Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa
Lato Sensu em Língua Inglesa
Trabalho de Conclusão de Curso
A REPORTAGEM TRADUZIDA:
TRANSFORMAÇÕES EM TEXTOS JORNALÍSTICOS
Autor: José Henrique da Silva Júnior
Orientadora: MSc. Michelle de Abreu Aio
Brasília - DF
2014
JOSÉ HENRIQUE DA SILVA JÚNIOR
A REPORTAGEM TRADUZIDA:
TRANSFORMAÇÕES EM TEXTOS JORNALÍSTICOS
Monografia apresentada ao Programa de PósGraduação Lato Sensu em Língua Inglesa da
Universidade Católica de Brasília como
requisito parcial para obtenção do título de
Especialista em Língua Inglesa.
Orientadora: MSc. Michelle de Abreu Aio
Brasília
2014
Monografia de autoria de José Henrique da Silva Júnior, intitulada “A REPORTAGEM
TRADUZIDA: TRANSFORMAÇÕES EM TEXTOS JORNALÍSTICOS”, apresentada como
requisito parcial para obtenção do certificado de Especialista em Língua Inglesa pela
Universidade Católica de Brasília, em 03/12/2014, defendida e/ou aprovada pela banca
examinadora abaixo assinada:
Profa. MSc. Michelle de Abreu Aio
Orientadora
Pós-Graduação Lato Sensu em Língua Inglesa – UCB
Profa. Esp. Georgina Maria Duarte Campos
Pós-Graduação Lato Sensu em Língua Inglesa – UCB
Prof. MSc. Wallace Soares Barboza
Pós-Graduação Lato Sensu em Língua Inglesa – UCB
Brasília - DF
2014
AGRADECIMENTOS
A Deus pela benção na realização de mais um projeto e à minha família e amigos que
sempre me apoiam incondicionalmente acreditando nos meus sonhos.
À minha orientadora Profa. MSc. Michelle de Abreu Aio, que desde nosso primeiro
contato mostrou-se sempre disponível a ouvir, aconselhar, incentivar, inspirar.
A outros professores da Universidade Católica de Brasília que foram também
especiais para meu crescimento profissional, em especial à Profa. Esp. Georgina Maria Duarte
Campos, à Profa. MSc. Maria Fernanda Rodrigues e ao Prof. Esp. Henrick Oprea.
À minha eterna (des)orientadora, Profa. Dra. Irene Ruth Hirsch (in memoriam), que
durante os meus últimos anos de graduação na Universidade Federal de Ouro Preto foi de
significante importância para meu direcionamento aos Estudos da Tradução e Literatura.
Finalmente, a outros professores da UFOP que trabalharam na minha formação
profissional e também de valores pessoais, em especial à Profa. Dra. Glória Maria Guiné de
Mello, ao Prof. Dr. Sérgio Raimundo Elias da Silva, à Prof. Dra. Maria Clara Versiani Galery,
ao Prof. Dr. José Luiz Vila Real Gonçalves, à Prof. Dra. Adriana Silva Marusso.
RESUMO
Referência: SILVA JÚNIOR, José Henrique. Título: A REPORTAGEM TRADUZIDA:
TRANSFORMAÇÕES EM TEXTOS JORNALÍSTICOS. 2014. 64. Pós-Graduação Lato
Sensu em Língua Inglesa, Universidade Católica de Brasília, Brasília-DF, 2014.
Este trabalho tem como objetivo analisar as transformações ocorridas em textos jornalísticos
quando são traduzidos de um contexto linguístico e cultural para outro. O objetivo geral é
levantar a hipótese de que textos jornalísticos são transformados quando traduzidos, seja pelo
tradutor, pelo jornalista ou pelos editores e revisores. Para essa análise, foi feita uma seleção e
um cotejamento analítico de reportagens publicadas na Folha de São Paulo, traduzidas dos
originais em inglês do The New York Times. A seguir, os procedimentos adotados na tradução
desse gênero textual foram identificados e classificados de acordo com conceitos sugeridos
por Hursti (2001), e as intervenções envolvidas na transformação das reportagens foram
discutidas levando em consideração as teorias de Nord (1991) e Esser (1998) através da
interface entre tradução e jornalismo proposta por Zipser (2002). O principal objetivo é tentar
comprovar que há intervenções nos textos jornalísticos traduzidos e que essas modificações
textuais podem não ser apenas transposições linguísticas, mas que atendem a algum propósito
e que podem interferir no entendimento do texto. Ao cotejar as reportagens, pode-se perceber
que o mesmo fato noticioso foi apresentado sob diferentes perspectivas por elas.
Palavras-chave: Jornalismo. Tradução. Tradução Jornalística. Transformações.
ABSTRACT
This paper aims at analyzing the changes carried out by press translations when news reports
are translated from one linguistic and cultural context to another one. The overall objective is
to raise the hypothesis that news reports are transformed when translated, either by a
translator, a journalist or by the editors and revisers. For this analysis, news reports published
in Folha de São Paulo were selected and contrasted with their original published in English in
The New York Times. Then, the procedures used to translate this sort of texts were identified
and classified according to concepts suggested by Hursti (2001), and the interventions
involved in the transformation of the reports were discussed taking into consideration the
theories of Nord (1991) and Esser (1998) through the interface between translation and
journalism proposed by Zipser (2002). The main objective of this paper is to try to provide
evidences that there are interventions on the translated news reports and also that these textual
changes may not be only linguistic transpositions, but that they serve to some purpose and
may interfere with the understanding of the text. After contrasting the news reports, it was
realized that the same news fact was presented under different perspectives by them.
Keywords: Journalism. Translation. Press Translation. Transformations.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Modelo de Christiane Nord ………....………………………………………........ 15
Figura 2: Modelo Pluriestratificado Integrado ......……………………...………………..... 19
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ………......…………………………………………...…………………...... 8
CAPÍTULO 1 – TRADUÇÃO E JORNALISMO
1.1 – INTERFACE ENTRE TRADUÇÃO E JORNALISMO ................................... 12
1.2 – PROCESSO DE TRADUÇÃO JORNALÍSTICA ............................................. 23
CAPÍTULO 2 – METODOLOGIA
2.1 – O CORPUS: APRESENTAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO .............................. 29
2.2.1 – A Folha de São Paulo ............................................................................ 31
2.2.2 – O The New York Times .......................................................................... 32
2.2 – PROCEDIMENTO METODOLÓGICO ........................................................... 33
CAPÍTULO 3 – DISCUSSÃO: CONTRASTES E DIFERENÇAS …………………...... 34
CONSIDERAÇÕES FINAIS ……………………………………………………............... 46
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ………………...………………………….........… 48
ANEXOS A ................………………………....................................................................… 50
ANEXOS B ................………………………....................................................................… 58
8
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, o rápido desenvolvimento dos meios de comunicação tem
transformado a mídia. Em contextos culturais, econômicos, políticos, sociais ou simplesmente
de entretenimento. O fluxo de informação tem rompido barreiras culturais e linguísticas em
tempo real por meio da notícia impressa, televisiva ou online. Como um dos influentes meios
de comunicação, os textos jornalísticos reproduzem fatos da realidade e também podem
construir várias versões deles. A informação e os fatos correntes são transmitidos a várias
partes do mundo rapidamente, muitas vezes com precisão em detalhes da notícia, clareza e
credibilidade que os jornais procuram trazer consigo.
As notícias internacionais chegam ao alcance do público de diversos países por meio
de agências de notícia, emissoras de rádio ou TV, correspondentes ou enviados especiais,
dentre outros. Mas em que língua essas notícias são propagadas? No campo do noticiário
internacional, várias línguas podem ser consideradas globais – já que estão presentes no dia a
dia de diferentes sociedades e são as mais faladas pelo mundo – como o inglês, o espanhol, o
francês, o chinês, o alemão, o português e até o árabe.
A considerável variedade de línguas pode ser uma barreira na propagação de
informações pelo mundo. Sendo assim, a tradução pode ser vista como um meio importante
para transpor obstáculos linguísticos, estando diariamente presente nos trabalhos jornalísticos
com o intuito de ampliar o mercado da mídia e de transformar o noticiário em uma
mercadoria global. O uso crescente da tradução pela maioria das organizações dedicadas ao
jornalismo reflete bem a sua função estratégica. Dessa forma, por trás do fato transmitido em
diversos registros linguísticos, pode haver a atuação de um tradutor ou, em muitos casos, de
um jornalista com conhecimento das línguas em questão que atuará na tradução de diversos
textos. Com o estabelecimento do jornalismo moderno e global, e a tradução como um
elemento importante na circulação da notícia num mundo globalizado, a interface tradução e
jornalismo se torna um objeto de pesquisa que cresce no campo de pesquisas científicas (cf.
ZIPSER, 2002).
Nesta investigação de como as notícias internacionais são traduzidas, nos deparamos
com a utilização de diversas estratégias empregadas na transformação do noticiário, presentes
no dia a dia dos meios de comunicação. Essas estratégias têm uma finalidade específica
quando são empregadas na tradução de textos jornalísticos a serem divulgados e o tradutor
9
tem que fazer certas adaptações para atender preferências específicas de estilo (BASSNETT,
2006).
Partindo desse princípio, o objetivo desta pesquisa é levantar a hipótese de que os
textos jornalísticos são transformados quando traduzidos, seja pelo tradutor ou jornalista que
trabalha com o texto, ou ainda pelos editores e revisores. Como em vários casos não se tem
conhecimento de quem seja o agente real dessas transformações na tradução, o que será
considerado para análise e discussão nessa pesquisa é o resultado do processo tradutório em
si. Assim, será considerado tanto jornalista quanto tradutor como sendo o agente
transformador do texto na tradução, quando a eles me referir ao longo do texto.
Consequentemente, outro objetivo é analisar quais escolhas são feitas quando uma
notícia é levada de um contexto linguístico e cultural para outro, como e quando essas
escolhas são feitas e, principalmente, as questões relacionadas a tais escolhas. Seja para
omitir ou incluir informações, torná-las mais explícitas ou implícitas, seja pelo seu
enquadramento de acordo com realidades culturais, políticas e sociais distintas, a
transformação do texto pela tradução pode dar-lhe outros significados e até levar o leitor a
diversas conclusões, que podem não ser mais as que o texto propunha no idioma original.
Vale ressaltar que quando uma notícia é divulgada, há uma intenção por trás disso,
intenção essa que também ocorre na sua tradução para futura divulgação em outros países, daí
a relevância de se analisar tais transformações. Gambier (2006) destaca que textos de mídia,
além de mostrarem a realidade, podem ilustrar outras versões construídas a partir deles e que,
ao analisar tais textos, pode-se entender como e quando determinadas escolhas são feitas ao
veiculá-los para o leitor.
A pesquisa foi dividida em três capítulos. No primeiro será apresentado o
embasamento teórico, constituído de abordagens feitas pelo Estudo do Jornalismo e pesquisas
na área de Estudos da Tradução. Considerando a amplitude de possibilidades na abordagem
da tradução jornalística, foram utilizados diversos trabalhos, tais como: na área de Estudos da
Tradução, o modelo de Christiane Nord (1991) e as considerações de Susan Bassnett (2006);
com relação ao Estudo do Jornalismo em ambiente internacional, o modelo de Frank Esser
(1998 apud ZIPSER, 2002); como ponto de intersecção entre Tradução e Jornalismo, a tese de
doutorado de Meta Elisabeth Zipser (2002) e os trabalhos de Yves Gambier (2006), assim
como os conceitos estabelecidos por Kristian Hursti (2001) na transformação de notícias
traduzidas em meio comunicativo; além de outras referências que constam da bibliografia.
No segundo capítulo será feito um panorama da metodologia adotada na pesquisa
através da apresentação e caracterização do corpus e do procedimento metodológico. Foram
10
utilizadas duas reportagens publicadas no jornal brasileiro Folha de São Paulo, no ano de
2014, traduzidas de originais em inglês publicados no New York Times para o contexto
americano, no mesmo ano.
O terceiro e último capítulo é dedicado à discussão proposta, que parte de um
cotejamento analítico do corpus selecionado feito através de tabelas, Anexo A (p. 50) e
Anexo B (p. 58), identificando e classificando os procedimentos adotados na tradução desse
gênero textual, levando em consideração leitor de cada jornal e também o contexto cultural no
qual estão inseridos. As intervenções envolvidas na transformação dos textos do corpus serão
discutidas assim como uma reflexão sobre tais modificações. Consequentemente, serão
apresentadas as considerações a respeito do resultado das análises. Dessa forma, pretendemos
trabalhar com a hipótese de que há intervenções nos textos jornalísticos traduzidos,
demonstrando que essas modificações textuais podem não ser apenas transposições
linguísticas, e sim atender a algum propósito interferindo talvez no entendimento geral do
texto.
Finalmente, algumas considerações finais sobre as hipóteses levantadas serão
apresentadas assim como os seus resultados, assim como sobre a pertinência de tal trabalho
com a intenção de colaborar no incentivo e aprofundamento de pesquisas que envolvam as
duas áreas: Tradução e Jornalismo.
11
CAPÍTULO 1 – TRADUÇÃO E JORNALISMO
O Jornalismo e a Tradução são áreas conceituadas e consolidadas, e no que se diz
respeito à interface tradução-jornalismo, hipóteses, análises e questionamentos no meio
acadêmico são levantados. Essa interface tem se tornado uma perspectiva dentro dos Estudos
da Tradução, sendo interessante analisar como o jornalismo atua na sociedade e como a
sociedade recebe tais fatos transmitidos, que foram divulgados inicialmente em outros
contextos linguísticos.
Em 2006, foi realizado na Universidade de Warwick, Reino Unido, um seminário
internacional dedicado às investigações sobre a “[...] natureza multifacetada de como as
notícias internacionais são traduzidas [...]”1,2 (BASSNETT, 2006, p. 05). A conferência,
intitulada Translation in Global News: proceedings of the conference held at the University of
Warwick foi composta de uma série de apresentações sobre pesquisas que envolvem a
tradução na mídia global, com a participação de estudiosos de diversas áreas tais como Mídia
e Jornalismo, Globalização e Estudos da Tradução, além de jornalistas que trabalham com
tradução e jovens pesquisadores interessados nessa interface.
Na introdução da conferência publicada posteriormente, Susan Bassnett, uma das
editoras, observa que o campo da tradução jornalística tem se tornado atraente e que, com a
realização desses seminários, se projeta como uma área de foco na seleção de tópicos para
pesquisas acadêmicas (BASSNETT, 2006). Partindo desse princípio, esta pesquisa aborda
trabalhos dedicados aos Estudos da Tradução e ao Jornalismo, principalmente através do
modelo de análise textual proposto por Nord (1991), do modelo de Esser que aborda fatores
que influenciam o jornalismo (1998), assim como a interface das duas áreas proposta por
Zipser (2001).
1
2
“Todas as traduções de trechos de obras estrangeiras nesta monografia são de nossa responsabilidade.”
[…] to investigate the multifaceted nature of how global news comes to be translated […]
12
1.1 – INTERFACE ENTRE TRADUÇÃO E JORNALISMO
A tradução tem desfrutado de um constante e notável crescimento no interesse de
diversos estudiosos de áreas como Linguística, Estudos Literários, Culturais e etc. Diferentes
termos têm sido utilizados em escritos literários relacionados à tradução ou ao processo
tradutório, que fazem referências à “arte” ou ao “ofício” da tradução, e ainda “princípios”,
“fundamentos” ou “filosofia” da tradução. Com o desenvolvimento de teorias sobre a
tradução e com a concretização de uma disciplina emergente, tida como ciência por alguns
teóricos, o termo “Estudos da Tradução” surge como o mais apropriado para designá-la
(HOLMES, 1988).
Os Estudos da Tradução são uma área do conhecimento interdisciplinar que se
relacionam com vários campos de estudo, por exemplo: Literatura Comparada, História,
Linguística, Filologia, Filosofia, Semiótica, Terminologia, Estudos Culturais e Sociais, dentre
outras áreas. Têm como objetivos principais descrever como o fenômeno da tradução e do
processo tradutório se manifesta e estabelecer princípios gerais por meio de como esse
processo pode ser explicado. Dois ramos relacionados aos seus objetivos podem ser
determinados, o dos Estudos Descritivos da Tradução (Descriptive Translation Studies – DTS
ou Translation Description – TD) e o dos Estudos Teóricos da Tradução (Theoretical
Translation Studies – ThTS ou Translation Theory – TTh) (HOLMES, 1988).
Dentre os diversos teóricos que se dedicam à área de Estudos Teóricos da Tradução,
destaco Christiane Nord que, em seu livro Text Analysis in Translation (1991), apresenta um
modelo funcionalista para análise textual voltado à tradução, que serve como base teórica para
a instrução de tradutores e para a prática de tradução. Também é utilizado com o intuito de
auxiliar o ensino de tradução, justificar escolhas, sistematizar e resolver problemas previstos
no trabalho de tradução e entender suas normas mais claramente.
O modelo de análise textual de Nord pode ser aplicado a textos traduzidos ou não que
tenham em comum os seguintes elementos: o mesmo meio (revista, jornal, etc.), o mesmo
assunto e línguas distintas. Segundo Nord, o modelo preocupa-se com os universos da cultura,
incluindo linguagem, comunicação e tradução (ZIPSER, 2002).
Nord (1991, p. 4) entende a tradução como um “[...] processo de transferência de texto
intercultural[...]”3 (grifos da autora), ou seja, ela é marcada culturalmente, e a comunicação
ocorre entre as duas culturas envolvidas na transmissão da mensagem. Para o conceito de
3
[…] process of intercultural text transfer […]
13
tradução, a autora utiliza a abordagem funcional, isto é, o foco na função ou nas funções dos
textos e das traduções. De acordo com Nord (1997), a abordagem funcional para a tradução
foi primeiramente sugerida por Katharina Reiss (1971) que, embora ainda dentro da teoria
baseada na equivalência, é considerada o ponto inicial para a análise da tradução. Reiss
propõe análises de tradução baseadas nas relações funcionais entre o texto-fonte e o textometa, sendo que a abordagem de cunho funcionalista se desenvolve como uma das
orientações mais utilizadas na formação de tradutores.
Partindo desse pressuposto, Nord desenvolveu um modelo de tradução baseado nas
relações entre o texto-fonte e o texto-meta. Em sua publicação, a autora considera os aspectos
culturais como parte integrante dos textos e merecedores de atenção, e ainda acrescenta a
maneira com a qual os tradutores interpretam a cultura-fonte, dependendo do propósito da
tradução:
Traduzir significa comparar culturas. Tradutores interpretam o fenômeno da culturaalvo considerando seus próprios conhecimentos daquela cultura específica, de dentro
ou de fora, dependendo se a tradução é da ou para a língua e cultura nativas do
tradutor (NORD, 1997, p. 34).4
Na perspectiva interativa de Nord, a tradução é vista como um processo que se realiza
no interior da linguagem e através dela, sendo a função do texto, aqui entendida como a forma
com que o texto irá “funcionar” na língua/cultura de chegada, o pressuposto para uma
situação comunicativa. Assim, “Um texto é uma ação comunicativa que pode ser realizada
pela combinação de meios verbais e não-verbais” (Nord, 1991, p. 16).5 Portanto, os textos
trazem consigo marcações culturais.
O modelo de Nord sugere uma estrutura sistemática para análise dos fatores que
envolvem e compõem o texto, apresentando os fatores internos e externos ao texto. Utilizarei
esse modelo no trabalho com o corpus, pois a análise desses fatores possibilita a identificação
dos elementos do texto-fonte e do texto-meta com base na comunicação intercultural.
Segundo Nord (1991, p. 42), os fatores extratextuais
[...] são analisados por meio de perguntas sobre o autor ou o emissor do texto
(quem?), a intenção do emissor (para quê?), o destinatário ou receptor do texto (para
quem?), o meio ou canal pelo qual o texto é comunicado (qual meio?), o lugar
(onde?) e o tempo (quando?) da produção e recepção do texto, e qual o motivo (por
4
Translating means comparing cultures. Translators interpret source-culture phenomena in the light of their
own culture-specific knowledge of that culture, from either the inside or the outside, depending on whether the
translation is from or into the translator‟s native language-culture.
5
A text is a communicative action which can be realized by a combination of verbal and non-verbal means.
14
quê?) da comunicação. Depois dessas sete perguntas respondidas, será possível
atender a uma última questão que se refere à função que o texto pode atingir (com
qual função?).6
Já os fatores intratextuais
[...] são analisados pelas perguntas sobre o assunto do texto (sobre qual tema?), a
informação ou conteúdo presentes no texto (o quê?), as pressuposições feitas pelo
autor (o que não?), a composição ou construção do texto (em qual ordem?), os
elementos não-linguísticos ou paralinguísticos do texto (usando quais elementos nãoverbais?), as características lexicais (em quais palavras?) e estruturas sintáticas (qual
tipo de oração?) encontradas no texto, e as marcas suprassegmentais de entonação e
prosódia (em qual tom?).7
Uma última questão (qual o efeito do texto?) refere-se à interdependência ou à
interação dos fatores intra e extratextuais.
6
Extratextual factors are analysed by enquiring about the author or sender of the text (who?), the sender‟s
intention (what for?), the audience the text is directed at (to whom?), the medium or channel the text is
communicated by (by which medium?), the place (where?) and time (when?) of text production and text
reception, and the motive (why?) for communication. The sum total of information obtained about these seven
extratextual factors may provide an answer to the last question, which concerns the function the text can achieve
(with what function?).
7
Intratextual factors are analysed by enquiring about the subject matter the text deals with (on what subject
matter?), the information or content presented in the text (what?), the knowledge presuppositions made by the
author (what not?), the composition or construction of the text (in what order?), the non-linguistic or
paralinguistic elements accompanying the text (using which non-verbal elements?), the lexical characteristics
(in which words?) and syntactic structures (in what kind of sentences?) found in the text, and the suprasegmental
features of intonation and prosody (in which tone?).
15
MODELO DE CHRISTIANE NORD
TEXTO FONTE:
TEXTO META:
TEXTO-FONTE
QUESTÕES
TRADUÇÃO
DE
TEXTO-META
FATORES EXTERNOS AO TEXTO
Emissor
Intenção
Receptor
Meio
Lugar
Tempo
Propósito (motivo)
Função textual
FATORES INTERNOS AO TEXTO
Tema
Conteúdo
Pressuposições
Estruturação
Elementos não-verbais
Léxico
Sintaxe
Elementos supra-segmentais
Efeito do texto
Fig. 1. O Modelo de Christiane Nord (1991) – Tradução de Zipser (2002, p. 50)
16
A tradução procura atender a fatores situacionais da recepção do texto traduzido, tais
como o público idealizado, tempo e lugar da recepção, meio, etc., sendo que o tradutor pode
optar por mudar elementos não-verbais para elementos verbais e vice-versa durante o
processo tradutório, dependendo da função e das estratégias de produção.
Nord (1991, p. 122) aponta que “As características do léxico usado em um texto
representam uma parte importante em todas as abordagens de análise de textos orientada para
a tradução”.8 A autora ainda destaca que “A escolha lexical em um texto é determinada por
ambos os fatores extratextuais e intratextuais.” 9.
Quanto à influência dos elementos extratextuais no léxico, Nord explica que cada um
pode demonstrar certo impacto sobre a escolha de determinados itens lexicais, e se baseia na
linha de pesquisa que intersecta a linguística do texto com os modelos funcionalistas da
linguagem, e também na Teoria da Comunicação, que são estudos de análise textual
relevantes para a tradução. Dentre os vários fatores que atuam no processo tradutório, a autora
destaca a noção de função do texto:
[...] o ponto de partida teórico-textual para uma teoria funcional da translação é o
reconhecimento de que os textos são instrumentos de comunicação inseridos numa
situação comunicativa e constituem, assim, parte integrante de um „jogo
comunicativo‟[...] (NORD, 1998, p. 144 apud ZIPSER, 2002, p. 38).
Zipser (2002), ao propor uma interface entre tradução e jornalismo, destaca o efeito do
texto e, ainda, o papel do destinatário da mensagem nesse processo comunicativo, sendo ele
de fundamental importância na recepção da mensagem:
[...] O emissor inicia o processo, mas não o faz sozinho. Já no momento de definir o
objetivo da tradução, ele se pauta pelo conhecimento que tem de seu destinatário e
pelo efeito que nele quer produzir. Trata-se de um processo dinâmico, no interior do
qual Nord define o conceito de Loyalität, ou de lealdade ao destinatário, para
diferenciá-lo do conceito de Treue, ou fidelidade ao texto-fonte. [...], também para o
funcionalismo de Nord a tradução é um processo eminentemente prospectivo, isto é,
voltado para frente, para o destinatário que quer atingir (ZIPSER, 2002, p. 39).
A complexidade na produção e tradução textual envolve a tomada de uma série de
decisões, que levam em consideração todas as variáveis expostas no modelo de Nord e,
também, as relações de interdependência entre elas. No que concerne à relação emissorreceptor, Zipser destaca ainda a possibilidade de haver alguns problemas:
8
The characteristics of the lexis used in a text play an important part in all approaches to translation-oriented
text analysis.
9
The choice of lexis is determined by both extra and intratextual factors.
17
Some-se a isso o fato de essa mesma dinâmica de interação do produtor textual – seja
o tradutor ou o jornalista – e seu destinatário – o leitor do texto traduzido ou o leitor
do texto jornalístico – nem sempre acontece isenta de problemas (ZIPSER, 2002,
p.43).
Um dos objetivos do modelo proposto por Nord é oferecer a oportunidade de se ter
uma base para a resolução desses problemas. A princípio, seu modelo foi criado para o ensino
da tradução e, consequentemente, para a análise do processo tradutório com a finalidade de se
encontrar soluções para os possíveis problemas encontrados no processo. Sendo assim, Nord
comenta seu próprio modelo:
O modelo de análise textual relevante para a tradução, tal como inicialmente definido,
deve ser utilizado nas aulas de tradução, e deve contribuir para a eleição de critérios
de seleção de textos para exercícios, para sistematização de problemas de tradução e
procedimentos para suas soluções, para o controle do progresso da aprendizagem nas
aulas de tradução, bem como para a avaliação das soluções de tradução (NORD, 1988,
p. 165 apud ZIPSER, 2002, p. 47).
O modelo proposto por Nord, além de servir ao ensino de tradução, proporciona ao
tradutor uma visão ampla do texto-fonte e do processo tradutório, com todos os fatores
envolvidos no processo. Tal trabalho foi importante para minha pesquisa no trato com os
textos-fonte, assim como nas análises dos seus respectivos textos de chegada, partindo dos
elementos externos ao texto para os níveis internos, sendo que a abordagem de ambos
estabelece relações estreitas que ajudam na determinação de tais fatores.
A interação entre fatores ligados ao texto proposta por Nord também é destacada por
Esser (1998) quando apresenta um modelo de estudo do jornalismo internacional no qual as
diversas esferas que influenciam na criação do texto jornalístico interagem entre si e se
condicionam. Sendo assim, antecipo o ponto de intersecção criado por Zipser (2002) em sua
tese de doutorado entre os dois teóricos citados, e que foi utilizado nessa pesquisa:
Essa mesma dinâmica de interação é apontada por Esser (1998) em seu modelo: as
várias esferas por ele descritas interagem e se condicionam reciprocamente. Qualquer
alteração num desses níveis define necessariamente uma nova constelação de fatos.
Eis aqui, mais uma vez, um ponto de confluência entre os dois teóricos e seus
modelos, que reforça a necessidade de, em tradução, se trabalhar de forma
interdisciplinar (ZIPSER, 2002, p. 51).
O jornalista e acadêmico alemão Frank Esser desenvolveu diversas pesquisas,
destacando-se publicações relacionadas à comunicação em massa, à xenofobia, ao jornalismo
comparado e a escândalos. Em sua tese de doutorado compara o jornalismo inglês com o
18
alemão, trabalho esse publicado como “Die Kräfte hinter den Schlargzeilen. Englischer und
deutscher Journalismus im Vergleich (As forças por trás das manchetes. Comparação entre o
jornalismo inglês e alemão)” (ZIPSER, 2002, p. 15). Esser faz análise entre a relação de
interculturalidade que envolve o jornalismo dos dois países e as várias maneiras que
influenciam o jornalismo, identificando fatores que conferem ao jornalismo de cada país uma
identidade nacional e cultural próprias. Zipser destaca que “Tal contribuição, a nosso ver, é
tanto mais importante, pois foi exatamente o trabalho de Esser que permitiu o estabelecimento
de uma ponte entre os estudos jornalísticos e os tradutológicos a partir da perspectiva
cultural.” (ZIPSER, 2002, p. 16).
Como ponto de partida em sua pesquisa e apresentação de seu modelo, Esser
subordina o estudo do jornalismo a diversos fatores:
O ponto de partida dessa direção de pesquisa (e também desse trabalho) é o
reconhecimento de que o jornalismo de cada país é marcado pelas condições
emoldurais sociais gerais, por fundamentos históricos e jurídicos, limitações
econômicas, bem como por padrões éticos e profissionais de seus agentes (ESSER,
1998, p. 21 apud ZIPSER, 2002, p. 18).
Como se trata de um estudo comparativo do jornalismo alemão com o inglês, Esser
acredita que os fatores que exercem influência no jornalismo, assim como características
culturais e nacionais de cada país, podem ser identificados a partir de estudos comparativos
internacionais. Segundo o autor:
Somente a comparação internacional pode esclarecer quais fatores de influência
marcam e constituem o fazer jornalístico, que relação esses fatores guardam entre si e
como podem ser avaliados (ESSER, 1998, p. 18 apud ZIPSER, 2002, p. 20).
19
Esfera de estrutura da mídia,
níveis normativos – econômico
e jurídico (parâmetros de
orientação parcial do sistema)
Esfera social
Moldura histórico-cultural
 Liberdade de imprensa,
história da imprensa e autoimagem da imprensa.
 Tradição jornalística e
conceito de objetividade.
 Cultura esfera política.
 Condições determinantes da
esfera político-social.
Os fatores dos
vários níveis
influenciam-se
num processo de
reciprocidade
complexo
 Condições econômicas do
mercado e mídia.
 Direito da imprensa.
 Parâmetros éticos profissionais
e de autocontrole da imprensa.
 Sindicatos, associações.
 Sistema de formação do
jornalista.
Os fatores das
camadas externas
determinam a natureza
e atuação jornalística
dos elementos
atuantes da mídia, no
centro
Os fatores das
camadas externas
impedem que temas e
valores subjetivos se
cristalizem – sem
prévia filtragem – nos
conteúdos da mídia
Esfera institucional, nível
organizacional (de ordem
institucional):
Esfera subjetiva, níveis
individuais (esfera de
atuação):
 Retrato da profissão e perfil de
atividades.
 Estrutura organizacional e de
distribuição de competência na
redação e editoração.
 Procedimentos de trabalho na
redação, controle de redação e
mecanismos de socialização.
 Tecnologia de redação.
 Valores subjetivos e
postura política.
 Tópicos profissionais e de
natureza dos papéis
desempenhados.
 Profissionalização.
 Posição demográfica.
Interação com e
atuação sobre outros
sistemas sociais
Fig. 2. Fatores de Influência no Jornalismo: Modelo Pluriestratificado Integrado ou “metáfora
da cebola” de Frank Esser (1998, p.27) – Tradução de Zipser (2002, p. 24)
20
Como justificativa ilustrativa de seu modelo apresentado acima, Esser usa uma
metáfora, assemelhando-o à estrutura de uma cebola:
Houve várias tentativas de identificar e classificar esses fatores de influência. Uma
maneira simples de classificação desses fatores de influência é a “metáfora da cebola”.
Comparamos o jornalismo – retomando a ideia de Maxwell McCombs – com uma
cebola, sendo que cada camada da cebola representa um fator de influência do fazer
jornalístico (ESSER, 1998, p. 21 apud ZIPSER, 2002, p. 23).
Esser reconhece que o jornalismo de cada país é influenciado por diversos fatores, e
estabelece essas influências através de esferas ilustradas naquele que ele chama de Modelo
Pluriestratificado Integrado. Essas esferas são dividas em níveis: o nível de esfera social,
incluindo aspectos histórico-culturais e condições determinantes na esfera político-social; o
nível institucional e organizacional, que engloba aspectos práticos do fazer jornalístico e o
retrato da profissão; o nível de estrutura da mídia em si, com as normas ditadas pelos
setores econômico e jurídico com relevância para a ética profissional; e por fim, o nível
subjetivo, que se refere à atuação profissional do indivíduo, sua postura e interação em seu
grupo de atuação.
A partir dessas esferas, os aspectos sociais, culturais, políticos e econômicos se
mostram interligados no âmbito do jornalismo e sofrem influências entre si, sendo
particularmente claras quando da atuação jornalística em contexto situacional e cultural
diferenciados:
Os vários níveis encontram-se numa estreita relação de interação, influenciam-se
reciprocamente, nenhum fator atua isoladamente, mas desenvolve sua influência
somente em conjunto com as demais forças. As quatro esferas moldam o fazer
jornalístico (ESSER, 1998, p. 26, apud ZIPSER, 2002, p. 27).
O jornalismo assumiu o papel de divulgador das transformações social, econômica e
política ocorridas no mundo, fazendo parte de uma estrutura social com ligação estabelecida e
influenciando a sociedade. O princípio básico do jornalismo é a sua função informativa, tendo
comprometimento de informar os fatos ocorridos com veracidade e de levar em consideração
características que diferenciam línguas e culturas diferentes (ZIPSER, 2002).
Esser nos leva a questionar a visão consensual do compromisso com a neutralidade no
meio jornalístico, noção similar à visão da tradução isenta (literal) que desconsidera o
dinamismo da linguagem e os fatores que influenciam o processo de formação de sentido nas
diferentes culturas. Nesse sentido, “[...] as esferas apresentadas no modelo de Esser são as
21
diretrizes dessa escritura, principalmente em contexto internacional, à medida que ajudam a
explicar e justificar diferentes enfoques e abordagens dados à notícia.” (ZIPSER, 2002, p. 31).
O modelo de Esser apresenta os elementos que nos permite caracterizar questões
explícitas da escritura e da tradução jornalística, e não só explica como também justifica os
diferentes enfoques e abordagens dados à notícia, apresentando parâmetros que condicionam
tanto a avaliação como a interpretação dos fatos que norteiam o trabalho dos jornalistas. Em
seu trabalho, ele postula que somente em estudos comparativos internacionais podem ser
identificados efetivamente os fatores de influência que permitem que o jornalismo de cada
país possa ter sua identidade nacional e cultural.
O jornalismo e a tradução estão ligados às esferas social e cultural, tendo-os como
fatores determinantes em suas produções já que a tradução geralmente trabalha com duas ou
mais línguas e culturas, e o jornalismo, da mesma maneira, levando-se em consideração sua
abordagem em contexto internacional.
Em sua tese de doutorado apresentada à Universidade de São Paulo, em 2002, a
Professora Dra. Meta Elizabeth Zipser aproximou as relações entre a tradução e o jornalismo,
estabelecendo a possibilidade de um estudo dessa interface. Também propôs uma reflexão
sobre a prática tradutória nas redações, a partir de eventuais deslocamentos de enfoque do fato
noticioso traduzido ou retextualizado pelas agências de notícia no mundo. O que a autora faz
em seu trabalho é uma recontextualização do modelo funcional de Nord (1991) para a
tradução sob uma perspectiva do jornalismo internacional. Levando em consideração a
importância dos trabalhos de Esser (1998), Zipser destaca a contribuição do autor para a área
da tradução jornalística, no que diz respeito aos procedimentos comuns utilizados nas
redações de jornais, e ainda aponta que faltam reflexões sobre a tradução nesse meio, mesmo
fazendo parte dele há muito tempo:
A prática da tradução nas redações e a difusão de notícias recebidas de agências
internacionais motivam uma discussão, sobretudo no sentido de saber se a tradução no
interior do jornal ou nas redações de revista pode ser considerada da forma consensual
que ainda percebemos nos julgamentos que se fazem sobre a tradução: uma atividade
mecânica, de um lado, quando se trata de textos técnicos ou científicos, e uma
atividade artística, de outro, quando se trata da tradução de literatura (ZIPSER, 2002,
p. 17).
Zipser (2002) destaca outro ponto importante que demonstra a intersecção entre o
jornalismo e a tradução: a essência intercultural das atividades desenvolvidas pelo jornalista e
o tradutor, pois aspectos de cultura fazem parte tanto do jornalismo como da tradução.
22
Para a direção cultural-funcional dos estudos da tradução, o tradutor é um
intermediador cultural, e não um mero transcodificador linguístico. O mesmo se pode
dizer do jornalista: na condição de intermediador cultural, o jornalista “traduz” os
fatos e o faz tendo em vista seu destinatário, seu momento cultural, o contexto
situacional em que se acha inserido (ZIPSER, 2002, p. 11).
Como apresentado nos trabalhos de Esser (1998) e de Nord (1991), o processo de
produção textual não se volta para trás, mas sim para o leitor. Ou seja, o jornalismo é, assim
como a tradução, um processo dinâmico em que os emissores o iniciam com um objetivo
definido, levando em consideração o leitor-alvo. Desse modo, podemos considerar o
jornalismo e a tradução como processos prospectivos, voltados para o destinatário a que se
quer atingir, e de acordo com Zipser (2002, p. 38), “Traçando um paralelo com o texto
jornalístico, veremos que essa modalidade de texto compartilha dessa dinâmica prospectiva de
forma especialmente clara.”.
Partindo desse pressuposto, a autora explica a semelhança entre as duas áreas no que
concerne a processos prospectivos:
O emissor – o jornalista – tem por objetivo apresentar o fato noticioso e o faz para seu
leitor. [...] Assim podemos definir o trabalho da escritura do texto jornalístico como
sendo uma “tradução” prospectiva do fato noticioso, por excelência. O fato noticioso
dá origem ao texto jornalístico que, surgindo das mãos do jornalista [...] só se
concretiza efetivamente no momento mesmo de sua recepção pelo leitor. Assim como
na tradução, somente o destinatário – o leitor – fecha o círculo de produção e recepção
do texto jornalístico e está no centro da definição de sua função: o texto oferece a
informação, que será processada pelo leitor e transformada (ou não) numa opinião a
respeito do fato (ZIPSER, 2002, p. 38).
Por outro lado, a autora ainda chama atenção ao fato de a tradução não operar apenas
no sentido do leitor, como a própria perspectiva funcionalista prevê, mas que a tradução
também considera o texto-fonte. Destaca que “[...] o processo tradutório é, por excelência, um
processo de negociação gerenciado pelo tradutor sob diferentes aspectos: negociação no
momento de definir as diretrizes do grau de afastamento em relação ao texto-fonte” (ZIPSER,
2002, p. 40).
Mais um ponto em que se estabelece uma interface entre a tradução e o jornalismo é
com relação ao poder formador de opinião da imprensa e também da tradução, levando em
consideração dimensões internacionais que determinados fatos podem ter. Sendo assim, o
autor, tanto da reportagem quanto da tradução, estando próximo do leitor, tem condições de
melhor conhecê-lo e, consequentemente, de melhor identificar seu destinatário, como afirma
Nord:
23
Quanto mais próximo, por exemplo, o tradutor estiver de seu leitor-alvo, no que se
refere à formação cultural, idade, status etc., tanto mais fácil deveria ser, transportarse para o lugar de seu receptor e imaginar, com que tipo de texto-meta ele melhor se
identificaria (NORD, 1988, p. 12 apud ZIPSER, 2002, p. 41).
A partir da citação de Nord, Zipser demonstra que “[...] essa variável da proximidade
ou do distanciamento entre as culturas tem consequências para a redação da matéria
jornalística e, por conseguinte, para sua tradução.” (ZIPSER, 2002, p. 41).
Considerando todos os fatores culturais envolvidos na tradução em si e no fazer
jornalístico, a intersecção das duas vertentes pode resultar em um texto enviesado, já que há
intenções comunicativas por parte tanto do veículo quanto do jornalista quando uma notícia é
divulgada. No próximo subcapítulo serão descritos o processo e as estratégias mais utilizadas
na tradução de textos jornalísticos.
1.2 – PROCESSO DE TRADUÇÃO JORNALÍSTICA
Em um noticiário cada vez mais globalizado através de suas diversas formas de
propagação, muitas vezes em tempo real, a tradução se mostra como uma ferramenta
importante para a veiculação de informações a um grande número de leitores. O processo de
tradução jornalística lida com desafios recorrentes, sejam de cunho político, ideológico,
econômico, social ou cultural, dentre outros fatores. Além disso, nesse tipo de tradução
existem várias restrições, como de tempo e de espaço – atualmente o jornalismo global traz
notícias 24 horas por dia, sendo um desafio para profissionais envolvidos na transmissão de
fatos levarem tais noticiários ao alcance do público.
Textos jornalísticos traduzidos fazem parte do conteúdo de jornais e revista publicados
diária, semanal ou mensalmente, sendo que tais meios de comunicação são compostos de
textos traduzidos ou escritos na própria língua dos leitores. Apesar de não ser fácil estabelecer
uma definição precisa do que seja tradução jornalística, pois estaríamos limitando as
possibilidades de uma área tão ampla, de um ponto de vista geral, Lefevere (1992) propõe
que:
[...] em jornais há uma grande variedade de textos reescritos que podem ser
considerados ligados à tradução de noticiário: a edição de publicações escritas em
línguas diferentes (sejam extensas ou moderadas), a tradução de artigos e de
24
reportagens assinadas por grandes nomes do jornalismo, ou mesmo anônimas, o
resumo de tópicos de um ou mais textos de fontes estrangeiras que figuram em artigos
que foram produzidos diretamente na língua alvo, etc. (LEFEVERE, 1992 apud
BANI, 2006, p.35).10
O processo tradutório vai desde a escolha das reportagens a serem traduzidas até a
impressão e/ou postagem online que os leitores terão acesso. Editores de diferentes cadernos
ou seções que fazem parte de jornais e revistas analisam os jornais de maior importância e
prestígio do mundo, e também jornais de menor proporção, em busca de reportagens e artigos
a serem selecionados para futuras publicações em seus respectivos contextos. A escolha do
texto a ser traduzido leva em consideração diversos fatores, tais como a reputação da fonte de
notícia ou do autor do texto original, o tipo de reportagem (artigo, entrevista, etc.), o tópico
dos artigos, o veículo midiático, dentre outros. Segundo Bani (2006), alguns textos são
escolhidos porque o autor ou editor é bem conhecido, sendo de mais interesse de um ponto de
vista comercial. Destaca ainda que a autoridade da fonte contribui para a garantia de prestígio
da tradução.
Além disso, diversos veículos de comunicação recebem matérias de agências de
notícias espalhadas pelo mundo, que são empresas especializadas em difundir notícias e
informação diretamente das fontes para jornais, revistas, rádios, TVs ou websites, tais como
Reuters, Associated Press, France Presse. Dessa forma, os meios de comunicação selecionam
as reportagens que mais lhe interessam ou que são mais relevantes a novos contextos. Uma
vez selecionado, o texto a ser traduzido é passado para um tradutor, papel que pode ser
desempenhado pelo jornalista responsável por determinada área do jornal ou revista. Um
tradutor seria o profissional mais indicado para tal tarefa, já que, por sua formação, possui
conhecimentos linguísticos e culturais necessários para abordar o texto: “[...] tradutores
muitas vezes são os únicos especialistas do ponto de vista linguístico e cultural que são
realmente capazes de apreciar o texto original totalmente, e os editores tendem a confiar nas
escolhas dos tradutores quando fazem a revisão dos textos.”11 (NORD, 1997 apud BANI,
2006, p. 41).
Terminada a tradução, no processo usual, o texto é enviado de volta ao editorial e
passa por várias revisões: idealmente, primeiro é feito um cotejamento da tradução com o
10
[…] in newspapers there is a great variety of rewritings that can be considered connected to press translation:
the editing of press releases written in a different language (whether extensive or moderate), the translation of
articles or reportages signed by big names in journalism or left anonymous, the summarizing of the topics of one
or more texts from foreign sources embedded in articles that were directly produced in the target language,
etcetera.
11
[…] translators often are the only real experts from the linguistic and cultural point of view who are able to
appreciate the original text fully; when proofreading, editors tend to trust the translators‟ choices.
25
texto-fonte, depois uma leitura/revisão do texto na língua-meta. A seguir, a versão final do
texto deve ser verificada e, finalmente, tem-se o cuidado de saber onde colocá-lo no jornal.
Quando publicado, o texto traduzido alcança os leitores, que muitas vezes o lê como sendo
qualquer reportagem integrante do jornal, escrita em sua língua materna, como destaca Bani
(2006, p. 36):
Os leitores geralmente não sabem a diferença entre um artigo traduzido e um que não
foi traduzido, também porque a diferença entre os dois não é assinalada graficamente.
A transição interlinguística e intercultural por meio da tradução passa despercebida
aos leitores, que muitas vezes leem uma tradução de notícia como se fosse qualquer
outro artigo no jornal.12
A tradução de um texto é moldada de acordo com a compreensão, por parte do
tradutor, do texto-fonte e com as estratégias utilizadas por ele. Sendo assim, o conhecimento
linguístico e cultural é indispensável no trato com o texto-fonte, e as intervenções do tradutor
ao recriar, excluir ou adicionar informação, com ou sem intenção, são inevitáveis.
Nesse processo o tradutor compreende o texto-fonte com a finalidade de informar essa
mensagem a outro público, em situações culturais diversas. Nord (1997) destaca que essa
compreensão por parte do tradutor e, consequentemente, seu transporte para o novo público,
muitas vezes pode não ser a mesma do original:
O tradutor oferece a esse novo público um texto-meta cuja composição é,
naturalmente, guiada pelas suposições do tradutor sobre suas necessidades,
expectativas, conhecimento prévio, e assim por diante. Evidentemente, essas hipóteses
serão diferentes das feitas pelo autor do texto original, porque os discursos do textofonte e do texto-meta pertencem a comunidades linguísticas e culturais diversas
(NORD, 1997, p. 35).13
Pressupõe-se, dessa maneira, uma adequação do texto por parte do tradutor ao novo
público. No campo jornalístico, comparar como a informação é transmitida em diferentes
contextos se torna importante na análise das transformações ocorridas no texto de partida,
como propõe Gambier (2006, p. 10): “[...] comparar jornais diários nacionais e estudar
12
Readers usually cannot tell the difference between a translated article and one that was not translated, also
because the difference between the two is not signalled graphically. The interlinguistic and intercultural
transition through translation passes unnoticed to readers, who often read a press translation as if it were any
other article in the newspaper.
13
The translator offers this new audience a target text whose composition is, of course, guided by the
translator‟s assumptions about their needs, expectations, previous knowledge, and so on. These assumptions will
obviously be different from those made by the original author, because source-text addresses and target-text
addresses belong to different cultures and language communities.
26
reportagens na imprensa estrangeira pode nos ajudar a entender melhor como tradutores
reproduzem ou mudam o discurso dominante em sua própria sociedade”. 14
A tradução jornalística lida com desafios constantes que envolvem questões de
correções, escolhas políticas, sociais e culturais, e várias decisões a serem tomadas, sendo que
todas as fases da tradução, desde a seleção dos textos até a escolha de uma postura cultural
abrangente e as estratégias especificas, passam por restrições de normas. Reportagens
internacionais são submetidas a inúmeras etapas durante seu processo tradutório, desde a
localização e a escolha de um foco de notícia num país estrangeiro, até o produto final que é a
notícia traduzida, divulgada aos novos leitores, como destaca Bassnett:
[...] tradução de notícias não é estritamente um processo de transferência entre línguas
do texto A para o texto B, mas também são necessárias estratégias, algumas vezes
radicais, de reescrita e de síntese do texto A para adaptar um contexto completamente
diferente às expectativas do novo público [...] (BASSNETT, 2006, p. 06).15
Dentre as diversas estratégias adotadas na tradução de textos jornalísticos, Hursti
(2001, p. 05) destaca os seguintes, que foram traduzidos por mim para fins de melhor
compreender tais procedimentos:
Reorganização: significa estruturar ou reestruturar o texto-fonte, focando uma
informação de determinado parágrafo, deslocando ou trocando detalhes de algum lugar do
texto, etc. Pode ser utilizada devido a diferenças entre as línguas, à retórica e para atender
melhor às necessidades do novo leitor.
Supressão: vai desde a exclusão de itens lexicais específicos ou frases, até a omissão
de parágrafos por completo. De acordo com o número de fatos, grau de precisão e
redundância do texto-fonte, até metade do texto de partida pode ser omitida, como destaca
Gambier (2006, p. 14): “Posso fazer aqui outra analogia, mas agora com a legendagem, de
que a média de omissões varia de 60% a 25% de acordo com o original (notícias, filmes de
ação, etc.)”.16
Adição: é um acréscimo de informações que não fazem parte do texto-fonte. Pode ser
adotada quando há a necessidade de se esclarecer algo ou de tornar uma informação ou uma
hipótese mais explícita.
14
[…] to compare national daily newspaper, to study reports in foreign press could help us to better understand
how translators reproduce or change the dominant discourse in the own society.
15
[…] news translation is not strictly a matter of interlingual transfer of text A into text B but also necessitates
the radical rewriting and synthesizing of text A to accommodate a completely different set of audience
expectations [...]
16
I can see here another analogy but this time with subtitling: the average of omission varies from 60% to 25%
according to the original (news, action film, etc.).
27
Substituição: abrange outras estratégias como, por exemplo, tornar detalhes menos
específicos, mudar o foco de certa informação, despersonalizar em vez de dar nomes ou ainda
resumir determinadas ideias.
Além das estratégias apresentadas acima, outras também podem ser utilizadas de
acordo com a preferência, o estilo ou o perfil de cada jornal. Convém destacar a separação do
texto em subtítulos, em que são explicados conceitos específicos que possam parecer
estranhos ao leitor-meta; a utilização de recursos visuais como imagens e fotos, ou de mapas,
como forma de contextualização; a disposição de glossários com palavras empregadas no
texto e que possam ser de difícil entendimento; a apresentação de bibliografia extra ou de
referências de sites na Internet relacionados ao tópico; e em alguns casos, uma pequena
biografia do autor do texto-fonte.
Também como ferramentas adotadas no processo de tradução de textos jornalísticos,
Gambier (2006) aponta o uso de hipérboles e de understatement (uma exposição mais
suavizada). A hipérbole é utilizada como artifício de retórica para enfatizar, intensificar ou
amplificar determinados elementos no texto, sendo extremamente persuasiva em qualquer tipo
de comunicação; por outro lado, pode-se optar por informações mais explícitas e amenas.
Ainda destaca que “Tanto a hipérbole quanto o understatement influenciam nossa percepção
da realidade”17 e que estão presentes na maior parte das interações linguísticas, desde
comunicações do cotidiano a propagandas políticas elaboradas (GAMBIER, 2006, p.10).
No caso da tradução de textos jornalísticos é necessário mais do que uma transposição
de uma língua para outra, mais do que reescrever o texto, é preciso dar a impressão de que foi
escrito inicialmente na língua-meta. Em muitos casos, editores determinam as escolhas de
fatores a serem considerados e o tipo de traduções que mais atendem aos seus interesses.
Sendo assim, Gambier (2006, p. 11) ressalta que a mídia dispõe de frames (molduras) como
referência, no sentido de enquadrar a notícia de acordo com determinados padrões ou
estereótipos para tornar os eventos acessíveis ao público, criando certo contexto para o leitor.
Dessa forma, determina que “O sistema de molduras consiste em conjunturas estereotipadas,
hábitos e crenças, e são baseadas em expectativas em uma determinada situação social”. 18
Gambier (2006) também enfatiza que, nas últimas décadas, pesquisas em Estudos da
Tradução demonstram a importância do contexto e da contextualização no processo tradutório
e nas decisões tomadas pelo tradutor, sendo relevante a necessidade de consciência na
17
Both hyperbole and understatement influence our perception of reality.
The frame systems consist of stereotypical scenarios, routines, and beliefs, and are based on expectations in a
given social situation.
18
28
utilização de estratégias e de uma análise mais aprofundada dos textos: “O importante não é
tanto o número e a qualificação das estratégias, mas a consciência de que a comunicação de
notícia internacional não pode ser analisada simplesmente como uma questão de textos
isolados do noticiário”19 (GAMBIER, 2006, p. 14).
A seguir, serão apresentadas as características do corpus escolhido para analisar as
estratégias adotadas na tradução e, depois, observar os efeitos que elas causam no texto.
19
What is important, in my opinion, is not so much the number and the label of the strategies but the awareness
that international news communication cannot be analyzed merely as a matter of isolated news texts.
29
CAPÍTULO 2 – METODOLOGIA
Com o desenvolvimento de novas tecnologias que transformam a mídia, a propagação
de notícias se torna ainda mais abrangente, sendo assim, a cobertura de noticiários
internacionais requer a compreensão de uma realidade multicultural muito grande, com
pessoas que possuem diferentes códigos linguísticos, pontos de visto distinto sobre as mesmas
questões. As diversas línguas nas quais as notícias são produzidas, na ausência da tradução,
podem consistir em barreiras para debates e formação de opiniões em comunidades
espalhadas pelo mundo.
A maneira como o conteúdo é apresentado em várias línguas e culturas nos leva a
considerar os fatores que diferenciam os diversos contextos culturais possíveis, e a aplicação
dessas diferenças na tradução é também fator a ser pensado na garantia de se respeitá-las e, ao
mesmo tempo, de se ter atenção ao público-meta.
Neste capítulo será apresentado o corpus proposto para esta pesquisa, assim como as
reportagens selecionadas para análise, e por fim, o procedimento metodológico será descrito.
2.1 – O CORPUS: APRESENTAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO
O Jornalismo Internacional é provavelmente a área do jornalismo com maior
abrangência de temas, já que cobre diversos assuntos, tais como política, economia, cultura,
ciência, turismo e outros fatos que acontecem fora de seu país de origem. Portanto, o
Jornalismo Internacional lida com línguas e culturas diversas, e consequentemente, com
divulgação intercultural.
Vários editoriais do noticiário internacional estão presentes em cadernos ou seções de
jornais brasileiros, tais como: Internacional, no Jornal do Brasil; Mundo, na Folha de São
Paulo; Internacional, no O Estadão; O Mundo no O Globo; Internacional no Estado de
Minas; Mundo no Correio Braziliense; dentre outros jornais. Muitas das reportagens
publicadas nesses cadernos são produzidas no exterior por correspondentes ou enviados
especiais dos jornais, ou ainda recebidas por agências internacionais de notícias. Por outro
lado, alguns artigos são traduções feitas a partir de originais publicados em jornais de outros
países, como The New York Times, Independent, Le Monde, The Washington Post, Telegraph,
30
dentre outros. Dessa forma, a tradução tem um papel importante na propagação do jornalismo
internacional e se torna uma estratégia utilizada por diferentes meios de comunicação.
Esse trabalho de divulgação da notícia exige dos profissionais envolvidos
conhecimento linguístico e cultural, além de outros fatores a serem considerados, como
diagramação do jornal, espaço disponível em cada sessão, impressão e restrições de tempo.
A escolha de jornais online para essa pesquisa, dentre os diversos veículos de
informação existentes, se deu pelo fato de se mostrarem mais dinâmicos ao divulgarem fatos
correntes do cotidiano a uma propagação maior e mais rápida do que jornais impressos e
revistas, por exemplo.
Após a decisão do veículo de comunicação, foram escolhidas duas reportagens
publicadas no jornal brasileiro Folha de São Paulo como textos de chegada e,
consequentemente, os textos de partida que foram publicados no New York Times para o
contexto americano (textos constam nas referências bibliográficas). Dentre as diversas
notícias traduzidas pela Folha de São Paulo, as reportagens selecionadas para o corpus
versam sobre temas internacionais e foram divulgadas no caderno Mundo do jornal, no ano de
2014. Seus respectivos originais foram publicados inicialmente no The New York Times no
mesmo ano, sendo que foram divulgados da seção World.
A primeira reportagem, intitulada “Projéteis da 1ª Guerra Mundial ainda causam
estragos”, publicada na Folha no dia 19 de agosto, aborda as constantes descobertas de
vestígios da 1ª Guerra Mundial na cidade de Ypres, Bélgica e a convivência dos moradores
com esses achados. O texto foi traduzido de “Belgians Share Their Land With War‟s
Reminders”, de Suzanne Daley, publicado originalmente no The New York Times no dia 26 de
junho.
Já a segunda reportagem foi publicada no dia 02 de setembro no Brasil com o título
“Destruição em Gaza desencadeia onda de criatividade”, e divulga a produção artística em
meio à destruição dos conflitos na faixa de Gaza e a criatividade de artistas como forma de
resistência durante esse período. Foi inicialmente publicada no The New York Times no dia 16
de agosto, como “Artists‟ Work Rises From the Destruction of the Israel-Gaza Conflict”, por
Jodi Rudoren e Fares Akram.
Apresentamos a seguir uma breve descrição da linha editorial dos dois jornais
utilizados e de suas estruturas.
31
2.1.1 – A Folha de São Paulo20
A Folha de São Paulo é um jornal brasileiro editado na cidade de São Paulo. É um dos
mais influentes do país, ao lado de O Estadão, O Globo e Jornal do Brasil, sendo o de maior
circulação no país. Fundado como Folha da Manhã em 1921, foi comprado na década de
1960 pelos empresários Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho, e rebatizado como
Folha de São Paulo. Dentre os fatos que marcaram a existência do jornal, a Folha chegou a
apoiar o golpe de 1964 e a ditadura militar na década de 1970, foi alvo de atentados por parte
de grupos de esquerda que faziam resistência à ditadura militar, passou por uma reforma na
redação e, na década de 80, se consagrou ao apoiar matérias que cobriam o movimento das
Diretas Já.
A Folha de São Paulo tem
[...] como missão “produzir informação e análise jornalísticas com credibilidade,
transparência, qualidade e agilidade, baseadas nos princípios editoriais do Grupo
Folha (independência, espírito crítico, pluralismo e apartidarismo), por meio de um
moderno e rentável conglomerado de empresas de comunicação, que contribua para o
aprimoramento da democracia e para a conscientização da cidadania”, como visão
“consolidar-se como o mais influente grupo de mídia do país”, e como princípios e
valores “independência econômica e editorial, compromisso como o leitor, ética,
defesa da liberdade de expressão, defesa da livre iniciativa, pioneirismo e respeito à
diversidade”.21
Como vários outros jornais, a estrutura da Folha de São Paulo é formada por diversos
cadernos:
Cadernos diários: Opinião, Política, Mundo, Economia, Cotidiano, Esporte, Cultura,
Ciência + Saúde, Folha Corrida, Ilustrada e Classificados.
Suplementos semanais: Tec e Folhateen (segunda), Equilíbrio e The New York Times
International Weekly (terça), Comida (quarta), Turismo (quinta), Folhinha (sábado),
Illustríssima, Veículos, Construção, Imóveis, Empregos, Negócios (domingo).
Revista mensal: Serafina.
20
21
Website do jornal: www1.folha.uol.com.br
Seção Institucional do Grupo Folha: http://www1.folha.uol.com.br/institucional/missao.shtml
32
2.1.2 – O The New York Times22
O The New York Times, ou simplesmente Times, é um jornal de circulação diária,
publicado na cidade de Nova Iorque e distribuído nos Estados Unidos, sendo o de maior
circulação no país e em muitos outros. Mundialmente conhecido, pertence à The New York
Times Company e foi fundado em 1851 por Henry Jarvis Raymond e George Jones como New
York Daily Times. Em 1857 o jornal mudou de nome para The New York Times.
Várias publicações marcaram a história do jornal demonstrando sua importante
participação no noticiário mundial, tais como a invenção do telefone por Alexander Graham
Bell, em 1876, a cobertura do naufrágio do navio Titanic, em 1912, reportagens e artigos
sobre a Primeira Guerra Mundial, com os quais ganhou seu primeiro Prêmio Pulitzer em
1918. Em 1919, realizou sua primeira entrega transatlântica para Londres, projetando-se ainda
mais como um jornal de influência e prestígio. Em 1996, o Times começou a ser publicado
também na Internet, proporcionando ao leitor acesso a artigos e fotos no dia de sua
publicação. E a partir de 2008, o jornal lança aplicativos para celulares com várias
possibilidades de personalização e links para outros artigos.23
O The New York Times tem compromisso com a cobertura de notícias, sendo que seu
objetivo central é
[...] melhorar a sociedade, criando, recolhendo e divulgação de informações e notícias
de alta qualidade. A produção de conteúdo da mais alta qualidade e integridade é a
base para sua reputação e os meios pelos quais podem cumprir a confiança pública e
as expectativas dos seus clientes.24
O jornal é organizado nas seguintes seções: World, U.S., Politics, New York, Business,
Opinion, Technology, Science, Health, Sports, Arts, Fashion & Style, Dining & Wine, Home
& Garden, Travel, Magazine, Real State.
22
Website do jornal: www.nytimes.com
Seção “Nossa História” do The New York Times: http://www.nytco.com/who-we-are/culture/our-history/
24
[…] to enhance society by creating, collecting and distributing high-quality news and information. Producing
content of the highest quality and integrity is the basis for our reputation and the means by which we fulfill the
public trust and our customers‟ expectations. Disponível em:
http://www.nytco.com/who-weare/culture/standards-and-ethics/
23
33
2.2 – PROCEDIMENTO METODOLÓGICO
Com o embasamento teórico destacado, o modelo de Nord (1991) referente aos
Estudos da Tradução e o de Esser (1998) referente à estrutura do Jornalismo, ambos
apresentados pela interface tradução-jornalismo proposta por Zipser (2002), iniciamos uma
pesquisa para constituição do corpus. Foi dada preferência apenas a jornais online, e as
possibilidades se mostraram bem amplas nessa escolha. Como fonte em língua portuguesa e
no Brasil, buscamos por reportagens publicadas em um único jornal, nesse caso na Folha de
São Paulo, e que fossem traduções de reportagens inicialmente publicadas em inglês.
Estas provinham de diversos jornais, como o The New York Times, o Independent, o
Financial Times, o Washington Post, dentre outros. Como as possibilidades de artigos a serem
cotejados com seus originais foram grandes optamos também por apenas um jornal como base
de textos de partida, o The New York Times.
O procedimento metodológico desta pesquisa se baseia no cotejamento analítico das
reportagens escolhidas com seus respectivos originais, utilizando o modelo de Nord (1991)
para análise dos fatores externos e internos de maior destaque percebidos nos textos. A
princípio, partiu-se de aspectos visuais das reportagens como o formato dos textos, as
ilustrações e outros recursos visuais, estabelecendo as diferenças entre os textos traduzidos e
seus originais. A seguir, a estruturação dos textos foi comparada e os títulos contrastados,
levando em consideração as diferenças de enfoque entre eles. Finalmente, os elementos
internos aos textos propriamente ditos foram cotejados e as transformações ocorridas nos
textos-meta identificadas.
Consequentemente, as transformações percebidas nos textos traduzidos foram
classificadas como um todo de acordo com as estratégias estabelecidas por Hursti (2001) a
fim de se iniciar as discussões sobre possíveis propósitos de determinadas escolhas pautadas
nas teorias de Nord (1991) e Esser (1998).
Após a leitura, o cotejamento e a identificação das transformações trazidas pelos textos
de chegada com relação aos textos de partida, iniciamos o principal objetivo da minha
pesquisa – uma análise geral dos textos, do âmbito das transformações ocorridas e das
possíveis intenções com as escolhas adotadas.
34
CAPÍTULO 3 – DISCUSSÃO: CONTRASTES E DIFERENÇAS
Primeiramente, o modelo de Christiane Nord (1991) foi aplicado às reportagens do
corpus. Utilizamos os fatores que envolvem os textos de maior relevância para identificar e
analisar suas estruturas externa e interna, inserindo os textos em seus respectivos contextos
culturais e linguísticos ao modelo.
TEXTO FONTE 1 (TF1): Belgians Share Their Land With War´s Reminders
TEXTO META 1 (TM1): Projéteis da 1ª Guerra ainda causam estragos
TEXTO-FONTE
TEXTO-META
FATORES EXTERNOS AO TEXTO
Emissor
Intenção
New York Times
(Suzanne Daley)
Folha de São Paulo
(não menciona o tradutor)
Divulgar
as
constantes
Divulgar as constantes descobertas
descobertas de vestígios da 1ª
de vestígios da 1ª Guerra Mundial
Guerra Mundial em Ypres,
em Ypres, Bélgica.
Bélgica.
Receptor
Leitor americano
Leitor brasileiro
Meio
Jornal online
Jornal online
Lugar
New York – EUA
São Paulo – Brasil
Tempo
26/06/2014
19/08/2014
Propósito
(motivo)
Informar, formar opinião
Informar, formar opinião
Função textual
Informativa
Informativa
FATORES INTERNOS AO TEXTO
A terra tornou-se testemunha da
guerra
e
traz
lembranças
constantes do conflito; quase todos
Pressuposições os locais de construção ou projetos
de escavação podem desvendar
munição; corpos são sempre
encontrados.
Parágrafos curtos, citações, texto
Estruturação
corrido.
A terra tornou-se testemunha da
guerra
e
traz
lembranças
constantes do conflito; todos os
locais de construção ou projetos
de escavação podem desvendar
munição; corpos são sempre
encontrados.
Parágrafos curtos, citações, texto
corrido.
35
Elementos nãoFoto, mapa da Europa e vídeo
verbais
Efeito do texto
----------
Mesmo cerca de 100 anos depois Mesmo cerca de 100 anos depois
da guerra, certa amargura ainda da guerra, certa amargura ainda
persiste na vida dos belgas.
persiste na vida dos belgas.
Com relação aos fatores externos, o texto-fonte 1 (doravante TF1), intitulado
“Belgians Share Their Land With War´s Reminders”, tem como emissor o jornal The New
York Times, sendo assinado por Suzanne Daley, e o texto-meta 1 (doravante TM1), intitulado
“Projéteis da 1ª Guerra ainda causam estragos”, foi vinculado pela Folha de São Paulo. No
texto de chegada vinculado pela Folha, são mencionados os autores dos textos originais,
assim como a informação de que foram publicados inicialmente no “New York Times”,
porém não há menção de quem foi o profissional responsável pela tradução.
Os receptores desses textos são os leitores de ambos os jornais de uma maneira geral,
levando em consideração o meio de circulação internacional do The Times, que vai além de
Nova Iorque, nos Estados Unidos, e a circulação em diversos estados brasileiros da Folha,
além da cidade de São Paulo. Com relação ao tempo em que as reportagens foram publicadas,
o TF1 foi divulgado na edição do dia 26 de junho de 2014, no The Times, e o TM1 no dia 19
de agosto de 2014, na Folha. Percebe-se um grande intervalo, de quase dois meses, entre a
publicação da reportagem original e a tradução veiculada no Brasil, o que pode interferir na
compreensão da notícia em geral, já que determinados fatos tendem a mudar com o tempo.
Informar é uma das funções básicas do jornalismo, além de formar opinião e poder
persuadir o leitor. Os dois textos apresentados têm a intenção e o propósito de divulgar as
constantes descobertas de vestígios da 1ª Guerra Mundial na cidade de Ypres, na Bélgica,
além da convivência diária de moradores com essas marcas.
Com relação à apresentação dos textos, a estrutura de ambos é simples, com
parágrafos curtos e espaçamento entre eles bem visível, texto corrido e algumas citações. Por
outro lado, no TF1 há uma um subtítulo explicitando que há um século depois de várias
mortes, restos da guerra ainda são encontrados na região de Ypres, informação essa que foi
omitida no TM1, que pode perder esse impacto apresentado pelo original. Outra diferença
ainda no layout dos textos diz respeito a elementos não-verbais que são utilizados no texto
original, tais como slide show com 10 fotos, dois mapas da Europa com os arredores de Ypres
em detalhe e dois vídeos, um sobre as relíquias da guerra e outro sobre a coleta destruição de
bombas encontradas. Todos os elementos não-verbais explorados no TF1 foram omitidos no
36
TM1, não permitindo ao leitor acesso a esses detalhes que podem influenciar na recepção e na
reação à notícia.
TEXTO FONTE 2 (TF2): Artists‟ Work Rises From the Destruction of the Israel-Gaza Conflict
TEXTO META 2 (TM2): Destruição em Gaza desencadeia onda de criatividade
TEXTO-FONTE
TEXTO-META
FATORES EXTERNOS AO TEXTO
New York Times
(Jodi Rudoren e Fares Akram)
Divulgar a produção de artistas
em meio aos conflitos em Gaza
Folha de São Paulo
(não menciona o tradutor)
Divulgar a produção de artistas
em meio aos conflitos em Gaza
Receptor
Leitor americano
Leitor brasileiro
Meio
Jornal online
Jornal online
Lugar
New York – EUA
São Paulo – Brasil
Tempo
16/08/2014
02/09/2014
Propósito (motivo)
Informar, formar opinião
Informar, formar opinião
Função textual
Informativa
Informativa
Emissor
Intenção
FATORES INTERNOS AO TEXTO
Pressuposições
Estruturação
Há escassez de materiais para
artistas; a liberdade de expressão
é reprimida; artistas continuam
trabalhando
mesmo
em
momentos muito difíceis; arte
como uma forma de resistência à
agressão israelense; não apoio do
governo à arte.
Parágrafos curtos, citações, texto
corrido.
Há escassez de materiais para
artistas; a liberdade de expressão
é
reprimida;
os
conflitos
impulsionam
a
onda
de
criatividade, arte como uma
forma de resistência.
Parágrafos
curtos,
citações, texto corrido.
menos
Elementos não-verbais
Fotos
----------
Léxico
Termos pertencentes às Artes
Termos pertencentes às Artes
Efeito do texto
Através da arte as pessoas
conseguem
“amenizar”
o
sofrimento durante o atual
conflito.
Através da arte as pessoas
conseguem
“amenizar”
o
sofrimento durante o atual
conflito.
37
O texto-fonte 2 (doravante TF2), intitulado “Artists‟ Work Rises From the
Destruction of the Israel-Gaza Conflict”, também tem como emissor o jornal The New York
Times, sendo assinado por Jodi Rudoren e Fares Akram, e o texto-meta 2 (doravante TM2),
intitulado “Destruição em Gaza desencadeia onda de criatividade”, foi vinculado pela Folha
de São Paulo, e assim como o outro texto-meta não consta assinatura do responsável pela
tradução da reportagem. Os receptores desses textos são os leitores de ambos os jornais. Com
relação ao tempo das publicações, a reportagem do jornal americano foi publicada no dia 16
de agosto de 2014, e no Brasil cerca de duas semanas depois pela Folha no mês seguinte, dia
02 de setembro de 2014.
Esses dois textos têm a intenção e o propósito de divulgar a produção de artistas em
meio aos conflitos em Gaza e a sua criatividade como forma de resistência durante os
conflitos. Assim como o TF1 e o TM1, essas outras duas reportagens são apresentadas de
maneira similar, com estrutura simples, parágrafos curtos e separação visível, texto corrido e
algumas citações.
Outra semelhança é percebida na supressão de elementos não-verbais, em que os
leitores do TM2 não tem acesso a imagens que ilustram artistas e seus trabalhos em meio aos
conflitos em Gaza, pois as 4 fotos utilizadas no TF2 foram omitidas. Já que o foco da
reportagem é a criatividade de artistas em meio a conflitos destrutivos na região e o texto
original é ilustrado com exemplos desses trabalhos, ao deixar de explorar esses recursos
visuais o TM2 pode perder o impacto talvez intencionado pelo TF2.
Feito esse levantamento e análise geral dos elementos externos e internos que
compõem o texto, farei o cotejamento dos textos de chegada com seus respectivos originais a
partir de alguns trechos selecionados para discussão das transformações ocorridas na tradução
de cada uma das reportagens, levando em consideração as estratégias sugeridas por Hursti
(2001).
Ao traduzir um texto, o agente responsável por ele precisa avaliar o texto-fonte e
resolver como reestruturá-lo, antes de iniciar qualquer tipo de transformação. Segundo Hursti
(2001, p. 05) esse processo envolve respostas às seguintes perguntas, que nos ajudarão em
outros processos de transformação: “„A estrutura do texto-fonte em si é transferível?‟, „Devo
focalizar outra vez a informação no parágrafo mais importante?‟, „Alguns dos detalhes
podem ser apresentados em outra parte da história?‟ etc.”25
25
„Is the ST structure transferrable as such?‟, „Should I refocus the information in the lead paragraph?‟, „Could
some of the details be presented elsewhere in the story?‟ etc.
38
No que diz respeito à reorganização adotada nos textos traduzidos (Hursti, 2001, p. 5)
– estruturação ou reestruturação do texto-fonte, focando uma informação de determinado
parágrafo, deslocando ou trocando detalhes de algum lugar do texto – de uma maneira geral,
as duas reportagens foram reorganizados de diversas formas, desde adaptações para atender a
estruturas linguísticas distintas, à formatação do texto, de itens lexicais ou ainda
reestruturações de parágrafos com deslocamento de informações. Podemos dizer que várias
dessas decisões podem ter sido tomadas para que os textos-meta atendessem às necessidades
do novo público.
Um exemplo de adaptação textual aplicada ao texto-fonte é nos títulos, sendo que por
meio deles o texto pode suscitar interesse do leitor em lê-lo, dirigir sua atenção para o foco
principal da reportagem e influenciar na sua interpretação. Levando-se em consideração as
diferenças de enfoque pretendidas por reportagens, os títulos de artigos traduzidos podem ser
bem diferentes dos seus originais.
No caso do TF1, intitulado Belgians Share Their Land With War´s Reminders, e do
TM1, Projéteis da 1ª Guerra ainda causam estragos, percebe-se essa diferença de enfoque
através de seus títulos, pois o texto de chegada destaca os estragos ainda causados por
projéteis da 1ª Guerra Mundial, e o texto original faz menção a cidadãos belgas que
compartilham suas terras com lembranças da guerra. Outro dado relevante no que concerne à
organização textual e também à omissão de informação foi a utilização de um subtítulo no
texto de partida, como forma de contextualização de detalhes dos fatos ao leitor, e que foi
omitido no texto de chegada. O TF1 traz a informação de que um século depois que centenas
de milhares de pessoas morreram nos arredores de Ypres, Bélgica, os seus restos mortais
ainda são encontrados e granadas ainda explodem. Essa informação adicional é omitida no
TM1, sendo assim, o leitor brasileiro não tem acesso a esse detalhe de impacto proposto pelo
original.
No TM2, que recebe o título Destruição em Gaza desencadeia onda de criatividade, a
destruição de Gaza é colocada em primeiro plano como substantivo da frase em relação à
onda de criatividade desencadeada pelos conflitos na região. Enquanto isso, o TF2, Artists‟
Works Rises From the Destruction of the Israel-Gaza Conflict, mostra como ênfase maior em
seu título o trabalho de artistas locais que surgem da destruição durante o conflito entre Israel
e Gaza.
Ao longo dos textos-meta, percebe-se que diversos itens lexicais, frases ou parágrafos
completos dos textos-fonte foram deslocados ou reestruturados quando traduzidos para a
39
Folha. O exemplo de maior destaque é a reestruturação de três parágrafos do TF1 em apenas
um parágrafo veiculado pelo TM1:
TF1: The land here still holds so many explosives that almost every construction
project poses a danger. Every turned spade has the potential to unearth not just
munitions but bones, some carefully laid to rest in full uniform, others blown apart. A
local highway stands half finished; work ended abruptly because the bulldozers began
uncovering graves, and the British government quickly objected to the project.
It is impossible to live around Ypres without feeling the weight of living atop a
former battlefield where young men from Germany, France, Britain, Belgium,
Australia, Canada and North Africa died, some as young as 15.
Cemeteries are everywhere. Some are just small clusters of graves surrounded
by stone fences beside country roads. Others are carefully laid out rows of crosses
that seem to extend forever, crowned by huge monuments. In a German cemetery in
the nearby village of Langemark, a patch of grass holds the bones of about 25,000
men, many of them unidentified.
TM1: [...] Potencialmente, todos locais de construções ou projetos de escavação
podem não apenas munição, mas ossos também [...]. Uma rodovia ficou inacabada;
[...] as máquinas começaram a descobrir túmulos e o governo britânico se opôs [...] à
continuação. É impossível morar próximo a Ypres sem sentir o peso de viver sobre
um antigo campo de batalha onde morreram jovens da Alemanha, da França, do
Reino Unido, da Bélgica, da Austrália, do Canadá e do norte da África […]. Há
cemitérios por toda parte. […]
A reorganização do texto quando traduzido pode ser tomada como opção para atender
a diferenças entre as línguas, à retórica ou às necessidades no novo leitor; todavia as
informações destacadas em itálico no trecho do TF1 acima não são acessadas pelo leitor
brasileiro, tais como o fato de que muitos explosivos encontrados na área trazem perigo a
quase todos os projetos de construção e também a descrição detalhada dos cemitérios
encontrados na região. Portanto, a notável omissão de diversos trechos, seja por terem sido
consideradas informações irrelevantes ou por preferências de qualquer tipo pelo tradutor do
texto, podem comprometer o entendimento integral da notícia.
40
Uma das estratégias mais utilizadas na transformação de textos jornalísticos é a
supressão (HURSTI, 2001, p. 05) – que pode envolver desde a exclusão de itens lexicais
específicos ou frases, até a omissão de parágrafos. Esse fato se torna visível em ambas as
reportagens analisadas, sendo que em quase todos os parágrafos houve algum tipo de omissão
lexical, a exemplo:
TF1: ..., a neighbor riding his tractor ruptured an aging shell, and the explosion sent
shrapnel through his windshield, tearing off a chunk of his ear.
TM1: ..., um dos vizinhos passou por cima de um velho projétil com seu trator e os
estilhaços da explosão [...] acabaram arrancando um pedaço de sua orelha.
O trecho destacado em itálico do TF1 traz a informação de que estilhaços da explosão
atravessaram o parabrisas do trator, porém o TM1 deixa de transmitir ao leitor o impacto de
tal acidente ao omitir esse trecho, perdendo, dessa maneira, a força de significado
intencionada pelo TF1. Com a perda desse detalhe, além de novamente poder influenciar o
leitor a um determinado entendimento geral do texto, pode-se inferir que os estilhaços
entraram por uma janela aberta, por exemplo, e não quebrando e atravessando o parabrisas.
Outras informações omitidas nos textos de chegada também podem ser consideradas
relevantes e comprometer ou influenciar o entendimento por parte dos leitores, como nestes
trechos:
TF1: … constant reminders of a bloody and relentless war that would demolish
empires, leave at least 8.5 million soldiers and seven million civilians dead, and
produce legacies that continue to play out today.
TM1: ... lembranças constantes de um conflito sangrento e implacável que demoliu
impérios, matou pelo menos 8,5 milhões soldados e sete milhões de civis [...].
Nos períodos acima, o TF1 enfatiza que os efeitos da guerra produzem legados que
ainda perduram até hoje, porém essa informação foi omitida no TM1. Mesmo iniciando o
TM1 com “lembranças constantes”, a supressão do trecho em itálico pode prejudicar o efeito
enfático do texto na tradução, pois a reiteração citada no texto original de que “todos os
efeitos da guerra produzem legados negativos até hoje” não foi utilizada.
A mesma perda de efeito é percebida no trecho a seguir:
41
TF1: … where young men from Germany, France, Britain, Belgium, Australia,
Canada and North Africa died, some as young as 15.
TM1: ... onde morreram jovens da Alemanha, da França, do Reino Unido, da Bélgica,
da Austrália, do Canadá e do norte da África. […]
A supressão do fato de que alguns dos homens mortos tinham 15 anos de idade retira
da tradução o efeito dramático presente no TF1.
Com relação às supressões percebidas no TM2, destaco um trecho do TF2 omitido no
texto traduzido e que deixa de transmitir a ênfase no empenho de artistas em produzir suas
obras mesmo em momentos de muita tensão na região de Gaza:
TF2: “Artists may see things others can‟t see,” said Mr. Khaled, 23, who works for a
Turkish news agency. “Even at the very tense times and very hard moments, we still
draw.”
TM2: “Os artistas veem coisas invisíveis para os outros”, afirmou Khaled, 23, que
trabalha em uma agência de notícias turca. […]
Mencionadas algumas omissões lexicais e de frases, houve também considerável
exclusão de diversos parágrafos em ambos os textos de chegada. Dos 26 parágrafos que
compõem o TF1, seis foram totalmente excluídos, três omitidos em cerca de 50% ou mais,
sendo que vários outros foram reestruturados como já mencionado anteriormente. Já no TF2,
composto por 18 parágrafos, dois foram excluídos completamente, sendo que outros três
foram omitidos em cerca de 70% ou mais. Tais omissões de palavras, frases ou parágrafos
ocorridas na tradução das reportagens analisadas refletem suposição feita por Gambier (2006)
de que a porcentagem de supressão na tradução pode ser em torno de 25% a 60%,
demonstrando assim que a quantidade de informação não acessada pelos leitores brasileiros é
muito grande e pode comprometer o entendimento do texto e reações a ele, levando a
resultados finais talvez diferentes do enfoque e impacto propostos pelos originais.
Outra estratégia utilizada na tradução e transformação de textos jornalísticos que foi
observada nos textos do corpus é a adição (HURSTI, 2001, p. 5) – que pode ser um
acréscimo de informações que não fazem parte do texto-fonte quando há a necessidade de se
esclarecer algo ou de tornar uma informação ou uma hipótese mais explícita– como vemos
nos seguintes casos:
42
TF1: Every turned spade has the potential to unearth not just munitions but bones,...
TM1: Potencialmente, todos locais de construções ou projetos de escavação podem
desvendar não apenas munição, mas ossos também.
TF1: The Belgian unit near Ypres collects about 100 tons of munitions a year.
TM1: Uma unidade militar belga nos arredores de Ypres recolhe cerca de 100
toneladas de munição por ano.
TF2: Among the most interesting is a series of mash-ups by Basel Elmaqosui,…
TM2: Entre os mais interessantes está uma série de mash-ups (fusões) de Basel
Elmaqosui,...
Como destacado nos exemplos acima, as informações que foram adicionadas aos
textos-meta podem ter sido utilizadas: para contextualizar o leitor, como no primeiro trecho
do TM1 em que foi acrescentado que “todos os locais de construção” desvendam achados;
para dar informação extra, como no segundo exemplo do TM1 com o acréscimo de “militar”;
ou como recursos de explicação de determinado fato ou expressão, ao explicar o termo
reproduzido do original “mash-ups” como “fusões” no TM2.
No caso do trecho a seguir, houve uma reorganização da frase com a adição de alguns
itens lexicais para dar mais detalhes a certa informação, e percebe-se a pressuposição de que
os leitores brasileiros não conseguiriam acessar a indicação de adversidade entre os grupos
militares de palestinos e defensores de Israel:
TF2: …, which have been a prime tool in the parallel propaganda war between
backers of Palestinian militants and Israel.
TM2: ..., que têm sido um instrumento básico na guerra de propaganda paralela entre
os que apoiam os militantes palestinos e os defensores da posição de Israel.
Por fim, a substituição – um processo que envolve outros tipos de estratégias como
reorganização textual, adição e supressão, de maneira quase inevitável – como Hursti (2001)
destaca em seu trabalho, também foi percebida nas reportagens analisadas. De acordo como o
autor, essa estratégia pode gerar os resultados mais interessantes na transformação dos textos,
pois textos jornalísticos chamam atenção pela forma como a linguagem é utilizada,
43
ressaltando estilos, dando ênfase ou não a determinadas informações. É o que pode ser
observado nos seguintes trechos:
TF1: The padlocked cage beside the driveway on the Butaye family farm near this
town in western Belgium is almost full of rusting bombs again.
TM1: A caixa trancada ao lado da garagem da fazenda da família Butaye, perto desta
cidade no oeste da Bélgica, está lotada de bombas enferrujadas [...].
TF1: In the end, more than 500,000 men had been killed or wounded, and the constant
shelling had turned the landscape into a lifeless swamp.
TM1: No final, cerca de 500,000 homens foram mortos ou feridos. [...]
No primeiro período selecionado acima, a tradução no TM1 torna uma informação
menos específica transformando o significado do trecho do TF1 de que a caixa estava “quase
lotada” de bombas enferrujadas por “lotada”, sendo que ainda há a omissão do item lexical
“again”, perdendo a ênfase de que é um fato recorrente. Já o segundo trecho suaviza a
quantidade de homens mortos e feridos ao substituir “more than” por apenas “cerca de”, e
ainda omite a informação enfática que marcou a guerra de que o constante bombardeio tornou
a paisagem num pântano sem vida. As transformações destacadas nos dois períodos podem
influenciar o leitor a um entendimento geral diferente do intencionado pelo original.
Outro exemplo de substituição que torna determinada informação menos específica é
percebido agora neste trecho da segunda reportagem analisada:
TF2: But Belal Khaled, a young photojournalist and painter in this southern Gaza
town,...
TM2: Todavia, Belal Khaled, um jovem fotojornalista e pintor local,...
Ainda como exemplos de substituições ocorridas no TM1, nos trechos a seguir há
alterações de léxicos que modificam a mensagem intencionada pelo TF1 podendo levar o
leitor do texto-meta à formação de uma opinião diferente:
TF1: Up to 30 percent of the artillery shells fired never went off, experts say. Some
were duds, but many simply slid deep into the mud without exploding.
44
TM1: Até 30 por cento das cápsulas disparadas nunca detonou, dizem os especialistas.
Algumas falharam, e outras simplesmente se enterraram na lama antes de explodir.
TF1: But many farmers are not interested, mostly because digging up the shells may
change the soil composition, bringing up the blue clay that is several feet beneath the
surface.
TM1: No entanto, muitos agricultores não estão interessados, principalmente porque o
processo pode alterar a composição do solo, trazendo à tona a argila azul que está
abaixo da superfície.
No primeiro trecho destacado acima, ao traduzir “but many” por “e outras” há
novamente uma suavização do termo, e a substituição de “without exploding” por “antes de
explodir” distorce completamente a informação do original, já que as cápsulas enterradas na
lama não explodiram, de fato. Já os exemplos das substituições adotadas no segundo trecho
selecionado podem alterar a mensagem proposta, pois as opções adotadas fazem detalhes do
texto original se tornarem menos específicos e até menos impactantes ao traduzir “digging up
the shells” por apenas “o processo” e “several feet beneath the surface” por “abaixo da
superfície”.
No trecho a seguir houve um deslocamento do último parágrafo do texto em inglês
para o penúltimo na reestruturação em português:
TF1: He tried to blow up a bunker near the house, and objected to his grandson‟s
hobby. “Whenever he takes a picture of the house, he cuts the bunker out,” Mr. Butaye
said. “He hates that it was a German bunker.”
TM1: Tentou até explodir um bunker [...]. "Sempre que ele tira uma foto da casa,
deixa aquela parte de fora", disse. "Ele odeia o fato de esse ter sido um espaço
alemão".
Ao utilizar o termo em inglês bunker no TM1, há a pressuposição de que o leitor
brasileiro saiba o significado do termo, pois em um primeiro momento optou-se por utilizá-lo
como aparece no texto de partida, porém logo depois o termo foi traduzido por “espaço
alemão”, que não traz a mesma carga semântica bélica que o termo bunker carrega. Houve
ainda a omissão da ênfase de que o avô de Butaye opunha-se que tal espaço servisse como
hobby de seu neto.
45
Percebe-se, com as transformações ocorridas nas duas reportagens traduzidas, que as
opções adotadas pelo tradutor podem influenciar o novo leitor a um entendimento geral talvez
diferente do apresentado pelo original. Os textos oferecidos ao novo público são geralmente
guiados por suposições do responsável pela tradução sobre o perfil desse leitor, levando em
consideração diversos fatores como língua e cultura, hipóteses essas que podem ser diferentes
das feitas pelo autor do texto original (NORD, 1997, p. 35).
Depois de cotejar os textos-meta com seus respectivos textos-fonte, observou-se que
todas as estratégias definidas e classificadas no embasamento (HURSTI, 2001) foram
utilizadas na transformação e reestruturação dos textos-fonte, sendo que algumas das decisões
tomadas trazem marcas de diferentes enfoques, substituições, supressões e adições
significativas. Pode-se concluir, dessa maneira, que um mesmo fato noticioso pode ser
apresentado sob diferentes perspectivas.
46
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É comum em várias pesquisas partir da leitura da bibliografia existente sobre o
assunto, com a finalidade de se desenvolver ideias e se basear em arcabouços teóricos
concretos. Ao fazer um levantamento sobre as pesquisas relacionadas à tradução no âmbito do
jornalismo, percebeu-se que é uma área ampla e de possibilidades a serem exploradas. O
ponto de partida dessa pesquisa foi a leitura de trabalhos que versam sobre tradução,
jornalismo em ambiente internacional e de pesquisas que abordam uma possível intersecção
entre as duas áreas, como a interface proposta pela professora Meta Elisabeth Zipzer (2002).
Escolhidas as reportagens publicadas na Folha de São Paulo, foi feito um cotejamento
entre elas e seus respectivos originais publicados no The New York Times, analisando as
transformações sofridas pelas reportagens levando em consideração o modelo de Christiane
Nord (1991) e os conceitos estabelecidos por Kristian Hursti (2001).
A partir da análise textual proposta pelo modelo de Nord (1991), pôde-se perceber que
cada reportagem tem características próprias, mas também parecidas. Como um dos objetivos
dessa pesquisa foi o de levantar a hipótese de que textos jornalísticos são transformados
quando traduzidos, ao analisar o corpus comprova-se essa hipótese, pois os textos-fonte foram
alterados quando traduzidos em vários trechos, ganhando outras características.
Como destacado por Esser (1998) em seu modelo, o jornalismo de cada país pode ser
influenciado por vários fatores que interagem entre si e se condicionam. Portanto, as
diferenças culturais, políticas e socioeconômicas entre os países em questão, assim como de
nível institucional e organizacional dos jornais envolvidos e, também, as escolhas feitas pelo
agente tradutor das reportagens acabam moldando o texto a certos propósitos, dando mais
ênfase a determinados aspectos em detrimento de outros, ou o contrário. Todas as estratégias
descritas por Hursti (2001) utilizadas na tradução de notícias foram constatadas nas
reportagens analisadas, refletindo outro objetivo dessa pesquisa, que foi o de analisar tais
intervenções, que podem dar aos textos traduzidos outros significados e até levar o leitor a
diversas conclusões talvez diferentes das propostas pelo texto no idioma original.
Pelo fato de os textos estarem inseridos em contextos culturais e linguísticos distintos,
pode haver também propósitos diferentes na veiculação da notícia traduzida. Quando uma
notícia é divulgada, há uma intenção por trás disso, intenção essa que também ocorre na sua
tradução para futura divulgação em outros países, daí a relevância de se analisar o que está
por trás dessas transformações. Por se tratarem de textos informativos, os textos jornalísticos
47
são regidos por normas que influenciam nas escolhas linguísticas ou estilísticas do tradutor
(NORD, 1997, p. 38).
Todas as etapas na transformação de textos implicam em decisões que influenciam no
resultado final do processo tradutório, seja pela necessidade de se contextualizar a linguagem
utilizada para que atenda melhor ao perfil do novo leitor, seja pelo respeito às culturas em
questão. Mesmo levando em consideração as diferenças culturais, é possível fazer escolhas
que garantam respeito a essas diferenças e atenção ao novo público, apesar das dificuldades
relacionadas a determinadas escolhas.
Uma análise do texto-fonte guia o processo tradutório no sentido de que oferece
fundamentos para decisões a respeito da tarefa do tradutor, do que é relevante no texto-fonte
para uma tradução funcional e de qual estratégia a ser utilizada para que se tenha o texto-meta
esperado após a tradução (NORD, 1997, p. 62).
A abordagem apresentada aqui demonstra a influência da tradução na construção de
uma informação e de um conhecimento globalizados. Além disso, considerando que o
jornalismo é formador de opinião, mostra que o texto jornalístico ao ser traduzido para
diferentes línguas pode influenciar o leitor a formar opiniões também diferentes. Comprovase, dessa maneira, que as transformações sofridas pelos textos-fonte analisados não são
apenas de cunho linguístico, mas sim que podem influenciar o entendimento por parte do
novo leitor.
Consideramos que essa pesquisa seja relevante na tentativa de explorar a tradução no
ambiente do jornalismo internacional, assim como suas várias possibilidades, e que seja
importante para futuras discussões e aprofundamentos. Dessa forma, pretendemos ainda ter
contribuído para a divulgação dessa interface entre a tradução e o jornalismo, no que tange a
pesquisas disponíveis, e incentivar outras, levando em consideração a globalização sempre
crescente das redes de comunicação.
48
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BANI, Sara. An analysis of press translation process. p. 35-45, 2006. In: CONWAY, Kyle;
BASSNETT, Susan (eds.). Translation in Global News: proceedings of the conference
held at the University of Warwick. Coventry: University of Warwick, 2006.
CONWAY, Kyle; BASSNETT, Susan (eds.). Translation in Global News: proceedings of
the conference held at the University of Warwick. Coventry: University of Warwick, 2006.
DALEY, Suzanne. Projéteis da 1ª Guerra ainda causam estragos. Tradução do The New York
Times. Folha de São Paulo, São Paulo, 19 ago. 2014. Caderno Mundo. Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/08/1502445-projeteis-da-1-guerra-aindacausam-estragos.shtml>. Acesso em: 10 set. 2014.
______. Belgians Share Their Land With War´s Reminders. The New York Times, Nova
Iorque, 26 jun. 2014. Caderno World. Disponível em:
<http://www.nytimes.com/2014/06/27/world/europe/belgians-share-their-land-with-worldwar-ireminders.html?module=Search&mabReward=relbias%3Ar%2C%7B%222%22%3A%22RI
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Journalismus im Vergleich. Müchen: Verlag Karl Albert GmbH Freiburb, 1998. In:
ZIPSER, Meta Elisabeth. Do fato à reportagem: as diferenças de enfoque e a tradução
como representação cultural (tese de doutorado). São Paulo: USP, 2002.
GAMBIER, Yves. Transformations in International News. p. 9-21, 2006. In: CONWAY,
Kyle; BASSNETT, Susan (eds.). Translation in Global News: proceedings of the
conference held at the University of Warwick. Coventry: University of Warwick, 2006.
HOLMES, James S. Translated! Papers on Literary Translation and Translation Studies.
Amsterdam: Rodopi, 1988. p.66-80.
HURSTI, Kristian. An insider’s view on transformation and transfer in international
news communication. Disponível em:
<http://humanities.ufs.ac.za/dl/userfiles/Documents/00001/930_eng.pdf>. Acesso em: 24 set.
2014.
LEFEVERE, André. Translation, Rewriting and the Manipulation of Literary Frame.
London & New York: Routledge, 1992.
49
NORD, Christiane. Text Analysis in Translation: theory, methodology, and didactic
application of a model for translation-oriented texts analysis. Translation: Christiane
Nord; Penelope Sparrow. Atlanta: Rodopi, 1991.
______. Translating as a purposeful activity: Functionalist Approaches Explained.
Manchester: St. Jerome, 1997.
REISS, Katharina. Möglichkeiten und Grenzen der Übersetzungskritik. Kategorien und
Kriterien für eine sachgerechte Beurteilung von Übersetzungen. Munich: Hueber, 1971.
In: NORD, Christiane. Translating as a purposeful activity: Functionalist Approaches
Explained. Manchester: St. Jerome, 1997.
RUDOREN, Jodi; AKRAM, Fares. Destruição em Gaza desencadeia onda de criatividade.
Tradução do The New York Times. Folha de São Paulo, São Paulo, 02 set. 2014. Caderno
Mundo. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/09/1509199destruicao-em-gaza-desencadeia-onda-de-criatividade.shtml>. Acesso em: 10 set. 2014.
______. Artist´s Work Rises Form the Destruction of the Israel-Gaza Conflict. The New
York Times, Nova Iorque, 16 ago. 2014. Caderno World. Disponível em:
<http://www.nytimes.com/2014/08/17/world/middleeast/artists-work-rises-from-thedestruction-of-the-israel-gaza-conflict.html>. Acesso em: 10 set. 2014.
ZIPSER, Meta Elisabeth. Do fato à reportagem: as diferenças de enfoque e a tradução
como representação cultural. 274 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Modernas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002.
50
ANEXO A
TF1
Belgians Share Their Land With
War’s Reminders
A century after hundreds of
thousands died around Ypres, their
remains are still being found, and
shells are still exploding.
TM1
Projéteis da 1ª Guerra ainda
causam estragos
HURSTI (2001)
[reorganização]
[supressão]
By SUZANNE DALEY
SUZANNE DALEY
DO "NEW YORK TIMES", EM
YPRES (BÉLGICA)
JUNE 26, 2014
19/08/2014 02h00
World War I relics, including
unexploded shells, are exhibited by
Stijn Butaye, 26, on his family farm.
[deslocamento]
[supressão]
Video by Erik Olsen on Publish
DateJune 26, 2014. Photo by Dmitry
Kostyukov for The New York Times.
YPRES, Belgium – The padlocked
cage beside the driveway on the
Butaye family farm near this town in
western Belgium is almost full of
rusting
bombs
[again].
Since
January, Stijn Butaye has collected
46 mortar shells on his family’s 100
acres, World War I munitions he
found among the sugar beet and
potato fields, sometimes with the
help of his metal detector.
A caixa trancada ao lado da
garagem da fazenda da família
Butaye, perto desta cidade no
oeste da Bélgica, está lotada de
bombas enferrujadas [...]. Desde
janeiro, nos 40 hectares de seu
terreno, Stijn Butaye recolheu 46
projéteis de morteiros, munição
da
Primeira
Guerra
que
encontrou pelas plantações de
beterraba e de batata, às vezes
com a ajuda de seu detector de
metais.
Mr. Butaye’s father, Luc, won’t
[even] plow two of his fields for feat
of what the blades might hit. Not
long ago, a neighbor riding his
tractor ruptured an aging shell, and
the explosion sent shrapnel [through
his windshield,] tearing off a chunk
of his ear.
O pai de Butaye, Luc, evita [...]
arar dois de seus campos, com
medo de que as lâminas
atinjam algo perigoso. Há
pouco tempo, um dos vizinhos
passou por cima de um velho
projétil com seu trator e os
estilhaços da explosão [...]
acabaram
arrancando
um
pedaço de sua orelha.
[reorganização deslocamento]
[substituição]
[supressão]
[supressão]
[reorganização]
[supressão]
51
―You don’t know what could
happen,‖ said Stjin Butaye, 26, who
has built a [small] museum [beside
the barn] with hundreds of items —
including shoes and eyeglasses and
razors and a perfectly preserved gas
mask — that he has found on his
family’s property. ―We [just] use that
land for grazing the cows.‖
"Não se sabe o que pode
acontecer," disse Butaye, de 26
anos, que construiu um museu
[...] [...] com as centenas de itens
encontrados na propriedade –
incluindo
sapatos,
óculos,
lâminas de barbear e uma
máscara de gás perfeitamente
preservada. "Essa terra é usada
[...] como pastagem para as
vacas."
It has been 100 years since World
War I erupted [in these parts]. The
men who survived the thousands of
miles of muddy trenches that
surrounded
this
strategically
important region are long gone and
buried. But the earth, [in its own
way], has become the last witness,
coughing up constant reminders of
a bloody and relentless war that
would demolish empires, leave at
least 8.5 million soldiers and seven
million civilians dead, [and produce
legacies that continue to play out
today].
A Primeira Guerra começou há
100 anos [...]. Os sobreviventes
dos milhares de quilômetros de
trincheiras
lamacentas
que
cercaram
esta
região
de
importância estratégica estão
mortos há muito tempo, mas a
terra [...] tornou-se a última
testemunha,
oferecendo
lembranças constantes de um
conflito sangrento e implacável
que demoliu impérios, matou
pelo menos 8,5 milhões soldados
e sete milhões de civis [...].
Around Ypres, the Allies and the
Germans fought for nearly four years
in [a marathon slugfest that
produced] some of the war’s most
famous and deadly battles. [It was
here that the Germans first used
chlorine and mustard gas on Allied
troops. Yet neither side ever made
much headway despite artillery
barrages so fierce and long that they
wiped away roads and villages,
leaving miles in which not a building
or a tree or a blade of grass was
left.]
The area became a battlefield when
German forces wheeled north after
being stymied in their initial drive on
Paris in the war’s opening months in
1914. After that, the conflict shifted
toward Belgium as the Germans
tried a flanking maneuver and the
Nas cercanias de Ypres, aliados
e alemães lutaram por quase
quatro anos […] nas batalhas
mais famosas e sangrentas da
guerra. […]
[supressão]
[supressão]
[supressão]
[supressão]
[substituição]
[substituição]
[supressão]
[substituição]
[supressão]
[supressão]
[supressão]
[supressão]
52
Allies raced to protect their control of
the vital French seaports of Calais
and Boulogne. There, along a front
stretching southward from the
Belgian coast, the opposing armies
settled in, turning fertile farmlands
into nightmarish killing fields.
A Belgian City Where the Earth Still
Bears Witness to War
[supressão]
Photo Credit Dmitry Kostyukov for
The New York Times (10 photos)
Experts say that in one particularly
intense three-month campaign in
1917, known as the Third Battle of
Ypres,
[or
the
Battle
of
Passchendaele], the British alone
fired more than four million shells. In
the end, more than 500,000 men
had been killed or wounded, [and
the constant shelling had turned the
landscape into a lifeless swamp]. Up
to 30 percent of the artillery shells
fired never went off, experts say.
Some were duds, but many simply
slid deep into the mud without
exploding.
Especialistas dizem que, em uma
campanha
particularmente
intensa, que durou três meses
em 1917, conhecida como a
Terceira Batalha de Ypres, [...] só
os britânicos dispararam mais de
quatro milhões de projéteis. No
final, cerca de cerca de 500.000
homens foram mortos ou feridos.
[...] Até 30 por cento das
cápsulas
disparadas
nunca
detonou, dizem os especialistas.
Algumas falharam, e outras
simplesmente se enterraram na
lama antes de explodir.
Over the years, many of those shells
have begun to rise, some appearing
even in fields that have been plowed
many times before. Most years,
there are two or three injuries from
World War I munitions in Ypres and
the
surrounding
villages.
In
March, two workers were killed and
a third seriously wounded while
handling a shell at a construction
site.
Ao longo dos anos, muitos
desses projéteis começaram a
emergir, alguns aparecendo até
em campos que já haviam sido
arados
muitas
vezes.
Normalmente, há dois ou três
ferimentos por ano causados
pela munição da Primeira Guerra
em Ypres e nas aldeias vizinhas.
Em março, dois trabalhadores
foram mortos e um terceiro ficou
gravemente
ferido
quando
[supressão]
[substituição]
[supressão]
[substituição]
[substituição]
53
tentavam manipular um projétil
em uma construção.
[supressão]
(map of Europe – Area in detail)
[The land here still holds so many
explosives
that
almost
every
construction
project
poses
a
danger.] Every turned spade has the
potential to unearth not just
munitions but bones, [some carefully
laid to rest in full uniform, others
blown apart.] A local highway stands
half finished; [work ended abruptly]
because the bulldozers began
uncovering graves, and the British
government [quickly] objected to the
project.
[...] Potencialmente, todos locais
de construções ou projetos de
escavação podem desvendar
não apenas munição, mas ossos
também [...]. Uma rodovia ficou
inacabada; [...] as máquinas
começaram a descobrir túmulos
e o governo britânico se opôs [...]
à continuação. É impossível
morar próximo a Ypres sem
sentir o peso de viver sobre um
antigo campo de batalha onde
morreram jovens da Alemanha,
da França, do Reino Unido, da
Bélgica, da Austrália, do Canadá
e do norte da África […]. Há
cemitérios por toda parte. […]
It is impossible to live around Ypres
without feeling the weight of living
atop a former battlefield where
young men from Germany, France,
Britain, Belgium, Australia, Canada
and North Africa died, [some as
young as 15.]
[reestruturação
de parágrafo –
deslocamento]
Cemeteries are everywhere. [Some
are just small clusters of graves
surrounded by stone fences beside
country roads. Others are carefully
laid out rows of crosses that seem to
extend forever, crowned by huge
monuments.
In
a German
cemetery in the nearby village of
Langemark, a patch of grass holds
the bones of about 25,000 men,
many of them unidentified.]
And yet more bodies always seem to
be found. In recent years, as the city
decided to develop an industrial
zone along the Yser Canal, a local
team of amateur archaeologists,
calling
themselves ―the
Diggers,‖ [have
followed
the
[supressão]
[adição]
[supressão]
[supressão]
[supressão]
[supressão]
[deslocamento]
[supressão]
[reestruturação
de parágrafo –
deslocamento]
[supressão]
E mesmo assim, mais corpos são
sempre encontrados. Nos últimos
anos, quando a cidade decidiu
desenvolver uma zona industrial
ao longo do canal do Yser, um
grupo local de arqueólogos
amadores -autodenominado "Os
[supressão]
54
bulldozers and] uncovered the
bones of 200 soldiers, only one of
whom could be identified.
[The archaeologists also unearthed
a stretch of trench that has been
partly restored for tourists.] Aurel
Sercu, one of the Diggers, [walked
the site recently, explaining how
tunnels had led away from the
trenches to an underground pump
room, a changing area, a workroom
and a stock of ammunition, all
underwater now. If warm weather
ever dries out the area, he said, the
ground above might collapse, as has
happened elsewhere.]
Cavadores"- [...] descobriu as
ossadas de 200 soldados;
apenas um deles pôde ser
identificado.
[... ] Aurel Sercu, integrante do
grupo, [...] guardou alguns dos
itens
menos
importantes,
incluindo um crucifixo quebrado,
uma gaita e um um par de
meias de lã preservado,
encontrado [...] em um dos
túneis.
―This man died here, and he must
know we are looking at his photo,‖
Mr. Sercu said. ―There is so much
history here. You can’t help but
become obsessed.‖
[supressão]
[reorganizaçao]
[reorganização]
[supressão]
[Much of what the Diggers found
was either reburied with the soldiers
or went to museums. But Mr. Sercu,
a retired language teacher,] has kept
some of what was not wanted,
including a broken crucifix, a
harmonica and a pair of almost
perfectly preserved wool socks
found in [the mud at the bottom of]
one of the tunnels.
When an item, like a straight razor,
had a name and number scratched
on its side, Mr. Sercu tried to track
down the soldier’s family. [Once, he
actually succeeded,] but the soldier’s
last living relative had just died. The
woman’s husband sent [Mr. Sercu] a
picture of the soldier [and said he
should keep the razor. Mr. Sercu
handles the photograph with care.]
[supressão]
[reestruturação
de parágrafo –
deslocamento]
Ao encontrar uma navalha com
um nome e número gravados em
um dos lados, Sercu tentou
localizar a família do soldado, [...]
mas a última parente deste tinha
acabado de morrer. O marido
dela mandou [...] uma foto do
soldado. [...] "Esse homem
morreu aqui, e deve saber que
estamos olhando para sua foto.
Há muita história nesse local.
Não dá para não ficar obcecado,"
disse Sercu.
[supressão]
[supressão]
[supressão]
[reestruturação
de parágrafo –
deslocamento]
55
[supressão]
France’s Department of Mine
Clearance is responsible for collecting
and destroying unexploded shells still
found by the thousands nearly 100
years after the Battle of Verdun.
Video by Erik Olsen
DateJune 26, 2014.
on Publish
The Ypres Salient was only one part
of the Western Front, which ran from
the Atlantic coast across the north of
France to Switzerland. In France
after the war, many of the
battlefields and destroyed villages
were declared part of a red zone,
with access prohibited, left alone to
turn to forest. But Belgium,
historians say, was too small to
afford the luxury of abandoning so
much land.
The war had barely ended when
Belgian refugees began returning,
hoping to farm the rich Flanders
fields. Some committed suicide
when they saw what had happened
to their farms and villages. [But]
others [simply] went to work
rebuilding,
relying
heavily
on
German war reparations, which
arrived by train in the form of fruit
trees and cattle.
The detritus of war was everywhere,
and the simplest thing to do was to
fill the trenches and rebuild. But the
war could not be swept away so
easily. Many markers remain. Cows
graze next to German bunkers and
[supressão]
A guerra mal tinha terminado
quando
refugiados
belgas
começaram a retornar, na
esperança de trabalhar nos ricos
campos da região. Alguns se
suicidaram ao ver o que havia
acontecido às suas fazendas e
vilas; [...] outros [...] começaram
o trabalho de reconstrução,
utilizando reparações de guerra
alemãs, como árvores frutíferas e
gado, que chegavam de trem.
[substituição]
[supressão]
[supressão]
[supressão]
56
drink from shell craters that are now
watering holes. In aerial shots, the
outlines of the trenches can still be
seen because the vegetation grows
greener depending on what lies
below.
Some experts say that it is time to
do more to rid the land of the war’s
effects, particularly by detecting
unexploded shells. Marc Van
Meirvenne, a soil expert at Ghent
University in Belgium [who has
studied the Ypres region, says it has
unusually high levels of copper and
lead, a consequence of the shells
and the lead ball shrapnel inside
many of them, though probably not
sufficient to be a health hazard.]
However,
he
said,
groundpenetrating radar could easily be
used to spot shells.
Alguns especialistas dizem que é
hora de fazer mais para livrar a
terra dos efeitos da guerra,
particularmente por meio da
detecção de projéteis. Marc Van
Meirvenne, especialista em solos
da Universidade de Ghent, na
Bélgica, [...] disse que o radar de
penetração no solo pode ser
facilmente
utilizado
para
encontrar as cápsulas. No
entanto, muitos agricultores não
estão
interessados,
principalmente
porque
o
processo
pode
alterar
a
composição do solo, trazendo à
tona a argila azul que está
abaixo da superfície.
But many farmers are not interested,
mostly because digging up the
shells may change the soil
composition, bringing up the blue
clay that is several feet beneath
the surface.
Most of them, [like Mr. Butaye,] have
a working knowledge of World War I
munitions,
[easily]
identifying
whether they came from German or
Allied forces and how likely they are
to explode. [Both Belgium and
France have specialists assigned to
collect the shells.] The Belgian unit
near Ypres collects about 100 tons
of munitions a year. A French unit
working near Verdun collects about
half as much. [In recent years, the
Belgian government has passed
laws preventing amateurs from
digging.]
[substituição]
[supressão]
[reorganização]
[reorganização]
[reestruturação
de parágrafos deslocamento]
A maioria dos agricultores [...]
tem conhecimento prático de
munição da Primeira Guerra,
identificando [...] se a origem é
alemã
ou
aliada,
e
a
probabilidade de ela explodir. [...]
Uma uma unidade militar belga
nos arredores de Ypres recolhe
cerca de 100 toneladas de
munição por ano. Uma unidade
francesa perto de Verdun recolhe
a metade disso. [...]
[substituição]
[supressão]
[supressão]
[supressão]
[adição]
[substituição]
[supressão]
57
Officials in Ypres say there is more
interest in the war today than there
was 20 years ago. Tens of
thousands of British schoolchildren
come here every year, as do
thousands of the soldiers’ family
members
and
history
buffs,
contributing about 40 million euros a
year to the local economy. Joseph
Verschoore, the deputy mayor of
Ypres, said that even Germans were
beginning to show interest.
[supressão]
―I think before they were not always
at ease,‖ Mr. Verschoore said. ―They
were maybe afraid that the people
here were still angry. But now there
is more understanding that there
was a regime there, and it was not
very good for their people, either.
Many of the German soldiers had no
idea why they were here.‖
But some bitterness lingers. Stijn
Butaye’s grandfather, [who bought
the farm in 1960,] was eager to rid it
of any signs that the Germans had
once camped there. He tried to blow
up a bunker [near the house, and
objected to his grandson’s hobby.]
―Whenever he takes a picture of the
house, he cuts the bunker out,‖ Mr.
Butaye said. ―He hates that it was a
German bunker.‖
[supressão]
Certa amargura persiste. O avô
de Butaye [...] queria livrar a
fazenda de quaisquer sinais de
presença alemã. Tentou até
explodir um bunker [...]. "Sempre
que ele tira uma foto da casa,
deixa aquela parte de fora", disse.
"Ele odeia o fato de esse ter sido
um espaço alemão".
[supressão]
[supressão]
[substituição]
[substituição]
[reestruturação
de parágrafo deslocamento]
58
ANEXO B
TF2
Artists’ Work Rises From the
Destruction of the Israel-Gaza
Conflict
TM2
HURSTI (2001)
Destruição em Gaza desencadeia
[reorganização]
onda de criatividade
By JODI RUDOREN and FARES
AKRAM
JODI RUDOREN
FARES AKRAM
DO "NEW YORK TIMES"
AUG. 16, 2014
02/09/2014 01h30
[supressão]
Belal Khaled in his studio at a Gaza
refugee camp. CreditWissam Nassar
for The New York Times.
[KHAN YOUNIS, Gaza Strip] — The
images of so many houses
destroyed, so many bomb blasts,
[even] so many bodies wrapped in
burial shrouds can begin to blur
together, indistinguishable. But Belal
Khaled, a young photojournalist and
painter in this southern Gaza town,
saw symbols and stories in the
smoke all around him.
First, in a black cloud staining the
bright blue sky above a beach, he
saw hints of a prominent nose, thick
mustache and wild hair, ―like an old
man contemplating the situation of
Gaza,‖ Mr. Khaled said. Then, in a
friend’s photograph of a taller,
thinner plume, he saw a fist with the
[...] As imagens de tantas casas
destruídas, de tantas explosões
de bombas e [...] de tantos corpos
em mortalhas podem começar a
se fundir de maneira indistinta.
Todavia, Belal Khaled, um jovem
fotojornalista e pintor local, via
símbolos e histórias na fumaça ao
seu redor.
Primeiramente, em uma nuvem
negra que manchava o céu azul
em uma praia, ele viu indícios de
um nariz proeminente, um bigode
grosso e cabelos despenteados,
"como se fosse um velho
observando a situação em Gaza",
disse Khaled. Depois, na foto feita
por um amigo de uma nuvem de
fumaça mais alta e rala, ele viu
[supressão]
[supressão]
[substituição]
59
index finger extended, a gesture
Muslims make when saying, ―No
God but Allah.‖ Using Photoshop,
Mr. Khaled added a few simple lines
to emphasize these hidden icons,
and uploaded the artwork to
Facebook, where it was shared and
―liked‖ thousands of times.
um punho com o dedo indicador
estendido, um gesto feito por
muçulmanos quando dizem "não
há outro deus senão Alá". Usando
Photoshop, Khaled acrescentou
algumas linhas simples para
salientar esses ícones ocultos e
postou sua obra de arte no
Facebook, onde ela foi partilhada
e "curtida" milhares de vezes.
―Artists may see things others can’t
see,‖ said Mr. Khaled, 23, who works
for a Turkish news agency. [―Even at
the very tense times and very hard
moments, we still draw.‖]
"Os
artistas
veem
coisas
invisíveis para os outros", afirmou
Khaled, 23, que trabalha em uma
agência de notícias turca. […]
[substituição]
[supressão]
[supressão]
One of Mr. Khaled's works.
Probably as long as there has been
war, there have been war artists
whose
interpretations
of
the
battlefield
feed
cultural
understanding of conflict. [Modern
armies appoint official artists to
chronicle military triumphs; dissident
poets and painters provide portraits
of victims and the aftermath. Though
made
decades
after
the
Revolutionary
War,
Emanuel
Leutze’s ―Washington Crossing the
Delaware‖ is but one example of a
work that lingers in the public
consciousness.]
In Gaza, where art supplies are
scarce and expression often stifled,
Provavelmente, enquanto houver
guerra, haverá artistas cujas
interpretações do campo de
batalha são úteis para uma
compreensão cultural do conflito.
[…]
[substituição]
[substituição]
[supressão]
Em Gaza, onde há escassez de
materiais para artistas e a
liberdade de expressão muitas
[reorganização
e adição]
60
the fierce fighting that began July 8
unleashed a barrage of creativity,
fueled by social media networks,
which have been a prime tool in the
parallel propaganda war between
backers of Palestinian militants
and Israel.
vezes é reprimida, o conflito
acirrado que começou em 8 de
julho desencadeou uma onda de
criatividade impulsionada por
redes de mídias sociais, que têm
sido um instrumento básico na
guerra de propaganda paralela
entre os que apoiam os
militantes palestinos e os
defensores da posição de
Israel.
At least a half-dozen artists, some
far from Gaza, have circulated
drawings like Mr. Khaled’s, overlaid
onto pictures of the explosions from
Israeli bombs. (He is one of several
claiming to have been the first to do
this.)
Others
posted
more
straightforward paintings of death,
destruction, rockets and warplanes,
stark graphic designs of strident
slogans, digital manipulations and
political cartoons. Among the most
interesting is a series of mash-ups
by Basel Elmaqosui, pairing classic
works [by the masters] with scenes
from the street.
Pelo menos seis artistas, alguns
distantes de Gaza, puseram em
circulação desenhos como os de
Khaled, feitos em cima de fotos
das explosões de bombas
israelenses. (A maioria desses
artistas afirma ter sido pioneira
nisso.) Outros postaram pinturas
mais
explícitas
de
morte,
destruição, foguetes e aviões de
guerra, peças gráficas cruas com
slogans
estridentes,
manipulações digitais e charges
políticas.
Entre
os
mais
interessantes está uma série de
mash-ups (fusões) de Basel
Elmaqosui, combinando telas
clássicas [...] com cenas de rua.
Mr. Elmaqosui inserted ―The Card
Players‖ by Cézanne into a
photograph of men playing cards on
a blanket in one of the United
Nations schools that have sheltered
thousands of displaced residents for
weeks. He put Picasso’s ―Child With
a Dove‖ next to an actual dove — or
perhaps a white pigeon — perched
on one of the only walls that remain
standing in the destroyed village of
Khuza’a, in front of a Palestinian
flag. Beside a Beit Hanoun
neighborhood reduced to rubble, the
figure in Edvard Munch’s ―The
Scream‖ howls. ―It must be famous
drawings so the vision is familiar to
people,‖ said Mr. Elmaqosui, 42, [as
he sat on the porch of the Windows
Elmaqosui inseriu "Os Jogadores
de Cartas" de Cézanne em uma
foto de homens jogando cartas
sobre um cobertor em uma das
escolas da ONU que abrigaram
milhares
de
moradores
deslocados durante semanas. Ele
pôs "Criança com Pomba" de
Picasso ao lado de uma pomba
real — ou talvez um pombo
branco — empoleirada em um
dos únicos muros que restam no
vilarejo destruído de Khuza'a, em
frente a uma bandeira palestina.
Ao lado de um bairro reduzido a
escombros em Beit Hanoun, a
figura de "O Grito" de Edvard
Munch urra. "Isso só dá certo
com obras famosas, para que a
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studio in Gaza City, where he and
two others paint, exhibit and run
workshops for children.] ―Many of
these drawings are related to our
reality. They happened before in the
world. It’s like they are happening
again now.‖
visão seja familiar para as
pessoas", explicou Elmaqosui, 42.
[...] "Muitas dessas obras têm
relação com nossa realidade.
Elas
mostram
coisas
que
aconteceram antes no mundo e
parecem estar se repetindo
agora."
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―Many of these drawings are related
to our reality,‖ said the artist Basel
Elmaqosui. Credit Wissam Nassar for
The New York Times.
The artists see their work as a form
of resistance [to Israeli aggression.
The resistance is also what
Palestinians call the men who
launched rockets into Israel, dug
tunnels into Israeli territory, and
killed Israeli soldiers during their
ground invasion of Gaza. But it is
much more than a respectable term
for militancy or terrorism: Resistance
is an admired value, an essential
part of life’s fabric after decades
living under Israeli occupation and
restrictions. ]
―Everybody in Gaza is resisting in
his own language,‖ said Manal Abu
Safar, 31, who has posted dozens of
bomb-smoke artworks like Mr.
Khaled’s
on
Facebook.
―The
Palestinian artist has his private
language, through his brushes,
through his lines.‖
Os artistas consideram seu
trabalho uma forma de resistência.
[…]
"Todos em Gaza estão resistindo
a sua própria maneira", disse
Manal Abu Safar, 31, que tem
postado dezenas de obras com
fumaça de bombas como as de
Khaled no Facebook. "O artista
palestino expõe sua linguagem
singular por meio de pinceladas e
linhas."
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Ms. Abu Safar, who lives in the
central Gaza Strip town of Deir alBalah and started drawing as a child
in Libya, said she made her first
picture from the smoke of an F-16
strike, a hand making the ―V for
victory‖ sign, on the fourth or fifth day
of the war.
Abu Safar, que mora na cidade de
Deir al-Balah, na região central da
faixa de Gaza, e começou a
desenhar durante sua infância na
Líbia, disse que fez seu primeiro
quadro da fumaça de um ataque
com aviões F-16, uma mão
fazendo o "V da vitória", no quarto
ou quinto dia da guerra.
While Mr. Khaled seems to be
picking up on hints in the actual
smoke, Ms. Abu Safar, who finds
photographs online, takes more
liberty in superimposing her vision: a
snake attacking Gaza; a map of
historic Palestine; Yasir Arafat
holding his cheek in his palm; a
cartoonish man in a helmet with a
Star of David, sucking the blood of a
child.
Enquanto Khaled parece buscar
inspiração na fumaça real, Abu
Safar, que procura fotos on-line,
toma
mais
liberdade
para
sobrepor sua visão: uma serpente
atacando Gaza; um mapa da
Palestina histórica; Yasser Arafat
apoiando a bochecha na palma
da mão; a caricatura de um
homem usando um capacete com
a Estrela de Davi e sugando o
sangue de uma criança.
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A photo of rubble in Beit Hanoun is
paired with Edvard Munch’s ―The
Scream.‖
Mr. Khaled said [he learned Arabic
calligraphy in the seventh grade and
painted Quranic verses on the walls
of his family home. He started taking
photographs at 18 and dropped out
of college, where he was studying
interior design, to take a job at
Anadolu, a Turkish news agency.]
Three years ago, he began painting
— haunting portraits, mostly, of the
forlorn old men and impoverished
youths in his neighborhood. [At the
Khaled disse [...] que começou a
pintar
há
três
anos
—
principalmente
retratos
obsessivos dos velhos sem
esperança e jovens carentes em
seu bairro. [...] "Eu gosto de
desenhar rostos, pois eles
transmitem
muitas histórias",
afirmou.
"Concentro-me
em
desenhar os olhos, que são o
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office one night, he used the coffee
left in his cup to paint a child
screaming.]
ponto focal para quem observa
um rosto."
―I like to draw faces because they
carry a lot of stories,‖ he said. ―I like
to focus on drawing the eyes. The
eyes are the central attractive
point for the one seeing the face.‖
Mr. Elmaqosui has far more
experience. He started drawing and
painting in a [Y.M.C.A.] workshop in
1995, and later went to Jordan for
training. Over the past five years, he
and two partners have taught
photography and drawing classes to
about 5,000 children, [whose work
was collected in a book pairing their
reflections with excerpts from the
United
Nations’
half-century-old
declaration on the rights of children.]
[reestruturação
de parágrafo –
deslocamento]
Elmaqosui
é
bem
mais
experiente. Ele começou a
desenhar e a pintar em um
workshop [...] em 1995 e depois
foi se aperfeiçoar na Jordânia. Há
cinco anos ele e dois parceiros
dão aulas de fotografia e desenho
para cerca de 5 mil crianças. [...]
Gaza has no academy for the arts,
Mr. Elmaqosui said, and only two
small galleries, which get no
government support. There is only
one store that sells tubes of acrylic
paint, for about $10 each, nearly
twice what they cost before 2007,
when Israel imposed tight restrictions
on imports after Hamas, the Islamist
faction it deems a terrorist group,
seized control of Gaza.
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During the 2008-9 Israeli offensive in
Gaza, Mr. Elmaqosui made a series
of 40 black-and-white paintings,
mostly of abstract faces underneath
attack planes and helicopters; [22 of
them, representing the 22 days of
that war, were recently on exhibit in
the West Bank. Some sold for $500.]
Durante a ofensiva israelense em
2008-09 em Gaza, Elmaqosui fez
uma série de 40 pinturas em preto
e branco, principalmente de
rostos abstratos sob o ataque de
aviões e helicópteros. […]
[supressão]
He said he made art constantly
during the fighting this time, in part
―to change the atmosphere for my
children,‖ ages 16, 15, 13, 11 and 3
months. During the earlier conflict,
he said, ―I was telling them these are
Ele
disse
que
faz
arte
constantemente durante o atual
conflito,
em
parte
"para
desanuviar a tensão com meus
filhos", que têm 16, 15, 13 e 11
anos, além de um bebê de 3
meses.
Durante
o
conflito
[substituição]
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fireworks, but now they know it’s not
fireworks.‖
On
Tuesday,
he
posted
to
Facebook a picture made by the 11year-old, and wrote, ―Ahmed paints a
war.‖
anterior, contou, "eu dizia a eles
que as explosões eram de fogos
de artifício, mas agora eles
sabem que não é verdade".
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José Henrique da Silva Júnior - Universidade Católica de Brasília