entrevista Lisa Surprenant A iluminação comercial eficiente Por Maria Clara de Maio ARQUITETA CONSULTORA DA ICF INTERNATIONAL, EMPRESA NORTEamericana fundada em 1969, Lisa Surprenant possui mais de 15 anos de experiência em projetos de eficiência energética para o governo dos Estados Unidos, no Programa Energy Star. Atuou em projetos em diversos países da Ásia e África, e veio ao Brasil em setembro de 2006 para participar como palestrante do curso Eficiência Energética para o Setor Comercial, realizado no Rio de Janeiro e promovido pela representação da USAID no Brasil (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). Este ano, em julho, voltou ao País, desta vez em Belém e Florianópolis, com a mesma missão: ministrar o treinamento que tratou de temas como climatização e iluminação no setor comercial, os grandes vilões do consumo nesse segmento da economia. Dirigido a arquitetos e engenheiros, proprietários, administradores, empreendedores e construtores ligados às áreas de projeto, construção e manutenção de shopping centers, supermercados, magazines e outros grandes estabelecimentos comerciais, o treinamento faz parte do programa Brazil Energy Capacity Building Program, da USAID. Desde 1996, a entidade atua com parceiros brasileiros como parte do seu Programa de EnerFoto: arquivo pessoal gia, cujo objetivo é estimular o crescimento econômico, reduzir a pobreza 6 e discutir sobre as mudanças climáticas e outros impactos ambientais prejudiciais ao Brasil, promovendo o incentivo à produção e uso de energia de forma sustentável. Após o evento, Lisa conversou com a Lume Arquitetura sobre sua atividade e a importância da iluminação no comércio atual. Lume Arquitetura: O que é a ICF International, qual a missão da Virgínia, nas proximidades da capital Washington. No momento da empresa? atual, temos 11 escritórios em todo o mundo e mais de 2.000 Lisa Surprenant: A ICF é uma empresa de consultoria líder em funcionários fornecendo suporte a programas de desenvolvimento gerenciamento, tecnologia e políticas, que utiliza conhecimento sustentável em todo planeta. Desde 2003, estamos trabalhando da indústria, especialistas e ferramentas analíticas para encontrar com nosso escritório do Rio de Janeiro em um programa plurianual soluções de problemas complexos em setores como energia. Atuo de cerca de US$ 1 milhão, fornecendo treinamentos de eficiência na Divisão de Energia & Recursos , sediada em Fairfax, no estado energética e capacitação, apoiado pela USAID Brasil. L U M E ARQUITETURA Lume Arquitetura: E o que é a USAID? de lá para cá? Há registros de evolução cano gasta 77 minutos em um shopping Como trabalha a organização? na área? center, 38 vezes ao ano, e as compras Lisa Surprenant: A USAID é uma agência Lisa Surprenant: Muitas mudanças em shoppings nos Estados Unidos ultra- dos Estados Unidos da América voltada ocorreram após a crise de energia que passaram a marca de US$ 1 trilhão, uma para desenvolvimento internacional, que atingiu os Estados Unidos nos anos 70. década atrás, podendo-se perceber que trabalha há muito tempo com questões As companhias de hoje estão preocupa- a estratégia funciona! regionais e globais que afetam a mudança das com eficiência energética, com sua do clima. Seu objetivo principal é reduzir reputação, em serem “verdes” e bons Lume Arquitetura: Há algum exemplo a emissão de gases do efeito estufa de cidadãos corporativos. Os consumido- destas mudanças no varejo? várias maneiras, tais como encorajando res também mudaram. Os compradores Lisa Surprenant: As livrarias têm evoluído a eficiência energética e aumentando o de hoje mostram mais interesse do que para se adaptar aos shoppings modernos, uso de recursos de energia renovável. Ela nunca na eficiência da “cadeia de supri- mas os designers de iluminação, freqüen- trabalha através de organizações não- mento” e com as práticas de fabricação temente, não entendem suas necessida- governamentais americanas e brasileiras e das empresas das quais eles compram os des específicas. Iluminar uma livraria não companhias, formando parcerias estratégi- produtos. Junto a essas sutis mudanças é como outros tipos de loja, por exemplo, cas com agências governamentais, locais no mercado, estão alterações em projetos porque nela os produtos são dispostos e nacionais, para levantar recursos e au- de edificações e na arquitetura. verticalmente – e não horizontalmente. E porque livrarias de sucesso dependem mentar a colaboração em vários projetos. Lume Arquitetura: Em suas visitas ao Brasil, o que pode perceber no tratamento da questão da eficiência energética, especialmente voltada à iluminação? Lisa Surprenant: O Brasil tem feito grandes avanços, encorajando amplamente a eficiência energética. Agora é tempo de Hoje a iluminação mantém da movimentação em “volume” dos os consumidores entretidos obter lucro com um único livro, este não dentro do prédio, enquanto deve permanecer na loja mais do que seis semanas, e é responsabilidade de no passado, apenas arquitetos, engenheiros de iluminação e permitia a entrada segura vendas. Comerciantes de livros e desig- pesquisar os “mercados-alvo” que consomem grandes parcelas da energia, tais produtos. Considerando que para se vendedores “iluminar o caminho” para as ners de iluminação devem saber quem dos clientes. como prédios comerciais e varejistas. são os compradores e se eles estão sendo conduzidos à caixa registradora para Durante os recentes workshops de Arquitetonicamente, shoppings modernos fechar a compra. Pesquisas revelam que julho sobre “Eficiência Energética em Pré- possuem melhores sistemas mecânicos, 59% dos clientes planejam comprar um dios Comerciais”, realizados em Belém e estruturas, fachadas e isolamentos do livro específico quando entram em uma Florianópolis, a USAID, associada à ICF e à que aqueles do passado. A iluminação, livraria, ainda que 40% façam compras Eletrobrás, forneceram treinamentos, com atualmente, funciona mais para manter por impulso. Isso significa que as livra- o apoio de parceiros locais como o Sindi- os consumidores entretidos dentro do rias devem assegurar que seus clientes cato dos Lojistas do Comércio de Belém prédio, enquanto no passado, apenas encontrem suas compras planejadas e, ao (Sindilojas) e as Centrais Elétricas de Santa permitia a entrada segura dos clientes. mesmo tempo, estimulem as aquisições Catarina (CELESC). Esses workshops en- Há 40 anos, os shopping centers eram aleatórias. sinaram técnicas de eficiência energética “extrovertidos”, ou seja, apresentavam Com o advento dos shoppings temá- para prédios, com foco nos varejistas, maiores vias e áreas para estacionamen- ticos e de entretenimento do varejo, todos como centros comerciais e shopping cen- to. Hoje, shoppings e centros comerciais os vendedores estão buscando novas for- ter. Além, é claro, de treinamentos em áreas são “introvertidos”, com a idéia de manter mas de atrair clientes. Este é o motivo de de interesse dos profissionais designers de os consumidores dentro deles o maior grandes editores estudarem seus clientes. iluminação e arquitetos, como livrarias que tempo possível, aumentando as chances Eles sabem que, ao contrário do senso freqüentemente ancoram grandes centros de venda. Essa estratégia, de criar uma comum, “todos julgam um livro por sua comerciais e shopping center. “armadilha para os clientes”, foi o objetivo capa!” Em média, uma pessoa que folheia por trás do projeto original do primeiro livros gasta somente 8 segundos olhando Lume Arquitetura: A crise de energia está shopping do mundo e esse conceito se a capa, e 15 segundos observando a parte em pauta desde os anos 70. O que mudou mantém até hoje. Atualmente, o ameri- de trás. Para um designer de iluminação, L U M E ARQUITETURA 7 isto significa que você terá menos de 8 Mas para iluminar uma livraria de maneira e são voltados geralmente às mulheres, segundos para atrair a atenção de poten- apropriada, um arquiteto ou um lighting devem ser bem iluminados, mas não ciais compradores a apenas pegar o livro. designer deve freqüentemente superar sobreiluminados, no trajeto para a direita Em termos de iluminação, reduzir o tempo problemas na exposição dos produtos. do cliente, e não numa prateleira acima de percepção do comprador, aumenta as Algumas vezes, as prateleiras nas quais dos olhos do comprador. vendas da livraria. os livros estão dispostos não permitem uma distribuição uniforme de luz. De fato, Lume Arquitetura: Como essa iluminação Lume Arquitetura: O mercado varejista pode haver 75% de diminuição de luz afeta os clientes? brasileiro parece ter dificuldades em re- entre as prateleiras superiores e as infe- Lisa Surprenant: As livrarias se beneficiam solver a questão da iluminação de lojas. O riores. A quantidade real de luz incidindo da totalidade do espectro de iluminação, valor da conta de eletricidade representa sobre cada prateleira e as distâncias das isto é, para o nível correto de intensidade. uma parcela significativa dos seus custos, luminárias devem ser calculadas. Ao fazer Em níveis mais altos, os cones nos olhos e ainda existem muitos profissionais que projetos da loja ou da iluminação é crucial dominam, enquanto em níveis mais baixos insistem em instalar um “mar de lâmpa- medir a luz verticalmente, para verificar as de iluminação, os bastonetes tendem a das” nos tetos das lojas. Como atender condições reais em que as mercadorias dominar. Isso é importante saber, pois a o cliente e manter a iluminação como são vistas. acuidade visual é diferente entre nossos ferramenta de vendas? Lisa Surprenant: Vamos continuar com bastonetes e cones. Para uma visão agu- Níveis de iluminação as livrarias como exemplo. No Brasil, elas possuem dificuldades semelhantes às dos Estados Unidos, onde as vendas têm permanecido relativamente constantes, enquanto as despesas de operação para a maioria dos comerciantes aumentam cerca de 2% ao ano. proximidades dos níveis de visão fotópica, apropriados são a única via certa para as vendas. O arquiteto acima de 3 cd/m², e olhando diretamente para o objeto dentro de 2 graus do cone da fóvea. Se tiver luz forte, nossa acuida- ou lighting designer deve sempre de visual é reduzida, pois a íris se fecha superar problemas na exposição que significa que devemos evitar interiores Portanto, qualquer redução nos cus- e não podemos enxergar claramente. O sobreiluminados. dos produtos. tos de operação da loja será repassada Lume Arquitetura: Quais seriam os parâ- diretamente para o consumidor. As livrarias do Brasil também têm altas contas de Lume Arquitetura: Além disso, algo mais metros de iluminação apropriados? energia, com iluminação e climatização é necessário? Lisa Surprenant: Resumidamente, se- enquanto as vendas são relativamente Lisa Surprenant: Ter o conhecimento de riam: o bom nível de luz em termos de constantes. Atualmente, a iluminação quem compra e como eles se movem pela lux na superfície vertical dos livros, evi- excessiva, de fato, reduz as vendas. A livraria irá ajudar a aumentar as vendas. tando luz forte; lâmpadas sem cintilação; seguir explico por quê. Trajetos populares devem receber uma luminárias que distribuam luz de maneira atenção especial pelos designers de apropriada nas capas dos livros; cor apro- iluminação. priada das luzes de todas as lâmpadas e, Se a iluminação é muito clara, ofuscante ou brilhante, e os clientes desistem 8 çada para leitura, precisamos estar nas de folhear aleatoriamente um livro – o que Considere esses fatos: mulheres significa 40% de todas as vendas – os compram 68% de todos os livros. Pesqui- lucros potenciais são perdidos. E se livros sas mostram que a maioria das pessoas Todas as lâmpadas fluorescentes e revistas não são dispostos de maneira que entra em qualquer loja varejista olha devem usar reatores eletrônicos, e não que os consumidores possam encontrá- para a esquerda, mas vai para a direita! eletromagnéticos, para evitar cintilação. los, mesmo as compras planejadas não É por isso que as exposições das lojas Além de reduzir o uso de energia, um irão acontecer. Inversamente, se os níveis mais influentes devem estar à direita dos reator eletrônico pisca 50.000 vezes por de iluminação são baixos demais e os clientes quando eles entram na livraria. E segundo e por isso não é perceptível aos clientes têm que se esforçar para ver os se o livro é destinado ao público feminino, nossos cérebros, enquanto um reator produtos, eles também não serão vendi- vale lembrar que mulheres olham para bai- eletromagnético, que pisca 60 vezes por dos. se possível, inclusão de luz natural para o interior. xo e não para cima, segundo pesquisas. segundo, pode gerar dores de cabeça aos Níveis de iluminação apropriados Então, livros de culinária, por exemplo, leitores ou fadiga ocular. Brilho ou luz forte são a única via certa para as vendas. que trazem uma alta margem de lucro irá reduzir o tempo que um cliente fica em L U M E ARQUITETURA L U M E ARQUITETURA 9 uma livraria – o que reduzirá as vendas, aquece. Em livrarias, pode ocupar o lugar como já disse. das antigas cartolinas que mostravam os Além disso, estudos têm mostrado que as vendas aumentam em 25 % quan- pontos de vendas, que os clientes achavam desagradável e antiquado. do produtos estão dispostos usando a luz natural. Todavia, quando ela é introduzida Lume Arquitetura: Há alguma tecnologia em livrarias, deve-se levar em considera- mais nova do que essa? ção que a janela da frente irá reduzir em Lisa Surprenant: Existe o papel eletrôni- muito o valioso espaço da parede, que co, que funciona como um display ilumi- uma loja de livros necessita. Clarabóias nado, mas permite alterar e animar uma ou tubos de luz podem fornecer soluções mensagem. Utiliza eletroforese [processo razoáveis. de migração para os eletrodos de espécies que são carregadas eletricamente em Lume Arquitetura: Em suas experiências solução] para criar imagens que podem de projetos por vários lugares no mundo, o aparecer ou desaparecer graças a uma que pode nos dizer sobre a orientação da carga eletrônica. Como seu irmão EL, iluminação nas edificações? Qual seriam possui baixo consumo de energia, é fino e as tendências internacionais? leve. Porém, reflete luz ao invés de emitir! Lisa Surprenant: Alguns produtos podem Assim, para os lojistas, mesmo sob ilumi- não ser novidade para o Brasil, como as nação ambiente das lojas ou shopping lâmpadas compactas fluorescentes ou centers, o papel eletrônico pode ser visto os reatores eletrônicos, mas seu uso no e não consome eletricidade quando não ambiente varejista deve ser aumentado, animado ou ativado. Os consumidores de porque a seleção de produtos mais ba- hoje são mais inteligentes, sem tempo livre ratos, como os reatores magnéticos, irá e acostumados com a Internet. Não que- elevar o custo da energia com o tempo, rem ver produtos tradicionais impressos e poderá, na verdade, reduzir a venda do em mostradores tradicionais. Eles querem produto dramaticamente quando com- letreiros que se movem e entretenimento, pradores potenciais forem levados a sair não somente serviço! da loja devido ao efeito de “flicker”, ou mesmo luz intensa não desejada fazendo Lume Arquitetura: Alguma última mensa- com que a busca aleatória do produto se gem para seus colegas de profissão? torne desconfortável. Lisa Surprenant: Vendedores, arquitetos Outros produtos, como tubos de luz e engenheiros de iluminação devem se que levam iluminação do dia pelo teto e a manter atualizados, pois os profissionais distribuem pelo espaço, são mais recentes estão atuando em um mundo cada vez do que o reator. Alguns produtos são notá- mais globalizado. Acompanhar toda mu- veis, como a eletroluminescência - EL. Os dança e permanecer informado sobre as mostradores EL são aparelhos eletrônicos novidades é difícil. Mas, como bons ad- em estado sólido com uma tela de impres- ministradores de nosso ambiente global, são composta de uma “lâmpada”, que é simplesmente devemos fazê-lo. um substrato de luz, e um controlador que Não podemos continuar iluminando diz ao grupo de sinais qual a seqüência a produtos com uma antiga lâmpada de iluminar. É composto de uma fina camada filamento de 128 anos, que era baseada fosforescente ou folha plástica impressa em uma idéia de 1829! Isso seria como com superfície condutora. Quando uma confiar em telégrafos ao invés de e-mail! corrente alternada é aplicada, o fósforo se Nós podemos fazer melhor. ilumina. Você provavelmente já viu isso no painel do seu carro. O EL é flexível e não 10 L U M E ARQUITETURA Colaboraram: Isabela Barroso, Lúcio de Medeiros, Rodrigo Casarin e Wilson Teixeira. L U M E ARQUITETURA 11