Programa Centro de Referência em Inovação (CRI) Multinacionais
Por que o Brasil? Diferenciais competitivos do Brasil que poderiam/deveriam ser
explorados por multinacionais para o desenvolvimento local de atividades de PD&I
No dia 22 de maio de 2012 foi realizado, nas dependências da Fundação Dom Cabral, em São
Paulo, o II Encontro do CRI Multinacionais, que contou com a presença de executivos das
empresas Dow, IBM, Rhodia, Siemens, Saab, Emerson, Telefônica e ZF, e da ABDI, do
BNDES, do CISB, do CSEM, do CTC, da Embrapa e da Biominas.
O tema do encontro foi “Por que o Brasil? Diferenciais competitivos do Brasil que
poderiam/deveriam ser explorados por multinacionais para o desenvolvimento local de
atividades de PD&I” e os objetivos foram: i) lançar a luz às competências que estão sendo
desenvolvidas no país, ii) indicar iniciativas convergentes do governo no sentido de promover o
desenvolvimento destas competências e iii) conduzir os presentes a reflexões sobre
oportunidades a serem exploradas no país.
A linha condutora que orientou as discussões surgiu a partir do conceito da Triple Helix
Innovation (LEYDESDORFF; ETZKOWITZ, 1998), que avalia a inovação a partir dos esforços
combinados de três agentes: governo, universidade e empresa. Por essa perspectiva, o governo
desponta como indutor da inovação, pela criação de políticas favoráveis ao desenvolvimento de
indústrias (criando mercado); as universidades (por este estudo também os ICTs) atuam como
geradores de tecnologias (criadores de desenvolvimento de base) e as empresas desempenham o
papel de agentes capazes de combinar conhecimento e necessidades mercadológicas para
produção de valor. A partir desta orientação e com base em relatórios públicos de entidades
governamentais 1 , a equipe de pesquisadores da FDC fez um levantamento de sete áreas que
concentram atuais ou potenciais competências em conhecimento no Brasil. São elas:
agronegócio; tecnologia da informação e comunicação; energia; nanotecnologia; biotecnologia;
químicos; aeroespacial, aeronáutica e defesa. ICTs, universidades e empresas com competência
em P&D nessas áreas também foram identificados pela equipe de pesquisa do CRIMultinacionais. 2
Esse levantamento foi utilizado como base para as discussões do encontro, onde emergiram seis
tópicos de interesse: i) papel do governo como indutor de mercado e da inovação; ii)
sistematização da orientação mercadológica dos ICTs; iii) reconhecimento da transversalidade
1
Fontes:
 Relatório “Por Dentro do Brasil: Ciência, Tecnologia e Inovação”. Secretaria de Comunicação Social da Presidência da
República.
 Últimos ciclos de planejamento do MCTI (2007-2010) (2012-2015: Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovacão).
 Projeto “Agenda para o Desenvolvimento da Ciência, Tecnologia e Inovação em Minas Gerais: 2010-2030”. Relatório
Síntese do Módulo I Prospecção de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
2
Fontes:
 Quadro de atores selecionados no Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. Instituições de CT&I. CGEE
 Consultora do CGEE e especialista em inteligência tecnológica: Gilda Massari
 Capes; MCTI; CGEE; website dos ICTs, universidades e empresas; estudos científicos; revistas técnicas.
do conhecimento; iv) necessidade de coordenação de esforços relacionados a geração do
conhecimento; v) criação de um sistema estruturado para busca de competências; vi) criação de
networking de especialistas.
As discussões deste encontro trouxeram uma série de sugestões sobre ações governamentais que
facilitariam o desenvolvimento das atividades industriais no Brasil no que diz respeito ao
desenvolvimento de mercado e de competências locais, bem como algumas facilidades para
identificação dessas competências.
As discussões foram mediadas pelo Diretor do Núcleo Bradesco-FDC de Inovação, prof. Carlos
Arruda. Também contou com o apoio da professora Erika Barcellos, coordenadora do CRIMultinacionais e de sua equipe, composta pelos pesquisadores Ana Elisa Castro e Cleonir
Tumelero.
TÓPICOS DISCUTIDOS
1 – Papel do governo para a indução de mercado
O primeiro tópico abordado diz respeito ao governo usando seu poder de compra para orientar a
alocação de recursos do setor industrial. Nesse tópico foi possível avaliar a preocupação dos
gestores no sentido de terem uma maior precisão quanto aos seus investimentos. Sérgio Borger,
diretor de operações do laboratório da IBM, ressaltou a importância vital do mercado para o
estabelecimento de um centro de P&D: “Ninguém aposta em um centro de P&D se não houver
mercado para absorver este investimento”, explicou Sérgio Borger. “Em semicondutores e
microeletrônica, criar uma fábrica custaria 10 bilhões de dólares”. Mesmo que se criasse a
fábrica, o mercado brasileiro consumiria esses produtos?”. Também foi levantada pelos
gestores a necessidade de uma melhor avaliação dos potenciais cenários para o Brasil e dos
talentos necessários para o desenvolvimento de algumas áreas de negócio.
Jaime Finguerut, Gerente de Planejamento Estratégico do CTC destacou o papel decisivo dos
órgãos governamentais para o progresso dos biocombustíveis nos EUA, com base no incentivo
ao processo de inovação. “Eles mantêm contato com os produtores que recebem os fundos;
existe clareza de objetivos”, explicou Jaime.
Jaime destacou também que, no Brasil, as iniciativas que orientam investimentos e a formação de
órgãos para desenvolvimento de competências podem ser observadas em alguns programas
focados, como o Proálcool. O programa foi responsável pela estruturação do Centro de
Tecnologia Canavieira (CTC) a partir de uma planta piloto. Ele relembra que na ocasião, não
havia recursos para comprar combustível e o Brasil estava em uma situação complicada após a
crise do petróleo, em 1973. Por isso, era preciso encontrar alternativas para gerar energia. Nessa
perspectiva, o CTC foi criado e posteriormente a sua estrutura foi modificada para continuar
operando. O Centro chegou a operar com 1600 funcionários (custo de 1% do faturamento da
Coopersucar). Ele afirmou que todos os problemas foram resolvidos com políticas. “O CTC não
construiu sozinho, teve outros atores auxiliando, inclusive universidades. O Brasil criou o
mercado para a P&D em álcool”, finaliza.
Maurício Lopes, diretor-executivo de Pesquisa & Desenvolvimento da Embrapa comentou que,
atualmente, iniciativas como esta poderiam ser aplicadas, por exemplo, no setor de biomassa.
Segundo o executivo, o setor de biomassa tem potencial para competir com a indústria
petroquímica em um futuro breve. Além disso, na visão do executivo, existe no Brasil uma
abundância de recursos que viabiliza esse investimento no país. Não aproveitar essa
particularidade local pode fazer com que o país perca as competências adquiridas para a geração
de energias alternativas.
Thomas Canova, diretor de P&D da Rhodia acrescentou que a Rhodia já desenvolve pesquisas
no Brasil há mais de 40 anos. Ele reforçou o papel indutor do governo ao afirmar que a
competitividade em P&D nasce no mercado, mas não em qualquer mercado. O primeiro
componente da P&D competitiva é o mercado, pois é preciso ter massa crítica. Um outro ponto,
segundo Canova, é avaliar os custos de curto e longo prazos. No longo prazo são avaliadas as
políticas de fomento, ou seja, como o Sistema Nacional de Inovação transforma a inovação em
um “cavalo de batalha”. Em um terceiro momento é preciso haver uma especificidade para que a
pesquisa seja desenvolvida aqui no Brasil, em detrimento de outras localidades. Ele afirma que
em algumas áreas o Brasil é muito competitivo, como por exemplo, na área de biomassa.
A visão de Tiago Alves, diretor presidente do CSEM sobre este tópico apontou para a
necessidade de se identificar os mercados onde o Brasil pode ser estratégico, através da
construção de cenários de futuro de mercado do Brasil. “O Brasil tem talento para desenvolver
nanotecnologia no país e estamos contratando pessoas de todo o mundo. É preciso identificar o
mercado onde estas tecnologias são aplicáveis, para se definir um foco de atuação. O mercado
potencial está na origem de tudo”. explicou Tiago.
Estas constatações sugeriram aos presentes a necessidade de criação de políticas claras que
orientassem as áreas de investimentos nos programas de inovação.
2 – Orientação mercadológica das ICTs
A segunda questão apontada pelos gestores no evento foi a falta de orientação mercadológica das
universidades e dos ICTs.
Na reunião reforçou-se o fato de que a pesquisa pura realizada pelas universidades está mais
relacionada às áreas de interesse dos professores do que às necessidades reais do mercado.
Ponderou-se também sobre a falta de interesse de algumas universidades em trabalhar de modo
colaborativo com empresas. Para Tiago Alves, a falta de sincronia entre universidade e empresa
revela pouca maturidade do Brasil diante de outros países.
Ronald Dauscha, diretor corporativo de inovação e tecnologia da Siemens, destacou que esforços
já foram realizados para mapear competências, por meio de artigos, portais, ou mesmo, o sistema
Lattes, mas existe um grupo de universidades que já está satisfeito com o trabalho que vem
desenvolvendo e, por esta razão, têm pouco interesse em trabalhar em conjunto com empresas.
Nesse sentido, Dauscha sugeriu o desenvolvimento de um sistema inteligente para detectar onde
estão os núcleos mais propensos à pesquisa aplicada (com histórico de projetos e vontade de
trabalhar com empresas, mesmo que não haja tecnologia madura nesses núcleos), por região, de
modo a atrair pessoas para atuar junto a eles. Dauscha destacou que atualmente utiliza sua rede
de contatos para essa identificação.
A falta de coordenação entre as atividades de pesquisa das universidades também foi apontada
pelo grupo, que sugeriu a necessidade de uma melhor coordenação do governo nesse sentido. O
programa do CNPq com suporte da FINEP foi mencionado como um exemplo interessante, que
tem promovido resultados relevantes. Ressaltou-se a necessidade de constância de propósitos
nesse programa.
Também foi sugerido que haja uma sistematização para que as ICTs direcionem parte da
pesquisa para o mercado, para as empresas. “É preciso induzir mercado através de grandes
programas e focos setoriais”, destacou Dauscha.
3- Reconhecimento da transversalidade do conhecimento
Outro ponto abordado foi a necessidade de se avaliar o conhecimento como de natureza
interdisciplinar. A inexistência de uma fronteira rígida que separa as diversas áreas do
conhecimento precisa ser considerada pelo governo, a fim de buscar soluções de inovação
transversais a elas. O conhecimento precisa ser tratado como parte de um sistema integrado, sem
determinação rígida entre áreas de atuação.
Maurício Lopes, diretor-executivo de Pesquisa & Desenvolvimento da Embrapa alertou para a
importância do esforço de sair da lógica disciplinada que separa as áreas de conhecimento e
seguir para a lógica da transversalidade, de modo a absorver a interdisciplinaridade das áreas
para fazer ciência, evitando duplicação de esforços, dispersão de recursos e a falta de aplicação
das descobertas em pesquisa básica. “O mundo real não funciona na base de temas, o grande
desafio é descobrir como integrar conhecimentos de diversas naturezas para tratar no mundo
real”, acrescentou Maurício.
Segundo Maurício, a biotecnologia mostra uma série de desafios futuros: a questão das
mudanças climáticas, o aumento da preocupação com a sustentabilidade e o potencial de
desenvolvimento e questões relacionadas à geração de energia a partir da biomassa. Para ele, é
preciso que haja uma migração da lógica tradicional para uma lógica transversal e
interdisciplinar, que avalie também a colaboração entre as diferentes áreas do conhecimento.
Diversas áreas podem ser integradas, na visão de Maurício, que mencionou a existência de uma
oportunidade para a indústria de auxiliar os ICTs e universidades, levando-os para fora da lógica
verticalizada. Maurício acrescenta que a grande oportunidade para o Brasil é fortalecer o
componente “sustentabilidade”, estabelecendo metas para acompanhar os sistemas produtivos.
Segundo ele, as possibilidades são enormes e a adaptação de TI para utilizar tecnologia
genômica é uma oportunidade. “O Brasil está produzindo uma nova revolução dos sistemas
integrados. Saímos da grande revolução da agricultura conservacionista e estamos agora
ensaiando um salto para os sistemas integrados. Cultivo, árvores e animais, tudo ao mesmo
tempo. Cerca de 80 tecnologias são necessárias para desenvolver essa integração. O desafio é
migrar para o sistema integrado. Os ICTs e as universidades somente poderão fazer isso com o
auxílio da iniciativa privada. Há um passivo para mover o sistema existente para perto da
indústria”.
Em seguida, Maurício retomou relembrando a trajetória da Embrapa nas décadas de 1970 e 1980.
Segundo ele, naquele período, tudo precisava ser feito e a função de entidades, como é o caso da
Embrapa, era o de desenvolver tecnologias. Entretanto, no ambiente atual, as áreas de
conhecimento estão cada vez mais interligadas e o simples desenvolvimento de tecnologia já não
faz mais sentido. Ele completou dizendo que “é preciso entender o que o mercado/ indústria
faz” para atender às demandas emergentes. Maurício finalizou dizendo que a Embrapa está
vivendo uma nova realidade e está perdendo competitividade tecnológica quando comparada às
tecnologias aplicadas desenvolvidas pela indústria.
Os presentes ratificaram a importância de se buscar maior alinhamento entre múltiplas
tecnologias. O desafio ressaltado nesse aspecto foi o de entender como mover o sistema
tecnológico de modo uníssono.
Ao analisar como tornar os sistemas integrados para a geração de soluções, Isabela Drummond,
gerente da consultoria da Fundação Biominas, afirmou que a sinergia já ocorre em saúde
humana. Isabela menciona que a integração ainda é pequena, havendo a necessidade de maior
convergência das competências das empresas.
Em relação a essa questão, Rogério Loureiro, gerente de TI e Gestão do Conhecimento do CTC
exemplificou essa falta de integração ao citar um parque tecnológico de biotecnologia.
“Apareceu uma proposta para que empresas de TI participassem e se instalassem no parque,
mas o conselho não aprovou, por acreditar que estas são de áreas de conhecimento desconexas.
A cultura ainda é atuar de forma isolada”. completou Loureiro.
Durante a discussão, mencionou-se que o reconhecimento da transversalidade e da convergência
das áreas de conhecimento é fundamental para a criação de valor. Para Maurício Lopes, diretorexecutivo de Pesquisa & Desenvolvimento da Embrapa , as indústrias vão acabar integrando as
tecnologias, mas há um elo perdido sobre como modelar, ou seja, como integrar. É preciso
conceber o modelo de negócios, aproximando as tecnologias.
Neste ponto, a sugestão feita pelos presentes foi a criação de uma entidade que faça a interface
entre tecnologias, de modo a sugerir novas aplicações. Outro ponto a ser explorado, na visão dos
participantes, poderia ser a criação de consórcios tecnológicos, que reuniriam diversas
tecnologias de modo colaborativo.
4 - Coordenação de esforços.
Outro tema discutido diz respeito à otimização de recursos governamentais para que o Brasil
desenvolva atividades de maior valor agregado a partir de atividades intensivas de conhecimento.
Segundo Roberto Alvarez, gerente de assuntos internacionais da ABDI, o Brasil precisa fazer
escolhas para saber onde investir. Roberto ressaltou que a busca de atividades de maior valor
agregado passa pela abordagem de desafios como: i) identificação de problemas que o Brasil tem
condições de resolver globalmente, ii) busca de ativos ou mercado e iii) coordenação
governamental dos investimentos em tecnologia. “Quando temos recursos finitos, a questão da
articulação se torna mais importante”, explicou Alvarez.
Rogério Loureiro, gerente de TI e Gestão do Conhecimento do CTC comentou que concorda que
no caso do setor alcooleiro o Brasil criou um mercado para P&D, mas alerta que apenas a
existência de mercado por si pode não ser suficiente, já que não há garantias de que o que foi
feito no setor nos últimos anos (de investimento intensivo) continuará a acontecer. Segundo ele,
nesse caso específico, para manter a competitividade do setor e preservar as competências
adquiridas são necessários investimentos maiores do que os que têm sido mantidos nos últimos
anos.
O diagnóstico feito pelos participantes foi que existe uma acirrada disputa por recursos
governamentais, que concorrem, muitas vezes, em projetos semelhantes desenvolvidos por
universidades e centros de pesquisa que atuam de modo pouco coordenado, sem que haja
interação para compartilhamento de informações e otimização de dinheiro público. Nesse ponto,
Marcos França, executivo da Dow, alertou para a falta de uma coordenação que oriente a
aplicação dos recursos em áreas específicas e não redundantes do conhecimento. Esse aspecto
traz a preocupação dos gestores com o desperdício de recursos por investimentos em
conhecimentos paralelos. “Não temos o mesmo volume de recursos financeiros que os Estados
Unidos. Existe uma dificuldade em se manter universidades e centros de pesquisa que estudam a
mesma coisa sem necessidade”, destacou Rogério Loureiro.
Outro ponto discutido que reforçou a falta de coordenação nos esforços para geração de
conhecimentos relevantes e complementares foi a dificuldade de relacionamento das companhias
presentes com universidades. “Há falta de coordenação entre as universidades. Parece que elas
competem entre si, ao invés de cooperarem em áreas de interesse comum”, reforça Marcos
França.
Jaime Finguerut, Gerente de Planejamento Estratégico do CTC ponderou sobre a existência de
alguns mecanismos de coordenação acadêmica no Brasil. Ele relata que a FAPESP faz isso em
São Paulo e tem vários projetos integrados. Segundo ele, os editais, negociados internamente,
incentivam certas áreas. Jaime complementou destacando tentativas de coordenar processos
relacionados à geração de conhecimento de base, como editais da Capes, de formação específica,
editais do CNPq, mecanismos como o Sibratec, encomendas do MCT e da FINEP, e o Programa
Bioen da FAPESP. Apesar da existência de iniciativas para coordenação de projetos em alguns
órgãos do governo, isto não parece ter reflexos nas corporações, segundo a opinião dos
presentes.
Neste sentido, Maurício Lopes ressaltou que o que falta é um ambiente de coordenação que
mobilize forças do conhecimento. Segundo ele, na Coreia do Sul eles são capazes de dizer onde
querem estar nos próximos 5/10 anos. Isso porque o MKE (Ministério da Economia e
Conhecimento), agência política e de P&D responsável pelo desenvolvimento industrial do país,
coordena programas de P&D específicos, entendidos como estratégicos pelo governo. Os
programas envolvem a interação de diversas áreas e abrangem, inclusive, acordos de cooperação
internacional.
Os gestores sugeriram a necessidade de uma maior canalização dos investimentos para a
inovação, por meio de uma coordenação nacional para aplicação dos recursos.
5 - Criação de um networking de especialistas
Os participantes ressaltaram que, como o conhecimento relevante à inovação no Brasil está
disperso, desconectado, sem uma diretriz clara orientada ao mercado, uma das alternativas
interessantes seria a criação de uma rede de especialistas para troca de informações via fóruns de
inovação. A sugestão foi dada por Tiago Alves, diretor presidente do CSEM.
Jaime Finguerut reiterou que ainda existem poucos centros de pesquisa e que boa parte dos
ambientes idealizados para compartilhamento de conhecimentos e competências no Brasil tem
alguma relação com entidades ligadas ao governo. Sob esta perspectiva, o CTC é uma exceção,
segundo ele, pois atua há 40 anos no país com pesquisa privada. Ele complementou destacando o
CTBE (Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol) como um centro de
pesquisa (isso é valor, deve ser evitado formado no âmbito governamental, que nasceu de uma
rede de pesquisa informal apoiada pela FINEP. Jaime Finguerut explicou que a razão da
formação desta rede foi o bioetanol. Segundo ele, primeiro criou-se uma rede nacional de
pesquisa em bioetanol, mas logo perceberam que o orçamento era pouco e, então, começaram a
articulação com o sistema privado. Na ocasião, havia um alinhamento com o Governo Federal e
a conjunção de uma rede de pesquisa com vários centros (16 ou 18) espalhados pelo Brasil gerou
o CTBE. Jaime informou também que em fevereiro de 2012 o CTBE fez uma reunião juntando
o CTC, a Embrapa, a Ridesa (rede de universidades federais) e o IAC (órgão estadual).
6 - Sistema estruturado para busca de competências
O último ponto levantado pelos presentes foi a carência de um sistema que auxilie a busca por
competências. “Não identificar pessoas com competências necessárias à inovação pode
ocasionar sérias consequências às empresas. Isso tem levado muitas empresas a buscar mão de
obra qualificada fora do país.”, explicou Ronald Dauscha, diretor corporativo de inovação e
tecnologia da Siemens.Os participantes destacaram que atualmente o Lattes tem sido usado como
fonte de mapeamento, mas este mecanismo não é o mais adequado às organizações, uma vez que
traz informações sobre pessoas, sem estruturá-las para as empresas. Por ocasião da reunião, fora
relatada a experiência de Isabela Drummond, gerente da consultoria da Fundação Biominas no
sentido de mapear competências para atração de um centro para o país. Segundo a gestora, o foco
de atração para o seu setor de atuação não tem sido mercado, mas competência científica
nacional. Neste sentido, fizeram um trabalho recente com uma empresa farmacêutica que contou
com os seguintes passos:
1. Levantamento dos INCTs, mostrando que existem níveis de cooperação e integração.
2. Avaliação do número de pesquisadores aptos a trabalhar sob as especificações exigidas,
através do Lattes e de outras ferramentas disponíveis.
3. Avaliação da qualidade e da competitividade da mão de obra, tendo em mente o crescimento
do número de publicações em áreas específicas: número de publicações brasileiras versus
pesquisa mundial (exemplo, pesquisa tropical).
4. Avaliação da relevância das pesquisas realizadas, através do número de citações dessas
pesquisas.
5. Identificação do número de patentes naquela área.
6. Identificação do número de empresas que fazem pesquisa e desenvolvimento.
Foram atribuídos pesos diferentes para cada critério, a fim de avaliar quais são as áreas de
destaque no Brasil. No caso especifico, as áreas de maior destaque foram: medicina tropical,
doenças infecciosas, inflamação e imunologia.
O processo, apesar de eficiente, foi feito a título de consultoria para uma multinacional. Percorrer
todo este caminho em busca de um profissional qualificado é inviável para a indústria, que
precisa de agilidade para atender às demandas do mercado. Nesse sentido, os presentes
reiteraram a necessidade de criação de um sistema inteligente de apoio às empresas para busca
de competências.
Conclusões
O ponto de partida da discussão teve o governo como agente central da inovação e o seu papel
indutor de uma demanda de mercado capaz de orientar os investimentos tecnológicos das
empresas.
A partir da discussão realizada, algumas sugestões foram levantadas. São elas:
- Criação de políticas claras que orientem as áreas de investimentos nos programas de inovação;
- Criação de um sistema inteligente de busca de competências ou tecnologias que permita às
empresas identificar as competências, de modo a atrair pessoas para atuar junto a elas.
- Criação de uma entidade que faça a interface entre tecnologias, de modo a sugerir novas
aplicações ou ainda a criação de consórcios tecnológicos, capazes de reunir diversas tecnologias
de modo colaborativo.
- Canalização dos investimentos por meio de uma coordenação nacional para aplicação de
recursos governamentais para inovação.
- Criação de uma rede de especialistas para troca de informações via fóruns de inovação.
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