UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA - UDESC CENTRO DE ARTES - CEART PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEATRO - MESTRADO RODRIGO BENZA GUERRA O PROFESSOR DIALÓGICO: UM APRENDIZADO A PARTIR DO TEATRO INTERCULTURAL NA AMAZÔNIA PERUANA FLORIANÓPOLIS, SC 2013 RODRIGO BENZA GUERRA O PROFESSOR DIALÓGICO: UM APRENDIZADO A PARTIR DO TEATRO INTERCULTURAL NA AMAZÔNIA PERUANA Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Teatro do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre. Orientadora: Marcia Pompeo Nogueira FLORIANÓPOLIS, SC 2013 RODRIGO BENZA GUERRA O PROFESSOR DIALÓGICO: UM APRENDIZADO A PARTIR DO TEATRO INTERCULTURAL NA AMAZÔNIA PERUANA Dissertação aprovada como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Teatro, no Programa de Pós-graduação em Teatro – Linha de Pesquisa: Teatro, Sociedade e Criação Cênica – da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Orientador(a): _________________________________________________ Prof. Dra. Marcia Pompeo Nogueira UDESC Membro: _________________________________________________ Prof. Dra. Tereza Mara Franzoni UDESC Membro: _________________________________________________ Prof. Dra. Marina Henriques Coutinho UNIRIO FLORIANÓPOLIS, SC 2013 AGRADECIMENTOS Obrigado À Família: Dina, Víctor, Lorena, Jose, Luciano, Eduardo, Guida, Gabriela por todo o apoio incondicional e por me ensinar tanta coisa. À Márcia Pompeo Nogueira pela guia, a parceria, o carinho. Por me ensinar novos caminhos. À Família Koerner por me receber no Brasil com tanto carinho e por ser um apoio constante neste processo. Ao pessoal do PPGT, Sandra, Mila e Francine. Sem elas, a vida seria mais difícil. Ao pessoal do FOFA pelas danças, os risos, as conversas, a troca. À Equipe da Universidad Intercultural de la Amazonía (UNIA) principalmente ao Eng. Augusto Montes e a prof. Mónica Yon por todo o apoio na realização do projeto. Aos participantes das oficinas pela entrega, o carinho, a amizade e por me ensinar a dialogar. A Capa, Gabriela Perona, Alexander Shimpukat, Jeiser Suarez por estar ai sempre. A Fidel Tubino, por me ensinar a interculturalidade. A Tereza Franzoni, Marina Henriques, Tim Prentki, Lucia Mantilla, André Sarturi, Efer Silvano. Aos velhos amigos do Peru e os novos amigos do Brasil. A Catalina e Vicente. A Camila Gastelumendi pelo amor, a inteligência, a paciência. Por ser minha parceira na vida. RESUMO BENZA, Rodrigo. O professor dialógico: um aprendizado a partir do teatro intercultural na Amazônia peruana. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Teatro – Mestrado). Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, 2012. A presente pesquisa de cunho autoetnográfico, tem foco na minha atuação como professor numa experiência de teatro intercultural na Amazônia peruana. Para tal, realizaram-se duas oficinas de teatro com estudantes indígenas e mestiços da Universidad Nacional Intercultural de la Amazonía (UNIA). O processo culminou com a criação de uma peça de teatro baseada nas vivências dos participantes na universidade. A relação entre interculturalidade e diálogo é vista como estrutural. A forma como se constrói interculturalidade é através do diálogo. Neste sentido, o processo de teatro intercultural exige um professor dialógico. A pesquisa começa por apresentar fundamentos teóricos sobre teatro intercultural, interculturalidade, diálogo e princípios dialógicos da prática pedagógica a partir das teorias de Paulo Freire. Continua contextualizando a situação da população indígena e a educação intercultural na América Latina para focar no contexto específico da UNIA e da experiência realizada. A metodologia de trabalho que foi participativa e dialógica, baseou-se na utilização de jogos, histórias e improvisação, principalmente. A pesquisa culmina com a proposta de alguns elementos que podem ajudar a prática do professor de teatro que procure ser dialógico, tais como partir das vivências dos participantes; procurar gerar questionamentos e elaborar novas narrativas; considerar que o processo pedagógico é um encontro de sujeitos; ressaltar a importância do trabalho em parceria; entre outros. O detalhamento da experiência busca indicar os desafios vivenciados e a sua análise crítica, acredito, pode trazer uma maior compreensão das dificuldades vividas por qualquer professor que busque atuar numa perspectiva dialógica. Palavras-chave: Teatro intercultural. Professor dialógico. Paulo Freire. Amazönia peruana. ABSTRACT BENZA, Rodrigo. The dialogical teacher: learning from intercultural theatre in Peruvian Amazon. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Teatro – Mestrado). Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, 2012. This is an autoethnographic research focused on my work as a teacher in an intercultural theater workshop in the Peruvian Amazon. To this end, there were set two theater workshops with indigenous and mestizo students of the Universidad Nacional Intercultural de la Amazonia (UNIA). The process culminated in the creation of a play based on the experiences of the participants in the university. The relationship between interculturalism and dialogue is seen as structural. Interculturalism is constructed through dialogue. In this sense, the intercultural theater process requires a dialogical teacher. The research begins by presenting the theoretical foundations of intercultural theater, interculturalism, dialogue and dialogic principles of pedagogical practice from the theories of Paulo Freire. Continued contextualizing the situation of indigenous people and intercultural education in Latin America to focus on the specific context of the UNIA and the experience itself. The methodology was participatory and dialogic, based on the use of games, stories and improvisation, mainly. The research culminates in the proposal of some elements that can help the practice of drama teacher who seeks to be dialogical, such as working from the participants’ experiences; seek to generate questions and develop new narratives; consider that the educational process is a gathering of individuals; emphasize the importance of working in partnership, among others. The details of the experience indicate the challenges experienced, and its critical analysis, I believe, can bring a greater understanding of the difficulties experienced by any teacher who seeks to act in a dialogical perspective. Key words: Intercultural theatre. Dialogical teacher. Paulo Freire. Peruvian Amazon. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – O Hangar.................................................................................................................63 Figura 2 – O mosquito..............................................................................................................81 Figura 3 – Seguir o líder...........................................................................................................81 Figura 4 – Jogo de Confiança...................................................................................................81 Figura 5 – Jogo de Confiança...................................................................................................81 Figura 6 – Transformação do objeto.........................................................................................81 Figura 7 – Ação - Reação..........................................................................................................81 Figura 8 – Bukea.......................................................................................................................83 Figura 9 – El jaguar...................................................................................................................84 Figura 10 – Criação de cenas..................................................................................................103 Figura 11 – Ensaio..................................................................................................................104 Figura 12 – Ensaio da cena do lixo.........................................................................................104 Figura 13 – A apresentação.....................................................................................................104 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CAFI COIAB CVR EIB EPB FAO IAA IAI INEI OIT ONU PCP-SL PUCP RIDEI TED TfD TO UDESC UNIA Centro Amazônico de Formação Indígena Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira Comisión de la Verdad y Reconciliación Educación Inicial Bilíngüe (Ensino Pré-Escolar Bilíngue) Educación Primária Bilíngüe (Ensino Fundamental Bilíngue) Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação Ingeniería Agroforestal Acuícola (Engenharia Agroflorestal Aquícola) Ingeniería Agroindustrial (Engenharia Agroindustrial) Instituto Nacional de Estadísticas e Informática Organização Internacional do Trabalho Organização das Nações Unidas Partido Comunista del Perú – Sendero Luminoso Pontificia Universidad Católica del Perú Red Internacional de Estudios Interculturales Technology, Entertainment, Design Teatro para o Desenvolvimento Teatro do Oprimido Universidade do Estado de Santa Catarina Universidad Nacional Intercultural de la Amazonía SUMÁRIO INTRODUÇÃO..................................................................................................................... 12 1 TEATRO INTERCULTURAL, INTERCULTURALIDADE E O PROFESSOR DIALÓGICO...........................................................................................................................26 1.1 TEATRO INTERCULTURAL.....................................................................................26 1.1.1 Eficácia no teatro intercultural..................................................................................30 1.2 INTERCULTURALIDADE.........................................................................................31 1.2.1 Globalização e desenvolvimento................................................................................33 1.2.1.1 Globalização.................................................................................................................33 1.2.1.2 Desenvolvimento..........................................................................................................34 1.2.2 Interculturalidade, globalização e desenvolvimento................................................35 1.3 DIÁLOGO.....................................................................................................................36 1.3.1 Diálogo como formador de identidade......................................................................36 1.3.2 Conhecendo o outro no diálogo. Encontro de sujeitos.............................................37 1.3.3 Diálogo Intercultural...................................................................................................39 1.4 O PROFESSOR DIALÓGICO A PARTIR DAS TEORIAS DE PAULO FREIRE.....................................................................................................................................39 1.4.1 Invasão e síntese cultural............................................................................................40 1.4.2 Praxis: Ação e reflexão...............................................................................................40 1.4.3 Partir dos temas dos participantes............................................................................41 1.4.4 Codificação – descodificação: Nomear o mundo.....................................................42 1.4.5 Aprendizagem mutua.................................................................................................42 1.4.6 Ponto de partida: o contexto dos educandos............................................................43 1.4.7 Objetivo: Problematizar.............................................................................................44 1.4.8 Autoridade vs. Autoritarismo....................................................................................44 1.4.9 Postura política do educador......................................................................................45 1.4.10 Educador diferente dos educandos............................................................................45 1.4.11 Compromisso...............................................................................................................46 2 CONTEXTO GERAL DA EXPERIÊNCIA.............................................................48 2.1 CONTEXO PERUANO: SITUAÇÃO INDÍGENA.....................................................48 2.1.1 Povos indígenas e discriminação no Peru.................................................................49 2.1.2 Povos indígenas e pobreza..........................................................................................50 2.1.3 Amazônia peruana e desenvolvimento......................................................................52 2.2 EDUCAÇÃO INTERCULTURAL. UMA PERSPECTIVA LATINOAMERICANA............................................................................................................54 2.2.1 Universidade e interculturalidade.............................................................................56 2.2.1.1 Universidades indígenas.............................................................................................56 2.2.1.2 Universidade intercultural.........................................................................................58 2.3 CONTEXTO DA EXPERIÊNCIA...............................................................................59 2.3.1 A Universidad Nacional Intercultural de la Amazonía (UNIA)......................................................................................................................................59 2.3.2 As articulações com a UNIA.......................................................................................61 2.3.2.1 Os preparativos...........................................................................................................61 2.3.2.2 O convite.......................................................................................................................63 2.3.3 Os participantes das oficinas......................................................................................65 2.3.4 Assistencialismo...........................................................................................................68 2.3.5 Compromisso pela oficina..........................................................................................70 3 A EXPERIÊNCIA: TEATRO INTERCULTURAL NA UNIA..............................72 3.1 A METODOLOGIA DAS OFICINAS.........................................................................72 3.1.1 Primeira oficina...........................................................................................................74 3.1.2 Segunda oficina............................................................................................................73 3.1.3 Histórias.......................................................................................................................74 3.1.4 Jogos.............................................................................................................................75 3.1.5 A máscara e o jogo: Caminhos de conhecimento pessoal........................................82 3.1.5.1 A máscara.....................................................................................................................82 3.1.5.2 Transformação em animal ou planta........................................................................85 3.1.5.3 Complementar a ação.................................................................................................86 3.1.5.4 Se transformar em som...............................................................................................86 3.1.6 Improvisação................................................................................................................88 3.2 CRIAÇÃO DE CENAS: ENTRE A FICÇÃO E A REALIDADE...............................89 3.2.1 Criação de cenas na oficina........................................................................................90 3.2.1.1 Cenas sobre identidade cultural.................................................................................91 3.2.1.2 Cenas sobre interculturalidade..................................................................................94 3.2.1.3 Cenas sobre discriminação. Mestiços versus indígenas..........................................96 3.3 A PEÇA: E VOCÊ? ......................................................................................................98 3.3.1 Preparação das cenas de discriminação....................................................................99 3.3.2 Preparação da cena do restaurante e da amizade..................................................100 3.3.3 Preparação da cena do lixo.......................................................................................100 3.3.4 Cansaço e confusão....................................................................................................101 3.3.5 Cena da corrupção....................................................................................................101 3.3.6 Detalhes finais............................................................................................................102 3.3.7 A apresentação...........................................................................................................102 3.4 AVALIAÇÃO DA EXPERIÊNCIA...........................................................................105 4 O PROFESSOR DIALÓGICO: UM APRENDIZADO A PARTIR DO TEATRO INTERCULTURAL..............................................................................................................107 4.1 PARTIR DOS PARTICIPANTES..............................................................................107 4.2 PRAXIS: AÇÃO E REFLEXÃO................................................................................111 4.3 CODIFICAÇÃO E DESCODIFICAÇÃO ATRAVÉS DA CRIAÇÃO CÊNICA..................................................................................................................................112 4.4 OBJETIVOS: GERAR QUESTIONAMENTOS, CONHECIMENTO E NARRATIVAS.......................................................................................................................114 4.4.1 Gerar questionamentos.............................................................................................115 4.4.2 Elaboração de narrativas..........................................................................................117 4.5 ENCONTRO DE SUJEITOS......................................................................................119 4.6 CONFLITO.................................................................................................................120 4.7 TRABALHO EM PARCERIA...................................................................................121 4.8 ATITUDES NÃO DIALÓGICAS..............................................................................123 4.9 MINHA IDENTIDADE..............................................................................................123 Encerramento........................................................................................................................125 Referências.............................................................................................................................127 APÊNDICE A – Descrição dos grupos étnicos......................................................................136 APÊNDICE B – Histórias......................................................................................................140 APÊNDICE C – Mapas de vida das máscaras........................................................................145 12 INTRODUÇÃO Porque você voltou a trabalhar na Amazônia? Perguntou-me Camila, minha esposa, enquanto estava realizando a pesquisa de campo na Amazônia peruana. Esta pergunta, tão acertada quanto difícil de responder, tornou-se muito importante para procurar o caminho da pesquisa que, finalmente, focou-se na minha vivência como professor numa experiência de teatro intercultural na Amazônia peruana. Nunca tentei disfarçar minha “estrangeirice”, as peculiaridades e particularidades da minha própria identidade cultural que é formada por meu próprio conhecimento, religião, locação, educação, viagens. Pelo contrário, tenho tentado trabalhar através da minha diferença a fim de confrontar outras identidades culturais na Índia com a crença implícita de que estamos conectados através da cidadania e, mais profundamente, através das memórias, as feridas, as possibilidades de uma história compartilhada (BHARUCHA, 1996a, p. 163)1. Identifico-me com esta citação do Bharucha porque, parafraseando Schechner (2006, p. 1) “quem eu sou não é irrelevante”. Sou um homem branco, da cidade de Lima, de classe media alta, que forma parte da cultura dominante do país, que estudou em uma universidade privada, que cresceu uma família socialista, que começou a se vincular com a Amazônia e pessoas indígenas aos 17 anos, que gosta de viajar, que se sente mais confortável num boteco de bairro do que em um restaurante chique. Sou professor e diretor de teatro que procura na sua prática gerar pontes entre distintos grupos da sociedade para produzir, através do teatro, conhecimento, reconhecimento e aprendizado tanto deles mesmos quanto do outro, do diferente. Comecei a viajar pelo Peru desde criança tanto com algum dos meus pais quanto em viagens organizadas por minha escola. Graças a essas viagens, desde pequeno tive contato com pessoas diferentes de mim; pessoas de outras regiões, de outras raças, com outros costumes. Na cidade de Lima, onde nasci e morei a maior parte da minha vida, também tive a oportunidade de conhecer outras realidades, principalmente acompanhando minha mãe no seu trabalho nas favelas e, mais uma vez, com a escola, que nos levava à Favela Huascar, na zona de Canto Grande, no distrito de San Juan de Lurigancho. Foi na creche de Huascar onde “ministrei” minha primeira oficina de teatro, quando tinha 12 anos. 1 A tradução de todas as citações dos textos em inglês e espanhol foram feitas por mim e revisadas por minha orientadora, a Dra. Marcia Pompeo Nogueira. 13 Na adolescência comecei a viajar mais e percebi uma coisa que me incomodava muito: sempre me perguntavam de onde eu era. Peruano, respondia. Você não parece peruano. Isto me acontece até hoje, mas quando era mais novo o fato de não ser reconhecido como peruano, principalmente por ser branco, me deixava muito incomodado. No meu segundo ano de faculdade, em 1997, conheci a cidade de Pucallpa, na Amazônia peruana, e o povo Shipibo-Konibo2. Naquela viagem realizada com um grupo formado por um professor e cinco estudantes da universidade, fizemos uma curta visita à comunidade indígena de Puerto Bethel. Na véspera da nossa saída, decidiram nos batizar e nos dar um nome shipibo3. Meu nome é Iskonxeca4. Desde esse momento, gerou-se um forte vínculo com a Amazônia, principalmente com o povo Shipibo-Konibo. Esta relação me motivou a querer fazer teatro com shipibos, desejo que se concretizou com o projeto Teatro Intercultural: Ucayali 2006. O produtor do projeto foi Jeiser Suarez, jovem shipibo que tinha conhecido naquela viajem do ano 97. Ele, enquanto estava fazendo o convite para as oficinas do projeto, manifestou que muitos jovens mestiços estavam interessados em participar da experiência. Assim, realizamos o primeiro projeto de teatro intercultural5. Seis meses depois, retornei a Pucallpa com um grupo de 11 estudantes da Pontificia Universidad Católica del Perú (PUCP), localizada na cidade de Lima, na qual era professor. Realizamos, então, uma segunda experiência de teatro intercultural. Estas experiências deixaram vários questionamentos e inquietudes que foram amadurecendo ao longo de três anos e que se tornaram o ponto de partida da presente pesquisa. Teatro intercultural Ucayali 2006 Entre os meses de julho e agosto de 2006 aconteceu o projeto Teatro Intercultural: Ucayali 2006, no qual fizemos oficinas de teatro e artes plásticas, durante três semanas, com jovens shipibos e jovens mestiços, estes últimos, no contexto amazônico, são aqueles que não se 2 A etnia Shipibo-Konibo, é uma das maiores da Amazônia peruana e habita, principalmente, as margens do rio Ucayali. É muito conhecida pela qualidade do seu artesanato. 3 Utilizarei o termo Shipibo ao me referir à cultura Shipibo-Konibo. 4 Iskon é o nome de uma ave e xeca de um aroma. Eu ganhei esse nome porque fiquei muito amigo de Ronny, filho do chefe da comunidade. Ele pediu para seu pai que fosse meu padrinho. O nome shipibo de Ronny é também Iskonxeca. 5 O conceito de teatro intercultural será trabalhado no capítulo 1, mas, em linhas gerais é o teatro no qual se procura um diálogo entre pessoas de culturas diferentes através do teatro. 14 consideram indígenas e que não falam uma língua indígena. Todos os participantes eram moradores da cidade de Pucallpa, na Amazônia Peruana. A dinâmica da oficina se baseou em jogos e improvisações que exploravam a visão que tinham os participantes sobre sua cultura e a cultura do outro. Este trabalho nos permitiu descobrir os preconceitos que tinham uns dos outros, e gerar um espaço de troca e conhecimento mútuo. Como produto da oficina, foram criadas duas peças teatrais a partir dos interesses dos participantes e das improvisações desenvolvidas durante a oficina. Uma das peças era sobre discriminação e a outra sobre contaminação ambiental. Na peça sobre discriminação queríamos mostrar distintos aspectos da mesma. Na primeira cena, um jovem shipibo se envergonhava da sua origem e, quando seus amigos descobrem que é shipibo, o rejeitam. Na segunda, um casal de mestiços pede água para uma família shipibo, que nega a petição e o manda embora. Na terceira, um grupo de mestiços e um de shipibos, chegam para habitar o mesmo território. Depois de dividir o espaço e brigarem, se dão conta de que colaborando uns com os outros viverão melhor. Terminam dançando e cantando. Na peça sobre contaminação, se apresentava o desmatamento e a extinção de animais (plantas e animais interpretados pelos atores), a contaminação dos rios, e a contaminação gerada quando lixo plástico é jogado nas ruas ou é queimado gerando uma fumaça tóxica. Viajamos por uma semana pelo rio Ucayali apresentando as peças em quatro comunidades shipibo e na cidade de Pucallpa. Esta experiência foi o trabalho de campo para meu Trabalho de Conclusão da graduação, intitulado O teatro como ferramenta de comunicação intercultural6(BENZA, 2007). Além disso, fizemos um documentário sobre a experiência intitulado Por el mismo río: Teatro Intercultural7 (BENZA, 2009). A experiência foi bastante enriquecedora para todos os envolvidos e realmente conseguimos gerar um espaço de conhecimento do outro. Para Ephraín Ramírez e Alexander Shimpukat, dois dos participantes shipibos, era a primeira vez que se davam bem com os mestiços (BENZA, 2009). Segundo Jim Sau García e Vera Ramos, dois participantes mestiços, através dos jogos e improvisações puderam conhecer como são os shipibos e apresentar seus próprios 6 O texto do trabalho pode se encontrar em: http://tesis.pucp.edu.pe/repositorio/handle/123456789/393 O documentário completo pode se ver em : http://rodrigobenza.blogspot.com.br/p/por-el-mismo-riocompleto.html 7 15 costumes já que, apesar de viverem tão perto, o contato é pouco comum (BENZA, 2007). Na sistematização da experiência, cheguei à conclusão de que a melhor forma para as pessoas se conhecerem é a convivência. De fato, o momento em que surgiram mais conflitos foi durante a viagem para a apresentação em comunidades, em função da intensa convivência. Os conflitos, nesta experiência, explicitavam que estava acontecendo um conhecimento real. É importante ressaltar que o conflito é parte de qualquer relação, e o importante não é evitá-lo, mas poder resolvê-lo. O caminho para conhecer o outro, então, seria a convivência. Se esta convivência tem um objetivo concreto e compartilhado, potencia-se a possibilidade de conhecimento porque os envolvidos devem trabalhar juntos e estabelecer processos de negociação. O fato de que esse objetivo era a criação de uma peça teatral foi particularmente proveitoso porque esta partiu das inquietudes, dos desejos, e da imaginação dos participantes. Portanto, a peça pertencia a todos e era parte de todos (BENZA, 2007, p. 118). Um dos participantes shipibos foi Efer Silvano. Num correio eletrônico que me mandou, em março de 2012, por pedido meu, ou seja, cinco anos depois da experiência, ele ressalta o seguinte: Foi muito acertado juntar os shipibos e mestiços no projeto de teatro, principalmente pela convivência e, sem dúvida, as viagens [às comunidades] foram uma experiência que marcou muito, já que os shipibos conhecem bem, tanto as nossas comunidades quanto a cidade, mas os mestiços talvez nunca tinham visitado uma comunidade nativa e realmente viver essa magnífica experiência de conhecer uma comunidade, a forma de viver, de trabalhar, de vestir é um jeito bom de trocar conhecimentos e ideias. Como em toda convivência, nem tudo é cor-de-rosa, às vezes havia conflitos, mas, no final, sobressaía a união8. (SILVANO, 2012) Teatro intercultural 2007 Entre fevereiro e março de 2007, realizei outra experiência de teatro intercultural. Para esta, formaram-se dois grupos. O primeiro estava constituído por jovens de Pucallpa organizados por alguns deles que tinham participado no projeto anterior. O segundo grupo foi formado por estudantes de Estudos Gerais Letras da PUCP. Para este projeto, ambos os grupos assumiram tarefas de organização e coordenação, incluindo a busca de financiamentos para realizá-lo. 8 “Fue un punto muy acertado juntar a shipibos y mestizos por en proyecto de teatro y sobre todo la convivencia y sin duda los viajes [a las comunidades] esa experiencia marco y significo mucho ya q los shipibos conocemos bien tanto nuestras comunidades y tambien la ciudad pero los mestizos quizas nunca han visitado alguna comunidad nativa y vivir realmente esa experiencia magnifica de conocer realmente una comunidad, la forma de vivir, de trabajar, de vestir etc. es una buena forma de intercambiar los conocimientos e ideas, como en toda convivencia no todo es color de rosa aveces habia roces entre uno al otro grupo, pero al final sobresalía la unión”. 16 A dinâmica das oficinas foi similar à da experiência anterior: dois grupos misturados, ou seja, em cada um dos grupos havia jovens shipibos, mestiços de Pucallpa e mestiços de Lima9. Um desses grupos fazia a oficina de teatro e o outro a de artes plásticas. A ideia era novamente partir da visão das pessoas de cada cultura em relação à do outro, mas isto não foi possível. Os jovens de Lima e os de Pucallpa eram tão alheios uns aos outros que sequer tinham preconceitos elaborados, só ideias vagas de como era o outro. Decidimos então trabalhar a partir do que era comum a todos. Depois de pesquisar sobre o amor, a morte, a felicidade, dentre outros temas, surgiu o tema da migração. Criamos coletivamente uma peça que mostrava este fenômeno em várias escalas. Como disse Alexander Shimpukat (informação verbal)10, um dos participantes shipibos de ambos os projetos, “fomos desenvolvendo a migração: os migrantes [...] da comunidade à cidade, da cidade à capital, da capital ao estrangeiro; por necessidades de trabalho ou estudo”11. A peça começava num terminal que podia ser de ônibus, porto ou aeroporto. A partir desse espaço aconteciam cenas que mostravam distintos aspectos da migração, algumas baseadas em movimento, quase dançadas; uma cena cômica que mostrava as absurdas aventuras de um shipibo na Alemanha; monólogos sobre o tema criados por cada um dos atores, e cenas que mostravam distintos conflitos da migração: que acontece com aquele que vai embora, que acontece com a família que fica, com aquele que vai contra a sua vontade. O tratamento do tema esteve mais focado nos sentimentos dos participantes do que na análise social do fenômeno. Esta experiência foi particularmente intensa para todos em termos de convivência, principalmente porque, durante uma semana, todos fomos morar juntos numa comunidade para terminar de preparar a peça. Esta convivência, naturalmente, gerou conflitos e momentos tensos. A peça, intitulada ¿Te vas? (Você vai embora?) foi apresentada em comunidades nativas, e nas cidades de Pucallpa e Lima. Para Lucía Mantilla, uma das estudantes da PUCP que participou da experiência, um dos principais valores do teatro no projeto foi que este gera e precisa de confiança e capacidade de escuta. Estas qualidades permitiram que esse grupo de jovens, de três grupos culturais 9 Na Amazônia peruana, os que provêm de Lima são reconhecidos como mestiços de Lima, que são diferentes dos mestiços das cidades amazônicas. 10 SHIMPUKAT, A. 2011. 11 Fuimos desarrollando la imigración, los imigrantes […] de la comunidad a la ciudad, de la ciudad a la capital, de la capital al extranjero. Por necesidades de trabajo o estudio. 17 diferentes (mestiços de Lima, mestiços de Pucallpa e Shipibos), pudessem se comunicar, se conhecer e criar juntos (informação verbal)12. Não existe uma sistematização da experiência. Perdi meu diário de campo e, particularmente, ela me deixou totalmente exausto. Acredito que uma das razões desta exaustão diz respeito ao meu papel de mediador e, de alguma forma, guia, de dois (ou três) grupos diferentes. Além disso, eu pertencia a um deles. Este pertencimento me dificultava ter objetividade no trabalho, já que minha relação com o grupo de Lima era mais fluida e, até confortável. Isso sem contar com a imagem que os próprios participantes tinham de mim. Já havia trabalhado com vários dos integrantes do grupo de Pucallpa, e todos reconheciam minha função de coordenador do projeto, porém, eles mesmos me percebiam como pertencente ao grupo de Lima. Passaram vários anos antes que eu quisesse voltar para trabalhar na Amazônia. As experiências realizadas, principalmente a segunda, haviam me deixado exausto tanto física quanto emocionalmente, e com muitas perguntas e vivências que deviam ser processadas. Quando elaborei o projeto para a presente pesquisa, estava muito interessado no tema da identidade. Partia da minha própria experiência de não ser reconhecido como peruano, e da constatação feita, na prática, de que muitos indígenas, principalmente habitantes da cidade, sofrem o que poderíamos chamar de uma crise de identidade. Eu queria saber como a prática teatral poderia gerar um espaço apropriado para refletir, definir e reelaborar a identidade em contextos de confluência de culturas diferentes. A minha pretensão era de que, na oficina de teatro, os participantes pudessem identificar os distintos elementos que constituem sua identidade, que conseguissem identificar a origem cultural desses elementos, ou seja, se eles vêm da sua cultura originária ou da cultura ocidental e, dessa forma, reelaborar sua própria identidade a partir da exploração teatral desses elementos, escolhendo quais são importantes para definir quem eles são. Antes de ir para o trabalho de campo comecei a questionar todos esses princípios. Quais seriam essas caraterísticas e valores da cultura ocidental? Quais os dos povos indígenas que, apesar das suas diferenças, compartilham aspectos em comum? Quais elementos da cultura ocidental poderiam ser apropriados pelas distintas culturas sem que estas perdessem sua 12 MANTILLA, L. 2011. 18 essência? Quais elementos das culturas indígenas poderiam ser mudados? Seria preciso definir uma cultura de pertencimento? Como saber quais são as características oriundas da cultura indígena e quais as adquiridas no contato com o homem ocidental? E, por fim, comecei a questionar os próprios questionamentos, na medida que obedeciam a concepções de cultura e identidade até certo ponto estáticas. Eu pretendia que os participantes reconhecessem os distintos elementos que constituiam sua identidade, que reconhecessem a origem cultural destes elementos e que tivessem a liberdade de escolher quais elementos os definiam. Tudo em dois meses! Senti que estava traindo todos meus princípios de trabalho e as razões pelas quais acredito que fazer teatro pode gerar benefícios para as pessoas, tais como trabalhar com o corpo, a construção de um espaço coletivo, não se basear apenas na razão, gerar um espaço de conhecimento do outro, entre outros. Paralelamente a esses questionamentos, estava experimentando uma insegurança e uma ansiedade pouco comuns sobre a implementação da oficina que faria. Sentia que devia atingir os objetivos da experiência porque havia uma pesquisa em andamento. Percebi então que, para lograr os resultados, podia sacrificar o desenvolvimento natural da oficina. O que era mais importante, a pesquisa ou a oficina? Para Phillip Taylor (2003, p. 120), quando se faz uma avaliação dos processos de teatro aplicado, o importante não é comprovar uma hipótese preconcebida, mas deixar que os dados que surgem da própria experiência gerem a hipótese. Decidi, então, deixar temporalmente de lado a preocupação pela identidade intercultural e me focar no trabalho na oficina. Pensava que queria entender a identidade intercultural dos participantes, mas terminei procurando entender minha própria identidade. Neste sentido, o objetivo do presente trabalho é propor, a partir de um processo pedagógico de teatro intercultural, elementos para a prática do professor dialógico. Para a presente pesquisa, realizei duas oficinas de teatro intercultural com estudantes mestiços e indígenas da Universidad Nacional Intercultural de la Amazonía (UNIA) na Amazônia peruana baseadas, principalmente, na utilização de jogos, histórias e criação cênica. No final da segunda oficina se criou uma peça a partir das vivencias dos estudantes na Universidade. Esta experiência me motivou a realizar uma reflexão teórica sobre vários temas tais como 19 teatro intercultural e, portanto sobre a interculturalidade; sobre o contexto amazônico e a situação dos indígenas; sobre os princípios dialógicos desenvolvidos por Paulo Freire; e sobre distintos aspectos da prática teatral que procuram gerar um benefício nos participantes a través da vivência gerada pelo teatro. Esta pesquisa parte de minhas inquietudes e questionamentos sobre minha própria prática como professor. Responde a uma necessidade de entender minha própria prática. Por isso, a pesquisa se foca nos aspectos dialógicos do professor, de como a experiência do teatro intercultural motivou a reflexão e, finalmente, à elaboração de uma proposta de elementos que, acredito, devem estar presentes na prática do professor dialógico de teatro. Para tal, no primeiro capítulo inicio com uma breve discussão sobre o significado do teatro intercultural, posicionando-o enquanto uma tentativa de produzir interculturalidade através da prática teatral. A interculturalidade é entendida como um diálogo entre indivíduos de culturas diferentes e como uma forma de resistir às formas como o desenvolvimento e a globalização são levados na região produzindo, por um lado, processos de assimilação e uniformização cultural e, por outro, situações de exclusão e injustiça. O diálogo, como encontro de sujeitos, se apresenta como uma alternativa às situações de assimetria e injustiça e como fundamento da interculturalidade. A seguir, apresento características da prática pedagógica dialógica a partir da teoria de Paulo Freire tais como partir dos temas dos participantes, o fato de que a aprendizagem é mútua e da importância de aceitar que o professor, que é diferente dos educandos, tem uma postura política. O segundo capítulo apresenta o contexto no qual se realizou a experiência da pesquisa. Começa com a situação geral dos povos indígenas no Peru, com uma ênfase na situação de discriminação e pobreza em que vivem e como são afetados pelos modelos de desenvolvimento. Depois apresento o contexto específico da experiência, contextualizando a educação intercultural na América Latina, especificamente, a relação da população indígena e a universidade e da criação de universidades interculturais, aprofundando na UNIA onde foi realizada a experiência. O capítulo finaliza com a apresentação do contexto específico da experiência, as articulações com a UNIA, e descrição dos participantes e da sua situação. No terceiro capítulo apresento a metodologia do trabalho e refleto sobre a abordagem teatral utilizada nas duas oficinas de teatro realizadas. Apresento aqui o trabalho com histórias reais ou inventadas trazidas pelos participantes; a utilização de jogos, refletindo sobre seu papel no 20 desenvolvimento do trabalho teatral e como caminho de conhecimento pessoal; e improvisações nas quais se trabalharam temas como identidade cultural, interculturalidade e discriminação, importantes para o cotidiano dos participantes. Na descrição da primeira oficina se enfatiza a elaboração de máscaras e na segunda o fato de que houve mais variedade étnica nos participantes e que, a partir das improvisações, se criaram as cenas da peça e você? que foi apresentada no final da segunda oficina.. No quarto capítulo, que inclui as considerações finais, proponho alguns elementos para a prática do professor dialógico a partir da experiência de teatro intercultural e das teorias teatrais e dialógicas. Estes elementos são: partir dos participantes; práxis: ação e reflexão; codificação e descodificação; gerar questionamentos e elaborar novas narrativas; encontro de sujeitos; conflito; trabalho em parceria; atitudes não dialógicas. Culmina o capítulo, e a dissertação, com o que eu mesmo aprendi no processo desde que neste tipo de trabalho, quem eu sou, importa. Abordagem metodológica: Etnografia e autoetnografia A etnografia é um método de pesquisa qualitativo que tem como fundamento a relação que se estabelece entre o contexto, os sujeitos pertencentes a esse contexto e o pesquisador. Para Laplantine (2004), “a observação etnográfica é uma busca de relacionar objetos, seres humanos, situações e as sensações que são [...] provocadas no pesquisador”. Pode-se ver nesta definição, de um lado, a importância da percepção do pesquisador e portanto da valoração da subjetividade na pesquisa, e de outro, a importância que as sensações, e não só a análise racional, têm para a pesquisa. Segundo Norman K. Denzin (2006, p. 422) A etnografia não é uma prática inocente. Nossas práticas de pesquisa são performáticas, pedagógicas e políticas. Através da nossa escrita e nossa fala, nós representamos os mundos que estudamos. Estas performances são confusas e pedagógicas. Elas ensinam aos nossos leitores sobre este mundo e como o percebemos. O pedagógico é sempre moral e político e, ao representar um modo de ser e de perceber, desafia, questiona ou endossa o modo oficial e hegemônico de perceber e de representar o outro. Para Denzin o método etnográfico é político e pedagógico. É uma forma de pesquisa que obriga o autor a ter uma posição, desde que, o que está fazendo, é representar um mundo através da sua própria visão. É um método que obriga o autor a se decidir por uma postura: fortalecer a visão oficial do mundo ou lutar contra essa visão hegemônica. O autor adiciona: 21 Minha posição pode ser facilmente resumida. A pedagogia crítica, contida pela performance (auto) etnográfica e, ao mesmo tempo, através desta, procura quebrar e desconstruir performativamente estas práticas metodológicas e culturais em nome de uma “sociedade mais justa, democrática e igualitária” (Kincheloeand McLaren 2000, 285). Eu quero uma nova tradição de pesquisa qualitativa que seja focada nos temas que vêm desse compromisso (DENZIN, 2006, p. 422, ). A autoetnografia é uma das formas de estudar a própria prática e é particularmente útil no contexto de pesquisa em artes cênicas. Ela surge nas ciências sociais como um método qualitativo de pesquisa ante a necessidade de valorizar a voz, as experiências e as emoções de um pesquisador que forma parte ativa da realidade que está estudando. Como é comum, não existe consenso na definição do termo, mas, dentre as várias definições apresentadas por Denzin, escolho a de Carollyn Ellis (apud DENZIN, 2006, p. 419): “A autoetnografia é... pesquisa, escrita e método que conecta o autobiográfico e pessoal com o cultural e social. Esta forma [de pesquisa] geralmente desenvolve ação concreta, emoção, personificação, autoconsciência, e introspecção”. Esta metodologia foi muito criticada principalmente pela falta de distância do objeto de pesquisa, porém, segundo Adrián Scribano e Angélica De Sena (2009, p. 6, ), “o pesquisador tem o privilégio e a responsabilidade de ser sujeito e objeto”. Esta dupla situação lhe permite elaborar questionamentos e observações particulares, e ter acesso a um entendimento especial do mundo em estudo, do qual ele é parte. Para os autores, os questionamentos sobre a fiabilidade e seriedade da pesquisa, perdem importância frente ao valor da flexibilidade e das possibilidades do pesquisador, que pode incluir na pesquisa seus sentimentos, seus pensamentos e sua própria prática. Eles agregam que o fato de valorizar a experiência não quer dizer falta de rigor na coleta e tratamento de dados. O importante, segundo os autores, é “utilizar a própria experiência para expandir a compreensão sobre o social” (SCRIBANO; DE SENA, 2009, p. 6). No contexto das artes cênicas, segundo Denise Coutinho (2012, p. 100), pesquisas acadêmicas em artes continuam pendendo entre dois eixos: ou se querem científicas, sem apresentar itens tradicionalmente valorizados pelas ciências, [...] ou então desviam-se das questões mais comumente trazidas pelas ciências, ocupando-se em relatar processos ou fragmentos de processos. Nesta mesma linha, para Merce Saumell (2012, p. 253): a criação do artista seja a obra acabada, processo ou situação, escapa às sistematizações próprias da investigação científica. [...] Este tipo de investigação [a 22 artística] não permite uma distinção clara entre objeto e sujeito, como aparece na investigação científica tradicional. Ela deve abrir-se a um processo crítico e de interrelação com os outros. De acordo com Coutinho (2012, p. 100) quando as pesquisas em artes cênicas procuram relatar processos ou fragmentos de processos (segundo eixo), a abordagem metodológica “aproxima-se dos estudos etnográficos e autoetnográficos”. Para Sylvia Fortin (2010, p.90), no contexto das artes cênicas, a autoetnografia “caracteriza-se por uma escrita do eu que permite o ir e vir entre a experiência pessoal e as dimensões culturais a fim de colocar em ressonância a parte interior e mais sensível de si”. A definição da autora enfatisa o diálogo, a troca que deve se dar entre o mundo interior do pesquisador e a cultura. Fortin (2010, p.91) adiciona que “o praticante pesquisador que se volta sobre ele mesmo não pode ficar lá. Seu discurso deve derivar em direção a outros”. Esses “outros” são tanto os outros participantes da prática estudada, quanto as pessoas que terão acesso ao texto teórico. Além do questionamento da importância da pesquisa frente à prática, e da metodologia, me fiz outro importante questionamento que foi sobre o que precisamente eu queria pesquisar? O teatro em si, ou os participantes e a sociedade, através do teatro? Por que era importante para mim pesquisar no contexto intercultural? Queria pesquisar a identidade dos participantes ou o impacto da experiência da oficina de teatro nas suas identidades? Durante as primeiras semanas da oficina entrevistei alguns participantes. Eles me falaram sobre sua vida, sua cultura, sua vida na universidade. Pensei então que, se queria fazer uma pesquisa sobre eles, não precisaria do teatro. O indiano Rustom Bharucha é um pesquisador do mundo e dos fenômenos sociais deste, e sua forma de estudá-lo é o teatro. Sua posição é a seguinte: “Eu não poderia ter abordado as narrativas sobrepostas de globalização, comunalismo e culturalismo sem as reflexões concretas adquiridas sobre estes fenômenos através do imediatismo do teatro” (BHARUCHA, 2000, p. 17, ). Este princípio de trabalho de Bharucha me ajudou a entender que os distintos aspectos (teatro, participantes, sociedade) envolvidos em um trabalho teatral que procura gerar uma experiência dialógica nos participantes, não podem ser separados. Ao contrário, estão totalmente ligados. Nesse sentido, para entender e desenvolver a prática teatral é importante entender o mundo dos participantes e os fenômenos sociais nos quais estão (estamos) inseridos. E, ao mesmo tempo, através do trabalho teatral é possível entender melhor os ditos fenômenos. 23 Neste sentido, um processo de pesquisa também poderia ser considerado como mais um elemento destes processos. Inclusive, alguns praticantes e teóricos de teatro colocam a etnografia não só como uma metodologia adequada para estudar processos criativos e pedagógicos de teatro, mas apontam que objetivos de práticas como teatro aplicado e drama, têm princípios de trabalho similares aos da etnografia. Para Kate Donelan (2005, 2008), existem várias semelhanças entre a técnica de drama, usada principalmente na escola, e a etnografia. Segundo ela, Os etnógrafos descrevem, interpretam e representam práticas culturais cotidianas e padrões de comportamento social, próprios e de outros. De acordo com Ely, os pesquisadores etnográficos trabalham para apresentar os pontos de vista dos participantes, para ver a vida através dos seus olhos e “para atingir essa perspectiva transcendental que engloba múltiplas interpretações” (1991, p.221). Desde meu ponto de vista, estes objetivos também podem ser aplicados ao drama. (DONELAN, 2005, p. 77, ) Para Donelan, os praticantes de drama e os etnógrafos têm em comum a “capacidade de se identificar com o ponto de vista do outro”, tendo em conta que, assim como o praticante de drama deve gerar empatia com os papeis e personagens representados, o etnógrafo o faz com “as perspectivas e experiências daqueles a quem está estudando” (DONELAN, 2005, p. 77). Outra característica comum é que ambos precisam ter uma perspectiva dupla e simultânea ou, como disse Burton (apud DONELAN, 2005, p.78, ) “o participante observa e, ao mesmo tempo, é parte de um ambiente dinâmico”. Assim, ele tem que se envolver em uma realidade, em uma cultura, e ao mesmo tempo ter uma perspectiva distanciada para enxergar os acontecimentos. De acordo com a autora, se dá outro ponto de encontro quando em trabalhos artístico/pedagógicos, os professores artistas buscam brindar aos participantes uma experiência na qual possam aceder a “perspectivas e pontos de vista múltiplos”, do mesmo modo como o etnógrafo busca encontrar significados culturais através das vozes dos envolvidos no universo do estudo: A capacidade de se projetar imaginariamente dentro de uma situação e se identificar com outra perspectiva possibilita que pessoas explorem a experiência humana no drama; possibilita que um professor de drama compreenda as experiências de seus alunos e isto permite ao etnógrafo observar a vida através dos olhos daqueles que ele está estudando”. (DONELAN, 2008 p.165) Taylor (2003, p.18) aponta que a historia da etnografia se insere dentro da antropologia cultural e parte da necessidade de estudar a vida tal como ela é, sem distorções. O autor 24 afirma que os etnógrafos acreditam que uma das bases da vida social das pessoas é que os indivíduos interpretam permanentemente seu mundo e, portanto, uma pesquisa sobre esse mundo deve ter em conta as ditas interpretações. Este aspecto se relaciona com o objetivo que, segundo ele, têm os processos do teatro aplicado: “ajudar as pessoas a refletir criticamente sobre o tipo de sociedade na qual vivem” (TAYLOR, 2003, p.1, ). Para ele, a condição de aplicado deste teatro se dá porque a forma artística se converte em um agente transformador no qual participantes e público, se colocam em situações diretas e imediatas onde podem testemunhar, confrontar e desconstruir aspectos de suas ações e das dos outros (TAYLOR, 2003, p.xx). O teatro aplicado de Taylor e a etnografia teriam em comum a tentativa de entender a realidade a partir do ponto de vista dos indivíduos e sua interpretação do mundo. Desta forma, as técnicas utilizadas por Donelan e Taylor apontam para um trabalho de pesquisa coletivo que procura um conhecimento do indivíduo e sua relação com a sociedade. As técnicas etnográficas de trabalho e o teatro que procura gerar um impacto nos participantes e seu contexto, portanto, têm muitos elementos comuns que podem ser muito proveitosos para a experiência tanto dos participantes quanto do pesquisador. Para a coleta da informação da pesquisa utilizei, principalmente, dois instrumentos etnográficos: diário de campo e entrevistas. No diário registrei tanto o andamento de cada um dos encontros das oficinas, descrevendo os jogos utilizados e as improvisações, quanto minhas próprias impressões do trabalho do dia. Além disso, colocava minhas reflexões sobre a experiência e o contexto no qual estava desenvolvendo a experiência. Todas as entrevistas foram gravadas em vídeo e contam com o consentimento explícito dos entrevistados para utilizar seus depoimentos na pesquisa. Nas entrevistas dos participantes das oficinas, as perguntas eram bastante gerais. Naquelas realizadas no início da experiência, pedia para eles falarem sobre eles mesmos, sua cultura e sua experiência na universidade. Nas entrevistas posteriores, pedi para eles descreverem o trabalho que estávamos desenvolvendo nas oficinas e suas próprias impressões, principalmente. No início do processo, expliquei aos participantes que a experiência formava parte da minha pesquisa de mestrado e pedi sua autorização para realizá-la. Eles manifestaram sua aprovação. Inclusive, alguns deles mencionaram que eles mesmos também deviam fazer pesquisa nas 25 comunidades, para a qual precisavam da disponibilidade das pessoas, portanto entendiam perfeitamente minha petição. Todas as sessões de trabalho têm registro fotográfico e alguns jogos e conversas durante a oficina também estão registradas em vídeo. 26 1. TEATRO INTERCULTURAL, INTERCULTURALIDADE E O PROFESSOR DIALÓGICO 1.1 TEATRO INTERCULTURAL A forma mais divulgada de teatro intercultural, de certa forma, limita-se a experiências nas quais se utiliza um texto criado em uma cultura diferente, misturam-se manifestações culturais estéticas diversas, ou são experiências nas quais existe participação de artistas de diferentes culturas, cada um deles oferecendo suas próprias manifestações culturais. Esta visão está focada no espetáculo e procura gerar uma estética exótica composta por elementos culturais diferentes. Para Patrice Pavis (1999, p. 210) “não se poderia falar em teatro intercultural como gênero estabelecido ou uma categoria claramente definida, porém, no máximo, como um estilo ou uma prática de jogo teatral aberta a diversas fontes culturais”. Para ele, esta é uma tendência que se refere mais à encenação do que à escrita dramática. Segundo o autor, a história da encenação intercultural começa ao início do século XX quando artistas como Meyerhold e Artaud se servem de tradições orientais para seu teatro. Nos anos sessenta e setenta, continua Pavis, encenadores como Brook, Mnouchkine, Schechner e Barba utilizaram como fonte as técnicas de práticas não ocidentais, assim como encenadores japoneses, como Suzuki, utilizaram dramaturgia ocidental para seu trabalho. De acordo com Pavis (1999, p. 210-211), este teatro tem uma “preocupação de um confronto, de um intercâmbio ou de uma hibridação das diversas culturas”. Pavis (1996, 1999) foca sua análise na utilização de referentes culturais, principalmente de culturas orientais, por parte da produção teatral ocidental, principalmente europeia. Boa parte da teoria sobre teatro intercultural está concentrada neste tipo de práticas. Eugene Van Erven, figura importante na teoria sobre teatro comunitário, reconhece que a postura sobre teatro intercultural apresentada por Pavis é a majoritária, mas identifica outra perspectiva baseada em um trabalho mais enraizado no povo: Com exceção de raras referências ao teatro grassroots (do povo), os estudos da performance inter-cultural tendem a se concentrar em produções abstratas metaculturais do avant-garde internacional realizadas em locais prestigiosos das grandes metrópoles e nos eixos dos grandes festivais internacionais que vão desde Avignon via Edimburgo até Adelaide e Los Angeles. (VAN ERVEN, 2001, p. 248) 27 Algumas das práticas que procuram gerar grandes produções a partir da estética de culturas diferentes são criticadas porque, mais do que um intercâmbio respeitoso entre indivíduos de culturas diferentes através da performance, em ocasiões se apresenta, através desta, uma interpretação específica sobre os costumes de uma determinada cultura, ou se realiza uma apropriação de elementos de uma cultura, por parte de praticantes de teatro do mainstream, mantendo uma relação colonialista. Rustom Bharucha (2000, p. 1) utiliza o exemplo da montagem Os Iks de Peter Brook que esteve baseada num estudo antropológico feito por Colin Turnbull sobre “uma tribo africana que tem sido desumanizada pela fome e deslocamento”. Segundo Bharucha (2000, p. 2) “Os Iks, com seu uso chic do balbuciado não verbal para sugerir a primitivização dos ‘nativos’ africanos, seguramente entrará na história do teatro intercultural como um exemplo paradigmático da primordialização do Outro como um objeto antropológico”. Neste mesmo sentido, Kate Donelan apresenta uma crítica feita por Maria Shevtsova (1997) deste tipo de práticas: Praticantes interculturais como Brook e Schechner são criticados por ignorar os contextos econômico e político dos projetos interculturais, e por ‘saquear’ técnicas de performances não-ocidentais sem respeitar as especificidades das culturas locais das quais surgiram. (DONELAN, 2005, p. 34)13. Não considero que as produções que procuram utilizar distintas influências culturais para criar um espetáculo sejam, per se, desrespeitosas das culturas, nem acho que todas as produções e experiências interculturais desenvolvidas por criadores como Peter Brook ou Richard Schechner, por exemplo, possam ser consideradas como tais. Aliás, considero que seu trabalho é muito importante e é um referencial significativo para mim. Porém, é importante mencionar que existem posturas divergentes sobre o que significa o teatro intercultural e gostaria de deixar claro que minha posição frente a ele se afasta destas práticas que procuram gerar grandes espetáculos exóticos utilizando estéticas de culturas diferentes. No teatro intercultural ao qual faço referência, gera-se um encontro entre pessoas de culturas diferentes estabelecendo um diálogo através da arte. Este processo, segundo Rustom Bharucha (2000, p. 3), não se limita ao entendimento de outras culturas, mas à interação entre elas através das 13 Donelan (2005) apresenta distintas posturas da relação entre teatro e interculturalidade no capítulo Interculturalism Within Theatre. p. 30-36. 28 disciplinas e linguagens específicas do teatro. Para tal é útil a definição de performance intercultural integradora apresentada por Richard Schechner (2006, p. 304), A [performance intercultural] integradora está baseada no princípio de que pessoas de diferentes culturas podem não só trabalhar juntas com sucesso, mas harmonizar diferentes estéticas, sistemas sociais e de crenças, criando fusões ou híbridos que constituem um todo unificado. Este não é um caso de uma cultura ou gênero performático absorvendo ou subjugando outros [...] mas de gerar algo novo a partir da base do respeito mútuo e a reciprocidade. Nesse sentido, o teatro intercultural a que me refiro, aproxima-se da proposta integradora de Schechner, e está mais ligado ao princípio do trabalho intracultural desenvolvido por Bharucha (2000, p. 63), no qual, através do teatro, procura-se “criar novas possibilidades de interação e troca dentro e através da riqueza de tradições ‘vivas’ a partir de marcos temporais e contextos culturais muito diferentes”. Bharucha (2000, p. 62) está mais interessado no contato de grupos culturais que interagem numa mesma região dentro das fronteiras nacionais, do que nas experiências que procuram encontrar o exótico distante para desenvolver novas estéticas. A forma como a australiana Kate Donelan descreve seu trabalho em parceria com uma professora artista da Quênia num processo de drama intercultural numa escola na Austrália, é um bom exemplo deste outro teatro intercultural: “Nós tentamos desenvolver conhecimentos compartilhados ao mesmo tempo que reconhecíamos as diferenças entre nós e entre os diversos estudantes que participaram da experiência” (DONELAN, 2005, p. 63). Dentre os principais valores do teatro intercultural como um espaço de encontro entre os diferentes estão seu caráter lúdico, desde que brincar é natural a toda cultura; o fato de utilizar distintas linguagens: oral, visual, cinética; e sua capacidade de estabelecer um contato e uma troca não só a nível racional, mas também sensitivo. Nas conclusões de uma pesquisa anterior sobre teatro intercultural também a partir de uma experiência na Amazônia peruana (BENZA, 2007), coloco o seguinte sobre as vantagens do teatro para a comunicação intercultural: • Utiliza tanto o pensamento racional quanto o metafórico e sensível na sua relação. Portanto permite que o expressado tenha mais receptividade. • Desenvolve diferentes linguagens como o verbal, o corporal, o visual, o sonoro e o espacial. 29 • No processo de ensaios e criação de um espetáculo, permite que surjam ideias, sensações, que de outra forma continuariam escondidas. • O trabalho é muito divertido. Portanto, o ambiente motiva a explorar distintas formas de comunicação intercultural. • Durante as apresentações, a comunicação com o espectador é direta e muito simples. Isto permite que a mensagem tenha mais chances de chegar no seu destino. • Gera um espaço diferente de convivência (BENZA, 2007, p. 117). A melhor forma de conhecer o diferente é a convivência. Se esta tem um objetivo, ou seja, se os participantes procuram construir algo juntos, esta convivência se potencializa. Se o objetivo é a criação de uma peça teatral, a convivência é mais intensa porque o produto a construir nasce dos próprios participantes, das suas ideias, sensações e emoções (BENZA, 2007, p. 117-118). Nesse sentido, o filósofo intercultural Fidel Tubino, me diz o seguinte: “O que me parece importante no teu trabalho de teatro intercultural é que é uma experiência de diálogo, de sensibilidades, não de racionalidades, e acho que esse nível é o fundamental, o outro é um derivado” (TUBINO, 2012b). De acordo com Tim Prentki e Jan Selman (2000, p. 54-55) as razões principais para utilizar o teatro para a mudança são: “[Sua] natureza criativa, sua efemeridade, flexibilidade, receptividade, sua ‘vida’, sua capacidade para refletir e simbolizar realidades culturais”. Nesta mesma linha, Segundo Kate Donelan (2005, p. 66), a partir de Jonathan Neelands, “no drama14, os jovens podem desafiar imagens estereotipadas e se deslocarem para além de percepções deles mesmos, restritas, e social e culturalmente definidas”. A autora adiciona que o trabalho com o drama “permite aos estudantes se engajarem em experiências sociais diferentes desde uma variedade de perspectivas, e desempenhar e descobrir caminhos alternativos para eles se entenderem a si mesmos e seu mundo” (DONELAN, 2005, p. 67). A definição de Van Erven (2001, p. 3) sobre o teatro comunitário, também resulta útil porque pode-se dizer que o teatro intercultural e o teatro comunitário têm princípios semelhantes 14 Donelan faz referência à técnica de drama na educação, porém, eu utilizarei os termos drama e teatro indistintamente. Para maiores referências sobre o drama na educação ver: CABRAL, B. 2006. 30 como o fato do conteúdo e/ou a forma partirem dos participantes, ou a forma dialógica de trabalho: em primeiro lugar, privilegia a fruição artística e o fortalecimento dos seus participantes da comunidade. Seu material e estética sempre surgem diretamente (se não exclusivamente) ‘da’ comunidade, cujos interesses tenta expressar. O teatro comunitário, aliás, é uma forma artística poderosa que permite que grupos de pessoas silenciosos (ou silenciados) incluam suas vozes às crescentemente diversas e intrinsecamente inter-relacionadas, culturas locais, regionais, nacionais e internacionais. 1.1.1 Eficácia no teatro intercultural Existem práticas teatrais que são influenciadas pelo princípio dialógico desenvolvido pelo educador brasileiro Paulo Freire e que compartilham distintos aspectos com o teatro intercultural. Os objetivos específicos e nomes com que se apresentam são variados15, mas as une o princípio de aproveitar as características do teatro para desenvolver experiências que gerem benefícios nas pessoas e nas sociedades. Estas práticas partem da premissa de que todas as pessoas têm o potencial e a possibilidade de fazer teatro (Jhonston, 1998; Prentki e Selman, 2000; Taylor, 2003; Nichollson, 2005; Boal, 2010)16. Como afirma Chris Jhonston (1998, p. 3), o teatro não discrimina porque não existe uma condição física ou mental que impeça a possibilidade de participar dele. Segundo Judith Ackroyd (2000, p. 5) o teatro tem sido percebido como uma ferramenta perigosa para muitos que ocupam posições de poder. […] O poderoso potencial do teatro para influenciar, para gerar consciência, para informar, ou seja, para transformar, é e tem sido amplamente assumido. Neste sentido é útil a descrição de Richard Schechner sobre os conceitos de eficácia e entretenimento a partir da pesquisa – em conjunto com o antropólogo Victor Turner - sobre o teatro e o ritual. Schechner (2006, p. 70-80) afirma que a diferença entre teatro e ritual é que o primeiro é realizado para entreter e a principal característica do segundo é sua eficácia, ou seja, a intenção de gerar uma mudança, uma transformação. Porém, não os coloca como opostos, mas como extremos de uma mesma linha contínua (continuum), afirmando que todo teatro tem um grau de eficácia e todo ritual um grau de entretenimento. Schechner não limita 15 Teatro em comunidade, Teatro para o desenvolvimento, Teatro aplicado, Teatro do Oprimido, Teatro popular, dentre outros. 16 Apesar de que estes autores têm práticas muito diferentes, todos partem deste princípio de trabalho. 31 o continuum à relação entre teatro e ritual. Por exemplo, também pode se traçar um continuum entre o teatro e eventos públicos tais como manifestações de rua (Schechner, 2012, p. 97, 101). Para Jan Cohen-Cruz (2008, p. 118), uma das características do teatro baseado na comunidade é a hifenação, que têm a ver com seu caráter dual entre o ritual/eficácia e arte/entretenimento apresentado no continuum proposto por Schechner. Nesse sentido, objetivos como gerar nos participantes experiências positivas ou utilizar o teatro como meio de alfabetização, obedeceriam ao caráter hifenado da performance baseada na comunidade (COHEN CRUZ, 2008, p. 119). De acordo com Donelan (2005, p. 258) o antropólogo Victor Turner acreditava que o teatro é um meio importante para a transmissão da interculturalidade: “ele considera ‘a representação e performance de experiências dos outros culturalmente transmitidas’ como a base para o entendimento imaginativo e a comunicação ‘transcultural’”. O objetivo do teatro intercultural é gerar questionamentos através do contato e conhecimento do outro, do diferente, na experiência teatral, produzindo, neste encontro, novas narrativas. O teatro intercultural, como qualquer tipo de teatro, procura entreter, e sua eficácia, que neste caso é de grande importância, está orientada à produção de interculturalidade, ou seja, do diálogo entre sujeitos de diferentes culturas, através da experiência teatral. A produção do diálogo no teatro intercultural pode se dar de formas muito diferentes. Por exemplo, se um grupo teatral de uma cultura se apresenta para outra, já poderia se produzir um diálogo intercultural entre os artistas e o público17. Porém, para este trabalho, estou me centrando em uma experiência na qual pessoas de culturas diferentes participam de um processo pedagógico de teatro intercultural, conhecendo-se e se reconhecendo, produzindo diálogo e, portanto interculturalidade. 1.2 INTERCULTURALIDADE A interculturalidade, assim como os próprios conceitos de cultura e identidade, pode ter muitos significados, entretanto pode se dizer que o conceito faz referência a um intercâmbio, uma interação, um diálogo entre pessoas pertencentes a diferentes culturas. Segundo Xavier 17 Ver BENZA, R. (2007) p. 56 – 68. 32 Etxeberria (2001, p. 18), “na interculturalidade a palavra chave é diálogo”. Esta constitui a principal diferença com o multiculturalismo, percebido como a “coexistência de distintas culturas num espaço real, mediático ou virtual” (RODRIGO, 1997, p. 13), como “justaposição de etnias ou grupos numa cidade ou nação” (CANCLINI, 2004, p. 14). O que propõe o multiculturalismo é a convivência das culturas, mas não a interação delas, portanto, no multiculturalismo “a palavra chave é respeito” (ETXEBERRIA, 2001, p. 18) já que os membros de uma cultura devem respeitar os costumes dos da outra sem necessariamente interagir com eles. A interculturalidade pode ser interpretada também como a relação entre culturas existentes, ou como a elaboração de propostas que possam diminuir as assimetrias culturais que possibilitem procurar soluções consensuadas ou inclusive como “revalorização de identidades étnicas” (TUBINO, 2003a, p. 4), para colocar alguns exemplos. Por causa dessa possibilidade de receber diferentes interpretações, devemos estar cientes de que cada indivíduo que estabelece uma relação intercultural pode ter uma definição própria da interculturalidade, e é por isso que “são estes os chamados à interpretação do intercultural, mas justamente como sujeitos implicados e não como objetos observados” (FORNET-BETANCOURT, 2002, p. 158). Para Alessandra Dibós (2005, p. 3), existem cinco elementos principais que constituem o conceito de interculturalidade: sua natureza inconclusa, seu enfoque crítico das estruturas de poder, sua consciência histórica, sua disposição dialógica, sua abertura e o caráter solidário para com o outro. A interação entre estes elementos em diferentes graus permite que situações de interculturalidade possam ser desenvolvidas a partir do seu carácter inconcluso, mas sempre desde o diálogo e a solidariedade, levando em conta o contexto particular na qual a relação está acontecendo. Um dos aspectos mencionados por Dibós que considero muito relevante é a crítica às estruturas de poder, que se apresentam como assimetria e inclusive como opressão e discriminação. Os processos interculturais estão inseridos em sistemas que geralmente apresentam desigualdades tanto nas relações culturais quanto entre os indivíduos. Inclusive, isto pode ser visto nos governos do sistema liberal, que, como apontam Liuba Kogan e Fidel Tubino (2001, p. 58), com sua suposta neutralidade e “políticas de dignidade igualitária” o que fazem é reproduzir a hegemonia da cultura dominante e assimilar nesta as outras culturas. Para Juan Ansión (2007, p. 40) a interculturalidade é a relação entre pessoas de culturas 33 diferentes que gera trocas que necessariamente não estão livres de conflito, nem de assimetria: “independentemente do caráter conflitivo, violento e injusto da relação, quando se encontram grupos de origens culturais diferentes se produz aprendizado – e aprendizado de ambas as partes” (ANSIÓN, 2007, p. 42). Porém, é importante levar em conta que para lograr desenvolver a interculturalidade é necessário, ao mesmo tempo, diminuir as injustiças (ETXEBERRIA, 2001, p. 30). Na conjuntura atual esta assimetria entre culturas está inserida nos processos de globalização e desenvolvimento. 1.2.1 Globalização e desenvolvimento 1.2.1.1 Globalização Os processos da globalização, guiados principalmente pelo desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação (PEREZ, 2003, p. 133), estão baseados na contradição. Eles homogenizam ao mesmo tempo em que geram novas desigualdades (CANCLINI, 2004, p.95) e fortalecem as identidades locais (DEGREGORI, 2001, TUBINO, 2003a;). Universalizam (valores, direitos) ao mesmo tempo em que uniformizam, gerando “um mundo monocórdio e infantil” (MAALOUF, 2007, p.117), e inevitavelmente têm conotações diferentes se vistos a partir dos países do norte ou dos países do sul18 (SALAS, 2003, p. 4). A globalização nos permite, por um lado, acessar uma grande quantidade de conhecimento; conhecer outras realidades e culturas, ampliando nossa visão do mundo; nos comunicarmos com maior facilidade; tendo, inclusive, o potencial de incentivar a escolha das identidades. Por outro lado, a assimetria da influência dos países e culturas mais poderosas sobre as mais fracas é uma característica muito marcante da globalização que, por isso, é percebida como um processo de ocidentalização (SEN, 2007, 170). Como disse Stuart Hall (2003, p. 74): As pessoas que moram em aldeias pequenas, aparentemente remotas, em países pobres, do “Terceiro Mundo”, podem receber, na privacidade de suas casas, as mensagens e imagens das culturas ricas, consumistas, do Ocidente, fornecidas através de aparelhos de TV ou de rádios portáteis, que as prendem à “aldeia global” 18 Apesar de que nem todos os países do hemisfério Norte sejam ricos e os do Sul pobres, existe uma convenção aceita de forma genérica na qual os países do Norte seriam os chamados desenvolvidos, começando pelos Estados Unidos e os países do Sul, os que estão “em desenvolvimento”. 34 das novas redes de comunicação. Jeans e abrigos – o “uniforme” do jovem na cultura juvenil ocidental – são tão onipresentes no sudeste da Ásia quanto na Europa ou nos Estados Unidos. Para Milton Santos (2002, p. 19) as “tentativas de construção de um mundo só sempre conduziram a conflitos porque se tem buscado unificar e não unir”. Segundo o autor, ao invés de buscar criar um sistema de relações que procure um benefício “do maior número”, tem se construído um sistema hierárquico que procura perpetuar as relações de dominação “em benefício de alguns”, e é esta a “situação que impera em todo o mundo”. Nessa mesma linha, segundo Tubino (2003b, p. 167) vivenciamos uma globalização econômica que tem por lógica a acumulação de capital, lógica que é perversa porque gera desejos que não pode satisfazer. Esta lógica está ligada aos modelos de desenvolvimento implementados no mundo na modernidade. 1.2.1.2 Desenvolvimento A palavra desenvolvimento é complexa porque, dependendo do contexto, pode ter significados muito diferentes e até opostos. Mas, neste momento me refiro ao contexto mundial que divide o mundo entre países “desenvolvidos” e “sub-desenvolvidos” ou como se chama hoje, tentando ser mais inclusivo, “em desenvolvimento”. O princípio básico é que esses países, dentro dos quais se encontra o Peru, deveriam ter como objetivo atingir o “desenvolvimento”, medido principalmente a partir da economia do mercado, segundo o modelo dos países “desenvolvidos”19. Segundo Carlos Iván Degregori (2001, p. 88), o desenvolvimento era percebido como um processo de modernização e, portanto, a tradição e a modernidade eram excludentes. Para Juan Ansión (2003, p. 7) a visão eurocêntrica do desenvolvimento supunha “etapas” que todo país deveria percorrer para alcançar um objetivo único. Segundo o autor, esta visão já foi flexibilizada e questionada, principalmente por pensadores dos países industrializados, mas os “políticos do sul” (América Latina) continuam utilizando o modelo moderno: uniformização destrutora de ecossistemas e do campo, procurando modelos de alta produção sem levar em conta as tecnologias ancestrais, e crescimento incontrolável de megalópoles. Portanto, continua Ansión (p. 8), os políticos e a maioria das pessoas não compartilham essa crítica dos modelos de desenvolvimento da modernidade. Aliás, as vantagens do mito do 19 Ver ESTEVA, G. 2000. 35 desenvolvimento não chegaram aos mais pobres, os quais ainda procuram o acesso a serviços básicos como “água, eletricidade, estradas, escolas e aparelhos eletrônicos” (ANSIÓN, 2003, p. 7). De acordo com Milton Santos (2002, p. 18-19) o discurso do desenvolvimento está sendo substituído pelo da competitividade, a qual, segundo ele, "é um outro nome para a guerra, desta vez uma guerra planetária, conduzida, na prática pelas multinacionais, as chancelarias, a burocracia internacional, e com o apoio, as vezes ostensivo, de intelectuais de dentro e de fora da Universidade". 1.2.2 Interculturalidade, globalização e desenvolvimento. Encontramos então uma tendência homogeneizante levada pelo pensamento moderno que gera, por um lado, benefícios importantes como universalizar a proposta dos direitos humanos, mas, ao mesmo tempo, dilui as diferenças culturais entre as pessoas. Segundo Tubino (2003b, p. 167) os intentos de assimilação levados pelos meios de comunicação, e os intentos de modernização em contextos pós-coloniais geraram efeitos adversos, como, entre outras coisas, o ressurgimento dos fundamentalismos político-religiosos tais como o islâmico e o cristão. Por seu lado, os projetos nacionais sempre foram feitos desde a perspectiva da cultura dominante (TUBINO; ZARIQUIEY, 2007, p. 99) e contribuíram neste intento homogeneizador através de políticas de alfabetização universal na língua dominante, implementadas pelo sistema educativo (KOGAN; TUBINO, 2001, p. 56). Sobre este ponto, Stuart Hall (2003, p.49-50) aponta o seguinte: A formação de uma cultura nacional contribuiu para criar padrões de alfabetização universais, generalizou uma única língua vernácula como meio dominante de comunicação em toda a nação, criou uma cultura homogênea e manteve instituições culturais nacionais, como, por exemplo, um sistema educacional nacional. Dessas e de outras formas, a cultura nacional se tornou uma característica-chave da industrialização e um dispositivo da modernidade. Para os excluídos do sistema dominante, o esforço de lograr a inclusão significa ao mesmo tempo “a perda de componentes tão importantes para a realização pessoal e coletiva como a língua, as crenças, as noções de qualidade de vida, os vínculos sociais, a relação com o território, etc” (LÓPEZ SORIA, 2011). Ante os processos de homogeneização e exclusão a interculturalidade se apresenta como uma alternativa de atuação. Mas, como disse Norma 36 Fuller (2004, p. 5) a proposta intercultural deve partir de uma “descolonização” na qual os “grupos subalternos” devem reclamar o direito a acessar os conhecimentos universais ao mesmo tempo que recuperam seus conhecimentos ancestrais. Aliás, continua Fuller, esta não deve partir daquela visão “etnocêntrica” do homem moderno que “identifica o homem ocidental com o universal, a razão e o saber” colocando as outras culturas à margem. Para Ansión (2003, p. 13) o modelo de desenvolvimento encontra seu limite ao não conseguir frear a destruição do planeta, e propõe que uma política de desenvolvimento deva estar baseada numa política cultural orientada à criação de condições para um diálogo em condições de igualdade, que potencie as diferenças em lugar de ignorá-las ou pretender eliminálas, que nos faça, por exemplo, a pergunta conjunta de como podemos ao mesmo tempo transformar o mundo e estar em diálogo harmônico com ele. A globalização e as políticas de desenvolvimento homogeneizantes precisam de uma reflexão dialógica, própria da interculturalidade. Para Miquel Rodrigo (1997, p. 20), os contatos entre culturas tem sido durante tempo demais um espaço de confronto. A interculturalidade pretende que, quanto antes, transformem-se num espaço de negociação que deve tender a ser um espaço de cooperação, para acabar sendo simplesmente um espaço de humanização. A interculturalidade não é uma relação em abstrato, sequer é estritamente uma relação entre culturas, ela só é possível na relação entre pessoas, e a forma de se relacionar interculturalmente é o diálogo. 1.3 DIÁLOGO 1.3.1 Diálogo como formador de identidade Segundo Paulo Freire “o diálogo pertence à natureza do ser humano” (FREIRE; SHOR, 2008, p. 14). É a capacidade de nos relacionarmos, de comunicar, de interagir, o que nos torna humanos. Mas, não pode existir o diálogo se não existe outra pessoa com a qual dialogar. É, então, graças à existência do outro com o qual dialogamos que nós existimos como humanos. Como afirma Mikhail Bakhtin (2010, p. 292): “Somente na comunicação, na interação do homem com o homem revela-se o ‘homem no homem’ para outros ou para si mesmo”. 37 Portanto, é no diálogo que nos tornamos sujeitos. É na interação com o outro que formamos e negociamos nossa identidade e, ao mesmo tempo, os outros se tornam sujeitos graças à interação conosco (ALEJOS, 2006; BUBNOVA, 2006). Para Kogan e Tubino (2001, p. 58) existe uma identidade primária que é o “potencial humano universal” e identidades secundárias, tais como “etnicidade, gênero ou raça”. Mas, segundo os autores, existe um vínculo muito estreito entre ambas. Portanto, continuam, o respeito pela identidade primária (humanidade) passa inevitavelmente pelo respeito das identidades secundárias, ou seja, pelas diferenças, que são construções culturais. Nossa identidade é formada por múltiplos elementos dinâmicos que vamos adquirindo na vida, enquanto outros desaparecem, cobram protagonismo ou ficam em um segundo plano. Segundo Amin Maalouf (2007, p. 18-19), “todas as experiências e sentidos que damos aos diferentes aspectos da nossa vida (religião, língua, atividade laboral, etc.) configuram nossa identidade. Mas esta muda no tempo, de acordo com nossas próprias vivências”. Nesse sentido, existiria uma identidade comum e imutável nos seres humanos que é, justamente, sua condição humana, e existiriam identidades secundárias ou elementos da identidade flexíveis e mutáveis, que se modificam e se configuram através do diálogo com o outro. Para poder realizar o diálogo, particularmente no contexto intercultural, por um lado é importante nos conhecermos, termos consciência dos nossos códigos culturais (RODRIGO, 1997, p. 17), e por outro, é no contato com o outro, com aquele que é diferente de nós, que formamos nossas identidades. Para isso devemos estar dispostos a mudar nossos pressupostos na relação dialógica e ter a vontade de, neste contato “nos re-conhecermos” para “re-construir nossas identidades” (RODRIGO, 1997, p. 19). 1.3.2 Conhecendo o outro no diálogo. Encontro de sujeitos Para que exista o diálogo não é suficiente a interação de duas ou mais pessoas. Se uma delas possui uma atitude autoritária sobre a outra, então o diálogo desaparece, porque está se retirando a condição de sujeito daquela pessoa. Para que exista diálogo, portanto, deve existir respeito, confiança e cooperação (SCHWARZIN; WALS, 2012, p. 16). Já que o diálogo se refere à “interação de dois ou mais logos, cada um deles com seus próprios valores, volições e posicionamentos” (ALEJOS, 2006, p. 49), posso não concordar com o outro, posso inclusive 38 ter uma opinião diametralmente contrária à do outro ou considerar que o discurso do outro é errado. A diferença de pensamentos é fundamental tanto para o diálogo quanto para a formação da sociedade (FIORIN, 2010, p. 118). Se todos concordam com todos, não existe troca de ideias e, portanto, não existe diálogo. Porém, uma condição básica para que o diálogo possa ser realizado é ter a consciência de que todas as pessoas têm direito de dizer as palavras e de que ninguém tem o direito de pronunciar o mundo pelo outro. Se existe esta consciência, então pode existir uma troca entre sujeitos. Uma troca sobre o mundo, uma troca com o mundo. Em palavras de Freire (2005, p. 91), “Porque é encontro de homens que pronunciam o mundo, não deve ser doação do pronunciar de uns a outros”. Não devemos, portanto, entender o diálogo só como uma troca de ideias e conceitos. O diálogo é um “intercâmbio de experiências autênticas de vida” (AVILA; MARTINEZ, 2009, p. 12) que é racional e emocional. “A atitude do diálogo envolve a totalidade da pessoa, pois não dialogam só os intelectos, também dialogam as sensibilidades, os afetos e os silêncios” (TUBINO, 2003b, p. 174). Este elemento é particularmente relevante na busca por um diálogo intercultural. Para isto, devemos procurar gerar um reconhecimento do outro, o que implica compreensão do outro, e a capacidade de ver o mundo com os olhos do outro. Isto requer tanto um esforço racional quanto afetivo, conduzido pela empatia, a qual não pode existir com aquilo que a priori menosprezamos (KOGAN; TUBINO, 2001, p. 59). O conhecimento do outro está relacionado, para começar, com aceitar que nossa imagem dos outros e das outras culturas é condicionada por nossos próprios princípios culturais, nossos critérios. Isto é, percebemos o outro desde nossos pressupostos. O fato de aceitar que temos pressupostos nas nossas vidas permitirá que possamos nos abrir ao diálogo, à atitude de escuta. Dito de outra forma, quando não conhecemos algo, ou alguém, nossa tendência natural é nos guiarmos por estereótipos que constituem uma simplificação da realidade (RODRIGO, 1997, p. 17). É muito fácil que, tanto o pressuposto quanto o estereótipo se transformem em preconceitos e, inclusive, constituam princípios para a discriminação, que é uma atitude que pode ser percebida como contrária à interculturalidade. 39 1.3.3 Diálogo intercultural A princípio, o diálogo intercultural só se diferencia de qualquer outro diálogo porque é realizado por pessoas de culturas diferentes. Porém, este fato faz com que devamos levar uma série de considerações para que a experiência de diálogo não seja frustrante. Para começar, como afirma Miquel Rodrigo (1997, p. 14), “é necessário estarmos preparados para possíveis mal-entendidos. […] Uma comunicação é eficaz quando se chega em um nível de compreensão aceitável para os interlocutores”. Quando não compartilhamos estruturas básicas para a comunicação, como língua ou valores, as condições desta comunicação podem ser muito duras. Por isso, é útil levar em conta alguns princípios, desenvolvidos por Escofier e apresentados por Rodrigo (1997, p. 19), que podem nos ajudar para que este diálogo seja mais eficiente: 1. Nada é imutável. Ao se iniciar um diálogo, deve-se estar potencialmente aberto à mudança. 2. Não existem posições universais. Tudo pode ser criticado. 3. Deve-se aprender a aceitar o conflito e a possibilidade de que se magoem os sentimentos. 4. Há certa perversidade na história que têm nos ensinado. Nossas identidades têm se formado em oposição à dos outros. 5. Nada está fechado. Qualquer tema pode sempre reabrir-se. Neste diálogo é importante ser crítico tanto com a posição do outro quanto com a nossa própria. Neste sentido, devemos levar em conta as relações de poder que se estabelecem nos contatos interculturais. Porque não pode se estabelecer um diálogo verdadeiro em situações de intransigência ou de discriminação. Situações, estas, profundamente arraigadas em nossa sociedade (RODRIGO, 1997; TUBINO, 2008). 1.4 O PROFESSOR DIALÓGICO A PARTIR DAS TEORIAS DE PAULO FREIRE Na busca de referentes que me ajudem a entender minha própria prática no teatro intercultural, encontrei os princípios dialógicos desenvolvidos por Freire no contexto pedagógico. Identifiquei-me muito com eles e achei enormes coincidências com o que procuro nas experiências de teatro intercultural. Freire desenvolve sua teoria no âmbito pedagógico e, para ele, sem diálogo não há comunicação e sem ela não há verdadeira educação. Porque o encontro entre educador e educandos também é um encontro entre sujeitos incompletos que procuram saber mais. 40 Para lograr isto, Freire desenvolveu uma proposta pedagógica composta de uma série de passos que permitem que o processo educativo seja realmente dialógico. Não aprofundarei sobre a teoria do Freire, o que iria além do foco específico deste trabalho, no entanto, apresentarei alguns aspectos que acho úteis para a análise do processo de teatro intercultural realizado na UNIA, que levaram à proposta dos elementos do professor dialógico apresentadas no último capítulo. 1.4.1 Invasão e síntese cultural Segundo Paulo Freire, uma das ações não dialógicas presentes na sociedade é a invasão cultural que “é a penetração que fazem os invasores no contexto cultural dos invadidos, impondo a estes sua visão do mundo, enquanto lhes freiam a criatividade, ao inibirem sua expansão” (FREIRE, 2005, p. 173). Nesta, os invasores constroem os modelos que determinam o mundo e só se preocupam pelo que pensam os invadidos para ter mais ferramentas de dominação. Esta invasão pode se apresentar de forma camuflada e é comum que “os invadidos vejam sua realidade com a ótica dos invasores e não com a sua. Quanto mais mimetizados fiquem os invadidos, melhor para a estabilidade dos invasores” (FREIRE, 2005, p. 174). O sistema “invasor” se vale de recursos como a educação (escolas, universidades) para disseminar seus princípios (FREIRE, 2005, p. 176). Na medida em que os invadidos assumam o sistema invasor como próprio, este será mais bem sucedido. Na invasão cultural existem atores cujo objetivo é manter a realidade como está e manter a condição de espectadores, de objetos, do resto da sociedade. A síntese cultural, pelo contrário é a ação de todos, é a busca pela transformação do mundo. Nesta não existem espectadores porque todos são sujeitos que compartilham o mundo (FREIRE, 2005, p. 208-209). É esta a base da pedagogia dialógica. 1.4.2 Praxis: Ação e reflexão Para Freire, o homem só existe verdadeiramente na pronúncia do mundo, porque pronunciá-lo é modificá-lo. Mas as palavras, devem ter conteúdo. Para isto, segundo Freire, a palavra precisa de duas dimensões interdependentes: ação e reflexão. A palavra que não representa uma ação é só “palavreria, verbalismo, blábláblá”, é uma palavra vazia, que não transforma o mundo, é uma palavra inútil. E, pelo contrário, a palavra que é só ação e não reflexão é “ativismo” é “ação pela ação” (FREIRE, 2005, p. 89). Esta relação dialética entre ação e 41 reflexão recebe o nome de “práxis”. Se a práxis estiver incompleta, se faltar algum dos componentes (ação ou reflexão) a palavra perde sua função transformadora e nega a possibilidade do diálogo. A práxis, portanto, é, segundo Freire (2005, p. 106), a “ação verdadeiramente transformadora da realidade, é fonte de conhecimento reflexivo e criação”. Porém, Freire não limita a práxis ao âmbito da palavra. Para ele, os homens são seres do “quefazer” porque além de admirar o mundo são capazes de “transformá-lo com seu trabalho” (FREIRE, 2005, p. 141). Esse “quefazer” também é ação e reflexão. É teoria e prática. Mas não uma teoria elaborada por uns para outros, senão uma teoria elaborada pelas próprias pessoas sobre sua experiência, sobre sua prática, entre as quais se estabelece um diálogo que, por sua vez, é o motor da transformação do mundo. 1.4.3 Partir dos temas dos participantes A educação tradicional, vertical, “bancaria” na terminologia de Freire, que percebe o educando como um depositário de dados e não como um sujeito com saberes e com a possibilidade de criticar e problematizar o conhecimento, parte do pressuposto de que o educador deve chegar com um carregamento de conhecimento e depositá-lo nos educandos. Esta educação é, em essência, anti-dialógica, porque não leva em conta a realidade nem o contexto dos educandos. A educação dialógica, portanto, deve partir diretamente do momento presente dos educandos, dos seus desejos, suas aspirações: Não podemos deixar de lado, desprezado como algo imprestável, o que educandos, [...] trazem consigo de compreensão do mundo, nas mais variadas dimensões de sua prática na prática social de que fazem parte. Sua fala, sua forma de contar, de calcular, seus saberes em torno do chamado outro mundo, sua religiosidade, seus saberes em torno da saúde, do corpo, da sexualidade, da vida, da morte, da força dos santos, dos conjuros. (FREIRE, 2009, p. 85-86). O papel do educador, portanto, não é falar “sobre a nossa visão do mundo, ou tentar impô-la a ele [o povo], mas dialogar com ele sobre sua visão e a nossa” (FREIRE, 2005, p. 100). É criticar e construir o mundo a partir da elaboração de temas e linguagem comuns. Esta elaboração que deve ser feita já no próprio diálogo. 42 1.4.4 Codificação – descodificação: Nomear o mundo A codificação é, de alguma forma, a concretização, a representação de uma “situação existencial” (FREIRE, 2005, p. 112), dos temas trazidos pelos educandos. As codificações devem representar situações conhecidas dos participantes. Além disso, devem ser simples e, ao mesmo tempo, possibilitar múltiplas interpretações que possam ser, inclusive, contraditórias (FREIRE, 2005, p. 125-128). Esta permite gerar uma distância dos temas para que os participantes tenham a possibilidade de enxergá-los, discuti-los e criticá-los. Freire (1981, p. 23), a partir do trabalho com camponeses, descreve a descodificação da seguinte forma: Com a participação do educador, os camponeses analisam sua realidade e expressam, em seu discurso, os níveis de percepção de si mesmos em suas relações com a objetividade. Revelam os condicionamentos ideológicos a que estiveram submetidos em sua experiência na “cultura de silêncio”, nas estruturas do latifúndio. No processo de codificação e descodificação, professores e alunos “buscam o seu significado social [dos temas], tomando assim consciência do mundo vivido” (GADOTTI, 2002, p. 53). Além disso, se produz um distanciamento e uma simbolização dos temas trazidos pelos educandos, reduzindo a inibição e a autocensura para tratar temas que podem ser difíceis para eles. 1.4.5 Aprendizagem mutua Se a base do processo pedagógico é o diálogo, então sua essência é a transformação de todos os envolvidos no processo. A educação libertadora é “uma situação na qual tanto os professores como os alunos devem ser os que aprendem” (FREIRE; SHOR, 2008, p. 46). Portanto, o educador dialógico experimenta aprendizado e transformação no contato, no diálogo com os educandos, tanto quanto estes no contato com o educador. Isto é fundamental no princípio pedagógico de Freire (2005, p. 118): “Quanto mais investigo o pensar do povo com ele, tanto mais nos educamos juntos. Quanto mais nos educamos, tanto mais continuamos investigando”. Porém, devemos estar cientes de que existem muitas formas de ensinar. Segundo Freire, o povo ensina de uma forma silenciosa, “por seu exemplo, por sua condição” (FREIRE; SHOR, 2008, p. 42), e por isso, os professores devem estar totalmente 43 abertos a receber esse conhecimento que não pertence a ninguém, nem ao professor nem aos alunos. O “objeto a ser conhecido” é o que guia o aprendizado dos sujeitos – professor e alunos – os quais, através do diálogo, educam-se mutuamente (FREIRE; SHOR, 2008, p. 124). Outro ponto importante é que o educador não pode pôr no educando o papel de vítima tendo uma atitude paternalista levada pela culpa. O educando, mesmo sendo uma pessoa marginalizada da sociedade, é um companheiro com o qual pode-se discutir, debater e discordar, desde que ambos, educador e educando, estejam no mesmo caminho (FREIRE, 2009, p. 153). 1.4.6 Ponto de partida: o contexto dos educandos Cada grupo com o qual se trabalha é diferente e possui diferentes motivações e interesses. Não se pode supor que um grupo se comportará e terá a mesma receptividade de outro grupo, com o qual se trabalhou anteriormente, mesmo que pertencentes à mesma instituição ou que tenham características parecidas (FREIRE; SHOR, 2008, p. 37). É muito importante que o educador parta do “aqui” dos educandos e não tente partir do seu próprio “aqui” que pode ser o “lá” dos educandos. Portanto, o educador deve conhecer o ponto de partida, os saberes dos educandos, que tomam parte da experiência pedagógica (FREIRE, 2009, p.59). Este princípio deve guiar o trabalho sem importar a característica específica do grupo. Nas palavras de Freire: “Precisamos partir das percepções do aluno, sejam eles camponeses em uma atividade educacional informal, operários, ou sejam estudantes universitários, não importa. Temos que partir de seus próprios níveis de percepção da realidade” (FREIRE; SHOR, 2008, p. 179). Muitas vezes os estudantes estão tão acostumados com a forma de educação tradicional que rejeitam a educação libertadora. Nestes casos, esta não pode ser imposta contra os desejos do grupo (FREIRE; SHOR, 2008, p. 36) porque estaria se atuando de forma autoritária. Inclusive, segundo Peter Mayo (1995, p. 370) o próprio Freire aceitou que há momentos, principalmente no início de um processo educativo, nos quais o professor pode ser metade tradicional e metade democrático, se o método libertador encontra resistência no grupo. 44 1.4.7 Objetivo: Problematizar O fato de partir da realidade dos educandos não significa ficar na “ingenuidade” deles, senão, sem deixar de respeitar sua visão do mundo, problematizá-la para poder continuar o diálogo (FREIRE, 2009, p. 46). É importante, portanto, que o “intelectual” não seja complacente com a justificativa de se respeitar a cultura dos educandos, mas ativo na procura de possibilitar a mudança do mundo no diálogo com os educandos. Segundo Freire, às vezes pode-se encontrar no participante “o medo da liberdade”. É papel do educador, portanto, desafiar “as pessoas a saberem qual é sua liberdade naquele momento, seu verdadeiro poder real” (FREIRE; SHOR, 2008, p. 205). O educador libertador, dialógico, portanto, não deve conformar-se com o ponto de partida dos alunos, mas procurar, através do diálogo, ir além e desenvolver uma postura crítica da realidade para, juntos, nomearem o mundo. Desde que o papel do educador dialógico não é transmitir informação como se os estudantes fossem potes vazios que devem ser preenchidos de conhecimento, o educador deve colocar questionamentos e problematizar questões (MAYO, 1995, p. 370). 1.4.8 Autoridade vs. Autoritarismo Agora, o fato de levar o diálogo e estabelecer uma equivalência entre os sujeitos não quer dizer que o educador deve deixar os alunos “entregues a si mesmos”, mas tampouco deve ser autoritário. Deve ser, portanto “radicalmente democrático, responsável e diretivo” (FREIRE; SHOR, 2008, p. 61). Segundo Freire, mesmo parecendo contraditório, “a liberdade precisa de autoridade para se tornar livre” (FREIRE; SHOR, 2008, p. 115). Mas o princípio é que essa autoridade parta da liberdade dos outros porque se não é assim, transformar-se-ia em autoritarismo. A realização desta tarefa por parte do educador não constitui uma “traição à democracia, que é tão contraditada pelas atitudes e práticas autoritárias quanto pelas atitudes e práticas espontaneístas, irresponsavelmente licenciosas” (FREIRE, 2009, p. 107). Isto implica, aliás, que o dever do professor é ensinar, mas fazê-lo no diálogo, promovendo a atitude crítica do educando: O professor libertador nem manipula nem lava as mãos da responsabilidade que tem com os alunos. Assume um papel diretivo necessário para educar. Essa diretividade 45 não é uma posição de comando, de “faça isto” ou “faça aquilo”, mas uma postura para dirigir um estudo sério sobre algum objeto. (FREIRE; SHOR, 2008, p. 203) 1.4.9 Postura política do educador O educador não pode ser imparcial, “neutro”. Tentar sê-lo significa adscrever-se à ideologia dominante e procurar manter o status quo. “Esse tipo de neutralidade é um falso respeito pelos estudantes” (FREIRE; SHOR, 2008, p. 206). O educador sempre tem uma postura política, uma visão do mundo, nesse sentido, o educador dialógico sempre corre o risco de não ser coerente, de se contradizer na prática e no discurso. Por isto, “a impossibilidade de ser neutro, demanda da educadora ou do educador sua eticidade” (FREIRE, 2009, p. 78). Um ponto fundamental é que o educador, apesar de ter o dever de defender seus sonhos e ideias, ao mesmo tempo deve ser flexível e não pensar que a sua é a única verdade (FREIRE, 2009, p. 131). O fato de querer convencer aos estudantes de uma postura, ou querer transmitir uma ideia, nãos significa impô-la. O professor, nesse sentido, da mesma forma que deve procurar a análise crítica e problematizar a realidade dos alunos, deve propiciar a discussão crítica de suas próprias afirmações. 1.4.10 Educador diferente dos educandos Às vezes se pensa que o fato de que na educação dialógica se estabelece uma relação horizontal, então, professor e alunos são iguais. O professor, segundo Freire (2009, p. 117118) não pode ser igual a seus alunos, porque se fossem iguais, um se converteria no outro. No diálogo, é importante que cada sujeito conserve e defenda sua identidade e “assim crescem um com o outro”. O importante, porém, é que o professor não se apresente como antagônico ao aluno porque esse seria o caminho para tornar-se autoritário (FREIRE; SHOR, 2008, p. 117). Ira Shor propõe algumas diferenças entre professor e alunos: “O professor dialógico é mais velho, mais informado, mais experiente na análise crítica, e mais comprometido com um sonho político de mudança social do que os alunos. [...] De fato, essas diferenças fazem com que o projeto libertador seja possível” (FREIRE; SHOR, 2008, p. 120). Não concordo totalmente com Shor pelas razões seguintes: muitas vezes nossos alunos são mais velhos do que nós, principalmente no trabalho em comunidades. Afirmar que os professores são mais informados contradiz, até certo ponto, o princípio de diálogo. Ele é mais informado, talvez, 46 sobre o objeto de conhecimento que está guiando a experiência pedagógica, mas não em geral. Finalmente, acho difícil afirmar que o professor tem mais compromisso com o sonho político que os alunos. Isso dependerá de quem são os alunos. Porém, é comum que o professor possua um maior conhecimento acumulado e sistematizado sobre os temas que são foco da aula, um nível educativo maior e, portanto, utiliza uma linguagem mais acadêmica (FREIRE; SHOR, 2008, p. 178). Acredito em que o professor ocupa aquela posição desempenhando esse papel, porque tem alguma coisa diferente para oferecer aos alunos. Se fosse igual a eles, não teria razão de ser. 1.4.11 Compromisso O professor deve ter grande compromisso e seriedade com seu trabalho. Para Freire e Shor (2008, p. 65) o professor deve ser um “militante”, no sentido em que deve buscar formas criativas de desenvolver sua prática, que deve ser feita sempre como uma atividade crítica. “O educador libertador deve criar criando” (FREIRE; SHOR, 2008, p. 209) sua prática. Para isto, segundo Freire (apud SEUNG, 2008, p. 530) o professor deve ter “formação científica, retidão ética, respeito pelos outros, coerência, capacidade de viver com e aprender do diferente, e a habilidade de se relacionar com os outros”. Por outro lado, é importante também não só não interromper o aluno na sua intervenção, mas encorajar os colegas a dar suas opiniões antes do professor se manifestar. Estas intervenções devem ser levadas com seriedade para poder gerar questionamentos a partir delas (FREIRE; SHOR, 2008, p. 144). De acordo com Peter Mayo (1995, p. 369) o professor deve conhecer a cultura e a comunidade em que está atuando e deve poder ir e voltar da sua posição social à dos estudantes, os quais não serão mais considerados como “outros”. Nesse sentido, às vezes as intervenções do professor não são compreendidas pelos alunos ou as intervenções destes não são entendidas pelo professor. Em ambos os casos, é importante pedir explicações para poder gerar uma linguagem comum e que o processo pedagógico se desenvolva com fluidez (FREIRE; SHOR, 2008, p. 34). Podem se encontrar várias semelhanças entre a interculturalidade e a teoria dialógica de Freire, começando pelo fato de ambas terem o diálogo como princípio de ação, e que o 47 processo dialógico e o intercultural constituim um encontro entre sujeitos. Isto leva a que as condições e o desenvolvimento desse encontro sejam construídos pelos próprios sujeitos através do diálogo que é realizado a partir do aqui e agora dos envolvidos neste, produzindo um aprendizado de todos tanto sobre o próprio diálogo quanto do outro e de si mesmo. Este aprendizado através do contato com o diferente nos leva a reconhecer ao outro, ao diferente, nos leva a confrontar nossas próprias crenças, valores, princípios culturais e, em última instância, a modificar nossas identidades graças ao aprendizado do e com o que é diferente de mim. Tanto o dialogismo quanto a interculturalidade partem do fato de que a sociedade está constituída por dinâmicas profundamente assimétricas que geram discriminação e injustiça. Um dos princípios de ambas é lutar contra as ditas assimetrias fato que nos obriga a questionar, em primeiro lugar, as atitudes autoritárias, seja de onde estas venham. O autoritarismo é um tipo de violência que tira a condição de sujeito dos oprimidos por aqueles que estão no poder (sociedade/cultura hegemônica). Em segundo lugar, na condução de ambos os tipos de processos não deve se procurar uma posição neutra, já que a neutralidade é uma posição em favor do sistema hegemônico dominante. Finalmente, dialogismo e interculturalidade compartilham a condição de ser fim e meio. É no próprio processo de diálogo (intercultural) que se geram as condições do diálogo. 48 2 CONTEXTO GERAL DA EXPERIÊNCIA O trabalho de campo previsto para a presente pesquisa consistia numa oficina de dois meses com estudantes, majoritariamente indígenas, da Universidad Intercultural Nacional de la Amazonía (UNIA), localizada na cidade de Pucallpa, na Amazônia peruana. Quando cheguei à Universidade, agosto de 2011, como é comum neste tipo de trabalho, deparei-me com muitos problemas que modificaram meus planos iniciais e fizeram com que fossem realizadas duas oficinas, de três semanas cada uma. Este capítulo discorre sobre o contexto no qual se realizou a experiência, começando por situar o contexto de discriminação e pobreza que experimentam as populações indígenas no Peru. Em seguida situo o contexto da educação intercultural na América Latina e, especificamente, da UNIA dentro do esforço de incorporação da população indígena à educação superior. Finalmente apresento elementos do contexto específico do projeto, como as articulações com a UNIA, o convite às oficinas, as características gerais dos participantes, o paternalismo e o compromisso. 2.1 CONTEXO PERUANO: SITUAÇÃO INDÍGENA De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) as populações indígenas no mundo, por diversos fatores, vivem em uma situação de desvantagem em relação com o resto da sociedade. Segundo o representante da FAO para América Latina e o Caribe, Raúl Osvaldo Benitez: A FAO reconhece a situação em que a maior parte da população indígena do planeta desenvolve sua vida cotidiana sob standards muito inferiores aos da população não indígena e das próprias médias nacionais em todos os casos. Esta situação de desproporcionada desvantagem explica-se em parte pelas condições de discriminação que enfrentam e se expressa, dentre outros, nos indicadores de pobreza, inequidade e vulnerabilidade, má saúde e acesso limitado de alimentos que lhes permitam uma nutrição suficiente e de qualidade, desiguais oportunidades na educação, limitada representação política, despojo de suas terras, territórios e recursos, com a subsequente degradação das condições culturais e ambientais que possibilitam sua reprodução como coletividades diferenciadas, mas iguais em dignidade. (FAO, 2012, p. 8) As populações indígenas no Peru não são uma exceção desta situação. 49 2.1.1 Povos indígenas e discriminação no Peru No Peru, os indígenas amazônicos junto com os camponeses andinos, de origem quéchua e aymara, e a população afroperuana, são “a parte negada ou vergonhosa da nossa diversidade étnica e cultural” (DEGREGORI, 2001, p. 90). Segundo Santiago Alfaro, o processo de independência não logrou o ideal da igualdade e manteve uma divisão no país “a partir do que Anibal Quijano (2004) chama de ‘colonialidade do poder’”, que faz referência aos padrões de poder surgidos na expansão capitalista que divide a população por “critérios raciais e étnicos, e onde a categoria indígena se associa ao primitivo, tradicional, irracional e inferior” (ALFARO, 2008, p. 194). De acordo com Oscar Espinoza (2009, p. 49), existe uma visão que “coisifica” o indígena como se fosse um objeto de museu, que nasceu de uma linha antropológica no início do século XX e que hoje se manifesta nos meios de comunicação e no turismo. Esta visão parte da ideia de que o estilo de vida dos indígenas é algo pertencente ao passado. Por outro lado, até hoje, as esferas públicas encontram-se controladas “cultural e linguisticamente pelos setores hegemônicos urbano castelhano falantes” (ANSIÓN; TUBINO, 2008, p. 20), o que faz com que as ditas esferas estejam baseadas em relações de discriminação, injustiça e inequidade. Segundo Alfaro (2008, p. 210), as esferas públicas são espaços de interação social onde “se articula a vida em comum e se negociam as diferenças”. Como as pessoas têm interesses diversos, esses espaços podem se transformar em zonas de conflito. Para o autor, a discriminação é a principal causa dessas zonas de conflito, já que a população indígena não tem as mesmas oportunidades de acesso aos bens públicos (trabalho, saúde, território, educação), não por própria vontade, mas pela forma como são tratados pelo resto da sociedade (ALFARO, 2008, p. 210-211). Durante a década de 1980 e inícios de 1990, o Peru sofreu um conflito armado entre grupos terroristas de extrema esquerda, principalmente o autodenominado Partido Comunista del Perú – Sendero Luminoso (PCP-SL) e as forças armadas. Nesta guerra os mais afetados foram os habitantes das populações rurais dos Andes, as quais ficavam no meio das duas frentes, sendo vítimas dos abusos de ambos. No ano 2001, depois de que o então presidente Alberto Fujimori se demitira via fax e fugira ao Japão, instalou-se um governo transitório presidido pelo Dr. Valentin Paniagua. Neste curto governo (durou menos de um ano) implementou-se a 50 Comisión de la Verdad y Reconciliación (CVR) com a finalidade de esclarecer o acontecido durante o período do conflito e propor estratégias para a paz e a reconciliação20. As conclusões do informe da CVR21 evidenciaram “a desigualdade étnica-cultural persistente na nossa sociedade ao concluir que o 75% das vítimas do conflito armado interno tinham o quéchua ou outras línguas nativas como idioma materno” (ALFARO, 2008, p. 191). De acordo com Alessandra Dibós (2005, p. 7), A CVR tem constatado que a tragédia que sofreram as populações do Peru rural, andino e selvático, quéchua e asháninka, camponês, pobre e pouco educado, não foi sentida nem assumida como própria pelo resto do país; isso delata, no juízo da CVR, o velado racismo e as atitudes de desprezo subsistentes na sociedade peruana a quase dois séculos de nascida a República. O Peru é ainda um país com profundas desigualdades. Esta discriminação e “esquecimento” das populações indígenas por parte do resto da sociedade se manifesta também na situação de pobreza em que vive a maioria dos indígenas. 2.1.2 Povos indígenas e pobreza A relação entre pobreza e povos indígenas é quase direta. Na América Latina, a maioria dos indígenas vive em condições de pobreza (DERUYTTERE, 2001, p. 3). Vivemos regidos por um sistema (capitalismo neoliberal) baseado no individualismo, e a geração de dinheiro e bens materiais como o fim último da sociedade. Neste sistema, o estilo de vida tradicional indígena, baseado na vida em comunidade e comunhão com a natureza, não tem sentido e, portanto, o indígena está condenado a ser pobre. Um estudo realizado no Peru pelo Instituto Nacional de Estadísticas e Informática (INEI) durante o ano 2001, mostra que sete de cada 10 lares liderados por indígenas é pobre. O 48% dos pobres extremos são indígenas “num país no que o 54% da população encontra-se sob essa condição” (ALFARO, 2008, p. 200). Porém, a identidade étnica não seria o único fator 20 Infelizmente isto está longe de acontecer já que muitos setores, principalmente de extrema direita ou grupos ligados ao partido de Fujimori – hoje preso por delitos de lesa humanidade – e vinculados às forças armadas, negam os dados apresentados pela CVR. Esta estabeleceu que no período da guerra houve aproximadamente 70 mil mortos e desaparecidos. O 55,5 % destes foi por ação dos grupos terroristas pelo que, em princípio, o resto teriam sido em mãos das forças armadas e a polícia. Estes grupos consideram que este dado é falso e que foram os grupos terroristas os que perpetraram a grande maioria das mortes. Por outro lado, alguns camponeses dos Andes asseguram que houve muito mais mortos e desaparecidos e que a grande maioria foi em mãos das forças armadas e da polícia. 21 O informe completo encontra-se em http://www.cverdad.org.pe/lacomision/balance/index.php 51 de pobreza, mas o fato de que estas populações muitas vezes moram em lugares afastados e de difícil acesso. Portanto, “o centralismo e a pouca capacidade redistributiva do Estado seriam fatores importantes que explicam a exclusão dos povos indígenas” (ALFARO, 2008, p. 201). Segundo Deruyttere (2001, p. 1) “o movimento indígena da América Latina reclama que o modelo de desenvolvimento ocidental tem sido depredador dos recursos humanos e culturais do mundo”. O mundo moderno introduz a pobreza de duas formas: primeiro limitando os recursos para satisfazer as necessidades básicas, já que cada vez existe menos possibilidade de caçar animais, os rios estão poluídos ou a pesca comercial pega indiscriminadamente os peixes. Cada vez há menos árvores e os territórios dos povos indígenas são mais restritos. Os direitos dos povos indígenas à terra e ao território estão “gravemente ameaçados pela expansão descontrolada de atividades relacionadas com a indústria florestal, as mineradoras, o turismo e outras empresas comerciais” (FAO, 2012, p. 20). Outro problema é que a sociedade capitalista introduz novas necessidades que só podem ser satisfeitas entrando no sistema. Para Luis Mujica, a partir de um trabalho realizado com indígenas dos Andes, que muito bem pode ser aplicado na Amazônia, “deixar de ser ‘indígena’ é deixar de ser ‘pobre’ na medida em que este processo de deixar ser se associa ao acesso a alguma forma de civilização (luz, televisão, telefone, Internet ou educação)” (MUJICA, 2007, p. 31). No Peru, por exemplo, é uma necessidade falar o espanhol e, portanto, surge a necessidade de escolas e uma forma de educação que antes não era necessária. Ao ter menos recursos naturais para cobrirem suas necessidades básicas, os indígenas são obrigados a comprar coisas e, portanto, a entrar no sistema monetário que obedece a uma lógica diferente da que tinham tradicionalmente. Fidel Tubino e Roberto Zariquiey (2007, p. 84-85), a partir de um estudo sobre a etnia Shipibo-Konibo, afirmam que as atividades tradicionais das comunidades não são mais suficientes para satisfazer as necessidades materiais introduzidas pela modernidade. Segundo eles, o mercado tem introduzido nos shipibos uma necessidade de consumo “que lhes cria necessidades e aspirações, mas não lhes proporciona os meios para aceder a elas”. 52 Em conversação, Fidel Tubino22 me disse que achava que antigamente na Amazônia não existia a pobreza23. Cada dia eu concordo mais com esta afirmação. Partindo do princípio de que aquele que tem suas necessidades básicas satisfeitas, não é pobre, então, na Amazônia não existia pobreza já que havia comida em abundância, porque podia se caçar animais, pescar, coletar, etc. A moradia estava garantida com a madeira e folhas das árvores; e o mesmo sucedia com a saúde, a educação, etc. Sobre este aspecto, em uma conversação, meu padrinho24 shipibo, Lizardo Silva, contou-me que antigamente se achavam os melhores peixes e sempre havia alguma coisa para comer. Agora, porém, jogam redes nos rios e nas cochas25, inclusive redes com peças para pegar os peixes e tartarugas do fundo do rio. Então, são poucos os peixes que restam para comer26. Elias Chamik, um dos participantes da primeira oficina, confirmou isto. Ele disse que o povo Awajun tinha “o suficiente para pescar, o suficiente para caçar animais, para... principalmente sobrevivência. Semeavam para subsistência, nada mais” (informação verbal) 27. Apesar de que comumente a pobreza se associa com a carência material, este não é o único fator presente nela. Para a FAO (2012, p. 14) A pobreza não pode se definir únicamente em termos de critérios materiais; uma pessoa é pobre não só quando os recursos são escassos, mas também quando é incapaz de alcançar um estilo de vida desejado. Por este motivo, os povos indígenas defendem uma visão global de desenvolvimento [...] para além de modelos baseados exclusivamente em critérios econômicos convencionais. 2.1.3 Amazônia peruana e desenvolvimento Na Amazônia peruana, os modelos de desenvolvimento estavam voltados, tanto por parte do Estado quanto de ONGs, a redirecionar as atividades das comunidades amazônicas “numa tentativa de integrá-las dentro da normalidade considerada pelas sociedades urbanas” (BODMER; MAYOR, 2009, p. 22) imitando o desenvolvimento ocidental. Segundo Bodmer e Mayor (2009, p. 22) isto, longe de melhorar as condições de vida das populações amazônicas, agravou os problemas sociais e a perda de recursos naturais. 22 Filósofo peruano especialista em temas de interculturalidade. É um dos fundadores e atual coordenador da Red Internacional de Estudios Interculturales (RIDEI) www.ridei.pucp.edu.pe. 23 Conversação com o autor, em Lima, em novembro de 2009. 24 No ano de 2007 fui batizado shipibo na comunidade indígena de Puerto Bethel. 25 Lagoas 26 Conversação com o autor, em Pucallpa, em agosto de 2011. 27 CHAMIK, E. 2011. “Tenían suficiente para pescar, suficiente para cazar animales, para… más que todo sobrevivencia. Sembraban para subsistencia nada más”. 53 Existe um setor do país que defende as políticas neoliberais do capitalismo e percebe que aqueles que estão contra esta lógica são inimigos do desenvolvimento e, portanto, são inimigos do país. Atualmente, no Peru, encontramos muitos conflitos sociais porque estas políticas de desenvolvimento estão permitindo que indústrias extrativas (petróleo, gás, mineradoras) tomem conta de territórios indígenas ou protegidos. Por esta razão, povoadores destas regiões, todas amazônicas e andinas, protestam em defesa das terras. Não é meu objetivo fazer uma análise sócio-política do Peru, mas contextualizar uma realidade na qual estão envolvidos os participantes das oficinas. Um dos maiores representantes deste pensamento, que percebe que o desenvolvimento é só aumento nas cifras macroeconômicas, é o ex-presidente do Peru, Alan García Perez, que praticamente deu o país como presente às indústrias extrativas. O seguinte fragmento de uma declaração dele expressa claramente sua visão tanto sobre o desenvolvimento quanto sobre a Amazônia: O Peru está, certamente, em pé sobre um conjunto de recursos aos quais ignora. A selva, por exemplo. O que teriam feito os japoneses com a selva amazônica? O que teriam feito os judeus com a selva amazônica? Não quero nem pensar a enorme quantidade de recursos que teriam obtido de 63 milhões de hectares de árvores. Seguramente teriam colocado em cada hectare o dobro de árvores do que a natureza colocou, e seriam os donos do mercado mundial de madeiras e móveis, com milhões de empregos no interior. Nós, nada (GARCIA em DVOSKIN, 2010). Ele utilizou a metáfora do “perro del hortelano”28 que não come nem deixa comer, para se referir às pessoas que se opunham às suas políticas de desenvolvimento. Para o antropólogo Rodrigo Montoya (2009), Algumas das teses centrais que Alan Garcia defende no seu discurso são as seguintes: se não há proprietários, não há investimento; a Amazônia tem um potencial não explorado; as concessões não funcionam; deve-se vender as terras comunitárias com o simples acordo da maioria mais um, dos votos da assembleia comunitária; devemos vender as propriedades públicas. No segundo trimestre de 2009, aproximadamente 5000 indígenas, principalmente das etnias Awajun e Wampis, fecharam uma estrada na zona de Bagua (norte da Amazônia peruana) como protesto contra as políticas do governo nas negociações do Tratado de Livre Comércio 28 El perro del hortelano (Cão do jardineiro) é uma peça de teatro do dramaturgo espanhol Félix Lope de Vega (1562 – 1635) que é bibliografia básica no ensino fundamental no país. 54 com os Estados Unidos. Este protesto, que durou mais de dois meses, terminou em um confronto entre a população e a polícia que deixou o saldo de 34 mortos e 200 feridos entre policiais e indígenas. Depois deste acontecimento, os indígenas foram chamados de terroristas29 por alguns setores da sociedade e, inclusive, por representantes do governo. Apesar de que esse tema específico não foi tratado na oficina, como já mencionei, é parte da vida dos participantes. Tal como disse Franguine Paati, um dos participantes das oficinas de origem Awajun: Nós que somos indígenas do povo Awajun, estão nos chamando de Talibãs30. Isso é o mais indignante que nos faz sentir porque nós não somos Talibãs, sequer somos terrucos31. Isso às vezes dói demais porque nós somos humildes, honestos, [...] Mas aqui, que o próprio governo nos chame de Talibãs...32. Esta mentalidade afeta enormemente os esforços de integração do país, gerando imagens falsas dos indígenas, colocando-os como inimigos de um modelo de desenvolvimento baseado na economia de mercado e que obedece aos interesses do sistema sem se importar com temas como, por exemplo, a diversidade cultural. Segundo a FAO, para falar em desenvolvimento quando populações indígenas estão envolvidas, devem-se levar em conta uma série de princípios básicos: libre determinação; desenvolvimento com identidade; consentimento livre, prévio e informado; participação e inclusão; direitos à terra e outros recursos naturais; direitos culturais; direitos coletivos; igualdade de gênero (FAO, 2012, p. 13-15). 2.2 EDUCAÇÃO INTERCULTURAL. UMA PERSPECTIVA LATINOAMÉRICA No Peru, a educação é percebida como uma estratégia para sair da pobreza e da exclusão (ANSIÓN, 1995, p. 9). Porém, também pode ser um caminho de perda de raízes culturais. Pilar Chichayán (2008, p. 249) apresenta o caso de estudantes da cultura Asháninka: 29 A guerra interna da qual já falei deixou feridas na sociedade peruana que ainda estão abertas, e ainda doem. Aliás, existe atualmente uma criminalização da protesta, e cada vez que membros de uma população protestam contra o governo, é muito comum que sejam chamados de terroristas. 30 Fazendo referência aos extremistas responsáveis do atentado das Torres Gêmeas que eram liderados por Osama Bin Laden. 31 Terroristas 32 PAATI,F. 2011. “Los que somos indígenas de Pueblo Awajun, nos están diciendo que somos Talibanes. Eso es lo más indignante que a nosotros nos hace sentir porque nosotros no somos Talibanes, ni siquiera no somos terrucos. Eso a veces nos ha hecho doler demasiado porque nosotros somos humildes, honestos, […]. Pero acá, que mismo gobierno nos diga que somos talibanes…”. 55 Os jovens asháninkas encontram-se vivendo uma crise de identidade devido a que os valores e conhecimentos que recebem das instituições de formação superior lhes são dados como sinônimos de progresso e desenvolvimento. Eles têm assumido, então, que sua cultura é atraso e que por isso são pobres, que estão em desvantagem. Ao mesmo tempo, manifestam desejos de valoração da sua cultura. Evidencia-se neles um duplo discurso: 1)A necessidade de afirmação da sua identidade asháninka e 2) a negação da sua cultura porque se considera que esta lhes impede ascender ao progresso e ao desenvolvimento. A educação intercultural pode ser definida, em termos gerais, como aquela que transmite, desenvolve e alimenta os valores e capacidades interculturais. Ou seja, é aquela educação que procura desenvolver a capacidade de diálogo entre integrantes de culturas diferentes; o respeito pelo outro; a crítica à dominação cultural e, por tanto, às atitudes autoritárias; e o fortalecimento de identidades étnicas e locais. Para Deborah Poole (2002, p. 2-3) a educação intercultural deve promover, por um lado, a capacidade comunicativa através das fronteiras culturais e, por outro, uma compreensão das culturas diferentes (no nosso caso, indígenas) como parte da modernidade e não como elementos “arcaicos” que devem ser preservados. Neste sentido existem dois objetivos concretos da educação intercultural que podem ser percebidos como contraditórios, mas, em realidade, são complementares. O primeiro deles é o resgate e o reconhecimento e valorização das identidades étnicas e o segundo é a necessidade de melhorar uma educação que permita aos estudantes indígenas adquirir as ferramentas para se integrarem no sistema que os envolve (TRAPNELL, 1996; GASCHE, 2002). Sobre o primeiro objetivo, as relações culturais no nosso continente se desenvolveram com um forte caráter de racismo e de relações de dominação. Esta consciência e aceitação da situação de dominação e a assimetria não estão presentes só nos setores dominantes, mas nos próprios indígenas (GASCHE, 2002, p. 4-5). Neste contexto, pensar na construção de um diálogo e de capacidades interculturais está diretamente relacionado à construção das condições para que estes possam acontecer. Nesse sentido, o fortalecimento das identidades étnicas é uma estratégia para gerar uma equivalência entre as culturas subordinadas e a cultura hegemônica que garanta a possibilidade do diálogo. Por outro lado, os saberes dos grupos indígenas são percebidos como saberes antigos que não têm utilidade no mundo contemporâneo. Portanto, para lograr uma revalorização desses saberes indígenas, tradicionais, devemos “destacar sua importância e relevância” (LOPEZ; PRADA, 2012, p. 46) para a construção do futuro. 56 O segundo objetivo tem a ver com a real necessidade dos estudantes indígenas de acessar os conhecimentos e ferramentas que lhes permitam se integrar ao sistema para, com isso, por um lado, conseguir sair da pobreza material na qual se encontram atualmente e, por outro, serem considerados como parte integral da sociedade e não como marginais a ela. Apesar de que as propostas de educação intercultural se centraram tradicionalmente neste aspecto desde uma perspectiva de assimilação (TRAPNELL, 1996), constata-se que, após várias décadas de acesso à educação escolar, são poucos os indígenas que atuam como advogados, engenheiros, médicos (GASCHE, 2002, p. 4) ou professores universitários. Geralmente são as pessoas das culturas subalternas as que têm mais competência intercultural, já que são obrigadas a interagir e aprender os códigos da cultura dominante. Porém, e apesar de que a educação intercultural está principalmente dirigida às populações indígenas, se reconhece a necessidade de que, para construir uma verdadeira interculturalidade, é importante que os não indígenas, os membros da cultura hegemônica, também recebam uma educação intercultural (POOLE, 2002; CHINCHAYÁN, 2008; SCHMELKES, 2012). Para Pilar Chinchayán (2012, p. 237), esta deve “abordar a relação que existe entre o indígena e o não indígena, o que, por sua vez, implica necessariamente dar visibilidade aos conflitos e à discriminação subjacentes às ditas relações, e também às mútuas influências”. Nesse sentido, é necessário procurar contextos educativos nos quais exista uma confluência e intercâmbio entre indígenas e não indígenas ou mestiços. Isto é fundamental para poder construir o tão anelado diálogo intercultural a partir do conhecimento e da valoração do outro, gerando o respeito e fortalecimento das identidades étnicas e, ao mesmo tempo, inclusão. 2.2.1 Universidade e interculturalidade 2.2.1.1 Universidades indígenas Segundo Fidel Tubino (2012a, p. 107), na América Latina tem se utilizado duas estratégias para incluir a população indígena na educação universitária. A primeira é a criação de universidades indígenas ou universidades interculturais, em zonas com grande concentração de população indígena, e nas quais a maioria dos estudantes, senão todos, é de origem indígena. A segunda é a tentativa de interculturalizar as universidades tradicionais através de 57 políticas de ações afirmativas33. Aqui me centrarei na primeira estratégia já que é nesse grupo que se enquadra a UNIA. Na América Latina existem várias experiências de criação de universidades orientadas à formação da população indígena. No México, por exemplo, foram criadas oito universidades interculturais em zonas de alta concentração de indígenas direcionadas principalmente para esta população, mas abertas para todos. O objetivo destas universidades é “formar profissionais e intelectuais comprometidos com o desenvolvimento dos povos e regiões indígenas” (SCHMELKES, 2012, p. 67). No Brasil, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), que é a maior organização indígena do Brasil, agrupando nela 75 organizações dos nove Estados da Amazônia brasileira, criou, no ano de 2006, o Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI) (MATO, 2011, p. 7). O objetivo do CAFI é ser um instrumento de luta pelo que “eles consideram seus direitos básicos: terra, saúde, educação, economia, sustentabilidade e interculturalidade” (MATO, 2011, p. 7). As principais conquistas deste programa, de acordo com Mato (2011, p. 11-12) são: melhoram as possibilidades de que indivíduos indígenas tenham acesso à educação superior; fazem um ajuste das ofertas educativas às necessidades e demandas das comunidades, relacionando-as com as oportunidades locais e as iniciativas produtivas da comunidade; desenvolvem formas de aprendizado coletivas baseadas na pesquisa aplicada; “integram diversos tipos de saberes e formas de produção do conhecimento” (p. 12); promovem, utilizam e pesquisam as línguas indígenas; “desenvolvem docência e pesquisa orientadas por critérios de valorização da diversidade cultural, interculturalidade, equidade, inclusão, governabilidade democrática, desenvolvimento humano sustentável” (p. 12); formam profissionais das comunidades que conhecem os saberes tradicionais e os modernos, e estão familiarizados com as necessidades e demandas das comunidades. Segundo Mato (2011, p. 12) entre os principais problemas desta experiência estão: a insuficiência orçamentária; as atitudes de discriminação por parte de alguns funcionários públicos e outros setores da população; rigidez nos critérios estaduais de reconhecimento de 33 “As ações afirmativas são formas estratégicas de operacionalizar o princípio da discriminação positiva. São parte das políticas afirmativas surgidas no Hemisfêrio Norte em meados do século XX para gerar equidade de oportunidades em contextos fortemente discriminatórios e assimétricos”. Entre suas vantagens encontram-se a geração de “maior igualdade de oportunidades” e a introdução “na agenda pública do tema da discriminação e do racismo”. Entre seus problemas está a geração de “tensões sociais e culturais que não necessariamente desembocam em melhores formas de convivência” (TUBINO, 2007, p. 91). 58 cursos; rigidez por parte de algumas instituições onde se implementa o programa e das agências governamentais que outorgam os fundos de pesquisa; dificuldades para conseguir docentes capacitados para o trabalho no contexto intercultural; dificuldades econômicas por parte dos participantes; insuficiência de bolsas. Para Tubino (2012a, p. 107), o principal aspecto negativo das universidades indígenas é que não conseguem “assegurar a qualidade básica na preparação profissional dos estudantes indígenas e geram instituições que são como ‘ilhas étnicas’ marginais do sistema oficial de educação superior”. 2.2.1.2 Universidade intercultural De acordo com José Ignácio López Soria (2012, p. 14), a universidade, nela mesma, é um dos agentes de reprodução da sociedade que “desde ha muito tempo, tem colocado na monoculturalidade um dos seus mais prezados objetivos”. Nesse mesmo sentido, Luis Enrique López e Fernando Prada (2012, p. 38) adicionam que a universidade não só não trabalha, mas ignora “as estratégias metodológicas com as quais os povos indígenas produzem e transmitem seus conhecimentos”. A educação superior, para procurar ser intercultural, por um lado, teria que reconhecer a necessidade de incorporar metodologias diferentes que dialoguem e se complementem com as formas tradicionais (LÓPEZ; PRADA, 2012, p. 39) e, por outro, teria que mudar a relação entre professor e aluno, no sentido em que este deve valorar os conhecimentos com que os alunos chegam (LÓPEZ; PRADA, 2012, p. 42) e partir deles, ou seja, estabelecer uma relação dialógica. Silvia Schmelkes (2012, p. 73-76) enumera uma série de características das universidades interculturais na experiência mexicana que facilmente podem ser encontradas no resto da América Latina: • São prioritariamente para indígenas, mas não exclusivamente para eles. • Participação explícita e em condição de igualdade das culturas indígenas. Ao mesmo tempo, deve-se valorizar as línguas indígenas. As instituições devem ser 59 plurilinguísticas e o aprendizado de uma língua indígena é obrigatório para todos os estudantes. • Apresentação do conhecimento gerado na própria universidade. Uma parte importante deste deveria ser sobre as culturas e línguas indígenas. • Convivência intercultural onde todas as diferentes culturas têm espaço para se expressarem. • Compromisso por formar intelectuais e profissionais comprometidos com o desenvolvimento dos seus povos e regiões. Fazendo referência “ao desenvolvimento econômico sustentável, ao desenvolvimento social, ao desenvolvimento cultural e linguístico” (p. 74) • Reconhecem que muitos dos estudantes indígenas têm recebido uma educação deficiente. “Consideram que isto se deve não a dificuldades dos sujeitos, mas a inequidades estruturais do sistema” (p. 75). Portanto, os critérios de seleção não devem ser acadêmicos. Mas, para chegar a ser uma instituição de ensino superior de qualidade, o primeiro ano se foca no trabalho de linguagens (a própria e outras) principalmente na leitura, a escrita, a matemática e a informática, e nas habilidades de pensamento (análise, síntese, raciocínio lógico, pensamento hipotético, busca de informação, aprendizado por conta própria, trabalho em equipe). • “O modelo pedagógico tem três pilares fundamentais: a docência, a pesquisa e o vínculo com a comunidade” (p. 76). Alguns dos pontos desta lista têm semelhanças com a experiência do CAFI no Brasil apresentada por Mato (2011). Vemos a ênfase na valoração e uso das línguas e saberes tradicionais assim como o fato de formar profissionais capacitados que possam ser um nexo entre a tradição, as necessidades comunais e os saberes modernos. 2.3 CONTEXTO DA EXPERIÊNCIA 2.3.1 A Universidad Nacional Intercultural de la Amazonía (UNIA) A Universidad Nacional Intercultural de la Amazonía (UNIA) foi fundada no ano de 1999, mas só começou a funcionar no ano 2005, com o objetivo de ser uma instituição de nível superior voltada para a população indígena, oferecendo cursos que pudessem ser úteis para as 60 comunidades nativas. Os cursos que ministram atualmente são: Ensino Fundamental Bilíngue (EPB), Ensino Pré-escolar Bilíngue (EIB), Engenharia Agroflorestal Aquícola (IAA) e Engenharia Agroindustrial (IAI)34. Segundo o Vice-presidente acadêmico35, o engenheiro Augusto Montes36, na Universidade há estudantes de 14 etnias diferentes (informação verbal)37. A criação da Universidade foi impulsionada pela população indígena e, supostamente, deveria ter uma maioria de estudantes indígenas e alguns mestiços, mas acontece o contrário, principalmente nos cursos de engenharia. Para o Eng. Montes38, isto acontece porque é muito difícil chegar até as distintas comunidades para convocar os estudantes e conseguir que façam o processo seletivo. Por isto, segundo ele, estão descentralizando o centro pré-universitário39 e o processo seletivo com o apoio dos municípios e os governos regionais. Porém, outra razão tem a ver com a educação que recebem os jovens indígenas nas suas comunidades, e também com o fato de que as provas de ingresso não levam em conta as realidades, saberes e necessidades locais dos povos indígenas, nem que a língua materna destes estudantes não é o espanhol40. Resulta, que uma universidade promovida por indígenas para indígenas, tenha ironicamente uma minoria de estudantes indígenas. Por outro lado, todos os estudantes são obrigados a aprender uma língua indígena, já que, mesmo sendo mestiços, a princípio, estão recebendo uma formação para realizar sua prática com o objetivo de fortalecer as populações indígenas. Para tal, existe um Centro de Idiomas que oferece o ensino de diferentes línguas nativas e o inglês. Porém, as disciplinas nos cursos são ministradas todas em espanhol. De acordo com o Eng. Montes41, a razão disto é que não se pode usar uma língua indígena porque os estudantes das outras culturas e mestiços não entenderiam. Nesse sentido, segundo ele, o espanhol seria a língua comum para todos. Pergunto-me, então, como se pode formar professores interculturais bilíngues, por exemplo, se eles não recebem uma educação bilíngue valorizando suas línguas originárias? Eles são obrigados a pensar em espanhol, a escrever em espanhol, a analisar em espanhol. A língua 34 Utilizarei as siglas dos nomes dos cursos em espanhol: Educación Primaria Bilíngüe (EPB), Educación Inicial Bilíngüe (EIB), IngenieríaAgroforestalAcuícola (IAA) e Ingeniería Agroindustrial (IAI). 35 Equivalente a Vice-reitor 36 Daqui em diante: Eng. Montes. 37 MONTES, A. 2011. 38 MONTES, A. 2011. 39 O Centro Pré-Universitário se encarrega de preparar aos estudantes para o vestibular da Universidade. 40 Ver ZAVALA, V. 2008. 41 MONTES, A. 2011. 61 não é simplesmente um veículo de transmissão de informação, mas uma forma de pensamento, de conhecimento, de concepção do mundo. De acordo com o Eng. Montes42, entre 10 e 15% dos professores da Universidade são de origem indígena, mas este é um dado que não consegui corroborar. Não conheci nenhum professor indígena, e quando perguntei aos estudantes e outros professores, me disseram que não tem nenhum. Segundo Jeiser Suarez (2012), existem alguns professores indígenas, mas de origem andina, nenhum de origem amazônica. Por seu lado, o linguista Roberto Zariquiey me disse que tinha conhecido professores indígenas amazônicos, mas só dois ou três43. Aparentemente a razão disto é que existem poucos indígenas com títulos profissionais, e isto é um pré-requisito para dar aula nas universidades peruanas. Mesmo assim, é difícil pensar em reforçar as distintas identidades culturais se nenhum dos professores é parte de uma cultura originária. E mais ainda, muitos destes professores mestiços discriminam os estudantes indígenas. Este é um fato que foi confirmado pelo próprio Eng. Montes44. O desenvolvimento da Universidade tem sido muito agitado. No período de existência da Universidade têm acontecido muitas trocas de autoridades e greves, fatos que dificultam uma construção bem planejada. No momento da aplicação do projeto, a Universidade passava por sérios problemas orçamentários, de organização, burocracia e ineficiência. Outro problema grave é que existem dois sindicatos de professores que disputam o poder na Universidade e que dividem os estudantes em facções contrárias45. No entanto, apesar destes problemas, a UNIA é um espaço onde convivem pessoas de diferentes culturas, onde se encontram professores e estudantes que procuram desenvolver uma verdadeira atitude intercultural e que pode ser realmente um bom lugar para construir tolerância e conhecimento. 2.3.2 As articulações com a UNIA 2.3.2.1 Os preparativos Organizar projetos com instituições públicas no Peru é muito complicado. Fazê-las na Amazônia é ainda mais complicado. O primeiro contato com a UNIA foi feito em novembro 42 MONTES, A. 2011. Conversação com o autor, em Lima, em janeiro de 2013. 44 MONTES, A. 2011. 45 Esta divisão não é pela origem cultural. 43 62 de 2010, através de Jeiser Suarez, jovem shipibo que foi o produtor da experiência Teatro Intercultural Ucayali 2006, e que nesse momento trabalhava na Universidade. O projeto não foi avaliado porque a Universidade entrou em greve. Retomei o contato em abril de 2011. Eu já morava em Florianópolis, o que deixava as articulações mais difíceis. Gabriela Perona, formada em Comunicação para o Desenvolvimento46, com quem tenho trabalhado em diversas ocasiões, e que foi uma das estudantes que participou do projeto Teatro Intercultural 2007, ajudou-me com as articulações, as quais sempre foram lentas e pouco eficientes. Ainda assim, a Universidade se comprometeu a garantir acomodação e alimentação para a equipe, a realizar o convite e as inscrições, e a fornecer os materiais para a oficina. Ao propor as datas (início: 9 de agosto de 2011), nos disseram que, apesar de estarem em período de férias, não haveria problemas porque os estudantes moram na Universidade e o período é muito curto para eles voltarem às suas comunidades. Insistimos para que nos enviassem uma carta de compromisso, mas esta não chegou47. Sob essas condições, cheguei a Pucallpa, em agosto de 2011. A professora Mônica foi a pessoa com quem devíamos entrar em contato para fazer as articulações. Estava claro desde o início que, apesar de sua boa vontade para nos apoiar, este encargo lhe havia sido imposto e estava atrapalhando seu trabalho como coordenadora do curso de Educação Fundamental Bilíngue (EPB). Quando chegamos, nos acomodaram em uma casa muito confortável dentro da Universidade48. Na primeira reunião que tivemos, ela me entregou uma lista de quase 30 estudantes e me disse que havia mais pessoas interessadas na oficina, inclusive professores. Ela nos reservou o espaço do Hangar para trabalhar, que é um espaço grande e aberto. Combinamos o horário de trabalho e outros encaminhamentos. 46 Esta é uma especialidade dentro do curso de Comunicações da PUCP. Segundo a descrição da web: “Promueve el análisis y la gestión de estrategias de comunicación con la finalidad de generar o mejorar procesos de comunicación interpersonales, grupales y masivos que apunten al desarrollo social”. (http://facultad.pucp.edu.pe/comunicaciones/index.php?option=com_detalle&task=view&secc=14&cat=29&con t=44&Itemid=58). 47 Consegui a carta duas semanas antes de terminar o projeto. 48 As instalações da UNIA pertenciam ao Instituto Linguístico de Verano (ILV) que era uma instituição religiosa americana que, desde a década de 1950 pesquisava as línguas amazônicas e traduzia a bíblia para essas línguas. A estrutura era muito completa. Tinha casas com várias habitações totalmente equipadas, escritórios, oficinas mecânicas, espaços de lazer. Além disso, tinha aviões pequenos para viajar às comunidades nativas. Estes eram guardados no “Hangar”. O ILV foi um dos primeiros em desenvolver a Educação Bilíngue, mas desde uma perspectiva “assimilacionista e civilizatória”. Ver TRAPNELL, 1996. 63 Figura 1 O Hangar No primeiro dia da oficina esperamos por uma hora, até que chegou Alver Nijigkus49, um jovem estudante de EPB que pertence ao grupo étnico Awajún, que foi encarregado pela professora para fazer as inscrições da oficina. Ele disse que ninguém iria porque a Universidade lhes cortou a comida e porque era o último dia para pegarem suas notas. Fui, junto com ele, para falar com a professora e, finalmente, o problema foi resolvido parcialmente: os estudantes que participassem da oficina receberiam almoço por parte da Universidade. Conseguimos começar o trabalho no dia seguinte. 2.3.2.2 O convite Um dos compromissos assumidos pela Universidade foi o de fazer os convites para a oficina. Toda a informação importante, como duração e metodologia geral, havia sido enviada com antecedência. Porém, ao longo da implementação das oficinas, descobrimos que o convite havia sido muito pouco efetivo. Por exemplo, Robert Ugkush50, um dos participantes da primeira oficina, não sabia que haveria uma oficina de teatro, e só quando foi para ver suas notas do semestre anterior (no dia em que supostamente daria início a oficina), a professora lhe convidou para participar 49 50 Daqui em diante: Alver. Daqui em diante: Robert. 64 (informação verbal)51. Ismael Chumpi52, outro dos participantes, soube da oficina no dia em que estava saindo de férias, e disse que deveriam ter avisado nas salas de aula. Além disso, disse que ninguém sabia quanto durariam as sessões e por quanto tempo se realizaria a oficina (informação verbal)53. Haydeé Rivera54, professora dos cursos de Educação que participou da primeira oficina, tampouco sabia de nada. Ela se perguntava “por que não houve o convite? Por que não se falou? Por que se sabia sobre a oficina e deixavam tudo ali escondidinho? […] Então, eu sinto que não houve um bom convite”(informação verbal)55. Houve outro fator que gerou estes problemas no convite: A separação entre indígenas e mestiços. Eu pedi para dar preferência aos estudantes indígenas. Além disso, o convite se centrou nos cursos de educação, deixando de fora os estudantes de engenharia porque eu achava que para os primeiros o projeto seria mais útil e proveitoso. Percebi que esta é uma atitude discriminatória, que ficou muito clara para mim numa conversação com o comunicador social Fernando Valdivia, que faz filmes documentários56 sobre as distintas etnias da Amazônia. Ele percebe que a divisão que se faz entre mestiços e indígenas é muito prejudicial para o território, para a luta pela conservação da Amazônia e para a construção de uma verdadeira integração e interculturalidade57. Esta divisão não é algo estabelecido, mas algo que na prática acontece no cotidiano. Por exemplo, muitas vezes se elaboram projetos educativos, ambientais, de produtividade, entre outros, exclusivamente para indígenas, deixando os mestiços de lado. Como foi colocado no capítulo anterior, a interculturalidade também pode buscar um reforço das identidades como uma forma de nivelar os grupos tradicionalmente marginados da sociedade. Porém, neste caso particular, mestiços e indígenas convivem no cotidiano, portanto, separá-los, no contexto da universidade, reforça as dinâmicas de discriminação que, como será desenvolvido mais adiante, acontecem na UNIA. Essa atitude (minha atitude), que reforça a separação entre mestiços e indígenas, fez com que mestiços que poderiam ter estado interessados na oficina, não se inscrevessem. 51 UGKUSH, R. 2011. Daqui em diante: Ismael 53 CHUMPI, I. 2011. 54 Daqui em diante: Haydeé 55 PANDURO, H. 2011. “¿Por qué no hubo convocatoria? ¿por qué no se dijo? ¿Por qué se sabía del curso y estaba por ahí escondidito? […] Entonces, yo siento de que no ha habido muy buena convocatoria”. 56 Entre seus documentários mais conhecidos estão La travesía de Chumpi e En busca del azul. Ambos os filmes já foram exibidos em distintos festivais no Brasil. 57 Conversação com o autor, em Pucallpa, em setembro de 2011 52 65 Apesar disto, na primeira oficina houve dois participantes mestiços, mas, mesmo assim, a partir deste aprendizado, o convite para a segunda oficina foi muito mais inclusivo e, como se verá a seguir, teve maior variedade de participantes. 2.3.3 Os participantes das oficinas Os participantes das oficinas foram estudantes indígenas e mestiços da UNIA. Quando falo em indígenas, parto da definição de organismos como a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e as Nações Unidas (ONU) os quais, segundo Anne Deruyttere (2001, p. 5) definem como indígenas os descendentes dos habitantes originários de uma região geográfica antes da colonização e que mantêm total ou parcialmente suas características linguísticas, culturais e de organização social. Além disso, a auto identificação é um critério fundamental para determinar quem se considera indígena. A situação da maioria dos participantes indígenas das oficinas era bastante complexa. Eles estão inseridos nas dinâmicas de discriminação e pobreza descritas no início deste capítulo. Franguine Paati58, um dos participantes pertencente à etnia Awajun, ilustra a situação: “E agora, por exemplo, estamos sem nada. Não estamos tomando café-da-manhã, estamos só com o almoço, e isso também estamos preocupados. Janta não temos “ (informação verbal)59. A situação da maioria dos estudantes indígenas na UNIA é muito dura. Muitos deles têm que viajar vários dias para chegar às suas comunidades e têm pouco dinheiro para os estudos. Alguns deles, inclusive, têm que trabalhar para conseguir 50 soles60 para sua matrícula. Os grupos étnicos representados nas oficinas foram os seguintes: Awajun, Wampis, ShipiboKonibo, Shawi, Tikuna, Asháninka e Aymara61. Este último é o único grupo étnico que não é da Amazônia, mas andino. Apesar de que existem diferenças importantes entre esses grupos indígenas, existe uma identidade indígena e um reconhecimento do ser indígena, independentemente do grupo étnico a que se pertence. Segundo Bodmer e Mayor (2009, p. 23), “por detrás da grande 58 Daqui em diante: Franguine PAATI, F. 2011. “Y ahora por ejemplo estamos sin nada. No estamos desayunando, solamente estamos en almuerzo, y eso también estamos preocupados, cena no tenemos”. 60 O sol é a moeda peruana. 61 Ver o apêndice A para ver a descrição e localização de cada um desses grupos étnicos. 59 66 variedade de configurações socioculturais amazônicas existe uma série de características genéricas comuns a todas elas e que as diferenciam, em seu conjunto, da sociedade urbana do tipo ‘ocidental’” 62. Durante quase todo o período das oficinas, trabalhou-se em termos de indígenas e mestiços, e tanto a teoria quanto os próprios participantes utilizam o termo indígena como critério de identificação. Definir o mestiço no contexto amazônico pode ser complexo. Não existe realmente uma distinção de raça e, como afirma Jacques Tournon (2002, p. 14) “muitos mestiços são indiscerníveis fisicamente dos nativos”. A maioria deles tem antepassados que pertenciam a etnias amazônicas ou são descendentes de migrantes andinos. Poder-se- ia dizer que mestiço é aquele que não se reconhece como indígena (auto identificação) e que não fala uma língua nativa. Portanto, a língua é um dos elementos mais importantes da identidade cultural. Segundo Tubino e Zariquiey (2007, p. 21) a língua e a cultura são parte do mesmo “universo” desde o qual os indivíduos formam sua identidade. Atualmente no contexto amazônico, a língua é praticamente o único signo externo, visível, para diferenciar os indígenas dos mestiços e, portanto, é muito relevante para as situações de discriminação. Segundo alguns dos participantes, há estudantes indígenas da universidade que negam sua origem indígena, e afirmam que não falam uma língua nativa só para evitar serem discriminados. Por outro lado, os estudantes mestiços que participaram das oficinas moravam todos na cidade de Pucallpa e, portanto, tinham maior conhecimento da vida urbana, e tinham uma situação econômica menos precária que a maioria dos participantes indígenas. Abaixo apresento a lista dos participantes que participaram regularmente das oficinas: 62 Os autores incluem aos mestiços, também chamados de colonos, que moram no espaço rural de forma similar a seus vizinhos indígenas. 67 Tabela 1 Lista de Participantes 1a Oficina Nome Cultura Curso Idade Franguine Paati Antuash Awajun EPB 29 Daniel Dionicio Diaz Mestiço EPB 19 Elias Chamik Saan Awajun EPB 25 Haydee Rivera Panduro Mestiça Professora 50 Ismael Chumpi Pijushkun Awajun EPB 28 Lirio Tankamash Santiak Awajun EPB 21 Reyner Yatsupish Sanchez Awajun EPB 21 Robert Ugkuch Antun Awajun EPB 27 Tabela 2: Lista de participantes da 2ª oficina Nome Etnia Curso Idade Alver Nijigkus Kajekui Awajun EPB 23 Carla Beatriz Carbajal Arratea Mestiça EIB 21 César S. Giucam Kunkumas Awajun IAI 22 Daniel Dionicio Diaz Mestiço EPB 19 Edinzon Gilder Perez Jimenez Asháninka EPB 21 Jhon Garay Falcón Mestiço IAI 24 Jimmy Jair Acuña Osores Mestiço IAI 20 José Tangoa Huiñapi Shawi EIB 23 Lirio Tankamash Santiak Awajun EPB 21 Marco Tangoa Mapuchi Shawi EPB 22 Raquel Sabrina Ruiz Meléndez Mestiça EIB 22 Rocío S. Mensilla Huayllas Tikuna EIB 22 Solís Unup Pacunta Wampis EPB 30 Waldemar Pizango Rojas Shawi EPB 23 Yanne Yeny Mamani Pilco Aymara IAI 16 Nestas listas encontram-se apenas os nomes dos participantes que assistiram acima 60% dos encontros. Apesar de apresentar omissões, como por exemplo, na primeira oficina também 68 participaram alguns estudantes shipibos, a lista proporciona um panorama geral sobre os participantes e a mudança destes de uma oficina a outra. Na primeira tabela, se vê que a grande maioria dos participantes era da cultura Awajun e todos são do curso de EPB. As razões disto são as seguintes: • Eu havia pedido para focar o convite nos estudantes indígenas de educação. • A professora encarregada de fazer o convite delegou a tarefa a um estudante de EPB da etnia Awajun. • Nas datas nas quais começou a oficina, a Universidade estava de férias, portanto só podiam participar os que não tinham condições de voltar para suas casas nesse período, como era o caso dos estudantes da cultura Awajun, já que suas casas ficam muito longe. Como se pode apreciar, na segunda oficina houve mais variedade tanto de origem cultural quanto de cursos da universidade, o que gerou um intercâmbio mais completo. Isto aconteceu porque para o convite da segunda oficina, elaboramos cartazes e fizemos convites nas salas de aula de todos os cursos, sem diferenciar mestiços de indígenas, e as aulas já tinham começado. 2.3.4 Assistencialismo Falar sobre o assistencialismo é relevante uma vez que esta é uma prática generalizada no contexto Amazônico e afetou de certa forma o andamento da experiência. O assistencialismo muitas vezes é justificado com o argumento de que se quer melhorar a condição de pessoas com algum tipo de necessidade, principalmente econômica, mas é uma atitude que, consciente ou inconscientemente, procura manter a ordem social estabelecida pelo sistema. As relações baseadas no assistencialismo são estabelecidas verticalmente, de forma que existe um setor da população necessitada que recebe passivamente aquilo que necessita. Para Paulo Freire (2005, p. 172) estas atitudes são um “instrumento de manipulação, servem à conquista. Funcionam como anestésico”. No contexto amazônico, existe um costume assistencialista que remonta ao início da colonização, quando, para poder entrar na Amazônia, os padres católicos levavam ferramentas às populações indígenas. Esta prática existe até hoje e foi inclusive incorporada por políticos e, mais recentemente, pelas ONGs. 69 Como resultado desta prática centenária, é muito comum na Amazônia peruana (e em outras regiões) que as pessoas só participem de capacitações caso recebam alimentação, camisetas, ou seja, coisas materiais. Aparentemente, dentro da UNIA, isso também acontece. Quando fui conversar com a professora encarregada pela universidade da articulação do projeto, sobre os problemas de frequência dos alunos, ela me disse que o problema era que às vezes os estudantes indígenas se comprometiam e depois não cumpriam, e que os albergados63 queriam tudo fácil. Depois do primeiro dia da oficina, que ninguém compareceu porque não receberiam comida, a Universidade resolveu oferecer almoço àqueles que participassem da oficina. No dia seguinte assistiram 16 estudantes. Nessa mesma semana os albergados fizeram um protesto para todos receberem comida e o conseguiram. Nos dias seguintes o número de participantes baixou a 10. Para esta experiência, eu havia decidido não oferecer nada além da oficina de teatro64. Esta decisão se manteve até o final do projeto. Este fator, acredito, influenciou no rápido decréscimo do número de participantes. Porém, não posso ter a certeza absoluta dos motivos pelos quais alguns dos participantes abandonaram a oficina. Quando lhes perguntava, eles não respondiam ou diziam que viriam no dia seguinte. Pouco antes de ter que encerrar a primeira oficina por falta de participantes, perguntei aos poucos que continuavam se achavam que, se eu tivesse oferecido lanche, teríamos tido mais estudantes. Eles disseram que sim, mas que teria sido muito difícil fornecê-lo por tanto tempo, e que alguns estariam participando só pelo lanche. Disseram também que muitos só participam dos eventos pela comida e que achavam que isso havia acontecido na nossa oficina. Sobre este tema, a professora Haydeé (que participou da primeira oficina) afirma o seguinte: Eu sinto que, em certa forma, estamos acostumando [mal] os jovens... talvez eu não, mas, talvez outras pessoas que vêm [e oferecem:] ‘se participas desta oficina vou te pagar, vou te dar comida, vou te dar alguma coisa.’ Então, os jovens estão sempre na espera. ‘Para eu ir estudar, o que vou receber?’ […] Neste caso, por exemplo, era o teatro, era o estudo, era a vontade de querer fazer uma coisa diferente, mas eles estavam sempre pensando ‘mas não tenho’, ‘não comi’, ‘não vou’. Penso que esse é um fator (informação verbal)65. 63 Estudantes que moram dentro da Universidade. No projeto do 2006, se ofereceu lanche para todos os dias da oficina e todas as comidas nas apresentações nas comunidades. No 2007, os próprios participantes foram os encarregados de consegui-la. Isto gerou um conflito entre os participantes de Lima e os de Pucallpa. Este está descrito em BENZA, Rodrigo. Teatro intercultural: recuperando nuestra humanidad. 2012. (artigo não publicado). 65 PANDURO, H. 2011. “Yo siento que, de alguna manera, hemos acostumbrado [mal] a los jóvenes… de repente no yo, pero de repente otras personas que han venido [y ofrecen] ‘si vienes a este curso te voy a pagar, 64 70 O que é melhor, que participem do teatro pela comida ou que não participem? O tema do assistencialismo é muito complexo. Qual é o limite entre gerar boas condições e ser assistencialista? Quais as prioridades? Como lutar contra o assistencialismo? Utilizando-o para pouco a pouco começar a mudar as atitudes ou rejeitando-o desde o começo? Querer mudar as atitudes é sempre uma postura assistencialista? Considero que, em linhas gerais, neste projeto não existiu uma postura assistencialista. Porém, tampouco existiam, principalmente no início da experiência, as condições mínimas para que os participantes pudessem participar da oficina sem se preocupar se teriam o que comer mais tarde. Em paralelo a esta, existe uma situação que me trouxe questionamentos sobre as condições que devem ser oferecidas. No caso da etnia Shipibo-Konibo, por exemplo, eles organizam todo ano uma copa de futebol intercomunidades. Toda a equipe viaja para a cidade de Pucallpa com o dinheiro da comunidade principalmente e paga sua acomodação e alimentação. Mas se tivessem que assistir a uma capacitação organizada por uma ONG, por exemplo, mesmo que considerem que os temas da capacitação poderiam beneficiar sua comunidade, é muito provável que só assistam se receberem tudo. No caso de alguns dos participantes da primeira oficina, acontecia algo parecido. Muitas vezes se queixavam porque não haviam comido, mas de tarde estavam jogando futebol. Aliás, para eles jogarem, todos os que estão no campo devem aportar dinheiro para a aposta contra o outro time. Portanto, tinham dinheiro e energia para apostar no futebol, mas não para comprar algo para comer. Isto me leva ao tema seguinte que é o compromisso pela oficina. 2.3.5 Compromisso pela oficina Ao longo do processo, senti que havia pouco interesse e compromisso. Ficava incomodado porque alguns diziam que não haviam comparecido porque tinham muito trabalho, mas eu sabia que tinham ido jogar futebol. Sentia também uma falta de interesse por parte da própria Universidade, já que tinha que perseguir a professora encarregada para conseguir as coisas. te voy a dar de comer, te voy a dar tus víveres, te voy a dar algo. Entonces como que los jóvenes están siempre en espera ¿no? ‘Para irme a estudiar, ¿qué me van a dar? […] En este caso, por ejemplo, era el teatro, era el estudio, eran las ganas de querer hacer algo diferente. Y ellos siempre estaban pensando ‘pero no tengo’ ‘pero no he comido’ ‘no voy’ Entonces yo pienso que eso fue un factor”. 71 No final da segunda oficina, chegou Gabriela Perona66 (aquela que me ajudou com as articulações) para me apoiar nos preparativos da peça. Ela observou o seguinte sobre o grupo: “Acho que há um problema de passividade dos participantes. Chegam, você faz uma pergunta, tenta fazer algo, eles dizem que não, sem razão alguma, não querem fazer mais, e sempre existe essa disposição de fazer o que vem na cabeça do que fala primeiro” (informação verbal)67. Vale a pena trabalhar com pessoas que não pediram para fazer esse trabalho? Que não mostram interesse nem compromisso? Percebi, então, duas coisas. A primeira é que é difícil se interessar por algo desconhecido, e a única forma de fazê-lo conhecido é fazendo-o. A segunda é que muitas vezes nos confundimos e interpretamos que existe falta de interesse quando, em realidade, existe uma complexidade maior que impede os participantes se comprometerem mais. Nesse sentido, também é importante saber que a minha percepção do interesse e compromisso pode ser muito diferente da deles, principalmente no contexto intercultural. Percebi então que podia estar interpretando os fatos de forma errada. Se não têm interesse, por que continuam assistindo? Eu sentia uma pressão forte porque tínhamos pouco tempo para terminar o processo, mas não percebia que toda minha energia e tempo estavam destinados a esse projeto, enquanto eles já haviam começado aulas, deviam fazer trabalhos das disciplinas, ou, durante a primeira oficina, deviam trabalhar para conseguirem dinheiro para pagar suas matrículas. Apesar de tudo isso, compareciam na oficina por três horas diárias, cinco dias por semana! E sobre o futebol, percebi que é quase a única distração que têm, já que vivem na Universidade, longe das suas casas e famílias. Além disso, em todas as comunidades indígenas da Amazônia que tenho visitado, os jovens jogam futebol no final da tarde, todo dia, depois de trabalhar. Portanto, o futebol é, inclusive, uma das únicas atividades que eles mantêm das suas comunidades68. Agora entendo que, em realidade, acontecia o contrário do que eu percebia no momento, ou seja, percebo que, apesar das faltas e dos problemas vivenciados, realmente houve muito interesse e compromisso no projeto por parte dos participantes, e que eu não estava enxergando bem o que realmente acontecia. 66 Daqui em diante: Gabriela PERONA, G. 2011. “Bueno, en principio hay un problema de inactividad de la gente. Es como que llegan y haces una pregunta, tratas de hacer algo, dicen que no, no tienen razones, no quieren hacer más y siempre hay esta disposición a hacer lo que el primero que diga se le ocurra”. 68 Tubino e Zariquiey (2007, p. 76-77) fazem um paralelo entre o campeonato de futebol entre os shipibos e a festa tradicional Ani Shëati. Eles apontam que o futebol tem substituído a festa brindando um espaço de encontro entre as distintas comunidades shipibas e o desenvolvimento do espírito competitivo, já que, no Ani Shëati se realizavam competições de força e tiro ao alvo, principalmente. 67 72 3 A EXPERIÊNCIA: TEATRO INTERCULTURAL NA UNIA69 A experiência consistiu em duas oficinas de teatro intercultural e a criação de uma peça no final da segunda. Ambas as oficinas se basearam no trabalho com jogos orientados principalmente à formação do grupo, à geração de um clima de confiança, e ao desenvolvimento da imaginação; trabalho com histórias reais e inventadas trazidas pelos próprios participantes; improvisações e criação de cenas a partir de estímulos diferentes. Por exemplo, criaram cenas representando momentos da sua vida cotidiana, partindo de objetos ou representando o que é para eles a interculuralidade. Estes elementos estiveram presentes ao longo de ambas as oficinas. 3.1 A METODOLOGIA DAS OFICINAS Todo o trabalho, desde o início, procurou ser participativo e dialógico. Estas características (a participação e o diálogo) estiveram presentes tanto nas histórias quanto nos jogos e nas improvisações. Inclusive, a escolha de determinados jogos ou a criação de cenas a partir de um tema específico, como a interculturalidade, nasciam diretamente do processo e do diálogo estabelecido com os participantes. Ou seja, a planificação específica de cada encontro estava influenciada pelo trabalho do encontro anterior. No final de cada encontro, e em ocasiões também no meio, fazíamos uma roda para avaliar o trabalho que estava sendo realizado, para responder perguntas, colocar questionamentos, emitir opiniões. Isto permitiu que, dentro do marco metodológico geral, cada encontro realmente fosse influenciado pelo trabalho do encontro anterior. 3.1.1 Primeira oficina Começamos a trabalhar por três horas diárias de segunda-feira a sexta-feira. A média foi de oito participantes e no dia mais concorrido, que foi o primeiro, participaram 16 pessoas. Quase todos pertenciam à etnia Awajun, do norte da Amazônia peruana. Havia dois mestiços: 69 Pode se ver fotos e um vídeo da experiência em http://rodrigobenza.blogspot.com.br/p/teatro-interculturalunia-2011.html. 73 Daniel Diaz70 e a professora Haydeé. Também participaram parcialmente alguns estudantes shipibos. Deste grupo, quase todos estudavam o curso de Educação Fundamental Bilíngue (EPB). A oficina estava baseada em jogos, técnicas de improvisação, trabalho com histórias e, principalmente, na elaboração de máscaras a partir das quais se faria todo o trabalho de criação. A ideia de trabalhar com máscaras surge da vontade de partir do tema da identidade. A proposta era que cada participante criasse uma máscara a partir de um autorretrato simbólico que depois se converteria em personagem. Todo o processo criativo estaria mediado pela máscara. Queria trabalhar a partir das máscaras por três razões principais. A primeira é que a máscara é universal. Encontra-se presente tanto em rituais quanto em jogos ao redor de todo o mundo. A segunda é que a máscara permite que o ator se sinta, em certa forma, protegido para fazer coisas que talvez não fizesse com o rosto descoberto. O terceiro motivo é que queria fazer um trabalho que se afastasse de uma representação naturalista. Infelizmente não conseguimos fazer o trabalho cênico com as máscaras porque tivemos que encerrar a oficina por conta da diminuição do número de participantes. Este momento coincidiu com o processo de matrícula para o semestre letivo e o início das aulas. Durante as três semanas que durou esta oficina, os participantes mostraram vontade e entusiasmo, mas também se evidenciaram problemas como pobreza e falta de alimentação que já foram explicados. Gostavam do trabalho coletivo, eram muito solidários e tinham um grande desejo de compartilhar seus conhecimentos. Às vezes era difícil me explicar, principalmente pelo problema da língua, mas, mesmo assim, e apesar da interrupção do processo, considero que as conquistas foram significativas. 3.1.2 Segunda oficina Fizemos um novo convite para outra oficina, na qual participaram alguns dos estudantes da primeira e se incorporaram novos estudantes de diferentes grupos étnicos e diferentes cursos da Universidade. Como as aulas já tinham começado, houve mais variedade tanto étnica quanto de cursos, assim como maior número de participantes. No dia que teve mais 70 Daqui em diante: Daniel. 74 participantes, contamos com 26 estudantes, dos quais 13 participaram da apresentação final. O grupo étnico mais representado continuava sendo o Awajun, seguido pelos participantes mestiços, mas também havia a participação de estudantes das etnias Wampis, Tikuna, Shawi, Aymara, Asháninka e Shipibo. E apesar da grande maioria continuar sendo do curso de EPB, também havia participantes dos outros três cursos da Universidade. Esta variedade dos participantes permitiu que a oficina de teatro fosse um espaço de intercâmbio e exploração intercultural para os próprios estudantes. Nesta oficina continuamos trabalhando com histórias, jogos e improvisação a partir dos temas de interesse dos participantes. Estes foram focando, paulatinamente, nas suas experiências como estudantes de uma universidade intercultural. Esta segunda oficina, que também durou três semanas, culminou com uma apresentação pública no auditório da Universidade da peça ¿Y tú? (E você?), criada pelos 13 estudantes que participaram desta apresentação, e que partia das próprias percepções e preocupações dos participantes tanto do seu centro de estudos quanto do que eles percebem que acontece no país. 3.1.3 Histórias Em ambas as oficinas, todos os participantes passaram pela experiência de contar pelo menos uma história real ou inventada, mas sempre escolhida por eles mesmos. Para Jan Cohen-Cruz o ato de contar uma história pessoal possui um grande potencial social porque tem a capacidade de colocar, inclusive o individuo menos poderoso, em uma posição proativa, de sujeito. Para ela, cada um de nós é um especialista sobre a própria vida e o fato de ter a possibilidade de falar sobre ela, sendo escutados, ganhando a atenção e o respeito dos ouvintes, já é um ganho para os participantes (COHEN-CRUZ, 2006, p.13). Desta forma, de acordo com Cohen-Cruz, pode-se dizer que o fato de compartilhar histórias permite o desenvolvimento de um diálogo real, onde todas as pessoas se colocam no mesmo nível de conhecimento, porque ninguém conhece sua história tanto quanto quem a contou, e onde a razão, a argumentação, o debate racional, não são necessários. Nesse sentido, experimenta-se um diálogo muito diferente do que estamos acostumados na vida cotidiana. 75 Durante a primeira oficina, pedi aos participantes que trouxessem histórias dos seus ancestrais. Estas podiam ser verdadeiras ou inventadas. A maioria trouxe histórias que aprenderam de pequenos como aquela na qual o veado desafia a tartaruga para uma corrida e a trata com muita soberba. No dia da corrida, cada vez que o veado chegava no topo de um morro, via que a tartaruga estava na frente dele. A tartaruga havia chamado seus familiares, que haviam se distribuído pelo caminho da corrida. No final o veado chega na meta e morre por causa do esforço. O participante que contou esta história era de origem Awajun e utilizou pedras para mostrar as montanhas pelas quais estava se dando a corrida. Uma das coisas que os participantes mais valorizaram era que as histórias carregavam mensagens que podiam servir na vida cotidiana. Em um dos encontros trabalhamos brincando com distintos objetos. A proposta de brincar como crianças fez com que os participantes se lembrassem de histórias de infância, de como eram bagunceiros, de como brincavam nus no rio, pintando seus corpos com barro. Um deles contou que ficava no riacho tomando banho até que a mãe dele o perseguia com um pau para ele voltar para casa. Outro contou que quando seus pais o perseguiam, ele se escapava escalando árvores. Outro, que um dia estava tentando coletar minhocas para pescar, mas mal aparecia uma, os patos a comiam. Essa história fez outro dos participantes se lembrar que quando era criança não gostava de usar roupa e sempre andava nu. Um dia estava procurando minhocas para pescar e chegou um pato grande que mordeu seu pênis achando que era uma minhoca. Contar as histórias não foi fácil para muitos dos participantes, pela falta de domínio da língua. Algumas vezes utilizavam sua língua, mas, como sabiam que a maioria não entendia, preferiam fazê-lo em espanhol. Mesmo assim, surgiram histórias muito interessantes da infância deles, lendas dos seus povos, histórias de viagens, de descobertas, etc. Algumas das histórias se encontram no apêndice B. 3.1.4 Jogos Segundo Jean Pierre Ryngaert (2009, p. 36) “o jogo teatral é particularmente suspeito em razão de operar em uma zona intermediária entre o sonho e a realidade e por recorrer, de forma implícita, às fantasias”. A capacidade e necessidade de jogar, de brincar, é natural no 76 ser humano e pode encontrar-se em todas as culturas da terra (PRENTKI, 2011, p. 188). Segundo Tim Prentki (2011, p. 188), “é através do jogo que aprendemos a viver como seres sociais e através da brincadeira que começamos a exercitar nossa imaginação, através das interações entre o que é e o que poderia ser”. O jogo, inclusive, pode ser considerado como um caminho de formação da cultura. Segundo Roger Caillois (1986, p. 107) em 1938, Johan Huizinga afirmava que “o jogo é liberdade e invenção, fantasia e disciplina ao mesmo tempo. Todas as manifestações importantes da cultura estão traçadas nele”. Apesar de que a afirmação de Huizinga é discutível, e, de fato, Caillois a discute, existe um consenso com respeito a que determinados jogos e o fato de serem jogados na infância contribuem para a formação das pessoas e, portanto, das sociedades. A partir do princípio de que o jogo é uma “fonte de alegria e diversão” (CAILLOIS, 1958, p. 15), para Caillois (p. 21-22) o jogo deve ser uma atividade: • Livre: se alguém fosse obrigado a jogar, o jogo perderia sua natureza de diversão; • Separada: tem limites espaciais e temporais específicos • Incerta: Não pode se conhecer o resultado o qual se atinge de acordo com o realizado pelo jogador • Improdutiva: O jogo não cria bens transmutáveis para a vida cotidiana • Regulamentada: Submetida às próprias regras do jogo • Fictícia: existe uma consciência de que não é parte da “vida cotidiana”. Estas características estão muito presentes quando se fala sobre o jogo no contexto teatral. O teatro e o jogo são praticamente inseparáveis. De acordo com Sandra Chacra (1983, p. 49) “há um impulso que é inerentemente parte da personalidade do comportamento do homem: é o impulso de dramatização”, e isto, segundo a autora, pode ser observado tanto nos rituais dos homens primitivos quanto nas brincadeiras e jogos das crianças. Os jogos desenvolvidos na vida cotidiana, principalmente por crianças, são conhecidos como jogos dramáticos. Para Peter Slade (1978, p. 17-18), “o jogo dramático é uma parte vital da vida jovem. Não é uma atividade de ócio, mas antes a maneira da criança pensar, comprovar, relaxar, trabalhar, lembrar, ousar, experimentar, criar e absorver. O jogo é na verdade a vida”. Este jogo, não busca fazer uma representação nem mostrar algo para uma audiência, mas é um jogo de 77 transformação no qual a criança e todos ao redor encontram-se envolvidos. É o jogo quando, por exemplo, a criança se transforma em seu herói favorito, ou brinca que está cozinhando e jantando com seus bonecos. Este jogo pode ser desenvolvido tanto de forma individual quanto grupal. Segundo o próprio Slade (1978, p. 18), duas são as características mais importantes neste jogo: absorção, ou seja, estar totalmente envolvido na atividade realizada, e sinceridade total na “representação” do papel. Existe outra acepção de jogo dramático que provêm de uma tradição francesa. Para Flavio Desgranges (2006, p. 95) o jeau dramatique é “uma atividade grupal, em que o indivíduo elabora por si e com os outros as criações cênicas, valendo-se das apresentações no interior das oficinas como um meio de investigação e apreensão da linguagem teatral”. Esta definição de jogo dramático, diferentemente da abordagem de Slade, é mais próxima à do jogo teatral. Na perspectiva pedagógica do ensino de teatro, a utilização de jogos é frequente e utilizada por muitos autores. Neste contexto, a estadunidense Viola Spolin criou o sistema de jogos teatrais para desenvolver tanto o aprendizado do teatro como para que professores de diferentes matérias possam encontrar caminhos de trabalho com seus alunos. Ingrid Koudela (2008, p. 22) descreve os jogos teatrais como aqueles que “são baseados em problemas a serem solucionados. O problema é o objeto do jogo que proporciona o foco. As regras do jogo teatral incluem a estrutura dramática (Onde / Quem / O Que) e o foco, mais o acordo do grupo”. Este sistema parte do princípio de que as regras dos jogos consistem em um espaço para desenvolver a liberdade dos participantes, já que as ditas regras geram confiança e desenvolvem sua criatividade. Para Spolin (2005, p. 19) “não há um modo certo ou errado de solucionar o problema, e [...] a resposta para cada problema está prefigurada no próprio problema”. Nesse sentido, os participantes são livres de resolver o objetivo do jogo como cada um considere melhor, sempre e quando fiquem dentro do problema proposto pelo jogo. Isto permite, segundo Spolin, que os alunos possam ser eles mesmos, já que ninguém estará julgando a forma como cada um aborda o dito problema. Maria Lucia Pupo, a partir de uma experiência em Marrocos, apresenta pontos em comum entre o jogo dramático na acepção francesa e o jogo teatral: 78 Jogo dramático e jogo teatral constituem modalidades de improvisação cercadas por regras precisas. O jogador é convidado a formular e a responder a atos cênicos, mediante a construção física de uma ficção – espaço, gestualidade, dicção, etc. – dentro de relações produzidas aqui e agora com seu parceiro, construção na qual também intervêm elementos aleatórios. (PUPO, 2005, p. 24). Pupo (2005, p. 24) adiciona cinco características comuns a ambas as práticas: não têm prérequisitos nem precisam de talento; o desenvolvimento da capacidade de jogo a partir da comunicação teatral e o crescimento do participante são avaliados pela plateia constituída pelos próprios jogadores; “excluem a ilustração de histórias ou temas previamente eleitos”; possibilitam que desejos, situações e temas próprios dos participantes surjam no jogo; permitem que o envolvimento e motivação do grupo sejam definidos por ele próprio. Por seu lado, para o diretor brasileiro Augusto Boal os jogos sempre foram muito importantes. Apesar dele não teorizar muito sobre eles, seu aporte na utilização dos jogos para distintos processos teatrais, principalmente no Teatro do Oprimido (TO), é muito relevante. Seu sistema de trabalho inclui sempre a prática de jogos que adquirem diferentes funções ao longo dos trabalhos. Boal não deixa clara a origem dos jogos nos seus livros, mas argumenta que são jogos recolhidos de diversas fontes, muitos deles trazidos pelos participantes de suas oficinas ao redor do mundo. De acordo com Boal, os jogos podem ser úteis para todos os praticantes de teatro (2000, p. 87-88) e, de fato, apesar de que a experiência na UNIA não tinha relação específica com o TO, a maioria dos jogos utilizados podem ser encontrados nos seus livros. Um dos principais objetivos destes jogos é contribuir à luta do corpo contra o mundo já que, para Boal (2000, p. 89), os sentidos (tato, ouvido, vista) se atrofiam para se adaptar ao trabalho específico que cada um realiza para viver. Nesse sentido, segundo o autor, através destes jogos o corpo é “reharmonizado”. Um princípio do trabalho com jogos de Boal e que é particularmente relevante para este trabalho é que não existe uma forma certa de fazer as coisas. Descrevendo jogos para “tornar o corpo expressivo”, Boal afirma o seguinte: Nos jogos deste tipo o importante não é “acertar”; o importante é fazer com que todos os participantes se esforcem para expressar-se através de seus corpos, coisa que não estão acostumados. Ainda que se cometam todos os erros imagináveis, o 79 exercício será igualmente bom se os participantes tentarem se expressar fisicamente, sem o recurso da palavra. Deste modo, e sem que se deem conta, estarão “fazendo teatro”... (BOAL, 2010, p. 196) Este princípio pode se aplicar a qualquer tipo de jogo utilizado na oficina teatral, já que a importância de sua utilização é a experiência do participante e do grupo, mais do que atingir uma meta específica. Os jogos foram a base do trabalho na UNIA e como durante a prática não se fez uma diferença entre jogo dramático e jogo teatral, me referirei a eles simplesmente como jogos. O aprendizado dos jogos foi o elemento da oficina mais valorizado pelos participantes. Para muitos deles, principalmente para os que estão estudando nos cursos de educação, aprender jogos foi muito importante porque eles poderão utilizá-los com as crianças na sua prática profissional nas comunidades. Inclusive, alguns deles, que estavam fazendo estágio, já estavam jogando com seus alunos e estavam contentes com os resultados. A utilização de jogos na oficina de teatro é muito útil e produtiva, principalmente porque o jogo é acessível para todas as pessoas, sejam estas adultas ou crianças, e com ou sem experiência (BOAL, 2000; SPOLIN, 2005; RYNGAERT, 2009;)71. Para Tim Prentki e Jan Selman (2000, p. 124) Jogos dramáticos e jogos teatrais fazem referência a uma ampla variedade de exercícios dramáticos que são designados para motivar distintos tipos de desenvolvimento individual e grupal. Normalmente são usados em aulas de drama e nos primeiros encontros dos processos de desenvolvimento em comunidades. São particularmente úteis para gerar energia, diversão, segurança, foco e dinâmicas colaborativas. Quando Chris Jhonston conheceu o sistema de trabalho com jogos sentiu que estes desenvolviam catalisadores muito naturais para o trabalho teatral: fisicalidade, fruição e capacidade de brincar: “O prazer era o impulso para chegar ao movimento, o diálogo, a interação. Havia muitas risadas. O trabalho era acessível e vivaz, e a bagagem teórica, leve o suficiente como para carregá-la” (JHONSTON, 1998, p. ix). 71 Estes autores compartilham este princípio apesar de ter práticas muito diferentes entre si. 80 Os jogos geram um marco de trabalho, um objetivo a ser alcançado, têm regras que norteiam a criação. Por exemplo, “o sistema de Jogos Teatrais se fundamenta no jogo regrado, sendo que as regras estabelecidas têm por único objetivo libertar a espontaneidade. O jogo teatral é ilimitado por sua própria natureza” (KOUDELA, 2009, p. 49-50). No processo na UNIA, quando as indicações eram claras e concretas, o jogo tinha fluidez, mas quando as regras eram muito gerais ou difusas, buscando que os participantes criem com maior liberdade, o trabalho era mais difícil. Muitas vezes a liberdade paralisa. O importante das regras do jogo é que estas não constituem uma imposição, mas um acordo do grupo, e isto faz com que o jogo seja realizado com prazer e liberdade. Como afirma Viola Spolin (2005, p. 6): Sem uma autoridade de fora impondo-se aos jogadores, dizendo-lhes o que fazer, quando e como, cada um livremente escolhe a autodisciplina ao aceitar as regras do jogo (“desse jeito é mais gostoso”) e acata as decisões de grupo com entusiasmo e confiança. Sem alguém para agradar ou dar concessões, o jogador pode, então, concentrar toda sua energia no problema e aprender aquilo que venho a aprender. Ao longo das oficinas realizamos jogos de integração, formação do grupo, de confiança, improvisação, utilização de objetos, criação de cenas, utilização do corpo e da voz. A maioria dos jogos utilizados nas oficinas podem ser encontrados no livro Jogos para atores e nãoatores de Augusto Boal (2000). Também utilizei alguns jogos do sistema de Viola Spolin, outros foram aprendidos na minha formação, desenvolvidos na minha própria prática e em trocas com outros professores. 81 Figura 2 Jogo: O mosquito Figura 4 Jogo de confiança Figura 6 Jogo: Transformação do objeto Figura 3 Jogo: Seguir o líder Figura 5 Jogo de confiança Figura 7 Jogo: Ação - reação 82 3.1.5 A máscara e o jogo: Caminhos de conhecimento pessoal72 O trabalho de criação das máscaras desenvolvido ao longo da primeira oficina e alguns dos jogos realizados geraram um espaço lúdico e relaxado para que o participante crie a partir dele mesmo e, ao mesmo tempo, se permita mostrar ao grupo algumas das suas características pessoais e culturais. Como diz Ryngaert (2009, p. 41), “o jogo coloca-se [...] como uma experiência sensível fundadora do desenvolvimento do indivíduo em sua relação com o mundo, no âmago do campo cultural”. 3.1.5.1 A máscara O processo de criação das máscaras guiado pelo artista plástico Jorge Caparó (Capa)73 era, de alguma forma, introspectivo, na medida em que as máscaras feitas pelos participantes partiam de um autorretrato simbólico74. Com a máscara pronta, os participantes criaram seu mapa de vida75, que consistia em, além de colocar o nome da máscara, escrever ou desenhar, em três folhas separadas, as seguintes questões sobre ela: 1.- De onde vem? 2.- Quem é hoje e quais são seus sonhos? 3.- Qual será seu futuro? Para alguns dos participantes as questões não foram claras. Percebi que é difícil entender a diferença entre os sonhos, que fazem parte da pergunta sobre o presente, e a pergunta sobre o futuro. Mesmo assim, surgiram personagens muito interessantes e complexos76. Por exemplo, o nome de uma das máscaras era Bukea e seu mapa de vida, tinha os seguintes textos: 72 Os jogos descritos nesta parte são parte da minha prática há vários anos e não lembro exatamente sua origem. Capa esteve durante o primeiro mês da experiência e se encarregou das oficinas de artes plásticas tanto deste projeto quanto dos realizados nos anos 2006 e 2007 descritos na introdução. 74 O autorretrato simbólico é um desenho que os próprios participantes fizeram deles, mas utilizando sua imaginação. O objetivo não é fazer uma cópia do rosto, mas uma interpretação imaginada deles mesmos. 75 O mapa de vida é uma das técnicas fundamentais do grupo Ventoforte e “representa um instrumento para o desenvolvimento das histórias criadas e de seus personagens. Em geral, são propostos três mapas: o que representa o personagem antes de nascer; o que representa seu presente, incluindo seus sonhos; e o mapa do futuro. Os mapas são os caminhos dos personagens, seu passado mítico, seu presente e seu futuro”. (NOGUEIRA, 2008, p. 124). 76 Ver o apêndice C para ver os mapas de vida. 73 83 Figura 8 Bukea Página 1: Bukea mora na floresta Página 2: Bukea é um animal noturno. Mora onde há árvores grandes, maderables77. Pai da floresta. Cuida do meio ambiente. Página 3: Seu sonho de hoje é procurar problemas para solucioná-los, e quer estar sozinho, sem barulho e sem inimigos. Página 4: Agora é o dono do bosque. É perigoso. Não tem asas, caminha no ar. QUEM VAI SER NO FUTURO? Dono da selva. Proteger de contaminação a floresta, o ar, as ravinas. O participante que fez Bukea era o mais novo do grupo Awajun. Era muito calado (não dominava bem o espanhol), mas participava com entusiasmo e responsabilidade nas oficinas. Outra máscara se chamava El jaguar. Seu mapa de vida também combinava texto com desenhos: 77 As árvores maderables são as que servem para a exploração de madeira. 84 Figura 9 El jaguar Página 1: Vem da floresta – faz frio – é pantanoso – é morro – gosta do rio. Página 2: Gosta de formar uma família – será uma pessoa generosa – adora cantar – será um professor – quer viver em paz – ser liderança do seu povo. Página 3: Será um animal sábio que protegerá aos animais da floresta – Colocará suas forças na frente do perigo de contaminação – será gentil com os outros seres vivos – será advogado de direitos – quer ser doutor em pedagogia – será cirurgião. O participante que criou a máscara era um dos mais ativos e, depois de conviver com ele por dois meses pude perceber que sua bondade e generosidade vão acompanhadas de uma forte agressividade contida. Os Awajun são um grupo étnico tradicionalmente guerreiro e, apesar de serem sossegados no cotidiano, podem também ser muito agressivos. Em geral, as características das máscaras tinham relação com as características do participante. Por exemplo, o sonho da máscara El músico era ser um grande músico, mas tinha medo do público. O participante que a criou era um apaixonado da música e sempre levava sua quena (flauta andina). Outro dos participantes, que é enfermeiro e trabalhou em temas de 85 prevenção de AIDS nas comunidades shipibo criou uma personagem que era uma árvore que em harmonia com a natureza curava os homens. Um elemento que surgiu em três dos mapas de vida foi o diabo, ou o demônio, e a vontade de assustar as pessoas. 3.1.5.2 Transformação em animal ou planta Quando ministro oficinas, gosto de fazer o jogo de se transformar em animal ou planta. Quando fazia esse trabalho com meus alunos da universidade na cidade de Lima, geralmente os resultados eram bastante pobres. Os alunos, salvo algumas exceções, tinham muito pouca precisão na representação do animal ou planta e quando perguntava em que espécie haviam se transformado, já recebi respostas como “a árvore que está na frente da minha casa”, mas não conseguiam identificar a espécie nem as caraterísticas. Na Amazônia o contato com a natureza permite que os participantes tenham referências e modelos mais específicos, e que possam realizar uma transformação mais precisa justamente porque têm maior convivência com os elementos da natureza. Realizamos este jogo durante a primeira oficina. Fomos para um jardim e, apesar dos problemas (como formigas), a conversação posterior revelou coisas muito interessantes. Dois dos participantes se transformaram em pelejos (bicho preguiça) porque se identificavam com sua lentidão. Um deles adicionou que sua sobrevivência era mais e mais difícil porque cada vez tinha menos comida. Outra participante transformou-se numa árvore de manga porque seus frutos alimentam e são bons para as pessoas. Identificou-se com a árvore porque ela é mãe. Outro transformou-se numa Capirona78 porque é uma árvore grande e forte. Outro foi um cão porque cuida das mulheres quando estas vão para a chácara. As representações, principalmente as dos animais, eram bastante claras e era fácil, em geral, identificar o animal no qual haviam se transformado. Na conversa após do jogo, todos podiam mencionar características específicas do animal ou planta na qual haviam se transformado que, geralmente, estavam relacionadas com aspectos ou preocupações de sua vida. 78 Calycophyllum spruceanum. No Brasil é conhecida como árvore Mulateiro 86 3.1.5.3 Complementar a ação Outro jogo particularmente interessante foi o de complementar a ação. Neste jogo, um participante sai e começa a fazer uma ação muito simples como pescar. O primeiro que identifique a ação que está sendo realizada, sai para complementá-la, por exemplo, como peixe lutando contra o pescador ou como ajudante. Utilizei esta situação para exemplificar o jogo. Todo aquele que encontre uma ação para complementar pode entrar. Este jogo mostra com muita clareza o contexto dos participantes, porque as ações realizadas partem diretamente de situações conhecidas por eles. Eles fizeram uma cena de caça, de cortar uma árvore, de pesca com rede, de uma escola e de um militar. Todas as situações foram identificadas rapidamente e quase todo o grupo entrava para complementar a ação. O interessante é que, apesar de entrarem juntos, cada um realizava uma ação complementar diferente. Na situação de caça, por exemplo, um cortava o animal, outro tirava a pele, outro acendia o fogo para cozinhá-lo, etc. Aliás, faziam todas essas ações com muita precisão. Outro elemento interessante, e que fala muito do grupo, é que quase sempre entravam para se ajudar. Por exemplo, Daniel propôs um velho que levava uma carga muito pesada. Robert e Reyner entraram para ajudá-lo. Quando o velho quis pagar-lhes, não aceitaram. 3.1.5.4 Se transformar em som Outro jogo importante foi o de se transformar em som. De olhos fechados, os participantes devem tentar escutar todos os sons ao seu redor. Depois escolher um e começar a imitá-lo. Procurar um corpo para esse som e, finalmente, criar um personagem a partir desse som. A parte de criar o personagem não funcionou muito bem, mas o trabalho foi muito rico porque a partir dos sons, eles conseguiam expressar coisas próprias e pessoais. Elias, por exemplo, transformou-se em um trator: “Quando ouvia o barulho do motor, sentia-me aborrecido porque não estava acostumado a estar assim, e queria estar num espaço livre, tranquilo, e 87 estando aqui eu sentia que não tinha comida, não tinha espaço o suficiente para estar tranquilo” (informação verbal)79. Alver virou pássaro: Depois de nos concentrarmos, escolhemos que tipo de animal você é. Então, nesse momento, em pleno sol desta tarde, o pássaro se sente cansado, então se senta numa árvore onde tem sombra e começa a cantar. Procura pela sua comida. Então decidimos ir para outro lugar para procurar mais alimentos porque estamos sem comida. (informação verbal)80. Franguine se concentrou em um grilo: Eu me concentrei no som de um grilo, que é o som que sai, algo especial: trs, trs. Faz isso porque sente que está sozinho, porque não tem um parceiro para lhe responder. Porque sente que é o único que está ali e neste pleno sol às vezes se sente triste. [...] E isso também me fez refletir porque muitas vezes como pessoas, se não contamos com os companheiros, se não têm interesse em dialogar conosco, [...] seguramente sente isso. Imitei, imitei o som do grilo e me converti ao mesmo tempo em grilo. (informação verbal)81. Neste jogo, não alcançamos os objetivos técnicos, mas a experiência foi muito rica e significativa justamente pela profundidade da vivência por parte dos participantes. No caso de Elias e Alver, como se pode perceber, o tema da falta de comida é significativo e, como já coloquei, é um elemento presente no seu cotidiano. Franguine, por seu lado, traz o tema da solidão e da tristeza, que também é parte do seu cotidiano. O que é mais importante no jogo, o desenvolvimento técnico ou o ganho pessoal? Que os participantes adquiram o domínio técnico para virar atores ou que a experiência contribua nas suas vidas? Nos jogos na oficina teatral o objetivo não está em vencer o outro, ser o mais rápido, ou ser o melhor. Está na diversão e no que o jogo, de acordo com seu objetivo específico, possa gerar em cada um dos participantes e no grupo. 79 Intervenção de Elías Chamik durante a oficina, em Pucallpa, em setembro de 2011. “Cuando escuchaba el sonido del motor, se sentía aburrido porque no se ha acostumbrado a estar así, y quería estar en un espacio libre, tranquilo y estando acá me sentía que no tenía comida, no tenía suficiente espacio para estar tranquilo”. 80 Intervenção de Alver Nijigkus durante a oficina, em Pucallpa, em setembro de 2011. “Después de concentrar elegimos qué tipo de animal eres. Entonces, en este momento, en pleno este sol esta tarde, pájaro siente cansado, entonces sienta un árbol donde tiene sombra y empieza a cantar ¿no? Buscando su comida. Entonces decidimos ir en otro lugar a buscar más alimentos para nosotros porque estamos sin comida”. 81 Intervenção de Franguine Paati durante a oficina, em Pucallpa, em setembro de 2011. “Yo concentré en sonido de un grillo que eso es lo que sale, algo especial trs, trs. De eso porque se siente que es solito porque no hay otro compañero que le conteste ¿no? Porque único que está ahí, y en ese pleno sol a veces se siente triste. […] Y eso también me ha hecho reflexionar porque muchas veces, como personas, si no contamos con nuestros compañeros y si no nos hacen interés de dialogar con nosotros, […] seguro eso lo sentí. Lo imité, imité el sonido del grillo y le convertí al mismo tiempo en grillo.” 88 Além dos jogos que propunham regras claras, objetivos e uma estrutura dentro da qual se desenvolvia o jogo, realizamos muito trabalho de improvisação direcionado à criação livre de cenas a partir de temas comuns e outros estímulos. 3.1.6 Improvisação Sobre o trabalho com jogos de improvisação, para Flavio Desgranges (2010, p. 88), este possibilita que os participantes exprimam, de diferentes maneiras, os seus pontos de vista, fomentando a capacidade de manifestarem sensações e posicionamentos, tanto no que se refere ao microcosmo das suas relações pessoais, quanto no que diz respeito às questões da sua comunidade, do seu país e do mundo. Além de constituir-se em uma atividade que propõe o desenvolvimento do olhar crítico, pois, durante o processo, os integrantes são incentivados a estar atentos aos nós das questões, a lançar “porquês” às situações apresentadas: por que isto é assim? A improvisação permite que os participantes criem a partir deles mesmos e desenvolvam a capacidade de viver e agir no presente, de se envolver no momento presente, desde que “a improvisação só pode nascer do encontro e atuação no presente, que está em constante transformação. O material e substância da improvisação de cena não são trabalhos de uma única pessoa ou escritor, mas surgem da coesão de um ator atuando com outro” (SPOLIN, 2005, p.18). Improvisar não é fácil. Requer coragem, confiança em si mesmo e no parceiro, capacidade de escuta e muita entrega para poder propor e reagir aos estímulos dos companheiros de cena. Alguns dos participantes, como Daniel, reconheceram que era bom sentir essa pressão que te obriga a agir rápido: “poder improvisar ou fazer qualquer coisa, qualquer teatro, assim, improvisado, ou seja, do nada, sem pensar duas vezes sair e fazer o que cada um pensa no momento e sair para fazê-lo. É legal porque o fazes sem pensar duas vezes” (informação verbal)82. Nos jogos descritos anteriormente, e outros, os participantes realizavam improvisações com regras. O que guiava a improvisação era a regra do jogo. Porém, também foram feitas improvisações que partiam de um tema ou de situações, por exemplo: representar algum aspecto da sua vida cotidiana; a partir de objetos, sons, dentre outros. Estas improvisações 82 DIONISIO, D. 2011. 89 apresentavam um formato bastante naturalista porque, em geral, os temas partiam do seu cotidiano. 3.2 CRIAÇÃO DE CENAS: ENTRE A FICÇÃO E A REALIDADE Para Chris Johnston (1998, p.10), o drama tem um caráter de celebração no qual os sonhos podem ser exteriorizados, reconhecendo que, abaixo da superfície, todos temos aspirações e fantasias que não encontram formas de serem expressas na vida cotidiana. A censura e o medo de tornar-se ridículo são grandes, assim como a impossibilidade de mostrar-se vulnerável. Muitas vezes, no trabalho através da ficção surgem coisas que não haviam sido pensadas, coisas que fazem parte de cada um, mas que não eram possíveis de serem exteriorizadas. Segundo Helen Nicholson (2005, p.66), ao fazer com que as fronteiras entre o real e a ficção sejam difusas, gera-se um espaço seguro para que os participantes transformem suas experiências em metáforas ou para encontrar pontos de encontro que são apresentados teatralmente. Para ela, nesta justaposição, podem surgir novos entendimentos. A ficção tem esse poder de gerar um distanciamento no qual, como afirmam Prentki e Selman (2000, p. 101), pode-se dizer o indizível e graças ao poder de simbolização e da metáfora, pode-se entrar em terrenos perigosos sejam estes emocionais, sociais ou políticos. Segundo Phillip Taylor (2003, p.82), este “marco de referência distanciado” consegue fazer com que, através do uso da analogia, possa se lidar com cenas dolorosas, podendo fazer um paralelo com a vida real através de uma “observação indireta”. Márcia Pompeo Nogueira desenvolveu uma pesquisa sobre o trabalho do grupo Ventoforte. Em uma das experiências do grupo trabalhando com meninos de rua, foi pedido que contassem duas histórias: uma real e outra inventada. A história real de um dos meninos, que tinha seis anos, era sobre o circo, os acrobatas, os palhaços. Sua história inventada era sobre um menino que vendia uma flor no semáforo. Como estava com muita fome, comeu a flor, os espinhos machucaram-no e saiu muito sangue (NOGUEIRA, 2008, p.103). A história da flor falava bem mais sobre a realidade do menino do que a história do circo, mas se lhe houvessem pedido para falar sobre a fome, talvez, nada houvesse sido dito. Este é um exemplo de como através da ficção, às vezes, pode-se falar mais sobre a própria realidade que tentando descrevê-la. 90 O elemento ficcional na oficina aconteceu com mais intensidade no trabalho voltado para o conhecimento pessoal como no momento de criação de máscaras ou o trabalho de transformação em animal ou planta, e teve um grande significado na constituição do grupo. Entretanto, mesmo nas situações mais próximas do cotidiano deles, podemos identificar elementos ficcionais no sentido proposto por Barbara Hardy (1997, p. 12) para quem a narrativa é um “ato primário da mente transferido para a arte desde a vida”. Assim, todas as histórias, inclusive as mais fantásticas, têm um ponto de partida na própria vida e, ao mesmo tempo, ao contar uma história, mesmo quando é real, esta já tem um caráter de ficção. Eu conto o que me lembro do que aconteceu a partir de um ponto de vista particular, escolhendo quais momentos são mais importantes e dando ênfases diferentes a determinadas situações. 3.2.1 Criação de cenas na oficina Como já foi mencionado, a criação teatral foi a base desta experiência. Em geral, pôde-se reconhecer nessas criações, ao longo de ambas as oficinas, temas de interesse dos próprios participantes e uma forma de representar seu próprio contexto. O motivo pelo qual gosto de trabalhar a partir da criação dos participantes e não de um tema escolhido é porque uma das coisas mais importantes deste tipo de trabalho é gerar um espaço de expressão dos temas de interesse deles mesmos, e oferecer um caminho para ele. No contexto intercultural isto é particularmente importante porque muitas vezes os problemas de comunicação têm início no pressuposto, ou no preconceito, de uma ou ambas as partes que estão participando deste encontro. Nesta experiência, pude comprovar este princípio. Eu planejava trabalhar sobre a identidade intercultural e os conflitos dos participantes indígenas ao se encontrarem com o mundo ocidental. Mas, no trabalho constatei que nesse momento da vida dos participantes, além das suas identidades culturais, sua identidade de estudantes universitários era muito importante. Era o que os identificava, o filtro através do qual experimentavam a vida, era o marco dentro do qual experimentavam o deslocamento, a discriminação, a solidão, a tristeza, a esperança, o esforço e, inclusive, a identidade intercultural. Talvez, se eu tivesse chegado com uma proposta temática ou com um texto para ser encenado, não tivesse sido possível desenvolver este aspecto tão importante para os próprios participantes. Agora, o fato de gerar o espaço para trabalhar os temas de interesse dos participantes não quer dizer que não podem se propor caminhos para a criação. Desde o início da primeira oficina houve momentos em que eles deviam criar cenas em grupos. Para esses momentos, eu 91 colocava um tema ou situação para enquadrar o trabalho criativo. Uma das primeiras teve como premissa mostrar um momento ou situação da sua vida cotidiana. Na medida em que avançava o trabalho, as indicações nasciam dele mesmo. Já na segunda oficina, optei por dividi-los por culturas e lhes pedi para que criassem cenas representando sua cultura. Isto só foi possível com os grupos awajun e mestiço83 porque havia poucos participantes dos outros grupos. Quase ao final do processo, ao perceber que o tema da interculturalidade estava muito presente, propus que se dividissem em grupos de diferentes culturas e pedi-lhes para representarem o que é interculturalidade para eles. As cenas criadas revelaram muitos aspectos dos participantes e nelas mostravam principalmente três temas: A identidade cultural, a discriminação e a interculturalidade. 3.2.1.1 Cenas sobre identidade cultural A nossa identidade é formada por múltiplos elementos dinâmicos que vamos adquirindo na vida, enquanto outros desaparecem, cobram protagonismo ou ficam em um segundo plano. Segundo Amin Maalouf (2007, p. 18-19), “todas as experiências e sentidos que damos aos diferentes aspectos da nossa vida (religião, língua, atividade laboral, etc.) configuram nossa identidade. Mas esta muda no tempo de acordo com nossas próprias vivências.” Sobre este aspecto, para Luis Mujica (2007, p. 14): Cada pessoa que diz ser parte de uma comunidade pode participar – e de fato participa - em visões do mundo, costumes, regras de comportamento, gostos artísticos e culinários, crenças e formas de viver. Todos estes elementos mudam com o tempo e com as relações sociais que se estabelecem. Agora, quando falamos em identidade cultural, pode-se afirmar que esta é formada em oposição à dos outros grupos com os quais se está em contato (CUCHE, 2002, p. 182). Neste sentido, “a identidade existe sempre em relação a uma outra. Ou seja, identidade e alteridade estão ligadas em uma relação dialética” (CUCHE, 2002, p. 183). Portanto, a relação com o outro, com o diferente é fundamental para a formação e a permanente transformação das identidades. Neste contato, a interculturalidade cobra sentido. 83 Apesar dos mestiços não constituírem uma cultura no sentido estrito, todos os participantes mestiços moravam na cidade de Pucallpa e tinham suficientes elementos em comum como para poder representar seus costumes ou “características culturais”. 92 Durante a experiência, conversei com muitos amigos indígenas e lhes perguntava qual era a essência (se existe uma) do ser indígena, qual é a diferença com os mestiços. A maioria dava respostas como “a língua” ou “a cultura”, mas não conseguia maior profundidade. Tanto a formação das identidades quanto a eleição dos elementos a serem mostrados, estão diretamente relacionados com o contexto e com as distintas formas de discriminação. Percebi que os participantes da oficina têm estratégias para poder sobreviver tanto na cidade quanto nas comunidades. Prefiro utilizar esses polos (comunidade – cidade) mais do que cultura ocidental e cultura tradicional já que, por um lado, todas as culturas tradicionais possuem uma forte influencia da cultura ocidental levada principalmente pela igreja, o sistema educativo, a televisão e outros meios de comunicação, e, por outro, são espaços geográficos opostos entre os quais transita a maioria dos participantes das oficinas. A forma que utilizam os jovens indígenas para sobreviver na cidade é a adaptação. Na cidade, eles adotam as formas e valores dos mestiços, como no caso de Robert: O que eu utilizo: calça, sapato, tudo... é dos mestiços. Então eu sempre digo: exteriormente sou mestiço. Por que? Pela vestimenta. Mas interiormente sou Awajun, pela minha língua. […] Quando estou numa cidade, não vivo como Awajun. Mas se onde vou estar, existe um grupo de mestiços, eu tenho que viver também como mestiço. [...] Mas quando vou no meu povo, já como comida da minha cultura, falo minha língua, faço atividades, ou seja, programo minga84, tudo isso (informação verbal)85. A professora Haydeé, confirma isto: “Desde o momento que [o estudante indígena] está na zona urbana e trabalha aí, estuda aí, não se sente mais parte desse mundo [do seu mundo de origem], até quando regressa para seu povoado, sua casa”86. Apesar desta adaptação que fazem para viver na cidade, os participantes indígenas das oficinas tinham muito carinho e respeito por seus costumes e sua cultura. Inclusive, alguns deles vêm a possibilidade de serem professores como um caminho para poder transmitir na escola os costumes ancestrais da sua cultura. Esta valoração cultural foi percebida por Jimmy, 84 A Minga é o trabalho coletivo nas comunidades UGKUSH, R. 2011. “Yo lo que uso: pantalón, zapato, todo… es de los mestizos. Entonces, yo siempre digo: ‘exteriormente yo soy mestizo’.. ¿Por qué? Por, por la vestimenta. Y pero interiormente soy Awajun por mi idioma. […] Cuando estoy en la ciudad, no vivo como Awajun. Pero si, si yo donde voy a estar, un grupo de mestizos, yo tengo que vivir como mestizo también. […] Pero yo donde me voy en mi pueblo, ya pues, como comida de mi cultura y converso mi, mi idioma y me voy a unas actividades, o sea, programo minga, todo eso.” 86 PANDURO, H. 2011. “Desde el momento que ya está en una zona urbana y trabaja ahí, estudia ahí, no se siente ya parte de ese mundo[de su mundo de origen] sino ya hasta cuando regresa otra vez a su pueblo, a su casa.” 85 93 estudante mestiço de engenharia: “a maioria gosta de ser realmente de onde são, não têm vergonha de dizer sua origem” (informação verbal)87. Sem embargo, ao mesmo tempo, todos os participantes indicam que têm colegas que negam sua origem indígena por vergonha. Em um dos encontros da segunda oficina, formou-se um grupo da cultura Awajun, um grupo de mestiços e um terceiro grupo com integrantes de diferentes grupos étnicos. O ponto de partida era representar sua cultura. O grupo Awajun apresentou uma cena em que um homem convida seus vizinhos para trabalhar na sua chácara. Todos aceitam. No dia seguinte chegam, bebem masato88 e trabalham a terra. No final do trabalho comem, bebem e dançam. Os Awajun mostraram como característica cultural o espírito de colaboração, o trabalho coletivo e recíproco e a celebração misturada com o trabalho, através de uma atividade tipicamente rural que é a limpeza da chácara. A cena toda foi realizada em língua awajun e, apesar disso, os mestiços a entenderam bem e conseguiram explicá-la. Os mestiços da amazônia, mesmo moradores da cidade, têm certo conhecimento sobre o que acontece no âmbito rural. Os mestiços apresentaram uma cena de preparação da festa de 15 anos de uma moça. Ela era muito mimada e exigia tudo de seus pais. Ela tinha visto na televisão que havia uma empresa que organizava festas e decidiu que queria isso para seus 15 anos. Os pais tinham muito dinheiro, falavam por celular, tinham carro com motorista. Eles fazem tudo o que a filha pede. A festa é um sucesso. A análise desta cena se focou no costume de celebrar os aniversários, principalmente dos 15 anos, já que as culturas indígenas não têm esse costume, e no amor que os pais tinham pela filha. John, estudante mestiço de engenharia, que foi um dos atores, mencionou que queriam mostrar como os mestiços utilizam a tecnologia: celulares e carro. Pode-se ver nesta cena o tema do dinheiro, da influência da mídia, da necessidade de ter status social, e a ênfase no individual. Tudo gira em torno dos desejos da moça, e não do coletivo. O terceiro grupo não podia fazer uma cena sobre sua cultura, já que eram de culturas diferentes. Eles criaram, livremente, uma cena sobre discriminação que será descrita mais adiante. 87 88 ACUÑA, J. 2011. “La mayoría se quieren realmente de dónde son, no tienen vergüenza de decir su origen.” Bebida alcoólica feita em base a mandioca fermentada. 94 A proposta inicial era justamente trabalhar a partir da identidade. Neste sentido, ao representar sua cultura, ao conhecer mais sobre outras culturas, ao contar histórias próprias, ao pesquisar temas importantes para cada um, ao lembrar jogos e histórias da infância (que aconteceu quando trabalhamos a partir de objetos), intrinsecamente, consciente ou inconscientemente, está se trabalhando a identidade. Porém, tão importante quanto propor um caminho para realizar o trabalho é estar aberto e atento às propostas do grupo e do próprio processo. Isto nos levou, quase naturalmente e principalmente na segunda oficina na qual havia uma maior variedade étnica, ao tema da interculturalidade. 3.2.1.2 Cenas sobre interculturalidade No contexto da oficina o conceito da interculturalidade estava muito presente não só porque estávamos em uma universidade intercultural e os participantes eram de distintas culturas, mas porque estávamos gerando um espaço de trabalho que gerava a reflexão e discussão sobre interculturalidade. No primeiro capítulo coloquei uma ideia de Juan Ansión (2007, p. 42) na qual se afirma que no contato intercultural, mesmo sendo violento ou injusto, produz-se aprendizado de ambas as partes. Um ponto interessante ressaltado por Ansión (2007, p. 42) é que a interculturalidade se refere a “situações de influências mútuas: aquelas nas quais os grupos culturalmente diferentes se vêm obrigados pelas circunstâncias a conviver, a compartilhar espaços geográficos e sociais comuns, de forma cotidiana, permanente, duradoura, intensiva”. Os participantes indígenas das oficinas tinham muito claro que interculturalidade devia ser o aprendizado de ambas as partes: eu aprendo do outro e o outro aprende de mim. Acho que a ênfase no termo aprendizado está relacionada com o fato de que, no contexto universitário, muitos estudantes indígenas sentem que seus conhecimentos não são valorizados. Portanto, se para eles interculturalidade é um aprendizado mútuo, isto evidencia que eles querem reafirmar que têm conhecimentos que podem ser aprendidos por outras culturas. Este tema foi parte fundamental da peça criada. Outra característica da interculturalidade, para eles, é que é um conceito oposto ao da discriminação. Quem discrimina não pratica a interculturalidade. Principalmente na segunda oficina, a variedade cultural dos participantes teve um grande impacto no grupo. A Universidade, apesar de albergar estudantes de distintas culturas, 95 dificilmente promove atividades de integração e troca de conhecimentos. A oficina de teatro foi esse espaço. Para Jimmy, participante mestiço, na oficina de teatro: Pôde conhecer muitos rapazes que não conhecia, e pôde socializar mais com rapazes Awajun, [e] de outras etnias, pois na minha sala não têm muitos, só dois. Em educação têm mais, mas como não temos nenhum vínculo entre Engenharia e Educação, não conversamos. Assim, conseguimos conversar, e conhecê-los. Legais os rapazes89. A interculturalidade também esteve presente como tema das criações dentro das oficinas. Quando estávamos começando a criar a peça e tínhamos decidido que o tema devia ser a Universidade, pedi a eles que preparassem uma cena a partir da questão: o que é interculturalidade. Formaram-se grupos com integrantes de distintas culturas. Um dos grupos representou dois estudantes que tinham como trabalho de aula entrevistar a um velho Awajun e saber mais sobre sua cultura. Em um momento dado, o velho se oferece para cantar uma música em idioma awajun. Nesse momento começou uma toada que eu conhecia, mas eu a tinha aprendido com uma letra em inglês90. Não perguntei ao ator onde tinha aprendido essa música, mas estou seguro de que foi na escola e não com seus avós. Outro grupo encenou uma aula demostrando sua visão sobre interculturalidade. Alver representou o professor Carlos Ferrer: CARLOS: Temos conhecido diferentes etnias de companheiros, como a gente diz, esta universidade nos facilita a conhecer, a trocar entre todos nós. Aqui não existe que ele vem do povo, nada, aqui somos uma família só. Então, interculturalidade é compartilhar entre ambos, né? Eu aprendo de vocês, vocês aprendem de mim. Não pensem que o docente sabe tudo. Docente dará 20% só, vocês pesquisam [o resto], tá bom? Então dessa forma continuaremos. Vou explicar introdução sobre interculturalidade: Interculturalidade é recente, acabou de começar, há muitos conflitos, mas vamos aprender, assim como lhes falo, sobre compartilhar entre culturas, de diferentes culturas91. 89 ACUÑA, J. 2011. “Pude conocer a bastantes chicos que no les conocía, y pude socializarme más con otros chicos Awajun, de otras étnias, pues que en mi salón no hay muchos, solo hay dos no más que son. Más hay en educación pero como no tenemos ningún lazo Ingeniería con Educación, no nos conversamos. De esa forma hemos podido conversar y les he tratado y chévere los chicos.” 90 Twinkle, twinkle, little star... 91 “Hemos conocido diferentes étnias de compañeros, como decimos, esa universidad nos hace facilitar a conocer, intercambiar todos. Acá no existe que él viene de pueblo, nada, acá somos una sola familia. Entonces 96 O professor deixa para os estudantes se apresentarem em grupo para depois cada um apresentar algum companheiro. Neste momento acontece um cruzamento entre a realidade e a ficção muito clara. Os estudantes David, representado por John Garay (mestiço); Zacarías representado por Marcos Tangoa (Shawi), e Oscar, representado por Santiago Lopez (Wampis), se conhecem e apresentam os companheiros na cena. Os personagens se conhecem na ficção, mas, ao mesmo tempo, os atores também estão se conhecendo na realidade. A cena toda mostra o que eles acham que deve ser a interculturalidade dentro da sua universidade. Neste momento, o trabalho teatral se tornou um espaço não só de conhecimento do outro, mas também um meio de expressar suas ideias e aspirações. Outro elemento muito presente ao longo da oficina, e diretamente ligado à interculturalidade por oposição, foi o da discriminação. 3.2.1.3 Cenas sobre discriminação. Mestiços vs. indígenas Este tema foi um dos mais presentes nos momentos de criação de cenas. Na primeira oficina dividi o grupo em dois e pedi para eles criarem uma cena da sua vida cotidiana. Essa era a única instrução. Um dos grupos criou uma cena na sala de aula, na qual o professor pede um trabalho em grupo, mas os mestiços não querem se juntar com os indígenas. Os indígenas não sabem usar computador, portanto fazem o trabalho escrito com caneta. Os mestiços não fazem nada e na hora de entregar o trabalho, roubam o dos indígenas e colocam seus nomes. Os indígenas denunciam os mestiços que são repreendidos pelo professor. Todos se dão conta de que não é bom discriminar e é melhor estarem unidos. Na conversa depois do trabalho, Robert apontou o seguinte: Povos indígenas [...] nunca se deram bem com os mestiços dentro de um ambiente. E têm irmãos mestiços que não conhecem a interculturalidade. [...] Alguns dizem que são macacos, ou seja, os que moram na selva são macacos e não sabem, e ‘nós somos os que mais sabemos.’ E sobre isso trataram aqui dentro da sala de aula, e no final chegaram a um acordo para que não exista mais discriminação, se não, que la interculturalidad es compartir entre ambos ¿no? Yo aprendo de ustedes, ustedes aprenden de mí. No vayan a pensar que el docente sabe todo. Docente va a dar 20% nada más, ustedes investiguen ¿ya? ¿De acuerdo? Entonces de esa manera vamos a continuar, voy a explicar introducción con interculturalidad. Interculturalidad es reciente, recién ha empezado, hay muchos conflictos, pero vamos a aprender así como les digo de compartir entre culturas, de diferentes culturas.” 97 sejamos como irmãos e, finalmente, conheceu a interculturalidade, a equidade, a igualdade para todos (informação verbal)92. Reyner adiciona: Poderia se dizer também que em muitas instituições acontece isso, que os mestiços sempre querem dominar o povo indígena, mas no tema que estão apresentando foi que no final, já compartilhando, foram vendo como são as coisas. Que os povos indígenas também têm a mesma capacidade do que os mestiços (informação verbal)93. Esta cena mostra uma situação de injustiça, de abuso, motivada pela discriminação que foi evidenciada pelos participantes na conversa posterior. Na UNIA, os estudantes indígenas têm que demonstrar permanentemente que têm a mesma capacidade que os mestiços. Quando perguntei se também aconteciam atos de discriminação por parte dos indígenas para os mestiços, me disseram que sim. Quando recebem insultos dos mestiços, agora lhes respondem também com insultos dizendo: “Quero ver se tu podes falar minha língua” ou “sangue de porco, não como eu que tenho sangue puro” que, para eles, são insultos muito fortes. Um dos participantes mestiços contou que um dia foi jogar futebol e, no momento de dar o dinheiro para a aposta, os indígenas começaram a pressioná-lo para que colocasse mais dinheiro dizendo que como ele morava na cidade ele tinha dinheiro e que não devia ser mão de vaca. Na segunda oficina pedi para eles fazerem uma cena representando sua cultura. O trabalho do grupo Awajún e o grupo mestiço já foi descrito, mas havia um terceiro grupo com participantes de diferentes etnias: Shawi, Wampis, Aymara, Tikuna e Shipibo-Konibo. Para este grupo era muito difícil representar sua cultura, porque eram todos de culturas diferentes. Pedi para eles fazerem o que quisessem. O grupo fez uma cena que representava uma sala de aula da universidade. Nela, a professora pediu para cada um se apresentar. Quando os mestiços descobriram que os que estavam ao lado eram indígenas, se afastaram. Então, os indígenas comentaram que os mestiços não querem falar nem compartilhar com eles. Nesta cena, os participantes apresentaram como quando chegam na Universidade, no primeiro ano 92 Intervenção de Robert Ugkush durante a oficina em Pucallpa, 21 de setembro de 2011. “Pueblos indígenas […] nunca se han llevado bien con los mestizos dentro de un ambiente. Y hay personas que… hermanos mestizos que… que no conocen la interculturalidad […] Algunos dicen que son monos, o sea, los que viven en la selva son monos y no saben y ‘nosotros somos los que sabemos más’. Y eso lo ha tratado acá dentro del salón, y al final llegan a un solo acuerdo de que… para que no haya más discriminación, sino que seamos como hermanos y finalmente, conoció lo que es la interculturalidad, la equidad, la igualdad para todos”. 93 Intervenção de ReynerYatsupish durante a oficina em Pucallpa, 21 de setembro de 2011. “Se podría decir también que en muchas instituciones pasa esto, que los mestizos siempre quieren dominar al pueblo indígena, pero el tema de lo que están actuando fue que al final, ya compartiendo, fueron viendo cómo son las cosas ¿no? Que los pueblos indígenas también tienen la misma capacidad que los mestizos”. 98 não se conhecem, ninguém sabe quem é indígena e quem é mestiço e estão todos juntos, mas quando depois os mestiços identificam os indígenas, se afastam deles. Esta cena tem semelhanças com a que foi descrita anteriormente. O mais interessante é que os participantes que criaram esta cena não tinham participado da primeira oficina nem sabiam que uma cena parecida tinha sido feita. Edinzon Perez, um dos participantes, comenta o seguinte sobre a cena: “Na aula em que estou agora, é igual: ‘eles são indígenas’ e os mestiços se sentam na frente e os indígenas atrás. Então os mestiços [...] não compartilham. Sim, isso existe, apesar de estarmos numa universidade intercultural”94. 3.3 A PEÇA: E VOCÊ? É importante neste tipo de processo criar uma peça para ser mostrada ao público? Para Ryngaert esta não seria necessária e, em caso de existir, tem que ser trabalhada como parte do processo e não como uma coisa separada: “Acho simplesmente inútil a oposição radical entre o processo e o produto, entre exercícios e representação, cada vez que ela se apresenta em torno de desafios que nada têm a ver com a formação dos indivíduos” (RYNGAERT, 2009, p. 31). Concordo com o argumento de Ryngaert sobre a necessidade de interligar processo e peça, mas em que momento deve se decidir se é importante fazer a peça? Nos projetos de teatro intercultural de 2006 e 2007, sabíamos que o objetivo era fazer uma peça que seria apresentada em distintos contextos. Isso deu aos participantes e a mim mesmo um objetivo comum desde o início da experiência. Na experiência na UNIA quis que decidíssemos coletivamente se valia a pena montar uma peça. Pergunto-me: em que medida esta mudança de foco, de objetivos, não afetou o desenvolvimento do projeto? Nos exemplos colocados anteriormente, mostra-se que o trabalho dentro da oficina já permitia a pesquisa de temas, espaços de questionamento e conhecimento, mas, será que isso é suficiente ou a criação de uma peça poderia contribuir para potenciar a experiência? Tomamos a decisão de fazer a peça mais ou menos uma semana e meia antes do final do projeto. Isto fez com que tudo fosse feito com muita pressa e de uma forma precária. Mesmo assim, o resultado foi muito interessante tanto para os participantes da oficina, que na 94 Intervenção de Edinzon Pérez durante a oficina em Pucallpa, 21 de setembro de 2011. “En el salón donde que yo estoy ahora, igual: ‘ellos son indígenas’ y los mestizos se sientan adelante y los indígenas atrás. Entonces, los mestizos [...] No comparten. Sí existe, a pesar de que estamos en una universidad intercultural”. 99 avaliação da experiência valorizaram especialmente o fato de apresentar, quanto para o público que compareceu à apresentação, que elogiou muito o grupo e, alguns deles, fizeram perguntas e comentários bastante interessantes. Quando decidimos fazer a peça, perguntei que temas eram de sua preocupação ou importantes para eles. A maioria deles mencionou temas relacionados com a própria Universidade, desde o problema do lixo e a contaminação até o problema entre os sindicatos dos professores, passando pela discriminação. Para a criação das cenas escolhíamos juntos um dos temas e os participantes preparavam a cena. Ás vezes a turma era dividida em dois grupos. A proposta era socializada e a partir dos comentários de todos, as cenas cresciam. A eleição tanto da estrutura da peça quanto de quais cenas constituíram a peça, sempre foi coletiva, e as falas eram improvisadas pelos atores. Além disso, qualquer dos participantes podia interpretar quaisquer personagens. 3.3.1 Preparação das cenas de discriminação Decidimos começar o trabalho de criação com uma cena sobre discriminação na sala de aula, a partir dos exemplos trazidos por eles mesmos. Nesta cena, os mestiços se sentam nos bancos da frente. Um indígena se senta junto deles. Quando chega outro mestiço, diz que esse é o seu lugar e que ele deve ir ao fundo. O indígena sai do lugar. Chega o professor e começa a ministrar a matéria. Um indígena pede a palavra e diz que não entende. Os mestiços o fazem calar. O professor divulga as notas da prova. Um indígena tirou a nota mais alta. Os mestiços não acreditam e o acusam de ter pagado o professor. O professor pede para formarem grupos de trabalho. Os mestiços só querem trabalhar entre eles, mas o professor os obriga a fazer grupos misturados. O tema é “a interculturalidade”. Os mestiços não querem trabalhar e decidem fazer o trabalho depois. O professor pede um representante do grupo para expor o avanço do trabalho. Um dos mestiços fala que interculturalidade é quando as pessoas do mato vão à cidade para aprenderem com eles. Um indígena do outro grupo se levanta e diz que não concorda, que interculturalidade é compartilhar conhecimentos. Começa um debate que é cortado pelo professor. Todas estas ações foram contadas ou representadas pelos próprios participantes, tanto indígenas quanto mestiços, ao longo da oficina. Aproveitei essa situação para fazer um experimento. Fizemos essa mesma cena em idioma awajun e os mestiços, que não podiam utilizar o espanhol, eram os discriminados. Depois da experiência perguntei aos mestiços como haviam se sentido. Eles disseram que mal, tristes, que não haviam entendido, 100 que se sentiam perdidos. Perguntei aos indígenas se alguma vez haviam se sentido dessa forma e disseram que sim, que às vezes não entendiam algumas palavras, mas ficavam com vergonha de perguntar. Finalmente decidimos deixar as duas cenas como parte da peça, por um lado para que o espectador possa experimentar essa sensação de não entender e, por outro, para mostrar que, assim como os mestiços discriminam aos indígenas, também pode acontecer o contrário. 3.3.2 Preparação da cena do restaurante e da amizade Decidimos trabalhar cenas sobre meio ambiente porque foi um dos temas que surgiram na discussão sobre o tema da peça. Dividiram-se em dois grupos e ambos criaram cenas que tinham a ver com comida podre e doenças. Numa das cenas, dois jovens ficavam doentes depois de comer no Restaurante Universitário. No ensaio seguinte, uma das participantes se incorporou neste grupo e disse que não queria fazer esse tema porque estava cansada porque os albergados se queixam o tempo todo do Restaurante. E não queria apresentá-la porque seus amigos ficavam incomodando-a por causa disso. Houve uma discussão entre ela e outro participante que ocasionou que ele fosse embora naquele dia. Depois, ele pediu desculpas por seu comportamento. No final, todos decidiram não incluir esta cena na peça. Nesse mesmo dia, pedi ao outro grupo para fazer uma cena sobre alguma coisa que eles gostassem da Universidade. Criaram então uma cena em que mestiços e indígenas se sentam juntos para almoçar, se ajudam e compartilham conhecimentos, e depois se juntam para jogar vôlei. O dia terminou com um espírito de união muito forte. Tanto que surgiu a ideia de nos juntarmos todos fora do espaço da oficina, tal como havia sido apresentado na cena. 3.3.3 Preparação da cena do lixo Para a cena do lixo, propus a ideia de explorar as contradições. Como, por um lado, falamos que é importante cuidar do meio ambiente e, por outro, por exemplo, jogamos plástico no chão. Nesta cena todos os participantes iam de um lado ao outro com recipientes plásticos (como garrafas e pratos descartáveis) e enquanto falavam frases como “o professor diz que não devemos contaminar” ou “cuidar do meio ambiente é muito importante”, jogavam os recipientes no chão, deixando-o, no final, cheio de lixo. Um trabalhador passa a vassoura fazendo o lixo cair do palco em direção ao público e quando lhe perguntam se não deveria jogá-lo fora, na lixeira, ele diz que não é preciso, que a chuva limpa tudo. 101 3.3.4 Cansaço e confusão No dia seguinte, quinta-feira (seis dias antes da apresentação) todos estávamos cansados. Não propunham ideias e eu não sabia mais o que fazer para motivá-los. Finalmente decidi deixálos trabalhar sozinhos e lhes disse que o objetivo do trabalho era que eles pudessem expressar o que eles, não eu, querem. Não sabia o que aconteceria. Depois Alver, Franguine e Lírio me procuraram e contaram que alguns haviam ficado incomodados porque eu os havia deixado. Minha missão como professor, para eles, era estar com os alunos e eu os havia abandonado. Disseram que não conseguiram fazer muita coisa e que não sabiam se no dia seguinte iriam ao ensaio. Na sexta-feira foram só cinco pessoas ao ensaio. Tivemos problemas com o local e terminamos ensaiando no auditório, que foi o lugar da apresentação. Não quiseram falar sobre o acontecido no dia anterior. César me disse que na sua cultura (Awajun) o que aconteceu é coisa do passado. Agora é outro dia. Mostraram-me o que haviam feito. A primeira coisa foi uma paródia da própria oficina de teatro, com César fazendo o papel do professor, imitando meus gestos, movimentos e forma de falar. Estava muito divertida, mas não conseguiram continuar porque não seguravam as risadas. 3.3.5 Cena da corrupção O que mostraram a seguir foi uma cena sobre a corrupção no processo de contratação de professores na Universidade. Começa com a entrevista dos candidatos. O primeiro é um senhor com muita experiência e preparação. A segunda é uma moça bonita e pouco inteligente que seduz um dos avaliadores. O terceiro é um jovem recém-formado pertencente a uma família acomodada. Na continuação se vê um dos avaliadores recebendo um envelope do jovem e ao outro jantando romanticamente com a moça. No dia da prova, tanto o jovem quanto a moça recebem ajuda dos avaliadores e são os selecionados. O mais capacitado vai embora muito bravo, acusando-os de corruptos. 102 3.3.6 Detalhes finais Para o ensaio seguinte, ligamos para alguns dos participantes que faltaram naquele dia e combinamos melhores horários para que todos pudessem participar. A peça ainda não tinha nome. Gabriela, que tinha ido para Pucallpa para me ajudar, propôs a ideia de que a peça terminasse com um compromisso de cada um dos atores sobre algum dos temas apresentados na peça e perguntando para o público: “e você?” Por exemplo, “Eu me comprometo a não jogar lixo no chão, e você?” ou “Me comprometo a não discriminar, e você?” Todos gostaram da ideia e achamos um título para a peça. Decidimos também valorizar as línguas de cada um dos participantes, portanto cada um deles fez seu compromisso na sua própria língua. Além disso, antes de começar propriamente a peça, os atores davam as boas vindas ao público nas quatro línguas originárias dos atores. Apesar de que não havíamos podido trabalhar a partir de cada cultura em particular, foi importante, pelo menos, valorizar as línguas como uma forma de mostrar que dentro do que chamamos de indígenas também existem diferenças. 3.3.7 A apresentação Os participantes decidiram fazer só uma apresentação. Esta começou, como já disse, com palavras de boas vindas ao público em quatro línguas: espanhol, awajun, aymara e shawi. A estrutura final da peça ficou assim: • Cena da corrupção • Cena da discriminação em idioma awajun e em linguagem inventada (gromelo) • Cena da discriminação em idioma espanhol • Cena do lixo • Cena da amizade • Compromisso Aproximadamente 50 pessoas prestigiaram a peça, principalmente estudantes indígenas e mestiços da UNIA, alguns deles, amigos dos participantes das oficinas. Compareceram só dois professores e nenhuma autoridade. No debate pós-apresentação, o público destacou que o que havia visto era o que realmente acontecia na UNIA. Os atores responderam que o que eles mostraram poderia acontecer em qualquer lugar. Rafael Luza, que foi Diretor de Cultura da 103 prefeitura de Coronel Portillo95 parabenizou o trabalho e ressaltou que o que tinha sido feito era utilizar o teatro como uma forma de denúncia. Outros ressaltaram a valentia por mostrar publicamente estes temas. Os atores estavam bastante satisfeitos. O comentário sobre a apresentação da professora Haydeé, que havia participado da primeira oficina, foi o seguinte: Gostei [da peça]. No entanto, quando [o público] fazia as perguntas [“vocês estão representando a UNIA?”] eu pensava: “Como pensam que os rapazes vão dizer ‘isto eu vi aqui’? Eu penso que, finalmente, se uma história é levada ao teatro, somos nós os espectadores os que devemos gerar nossos próprios critérios, nossa própria análise. Realmente eu penso que os jovens apresentaram algo que eles vivem. Algo que eles sentem que acontece. […] Eu sinto por isso que foi um ato de muita coragem por parte dos jovens96. Para vários dos participantes a apresentação foi importante porque tiveram a chance de expressar aos seus colegas coisas relevantes para eles e também mostrar o trabalho realizado ao longo das oficinas. Para alguns deles, era a primeira vez que atuavam e confrontar seus nervos foi muito importante. Figura 10 Criação de cenas 95 Coronel Portillo é o nome da prefeitura encarregada da cidade de Pucallpa. Luza trabalhou ali durante o ano 2006 e apoiou meu primeiro projeto de teatro intercultural. 96 PANDURO, H. 2011. “Me gustó [la obra]. Aunque cuando hacían las preguntas [¿Están representando a la UNIA?] yo siempre pensaba ¿Cómo piensan que los chicos van a decir ‘esto he visto acá’? Yo pienso que finalmente si llevamos una historia al teatro, los espectadores somos los que debemos sacar nuestros propios criterios, nuestro propio análisis. Realmente yo pienso que los jóvenes ayer presentaron algo que viven. Algo que ellos sienten que así es. […] yo siento por eso que fue un acto de mucha valentía por parte de los jóvenes”. 104 Figura 21 Ensaio Figura 12 Ensaio cena do lixo Figura 13 A apresentação 105 3.4 AVALIAÇÃO DA EXPERIÊNCIA Na primeira oficina tínhamos o objetivo de criar máscaras que seriam a base do processo criativo. Isso nos dava um foco. A segunda oficina terminou com a apresentação de uma peça, mas acho que, por termos decidido fazê-la no final, resultou que a qualidade artística da mesma não fosse tão boa quanto poderia ter sido. O fato de não saber se iríamos fazer uma apresentação, adicionado às minhas inseguranças descritas na introdução e minha vontade de experimentar as novas metodologias aprendidas, fez com que o foco no trabalho ficasse muito disperso. Por exemplo, tentamos trabalhar a criação de três desenhos a partir de uma história que depois seria reconstruída pelos outros participantes97. Este trabalho não levou a nada concreto porque acabou o tempo e devíamos começar a trabalhar as cenas da peça. Querer experimentar muitas técnicas diferentes pode ser prejudicial para o processo porque não necessariamente somam na construção de algo concreto. Sinto que, neste tipo de experiência, o fato de fazer uma peça e mostrá-la ao público é importante porque oferece um objetivo comum que deve ser construído coletivamente, e isso pode gerar maior compromisso e engajamento com o processo. Além disso, multiplica, pelo menos de forma parcial, o impacto da experiência já que também pode atingir o público que assiste à peça. Isto não quer dizer que o processo não seja importante, nem que a peça é mais importante que o processo. Se tomarmos a peça como parte do processo, neste tipo de experiência, penso que este se verá enriquecido e fortalecido. Para a maioria dos participantes, tanto na primeira quanto na segunda oficina, o mais importante da experiência foi o aprendizado dos jogos que eles usam com as crianças das comunidades, na sua prática docente. Nesse sentido, um dos principais resultados do projeto foi oferecer aos participantes ferramentas para o trabalho pedagógico com crianças. É importante mencionar que muitos deles percebem a prática docente como um caminho de transmissão da sua própria cultura, em contraste com a educação que eles receberam: uma educação medíocre, com professores sem preparação e que os afasta das suas tradições culturais, tal como manifestam Elias e Robert: Os docentes trabalham logo depois que saem do ensino médio [...] dando aula no ensino fundamental. [...] Por isso a educação é tão baixa. Porque eu o vivi, eles me 97 Exercício utilizado pelo TO. 106 deram aula também. E eu, aqui, me encontro numa realidade muito diferente, porque não temos as bases. Não é que sejamos pouco inteligentes, o problema é dos [docentes] que trabalham, porque eles não exploram, não dão o máximo que um docente pode dar aos seus estudantes98. Eu não sei fabricar cestas, zarabatana, itipa, que é parecido com uma toalha que antigamente faziam os jovens. Eu não sei. Sabes por quê? Porque meu pai não me ensinou. Eu fui mandado para a escola desde criança, desde os sete anos venho estudando e na escola não há nenhuma atividade de revalorizar, manter e fortalecer a cultura, fortalecer essa arte do povo Awajun99. Houve dois aspectos importantes que eles valorizaram no meu trabalho como professor. O primeiro foi a perseverança, que apesar de todos os problemas eu não tinha desistido. Outro aspecto foi o nível de exigência, tanto para comigo quanto para eles. Neste sentido específico, vários reconheceram que uma coisa importante que aprenderam foi o senso de responsabilidade. De chegar na hora, de cumprir com os compromissos. Finalmente, no momento da avaliação coletiva, vários agradeceram a seus companheiros pela experiência e apontaram que haviam aprendido muito com eles. Houve, portanto um aprendizado não só do professor e da técnica, mas um aprendizado no contato com os próprios companheiros, e isso é uma grande conquista para este processo de trabalho pedagógico teatral e a essência do que, acredito, devem procurar as experiências de teatro intercultural. 98 CHAMIK, E. 2011. “En la educación los docentes trabajan egresando de la secundaria. Cuando terminan su secundaria ya tienen trabajo en la educación enseñando en primaria. […]. Y es por eso, la educación es muy baja. Porque, yo he vivido, me han enseñado también. Y me encuentro en una realidad muy diferente cuando llego acá, porque no tenemos las bases. No es que nosotros tenemos poca inteligencia, es el problema de los [docentes] que trabajan porque no exploran, no dan lo máximo que puede dar un docente a los estudiantes”. 99 UGKUSH, R. 2011. “Hacer canasta, yo no sé, hacer una serbatana, no sé; hacer una itipa, como es una toalla que elaboraban anteriormente así siendo jóvenes, no sé. ¿Sabes por qué? ¿Eso por qué me pasa? ¿Por qué? Porque mi papá no me ha enseñado. Yo desde, desde niño me han mandado a la escuela, ya pues, desde siete años vengo de la escuela, estudiando así, Y en la escuela no hay ninguna aplicación así como decir ¿no? De revalorar y de mantener, de fortalecer esa cultura, fortalecer esa arte de la cultura del pueblo Awajun”. 107 4 O PROFESSOR DIALÓGICO: UM APRENDIZADO A PARTIR DO TEATRO INTERCULTURAL Neste último capítulo falarei sobre meu aprendizado no intento, às vezes bem sucedido e outras nem tanto, de ser um professor dialógico de teatro. O caminho para este aprendizado é minha prática de teatro intercultural. Porém, apesar do foco estar na experiência de teatro intercultural, acredito que vários dos elementos que serão apresentados neste capítulo podem ser utilizados em qualquer prática pedagógica de teatro (não necessariamente intercultural). Nesse sentido, o teatro intercultural baseado na busca de produção de interculturalidade e, portanto de diálogo, constituiriam um caminho para aprender e desenvolver algumas capacidades dialógicas do professor de teatro tais como partir dos participantes; desenvolver a práxis; utilizar a codificação e descodificação através da criação cênica; ter como objetivo desenvolver questionamentos e construir narrativas alternativas; propiciar um encontro de sujeitos, utilizar o conflito para gerar conhecimento, procurar trabalhar em parceria; estar ciente das atitudes não dialógicas. 4.1 PARTIR DOS PARTICIPANTES Um dos princípios da prática pedagógica que procura ser dialógica é partir dos participantes no processo educativo, entendendo que os educandos não só têm conhecimentos e uma “compreensão do mundo”, mas também a capacidade para criticar e problematizar o conhecimento. Nos processos de teatro intercultural isto é muito relevante desde que um dos princípios deste é brindar as pessoas de culturas diferentes com a possibilidade de se expressarem através da linguagem teatral. Portanto, no teatro intercultural, seria um contrassenso impor uma temática determinada a priori a partir do que o professor, a equipe ou a instituição acham que pode ser útil ou interessante trabalhar com o grupo. O teatro intercultural não pode obedecer aos interesses de uma instituição100. Tem que ser independente e livre para poder gerar uma verdadeira experiência de criação e elaboração de narrativas. 100 Sobre este tema ver: PLASTOW, Jane. Dance and transformation: the Adugna Community Dance Theatre, Ethipia, e ETHERTON, Michael. South Asia’s Child Rights Theatre for Development: the empowerment of children who are marginalised, disadvantaged and excluded. Ambos os textos encontram-se em: BOON, R; PLASTOW, J. 2010. 108 Nesse sentido, por exemplo, em princípio tampouco se deveria trabalhar a partir de um texto predeterminado, seja este dramático ou não. O fato de chegar com um texto predeterminado exclui a possibilidade de que os próprios participantes sugiram os temas a serem trabalhados e o formato a utilizar. Isto constitui o segundo ponto. As formas de expressão não são só meios através dos quais levamos mensagens, mas também são portadoras de conteúdo. O terceiro motivo seria o fato de privilegiar a palavra quando existem muitas outras possibilidades expressivas além da linguagem falada. A diversidade é o ponto de partida no teatro intercultural. Esta é celebrada e o que nos motiva no processo é a vontade de conhecer e reconhecer as diferenças, de aprender do e com o outro, de nos mostrarmos ao outro. Esta pode favorecer também a diversidade na identificação de temas ou ainda, de suas formas de expressão. Finalmente, a palavra, no contexto intercultural, é sempre limitada. É, então, no próprio processo de trabalho que os temas a serem trabalhados, as formas empregadas e as linguagens utilizadas devem ser escolhidos coletivamente. O professor artista tem aqui uma tripla responsabilidade: desenvolver uma metodologia adequada para que temas, formas e linguagens possam ser explorados com liberdade; oferecer novas possibilidades de exploração, sugerir alternativas, elaborar perguntas e ensinar novas técnicas para que os participantes possam encontrar suas formas de expressão; e, por último, ao ser também parte do grupo, o professor deve participar do diálogo criativo na busca de temas, formas e linguagens. Este ponto requer um especial cuidado porque a linha entre propor e impor pode ser muito difusa, assim como a linha entre deixar acontecer e ser inativo. As propostas deste professor artista devem obedecer às necessidades do processo e dos participantes. O professor artista, ou qualquer dos participantes, pode chegar, inclusive, a propor um texto, sempre que sua escolha parta do processo. Na experiência na UNIA este ponto teve vários momentos diferentes. Como já mencionei, antes de começar o processo queria focar a experiência na exploração da identidade intercultural. Se eu tivesse ficado fixo nesse tema, poderia ter limitado as possibilidades de exploração dos interesses dos participantes. Nesse sentido, tão importante quanto ter uma proposta que norteie a experiência é ter a flexibilidade para mudar de direção durante o processo. 109 Sobre a forma, na maioria das improvisações não existia uma consciência de palco e plateia, de um espaço de apresentação limitado no qual se apresenta uma cena para um público. Na maioria dos jogos e criações da oficina, os participantes estavam mais interessados em jogar e explorar. Por outro lado, eu não tinha a preocupação por trabalhar muitos aspectos técnicos porque não sabíamos se faríamos uma peça ou não. Porém, nos ensaios para a apresentação sim trabalhamos encima da consciência do público, da projeção da voz e outros elementos técnicos. Isso foi bem recebido pelos participantes os quais sabiam que era necessário esse trabalho para que a apresentação fosse melhor. O diálogo foi o protagonista, as decisões se tomavam coletivamente. Isso permitiu aos participantes se sentirem confortáveis no trabalho. Surgiu muito material, muitas histórias e temas que não foram desenvolvidos, mas, ao mesmo tempo, aprofundou-se em determinados aspectos de especial importância tanto para os participantes quanto para mim. Olhando para trás, posso afirmar que poderia ter aproveitado melhor as possibilidades de explorar mais formatos (e conteúdos) deles. Num dos primeiros encontros, pedi aos participantes da etnia Awajun para me ensinarem músicas na sua língua. Cantaram duas músicas em awajun e uma em espanhol. As músicas eram simples e repetitivas. Esta possibilidade de trabalhar com as músicas (e letras) do grupo indígena não foi desenvolvida. Durante todo o resto do processo, a música esteve praticamente ausente, fato que não teria porque acontecer, mais ainda porque Daniel (participante mestiço) não só era apaixonado pela música, mas tocava vários instrumentos. Outro momento que foi desperdiçado foi o dos jogos de infância. Depois de trabalhar com objetos e brincar com eles, decidimos entrar na pequena floresta que há na UNIA para buscar materiais para construir brinquedos, tal como eles faziam quando crianças. Encontramos poucas coisas, mas as suficientes para construir uma bola com folhas de bananeira e alguns outros brinquedos. A exploração de materiais e brinquedos fabricados por eles tampouco foi desenvolvida. Ismael, um dos participantes da etnia Awajun, me disse um tempo depois que teria gostado trabalhar mais com isso, que eu poderia ter deixado como tarefa para eles trazerem brinquedos feitos por eles mesmos. O processo deve partir do lugar no qual os participantes estão individual e coletivamente. Mas, procura-se também que as pessoas possam ir daquele lugar onde estão a um outro 110 desejado onde poderão ser sujeitos completos e autônomos. Segundo Prentki e Selman (2000, p. 157) isto pode carregar uma contradição, já que muitas pessoas podem estar em tal grau de alienação que não têm como saber que direção tomar para gerar a mudança. Para eles, o professor deve intervir para iniciar o processo de mudança, mas rapidamente deve sair de lado para que todos possam continuar seus caminhos. Neste mesmo sentido, para Phillip Taylor (2003, p. 71), o professor deve ajudar os participantes a representarem suas próprias visões sobre o mundo, e devem trabalhar ativamente juntos para gerar novos significados. O fato de trabalhar desde os temas dos próprios participantes não é só um reconhecimento da condição de sujeitos e uma valorização dos seus saberes, mas é um ponto de partida para ir além. É, inclusive, um trabalho político. Em palavras de Michael Etherton (1980, p, 57-85, apud KAMLONGERA, 2005, p. 440) sobre o Teatro para o Desenvolvimento (TfD) na África, As peças devem tomar o partido da população local. Devem refletir a vida desde o ponto de vista dos próprios moradores, e não devem evitar articular críticas a políticas governamentais inadequadas. Deste modo, apesar de que inicialmente possam não ter nada de político nos seus objetivos, estas peças podem terminar como as mais politicamente ativas do teatro africano. A peça feita na UNIA mostrava uma crítica das políticas de uma universidade intercultural que, segundo os próprios participantes, poderiam acontecer em qualquer instituição do país. Nesse sentido, o espaço teatral permitiu uma reflexão sobre o próprio contexto e a elaboração de um discurso crítico sobre ele. Um dos espectadores da peça reconheceu e parabenizou o fato de que o teatro havia se tornado um veículo de comunicação e de denúncia. Ele resgatou o fato de que era uma denúncia geral e não especificamente de uma instituição. É importante, como professores artistas, estarmos muito antenados às possibilidades de exploração e procurar o equilíbrio entre propor e deixar o espaço para as propostas dos participantes. Seja como for, o importante é partir tanto das capacidades quanto dos interesses dos próprios participantes, e do contexto particular no qual a experiência está sendo desenvolvida. 111 4.2 PRAXIS: AÇÃO E REFLEXÃO Como foi colocado no primeiro capítulo, para poder modificar o mundo, os sujeitos devem realizar uma práxis, ou seja, agir e refletir sobre sua própria ação transformadora, lembrando que uma prática sem reflexão é “ativismo” e uma reflexão sem o agir resulta inútil. Para Helen Nicholson (2005, p. 39), a práxis no drama é um “processo cíclico no qual a prática gera novos insights e onde, de forma recíproca, as ideias teóricas são interrogadas, criadas e incorporadas na prática. A práxis, portanto, é construída num circuito de pensamento, sentimento e ação”. Ao mesmo tempo, isto é muito importante para a construção da interculturalidade: “Alfred, Byram e Fleming afirmam que a ‘interculturalidade’ precisa não só da experiência, mas também de ‘reflexão, análise e ação’” (DONELAN, 2005, p. 105). Este ponto esteve muito presente nas oficinas. Durante todos os encontros, tínhamos momentos de ação, nos jogos e improvisações, e de reflexão coletiva. Sempre reservávamos um espaço para compartilhar as impressões sobre o trabalho, elaborar perguntas e questionamentos e pensar juntos sobre como continuar o trabalho. Num dos encontros da segunda oficina, depois de fazer alguns jogos, um dos participantes perguntou para que servia o que estávamos fazendo. Pedi aos outros participantes para responderem essa pergunta. A resposta de Daniel foi particularmente interessante: “talvez temos uma criança que não está dentro do grupo, não participa. Tentar não lhe dar prioridade, mas tentar que essa criança se adéque para que se junte ao grupo e não fique separada”101. Esta resposta mostra, por um lado, uma clareza da utilidade do trabalho que estava sendo realizado e, por outro, um depoimento dos resultados da própria oficina. Podemos deduzir das palavras de Daniel que a razão pela qual ele acha que o trabalho com o teatro, e particularmente com os jogos, pode servir para lograr que todos participem, é porque ele está vivenciando-o. O fato de isto ter acontecido, revela que os participantes não faziam os exercícios só porque deviam fazê-los, mas refletiam sobre eles e procuravam relacioná-los com sua vida e suas necessidades. 101 Intervenção de Daniel Dionicio durante a oficina em Pucallpa, 14 de setembro de 2011. “De repente tenemos un niño que es… que no está dentro del grupo, no participa, tratar de… no tanto darle prioridad sino que tratar de adecuarle a ese niño para que se junte con el grupo y no esté separado”. 112 O caso de Daniel é particularmente interessante porque ele era o único estudante mestiço da primeira oficina e me confessou que ele achava que os jogos e dinâmicas que fazíamos eram ridículos e estúpidos. Na avaliação final, ele contou isso para o grupo, concluindo que, finalmente, havia adorado a experiência. Apesar de não gostar do trabalho, ele nunca faltou a um encontro porque sabia que podia ser bom para seu desenvolvimento pessoal e para sua futura prática profissional. Durante a segunda oficina, Daniel mostrou muito mais segurança, ajudando os companheiros, explicando como fazer os jogos e participando ativamente das análises do trabalho. De acordo com Jhonston (1998, p. 31), se queremos acessar a temas profundos, não podemos ficar sentados nas cadeiras falando. Precisamos deixar de lado nossa inteligência consciente e pensar menos. Porém, tão importante quanto não ficar o tempo todo falando, mas agindo, experimentando, brincando; é deixar um espaço para refletir individual e coletivamente sobre o que está sendo feito para que a experiência seja apreendida pelos participantes e as bases para continuar o trabalho sejam mais sólidas. 4.3 CODIFICAÇÃO E DESCODIFICAÇÃO ATRAVÉS DA CRIAÇÃO CÊNICA Na teoria freiriana a codificação é uma forma para poder enxergar nossa própria realidade com certa distância que nos permita analisá-la e criticá-la. É um meio para elaborar os temas de interesse dos participantes no processo que permite uma deconstrução e uma análise crítica desses temas. Segundo Marcia Pompeo Nogueira (2003, p. 30) o teatro é uma forma de codificação que o próprio Freire contemplava. O fato de criar uma cena sobre a vida cotidiana ou sobre a própria cultura, que foi a base do trabalho na UNIA, já pode ser considerado um processo de codificação. Uma diferença importante com o processo pedagógico desenvolvido por Freire é que nele a codificação é elaborada pela equipe de professores a partir dos temas apresentados caoticamente pelos participantes. Nas oficinas na UNIA eram os próprios participantes os que codificavam, através de cenas, suas experiências e seu contexto e depois, nas discussões, se realizava o processo coletivo de descodificação. 113 Os processos de codificação no teatro não podem ser explícitos demais, porque isso não permitiria que a descodificação ofereça alternativas, e se é abstrato demais, não apresentaria os elementos suficientes para realizar a descodificação. Segundo Nogueira (2003, p. 35), na abordagem dialógica do teatro em comunidades e o teatro para o desenvolvimento, muitas vezes os processos de codificação resultam muito explícitos. Para ela, portanto, poderiam se realizar codificações “fantásticas e imaginativas que possam contribuir para aprofundar nosso entendimento da realidade”. Para Kate Donelan (2005, p. 70) “no drama pode-se explorar a complexidade do comportamento cultural porque, apesar de que surge do mundo sociocultural, o drama, mais do que replicar a realidade, a representa”. A partir das ideias de Fleming, a autora continua: As técnicas dramáticas podem ser usadas para criar distância, para des-familiarizar comportamentos e costumes assumidos, e para prover perspectivas alternativas que são essenciais para desenvolver nos estudantes consciência intercultural. (DONELAN, 2005, p. 70). O processo de descodificação é particularmente importante porque é o momento em que podem se desenvolver os questionamentos sobre a sociedade e o pensamento crítico. É fundamental partir de uma boa codificação, e é responsabilidade do professor artista guiar este processo da melhor forma, motivando a que os questionamentos e a análise dos conteúdos das cenas surjam dos próprios participantes. Esta ação também requer um cuidado especial para não apresentar julgamentos, mas questionamentos e alternativas. Na cena em que Awajun e mestiços apresentaram suas características culturais, os primeiros apresentaram um estilo de vida na comunidade, de trabalho coletivo e celebração unida ao trabalho, e os mestiços apresentaram uma situação que mostrava o individualismo e materialismo da vida na cidade. Estas cenas apresentaram a possibilidade de analisar as diferenças entre ambos estilos de viver e de se relacionar. Como fazer isso sem emitir um julgamento? A análise das cenas, a descodificação dessas cenas, foi superficial e não se questionou o significado do conteúdo apresentado. Agora vejo que eu estava com cautela demais de não querer impor minha visão ou forçar uma crítica. Essa cautela, às vezes, é desnecessária desde que o importante é, justamente, gerar questionamentos e oferecer aos participantes a possibilidade de enxergar os acontecimentos e os discursos desde outro lugar. 114 De enxergá-los criticamente. Eu não tinha porque emitir um juízo de valor, mas podia elaborar perguntas que levassem os participantes a questionar e comparar ambos os discursos. Conseguir o equilíbrio entre sugerir e impor é muito difícil. Mas, ao mesmo tempo, é importante aceitar que o professor artista tem uma postura política e que seu agir no teatro intercultural deve estar guiado por essa postura que é a busca pela interculturalidade, ou seja, a busca pelo direito de todas as pessoas serem sujeitos no diálogo e o direito de manter uma forma de vida diferente da proposta imposta pela sociedade dominante. Talvez o momento mais importante deste processo de codificação foi a criação da peça a partir das suas experiências na Universidade. Os participantes escolheram os distintos temas a serem apresentados: corrupção, discriminação e contaminação. Eu sugeri para eles criarem uma cena sobre o que há de legal na Universidade, mas foram eles que escolheram o que apresentar. Finalmente Gabriela (aquela que me ajudou com as articulações) propôs terminar a peça com os compromissos e a integração do público com a pergunta e você? A peça constituiu um processo de codificação do seu entorno na universidade que foi apresentado para outros estudantes, professores e alguns convidados externos. O fato de ter uma conversa com o público depois da peça gerou um espaço de descodificação daquele código que foi a peça, no qual os espectadores que interviram, apesar de que na peça não se mencionava nenhuma instituição, indicaram que o que tinham visto era uma representação da realidade da UNIA. 4.4 OBJETIVOS: GERAR QUESTIONAMENTOS, CONHECIMENTO E NARRATIVAS Diariamente somos bombardeados por estímulos e narrativas do que é bom e mau, do que é certo e errado, do que é bonito e feio, do que devemos e não devemos fazer. Somos levados a aceitar essas narrativas sem pensar. O sistema educativo frequentemente leva um modelo de aprendizado para formar pessoas que possam entrar na lógica do mercado e sejam úteis para manter o sistema. Os meios de comunicação nos impõem incessantemente modelos de sucesso. Este processo, como afirma Tim Prentki (2009, p.14-15), está relacionado com a narrativa dominante atual - “o modelo neoliberal de globalização”- que controla as nossas vidas através do mercado e do poder das mídias, concentradas em um grupo pequeno que toma decisões para os outros e pelos outros. 115 Formamo-nos influenciados por histórias, por narrativas que configuram nossa percepção do mundo. O filósofo Alasdair Macintyre afirma que “não há forma de entender nenhuma sociedade, incluindo a nossa, que não passe pelo acúmulo de narrativas que constituem seus recursos básicos” (MACINTYRE, 1987, p. 267). Essas narrativas não são escolhidas por acaso, mas obedecem a interesses de determinados grupos de poder. A escritora nigeriana Chimamanda Adichie fala sobre o perigo de uma história única. Em uma conferência TED102, ela conta, entre outras coisas, que quando foi estudar nos Estados Unidos, sua colega de quarto estava muito surpresa porque ela falava inglês, sendo o inglês a língua oficial de Nigéria, e que ficou incomodada porque a colega sentia pena dela, mesmo antes de conhecêla: “Minha colega de quarto tinha uma única história sobre a África. Uma única história de catástrofe. Nessa única história não havia possibilidade de os africanos serem iguais a ela, de jeito nenhum” (ADICHIE, 2009). É claro que a única ideia que a colega de Adichie tinha sobre África é a que tinha visto na televisão e no cinema, uma ideia produzida não pelos africanos, mas pela narrativa dominante. Para Prentki, a função da arte, e particularmente do teatro, é a de gerar “uma narrativa alternativa (...) na qual as relações são formadas na base da dignidade e não do dinheiro” (PRENTKI, 2009, p.19). Essa narrativa alternativa tem dois aspectos principais. O primeiro é problematizar, gerar questionamentos das verdades que assumimos como imutáveis, e a segunda é exatamente o fato de criar novas narrativas que surjam das próprias pessoas. 4.4.1 Gerar questionamentos Alguns aspectos do teatro aplicado apresentados por Phillip Taylor resultam úteis para entender o objetivo de gerar questionamentos no teatro intercultural. Para ele o teatro oferece um espaço particular para que os indivíduos possam “questionar algum tema, confrontar um problema, e analisar suas próprias relações no mundo no qual vivem” (TAYLOR, 2003, p. 4). Para ele, o bom teatro aplicado busca explorar a condição humana não como uma forma de resolver os problemas do mundo, mas para ajudar a desenvolver novas perspectivas, entendendo ou, pelo menos, confrontando as perspectivas dos outros (TAYLOR, 2003, p. 72), 102 Technology, Entertainment, Design (Tecnologia, Entretenimento, Design). 116 permitindo que os participantes questionem suas vidas (p. 81), e quebrando certezas, ao trabalhar desde a ambiguidade (p. 98). Na mesma linha, a educação freiriana procura formar sujeitos críticos da sua realidade. Sujeitos que procurem transformar o mundo. Se nós aceitamos acriticamente as perversões do sistema, as injustiças, as atitudes discriminatórias, a violência, os vícios, então estamos apoiando essas atitudes. No entanto, se temos uma atitude crítica da realidade, teremos a possibilidade de mudar essas situações de injustiça. Isto é muito relevante nos processos de teatro intercultural. Em palavras de Kate Donelan (2005, p. 74): “dentro do espaço do drama intercultural, as percepções pessoais das conexões culturais e das diferenças tornam-se a fonte para que o grupo possa gerar novos caminhos de perceber e provocar novos questionamentos e possibilidades”. As cenas criadas durante as oficinas permitiram, por exemplo, apresentar criticamente a discriminação que os estudantes indígenas recebem dos mestiços. Permitiu mostrar o desconforto sobre como é conduzida a Universidade ao apresentar uma cena sobre a corrupção na contratação dos professores, e criticar a falta de limpeza nas instalações da Universidade. Agora, este processo de crítica deve começar por ser uma autocrítica. A peça criada finalizava com um compromisso dos participantes. Eles se comprometiam a não discriminar, a não jogar lixo no chão, etc. Na conversa depois da apresentação, um dos espectadores perguntou aos atores se eles praticavam os compromissos que acabaram de fazer, se eles não jogavam o lixo no chão, por exemplo. Eles disseram que às vezes sim, mas que agora estariam cientes de não fazê-lo. Como foi colocado no primeiro capítulo, a identidade está em constante formação e nós formamos nossa identidade no contato com o outro que é diferente. Este contato, principal valor do processo de teatro intercultural, mostra-nos outras formas de viver, de se relacionar, de pensar, de rir, de brincar. Põe-nos em contato com narrativas alternativas à dominante. Este contato, aliás, evidencia não só as diferenças, mas também as semelhanças. 117 4.4.2 Elaboração de narrativas Para Helen Nicholson (2005, p. 63), através do quefazer teatral podem se explorar e representar narrativas individuais, culturais e das comunidades. Segundo ela, o drama oferece uma poderosa oportunidade de questionar de quem são as histórias que se costuma contar, de quem são as histórias que são aceitas como verdade, e para redigir o equilíbrio contando histórias alternativas ou histórias desde perspectivas diferentes. (NICHOLSON, 2005, p. 63). No contexto intercultural, a elaboração de narrativas alternativas pode ser contemplada desde dois lugares, principalmente. O primeiro é gerar a possibilidade de que os indivíduos das culturas dominadas possam se expressar e fortalecer suas próprias identidades culturais desde que muitas vezes a relação entre culturas é uma relação assimétrica na qual existe a imposição (violenta ou soterrada) de uma “história única”. Em palavras de Isabel Capeloa (2008, p. 36): Na ambivalência híbrida das nações alheias da modernidade, é necessário o direito à narrativa, que, por um lado, configure modelos de pertença de comunidades minoritárias, mas que torne a cultura em ato performativo, isto é, modelo terapêutico de um diálogo intercultural assente na imaginação, sem nunca descurar o exame crítico, a dúvida e a deliberação. O segundo é a elaboração de narrativas geradas no contato com o outro, com o diferente. A possibilidade de, como diz Schechner na sua definição da performance intercultural integrativa, gerar novos discursos a partir da combinação tanto estética quanto temática de culturas diferentes. A elaboração de narrativas, derivadas de um espírito crítico e do contato com o outro no processo de teatro intercultural, levou os participantes a criarem discursos expressando suas opiniões sobre distintos aspectos do seu contexto e da sociedade. As cenas sobre discriminação e interculturalidade, e a peça, descritas no terceiro capítulo (A experiência), não se limitavam a criticar uma situação, mas apresentavam pontos de vista e inclusive alternativas para melhorar as atitudes, principalmente de discriminação. Um exercício importante sobre este ponto foi o de fazer a cena da discriminação na sala de aula que formava parte da peça, primeiro numa combinação de língua awajun e linguagem inventada, onde eram os mestiços os discriminados. Isto permitiu por um lado inverter momentaneamente os papeis de domínio, mas, ainda mais importante, permitiu ver que outra 118 situação é possível, que poderia, por exemplo, existir uma situação – e, de fato, existe – na qual sejam os mestiços os discriminados e os indígenas os discriminadores. Tim Prentki (2009, p. 23) afirma que o artista não só deve desvelar a loucura da narrativa dominante, mas “explorar meios de existir de forma saudável, dentro das contradições semeadas pela narrativa”. O teatro intercultural procura confrontar visões de vida, do mundo, das relações diferentes, para gerar uma existência mais saudável e digna. Como diz Kate Donelan (2005, p. 74): De acordo com Garoian, os ‘processos multicêntricos e dialógicos’ da pedagogia das artes performativas permite aos participantes aprender ‘sobre a cultura’ assim como questionar sua ‘autoridade hegemônica’ (1999, p. 66). Dentro do espaço do drama intercultural, o senso das conexões culturais e diferenças de cada pessoa se torna, para o grupo, uma fonte geradora de novos caminhos de perceber e provocar novas questões e novas possibilidades. O fato de elaborar novas narrativas, por um lado, apresenta a todos a possibilidade de se expressarem e de criar e, por outro, gera questionamentos das narrativas adquiridas ao apresentarem alternativas próprias àqueles discursos. É o conhecimento do outro, o contato com ideias diferentes, com formas distintas de se relacionar com o mundo, o que permite questionar nossas próprias crenças e é no encontro entre diferentes que novas narrativas podem ser desenvolvidas. Na experiência na UNIA, o fato de contar histórias e de criar cenas a partir do próprio contexto já é um espaço de elaboração de narrativas alternativas. A peça constituiu uma narrativa criada no contato intercultural a partir de um contexto comum e dinâmicas nas quais os participantes estão envolvidos. Através dessas narrativas, eles questionavam “normalidades” do seu contexto como a discriminação e a corrupção. Em palavras de Rustom Bharucha (1996b, p.210): Assim como precisamos pesquisar “linguagens” nos níveis não-verbais, performativos e subconscientes, também precisamos criar novas narrativas – mais multi-centradas, reflexivas, autocríticas de pressupostos “comunais” e sexistas, e acima de tudo, mais divergentes na contraposição de discursos monolíticos e imagens que tem sido solidificadas através da propaganda comunalista e fundamentalista. 119 Nas oficinas, mestiços e indígenas de distintas etnias tiveram a oportunidade de se conhecerem, de aprenderem sobre as diferenças, a elaborar questionamentos e a criar novas narrativas, e, ao mesmo tempo, também encontraram uma identidade comum: sua identidade de estudantes. Esta identidade foi, consciente ou inconscientemente, particularmente valorizada ao decidirem fazer a peça sobre o tema da Universidade. 4.5 ENCONTRO DE SUJEITOS O teatro intercultural constitui um encontro de sujeitos de diferentes culturas que, através da criação e do diálogo, elaboram narrativas alternativas e próprias. Na experiência ninguém é mais do que o outro e todas as relações, incluindo o professor artista, devem se dar através de um diálogo horizontal. Muitas experiências do teatro dialógico estão orientadas a setores da população marginalizados e se dá uma ênfase para que a relação dos professores e os participantes seja dialógica. O teatro intercultural, ao tentar construir interculturalidade através da experiência teatral, ou seja, gerar um espaço de encontro e diálogo entre pessoas de culturas diferentes, tem como ideal reunir no mesmo espaço sujeitos de culturas diferentes, inclusive sujeitos que discriminam, que têm preconceitos uns com os outros. Nesse sentido, o teatro intercultural está dirigido tanto aos marginalizados quanto aos que marginalizam; tanto aos discriminados quanto aos discriminadores; tanto aos indivíduos das culturas minoritárias quanto aos das culturas dominantes. Não devemos esquecer, porém, que parte do trabalho é eliminar as assimetrias e, para tanto, devemos reconhecer que elas existem, que devem ser combatidas e que todas as pessoas devem ser reconhecidas e devem se reconhecer como sujeitos. Se o encontro de sujeitos se baseia na modificação de todos os envolvidos, incluindo o professor artista ou a equipe que está liderando a experiência, a partir do fato de que nossa identidade está conformada por múltiplos aspectos que coexistem e se modificam permanentemente, um primeiro ponto a ter claro é que, no contexto da oficina, o professor artista está desempenhando o papel de liderança, de coordenação. Porém, este papel não é intrínseco à pessoa. Ele está desempenhando esse papel porque tem uma série de características, como conhecimento da técnica teatral, que o colocam nessa posição nesse contexto específico. Em outro contexto, outra situação, um dos participantes pode assumir a 120 liderança e o professor tornar-se um participante. Isto obedece ao princípio dialógico de que todos têm um conhecimento que deve ser valorizado. Na experiência da UNIA, no dia em que fomos procurar materiais para construir brinquedos, os participantes indígenas assumiram totalmente a liderança e Capa (o professor de artes plásticas) e eu os seguíamos. Eles sabiam como andar na floresta, eles sabiam procurar os materiais, inclusive, eles tinham muita mais capacidade do que nós para ver todo o que acontecia ao redor. Houve um momento em que eles me disseram para eu ter cuidado de não encostar a mão no tronco de uma árvore. Por que? Perguntei eu. Porque a mordida dessa formiga dói muito, me responderam. Eu nem tinha visto que tinha formigas na árvore e não teria como saber que a mordida dessa formiga é particularmente dolorosa, enquanto eles já o tinham percebido de uma forma natural. Este é um exemplo cotidiano e até exótico da possibilidade de troca nos papéis da liderança, porém, consciente ou inconscientemente, os participantes da experiência me ensinaram muitas coisas sobre como dialogar, sobre como escutar, sobre minhas próprias atitudes e contradições. Este aprendizado mútuo é a essência dos processos dialógicos. Um momento em que esta equivalência pôde ser trabalhada aconteceu no ensaio em que fui embora e os deixei trabalhando sozinhos. Nesse momento, eu não tinha o controle da situação, e fui embora porque estava cansado, frustrado e me sentindo inútil. Porém, o fato de eu ter ido embora deu uma mensagem para eles: vocês não precisam do professor para trabalhar e aprender. No dia seguinte os que foram ao ensaio mostraram duas cenas muito ricas (a paródia da oficina e a corrupção na contratação de professores) e continuamos com o trabalho. 4.6 CONFLITO No teatro intercultural se procura produzir aprendizado para todos os envolvidos. Aprendizado do fazer teatral, mas também aprendizado do outro e com o outro. Este aprendizado implica estar disposto a questionar os próprios preconceitos e estar disposto a, realmente, aprender com o outro. Esta atitude não é fácil e o processo pode ser conflituoso. Mas, não devemos ter medo do conflito desde que este é parte do diálogo e pode nos permitir alcançar um conhecimento mais verdadeiro e profundo do outro. 121 Segundo Capeloa (2008, p. 34) para Eibl-Eibesfeldt o conflito está ligado à “constituição de laços primários de comunitarismo” já que a agressividade é “dirigida contra o estranho, e se manifesta sob a forma de exclusão do diferente”. O conflito, portanto, é intrínseco no encontro intercultural e, como tal, deve ser valorizado. O fato de tentar evitar ou esconder situações conflituosas não faz com que estas desapareçam, muito pelo contrário, pode fazer com que a construção das relações seja muito instável e até falsa. O conflito é parte da vida. É difícil pensar que um conhece realmente a outra pessoa se não experimentou uma situação conflituosa. É importante não termos medo do conflito, mas assumi-lo. Durante a experiência na UNIA houve dois momentos concretos em que houve âmagos de conflito. O primeiro é aquela briga enquanto estavam preparando a cena do restaurante e o segundo foi quando eu decidi ir embora e deixá-los trabalhando sozinhos. No primeiro caso, conversamos sobre o acontecido e o dia terminou com um ambiente de união e amizade. No segundo, conversei superficialmente com alguns deles. Porém, acho que teria sido importante problematizar melhor ambos os conflitos, procurar causas e posições no próprio trabalho. Poderíamos, por exemplo, ter discutido sobre como deve agir um professor, quais suas responsabilidades, quais os limites. O coordenador não tem a responsabilidade de resolver o conflito, nem tampouco promovê-lo, mas, para ser consequente com os aspectos dialógicos do teatro intercultural, não deve evitálo, mas usá-lo para a construção de questionamentos. 4.7 TRABALHO EM PARCERIA Nesta experiência me acompanhou Capa (professor de artes plásticas) durante a etapa inicial. Para nós dois, quem conduzia o processo era eu e ele me acompanhava. Inclusive, houve um momento em que senti que ele não estava aportando muito, que não tinha iniciativa. Quando lhe comentei isso, ele me disse que ele sentia que eu tinha me incomodado em alguns momentos nos que ele tinha tomado a iniciativa e que por isso tinha decidido se limitar a apoiar minhas ideias. A participação do Capa na primeira oficina foi muito importante e foi um grande interlocutor. No final do processo, chegou Gabriela (que ajudou com as articulações) que também foi uma interlocutora importante, e ás vezes assistia Shimpu (jovem shipibo que tinha participado dos projetos 2006 e 2007) para me ajudar. Depois desta experiência confirmo a importância do trabalho em parceria. De trabalhar pelo menos com 122 uma pessoa com a qual dialogar sobre o processo, planejar as atividades, avaliar as atitudes de forma permanente. Estes processos são muito intensos tanto no nível de trabalho quanto no emocional e o fato de ter uma pessoa com a qual dialogar, compartilhar as tarefas e as decisões, é muito enriquecedor para o trabalho. Este ponto, aliás, resulta importante inclusive para resolver aspectos pragmáticos. Aquele dia que os deixei trabalhando sozinhos, eles fizeram uma parodia sobre a própria oficina de teatro. César estava me representando. Botou meu boné na cabeça, esticou a coluna e em um momento da cena pegou um objeto que colocou na frente do seu rosto como se fosse uma máquina fotográfica. Eu estava o tempo todo filmando ou fotografando para registrar a experiência, e, para os participantes, essa era uma das minhas características externas mais ressaltantes. A parceria pode ser importante, inclusive, para esses detalhes que podem parecer insignificantes, mas que no fundo são relevantes. Segundo Zeca Nosé103, quando integrantes do grupo de teatro comunitário argentino Catalinas Sur ministram oficinas, procuram fazê-lo numa parceria entre um homem e uma mulher para poder garantir um melhor contato com todos os participantes. Considero que no contexto intercultural a parceria é particularmente relevante, desde que os critérios de análise e os pontos de partida podem ser muito variados. Nesse sentido, se o coordenador pertence a um dos grupos culturais que estão participando da experiência, é natural que este se identifique mais com seus parecidos e que a comunicação com eles seja mais fluida. Isto me aconteceu na experiência do ano 2007, no qual um dos grupos estava constituído por estudantes da PUCP, universidade na qual me formei e na qual eu era professor. Por isto, recomendo que para a condução de processos de teatro intercultural, os coordenadores sejam de uma cultura diferente da dos participantes, ou que exista uma equipe também intercultural. Existe também a possibilidade de gerar parceria no trabalho com os próprios participantes. Na segunda oficina os estudantes que tinham participado da primeira, por exemplo, ajudavam aos colegas novos lhes explicando os jogos e lhes guiando. 103 Zeca Nosé realiza uma pesquisa sobre o grupo Catalinas Sur e acompanhou ao diretor do grupo, Ademar Bianchi e a co-fundadora do grupo, Mónica Lacoste no evento IV Trobada internacional de teatre i educació (http://www.patothom.org/IV.html), no 2008. 123 Porém, trabalhar em parceria garante que exista um planejamento coletivo, que os condutores possam ter pelo menos um interlocutor em igualdade de condições e que exista uma vigilância mútua de atitudes não dialógicas. 4.8 ATITUDES NÃO DIALÓGICAS Apesar de ter uma convicção de diálogo e de escuta, pode acontecer que às vezes, por determinadas circunstâncias, temos atitudes contrárias a esses princípios. Quase no final da primeira oficina, teve um dia que participaram só três pessoas. Decidimos trabalhar a partir da máscara neutra. Qualquer pessoa que já tentou expressar coisas com uma máscara neutra sabe o quanto é difícil. Em um momento determinado pedi a um dos participantes, em segredo, para expressar alegria. Ele se esforçou muito para fazê-lo mas eu continuava gritando que não a estava enxergando. Nesse período eu estava bastante estressado por conta da diminuição dos participantes, sem saber se continuava com a oficina, se propunha uma nova turma ou procurava outro espaço para trabalhar. Após vários meses, estava revisando os vídeos daquele dia e num deles se ouvia a voz de outro dos participantes dizendo “alegria”, enquanto eu gritava “Não se entende”. Nesse momento minha atitude foi totalmente antidialógica. Afirmo isto porque muitas vezes não enxergamos nossas próprias atitudes ou comportamentos. Portanto, é importante que o professor tenha uma permanente atitude autocrítica e vigiante do seu próprio agir. 4.9 MINHA IDENTIDADE Como foi colocado na introdução, minha posição, no Peru, é uma posição de poder. Sou membro da cultura dominante do país, no entanto, o fato de eu pertencer a essa cultura, de ser branco104, faz com que eu não seja reconhecido como peruano e essa era uma motivação para me interessar em fazer uma pesquisa sobre identidade. Como afetou o processo o fato de eu 104 Quando me refiro a mim mesmo, me reconheço como branco e não como mestiço. Existe no Peru um “paradigma de mestiçagem” que presupõe a existência de um “sincretismo cultural” e, portanto “igualdade”. Este “propõe a existência de uma sociedade mestiça composta de cidadãos mestiços – e, portanto homogêneos – sem se preocupar pelas diferenças sociais e da riqueza cultural que não pôde ser uniformizada em cinco séculos de dominação hispânica” (TUBINO e ZARIQUIEY, 2007, p. 22). Em geral, eu não sou reconhecido como mestiço, mas como branco. Os herdeiros brancos dos conquistadores continuam dominando o país e existe uma percepção “natural” na qual o branco sempre tem dinheiro. Além disso, existe ainda um racismo muito enraizado na sociedade que se reflete em ditados populares como o dinheiro te torna branco. Gera-se então uma “linha de opressão” na qual o branco oprime ao mestiço e este ao indígena. Isto é uma caricatura da situação, porém reflete grosseiramente uma realidade no Peru. 124 pertencer à cultura dominante? Como eu era percebido pelos participantes? O fato de pertencer a esse grupo é bastante confortável porque me abre portas e me permite circular por lugares muito diferentes. Isso é uma vantagem que pode ser aproveitada para benefício pessoal ou para beneficiar as classes de poder, mas também pode ser usada para gerar e procurar espaços de diálogo e questionamento daquelas estruturas de poder. Outra razão pela qual é uma posição confortável é que, diferentemente dos estudantes indígenas, eu posso ser o mesmo, sempre. Eu não tenho que me vestir diferente, nem falar outra língua, eu não tenho uma pressão social para negar ou ocultar minha origem. Como tudo isto se relaciona com a experiência? A princípio eu pedi para dar prioridade aos estudantes indígenas, deixando de lado os mestiços. Por que excluir os mestiços? O que procuro no contato com os indígenas que, achava (acho...) não posso receber dos mestiços? O fato de que os mestiços morem na cidade, de eles terem, até certo ponto, aspectos da sociedade dominante da qual provenho e que tanto critico faz com que eu me sinta menos atraído por eles? Descubro aqui um preconceito: mestiço como invasor e como uma pessoa superficial. Percebo o indígena como aquele que pode me ensinar mundos, formas de pensar, de viver, valores diferentes. Como aquele que pode me mostrar alternativas de vida diferentes. Procuro ter uma atitude dialógica na minha vida e nas minhas relações. Esta, portanto, é fundamental na minha atividade como professor e diretor de teatro, que é muito importante para minha identidade. Encontro no teatro intercultural um caminho de aprendizado, de confronto, de provocação. Encontro nele, portanto um caminho de aprendizado no afã de me tornar cada vez mais dialógico. Desta forma, não procuro trabalhar em comunidades afastadas, mas nos espaços de encontro, neste caso, uma cidade amazônica, o espaço no qual se confrontam diferentes formas de vida. Homi K. Bhabha (2007, p. 20), afirma que mais do que pensar nas narrativas originárias, é importante pensar nos momentos de articulação de diferenças culturais. Esses “entre-lugares” fornecem o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação – singular ou coletiva – que dão inicio a novos signos de identidade e postos inovadores de colaboração e contestação, no ato de definir a própria idéia de sociedade. 125 Meu interesse é o espaço do encontro, do diálogo, do conflito. É a interação das pessoas, o aprendizado do e com o diferente, a troca. Encerramento Eu queria trabalhar identidade com os jovens indígenas. Agora fico contente disso não ter acontecido e de que as oficinas tenham sido um espaço de encontro entre indígenas e mestiços. Tenho um romantismo da forma de vida indígena e possuo no fundo um instinto preservacionista. Isto não é porque queira que os indígenas fiquem vivendo sempre do mesmo jeito, mas porque acredito que seu estilo de vida não é algo do passado, mas contemporâneo. Acredito que temos muito que aprender das populações indígenas, principalmente no que se refere à vida comunitária e a relação com a natureza, e estou totalmente contra aqueles que as percebem como um estorvo para o desenvolvimento. Nesse sentido, acho que temos urgência de ter espaços de encontro e conhecimento entre os diferentes, entre os que têm valores diferentes. Temos urgência de aprender do outro, de saber que podemos aprender do outro, que existem outras formas de ver o mundo, que o diferente também pode ser parecido, que podem se construir coisas a partir da diversidade, que esta é um valor e não uma trava. O teatro é um espaço privilegiado para estes encontros e é aí onde radica seu poder: em propiciar conhecimento do outro e de si próprio na convivência e na criação conjunta. Este permite que, ao invés de nos relacionarmos com os estereótipos do outro, comecemos a conhecer a dinâmica das identidades que constituem todos os sujeitos. O teatro intercultural seria um espaço no qual tanto os participantes quanto o professor, qualquer que sejam suas caraterísticas – origem, cultura, condição social, deficiência física ou mental, cor de pele, gênero ou idade – podem recuperar, no diálogo, sua condição de sujeitos. Comecei este texto com uma pergunta: por que volto trabalhar na Amazônia? Volto porque aprendo sobre ela, sobre seus moradores, com eles (tanto indígenas quanto mestiços), sobre suas complexidades, suas contradições. Aprendo sobre mim mesmo, sobre minhas complexidades, minhas contradições. 126 Aprendo que sou herdeiro de uma tradição cultural, que sou parte da sociedade dominante. Aprendo que sou um menino de cidade. Aprendo sobre relações de poder, sobre pobreza, sobre discriminação, sobre interculturalidade, sobre oportunidades. Aprendo sobre discursos aprendidos e atos sem fundamento. Aprendo sobre o teatro como meio e como fim. Sobre o teatro como espaço de diálogo, como espaço intercultural. Aprendo a brincar, a comer do mesmo prato, a navegar pelo mesmo rio. Aprendo que não existe o bom selvagem. Que o indígena não é bom por ser indígena e que o branco, eu branco, não é colonizador por ser branco. Aprendo que o conflito não é mau, mas é parte importante da vida. Aprendo sobre tolerância e intolerância. Aprendo a dar, a receber. A fechar minha boca. Aprendo a dialogar. 127 REFERÊNCIAS ACKROYD, Judith. Applied Theatre: Problems and possibilities. Applied Theatre Researcher/IDEA Journal Nº1, 2000. Disponível em: http://www.griffith.edu.au/__data/assets/pdf_file/0004/81796/Ackroyd.pdf. Acesso em: 23 out 2012. ADICHIE, Chimamanda. O perigo de uma história única. Disponível em: http://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html. Acesso em: 07 jun 2011. ALEJOS, José. Identidad y alteridad en Bajtín. Acta Poética. México, N° 27 (1) Primavera 2006. Disponível em: <http://www.revistas.unam.mx/index.php/rap/article/view/17395>. Acesso em: 12 set. 2012. 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Entrevista concedida ao autor. Pucallpa, 01 de oct. de 2011. Entrevista. MONTES, Augusto. Entrevista concedida ao autor. Pucallpa, 27 de set. de 2011. Entrevista. PAATI, Franguine. Entrevista concedida ao autor. Pucallpa, 18 de ago. de 2011. Entrevista. PANDURO, Haydeé. Entrevista concedida ao autor. Pucallpa, 06 de oct. de 2011. Entrevista. PERONA, Gabriela. Entrevista concedida ao autor. Pucallpa, 29 de set. de 2011. Entrevista. SHIMPUKAT, Alex. Entrevista concedida ao autor. Pucallpa, 15 de ago. de 2011. Entrevista. UGKUSH, Robert. Entrevista concedida ao autor. Pucallpa, 19 de ago. de 2011. Entrevista. OUTRAS FONTES SUAREZ, Jeiser. Algo sobre tu pregunta. [mensagem pessoal] Mensagem recebida por [email protected] em 4 out. 2012. SILVANO, Efer. Re: preguntas [mensagem [email protected] em 26 mar. 2012. TUBINO, Fidel. Re: Noticias [mensagem [email protected] em 5 nov. 2012b. pessoal] pessoal] Mensagem recebida por Mensagem recebida por 136 APÊNDICE A – Descrição dos grupos étnicos 1. Awajun Família linguística: Jíbaro Localização: Regiões de Amazonas, Loreto, Cajamarca y San Martín. Caraterísticas principais: Descendentes dos jíbaro, grandes guerreiros que defenderam sua liberdade e, portanto, mantiveram-se por muito tempo fora do alcance do homem ocidental. Suas atividades econômicas principais são a horticultura, a pesca e a caça. Atualmente praticam também a agricultura comercial de arroz e outro produtos. Os homens produzem tecidos e as mulheres cerâmicas. O 39% da população é analfabeta. São muito vulneráveis à exploração petrolífera, a mineração aurífera, processos de colonização, narcotráfico e conflitos fronteiriços (Equador). 2. Wampis Família linguística: Jíbaro Localização: Regiões de Loreto e Amazonas. Caraterísticas principais: Passado comum com a etnia Awajun. Praticam a agricultura de subsistência, caça, pesca e criação de aves de granja. Comercializam mandioca, banana e arroz. Alguns produzem ouro artesanalmente. Atualmente, junto com os awajun, oferecem o serviço de vigias do oleoduto nor-peruano. O 40% é analfabeta. Sua vulnerabilidade deve-se principalmente à exploração de hidrocarbonetos. 3. Shipibo-Konibo Família linguística: Pano Localização: Regiões de Huánuco, Ucayali, Loreto y Madre de Dios. 137 Características principais: Surge da confluência dos konibo, os shipibo e os shetebo. Entre suas atividades econômicas mais importantes estão a horticultura, a caça, a pesca, a criação de animais e a agricultura comercial de arroz, milho, banana e amendoim. Também se dedicam à extração de madeira. A produção de artesanato é outra caraterística importante deste grupo. Existe um setor crescente de shipibos se integrado ao ambiente urbano. 27% da população é analfabeta e 8% tem acesso a educação superior. Sua vulnerabilidade está, principalmente, na expansão urbana e industrial, exploração de hidrocarbonatos, narcotráfico e colonização. 4. Shawi (Chayahuita) Família linguística: Cahuapana Localização: Região de Loreto Caraterísticas principais: Durante o século XVII formaram parte da população que morava nas missões jesuítas. Depois estiveram a serviço dos exploradores de borracha. Atualmente suas atividades econômicas principais são a caça, a pesca e a agricultura de mandioca, banana, milho, feijão, amendoim, arroz, abacaxi, mamão, algodão e tabaco. Também criação de animais, de gado, e extração de madeira. 52% da população é analfabeta. Grupo de pouca vulnerabilidade. 5. Tikuna Família linguística: Independiente (alguns a consideram Arawak ou Tukano). Localização: Fronteira entre Peru, Brasil e Colômbia. Características principais: Tradicionalmente, evitaram o contato com as culturas ocidentais o que permitiu a preservação de suas dinâmicas socioculturais. Os Tikuna sempre procuraram a independência, mas sua história é agitada, estando no meio das guerras entre as coronas espanhola e portuguesa pela fronteira, e depois sendo escravizados na época da borracha. Entre suas atividades econômicas mais importantes estão a pesca, a horticultura, a recolecção e a caça. Também comercializam farinha, peixes e madeira. O grupo é de uma vulnerabilidade média devido à exploração florestal e ao narcotráfico. 138 6. Aymara Considera-se os Aaymara aqueles que têm o aymara como língua mãe, ou que se identificam como Aymaras. Porém, “não existe um subgrupo exclusivo do aymara”. Inclusive, a população aymara vai além das fronteiras nacionais ocupando territórios da região andina que vão desde o sul do Peru até o nordeste argentino. A maior parte dos Aymaras vive da agricultura de subsistência, principalmente do cultivo de batata, cevada e quinoa. Também da criança de animais como ovelhas, lhamas e alpacas; assim como da pesca, particularmente aos redores do lago Titicaca. As crenças dos Aymaras misturam as práticas sobrenaturais nativas com as crenças cristãs. Fontes: Descrição dos grupos étnicos Awajun, Wampis, Shipibo-Konibo, Shawi e Tikuna: BODMER, Richard; MAYOR, Pedro. Pueblos Indígenas de la Amazonía Peruana. Iquitos: Centro de Estudios Teológicos de la Amazonía (CETA), 2009. Disponível em: http://atlasanatomiaamazonia.uab.cat/pdfs/PueblosIndigenasAmazoniaPeruana.pdf. Acesso em: 30 out. 2012. Descrição do grupo étnico Aymara: SUMAQ PERU. Disponível em: http://wiki.sumaqperu.com/es/Aymara. Acesso em: 13 fev. 2013. 18:30. 139 Mapa dos grupos étnicos* Awajun Wampis Shipibo – Konibo Aymara Tikuna Shawi *Ubicação aproximada da localização dos grupos étnicos. Referência: http://servindi.org/img/Mapa_Etno2009.jpg 140 APÊNDICE B – Histórias Neste apêndice há três histórias contadas pelos participantes como amostra do tipo de conteúdo que surgiu no trabalho. 1. Origem dos povos indígenas Na minha sala de aula, o professor contou sobre a origem da Amazônia, dos povos indígenas. Havia um senhor que morava sozinho na floresta, num povoado. Não tinha esposa nem filhos. Morava sozinho. De tanto percorrer a Amazônia, de tanto andar pelos morros altos, tinha caminhos que iam e ele seguia. Mas não havia casa nenhuma, nenhum morador, não tinha pessoas. E ele pensava Quem fez este caminho? E de tanto andar pelo caminho chegou numa casa que estava bem varrida, tinha masato, comida preparada, mas não tinha pessoas, e ele pensava Quem preparou o masato, a comida? Ele queria descobrir a pessoa que tinha preparado. Estava esperando, mas como não vinha ninguém, voltou para sua casa. No dia seguinte, de tanta vontade que tinha por descobrir quem morava na casa, esperava escondido, até que chega um grupo de papagaios que, no momento de chegar na casa, se transformaram em garotas. Os papagaios viraram garotas. E o senhor queria capturar, pegar uma. Mas, no momento dele sair, as papagaias, as garotas né? Percebiam que o senhor estava ali e queriam ir embora, mas o senhor pegou uma, uma delas. As outras garotas transformaram-se em papagaio e voaram. Ele ficou com uma e mora com ela, tem família, tem filhos e... tinha vários filhos. Ele pensa... não havia povos né? Pensa formar povos indígenas em diferentes lugares. O que é que ele faz? Cada filho, o mais velho, o segundo, mandou para um lugar longe para que formasse seu povo, e o outro, mandou para outro povo, e o outro, mandou para outro povo. E o senhor que fica faz a cultura Cocama. Seus filhos formaram outros povos, outras culturas. 2. A caverna Existe uma caverna que se chama Caverna dos Morcegos. Ninguém entrava ali. Entravam só uma hora e meia. Mas nós queríamos descobrir ate onde ia dar aquele buraco. Então fomos em três, com meus primos, e entramos uma hora e meia com lanterna, tudo, três só. E antes de passar aquela caverna havia muitos morcegos que urinavam. Mas depois que passamos os morcegos, era normal. E tem um buraco que chega, que não pode se passar. Havia um buraco pequeninho e nos temos entrado ali primeiro para ver até onde chega. Então eu fui primeiro e passando uns cinco metros desse buraco há algo assim como uma casa grande, tipo quartos né? Maior do que o primeiro buraco. Por ali, por ali, três, quatro, cinco quartos. Tipo pista, bonito. No momento em que entramos, para não nos confundir na volta, assinalamos com a pedra porque quando iluminas faz como um brilho. Então entramos num buraco deste tamanho, bem grande, bonito. Entramos mais uma hora e meia. Total é três horas adentro. E este buraco vai 141 assim grande e bem bonito, como varrido. Então ai nos assustamos porque talvez tinha anaconda né? La dentro. Porque ali ninguém, entrava. Queria entrar mais, e era como se tivesse concreto, bonito. Então voltamos, entramos num outro buraco e achamos uma pisada de uma pessoa, recente. Então nos assustamos O que está acontecendo? Quem tem subido? Temos que descobrir quem mora aqui. Porque ali sempre se ouvia o som do telefone, pessoas falando em quíchua, em inglês talvez. Ouvia-se porque é uma caverna grande, pedra grande. Então, queríamos entrar em contato com as pessoas né? Descobrir quem mora naquele buraco. No final, temos encontrado essa pisada e nos assustamos. Voltamos e havia mais um buraco no qual havia água cristalina, tipo poço. Aquela água brilhava. Bem gelada. Então temos tentado e não conseguimos ir além porque estava cheio d’água. Adentro, assim, mais ou menos 50 metros de altura, tem água dentro dessa caverna. Então dali voltamos porque tínhamos medo. Depois de alguns meses de voltar desse buraco, dizem, saiu uma anaconda grande e entrou no buraco no rio. Isto eu sempre lembro porque ali moram pessoas e sempre seguirei pesquisando para descobrir que tipo de pessoas moram ali. 3. Caverna dos talos Um senhor, o outro senhor tinha sua esposa e combinaram para coletar guácharos. Foram embora um dia e chegaram num lugar onde estava a caverna dos guácharos. Um dos senhores buscou uma corda de 20 metros para entrar na caverna. Os dois se amarraram e entraram na caverna dos guácharos. O primeiro senhor procurou um lugar, juntou tudo e saiu sem que o outro percebesse que alguma coisa aconteceria. O primeiro, depois de sair cortou a corda. O outro senhor ficou dentro da caverna dos talos. Não havia nada, nenhum espaço para sair. Ali ficou muito tempo. O senhor que saiu deixando seu amigo na caverna, chegou na casa dele, do amigo, e ficou com sua esposa. O senhor que ficou na caverna viveu por muitos anos e um dia apareceu um tigre no seu sonho dizendo que sabia onde estava sua mãe. O senhor se acordou ouvindo os rugidos do tigre. O tigre se aproximou, o cheirou e lhe perguntou Porque você está aqui?. O senhor contou tudo. Não se preocupe. Eu vou tirá-lo daqui. O senhor pensava Como vai me tirar daqui? O tigre diz para o senhor Eu vou andar na frente e você vai me seguir. Não me pegue nem encoste sobre mim. Se você encosta eu como você. O senhor cumpriu a ordem do tigre e quando este estava perto da chácara da mãe entrou na água e três metros depois havia um caminho. Dali sai perto da chácara da mãe. O senhor ouvia como sua mãe estava chorando por ele. E como tinha ficado muito tempo na caverna, não podia mais andar, estava prestes a morrer. Foi se arrastando, se arrastando e chegou até sua mãe. Sua mão o abraço, o banhou, fez uma maloquinha na chácara. O alimentava e o senhor engordou. O senhor perguntou para sua mãe por sua esposa e a mãe contou para ele que tinha se casado com outro. O senhor engordou, ficou forte, e fez lanças de palmeiras. Então foi para sua casa, onde tinha deixado seus filhos, e o senhor que tinha ficado com a esposa tinha ido trabalhar na chácara. Na casa estavam só seus filhos que ficaram muito contentes de vê-lo. O senhor não respondia. Dizia que seu pai devia ter morrido, que deixaram ele na caverna dos talos. Eu não 142 sou teu pai, falava para seu filho. Mas as crianças insistiam em que era seu pai. Teu padrasto, onde está? - foram trabalhar - a que horas volta? - tal hora. A casa tinha duas portas. Fechou uma delas e ficou esperando na outra até que o amigo e a esposa voltassem. Mal voltaram, o senhor matou os dois. As crianças ficaram muito assustadas, mas ele diz. Não se assustem, não chorem. Eu sou seu pai. 1. Origen de los pueblos indígenas En el salón de mi clase, lo que me contó el profesor sobre la creación de la Amazonía, de los pueblos indígenas. Decía que un señor habitaba en un monte solito. En un pueblo. En un pueblo, solito. No tenía su esposa ni sus hijos. Vivía solo. En los tiempos, de tanto recorrer la Amazonía, de tanto caminar por los montes altos, había caminos que se van y él seguía, pero no había ningún casa, ningún habitante, no había personas. Y él pensaba ¿quién hizo este camino? Y recorría, y de tanto seguir el camino ha salido en una casa, pero… estaba bien barrido, tenía su masato, su comida preparada, pero no había nada de gente, y él pensaba ¿quién lo habrá preparado masato, comida? Y él quería descubrir quién es la persona que ha preparado. Estaba esperando pero no venía nadie y ha regresado a su casa. Al siguiente día, de tanto tiempo que quería descubrir, se escondía. Cuando quería regresar, ya no regresaba a su casa sino que escondía detrás de la casa para descubrir quién viene. De tanto esperar viene una manada de loros y al momento de llegar a la casa se convertía en chicas. Los loros se convertían en chicas. Y el señor quería capturar, quería agarrar una. Pero al momento de salir, las loras, las señoritas ¿no? Se daban cuenta que un señor estaba ahí y querían largarse y el señor agarró una, una de ellas. Y las demás chicas se convertían en loro y se volaban. Y la una se ha quedado, así, la chica y con ella vive, tenía su familia, tenía sus hijos y… tenía varios hijos. Él piensa… no había pueblos ¿no? Piensa formar pueblos indígenas en diferentes partes. ¿Qué es lo que hace? Cada hijo, el mayor, el segundo, mandó a un lugar lejos para que forme un pueblo, y el otro, mandó a otro pueblo, y el otro, mandó a otro pueblo. Lo que el señor quedaba es arma una cultura que vive… la cultura Cocama. Lo que quedó de la cultura Cocama, el señor. Sus hijos formaban otros pueblos, otras culturas. 2. La cueva Hay una cueva que se llama cueva de los murciélagos. Ahí nadie entraba. Entraba, pero una hora y media, así. Pero nosotros queríamos descubrir ese hueco hasta dónde llega. Entonces hemos ido tres, con mis primos a entrar una hora y media con linterna, todo, tres no más. Y, antes de pasar esa cueva, había cantidad de murciélagos, orinaba, todo. Pero después de que pasamos murciélagos, de ahí es normal, y hay un hueco que llega, que no se puede ir. Había un huequito chiquitito y nosotros hemos metido ahí primero para descubrir hasta dónde llega. Entonces yo me he adelantado primero y pasando unos cinco metros de ese hueco hay así 143 como ese casa grande; cuartos, como decir ¿no? Más grande que hemos entrado en primero hueco. Por acá, por acá, unos tres, cuatro, cinco, cuartos ¿no? Por decir, así con pista, bonito. Y al momento que hemos entrado nosotros hemos empezado, para no confundir cuando regresamos, hemos empezado a señalar con la piedra no más porque cuando alumbras hace como brillo, ¿no? Entonces, hemos agarrado un hueco de este tamaño, bien grande, bonito. Entramos una hora y media más. Total es, tres horas, adentro no más. Y este hueco se va así grande y bien bonito así como barrido. Entonces, ahí nos asustamos porque de repente boa ¿no? Adentro. Porque ahí nadie entraba. Quería entrar más pero así como que estuviera cementado bien, bonito. Entonces de ahí no más hemos regresado y queríamos entrar en otro hueco y ahí hemos encontrado un huella de persona recién caminado. Entonces hemos asustado ¿qué está pasando acá? ¿Quién le ha subido? Hay que descubrir quiénes viven. Porque ahí siempre escuchaba, sonaba teléfono, personas que hablan en quechua, o inglés de repente. Así escuchaban porque ese es un cueva grande, roca grande. Entonces, nosotros queríamos contactar con esas personas ¿no? Descubrir quiénes viven en ese hueco. Total hemos encontrado esa zapatilla y nos asustamos. Y regresamos y había otro hueco más, y en ese hueco hay un agua bien cristalina, como pozo. Brillaba esa agua. Bien helada. Entonces hemos probado y no podíamos ir allá porque así bien lleno era de agua. Adentro, así más o menos 50 metros de altura, hay agua adentro de ese cueva. Entonces, de ahí no más hemos regresado porque teníamos miedo. Después de regresar, unos… llevaba cuatro meses, un mes, de ese hueco dice que ha salido un boa grande y ha hundido en ese hueco grande en el río. Esto siempre me acuerdo porque ahí dice que vive personas y siempre seguiré investigando para descubrir qué tipo de personas viven 3. Cueva de los tallos Un señor, el otro señor tenía su señora y acordaron recolectar guácharos y se fueron un día y llegaron donde había cueva de los huacharos y el otro señor estaba buscando sogas de 20 metros para que se metan allá dentro del subterráneo para recolección de huacharos y ya le armaron todo y los dos se entraron en cueva de los huacharos. Su compañero se ha buscado al otro sitio y se ha juntado todo. El primerito ha salido y el otro señor no se ha dado cuenta de que iba a pasar algo. El primero que ha salido le ha dejado cortando su soga y le dejó. El señor se quedó adentro en cueva de los tallos. No había nada, ni espacio por donde iba a salir. Ahí ha vivido tiempos, dice. El amigo que ha hecho fregar a su amigo llegó en su casa y a su señora que ha convivido con su amigo le ha tomado como su señora. Y el señor que se ha quedado en cueva de los tallos, dice que ha vivido años y en su sueño dice que le apareció un tigre diciendo que ese tigre le sabía donde estaba su mamá. Y de muy pronto el señor que estaba durmiendo se despertó y estaba escuchando lo que rugía el tigre. Y el tigre se acercó y le olea porque todas partes al señor y le dijo ¿Por qué estás aquí? Le estaba preguntando al señor. Le contaba todo lo que ha pasado y No te preocupes, yo te voy a sacar le decía el tigre. Y el señor estaba pensando ¿Cómo me va a sacar? Y el tigre le decía al señor Yo voy a adelantarme y tú vas a seguirme atrás de mí. No me agarres ni me topes, si me topas te voy a comer le decía. El señor cumplió esa orden del tigre y el tigre llegó, ya cuando estaba cerca de 144 la chacra de su mamá, se metió en el agua y de ahí unos tres metros creo que había del camino. De ahí sale casi cerca de la chacra de su mamá. Y el señor estaba escuchando que su mamá estaba llorando por él. Y como estaba tiempos en esa cueva, el señor ya no podía caminar, estaba a punto de morir. Se iba arrastrándose, arrastrándose, se acercó, así llegó donde estaba su mamá. Y su mamá le había cogido en abrazos y le ha hecho bañar y le ha hecho su tambito ahí en su misma chacra. Le daba alimento y el señor se engordó. Le estaba preguntando a su mamá sobre su señora y su mamá le contaba diciéndole que su señora se casó con el otro. Y el señor se engordó, se ha hecho fuerte, ha tumbado palmeras de pifallo y ha hecho lanza. Y se mandó en su casa que le había dejado con sus hijos y el señor que ha tomado su señora se ha ido a trabajar en la chacra y en esa casa estaban solamente los niños y los niños se alegraban cuando estaba viendo su papá. Y el señor no le contestaba, le decía que su papá le habrán muerto, le habrán metido en la cueva de los tallos, le decía. Yo no soy tu papá ,le decía a su hijo. Pero los niños insistían que sí pero el señor no confirmaba. Solamente llegó a preguntar Tu padrastro ¿dónde está? – Se fueron a trabajar –¿a qué horas llega? – Tal hora va a llegar. Tenían dos puertas en esa casa y la otra puerta el señor ya cerró y en la otra puerta no más estaba esperando a la hora que va a llegar. Si bien llega le mata a los dos y los niños se quedaron asustados y ahí declara diciendo No se asusten, no lloren hijos. Yo soy tu papá. 145 APÊNDICE C – Mapas de vida das máscaras Perguntas: 1.2.3.- De onde vem? Quem é hoje e quais são seus sonhos? Quem será no futuro? Além disso, deviam lhe colocar um nome. Cultura: Awajun Nome da máscara: Bukea 1. Bukea mora na floresta. Bukea é um animal noturno. Mora onde há árvores grandes, maderables105. Pai da floresta. Cuida do meio ambiente. 2. Agora é o dono do bosque. É perigoso. Não tem asas, caminha no ar. Seu sonho de hoje é procurar problemas para solucioná-los, e quer estar sozinho, sem barulho e sem inimigos. 3. QUEM VAI SER NO FUTURO? Dono da selva. Proteger de contaminação a floresta, o ar, as ravinas. Cultura: Awajun Nome da máscara: El jaguar 1. Vem da floresta – faz frio – é pantanoso – é morro – gosta do rio. 2. Gosta de formar uma família – será uma pessoa generosa – adora cantar – será um professor – quer viver em paz – ser liderança do seu povo. 3. Será um animal sábio que protegerá aos animais da floresta – Colocará suas forças na frente do perigo de contaminação – será gentil com os outros seres vivos – será advogado de direitos – quer ser doutor em pedagogia – será cirurgião. Cultura: Awajun Nome da máscara: 105 As árvores maderables são as que servem para a exploração de madeira. 146 1. A máscara vem da selva, de um povoado que se chama Wayampiak. A comunidade tem boas características. Tem poucos habitantes, é amigável, mas falam uma língua só. Tem instituição de ensino fundamental, ensino médio, pré-escolar, igreja, posto de saúde, prefeitura, delegado, e nesta comunidade há muitos riachos, tem floresta, casas construídas, existem dois tipos de madeira, e não madeiráveis. 2. Quero ser inventor de máscara. Fabricador de máscaras. Em meus sonhos quero ter três filhos para que cuidem de mim que nem um rei. Em meus sonhos sou bom, dando conselhos aos outros personagens e me mostra tal como eu sou e ser respeitado de acordo com minha profissão. 3. No futuro quero ser o melhor fabricante de máscaras. No futuro quero me transformar em diabo para assustar pessoas. Cultura: Shipibo Nome da Máscara: Rao Rawa 1. Planta medicinal. 2. Curando alma + corpo do homem. Cuidando da natureza. 3. A natureza cura o homem + o homem cuida da natureza. Não contaminado. Homens e natureza saudáveis. 147 Cultura: Mestiço Nome da Máscara: El músico 1. De um sonho de ser músico que possa criar melodias, cantar, tocar um instrumento, que vive cada segundo pela música. É um lugar no qual tudo é harmonia, onde os instrumentos liberam belas melodias, e que cada melodia transmite um sentimento, uma emoção. 2. Músico e cantor. Que queira causar admiração nas pessoas, que toque todos os instrumentos mas tem um problema: tem temor, fica nervoso na hora de fazê-lo. Seus sonhos são vencer o medo do público, de pensar que não pode lograr seu sonho de ser um grande músico. Tocar ou entonar uma variedade de instrumentos. 3. Um músico sem medo do público. Que brinque com o público. Um músico reconhecido e querido pelas pessoas. Um homem feliz porque consegue o que mais queria na vida. Cultura: Awajun Nome da Máscara: Lechuza (Coruja) 1. Vem de um alto morro. Mora na floresta geralmente 2. É poderoso. Agora é uma coruja voadora. Poderoso, que mora em cemitérios. Procura os mortos para contatá-los e se transformar em demônio. Seu sonho é dominar as pessoas, transformando em pessoas e assustando os outros. Também seu sonho é virar dominante. 3. Seu futuro: ser e parecer. 148 Cultura: Awajun Nome da Máscara: Satanás 1. Vem da floresta. Das montanhas. 2. É um ser maligno. Mata pessoas. Destrói pessoas. Seu sonho é dominar o mundo todo. 3. Destruirá a terra e ficará em primeiro lugar no mundo Cultura: Awajun Nome da Máscara: Kujancham 1. Vem do céu. No céu há sol, lua e estrelas. Este personagem desceu do céu. 2. Agora é guerreiro, jogador de futebol, pegador de mulher. Seu sonho é ser político ou científico. 3. No futuro quer ser inventor de tecnologia ou um grande mitayero (caçador).