NINA RODRIGUES E AS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS' Sergio Figueiredo Ferretti* RESUMO Apresenta a vida e a obra do médico maranhense Raimundo Nina Rodrigues, pioneiro dos estudos sobre o negro e as religiões afrobrasileiras. Relaciona seu interesse pelo negro com seus estudos sobre Medicina Legal. Destaca a importância e a atualidade de Nina Rodrigues no campo do estudo das religiões afro-brasileiras, comentando os métodos de pesquisa que utilizou e os vários temas de interesse que abordou em seus trabalhos tais como rituais de iniciação, mitologia, liturgia, revoltas de escravos, folclore, literatura oral, arte religiosa e vocabulário de línguas africanas. Palavras-chave: Nina Rodrigues - religiões Afro-Brasileiras problemática racial- sincretismo religioso. - SUMMARY Presents the life and the work ofDoctor Raimundo Nina Rodrigues, from Maranhão, a pioneer on negro and afro-brazilian religion studies. Relates his interest on negro religion with his studies on Legal Medicine. Shows the importance and actuality ofNina Rodrigues in the field of afro-brazilian religion studies, making comments about the searching methods he used and the different subjects of interest that were approached on his works, such as iniciation rituaIs mythology, liturgy, slaves rebelions, folklore, oralliterature, religious art and african language vocabulary. Key-word: Nina Rodrigues- religion Afro-Brasilian - racial problematic - religion syncretism. Nina Rodrigues nasceu no Maranhão, em Vargem Grande, em 4de dezembro de 1862 e faleceu em Paris em 17 de julho de 1906, aos 43 anos. Segundo informações de Lamartine de Andrade Lima, que entrevistou pessoas próximas a Nina Rodrigues, ele descende de uma das cinco famílias de judeus sefaraditas que vieram para o Maranhão - era, portanto, de origem judaica e não mulato, como dizem alguns comentaristas. Foi parente do Dr. Herculano Nina Parga, que governou o Maranhão entre 1914 e 1918. Aprendeu a ler na propriedade 1 Trabalho apresentado noo Il Seminário Participativo da Educação, organizado entre 25 e 29/0111999, pela Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura Municipal de Vargem Grande - MA. * Professor de Antropologia da UFMA. Cad. Pesq., São Luís, v. 10, n. 1, p. 19-28,jan/iun. 1999. 19 rural da família com a escrava Madrinha Mulata e fez os primeiros estudos em Vargem Grande. Estudou o secundário em São Luís, tendo sido aluno do professor José Ribeiro do Amaral, ilustre historiador que o preparou para exames na Escola de Medicina da Bahia. N a época, São Luís tinha cerca de 35 mil habitantes e Salvador cerca de 150 mil. Estudou Medicina na Bahia e no Rio. Formou-se em 1888, aos 26 anos. Desde 1887 começou a publicar artigos, tendo deixado cerca de 60 trabalhos, redigidos durante 19 anos. Alguns foram reunidos em livros que publicou em vida sobre Raças Humanas, Religião Afro-brasileira, Contribuições ao . Código Civil, Medicina Legal e Ensino de Medicina. Após sua morte foram publicados alguns livros reunindo artigos seus. Publicou muitos trabalhos em revistas especializadas de Medicina e outros assuntos, nos Estados da Bahia, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Escreveu artigos e livros em francês e italiano e muitos de seus trabalhos tinham edições em mais de um país, a exemplo da Itália, da Bélgica, da França e da Argentina. Travou polêmica com vários pesquisadores ilustres da época e manteve correspondência com especialistas em vários países. Em 1903 foi recebido com homenagens por médicos e juristas em São Paulo. Teve vida intelectual intensa. Foi professor da Faculdade de Medicina da Bahia. Escrevia muito e escrevia bem. Seus escritos são até hoje de leitura agradável. . Contemporâneos dizem que ele estava sempre olhando o relógio, preocupado com o tempo, e que tinha pro20 blemas de saúde. Voltou ao Maranhão algumas vezes. Morreu em Paris onde fora em viagem de trabalho e para tratamento de saúde. Pouco depois dele, também faleceu sua única filha. A viúva mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ainda vivia em fins da década de 30 quando seus trabalhos estavam sendo reeditados. Em 1983 foi defendida na USP tese de Doutorado em Antropologia sobre Nina Rodrigues pela professora Mariza Correa, da UNICAMP, trabalho que só foi publicado em 1998 e ao qual ainda não obtivemos acesso. Podemos dizer que Nina Rodrigues, hoje, é pouco conhecido e estudado no Brasil, sendo praticamente desconhecido no Maranhão. Em São Luís, dá nome à rua do Sol, onde manteve consultórioem 1889. Interessou-se principalmente pela Saúde Pública e pela Medicina Legal, trabalhando em área próxima entre o Direito e a Medicina, disciplinas de grande prestígio no Brasil na época em que viveu. Nessa época, a questão racial era muito discutida no Brasil. No século XIX, o Positivismo e o Evolucionismo eram posições teóricas dominantes. A idéia da existência de raças superiores e inferiores era um dogma indiscutível. Nina Rodrigues aceitava as posições teóricas de seu tempo e morreu muito jovem para contestá-Ias. Pelos seus inúmeros escritos, é considerado um dos teóricos do racismo contra o negro em nossa sociedade. Tinha muito prestígio por ser cientista de reputação internacional e era muito citado por confirmar idéias racistas aceitas por todos. Acreditava na inferioridade da raça negra Cad. Pesq., São Luís, v. 10, n. 1, p. 19-28, jan./jun. 1999. do ponto de vista intelectual, fisico, moral e religioso, embora tivesse muita simpatia e reconhecesse inúmeras qualidades nos negros, que conhecia bem. O racismo começou a ser questionado no mundo apenas na época da Primeira Guerra Mundial, quase dez anos após a morte de Nina Rodrigues, a partir dos trabalhos do antropólogo norte-americano Franz Boas, cujos livros foram queimados na Alemanha, sua terra natal. Mas o racismo continuou com grande vigor até a Segunda Guerra Mundial, tendo feito grande número de vítimas, sobretudo entre os judeus. Nos últimos vinte a trinta anos é que tem se desenvolvido consciência mais intensa e crítica contra o racismo, mas os preconceitos raciais são muito fortes em toda parte, inclusive, hoje, no Brasil. Sendo Nina Rodrigues um médico de origem judaica, quais as razões do seu interesse pelo estudo das religiões afro-brasileiras? Nos fins do século XIX e inícios do século XX, a partir dos estudos de Foustel de Coulanges, que escreveu sobre A Cidade-Estado na Roma Antiga, de seu discípulo Emíle Durkheim, fundador da Sociologia científica moderna, além de outros autores como Max Weber e Alex TocqueviUe, a religião passou a ser considerada como um campo fundamental de estudos para o conhecimento do intelecto humano. Constata-se que todas as sociedades, mesmo as mais primitivas, possuíam religião e considera-se que a religião era um dos fatores básicos da organização social e mesmo urna das formas pelas quais o homem aprendeu a racio- cinar. Muitos conceitos básicos da lógica do pensamento humano teriam origem religiosa a partir de reflexões sobre a vida e a morte, o humano e o divino. A religião seria a origem das idéias básicas e do próprio pensamento humano. Na perspectiva da análise da superioridade e da inferioridade das raças, o estudo da religião era essencial, inclusive para comprovar a inferioridade de certas formas religiosas. O interesse de Nina Rodrigues pelo estudo do negro, advém de sua especialização em Medicina Legal. De acordo com as doutrinas da época, ele interessou-se por estudos do atavismo no crime e na loucura. Segundo essas teorias, o negro era considerado como raça inferior e propícia ao crime. A maioria dos criminosos se concentrava entre os negros. Corno médico legista, passou a realizar estudos de crânios de criminosos. Escreveu vários trabalhos dentro da perspectiva do estudo da psicologia coletiva ou das multidões, e antes de morrer havia preparado o plano do livro As Coletividades Anormais. Como informa Lamartine Lima, Nina Rodrigues, em março de 1897, teria visitado o campo de batalha na Guerra de Canudos. Depois da morte de Antônio Conselheiro, analisou o seu crânio, como tinha feito com o de outros criminosos, seguindo as teorias craniométricas em vigor e pelas quais podia-se identificar o criminoso por características fisicas cranianas. Vivendo na Bahia, onde a presença negra é marcante e onde a religião trazida da África teve amplo desenvolvimento e grande número de Cad. Pesq., São Luís, v. 10, n. 1, p. 19-28, jan./jun. 1999. 21 participantes, passou a se interessar pelo conhecimento da religião praticada pelosnegros. Nina Rodrigues deixou dois trabalhos importantes sobre estudos afrobrasileiros. O primeiro, O animismo fetichista dos negros baianos, foi publicado em fascículos em 1896 e 1897 na Revista Brasileira. Em 1900, o mesmo foi publicado, em Salvador, pela Editora Reis & Comp., na forma de livro, traduzido para o francês pelo autor. No ano seguinte, esse trabalho recebeu comentários elogiosos na resenha elaborada pelo discípulo e sobrinho de Durkheim, Marcel Mauss, que o qualifica como "interessante e elegante monografia elaborada por investigador competente". Foi também elogiado por pesquisador do Instituto Antropológico de Roma e pela Revista de História das Religiões. O outro livro de Nina Rodrigues sobre esse tema recebeu o título de Os Africanos no Brasil, publicado somente em 1933,27 anos após sua morte. Os originais do primeiro volume da obra, denominada Problemas da Raça Negra na América Portuguesa, foram deixados pelo autor na Editora antes de viaj ar para a Europa. Seu discípulo e sucessor Oscar Freire, encarregado de acompanhar a edição, faleceu anos depois sem editar o livro que só foi publicado quase 30 anos depois, por Homero Pires, discípulo de Oscar Freire. Nesse segundo livro sobre religiões africanas, obra póstuma e inconc1usa, Nina Rodrigues, entre outras diferenças, utiliza maiores referências bibliográficas sobre religiões e povos da África, como os trabalhos do Coronel J. B. Ellis sobre os iorubás, os fons e os fantis.: Nina Rodrigues teve muitos alunos médicos que foram seus discípulos e admiradores, entre os quais Oscar Freire, Afrânio Peixoto, Juliano Moreira e outros. Arthur Ramos, também médico nordestino e como ele falecido em Paris aos 44 anos, foi o grande continuador de Nina Rodrigues nas décadas de 1930 e 1940. Divulgou e publicado vários trabalhos do mestre, bem como diversos estudos seus em continuação ao que ele denominou de escola baiana ou Escola de Nina Rodrigues de estudos afro-brasileiros. Entre os representantes desta Escola se inclui, além de Ramos o baiano Edson Carneiro, que em 1937 organizou em Salvador o Il 'Congresso Afro-Brasileiro. Dois anos antes, Gilberto Freyre organizara em Recife o Primeiro Congresso Afro-Brasileiro. Outro importante continuador desta linha de estudos foi o sociólogo francês Roger Bastide, que residiu 16 anos no Brasil, lecionando na Universidade de São Paulo. Bastide redigiu duas teses, publicou diversos livros sobre Estudos Afro-Brasileiros e orientou a formação de importantes pesquisadores atuais que trabalham neste e em outros campos das Ciências Sociais. Assim, Nina Rodrigues foi pioneiro dos estudos afro-brasileiros e da antropologia no Brasil, como da Medicina Legal e de outras áreas. Iniciou uma corrente de estudos e pesquisas sobre religiões de origem africana no Brasil, corrente que continua atuante ainda hoje, cem anos após a publicação de seus trabalhos. Cad. Pesq .. São Luís. v. 10. n. 1. p. 19-28. jan.rjun. 1999. Em Cuba, um ano antes de sua morte, em 1905, o escritor Femando . Ortiz, com a publicação do livro Os Negros Bruxos, também inicia uma escola de estudos semelhantes à Escola Baiana e em muitos trabalhos Ortiz cita Nina Rodrigues. Entre seus seguidores encontra-se a prolífera pesquisadora Lídia Cabreira, falecida há poucos anos nos Estados Unidos e que deixou igualmente muitos trabalhos importantes sobre religiões afro-cubanas. Os estudos sobre religiões de origens africanas em Cuba tiveram, como no Brasil, um impulso muito grande, pela importância dessas religiões nos dois países. O avanço desses estudos em Cuba se deve também longevidade de Femando Ortiz e de Lídia Cabreiro, pois Ortiz continuou vivo e publicando livros entre 1905 e 1967, quando faleceu, mais de sessenta anos após a morte de Nina Rodrigues. Certamente, se ele tivesse vivido mais tempo, seus estudos teriam tomado outras dimensões e o ritmo desses trabalhos não teria declinado por 3O anos como ocorreu após sua morte. Nina Rodrigues é, portanto, o pai fundador do campo de estudos afro-brasileiros, Foi ele quem primeiro destacou a importância do tema e quem primeiro criou um modelo de análise dessas religiões. Esse modelo, liberado de concepções racistas da época, continua ainda válido, sendo seguido até hoje por inúmeros pesquisadores. Foi ele, também, quem primeiro considerou como religião o que então era considerado como crenças supersticiosas, mostrando a coerência lógica desse sistema de idéias e de crenças. á Exemplificando a importância do campo de estudos afro-brasileiros, lembramos que, posteriormente, esse campo foi amplamente desenvolvido em diferentes regiões do país. Em todos os congressos e reuniões da Associação Brasileira de Antropologia, nos Congressos Afro-Brasileiros e em outros eventos científicos do gênero, há sempre seções dedicadas a análises das religiões afro-brasileiras. Em relação ao Maranhão, vários trabalhos têm sido realizados. Nos últimos dez anos foram defendidas cinco teses de doutorado sobre religiões afro-maranhenses, sendo três no Brasil, uma nos Estados Unidos e uma na Inglaterra. Uma está em fase de conclusão na Bélgica. Além dessas teses, há dissertações de mestrado e grande número de monografias de conclusão de cursos de especialização e de graduação. Um grande número de artigos em revistas científicas e trabalhos utilizando outros meios como vídeos, tem sido produzidos a partir do estudo das religiões de origem africana no Maranhão, que Nina Rodrigues não chegou a estudar mas que se constituem num desmembramento do campo de estudos que ele abriu. Nos demais estados, sobretudo nos de maior presença negra, constantemente são defendidas teses e publicados livros sobre religiões afro-brasileiras. Devemos destacar que Nina Rodrigues sabia escrever bem. Fundamentava seus escritos em pesquisas de campo minuciosas. É lamentável que a maioria de seus trabalhos não esteja, hoje, disponível para o grande público. Parece-nos que se deveria iniciar um movimento pela reedição de suas obras, Cad: Pesq., São Luís, v. 10, n. 1, p. 19-28, jan.rjun. 1999. 23 sobretudo no campo dos estudos afrobrasileiros. Reedição a ser realizada preferencialmente por editora do sul, de projeção e âmbito nacional, com edição de trabalhos acompanhada de notas com comentários críticos atualizados, elaborados por especialistas no assunto. Com isso, facilmente se constataria a atualidade e o interesse de seus escritos. Se o Maranhão fosse um Estado com maior peso e influência na cultura nacional, como os Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Bahia, certamente a importância de um conterrâneo como Nina Rodrigues seria destacada com maior projeção nacional, como ocorreu, por exemplo com Mário de Andrade, Euclides da Cunha, Monteiro Lobato e outros. Tendo destacado a importância dos estudos sobre religiões afro-brasileiras iniciados por Nina Rodrigues, vejamos de que tratam esses estudos. Logo na apresentação do Animismo Fetichista, Arthur Ramos considera importante realizar esse tipo de estudo para compreender o nosso destino como povo em formação. O livro Animismo Fetichista inclui, no título, conceitos que na época eram aplicados às religiões dos chamados povos primitivos. Hoje, tais conceitos, juntamente com outros como totemismo, estão superados e praticamente não são mais utilizados. Da mesma forma, o conceito de raças superiores e inferiores, também muito utilizado no livro por Nina Rodrigues, não é mais aceito hoje. Assim, se fosse escrito alguns anos mais tarde, o livro teria outro título como por exemplo: In24 tradução ao estudo das religiões africanas na Bahia, ou então, Candomblés da Bahia. A religião dos nagôs ou iorubás da Bahia é proveniente da Costa dos Escravos, atual República da Nigéria, e do Daomé, atual BenÍD. Rodrigues constata a predominância dos nagôs sobre outros grupos étnicos na Bahia e destaca a importância de suas práticas religiosas. Questiona a idéia anterior de que a maioria dos escravos entre nós era de origem banto. Talvez, devido à influência dos escritos de Nina Rodrigues, até hoje a religião dos nagôs foi a mais estudada e era quase a única mais conhecida entre nós até os anos 70. Sendo as religiões de origens africanas, religiões iniciáticas e religiões de transe e possessão, nosso autor, como médico, considerava o transe mediúnico, ou estado de santo, como fenômeno patológico. Acreditava que esse fenômeno estava ligado a estados mórbidos psicológicos agudos e crônicos, comuns na histeria, nos estados de sonambulismo provocado, nos estados hipnóticos, oníricos e esquizofrênicos, com modificações de consciência e de personalidade. Classifica o transe como fenômeno de hipnose histérica. Descreve experiência de hipnose que realizou no consultório com filha de santo e discute com outros autores a existência da histeria na raça negra, pois acreditava-se, na época, que a histeria era um fenômeno típico das raças desenvolvidas, com o que Rodrigues não concorda. Essa hipótese de se considerar o transe mediúnico como um estado anormal e patológico só será Cad. Pesq., São Luís, v. 10, n. 1, p. 19-28, jan./jun. 1999. ultrapassada mais tarde, na década de 40, com os trabalhos do antropólogo norte-americano Melville Herskovits, que demonstrou ser o transe mediúnico um fenômeno normal e controlado por regras sociais. Pela leitura de seus trabalhos, podemos verificar que Nina Rodrigues freqüentava, com regularidade, cerca de 20 terreiros de culto afro em Salvador e em municípios do interior, como Cachoeira, Santo Amara e São Francisco. Refere-se aos grandes terreiros, mais afamados na época em Salvador, como o do Gantois, o do Engenho Velho e o do Garcia. Conhecia muitos pais e mães de terreiro, cujos nomes cita regularmente, e grande número de filhos de santo descendentes de africanos. Nina Rodrigues diz que conheceu pessoalmente os cerca de 2.000 últimos africanos que viviam na Bahia nos últimos anos do século XIX e afirma ter conhecido quase todos os últimos 500 sobreviventes em inícios do século XX. É importante lembrar que essa população africana se reduziu rapidamente por morte, bem como por retorno à África, cujos embarques ele comenta. Menciona as diversas etapas Dos complexos rituais de iniciação, como a preparação e lavagem inicial dos assentamentos de pedras, feitas com banhos de ervas especiais. Refere-se à função dos sonhos e outras revelações e aos jogos divinatórios que precedem A iniciação. Menciona os banhos de ervas preparatórios e os rituais específicos da cerimônia de iniciação realizados no recinto sagrado do terreiro e dos quais só participam os ini- ciados. Sobre essas cerimônias privadas, diz ter presenciado esse processo num terreiro pequeno e que da sala em que se encontrava, podia acompanhar tudo que ocorria na sala ao lado, com a porta aberta. Menciona a raspagem da cabeça, as incisões ou cortes no corpo, bebidas etc. Depois refere-se às partes públicas da iniciação, com toques e as diversas saídas dos novatos com roupas específicas. Menciona os tabus e restrições temporárias, abstinências e obrigações, as festas que se seguem à saída e as várias festas de anos de iniciação. A respeito da mitologia, Nina Rodrigues inicia uma tradição que continua até hoje, de apresentar os diversos orixás, desde Olorum, o deus do céu, que não recebe culto e os vários outros como Obatalá ou Orixalá, o deus superior; Exu, o mensageiro; Xangô deus do trovão; Ogum deus do ferro e das guerras; Yansã; Oxum; Oxumaré; Yemanjá; Shapanã ou Omolocô, deus da varíola; Oxossi, o caçador; Loco, o deus da árvore etc. De cada divindade apresenta alguns nomes, principais atributos e qualidades, elementos de suas estórias, alimentos preferidos, cores etc. Sobre a liturgia do candomblé, fala das festas ruidosas ou batucajés dos terreiros da Bahia, que as vezes duram vários dias, precedidas por sacrifícios de muitos animais, como boi, cabra, carneiro, galinha e pombo, dos quais algumas partes são oferecidas aos orixás e o restante destinado ao preparo de comidas típicas baianas como vatapá, caruru, acarajé, abará, aberém e moquecas. Diz que nos grandes ter- Cad. Pesq., São Luís, v. 10, n. 1, p. 19-28, jan.ljun. 1999. 25 reiros, como no Engenho Velho e no Gantois, a comida era dada a todos, servida em grandes gamelas e pratos enormes. Refere-se às milhares de pessoas que participam das festas nos grandes terreiros. Descreve detalhes dos sacrifícios e regras de sua execução para cada orixá. Menciona as danças festivas ao ar livre, nos intervalos das cerimônias, e as danças sagradas no salão do terreiro. Refere-se também aos ritos fúnebres realizados nos terreiros nagôs, comparando-os com os ritos dos negros islamizados ou malês. Em relação aos espaços sagrados, descreve o interior de um terreiro típico, com os seus vários espaços e também o recinto sagrado dos pejís que visitou, com os altares e ídolos dos quais chegou a tirar fotos de alguns. Referese ao exterior dos terreiros com suas árvores sagradas, bem como sua localização nos arrabaldes da cidade, comentando dificuldades de acesso de bonde ou a cavalo. Cita lugares considerados sagrados como grandes árvores, pedras especiais, lagos que recebiam oferendas, contando casos ocorridos relativos a esses lugares. Diante de sua curiosidade por todos os temas relacionados aos assuntos que estuda, Nina Rodrigues apresenta interessantes observações de um Bispo do Espírito Santo comentando, na época, um novo culto denominado Cabula, que se organizava como uma espécie de Maçonaria, reunindo elementos do Espiritismo e africanos. Parece tratar-se de uma religião com influências banto e que estaria nas origens dos cultos da umbanda, que posteriormente recebeu grande impulso no 26 sul do país, reunindo elementos africanos, católicos e espíritas. Por ter vivido pouco tempo como médico, no Maranhão, as referências de Nina Rodrigues ao seu estado natal se restringem a alguns artigos sobre doenças como a lepra e outras e sobre o regime alimentar dos maranhenses. Nos escritos sobre religião, faz algumas poucas referências à sua terra, lembrando, por exemplo, um conto de origem africana sobre a tartaruga e o conto A menina dos brincos de ouro, que diz serem muito conhecidos na Bahia e nç Maranhão. Lembra, ainda, do instrumento marimba (ou berimbau), que diz ter ouvido em criança, e refere-se ao termo dança de tambor como sendo comum no Maranhão. Informa que, em viagem que fez ao Maranhão em 1896, visitou em São Luís, negros africanos conhecidos como negros mina e conheceu uma velha jeje e outra nagô de Abeukutá residindo em casinhas nas proximidades da rua de São Pantaleão. Diz também que visitou um terreiro com umas vinte e poucas negras e mulatas. A respeito da repressão aos cultos afros, Nina Rodrigues utiliza várias vezes, em seu trabalho, o método de citar notícias de jornais. Diz que a religião dos africanos no Brasil era considerada como prática de feitiçaria, sem proteção das leis, condenada pela religião dominante e pelo desprezo aparente dos mais influentes, tendo sofrido violências dos senhores no período da escravidão e depois da lei Áurea, sujeita ao arbítrio da Polícia. Diz que a imprensa trata o assunto com o mesmo desprezo dos senhores. Cita vários arti- Cad: Pesq., São Luís, v. 10, n. 1, p. 19-28, jan./jun. 1999. gos criticando os terreiros, em jornais da Bahia, entre 1896 e 1905, e diz conhecer artigos semelhantes na imprensa de Pemambuco e do Rio de Janeiro. Geralmente essas matérias pedem providências da polícia contra o barulho dos terreiros. Ressalta a extraordinária resistência e vitalidade dessas crenças, apesar de toda perseguição, dizendo não ser possível sufocar as crenças religiosas de uma raça. Diz que esse culto, que resistiu à conversão e à violência dos senhores, está destinado a resistir por longo prazo, por ser uma verdadeira religião. Apesar de criticar o exercício ilegal da medicina pelos pais de terreiro, critica as invasões da polícia às casas de culto de origem africana, pois a Constituição da República garante liberdade de consciência e de culto a todos e o Código Penal qualifica os crimes de violência contra a liberdade de cultos. A respeito de outros assuntos relacionados aos cultos afros, Nina Rodrigues analisa a hierarquia dos grupos de culto com seus diversos cargos e respectivas funções, destacando o cargo de pai ou mãe de terreiro, de chefe dos músicos, de sacrificador dos animais, de colaborador ou ogã e outros. Também analisa longamente o fenômeno que foi denominado de sincretismo religioso, que prefere chamar de ilusão da catequese, e vê as influências recíprocas entre as religiões africanas e o . catolicismo popular. Analisa também as correspondências e relações entre orixás e santos católicos. Nina Rodrigues trata de assuntos diversos relacionados aos estudos sobre o negro no Brasil. Entre esses, por exemplo, analisa a procedência dos negros que vieram da África, apoiado na literatura disponível, e sempre comenta muitos autores estrangeiros que lia. Nesse item, destaca a importância dos negros nagôs. Refere-se também aos negros islamizados que vieram para a Bahia onde eram conhecidos como negros malês e descreve algumas de suas práticas religiosas. É um dos primeiros autores a chamar atenção para o tema, hoje muito atual, dos qui lombos e das revoltas de escravos. Dedica um capítulo ao estudo do famoso Quilombo de Palmares, que denomina de Tróia Negra, e para as revoltas urbanas de escravos na Bahia nas primeiras décadas do século XIX, destacando na Revoltade 1835, a importante participação dos negros malês, fato que tem sido ressaltado por pesquisadores atuais. Chama atenção para a repressão a essas revoltas, que deu origem ao movimento de retorno de africanos libertos, tendo assistido a alguns embarques que levaram do Brasil para África cerca de 10 mil ex-excravos e seus familiares. Interessando-se pelo folclore e pela literatura oral, recolhe e comenta algumas estórias e lendas contadas pelos escravos, relacionando-as aos estudos então realizados por Silvio Romero. Também apresenta fotos e comenta o trabalho artístico em esculturas religiosas realizadas pelos negros, sendo o primeiro autor a chamar a atenção para habilidades artísticas do negro entre nós. Baseado na literatura disponível chama atenção para a grande diversidade lingüística do continente africano, transcreve alguns cânticos em nagô e em jeje, refere-se a elementos gramaticais de algumas línguas faladas Cad. Pesq., São Luís, v. 10, n. I, p. 19-28, jan.rjun. 1999. 27 aqui e coleta elementos do vocabulário de cinco línguas africanas faladas em Salvador como o Grunce, o Mahi, o Haussá, o Tapa e o Kanuri, das quais enumera cerca de 120 palavras em português e sua respectiva tradução. Constatamos que, malgrado seu pouco tempo de vida, Nina Rodrigues trabalhou muito e abriu novos campos de estudos tendo se interessado em conhecer elementos essenciais da reali- BIBLIOGRAFIA CORRÊA, Mariza. As ilusões da liberdade. São Paulo: IFAN/FAPESP, 1998. 487p. HERSKOVITS, Melville. Antropologia cultural. São Paulo: Mestre Jou, 1969. 3v. MAUSS, MareeI. Nina Rodrigues L' Animisme Fétichsite des nêgres de Bahia. In: L'annee Sociologique 1900-1901. Paris: Librairie Félix Alcan, 1902. p. 224-5. 343p. NINA RODRIGUES, Raimundo. Os africanos no Brasil. 5.ed. São Paulo: Nacional, 1977. 233p. (Brasiliana, 9). As collectividades anormaes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. ___ 28 o dade brasileira. Procurou analisá-Ias com os recursos científicos disponíveis na época e nisso se encontra sua falha principal, pois a ciência tende sempre a ser superada por novas descobertas científicas. Mas as observações e pesquisas que realizou são válidas e importantes até hoje. Nina Rodrigues é o exemplo de um intelectual dedicado ao trabalho científico, que deve servir de modelo aos seus conterrâneos. CONSULTADA 1939. 332p. (Biblioteca de Divulgação Científica, 19). Animismo fetichista dos negros bahianos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1935. 199p. (Biblioteca de Divulgação Científica, 2). As Raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil. Rio de Janeiro: Guanabara. 1932. 211p. LIMA, Lamartine de Andrade. Roteiro de Nina Rodrigues. Salvador: UFBAlCEAO, 1993. 12p. (Ensaiosl Pesquisa, 2). ACADEMIA MARANENSE DE LETRAS. Nina Rodrigues: comemorações no cinqüentenário de sua morte. São Luís: 1956. 49p. ___ o ___ o Cad. Pesq., São Luís, V. 10, n. 1, p. 19-28, jan./jun. 1999.