UNIVERSIDADE LUTERANA DO BRASIL CURSO DE SERVIÇO SOCIAL ROSA REGINA LIMA DE SOUZA TRABALHANDO COM VIOLÊNCIA CONJUGAL NO NÚCLEO DE ESTUDOS DA VIOLÊNCIA, INTERVENÇÃO E DIREITOS SOCIAIS Canoas 2007 ROSA REGINA LIMA DE SOUZA TRABALHANDO COM VIOLÊNCIA CONJUGAL NO NÚCLEO DE ESTUDOS DA VIOLÊNCIA, INTERVENÇÃO E DIREITOS SOCIAIS Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Serviço Social da Universidade Luterana do Brasil, como requisito para obtenção de Grau de Bacharel em Serviço Social. Orientadora: Profª Me Assistente Social Maria da Graça Maurer Gomes Türck Canoas 2007 ROSA REGINA LIMA DE SOUZA TRABALHANDO COM VIOLÊNCIA CONJUGAL NO NÚCLEO DE ESTUDOS DA VIOLÊNCIA, INTERVENÇÃO E DIREITOS SOCIAIS Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Serviço Social da Universidade Luterana do Brasil, como requisito para obtenção de Grau de Bacharel em Serviço Social. Porto Alegre, ___ / ___ / 2007. ____________________________________________________ Profª Me Maria da Graça Maurer Gomes Türck Orientadora ____________________________________________________ Prof. Dra. Kelinês Gomes Argüidora (ULBRA) _____________________________________________________ Profª. Olema Pellizzer Argüidora (Convidada) MULHER! “Tens cuidado quando fazeres chorar uma mulher, pois Deus conta as suas lágrimas! A mulher foi feita da costela do homem, não dos pés para ser pisada, nem da cabeça para ser superior, mas sim do lado para ser igual, de baixo do braço para ser protegida e do lado do coração para ser AMADA“ Dedicatória Ao meu marido, Ademir Cardoso de Souza, iniciar esta trajetória e hoje concluí-la. com seu apoio, companheirismo e paciência. A minha filha, Aniele Lima de Souza, agradeço o incentivo e a troca de conhecimentos que muito me ajudaram. AGRADECIMENTOS À Nossa Senhora Aparecida, por estar sempre presente nas minhas aflições, me orientando, iluminando minha estrada, meu coração e ajudando na superação das dificuldades no decorrer da estrada da vida. Obrigada pela força! Ao meu marido Ademir, meu companheiro, meu amor, meu eterno amigo, obrigada por me agüentar nos momentos difíceis e por fazer parte da minha vida, sou eternamente grata! Obrigada! A minha amada filha Aniele, todo meu carinho e amor, por seres a pedra preciosa que enfeita minha vida, obrigada por compartilharmos juntas essa vitória. À minha mãe Sara, pela vida e a amizade. Agradeço pelos momentos agradáveis que passamos juntas. Ao meu pai César Fernandes Lima (In memorian). Com gratidão e saudade. Ao meu cunhado Juvir Mattuella, pela ajuda financeira, pelo carinho e pela amizade. À minha irmã Ana, pelo carinho e por estar sempre presente nos momentos alegres e nas tristezas, obrigada por ser minha amiga. Em especial, à Profª Maria da Graça Maurer Gomes Türck, uma pessoa iluminada, minha amiga, professora e orientadora neste trabalho, não tenho palavras para te agradecer, então, peço à Nossa Senhora Aparecida para iluminar ainda mais teus passos e teu coração, que tu espalhes por todos a alegria que vive dentro de ti.Seja tua alegria contagiante e viva, a fim de expulsares a tristeza de todos os que te procuram. 6 Esta alegria é uma tocha de luz que deve permanecer sempre acesa, iluminando todos os nossos atos e servindo de guia aos que se chegam a ti. E, se em ti houver luz e tu deixares abertas as janelas de tua alma, por meio da alegria, todos os que passarem pela estrada em trevas serão iluminados por tua luz. Obrigada por compartilharmos juntas este grande momento, minha querida amiga! À querida amiga Zelma, obrigada por me agüentar, me ajudar na caminhada acadêmica, por compartilharmos momentos de angústias e alegrias. Obrigada e muitos beijos. Às colegas de estágio, do NEVID, pela compreensão, por compartilhar momentos de amizade, troca de conhecimento. Obrigada, negrinhas! Aos amigos Eraldo, Gustavo e Luciano, obrigado pela paciência e pelo carinho. A vocês, professores, que procurem modelar seus alunos com seus próprios exemplos. O exemplo vale mais do que as palavras. Tenham paciência, respondam de boa mente a todas as perguntas, porque os alunos são muito receptivos e ansiosos de aprender. Dêem tudo o que podem, entreguem-se à sua profissão como um sacerdócio dos mais sublimes e tenham a alegria de ver uma plêiade de jovens (senhoras) que trabalharão em benefício de todos e que foram formados por vocês. Obrigada! Aos familiares que acreditaram em mim, obrigada! Obrigada, Senhor, por me sentir viva e quase realizada.Quase. porque faltam ainda muitas etapas para serem superadas. Obrigadaaaaa! SUMÁRIO INTRODUÇÃO......................................................................................................... 08 1 SOCIEDADE CAPITALISTA E QUESTÃO SOCIAL............................................ 11 1.1 SERVIÇO SOCIAL E QUESTÃO. SOCIAL........................................................ 15 1.2 GÊNERO E VIOLÊNCIA..................................................................................... 19 2 A TRAJETÓRIA DA FAMÍLIA E A VIOLÊNCIA................................................... 23 2.1 HOMENS VIOLENTOS E MULHERES VÍTIMAS.............................................. 27 2.2 VIOLÊNCIA CONJUGAL.................................................................................... 28 3 TRABALHANDO COM VIOLÊNCIA CONJUGAL NO NÚCLEO DE ESTUDOS DA VIOLÊNCIA, INTERVENÇÃO E DIREITOS SOCIAIS .................................. 3.1 PROCESSO DE CONHECIMENTO E O DESVENDAMENTO DO OBJETO.... 3.1.1 História de Vida .............................................................................................. 3.2 PROCESSO DE INTERVENÇÃO E A SUPERAÇÃO DO OBJETO................. 3.3 PRODUTO PARCIAL........................................................................................ 32 35 37 42 47 CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................................... 48 REFERÊNCIAS........................................................................................................ 50 INTRODUÇÃO Este trabalho tem como proposta apresentar o processo de articulação da teoria com a prática, vivenciado e desenvolvido ao longo período de estágio curricular I e II, do curso de Serviço Social da ULBRA/Canoas, no Núcleo de Estudos da Violência Intervenção, e Direitos Sociais (NEVID) 1 . Com o início e decorrer da tomada de conhecimento do que é o Serviço Social, foi possível perceber questões que vão além do mero conhecimento técnico. Ser Assistente Social é também compreender relações de violência, de poder, de medo, de inveja, de ganhos e de perdas que se colocam em uma caminhada de competição, esta conjeturada através de uma realidade capitalista no que diz respeito às relações de trabalho no Brasil, por exemplo. Foi possível ainda a percepção de que a violência não se constitui simplesmente em uma via de mão única, mas, sim, é uma construção de relações que se dão no longo de uma vida. 1 Constituído como Núcleo de Extensão da ULBRA. Primeiro instituído no Fórum de Canoas/RS, no período de 1998 a 2003/2. Depois, na instituição Cruz Vermelha Brasileira, Porto Alegre/RS, de 2004/1 a setembro de2005.E, a partir do período de 2004/2, na Delegacia de Polícia de proteção ao Idoso.(DPPI). Tem como objetivo a formação dos alunos-estagiários através da articulação dos fundamentos teórico-metodológicos, éticos-políticos e técnico-operativos que possibilita trabalhar com as várias refrações da Questão Social onde a violência se faz presente com suas múltiplas expressões, indo do espaço público ao espaço privado. O Núcleo de Estudos da Violência, Intervenção e Direitos Sociais (NEVID) se constitui em espaço de conhecimento, pesquisa, ensino-aprendizagem e intervenção na articulação entre a Universidade, Curso de Serviço Social e Espaços Institucionais que buscam a garantia de Direitos de usuários em situação de risco pessoal e social, quer como sujeitos ou autores de processos de violência. Assim, o Núcleo tem como enfoque a construção de um espaço de pesquisa e ensino-aprendizagem de produção científica e de formação profissional, um espaço sobre a violência e Direitos Sociais. O Núcleo tem como objetivo desenvolver um trabalho especializado que operacionaliza seus objetivos nas áreas de Violência Institucional; Intrafamiliar e Doméstica. Possibilitando, com esse trinômio, o trabalho, focalizando sua proposta na área de Direitos Humanos; cumprimento de penas Alternativas e de medidas Sócio-Educativas; Vitimiologia; Criminologia; Mediação; e Perícia Social; e construção de Redes Internas, garantindo, assim, a supervisão profissional e pedagógica, oportunizando a assessoria e a consultoria na área. 9 Nesse sentido, entende-se que ser Assistente Social não abrange apenas um perfil tarefeiro, pelo contrário. Ser Assistente Social é conquistar espaços de resistência, é trabalhar priorizando o Projeto Ético-Político da profissão em todos os momentos no cotidiano, é ter certeza de que o caminho a ser percorrido é o caminho da esperança e da interlocução de direitos para aqueles não têm voz nem vez na sociedade. Foi com esse entendimento que, durante o período de estágio no NEVID, se articulou o que se aprendeu na prática - que o sujeito é singular e que se tem de trabalhar com a sua subjetividade. Sendo assim, o Serviço Social, inserido na Delegacia de Policia de Proteção ao Idoso através do NEVID, tem como demanda os direitos violados dos idosos que chegam à delegacia. Como objetivo, procura o cumprimento dos direitos dos idosos, auxiliando, orientando e encaminhando-os quando necessário aos órgãos competentes que trabalham com as expressões da Questão Social e a forma como esta se configura na vida destes usuários. Durante o período de estágio na DPPI, através das mais diversas situações atendidas, o que mais despertou interesse, no sentido investigativo, foi a dinâmica das relações de violência conjugal. Observa-se que não havia a figura única do sujeito agressor e do sujeito vítima (exceto em situações que envolvessem crianças). Nesse sentido, foi importante saber separar e identificar o que era das Assistentes Sociais atendentes e o que era do usuário, a partir do momento que havia certa identificação com aquilo que era exposto. Saber lidar com a fragilidade que se apresentava em cada situação, para superá-la, era recriar novas possibilidades para o desempenho profissional. Logo, contextualizando-se, trabalhar com a violência como um processo de desigualdade e de exclusão não é fechar os olhos para o resultado da exploração do capital em relação à sociedade brasileira, mas sim, retomar a história de como ela foi constituída, pois o usuário, neste quadro, traz em suas vidas a violação de seus direitos a partir de como se configura a Questão Social em suas vidas. No primeiro capítulo, então, foi explicitado como se constitui a sociedade capitalista e o surgimento da Questão Social nas suas mais variadas expressões 10 cotidianas, tais como violência e gênero - de como são vistas as diferenças entre homens e mulheres no transcorrer da história. O segundo capítulo é direcionado à família, considerada local mistificado pelo seu papel de cuidadora e protetora, na qual se desenvolvem relações de violência, que comprometem os usuários, que a vivenciam no seu cotidiano. No terceiro capítulo, se traz de que forma foi desenvolvido todo o Processo de Trabalho para o desvendamento do objeto e na superação do mesmo. Isso implica a operacionalização do Método Dialético Materialista através do Processo de Conhecimento e, segundo Türck, do entendimento da violência como uma ação coletiva que necessita, no espaço privado e público, ser aprendida e pensada a partir da totalidade e de permanente superação (Projeto NEVID - 2004/2, p.2). Finalizando, as Considerações Finais e as Referências Bibliográficas. 11 1 SOCIEDADE CAPITALISTA E QUESTÃO SOCIAL As primeiras manifestações capitalistas começaram na Europa, do século XI ao XV, quando os feudos transferiram o centro da vida econômica social e política, para a cidade. A partir da metade do século XV, então o feudalismo 2 , imerso em graves crises, de um lado acontecendo intensa propagação das transações monetárias em seu interior e de outro a dissolução da sua estrutura (base econômica que vinha da terra), presenciou o desenvolvimento de relações comerciais que modificaram a produção no campo. Isso tornou o processo de trocas mais difícil, pois o objetivo da acumulação da riqueza e o lucro forçava a separação entre os camponeses e a terra, entre o produtor e os meios de produção.O sistema passava, assim, a se desintegrar, dando lugar ao modo capitalista de produção (com sua base econômica exclusivamente no capital). Com a grande expansão entre os séculos XVII e XIX, o capitalismo proporcionou um avanço da fase mercantil no mundo ocidental (Europa), para uma fase industrial, impulsionada pela Revolução Industrial (Inglaterra, 1760-1860) com a invenção das máquinas e a livre iniciativa. Uma minoria da sociedade detinha o controle dos meios de produção, o que fez aparecer uma classe operária, que, não sendo detentora do capital, tinha somente como meio de sobrevivência a venda da sua força de trabalho. Estabelecera-se então, a relação capital e trabalho do sistema capitalista. Nessa sociedade, capitalista o lucro tornou-se mais importante do que o trabalhador. Apresentava assim, a luta de classes 3 de uma forma profundamente antagônica e contraditória: o capitalista, que detinha todos os direitos e sugava a força criadora de valor, e o trabalhador, que lutava pelo reconhecimento de seus direitos. 2 Regime feudal, na Idade Média.Antigo sistema de organização social, combinação de individualismo e hierarquias sociais e econômicas, encontradas no feudalismo europeu.Foi fonte de liberdade política, do capitalismo e da ciência.Relações hierárquicas sociais e econômicas.Persistiam dentro de cada domínio individual, onde a terra podia ser trabalhada por escravos e arrendatários, completamente dependente dos donos das terras, para a sobrevivência (OUTHWAITE, 1996, p.204). 3 A luta entre exploradores e explorados. Uma demonstração de que os interesses de classe são irreconciliáveis. As formas que a luta de classes adquire são diversas: econômica, política, ideológica, teórica. Mas todas essas formas de luta estão submetidas à luta política. Com estabelecimento da ditadura do proletariado, luta de classes não termina, mas adquire novas formas (DEL RIO, s/ d, p.153). 12 Essa situação determinava um grau de tensão e divisão da sociedade em classes, na qual se lutava por objetivos opostos. Através dessas relações de produção, então se trouxeram a reificação 4 , a fetichização 5 , mais-valia 6 e a alienação 7 , que se expressam no momento em que há a separação entre o homem e seu trabalho, que o privam de decidir o que faz e como faz. Na produção capitalista, o operário vende sua força de trabalho ao dono dos meios de produção, mas o que recebe em troca representa um valor menor do que o produzido durante a jornada. Situação esta que lhe tira o controle sobre o que é feito com o resultado e com os excedentes de seu trabalho, lhe acarretando assim, a exploração. Cria-se, assim, uma diferença entre o valor produzido pelo trabalhador, que pertence aos donos dos meios de produção, e o valor que recebe como salário. Mas, na época, como o modo de produção passou a incentivar a concorrência entre as fábricas que começavam a surgir nas cidades, os capitalistas procuravam novas invenções e avanços das técnicas, para produzir mais e reduzir os custos. Somente assim teriam condições de manter seus produtos no mercado. Isso colocava a burguesia 8 e o proletariado como classes sociais antagônicas, sob os signos da desigualdade social, da exploração e da contradição, consolidando, assim, 4 É o ato (ou resultado do ato) de transformação das propriedades, relações e ações humanas em propriedades, relações e ações de coisas produzidas pelo homem, que se tornam independentes (e que são imaginadas como originalmente independentes) do homem e governam sua vida. Significa igualmente a transformação dos seres humanos em seres semelhantes a coisas, que não se comportam de forma humana, mas de acordo com as leis do mundo das coisas. A reificação é um “caso” especial de alienação, sua forma mais radical e generalizada, característica moderna da sociedade capitalista (OUTHWAITE, 1996, p.652). 5 Marx, diz que, na sociedade capitalista, os objetos materiais possuem certas características que lhe são conferidas pelas relações sociais dominantes, mas que aparecem como se lhes pertencessem naturalmente. Essa síndrome que impregna a produção capitalista é por ele denominada fetichismo, e sua forma elementar é o fetichismo da mercadoria enquanto depositário ou portadora de valor (BOTTOMORE, 1998, p.149). 6 É a forma específica que assume a exploração sob o capitalismo, em que o excedente toma forma de lucro, e a exploração resulta do fato da classe trabalhadora produzir um produto líquido que pode ser vendido por mais do que ele recebe como salário (BOTTOMORE, 1988, p.227). 7 No sentido que é dado por Marx, ação pela qual (ou estado no qual) um indivíduo, um grupo, uma instituição ou uma sociedade se tornam (ou permanecem) alheios, estranhos, enfim, alienados aos resultados ou produtos de sua própria atividade (e à atividade mesma), e/ou à natureza na qual vivem, e/ ou, também, a outros seres humanos, e além de, e através de ,também, a si mesmos (às suas possibilidades humanas constituídas historicamente). Assim concebida, a alienação é sempre alienação de si próprio ou auto-alienação, isto é, alienação do homem (ou de seu ser próprio) em relação a si mesmo (às suas possibilidades humanas), através dele próprio (pela sua própria atividade) (BOTTOMORE, 1988, p.5). 8 Classe social burguesa surgida em fins da Idade Média e que veio a dominar a vida política, intelectual e econômica, a partir do séc. XIX. ( Marx para principiantes – RIUS, s/d.). 13 condições já existentes e determinadas, como estratégias de preservação do regime e de garantia de estabilidade interna da classe dominante. “Possuindo somente sua força de trabalho, começa surgir o sentimento de alienação com o operário, este sendo duramente sugado” (RIOS, 1989, p.79). A partir de então, eles começaram a se organizar de forma que dialeticamente lutassem com os contrários: de um lado o capital (os donos de meios de produção), de outro o trabalhador, ambos defendendo seus interesses. A Alienação do operário se expressa assim: quanto mais ele produz, menos ele consome; quanto mais valor criar, menos valor terá... O trabalho produz coisas fabulosas para os ricos, mas produz miséria para o pobre. As máquinas substituem o trabalho humano e diminui este trabalho, e converte alguns trabalhadores em máquinas (Manuscritos Marx 9 de 1844, p.78). A alienação nas relações repercutia circunstâncias que determinavam as expressivas modificações das relações sociais, alterando o processo de produção, o que era provocado pela retirada do poder de decisão do trabalhador sobre o produto de seu trabalho.Tornava-se então, comum à imagem do capitalismo uma ordem social definitiva. Começava, aí, uma construção de necessidade de se compreender a Questão Social por idéias de oposição, geradas pelo conflito entre o capital e o trabalho. Por sua vez, este, para manter a infra-estrutura (base econômica) e a superestrutura (política, jurídica e ideológica), se articulava com instâncias nas quais estavam imbricados também elementos religiosos e culturais, entre outros, e que refletiam uns sobre os outros, sobre a estrutura econômica e sobre o curso da história. Segundo Ianni, “a consciência social ao mesmo tempo exprime e constitui as relações sociais” (1982, p.41). Já no séc. XVIII, a Revolução Francesa (Burguesa), em 1789, que era contra os reis e a Igreja, consolidou a sociedade burguesa liberal capitalista, que tinha como um dos valores a igualdade entre os homens. Dela resultou a divulgação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, princípios sobre os quais 9 Filósofo judeu e alemão nasceu em 1818 e morreu em 1883 na Alemanha Oriental. Karl Marx foi um dos grandes pensadores do tema, cuja influência se estendeu a todo mundo.Era fascinado pela produtividade sem precedentes na sociedade ocidental e dedicou numerosas páginas de críticas à condição degradante em que se encontravam os trabalhadores. Baseando-se no movimento econômico, procurou alertar o trabalhador de uma bagagem teórica e prática capaz de reverter sua condição de explorado (Marx para Principiantes – RIUS, s/d.). 14 deveriam se assentar a nova sociedade, aprovada em Paris na Assembléia Nacional de 26/08/1798. Baseados na história da França na virada do século XIX, Marx e Engels 10 formularam a teoria da luta de classes, produzida na divisão do trabalho social que se desenvolveu a partir de um modo de produção no qual as condições miseráveis de vida dos operários, geradas pela recente industrialização na Inglaterra (17601860), fundamentaram o movimento operário no século XIX. Seu início, com o Manifesto Comunista constituído por Marx e Engels em 1847, tinha no Comunismo a doutrina dos pré-requisitos necessários para a emancipação do proletariado. Sua argumentação propunha uma posição definida frente o permanente problema da contradição absoluta entre estrutura da sociedade e a distribuição da riqueza. A partir disso, então, o movimento operário ganhou força. Vários trabalhadores começaram a se mobilizar, se apropriando dos espaços de resistência na luta contra a exploração. Surgiram os sindicatos, as confederações e os partidos operários. A classe operária passou a se organizar para atuar na busca de seus direitos contra o poder unido da classe dominante. Passou, também, a se politizar, ter consciência da sua força de trabalho e de que o capitalismo nunca resolveria seus problemas. Para isso, então, o Sindicato Operário deveria ter como objetivo principal à transformação da sociedade como um todo. No entanto, ao invés da real transformação, passou-se a utilizar aos filantropos 11 burgueses como forma de superação de dificuldades. Estes eram responsáveis pela pratica da operacionalização da assistência social.Com isso, tal prática foi construída através da experiência capitalista, visualizando a assistência 10 Era um irrequieto hegeliano da esquerda. Nasceu na Prússia, em 1820, e morreu em 1895. HEGELIANO.Baseado no conceito espiritualista do grande Filósofo Frederick Hegel, 1710/1831.Falava de lutas sociais, povos oprimidos e governos opressores, mas num conflito puramente espiritual. 11 A filantropia se baseia no “assistencialismo”, no auxílio aos pobres, aos desvalidos, desfavorecidos, miseráveis, excluídos e enfermos (MELO, 2001, p.26). A única forma de apreender o sentido da filantropia é vivenciar as relações doentias que a constituem e as formas de manifestação na sociedade. A forma como atua na sociedade cria novas classes miseráveis, novos grupos de excluídos, acentuando a pobreza, o desemprego, criminalidade. As ações filantrópicas promovidas como necessidade de manutenção de poder criam ainda uma consciência social pequena e um baixo poder de mobilização social como conseqüência do empobrecimento de forças sociais. As ações filantrópicas são restritas a pequenos grupos, partindo geralmente de interesses individuais e assumindo a forma de doações a grupos e entidades. Dessa forma, não contribuem para mudar as relações sociais tão desfavoráveis que assistimos nos últimos tempos, nem tão pouco favorece à inclusão social (GUERREIRO, 2006, p.1). 15 como uma forma de controle da pobreza e de se reafirmar a submissão dos trabalhadores, dando assim, estabilidade ao poder da classe dominante, expressando-se como um mecanismo de controle social. É, portanto, a partir das mobilizações das classes operárias, manifestadas firmemente desde finais do século XIX e início do século XX, que emergia o debate sobre a “Questão Social”. Esta impunha condições muito precisas à reação da burguesia européia, através de um movimento de massas, intransigente na defesa de seus direitos. Passou-se, então, a obrigar o Estado, as frações dominantes e a Igreja a se posicionarem diante dela, formando, assim, uma aliança entre a classe dominante (burguesia), o Estado e a Igreja, que surgiu na Inglaterra em 1869, para dar conta do crescimento da pauperização da classe operária e das reivindicações desta, cujo crescimento físico que a sociedade capitalista estimulara como exército industrial de reserva, para expansão e equilíbrio de mão- de- obra, tornou-se um flagelo social que os aterrorizava. Nesse sentido, essa aliança buscava as lideranças das Sociedades de Organização da Caridade como forma de dominação na busca de reforços para o controle através da prática social. Os problemas eram vistos de maneira individual, sendo entendidos sobre o prisma reducionista, o qual responsabilizava unicamente o indivíduo por todos os seus problemas sociais. 1.1 SERVIÇO SOCIAL E QUESTÃO SOCIAL Na década de 1920, foi elaborado um projeto com o objetivo de fundar escolas de Serviço Social na América Latina. A fundação da 1ª ocorreu em 1925, e, pouco depois, da Escola Elvira Matte de Cruchapa, sendo que até o final da década, foi triplicado o número de escolas. A elaboração das primeiras escolas de Serviço Social teve, então, a participação da igreja católica. Sua presença sempre foi marcada desde os tempos remotos tendo como referência principal a promoção do assistencialismo (obras de caridade) e a divulgação de sua doutrina, pois a Igreja tinha necessidade de organizar um Serviço Social Latino Americano à medida de suas próprias exigências. 16 Neste contexto, a Igreja desempenhou uma rede internacional de relações, sendo que esta não tinha qualquer referência ao Serviço Social. O papel desempenhado pela Ação Católica Internacional foi, então, muito convincente. Com essa propagação, a Igreja conseguiu se fortalecer e passou a ter um vasto alcance latino-americano, mediante a expansão de uma “ideologia profissional”. Portanto, o Serviço Social introduzido no Brasil no ano 1930 (era Vargas), teve sua identidade atribuída pelo capitalismo, nascendo em articulação como um projeto de hegemonia burguesa com uma estratégia de controle social, permeada pela ilusão de servir, com forte atrelamento aos aparatos religiosos e estatais, ocasionando concepções vinculadas ao assistencialismo, ajuda, à vocação, a caridade e à filantropia, com ênfase na intervenção. O Serviço Social atuava, então, na formação do trabalhador, tanto na qualificação técnica quanto na dimensão moral do ser bom trabalhador, pois a visão e as estratégias de intervenção em relação à questão do trabalho deveriam ser mediatizada pela instância da família. Logo, esta se constituía em alvo preferencial social - a rigor, a família operária. O Serviço Social tem, portanto, sua origem como uma profissão profundamente marcada pela conjuntura capitalista com uma identidade atribuída, construída através da coerção, intimidação e repressão, como uma forma mistificada de controle social. Sendo assim, o seu surgimento não pode ser analisado como um fato isolado, mas como a decorrência de uma situação histórica, de um processo cumulativo de acontecimentos na sociedade brasileira e nos planos políticos, econômico, social e religioso. Logo, segundo Martinelli (2000), o Serviço Social já surge, no cenário histórico com uma identidade que expressava uma síntese das práticas sociais précapitalistas - repressoras e controlistas - e dos mecanismos e estratégias produzidos pela classe dominante para garantir a marcha expansionista e a definitiva consolidação do modo de produção capitalista, criando uma ilusão à eterna reprodução das relações entre os donos do capital. Os Assistentes Sociais eram, então, agentes qualificados para exercerem uma ação social, atribuída: a guarda da Questão Social. Logo, com a ausência da identidade profissional e da consciência social da categoria, a profissão teve subtraídos os seus espaços de construção de identidade, o que resultou uma prática alienada. 17 O fetiche da prática, fortemente impregnado na estrutura da sociedade, se apossou dos assistentes sociais, insuflando-lhes um sentido de urgência e uma prontidão para a ação que roubavam qualquer possibilidade de reflexão e de crítica (MARTINELLI, 2003, p.127). Mais adiante, a categoria profissional, com o fortalecimento da consciência crítica, começou romper com essa alienação, recusando os modelos importados e iniciando assim uma luta interna. Passou a assumir, então, sua dimensão social, a prática emancipada e livre da alienação, fortalecendo cada vez mais sua legitimidade, buscando um processo de novas relações sociais e lutando pela transformação da sociedade. Era preciso romper a estagnação e realizar a travessia, pois ”é no meio da travessia que o real se dispõe para gente” (MARTINELLI, 2000, p.159). Desta forma, a preocupação passou a ser afirmar a visão da totalidade na preocupação do ponto- de- vista da vida social, identificando como o Serviço Social se relacionaria com as várias dimensões da vida social. Como já foi referido, o Serviço Social intervém na Questão Social, que emerge do conjunto das expressões da desigualdade social, econômica e cultural, ou seja, problemas da sociedade capitalista, do antagonismo entre o capital e o trabalho. Portanto, a Questão Social surgia como uma categoria que expressava o conflito entre os donos dos meios de produção e os sujeitos que vendiam sua força de trabalho. Segundo Iamamoto, o objeto de intervenção do Assistente Social, é a questão social, o rebatimento de suas inúmeras expressões no cotidiano e na materialidade das relações sociais da vida dos seres em sociedade. A conseqüência central das relações sociais, mediadas pela construção da sociedade do capital, é justamente a Questão Social. Isso significa dizer que a sociedade produz, em seu movimento humano e contraditório, o acirramento da luta de classes (2000, p.27-28). De um lado o capitalismo concentra riquezas e informações nas mãos de poucos privilegiados da sociedade, ocasionando necessariamente miséria para muitos outros não privilegiados, que se tornam alheios da maioria dos bens produzidos socialmente. Por outro, estes seres, distantes dos bens sociais, que precisam produzir coletivamente formas estratégicas de enfrentar a desigualdade construída em um sistema de injustiças e isolamento. A partir do final dos anos 1950 e início da década de 1960, no Brasil, se fizeram então, ouvir as primeiras manifestações, no meio profissional, de posições 18 que questionavam o status posto na sociedade e que contestaram a prática institucional vigente em oposição ao comportamento essencialmente conservador. Essas manifestações coincidiram com a intensificação da radicalização política que marcou o período final do pacto populista 12 e que teve por desfecho uma expressiva mudança na correlação de forças com o golpe de 1964. Então, a ruptura com a herança conservadora expressava-se como uma procura, uma luta por alcançar novas bases de legitimidade da ação profissional do Assistente Social, que, reconhecendo as contradições sociais presentes nas condições do exercício profissional, buscou colocar-se, objetivamente, a serviço dos interesses dos usuários, isto é, dos setores dominados da sociedade. Dentro desse contexto inicialmente, se mostrou fazendo parte de forças entre as classes fundamentais da sociedade, o que não excluía a responsabilidade da categoria pelo rumo dado às suas atividades e pela forma de conduzi-las. Então, rompeu com essa lógica e adota o paradigma Marxista, elegendo como objeto de intervenção a Questão Social. Entendida numa dimensão processual, essa ruptura teve como pré-requisito o aprofundamento da compreensão das implicações políticas da prática profissional do Assistente Social reconhecendo-a como polarizada pela luta de classes. Em outros termos, o profissional passou a se mobilizar na implementação de Políticas Sociais, que traziam no seu bojo interesses, o que tendia para uma cooptação por uma das forças em confronto. Com isso, implicou-se o enriquecimento do instrumental científico de análise da realidade social e o acompanhamento atento da dinâmica conjuntural, realizando-se a ultrapassagem da mera atividade técnica e traduzindose tal perspectiva num trabalho de organização popular, de assessoria a movimentos sociais urbanos. Sendo assim, as Assistentes Sociais, orientadas pelo Projeto Ético-Político passaram a buscar a garantia intransigente dos Direitos Humanos, o que deve procurar direcionar suas intervenções no sentido da ruptura com as conseqüências da exclusão dos seres sociais. Essa ação que surge para dar conta das particularidades das múltiplas expressões da Questão Social, que vão sendo 12 Diz-se do partido político ou agremiação política que procura identificar-se com as camadas populares; (fig.) demagogo. 19 desvendadas em cada lugar singular onde se desenvolve o processo de trabalho do Assistente Social. 1.2 GÊNERO E VIOLÊNCIA Então, a partir da apropriação da Questão Social como objeto genérico do Serviço Social, pode-se buscar em suas particularidades a questão de gênero, a competição gerada entre homens e mulheres, através das reproduções culturais, advindas dos processos sociais, que predominam nas relações postas pela Sociedade Capitalista brasileira, por exemplo. Nesse sentido, tem-se por gênero é o conjunto de características sociais, culturais, políticas, psicológicas, jurídicas e econômicas atribuídas às pessoas de forma diferenciada de acordo com o sexo, pois as características de gênero são construções sócio-culturais que variam através da história e se referem aos papéis psicológicos e culturais que a sociedade atribui a cada um do que considera “masculino” ou “feminino”. Vê-se, então, que a Questão Social nas relações de gênero são permeadas pelas relações de poder. Logo, as forças postas pela infra-estrutura econômica, que para mantê-la é necessário uma superestrutura composta pelas instâncias que estão imbricadas os elementos políticos, jurídicos, religiosos e outros, refletem a maneira de ser da sociedade dominante. Então, Certa vez Marx perguntou: “O que é um escravo negro? Um homem de raça negra. Esta explicação é tão boa quanto a outra: um negro é um negro. Ele se torna um escravo somente em certas relações”. Poderíamos, então, parafrasear: O que é uma mulher subordinada? Uma fêmea da espécie humana. Esta explicação é tão boa quanto a outra: a mulher é uma mulher. Ela se torna uma doméstica, uma esposa, um objeto, uma coelhinha, uma prostituta, ou um ditafone humano somente em certas relações (GAYLE RUBIN - antropóloga feminista estadunidense). Nas sociedades em que a definição do gênero feminino tradicionalmente é referido à família e à maternidade, a referência fundamental da construção social do gênero masculino é sua atividade na esfera pública, que concentra os valores materiais, o que faz dele o provedor e protetor da família. Essa crescente consciência quanto às enormes diferenças atribuídas à sexualidade de homens e 20 mulheres ajuda, então, a desvendar as relações íntimas entre a tradição de pensamentos dualistas mais gerais na sociedade ocidental e as ideologias de gênero, de idéias naturais. Segundo Rochefort, “quando o ato sexual é tido como expressão natural da necessidade do macho em conquistar e dominar a fêmea, o poder e violência masculinos são uma necessidade biológica e, portanto, inevitáveis” (1978, p.60). Nesta tradição, os pares contrapostos são vistos como opostos e excludentes, além de fixos nas suas diferenças. Aplicando-se a construção dos gêneros, mostrase, em primeiro plano, que o homem é ativo e a mulher é passiva. Aplicando-se a construção da sexualidade, funde-se a identidade de gênero e a identidade sexual (ser homem é praticar sexo com mulheres, e vice-versa), resultando na hegemonia 13 heterossexual, baseada em outros tipos de seres: homens sexualmente ativos e mulheres sexualmente passivas. A sociedade notoriamente vem ignorando os problemas específicos da mulher, não só sexuais como também econômicos - como a dupla jornada e o salário inferior aos do homem pelo mesmo trabalho e muitos outros que são silenciados e discriminados economicamente por motivos sexuais e que contribuem para a acumulação do capital. Nota-se, ainda, na compreensão de que a divisão sexual do trabalho entrelaça-se na divisão social do trabalho, que mulheres e homens participam de modo desigual da produção e da reprodução. Enquanto nesta mesma sociedade, atualmente, as mulheres estão solidamente presentes na força de trabalho e na sociedade, a distribuição social da violência reflete a tradicional divisão dos espaços: o homem é vítima da violência na esfera pública, e a violência contra a mulher é posta no recinto doméstico, onde o agressor age mais freqüentemente. Violência e gênero são, portanto, termos que simbolizam mundos próprios e em si mesmos extremamente complexos e carregados de sentimentos vitais na vida humana. Quando associados a sentimentos negativos, trazem outros termos que 13 O termo hegemonia, cujo pleno desenvolvimento como conceito marxista é atribuído a Gramsci (1984:33), está sendo utilizado na perspectiva por ele proposta em termos da liderança de classe, que é econômica e política, “pois, se a hegemonia é ético-político, também é econômica; não pode deixar de se fundamentar na função decisiva que o grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade econômica” (MARTINELLI, 2005, p.127). 21 lembram dor, sofrimento, apropriação indébita do outro, exploração, sadismo e indiferença. Enfim, a violência de gênero está posta na ordem do dia e, apesar de todas as estruturas e estratégias para ocultá-la, aparece de todas as formas possíveis dentro de um contexto que procura desvendar as concretas expressões da Questão Social associadas aos processos de desigualdade social, econômica e política. Sendo assim, a partir da compreensão da concepção de que a violência é uma construção coletiva, que se expressa no cotidiano pelo comportamento do sujeito, tem-se que violência é causar dano a outras pessoas, seres vivos ou objetos, se negando autonomia, integridade física ou psicológica e, até mesmo, a vida de outro. Logo, a palavra violência tem sido muito usada para expressar comportamentos, modos de vida, sociedades e outros fenômenos humanos, sendo o uso do poder abusivo e injusto também considerado violência. Isso tudo produz conseqüências direcionadas a todas as classes sociais. Esse drama é o resultado de novas exigências da competitividade e da concorrência, da redução de empregos, fazendo com que não haja espaço suficiente para todos na sociedade. Tem crescido, assim, de forma alarmante a quantidade de pessoas que procuram serviços sociais públicos. Este quadro identifica que o capital não se assemelha a igualdade dos direitos dos indivíduos. Depara-se, então, com a tradição marxista a qual Demo (1998, p.17) considera uma “realidade estrutural ligada às contradições do modo de produção capitalista”. Esta relação contraria é manifestada em uma parcela da população que é tratada como pertencente à sociedade. A outra é considerada como ameaça, descartável. Esta violência invisível passa despercebida através de uma postura de proteção social com políticas sociais para atender as pessoas consideradas descartáveis, porque alimentam uma desestabilização geral na sociedade, formando uma multidão de categorias que sofrem de um déficit de integração com relação ao trabalho, à moradia, à educação, à cultura, entre outros. Nesse sentido, Gross e Werba (2001) m refere que a violência se explicita sob vários aspectos dos indivíduos e suas relações sociais. Não é vista apenas como dano físico, mas também como causadora de dano moral. A violência social 22 rompe, então, os espaços das favelas, não visando apenas a mendigos e pedintes, mas, sim, a sujeitos eliminados do mercado de trabalho. É assim que surge a permanente tensão entre o capital e trabalho, se configurando através da Questão Social. Sua principal conseqüência está relacionada com a acumulação do capital, que é o pano de fundo que aprisiona os indivíduos. A relação e o envolvimento dos seus fenômenos, como da violência e a exclusão, cada vez mais é reproduzida sob várias dimensões, envolvendo todas as camadas sociais, pois são expressões que emergem do mercado de trabalho. Diante disto, é importante indicar os pontos de crise que colaboram com a desigualdade social, onde os processos de exclusão e de exploração presentes no cotidiano da sociedade agravam cada vez mais as situações provocadas pelo desemprego. A fragilização das políticas sociais, como conseqüência, amplia a fragilidade de vínculos, a violência e a desorganização familiar. 23 2 A TRAJETÓRIA DA FAMÍLA E A VIOLÊNCIA A família, ao longo da história ocidental moderna, foi se caracterizando como um espaço de inserção e apoio ao indivíduo. Com o surgimento da família foram estabelecidas as relações entre o homem e a mulher, formando, assim, uma relação conjugal, embora não se possa negar a existência nela, da reprodução da desigualdade e da violência. Numa retrospectiva breve de sua história até o século X, a mesma, no que se refere ao patrimônio, não se manifestava. Então, a partir da hesitação do Estado, a concepção de linhagem ganhou força tendo como uma das preocupações não dividir o patrimônio. Ficando regulada a relação entre homem e mulher pelo o Estado, e a mulher sob o poder masculino e sob o poder do Estado. Começaram então, a se operar mudanças entre os séculos XIV e XVII na família medieval. Nesse período, a situação da mulher também sofreu mudanças, que são caracterizadas pela perda gradativa de seus poderes, no século XVI, e pela formalização da incapacidade jurídica da mulher casada e a soberania do marido na família. Com isso, a mulher perde o direito de substituir o marido em situações necessárias, quando ele se ausenta, e qualquer ato seu só é válido se autorizado pelo marido. Dessa forma, no século XVIII, na França, a legislação reforçou o poder do marido e dos homens em geral, estabelecendo institucionalmente a desigualdade entre o homem e a mulher. O esquema opressivo e de desvantagem na relação homem/mulher e na relação mulher/sociedade encontrou, também, força na doutrina católica a partir da “santificação” da figura da mulher, “congelando” a sua sexualidade, tornando-a tolerante e submissa à violência institucional. Dominada, então, pela crença religiosa, fizeram-na entender que afeto e dominação fazem parte da relação homem/mulher. Fazendo-a, assim, acreditar ser responsável por todos os encargos em relação à maternidade e pela aceitação passiva de todos os fracassos afetivos. Dessa forma, a violência contra a mulher foi encontrando, ao longo da história, um sistema de apoio e justificativas religiosas para se incorporar nas redes 24 sociais, políticas e interpessoais, estruturando-se no sistema social vigente.Nesse sentido, apesar dos avanços tecnológicos e das conquistas sociais, a mulher atual mente continua com os mesmos encargos, tanto no espaço público, como no privado, lutando para que questões tão velhas e aparentemente ultrapassadas, sejam resolvidas. Na busca de um conceito sobre a família, que não é um conceito unívoco 14 , sim deve-se descrever as várias estruturas ou modalidades assumidas pela família através dos tempos. Logo, são tantas as variáveis ambientais, sociais, econômicas, culturais, políticas ou religiosas que determinam as distintas composições das famílias até hoje.Uma delas indicar originalmente, a organização sob a forma matriarcal, na qual o papel de pai na reprodução era desconhecido.Com isso, o matriarcado seria uma decorrência natural da vida, pois, enquanto os homens, ainda desconhecendo as técnicas próprias ao cultivo da terra, saíam à procura de alimentos, a mulher se ocupava dos filhos, que se criavam praticamente somente sobre a influência da mãe. Em certas sociedades matriarcais no século XVI, na Europa Ocidental, como decorrência dessa preponderância da figura materna, as mulheres tinham o direito de propriedade e certas regalias políticas. Com isso, possuíam as terras cultiváveis e as habitações, podendo vetar a eleição de um chefe, por exemplo, mas nunca ocupar um cargo no conselho supremo. Com o desenvolvimento da agricultura e o conseqüente advento do sedentarismo surge, então, progressivamente instalação do patriarcado. Logo, segundo Engels, apoiando-se nas idéias de Morgan, sustenta-se a tese de que a família monogâmica teria sido a primeira família fundada não mais com base em condições naturais, mas sociais, pois a monogamia para ele não seria uma decorrência do amor sexual mas, sim, do triunfo da propriedade individual sobre o primitivo comunista espontâneo. Desse modo, é visualizada sob a ótica do materialismo histórico e não como uma forma mais evoluída de estrutura familiar, porém com a sujeição de um sexo ao outro a serviço do poder econômico. Situação esta culturalmente considerada normal na sociedade judaico-cristã. A liberdade 14 Unívoco, adj; Que se aplica a muitas coisas do mesmo gênero e da mesma ou diferente espécie; uma forma de interpretação. 25 sexual do homem, a monogamia, seria, então, a responsável pelo desenvolvimento da prostituição e pela falência familiar até os dias de hoje. A família patriarcal, mais, ainda, a família individual monogâmica, possibilita, assim, a perda do poder da casa e do caráter social da mulher. Com isso, o governo da casa é transformado em serviço privado e a mulher torna-se a principal criada, sem participação alguma na produção social. No entanto, com o decorrer do tempo, as portas da indústria foram abertas à mulher proletária, possibilitando o caminho para essa produção social, mais por conseqüência de uma expansão das relações capital x trabalho do que por conquista de direitos. Dentro desse contexto, a mulher, ao cumprir os deveres do serviço privado da família, fica, então, prejudicada de participar da produção social, não ganha nada. Mas, ao tomar parte na indústria social e receber um salário, fica impossibilitada de cumprir os deveres da família. Vê-se, então, que a família não se compunha apenas de marido/mulher/filhos, mas, também, se constituía em um verdadeiro clã, incluindo esposas, eventuais, disfarçadas de concubinas, filhos, parentes, padrinhos, afilhados, amigos, dependentes e ex-escravos. Formando, assim, uma imensa legião de agregados submetidos à autoridade indiscutível que emanava da tímida e venerada figura do patriarca. Era tímida, porque possuía o direito de controlar a vida e as propriedades de sua mulher e filhos pelo coração e pela mente de seus comandados. Nesse sentido, pode-se dizer que a família moderna individual baseava-se em uma disfarçada escravidão doméstica da mulher. Atualmente, nas classes burguesas, o homem deve ganhar para o sustento da família, cuidando e alimentando, pois tem uma posição hegemônica na família, representando, dono do capital, e a mulher, o proletariado que vende sua força de trabalho, através da troca de serviços. Com a instituição desse sistema de patriarcado as relações entre os sexos tornaram-se relações de medo, provocando assim, o predomínio dos homens sobre as mulheres. Em decorrência, gere-se a violência em todos os níveis, contribuindo assim, para que a sociedade se divida em função das relações de exploração, violência e dominação. 26 É sob essa ótica que na sociedade ocidental contemporânea os papéis sociais de gênero são estabelecidos pelo trinômio família, propriedade e Estado. Ainda é firmada a idéia impositiva de que duas pessoas de sexos diferentes devam se unir (para sempre) com a finalidade biológica de procriar e garantir a sobrevivência da prole e do grupo e com o objetivo social de constituir e manter uma sociedade contratual entre si, tendo como o meio e fim a finalidade de desenvolver aquilo que se estipulou denominar “família” como célula social. Segundo Zimmerman, A família não é uma expressão passível de conceituação, mas tão somente de descrição, ou seja, é possível descrever as várias estruturas ou modalidades assumidas pela família através dos tempos, mas não defini-la ou encontrar algum elemento comum a todas as formas com que se apresenta este agrupamento humano (1997, p.49). Na metade do século XIX na Europa Ocidental, o processo de modernização e o movimento feminista provocam mudanças na família e o modelo patriarcal, até então em vigor, passa a ser questionado. Neste contexto, começa, então, a se desenvolver a família conjugal moderna, na qual o casamento se dá com a escolha livre do parceiro baseada, configurando-se, assim, novas formulações para os papéis do homem e da mulher. Mesmo assim, a existência de traços da família patriarcal na família conjugal moderna persiste até hoje. Apesar das mudanças e conquistas sociais, fundamentadas inclusive na legislação, no Brasil, somente na Constituição de 1988 a mulher e o homem são assumidos com igualdade no que diz respeito aos direitos e deveres na sociedade conjugal. Atualmente, a família necessita apóio de pessoas que não fazem parte do seu contexto, procurando-se amparar nos vizinhos, colegas de trabalho, nos amigos, companheiros, que muitas vezes substituem as tradicionais figuras do pai, da mãe, da avó, do irmão e outros, ou, ao contrário, se batem de frente com a figuração familiar da qual procedem cada um dos indivíduos. Em conseqüência da incapacidade de se lidar com as novas regras decorrentes de novas formas de relações, seja pela imaturidade das partes, seja pelo confronto de valores internalizados, muitas vezes se possibilitam obstáculos difíceis de serem contornados ou resolvidos. Portanto, surge uma nova formação de família que se 27 constitui no cerne de relações históricas de conflitos e comportamentos agressivos, que levam à prática da violência, o que se torna inadequado, aparentemente, por expandir os limites familiares para além de seu núcleo co-sangüíneo. 2.1 HOMENS VIOLENTOS E MULHERES VITÍMAS Os homens com comportamento agressivo podem ser encontrados em todas as classes sociais, grupos étnicos e religiosos. Apresentam baixo limiar de tolerância a frustrações, embora costumem mascarar o comportamento agressivo fora do círculo familiar, apresentando-se sedutores. Fazem tudo pelo “bem” família, mesmo quando isto representa espancamento e agressões constantes. Costumam usar a mulher e filhos como “joguetes”, exercendo seu poder e controle em relação sobre eles, cuja posse é mais uma questão de afirmação e poder do que de amor. Mulheres submetidas a esse tipo de realidade podem pertencer a qualquer grupo ou classe. Se tornam deprimidas, com baixa auto-estima, sempre esperando que o parceiro mude, tendo alto risco de a dependência química (drogas e alcoolismo). Com isso, passam a ser submissas, passivas, impotentes, gradualmente vão se isolando dos amigos e da comunidade, perdendo a capacidade de protegerem a si e aos filhos, aceitando como suas todas as culpas.Em famílias que a mulher é maltratada pelo marido, quase sempre os filhos são sobrecarregados da ira do pai ou da mãe, num ciclo onde o que detém maior parcela de poder machuca os que estão em posição de poder inferior e assim sucessivamente. Verifica-se, ainda, uma outra questão que contribui para manter e reforçar a violência que, geralmente, transforma as mulheres de vítimas em culpadas. Há sempre a necessidade de se provar que se foi vítima, como nas situações de assédio, seja no local de trabalho, na escola, no partido; até em situações de estupro e espancamento, em que quase sempre é perguntado a elas o que fizeram para que tal fato acontecesse. O mesmo ocorre em casos de assassinatos. Pois ainda, se enumeram os erros das mulheres como forma de justificar os atos dos homens, e, como conseqüência, de vítimas passam a ser culpadas. Logo, uma atitude que pode parecer um consentimento para com a situação de violência, vê-se então, como uma relação de dependência, na qual há vários 28 mecanismos de coerção. Além disso, os homens são violentos na medida em que percebem que as mulheres estão com o amor próprio baixo e não se sentem capazes de reagir. Sendo muito comum que, quando o homem bate na mulher, já se venha cometendo outras formas de violência, tais como humilhação, xingamento e ameaças. Isso faz com que a mulher se sinta inferior e sem forças. Sendo assim, historicamente as mulheres foram consideradas como o sexo frágil, tendo sido o principal alvo de todo o tipo de humilhação e violência por parte dos homens. Portanto, isso não ocorre somente porque a sociedade legitima o poder masculino, mas também porque o homem tem a necessidade de afirmar-se como o sexo forte, o sexo do poder. Na visão de Engels: A família é propriedade, portanto, a mulher ameaça o poder do homem perante os seus bens. A lógica capitalista impõe essa situação. É, portanto, cultural, não inerente à figura masculina. 2.2 VIOLÊNCIA CONJUGAL A violência é muitas vezes considerada como uma manifestação tipicamente masculina, uma espécie de “instrumento para resolução de conflitos”. Nesse contexto a sociedade brasileira começa a voltar-se sobre o tema devido ao alto índice de violência cometida contra crianças, adolescentes e mulheres. Neste contexto, não é uma questão nova, pois ela atravessa os tempos e se constitui em uma relação historicamente construída a partir das relações de poder, gênero, etnia e de classe social. Assim, pode-se dizer que a violência conjugal é uma expressão extrema de distribuição desigual de poder entre homens e mulheres, de distribuição desigual de renda, de discriminação, de raça e de religião. Sendo,então, a violência um fenômeno que perpassa todas as classes sociais, obtém-se, dessa forma, o conceito de classe social para identificar as diferenças e particularidades que existem no comportamento social em relação à mesma. A violência é vista como algo alheio aos homens ou encarada como patologia, é validada através de uma aprovação pública tácita, sendo utilizada como elemento de controle social. 29 Citando-se Brandão (2000), nas famílias de classes trabalhadoras urbanas, a violência física é predominantemente masculina e o enfrentamento dessa relação pelas mulheres, isto é, a resolução do conflito no âmbito familiar, dá-se a partir do pedido de ajuda à polícia. Entretanto, somente uma minoria manifesta concordância com a possibilidade de prisão do agressor (p.31). Assim, quando ocorre denúncia do parceiro à polícia, a vítima se culpa e sente certo rompimento, de sua parte, com a reciprocidade familiar. Em função da desordem familiar provocada pela violência masculina, emerge um conjunto de práticas violentas com novos membros familiares. O pai/padastro, que desencadeou o processo, mostra então, que não é o único a cometer atos de violência, mas que outros elementos da família, como a mãe/filhos, também o fazem criando-se assim, um clima de violência. Segundo Azevedo & Guerra (1989 e 1990), A violência conjugal está presente em todas as classes sociais. Resulta de um conflito de gênero ou de gerações. Decorre de uma forma de lidar com as desigualdades na quais as diferenças são transformadas ou em relação entre superiores e inferiores e/ou onde o mais fraco é tratado enquanto coisa (p.58). A violência pode ser tão sutil que passa despercebida para quem nunca a sofreu. Às vezes, o comportamento violento do agressor se esconde por detrás da máscara da simpatia. Logo, a simpatia é normalmente o único lado do agressor que o resto das pessoas conhecem. Sendo que esse quadro só muda quando este perde o controle e permite que outras pessoas testemunhem suas agressões. Seja como for, a agressão mínima, despercebida a princípio, tende sempre a aumentar. Pois o comportamento agressivo é progressivo e pode começar com a tentativa “socialmente aceita” de estabelecer controle e poder sobre o outro. Mas aos poucos vai crescendo e se tornando mais destrutivo. A repercussão dos conflitos conjugais tem como conseqüência a reprodução doméstica ameaçada, filhos traumatizados, revoltados ou com dificuldades no desempenho escolar, dificuldades nas atividades profissionais ou na obtenção de empregos (BRANDÃO, 2000, p.32). Nas relações conjugais permeadas pela violência, é comum a manipulação e a chantagem. Estas são manifestações de violência emocional e se baseiam em pressões sobre alguém para obrigá-los em certo sentido. Pode ser sutil, mascarada 30 e indireta. Verifica-se que seu fim é controlar, confundir, atingir e culpar a quem recebe. É nesse contexto que há as manifestações de relações de poder entre homens/mulheres de várias formas: física, sexual, econômica, psicológica e emocional. No entanto, para muitas mulheres, essas manifestações são difíceis de se detectar e de se controlar. Sendo que a necessidade as forçam a recorrer a estratégias, pois vivem manipuladas e chantageadas por seus companheiros. Com isso, perde seu podem decisório sobre sua autonomia, não se reconhecendo mais como sujeito, tornando-se hospedeiras da própria opressão. Dessa forma, a violência muitas vezes não deixa a mulher enxergar a realidade, pois, às vezes, os sentidos dados as palavras sem sempre correspondem à verdade. A exemplo da chantagem “amo vocês, sem vocês não conseguirei viver”, deve-se necessariamente comparar palavras com atitudes, pois quem ama de forma alguma maltrata. Pode-se dizer, então, que o aparente não é real. Pois há intenção de que a companheira acredite que está decaído e triste. Assim, o agressor se sente poderoso, pois ela lhe parece ser uma pessoa fraca, indefesa e necessitada de proteção. Dessa mesma maneira, quando o homem ameaça causar dano a si próprio, chegando ao intuito de suicídio, a mulher não deve se sentir culpada pelo seu comportamento. O objetivo é se deixar bem claro para o homem que agride que é de sua responsabilidade suas decisões e sentimentos. Isso significa que a mulher não deve assumir por ele seus problemas, esclarecendo que não tem qualquer dever quanto a isso. Assim, parece certo que este sujeito recorrerá a todos os tipos de pressão para controlar a mulher, a partir de ameaças, chantagens e sedução. Nesse sentido, seria importante criar estratégias para enfrentar a manipulação do companheiro. É necessário evitar situações de risco, como assuntos que levam a culpar um ou outro, procurar não falar de sentimentos e outros. Com essa pressão, é necessário estabelecer limites ao sujeito, decidindo-se quais os assuntos que deve dialogar, não ouvindo, assim, ofensas e chantagens, e realizar, também, encontros em lugares públicos, onde se possa solicitar ajuda. 31 Por fim, é importante pedir apoio e orientação profissional, para melhor entender sua situação, apreender como superar os processos de manipulações e chantagens e criar estratégias individuais e coletivas para enfrentá-los. É cada vez maior o número de mulheres vítimas da violência. Portanto, o que uma mulher vítima da violência precisa é encontrar a si mesma, para poder se confrontar com a violência e superá-la na busca e consolidação de seus direitos. 32 3 TRABALHANDO COM VIOLÊNCIA CONJUGAL NO NÚCLEO DE ESTUDOS DA VIOLÊNCIA, INTERVENÇÃO E DIREITOS SOCIAIS O Serviço Social tem como objeto genérico a Questão Social, que, no caso do presente trabalho, se configura a violência conjugal. Principalmente naquela caracterizada pelas agressões do homem contra a mulher. E esse homem que maltrata, segundo Freire, “é o oprimido fundamentalmente porque internalizou dentro de si o opressor que lhe tolhe a voz, a palavra, a ação autônoma e a liberdade, no qual está a serviço da classe dominante, habitando e dominando o corpo semivencido do oprimido” (1992, p.6). Portanto, ao negar-se de sua classe, torna-se hospedeiro de todas as relações sociais que se reproduzem na sociedade capitalista, que são geradas pelos elementos conjugados entre a infraestrutura 15 e superestrutura 16 , que determinam o modo do pensamento hegemônico. Vê-se, então, que enquanto o homem não assumir a si mesmo como classe e desistir de lutar, negar sua identidade, continuará se alienando. É nesta tensão que transfere à mulher uma auto-opressão de submissão, na qual se recusa a ver a figura feminina dando a volta por cima, pois seu objetivo é lhe passar a desesperança, fazendo, com isso, que ela se sinta desvalorizada e com a autoestima baixa. Assim, então, o homem traz à tona a discriminação sofrida por ele. Freire, também traz que O opressor se desumaniza ao desumanizar o oprimido, não importa que coma bem, que vista bem, que durma bem. Não seria possível desumanizar sem desumanizar-se tal a radicalidade social da vocação. Não sou se você não é, não sou, sobretudo, se proíbo você de ser (1992, p.100). Com isso, pode-se observar que a violência tem muitas caras, algumas disfarçadas de tradição, outras de moralidade, outras sem disfarce algum, mas sempre carregadas de algum tipo ou quantidade de poder que lhes permitam violentar em alguma extensão. 15 É constituída pela base econômica. A base é o determinante, segundo a concepção materialista Esta base econômica é constituída pelas relações entre proprietários e os não proprietários e os meios e objetos de trabalho. 16 É constituída pelo político-ideológico, que, por sua vez, é composto pela estrutura jurídico-político e pela estrutura ideológica. 33 Sendo assim, essa perspectiva traz como desafio à percepção, sua manifestação de produção e reprodução no sujeito e no cotidiano. A partir disso, o profissional de Serviço Social procura legitimar e potencializar o aspecto coletivo de enfrentamento da mesma. Portanto, a Questão Social como objeto de trabalho do Serviço Social, traz na essência a compreensão da construção da sociedade capitalista brasileira, dividida em classes sociais e cujas relações sociais trazem embutidas a desigualdade social e a permanente violação de direitos. Logo, essa compreensão remete para o significado da violência na sociedade e mais especificamente a violência no contexto familiar do qual se faz presente (IAMAMOTO, 2001, p.28). Conseqüentemente, o Assistente Social desenvolve o seu processo de trabalho a partir da compreensão de que a violência é coletivamente construída, embora se contextualize no comportamento do sujeito singular. Portanto, faz-se prioritário trabalhar as relações sociais de violência na perspectiva de saúde, através de intervenções que garantam a ampliação do ponto de saúde no contexto relacional e social e na superação dessas relações de violência. Logo, todo o processo de trabalho desenvolvido no Núcleo de Estudos da Violência, Intervenção e Direitos Sociais, articulado com a Delegacia de Proteção ao Idoso, oportunizou a consolidação do Projeto Ético-Político do Serviço Social na garantia de direitos dos usuários da instituição. Neste espaço, então, o Serviço Social teve como eixo a Questão Social na busca de se desvendar como ela se configura no caso das vidas dos idosos, quando estes buscam o espaço institucional na DPPI para garantir em seus direitos, violados no âmbito intrafamiliar, doméstico e no institucional. Logo, essa violência contra o idoso é uma expressão que dá visibilidade à Questão Social, pois é a partir das relações de violência na família que emergem as estruturas sociais e institucionais que alimentam os processos de exclusão e desigualdade social, imbricado e na sua história de vida. Independente do espaço institucional que o NEVID se articula, o Serviço Social sempre vai articular os fundamentos teóricos metodológicos, éticos-políticos e técnico-operativos, procurando operacionalizar o Método Dialético Materialista através da metodologia, por exemplo, os Quadros de Prática Relacional: 1-Processo de Conhecimento e 2-Processo de Intervenção. 34 Logo, no que se refere ao nível de prática no NEVID, o processo de trabalho do Assistente Social inicialmente se conscientiza através do Programa de Triagem do Núcleo. Portanto, a Triagem não se constitui em uma simples entrevista de coleta de dados, nem tampouco um mero processo seletivo de inserção ao Núcleo ou de encaminhamentos. Este programa consiste, sim, no primeiro contato e atendimento com usuário no espaço Institucional, em que a aluna-estagiária se apropria analiticamente do conteúdo de violência na vida do sujeito singular, inicialmente, pelo o acolhimento que constituirá o caminho para conhecer e para propor. Esta fase inicial do atendimento se dá através da situação que o usuário traz e que permite fazer uma articulação a partir dos três eixos dos fundamentos do Serviço Social: o teórico-metodológico, éticos-políticos e o técnico-operativo, que se concretizam através do processo de trabalho do Assistente Social, a partir da operacionalização do Método Dialético Materialista. É neste contexto, portanto que a aluna-estagiária desenvolve a articulação da teoria com a prática, possibilitando, assim, desvendar o objeto e como a Questão Social se contextualiza na vida dos sujeitos singulares. É através do que emerge da subjetividade destes que se articulam os processos particulares e os processos sociais, devolvendo-se, então, aos sujeitos singulares para se construírem movimentos sucessivos de superações e desvendamento do objeto. Então, pode-se assim trazer a Questão Social do abstrato para o concreto. Os fundamentos teóricos metodológicos trouxeram para a profissão “a Questão Social como base de fundamentação sócio-histórica do Serviço Social” (IAMAMOTO, 2001, p.57). Logo, ao se apropriar desta categoria marxista como seu objeto, o Assistente Social passou a realizar uma leitura do fenômeno social a partir da apropriação de como se constituiu a sociedade capitalista contemporânea. É nesse campo que se dá o trabalho do Assistente Social, devendo apreender como a Questão Social em suas múltiplas expressões é experenciada pelos sujeitos em suas vidas cotidianas (IAMAMOTO, 2001, p.62). Logo, segundo Türck, 35 “a Questão Social como objeto do Serviço Social traz para o contexto do processo de trabalho do Assistente Social os Processos Sociais que vão interpenetrando Nos Processos Particulares (relações familiares e afetivas) dos usuários e Na subjetividade dos sujeitos Contextualizando em suas vidas os processos de desigualdade construídos e mantidos pela relação entre capital e trabalho postos numa sociedade de classes.” Portanto, a Questão Social como objeto de trabalho do Assistente Social traz na sua essência a compreensão da construção da sociedade capitalista brasileira, dividida em classes sociais e cujas relações trazem embutidas a desigualdade social e a permanente violação de direitos. Essa compreensão remete para o significado da violência constituída na sociedade e, mais especificamente, a violência no contexto intrafamiliar (2005, p.5). É nesse sentido que o Método traz como categorias teóricas são importantes para o entendimento do surgimento da Questão Social: como historicidade 17 , totalidade 18 e contradição 19 . São fundamentais para compreensão dos fenômenos que emergem na vida cotidiana dos sujeitos. 3.1 PROCESSO DE CONHECIMENTO E O DESVENDAMENTO DO OBJETO O primeiro contato que a estagiária mantém com o usuário que chega no espaço institucional dá inicio ao Processo de Conhecimento. É neste momento que se oportuniza conhecer para propor. Tem-se, assim, o Quadro Relacional a seguir: 17 Como um todo articulado por conexões que permite se apropriar do cotidiano a partir da compreensão histórica, econômica e política da sociedade capitalista ocidental. 18 É se apropriar do cotidiano a partir da compreensão histórica da construção da sociedade (TÜRCK, Maria da Graça Maurer Gomes. Reflexões sobre a Questão Social, 2005/2). 19 É a força motriz que prova o movimento e da transformação. Logo, a realidade é essencialmente processo, mudança, devir. 36 Quadro de prática Relacional:- 1. - Processo de Conhecimento Processo de Trabalho Fundamentos teórico-metodológicos: Leituras agregadas: Atendimentos: semanal mensal Expressão que dá visibilidade à Questão Social Estratégias metodológicas/ instrumentais operativos Formade manifestação da desigualdade social atravésdo comportamento do sujeito. Abordagens,, técnicas , instrumentos necessáriosà execução do Processo de Conhecimento. Subjetividade do sujeito Identificação 20 da resiliência eda resistência dosujeito contextualizada nas formas de enfrentamento utilizadas para responder, através docomportamento,aos processos de exclusão e desigualdade socialcotidiana. Processos Particulares Contextualização dos processos relacionais no espaço afetivodo sujeito, e nocontexto familiar,que produzem interações deviolência, agravando asdesigualdades sociais. Processos Sociais Pontos Nodais elencados Objeto Objetivos Identificação das formas de resistência das estruturas sociais e institucionais que “alimentar” asformas de exclusão e desigualdade social,que seexpressam nasinterações afetivas e sociais dos sujeitos. Análise dasituação com os pontos nodais de vulnerabilidade, que impedem a superaçãodas formas de desigualdades sociais. Desvendamento do objeto Questão Social,navida dosujeito, a sersuperado. Identificação dos objetivos aserem atingidos para o encaminhamento a outros espaços institucionais, ou a implementação do Processo de Intervenção. Fonte: Profª. Maria da Graça Maurer Gomes Türck A situação relacionada a seguir foi encaminhada para o Serviço Social do NEVID, na época articulado no espaço da Cruz Vermelha/POA/RS, através da Vara de Execução das Penas e Medidas Alternativas (VEPMA 21 ), pela Assistente Social 22 coordenadora do Programa de Acompanhamento Social (PAS), para ser trabalhada a violência intrafamiliar, ocasionada pela dependência química e etílica do Sr Márcio 23 em relação a sua companheira Janaína. Logo, o que primeiro emerge no cotidiano do profissional e aluno-estagiário é a expressão que dá visibilidade à Questão Social, é o aparente que se explicita no espaço público e na vida do sujeito através de sua situação emergente. 20 Termo utilizado para definir a capacidade humana de passar por experiências adversas, sucessivas, sem prejuízos para o desenvolvimento (VICENTE, s/d., p.10). 21 Lei nº7210: o infrator poderá cumprir sua pena em liberdade, no entanto serão atribuídas tarefas a serem cumpridas durante um determinado período em julgamento. 22 Viviane Lupeti Lauck. 23 Todos os nomes utilizados neste trabalho são fictícios. 37 3.1.1 História de Vida A Sra.Janaína, 31 anos, relatou ter cinco filhos de sua união com Márcio e mais dois filhos, Pedro (10 anos) e o Léo (7 anos), da união anterior - o primeiro criado pelos avós maternos e o segundo pela tia Rufina, idosa, dependente etílica e química. Sendo que os outros filhos moram com ela, Ana (9 anos), Alex (6 anos), Alceu (4 anos), Hugo (1 ano) e a Alice (7 meses). Segundo seu relato, foi uma menina sozinha, criada pelos avós maternos e sustentada pela mãe (Glaci), que trabalhava na noite (gerente de casa noturna) e pouco lhe dava atenção (carinho). Tornando-se, assim, uma adolescente usuária de drogas e alcoolista, inseriu-se em uma gangue, com a qual infringiu a lei, colocando sua vida em perigo. Disse que, ainda adolescente, conheceu seu primeiro companheiro (traficante e usuário),o que lhe possibilitou a dependência da cocaína. Sua vida foi de total abandono, libertinagem e totalmente sem limites. Relatou ainda que sentia o maior prazer quando observava, às escondidas, a mãe e a vó com fisionomia de sofrimento e desoladas com a situação que estavam vivenciando. A mesma referiu que, atualmente, ao lembrar de sua vida anterior, de ilusão e sofrimento, comentou que faria tudo diferente. Houve, então, a separação e um novo amor (seu companheiro atual).Agora diz que sua vida não está boa e acusa o marido, pois o mesmo é usuário de drogas e dependente etílico. Ele não trabalha, tem muito ciúme, por este motivo lhe agride, já tentou matá-la várias vezes. Ela mencionou viver com muito medo, sem tranqüilidade, passando muita necessidade, assumindo a responsabilidade dos filhos sozinha, com ajuda financeira de sua mãe a Sra. Glaci. Janaína diz, ainda, que ficou com ele por amor, mas que não gosta mais dele, só sente muita pena e medo. Essa violência perpetuada cotidianamente por dez anos, veio à tona quando Janaína apanhou e levou uma facada na cabeça. Não agüentando mais tamanha violência, pediu socorro na Delegacia da Mulher, ficando com seus filhos no abrigo Viva Maria por três meses. Logo, para operacionalizar o Processo de Conhecimento foram utilizadas como estratégias metodológicas: abordagens individual e conjunta para, inicialmente, desvendar o objeto na vida de Janaína. E, como instrumentais operativos: observação,escuta sensível, acolhimento, entrevistas individuais reflexivas com Janaína, Glaci, entrevistas conjuntas reflexivas, contato com 38 Assistente Social da VEPMA, visita domiciliar junto com Assistente Social. Portanto, o processo de trabalho se concretizou na apropriação dos processos particulares e dos processos sociais se interpenetrando nas relações afetivas e transformando a subjetividade da usuária, possibilitando, então, determinar os pontos de crise e, conseqüentemente, o desvendamento do objeto. No primeiro momento, foi feito um contato com a Sra. Janaína, que compareceu à Cruz Vermelha através do VEPMA de Porto Alegre, onde foi realizado o primeiro atendimento no dia 11/06/2004, e, sucessivamente, outros 22. Dar conta das particularidades das múltiplas expressões da Questão Social na história da sociedade brasileira é explicar os processos sociais que se produzem e reproduzem e como são experimentadas pelos sujeitos sociais que vivenciam em suas relações sociais quotidianas (IAMAMOTO, 2001, p.62). A partir do primeiro atendimento com a usuária Janaína, emergiram como pontos de crise: violência intrafamiliar, desqualificação profissional, abandono com a mensagem aparente. No segundo momento, no atendimento com sua mãe, Sra. Glaci, os pontos de crise foram os seguintes: autoritarismo, pois mostrou medo de perder o comando da família, negligência. No decorrer do Processo de Conhecimento, antes as abordagens individual e conjunta garantiram que cada usuário trouxesse de forma espontânea e natural seus sentimentos em relação ao cotidiano familiar, pois a presença de mais um integrante modificaria o comportamento e o enfrentamento da subjetividade de cada um dos sujeitos. Neste contexto, a abordagem individual, inicialmente elencada, possibilitou que Janaína trouxesse sua vontade de mudar sua trajetória de vida até o momento, se referindo ao companheiro como sendo seu maior problema atual e por estar vivendo numa relação que não tem mais amor, só desesperança e muito medo. Nos primeiros atendimentos com a usuária foi identificado e observado através de sua fala e de sua postura que esta se sentia desamparada, amedrontada, sem condições de dar a volta por cima, por ser pobre, sem profissão e ter muitos filhos. Conseqüentemente, a usuária internalizou sua própria opressão, tornando-se hospedeira a ponto de chegar a assumir que sua situação de vida era mais o resultado de seu próprio agir. Assim, a opressão atingia a todas as formas de controle que impedissem o completo avanço, anulando todas suas metas. 39 Já no atendimento feito com a Sra Glaci, esta verbalizou que a filha Janaína sempre foi uma menina que sempre teve tudo, não sabendo porque ela havia escolhido esta vida de miséria e violência. Disse que Janaína era bonita e que hoje estava cheia de filhos. Verbalizou, ainda, que sempre procurou estar presente, mas precisava trabalhar para sustentar os pais e a filha, pois era mãe solteira, trabalhava à noite e dormia durante o dia, já que seus pais cuidavam da Janaína, não tinha preocupação na educação da filha. Pose-se inferir neste contexto, que a Sra. Glaci, ao vender sua força de trabalho, perdeu o poder decisório sobre sua vida e conseqüentemente, não se reconhecia mais como mãe, pois seu trabalho adquiriu um valor superior ao afeto, coisificando-a, e ao mesmo tempo burocratizando sua relação com a filha. Conforme sua fala explicitada abaixo: R: A Sra. estava ciente do que se passava com a Janaína? G: Não, sempre trabalhei à noite e dormia de dia. R: A sua mãe a Sra. Clara, não fazia comentários sobre o comportamento da Janaína? G: Não, ela nunca trouxe nada a respeito da Janaína. Acho que ela não queria me preocupar, porque eu trabalhava muito, quis me poupar (Falas fragmentadas, 2004). Pode ser observado pelas falas da Sra Glaci que sua presença familiar foi marcada pelo processo econômico e material e não por um processo de laços afetivos, identificando-se como processo social o abandono sem ruptura de presença, se explicitando, também, nos processos particulares através da relação filial de negligência e desproteção. Portanto, nos atendimentos, foi possível realizar um processo reflexivo, a partir das informações adquiridas até então, que possibilitaram a articulação teóricoprática, através da compreensão dos Processos Sociais, dos Processos Particulares e da Subjetividade do sujeito. As falas a seguir contextualizam como os processos sociais vão tecendo as relações de violência na vida de Janaína. 40 Eu não tava nem aí. Eu tinha quinze anos, comecei ir pra rua. Às vezes ficava uma semana fora de casa, gostava de ficar com a turma e só me relacionei com caras que usavam drogas e que bebiam. Eu achava o máximo, gostava e aprontei muito (Fragmentos da fala da Janaína, 2004) (Subjetividade – infantilidade; Processos Particulares – negligência e desproteção; Processos Sociais – abandono sem ruptura de presença, formação de gangue). Ele não me batia, era mais carinhoso com os filhos, ficava mais em casa. Depois que ele começou a usar o crack, passou a me bater (Fragmentos de fala de Janaína, 2004) (Subjetividade - medo da violência; Processos Particulares - a agressão física; Processos Sociais - dependência química, violência conjugal). Queria tanto que ele parasse de me bater (Fragmentos de fala de Janaína, 2004) (Subjetividade - impotência; Processos Particulares – casal sem diálogo; Processos Sociais - violência conjugal). Ainda não cheguei a pedir. Eu tenho medo da reação dele, ele não aceita a gente se separar (Fragmentos de fala de Janaína, 2004) (Subjetividade – medo; Processos Particulares - relação de dependência e submissão; Processos Sociais - religião e gênero). Desde que eles vieram aqui, eles melhoraram muito, e para mim também tem sido importante. Mas, no caso do Márcio, não tem jeito, tá cada vez pior (Fragmentos de falas de Janaína, 2004) (Subjetividade – Fortalecimento; Processos Particulares – inversão nas relações de agressão; Processo Social-gênero, poder). Para mim, o Márcio é um sem-vergonha, um vagabundo, que não quer nada da vida. Não sabe fazer nada(Fragmentos de fala de Janaína, 2004) (Subjetividade – irritabilidade, vergonha; Processos Particulares – prejuízo nas relações afetivas; Processos Sociais – desemprego, dependência química). Eu cheirava loló e cocaína, consegui sair dessa. Por que ele não consegue sair? (Fragmentos de fala de Janaína, 2004) (Subjetividade impotência; Processos Sociais - Carência de Políticas Públicas no tratamento de substâncias químicas e etílicas). Ele me botava lá em baixo, ela lá em cima. Me chamava de gorda, feia, também nessa época já tinha três filhos, esperava o quarto, estava enorme, muito gorda. Ele me magoou muito (Fragmentos de fala de Janaína, 2004) (Subjetividade – sentimento de desvalia; Processos Particulares – relação conjugal em conflito; Processos Sociais - gênero). Lembro quando quebrei os dois dedos na porta do carro, eu tinha quatro anos, estava com um vestido vermelho com bolinhas, doeu muito. Também recordo que minha mãe fez uma festa para comemorar meus cinco anos. Ninguém foi, chorei muito (Fragmentos de fala de Janaína, 2004) (Subjetividade - desvalia, sem valor; Processos Sociais – abandono s/ruptura de presença). Através da construção do Processo de Conhecimento e a partir da leitura dos fenômenos que foram explicitados na vida de Janaína e de sua família, foi possível a operacionalização do Método Dialético Materialista através do Quadro de Prática Relacional: 1 Processo de Conhecimento, a seguir: 41 Quadro de Prática Relacional: 1. Processo de Conhecimento Processo de Trabalho Fundamentos teórico-metodológicos: Método Dialético Materialista Leituras agregadas: Violência Conjugal, Gênero. Atendimentos: semanal quinzenal mensal Origem Expressão que dá visibilidade à Questão Social Encaminhamento da vara de Execução das Penas e Medidas Alternativas – VEPMA Usuária com queixa de agressão física e psicológica, motivada pelo companheiro dependente químico e etílico. Estratégias Subjetividade Metodológica/ do sujeito Instrumentais operativos Abordagem individual e conjunta. Observação,e scuta sensível, acolhimento,vi nculação. Entrevistas individuais reflexivas Janaína (4) Glaci (3) Entrevistas conjuntas reflexivas (2) Contato com A.S.da VEPMA (2). Visita domiciliar conjunta com A.S. da VEPMA (2). Janaína: desvalia e infantilidade, impotência, mobilidade, irritabilidade e medo da violência e vergonha Glaci :autoritária, vaidosa, forte, poder de comando Márcio: :violento, impotência em relação à dependência química e etílica, Sentimento de desamor, Irresponsabilid ade. Agressividade. Processos Particulares Processos sociais Pontos Nodais elencados Violência conjugal: relação conjugal em conflito Família sem diálogo estressada pela agressividade do marido. - relação filial de negligência e desproteção - relações maternas de rejeição -Intervenção da mãe causando dependência prejuízo nas relações afetivas. -posição de poder. -Abandono s/ ruptura presença; -desemprego -violência intrafamiliar; -dependência de SPA alcoolismo falta de Políticas Públicas. -Formação de gangue; - gênero -Ruptura com a mensagem aparente - Falta de qualificacão profissional. -Violência intrafamiliar -dependência de SPA e etílica. Objeto Objetivos - exclusão Superar a pela violência identidade não intrafamiliar e doméstica. reconhecida. para responsabiliza r os membros do grupo familiar pela violência familiar e proporcionar a conexão com o sofrimento e com o afeto entre os membros do grupo familiar. Para criar no espaço familiar Manutenção de enfrentamento da violência entre os membros do grupo familiar. -Para possibilitar apropriações da história de cada um da família para mudança de contexto. Fonte: Assistente Social Profª.Maria da Graça Maurer Gomes Türck. Com a conclusão do Processo de Conhecimento da situação, proporcionou a compreensão à análise da situação, pois é através do processo de trabalho que os fundamentos teórico-metodológicas, éticos-políticos e técnico-operativos são articulados para apropriação do aluno-estagiário, que busca, em um determinado raciocínio, a escolha adequada de um determinado instrumental ou meios para efetivá-lo. O foco da intervenção social se constrói nesse processo de articulação de poder dos usuários e sujeitos da ação profissional no 42 enfrentamento das questões relacionais complexas do dia, pois envolvem a construção de estratégias para dispor de recursos, poder, agilidade, acesso organização, informação, comunicação. (...) É aí que se dá o trabalho sobre as mediações complexas na dinâmica das relações particulares e gerais dos processos de fragilização social, para intervir nas relações de força, nos recursos e nos poderes institucionais, visando a fortalecer o poder dos mais frágeis, oprimidos, explorados, pelo resgates da sua cidadania, da sua autoestima das condições singulares da sobrevivência individual e coletiva, de sua participação e organização (FALEIROS, 1999, p.41). 3.2 PROCESSO DE INTERVENÇÃO E A SUPERAÇÃO DO OBJETO O aluno-estagiário operacionaliza, então, o Processo de Intervenção, que é o segundo movimento do Método Dialético Materialista: propor para intervir. Então, de posse do Quadro de Prática Relacional-2. Processo de Intervenção, para dar continuidade ao que foi iniciado no Processo de Conhecimento, através da articulação da teoria com a prática, que nada mais é do que articular os fundamentos do Serviço Social, possibilitou-se condições para concretizar o processo de trabalho a seguir explicitado: Quadro de prática Relacional: 2. Processo de Intervenção Processo de trabalho Fundamentos Teórico-Práticos: Leituras agregadas: Atendimento: semanal quinzenal mensal Objeto Objetivos Relação do objeto desvendado no processo de conhecimento a ser superado e, assim, sucessivamente. Identificação dos objetivos anteriorment e elencados a serem atingidos. Estratégias Metodológicas/Instr umentais operativos Definição das abordagens e técnicas operativas a serem utilizadas. Desenvolvimento do Processo de Intervenção na superação do objeto. Definição dos pontos importantes que proporcionarão a visualização da articulação teórico-prática e os nexos importantes na sua superacão do objeto na continuidade do atendimento. Produto Final Superação do objeto trabalhado e dos pontos nodais elencados, assim sucessivamente, na garantia de direitos. Análise A análise dos objetivos alcançados. Fonte:Assistente Social Profª.Maria da Graça Maurer Gomes Türck Com o objeto desvendado a partir da articulação teórica com a prática já iniciada no Processo de Conhecimento, possibilitou-se então, outro patamar na concretização do processo de trabalho, o que implicou em dar continuidade ao 43 atendimento, escolhendo as estratégias metodológicas e os instrumentais operativos para a superação do objeto Questão Social na vida da usuária Janaína: exclusão pela identidade não reconhecida. Identificou-se então, que emergiram neste grupo familiar mudanças de comportamentos de violência na relação conjugal que se configuraram através dos Processos Particulares, repercutindo nas relações familiares, desencadeadas pelos Processos Sociais, a seguir explicitado. Quadro de prática relacional: 2. Processo de Intervenção Processo de Trabalho Fundamentos Teórico-Metodológicos: Método Dialético Materialista Leituras agregadas: Violência Conjugal, Gênero Atendimentos: semanal X quinzenal mensal Objeto . Exclusão pela identidade não reconhecida. Objetivos Superar as relações de violência intrafamiliar conjugal; - responsabilizar os membros do grupo familiar pela violência intrafamiliar; -proporcionar a conexão com o sofrimento e com o afeto entre os membros do grupo familiar; -crescer no espaço familiar,estratégias de enfrentamento da violência entre os membros da família; -possibilitar apropriações da história de cada um da família, para mudança de contexto , para a superação da relação social de exclusão, pela identidade não conhecida. Estratégias Metodológicas/ Instrumentais Operativos Quadro de Prática Relacional:1-Processo de Conhecimento:Abordagens individuais, conjuntas, observação: escuta sensível, entrevista individuais e conjuntas ,reflexivas, visitas domiciliares, grupo triangular infantil, genograma de confronto 24 necessários para continuidade da intervenção. Desenvolvimento do processo de Intervenção na Superação o objeto .-Foi centrado no Processo de Conhecimento da história familiar do casal, buscando apropriação de sua identidade e a ruptura do papel de dependência materna; -Fortalecendo a busca de autonomia nas decisões futuras, para que possam elaborar um novo projeto de vida, superando, assim, as dificuldades de todo seu contexto familiar. Produto Parcial Foi iniciado um processo de autovalorização da imagem e o resgate da identidade não reconhecida por si mesma. Análise Trabalhar com o objeto desvendado a relação social de exclusão pela identidade não reconhecida e identificar os processos sociais na vida dessa família, se identificando nos processos particulares: A subjetivação/ objetivação das subjetividades se explicitaram com intensidade nos processos particulares, mantendo um processo de dependência e interferência da mãe, causando violência nas relações afetivas e na autonomia dessa família. A partir desses processos, identificamos que, no decorrer dos atendimentos, Janaína mostrou uma regressão que inverteu seu comportamento de vítima e submissa para um comportamento violento e dominador em relação ao seu companheiro. Fonte: Assistente Social Profª.Maria da graça Maurer Gomes Türck 24 Como técnica operativa, ultrapassa a simples construção e compreensão dos processos relacionais. Avança para detectar as responsabilidades individuais, coletivas e sociais da construção de processos de exclusão e de desigualdade social. O entendimento e o desnudar-se de cada membro do grupo familiar, ou de outros espaços de grupo, proporcionam a conexão com a dor, com afeto coletivo e com o espaço social que mantêm os processos de exclusão social (TÜRCK, 2006, p.7). 44 Com o andamento dos atendimentos, foi possível identificar e trabalhar com o instrumental operativo – genograma de confronto, através dos pontos nodais, com objetivo de trabalhar se apropriando da história familiar de Janaína, que proporcionou a apropriação do objeto desvendado e o confronto das relações de violência a partir do “desnudar-se de cada membro do grupo familiar, ou de outros espaços de grupo, proporcionando a conexão com a dor, com afeto coletivo e com o espaço social que mantêm os processos de exclusão social” (TÜRCK, 2006, p.7). Facilitando, assim, o avanço para se detectar as responsabilidades individuais e coletivas, buscando estratégias de enfrentamento da violência entre os membros da família e fora dela. Genograma de Confronto Clara Categorias emergentes – Processos Sociais: Dependência SPA e etílica Violência sexual e física Adultenização precoce Gênero e desemprego Mauro Abandono sem ruptura de presença 82 89 Teve 4 mulheres pais de Glaci Luis Renato Divina Abandono com ruptura de presença 46 Glaci 49 Abandono sem ruptura de presença Pai da Janaína aos 16 anos, RJ. outra família. Pai doente, usa maconha Relações reificadas (de uso) Identidade não reconhecida ‘ Abandono sem/com ruptura de presença Janaína 1º companheiro, usuário de cocaína e loló Lúcio 10 Revoltado, cuidado pelos avós maternos 31 Cuidado pela tia materna, usuária de maconha e dep. etílica 7 Formação de gangue aos 14 anos Cuidadora com vergonha Ex-namorado, usa maconha/ etílico - AIDS Márcio, marido violento, usuário de drogasetílicas 32 30 6 O pai rejeita 4 29 Abandono com/sem ruptura de presença Irmã Cristina Irmão, usuário de droga, presidiário e portador de HIV Átila Alex Valdir mãe Abandono com/sem ruptura de presença Abandono sem ruptura de presença Jana 9 Vó + Soropositiva por contato sexual 11 Cláudio Categorias teóricas do Método Dialético Materialista: historicidade, totalidade e contradição Hugo 1 11 Paulo Ricardo Separados Conflitivo Promiscuidade sexual Alice AIDS 7 meses Abuso sexual Convulsões, papel do pai Alcoolismo Léo Objeto desvendado: exclusão pela identidade não reconhecida Processo Social: Abandono com e sem ruptura de presença Categoria central: Relações reificadas (de uso) Uso de drogas Fonte: Profª AS Maria da Graça Maurer Gomes Türck, 2007.1 45 46 Na medida em que este genograma de confronto ia avançando, proporcionava se fazer uma leitura do contexto social e do grupo familiar sobre a situação atual, dando condições para avaliar e situar os pontos críticos na história da família. Foram trabalhados os objetivos para a superação da responsabilidade de cada membro do grupo familiar, através da categoria historicidade, e sabendo-se até que ponto da trajetória de vida foi impedindo o desenvolvimento da consciência social dos usuários e como a alienação penetrou tão fortemente no contexto familiar transfigurando-a a ponto de terem uma relação alienada, alienante e alienadora no contexto social, reproduzidas, então, pelas relações culturais, sociais e econômicas. O direcionamento das intervenções foi centrado na violência, explicitada pelo objeto desvendado: exclusão pela identidade não reconhecida. Logo, a operacionalização do Método pelo Processo de Intervenção na superação do objeto, que permitiu que a história familiar do casal levasse Janaína para a apropriação de sua identidade e ruptura do papel de dependência materna, oportunizou o fortalecimento para a busca de sua autonomia nas decisões futuras. Levou-a, também, à busca de um novo projeto de vida, superando, assim, as dificuldades de seu contexto familiar e social. Logo, através da superação do objeto desvendado, trabalhado no Processo de Conhecimento, houve a articulação da teoria com a prática, através da utilização da metodologia de aplicação do Método Dialético Materialista. Direcionou-se, então, a relação teórico-prática no Processo de Intervenção no sentido de se escolher o caminho a ser percorrido pelo Assistente Social/aluno-estagiário, que trouxe como eixo seu Projeto Ético-Político para a garantia de direitos e autonomia dos sujeitos singulares. Portanto, é a partir do desvendamento do objeto, em cada situação e na escolha das estratégias metodológicas mais apropriadas, que se dá a superação deste objeto, o que possibilita alcançar o produto parcial, sustentados pela articulação dos fundamentos teórico-metodológicos, éticos-políticos e técnicooperativos. 47 3.3 PRODUTO PARCIAL Com o trabalho realizado e o conteúdo acima exposto, pode-se inferir que a conscientização do processo de trabalho através das estratégias elencadas operacionalizou o Método Dialético Materialista, através da Metodologia dos Quadros de Prática Relacional: 1-Processo de Conhecimento e 2-Processo de Intervenção, logo foi possível chegar ao Produto Parcial, através do objeto desvendado e da superação do mesmo. Então, na medida em que foi se operacionalizando o Processo de Intervenção em movimentos sucessivos de fortalecimento e de auto-valorização, Janaína foi resgatando sua identidade não reconhecida por si mesma. Esta internalizou na sua trajetória histórica uma relação de alienação, que, identificados em seus Processos Particulares e Processos Sociais, davam sustentação à leitura da violência posta pelas múltiplas expressões da Questão Social, como violência, abandono s/ruptura de presença, desemprego, drogadição, desqualificação profissional, gerando um descompasso entre as conquistas sociais, culturais e econômicas, o que desvalorizava sua imagem e sua identidade, transformando-a, assim, em hospedeira de sua própria opressão. No último encontro, foi solicitado à Janaína que pensasse em sua situação e respondesse o que realmente queria para si e para seus filhos, se realmente gostaria sair dessa relação. Sim, quero vida melhor para meus filhos e para mim. A relação com Márcio não tem futuro, não posso contar com ele para nada, tenho medo de morrer. Preciso pensar na vida, tenho que recomeçar preciso fazer algo pelos meus filhos e por mim (Subjetividade: medo da violência; Processos Particulares; relação filial de negligência e desproteção; Processos Sociais; gênero e exercício da maternidade) (Fragmentos de Fala, 2004). Logo, na fala de Janaína se explicitaram os pontos nodais de aprisionamento às relações de violência. Como sua compreensão de que ser mulher é ter dificuldades como qualquer outro trabalhador para organizar-se e defender suas reivindicações, ficou claro, para ela, que sem tomar consciência de sua situação e sem se organizar para resgatar sua identidade e se apropriar da sua própria história, não haveria mudança. Bem como havia necessidade de se procurar qualificação profissional, superação das dificuldades e traçar projetos com novas propostas de vida para o futuro. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho teve grande significado, porque não representa apenas o término de período de estudos, mas, sim, todo um aprendizado, esforço e conhecimento adquiridos durante quatro (4) anos de estágio, três (3) anos extracurriculares e um (1) curricular, realizados no NEVID. Foi nesse contexto que, incessantemente, se buscou o conhecimento através de processos históricos, fazendo-se a conexão com o tempo e o espaço, pois só assim se pode entender como e porque, ao se desenvolver o trabalho e compreender as situações de violência trazidas pelos usuários que sofrem com a violência em suas relações familiares, estes são sujeitos ativos na história da humanidade. E assim que a violência, como um processo de desigualdade e de exclusão, emerge com intensidade na sociedade brasileira. Vê-se, então, que, apesar da violência constituir-se em problemas socialmente construídos no interior das relações sociais, apresentando-se de formas diferenciadas, a sociedade brasileira tem se comportado diante dela considerando-a apenas como um aspecto normativo. Logo, trabalhar com a temática torna-se algo muito desafiador, pois implica em entendê-la como uma ação coletiva, que tanto os homens quanto as mulheres são vítimas e perpetuadoras dos papéis sociais da violência que assumem na sociedade. No decorrer do aprendizado foi possível perceber, que é muito importante ser autêntico, superando-se as dificuldades dos processos de violência que se apresentam na caminhada pessoal e profissional. Se vai adquirindo conhecimento próprio e se permitindo criar estratégias para a apropriação em relação aos problemas que envolvem grupos e indivíduos nas relações sociais do cotidiano. 49 Pode-se, então, afirmar que, através dessa construção de saberes, o Assistente Social, dentro do espaço profissional que ocupa, passa a demandar a sua identidade profissional. Com isso, pode demarcar o seu território através da apropriação de seu objeto, criando laços, alianças e inserindo-se num grupo com os mesmos interesses. Se vai, dessa forma, aprendendo que, no decorrer da história, se excluiu a possibilidade da construção do coletivo para garantia de direitos. De encontro a isso, portanto, surge o auto-conhecimento para que o Assistente Social possa transitar com competência no enfrentamento das demandas que chegam ao Serviço Social através da Questão Social, que, pela desigualdade, dá visibilidade à violação de direitos. A partir de tal caminhada, e chegando-se ao final de mais uma etapa, há ainda a esperança de se ter muitas outras, como desafio. Sim, porque esta já se apresentou como um grande desafio, que proporcionou o conhecimento de uma realidade cuja apropriação, através das categorias do Método Dialético Materialista como a historicidade, a totalidade e a contradição, deu uma outra dimensão em relação à sociedade capitalista e ao Serviço Social. Logo, a formação profissional, articulando-se o conhecimento adquirido no campo acadêmico com o da realidade vivenciada, neste caso o campo de atuação no NEVID, trabalhando junto com os usuários e desvendando o objeto na superação dos conflitos advindos da Questão Social, teve como norte o entendimento do Projeto Ético-Político na permanente e intransigente defesa de direitos e a busca por uma sociedade mais justa e igualitária. REFERÊNCIAS ALAMBERT, Zuleika. Feminismo. O Ponto de vista Marxista. São Paulo/SP: Editora Nobel S.A., 1986. 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