Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa Lato Sensu em Língua Inglesa Trabalho de Conclusão de Curso A REPORTAGEM TRADUZIDA: TRANSFORMAÇÕES EM TEXTOS JORNALÍSTICOS Autor: José Henrique da Silva Júnior Orientadora: MSc. Michelle de Abreu Aio Brasília - DF 2014 JOSÉ HENRIQUE DA SILVA JÚNIOR A REPORTAGEM TRADUZIDA: TRANSFORMAÇÕES EM TEXTOS JORNALÍSTICOS Monografia apresentada ao Programa de PósGraduação Lato Sensu em Língua Inglesa da Universidade Católica de Brasília como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Língua Inglesa. Orientadora: MSc. Michelle de Abreu Aio Brasília 2014 Monografia de autoria de José Henrique da Silva Júnior, intitulada “A REPORTAGEM TRADUZIDA: TRANSFORMAÇÕES EM TEXTOS JORNALÍSTICOS”, apresentada como requisito parcial para obtenção do certificado de Especialista em Língua Inglesa pela Universidade Católica de Brasília, em 03/12/2014, defendida e/ou aprovada pela banca examinadora abaixo assinada: Profa. MSc. Michelle de Abreu Aio Orientadora Pós-Graduação Lato Sensu em Língua Inglesa – UCB Profa. Esp. Georgina Maria Duarte Campos Pós-Graduação Lato Sensu em Língua Inglesa – UCB Prof. MSc. Wallace Soares Barboza Pós-Graduação Lato Sensu em Língua Inglesa – UCB Brasília - DF 2014 AGRADECIMENTOS A Deus pela benção na realização de mais um projeto e à minha família e amigos que sempre me apoiam incondicionalmente acreditando nos meus sonhos. À minha orientadora Profa. MSc. Michelle de Abreu Aio, que desde nosso primeiro contato mostrou-se sempre disponível a ouvir, aconselhar, incentivar, inspirar. A outros professores da Universidade Católica de Brasília que foram também especiais para meu crescimento profissional, em especial à Profa. Esp. Georgina Maria Duarte Campos, à Profa. MSc. Maria Fernanda Rodrigues e ao Prof. Esp. Henrick Oprea. À minha eterna (des)orientadora, Profa. Dra. Irene Ruth Hirsch (in memoriam), que durante os meus últimos anos de graduação na Universidade Federal de Ouro Preto foi de significante importância para meu direcionamento aos Estudos da Tradução e Literatura. Finalmente, a outros professores da UFOP que trabalharam na minha formação profissional e também de valores pessoais, em especial à Profa. Dra. Glória Maria Guiné de Mello, ao Prof. Dr. Sérgio Raimundo Elias da Silva, à Prof. Dra. Maria Clara Versiani Galery, ao Prof. Dr. José Luiz Vila Real Gonçalves, à Prof. Dra. Adriana Silva Marusso. RESUMO Referência: SILVA JÚNIOR, José Henrique. Título: A REPORTAGEM TRADUZIDA: TRANSFORMAÇÕES EM TEXTOS JORNALÍSTICOS. 2014. 64. Pós-Graduação Lato Sensu em Língua Inglesa, Universidade Católica de Brasília, Brasília-DF, 2014. Este trabalho tem como objetivo analisar as transformações ocorridas em textos jornalísticos quando são traduzidos de um contexto linguístico e cultural para outro. O objetivo geral é levantar a hipótese de que textos jornalísticos são transformados quando traduzidos, seja pelo tradutor, pelo jornalista ou pelos editores e revisores. Para essa análise, foi feita uma seleção e um cotejamento analítico de reportagens publicadas na Folha de São Paulo, traduzidas dos originais em inglês do The New York Times. A seguir, os procedimentos adotados na tradução desse gênero textual foram identificados e classificados de acordo com conceitos sugeridos por Hursti (2001), e as intervenções envolvidas na transformação das reportagens foram discutidas levando em consideração as teorias de Nord (1991) e Esser (1998) através da interface entre tradução e jornalismo proposta por Zipser (2002). O principal objetivo é tentar comprovar que há intervenções nos textos jornalísticos traduzidos e que essas modificações textuais podem não ser apenas transposições linguísticas, mas que atendem a algum propósito e que podem interferir no entendimento do texto. Ao cotejar as reportagens, pode-se perceber que o mesmo fato noticioso foi apresentado sob diferentes perspectivas por elas. Palavras-chave: Jornalismo. Tradução. Tradução Jornalística. Transformações. ABSTRACT This paper aims at analyzing the changes carried out by press translations when news reports are translated from one linguistic and cultural context to another one. The overall objective is to raise the hypothesis that news reports are transformed when translated, either by a translator, a journalist or by the editors and revisers. For this analysis, news reports published in Folha de São Paulo were selected and contrasted with their original published in English in The New York Times. Then, the procedures used to translate this sort of texts were identified and classified according to concepts suggested by Hursti (2001), and the interventions involved in the transformation of the reports were discussed taking into consideration the theories of Nord (1991) and Esser (1998) through the interface between translation and journalism proposed by Zipser (2002). The main objective of this paper is to try to provide evidences that there are interventions on the translated news reports and also that these textual changes may not be only linguistic transpositions, but that they serve to some purpose and may interfere with the understanding of the text. After contrasting the news reports, it was realized that the same news fact was presented under different perspectives by them. Keywords: Journalism. Translation. Press Translation. Transformations. LISTA DE FIGURAS Figura 1: Modelo de Christiane Nord ………....………………………………………........ 15 Figura 2: Modelo Pluriestratificado Integrado ......……………………...………………..... 19 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ………......…………………………………………...…………………...... 8 CAPÍTULO 1 – TRADUÇÃO E JORNALISMO 1.1 – INTERFACE ENTRE TRADUÇÃO E JORNALISMO ................................... 12 1.2 – PROCESSO DE TRADUÇÃO JORNALÍSTICA ............................................. 23 CAPÍTULO 2 – METODOLOGIA 2.1 – O CORPUS: APRESENTAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO .............................. 29 2.2.1 – A Folha de São Paulo ............................................................................ 31 2.2.2 – O The New York Times .......................................................................... 32 2.2 – PROCEDIMENTO METODOLÓGICO ........................................................... 33 CAPÍTULO 3 – DISCUSSÃO: CONTRASTES E DIFERENÇAS …………………...... 34 CONSIDERAÇÕES FINAIS ……………………………………………………............... 46 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ………………...………………………….........… 48 ANEXOS A ................………………………....................................................................… 50 ANEXOS B ................………………………....................................................................… 58 8 INTRODUÇÃO Nas últimas décadas, o rápido desenvolvimento dos meios de comunicação tem transformado a mídia. Em contextos culturais, econômicos, políticos, sociais ou simplesmente de entretenimento. O fluxo de informação tem rompido barreiras culturais e linguísticas em tempo real por meio da notícia impressa, televisiva ou online. Como um dos influentes meios de comunicação, os textos jornalísticos reproduzem fatos da realidade e também podem construir várias versões deles. A informação e os fatos correntes são transmitidos a várias partes do mundo rapidamente, muitas vezes com precisão em detalhes da notícia, clareza e credibilidade que os jornais procuram trazer consigo. As notícias internacionais chegam ao alcance do público de diversos países por meio de agências de notícia, emissoras de rádio ou TV, correspondentes ou enviados especiais, dentre outros. Mas em que língua essas notícias são propagadas? No campo do noticiário internacional, várias línguas podem ser consideradas globais – já que estão presentes no dia a dia de diferentes sociedades e são as mais faladas pelo mundo – como o inglês, o espanhol, o francês, o chinês, o alemão, o português e até o árabe. A considerável variedade de línguas pode ser uma barreira na propagação de informações pelo mundo. Sendo assim, a tradução pode ser vista como um meio importante para transpor obstáculos linguísticos, estando diariamente presente nos trabalhos jornalísticos com o intuito de ampliar o mercado da mídia e de transformar o noticiário em uma mercadoria global. O uso crescente da tradução pela maioria das organizações dedicadas ao jornalismo reflete bem a sua função estratégica. Dessa forma, por trás do fato transmitido em diversos registros linguísticos, pode haver a atuação de um tradutor ou, em muitos casos, de um jornalista com conhecimento das línguas em questão que atuará na tradução de diversos textos. Com o estabelecimento do jornalismo moderno e global, e a tradução como um elemento importante na circulação da notícia num mundo globalizado, a interface tradução e jornalismo se torna um objeto de pesquisa que cresce no campo de pesquisas científicas (cf. ZIPSER, 2002). Nesta investigação de como as notícias internacionais são traduzidas, nos deparamos com a utilização de diversas estratégias empregadas na transformação do noticiário, presentes no dia a dia dos meios de comunicação. Essas estratégias têm uma finalidade específica quando são empregadas na tradução de textos jornalísticos a serem divulgados e o tradutor 9 tem que fazer certas adaptações para atender preferências específicas de estilo (BASSNETT, 2006). Partindo desse princípio, o objetivo desta pesquisa é levantar a hipótese de que os textos jornalísticos são transformados quando traduzidos, seja pelo tradutor ou jornalista que trabalha com o texto, ou ainda pelos editores e revisores. Como em vários casos não se tem conhecimento de quem seja o agente real dessas transformações na tradução, o que será considerado para análise e discussão nessa pesquisa é o resultado do processo tradutório em si. Assim, será considerado tanto jornalista quanto tradutor como sendo o agente transformador do texto na tradução, quando a eles me referir ao longo do texto. Consequentemente, outro objetivo é analisar quais escolhas são feitas quando uma notícia é levada de um contexto linguístico e cultural para outro, como e quando essas escolhas são feitas e, principalmente, as questões relacionadas a tais escolhas. Seja para omitir ou incluir informações, torná-las mais explícitas ou implícitas, seja pelo seu enquadramento de acordo com realidades culturais, políticas e sociais distintas, a transformação do texto pela tradução pode dar-lhe outros significados e até levar o leitor a diversas conclusões, que podem não ser mais as que o texto propunha no idioma original. Vale ressaltar que quando uma notícia é divulgada, há uma intenção por trás disso, intenção essa que também ocorre na sua tradução para futura divulgação em outros países, daí a relevância de se analisar tais transformações. Gambier (2006) destaca que textos de mídia, além de mostrarem a realidade, podem ilustrar outras versões construídas a partir deles e que, ao analisar tais textos, pode-se entender como e quando determinadas escolhas são feitas ao veiculá-los para o leitor. A pesquisa foi dividida em três capítulos. No primeiro será apresentado o embasamento teórico, constituído de abordagens feitas pelo Estudo do Jornalismo e pesquisas na área de Estudos da Tradução. Considerando a amplitude de possibilidades na abordagem da tradução jornalística, foram utilizados diversos trabalhos, tais como: na área de Estudos da Tradução, o modelo de Christiane Nord (1991) e as considerações de Susan Bassnett (2006); com relação ao Estudo do Jornalismo em ambiente internacional, o modelo de Frank Esser (1998 apud ZIPSER, 2002); como ponto de intersecção entre Tradução e Jornalismo, a tese de doutorado de Meta Elisabeth Zipser (2002) e os trabalhos de Yves Gambier (2006), assim como os conceitos estabelecidos por Kristian Hursti (2001) na transformação de notícias traduzidas em meio comunicativo; além de outras referências que constam da bibliografia. No segundo capítulo será feito um panorama da metodologia adotada na pesquisa através da apresentação e caracterização do corpus e do procedimento metodológico. Foram 10 utilizadas duas reportagens publicadas no jornal brasileiro Folha de São Paulo, no ano de 2014, traduzidas de originais em inglês publicados no New York Times para o contexto americano, no mesmo ano. O terceiro e último capítulo é dedicado à discussão proposta, que parte de um cotejamento analítico do corpus selecionado feito através de tabelas, Anexo A (p. 50) e Anexo B (p. 58), identificando e classificando os procedimentos adotados na tradução desse gênero textual, levando em consideração leitor de cada jornal e também o contexto cultural no qual estão inseridos. As intervenções envolvidas na transformação dos textos do corpus serão discutidas assim como uma reflexão sobre tais modificações. Consequentemente, serão apresentadas as considerações a respeito do resultado das análises. Dessa forma, pretendemos trabalhar com a hipótese de que há intervenções nos textos jornalísticos traduzidos, demonstrando que essas modificações textuais podem não ser apenas transposições linguísticas, e sim atender a algum propósito interferindo talvez no entendimento geral do texto. Finalmente, algumas considerações finais sobre as hipóteses levantadas serão apresentadas assim como os seus resultados, assim como sobre a pertinência de tal trabalho com a intenção de colaborar no incentivo e aprofundamento de pesquisas que envolvam as duas áreas: Tradução e Jornalismo. 11 CAPÍTULO 1 – TRADUÇÃO E JORNALISMO O Jornalismo e a Tradução são áreas conceituadas e consolidadas, e no que se diz respeito à interface tradução-jornalismo, hipóteses, análises e questionamentos no meio acadêmico são levantados. Essa interface tem se tornado uma perspectiva dentro dos Estudos da Tradução, sendo interessante analisar como o jornalismo atua na sociedade e como a sociedade recebe tais fatos transmitidos, que foram divulgados inicialmente em outros contextos linguísticos. Em 2006, foi realizado na Universidade de Warwick, Reino Unido, um seminário internacional dedicado às investigações sobre a “[...] natureza multifacetada de como as notícias internacionais são traduzidas [...]”1,2 (BASSNETT, 2006, p. 05). A conferência, intitulada Translation in Global News: proceedings of the conference held at the University of Warwick foi composta de uma série de apresentações sobre pesquisas que envolvem a tradução na mídia global, com a participação de estudiosos de diversas áreas tais como Mídia e Jornalismo, Globalização e Estudos da Tradução, além de jornalistas que trabalham com tradução e jovens pesquisadores interessados nessa interface. Na introdução da conferência publicada posteriormente, Susan Bassnett, uma das editoras, observa que o campo da tradução jornalística tem se tornado atraente e que, com a realização desses seminários, se projeta como uma área de foco na seleção de tópicos para pesquisas acadêmicas (BASSNETT, 2006). Partindo desse princípio, esta pesquisa aborda trabalhos dedicados aos Estudos da Tradução e ao Jornalismo, principalmente através do modelo de análise textual proposto por Nord (1991), do modelo de Esser que aborda fatores que influenciam o jornalismo (1998), assim como a interface das duas áreas proposta por Zipser (2001). 1 2 “Todas as traduções de trechos de obras estrangeiras nesta monografia são de nossa responsabilidade.” […] to investigate the multifaceted nature of how global news comes to be translated […] 12 1.1 – INTERFACE ENTRE TRADUÇÃO E JORNALISMO A tradução tem desfrutado de um constante e notável crescimento no interesse de diversos estudiosos de áreas como Linguística, Estudos Literários, Culturais e etc. Diferentes termos têm sido utilizados em escritos literários relacionados à tradução ou ao processo tradutório, que fazem referências à “arte” ou ao “ofício” da tradução, e ainda “princípios”, “fundamentos” ou “filosofia” da tradução. Com o desenvolvimento de teorias sobre a tradução e com a concretização de uma disciplina emergente, tida como ciência por alguns teóricos, o termo “Estudos da Tradução” surge como o mais apropriado para designá-la (HOLMES, 1988). Os Estudos da Tradução são uma área do conhecimento interdisciplinar que se relacionam com vários campos de estudo, por exemplo: Literatura Comparada, História, Linguística, Filologia, Filosofia, Semiótica, Terminologia, Estudos Culturais e Sociais, dentre outras áreas. Têm como objetivos principais descrever como o fenômeno da tradução e do processo tradutório se manifesta e estabelecer princípios gerais por meio de como esse processo pode ser explicado. Dois ramos relacionados aos seus objetivos podem ser determinados, o dos Estudos Descritivos da Tradução (Descriptive Translation Studies – DTS ou Translation Description – TD) e o dos Estudos Teóricos da Tradução (Theoretical Translation Studies – ThTS ou Translation Theory – TTh) (HOLMES, 1988). Dentre os diversos teóricos que se dedicam à área de Estudos Teóricos da Tradução, destaco Christiane Nord que, em seu livro Text Analysis in Translation (1991), apresenta um modelo funcionalista para análise textual voltado à tradução, que serve como base teórica para a instrução de tradutores e para a prática de tradução. Também é utilizado com o intuito de auxiliar o ensino de tradução, justificar escolhas, sistematizar e resolver problemas previstos no trabalho de tradução e entender suas normas mais claramente. O modelo de análise textual de Nord pode ser aplicado a textos traduzidos ou não que tenham em comum os seguintes elementos: o mesmo meio (revista, jornal, etc.), o mesmo assunto e línguas distintas. Segundo Nord, o modelo preocupa-se com os universos da cultura, incluindo linguagem, comunicação e tradução (ZIPSER, 2002). Nord (1991, p. 4) entende a tradução como um “[...] processo de transferência de texto intercultural[...]”3 (grifos da autora), ou seja, ela é marcada culturalmente, e a comunicação ocorre entre as duas culturas envolvidas na transmissão da mensagem. Para o conceito de 3 […] process of intercultural text transfer […] 13 tradução, a autora utiliza a abordagem funcional, isto é, o foco na função ou nas funções dos textos e das traduções. De acordo com Nord (1997), a abordagem funcional para a tradução foi primeiramente sugerida por Katharina Reiss (1971) que, embora ainda dentro da teoria baseada na equivalência, é considerada o ponto inicial para a análise da tradução. Reiss propõe análises de tradução baseadas nas relações funcionais entre o texto-fonte e o textometa, sendo que a abordagem de cunho funcionalista se desenvolve como uma das orientações mais utilizadas na formação de tradutores. Partindo desse pressuposto, Nord desenvolveu um modelo de tradução baseado nas relações entre o texto-fonte e o texto-meta. Em sua publicação, a autora considera os aspectos culturais como parte integrante dos textos e merecedores de atenção, e ainda acrescenta a maneira com a qual os tradutores interpretam a cultura-fonte, dependendo do propósito da tradução: Traduzir significa comparar culturas. Tradutores interpretam o fenômeno da culturaalvo considerando seus próprios conhecimentos daquela cultura específica, de dentro ou de fora, dependendo se a tradução é da ou para a língua e cultura nativas do tradutor (NORD, 1997, p. 34).4 Na perspectiva interativa de Nord, a tradução é vista como um processo que se realiza no interior da linguagem e através dela, sendo a função do texto, aqui entendida como a forma com que o texto irá “funcionar” na língua/cultura de chegada, o pressuposto para uma situação comunicativa. Assim, “Um texto é uma ação comunicativa que pode ser realizada pela combinação de meios verbais e não-verbais” (Nord, 1991, p. 16).5 Portanto, os textos trazem consigo marcações culturais. O modelo de Nord sugere uma estrutura sistemática para análise dos fatores que envolvem e compõem o texto, apresentando os fatores internos e externos ao texto. Utilizarei esse modelo no trabalho com o corpus, pois a análise desses fatores possibilita a identificação dos elementos do texto-fonte e do texto-meta com base na comunicação intercultural. Segundo Nord (1991, p. 42), os fatores extratextuais [...] são analisados por meio de perguntas sobre o autor ou o emissor do texto (quem?), a intenção do emissor (para quê?), o destinatário ou receptor do texto (para quem?), o meio ou canal pelo qual o texto é comunicado (qual meio?), o lugar (onde?) e o tempo (quando?) da produção e recepção do texto, e qual o motivo (por 4 Translating means comparing cultures. Translators interpret source-culture phenomena in the light of their own culture-specific knowledge of that culture, from either the inside or the outside, depending on whether the translation is from or into the translator‟s native language-culture. 5 A text is a communicative action which can be realized by a combination of verbal and non-verbal means. 14 quê?) da comunicação. Depois dessas sete perguntas respondidas, será possível atender a uma última questão que se refere à função que o texto pode atingir (com qual função?).6 Já os fatores intratextuais [...] são analisados pelas perguntas sobre o assunto do texto (sobre qual tema?), a informação ou conteúdo presentes no texto (o quê?), as pressuposições feitas pelo autor (o que não?), a composição ou construção do texto (em qual ordem?), os elementos não-linguísticos ou paralinguísticos do texto (usando quais elementos nãoverbais?), as características lexicais (em quais palavras?) e estruturas sintáticas (qual tipo de oração?) encontradas no texto, e as marcas suprassegmentais de entonação e prosódia (em qual tom?).7 Uma última questão (qual o efeito do texto?) refere-se à interdependência ou à interação dos fatores intra e extratextuais. 6 Extratextual factors are analysed by enquiring about the author or sender of the text (who?), the sender‟s intention (what for?), the audience the text is directed at (to whom?), the medium or channel the text is communicated by (by which medium?), the place (where?) and time (when?) of text production and text reception, and the motive (why?) for communication. The sum total of information obtained about these seven extratextual factors may provide an answer to the last question, which concerns the function the text can achieve (with what function?). 7 Intratextual factors are analysed by enquiring about the subject matter the text deals with (on what subject matter?), the information or content presented in the text (what?), the knowledge presuppositions made by the author (what not?), the composition or construction of the text (in what order?), the non-linguistic or paralinguistic elements accompanying the text (using which non-verbal elements?), the lexical characteristics (in which words?) and syntactic structures (in what kind of sentences?) found in the text, and the suprasegmental features of intonation and prosody (in which tone?). 15 MODELO DE CHRISTIANE NORD TEXTO FONTE: TEXTO META: TEXTO-FONTE QUESTÕES TRADUÇÃO DE TEXTO-META FATORES EXTERNOS AO TEXTO Emissor Intenção Receptor Meio Lugar Tempo Propósito (motivo) Função textual FATORES INTERNOS AO TEXTO Tema Conteúdo Pressuposições Estruturação Elementos não-verbais Léxico Sintaxe Elementos supra-segmentais Efeito do texto Fig. 1. O Modelo de Christiane Nord (1991) – Tradução de Zipser (2002, p. 50) 16 A tradução procura atender a fatores situacionais da recepção do texto traduzido, tais como o público idealizado, tempo e lugar da recepção, meio, etc., sendo que o tradutor pode optar por mudar elementos não-verbais para elementos verbais e vice-versa durante o processo tradutório, dependendo da função e das estratégias de produção. Nord (1991, p. 122) aponta que “As características do léxico usado em um texto representam uma parte importante em todas as abordagens de análise de textos orientada para a tradução”.8 A autora ainda destaca que “A escolha lexical em um texto é determinada por ambos os fatores extratextuais e intratextuais.” 9. Quanto à influência dos elementos extratextuais no léxico, Nord explica que cada um pode demonstrar certo impacto sobre a escolha de determinados itens lexicais, e se baseia na linha de pesquisa que intersecta a linguística do texto com os modelos funcionalistas da linguagem, e também na Teoria da Comunicação, que são estudos de análise textual relevantes para a tradução. Dentre os vários fatores que atuam no processo tradutório, a autora destaca a noção de função do texto: [...] o ponto de partida teórico-textual para uma teoria funcional da translação é o reconhecimento de que os textos são instrumentos de comunicação inseridos numa situação comunicativa e constituem, assim, parte integrante de um „jogo comunicativo‟[...] (NORD, 1998, p. 144 apud ZIPSER, 2002, p. 38). Zipser (2002), ao propor uma interface entre tradução e jornalismo, destaca o efeito do texto e, ainda, o papel do destinatário da mensagem nesse processo comunicativo, sendo ele de fundamental importância na recepção da mensagem: [...] O emissor inicia o processo, mas não o faz sozinho. Já no momento de definir o objetivo da tradução, ele se pauta pelo conhecimento que tem de seu destinatário e pelo efeito que nele quer produzir. Trata-se de um processo dinâmico, no interior do qual Nord define o conceito de Loyalität, ou de lealdade ao destinatário, para diferenciá-lo do conceito de Treue, ou fidelidade ao texto-fonte. [...], também para o funcionalismo de Nord a tradução é um processo eminentemente prospectivo, isto é, voltado para frente, para o destinatário que quer atingir (ZIPSER, 2002, p. 39). A complexidade na produção e tradução textual envolve a tomada de uma série de decisões, que levam em consideração todas as variáveis expostas no modelo de Nord e, também, as relações de interdependência entre elas. No que concerne à relação emissorreceptor, Zipser destaca ainda a possibilidade de haver alguns problemas: 8 The characteristics of the lexis used in a text play an important part in all approaches to translation-oriented text analysis. 9 The choice of lexis is determined by both extra and intratextual factors. 17 Some-se a isso o fato de essa mesma dinâmica de interação do produtor textual – seja o tradutor ou o jornalista – e seu destinatário – o leitor do texto traduzido ou o leitor do texto jornalístico – nem sempre acontece isenta de problemas (ZIPSER, 2002, p.43). Um dos objetivos do modelo proposto por Nord é oferecer a oportunidade de se ter uma base para a resolução desses problemas. A princípio, seu modelo foi criado para o ensino da tradução e, consequentemente, para a análise do processo tradutório com a finalidade de se encontrar soluções para os possíveis problemas encontrados no processo. Sendo assim, Nord comenta seu próprio modelo: O modelo de análise textual relevante para a tradução, tal como inicialmente definido, deve ser utilizado nas aulas de tradução, e deve contribuir para a eleição de critérios de seleção de textos para exercícios, para sistematização de problemas de tradução e procedimentos para suas soluções, para o controle do progresso da aprendizagem nas aulas de tradução, bem como para a avaliação das soluções de tradução (NORD, 1988, p. 165 apud ZIPSER, 2002, p. 47). O modelo proposto por Nord, além de servir ao ensino de tradução, proporciona ao tradutor uma visão ampla do texto-fonte e do processo tradutório, com todos os fatores envolvidos no processo. Tal trabalho foi importante para minha pesquisa no trato com os textos-fonte, assim como nas análises dos seus respectivos textos de chegada, partindo dos elementos externos ao texto para os níveis internos, sendo que a abordagem de ambos estabelece relações estreitas que ajudam na determinação de tais fatores. A interação entre fatores ligados ao texto proposta por Nord também é destacada por Esser (1998) quando apresenta um modelo de estudo do jornalismo internacional no qual as diversas esferas que influenciam na criação do texto jornalístico interagem entre si e se condicionam. Sendo assim, antecipo o ponto de intersecção criado por Zipser (2002) em sua tese de doutorado entre os dois teóricos citados, e que foi utilizado nessa pesquisa: Essa mesma dinâmica de interação é apontada por Esser (1998) em seu modelo: as várias esferas por ele descritas interagem e se condicionam reciprocamente. Qualquer alteração num desses níveis define necessariamente uma nova constelação de fatos. Eis aqui, mais uma vez, um ponto de confluência entre os dois teóricos e seus modelos, que reforça a necessidade de, em tradução, se trabalhar de forma interdisciplinar (ZIPSER, 2002, p. 51). O jornalista e acadêmico alemão Frank Esser desenvolveu diversas pesquisas, destacando-se publicações relacionadas à comunicação em massa, à xenofobia, ao jornalismo comparado e a escândalos. Em sua tese de doutorado compara o jornalismo inglês com o 18 alemão, trabalho esse publicado como “Die Kräfte hinter den Schlargzeilen. Englischer und deutscher Journalismus im Vergleich (As forças por trás das manchetes. Comparação entre o jornalismo inglês e alemão)” (ZIPSER, 2002, p. 15). Esser faz análise entre a relação de interculturalidade que envolve o jornalismo dos dois países e as várias maneiras que influenciam o jornalismo, identificando fatores que conferem ao jornalismo de cada país uma identidade nacional e cultural próprias. Zipser destaca que “Tal contribuição, a nosso ver, é tanto mais importante, pois foi exatamente o trabalho de Esser que permitiu o estabelecimento de uma ponte entre os estudos jornalísticos e os tradutológicos a partir da perspectiva cultural.” (ZIPSER, 2002, p. 16). Como ponto de partida em sua pesquisa e apresentação de seu modelo, Esser subordina o estudo do jornalismo a diversos fatores: O ponto de partida dessa direção de pesquisa (e também desse trabalho) é o reconhecimento de que o jornalismo de cada país é marcado pelas condições emoldurais sociais gerais, por fundamentos históricos e jurídicos, limitações econômicas, bem como por padrões éticos e profissionais de seus agentes (ESSER, 1998, p. 21 apud ZIPSER, 2002, p. 18). Como se trata de um estudo comparativo do jornalismo alemão com o inglês, Esser acredita que os fatores que exercem influência no jornalismo, assim como características culturais e nacionais de cada país, podem ser identificados a partir de estudos comparativos internacionais. Segundo o autor: Somente a comparação internacional pode esclarecer quais fatores de influência marcam e constituem o fazer jornalístico, que relação esses fatores guardam entre si e como podem ser avaliados (ESSER, 1998, p. 18 apud ZIPSER, 2002, p. 20). 19 Esfera de estrutura da mídia, níveis normativos – econômico e jurídico (parâmetros de orientação parcial do sistema) Esfera social Moldura histórico-cultural Liberdade de imprensa, história da imprensa e autoimagem da imprensa. Tradição jornalística e conceito de objetividade. Cultura esfera política. Condições determinantes da esfera político-social. Os fatores dos vários níveis influenciam-se num processo de reciprocidade complexo Condições econômicas do mercado e mídia. Direito da imprensa. Parâmetros éticos profissionais e de autocontrole da imprensa. Sindicatos, associações. Sistema de formação do jornalista. Os fatores das camadas externas determinam a natureza e atuação jornalística dos elementos atuantes da mídia, no centro Os fatores das camadas externas impedem que temas e valores subjetivos se cristalizem – sem prévia filtragem – nos conteúdos da mídia Esfera institucional, nível organizacional (de ordem institucional): Esfera subjetiva, níveis individuais (esfera de atuação): Retrato da profissão e perfil de atividades. Estrutura organizacional e de distribuição de competência na redação e editoração. Procedimentos de trabalho na redação, controle de redação e mecanismos de socialização. Tecnologia de redação. Valores subjetivos e postura política. Tópicos profissionais e de natureza dos papéis desempenhados. Profissionalização. Posição demográfica. Interação com e atuação sobre outros sistemas sociais Fig. 2. Fatores de Influência no Jornalismo: Modelo Pluriestratificado Integrado ou “metáfora da cebola” de Frank Esser (1998, p.27) – Tradução de Zipser (2002, p. 24) 20 Como justificativa ilustrativa de seu modelo apresentado acima, Esser usa uma metáfora, assemelhando-o à estrutura de uma cebola: Houve várias tentativas de identificar e classificar esses fatores de influência. Uma maneira simples de classificação desses fatores de influência é a “metáfora da cebola”. Comparamos o jornalismo – retomando a ideia de Maxwell McCombs – com uma cebola, sendo que cada camada da cebola representa um fator de influência do fazer jornalístico (ESSER, 1998, p. 21 apud ZIPSER, 2002, p. 23). Esser reconhece que o jornalismo de cada país é influenciado por diversos fatores, e estabelece essas influências através de esferas ilustradas naquele que ele chama de Modelo Pluriestratificado Integrado. Essas esferas são dividas em níveis: o nível de esfera social, incluindo aspectos histórico-culturais e condições determinantes na esfera político-social; o nível institucional e organizacional, que engloba aspectos práticos do fazer jornalístico e o retrato da profissão; o nível de estrutura da mídia em si, com as normas ditadas pelos setores econômico e jurídico com relevância para a ética profissional; e por fim, o nível subjetivo, que se refere à atuação profissional do indivíduo, sua postura e interação em seu grupo de atuação. A partir dessas esferas, os aspectos sociais, culturais, políticos e econômicos se mostram interligados no âmbito do jornalismo e sofrem influências entre si, sendo particularmente claras quando da atuação jornalística em contexto situacional e cultural diferenciados: Os vários níveis encontram-se numa estreita relação de interação, influenciam-se reciprocamente, nenhum fator atua isoladamente, mas desenvolve sua influência somente em conjunto com as demais forças. As quatro esferas moldam o fazer jornalístico (ESSER, 1998, p. 26, apud ZIPSER, 2002, p. 27). O jornalismo assumiu o papel de divulgador das transformações social, econômica e política ocorridas no mundo, fazendo parte de uma estrutura social com ligação estabelecida e influenciando a sociedade. O princípio básico do jornalismo é a sua função informativa, tendo comprometimento de informar os fatos ocorridos com veracidade e de levar em consideração características que diferenciam línguas e culturas diferentes (ZIPSER, 2002). Esser nos leva a questionar a visão consensual do compromisso com a neutralidade no meio jornalístico, noção similar à visão da tradução isenta (literal) que desconsidera o dinamismo da linguagem e os fatores que influenciam o processo de formação de sentido nas diferentes culturas. Nesse sentido, “[...] as esferas apresentadas no modelo de Esser são as 21 diretrizes dessa escritura, principalmente em contexto internacional, à medida que ajudam a explicar e justificar diferentes enfoques e abordagens dados à notícia.” (ZIPSER, 2002, p. 31). O modelo de Esser apresenta os elementos que nos permite caracterizar questões explícitas da escritura e da tradução jornalística, e não só explica como também justifica os diferentes enfoques e abordagens dados à notícia, apresentando parâmetros que condicionam tanto a avaliação como a interpretação dos fatos que norteiam o trabalho dos jornalistas. Em seu trabalho, ele postula que somente em estudos comparativos internacionais podem ser identificados efetivamente os fatores de influência que permitem que o jornalismo de cada país possa ter sua identidade nacional e cultural. O jornalismo e a tradução estão ligados às esferas social e cultural, tendo-os como fatores determinantes em suas produções já que a tradução geralmente trabalha com duas ou mais línguas e culturas, e o jornalismo, da mesma maneira, levando-se em consideração sua abordagem em contexto internacional. Em sua tese de doutorado apresentada à Universidade de São Paulo, em 2002, a Professora Dra. Meta Elizabeth Zipser aproximou as relações entre a tradução e o jornalismo, estabelecendo a possibilidade de um estudo dessa interface. Também propôs uma reflexão sobre a prática tradutória nas redações, a partir de eventuais deslocamentos de enfoque do fato noticioso traduzido ou retextualizado pelas agências de notícia no mundo. O que a autora faz em seu trabalho é uma recontextualização do modelo funcional de Nord (1991) para a tradução sob uma perspectiva do jornalismo internacional. Levando em consideração a importância dos trabalhos de Esser (1998), Zipser destaca a contribuição do autor para a área da tradução jornalística, no que diz respeito aos procedimentos comuns utilizados nas redações de jornais, e ainda aponta que faltam reflexões sobre a tradução nesse meio, mesmo fazendo parte dele há muito tempo: A prática da tradução nas redações e a difusão de notícias recebidas de agências internacionais motivam uma discussão, sobretudo no sentido de saber se a tradução no interior do jornal ou nas redações de revista pode ser considerada da forma consensual que ainda percebemos nos julgamentos que se fazem sobre a tradução: uma atividade mecânica, de um lado, quando se trata de textos técnicos ou científicos, e uma atividade artística, de outro, quando se trata da tradução de literatura (ZIPSER, 2002, p. 17). Zipser (2002) destaca outro ponto importante que demonstra a intersecção entre o jornalismo e a tradução: a essência intercultural das atividades desenvolvidas pelo jornalista e o tradutor, pois aspectos de cultura fazem parte tanto do jornalismo como da tradução. 22 Para a direção cultural-funcional dos estudos da tradução, o tradutor é um intermediador cultural, e não um mero transcodificador linguístico. O mesmo se pode dizer do jornalista: na condição de intermediador cultural, o jornalista “traduz” os fatos e o faz tendo em vista seu destinatário, seu momento cultural, o contexto situacional em que se acha inserido (ZIPSER, 2002, p. 11). Como apresentado nos trabalhos de Esser (1998) e de Nord (1991), o processo de produção textual não se volta para trás, mas sim para o leitor. Ou seja, o jornalismo é, assim como a tradução, um processo dinâmico em que os emissores o iniciam com um objetivo definido, levando em consideração o leitor-alvo. Desse modo, podemos considerar o jornalismo e a tradução como processos prospectivos, voltados para o destinatário a que se quer atingir, e de acordo com Zipser (2002, p. 38), “Traçando um paralelo com o texto jornalístico, veremos que essa modalidade de texto compartilha dessa dinâmica prospectiva de forma especialmente clara.”. Partindo desse pressuposto, a autora explica a semelhança entre as duas áreas no que concerne a processos prospectivos: O emissor – o jornalista – tem por objetivo apresentar o fato noticioso e o faz para seu leitor. [...] Assim podemos definir o trabalho da escritura do texto jornalístico como sendo uma “tradução” prospectiva do fato noticioso, por excelência. O fato noticioso dá origem ao texto jornalístico que, surgindo das mãos do jornalista [...] só se concretiza efetivamente no momento mesmo de sua recepção pelo leitor. Assim como na tradução, somente o destinatário – o leitor – fecha o círculo de produção e recepção do texto jornalístico e está no centro da definição de sua função: o texto oferece a informação, que será processada pelo leitor e transformada (ou não) numa opinião a respeito do fato (ZIPSER, 2002, p. 38). Por outro lado, a autora ainda chama atenção ao fato de a tradução não operar apenas no sentido do leitor, como a própria perspectiva funcionalista prevê, mas que a tradução também considera o texto-fonte. Destaca que “[...] o processo tradutório é, por excelência, um processo de negociação gerenciado pelo tradutor sob diferentes aspectos: negociação no momento de definir as diretrizes do grau de afastamento em relação ao texto-fonte” (ZIPSER, 2002, p. 40). Mais um ponto em que se estabelece uma interface entre a tradução e o jornalismo é com relação ao poder formador de opinião da imprensa e também da tradução, levando em consideração dimensões internacionais que determinados fatos podem ter. Sendo assim, o autor, tanto da reportagem quanto da tradução, estando próximo do leitor, tem condições de melhor conhecê-lo e, consequentemente, de melhor identificar seu destinatário, como afirma Nord: 23 Quanto mais próximo, por exemplo, o tradutor estiver de seu leitor-alvo, no que se refere à formação cultural, idade, status etc., tanto mais fácil deveria ser, transportarse para o lugar de seu receptor e imaginar, com que tipo de texto-meta ele melhor se identificaria (NORD, 1988, p. 12 apud ZIPSER, 2002, p. 41). A partir da citação de Nord, Zipser demonstra que “[...] essa variável da proximidade ou do distanciamento entre as culturas tem consequências para a redação da matéria jornalística e, por conseguinte, para sua tradução.” (ZIPSER, 2002, p. 41). Considerando todos os fatores culturais envolvidos na tradução em si e no fazer jornalístico, a intersecção das duas vertentes pode resultar em um texto enviesado, já que há intenções comunicativas por parte tanto do veículo quanto do jornalista quando uma notícia é divulgada. No próximo subcapítulo serão descritos o processo e as estratégias mais utilizadas na tradução de textos jornalísticos. 1.2 – PROCESSO DE TRADUÇÃO JORNALÍSTICA Em um noticiário cada vez mais globalizado através de suas diversas formas de propagação, muitas vezes em tempo real, a tradução se mostra como uma ferramenta importante para a veiculação de informações a um grande número de leitores. O processo de tradução jornalística lida com desafios recorrentes, sejam de cunho político, ideológico, econômico, social ou cultural, dentre outros fatores. Além disso, nesse tipo de tradução existem várias restrições, como de tempo e de espaço – atualmente o jornalismo global traz notícias 24 horas por dia, sendo um desafio para profissionais envolvidos na transmissão de fatos levarem tais noticiários ao alcance do público. Textos jornalísticos traduzidos fazem parte do conteúdo de jornais e revista publicados diária, semanal ou mensalmente, sendo que tais meios de comunicação são compostos de textos traduzidos ou escritos na própria língua dos leitores. Apesar de não ser fácil estabelecer uma definição precisa do que seja tradução jornalística, pois estaríamos limitando as possibilidades de uma área tão ampla, de um ponto de vista geral, Lefevere (1992) propõe que: [...] em jornais há uma grande variedade de textos reescritos que podem ser considerados ligados à tradução de noticiário: a edição de publicações escritas em línguas diferentes (sejam extensas ou moderadas), a tradução de artigos e de 24 reportagens assinadas por grandes nomes do jornalismo, ou mesmo anônimas, o resumo de tópicos de um ou mais textos de fontes estrangeiras que figuram em artigos que foram produzidos diretamente na língua alvo, etc. (LEFEVERE, 1992 apud BANI, 2006, p.35).10 O processo tradutório vai desde a escolha das reportagens a serem traduzidas até a impressão e/ou postagem online que os leitores terão acesso. Editores de diferentes cadernos ou seções que fazem parte de jornais e revistas analisam os jornais de maior importância e prestígio do mundo, e também jornais de menor proporção, em busca de reportagens e artigos a serem selecionados para futuras publicações em seus respectivos contextos. A escolha do texto a ser traduzido leva em consideração diversos fatores, tais como a reputação da fonte de notícia ou do autor do texto original, o tipo de reportagem (artigo, entrevista, etc.), o tópico dos artigos, o veículo midiático, dentre outros. Segundo Bani (2006), alguns textos são escolhidos porque o autor ou editor é bem conhecido, sendo de mais interesse de um ponto de vista comercial. Destaca ainda que a autoridade da fonte contribui para a garantia de prestígio da tradução. Além disso, diversos veículos de comunicação recebem matérias de agências de notícias espalhadas pelo mundo, que são empresas especializadas em difundir notícias e informação diretamente das fontes para jornais, revistas, rádios, TVs ou websites, tais como Reuters, Associated Press, France Presse. Dessa forma, os meios de comunicação selecionam as reportagens que mais lhe interessam ou que são mais relevantes a novos contextos. Uma vez selecionado, o texto a ser traduzido é passado para um tradutor, papel que pode ser desempenhado pelo jornalista responsável por determinada área do jornal ou revista. Um tradutor seria o profissional mais indicado para tal tarefa, já que, por sua formação, possui conhecimentos linguísticos e culturais necessários para abordar o texto: “[...] tradutores muitas vezes são os únicos especialistas do ponto de vista linguístico e cultural que são realmente capazes de apreciar o texto original totalmente, e os editores tendem a confiar nas escolhas dos tradutores quando fazem a revisão dos textos.”11 (NORD, 1997 apud BANI, 2006, p. 41). Terminada a tradução, no processo usual, o texto é enviado de volta ao editorial e passa por várias revisões: idealmente, primeiro é feito um cotejamento da tradução com o 10 […] in newspapers there is a great variety of rewritings that can be considered connected to press translation: the editing of press releases written in a different language (whether extensive or moderate), the translation of articles or reportages signed by big names in journalism or left anonymous, the summarizing of the topics of one or more texts from foreign sources embedded in articles that were directly produced in the target language, etcetera. 11 […] translators often are the only real experts from the linguistic and cultural point of view who are able to appreciate the original text fully; when proofreading, editors tend to trust the translators‟ choices. 25 texto-fonte, depois uma leitura/revisão do texto na língua-meta. A seguir, a versão final do texto deve ser verificada e, finalmente, tem-se o cuidado de saber onde colocá-lo no jornal. Quando publicado, o texto traduzido alcança os leitores, que muitas vezes o lê como sendo qualquer reportagem integrante do jornal, escrita em sua língua materna, como destaca Bani (2006, p. 36): Os leitores geralmente não sabem a diferença entre um artigo traduzido e um que não foi traduzido, também porque a diferença entre os dois não é assinalada graficamente. A transição interlinguística e intercultural por meio da tradução passa despercebida aos leitores, que muitas vezes leem uma tradução de notícia como se fosse qualquer outro artigo no jornal.12 A tradução de um texto é moldada de acordo com a compreensão, por parte do tradutor, do texto-fonte e com as estratégias utilizadas por ele. Sendo assim, o conhecimento linguístico e cultural é indispensável no trato com o texto-fonte, e as intervenções do tradutor ao recriar, excluir ou adicionar informação, com ou sem intenção, são inevitáveis. Nesse processo o tradutor compreende o texto-fonte com a finalidade de informar essa mensagem a outro público, em situações culturais diversas. Nord (1997) destaca que essa compreensão por parte do tradutor e, consequentemente, seu transporte para o novo público, muitas vezes pode não ser a mesma do original: O tradutor oferece a esse novo público um texto-meta cuja composição é, naturalmente, guiada pelas suposições do tradutor sobre suas necessidades, expectativas, conhecimento prévio, e assim por diante. Evidentemente, essas hipóteses serão diferentes das feitas pelo autor do texto original, porque os discursos do textofonte e do texto-meta pertencem a comunidades linguísticas e culturais diversas (NORD, 1997, p. 35).13 Pressupõe-se, dessa maneira, uma adequação do texto por parte do tradutor ao novo público. No campo jornalístico, comparar como a informação é transmitida em diferentes contextos se torna importante na análise das transformações ocorridas no texto de partida, como propõe Gambier (2006, p. 10): “[...] comparar jornais diários nacionais e estudar 12 Readers usually cannot tell the difference between a translated article and one that was not translated, also because the difference between the two is not signalled graphically. The interlinguistic and intercultural transition through translation passes unnoticed to readers, who often read a press translation as if it were any other article in the newspaper. 13 The translator offers this new audience a target text whose composition is, of course, guided by the translator‟s assumptions about their needs, expectations, previous knowledge, and so on. These assumptions will obviously be different from those made by the original author, because source-text addresses and target-text addresses belong to different cultures and language communities. 26 reportagens na imprensa estrangeira pode nos ajudar a entender melhor como tradutores reproduzem ou mudam o discurso dominante em sua própria sociedade”. 14 A tradução jornalística lida com desafios constantes que envolvem questões de correções, escolhas políticas, sociais e culturais, e várias decisões a serem tomadas, sendo que todas as fases da tradução, desde a seleção dos textos até a escolha de uma postura cultural abrangente e as estratégias especificas, passam por restrições de normas. Reportagens internacionais são submetidas a inúmeras etapas durante seu processo tradutório, desde a localização e a escolha de um foco de notícia num país estrangeiro, até o produto final que é a notícia traduzida, divulgada aos novos leitores, como destaca Bassnett: [...] tradução de notícias não é estritamente um processo de transferência entre línguas do texto A para o texto B, mas também são necessárias estratégias, algumas vezes radicais, de reescrita e de síntese do texto A para adaptar um contexto completamente diferente às expectativas do novo público [...] (BASSNETT, 2006, p. 06).15 Dentre as diversas estratégias adotadas na tradução de textos jornalísticos, Hursti (2001, p. 05) destaca os seguintes, que foram traduzidos por mim para fins de melhor compreender tais procedimentos: Reorganização: significa estruturar ou reestruturar o texto-fonte, focando uma informação de determinado parágrafo, deslocando ou trocando detalhes de algum lugar do texto, etc. Pode ser utilizada devido a diferenças entre as línguas, à retórica e para atender melhor às necessidades do novo leitor. Supressão: vai desde a exclusão de itens lexicais específicos ou frases, até a omissão de parágrafos por completo. De acordo com o número de fatos, grau de precisão e redundância do texto-fonte, até metade do texto de partida pode ser omitida, como destaca Gambier (2006, p. 14): “Posso fazer aqui outra analogia, mas agora com a legendagem, de que a média de omissões varia de 60% a 25% de acordo com o original (notícias, filmes de ação, etc.)”.16 Adição: é um acréscimo de informações que não fazem parte do texto-fonte. Pode ser adotada quando há a necessidade de se esclarecer algo ou de tornar uma informação ou uma hipótese mais explícita. 14 […] to compare national daily newspaper, to study reports in foreign press could help us to better understand how translators reproduce or change the dominant discourse in the own society. 15 […] news translation is not strictly a matter of interlingual transfer of text A into text B but also necessitates the radical rewriting and synthesizing of text A to accommodate a completely different set of audience expectations [...] 16 I can see here another analogy but this time with subtitling: the average of omission varies from 60% to 25% according to the original (news, action film, etc.). 27 Substituição: abrange outras estratégias como, por exemplo, tornar detalhes menos específicos, mudar o foco de certa informação, despersonalizar em vez de dar nomes ou ainda resumir determinadas ideias. Além das estratégias apresentadas acima, outras também podem ser utilizadas de acordo com a preferência, o estilo ou o perfil de cada jornal. Convém destacar a separação do texto em subtítulos, em que são explicados conceitos específicos que possam parecer estranhos ao leitor-meta; a utilização de recursos visuais como imagens e fotos, ou de mapas, como forma de contextualização; a disposição de glossários com palavras empregadas no texto e que possam ser de difícil entendimento; a apresentação de bibliografia extra ou de referências de sites na Internet relacionados ao tópico; e em alguns casos, uma pequena biografia do autor do texto-fonte. Também como ferramentas adotadas no processo de tradução de textos jornalísticos, Gambier (2006) aponta o uso de hipérboles e de understatement (uma exposição mais suavizada). A hipérbole é utilizada como artifício de retórica para enfatizar, intensificar ou amplificar determinados elementos no texto, sendo extremamente persuasiva em qualquer tipo de comunicação; por outro lado, pode-se optar por informações mais explícitas e amenas. Ainda destaca que “Tanto a hipérbole quanto o understatement influenciam nossa percepção da realidade”17 e que estão presentes na maior parte das interações linguísticas, desde comunicações do cotidiano a propagandas políticas elaboradas (GAMBIER, 2006, p.10). No caso da tradução de textos jornalísticos é necessário mais do que uma transposição de uma língua para outra, mais do que reescrever o texto, é preciso dar a impressão de que foi escrito inicialmente na língua-meta. Em muitos casos, editores determinam as escolhas de fatores a serem considerados e o tipo de traduções que mais atendem aos seus interesses. Sendo assim, Gambier (2006, p. 11) ressalta que a mídia dispõe de frames (molduras) como referência, no sentido de enquadrar a notícia de acordo com determinados padrões ou estereótipos para tornar os eventos acessíveis ao público, criando certo contexto para o leitor. Dessa forma, determina que “O sistema de molduras consiste em conjunturas estereotipadas, hábitos e crenças, e são baseadas em expectativas em uma determinada situação social”. 18 Gambier (2006) também enfatiza que, nas últimas décadas, pesquisas em Estudos da Tradução demonstram a importância do contexto e da contextualização no processo tradutório e nas decisões tomadas pelo tradutor, sendo relevante a necessidade de consciência na 17 Both hyperbole and understatement influence our perception of reality. The frame systems consist of stereotypical scenarios, routines, and beliefs, and are based on expectations in a given social situation. 18 28 utilização de estratégias e de uma análise mais aprofundada dos textos: “O importante não é tanto o número e a qualificação das estratégias, mas a consciência de que a comunicação de notícia internacional não pode ser analisada simplesmente como uma questão de textos isolados do noticiário”19 (GAMBIER, 2006, p. 14). A seguir, serão apresentadas as características do corpus escolhido para analisar as estratégias adotadas na tradução e, depois, observar os efeitos que elas causam no texto. 19 What is important, in my opinion, is not so much the number and the label of the strategies but the awareness that international news communication cannot be analyzed merely as a matter of isolated news texts. 29 CAPÍTULO 2 – METODOLOGIA Com o desenvolvimento de novas tecnologias que transformam a mídia, a propagação de notícias se torna ainda mais abrangente, sendo assim, a cobertura de noticiários internacionais requer a compreensão de uma realidade multicultural muito grande, com pessoas que possuem diferentes códigos linguísticos, pontos de visto distinto sobre as mesmas questões. As diversas línguas nas quais as notícias são produzidas, na ausência da tradução, podem consistir em barreiras para debates e formação de opiniões em comunidades espalhadas pelo mundo. A maneira como o conteúdo é apresentado em várias línguas e culturas nos leva a considerar os fatores que diferenciam os diversos contextos culturais possíveis, e a aplicação dessas diferenças na tradução é também fator a ser pensado na garantia de se respeitá-las e, ao mesmo tempo, de se ter atenção ao público-meta. Neste capítulo será apresentado o corpus proposto para esta pesquisa, assim como as reportagens selecionadas para análise, e por fim, o procedimento metodológico será descrito. 2.1 – O CORPUS: APRESENTAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO O Jornalismo Internacional é provavelmente a área do jornalismo com maior abrangência de temas, já que cobre diversos assuntos, tais como política, economia, cultura, ciência, turismo e outros fatos que acontecem fora de seu país de origem. Portanto, o Jornalismo Internacional lida com línguas e culturas diversas, e consequentemente, com divulgação intercultural. Vários editoriais do noticiário internacional estão presentes em cadernos ou seções de jornais brasileiros, tais como: Internacional, no Jornal do Brasil; Mundo, na Folha de São Paulo; Internacional, no O Estadão; O Mundo no O Globo; Internacional no Estado de Minas; Mundo no Correio Braziliense; dentre outros jornais. Muitas das reportagens publicadas nesses cadernos são produzidas no exterior por correspondentes ou enviados especiais dos jornais, ou ainda recebidas por agências internacionais de notícias. Por outro lado, alguns artigos são traduções feitas a partir de originais publicados em jornais de outros países, como The New York Times, Independent, Le Monde, The Washington Post, Telegraph, 30 dentre outros. Dessa forma, a tradução tem um papel importante na propagação do jornalismo internacional e se torna uma estratégia utilizada por diferentes meios de comunicação. Esse trabalho de divulgação da notícia exige dos profissionais envolvidos conhecimento linguístico e cultural, além de outros fatores a serem considerados, como diagramação do jornal, espaço disponível em cada sessão, impressão e restrições de tempo. A escolha de jornais online para essa pesquisa, dentre os diversos veículos de informação existentes, se deu pelo fato de se mostrarem mais dinâmicos ao divulgarem fatos correntes do cotidiano a uma propagação maior e mais rápida do que jornais impressos e revistas, por exemplo. Após a decisão do veículo de comunicação, foram escolhidas duas reportagens publicadas no jornal brasileiro Folha de São Paulo como textos de chegada e, consequentemente, os textos de partida que foram publicados no New York Times para o contexto americano (textos constam nas referências bibliográficas). Dentre as diversas notícias traduzidas pela Folha de São Paulo, as reportagens selecionadas para o corpus versam sobre temas internacionais e foram divulgadas no caderno Mundo do jornal, no ano de 2014. Seus respectivos originais foram publicados inicialmente no The New York Times no mesmo ano, sendo que foram divulgados da seção World. A primeira reportagem, intitulada “Projéteis da 1ª Guerra Mundial ainda causam estragos”, publicada na Folha no dia 19 de agosto, aborda as constantes descobertas de vestígios da 1ª Guerra Mundial na cidade de Ypres, Bélgica e a convivência dos moradores com esses achados. O texto foi traduzido de “Belgians Share Their Land With War‟s Reminders”, de Suzanne Daley, publicado originalmente no The New York Times no dia 26 de junho. Já a segunda reportagem foi publicada no dia 02 de setembro no Brasil com o título “Destruição em Gaza desencadeia onda de criatividade”, e divulga a produção artística em meio à destruição dos conflitos na faixa de Gaza e a criatividade de artistas como forma de resistência durante esse período. Foi inicialmente publicada no The New York Times no dia 16 de agosto, como “Artists‟ Work Rises From the Destruction of the Israel-Gaza Conflict”, por Jodi Rudoren e Fares Akram. Apresentamos a seguir uma breve descrição da linha editorial dos dois jornais utilizados e de suas estruturas. 31 2.1.1 – A Folha de São Paulo20 A Folha de São Paulo é um jornal brasileiro editado na cidade de São Paulo. É um dos mais influentes do país, ao lado de O Estadão, O Globo e Jornal do Brasil, sendo o de maior circulação no país. Fundado como Folha da Manhã em 1921, foi comprado na década de 1960 pelos empresários Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho, e rebatizado como Folha de São Paulo. Dentre os fatos que marcaram a existência do jornal, a Folha chegou a apoiar o golpe de 1964 e a ditadura militar na década de 1970, foi alvo de atentados por parte de grupos de esquerda que faziam resistência à ditadura militar, passou por uma reforma na redação e, na década de 80, se consagrou ao apoiar matérias que cobriam o movimento das Diretas Já. A Folha de São Paulo tem [...] como missão “produzir informação e análise jornalísticas com credibilidade, transparência, qualidade e agilidade, baseadas nos princípios editoriais do Grupo Folha (independência, espírito crítico, pluralismo e apartidarismo), por meio de um moderno e rentável conglomerado de empresas de comunicação, que contribua para o aprimoramento da democracia e para a conscientização da cidadania”, como visão “consolidar-se como o mais influente grupo de mídia do país”, e como princípios e valores “independência econômica e editorial, compromisso como o leitor, ética, defesa da liberdade de expressão, defesa da livre iniciativa, pioneirismo e respeito à diversidade”.21 Como vários outros jornais, a estrutura da Folha de São Paulo é formada por diversos cadernos: Cadernos diários: Opinião, Política, Mundo, Economia, Cotidiano, Esporte, Cultura, Ciência + Saúde, Folha Corrida, Ilustrada e Classificados. Suplementos semanais: Tec e Folhateen (segunda), Equilíbrio e The New York Times International Weekly (terça), Comida (quarta), Turismo (quinta), Folhinha (sábado), Illustríssima, Veículos, Construção, Imóveis, Empregos, Negócios (domingo). Revista mensal: Serafina. 20 21 Website do jornal: www1.folha.uol.com.br Seção Institucional do Grupo Folha: http://www1.folha.uol.com.br/institucional/missao.shtml 32 2.1.2 – O The New York Times22 O The New York Times, ou simplesmente Times, é um jornal de circulação diária, publicado na cidade de Nova Iorque e distribuído nos Estados Unidos, sendo o de maior circulação no país e em muitos outros. Mundialmente conhecido, pertence à The New York Times Company e foi fundado em 1851 por Henry Jarvis Raymond e George Jones como New York Daily Times. Em 1857 o jornal mudou de nome para The New York Times. Várias publicações marcaram a história do jornal demonstrando sua importante participação no noticiário mundial, tais como a invenção do telefone por Alexander Graham Bell, em 1876, a cobertura do naufrágio do navio Titanic, em 1912, reportagens e artigos sobre a Primeira Guerra Mundial, com os quais ganhou seu primeiro Prêmio Pulitzer em 1918. Em 1919, realizou sua primeira entrega transatlântica para Londres, projetando-se ainda mais como um jornal de influência e prestígio. Em 1996, o Times começou a ser publicado também na Internet, proporcionando ao leitor acesso a artigos e fotos no dia de sua publicação. E a partir de 2008, o jornal lança aplicativos para celulares com várias possibilidades de personalização e links para outros artigos.23 O The New York Times tem compromisso com a cobertura de notícias, sendo que seu objetivo central é [...] melhorar a sociedade, criando, recolhendo e divulgação de informações e notícias de alta qualidade. A produção de conteúdo da mais alta qualidade e integridade é a base para sua reputação e os meios pelos quais podem cumprir a confiança pública e as expectativas dos seus clientes.24 O jornal é organizado nas seguintes seções: World, U.S., Politics, New York, Business, Opinion, Technology, Science, Health, Sports, Arts, Fashion & Style, Dining & Wine, Home & Garden, Travel, Magazine, Real State. 22 Website do jornal: www.nytimes.com Seção “Nossa História” do The New York Times: http://www.nytco.com/who-we-are/culture/our-history/ 24 […] to enhance society by creating, collecting and distributing high-quality news and information. Producing content of the highest quality and integrity is the basis for our reputation and the means by which we fulfill the public trust and our customers‟ expectations. Disponível em: http://www.nytco.com/who-weare/culture/standards-and-ethics/ 23 33 2.2 – PROCEDIMENTO METODOLÓGICO Com o embasamento teórico destacado, o modelo de Nord (1991) referente aos Estudos da Tradução e o de Esser (1998) referente à estrutura do Jornalismo, ambos apresentados pela interface tradução-jornalismo proposta por Zipser (2002), iniciamos uma pesquisa para constituição do corpus. Foi dada preferência apenas a jornais online, e as possibilidades se mostraram bem amplas nessa escolha. Como fonte em língua portuguesa e no Brasil, buscamos por reportagens publicadas em um único jornal, nesse caso na Folha de São Paulo, e que fossem traduções de reportagens inicialmente publicadas em inglês. Estas provinham de diversos jornais, como o The New York Times, o Independent, o Financial Times, o Washington Post, dentre outros. Como as possibilidades de artigos a serem cotejados com seus originais foram grandes optamos também por apenas um jornal como base de textos de partida, o The New York Times. O procedimento metodológico desta pesquisa se baseia no cotejamento analítico das reportagens escolhidas com seus respectivos originais, utilizando o modelo de Nord (1991) para análise dos fatores externos e internos de maior destaque percebidos nos textos. A princípio, partiu-se de aspectos visuais das reportagens como o formato dos textos, as ilustrações e outros recursos visuais, estabelecendo as diferenças entre os textos traduzidos e seus originais. A seguir, a estruturação dos textos foi comparada e os títulos contrastados, levando em consideração as diferenças de enfoque entre eles. Finalmente, os elementos internos aos textos propriamente ditos foram cotejados e as transformações ocorridas nos textos-meta identificadas. Consequentemente, as transformações percebidas nos textos traduzidos foram classificadas como um todo de acordo com as estratégias estabelecidas por Hursti (2001) a fim de se iniciar as discussões sobre possíveis propósitos de determinadas escolhas pautadas nas teorias de Nord (1991) e Esser (1998). Após a leitura, o cotejamento e a identificação das transformações trazidas pelos textos de chegada com relação aos textos de partida, iniciamos o principal objetivo da minha pesquisa – uma análise geral dos textos, do âmbito das transformações ocorridas e das possíveis intenções com as escolhas adotadas. 34 CAPÍTULO 3 – DISCUSSÃO: CONTRASTES E DIFERENÇAS Primeiramente, o modelo de Christiane Nord (1991) foi aplicado às reportagens do corpus. Utilizamos os fatores que envolvem os textos de maior relevância para identificar e analisar suas estruturas externa e interna, inserindo os textos em seus respectivos contextos culturais e linguísticos ao modelo. TEXTO FONTE 1 (TF1): Belgians Share Their Land With War´s Reminders TEXTO META 1 (TM1): Projéteis da 1ª Guerra ainda causam estragos TEXTO-FONTE TEXTO-META FATORES EXTERNOS AO TEXTO Emissor Intenção New York Times (Suzanne Daley) Folha de São Paulo (não menciona o tradutor) Divulgar as constantes Divulgar as constantes descobertas descobertas de vestígios da 1ª de vestígios da 1ª Guerra Mundial Guerra Mundial em Ypres, em Ypres, Bélgica. Bélgica. Receptor Leitor americano Leitor brasileiro Meio Jornal online Jornal online Lugar New York – EUA São Paulo – Brasil Tempo 26/06/2014 19/08/2014 Propósito (motivo) Informar, formar opinião Informar, formar opinião Função textual Informativa Informativa FATORES INTERNOS AO TEXTO A terra tornou-se testemunha da guerra e traz lembranças constantes do conflito; quase todos Pressuposições os locais de construção ou projetos de escavação podem desvendar munição; corpos são sempre encontrados. Parágrafos curtos, citações, texto Estruturação corrido. A terra tornou-se testemunha da guerra e traz lembranças constantes do conflito; todos os locais de construção ou projetos de escavação podem desvendar munição; corpos são sempre encontrados. Parágrafos curtos, citações, texto corrido. 35 Elementos nãoFoto, mapa da Europa e vídeo verbais Efeito do texto ---------- Mesmo cerca de 100 anos depois Mesmo cerca de 100 anos depois da guerra, certa amargura ainda da guerra, certa amargura ainda persiste na vida dos belgas. persiste na vida dos belgas. Com relação aos fatores externos, o texto-fonte 1 (doravante TF1), intitulado “Belgians Share Their Land With War´s Reminders”, tem como emissor o jornal The New York Times, sendo assinado por Suzanne Daley, e o texto-meta 1 (doravante TM1), intitulado “Projéteis da 1ª Guerra ainda causam estragos”, foi vinculado pela Folha de São Paulo. No texto de chegada vinculado pela Folha, são mencionados os autores dos textos originais, assim como a informação de que foram publicados inicialmente no “New York Times”, porém não há menção de quem foi o profissional responsável pela tradução. Os receptores desses textos são os leitores de ambos os jornais de uma maneira geral, levando em consideração o meio de circulação internacional do The Times, que vai além de Nova Iorque, nos Estados Unidos, e a circulação em diversos estados brasileiros da Folha, além da cidade de São Paulo. Com relação ao tempo em que as reportagens foram publicadas, o TF1 foi divulgado na edição do dia 26 de junho de 2014, no The Times, e o TM1 no dia 19 de agosto de 2014, na Folha. Percebe-se um grande intervalo, de quase dois meses, entre a publicação da reportagem original e a tradução veiculada no Brasil, o que pode interferir na compreensão da notícia em geral, já que determinados fatos tendem a mudar com o tempo. Informar é uma das funções básicas do jornalismo, além de formar opinião e poder persuadir o leitor. Os dois textos apresentados têm a intenção e o propósito de divulgar as constantes descobertas de vestígios da 1ª Guerra Mundial na cidade de Ypres, na Bélgica, além da convivência diária de moradores com essas marcas. Com relação à apresentação dos textos, a estrutura de ambos é simples, com parágrafos curtos e espaçamento entre eles bem visível, texto corrido e algumas citações. Por outro lado, no TF1 há uma um subtítulo explicitando que há um século depois de várias mortes, restos da guerra ainda são encontrados na região de Ypres, informação essa que foi omitida no TM1, que pode perder esse impacto apresentado pelo original. Outra diferença ainda no layout dos textos diz respeito a elementos não-verbais que são utilizados no texto original, tais como slide show com 10 fotos, dois mapas da Europa com os arredores de Ypres em detalhe e dois vídeos, um sobre as relíquias da guerra e outro sobre a coleta destruição de bombas encontradas. Todos os elementos não-verbais explorados no TF1 foram omitidos no 36 TM1, não permitindo ao leitor acesso a esses detalhes que podem influenciar na recepção e na reação à notícia. TEXTO FONTE 2 (TF2): Artists‟ Work Rises From the Destruction of the Israel-Gaza Conflict TEXTO META 2 (TM2): Destruição em Gaza desencadeia onda de criatividade TEXTO-FONTE TEXTO-META FATORES EXTERNOS AO TEXTO New York Times (Jodi Rudoren e Fares Akram) Divulgar a produção de artistas em meio aos conflitos em Gaza Folha de São Paulo (não menciona o tradutor) Divulgar a produção de artistas em meio aos conflitos em Gaza Receptor Leitor americano Leitor brasileiro Meio Jornal online Jornal online Lugar New York – EUA São Paulo – Brasil Tempo 16/08/2014 02/09/2014 Propósito (motivo) Informar, formar opinião Informar, formar opinião Função textual Informativa Informativa Emissor Intenção FATORES INTERNOS AO TEXTO Pressuposições Estruturação Há escassez de materiais para artistas; a liberdade de expressão é reprimida; artistas continuam trabalhando mesmo em momentos muito difíceis; arte como uma forma de resistência à agressão israelense; não apoio do governo à arte. Parágrafos curtos, citações, texto corrido. Há escassez de materiais para artistas; a liberdade de expressão é reprimida; os conflitos impulsionam a onda de criatividade, arte como uma forma de resistência. Parágrafos curtos, citações, texto corrido. menos Elementos não-verbais Fotos ---------- Léxico Termos pertencentes às Artes Termos pertencentes às Artes Efeito do texto Através da arte as pessoas conseguem “amenizar” o sofrimento durante o atual conflito. Através da arte as pessoas conseguem “amenizar” o sofrimento durante o atual conflito. 37 O texto-fonte 2 (doravante TF2), intitulado “Artists‟ Work Rises From the Destruction of the Israel-Gaza Conflict”, também tem como emissor o jornal The New York Times, sendo assinado por Jodi Rudoren e Fares Akram, e o texto-meta 2 (doravante TM2), intitulado “Destruição em Gaza desencadeia onda de criatividade”, foi vinculado pela Folha de São Paulo, e assim como o outro texto-meta não consta assinatura do responsável pela tradução da reportagem. Os receptores desses textos são os leitores de ambos os jornais. Com relação ao tempo das publicações, a reportagem do jornal americano foi publicada no dia 16 de agosto de 2014, e no Brasil cerca de duas semanas depois pela Folha no mês seguinte, dia 02 de setembro de 2014. Esses dois textos têm a intenção e o propósito de divulgar a produção de artistas em meio aos conflitos em Gaza e a sua criatividade como forma de resistência durante os conflitos. Assim como o TF1 e o TM1, essas outras duas reportagens são apresentadas de maneira similar, com estrutura simples, parágrafos curtos e separação visível, texto corrido e algumas citações. Outra semelhança é percebida na supressão de elementos não-verbais, em que os leitores do TM2 não tem acesso a imagens que ilustram artistas e seus trabalhos em meio aos conflitos em Gaza, pois as 4 fotos utilizadas no TF2 foram omitidas. Já que o foco da reportagem é a criatividade de artistas em meio a conflitos destrutivos na região e o texto original é ilustrado com exemplos desses trabalhos, ao deixar de explorar esses recursos visuais o TM2 pode perder o impacto talvez intencionado pelo TF2. Feito esse levantamento e análise geral dos elementos externos e internos que compõem o texto, farei o cotejamento dos textos de chegada com seus respectivos originais a partir de alguns trechos selecionados para discussão das transformações ocorridas na tradução de cada uma das reportagens, levando em consideração as estratégias sugeridas por Hursti (2001). Ao traduzir um texto, o agente responsável por ele precisa avaliar o texto-fonte e resolver como reestruturá-lo, antes de iniciar qualquer tipo de transformação. Segundo Hursti (2001, p. 05) esse processo envolve respostas às seguintes perguntas, que nos ajudarão em outros processos de transformação: “„A estrutura do texto-fonte em si é transferível?‟, „Devo focalizar outra vez a informação no parágrafo mais importante?‟, „Alguns dos detalhes podem ser apresentados em outra parte da história?‟ etc.”25 25 „Is the ST structure transferrable as such?‟, „Should I refocus the information in the lead paragraph?‟, „Could some of the details be presented elsewhere in the story?‟ etc. 38 No que diz respeito à reorganização adotada nos textos traduzidos (Hursti, 2001, p. 5) – estruturação ou reestruturação do texto-fonte, focando uma informação de determinado parágrafo, deslocando ou trocando detalhes de algum lugar do texto – de uma maneira geral, as duas reportagens foram reorganizados de diversas formas, desde adaptações para atender a estruturas linguísticas distintas, à formatação do texto, de itens lexicais ou ainda reestruturações de parágrafos com deslocamento de informações. Podemos dizer que várias dessas decisões podem ter sido tomadas para que os textos-meta atendessem às necessidades do novo público. Um exemplo de adaptação textual aplicada ao texto-fonte é nos títulos, sendo que por meio deles o texto pode suscitar interesse do leitor em lê-lo, dirigir sua atenção para o foco principal da reportagem e influenciar na sua interpretação. Levando-se em consideração as diferenças de enfoque pretendidas por reportagens, os títulos de artigos traduzidos podem ser bem diferentes dos seus originais. No caso do TF1, intitulado Belgians Share Their Land With War´s Reminders, e do TM1, Projéteis da 1ª Guerra ainda causam estragos, percebe-se essa diferença de enfoque através de seus títulos, pois o texto de chegada destaca os estragos ainda causados por projéteis da 1ª Guerra Mundial, e o texto original faz menção a cidadãos belgas que compartilham suas terras com lembranças da guerra. Outro dado relevante no que concerne à organização textual e também à omissão de informação foi a utilização de um subtítulo no texto de partida, como forma de contextualização de detalhes dos fatos ao leitor, e que foi omitido no texto de chegada. O TF1 traz a informação de que um século depois que centenas de milhares de pessoas morreram nos arredores de Ypres, Bélgica, os seus restos mortais ainda são encontrados e granadas ainda explodem. Essa informação adicional é omitida no TM1, sendo assim, o leitor brasileiro não tem acesso a esse detalhe de impacto proposto pelo original. No TM2, que recebe o título Destruição em Gaza desencadeia onda de criatividade, a destruição de Gaza é colocada em primeiro plano como substantivo da frase em relação à onda de criatividade desencadeada pelos conflitos na região. Enquanto isso, o TF2, Artists‟ Works Rises From the Destruction of the Israel-Gaza Conflict, mostra como ênfase maior em seu título o trabalho de artistas locais que surgem da destruição durante o conflito entre Israel e Gaza. Ao longo dos textos-meta, percebe-se que diversos itens lexicais, frases ou parágrafos completos dos textos-fonte foram deslocados ou reestruturados quando traduzidos para a 39 Folha. O exemplo de maior destaque é a reestruturação de três parágrafos do TF1 em apenas um parágrafo veiculado pelo TM1: TF1: The land here still holds so many explosives that almost every construction project poses a danger. Every turned spade has the potential to unearth not just munitions but bones, some carefully laid to rest in full uniform, others blown apart. A local highway stands half finished; work ended abruptly because the bulldozers began uncovering graves, and the British government quickly objected to the project. It is impossible to live around Ypres without feeling the weight of living atop a former battlefield where young men from Germany, France, Britain, Belgium, Australia, Canada and North Africa died, some as young as 15. Cemeteries are everywhere. Some are just small clusters of graves surrounded by stone fences beside country roads. Others are carefully laid out rows of crosses that seem to extend forever, crowned by huge monuments. In a German cemetery in the nearby village of Langemark, a patch of grass holds the bones of about 25,000 men, many of them unidentified. TM1: [...] Potencialmente, todos locais de construções ou projetos de escavação podem não apenas munição, mas ossos também [...]. Uma rodovia ficou inacabada; [...] as máquinas começaram a descobrir túmulos e o governo britânico se opôs [...] à continuação. É impossível morar próximo a Ypres sem sentir o peso de viver sobre um antigo campo de batalha onde morreram jovens da Alemanha, da França, do Reino Unido, da Bélgica, da Austrália, do Canadá e do norte da África […]. Há cemitérios por toda parte. […] A reorganização do texto quando traduzido pode ser tomada como opção para atender a diferenças entre as línguas, à retórica ou às necessidades no novo leitor; todavia as informações destacadas em itálico no trecho do TF1 acima não são acessadas pelo leitor brasileiro, tais como o fato de que muitos explosivos encontrados na área trazem perigo a quase todos os projetos de construção e também a descrição detalhada dos cemitérios encontrados na região. Portanto, a notável omissão de diversos trechos, seja por terem sido consideradas informações irrelevantes ou por preferências de qualquer tipo pelo tradutor do texto, podem comprometer o entendimento integral da notícia. 40 Uma das estratégias mais utilizadas na transformação de textos jornalísticos é a supressão (HURSTI, 2001, p. 05) – que pode envolver desde a exclusão de itens lexicais específicos ou frases, até a omissão de parágrafos. Esse fato se torna visível em ambas as reportagens analisadas, sendo que em quase todos os parágrafos houve algum tipo de omissão lexical, a exemplo: TF1: ..., a neighbor riding his tractor ruptured an aging shell, and the explosion sent shrapnel through his windshield, tearing off a chunk of his ear. TM1: ..., um dos vizinhos passou por cima de um velho projétil com seu trator e os estilhaços da explosão [...] acabaram arrancando um pedaço de sua orelha. O trecho destacado em itálico do TF1 traz a informação de que estilhaços da explosão atravessaram o parabrisas do trator, porém o TM1 deixa de transmitir ao leitor o impacto de tal acidente ao omitir esse trecho, perdendo, dessa maneira, a força de significado intencionada pelo TF1. Com a perda desse detalhe, além de novamente poder influenciar o leitor a um determinado entendimento geral do texto, pode-se inferir que os estilhaços entraram por uma janela aberta, por exemplo, e não quebrando e atravessando o parabrisas. Outras informações omitidas nos textos de chegada também podem ser consideradas relevantes e comprometer ou influenciar o entendimento por parte dos leitores, como nestes trechos: TF1: … constant reminders of a bloody and relentless war that would demolish empires, leave at least 8.5 million soldiers and seven million civilians dead, and produce legacies that continue to play out today. TM1: ... lembranças constantes de um conflito sangrento e implacável que demoliu impérios, matou pelo menos 8,5 milhões soldados e sete milhões de civis [...]. Nos períodos acima, o TF1 enfatiza que os efeitos da guerra produzem legados que ainda perduram até hoje, porém essa informação foi omitida no TM1. Mesmo iniciando o TM1 com “lembranças constantes”, a supressão do trecho em itálico pode prejudicar o efeito enfático do texto na tradução, pois a reiteração citada no texto original de que “todos os efeitos da guerra produzem legados negativos até hoje” não foi utilizada. A mesma perda de efeito é percebida no trecho a seguir: 41 TF1: … where young men from Germany, France, Britain, Belgium, Australia, Canada and North Africa died, some as young as 15. TM1: ... onde morreram jovens da Alemanha, da França, do Reino Unido, da Bélgica, da Austrália, do Canadá e do norte da África. […] A supressão do fato de que alguns dos homens mortos tinham 15 anos de idade retira da tradução o efeito dramático presente no TF1. Com relação às supressões percebidas no TM2, destaco um trecho do TF2 omitido no texto traduzido e que deixa de transmitir a ênfase no empenho de artistas em produzir suas obras mesmo em momentos de muita tensão na região de Gaza: TF2: “Artists may see things others can‟t see,” said Mr. Khaled, 23, who works for a Turkish news agency. “Even at the very tense times and very hard moments, we still draw.” TM2: “Os artistas veem coisas invisíveis para os outros”, afirmou Khaled, 23, que trabalha em uma agência de notícias turca. […] Mencionadas algumas omissões lexicais e de frases, houve também considerável exclusão de diversos parágrafos em ambos os textos de chegada. Dos 26 parágrafos que compõem o TF1, seis foram totalmente excluídos, três omitidos em cerca de 50% ou mais, sendo que vários outros foram reestruturados como já mencionado anteriormente. Já no TF2, composto por 18 parágrafos, dois foram excluídos completamente, sendo que outros três foram omitidos em cerca de 70% ou mais. Tais omissões de palavras, frases ou parágrafos ocorridas na tradução das reportagens analisadas refletem suposição feita por Gambier (2006) de que a porcentagem de supressão na tradução pode ser em torno de 25% a 60%, demonstrando assim que a quantidade de informação não acessada pelos leitores brasileiros é muito grande e pode comprometer o entendimento do texto e reações a ele, levando a resultados finais talvez diferentes do enfoque e impacto propostos pelos originais. Outra estratégia utilizada na tradução e transformação de textos jornalísticos que foi observada nos textos do corpus é a adição (HURSTI, 2001, p. 5) – que pode ser um acréscimo de informações que não fazem parte do texto-fonte quando há a necessidade de se esclarecer algo ou de tornar uma informação ou uma hipótese mais explícita– como vemos nos seguintes casos: 42 TF1: Every turned spade has the potential to unearth not just munitions but bones,... TM1: Potencialmente, todos locais de construções ou projetos de escavação podem desvendar não apenas munição, mas ossos também. TF1: The Belgian unit near Ypres collects about 100 tons of munitions a year. TM1: Uma unidade militar belga nos arredores de Ypres recolhe cerca de 100 toneladas de munição por ano. TF2: Among the most interesting is a series of mash-ups by Basel Elmaqosui,… TM2: Entre os mais interessantes está uma série de mash-ups (fusões) de Basel Elmaqosui,... Como destacado nos exemplos acima, as informações que foram adicionadas aos textos-meta podem ter sido utilizadas: para contextualizar o leitor, como no primeiro trecho do TM1 em que foi acrescentado que “todos os locais de construção” desvendam achados; para dar informação extra, como no segundo exemplo do TM1 com o acréscimo de “militar”; ou como recursos de explicação de determinado fato ou expressão, ao explicar o termo reproduzido do original “mash-ups” como “fusões” no TM2. No caso do trecho a seguir, houve uma reorganização da frase com a adição de alguns itens lexicais para dar mais detalhes a certa informação, e percebe-se a pressuposição de que os leitores brasileiros não conseguiriam acessar a indicação de adversidade entre os grupos militares de palestinos e defensores de Israel: TF2: …, which have been a prime tool in the parallel propaganda war between backers of Palestinian militants and Israel. TM2: ..., que têm sido um instrumento básico na guerra de propaganda paralela entre os que apoiam os militantes palestinos e os defensores da posição de Israel. Por fim, a substituição – um processo que envolve outros tipos de estratégias como reorganização textual, adição e supressão, de maneira quase inevitável – como Hursti (2001) destaca em seu trabalho, também foi percebida nas reportagens analisadas. De acordo como o autor, essa estratégia pode gerar os resultados mais interessantes na transformação dos textos, pois textos jornalísticos chamam atenção pela forma como a linguagem é utilizada, 43 ressaltando estilos, dando ênfase ou não a determinadas informações. É o que pode ser observado nos seguintes trechos: TF1: The padlocked cage beside the driveway on the Butaye family farm near this town in western Belgium is almost full of rusting bombs again. TM1: A caixa trancada ao lado da garagem da fazenda da família Butaye, perto desta cidade no oeste da Bélgica, está lotada de bombas enferrujadas [...]. TF1: In the end, more than 500,000 men had been killed or wounded, and the constant shelling had turned the landscape into a lifeless swamp. TM1: No final, cerca de 500,000 homens foram mortos ou feridos. [...] No primeiro período selecionado acima, a tradução no TM1 torna uma informação menos específica transformando o significado do trecho do TF1 de que a caixa estava “quase lotada” de bombas enferrujadas por “lotada”, sendo que ainda há a omissão do item lexical “again”, perdendo a ênfase de que é um fato recorrente. Já o segundo trecho suaviza a quantidade de homens mortos e feridos ao substituir “more than” por apenas “cerca de”, e ainda omite a informação enfática que marcou a guerra de que o constante bombardeio tornou a paisagem num pântano sem vida. As transformações destacadas nos dois períodos podem influenciar o leitor a um entendimento geral diferente do intencionado pelo original. Outro exemplo de substituição que torna determinada informação menos específica é percebido agora neste trecho da segunda reportagem analisada: TF2: But Belal Khaled, a young photojournalist and painter in this southern Gaza town,... TM2: Todavia, Belal Khaled, um jovem fotojornalista e pintor local,... Ainda como exemplos de substituições ocorridas no TM1, nos trechos a seguir há alterações de léxicos que modificam a mensagem intencionada pelo TF1 podendo levar o leitor do texto-meta à formação de uma opinião diferente: TF1: Up to 30 percent of the artillery shells fired never went off, experts say. Some were duds, but many simply slid deep into the mud without exploding. 44 TM1: Até 30 por cento das cápsulas disparadas nunca detonou, dizem os especialistas. Algumas falharam, e outras simplesmente se enterraram na lama antes de explodir. TF1: But many farmers are not interested, mostly because digging up the shells may change the soil composition, bringing up the blue clay that is several feet beneath the surface. TM1: No entanto, muitos agricultores não estão interessados, principalmente porque o processo pode alterar a composição do solo, trazendo à tona a argila azul que está abaixo da superfície. No primeiro trecho destacado acima, ao traduzir “but many” por “e outras” há novamente uma suavização do termo, e a substituição de “without exploding” por “antes de explodir” distorce completamente a informação do original, já que as cápsulas enterradas na lama não explodiram, de fato. Já os exemplos das substituições adotadas no segundo trecho selecionado podem alterar a mensagem proposta, pois as opções adotadas fazem detalhes do texto original se tornarem menos específicos e até menos impactantes ao traduzir “digging up the shells” por apenas “o processo” e “several feet beneath the surface” por “abaixo da superfície”. No trecho a seguir houve um deslocamento do último parágrafo do texto em inglês para o penúltimo na reestruturação em português: TF1: He tried to blow up a bunker near the house, and objected to his grandson‟s hobby. “Whenever he takes a picture of the house, he cuts the bunker out,” Mr. Butaye said. “He hates that it was a German bunker.” TM1: Tentou até explodir um bunker [...]. "Sempre que ele tira uma foto da casa, deixa aquela parte de fora", disse. "Ele odeia o fato de esse ter sido um espaço alemão". Ao utilizar o termo em inglês bunker no TM1, há a pressuposição de que o leitor brasileiro saiba o significado do termo, pois em um primeiro momento optou-se por utilizá-lo como aparece no texto de partida, porém logo depois o termo foi traduzido por “espaço alemão”, que não traz a mesma carga semântica bélica que o termo bunker carrega. Houve ainda a omissão da ênfase de que o avô de Butaye opunha-se que tal espaço servisse como hobby de seu neto. 45 Percebe-se, com as transformações ocorridas nas duas reportagens traduzidas, que as opções adotadas pelo tradutor podem influenciar o novo leitor a um entendimento geral talvez diferente do apresentado pelo original. Os textos oferecidos ao novo público são geralmente guiados por suposições do responsável pela tradução sobre o perfil desse leitor, levando em consideração diversos fatores como língua e cultura, hipóteses essas que podem ser diferentes das feitas pelo autor do texto original (NORD, 1997, p. 35). Depois de cotejar os textos-meta com seus respectivos textos-fonte, observou-se que todas as estratégias definidas e classificadas no embasamento (HURSTI, 2001) foram utilizadas na transformação e reestruturação dos textos-fonte, sendo que algumas das decisões tomadas trazem marcas de diferentes enfoques, substituições, supressões e adições significativas. Pode-se concluir, dessa maneira, que um mesmo fato noticioso pode ser apresentado sob diferentes perspectivas. 46 CONSIDERAÇÕES FINAIS É comum em várias pesquisas partir da leitura da bibliografia existente sobre o assunto, com a finalidade de se desenvolver ideias e se basear em arcabouços teóricos concretos. Ao fazer um levantamento sobre as pesquisas relacionadas à tradução no âmbito do jornalismo, percebeu-se que é uma área ampla e de possibilidades a serem exploradas. O ponto de partida dessa pesquisa foi a leitura de trabalhos que versam sobre tradução, jornalismo em ambiente internacional e de pesquisas que abordam uma possível intersecção entre as duas áreas, como a interface proposta pela professora Meta Elisabeth Zipzer (2002). Escolhidas as reportagens publicadas na Folha de São Paulo, foi feito um cotejamento entre elas e seus respectivos originais publicados no The New York Times, analisando as transformações sofridas pelas reportagens levando em consideração o modelo de Christiane Nord (1991) e os conceitos estabelecidos por Kristian Hursti (2001). A partir da análise textual proposta pelo modelo de Nord (1991), pôde-se perceber que cada reportagem tem características próprias, mas também parecidas. Como um dos objetivos dessa pesquisa foi o de levantar a hipótese de que textos jornalísticos são transformados quando traduzidos, ao analisar o corpus comprova-se essa hipótese, pois os textos-fonte foram alterados quando traduzidos em vários trechos, ganhando outras características. Como destacado por Esser (1998) em seu modelo, o jornalismo de cada país pode ser influenciado por vários fatores que interagem entre si e se condicionam. Portanto, as diferenças culturais, políticas e socioeconômicas entre os países em questão, assim como de nível institucional e organizacional dos jornais envolvidos e, também, as escolhas feitas pelo agente tradutor das reportagens acabam moldando o texto a certos propósitos, dando mais ênfase a determinados aspectos em detrimento de outros, ou o contrário. Todas as estratégias descritas por Hursti (2001) utilizadas na tradução de notícias foram constatadas nas reportagens analisadas, refletindo outro objetivo dessa pesquisa, que foi o de analisar tais intervenções, que podem dar aos textos traduzidos outros significados e até levar o leitor a diversas conclusões talvez diferentes das propostas pelo texto no idioma original. Pelo fato de os textos estarem inseridos em contextos culturais e linguísticos distintos, pode haver também propósitos diferentes na veiculação da notícia traduzida. Quando uma notícia é divulgada, há uma intenção por trás disso, intenção essa que também ocorre na sua tradução para futura divulgação em outros países, daí a relevância de se analisar o que está por trás dessas transformações. Por se tratarem de textos informativos, os textos jornalísticos 47 são regidos por normas que influenciam nas escolhas linguísticas ou estilísticas do tradutor (NORD, 1997, p. 38). Todas as etapas na transformação de textos implicam em decisões que influenciam no resultado final do processo tradutório, seja pela necessidade de se contextualizar a linguagem utilizada para que atenda melhor ao perfil do novo leitor, seja pelo respeito às culturas em questão. Mesmo levando em consideração as diferenças culturais, é possível fazer escolhas que garantam respeito a essas diferenças e atenção ao novo público, apesar das dificuldades relacionadas a determinadas escolhas. Uma análise do texto-fonte guia o processo tradutório no sentido de que oferece fundamentos para decisões a respeito da tarefa do tradutor, do que é relevante no texto-fonte para uma tradução funcional e de qual estratégia a ser utilizada para que se tenha o texto-meta esperado após a tradução (NORD, 1997, p. 62). A abordagem apresentada aqui demonstra a influência da tradução na construção de uma informação e de um conhecimento globalizados. Além disso, considerando que o jornalismo é formador de opinião, mostra que o texto jornalístico ao ser traduzido para diferentes línguas pode influenciar o leitor a formar opiniões também diferentes. Comprovase, dessa maneira, que as transformações sofridas pelos textos-fonte analisados não são apenas de cunho linguístico, mas sim que podem influenciar o entendimento por parte do novo leitor. Consideramos que essa pesquisa seja relevante na tentativa de explorar a tradução no ambiente do jornalismo internacional, assim como suas várias possibilidades, e que seja importante para futuras discussões e aprofundamentos. Dessa forma, pretendemos ainda ter contribuído para a divulgação dessa interface entre a tradução e o jornalismo, no que tange a pesquisas disponíveis, e incentivar outras, levando em consideração a globalização sempre crescente das redes de comunicação. 48 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BANI, Sara. An analysis of press translation process. p. 35-45, 2006. 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Artist´s Work Rises Form the Destruction of the Israel-Gaza Conflict. The New York Times, Nova Iorque, 16 ago. 2014. Caderno World. Disponível em: <http://www.nytimes.com/2014/08/17/world/middleeast/artists-work-rises-from-thedestruction-of-the-israel-gaza-conflict.html>. Acesso em: 10 set. 2014. ZIPSER, Meta Elisabeth. Do fato à reportagem: as diferenças de enfoque e a tradução como representação cultural. 274 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Modernas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002. 50 ANEXO A TF1 Belgians Share Their Land With War’s Reminders A century after hundreds of thousands died around Ypres, their remains are still being found, and shells are still exploding. TM1 Projéteis da 1ª Guerra ainda causam estragos HURSTI (2001) [reorganização] [supressão] By SUZANNE DALEY SUZANNE DALEY DO "NEW YORK TIMES", EM YPRES (BÉLGICA) JUNE 26, 2014 19/08/2014 02h00 World War I relics, including unexploded shells, are exhibited by Stijn Butaye, 26, on his family farm. [deslocamento] [supressão] Video by Erik Olsen on Publish DateJune 26, 2014. Photo by Dmitry Kostyukov for The New York Times. YPRES, Belgium – The padlocked cage beside the driveway on the Butaye family farm near this town in western Belgium is almost full of rusting bombs [again]. Since January, Stijn Butaye has collected 46 mortar shells on his family’s 100 acres, World War I munitions he found among the sugar beet and potato fields, sometimes with the help of his metal detector. A caixa trancada ao lado da garagem da fazenda da família Butaye, perto desta cidade no oeste da Bélgica, está lotada de bombas enferrujadas [...]. Desde janeiro, nos 40 hectares de seu terreno, Stijn Butaye recolheu 46 projéteis de morteiros, munição da Primeira Guerra que encontrou pelas plantações de beterraba e de batata, às vezes com a ajuda de seu detector de metais. Mr. Butaye’s father, Luc, won’t [even] plow two of his fields for feat of what the blades might hit. Not long ago, a neighbor riding his tractor ruptured an aging shell, and the explosion sent shrapnel [through his windshield,] tearing off a chunk of his ear. O pai de Butaye, Luc, evita [...] arar dois de seus campos, com medo de que as lâminas atinjam algo perigoso. Há pouco tempo, um dos vizinhos passou por cima de um velho projétil com seu trator e os estilhaços da explosão [...] acabaram arrancando um pedaço de sua orelha. [reorganização deslocamento] [substituição] [supressão] [supressão] [reorganização] [supressão] 51 ―You don’t know what could happen,‖ said Stjin Butaye, 26, who has built a [small] museum [beside the barn] with hundreds of items — including shoes and eyeglasses and razors and a perfectly preserved gas mask — that he has found on his family’s property. ―We [just] use that land for grazing the cows.‖ "Não se sabe o que pode acontecer," disse Butaye, de 26 anos, que construiu um museu [...] [...] com as centenas de itens encontrados na propriedade – incluindo sapatos, óculos, lâminas de barbear e uma máscara de gás perfeitamente preservada. "Essa terra é usada [...] como pastagem para as vacas." It has been 100 years since World War I erupted [in these parts]. The men who survived the thousands of miles of muddy trenches that surrounded this strategically important region are long gone and buried. But the earth, [in its own way], has become the last witness, coughing up constant reminders of a bloody and relentless war that would demolish empires, leave at least 8.5 million soldiers and seven million civilians dead, [and produce legacies that continue to play out today]. A Primeira Guerra começou há 100 anos [...]. Os sobreviventes dos milhares de quilômetros de trincheiras lamacentas que cercaram esta região de importância estratégica estão mortos há muito tempo, mas a terra [...] tornou-se a última testemunha, oferecendo lembranças constantes de um conflito sangrento e implacável que demoliu impérios, matou pelo menos 8,5 milhões soldados e sete milhões de civis [...]. Around Ypres, the Allies and the Germans fought for nearly four years in [a marathon slugfest that produced] some of the war’s most famous and deadly battles. [It was here that the Germans first used chlorine and mustard gas on Allied troops. Yet neither side ever made much headway despite artillery barrages so fierce and long that they wiped away roads and villages, leaving miles in which not a building or a tree or a blade of grass was left.] The area became a battlefield when German forces wheeled north after being stymied in their initial drive on Paris in the war’s opening months in 1914. After that, the conflict shifted toward Belgium as the Germans tried a flanking maneuver and the Nas cercanias de Ypres, aliados e alemães lutaram por quase quatro anos […] nas batalhas mais famosas e sangrentas da guerra. […] [supressão] [supressão] [supressão] [supressão] [substituição] [substituição] [supressão] [substituição] [supressão] [supressão] [supressão] [supressão] 52 Allies raced to protect their control of the vital French seaports of Calais and Boulogne. There, along a front stretching southward from the Belgian coast, the opposing armies settled in, turning fertile farmlands into nightmarish killing fields. A Belgian City Where the Earth Still Bears Witness to War [supressão] Photo Credit Dmitry Kostyukov for The New York Times (10 photos) Experts say that in one particularly intense three-month campaign in 1917, known as the Third Battle of Ypres, [or the Battle of Passchendaele], the British alone fired more than four million shells. In the end, more than 500,000 men had been killed or wounded, [and the constant shelling had turned the landscape into a lifeless swamp]. Up to 30 percent of the artillery shells fired never went off, experts say. Some were duds, but many simply slid deep into the mud without exploding. Especialistas dizem que, em uma campanha particularmente intensa, que durou três meses em 1917, conhecida como a Terceira Batalha de Ypres, [...] só os britânicos dispararam mais de quatro milhões de projéteis. No final, cerca de cerca de 500.000 homens foram mortos ou feridos. [...] Até 30 por cento das cápsulas disparadas nunca detonou, dizem os especialistas. Algumas falharam, e outras simplesmente se enterraram na lama antes de explodir. Over the years, many of those shells have begun to rise, some appearing even in fields that have been plowed many times before. Most years, there are two or three injuries from World War I munitions in Ypres and the surrounding villages. In March, two workers were killed and a third seriously wounded while handling a shell at a construction site. Ao longo dos anos, muitos desses projéteis começaram a emergir, alguns aparecendo até em campos que já haviam sido arados muitas vezes. Normalmente, há dois ou três ferimentos por ano causados pela munição da Primeira Guerra em Ypres e nas aldeias vizinhas. Em março, dois trabalhadores foram mortos e um terceiro ficou gravemente ferido quando [supressão] [substituição] [supressão] [substituição] [substituição] 53 tentavam manipular um projétil em uma construção. [supressão] (map of Europe – Area in detail) [The land here still holds so many explosives that almost every construction project poses a danger.] Every turned spade has the potential to unearth not just munitions but bones, [some carefully laid to rest in full uniform, others blown apart.] A local highway stands half finished; [work ended abruptly] because the bulldozers began uncovering graves, and the British government [quickly] objected to the project. [...] Potencialmente, todos locais de construções ou projetos de escavação podem desvendar não apenas munição, mas ossos também [...]. Uma rodovia ficou inacabada; [...] as máquinas começaram a descobrir túmulos e o governo britânico se opôs [...] à continuação. É impossível morar próximo a Ypres sem sentir o peso de viver sobre um antigo campo de batalha onde morreram jovens da Alemanha, da França, do Reino Unido, da Bélgica, da Austrália, do Canadá e do norte da África […]. Há cemitérios por toda parte. […] It is impossible to live around Ypres without feeling the weight of living atop a former battlefield where young men from Germany, France, Britain, Belgium, Australia, Canada and North Africa died, [some as young as 15.] [reestruturação de parágrafo – deslocamento] Cemeteries are everywhere. [Some are just small clusters of graves surrounded by stone fences beside country roads. Others are carefully laid out rows of crosses that seem to extend forever, crowned by huge monuments. In a German cemetery in the nearby village of Langemark, a patch of grass holds the bones of about 25,000 men, many of them unidentified.] And yet more bodies always seem to be found. In recent years, as the city decided to develop an industrial zone along the Yser Canal, a local team of amateur archaeologists, calling themselves ―the Diggers,‖ [have followed the [supressão] [adição] [supressão] [supressão] [supressão] [supressão] [deslocamento] [supressão] [reestruturação de parágrafo – deslocamento] [supressão] E mesmo assim, mais corpos são sempre encontrados. Nos últimos anos, quando a cidade decidiu desenvolver uma zona industrial ao longo do canal do Yser, um grupo local de arqueólogos amadores -autodenominado "Os [supressão] 54 bulldozers and] uncovered the bones of 200 soldiers, only one of whom could be identified. [The archaeologists also unearthed a stretch of trench that has been partly restored for tourists.] Aurel Sercu, one of the Diggers, [walked the site recently, explaining how tunnels had led away from the trenches to an underground pump room, a changing area, a workroom and a stock of ammunition, all underwater now. If warm weather ever dries out the area, he said, the ground above might collapse, as has happened elsewhere.] Cavadores"- [...] descobriu as ossadas de 200 soldados; apenas um deles pôde ser identificado. [... ] Aurel Sercu, integrante do grupo, [...] guardou alguns dos itens menos importantes, incluindo um crucifixo quebrado, uma gaita e um um par de meias de lã preservado, encontrado [...] em um dos túneis. ―This man died here, and he must know we are looking at his photo,‖ Mr. Sercu said. ―There is so much history here. You can’t help but become obsessed.‖ [supressão] [reorganizaçao] [reorganização] [supressão] [Much of what the Diggers found was either reburied with the soldiers or went to museums. But Mr. Sercu, a retired language teacher,] has kept some of what was not wanted, including a broken crucifix, a harmonica and a pair of almost perfectly preserved wool socks found in [the mud at the bottom of] one of the tunnels. When an item, like a straight razor, had a name and number scratched on its side, Mr. Sercu tried to track down the soldier’s family. [Once, he actually succeeded,] but the soldier’s last living relative had just died. The woman’s husband sent [Mr. Sercu] a picture of the soldier [and said he should keep the razor. Mr. Sercu handles the photograph with care.] [supressão] [reestruturação de parágrafo – deslocamento] Ao encontrar uma navalha com um nome e número gravados em um dos lados, Sercu tentou localizar a família do soldado, [...] mas a última parente deste tinha acabado de morrer. O marido dela mandou [...] uma foto do soldado. [...] "Esse homem morreu aqui, e deve saber que estamos olhando para sua foto. Há muita história nesse local. Não dá para não ficar obcecado," disse Sercu. [supressão] [supressão] [supressão] [reestruturação de parágrafo – deslocamento] 55 [supressão] France’s Department of Mine Clearance is responsible for collecting and destroying unexploded shells still found by the thousands nearly 100 years after the Battle of Verdun. Video by Erik Olsen DateJune 26, 2014. on Publish The Ypres Salient was only one part of the Western Front, which ran from the Atlantic coast across the north of France to Switzerland. In France after the war, many of the battlefields and destroyed villages were declared part of a red zone, with access prohibited, left alone to turn to forest. But Belgium, historians say, was too small to afford the luxury of abandoning so much land. The war had barely ended when Belgian refugees began returning, hoping to farm the rich Flanders fields. Some committed suicide when they saw what had happened to their farms and villages. [But] others [simply] went to work rebuilding, relying heavily on German war reparations, which arrived by train in the form of fruit trees and cattle. The detritus of war was everywhere, and the simplest thing to do was to fill the trenches and rebuild. But the war could not be swept away so easily. Many markers remain. Cows graze next to German bunkers and [supressão] A guerra mal tinha terminado quando refugiados belgas começaram a retornar, na esperança de trabalhar nos ricos campos da região. Alguns se suicidaram ao ver o que havia acontecido às suas fazendas e vilas; [...] outros [...] começaram o trabalho de reconstrução, utilizando reparações de guerra alemãs, como árvores frutíferas e gado, que chegavam de trem. [substituição] [supressão] [supressão] [supressão] 56 drink from shell craters that are now watering holes. In aerial shots, the outlines of the trenches can still be seen because the vegetation grows greener depending on what lies below. Some experts say that it is time to do more to rid the land of the war’s effects, particularly by detecting unexploded shells. Marc Van Meirvenne, a soil expert at Ghent University in Belgium [who has studied the Ypres region, says it has unusually high levels of copper and lead, a consequence of the shells and the lead ball shrapnel inside many of them, though probably not sufficient to be a health hazard.] However, he said, groundpenetrating radar could easily be used to spot shells. Alguns especialistas dizem que é hora de fazer mais para livrar a terra dos efeitos da guerra, particularmente por meio da detecção de projéteis. Marc Van Meirvenne, especialista em solos da Universidade de Ghent, na Bélgica, [...] disse que o radar de penetração no solo pode ser facilmente utilizado para encontrar as cápsulas. No entanto, muitos agricultores não estão interessados, principalmente porque o processo pode alterar a composição do solo, trazendo à tona a argila azul que está abaixo da superfície. But many farmers are not interested, mostly because digging up the shells may change the soil composition, bringing up the blue clay that is several feet beneath the surface. Most of them, [like Mr. Butaye,] have a working knowledge of World War I munitions, [easily] identifying whether they came from German or Allied forces and how likely they are to explode. [Both Belgium and France have specialists assigned to collect the shells.] The Belgian unit near Ypres collects about 100 tons of munitions a year. A French unit working near Verdun collects about half as much. [In recent years, the Belgian government has passed laws preventing amateurs from digging.] [substituição] [supressão] [reorganização] [reorganização] [reestruturação de parágrafos deslocamento] A maioria dos agricultores [...] tem conhecimento prático de munição da Primeira Guerra, identificando [...] se a origem é alemã ou aliada, e a probabilidade de ela explodir. [...] Uma uma unidade militar belga nos arredores de Ypres recolhe cerca de 100 toneladas de munição por ano. Uma unidade francesa perto de Verdun recolhe a metade disso. [...] [substituição] [supressão] [supressão] [supressão] [adição] [substituição] [supressão] 57 Officials in Ypres say there is more interest in the war today than there was 20 years ago. Tens of thousands of British schoolchildren come here every year, as do thousands of the soldiers’ family members and history buffs, contributing about 40 million euros a year to the local economy. Joseph Verschoore, the deputy mayor of Ypres, said that even Germans were beginning to show interest. [supressão] ―I think before they were not always at ease,‖ Mr. Verschoore said. ―They were maybe afraid that the people here were still angry. But now there is more understanding that there was a regime there, and it was not very good for their people, either. Many of the German soldiers had no idea why they were here.‖ But some bitterness lingers. Stijn Butaye’s grandfather, [who bought the farm in 1960,] was eager to rid it of any signs that the Germans had once camped there. He tried to blow up a bunker [near the house, and objected to his grandson’s hobby.] ―Whenever he takes a picture of the house, he cuts the bunker out,‖ Mr. Butaye said. ―He hates that it was a German bunker.‖ [supressão] Certa amargura persiste. O avô de Butaye [...] queria livrar a fazenda de quaisquer sinais de presença alemã. Tentou até explodir um bunker [...]. "Sempre que ele tira uma foto da casa, deixa aquela parte de fora", disse. "Ele odeia o fato de esse ter sido um espaço alemão". [supressão] [supressão] [substituição] [substituição] [reestruturação de parágrafo deslocamento] 58 ANEXO B TF2 Artists’ Work Rises From the Destruction of the Israel-Gaza Conflict TM2 HURSTI (2001) Destruição em Gaza desencadeia [reorganização] onda de criatividade By JODI RUDOREN and FARES AKRAM JODI RUDOREN FARES AKRAM DO "NEW YORK TIMES" AUG. 16, 2014 02/09/2014 01h30 [supressão] Belal Khaled in his studio at a Gaza refugee camp. CreditWissam Nassar for The New York Times. [KHAN YOUNIS, Gaza Strip] — The images of so many houses destroyed, so many bomb blasts, [even] so many bodies wrapped in burial shrouds can begin to blur together, indistinguishable. But Belal Khaled, a young photojournalist and painter in this southern Gaza town, saw symbols and stories in the smoke all around him. First, in a black cloud staining the bright blue sky above a beach, he saw hints of a prominent nose, thick mustache and wild hair, ―like an old man contemplating the situation of Gaza,‖ Mr. Khaled said. Then, in a friend’s photograph of a taller, thinner plume, he saw a fist with the [...] As imagens de tantas casas destruídas, de tantas explosões de bombas e [...] de tantos corpos em mortalhas podem começar a se fundir de maneira indistinta. Todavia, Belal Khaled, um jovem fotojornalista e pintor local, via símbolos e histórias na fumaça ao seu redor. Primeiramente, em uma nuvem negra que manchava o céu azul em uma praia, ele viu indícios de um nariz proeminente, um bigode grosso e cabelos despenteados, "como se fosse um velho observando a situação em Gaza", disse Khaled. Depois, na foto feita por um amigo de uma nuvem de fumaça mais alta e rala, ele viu [supressão] [supressão] [substituição] 59 index finger extended, a gesture Muslims make when saying, ―No God but Allah.‖ Using Photoshop, Mr. Khaled added a few simple lines to emphasize these hidden icons, and uploaded the artwork to Facebook, where it was shared and ―liked‖ thousands of times. um punho com o dedo indicador estendido, um gesto feito por muçulmanos quando dizem "não há outro deus senão Alá". Usando Photoshop, Khaled acrescentou algumas linhas simples para salientar esses ícones ocultos e postou sua obra de arte no Facebook, onde ela foi partilhada e "curtida" milhares de vezes. ―Artists may see things others can’t see,‖ said Mr. Khaled, 23, who works for a Turkish news agency. [―Even at the very tense times and very hard moments, we still draw.‖] "Os artistas veem coisas invisíveis para os outros", afirmou Khaled, 23, que trabalha em uma agência de notícias turca. […] [substituição] [supressão] [supressão] One of Mr. Khaled's works. Probably as long as there has been war, there have been war artists whose interpretations of the battlefield feed cultural understanding of conflict. [Modern armies appoint official artists to chronicle military triumphs; dissident poets and painters provide portraits of victims and the aftermath. Though made decades after the Revolutionary War, Emanuel Leutze’s ―Washington Crossing the Delaware‖ is but one example of a work that lingers in the public consciousness.] In Gaza, where art supplies are scarce and expression often stifled, Provavelmente, enquanto houver guerra, haverá artistas cujas interpretações do campo de batalha são úteis para uma compreensão cultural do conflito. […] [substituição] [substituição] [supressão] Em Gaza, onde há escassez de materiais para artistas e a liberdade de expressão muitas [reorganização e adição] 60 the fierce fighting that began July 8 unleashed a barrage of creativity, fueled by social media networks, which have been a prime tool in the parallel propaganda war between backers of Palestinian militants and Israel. vezes é reprimida, o conflito acirrado que começou em 8 de julho desencadeou uma onda de criatividade impulsionada por redes de mídias sociais, que têm sido um instrumento básico na guerra de propaganda paralela entre os que apoiam os militantes palestinos e os defensores da posição de Israel. At least a half-dozen artists, some far from Gaza, have circulated drawings like Mr. Khaled’s, overlaid onto pictures of the explosions from Israeli bombs. (He is one of several claiming to have been the first to do this.) Others posted more straightforward paintings of death, destruction, rockets and warplanes, stark graphic designs of strident slogans, digital manipulations and political cartoons. Among the most interesting is a series of mash-ups by Basel Elmaqosui, pairing classic works [by the masters] with scenes from the street. Pelo menos seis artistas, alguns distantes de Gaza, puseram em circulação desenhos como os de Khaled, feitos em cima de fotos das explosões de bombas israelenses. (A maioria desses artistas afirma ter sido pioneira nisso.) Outros postaram pinturas mais explícitas de morte, destruição, foguetes e aviões de guerra, peças gráficas cruas com slogans estridentes, manipulações digitais e charges políticas. Entre os mais interessantes está uma série de mash-ups (fusões) de Basel Elmaqosui, combinando telas clássicas [...] com cenas de rua. Mr. Elmaqosui inserted ―The Card Players‖ by Cézanne into a photograph of men playing cards on a blanket in one of the United Nations schools that have sheltered thousands of displaced residents for weeks. He put Picasso’s ―Child With a Dove‖ next to an actual dove — or perhaps a white pigeon — perched on one of the only walls that remain standing in the destroyed village of Khuza’a, in front of a Palestinian flag. Beside a Beit Hanoun neighborhood reduced to rubble, the figure in Edvard Munch’s ―The Scream‖ howls. ―It must be famous drawings so the vision is familiar to people,‖ said Mr. Elmaqosui, 42, [as he sat on the porch of the Windows Elmaqosui inseriu "Os Jogadores de Cartas" de Cézanne em uma foto de homens jogando cartas sobre um cobertor em uma das escolas da ONU que abrigaram milhares de moradores deslocados durante semanas. Ele pôs "Criança com Pomba" de Picasso ao lado de uma pomba real — ou talvez um pombo branco — empoleirada em um dos únicos muros que restam no vilarejo destruído de Khuza'a, em frente a uma bandeira palestina. Ao lado de um bairro reduzido a escombros em Beit Hanoun, a figura de "O Grito" de Edvard Munch urra. "Isso só dá certo com obras famosas, para que a [substituição] [adição] [supressão] [substituição] [supressão] [substituição] 61 studio in Gaza City, where he and two others paint, exhibit and run workshops for children.] ―Many of these drawings are related to our reality. They happened before in the world. It’s like they are happening again now.‖ visão seja familiar para as pessoas", explicou Elmaqosui, 42. [...] "Muitas dessas obras têm relação com nossa realidade. Elas mostram coisas que aconteceram antes no mundo e parecem estar se repetindo agora." [supressão] ―Many of these drawings are related to our reality,‖ said the artist Basel Elmaqosui. Credit Wissam Nassar for The New York Times. The artists see their work as a form of resistance [to Israeli aggression. The resistance is also what Palestinians call the men who launched rockets into Israel, dug tunnels into Israeli territory, and killed Israeli soldiers during their ground invasion of Gaza. But it is much more than a respectable term for militancy or terrorism: Resistance is an admired value, an essential part of life’s fabric after decades living under Israeli occupation and restrictions. ] ―Everybody in Gaza is resisting in his own language,‖ said Manal Abu Safar, 31, who has posted dozens of bomb-smoke artworks like Mr. Khaled’s on Facebook. ―The Palestinian artist has his private language, through his brushes, through his lines.‖ Os artistas consideram seu trabalho uma forma de resistência. […] "Todos em Gaza estão resistindo a sua própria maneira", disse Manal Abu Safar, 31, que tem postado dezenas de obras com fumaça de bombas como as de Khaled no Facebook. "O artista palestino expõe sua linguagem singular por meio de pinceladas e linhas." [supressão] [substituição] [substituição] 62 Ms. Abu Safar, who lives in the central Gaza Strip town of Deir alBalah and started drawing as a child in Libya, said she made her first picture from the smoke of an F-16 strike, a hand making the ―V for victory‖ sign, on the fourth or fifth day of the war. Abu Safar, que mora na cidade de Deir al-Balah, na região central da faixa de Gaza, e começou a desenhar durante sua infância na Líbia, disse que fez seu primeiro quadro da fumaça de um ataque com aviões F-16, uma mão fazendo o "V da vitória", no quarto ou quinto dia da guerra. While Mr. Khaled seems to be picking up on hints in the actual smoke, Ms. Abu Safar, who finds photographs online, takes more liberty in superimposing her vision: a snake attacking Gaza; a map of historic Palestine; Yasir Arafat holding his cheek in his palm; a cartoonish man in a helmet with a Star of David, sucking the blood of a child. Enquanto Khaled parece buscar inspiração na fumaça real, Abu Safar, que procura fotos on-line, toma mais liberdade para sobrepor sua visão: uma serpente atacando Gaza; um mapa da Palestina histórica; Yasser Arafat apoiando a bochecha na palma da mão; a caricatura de um homem usando um capacete com a Estrela de Davi e sugando o sangue de uma criança. [supressão] A photo of rubble in Beit Hanoun is paired with Edvard Munch’s ―The Scream.‖ Mr. Khaled said [he learned Arabic calligraphy in the seventh grade and painted Quranic verses on the walls of his family home. He started taking photographs at 18 and dropped out of college, where he was studying interior design, to take a job at Anadolu, a Turkish news agency.] Three years ago, he began painting — haunting portraits, mostly, of the forlorn old men and impoverished youths in his neighborhood. [At the Khaled disse [...] que começou a pintar há três anos — principalmente retratos obsessivos dos velhos sem esperança e jovens carentes em seu bairro. [...] "Eu gosto de desenhar rostos, pois eles transmitem muitas histórias", afirmou. "Concentro-me em desenhar os olhos, que são o [supressão] [supressão] [substituição] 63 office one night, he used the coffee left in his cup to paint a child screaming.] ponto focal para quem observa um rosto." ―I like to draw faces because they carry a lot of stories,‖ he said. ―I like to focus on drawing the eyes. The eyes are the central attractive point for the one seeing the face.‖ Mr. Elmaqosui has far more experience. He started drawing and painting in a [Y.M.C.A.] workshop in 1995, and later went to Jordan for training. Over the past five years, he and two partners have taught photography and drawing classes to about 5,000 children, [whose work was collected in a book pairing their reflections with excerpts from the United Nations’ half-century-old declaration on the rights of children.] [reestruturação de parágrafo – deslocamento] Elmaqosui é bem mais experiente. Ele começou a desenhar e a pintar em um workshop [...] em 1995 e depois foi se aperfeiçoar na Jordânia. Há cinco anos ele e dois parceiros dão aulas de fotografia e desenho para cerca de 5 mil crianças. [...] Gaza has no academy for the arts, Mr. Elmaqosui said, and only two small galleries, which get no government support. There is only one store that sells tubes of acrylic paint, for about $10 each, nearly twice what they cost before 2007, when Israel imposed tight restrictions on imports after Hamas, the Islamist faction it deems a terrorist group, seized control of Gaza. [supressão] [supressão] [supressão] During the 2008-9 Israeli offensive in Gaza, Mr. Elmaqosui made a series of 40 black-and-white paintings, mostly of abstract faces underneath attack planes and helicopters; [22 of them, representing the 22 days of that war, were recently on exhibit in the West Bank. Some sold for $500.] Durante a ofensiva israelense em 2008-09 em Gaza, Elmaqosui fez uma série de 40 pinturas em preto e branco, principalmente de rostos abstratos sob o ataque de aviões e helicópteros. […] [supressão] He said he made art constantly during the fighting this time, in part ―to change the atmosphere for my children,‖ ages 16, 15, 13, 11 and 3 months. During the earlier conflict, he said, ―I was telling them these are Ele disse que faz arte constantemente durante o atual conflito, em parte "para desanuviar a tensão com meus filhos", que têm 16, 15, 13 e 11 anos, além de um bebê de 3 meses. Durante o conflito [substituição] [adição] 64 fireworks, but now they know it’s not fireworks.‖ On Tuesday, he posted to Facebook a picture made by the 11year-old, and wrote, ―Ahmed paints a war.‖ anterior, contou, "eu dizia a eles que as explosões eram de fogos de artifício, mas agora eles sabem que não é verdade". [substituição] [supressão]