CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BRASÍLIA – UNICEUB FACULDADE DE CIÊNCIAS DA SAÚDE – FACS CURSO: ENFERMAGEM Kátia Regina de Almeida HOSPITAL JUSCELINO KUBITSCHEK DE OLIVEIRA (HJKO): Resgate da História da Enfermagem no Distrito Federal Brasília, DF Novembro/2007 É concedida ao Centro Universitário de Brasília (UNICEUB) permissão para reproduzir cópias somente para propósitos acadêmicos e científicos. A autora reserva outros direitos de publicação e nenhuma parte desta monografia pode ser reproduzida sem autorização por escrito da mesma. _________________________________ Kátia Regina de Almeida [email protected] Kátia Regina de Almeida Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) apresentada como requisito parcial para a conclusão do 8º semestre do Curso de Enfermagem do Centro Universitário de Brasília UniCEUB.Orientadora: Prof. Nílvia Jaqueline Reis Linhares Brasília, DF Novembro/2007 Kátia Regina de Almeida Brasília, 1 de novembro de 2007 Nome: Professora MSc. Nílvia Jaqueline Reis Linhares Coordenadora do Curso Instituição: Centro Universitário de Brasília (UNICEUB) ------------------------------------------------------Assinatura Professora de Monografia Instituição: Centro Universitário de Brasília (UNICEUB) ------------------------------------------------------Assinatura Professora do Curso de Enfermagem Instituição: Centro Universitário de Brasília (UNICEUB) ------------------------------------------------------Assinatura Dedicatória Dedico a realização deste trabalho Ao meu companheiro Lenilson pelo apoio e compreensão; aos meus filhos Rafael e Karoline, que mesmo na adolescência compreenderam minha ausência; a professora Ana Luiza Montalvão Maia a intensa colaboração que me dispensou no decorrer do trabalho. a todos que me incentivaram continuar essa graduação em momentos de desânimo. 6 Agradecimentos Agradeço a realização desta pesquisa em primeiro lugar a “DEUS”. a minha Mãe Rita Maria Paz de Almeida, que com o seu exemplo me incentivou a “correr” atrás de meus sonhos; a minha orientadora Nílvia Jaqueline Reis Linhares pela paciência e intensa colaboração que me dispensou no decorrer do trabalho. aos demais Professores que na minha companhia estiveram nessa caminhada do saber. a Dra Simone Carvalho Roza, do Posto de Medicina do trabalho do Uniceub, pois sem seu apoio não chegaria aqui;. aos muitos amigos que conquistei e aos já existentes pela força na idealização deste importante passo. Lista de Siglas Companhia Urbanizadora da Nova Capital - Novacap Departamento de Saúde da Novacap – DSN. Departamento de Patrimônio Histórico e Artístico do Distrito Federal – DePHA/DF Governo do Distrito Federa - GDF Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira - HJKO Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social - IAPAS Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários - IAPI Resumo Este trabalho pretende reconstituir parte da história de Brasília sob a ótica dos pioneiros e pioneiras da enfermagem no Distrito Federal, especialmente à época da construção da capital federal, buscando resgatar eventos relevantes para a constituição da memória de Brasília e da Enfermagem no DF, conhecendo a atuação das enfermeiras pioneiras nos atendimentos de saúde, nos acampamentos das construtoras responsáveis pela construção da nova capital, destacando o trabalho da Enfermagem no Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO), desde a sua abertura. Esse estudo tem como metodologia a pesquisa de campo, com abordagem qualitativa, na massa documental do HJKO, no acervo do Arquivo Público do DF, por meio de revisão bibliográfica em livros, jornais e documentos da época. Desse modo, diante desse breve resgate, percebeu-se que é necessário incentivar a preservação da memória recente de eventos marcantes da história de Brasília, bem como a memória da Enfermagem no Distrito Federal. Palavras-chave: Enfermagem – Saúde – Brasília – HJKO SUMÁRIO INTRODUÇÃO............................................................................................................................10 2 OBJETIVOS...............................................................................................................................13 2.1 GERAL:..............................................................................................................................13 2.2 ESPECÍFICOS:....................................................................................................................13 3 METODOLOGIA .......................................................................................................................14 4 RESGATANDO A HISTÓRIA.......................................................................................................15 4.1 CAPÍTULO I........................................................................................................................15 UM POUCO DE HISTÓRIA........................................................................................................15 4.2 CAPÍTULO II.......................................................................................................................19 O PRIMEIRO HOSPITAL: HJKO................................................................................................19 4.3 CAPÍTULO III......................................................................................................................25 A PRIMEIRA PROFISSIONAL DE ENFERMAGEM.......................................................................25 4.4 CAPÍTULO IV.....................................................................................................................31 O PRIMEIRO MEDICO DIRETOR...............................................................................................31 4.5 CAPÍTULO V......................................................................................................................33 TOMBAMENTO E RESTAURAÇÃO DO HJKO............................................................................33 5 DIFICULDADORES DA PESQUISA..............................................................................................37 6 CONCLUSÃO ...........................................................................................................................39 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...................................................................................................41 10 INTRODUÇÃO Na ótica de Holston (1993, p.23), os visionários que sonharam com a mudança da capital "deixaram a Brasília o legado de uma mitologia do Novo Mundo em que a construção de uma capital no Planalto Central seria o meio de desencadear o florescimento de uma grande civilização num paraíso de abundância". Desse modo, o projeto de Brasília deveria "exprimir a grandeza da vontade nacional", conforme assinalava o relatório do júri do concurso. Brasília "devia instituir um novo sistema de vida" e constituir uma mensagem capaz, entre outras coisas, "de comunicar ideais de vida democrática" e "de auto-identificação triunfal de um país jovem", como observou Umberto Eco (2001, p. 244), em seu livro A estrutura ausente, originalmente publicado em 1968. Segundo a wikipedia (2007), enquanto o HJKO era construído, funcionava no local um posto médico avançado do Hospital Rossi de Goiânia. No hospital, que chegou a ter 200 leitos, eram atendidos desde casos simples, como controle da febre amarela (doença endêmica desta região), até intervenções cirúrgicas. O HJKO dispunha também de maternidade, onde foram realizados muitos partos durante o período da construção. Inaugurado em 1957 o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira, HJKO, foi o primeiro hospital de Brasília. Sua história se vincula à construção de Brasília e a toda a modernidade pretendida nesta proposta. Construído para ser um hospital provisório o HJKO se inseria na fórmula máxima dos primeiros anos, ou anos de construção, de Brasília: no momento em que o definitivo estiver pronto desmancha-se o provisório. (PIRAJÁ,1998) 11 Após a inauguração da cidade, a utopia de Brasília começava a se confrontar com a Brasília real. Diz uma das principais estudiosas de Brasília, a socióloga Bárbara Freitag (2003, p.75), que aquela cidade "recebeu em seu espaço urbano todos os problemas da sociedade brasileira sem correções prévias. Não é de admirar", ela acrescenta, "que neste verdadeiro laboratório social vejamos a olho nu e convivamos de forma mais direta com os problemas globais da sociedade brasileira como um todo". De acordo com Cardoso (1978, p.94): "Juscelino desenvolveu a ideologia do desenvolvimento", em outras palavras, o desenvolvimento servia como pressuposto para a dominação de classe. O planejamento do plano de metas trouxe para o presidente uma base política, tanto no mercado financeiro quanto nas camadas populares. Ainda nessa perspectiva, o princípio da assistência em saúde na futura capital iniciou-se com a construção do Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO) inaugurado em Julho de 1957, além de serviços de assistência domiciliar que já eram prestados por enfermeiras e um Centro de Saúde, posteriormente inaugurado em Setembro de 1959. É nesse sentido que este trabalho pretende reconstituir parte da história de Brasília sob a ótica dos pioneiros da enfermagem no Distrito Federal, especialmente à época da construção de capital federal, buscando resgatar eventos relevantes para a constituição da memória de Brasília e da Enfermagem no DF. Figura 1 – Fachada do Conjunto tombado do HJKO 12 Fonte: Acervo pessoal da autora 13 2 OBJETIVOS 2.1 GERAL: • Resgatar a história recente das enfermeiras pioneiras e da Enfermagem no Distrito Federal. 2.2 ESPECÍFICOS: • Levantar a atuação das enfermeiras pioneiras nos atendimentos de saúde da Novacap desde a construção do Distrito Federal; • Destacar o trabalho da Enfermagem no Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO), desde a sua abertura; 14 3 METODOLOGIA Este trabalho tem como método a Pesquisa bibliográfica, com abordagem qualitativa, na massa documental do HJKO, no acervo do Arquivo Público do DF, realizar-se-á uma pesquisa bibliográfica através de livros, jornais e documentos da época, que possibilitem analisar o contexto histórico. Num segundo momento, foi colhida a história das enfermeiras e de médicos que trabalharam no primeiro hospital de Brasília (HJKO). Além disso, procedeu-se a verificação da existência de Médicos, Enfermeiros, Técnicos e Auxiliares de Enfermagem, ainda vivos que possam prestar depoimentos, buscando destacar o trabalho dos pioneiros da enfermagem no Distrito Federal bem como a relevância de seu papel para primeiros habitantes, resgatando acontecimentos e eventos que remontam à memória tanto do HJKO como da história de Brasília. 15 4 RESGATANDO A HISTÓRIA 4.1 CAPÍTULO I UM POUCO DE HISTÓRIA Já por volta de 1761, segundo dados de Brasil Turismo (2007), o Marquês de Pombal propunha mudar a capital do império português para o interior do Brasil Colônia. Desde a primeira constituição republicana, de 1891, constava um dispositivo que previa a mudança da Capital Federal do Rio de Janeiro para o interior do país, determinando como "pertencente à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14,40 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal” (BRASIL TURISMO. BRASÍLIA, 2007). Em 1891, foi nomeada a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, liderada pelo astrônomo Luiz Cruls e integrada por médicos, geólogos e botânicos, que fizeram um levantamento sobre topografia, o clima, a geologia, a flora, a fauna e os recursos materiais da região do Planalto Central. A área ficou conhecida como Quadrilátero Cruls e foi apresentada em 1894 ao Governo Republicano” (BRASIL TURISMO. BRASÍLIA, 2007). . Por sua vez José Bonifácio, o Patriarca da Independência, foi a primeira pessoa a se referir à futura capital do Brasil, em 1823, como "Brasília" (BRASÍLIA... EM 300 QUESTÕES, 2000). 16 Figura 2 – “Pau de Arara” trazia os milhares de candangos Fonte: Acervo Museu Vivo da Memória Candanga Para que Brasília fosse erguida em três anos e dez meses na imensa solidão do descampado e do cerrado do Planalto Central, foram necessárias a determinação política, o plano moderno, o progresso econômico e ainda a resposta dos brasileiros que vieram das diversas regiões do país atendendo à convocação de Juscelino Kubitschek. E foram necessários ainda os acampamentos e vilas improvisadas para os operários, engenheiros e profissionais que chegaram com a missão de erguer a cidade. Para apoiar as obras de infra-estrutura na construção do Plano Piloto, foram abertas, em 1956, as principais avenidas do Núcleo Bandeirante, que logo ficou conhecido como Cidade Livre, porque quem abrisse um comércio não pagava impostos (BRASÍLIA... EM 300 QUESTÕES, 2000). Figura 3 – Obras da construção do HJKO em maio 1957 Fonte: Acervo Arquivo Público do DF 17 Entre a Cidade Livre e a Candangolândia , surgiu o HJKO, hospital mantido pelo IAPI, instituição cujo nome também foi dado a uma das invasões surgidas na área logo atrás do hospital1. O HJKO foi construído entre a Cidade Livre (Núcleo Bandeirante) e a Vila Operária (Candangolândia), locais habitados pelos pioneiros que acreditaram no sonho de JK e transformaram o projeto da capital em realidade. A estrutura de madeira foi erguida em 60 dias e o hospital inaugurado em julho de 1957, com 40 leitos. A cidade ainda era um grande canteiro de obras, havia poeira e Cerrado por todos os lados e os pioneiros precisavam de um local no qual pudessem ter atendimento médico. Seis meses depois da inauguração, a capacidade de atendimento foi dobrada. Nos últimos meses de 1956, iniciaram-se as obras de construção da Nova Capital A afluência humana foi imediata, e desde então tem-se avolumado em medida crescente. O local reservado para a edificação da cidade foi praticamente desbravado pelos "pioneiros" imigrados, que já se contavam por mais de 6 milhares no começo do segundo semestre de 1957. A contagem promovida pelo IBGE, a 20 de julho daquele ano, atribuiu a todo o território destinado ao futuro Distrito Federal 12.283 habitantes, dos quais 6.000 (estimativa) radicados nas zonas 'velhas' (zona rural e cidade de Planaltina). Oito meses depois novo inquérito censitário computou no território de Brasília o total de 28.804 pessoas, inclusive parcela estimada de 4.500 na zona rural. A 17 de maio de 1959, o novo levantamento demográfico-habitacional obteve, pela primeira vez, resultados exatos para todo o território da Nova Capital, onde foram recenseadas 64.314 pessoas residentes. 2 (IBGE apud PIRAJÁ,1998) 1 Disponível em: < http://www.sc.df.gov.br/paginas/museus/museus_02.htm>. Acesso em 01 out. 2007. 2 Censo experimental de Brasília. 1959. Comissão Censitária Nacional. 18 19 4.2 CAPÍTULO II O PRIMEIRO HOSPITAL: HJKO Segundo Silva (1997), o primeiro hospital de Brasília foi inaugurado em 6 de julho de 1957 e foi construído de madeira devido a sua condição de hospital provisório. Localizado entre os três principais acampamentos migratórios de pioneiros - Cidade Livre, Lonalândia (mais tarde Candangolândia) e Invasão do IAPI, o HJKO (as siglas, nesse e em outros casos, acabava sendo o nome de uso mais comum entre os pioneiros) esteve em atividade até 1968. Figura 4 – Placa de inauguração do HJKO Fonte: Acervo da Autora Silva (1997) destaca o momento privilegiado em que viveu e do qual participou ativamente, o HJKO teve uma personalidade impar. Era um hospital por inteiro, no que se refere a ter contato com os requisitos técnicos básicos necessários para a sua atuação. Prestou atendimento de urgência e ambulatorial permanentemente, internando, realizando tratamento clínicos e cirúrgicos, inclusive de casos eletivos, com complementação diagnostica, tudo numa expectativa em torno da 20 implantação que realizava-se no Centro Oeste do País de um projeto carregado de fortes e velhos anseios de muitos. Construído em apenas 60 dias e inaugurado em 06 de junho de 1957, o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira foi o primeiro hospital a funcionar na cidade. Coube ao IAPI – Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários, ligado ao DSN, a construção do HJKO. Figura 5 O HJKO em agosto de 1957 Fonte: Acervo Arquivo Público do DF Órgão de assistência médico-hospitalar do IAPI (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários) no Distrito Federal, inicialmente, prestou serviços aos trabalhadores da construção civil. O atendimento em saúde na Novacap dividia-se em não-institucional (assistência prestada nos acampamentos) e institucional (desenvolvido pelo Departamento de Saúde da Novacap – DSN). Sendo assim, diversas profissionais de enfermagem, naturais de várias regiões do País, destacaram-se neste contexto em ambos os atendimentos, como Cacilda Bertoni e Luzia Farias (realizavam partos domiciliares), Martha Margarette, Rosa Irene e Edna Chavier (trabalharam no HJKO), além de muitas outras. 21 Seus 1.265 m2 de área edificada em madeira abrigavam ambulatório, centro cirúrgico, serviços gerais, administração, residência para médicos e funcionários com famílias e alojamentos. Figura 6 Exemplo de um consultório Médico do HJKO Fonte: Acervo Arquivo Público do DF A parte hospitalar, que funcionava 24 horas por dia, era servida dos mais modernos equipamentos e instrumentos da época, e continha 50 leitos; oito enfermarias dispostas em duas alas, feminina e masculina; duas salas cirúrgicas; aparelhos de raio-x; laboratório de análise clínica; sala de ortopedia; maternidade; berçário; farmácia e gabinete dentário com raio-x, tendo como primeiro diretor foi o médico goiano Edson Porto (BRASÍLIA...EM 300 QUESTÕES, 2000). Conta Silva (1997) que o Serviço de Emergência, funcionava em tempo integral, era atendido por um médico plantonista, o qual, sempre que necessário, se socorria de quantos colegas fossem eventualmente solicitados, sem dificuldades, uma vez que todos residiam nas dependências ou no acampamento do próprio hospital. O ambulatório e os demais atendimentos hospitalares funcionavam em dois turnos, sendo o de maior movimento o do período da manhã quando, logo nas primeiras horas, os caminhões basculantes das empreiteiras faziam a entrega de seus doentes. 22 Com a inauguração do Hospital Distrital, no Plano Piloto, em 1960, o HJKO entrou em lento declínio e a partir de 1968, passou a funcionar somente como posto de saúde atendendo aos moradores do Núcleo Bandeirante e das invasões das áreas circunvizinhas ao hospital. Em 1974, o HJKO foi totalmente desativado com a implantação dos serviços de saúde no Núcleo Bandeirante3. Contudo, permaneceram habitando a área, em situação irregular, muitos ex-funcionários do hospital e outras famílias que foram agregando-se à população da área, tornando-se uma das maiores invasões do DF. Segundo Amorim; Ricarto, em reportagem para o Correiro Web (2001), afirmam que a origem de tudo é a carência de habitações ao redor de Brasília e a exploração política dessa situação. E, assim, aparecem as lideranças e a cultura da invasão. Muitas vezes, gente simples, que emerge do meio do povo e depois se lança na política. Em outros casos, políticos que alimentam o processo para não perder a simpatia popular e se manter no poder. Líderes de uma verdadeira fábrica de invasões, que não se escondem e fazem seguidores, alargando os estragos ao meio ambiente. Segundo ainda os autores, o mapeamento das terras do Distrito Federal revela o impacto de uma ocupação que, nos últimos 20 anos, seguiu a regra ditada pelo invasor. Segundo a matéria, de toda a área urbana ocupada atualmente, quase 40% é irregular. São praticamente 500 km² de terra transformados em favelas, condomínios, assentamentos e vilas sem registro em cartório. É mais que Taguatinga, Ceilândia e Samambaia, inteiras, na ilegalidade (CORREIRO WEB. 1º CADERNO, 2001). 3 Disponível em: < http://www.sc.df.gov.br/paginas/museus/museus_02.htm>. Acesso em 01 out. 2007. 23 Silva (1997) relata que naqueles tempos a população de Brasília era composta, notadamente, por gente jovem, a maioria desempenhando trabalho braçal, pelo que apresentava maior incidência de patologias próprias do grupo etário e da atividade profissional vigentes. Assim, era maior a casuística das doenças traumatológicas, infecciosas, infecto-contagiosos e as venéreas pré-AIDS, hoje alçadas às sexualmente transmissíveis. Naquela oportunidade as condições sanitárias e higiênicas dos acampamentos, onde residia a massa trabalhadora, eram extremamente precárias. Suas cozinhas, refeitórios e dormitórios propiciavam constantes e sérios casos de intoxicações alimentares agudas e disseminação das doenças infecto-contagiosos, dentre estas ressaltando-se a tuberculose pulmonar, que foi tratada pelo Dr. Carlos Alberto Florentino, auxiliado pelo Dr. Marcos Snitovsky, ambos do Serviço Nacional de Tuberculose, do Ministério da Saúde. O Serviço Nacional de Tuberculose instalou-se definitivamente em Brasília, no segundo semestre de 1958, sob a direção do tisiologista Carlos Alberto Florentino, auxiliado pelo médico Marcos Snikovsky. A tarefa constituiu na visita a todos os canteiros de obras de Brasília usando um aparelho portátil. Eis, em resumo, como o Dr. Florentino, em relatório de 02/02/59, define a atividade do Serviço que dirigia: “Após vencer as dificuldades naturais e com a cooperação imprescindível da Novacap, e do Dr. Ernesto Silva, fora instalado um modesto Ambulatório de Tuberculose: organismo rudimentar, que, graças a advento dos qumo-antibióticos, pôde, numa emergência, substituir a célula máter da luta antituberculosa, que é o dispensário. Com todas as suas deficiências e sacrifício (naturais daquela época), o Ambulatório vem atendendo as necessidades do cadastro abreugráfico. No Ambulatório é feita a triagem, e elucidação diagnostica dos portadores de sombra suspeita de lesão pulmonar evolutiva, o tratamento e o controle da maioria dos fimatosos, trabalho que não seria exeqüível não fôra a permanente colaboração dos médicos do Hospital do IAPI e dos médicos do Departamento de Saúde da Novacap. 24 “Com grande esforço, pelas condições existentes, conseguimos realizar a penetração, o preparo e o fichamento das coletividades para o senso torácico, a distribuição dos resultados do exame abreugráfico, a chamada para reexame, a becegeização, o controle dos focos de contágio e dos comunicantes, as providências a serem tomadas para o retorno dos portadores de tuberculose avançadas altamente bacilíferas (o Dr. Ernesto Silva nos fornecia passagens aéreas para transferência desses doentes e seus Estados de origem), o vínculo imprescindível com o laboratório e a sala de radiologia do Hospital do IAPI e todo o complexo mecanismo da luta contra a “Peste Branca. “O pequeno Núcleo profilático e assistencial do Serviço Nacional de Tuberculose cresce gradativamente, até chegar a ser, em 1960, o modelar Dispensário dinâmico da Nova Capital Federal.” Em relatório enviado à Novacap, o Dr, Florentino alinha os seguintes dados referentes ao período de 1º de novembro de 1958 a 31 de janeiro de 1959 (infelizmente, o único relatório que possuímos): 1 – Número de coletividade examinadas (Cias construtoras, colégios, etc)-------------------------------------------------50 2 – Número de pessoas abreugrafadas-------------------------------------18.315 3 – Número de pessoas “suspeitas” de lesão pulmonar ativa--------------223 4 – Classificação pela extensão – Mínima------------------------------------149 (NTA) – Moderada----------------------------------------------------------------33 – Avançada-------------------------------------------------------------------------10 5 – Adenopatia pulmonar---------------------------------------------------------18 6 – Derrame pleural---------------------------------------------------------------09 7 – Imagem tumoral---------------------------------------------------------------04 8 – Índice geral de suspeição--------------------------------------------------1,2% 9 – Número de pessoas portadoras de alterações cárdio-vasculares-------241 10 – Número de pessoas vacinadas pelo BCG, na dose de 0,20, via oral----------------------------------------------------------------------------------------15.255 11 – Suspeitos do cadastro, inscritos no Ambulatório, com diagnósticos Elucidado em tratamento e sob controle (de 18/12 a 31/01/59)------------106 12 – Doentes mandados pelo Hospital do IAPI--------------------------------06 13 – Total de pessoas fichadas no Ambulatório em 31/01/59-------------112” Outros relatórios foram apresentados trimestralmente até a data de transferência da Capital, mas não pudemos encontrá-los. O serviço prosseguia ininterruptamente. 25 4.3 CAPÍTULO III A PRIMEIRA PROFISSIONAL DE ENFERMAGEM Figura 7 – Cacilda Rosa Bertoni, a primeira enfermeira de Brasília Fonte: acervo particular Cacilda Bertoni A história a seguir resgata eventos da vida profissional e pessoal da primeira enfermeira no Distrito Federal, revelando curiosidades e fatos pitorescos dos primeiros habitantes de Brasília e do cotidiano no HJKO: ‘‘Viver para servir’’. Antes de contar o que a trouxe ao Distrito Federal, a paulista de Piracicaba Cacilda Rosa Bertoni faz questão de ressaltar o lema da turma onde se formou em enfermagem, na Escola Ana Nery (Universidade do Brasil — Rio de Janeiro). Ajudar às pessoas fez bem para esta senhora de 84 anos, que, em 1957, pela disposição em servir ao próximo, se tornou a primeira enfermeira da nova capital. 26 A decisão do marido, Afonso Bertoni (falecido), de abandonar tudo em Juiz de Fora (MG) e viajar para o Planalto Central a pegou de surpresa. Com a vida estabilizada e um casal de filhos pequenos, venderam tudo para empreender-se na viagem. ‘‘Ele trabalhava com obras e achava que aqui teria grandes oportunidades’’, conta Cacilda. ‘‘Eu viria primeiro para arrumar um lugar para ficarmos, depois buscaria as crianças’’, completa. Dessa forma fizeram. Cacilda chegou em dezembro de 1957 à Cidade Livre (Núcleo Bandeirante) com o endereço da Casa Pastoral da Igreja Metodista. Encontrado o lugar, lá seria a moradia provisória da família. A enfermeira voltou a Juiz de Fora e retornou com os filhos de avião. O marido deixara a cidade na mesma hora e com a mesma direção a seguir, só que a bordo de um caminhão carregado com a mudança e o material necessário para a construção de um barracão de madeira para morarem. O medo da empreitada só apareceu nos dias em que Cacilda esperava pelo marido, sem notícias. Bertoni demorou oito dias para chegar devido às péssimas condições das estradas do Centro-Oeste naquela época. Fora isso, Cacilda não se assustava com nada. Antes, vivera por quatro anos na Amazônia, junto ao Serviço Especial de Saúde Pública (SESP). Na Amazônia, participara da inauguração do Hospital de Santarém, em 1946. A Casa Pastoral, como tudo na Cidade Livre, funcionava em um grande barracão de madeira. Lá também ficava a primeira escola primária de Brasília. De manhã, a esposa do pastor dava aulas e à noite o próprio pastor era o professor. No lugar onde estava a Casa Pastoral hoje está instalado o Corpo de Bombeiros do Núcleo Bandeirante. Nos planos do casal Bertoni, o local serviria de abrigo apenas por alguns dias, até que o barraco de madeira da família fosse construído. Mas a forma que as decisões eram tomadas aqui prolongou a permanência no local. Concentrado nas construções do Plano Piloto, que acabavam de começar, 27 Israel Pinheiro, presidente da Novacap, não permitia que ninguém construísse nada na Cidade Livre sem sua autorização. Enquanto esperavam, Bertoni nada podia fazer. Por sorte, Cacilda recebia o salário de enfermeira normalmente. Estava de licença prêmio por ter trabalhado dez anos seguidos sem nenhuma falta, justificada ou não. O lote da Novacap foi cedido para a família após três meses de espera. Bertoni pôde então construir um pequeno barraco na Segunda Avenida da Cidade Livre e dar início aos trabalhos com as obras das construtoras que estavam instaladas aqui. Partos Não demorou muito para Cacilda ser descoberta na Cidade Livre. Andando nas ruas da pequena vila, a enfermeira encontrou uma ex-colega do SESP, com quem trabalhara na Amazônia. ‘‘Noêmia, não me recordo o sobrenome, estava grávida e pedia que eu fizesse seu parto’’, conta. O único hospital que existia em toda a região era do Instituto de Pensões e Aposentadoria dos Industriais (IAPI), que só atendia casos de urgência e emergência. ‘‘Havia muitos acidentes de trabalho nos acampamentos’’, justifica. Fora isso, havia uma parteira na cidade e mais nada. Depois do primeiro parto feito por Cacilda, centenas de outros se seguiram até 1960. ‘‘A necessidade me levou a realizá-los. No curso de enfermagem tínhamos aula de obstetrícia’’, conta. ‘‘Rapidamente fiquei conhecida em toda Brasília’’, conta. ‘‘Os maridos das mulheres grávidas dos acampamentos das construtoras vinham me pedir ajuda. ’’ Quando os partos eram feitos na Cidade Livre, Cacilda era auxiliada pelo marido. Quando eram nos acampamentos, os maridos precisavam preencher uma ficha onde colocavam suas descrições físicas e a previsão do mês em que a criança nasceria. ‘‘Quando chegava o dia, meu marido atendia a porta e 28 identificava o pai pela descrição na ficha’’, diz. ‘‘Era preciso fazer isto porque eu teria que sair sozinha com desconhecidos numa terra cheia de aventureiros’’, explica. Para realizar o parto, Cacilda levava todo o material necessário em uma maleta, como agulha, pinças, luvas e fios esterilizados. Quando os partos eram na Cidade Livre, levava até água fervida, porque as estruturas das casas eram muito precárias. ‘‘Os homens me ajudavam a carregar’’, conta. As mulheres que viviam nos acampamentos eram poucas, viviam com os maridos. Por causa disso, elas terminavam ficando encarregadas dos serviços domésticos de todo o acampamento, como lavar roupas e cozinhar. ‘‘Mulher era coisa rara em Brasília naquele tempo’’, diz Cacilda. ‘‘Os homens nos olhavam com surpresa, mas sempre com muito respeito’’, garante. O trabalho como enfermeira fazia com que Cacilda não pensasse duas vezes em abrir mão do próprio conforto em benefício de suas pacientes. Em uma oportunidade, após realizar o parto de uma francesa casada com um espanhol, Cacilda terminou por abrigar o casal estrangeiro, uma filha pequena e a criança recém-nascida em sua casa para não deixá-los na rua. Eles haviam se casado na Argélia e vieram para cá em busca de oportunidades. Mas a empresa para a qual o marido trabalhava falira, fazendo com que perdessem tudo. ‘‘Terminei comprando uma máquina de costura e outros bens que possuíam para ajudá-los a irem embora’’, recorda-se. Além dos candangos, Cacilda realizou inúmeros partos de esposas de engenheiros e autoridades, como o deputado Paulo Freire. ‘‘Fiz o parto do menino Paulo Francisco às vésperas das eleições de 1960.’’ Hospital Distrital Em 1960, Cacilda foi descoberta por uma colega da escola de enfermagem. Aidê Dourado, como se chamava, era a primeira de um grupo de dez 29 enfermeiras contratadas para trabalhar no Hospital Distrital (Hospital de Base) a chegar a Brasília. ‘‘Ela soubera que eu estava aqui e foi me procurar na Cidade Livre’’, diz. ‘‘Quando ela me encontrou, estava lavando roupa com a baiana Ernestina no córrego Vicente Pires, que era muito limpo na época’’, completa. No Hospital Distrital, inaugurado em 1960, Cacilda foi contratada para organizar o centro cirúrgico. As dificuldades deste trabalho eram inúmeras, a começar pela falta de infraestrutura do lugar. A sala de operações só tinha um foco de luz, o assoalho do piso ainda não estava fixado e tudo tinha que ser esterilizado com formol, pois ainda não havia material descartável. ‘‘Um baiano que nunca houvera trabalhado em hospital me ajudava a organizar tudo nas caixas para cada tipo de cirurgia’’, revela. As roupas também tinham que estar limpas com freqüência e, como não havia lugar para higienizá-las no hospital, eram enviadas para o hospital São Vicente, que começava a funcionar em Taguatinga. ‘‘Mandamos muitas peças e elas nunca retornaram, então decidi mudar o esquema’’, conta a enfermeira. Cacilda solicitou então à construtora Pederneiras, responsável pela obra do hospital, que enviasse tambores cortados ao meio, que passaram a servir de tanques improvisados. Para fazer o serviço, contratou três lavadeiras que conhecia da Cidade Livre. Como varal, usava os arames farpados no fundo do hospital. ‘‘Mas tudo era feito com muita responsabilidade e cuidado, tanto é que nunca tivemos um caso de infecção’’, garante. Depois do Hospital Distrital, Cacilda trabalhou durante um tempo no hospital da Universidade de Brasília, que funcionava onde hoje está o Cine Dois Candangos, e na organização do primeiro posto de saúde de Brasília, na 508 Sul. Como funcionária do Hospital Distrital, teve direito a morar em um apartamento na Asa Norte, na antiga quadra 46, que corresponde hoje à 405 30 Norte. Ficou lá até 1968, quando o prédio precisou ser interditado para manutenção. Na ocasião, terminou recebendo um apartamento na 112 Sul, que a Novacap cedeu para uso dos funcionários do hospital.Em 1960, também foi responsável pela fundação da Associação de Enfermagem do Distrito Federal, na Avenida L2 Norte — primeira associação de classe a ter sede na nova capital (CHIAVICATTI, CORREIO BRAZILIENSE. CADERNO PIONEIROS, 21 ABR. 2005) Figura 8 – Cacilda Rosa Bertoni, ao completar 80 anos em 2006 Fonte: acervo particular Como se pode perceber, os pioneiros e as pioneiras da enfermagem puderam vencer as dificuldades com todas as deficiências e limitações daquela época, e, assim atender s necessidades do povo de um lugar recém-criado, mas nem por isso deixaram de honrar a profissão. 31 4.4 CAPÍTULO IV O PRIMEIRO MEDICO DIRETOR Figura 9– Dr.Edson Porto, a esquerda o primeiro Diretor do HJKO Fonte: Acervo Arquivo Público do DF O primeiro Diretor do HJKO foi o médico goiano Dr. Edson Porto. Antes da abertura oficial, entretanto, o doutor Isaac foi obrigado a fazer uma cirurgia de emergência que marcou sua vida. Naquele ano, as chuvas haviam aberto uma grande cratera na Avenida Central, o que acabou provocando um acidente com um português. O jipe que ele dirigia perdeu o freio e, desesperado, ele pulou do carro antes que o veículo caísse na cratera. Quando ele caiu, um caminhão, que vinha logo atrás, passou por cima de uma de suas pernas, dilacerando-a. Sem alternativa a não ser operar o paciente, Isaac Barreto levou o homem para o HJKO e junto com Edson Porto, que atuou como anestesista, e do então estudante de medicina Cláudio Costa, salvou a vida do português. 32 ‘‘A única opção foi amputar a perna. Foi como uma cirurgia de guerra. Ou fazíamos isso ou o paciente morreria’’, justificou. Foi assim a primeira grande cirurgia realizada no cerrado. Nascido em Barra do Rio Grande, no interior da Bahia, o doutor Isaac é casado e tem quatro filhos, um deles o ex-piloto de Fórmula 1 Alex Dias Ribeiro. Formado também em direito, Isaac dedica-se hoje ao trabalho de perícia médica e a defender casos na área criminal. Ele foi o primeiro presidente da Associação Médica de Brasília, inaugurada em 1959, na época uma regional da Associação Médica de Goiás. Segundo Pirajá (1998), o HJKO apesar de possuir equipamento de primeira linha para a época, não podia deixar de contratar pessoas sem grande experiência na área de saúde, conforme o depoimento a seguir: (...) Não tinha, num chegava e quanto mais aparecesse gente ... por que naquela época tinha muito desastre de carro, muito desastre... olha era só gente cortada era só gente, era uma loucura ... aí quando nós chegamos lá esse meu compadre, levou esse bilhetinho nesse doutor, quando chegou lá aí a enfermeira chefe falou assim pro meu esposo: - 'cê vai começar hoje.' E o pior é que nós tinha deixado no Rio Grande do Norte o sapato dele branco ... era... e ninguém ia saber que ia chegar aqui e vinha chegar aqui e encontrar, por que no pau-de-arara pagava até a bagagem que se trazia, e nós truxemos muito pouca coisa. Aí ela entrou prá dentro do armário pegou um jaleco branco, pegou uma calça branca aí disse: - 'O senhor vai trabalhar hoje’. Aí o senhor vai ficar no alojamento de solteiro.4 original) 4 Entrevista com D. Sebastiana Silva de Lima. (erros gráficos foram mantidos do 33 4.5 CAPÍTULO V TOMBAMENTO E RESTAURAÇÃO DO HJKO5 Em 1983, ocorrem tentativas de desocupação e demolição das edificações por parte do IAPAS, então proprietário da área. As casas já estavam bastante deterioradas. Desse modo, vem um período de intensos protestos e organização comunitária em favor do tombamento do espaço. A seguir alguns fragmentos de entrevistas realizadas por Pirajá (1998), mantendo-se a grafia original e variação lingüística: “De tombar, não tinha idéia de tombar, escuta bem... eu queria era ficar ali. Entendeu. Todos os moradores ficar ali e ser assim restaurada as casas, ser arrumado tudo e todo mundo ficar ali. (...) Foi então que nem eu tô dizendo prá você. Um crescia e botava um botequinho ali, outro crescia e botava um parente, outro crescia e virou uma anarquia. Virou uma bagunça. Por que aí crescia e não crescia no original prá ficar a coisa bonitinha. Botava uma puxada prá trás, outro fazia, botava e fazia. Por que despois que desativou ninguém era dono de nada Eu nem teconto como eu tirei essa idéia (do tombamento) por que já tinha repórter... e eles tavam doidos por reportagem que nem uns urubus na carniça, quando a gente chamava eles já corria fui procurar um rapaz que já tava mexendo... o José Everaldo prá ele dar sugestão por que ele era mais maduro, como é que a gente deveria agir aí ele disse assim: “D. Sebastiana a única solução que tem para o hospital ficar lá do jeito que a senhora quer é haver o tombamento." - Então vamos lutar pelo tombamento, por que se a única solução é esta, nos temos que fazer isso prá não ser arrancado e não tirar mas nenhuma táuba... 5 Disponível em: <http://www.museus.gov.br>. Acesso em: 04 out. 2007. 34 muito desgaste ... a gente ficava que não trabalhava mais, já não fazia mais comida em casa ... aí quando dava fé: - "D. Sebastiana corre aqui! D. Sebastiana, já chegou o caminhão." Aí eu chegava lá e fazia o caminhão voltar ... o negócio deles era demolir ... muito desgaste, então eu já tava muito desgastada foi quando eu procurei o Nilton (Rosa)... foi aí fizemos uma reunião lá na Maria Benedita, na irmã dele ... e eu falei (...) - "Nilton, você quer assumir isso aqui? Mas é assim, assim e assim... Nilton nós não pode sair da área do HJKO. Você vai brigar debater, nós tamo cadastrado para ir para a Candangolândia mas nós não queremos ir para a Candangolândia.6 Aí ele veio prá casa da irmã. morava num quartinho e topou... passei os documentos tudo... tinha uns documentos e era muita papelada... "tá aqui Nilton, tudo mastigadinho" ... touxe ele aqui umas duas vezes ou três, reunião na Candangolândia, na associação de moradores para ele ficar a par de como era o movimento ... o meu desejo era isso, os filhos da gente os filhos da gente cresce ali. Então quando ele chegou com a notícia pra mim assim: - "D. Sebastiana de jeito nenhum vai poder ficar aqui dentro... aí eu fiquei puta da vida com ele e falei: - "você não soube, você tem interesse próprio, você quer botar o seu pessoal prá Candangolândia." E quando acaba veio um monte de gente, olha veio irmão dele, veio irmã, veio prima, veio tudo prá Candangolândia... por que se eu tivesse tomado a frente ninguém ia ter saído ia ter ficado que nem os outros lugares.7 Quando saiu o tombamento nós já tava na Candangolândia, no assentamento da Candangolândia... nós já tinha tudo se mudado”.8 6 Cidade Satélite que começava a ser assentada. D. Sebastiana parece se referir ao movimento de fixação e tombamento da Vila Planalto 8 Entrevista com D. Sebastiana Silva de Lima. 7 35 Em 13 de novembro de 1985, o conjunto arquitetônico do HJKO foi tombado sendo mais tarde restaurado pelo GDF, através do decreto número 9.036, sendo considerado patrimônio histórico e artístico da cidade. Figura 10 – Conjunto HJKO tombado e restaurado Fonte: Acervo da Autora Os moradores foram transferidos para a Candangolândia, a partir de 1987, iniciase o processo de restauração das edificações do conjunto de acordo com um projeto de restauro e revitalização do espaço proposto pelo DePHA, Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico do DF. Em 1990, o lugar passa a abrigar o Museu Vivo da Memória Candanga, com seu amplo projeto ocupando toda a área do conjunto. De acordo com estudos do Fórum Nacional /Fórum Brasília (2005) hoje, este espaço representa uma das últimas referências arquitetônicas características do período inicial de construção da cidade. Planejada para uma população de apenas 500.000 habitantes. Entretanto, Brasília viu sua população crescer muito além do esperado. Sucessivas cidades satélites foram sendo criadas ao longo dos anos para acomodar a população extra. A população total de Brasília (incluindo as cidades satélites) já é de mais de 2 milhões de habitantes, sendo o Distrito Federal dividido em 28 Regiões Administrativas (FÓRUM NACIONAL /FÓRUM BRASÍLIA, 2005). Desse modo, Brasília foi registrada, no ano de 1987, como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. Porém, Brasília é muito mais do que um patrimônio histórico ou um marco arquitetônico. É uma cidade viva e única, uma cidade amada pela maioria dos seus habitantes (FÓRUM NACIONAL /FÓRUM BRASÍLIA, 2005). 36 Em 1960, a inauguração do Hospital Distrital provocou o lento declínio do HJKO. E, em 1968, o hospital foi desativado Na década de 80, iniciou-se no Distrito Federal intenso processo de erradicação de invasões. A área do HJKO era uma das invasões a serem erradicadas. Em meados de 1983, o IAPAS, proprietário da área, tentou iniciar a demolição das edificações. Os moradores mais antigos solicitaram, então, o tombamento do antigo hospital, como estratégia para sua manutenção no local. O tombamento ocorreu em 13 de novembro de 1985, mediante o Decreto nº 9.036, mas os moradores do HJKO foram transferidos para a Candangolândia, local onde estavam sendo assentados moradores de várias invasões erradicadas (WIKIPEDIA. NÚCLEO BANDEIRANTE, 2007). 37 5 DIFICULDADORES DA PESQUISA O fascínio despertado ao visitar o Museu Vivo da Memória Candanga, quando se observou um consultório médico autentico da época da construção de Brasília, foi se perdendo com o desenrolar deste trabalho, pois a falta de referencias bibliográficas de um período recente da história e da enfermagem e lamentável. Sem falar que muitas fontes são extremamente repetitivas, talvez ate por conta da falta de material. Angerami & Boemer (1984) estudaram a especificidade do uso das teorias de Enfermagem na pesquisa. Numa busca exaustiva, que cobriu os quatro periódicos de maior circulação no país, procuraram desvendar nos artigos publicados, as teorias de Enfermagem explicitadas pelos autores ou implícitas nos seus discursos. Os resultados revelaram que a utilização das teorias de Enfermagem como suporte teórico é inexpressiva, sendo que o mais citado é o uso de processo de Enfermagem de Horta, em sua primeira fase: - identificação do problema. Batey (1977) já havia demonstrado estes achados referentes ao Brasil, que não diferem muito dos apontados por em sua revisão dos 25 anos de pesquisas de Nursing Research. Para essa autora, as pesquisas de enfermeiros têm sérias limitações, principalmente devido à falta de conceitualização e referencias bibliográficas.. Se a construção do saber é um processo sempre inacabado, se o conhecimento é sempre provisório, e se a emissão de uma resposta sempre suscitará nova pergunta, um fato novo poderá provocar mudanças que devem ser analisadas. Guido Zucconi (1997) Afirma que diferentemente de outros países, o vínculo entre estudos visando práticas operativas no campo da preservação e estudos históricos sobre a cidade pouco relevo teve no Brasil até o momento. Apesar do desenvolvimento das questões relativas ao patrimônio, os estudos históricos sobre as cidades brasileiras 38 como base para planos e projetos tiveram, no geral, pouco fôlego intelectual. Partes integrantes de projetos, neles se inseriam de forma quase burocrática, apenas compondo os famosos antecedentes históricos ou fazendo o pano de fundo de uma determinada proposta, sem conseguirem atingir uma dimensão metodológica ou teórica mais aprofundada. 39 6 CONCLUSÃO Vários profissionais de saúde, inclusive profissionais da enfermagem que imigraram para o Planalto Central, em busca de novas perspectivas, com o espírito de aventura e desprendimento, pois a carência de especialistas e os acampamentos com condições precárias conjugavam ambientes desfavoráveis à saúde pública, exigindo destes profissionais, que com seu trabalho árduo, dedicação e conhecimentos se prestavam ao combate de doenças, para conter as epidemias. Nesse sentido, o contexto social-econômico da década de vinte, do século XX, exigiu uma transformação na saúde pública do DF, de modo a disseminar novas formas de conduta quanto à higiene e hábitos de vida, o exigiu muito mais dos profissionais de enfermagem que estiveram em Brasília desde o princípio da construção. Hoje, temos consciência que Brasília foi sonho e proposta de várias gerações de brasileiros, ao longo de quase dois séculos. Porém, foi o presidente Juscelino Kubitschek quem materializou este sonho ao propor a transferência da sede do governo situado no Rio de Janeiro para a região do Planalto Central (57º CONGRESSO DE ENFERMAGEM, 2005). Sabemos também que diversos operários empenhavam-se na construção durante dia e noite, havendo a necessidade de proporcionar assistência médica aos candangos principalmente com relação às lesões que pudessem ocorrer no ambiente de trabalho. Desse modo, na atualidade, sabe-se que o princípio da assistência em saúde na futura capital iniciou-se com a construção do HJKO, além de serviços de assistência domiciliar que já eram prestados por enfermeiras e um Centro de Saúde, posteriormente inaugurado em Setembro de 1959 (57º CONGRESSO DE ENFERMAGEM, 2005). 40 (...) é necessário incluir no patrimônio histórico, outros campos artísticos (pintura, escultura, música etc.), objetos cotidianos (utensílios domésticos, instrumentos de trabalho, vestimentas, etc.), materiais de diferentes arquivos, acervos bibliográficos, falas e práticas de múltiplos agentes sociais. Esta ampliação não se confunde com a simples diversidade de "objetos" ou "temas" abordados pelos historiadores: está-se diante de fazeres sociais. Para cada material interpretado, há um contato com lutas, acordos, potencialidades, limites.9 Portanto, é dever dos habitantes de Brasília resgatar sua memória bem como a memória da Enfermagem no Distrito Federal, destacando a atuação das enfermeiras pioneiras nos atendimentos de saúde da Novacap, mais especificamente as que trabalharam nos acampamentos e no Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira. 9 Silva Marcos, 1995.p 40 e 41 41 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMORIM, R.; RICARTO, T. Paraíso das invasões. CorreiroWeb, 2001. ANGERAMI, E. L. S.; BOEMER, M. R. – Avaliação do estudo das teorias de enfermagem. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE PESQUISA EM ENFERMAGEM, 3, Florianópolis, 1984. Anais. Florianópolis, Associação Brasileira de Enfermagem, 1984. p. 65-242. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6023: informação e documentação – referências – elaboração. Rio de Janeiro, 2002. _________. NBR 10520: informação e documentação – citações em documentos – apresentação. Rio de janeiro, 2000. _________. NBR 14724: informação e documentação – trabalhos acadêmicos – apresentação. Rio de Janeiro, 2002. BATEY, N. V. – Conceptualization: knowledge and logie guiding empirical research. Nurs. Res., v. 26, n. 5, p. 09-324, 1977. BRASIL. (DESCONHECIDO). Brasília... em 300 questões. Brasília: Edições Dédalo, 2000. CARDOSO, Miriam Limoeiro. Ideologia e desenvolvimento, Brasil. 2a edição. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1978. ECO, Umberto. A estrutura ausente. São Paulo: Perspectiva, 2001. FREITAG, B. Brasília refletida. In: Abstrata Brasília concreta. Brasília: Medialecom, 2003. HOLSTON, J. A cidade modernista. Uma crítica de Brasília e sua utopia. São Paulo: Cia. das Letras, 1993. MARTINS, Gilberto de Andrade. Manual para elaboração de monografia e dissertações. 2.ed., São Paulo: Atlas, 1994. MONTENEGRO, Rosilene. Juscelino Kubitschek: mito e mitologias políticas do Brasil moderno. Universidade Estadual de Campinas - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. 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