Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação
RECEPÇÃO FORA DO ASFALTO: uma experiência de pesquisa utilizando
o método do Grupo de Discussão.
RESEARCH RECEPTION OFF ROAD: research experience using the
Discussion Group method.
1
Ricardo Duarte Gomes da Silva
Resumo: A partir de uma experiência de pesquisa que utiliza o método do Grupo
de Discussão, apresentamos neste artigo as construções relativas à etapa dos
procedimentos de coleta e tratamento dos dados de um estudo. Trabalhando com
um público juvenil específico e traços de sua experiência midiatizada, procuramos
demonstrar o método funcionando no decorrer das sessões presenciais e a
dinâmica das discussões. Também apresentamos alguns caminhos para o
pesquisador no tocante ao tratamento dos achados da pesquisa, apanhados ao
longo dos encontros. Ao final, uma das considerações que destacamos foi a
interação constituída pelo método como aliada dos processos de interpretação
desenvolvidos pela pesquisa comunicacional na recepção, na medida em que
possibilita igualmente observar o funcionamento do método e a visualizar vestígios
da tessitura da experiência midiática do público.
Palavra chave: 1. Mídia e Juventude; 2. Recepção midiática; 3. Público rural; 4.
Grupo de Discussão.
Abstract: We use a search using the Group Discussion method and presented in
this article, elaborations on the step of collection procedures and approach of the
study data. We work with specific juvenile public and traces of mediated
experience, seeking to demonstrate method working on the development of the
sessions Discussion Group, as well as the dynamics of the discussions. We also
present ways for the researcher for the treatment of research data collected during
the study. Finally, we consider the interaction made by the method as an ally of
interpretation processes developed by communication research at the reception,
because the method allows also observe the operation of the method and the view
traces of fabric of media experience to the public.
Keywords: 1.Media and Youth; 2.Reception Media; 3.Rural Public; 4.Discussion
Group.
1. Introdução
1
O tema de nosso estudo envolveu a mídia e a juventude no rural, tema pouco financiado
e estudado pelas pesquisas em comunicação. Foi realizada em uma escola rural mineira (uma das
poucas existentes no Estado) e exigiu vários deslocamentos por estradas de barro. Daí o título deste
texto “recepção fora do asfalto”.
A pesquisa envolvendo pessoas e que exige o esforço do pesquisador na busca do corpus
adequado para a investigação sempre foi estimulando pelos tradicionais “estudos de recepção” ao
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longo de duas décadas – desta maneira formando investigadores habilitados a este tipo de trabalho
(capazes de sujar as mãos na cozinha, no chão da fábrica ou as botas nas estradas de barro).
Antes de iniciarmos as viagens para a realização da pesquisa empírica, e ao optarmos pelo
método do Grupo de Discussão, nossa preocupação inicial se concentrava em dois aspectos
relacionais quando se estuda o público: a experiência de observar atentamente o funcionamento do
método, na relação do pesquisador com os participantes, e a tentativa de compreender a relação dos
participantes com as mídias e conteúdos preferenciais. Por hora, neste artigo, temos o objetivo de
apresentar apenas as construções relativas à etapa dos procedimentos de coleta e tratamento dos
dados do estudo.
Talvez seja esta pequena e, por vezes, menosprezada etapa de uma investigação a “casa
das máquinas” da pesquisa ou onde se constitui o artesanato metodológico do estudo. Por esta
etapa também se delimitam os tencionamentos das proposições teóricas do método e aquilo que o
empírico pode oferecer, capaz de ajudar na atualização dessas teorias. Tentamos mostrar um pouco
do Grupo de Discussão funcionando, talvez contribuindo para identificar potencialidades e limites
desse método e entendermos seu sentido e papel no processo de construção da pesquisa
comunicacional na recepção.
2. O método do Grupo de Discussão: delineamentos e parâmetros fundamentais
Apesar de Barbour (2009, p.20) chamar de “Grupo Focal” toda e qualquer entrevista de
grupo que se baseia em “gerar e analisar a interação entre os participantes” – filiando-se a um
grupo de pesquisadores que considera qualquer discussão de grupo como sendo “Grupo Focal”
(KITZINGER; BARBOUR, 1999) – a pesquisadora Wívian Weller (2006) sinaliza que existem
diferenças entre “Grupo Focais” e “Grupos de Discussão”, mesmo que as duas técnicas de
entrevistas de grupo enfatizem o caráter interativo da coleta de dados, gerando representações
sociais mediante a simulação de discursos.
Na tradição dos Grupos Focais há estudos de terapia de grupo, de avaliação da eficácia da
comunicação (pesquisa de opinião) e dinâmicas de grupo em psicologia social que funcionam
como pesquisas avaliativas, complementando dados obtidos por meio de questionários
quantitativos. Os resultados da terapia e da dinâmica do grupo são utilizados com o objetivo de
construir a pesquisa de opinião pública, em geral para fins mercadológicos ou simples coleta de
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opiniões sobre um determinado assunto. Segundo a autora, não importa para o Grupo Focal
clássico as diferenças econômicas e sociais, o nível de formação, a faixa etária dos entrevistados e
o vínculo de seus membros. Os participantes devem ser formados por pessoas com diferentes
opiniões, sem mistura de gêneros no mesmo grupo (WELLER, 2006).
Já os Grupos de Discussão se utilizam tradicionalmente de
um procedimento distinto aos grupos focais, uma vez que o objetivo principal desse
tipo de entrevista é a obtenção de dados que permitam a análise do meio social dos
entrevistados, bem como de suas visões de mundo ou representações coletivas
(WELLER, 2006, p.244).
A técnica se caracteriza por um instrumento mais aberto de exploração das opiniões
coletivas, não apenas somando quantitativamente as opiniões individuais, mas, sobretudo,
entendendo que as falas individuais são produto da interação mútua (formando a opinião do grupo
social). As opiniões do grupo não podem ser observadas como o resultado estruturado de tentativas
de ordenação do moderador, pois são posições coletadas a partir do chão das experiências das
pessoas, devendo refletir, em primeiro lugar, as orientações do coletivo ou as visões do grupo
social pesquisado; apontar – sem as amarras de um roteiro fechado e estruturado – às vivências
ligadas a uma mesma estrutura do grupo social, que se constitui tendo como referência o comum
das experiências atravessadas na vida de múltiplos indivíduos em processos de desintegração e
exclusão social; gerar dinâmicas de sentido a partir dos momentos vividos. Desta forma, os Grupos
de Discussão permitem que os entrevistados sejam vistos como representantes do meio social em
que vivem e não apenas como detentores de opiniões.
2.1. Delineamentos
Tentando pôr em funcionamento a noção de Grupo de Discussão descrito por Weller
2
(2006), começando por uma pesquisa prévia sobre a realidade do grupo social pesquisado. Tal
incursão ajudou a organizar um roteiro aberto de questões fundamentais, que foram
redimensionadas ao longo das sessões de debate. Nas sessões, alguns estímulos foram destacados
com o objetivo de fazer surgir uma conversação (reverberações sobre as notícias do momento,
figuras públicas admiradas, casos que chamam mais a atenção), e tanto a intensidade de alguns
debates quanto a escolha em falar sobre determinado assunto revelou um pouco quem eram aqueles
sujeitos e quais os traços da experiência no lugar em que vivem. Os sentidos ao redor dos tipos de
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assuntos e a intensidade do debate apontaram para traços do meio social (de base familiar rural),
para os vestígios das visões de mundo do grupo juvenil e mostraram um pouco como funcionam as
representações nas narrativas da mídia.
O início de nossa tentativa de comunicação teve como característica a identificação das
escolhas dos sujeitos, que depois foram debatidas à luz da experiência de vida do grupo social. O
delineamento da interação surgiu aos poucos, no caminhar da relação no Grupo de Discussão,
permitindo visualizar pares de falas, sentidos e alguns valores implícitos.
Ao todo foram cinco sessões de 60 minutos em média, realizadas em uma das salas da
escola rural José de Assis Pinto (Comunidade de Ana Rita, município rural de São Miguel-MG),
3
junto a um corpus de 13 alunos do último ano do ensino médio . Elaboramos algumas adaptações,
modificações e ampliações a partir de Weller (2006) com relação ao tratamento dos dados
coletados. A autora não explica os detalhes da execução, mas recomenda um modelo para as
transcrições das falas gravadas, que dispensa a transcrição total. Optamos, no entanto, pela
transcrição completa de cada sessão para sentirmos o movimento dos assuntos “entrando” e
“saindo” do debate. A transcrição completa também ajudou a identificar “quem falou o quê” em
cada sessão – o que colaborou para a organização de coletas posteriores.
Também utilizamos algumas das siglas entre os pares de fala (bloco de perguntas e
respostas) para sentir algumas passagens de temas ao longo da discussão e perceber alguns
assuntos tendo mais espaço que outros. Tais siglas foram importantes para indicar quem está
falando no grupo de discussão, respeitando o anonimato: identificação da fala do pesquisador (Y);
da moça e do rapaz que fala (“f” ou “m”); e a quem pertence cada fala (“Am”, “Bf”, etc,
procurando não identificar o participante).
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Além de possibilitar entrar em contato com um rico material, o método também foi
escolhido por conta da viabilidade da pesquisa. Em muitas regiões rurais brasileiras as
propriedades se situam distantes entre si e a escolha das entrevistas individuais enquanto método
demandaria vários deslocamentos entre as propriedades. Ao optarmos pelo Grupo de Discussão,
procuramos um lugar que servia como ponto de referência ou de encontro para os sujeitos da
pesquisa (uma sala na paróquia, na sede da associação de moradores ou, como no nosso caso, na
escola rural).
2.2. Parâmetros fundamentais
A investigação sobre o modo de interação na reciprocidade entre as intervenções
midiáticas e as expectativas dos públicos já foi uma preocupação de outros trabalhos (que
abordaram outros públicos) desenvolvidos pelo Grupo de Pesquisa em Imagem e Sociabilidade
(Gris/UFMG): a interlocução das narrativas populares junto a comunidades urbanas (CUNHA,
2005), as narrativas sobre o feminino e um grupo de mulheres (SCOFIELD, 2007), e os jovens
urbanos na relação com uma telenovela juvenil (SOUSA, 2007). Para a elaboração de alguns
parâmetros fundamentais, partimos de aspectos metodológicos já levantados por tais dissertações.
Na pesquisa prévia e ao longo das sessões do Grupo chamou nossa atenção à preferência
dos jovens rurais pelas narrativas não-rurais e seus recortes representativos (gêneros e formatos
de programas que não possuem conteúdo estritamente agrícola, agropecuário ou ecológico). A
escolha por tais narrativas de certa forma já sinalizava para a peculiaridade daquela cultura rural
(como também de outras) cada vez mais hibridizada com os costumes do urbano que lhe servia de
referência. A escolha também chamava a atenção para observarmos o instante ou momento vivido
pelos jovens, no último ano escolar e imersos em um dilema natural: ficar ou não na roça. Portanto,
a leitura da mídia e os recortes escolhidos se associavam (de maneira complexa) com o momento
vivido e a cultura rural de base familiar, constituindo assim alguns parâmetros de análise.
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a) Recortes: temas sociais e figuras públicas do interesse, que chamam a atenção do
público juvenil, independente da mídia, do gênero ou formato;
b) Prática de leitura: falas e reflexividades que constitui o conjunto da conversação
dos jovens sobre os recortes escolhidos de temas e figuras;
c) Momento vivido: momento especial em que vive o jovem, instante em que alguns
valores são convocados a estarem presentes, também condicionando justificativas,
4
argumentos e opiniões ;
d) Cultura rural: o contexto peculiar da experiência de vida (coletiva e familiar) na
pequena agricultura da zona da mata mineira na contemporaneidade.
Os recortes representativos nas narrativas não-rurais estimularam as discussões e, com
isto, desenhou-se uma prática de leitura do público juvenil, a partir da transcrição do debate na
íntegra. As falas definiram a maneira como eles leram cada assunto e o que importou ser discutido.
Este interesse em debater intensamente sobre determinados temas e figuras aos poucos mostrou o
alinhamento do discurso dos jovens com o momento vivido e com traços da experiência de vida.
3. O operacional da pesquisa
Com base no questionário aplicado na fase das visitas prévias, elaboramos um plano de
trabalho e um roteiro aberto para dar início a 1ª sessão. A partir da 3ª sessão aplicamos questões
abertas e questionários fechados – formulados com base nos aspectos levantados ao longo das
sessões anteriores – com o objetivo de refinar e melhorar a compreensão em torno de alguns
aspectos discutidos. Vale salientar que não havia plano e roteiro estruturados: cada sessão apontava
os caminhos para a elaboração do plano de trabalho, do roteiro aberto e o que se poderia discutir na
sessão seguinte. Após a transcrição na íntegra de uma sessão e uma leitura atenta do material, a
sessão seguinte sempre refinava os achados da sessão anterior. O nosso roteiro se deu da seguinte
forma:
1. Planejamento do trabalho à execução da 1ª sessão;
2. Execução da 1ª sessão;
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3. Transcrição do áudio da 1ª sessão e leitura;
4. Produção de um roteiro aberto e do plano de trabalho à 2ª sessão;
5. Execução da 2ª sessão;
6. Transcrição do áudio da 2ª sessão e leitura;
7. Produção de um roteiro aberto e do plano de trabalho à 3ª sessão;
8. Execução da 3ª sessão;
9. Transcrição do áudio da 3ª sessão e leitura;
10. Produção de um roteiro aberto e do plano de trabalho à 4ª sessão;
11. Execução da 4ª sessão e leitura;
12. Transcrição do áudio da 4ª sessão e leitura;
13. Produção de um roteiro aberto e do plano de trabalho à 5ª sessão;
14. Execução da 5ª sessão;
15. Transcrição do áudio da 5ª sessão.
Cada uma das sessões tinha os seguintes objetivos: (a) Sessão 1, levantar temas sociais,
figuras públicas e dividir grupos de interesse (telenovelas e telejornais); (b) Sessão 2, trabalhar os
assuntos por grupo de interesse (montando subgrupos), refinando indícios importantes levantados
na sessão anterior; (c) Sessões 3, aprofundar questões e pontos específicos gerados a partir dos
debates mais intensos e dos temas e figuras recorrentes, diferenciando as opiniões de moças e
rapazes; (4) Sessão 4, conversar sobre a associação dos sentidos ao redor dos debates com os
valores no momento vivido pelo grupo e a experiência de vida dos participantes; (5) Sessão 5,
refinar questões e melhorar a compreensão dos aspectos fundamentais.
Entre o “Planejamento do trabalho à execução da 1ª sessão” e a “Transcrição do áudio da
5ª sessão” o estudo totalizou seis meses de atividades.
3.1. O tratamento dos dados
Os dados em mãos foram fruto da dinâmica de execução do método. Sobre esta dinâmica
podemos destacar três aspectos:
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a) Alguns assuntos iniciados por nós ganhavam outra dimensão no debate, derivando
e se desdobrando em outros temas e questões. Daí, outros assuntos eram iniciados por eles,
gerando por vezes intenso debate e estimulando o surgimento de perguntas, perspectivas,
novas figuras, justificativas e curtas reações físicas (risos e silêncios). Tornou-se necessária a
produção de categorias de assuntos para viabilizar o tratamento das informações;
b) Os temas ou assuntos podiam: alvoroçar uma conversação inaudível, como um
enxame de abelhas; provocar uma conversação continuada, por vezes inflamada, porém
audível, estabelecida entre três ou quatro participantes (inclusive motivando a fala dos mais
tímidos); ou agitar um bate-papo audível com o pesquisador e mais dois ou três participantes,
interessados. Salientamos que os naturais momentos inaudíveis foram mínimos ao longo das
sessões, minimizados com pequenas intervenções.
c) Alguns temas e figuras públicas estimulavam mais a conversação do que outros,
permitindo a observação de concordâncias e discordâncias principalmente entre moças e
rapazes. Outras figuras entravam no debate, mas os sentidos se repetiam, assim como faziam
retornar as mesmas conversações, consequentemente reforçando as mesmas categorias. Tão
importante quanto esses padrões de repetição eram também os poucos momentos de
dissonância de opiniões entre os participantes, o que nos motivou a examinar quais as
perspectivas estavam em conflito.
Após releituras das cinco transcrições, elaboramos dois textos: um descritivo, a partir da
categorização dos pontos principais de cada sessão, e outro interpretativo, analisando os destaques
em comum no conjunto das sessões e outros aspectos interessantes à pesquisa.
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No texto interpretativo, comentamos longos trechos de cada discussão, mas também os
chamados “pares de fala” (MYERS, 2008), trechos curtos sobre o mesmo assunto. Os “pares de
fala” se formavam quando nossa pergunta estimulava as respostas dos participantes em
determinado momento. Olhar tanto para os trechos longos quanto para os curtos ajudou a
identificar os sentidos combinando com outros adjacentes (que surgiram na mesma sessão ou em
outras sessões) e, assim, complementando e definindo as categorias e pontos principais.
Após a confecção dos textos, estudamos os resultados dos questionários e selecionamos os
indícios mais significativos que se associavam e melhoravam a compreensão dos aspectos já
interpretados.
Considerações Finais
A interação constituída pelo método do Grupo de Discussão se configurou, nesta pesquisa,
como aliada dos processos de interpretação desenvolvidos pelo estudo do comunicacional na
recepção. Nosso contato direto com os sujeitos da pesquisa possibilitou não somente ver o método
funcionando, mas também visualizarmos um pouco a complexa tessitura da experiência midiática
do público juvenil rural.
Tratou-se de uma dupla experiência que sofremos enquanto pesquisador, na busca de
esclarecermos um pouco a lógica de operação do processo de construção da pesquisa
comunicacional na recepção midiática: a nossa relação com os participantes e a observação sobre a
relação dos participantes com as mídias preferenciais. Ali observamos processos de interpretação
em atravessamento fazendo parte do trabalho – as tentativas de comunicação com os participantes e
vice-versa, através do método; e o esforço por entender a maneira como os participantes
interpretavam as narrativas midiáticas escolhidas. Com isso, a organização dos procedimentos de
coleta e o tratamento dos dados se tornaram importantes.
Tais formas de organização fazem parte do método de cada pesquisador, mas no nosso
caso optamos por iniciar o debate com as escolhas dos sujeitos: pautamos a discussão com os temas
e as figuras públicas preferenciais das narrativas midiáticas e conseguimos ver um pouco a prática
de leitura deles. A partir deste ponto, além da leitura da mídia, outros parâmetros também se
mostraram fundamentais: os recortes representativos que estimularam o debate, a associação dos
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sentidos ao redor de tais representações com o momento vivido pelos sujeitos da pesquisa e os
vestígios que apontaram para traços de valores na cultura.
Na experiência relativa ao funcionamento do método, destacamos nessa relação do
pesquisador com os pesquisados a existência de um roteiro aberto, apenas com algumas questões
norteadoras que se modificam na medida das derivações de temas, assuntos, intensidade dos
debates, recorrência de sentidos, pares de fala que se formam e tensões de opiniões. Também
importou uma condução atenta da conversa que permitiu deixar fluir a conversa, com sutis
intervenções no debate; atentar para os mais falantes e os mais silenciosos; observar as diferenças
de alinhamento das falas a um discurso social e às visões de mundo, quando distinguimos as
opiniões de moças e rapazes, bem como a postura de um comentando a opinião do outro.
Já com relação ao tratamento dos dados, destacamos a importância da dinâmica de
execução do método colaborando com as categorizações possíveis de serem produzidas com vistas
a redação de textos descritivos e interpretativos. Além do padrão de repetição que formou as
categorias, os métodos auxiliares e a observância de certos aspectos interessantes contribuíram para
esclarecer sobre um quadro de sentidos existente nesta interação comunicativa do público com as
mídias, apontando para um terreno fértil da experiência midiática dos jovens enquanto condição
que possibilita tanto a compreensão do mundo além das cercanias rurais quanto o desenvolvimento
das tentativas de interlocução por parte de certas narrativas da mídia.
1
Doutor em Comunicação pela UFMG. , Professor Adjunto do Departamento de Comunicação
Social da UFV-MG. , [email protected]
Notas:
[1] A pesquisa fez parte de nossa tese de doutoramento (SILVA, 2014) e está tendo continuidade, em 2015, através do
Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica e Tecnológica (Probic/Fapemig).
[2] Realizamos três visitas à escola rural (lugar do estudo) durante a etapa da chamada “pesquisa prévia”, onde tivemos a
oportunidade de conhecermos a comunidade escolar e definirmos nosso corpus de pesquisa – momento também de
solicitarmos as devidas autorizações do estudo. Nesta fase também aplicamos um questionário fechado sobre o consumo
de mídia junto a todos os jovens do ensino médio.
[3] A escolha desse corpus se deve a nossa trajetória de pesquisa em comunicação e ao contexto do rural contemporâneo,
apresentado neste GT em 2012 e 2013.
[4] Com relação ao “momento vivido”, Cunha (2005) trabalhou com os programas populares exibidos nos finais de
semana na tevê; Scofield (2007) estudou o feminino no programa “Mais Você” durante a semana do dia das mães;
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enquanto que Sousa (2007) pesquisou a telenovela “Malhação” com jovens em uma escola pública.
Referências:
BONIN, J.A. Revisitando os bastidores da pesquisa: práticas metodológicas na construção de
um projeto de investigação. In: MALDONADO, A.E. et. al. (Orgs.). Metodologias de pesquisa
em comunicação: olhares, trilhas e processos. Porto Alegre, RS: Sulina, 2011, p.19-42.
BARBOUR, R.S. Grupos Focais. Porto Alegre, RS: Artmed, 2009.
CUNHA, P.M. A questão do popular na TV: interlocuções entre programas populares e
telespectadores. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social). Universidade Federal de Minas
Gerais, 2005.
KITZINGER, J.; BARBOUR, R.S. Introduction: the challenger and promise of focus groups.
In: KITZINGER, J.; BARBOUR, R.S. (Eds.). Developing Focus Group Research: Politics, Theory
and Practice. London: Sage, 1999.
MYERS, G. Análise da conversação e da fala. In: BAUER, M.W.; GASKELL, G. Pesquisa
qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. 7ª Ed. Petrópolis: Vozes, 2008, p.271-292
SILVA, R.D.G. da. Juventude em trânsito: atravessamento de sentidos e narrativas televisivas
no meio rural. Tese (Doutorado em Comunicação Social). Universidade Federal de Minas Gerais,
2014.
SCOFIELD, T. H. P. Possibilidades do feminino: as telespectadoras de Ponta Porã e as
mulheres do Mais Você. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social). Universidade Federal
de Minas Gerais, 2007.
SOUSA, C.C. de. Juventude e escola: a interseção entre Malhação e o cotidiano dos jovens.
Dissertação (Mestrado em Comunicação Social). Universidade Federal de Minas Gerais, 2007.
WELLER, W. Grupos de discussão na pesquisa com adolescentes e jovens: aportes teóricometodológicos e análise de uma experiência com o método. Revista Educação e Pesquisa, n.2,
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v.32, São Paulo, mai.-ago. de 2006, p. 241-260.
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