a necessidade do laudo antropológico - algo que o governo federal só veio a reconhecer em 2003. As mulheres e os homens quilombolas do Pará alcançaram diversas conquistas pioneiras, abrindo caminho para a consolidação dos direitos das comunidades quilombolas em todo o Brasil. Foi no Pará que aconteceu a primeira titulação de uma terra de quilombo no Brasil, em cumprimento ao artigo 68 do Ato das Disposições Transitórias da Constituição Federal. Em 20 de novembro de 1995, a comunidade quilombola de Boa Vista situada no município de Oriximiná, recebeu do INCRA o título de propriedade de seu território com 1.125 hectares. Essa titulação foi um marco que consolidou o entendimento de que o artigo 68 é auto-aplicável e que a regularização desta categoria de terras deve ser coletiva, respeitando a forma como os quilombolas concebem e ocupam os seus territórios. Em 2005, o Estado do Pará concentrava mais da metade (58%) da dimensão total de terras quilombolas tituladas do país. São 27 territórios, ocupados 49 por 79 comunidades (com cerca de 3.700 famílias), que somam 527.139 hectares. As conquistas dos quilombolas paraenses traduzem-se também em leis estaduais e programas de governo destinados especificamente a este setor da população. O reconhecimento de direitos específicos às comunidades quilombolas é algo relativamente recente no Brasil. Enquanto os direitos dos índios às suas terras são reconhecidos desde a época colonial e pelas sucessivas Constituições Brasileiras desde 1934, o direito dos remanescentes de quilombos foi reconhecido pela primeira vez no ano de 1988 quando da promulgação da atual Constituição que no artigo 68 das disposições transitórias determinou: “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras, é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes títulos respectivos”(BRASIL, 2007). A concretização do artigo 68 tem sido difícil. A primeira titulação de uma terra quilombola deu-se somente sete anos após a promulgação da Constituição, em novembro de 1995. Até outubro de 2010, somente 105 terras quilombolas foram tituladas (CPISP, 2012). A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, esta embasada nos princípios constitucionais de cidadania e dignidade da pessoa humana (BRASIL, 1988, ART. 1º, INC. II E III), do repúdio ao racismo (BRASIL, 1988, art. 4º, inc. VIII) e da igualdade (BRASIL, art. 5º, caput). É igualmente coerente com o objetivo fundamental da Republica Federativa do Brasil de “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (BRASIL, 2007). Esta política ainda reafirma os princípios do SUS, constantes da Lei nº 8,080, de 19 de setembro de 1990, tais como: a) a universalidade do acesso, compreendido como o “acesso garantido aos serviços de saúde para a população em todos os níveis de assistência, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie”; b) a integralidade da atenção, ”entendida como um conjunto articulado e contínuo de ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigido para cada caso, em todos os níveis de complexidade do sistema”; c) a igualdade da atenção à saúde; e d) descentralização político-administrativa, com direção única em cada esfera de governo (BRASIL, 1990). A política tem como objetivo geral promover a saúde integral da população negra, priorizando a redução da desigualdade étnico-raciais, o combate 50 ao racismo e à discriminação nas instituições e serviços do SUS; e como um dos objetivos específicos: garantir e ampliar o acesso da população negra residente em áreas urbanas, em particular nas regiões periféricas dos grandes centros, às ações e aos serviços de saúde; A lei nº 12.288 de 20 de julho de 2010 institui o Estatuto da Igualdade Racial, destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica. Vejamos partes de seu conteúdo: Parágrafo único. Para efeito deste Estatuto, considera-se: I - discriminação racial ou étnico-racial: toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício, em igualdade de condições, de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida pública ou privada; II - desigualdade racial: toda situação injustificada de diferenciação de acesso e fruição de bens, serviços e oportunidades, nas esferas pública e privada, em virtude de raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica; CAPÍTULO I. DO DIREITO À SAÚDE Art. 6o O direito à saúde da população negra será garantido pelo poder público mediante políticas universais, sociais e econômicas destinadas à redução do risco de doenças e de outros agravos. § 1o O acesso universal e igualitário ao Sistema Único de Saúde (SUS) para promoção, proteção e recuperação da saúde da população negra será de responsabilidade dos órgãos e instituições públicas federais, estaduais, distritais e municipais, da administração direta e indireta. § 2o O poder público garantirá que o segmento da população negra vinculado aos seguros privados de saúde seja tratado sem discriminação. Art. 7o O conjunto de ações de saúde voltadas à população negra constitui a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, organizada de acordo com as diretrizes abaixo especificadas (BRASIL, 2010). O Pará foi o primeiro governo a proceder a uma desapropriação para garantir a propriedade de uma comunidade quilombola, em 2002. O governo do Pará promulgou os Decretos 5.273, de 03/05/2002, e 5.382, de 12/07/2002, declarando de utilidade pública, para fins de desapropriação, imóveis rurais situados nas terras quilombolas Altos Trombetas e Itacuã- Miri, de forma a poder titular tais áreas em nome dos quilombolas. 51 Entre 1997 e 2003, o Instituto de Terras do Pará (ITERPA) regularizou 410.275,11 hectares de terra, o equivalente a 78% da dimensão total de terras quilombolas tituladas no Pará. No entanto, o governo do Pará não manteve o ritmo das titulações. Nenhuma terra de quilombo foi titulada entre 2004 e setembro de 2005. Em novembro de 2005, pelo menos 40 comunidades aguardavam pela conclusão de processos em curso no ITERPA. A demora na regularização tende a causar o acirramento dos conflitos envolvendo a disputa pelas terras de quilombo. Muitas comunidades vivenciam situações de tensões e conflitos com os ocupantes ilegais de suas terras. Preocupada com esta situação, a Malungu lançou em 2004 uma campanha para agilizar os processos. Embora o INCRA tenha titulado duas áreas no Estado, o ITERPA continuou paralisado. Assim, apesar das vitórias, a luta dos quilombolas paraenses está longe de acabar. Na Constituição Estadual, destaca-se o artigo 322 que afirma: Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras, é reconhecido a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes títulos respectivos no prazo de um ano, depois de promulgada esta Constituição (PARÁ, 1989.p.99). O termo “remanescente” serve para identificar populações que não podem ser confundidas com os quilombos históricos, e nem associadas por descendência somente. Grupos que passaram a contar com um reconhecimento oficial de identidade e cultura, mas também com consequências diretas para sua militância e principalmente para conflitos fundiários (CALHEIROS; STADTLER, 2010). O Decreto nº 261, de 22 de Novembro de 2011 Institui a Política Estadual para as Comunidades Remanescentes de Quilombos no Estado do Pará e dá outras providências. No seu artigo 2º estabelece: A Política Estadual para as comunidades Remanescentes de Quilombos tem por objetivo geral reconhecer, promover e proteger os direitos dessas comunidades assegurando-lhes melhoria da qualidade de vida, respeito as suas identidades, instituições e formas de organização, garantindo a participação de seus representantes nas decisões. 52 Todos esses dispositivos legais, a nosso ver, demonstram que existe uma política voltada para as populações quilombolas, no que se refere aos direitos que concebe o sistema único de saúde no que se refere à universalidade. 53 3 CUIDAR COTIDIANO DE SAÚDE EM SITUAÇÕES DE URGÊNCIA EMERGÊNCA Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 E 54 3.1. QUEM SÃO E DE ONDE FALAM OS SUJEITOS DO ESTUDO Quanto ao perfil pessoal dos sujeitos do estudo constatamos que grande parte encontra-se na faixa etária de 30 a 39 anos, são do gênero feminino, referem a cor negra, vivem em união estável , tem o 1º grau incompleto e são produtores rurais. Destaca-se que a maioria dos sujeitos são mulheres (18 dentre 20 sujeitos) e por serem tradicionalmente as cuidadoras da saúde da família foram indicadas para falar sobre o tema. Sobre esse aspecto destacam-se algumas afirmações-constatações de diferentes estudos. Segundo Neves e Cabral (2008), o contexto da família, está socioculturalmente determinado, e a mulher é a provedora dos cuidados às crianças, idosos e doentes. Nesse contexto, a mulher assume o papel de cuidadora principal, dedicando-se integralmente ao cuidado. Os legados (da tradição, dedicação, abnegação, solidariedade feminina, aliados culturalmente para meninas as à educação obrigação da família, e moral) socialização que contribuíram são para familiar e transmitidos que elas internalizassem a função de cuidadora principal da família. Já o legado da dedicação, implica numa exclusividade da mulher para o desenvolvimento do papel de cuidadora de crianças, em particular daquelas com necessidades especiais de saúde. Esses legados reforçam que o papel da mulher para cuidar é uma construção social ideologicamente determinada, o que se constitui em uma obrigação moral. Nesse sentido, para as mulheres é delegada a responsabilidade do cuidado de toda a família, como uma obrigação moral socioculturalmente construída. Segundo Gonçalves et al (2006), na maioria dos países, observa-se que ao longo da história o cuidado é exercido por mulheres. Também em nosso meio as cuidadoras no contexto familiar, são principalmente, as esposas, as filhas e as netas. Tal fato pode ser explicado pela tradição de no passado recente as mulheres não desempenharem funções fora de casa, justificando sua maior disponibilidade para o cuidado da família. Contudo, essa realidade vem sendo modificada em função da inserção social da mulher participando progressivamente no mercado de trabalho. Os estudos em nosso meio apontam que, geralmente, as cuidadoras residem com o idoso, são casadas e, por isso, somam às suas atividades de cuidar as atividades domésticas próprias de mãe, esposa e avó, gerando um acúmulo de trabalho em casa e uma sobrecarga nos diversos domínios da vida da cuidadora, como: social, 55 físico, emocional, espiritual, enfim, contribuindo para o autodescuido da própria saúde. No Quadro 1, apresento os dados pessoais (idade, gênero, cor, estado civil, escolaridade e ocupação) dos sujeitos do estudo. Quadro 1 – Perfil dos Sujeitos IDADE GÊNERO COR ESTADO CIVIL ESCOLARIDADE OCUPAÇÃO 58 M NEGRA SOLTEIRO 1º GRAU INCOMPLETO AGRICULTOR 37 F NEGRA VIUVA 1º GRAU INCOMPLETO TRABALHADORA RURAL 37 F NEGRA VIUVA 1º GRAU COMPLETO TRABALHADORA RURAL 43 F NEGRA CASADA 1º GRAU INCOMPLETO AGRICULTORA RURAL NEGRA UNIÃO ESTÁVEL 2º GRAU COMPLETO TRABALHADORA RURAL NEGRA UNIÃO ESTÁVEL 3º GRAU COMPLETO AGENTE DE PORTARIA NEGRA UNIÃO ESTÁVEL 1º GRAU COMPLETO TRABALHADORA RURAL 1º GRAU COMPLETO BABÁ 25 33 30 F F F 28 F NEGRA UNIÃO ESTÁVEL 50 F NEGRA UNIÃO ESTÁVEL 1º GRAU INCOMPLETO MANIPULADORA DE ALIMENTOS 17 F NEGRA UNIÃO ESTÁVEL 1º GRAU INCOMPLETO ESTUDANTE 32 F NEGRA UNIÃO ESTÁVEL 3º GRAU INCOMPLETO PROFESSORA 46 F NEGRA UNIÃO ESTÁVEL ANALFABETO PRODUTORA RURAL 42 F PARDA UNIÃO ESTÁVEL 1º GRAU COMPLETO DO LAR 37 F NEGRA UNIÃO ESTÁVEL ANALFABETO AGRICULTORA RURAL 39 F NEGRA SOLTEIRA 3º GRAU COMPLETO SECRETARIA ESCOLA 33 F NEGRA UNIÃO ESTÁVEL 3º GRAU INCOMPLETO PRODUTORA RURAL 34 F NEGRA UNIÃO ESTÁVEL 1º GRAU COMPLETO PRODUTORA RURAL 1º GRAU INCOMPLETO PRODUTORA RURAL 1º GRAU INCOMPLETO PRODUTOR RURAL 1º GRAU INCOMPLETO PRODUTORA RURAL SOLTEIRA 47 F NEGRA CASADO 65 51 M F NEGRA NEGRA UNIÃO ESTÁVEL 56 Sobre o perfil familiar constatamos que a maioria divide seu espaço domiciliar com oito (08) membros, entre esposo (a), filhos, mãe, irmãos e sobrinhos. Tal constatação vai ao encontro dos dados nacionais e regionais, pois segundo o PNAD (2009) o número médio de pessoas por família residente em domicílio particular foi de 3,1 pessoas, o mesmo registrado em 2008. Regionalmente, o menor valor deste indicador foi observado na Região Sul (2,9). A Região Norte, apresentou as maiores médias: 3,4, em 2009, e, 3,5, em 2008. A família, segundo Moreira (2007), não é apenas uma instituição de origem biológica, mas, sobretudo, um organismo com nítidos caracteres culturais e sociais. Nas palavras de Hironaka (1999, p. 7), “[...] é uma entidade histórica, ancestral como a historia, interligada com os rumos e desvios da historia ela mesma, mutável na exata medida em que mudam as estruturas e a arquitetura da própria historia através dos tempos [...]; a historia da família se confunde com a historia da humanidade”. Tratase, em verdade, da celula mater da sociedade, do seu núcleo inicial, básico e regular. É um microssistema social, onde os valores de uma época são reproduzidos de modo a garantir a adequada formação do individuo. A Lei Maria da Penha, ao estatuir, no seu art. 5o, II, que a família deve ser “[...] compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa” acabou se tornando a primeira norma infraconstitucional a reconhecer categoricamente o conceito moderno de família. Dessa forma, pode-se afirmar que a presente norma consagra, pela primeira vez, no âmbito infraconstitucional, a ideia que a família não é constituída por imposição da lei, mas sim por vontade dos seus próprios membros. No Quadro 2, apresento o perfil familiar dos sujeitos do estudo destacando o número de membros por casa-domicÍlio e grau de parentesco com o sujeito – informante. 57 Quadro 2 – Perfil Familiar dos Sujeitos Nº MEMBROS GRAU DE PARENTESCO 3 1 ESPOSA 1 FILHO 5 3 FILHOS 4 1 ESPOSO 2 FILHOS 8 1 ESPOSO 3 FILHOS 1 PAI 7 1 ESPOSO 3 FILHOS 1 MAE 1 IRMÃO 1 SOBRINHO 7 1 ESPOSO 5 FILHOS 4 1 ESPOSA 8 1 ESPOSO 3 FILHOS 1 MÃE 1 IRMAO 1 SOBRINHO 5 1 ESPOSO 1 FILHO 2 1 ESPOSO 5 1 ESPOSO 2 FILHOS 1 IRMÃO 1 SOBRINHO 5 1 ESPOSO 3 FILHOS 5 1 ESPOSO 3 FILHOS 8 1 ESPOSO 7 FILHOS 6 2 FILHOS 7 1 ESPOSO 3 FILHOS 1 NETA 1 GENRO 4 1 ESPOSO 2 FILHOS 8 3 FILHOS 2 1 ESPOSA 7 1 ESPOSO 3 FILHOS 2 NETOS 1 IRMÃO 1 NETA 1 IRMÃ 1 NETO 1 GENRO 2 FILHOS 1 PAI 2 IRMAOS 1 NETO 1 MAE 1TIO 1 SOBRINHO COM 3 FILHAS No quadro 3, trago o perfil domiciliar dos sujeitos, com ênfase no tipo de moradia,número de cômodos, destino do lixo,origem da água,tipo de fossa e tipos de animais domésticos. 58 Quadro 3 – Perfil Domiciliar dos Sujeitos TIPO COMODOS LIXO AGUA FOSSA ANIMAIS MADEIRA 4 QUEIMADO POÇO NEGRA GALINHAS/PATOS ALVENARIA 5 BURACO ARTESIANO NEGRA GATO/ CACHORRO ALVENARIA 5 QUEIMADO ARTESIANO NEGRA PAPAGAIO ALVENARIA 6 BURACO POÇO NEGRA TUCANO PAU A PIQUE 2 ENTERRA POÇO NEGRA CACHORRO/GAL MADEIRA 3 QUEIMADO POÇO SÉPTICA GATO ALVENARIA 3 CEU ABERTO POÇO NEGRA CACHORRO/GALINHA PAU A PIQUE 1 CEU ABERTO POÇO NEGRA CACHORRO/GALINHA MADEIRA 5 QUEIMADO CAÇIMBA NEGRA CACHORRO/GALINHA MADEIRA 1 QUEIMADO POÇO NEGRA CACHORRO/GALINHA ALVENARIA 5 BURACO ARTESIANO SÉPTICA PORCO, BURRO,PASSARINHO MADEIRA 2 BURACO/QUEIMA POÇO NEGRA CACHORRO ALVENARIA 5 QUEIMADO BOCA ABERTA NEGRA CACHORRO MADEIRA 5 BURACO /QUEIMA POÇO NEGRA CACHORRO/GALINHA MADEIRA 5 BURACO/QUEIMA POÇO SÉPTICA CACHORRO/GALINHA/GATO ALVENARIA 5 QUEIMA / ENTERRA POÇO ARTESIANO NEGRA CACHORRO/GALINHA MADEIRA 4 QUEIMADO POÇO NÃO RESPONDEU NÃO RESPONDEU 5 QUEIMA/ENTERRA POÇO NEGRA CACHORRO/GATO/GALINHA 4 BURACO POÇO ARTESIANO NEGRA CACHORRO/ GATO 4 QUEIMA/ ADUBA POÇO NEGRA CACHORRO/ GALINHA ALVENARIA MADEIRA PAU A PIQUE MADEIRA Evidenciamos que a maioria das famílias tem como tipo de moradia as casas de madeira, com 08 cômodos, com o telhado de telhas de barro e brasilit; o abastecimento de água é encanado com origem em poço aberto com bomba “sapo”. O destino do lixo no período chuvoso são os buracos e no verão são queimados; o destino dos dejetos é em fossa negra e a céu aberto. Essa realidade é um tanto diferente dos dados nacionais, segundo a PNAD apenas 11,4% dos domicílios do 59 país queimam o lixo na sua propriedade; a participação dos domicílios atendidos pelo serviço de rede coletora ou por fossa séptica ligada à rede coletora foi de 59,1% (PNAD, 2009). Carvinatto (2003) refere que a etapa de captação de água é aquela realizada para coletar de modo adequado as águas naturais; nos bairros ou regiões não atendidos pelos serviços públicos de abastecimento, cada residência é responsável pelo seu próprio suprimento de água, e uma alternativa bastante utilizada é a abertura de poços domésticos, mas é necessário que sua construção seja feita de forma adequada, assim como para o destino dos detritos. Ainda para essa autora sobre a escavação de fossas secas, que é bastante comum no Brasil são construídas geralmente no quintal, servindo como sanitário. Na maioria das cidades brasileiras, o lixo das casas, das indústrias e dos hospitais simplesmente é jogado no solo, sem nenhuma cobertura, formando depósitos a céu aberto também conhecido como lixões. Essa não é uma maneira correta de se dispor o lixo e pode gerar problemas ambientais e de saúde pública O ser humano, ao mesmo tempo em que interfere no ambiente, gerando detritos que podem disseminar doenças, possui condições de evitar que isso ocorra, empregando medidas de saneamento (CARVINATTO 2003). Por isso Investir em saneamento é a única forma de se reverter o quadro existente. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde afirmam que para cada R$1,00 (hum real) investido no setor de saneamento, economiza-se R$ 4,00 (quatro reais) na área de medicina curativa (BRASIL, 2009). Sobre o acesso à comunidade destaca-se que é necessário percorrer uma estrada de chão batido, com atoleiros e igarapé, com uma paisagem muito bonita; infelizmente há lixo jogado a céu aberto, covões e de vez em quando ocorrem desabamentos de barrancos. A área é rodeada de árvores frutíferas e vegetações diversas, com clima quente e rajadas de ventos frequentes; no período noturno tem baixa de temperatura. As terras, o clima e a vegetação são aspectos geográficos representativos da região amazônica. Na região o clima é equatorial, quente e úmido, com temperatura variando pouco durante o ano. As chuvas são abundantes, nos meses de janeiro a abril. As casas são em sua maioria de madeira. Estão distribuídas em microrregiões, em torno de uma família, cobertas com telhas de barro ou brasilit; 60 com sua área externa rodeadas de arvores frutíferas. A comunidade vive do plantio de mandioca; macaxeira; maxixe e jerimum nas roças de inverno e pelas culturas perenes e semiperenes (cupuaçu, abacaba, açaí, pupunha, uxi,acerola e maracujá). Os agricultores de Abacatal produzem para o seu consumo. A produção excedente assim como farinha, farinha de tapioca, goma, tucupi e algumas frutas, destina-se para venda na feira Livre de Ananindeua; em raros casos, é vendida dentro dos seus sítios. Sobre a área – local onde vive a comunidade, optei descrevê-la por meio de uma narrativa imagética. O uso da fotografia é capaz de preservar o dado e convergir para o leitor uma informação cultural a respeito do grupo estudado. A linguagem fotográfica constitui-se um meio eficiente de registrar e difundir imagens e está condicionada pelo nível de informação, capacidade de olhar e habilidade técnica de quem a utiliza (ACHUTTI, 1970). Para este autor os antropólogos Mead e Bateson (1967), deixaram a ideia que as fotografias, antes de serem cópias da realidade, são “textos”, afirmações e interpretações sobre o real. Para uma imagem alcançar eficácia simbólica, não basta que seja vista, ela tem que ser interpretada por um sujeito que compartilhe dos códigos simbólicos carregados de imagem. A seguir faço narrativa imagética da comunidade quilombola Abacatal. A apresentação das imagens segue o percurso do cotidiano, da entrada até os diferentes lugares em que estive junto com a comunidade.As fotografias foram obtidas por meio de uma máquina fotográfica da própria autora. Fotografia 5: Estrada de acesso a comunidade no verão Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal 2011 61 Fotografia 6: Estrada de acesso a comunidade no inverno Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal Fotografia 7: Estrada de acesso a Portaria da Comunidade Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 8: Casa de alvenaria Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 62 Fotografia 9: Casa de Madeira Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 10: Casa de alvenaria sem reboco Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 11: Casa de Pau a Pique Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 63 Fotografia 12: Crianças brincando no quintal Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 13: conversando e identificando sua cultura Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 14: Brincando com Caroço de tucumã Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 64 Fotografia 15: Moradores descascando a mandioca Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2012 Fotografia 16: Interior da Casa da Farinha Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2012 Fotografia 17: Fazendo a Farinha Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2012 65 Fotografia 18: Peneirando e torrando a mandioca Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2012 Fotografia 19: Fervendo o Tucupi Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2012 Fotografia 20: Peneirando a Farinha Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2012 66 Fotografia 21: Área Roçada e plantada Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2012 Fotografia 22: Cuidando da Roça Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2012 Fotografia 23: Colheita de mandioca Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2012 67 Fotografia 24: Missa do Círio do Sagrado Coração de Jesus Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 25: O início da Procissão Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 26: Acompanhando a procissão Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 68 Fotografia 27: A procissão Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 28: O barracão do Sagrado Coração de Jesus Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 29: O leilão na festa do Sagrado Coração de Jesus Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 69 Fotografia 30: Caminhada dos jovens Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 31: Parada no igarapé num dia de sol Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 32: Fixação da cruz Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 70 Fotografia 33: Um dos meios de transporte Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 34: A bicicleta como instrumento na Pesquisa Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 35: Cuidando das crianças Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 71 Fotografia 36: Cuidando da família Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 37: Cuidando do alimento Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 Fotografia 38: O cuidado cotidiano doméstico Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal – 2011 72 Sobre a localização da comunidade no município de Ananindeua, verificamos que a área está circunscrita na área rural (número 23), dentre as áreas de serviços do município de Ananindeua (Figura 3). Figura 3: Áreas de serviços do município de Ananindeua Fonte: http: // pt.wikipedia.org/wiki/ananindeua Esta área recebe cobertura de uma Unidade de Saúde da Família (USF- Aurá) que faz parte do Polo Sanitário I, localizada na Rodovia BR 316, Estrada do Aurá s/n. Esta USF tem duas Equipes de Saúde da Família (ESF Jardim Japonês e ESF Aurá). A ESF que dá cobertura à comunidade quilombola Abacatal é 73 a ESF Jardim Japonês. Segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimento de Saúde ,a equipe é composta: 1 enfermeira, 1 médico,1 cirurgião dentista,1 auxiliar de enfermagem, 1 auxiliar em saúde bucal e 5 agentes comunitários de saúde. Segundo a Enfermeira da Unidade de Saúde da Família do Aurá 1, as visitas são realizadas 1 vez ao mês; nestas visitas à comunidade realiza-se: vacinação, visita nos domicílios, orientações quanto a higiene e saneamento, agendamento de consultas. Segundo depoimento da Enfermeira, no 1º semestre do ano não são realizadas porque a estrada fica “muito ruim”, e só entra carro de tração; como o carro da unidade não tem essa característica, as visitas só são realizadas no 2º semestre do ano, uma vez ao mês, de agosto a dezembro. Sobre as condições de saúde-doença da comunidade, a Enfermeira da USF referiu que a ”comunidade não manifesta tantos agravos a saúde”; nas crianças são mais recorrentes as doenças prevalentes da infância como; insuficiência respiratória, verminoses e quadros de diarréia; nos adultos é recorrente os diabéticos e hipertensos; no momento não há nenhum caso de tuberculose e hanseníase. Sobre as situações de urgência e emergência que ocorrem na comunidade, a Enfermeira relatou que quando acontece alguma urgência a comunidade não recorre á USF Aurá; vão direto para o hospital, a ESF não tem estrutura para atender casos de urgência e emergência, o que mais chega na unidade é febre alta e crise asmática; outros casos mais graves de urgência não chegam; só se sabe depois pela agente comunitária de saúde. A Enfermeira referiu ocorrer com mais frequência: picada de cobra, queda de árvores com fraturas. 3.2. AS SITUAÇÕES DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA 3.2.1. As situações de urgência e emergência que demandam cuidados. As situações de urgência e emergência foram reveladas pelos sujeitos e registradas a partir de dois temas indutores. O primeiro trata das situações mais frequentes com os sujeitos e/ou com a família. Obtivemos 38 tipos de situações (alguns sujeitos mencionaram mais de uma situação), assim distribuídas e apresentadas na Figura 1: __________________________________________________________________ 1 Dados obtidos na USF após contato verbal com a Enfermeira 74 Sinais e Sintomas 8% 8% 38% 8% Acidente com Arma Branca,laborais e causa externa Quedas com fraturas Afecções Neurohematológicas 17% Afecções Cardiovasculares 21% Acidente Ofídico Figura 4- Tipos de situações de urgência e emergência com os sujeitos e/ou família,comunidade quilombola, 2012 As situações mais frequentes e que mais se destacaram foram os sinais e sintomas com 38% (dor, febre, diárreia, vômito, sangramento, tontura, hemorragia, edema); tais sinais e sintomas fazem com que os sujeitos busquem atendimento e caracterizam situações de urgência clínica. Segundo Bergeron e Bizjak (1999) esse atendimento é realizado a indivíduo com sinais e sintomas de agravamento de determinada patologia colocando em risco a sua vida, ou seja, podem se encontrarem em estado crítico ou semi-crítico. Os acidentes com arma branca, laborais e por causas externas(21%) são situações decorrentes de atividades na roça e por violência urbana. As demais situações são ocorrências clínicas, provenientes de doenças crônicas degerativas, urgências traumatológicas e acidente ofídico. As 38 situações envolveram, além do sujeito ( 05 ): Marido (04 ), esposa (01), filhos (12), pais (05), netos (02) sobrinhos (06), irmã (02), tios (02). Predominam, com maior frequencia, situações envolvendo os filhos e sobrinhos. O segundo termo indutor trata das situações mais frequentes com vizinhos e amigos, o que esta apresentado no gráfico 2. 75 4 4 3 2 1 Trauma Fechado Contuso Clinicas Trauma Aberto por Arma Branca Não souberam responder Picada de Cobra Figura 5 – Tipos de situações de urgência e emergência com vizinhos amigos,comunidade abacatal,2011 Foram obtidos 14 tipos de situações. As mais frequentes foram os traumas contusos(04) e urgências clinicas com (04).Segundo Coimbra et al (1998), trauma, é toda e qualquer agressão ao corpo provocado por um agente causador se constituindo em uma solução ou não de continuidade, podendo atingir diversas estruturas.Considerando as respostas dos sujeitos sobre as situações de urgência e emergência mais frequêntes na comunidadde obtivemos o seguinte resultado (Gráfico 3). 12 10 10 8 6 6 4 3 3 2 2 2 Fratura Gripe 0 Picada de Cobra F.A.B. Queda de Arvore Diarréia Figura 6 – Situações mais frequentes de urgência e emergência na comunidade abacatal,2011 76 Emergiram 10 casos de picada de cobra, seguidos de 6 casos de ferimentos por arma branca (FAB), que são cortes provocados por terçado, machado, enxada e foice, utilizados na roça sem o uso de proteção. Acidente ofídico ou ofidismo é aquele causado por serpentes peçonhentas ou não peçonhentas.As serpentes peçonhentas são todas as que possuem glândula de veneno e aparelho inoculador (presas); por exemplo: surucucu,jararaca, cascavel e coral; enquanto as não peçonhentas não possuem veneno e nem o aparelho inoculador (presa); por exemplo: jiboia, sucuri. O ofidismo atualmente é um problema de saúde pública, em virtude do grande número de pessoas acidentadas no Brasil. A região Norte contribui com 9,36% dos casos brasileiros (LEÃO, 1997). 3.2.2. Os cuidados prestados nas situações de urgência e emergência Os cuidados prestados pelos sujeitos nas situações de urgência e emergência envolvendo-os diretamente e/ou família, vizinhos e amigos, foram assim distribuídos ( Grafico 4). 23% 40% Cuidam realizando procedimentos e encaminhamentos Só realizam encaminhamentos 37% cuidam realizando procedimentos na própria comunidade Figura 7: Os modos de cuidar dos sujeitos na comunidade abacatal, 2011 Verificamos entre os sujeitos que há 17 sujeitos que tanto cuidaram com procedimentos como encaminharam para fora da comunidade (40%); e 16 que só encaminham para fora da comunidade (37%) e 10 que só cuidaram com 77 procedimentos realizados na própria comunidade.a maioria realizou dois modos de cuidado(na comunidade e fora da comunidade). Nestas seções 3.2.1 e 3.2.2, a nosso ver, foi atingido o primeiro objetivo de identificar os tipos de situações de urgência e emergência mais frequêntes na comunidade. Considerando que o cuidado cotidiano foi analisado com base nas três dimensões de Teixeira (2001), passamos a tratar desse aspecto na próxima seção. 3.2.3 As dimensões do cuidar cotidiano em situações de urgência e emergência DIMENSÃO INTERATIVA A Dimensão Interativa do cuidado cotidiano de saúde (TEIXEIRA, 2001), se constitui no entrelaçamento das vias institucionais e locais com os agentes profissionais e populares. Caracteriza-se pelos ENCONTROS E DESENCONTROS (com ou sem negociações) em que se vivenciam, no cotidiano, as situações de urgência e emergência. Tais encontros – desencontros formam os itinerários terapêuticos da comunidade. Nesta dimensão emergiram da análise do conteúdo das respostas dos sujeitos três idéias-chave, representadas no Diagrama 1. As três indicam os meios utilizados para os encontros do cuidar-cuidado, os sujeitos que são os “atores sociais” nesses encontros e os lugares que são a “porta de entrada” dos sujeitos após se envolverem numa situação de urgência e emergência. As unidades de registro que deram origem a dimensão estão no quadro 4 (Apêndice C). 78 Diagrama 2 - Os encontros em situações de urgência e emergência Segundo Kleinman (1980), os itinerários terapêuticos são os cuidados à saúde adotados por cada indivíduo, sendo construído através das relações interpessoais. As escolhas são influenciadas por três setores representados pela família, setor de maior poder na determinação do itinerário terapêutico; pelos profissionais, não reconhecidos legalmente, mas que se apresentam nas crenças sociais dos indivíduos com os mesmos valores culturais e pelos profissionais da área da saúde, que geralmente tem um poder menor de influência na determinação dos cuidados à saúde, por ainda priorizarem o aspecto biológico. Constatamos no que se refere aos dispositivos – meios que os moradores da comunidade utilizam o telefone, carro particular ou alugado, carro da polícia, moto, bicicleta, ônibus, e ainda vão a pé em busca de atendimento. 79 Quanto aos sujeitos, verificamos que em sua maioria, quando existe alguma situação de urgência e emergência, procuram ajuda da esposa, mãe, sogra, amigo, irmã, amigos, avô, filha e membros da associação, para o primeiro atendimento ou ajuda na busca desse cuidar cotidiano fora de seus limites geográficos. As unidades “porta de entrada” dos sujeitos nas situações de urgência e emergência são de diferentes municípios. O Hospital do pronto Socorro Municipal da 14 localiza-se em Belém: as unidades do Centro de Saúde do Aurá,Hospital de clínica Hospital Anita Gerosa , Pronto Socorro da Cidade Nova e Hospital Modelo no município de Ananindeua; a Unidade de Urgência e Emergência no município de Marituba. Isso significa que os moradores (as) desenvolvem na comunidade as primeiras ações de cuidar, e buscam o cuidar profissional fora de seus limites geográficos. Os moradores quando decidem buscar cuidado, utilizam diferentes meios de transporte, da bicicleta até caminhadas de 8 kilometros; tais percursos podem possibilitar o aparecimento de complicações, pois alguns meios de transporte são inadequados; os itinerários são percorridos por meio de alianças interpessoais com a família, amigos e conhecidos; como revelam as falas a seguir: QC 09 QC 27 [...o primeiro passo foi ligar para 192 né....como não veio o 192, ai eu tenho uma irmã que mora em Ananindeua, aí liguei pra ela e ela trouxe o carro, a gente conseguiu levar ele para o pronto socorro da 14, a gente levou ele numa Kombi...] [...bom, primeiro aconteceu com o meu marido ele estava bebendo num bar com o pessoal lá no bar, íi furaram ele, foi a noite não tinha como levar, eu liguei para a minha mãe e veio o carro da polícia ...] 80 QC 10 [ ... como os meus filhos, alguns sofrem de alergia, ai já fui parar na emergência também com minha filha menor com alergia, só que saímos daqui de madrugada ela toda inchada, toda vermelha direto para a emergência de bicicleta...] QC 03 [ ...mandei chamar a mãe dele, porque estava sozinha em casa, e sempre que acontecia essas coisas eu pedia ajuda dela, pelo fato de ser uma idosa...] [... passou um amigo de moto e perguntou se a gente queria um taxi. Levei para a emergência de Marituba e de lá foi transferido para o pronto socorro da 14... ] Consideramos importante destacar que em situações de urgência e emergência, o atendimento deve ser realizado na primeira hora, denominada de ”HORA OURO”; logo após a ocorrência, evidenciando-se a importância do atendimento no local do evento, com intervenções básicas para a manutenção da vida, com transporte seguro para o atendimento intra-hospitalar nas unidades de referência. Segundo Cavalcante (2011), quanto à garantia de acessibilidade que envolve as grandes distâncias geográficas na Amazônia Paraense, esta é uma barreira que dificulta e/ou impossibilita os quilombolas de terem acesso a muitos serviços de saúde. A literatura que trata de acesso à saúde indica que as distintas características do sistema e da população podem determinar a possibilidade de ingressar no mesmo ou não, mas a prova do acesso em si não consiste na disponibilidade dos serviços e recursos, mas sim no fato de que os serviços sejam utilizados por quem os necessite. Segundo Cavalcante (2011) não há uma política nacional de acesso e acessibilidade aos serviços de saúde e sim uma política de oferta de serviços, pois não há uma preocupação dos gestores em garantir condições de acesso e oportunidade de acessibilidade, não agregando características multidimensionais que possibilitem a utilização da atenção básica até 81 os cuidados recebidos em qualquer nível de complexidade da atenção a saúde. Dessa forma, amplia-se a vulnerabilidade social e atinge-se diretamente a saúde coletiva e individual não permitindo avançar na concretização da Política Nacional de Saúde Integral a População Negra. A nosso ver, a dimensão interativa possibilitou-nos constatar que em sua grande maioria os moradores da comunidade quilombola de Abacatal não dispõem de mecanismos de acesso e acessibilidade ao sistema de atenção à saúde. As ofertas de serviços de atenção às urgências e emergências se concentram nas sedes dos municípios, ficando a uma distância considerável, assim, ficam expostos aos riscos de morte e iatrogenias por falta de atendimento imediato de qualidade segundo a Política Nacional de Atenção as Urgências. Quanto ao itinerário terapêutico especificamente, destaca-se que há um movimento articulado entre situações – sujeitos – meios – serviços. Mais uma vez os atores locais (família principalmente) se destacam. Cabe então refletir sobre a centralidade da família na política pública – Estratégia Saúde da Família (ESF). Segundo Chase (2010), a família como foco da atenção é um dos atributos da Atenção Primária em Saúde, sendo necessário conhecê-la em sua dinâmica e assistí-la em suas necessidades individuais e de grupo em interação. Reconhece-se o contexto familiar como o espaço primeiro de identificação e explicação do adoecimento de seus membros e onde este adoecimento adquire maior relevância. Tais características tornam a família uma unidade de cuidados, devendo ser compreendida pelos profissionais de saúde em suas interrelações, ao mesmo tempo em que é uma unidade prestadora de cuidados, podendo tornar-se uma parceira dos serviços de saúde no cuidado de seus membros. A Estratégia Saúde da Família tem como proposta estabelecer esta parceria com a família tornando-a mais autônoma, mais independente, contribuindo assim para a construção de sua cidadania. Ainda segundo Chase (2010), a família é um espaço de cuidados naturalmente reconhecido podendo ser confirmado pelas responsabilidades que lhe são atribuídas para com os seus membros. É na família que se dá os primeiros cuidados permitindo que o indivíduo não só desenvolva o corpo biológico, mas também sua inserção social; a família é um espaço de cuidados, de transmissão da cultura, e de socialização. Para que a família desenvolva suas atribuições algumas de suas funções são assumidas junto com o Estado, a exemplo da proposta da ESF; 82 a família passa a ser o principal objeto da atenção em saúde reconhecida suas potencialidades, isto é: a família é um grupo social que compartilha responsabilidades, um espaço de construção de relações entre seus membros e com a sociedade, e um espaço que articula estratégias para a sobrevivência de seus membros e de si mesma. Diante de tudo isso a Estratégia Saúde da Família é tida como uma possibilidade de mudança do modelo assistencial vigente, nela a família passa a ser o foco da atenção em substituição ao modelo que privilegia o foco sobre o indivíduo dividido em órgãos, descontextualizado de seu ambiente familiar e social. Se houver um investimento cuidativo – educativo com as famílias, poderemos garantir “primeiros socorros” de melhor qualidade, até o acesso ao sistema oficial de saúde. Assim, emerge dessa dimensão, um indicativo para ações – intervenções informativas – educativas, para fortalecer os itinerários terapêuticos locais no Abacatal. Segundo Carvalho (2001), a educação em saúde torna-se uma “construção compartilhada de conhecimentos”. Ela parte da experiência e práticas dos sujeitos envolvidos buscando “intervenção nas relações sociais que vão influenciar a qualidade de suas vidas” e que, consequentemente, vão reproduzir outras representações. Para Soares et al (2010) a educação em saúde é um campo multifacetado, para o qual convergem diversas concepções, das áreas da educação, quanto da saúde, as quais espelham diferentes compreensões de mundo, demarcadas por distintas posições político-fiosóficas sobre o homem e a sociedade. Muitas vezes, a educação em saúde ainda é entendida como transmissão de conhecimento acerca de conteúdos predefinidos pelos profissionais da área da saúde, modelo que, por vezes, não atende satisfatoriamente as necessidades de aprendizagem do público. Isso ocorre porque, para educar alguém, é preciso ir ao encontro dos interesses do educando, oferecendo conteúdos e práticas que sejam em consonância com suas atividades. Somente dessa forma é que as ferramentas oferecidas pela ação educativa poderão servir para a realidade dos sujeitos envolvidos na ação. Para Sabóia (2003), na prática educativa em saúde esse poder disciplinador também pode ser evidenciado. A ordem para o atendimento, os critérios de inclusão e/ou exclusão do cliente nos grupos, os nomes utilizados que rotulam os clientes com essa ou aquela doença, o fornecimento de medicações 83 específicas apenas para os que frequentam “as palestras” a distância entre os valores dos profissionais e da clientela, a utilização de material didático e do conteúdo (às vezes inadequado) e até a linguagem são estratégias do poder disciplinador. Para Mendonça (1982) a educação em saúde é uma prática social, devendo ser centrada na problematização do cotidiano, na valorização da experiência de indivíduos e grupos sociais e na leitura das diferentes realidades. Vista como prática social, a educação em saúde passou a ser repensada como um processo capaz de desenvolver a reflexão e a consciência crítica das pessoas sobre as causas de seus problemas de saúde, enfatizando o desencadeamento de um processo baseado no diálogo, de modo que se passe a trabalhar com as pessoas e não mais para as pessoas. Esse diálogo assume o pressuposto de que todos possuem potencial para serem protagonistas de sua própria história, de que estão motivados para se organizarem e de que possuem expectativas sobre as possibilidades de mudança. Para Brandão (2002), como uma prática social, a educação em saúde traz implícita uma visão cultural, que consiste em valores, crenças e visões de mundo, situados em um tempo e espaço delimitado. Ela se define a partir da maneira como as pessoas vivem e entendem a vida e com negociações cotidianas, nas quais cada um torna a vida social possível. Assim, tudo aquilo que é chamado de educação e de saúde acontece também no âmbito da cultura. Se a cultura é algo que se reproduz, sob determinadas condições, a educação e a saúde também estão relacionadas a essas condições e são determinadas pelo modelo econômico, político, social e cultural de um país. Segundo Caldeiras (1997), muitos são os princípios e os conceitos que fundamentam a prática da educação em saúde e da promoção em saúde. Sem cair em armadilhas reducionistas, a educação em saúde (não confundir com informação em saúde) procura desencadear mudanças de comportamento individual, enquanto a promoção em saúde, muito embora inclua sempre a educação em saúde, visa a provocar mudanças de comportamento organizacional, capazes de beneficiar a saúde de camadas mais amplas da população, particularmente, porém não exclusivamente, por meio da legislação. Com base nessas posições, acreditamos que as interações reveladas pelos sujeitos do cuidar – cuidado apontam que a família é central nessas in 84 terações e há de ser o centro-núcleo do agir das ESF, com ênfase em práticas educativas “inclusivas” e dialogais sobre as situações de Urgência e Emergência. Mas para além das interações, cabe dar valor, no cotidiano, à dimensão cognitiva, do que tratamos a seguir. DIMENSÃO COGNITIVA A dimensão cognitiva do cuidado de saúde (TEIXEIRA, 2001), se organiza em torno dos SABERES – CONHECIMENTOS (DESCONHECIMENTOS) dos moradores sobre o cuidar. Segundo Piaget (1974), o conhecimento não está no sujeito – organismo, tampouco no objeto – meio, mas é decorrente das contínuas interações entre os dois. Para o autor, a inteligência é relacionada com a aquisição de conhecimento à medida que sua função é estruturar as interações sujeito- objeto. Assim, para o autor, todo pensamento se origina na ação, e para se conhecer a gênese das operações intelectuais é imprescindível a observação da experiência do sujeito com o objeto. Para o autor conhecer tem sentido claro: organizar, estruturar e explicar, porém, a partir do vivido (experienciado). Conhecer não é simplesmente contemplar, imaginar ou representar o objeto; conhecer exige uma ação sobre o objeto para transformá-lo e para descobrir as leis que regem suas transformações. Conhecer é compreender, é distinguir as relações necessárias das contingentes; levando em conta não só o atual e explícito como o passado, o possível e o implícito. Nesta dimensão emergiram a partir da análise dos conteúdos das interlocuções dos sujeitos duas idéias- chave, representadas no Diagrama 2. As duas indicam o conhecimento sobre o cuidar paliativo e o desconhecimento do cuidar avaliativo em situações de urgência e emergência nas primeiras horas após o ocorrido. As unidades de registro que deram origem a dimensão estão no Apêndice C. 85 Diagrama 3 - Saberes – conhecimentos (desconhecimentos) no cuidar em situações de urgência e emergência Cuidado Cotidiano Conhecimentos sobre o cuidar-cuidado Paliativo das ações nas primeiras horas após o ocorrido São passados de geração a geração (Transmissão Intergeracionais) Desconhecimentos sobre o cuidar-cuidado Avaliativo dos riscos nas primeiras horas após o ocorrido Expõem os indivíduos à riscos de iatrogenias e morte O cuidar-cuidado avaliativo significa o ato de avaliar a gravidade do trauma e a instituição de manobras para manutenção básica da vida, no local do evento, que podem representar a oportunidade de sobrevida para as vítimas de trauma até a sua chegada ao hospital. Segundo Silva (2009), os riscos á situações de urgência e emergência são eventos adversos relacionados ao processo de cuidar; é necessário que se reconheçam quais são os riscos aos quais o paciente está exposto, por meio da avaliação de risco. São chamados eventos adversos em saúde “as injúrias não intencionais decorrentes da atenção à saúde não relacionada à evolução natural da doença de base, que ocasionam lesões nos pacientes acometidos, prolongamento do tempo de internação e/ou morte”. O risco expressa uma probabilidade de possíveis danos que podem ser entendidos como lesões às pessoas, danos aos equipamentos, às instalações, ao meio ambiente, perda de material em processo, ou redução da capacidade de produção. 86 Segundo Galdino e Nunes (2000), latrogenia é a ocorrência de uma alteração indesejável, de natureza prejudicial ou danosa, desencadeada por omissão ou ação inadvertida ou falha, voluntária ou involuntária praticada por quem assiste, mais importante do que apontar quais são, já que podem ser inúmeras, seria identificar em que circunstância podem ocorrer Desconhecer o que fazer nas primeiras horas após ocorrer uma situação de urgência e emergência é extremamente perigoso, expondo os sujeitos à risco de complicações até mesmo podendo levar a óbito quando os cuidados não são adequados aos indivíduos. A nosso ver, essa dimensão revelou que os moradores da comunidade quilombola de Abacatal desconhecem princípios avaliativos para o atendimento em situações de urgência e emergência, como se revela nas falas a seguir: QC 10 “[... a princípio eu tenho que saber a definição de urgência e emergência né?...] Nos casos referidos a asma e a q-boa? Olha a prioridade QC 65 pra mim... é como eu venho fazendo, né, dando remédio caseiro. É a minha prioridade ainda! Apesar de a pediatra me alertar que não é o melhor a se fazer, né ! QC 15 [...meu neto se queimou,na hora molharam ele e passaram uma pomada,eu passaria banha de galinha com uma pena...] Mais uma vez revela-se a importância de um trabalho cuidativo-educativo com as famílias sobre “primeiros socorros”, mas ainda é pouco, a nosso ver. O depoimento a seguir ilustra o que estamos debatendo. 87 [...olha nós já tivemos algumas palestras só que daqui de dentro as pessoas mais antigas nunca tiveram. É, mas cada família se reserva, o antigo vai passando os ensinamentos QC 10 pra sua geração mais de fora; a gente já teve palestra sobre doença sexualmente transmissível, sobre quedas, sobre o veneno de cobras, sobre diarreia, vômito, infecção intestinal, urinária, sobre doenças femininas de mulheres...] O cuidar-cuidado paliativo é oriundo de transmissão intergeracional, Segundo Lisboa, Féres-Carneiro, Jablonski (2007), compreende a travessia de uma geração à seguinte de legados, rituais e tradições, a qual pode ser consciente ou inconsciente. Como uma modalidade da transmissão psíquica, a transmissão intergeracional compreende a possibilidade de uma geração transformar uma herança psíquica ou cultural, muitas vezes patológica. A transmissão intergeracional permite continuar a identidade de uma família através de um legado estruturante de rituais e mitos, por exemplo. O processo de transmissão é importante para o universo grupal, porque é uma função de base na construção de uma identidade, assim como permeia a construção da subjetividade dos membros do grupo. Num grupo familiar, o sentido da transmissão ganha estatuto de travessia de uma história particular, de acontecimentos circunscritos nessa história e dos laços estabelecidos de uma pessoa para outra ou de uma geração para outra (CORREA, 2000). Com base nessas posições, acreditamos que os conhecimentos paliativos revelados pelos sujeitos do cuidar-cuidado indicam e reforçam a importância da família e das ações cuidativas-educativas. Essa dimensão será ampliada ao destacarmos as relações e conexões com a natureza, do que tratamos a seguir. DIMENSÃO CONECTIVA A terceira e última dimensão do cuidado cotidiano de saúde (TEIXEIRA, 2001), é a conectiva. Caracteriza-se mediante as sub-dimensões: a) conexão 88 HOMEM-VEGETAL (plantas e outros dispositivos usados no cuidar-cuidado); b) conexão HOMEM-ANIMAL (os animais ou partes deles utilizados no cuidar-cuidado); c) conexão HOMEM-MINERAL (destacando-se a relação com o solo-água-minerais). Na Amazônia, o uso dos recursos naturais no cuidar-cuidado da saúde é tão antigo quanto a sua história. Segundo Alvin (1999), recursos naturais são elementos da natureza com utilidade para o homem, com o objetivo do desenvolvimento da civilização, sobrevivência e conforto da sociedade em geral. Podem ser renováveis, como a energia do sol e do vento. Já a água, o solo e as árvores que estão sendo considerados limitados, são chamados de potencialmente renováveis. Há ainda os não renováveis, como o petróleo e minérios em geral. Os recurso naturais são componentes, materiais ou não, da paisagem geográfica, mas que ainda não tenham sofrido importantes transformações pelo trabalho humano e cuja própria gênese é independente do homem, mas aos quais lhes foram atribuídos, historicamente, valores econômicos, sociais e culturais. Portanto, só podem ser compreendidos a partir da relação homem-natureza. Os recursos naturais são muito importantes para o mundo humano e também para o cuidar-cuidado da saúde. Atualmente, as mudanças econômicas, políticas e sociais que eclodiram pelo mundo afora, influenciaram não só a saúde das pessoas como também os modelos de cuidado. O uso terapêutico de recursos naturais no cuidado humano, que antes estava situado às margens das instituições de saúde, hoje tenta legitimarse nesse meio dominado pelas práticas alopáticas. Nesse contexto, se percebe uma necessidade constante de se construir métodos alternativos para o ato de cuidar, para que a prática possa ser desenvolvida mediante outras formas de tratamentos não convencionais como é o caso da utilização de plantas medicinais. Portanto, acredita-se que esta prática possa contribuir significativamente não só para o resgate e preservação da diversidade cultural, mas, principalmente, para dar maior autonomia ao usuário no que diz respeito ao seu próprio cuidado (ALVIM et al, 2004). Nesta dimensão emergiram a partir da análise dos conteúdos das interlocuções dos sujeitos duas das três conexões: conexão HOMEM-VEGETAL e conexão HOMEM-ANIMAL, representadas no Diagrama 4. 89 Diagrama 4 – As conexões com a natureza no cuidado cotidiano em situações de urgência e emergência. Situações de urgência e emergência CONEXÃO HOMEM – VEGETAL CASCA DE CAJU DIARREIA E VOMITO CONEXÃO HOMEM - ANIMAL FEU DE PACA PICADA DE COBRA INSUMO DO PALMITO ESTANCAR O SANGUE BANHA DE GALINHA MASSAGEM CHA DE PARIRI ANEMIA BANHA DE JIBOIA TRAUMAS E DOR ANADOR PLANTA DOR MEL,LIMÃO,GENGI- ASMA MUSCULAR BRE, ALHO E ANDIROBA No que se refere a conexão HOMEM-VEGETAL, destaca-se que segundo Rosa et al (2007),apesar da utilização das plantas medicinais já fazerem parte da cultura popular, nas últimas décadas o interesse pela fitoterapia teve um aumento considerável entre usuários, pesquisadores e serviços de saúde. Na Declaração de Alma-Ata, em 1978,a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que 80% da população dos países em desenvolvimento utilizam práticas tradicionais nos seus cuidados básicos de saúde e 85% usam plantas ou preparações destas. Desde então, a OMS tem expressado a sua posição a respeito da necessidade de valorizar a utilização de plantas medicinais no âmbito sanitário e na atenção básica à saúde. 90 No Brasil, a temática foi levantada em diversas oportunidades, como em 1986, na 8ª Conferência Nacional de Saúde, quando foi recomendada a introdução das práticas tradicionais de cura popular no atendimento público de saúde. Nesta conexão identificamos que os moradores da comunidade quilombola de Abacatal utilizam recursos naturais para o cuidar-cuidado nas situações de urgência e emergência utilizando meios alternativos como estratégia, os remédios caseiros (chás, lambedores, folhas e flores de plantas, óleos e partes de animais). No que se refere a conexão HOMEM-ANIMAL, Silva (2008) afirma sobre o uso de partes de animais em situação de saúde-doença, que os animais também têm importância na cura de doenças físicas, as quais são associadas às causas naturais (biológicas) e não-físicas (espirituais), de ordem sobrenatural ou cosmológica. As doenças naturais são curadas por meio da medicina ocidental (médicos, enfermeiros etc.) ou por meio de receitas fitoterápicas, sendo comum a inclusão de partes de animais. Nesta conexão constatamos que os moradores da comunidade quilombola de Abacatal utilizam parte dos animais para cuidar em situações de urgência e emergência assim como para tratar doenças. Neste sentido infere-se que os sujeitos tem um conhecimento prático, de senso comum, baseado na experiência de vida e de atuação, que gera concepções e diagnósticos sobre os problemas encontrados, ao mesmo tempo em que orienta e propõe intervenções mais eficazes na realidade. Portanto, o resgate destas experiências, através da análise do conjunto de conhecimentos, pode trazer luz sobre vários problemas encontrados no desenvolvimento do SUS(NAGA;QUEIROZ, 2011). Constatamos no que se refere às conexões com a natureza entre os moradores da comunidade, em situações de urgência e emergência, que utilizam como meios alternativos, lançando mão prioritariamente dos remédios caseiros como se revela nas falas a seguir: QC 12 Asma [...primeiro eu dou o remédio caseiro. Mel,limão, gengibre e alho e as vezes o azeite... o azeite de andiroba...ela regride, mas quando não acaba eu corro pro pronto socorro] 91 QC 10 Diarreia e vômito [..A gente chama o mais velho pra saber o que fazer em casa, procuro o posto médico que fica no Aurá, e...geralmente não faz efeito rápido..ai agente utiliza remédios caseiros”chá travoso da casca do caju com goiaba que limpa o intestino; chá de pariri e anador de planta..] Nos cortes lavar bem com sabão; insumo do palmito(estancar o sangue)e arvores travosas (insumo de caju ; ouriço de castanha ; o limão que ajuda a lavar o ferimento) Picada de cobra utiliza o feu de paca. Espera uns dias, se surgi efeito não procura o médico QC 06 Picada de cobra [...Dei um colherzinha de feu de paca, que dizem que é bom para o veneno não subir, e depois levamos para o hospital...] QC 09 Pancada no joelho. [...Fizemos massagem com banha e dei remédio (diclofenaco) e no outro dia que foi para o médico...] Estes recursos são utilizados porque são de fácil obtenção e baixo custo e também por não disporem a curtas distancias de acesso e acessibilidade ao sistema de atenção à saúde. As ofertas de serviços de atenção às urgências e emergências se concentram nas sedes dos municípios, ficando a uma distância considerável, assim, ficam expostos aos riscos de morte e iatrogenias por falta de atendimento imediato de qualidade segundo a Política Nacional de Atenção as Urgências (BRASIL, 2003). 92 Essa dimensão conectiva reforçou como as duas anteriores, a relevância de uma intervenção cuidativo-educativa com as famílias sobre situações de urgência e emergência. Nesta seção 3.3.3 a nosso ver, foi atingido o segundo objetivo específico do estudo: “caracterizar as dimensões do cuidado cotidiano em situações de urgência e emergência”. 93 4 CONSIDERAÇÕES TRANSITÓRIAS Fonte: Comunidade Quilombola Abacatal 94 Muitas foram as reflexões realizadas ao longo desse estudo. Entre questionamentos, dor, alegrias, perplexidades, ao conviver por quase 2 anos com as famílias da comunidade quilombola de Abacatal,algumas idéias se tornaram elucidativas para mim, a partir das questões iniciais suscitadas e desenvolvidas ao longo dos capítulos. Muito mais, do que buscar explicações dos fatos, compartilhei idéias, que ao longo do trabalho de campo foram me possibilitando pensar sobre a realidade de vida das famílias da comunidade Quilombola de Abacatal. A história de vida das famílias e suas lutas no decorrer de décadas para obter o direito constitucional de ter suas terras e condições de saúde muito me chamaram atenção, pois a complexidade do viver e sobreviver frente a dificuldades lhes impõe permanentemente inúmeros deslocamentos e estratégias diversas, como transformar o que foi plantado, cultivado e colhido em recursos financeiros é buscar o que lhe é direito, como o acesso e acessibilidade aos serviços de saúde, que lhes serão negado frente as condições precárias das estradas de acesso, permitindo muitas vezes que apenas de bicicleta ou mesmo a pé obtenham atendimento de saúde. Esse universo de desafios – limites possibilita às famílias recriarem e inventarem uma cultura própria, para sobreviver. Ao traduzir o universo de suas práticas em situações limite entre viver e morrer pude compreender essa realidade e constatar, os elos explicativos sobre cuidar cotidiano em situações de urgência e emergência nesse contexto. Os objetivos propostos para este estudo foram alcançados e reforçaram a tese de que conhecimentos, atitudes e práticas adequadas constituem elementos importantes para a intervenção preventiva e o atendimento às situações de urgência e emergência vivenciadas pelos moradores adultos da comunidade. Existem dificuldades no acesso aos serviços de saúde por conta das condições ruins das estradas, a distância e os meios de transportes deficientes, evidenciando-se com isso complicações e riscos por demora ou falta de atendimento imediato. Isso nos faz afirmar que a maioria dos moradores da comunidade não dispõem de mecanismos de acesso e acessibilidade a rede de atenção à saúde. Há um movimento por parte dos moradores, e o itinerário terapêutico se dá entre situações – meios – serviços, com destaque para a família e mais especificamente as mães-mulheres da família, o que reforça a importância destas no trabalho educativo-cuidativo. 95 O nível de conhecimento e atitudes desses moradores em relação aos cuidados em situações de urgência e emergência evidenciam claramente a existência de lacunas em relação ao cuidado avaliativo e ao conceito de riscos e iatrogenias que podem existir durante a primeira hora ,conhecida como “HORA OURO” , bem como inconsistências sobre percepção do risco, vulnerabilidade e outros fatores que contribuem para o agravo à saúde quando não há um atendimento adequado nestes casos na comunidade. Conclui-se que os cuidados cotidianos em situações de urgência e emergência não são suficientes, pois são mais paliativos que avaliativos. Assim é necessário criar espaços de discussão e reflexão na academia e na comunidade, de modo a debater sobre as crenças e concepções, que ainda fazem parte do imaginário social desses segmentos sobre os cuidados em situações de urgência e emergência. Há que se criar e desenvolver mecanismos de inclusão dos saberes populares nas novas gerações, e dessa forma manter a tradição passada de geração para geração. Na Universidade do Estado do Pará há que se desenvolver projetos de extensão, no intuito de aproximar a comunidade acadêmica das comunidades quilombolas e realizar práticas educativas em saúde; dessa forma, pode-se proporcionar experiências inovadoras aos futuros enfermeiros para que venham compreender sua história, lutas e cultura. Há que se desenvolver ações de promoção a saúde, com intervenção cuidativo-educativa com as famílias sobre situações de urgência e emergência. Penso que é necessário o cumprimento pleno das políticas públicas de atenção as urgências, assim como das políticas de saúde das populações tradicionais; há que se buscar mecanismos que possibilitem aos quilombolas ou remanescentes de escravos, o acesso e a acessibilidade ao sistema de atenção à saúde, com maior envolvimento das equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF), no intento de legitimar as práticas populares de saúde, juntamente com o Sistema Único de Saúde no Estado do Pará. 96 REFERENCIAS ACHUTTI, Luiz Eduardo Robinson. Fotoetnografia: um estudo de antropologia visual sobre cotidiano, lixo e trabalho. Porto Alegre. Tomo; Palmarinca, 1997. ALVIM, Neide Aparecida Titonelli. Práticas e saberes das enfermeiras sobre o uso de plantas medicinais na vida das enfermeiras: uma construção em espiral. 1999. 164 f. Tese. (Doutorado em Enfermagem) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Enfermagem Anna Nery, Rio de Janeiro, 2004. 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Mestrado Associado em Enfermagem UEPA / UFAM, tendo como orientadora a Profª Drª Elizabeth Teixeira. Esta pesquisa tem como objetivo: Descrever os cuidados cotidianos em situações de Urgência e Emergência dos moradores de uma Comunidade Quilombola da Amazônia Paraense. Esclarecemos que o Sr (a) será informante da pesquisa participando de uma entrevista semi-estruturada com perguntas direcionadas ao objetivo proposto. Para o registro das informações coletadas serão utilizadas anotações diretas e um gravador de voz; assim como o uso de imagens. Após a obtenção dos dados, os mesmos serão organizados para análise. O resultado final da pesquisa será apresentado na UEPA e demais eventos científicos e/ou publicado. Será assegurado aos participantes total sigilo sobre sua identidade e para não identificá-los serão utilizados pseudônimos. A sua participação nesta pesquisa não acarretará nenhum prejuízo de ordem física ou moral. Vale ressaltar que sua participação poderá ser interrompida a qualquer momento e também poderá desautorizar a pesquisadora de fazer uso de suas informações. O benefício advindo da execução e análise deste projeto perpassa pela possível contribuição para melhoria das ações desenvolvidas pelos profissionais da área de saúde e mais especificamente, para os enfermeiros, que saberão como lidar em situações descritas na pesquisa, e assim, poder prestar uma melhor assistência. Vera Lúcia Gomes de Oliveira (91) 8128-1183 / 8848-4819 CONSENTIMENTO LIVRE ESCLARECIDO Eu ______________________________________ declaro que li as informações sobre a pesquisa e que me sinto perfeitamente esclarecido (a) sobre o conteúdo da mesma. Declaro ainda que, por minha livre vontade, aceito participar cooperando com a coleta de informações para a mesma. Belém, ___/___/___ ____________________________________ Assinatura do sujeito da pesquisa * Comitê de Ética em Pesquisa da EEMB - Av. José Bonifácio, Nº. 1298 – Guamá – Belém/PA – Fone: (091) 3229-1131 / 3249-0236 105 APÊNDICE B Universidade do Estado do Pará Centro de Ciências Biológicas e da Saúde Escola de Enfermagem”Magalhães Barata” Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Mestrado Associado em Enfermagem UEPA / UFAM ROTEIRO DE ENTREVISTA Parte 1 – Dados sócio-demográficos a) Do Informante: Idade:____________ Sexo: ( ) Masculino ( Cor: ( ) Branca ( Estado Civil:( ) Feminino ) Negra ( ) Solteiro ( ) Parda ( ) Casado ( ) Amarelo ) Viúvo ( ) Escolaridade: ( ) Analfabeto ( ) Desconhecida ( ) 1º Grau Incompleto ( ) 1º Grau Completo ( ) 2º Grau Incompleto ( ) 2º Grau Completo ( ) 3º Grau Incompleto ( ) 3º Grau Completo Ocupação: _______________________________ b) Da Família Quantos membros residem na casa? ________________________ Grau de Parentesco. ( ) Esposa; ( Irmãos ( ) Outros: ___________ ) Filho; ( ) Pai; ( ) Mãe; ( ) c) Da Casa Tipo de Moradia: ( ) Madeira; ( ) Alvenaria; ( ) Pau a pique; Nº de Cômodos: ___________ Destino do Lixo:___________________________________ Origem da água? ( Qual:_____________ ) Poço; ( ) Encanada; ( ) Outra. 106 Destino do esgoto: fossa séptica ( ) Animais domésticos. ( Quais____________ fossa negra ( ) ) Cachorro; ( ) Gato; ( ) Outros. Parte 2 – Questões Específicas – Temas Indutores a) Tipos de situações de Urgência e Emergência mais frequentes na / com sua família que mora com o Sr/Sra: características das situações,sujeitos envolvidos, cuidados prestados (as mais frequentes e/ou as mais recentes (nesse ano) e/ou mais graves segundo o Sr./Sra). b) Tipos de situações de Urgência e Emergência mais freqüentes na / com seus vizinhos / amigos / parentes que moram na mesma casa: características das situações,sujeitos envolvidos, cuidados prestados (as mais frequentes e/ou as mais recentes (nesse ano) e/ou mais graves segundo o Sr./Sra). c) Ao se prestar um cuidado em situações de Urgência e Emergência: o que é prioritário, essencial, muito importante de se fazer nesses casos? O que se usa normalmente (materiais, objetos, recursos etc aqui no Abacatal? O que faz depois dos primeiros cuidados, se leva para algum lugar (onde), se chama alguém (quem), o que acontece aqui no Abacatal? d) Que tipo de situação de Urgência e Emergência é mais frequente na comunidade: razões e porquês? e) Ações preventivas às situações de Urgência e Emergência: o que pode prevenir, ações para se evitar, se fazem essas ações aqui no Abacatal: razões e porquês? f) Outros aspectos? 107 APÊNDICE C QUADRO 1 – SITUAÇÕES DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA MAIS FREQUENTE NA /COM A FAMÍLIA DO SUJEITO DO ESTUDO QC SITUAÇÃO ENVOLVENDO A FAMÍLIA 01 [...sou diabético e minha perna ficou inchada...] [...meu neto quebrou o braço...] 03 [...dor na barriga e febre (Marido) [...minha tia tem diabetes, quando passa Mal começa se bater, bate nas pessoas...] 06 [...meu filho foi picado por cobra...] [...mãe diabética...] 09 [...deu derrame no meu pai...] 10 [...diarreia e vomito nos filhos...] [...esposo e sobrinho cortes de terçado e machado...] [...mãe com ferrada de cabas...] [...sobrinho com picada de cobra...] 11 [...sangramento pelo nariz na minha filha...] [...queda com quebra do braço no meu Filho...] [...irmã com febre e pressão alta...] [...sobrinho quebrou o braço em 2 partes...] 12 [...asma dos filhos...] [...caiu Q-boa nos olhos da minha irmã...] 13 [...tive hemorragia vaginal...] [...fraturas no braço dos meus filhos..] [...sobrinho com dor abdominal por crise de apendicite...] [...pai diabético...] 15 [...foi meu neto que sofreu queimadura..] 16 [...corte no dedo com terçado do marido, com perda do dedo...] 25 [...tive uma dor de cabeça e tonteira...] 27 [...ferimento com arma branca no abdome e corte na perna com moto serra no meu marido...] 33 [...filha com vômito e diarréia...] [...filha menor quebrou as 2 canas do braço...] [...tia Izabel que adoece muito...] 37 [...fui picada por uma cobra...] 44 [...minha filha com dor de cabeça e vômito...] 53 [...queda da minha mãe andando pelo terreno...] 108 58 [...minha sobrinha tem problema de anemia profunda...] [...uma sobrinha sofreu acidente de moto que cortou a perna...] 63 [...eu atirei no bandido e ele morreu...]; [....minha mulher teve problema de coração, se operou...] 64 [...minha filha que deu dor para ter nenê...] [...meu filho com dor de ouvido, cabeça e dente...] 65 [...eu mesma tive queimadura com tucupi fervendo nas pernas...] [...meu filho com dor de crise de apendicite...] 109 QUADRO 2 – CUIDADOS PRESTADOS ÀS SITUAÇÕES DE URGENCIA E EMERGENCIA NA /COM A FAMÍLIA QC CUIDADOS PRESTADOS 01 [...fui com minha esposa para o hospital e passei 10 dias internado...] [...tive que andar com ele 2 horas da madrugada pra urgência e emergência de marituba...] 03 [...Chamei a mãe dele que conhece remédios e chás de ervas do mato e levamos para a emergência de marituba...] [...a gente passa álcool nela, passa arruda, chama um taxi, leva para a emergência...] 06 [...dei um colherzinha de feu de paca, que dizem que é bom para o veneno não subir, e depois levamos para o hospital...] [...vou lá 2 a 3 vezes na semana para fazer remédio caseiro, ela não gosta muito de médico, só de remédio caseiro...] 09 [...eu e minha irmã levamos para o pronto socorro da 14...] 10 [...a gente chama o mais velho pra saber o q fazer em casa, procuro o posto médico que fica no Aurá, e...geralmente não faz efeito rápido..ai agente utiliza remédios caseiros”chá travoso da casca do caju com goiaba que limpa o intestino; chá de pariri e anador de planta...] [...os cortes e as ferradas de cabas a gente cuida mais em casa,como nos casos de ferrada de cobra com fel de paca...] 11 [...botei algodão no nariz para tentar estancar o sangue; imobilizar e levar p emergência...] [...não foi feito nada, nem imobilizaram, porque como quebrou em duas partes ficou difícil de mover e ele chorava muito...só depois levamos para o hospital...] [...demos remédio caseiro e depois levamos para a emergência...] 12 [.. primeiro eu dou o remédio caseiro. Mel, limão, gengibre e alho e as vezes o azeite... o azeite de andiroba...ela regride, mas quando não acaba eu corro pro pronto socorro] [...lavamos com água e sabão...] 13 [...comprimido pra cólica e compressa com água morna...] [... imobilizar com fralda e levar para emergência...] [...levar para a emergência...] [... fazer o controle...] 15 [...na hora molharam ele e passamos uma pomada, para depois levar na emergência...].. eu passaria banha de galinha com uma pena...] 16 [...amarrei o dedo que tinha muito sangue e levei pra emergência. Ele perdeu o 110 dedo...] 25 [...minha mãe fez chá de erva cidreira, não melhorou, ai fez um caribé colocou no pano e na minha fonte e eu melhorei...] 27 [...amarramos e levamos para o pronto socorro...] 33 [..usei o marupazinho...] [...coloquei uma fralda no braço e levamos imediatamente para o médico no pronto socorro...] [...eu levo logo para o médico, antes eu uso muito remédio caseiro...] 37 [...nenhum cuidado, na hora não tinha nada, não tem médico, sem transporte. Pela manhã do outro dia que fui levada para o hospital já com hemorragia pela boca, dor, inchaço e sem urinar...] 44 [...levamos para o médico...] 53 [...levamos imediatamente para o hospital de clinicas ou Anita Gerosa...] 58 [...um pessoal de fora que percebeu, fez exame e ai levamos para o médico...] [...aqui não foi feito nada, levaram para fora de carro...] 63 [...não respondeu..] [...faz controle e toma remédio...] 64 [...nos chamamos alguém para levar até a metade do caminho e a outra metade com outro carro até o hospital...] [... com o meu filho levamos para a emergência...] 65 [...no momento joguei bastante água, passei sabão, margarina e álcool, depois procurei médico...]; [... depois de alguns dias levamos para o pronto socorro, onde foi operado...] 111 QUADRO 3 – SITUAÇÕES DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA MAIS FREQUENTE COM VIZINHOS, AMIGOS. QC SITUAÇÃO ENVOLVENDO VIZINHOS E AMIGOS 01 [...amigo que cortou a perna com machado...] 03 06 09 [...Meu compadre teve uma pancada no joelho 10 11 [...amigo picado de cobra...] 12 13 15 [...caso de violência com morte...] 16 [...um menino,meu vizinho cortou o pé com machado...] 25 [... meu primo deu uma doença nele que ele morreu de câncer...] 27 [...um rapaz da comunidade, em uma briga recebeu vários golpes de terçado, sangrando muito...] 33 37 [...a filha da minha vizinha sofreu uma queda da moto e bateu muito a cabeça...] 44 [...cunhado sofreu acidente de moto com ferimentos na perna e no pé...] 53 [...filho de uma vizinha tem crise epilética por não tomar os remédios...] 58 [...uma sobrinha minha sofreu acidente de moto que cortou a perna...] 63 [...o pai de meu sobrinho de estimação, sofre de dor de cabeça...] 64 [...o filho da vizinha sentia muitas dores na barriga...] 65 [...no momento não sei dizer...] 112 QUADRO 4 – CUIDADOS PRESTADOS ÁS SITUAÇÕES DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA COM VIZINHOS E AMIGOS. QC CUIDADOS PRESTADOS 01 [...a Natalina fez os primeiros socorros e levamos para a emergência...] 03 06 09 [...a gente fez massagem com gel, deu remédio (diclofenaco),parar passar a dor , no outro dia ele procurar o hospital...] 10 11 12 13 15 [...foi levado por seus comparsas para o hospital na moto e nos chamamos a policia...] 16 [...amarrei, coloquei ele no ombro e carreguei até aqui onde vinha um carro para levar para o hospital...] 25 [...foi procurar saúde com o médico e já era tarde...ele tinha câncer...] 27 [...nos reunimos e resolvemos levar ele de bicicleta para o pronto socorro...] 33 37 [...não foi feito nada aqui, o pessoal foram atrás de carro e levaram para o hospital de pois de muito tempo...] 44 [...ai ele foi para a emergência...] 53 [...a mãe não leva para a assistência médica...] 58 63 [...Eu ensino alguns remédios que eu sei, e ajudo no que posso...] 64 [...os pais ligaram para o carro vim, foi complicado levar ele,foi para o Anita e depois para o pronto socorro...]; [... se não tem dinheiro é complicado...] 65 [...fazer uso de ervas,benzer e depois levar para o hospital...] 113 QUADRO 5 – SITUAÇÕES DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA MAIS FREQUENTES NA COMUNIDADE. QC SITUAÇÃO 01 Diarreia Infantil 03 Cortes, queda de arvore, quebrar o braço, picada de cobra, aranha. 06 Dores, catarreira, febre, picada de cobra. 09 É a hipertensão 10 Diarreia e vomito cortes, queda, fratura, picada de cobra, abelha. 11 Picada de cobra, viroses no inverno. 12 Picada de cobra 13 Verme, gripe nas crianças no inverno e ferimento com arma branca 15 Gripe, tosse, febre. 16 Diarreia 25 Acidente de Moto 27 Picada de Cobra / corte de terçado / queda 33 Corte de machado e terçado 37 Picada de cobra 44 Picada de cobra 53 Ferimento Arma Branca, dor,picada de cobra 58 Verme, gripe no inverno, 63 Não soube respondeu 64 Mulher para ter bebe, mordida de cobra (3 casos) 65 Infecção, picada de cobra , Ferimento Arma Branca 114 115 116 117 118 Centro de Ciências Biológicas e da Saúde Curso de Graduação em Enfermagem Escola de Enfermagem “Magalhães Barata” Av. José Bonifácio, Nº. 1289 – Guamá Belém/PA www.uepa.br