Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num
Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Dissertação de Mestrado em Turismo
Ivone da Conceição Gachineiro Coelho
Orientador: Professor Doutor Jean-Yves Durand
Vila Real
2012
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num
Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Dissertação submetida para a obtenção do grau de mestre em Turismo
(ramo de Gestão Turística) na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro,
pela candidata Ivone da Conceição Gachineiro Coelho, sob a orientação do
Professor Doutor Jean-Yves Durand, da Universidade do Minho.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Resumo
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Com base na realização de um estudo do caso particular do Museu D. Diogo de
Sousa, situado em Braga, Portugal, pretende-se demonstrar de que forma os museus de
Arqueologia podem contribuir, enquanto agentes culturais e educativos, para a
divulgação cultural e a promoção turística do património imaterial associado ao seu
espólio arqueológico e aos sítios arqueológicos de cujo circuito de visita fazem parte.
Procurar-se-á, ainda, mostrar como estes museus, não habitualmente associados
ao Património Imaterial, podem, dessa forma, fomentar o Turismo Cultural em Portugal,
particularmente na zona norte do País.
Palavras-chave: turismo cultural, património imaterial, museu de arqueologia.
Abstract
Tourism, Intangible Heritage and Promotion in a Museum of Archaeology:
The Museum D. Diogo de Sousa, in Braga
Based on the study of the particular case of the Museum D. Diogo de Sousa,
located in Braga, Portugal, this paper aims to demonstrate how museums of archaeology
can contribute as cultural and educational agents for the cultural and tourist promotion
of the intangible heritage related to their archaeological remains and the archaeological
sites whose circuit they integrate.
It also aims to show how they can help to promote cultural tourism in Portugal,
particularly in the north of the country.
Key words: cultural tourism, intangible heritage, museum of archaeology.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Agradecimentos
Os meus agradecimentos vão para o Professor Fernando Bessa Ribeiro, que
sempre me valorizou, inspirou, encorajou e aconselhou da melhor forma e com toda a
disponibilidade e simpatia ao longo de todo o Curso. Ao Professor Bessa devo, ainda, a
oportunidade de ter conhecido e trabalhado sob a orientação do Professor Jean-Yves
Durand, o meu Orientador, cujo trabalho e postura admiro. Ao Professor Jean-Yves
agradeço a prontidão com que aceitou conduzir a orientação da minha tese, sem ainda
me conhecer, assim como a disponibilidade e simpatia que revelou ao longo de todo o
processo de orientação deste trabalho, partilhando a sua sabedoria e experiência.
Agradeço, ainda, à Doutora Isabel Silva, Diretora do Museu de Arqueologia D.
Diogo de Sousa, pelo aberto acolhimento com que recebeu a proposta deste estudo
sobre o Museu, assim como pela simpatia e disponibilidade que revelou em todo o
processo de trabalho. Da mesma forma, agradeço à Doutora Júlia Andrade, Coordenadora
do Serviço Educativo do Museu, pela amizade, pelas longas conversas com as quais
aprendi sobre Arqueologia, e sobre a origem e o trabalho efetuado com o espólio do
Museu, e pela sua generosidade na partilha de informação, sempre que necessário.
Os meus agradecimentos vão, também, para todos os Técnicos e Colaboradores
do Museu, que contribuíram para a realização deste estudo, partilhando, com amizade, as
suas opiniões, a sua experiência e o seu trabalho.
Por fim, agradeço a todos aqueles que responderam às minhas solicitações de
informação complementar, quando foi necessário, nomeadamente a Professora Manuela
Martins, Presidente da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, o Professor
Xerardo Pereiro Pérez, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, o Doutor Jorge
Raposo, Diretor da Revista de Arqueologia Al Madan, e o Doutor José Neves,
Coordenador do Estudo O Panorama Museológico em Portugal, do Observatório das
Atividades Culturais.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Índice de conteúdos
Lista de siglas
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Apresentação do projeto de investigação
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I. Contextualização teórica
I.I Cultura e Património: conceitos e processos patrimonializadores
I.II O Património Imaterial: definição, domínios e políticas de salvaguarda
I.III Cronologia do Património Imaterial: uma perspetiva nacional e internacional
I.IV Património Imaterial e Turismo Cultural: uma relação inevitável
I.V Os museus como espaços promotores de cultura e de educação
I.VI O Património Imaterial e os museus: uma nova conceção de museu?
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II. Arqueologia, museus e divulgação do património imaterial em Portugal
II.I A evolução da investigação arqueológica e da interpretação dos vestígios materiais como
fonte de conhecimento sobre o património imaterial, e sua valorização
II.II Arqueologia e museus em Portugal
II.III O potencial papel dos museus de Arqueologia na divulgação do património imaterial
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III. O Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa na divulgação do património imaterial
III.I O Museu D. Diogo de Sousa: caraterização
III.I.I Enquadramento geográfico e sociocultural do Museu
III.I.II História do Museu e das suas coleções
III.I.III As coleções do Museu
III.I.IV O papel do Museu no Circuito Arqueológico de Braga
III.I.V A atividade de conservação e restauro
III.I.VI Atividades desenvolvidas
III.I.VII Instalações, equipamentos e serviços
III.I.VIII Comunicação e promoção turístico-cultural
III.I.IX Público-alvo e procura
III.I.X Apoio à investigação e divulgação científicas e à formação
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III.II A origem, o estudo e a interpretação dos vestígios materiais expostos no Museu
III.II.I As fontes de conhecimento
III.II.II Condicionalismos naturais e aspetos de conservação e restauro dos vestígios
arqueológicos
III.II.III Desenvolvimento versus conservação
III.II.IV Questões políticas, jurídicas e científicas
III.II.V Avanços científicos e culturais na investigação arqueológica local
III.II.VI Recursos humanos
III.II.VII Metodologia de investigação
III.II.VIII Correntes de influência na interpretação dos vestígios
III.II.IX Contributos para o conhecimento do património imaterial
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III.III O contributo do Museu D. Diogo de Sousa na divulgação do património imaterial
III.III.I Os contos animados
III.III.II Os jogos
III.III.III As oficinas lúdico-pedagógicas
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
III.III.III.I Oficinas de arqueologia experimental
III.III.III.II Oficinas de expressão plástica
III.III.IV Workshops
III.III.V As visitas guiadas à Exposição Permanente e à Exposição Temporária
III.III.VI Os recursos pedagógicos
III.III.VII O apoio à formação, ao debate e à investigação
III.III.VIII A colaboração em projetos culturais
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174
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183
Conclusão
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Referências bibliográficas
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Índice de fotografias
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Lista de siglas
ASPA – Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural
CODEP – Comissão de Defesa e Estudo do Património
ICOM – International Council of Museums / Conselho Internacional de Museus
ICOMOS – International Council of Monuments and Sites / Conselho Internacional de
Monumentos e Sítios
IGESPAR – Instituto de Gestão do Património
IMC – Instituto dos Museus e da Conservação
IPA – Instituto Português de Arqueologia
IPM – Instituto Português de Museus
IPPAR – Instituto Português do Património Arquitetónico
MDDS – Museu D. Diogo de Sousa
PCI – Património Cultural Imaterial
PRACE – Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado
RPM – Rede Portuguesa de Museus
UAUM – Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho
UM – Universidade do Minho
UNESCO – United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization / Organização
das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Apresentação do projeto de investigação
A partir de fontes documentais, da observação direta, e da realização de
entrevistas semiestruturadas, este estudo pretende demonstrar qual o papel que um
museu de Arqueologia, enquanto agente cultural e educativo, pode assumir na divulgação
cultural e na promoção turística do património imaterial associado ao seu espólio
arqueológico e aos sítios arqueológicos de cujo circuito de visita faz parte.
Simultaneamente, será avaliado o seu potencial contributo para o fomento do Turismo
Cultural em Portugal, particularmente na zona norte do País, onde está localizado o
objeto de estudo. Esta questão adquire particular relevância devido à ligação algo
indefinida entre património arqueológico e património imaterial, estando o conceito de
património imaterial, em termos museológicos, ainda associado sobretudo à Etnografia.
Assim, pretende-se, com este estudo, aferir se a divulgação do património
imaterial estará, afinal, confinada aos museus de natureza etnográfica, ou se um museu
de Arqueologia poderá também explorar esse recurso cultural. E se, em caso afirmativo,
ele estará a ser totalmente cumprido, tendo em conta a função mais alargada dos museus
na divulgação cultural e promoção turística do património, tirando proveito do
desenvolvimento do Turismo Cultural.
Através deste projeto de investigação, procurar-se-á dar resposta a estas e outras
questões contextuais, aplicando-as no estudo do caso de um dos maiores e mais
significativos museus de Arqueologia de Portugal, situado no norte do País, na cidade de
Braga – o Museu D. Diogo de Sousa (MDDS). Este estudo envolverá, também, questões
relacionadas com a evolução da investigação arqueológica e condicionalismos dessa
atividade, quer de uma forma geral, como neste caso, em particular, enquanto fatores
que influenciam os resultados dos estudos efetuados sobre os testemunhos materiais, e a
posterior divulgação do património imaterial a eles associado.
Através deste projeto de investigação, pretende-se, ainda, de uma forma geral, e
em termos concetuais, contribuir para a clarificação do conceito de património cultural
imaterial, dos conceitos de cultura e de património a ele associados, e das suas diversas
dimensões e manifestações, de acordo com as orientações e documentos oficiais da
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (UNESCO); dar uma
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
breve perspetiva sobre a evolução do conceito de património cultural imaterial e do seu
enquadramento legal, a nível internacional e nacional, assim como das implicações
práticas da mesma no sentido da sua salvaguarda e promoção; explicar a relação
existente entre a divulgação do património imaterial e o fomento do Turismo Cultural em
Portugal, particularmente na zona norte do País; e justificar a importância dos museus,
enquanto espaços privilegiados de educação e de cultura, no contributo para a divulgação
do património imaterial.
Em termos pragmáticos, pretende-se apresentar algumas sugestões para o
fomento da divulgação do património imaterial em museus de Arqueologia, a nível
turístico, como forma de promover o Turismo Cultural, com base na investigação teórica
e no estudo prático efetuados, demonstrando de que forma um museu de Arqueologia
pode contribuir para a divulgação do património imaterial que está associado ao seu
espólio e aos sítios arqueológicos cujo circuito de visita integra, contrariando a tendência
para a redução deste papel aos museus de caráter etnográfico.
Pela sua longa existência e percurso complexo e singular, pelo seu estatuto,
projeto, área e forma de atuação e de envolvimento na vida cultural do concelho em que
está inserido, pelo seu enquadramento geral, e pelo seu dinamismo, que fazem desta
instituição um espaço com vida, o Museu D. Diogo de Sousa apresenta-se como um
fecundo e interessante objeto de estudo, com base no qual poderão surgir conclusões
que contribuam, de forma eficaz, para o alcance dos objetivos definidos para este projeto
de investigação.
A escolha da área de estudo para esta dissertação prende-se com o particular
interesse, pessoal e profissional, por questões culturais e patrimoniais, sobretudo numa
perspetiva antropológica, que estão associadas a relações humanas e, portanto, culturais,
e políticas, fomentadas pela atividade turística. Esta particular preferência foi
intensificada por experiências práticas, como a participação em programas de
intercâmbio cultural internacionais, durante a juventude, como guia-intérprete e
animadora cultural, que me despertaram o gosto pelo Turismo e a ingressão no curso
superior de Turismo, e, mais tarde, pela especialização em Turismo (Gestão Turística).
Durante o ano curricular, este interesse aprofundou-se, principalmente no âmbito da
unidade de Política Internacional, Globalização e Turismo, através da realização de
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
trabalhos práticos sobre questões relacionadas com o Turismo Cultural, com aspetos
antropológicos da interação humana promovida pelo Turismo, principalmente o de
caráter cultural, e ainda com processos de patrimonialização e de classificação de
património, sobretudo a classificação de património da humanidade (da UNESCO).
O estudo desenvolvido e agora apresentado provém de um projeto que é o
resultado da reformulação de duas ideias anteriores. A opção inicial por estudar o caso da
candidatura do Complexo Mineiro Romano de Tresminas, situado em Vila Pouca de
Aguiar, a património da humanidade, a apresentar pela Câmara Municipal desse
concelho, prendeu-se, não apenas com as preferências atrás descritas, mas também com
motivos de proximidade geográfica. No entanto, avaliando melhor a situação, concluí não
se tratar de um caso suficientemente interessante, tanto em termos de abrangência
como pelas perspetivas negativas sobre os resultados que o estudo já prefigurava.
Mantendo o mesmo campo de estudo, optei, em alternativa, por estudar as implicações
locais que teria trazido a obtenção do título de património da humanidade pelo Conjunto
de Arte Rupestre do Vale do Côa para Vila Nova de Foz Côa. Neste caso, foi o afastamento
geográfico do local de estudo que causou o abandono do projeto.
Continuando a manter a intenção de estudar questões relacionadas com o
património cultural e vestígios de natureza arqueológica, e procurando abordar um
conceito que ainda não estivesse suficientemente explorado, surgiu, juntamente com o
meu Orientador, a ideia de relacionar o património imaterial com o património
arqueológico, e com os museus, enquanto veículos de divulgação do património imaterial
no âmbito do Turismo Cultural. Esta relação pouco evidente e ainda pouco reconhecida,
mesmo no universo museológico, constituiu uma forte fonte de motivação e um desafio
de investigação.
Por outro lado, a minha já iniciada colaboração como voluntária do Museu de
Arqueologia D. Diogo de Sousa possibilitou-me um acesso privilegiado a fontes
atualizadas, uma maior familiarização com o funcionamento do Museu, um contacto mais
próximo com as pessoas que nele trabalham, observar e participar em atividades
desenvolvidas no Museu, criar e dinamizar projetos próprios, e contribuir para a
planificação, preparação e realização de diversos documentos, eventos e atividades. Este
envolvimento profissional permitiu-me colocar em prática e desenvolver vários
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
conhecimentos e competências adquiridos ao longo da formação académica, assim como
obter uma perceção mais profunda e real acerca do campo em que a investigação foi
conduzida.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
I. Contextualização teórica
Será o “património imaterial” uma falsa questão? Por que razão terá havido
necessidade de, a determinada altura, introduzir este termo em documentos e
discussões, um pouco por todo o mundo, em prol da sua defesa? Será que ele já estava
consagrado, ou será que não havia ainda uma noção clara deste domínio do património
cultural?
O termo “património cultural imaterial” surge pela necessidade de distinguir dois
domínios do património cultural: material (também designado tangível) e imaterial (ou
intangível, por oposição ao anterior), que está na origem da Convenção para a
Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (de 2003). O termo “cultural” é mais antigo,
sendo utilizado para distinguir dois tipos de património, o cultural e o natural, já
anteriormente preconizados pela UNESCO, através da Convenção para a Salvaguarda e
Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural (de 1972).
O que poderá estar em causa não é apenas o conceito, que “cultural” já
englobava, mas sim a forma como ele é valorizado em termos de investigação,
apreendido (através da recolha, registo e inventário), exposto ao público, e abordado em
atividades de índole cultural e educativa, pois o património imaterial possui caraterísticas
próprias que o distinguem do material, que devem ser tidas em conta.
Passados cerca de nove anos após a adoção da Convenção da UNESCO para a sua
salvaguarda, o conceito de património imaterial continua a suscitar várias dúvidas e a ser,
sobretudo, entendido como assunto que diz respeito aos museus de caráter etnográfico.
A compreensão deste conceito torna-se complexa porque requer uma contextualização
concetual prévia, que engloba vários outros conceitos que devem ser analisados à luz da
Antropologia, pois esta é a disciplina que oferece uma visão suficientemente abrangente
e crítica sobre os mesmos. Estes conceitos são, em suma, o de cultura, de património, de
imaterial, ou intangível, e de material, ou tangível. Depois de clarificados estes conceitos,
ficará mais evidente a relação entre o património imaterial e o Turismo Cultural, assim
como o papel dos museus e o potencial contributo dos museus de Arqueologia, em
particular, na sua promoção.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
I.I Cultura e Património: conceitos e processos patrimonializadores
Tendo iniciado uma tentativa de particularizar a cultura e relacioná-la com os
grupos sociais, mais de acordo com o que estava a definir-se como objeto de estudo da
Antropologia Social e Cultural – as diferenças culturais, o antropólogo Franz Boas (1858 1942) (citado por Barañano, 2007: 47), afirmava que a cultura inclui todas as
manifestações dos hábitos sociais de uma comunidade, as reações dos indivíduos sob a
influência dos hábitos do grupo em que vivem, e os produtos das atividades humanas, na
medida em que são determinados por esses hábitos. Boas estava consciente do caráter
flexível e mutável das culturas humanas e da importância que teriam, em todas elas,
influências culturais externas.
Decidir se a cultura representa uma realidade mental e subjetiva, de caráter
psicológico, ou se, pelo contrário, se trata de um fenómeno social e algo estruturado por
leis próprias, é importante para determinar o significado dos testemunhos materiais de
uma cultura, e definir a relação entre património material e imaterial. As conceções
mentalistas, que entendem a cultura como algo que se aprende, e que aquilo que se
aprende são, fundamentalmente, perceções, conceitos, receitas, normas e habilidades
para fazer coisas, fazem uma separação entre a cultura enquanto “realidade mental” e os
artefactos culturais, que são manifestações materiais do que se aprende (Goudenough, in
Barañano, 2007: 48). Numa perspetiva integrada da cultura, no entanto, esta separação
não faz sentido, e as manifestações materiais da cultura são consideradas uma parte
integrante da mesma, refletindo aquilo que motiva e permite a sua criação.
Outra questão fundamental é o papel da cultura nos comportamentos sociais dos
indivíduos e o seu caráter homogeneizante. Se entendermos a cultura como um atributo
exclusivo de um grupo social, poderemos estar a suster uma visão etnicista da mesma,
enquanto geradora de fronteiras, definidora de limites sociais e diferenciadora, mais ou
menos forte, dos grupos humanos.
Existe, atualmente, entre antropólogos, a tendência para encarar a cultura como
algo pertencente à humanidade, não apenas a um determinado grupo ou comunidade, já
que se trata de algo que não é determinado psicologicamente, mas ativado por um
determinado contexto, que pode ser encontrado em diferentes tempos e espaços, não se
confinando, portanto, a um local ou país. Daí a razão de o património imaterial poder ser
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
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partilhado, reproduzido e recriado por indivíduos de outros locais do mundo, aos quais, à
partida, esse património não pertenceria. Durand (2011: 39) apresenta dois exemplos
dessa realidade: um casal japonês que vence um grande concurso de tango promovido
em Buenos Aires, Argentina, e uma “versão global-balcânica” do fado “Uma casa
portuguesa”.
Simultaneamente, verifica-se uma tendência para o enfraquecimento do
nacionalismo, enquanto entendimento do património como algo que pertence somente a
cada nação. Até mesmo por uma questão de esforço em valorizar e salvaguardar o
património, instituições como a UNESCO reconheceram a necessidade de considerar o
património como algo que pertence à humanidade. Tal reflete-se não só na atribuição da
classificação de “património da humanidade”, como também em outras políticas de apoio
à proteção e valorização do património, seja ele material ou imaterial, natural ou cultural.
Para o antropólogo Anthony Wallace (citado por Barañano, 2007: 49), a cultura
são “as formas de conduta ou técnicas de resolução de problemas que, por terem maior
frequência e menor dispersão que outras formas, (…) têm uma alta probabilidade de
serem utilizadas pelos membros de uma sociedade”. De acordo com esta definição, “os
processos normativos transformam-se em processos normais” (Barañano, 2007: 49).
Esta visão assume as diferenças entre indivíduos, que, no entanto, por partilharem
o mesmo espaço físico, condições ecológicas semelhantes e recursos materiais bem
delimitados, tanto na sua consistência como na forma de lhes aceder, têm grandes
probabilidades de manter uma conduta de certa forma equivalente, assim como uma
forma de pensar similar. As regras e normas culturais terão a função de “organizar a
diversidade dos indivíduos sociais” (Wallace, in Barañano, 2007: 49).
Sendo evidente que, desta forma, a cultura pode estar associada a grupos sociais,
apenas, isso significa que ela é, em grande parte, opcional, também porque não é
determinada a nível psicológico, nos indivíduos que a praticam (indo contra a ideia da
mentalização da cultura). Não existem normas associadas aos esquemas cognitivos que
servem para organizar as experiências. Os conteúdos, ou esquemas, cognitivos ativam-se
perante determinadas circunstâncias e contextos. Podemos, assim, falar de “hábitos”
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
como uma “estrutura estruturada e estruturante” (Barañano, 2007: 49), que existe
apenas onde é ativada.
Assim, os significados culturais serão, fundamentalmente, individuais e
contextuais, ativando-se nos contextos apropriados. Sendo eles circunstanciais, a cultura
não acompanha os indivíduos de forma permanente, sendo mutável. Na esfera pública,
esta cultura também pressupõe heterogeneidade e diversidade, mesmo dentro de si
mesma, sendo que ela as organiza, algo que acontece não só nas sociedades modernas
mas também em sociedades ditas tradicionais. Na esfera privada, no entanto, diferentes
processos culturais podem coexistir sem que choquem ou se contradigam.
Em termos de identificação e prática cultural, e tendo em conta o caráter
individual e contextual da cultura, terá a questão territorial ou espacial maior importância
do que a questão temporal? Terão mais facilmente pontos em comum indivíduos que
partilharam o mesmo território em períodos diferentes, ou indivíduos coetâneos oriundos
de países diferentes, e que podem, assim, potencialmente, estabelecer contacto e
conviver? Se atribuirmos mais importância à questão territorial, correremos o risco de
reforçar as diferenças existentes entre os seres humanos, num discurso cultural
identitário, ainda que se procure a salvaguarda e o respeito pelas culturas dos demais.
Tal como Barañano (2007: 51) afirma, “as culturas podem ser consideradas
recursos abertos, suscetíveis de serem utilizados tanto por nativos como por estranhos”,
já que o fundamental é a vinculação desses recursos a determinados contextos. Segundo
o mesmo, “longe deles, as culturas (…), se lhes são atribuídos donos, convertem-se em
textos retóricos”.
O conceito de “património” (material ou imaterial) está, de uma forma geral,
associado à ideia de herança, de legado cultural, que se reveste de dinamismo e que é
conscientemente selecionado por indivíduos e grupos, que o têm em comum,
compartilham e com o qual vivem, transmitindo-o e deixando-o também para as gerações
futuras.
Considerado um conjunto de recursos e atributos, recebido do passado, não só
por herança, mas também de outras formas (Barañano, 2007: 289), o património tem um
sentido de posse e de valor, que pode ser o apreço individual ou social atribuído num
determinado contexto histórico e segundo um quadro de referências comuns. Mas, acima
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
de tudo, o património cultural, enquanto “construção social”, é representativo de uma
dada identidade de um grupo, diferenciando-o dos demais.
Os legados material e simbólico do património têm sido entendidos como vetores
de reforço do sentimento coletivo de identidade e pertença a uma cultura e a um
território, mas esta é uma ideia que se encontra agora a ser repensada e reavaliada,
numa nova perspetiva de cidadania e identidade, que se impõe num mundo cada vez
mais partilhado, e em experiências híbridas, de adaptação e incorporação de vários
elementos pertencentes a diferentes culturas, que coexistem pacificamente nos
indivíduos e seus hábitos.
Por outro lado, o surgimento de um sentimento de nostalgia, no qual o património
ganha mais valor e interesse, procurando-se, a todo o custo, preservar e manter o
passado intacto, rivaliza com o caráter naturalmente dinâmico e mutável da cultura. A
procura da homogeneização de hábitos e tradições através da ação legal para a
reafirmação das identidades coletivas, reagindo aos efeitos da globalização, de
interferências culturais externas, ou de mudança, não fazem sentido no âmbito do
património imaterial, pois os modos de viver, pensar e sentir que os indivíduos e grupos
adquirem patrimonialmente do passado modificam-se durante a sua própria existência,
para voltarem a ser transmitidos às futuras gerações com as alterações por eles
introduzidas. Estas alterações não implicam forçosamente perdas, mas antes o
desaparecimento de antigos elementos, a modificação dos seus contextos, a
descontinuidade e até a rutura na transmissão, sofrendo um processo de transformação
social e histórica, dando lugar a novos componentes, mais pertinentes e adaptados ao
presente.
As posturas que defendem a resistência do local face ao exterior ou à globalização,
para a afirmação das singularidades locais, quer seja através de representações estatais,
como de ações populares, bairristas e etnicistas, que promovem e valorizam o património
sob uma visão bastante reducionista, são, muitas vezes, o reflexo de uma tendência para
considerar o tradicional e popular como um “construto atemporal, ancorado em
ambientes ruralizados”, com “valores eternos e contrapostos aos territórios urbanos e
industriais” (Barañano, 2007: 291), cuja modernização legitima a mudança e o
desenraizamento de hábitos considerados tradicionais.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
A patrimonialização da cultura imaterial, e a sua proteção legal, vieram, de certa
forma, reforçar o desejo de conservar tradições e traços culturais de minorias étnicas,
contrariando as próprias leis, que assumem o caráter mutável deste património.
Numa visão sobre a atualidade, Durand (2011: 39) afirma que, contrariamente ao
que acontecia na “era romântica”, a vontade de ter cultura própria possui, agora, raízes
populares, de tal forma que provoca suspeição em intelectuais que criticam “o
nacionalismo e os essencialismos identitários”. O reconhecimento institucional e legal do
património imaterial veio, de certa forma, valorizar ainda mais alguns elementos culturais
e étnicos, que fortaleceram o apego aos mesmos e, por outro lado, o desejo de os exibir.
Assim, a tentativa de reclamar uma cultura como pertencente a um dono, que, neste
caso, pode ser um grupo social, uma comunidade, ou mesmo uma nação, é fechar-se ao
exterior, conflituando com a vontade visível de comercializar tradições, bens e costumes,
fazendo um aproveitamento do mercado turístico.
A valorização do património, expressa através da atribuição de títulos que
distinguem exemplares notáveis, teve início no começo do século XX, com a classificação
do património material e imóvel. As primeiras classificações em Portugal datam de 1910 e
correspondem a edifícios individualizados pelo seu caráter monumental, qualidade
arquitetónica ou significado histórico. Ao longo do século XX, começa a ser alargado o
conceito de monumento, que deixa de estar individualizado para que a sua envolvente
passe a ser também considerada de muita relevância. Assim se chega à consideração de
centros históricos, a todo um conjunto edificado, para depois se incluir ainda a paisagem,
à qual o conjunto edificado já deve ser associado.
O Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR), que, no quadro das
orientações definidas pelo Programa de Reestruturação da Administração Central do
Estado (PRACE), deu lugar ao Instituto de Gestão do Património (IGESPAR), na fusão
daquele organismo com o Instituto Português de Arqueologia (IPA), e da incorporação de
parte das atribuições da extinta Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, em
2006, teve durante vários anos a seu cargo a classificação de imóveis de interesse
cultural, considerando as categorias: de Interesse Nacional (com a designação de
Monumento Nacional), de Interesse Público ou de Interesse Municipal (classificação
camarária). Entretanto, a lei passou a prever uma outra distinção do património,
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
definindo ainda as categorias de Monumento, Conjunto e Sítio, conforme as convenções
internacionais. O património assim classificado e considerado tem apenas em conta os
imóveis de valor cultural, utilizando no processo de avaliação dois tipos de critérios: os de
caráter geral, que incluem o valor histórico-cultural, o valor estético-social e o valor
técnico-científico; os critérios de caráter complementar incluem a integridade, a
autenticidade e exemplaridade do bem em questão.
Quanto
ao
património
natural,
a
classificação
de
áreas
com
maior
representatividade teve início, em Portugal, em 1970, com a criação do Parque Nacional
da Peneda-Gerês. A Rede Nacional de Áreas Protegidas é criada em 1993. As áreas
protegidas são consideradas como áreas de interesse nacional, regional ou local. Com a
adesão de Portugal à União Europeia, o nosso país foi obrigado a transpor para o Direito
interno várias diretivas europeias visando a conservação dos recursos naturais.
A expressão mais forte da necessidade de salvaguarda do património imaterial
começou a tomar forma, a nível internacional, especialmente após a assinatura da
Convenção para a Proteção do Património Cultural e Natural Mundial, da UNESCO, em
1972, que deixava de fora o património imaterial. Numa tentativa de dar resposta às
várias manifestações de descontentamento por parte de diferentes países, em 1989 a
UNESCO fez uma recomendação para a “salvaguarda da cultura tradicional e do folclore”
e, em 2001, assinou a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural. Mas foi em 2003
que este organismo deu o passo principal nesse sentido, através da Convenção para a
Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, que viria a entrar em vigor em 2006.
Portugal ratificou a Convenção em 2008. Passaram, desta forma, a ser consideradas as
tradições, expressões orais, artes do espetáculo, práticas sociais, rituais e eventos
festivos, acontecimentos e práticas relacionadas com a natureza e o universo, e as
aptidões ligadas ao artesanato tradicional, como manifestações do património imaterial.
Um pouco à semelhança do que aconteceu relativamente à classificação de
Património Mundial, da UNESCO, o conceito de património imaterial ficou exposto a
várias questões, como o possível paradoxo entre, por um lado, a defesa da “diversidade
cultural”, que este preconiza, ao valorizar as particularidades de cada cultura, e, por
outro, o receio de uma internacionalização dos contextos locais (Vinson, 2005), que uma
abordagem mais global do património cultural imaterial, causada pela sua promoção
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cultural e a sua divulgação turística, pudesse acarretar. Estes receios fundamentam-se,
basicamente, no sentimento de posse que uma abertura cultural e a partilha externa do
património imaterial pode colocar, ao limitar o “direito de propriedade” (Durand, 2006: 6)
que as comunidades julgam possuir sobre o mesmo.
O receio da globalização e da homogeneização cultural, mas, mais ainda, o medo
de partilhar além regiões e além-fronteiras, que rivaliza com a vontade de mostrar, com
orgulho, aquilo que lhes pertence por herança, gera uma contradição de sentimentos
entre o desejo de divulgação do património imaterial e o receio de adulteração do
original. A verdade é que quanto mais conhecida for uma prática cultural, maior será a
probabilidade de ela ser adotada e praticada em outros locais do planeta. Isso tem
acontecido com várias formas de expressão cultural, sobretudo com a dança, a música e a
gastronomia, de que são exemplo, em Portugal, a adesão a danças orientais, a
miscigenação musical e a atração pela cozinha japonesa. O mesmo acontece, no exterior,
face a expressões tradicionalmente portuguesas, como o fado.
Agindo com base neste receio, impondo fronteiras à cultura enquanto património
e tentando restringi-la a uma comunidade, estamos a impedir a sua circulação, partilha e
inovação. Sendo a evolução uma das caraterísticas fundamentais do património imaterial,
qualquer ação que tente parar esse processo transforma-o em algo fossilizado e sem
sentido atual. De facto, o sentido coletivo de património tem-se intensificado, não só
porque se acredita cada vez mais na importância da “responsabilidade coletiva na
proteção do património num sentido mais alargado” (Vinson, 2005), que está também
associada à classificação de Património Mundial, mas também porque a perspetiva sobre
o património cultural tem evoluído em vários sentidos, que impõem uma outra atitude,
de maior abertura, face ao mesmo: de material, para uma combinação entre material e
imaterial; de imutável e permanente, para mutável e evolutivo; e de etnicista, para global
(Durand, 2006).
I.II O Património Imaterial: definição, domínios e políticas de salvaguarda
O conceito de património imaterial encontra-se definido, pela UNESCO, na
Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, de 2003. Neste
documento, são também apresentados cinco domínios nos quais este tipo de património
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pode manifestar-se. No entanto, de acordo com a UNESCO (2009), eles não pretendem
ser exclusivos.
A versão oficial, e atual, adotada pela Convenção para a Salvaguarda do
Património Cultural Imaterial, da UNESCO, de 2003, tendo por base a noção de que o
património é aquilo que é comummente aceite por uma comunidade como sendo
representativo da sua cultura, e que, portanto, representa a sua identidade cultural,
define, no seu art.º 2º, alínea 1, património cultural imaterial como
as práticas, representações, expressões, conhecimentos e competências – bem
como os instrumentos, objetos, artefactos e espaços culturais que lhes estão
associados – que as comunidades, grupos e, eventualmente, indivíduos
reconhecem como fazendo parte do seu património cultural.
Para a UNESCO, este património cultural imaterial “é transmitido de geração em
geração”, e “constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função do seu
meio envolvente, da sua interação com a natureza e da sua história”. Conferindo-lhes
“um sentido de identidade e de continuidade”, ele contribui para “promover o respeito
pela diversidade cultural e a criatividade humana”.
Um olhar mais atento sobre esta definição é suficiente para desmistificar duas
ideias incorretas que parecem subsistir sobre o património imaterial. Em primeiro lugar,
objetos, instrumentos, artefactos e, mesmo, espaços, vulgarmente entendidos como
património material, podem também ser considerados património imaterial, quando
associados à sua dimensão imaterial de património cultural (práticas, representações,
expressões, saberes e competências). Em segundo lugar, o património imaterial é uma
parte do património cultural, que é transmitido e recriado ao longo do tempo, sem que
haja, no entanto, uma rutura total com o passado, pelo que a identidade das
comunidades é composta, não apenas da sua cultura viva e presente, mas também por
toda uma herança cultural que elas receberam. Logo, vestígios arqueológicos materiais,
musealizados ou expostos num museu, por exemplo, podem também ser património
imaterial, ainda que se tratem de objetos, instrumentos, artefactos ou espaços físicos, e
sejam testemunhos do passado histórico-cultural de determinada comunidade.
No mesmo artigo, a alínea 2 acrescenta que o património cultural imaterial, tal
como definido na alínea que a precede, manifesta-se em cinco grandes domínios:
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tradições e expressões orais, incluindo a língua como vetor do património cultural
imaterial; artes do espetáculo; práticas sociais, rituais e atos festivos; conhecimentos e
usos relacionados com a natureza e o universo; e técnicas artesanais tradicionais.
Algumas individualidades ligadas à atividade museológica, como Giovanni Pinna
(2003) e Hildegard Vierreg (2004), propuseram criar divisões ou dimensões para o
património imaterial no âmbito da museologia, com base na definição e nos domínios
apresentados pela UNESCO na Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural
Imaterial, mas, dada a subsistência de dúvidas acerca desses mesmos domínios, na
interpretação do conceito de património imaterial, a UNESCO lançou, em 2009, um novo
documento – Intangible Cultural Heritage Domains, que veio clarificar a composição dos
diferentes domínios do património cultural imaterial, a ter em conta.
Este quadro composto por cinco domínios pretende ser inclusivo, e nunca
exclusivo, permitindo que os estados parte usem um sistema diferente, com divisões
diferentes, que acrescentem outros domínios ou novas subcategorias aos domínios
existentes, ou designações alternativas para os domínios, por exemplo. Isso pode implicar
a incorporação de “subdomínios” já em uso em países onde o património cultural
imaterial é reconhecido, tais como “jogos tradicionais”, “tradições culinárias”,
“peregrinações” ou ainda “lugares de memória” (UNESCO, 2009).
Neste documento, a UNESCO assume que os exemplos de património cultural
imaterial não se limitam a uma única manifestação, já que muitos deles abarcam
elementos de vários domínios, tal como acontece com os festivais. Os festivais são
expressões complexas do património cultural imaterial, que podem incluir canto, dança,
teatro, festa, tradição oral, histórias, mostra de artesanato, desportos e outros
entretenimentos. Os limites entre os domínios são, por isso, extremamente ténues e
muitas vezes variam de comunidade para comunidade. A UNESCO (2009) reconhece que
é difícil, senão impossível, impor categorias rígidas externamente. Ainda assim, considera
possível e desejável ver cada um destes cinco domínios de referência descritos de forma
mais clara e objetiva, para evitar dispersões interpretativas desnecessárias.
1. Tradições e expressões orais
Este domínio engloba uma enorme variedade de formas faladas, incluindo
provérbios, adivinhas, contos, rimas infantis, lendas, mitos, canções e poemas épicos,
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orações, cantos, músicas, dramatizações, e muito mais. Estas tradições e expressões orais
são usadas para transmitir conhecimentos, valores culturais e sociais e memória coletiva.
Eles desempenham um papel crucial em manter as culturas vivas. Alguns tipos de
expressão oral são comuns e podem ser usados por comunidades inteiras, enquanto
outros estão limitados a determinados grupos sociais, só aos homens ou às mulheres, ou
apenas aos idosos.
2. Artes do espetáculo
As artes do espetáculo variam entre a música vocal e instrumental, a dança e o
teatro, e a pantomina, versos cantados, entre outros. Incluem numerosas expressões
culturais que refletem a criatividade humana, e que estão também presentes, em certa
medida, em muitos outros domínios do património cultural imaterial.
A definição de património cultural imaterial que consta na Convenção de 2003, da
UNESCO, inclui todos os instrumentos, objetos, artefactos e espaços que estejam
associados às expressões e práticas culturais. Assim, o domínio das artes do espetáculo
engloba instrumentos musicais, máscaras, trajes, e outros adornos corporais, utilizados
na dança, assim como o cenário e os adereços. Quando os espaços específicos onde são
apresentados os espetáculos estão intimamente ligados a estes, eles são considerados
espaços culturais, pela Convenção.
3. Práticas sociais, rituais e atos festivos
Práticas sociais, rituais e atos festivos são atividades que estruturam as vidas das
comunidades e de grupos, que são partilhadas e relevantes para muitos dos seus
membros. Elas são significantes porque reafirmam a identidade daqueles que as praticam
enquanto grupo ou sociedade, sejam elas praticadas em público ou em privado, estando
estreitamente ligadas a acontecimentos importantes.
As práticas sociais, rituais ou festivas podem, por exemplo, ajudar a assinalar a
mudança das estações, datas/ocasiões importantes no calendário agrícola, ou ainda
diferentes fases da vida das pessoas.
Elas estão profundamente relacionadas com a visão que uma comunidade possui
acerca do mundo, assim como a perceção que ela tem acerca da sua própria história e
memória.
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Estas atividades podem variar de pequenas reuniões até celebrações e
comemorações sociais em grande escala. Todos estes subdomínios são vastos, mas
também existe bastante sobreposição entre eles.
Frequentemente, os rituais e os eventos festivos têm lugar em momentos e locais
especiais, e relembram a comunidade acerca de aspetos relacionados com a sua história e
a sua visão sobre o mundo. Em determinados casos, o acesso aos rituais pode ser
restringido a certos membros da comunidade, como, por exemplo, em rituais de iniciação
e em cerimónias de enterramento. Outros eventos festivos são, contudo, uma parte
essencial da vida pública e estão abertos a todos os membros da sociedade. Alguns
eventos, sobretudo os anuais, são, inclusivamente, partilhados por todo o mundo; é o
caso das celebrações que marcam o começo de um novo ano, o começo da Primavera, e o
final das colheitas.
As práticas sociais estruturam o quotidiano e são conhecidas por todos os
membros da comunidade, mesmo que nem todos participem nelas. A Convenção de 2003
da UNESCO dá prioridade às práticas sociais que são especialmente relevantes e
emblemáticas para uma comunidade, e que a ajudam a fortalecer o sentimento de
identidade e de continuidade com o passado.
As práticas sociais, os rituais e os atos festivos englobam uma grande variedade de
formas: ritos de adoração; ritos de passagem; rituais de nascimento, de casamento e
fúnebres; juramentos de fidelidade; sistemas jurídicos tradicionais; jogos e desportos
tradicionais; tradições culinárias; cerimónias sazonais; práticas específicas do homem ou
da mulher, entre outras… Mas também várias expressões e elementos físicos como
palavras e gestos específicos, declamações, canções ou danças, vestuário caraterístico,
procissões, sacrifício de animais, ou comida especial.
A UNESCO considera que para assegurar a continuidade de práticas sociais, rituais
ou atos festivos é muitas vezes necessário mobilizar um grande número de pessoas, assim
como instituições e mecanismos sociais, políticos e legais de uma sociedade, pelo que
pode tratar-se de uma tarefa bastante complexa, especialmente se pretendermos abrir
ao público o acesso a práticas habitualmente pertencentes a um grupo restrito, assim
como o acesso a locais sagrados, objetos cruciais, ou recursos naturais necessários ao
desempenho de práticas sociais, rituais ou atos festivos.
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4. Conhecimentos e usos relacionados com a natureza e o universo
Este domínio do património cultural imaterial engloba conhecimento, saberes,
habilidades, práticas e reproduções desenvolvidos pelas comunidades através da sua
interação com o ambiente natural. Essas formas de pensar o universo são expressas
através da linguagem, das tradições orais, do sentimento de pertença a um lugar, de
memórias, de espiritualidade e visão do mundo. Elas exercem uma forte influência sobre
valores e crenças, e estão na base de muitas práticas e tradições culturais, e são, por seu
turno, determinadas pelo ambiente natural e pelo mundo mais amplo da comunidade.
Este domínio inclui diversas áreas, tais como a sabedoria ecológica tradicional, o
conhecimento indígena, o conhecimento sobre a fauna e flora locais, os sistemas
tradicionais de cura, rituais, crenças, ritos de iniciação, cosmologias, xamanismo, ritos de
posse, organizações sociais, festas, línguas e artes visuais.
5. Técnicas artesanais tradicionais
As técnicas artesanais tradicionais são, provavelmente, a manifestação mais
material do património cultural imaterial. No entanto, ao considerá-las na Convenção de
2003, a UNESCO está fundamentalmente preocupada com as habilidades e os
conhecimentos envolvidos no trabalho artesanal, e não com os objetos produzidos.
Assim, em vez da preservação dos objetos de artesanato, no entender da UNESCO,
os esforços devem concentrar-se em encorajar os artesãos a dar continuidade à produção
artesanal, e a transmitir os seus conhecimentos e habilidades a outros, especialmente
dentro das suas próprias comunidades.
Também neste domínio, encontramos várias formas de expressão: utensílios;
roupas e jóias; figurinos e adereços para festivais e artes cénicas; recipientes e objetos
usados para armazenagem, transporte e proteção; artes decorativas e objetos rituais;
instrumentos musicais e utensílios domésticos, brinquedos, tanto para divertimento
como para fins educativos.
Muitos destes objetos, tais como os criados para ritos festivos, são apenas
utilizados por um curto espaço de tempo, enquanto outros podem tornar-se relíquias de
família, que são passadas de geração em geração. As habilidades envolvidas na produção
artesanal são tão variadas como os objetos criados, podendo tratar-se de um trabalho
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delicado e minucioso (como a produção de votivos de papel), ou de tarefas mais duras e
grosseiras (como a criação de um cesto resistente ou um cobertor).
No domínio do património, o conceito de cultura que a UNESCO preconiza
assemelha-se à noção dada pela Antropologia. Trata-se da cultura enquanto expressão de
crenças, modos de vida, modos de pensar, de agir, de ver e de interagir com o mundo,
pertencentes a uma comunidade mais ou menos alargada (de grupo restrito, local,
regional ou nacional), e que é, portanto, um resultado da participação e da criação
coletivas. É um produto da interação do ser humano com o meio em que vive, numa
atitude que reflete a sua capacidade criativa e o desenvolvimento das suas habilidades,
com o objetivo de dar resposta a necessidades da vida quotidiana e da vida em
sociedade.
Por outro lado, a UNESCO procura valorizar as diferentes culturas, as suas
singularidades, numa tentativa de reforçar o respeito pelas diferenças culturais e pelas
minorias étnicas e culturais, como forma de promover o entendimento e a paz no mundo.
Este respeito pelo particularismo de cada cultura, que é também partilhado pela
Antropologia, trata-se, no fundo, de uma perspetiva política, de fomento de boas relações
internacionais, que o Turismo, enquanto experiência que proporciona a abertura, a
interação e a partilha de património cultural, ajuda a reforçar.
O termo “cultural”, originalmente acrescentado à expressão “património
imaterial”, desde que foi criada a Convenção para a sua salvaguarda, passou a ser
considerado, de certa forma, redundante ou mesmo reducionista, como demonstra a
explicação dada pelo ICOM para a sua omissão no tema atribuído à Conferência Geral do
ICOM, em 2004 – “Museus e Património Imaterial”. O ICOM justificou essa opção com o
facto de o conceito de Património Imaterial dizer igualmente respeito a recursos naturais
e culturais, que se complementam na investigação sobre o património (Galla, 2003), indo,
de certa forma, de encontro à ideia, defendida no âmbito da Antropologia, de que a
cultura também engloba elementos ou recursos naturais (Barañano, 2007).
O conceito de património imaterial, ainda que já definido, continua a levantar
muitas questões sobre a sua preservação e atuação sobre o mesmo. Ele impôs, de certa
forma, um novo olhar sobre o património cultural, encorajando a valorização de aspetos
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que anteriormente não eram tidos em conta na análise do património, sobretudo os de
índole cultural e social. No entanto, as manifestações culturais (i) materiais passaram a
ser encaradas como “tesourinhos” regionais ou nacionais, sem uma reflexão prévia sobre
o seu real significado. O termo “imaterial” continua a gerar confusão nas mentes que
procuram, a todo o custo, apreender algo que, aparentemente, não é materializável,
quando, na verdade, todas as manifestações culturais são coisas concretas, materializamse de várias formas detetáveis através dos sentidos, e são facilmente testemunhadas por
vestígios materiais. A própria definição fornecida pela UNESCO esclarece que os
diferentes domínios do património imaterial são também compostos por elementos
materiais, que são utilizados para criar e veicular as diversas expressões de cultura,
considerando “as práticas, representações, expressões, conhecimentos e competências”,
bem como “os instrumentos, objetos, artefactos e espaços culturais que lhes estão
associados”. Acontece que os saberes, conhecimentos e competências envolvidos nas
práticas, representações e expressões possuem uma natureza mais intelectual e mental,
e, portanto, são mais voláteis e difíceis de captar, mas também de interpretar. Sem o
conhecimento dos processos sociais e culturais que justificam a sua transformação em
património, as manifestações culturais podem ser imitadas, mas carecem de significado.
Por outro lado, a precipitação em comercializar a cultura é feita sem reflexão prévia sobre
o seu real significado, e muitas vezes este é fantasiado para apurar a curiosidade sobre
possíveis atrações culturais, sobretudo com fins turísticos.
Na verdade, tal como Leal (2009) afirma, existe a necessidade de tornar concreto
aquilo que está ainda difuso no que concerne ao património imaterial, cujos dilemas são,
afinal, resultado de questões de política cultural. A Antropologia coloca-se face ao estudo,
abordagem e valorização do património imaterial como o campo no qual deve ser feita
essa avaliação sobre as manifestações e vestígios a patrimonializar e divulgar,
fundamentando as suas conclusões em reflexões críticas e conhecimento suficientemente
abrangente.
I.III Cronologia do Património Imaterial: uma perspetiva nacional e internacional
Até à verdadeira consagração do conceito de património imaterial, num passo de
gigante em direção à sua mundialização, em 2003, com a adoção da Convenção para a
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Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, pela UNESCO, em Paris, várias pequenas
iniciativas foram tomadas, tanto a nível internacional, como nacional, incluindo Portugal,
começando em 1972, com a aprovação e adoção da Convenção para a Salvaguarda e
Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural, da UNESCO, na qual vários Estados
Membros sublinharam a importância dedicada à salvaguarda do que mais tarde vem a ser
designado de Património Imaterial, e culminando na entrada em vigor da Convenção, em
Portugal, a 21 de Agosto de 2008.
Ainda que pequenos passos tenham sido dados em Portugal, com vista à
salvaguarda do património imaterial, ao longo de vários anos, também na sequência de
medidas tomadas a nível internacional, foi necessário chegar até à adoção da Convenção
para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, para que o conceito de património
imaterial começasse a clarificar-se e as medidas tomadas se tornassem mais adequadas e
eficazes.
A participação e contributo dos diferentes estados membros da UNESCO foram
essenciais, tanto para a criação, como para a implementação da Convenção para a
Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, permitindo o seu reconhecimento a nível
mundial.
Foi, com efeito, um dos estados membros da UNESCO, a Bolívia, que, um ano após
a adoção da Convenção para a Salvaguarda e Proteção do Património Mundial, Cultural e
Natural, propôs acrescentar a esta Convenção um Protocolo sobre o direito de
propriedade intelectual, a fim de proteger a Cultura Popular, alertando para a
necessidade de a ter em conta, tal como tudo o que ela envolve, enquanto criação
intelectual de uma determinada comunidade, para a preservação das formas de
expressão popular, ou seja, de um dos domínios do património imaterial.
Em Portugal, em 1980, é dado um primeiro passo para a salvaguarda do
Património Imaterial, através da criação do Instituto Português do Património Cultural
(Decreto Regulamentar nº 34/80, de 2 de Agosto), com competências na área do
Património Cultural Imaterial, nomeadamente através dos seus Departamentos de
Etnologia (art.º 34º), de Musicologia (art.º 37º) e do Inventário Geral do Património
Cultural (al. d) do nº 3 do art.º 35º). Nesta altura, a visão do património imaterial ainda
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está estreitamente ligada à Etnografia e aos estudos etnográficos, sendo pouco
abrangente.
Em 1982, a UNESCO organiza um Comité de peritos sobre a salvaguarda do
Folclore, do qual resulta a criação da Secção para o Património Não-Material da UNESCO.
Este foi um importante marco na evolução do conceito, e na sua salvaguarda, não tendo,
contudo, ainda sido usado o termo “imaterial”.
A conferência mundial sobre as políticas culturais, Mondiacult, no México,
reconheceu, neste ano, a importância do “património cultural imaterial”, incluindo-o na
sua nova definição de “cultura” e de “património cultural”. O conceito de património
imaterial começa, assim, a ficar mais delineado e a ganhar uma outra dimensão, ligada à
cultura.
Em 1985 é publicada, em Portugal, a Lei de Bases do Património Cultural (Lei
13/1985, de 6 de Julho), cujo art.º 43º faz alusão às formas e ao regime de proteção dos
“bens imateriais”. Esta lei não teve, no entanto, qualquer aplicabilidade prática neste
domínio por falta de desenvolvimento.
A Conferência Geral da UNESCO adota, a 15 de Novembro de 1989, a
Recomendação para a Salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular, reconhecendo a
importância da salvaguarda deste tipo de património cultural, pela e para a comunidade
cuja identidade exprime. Neste documento, a cultura tradicional e popular abarca
importantes domínios, mais tarde definidos como património cultural imaterial, na
Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, em 2003 – a língua, a
literatura, a música, a dança, os jogos, a mitologia, os rituais, os costumes, o artesanato, a
arquitetura e outras artes, que são transmitidos oralmente, por imitação, e outras
formas.
Em 1993, a UNESCO dá um importante passo para a salvaguarda de uma das
vertentes do património imaterial – as línguas, através do lançamento do projeto Livro
Vermelho das Línguas em Risco de Desaparecimento, com o objetivo de sistematizar
informação e promover a investigação sobre este tema. Foi deste projeto que resultou o
Atlas of the World’s Languages in Danger of Disappearing (Atlas das Línguas em Risco de
Desaparecimento), que promove a salvaguarda de determinadas línguas, e que mais
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tarde, em 1995, originou o Data Bank Centre for Endangered Languages (o Banco Central
de Dados das Línguas Ameaçadas), da Universidade de Tóquio.
No mesmo ano, a UNESCO adota a Declaração de Oaxaca (preparada pelo Comité
do México do International Council of Monuments and Sites – Conselho Internacional de
Monumentos e Sítios, ICOMOS), na qual é realçada a importância do papel do património
cultural na vida quotidiana, e a sua salvaguarda através da ação das respetivas
comunidades, tanto na criação de significado sobre os lugares, como no desenvolvimento
de práticas que envolvam ativamente as comunidades na salvaguarda dos significados e
relações sociais associadas aos lugares. O fomento das práticas tradicionais das
comunidades que lhes deram origem é visto como a forma ideal para a promoção da
salvaguarda da maior parte dos bens patrimoniais.
Ainda no seguimento desta ideia de que cabe às comunidades salvaguardar e dar
continuidade ao seu património imaterial, a UNESCO lança, um ano mais tarde, o
programa Tesouros Humanos Vivos (na sequência de proposta feita pela República da
Coreia). “Tesouros Humanos Vivos” foi a denominação atribuída às pessoas identificadas
como possuidoras de conhecimentos e habilidades no domínio do património cultural
imaterial, e que podem, por isso, continuar a desenvolver, desempenhar, recriar e
transmitir às gerações mais novas esses mesmos conhecimentos e habilidades, para que
perdurem.
O Relatório da Comissão Mundial da Cultura e Desenvolvimento (da UNESCO)
designado por Our creative diversity (“A Nossa Diversidade Criadora”), elaborado em
Paris, em 1996, e publicado em 1997, veio lançar o debate sobre o caráter inadequado da
Convenção de 1972 no que concerne ao reconhecimento e à proteção do artesanato ou
de formas de expressão como a dança e as tradições orais, propondo o desenvolvimento
de estratégias adaptadas à diversidade e riqueza do património considerado à escala
global.
No mesmo ano, a UNESCO lança o Programa Memória do Mundo, com o objetivo
de identificar e preservar documentos e arquivos de relevante significado histórico, para
assegurar um amplo acesso e conhecimento dos mesmos. Estes documentos incluem
manuscritos, tradições orais, registos audiovisuais e eletrónicos, registos sonoros e
espólios bibliográficos e arquivísticos de “valor universal”.
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Em 1997, a UNESCO lança o programa de Proclamação das Obras-Primas do
Património Oral e Imaterial da Humanidade, alargando ao património imaterial a
classificação de “Obra-Prima da Humanidade”.
Ainda em 1997, a UNESCO e a Comissão Nacional de Marrocos organizam, em
Marraquexe, uma consulta internacional de peritos sobre a preservação dos espaços
culturais populares.
Dois anos mais tarde, o Departamento do Património Cultural da UNESCO e o
Centro de Folclore e Património Cultural da Smithsonian Institution, organizam, em
Washington, uma conferência com o objetivo de avaliar o estado da situação
relativamente à proteção do património cultural imaterial no final do século vinte, e rever
a Recomendação para a Salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular, dez anos após a
sua adoção, em 1989. Esta conferência foi o culminar de oito seminários regionais levados
a cabo pela UNESCO, com a finalidade de fazer uma avaliação sistemática da
implementação da Recomendação e da situação atual do sistema de salvaguarda e
revitalização do património cultural imaterial. Dela, resultaram várias críticas e propostas
de melhoria por parte de vários especialistas.
Em 2001, são proclamadas as primeiras “Obras-Primas do Património Oral e
Imaterial da Humanidade”, pelo Diretor-Geral da UNESCO, para sensibilizar sobre a
importância do património cultural imaterial, para encorajar as comunidades locais a
proteger e a manter essas formas de expressão cultural. Várias manifestações de
património imaterial têm sido, desde então, premiadas com o título de “Obras-Primas”,
com o intuito de reconhecer o valor da componente não-material da cultura, e de
envolver os estados na promoção e salvaguarda dessas “Obras-Primas”.
Em Portugal, no mesmo ano, é publicada a Lei de Bases da Política e do Regime de
Proteção e Valorização do Património Cultural (Lei 107/2001, de 8 de Setembro), cujos
artigos 91º e 92º preveem os “regimes especiais de proteção e de valorização” dos “bens
imateriais”. Esta lei vem acrescentar as “minorias étnicas” ao Património Cultural
Imaterial, ainda não previstas na anterior lei (Lei 13/85), que apenas considerava as
“tradições populares”.
No âmbito da 7ª Assembleia Regional do ICOM da Ásia/Pacifico, realizada em
Xangai (China), em 2002, que foi dedicada ao património cultural material e ao
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
património cultural imaterial, é elaborada a Carta de Xangai. Neste documento, é
realçado o papel dos museus no reconhecimento e promoção do património imaterial,
através das práticas museológicas e patrimoniais na afirmação da criatividade,
adaptabilidade e distinção dos povos, lugares e comunidades. A Carta recomenda, assim,
que os museus assumam o papel de facilitadores de parcerias construtivas para a
salvaguarda deste património da humanidade.
Em 2003, a Conferência Geral da UNESCO, reunida, em Paris, na sua 32ª sessão,
dá, finalmente, o grande passo aglutinador de várias medidas sobre a definição e
proteção do património imaterial, com a adoção da Convenção para a Salvaguarda do
Património Cultural Imaterial, que virá a ser o documento base que orienta as ações
sobre o património imaterial, nos estados que a ratificam.
Esta Convenção teve como referência os instrumentos internacionais existentes
em matéria de direitos humanos, em particular a Declaração Universal dos Direitos do
Homem, de 1948, o Pacto Internacional sobre Direitos Económicos, Sociais e Culturais, de
1966 e o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, de 1966, assim como os
textos
que
compõem
documentos
anteriormente
criados,
nomeadamente
a
Recomendação para a Salvaguarda da Cultura Tradicional e do Folclore, de 1989, a
Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, de 2001 (ambos da UNESCO) e a
Declaração de Istambul de 2002 adotada pela Terceira Mesa Redonda dos Ministros da
Cultura.
Dos motivos que são apresentados no próprio Documento, para a sua origem,
realço “a vontade universal e a preocupação comum de salvaguardar o património
cultural imaterial da humanidade”, “o grande alcance da atividade desenvolvida pela
UNESCO na elaboração de instrumentos normativos para a proteção do património
cultural”, em particular a Convenção para a Proteção do Património Mundial, Cultural e
Natural de 1972, o facto de ainda não existir “nenhum instrumento multilateral de
caráter vinculativo visando a salvaguarda do património cultural imaterial”, o facto de “os
acordos, recomendações e resoluções internacionais existentes em matéria de
património cultural e natural” necessitarem de ser “eficazmente enriquecidos e
complementados por novas disposições relativas ao património cultural imaterial”, “a
necessidade de reforçar a consciencialização, em particular das gerações jovens, para a
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
importância do património cultural imaterial e da sua salvaguarda”, a necessidade de a
comunidade internacional contribuir, juntamente com os Estados Partes na Convenção,
“para a salvaguarda deste património num espírito de cooperação e entreajuda”, e “o
papel inestimável do património cultural imaterial como fator de aproximação,
intercâmbio e entendimento entre os seres humanos”.
Neste ano, dado que até ao ano de 2005 as proclamações foram feitas
bienalmente, realiza-se também a Segunda Proclamação das “Obras-Primas do
Património Oral e Imaterial da Humanidade”.
O tema do património cultural imaterial é, mais uma vez, alvo de debate, em
2003, no encontro anual do ICOMOS, realizado no Zimbabué.
Em 2004, o Instituto Português de Museus promove a celebração do Dia
Internacional dos Museus, subordinado ao tema “Museums and Intangible Heritage”
(Museus e Património Imaterial), proposto pelo ICOM, realçando o papel dos museus na
promoção do património imaterial.
“Museums and Intangible Heritage” foi também o tema da Conferência Geral do
ICOM em Seul, no mesmo ano. Um dos resultados desta conferência foi a criação do The
International Journal of Intangible Heritage, uma publicação académica e profissional
(inglesa) dedicada à promoção da compreensão de todos os aspetos relativos ao
património imaterial a nível mundial, assim como à divulgação de investigação efetuada e
de exemplos de boas práticas profissionais.
No mesmo ano, a Declaração de Yamato para a Abordagem Integrada da
Salvaguarda do Património Material e Imaterial, foi aprovada por unanimidade pelos
participantes da Conferência Internacional sobre "A Salvaguarda do Património Cultural
Material e Imaterial: Rumo a uma Abordagem Integrada", que foi realizada em Nara, no
Japão. A Declaração de Yamato é considerada relevante para o trabalho do Comité do
Património Mundial, uma vez que tem em consideração a cooperação e coordenação
entre as Convenções e Protocolos da UNESCO relativos ao património. De entre as
questões discutidas, pode destacar-se a necessidade de harmonizar definições e
terminologias usadas por especialistas, no domínio do património cultural material e
imaterial; a necessidade de fazer uma abordagem consistente e integrada para a
salvaguarda do património material e imaterial, tendo em conta a interdependência e as
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
diferenças existentes entre eles; e, por outro lado, a irrelevância da associação do termo
“autenticidade” ao património cultural imaterial relativamente à sua identificação e
salvaguarda, dado que este património é constantemente recriado. Neste aspeto, a
Declaração de Yamato assume uma posição contrária à que consta no Documento de
Nara sobre Autenticidade (ICOMOS, 1994).
Em 10 de Outubro de 2005, é assinada em Paris a Convenção sobre a Proteção e a
Promoção da Diversidade das Expressões Culturais. Com este documento, a UNESCO
procura reforçar a ideia anteriormente manifestada na Declaração Universal sobre a
Diversidade Cultural, de 2001, de que a diversidade cultural constitui uma herança
comum da humanidade e que a sua salvaguarda deve constituir um imperativo ético,
inseparável do respeito pela dignidade humana. Esta Convenção pretende, ainda, apoiar
o desenvolvimento de políticas de proteção e promoção de atividades culturais, bem
como manifestações artísticas locais.
A Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, adotada, em
2003, pela Conferência Geral da UNESCO, entra em vigor a 20 de Abril de 2006.
Neste ano, em Portugal, é publicada a Lei Orgânica do Ministério da Cultura (DL nº
215/2006, de 27 de Outubro), que preconiza, no seu Preâmbulo, a “definição e execução
de uma política integrada do património material e imaterial”, consignando ao Instituto
dos Museus e da Conservação (IMC) as atribuições em matéria de inventário, valorização
e proteção do património cultural imaterial.
Em 2007, é criado o Instituto dos Museus e da Conservação, I.P. (DL nº 97/2007,
de 29 de Março, e respetiva Portaria nº 377/2007, de 30 de Março) no âmbito do
Ministério da Cultura, ao qual se atribuem competências específicas na área do
Património Cultural Imaterial, que passa a ter um departamento específico. A criação do
Instituto dos Museus e da Conservação, I. P. (IMC, I. P.) resulta da fusão do Instituto
Português de Museus (IPM), criado pelo Decreto-Lei nº 278/91, de 9 de Agosto, com o
Instituto Português de Conservação e Restauro, criado pelo Decreto-Lei nº 342/99, de 25
de Agosto.
No mesmo ano, o Conselho de Ministros aprova a ratificação de Portugal da
Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (23 de Agosto).
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Ainda em Portugal, o IMC inicia a colaboração com a Comissão para o
Desenvolvimento da Lei de Bases do Património Cultural (do Ministério da Cultura), no
âmbito do Património Cultural Imaterial.
Um ano mais tarde, a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural
Imaterial é aprovada por unanimidade pela Assembleia da República, a 24 de Janeiro
(Resolução AR nº 12/2008); a 26 de Março procede-se à sua ratificação, por publicação
em Diário da República do Decreto do Presidente da República nº 28/2008 (DR nº 60, de
26 de Março).
Cerca de quatro meses mais tarde, pelo Aviso nº 137/2008 (publicado em Diário
da República nº 144, de 28 de Julho), o Ministério dos Negócios Estrangeiros torna
público que a República Portuguesa depositou junto do Diretor-Geral da UNESCO, em 21
de Maio, o seu instrumento de ratificação da Convenção. A Convenção entra em vigor a
21 de Agosto de 2008.
Ainda neste ano, e no âmbito das suas atribuições e competências em matéria de
salvaguarda e valorização do Património Cultural Imaterial, o Instituto dos Museus e da
Conservação realiza um Ciclo de Colóquios subordinado ao tema “Museus e Património
Imaterial: agentes, fronteiras, identidades” (de Fevereiro a Novembro), e inicia uma linha
editorial - Arquivos do Imaterial, com o objetivo de editar em DVD registos audiovisuais
do Património Imaterial.
Em 2009, realiza-se a 4ª Sessão do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda
do Património Cultural Imaterial (em Abu Dabi, nos Emiratos Árabes Unidos - EAU, de 28
de Setembro a 2 de Outubro), dando origem às primeiras inscrições na Lista
Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, instituída pela
Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO.
Esta Lista contém exemplos de manifestações culturais tão diversos como a
produção de rendas Lefkaritika, em Lefkara (Chipre); o Carnaval de Negros e Brancos, em
San Juan de Pasto (Colômbia); as Procissões da Semana Santa em Popayán (Colômbia); o
Canto Polifónico de Seto (Estónia); a técnica do Batik (Indonésia); o repertório musical do
Radif (Irão); a cerimónia dos Voladores e os lugares de memória e tradições vivas dos
Otomí-Chichimecas (México).
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Algumas inscrições resultaram de candidaturas multinacionais, como foi o caso do
Tango (Argentina e Uruguai) e a cerimónia do Novruz (Azerbaijão, Índia, Irão, Paquistão,
Quirguistão, Turquia e Uzbequistão).
Com mais de duas manifestações inscritas na Lista por deliberação na 4ª Sessão do
Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do PCI (Abu Dabi, EAU, 28 de Setembro a
2 de Outubro 2009), contam-se a França (com três), a Croácia (com sete), o Japão (com
treze) e a China (com vinte e duas).
As novas inscrições acrescem às 90 manifestações transitadas para a Lista no
âmbito da entrada em vigor da Convenção (2006), e que foram objeto de proteção pela
UNESCO ao abrigo do programa de Proclamação das Obras-Primas do Património Oral e
Imaterial da Humanidade (entre 1997 e 2005).
Em Portugal, no mesmo ano, é publicado o Decreto-Lei nº 139/2009 (Diário da
República, I/S, nº 113, 15 de Junho de 2009) que estabelece o regime jurídico de
salvaguarda do património cultural imaterial, em desenvolvimento do disposto na Lei nº
107/2001, de 8 de Setembro, e em harmonia com o direito internacional, nomeadamente
com a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (UNESCO, 2003).
Em 2010, através do Despacho conjunto dos Ministérios das Finanças e da
Administração Pública e da Cultura nº 598/2010, de 4 de Janeiro (publicado em Diário da
República, II/S, nº 6, de 11 de Janeiro de 2010), é criado, na dependência do Instituto dos
Museus e da conservação, I.P., e em estreita colaboração com a Comissão para o
Património Cultural Imaterial, prevista no Decreto-Lei nº 139/2009, de 15 de Junho, um
Grupo de Trabalho destinado a realizar o levantamento dos bens culturais imateriais, para
que a Comissão possa “cumprir na plenitude e com toda a eficácia as competências que
lhe foram atribuídas”.
Ainda no mesmo ano, é publicada a Portaria nº 196/2010 (Diário da República, I/S,
nº 69, de 9 de Abril de 2010), elaborada no quadro jurídico de salvaguarda do património
cultural imaterial estabelecido pelo Decreto-Lei nº 139/2009, de 15 de Junho, e para fins
da regulamentação deste.
Esta Portaria aprova o formulário para pedido de inventariação de manifestações
do Património Cultural Imaterial (PCI) e as respetivas normas de preenchimento da ficha
de inventário. Este diploma define as condições inerentes ao processo de identificação,
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
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estudo e documentação do PCI, tais como o âmbito dos métodos e técnicas de pesquisa a
aplicar, ou as qualificações académicas que devem possuir os profissionais responsáveis
por esse processo. A Portaria é um instrumento essencial para a operacionalização do
Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, que se encontra sob a
responsabilidade do Instituto dos Museus e da Conservação.
No seguimento desta portaria, é publicado, no ano seguinte, o Despacho nº
1018/2011, de 12 de Janeiro (Diário da República, II/S, nº 8, de 12/01/2011, que vem
apresentar a designação dos membros que integram a Comissão para o Património
Cultural Imaterial, para os efeitos do disposto no Decreto-Lei nº 139/2009, de 15 de
Junho. Esta comissão é presidida pelo Diretor do Instituto dos Museus e da Conservação,
sendo também integrada pelo Diretor do Departamento do Património Cultural Imaterial
do Instituto, entre outras individualidades. Trata-se de um órgão com funções
deliberativas, para fins de inscrição de expressões culturais no “Inventário Nacional do
Património Cultural Imaterial”, e competências consultivas no âmbito das componentes
específicas da política do PCI, como a emissão de parecer em relação a candidaturas do
Estado Português à “Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da
Humanidade” e à “Lista de Património Cultural Imaterial que Necessita de Salvaguarda
Urgente”, instituídas pela Convenção de 2003, da UNESCO, sempre que solicitado pelo
membro do Governo responsável pela Cultura.
Em 2011, o tema escolhido pelo ICOM para a celebração do Dia Internacional dos
Museus - Museum and Memory (Museus e Memória) está novamente associado à
promoção do património imaterial, realçando a importância das memórias e histórias que
os numerosos objetos exibidos pelos museus encerram; esses objetos podem ser a base
da memória da comunidade em que estamos inseridos, enquanto expressão do nosso
património natural e cultural, daí a relevância de alertar para a necessidade da sua
conservação, usando o Dia Internacional dos Museus como uma oportunidade de
descobrir e redescobrir a memória individual e coletiva de cada um. O ICOM inclui, ainda,
nas suas propostas de trabalho para os museus sobre este tema, a ligação entre memória,
comunidade e identidade, e o especial contributo cultural de África para o resto do
mundo.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Em conclusão, todo este percurso revela uma preocupação em regulamentar e
estandardizar os procedimentos relativos à investigação, recolha, inventário, tratamento,
proteção e divulgação do património imaterial, à escala mundial, e em cada um dos
estados, de acordo com as suas especificidades e organização interna, no respeito pela
diversidade cultural.
I.IV Património Imaterial e Turismo Cultural: uma relação inevitável
Não sendo possível nem sensato patrimonializar ou conservar tudo o que pertence
a uma cultura, o património cultural deve representar, legalmente, e de forma simbólica,
uma determinada cultura, através da transformação dos elementos culturais. O
património cultural será, assim, o resultado de um processo de seleção e de interpretação
dos significados sociais e dos valores, e a reconstrução ou recuperação da memória e da
identidade, tendo em conta o caráter evolutivo e mutável da cultura e a transmissão de
legados para o futuro (Pérez, 2009). O valor patrimonial não é inerente, mas atribuído, e
o recurso à patrimonialização da cultura está intimamente ligado a um esforço de
conservação, mas também de valorização, pela sua simbologia e importância atribuída no
reforço do sentimento de identidade e da memória coletiva.
Atualmente, o processo de patrimonialização implica a “atribuição de novos
valores, sentidos, usos e significados”, tanto a objetos, como às formas, aos modos de
vida, aos saberes e aos conhecimentos sociais, pelo que o património cultural deve ser
entendido no seu contexto sociocultural e económico (Pérez, 1999). No entanto, não será
apenas a comunidade (enquanto grupo de pessoas a quem pertence uma determinada
cultura) a determinar a patrimonialização de bens, materiais ou imateriais. Tal como
defende Pérez (2009), neste processo de seleção que a patrimonialização requer é crucial
o papel dos especialistas – arqueólogos, antropólogos, arquitetos, historiadores da arte,
biólogos e outros, para certificar o valor dos elementos culturais dignos de serem
patrimonializados e reconhecer como bem de tutela pública o que antes não estava
reconhecido como tal. Este reconhecimento público e legal torna-os mais atraentes e alvo
de aproveitamento turístico.
Enquanto instrumento de organização social e simbólica dos recursos naturais
herdados, do território humano e da forma como coexistimos com as demais culturas do
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
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planeta, a patrimonialização da cultura, legitimada pelo poder estadual, pode servir o
interesse do Estado em demonstrar a existência de coesão social através da
homogeneidade cultural (Barañano, 2007: 294). Substituindo “grandes ideologias”, o
património poderá, tal como este autor sugere, impor uma certa ordem no social, sendo
utilizado como fator de educação, tomada de consciência cívica, limpeza de imagens não
desejadas, e uma integração social que impõe o coletivo sobre os indivíduos. Isso poderá,
assim, justificar a atribuição de interesse nacional a um determinado bem, no domínio do
património.
Ao interesse nacional está associado um valor político e económico que, através
das representações patrimoniais, reforça a materialização da cultura, transformando-a
em mercadoria (Barañano, 2007: 295), com fins comerciais e industriais, onde se inclui o
Turismo. Assim, para este autor, viajar será uma forma de possuir simbólica ou realmente
algo que pertence a outros, não constituindo uma aventura, mas sim uma experiência
política que lhes é permitido viver por quem detém o poder sobre esse património. A
valorização do património com estes fins nem sempre é feita com base nas qualidades
intrínsecas dos bens, mas sim em “atribuições inventadas” e mascaradas de
autenticidade, compostas por atributos simbólicos que são impostos no mercado, para
tornar o bem mais desejável e atrativo à experiência e aquisição. As representações
patrimoniais criadas pelo estado no domínio da cultura não só correrão o risco de ser
artificiais como poderão deturpar o verdadeiro significado de manifestações culturais, e o
seu conhecimento futuro.
O aproveitamento turístico do património cultural imaterial, tal como acontece
com a sua proteção e conservação, não está isento de polémica. Ter em mente as reais
caraterísticas deste património, respeitando o seu significado e papel na vida humana,
pode evitar, no entanto, erros de abordagem no âmbito da sua transmissão e exploração
com fins turísticos. As principais questões prendem-se com a manutenção da
autenticidade e a encenação da cultura, através de representações organizadas
expressamente para turistas. Muitos autores têm debatido sobre a pertinência destas
práticas.
Se considerarmos como autêntico “aquilo que é original, uma mostra dos
primórdios da cultura, algo como uma essência verdadeira, uma prática cultural que não
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
pode estar contaminada por relações comerciais” (Meethan, citado por Barreto, 2007),
ou como a “cultura tradicional e suas origens” que está “associada à qualidade de
genuíno e único” (Sharpley, Reisinger e Steiner, citados por Barreto, 2007), então a
autenticidade será sinónimo de congelamento, mantendo os mesmo rituais, costumes,
ferramentas e linguagem dos ancestrais, sem qualquer alteração ou evolução. Na busca
da autenticidade, acaba-se por cair no que Lanfant (citado por Barreto, 2007) qualificou
de contradição, pois o Estado, no seu discurso, utiliza o Turismo para levar “progresso”
socioeconómico a áreas menos favorecidas, mas ao mesmo tempo pretende que essa
sociedade mantenha traços tradicionais para consumo dos turistas.
Outros autores, como MacCannel (1992), alertam para o perigo que a
comercialização do encontro turístico pode atingir: um ponto de commodification, no
qual o legado cultural se transforma em produto de consumo, em mercadoria
(commodity), não apenas em relação aos produtos artesanais ou à imagem fotográfica,
por exemplo, mas também em relação aos indivíduos.
Esta relação entre turistas e indígenas, que levanta preocupações acerca das
influências culturais mútuas e da encenação da cultura, gerou o conceito de borderzone,
o espaço ou o acontecimento em que se dá o encontro entre os visitantes estrangeiros e
a população local. Este conceito foi definido por vários autores. Edward Bruner (2004)
distingue, neste âmbito, a existência de dois grupos, aos quais correspondem duas
perspetivas diferentes: por um lado, o grupo dos turistas, que viajam pelos locais e
normalmente não voltam a eles, procurando “experiências elevadas”; por outro lado,
encontram-se as populações locais, que permanecem nesses sítios, e presenciam a
movimentação de diferentes grupos de turistas que por eles passam, organizando
(juntamente com realizadores e produtores) essas experiências elevadas para os turistas,
mas vivendo, acima de tudo, a sua vida quotidiana. Já Ness (citado por Bruner, 2004)
afirma que a borderzone se localiza “num sítio concreto no mundo, mas o que nela é
criado é uma cultura teatral construída não numa cultura da vida real, mas num
imaginário cultural, uma fantasia”, assim tocando também a questão da autenticidade.
MacCannel (1992), por seu turno, fala de um conceito de “empty meeting ground” (um
espaço vazio de encontro), para se referir à borderzone, descrevendo-a como “um local
de novas subjetividades e consciências, onde emergem novas culturas e relações”.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
MacCannel estará, desta forma, a afirmar que nesta interação cultural entre turistas e
indígenas está, sobretudo, presente uma outra cultura, que é criada nessa relação entre
os dois diferentes grupos.
Ainda acerca desta relação e interação, Edward Bruner (2004), considerando a
existência de encenação cultural, considera que, na borderzone, ambos os grupos sabem
claramente qual o seu papel no “drama turístico”, já que, no Turismo, “os nativos agem
de forma primitiva”, e os turistas “suspendem a descrença”, os produtores “colocam em
cena um espetáculo superior e o governo fornece as infraestruturas adequadas”, para
que todas as partes envolvidas saiam a ganhar. Bruner vê o Turismo como “um teatro
improvisado, como um palco situado na borderzone, onde tanto os turistas como os locais
são atores”.
Para ele, é na borderzone que se dão mais frequentemente os encontros entre os
nativos e os grupos organizados de turistas, uma vez que os circuitos são previamente
preparados, permitindo uma maior encenação cultural, raramente entrando no espaço
uns dos outros.
E se, por um lado, os povos indígenas podem sofrer influências culturais através da
presença e do contacto com turistas, por outro, também os turistas se deixam envolver
pela sua cultura, numa troca provavelmente involuntária.
Os documentários de cariz antropológico de Dennis O’Rourke, Cannibal Tours (de
1998) e Leng Shang, Mon Village Taoping (de 1998) são dois exemplos que refletem este
tipo de encenação cultural com fins turísticos: um consumo por vezes exagerado da
cultura, caindo no extremo da encenação da cultura de que fala MacCannel (citado por
Silva, 2003), assim como as influências culturais mútuas geradas na interação entre
turistas e indígenas. Neles, sobretudo no primeiro, está também patente um certo
choque cultural entre os diferentes grupos. Este choque cultural nem sempre ocorre, no
entanto, tal como demonstra o documentário de Nicholas Kurze, Sight Unseen (de 1996).
Neste filme, também de cariz antropológico, tanto no quotidiano daqueles que convivem
diariamente como vizinhos, provenientes de diferentes locais, como na presença de
turistas estrangeiros, Bali aparece como um recetor onde convergem pacificamente
diversas influências externas (Documentary Educational Resources, 2012).
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Contudo, a mudança e o acolhimento pacífico de interferências culturais nos locais
de visita nem sempre é atrativo do ponto de vista do próprio turista. A título de exemplo,
neste filme verifica-se que muitos visitantes trazem, em certa medida, consigo, a
expectativa de “um Bali autêntico”, quando chegam à Ilha. Esta imagem, trazida
principalmente pelas grandes movimentações de turistas do Turismo de massas
internacional, consiste num “local caraterizado por uma tradição intemporal, de rituais
imutáveis, artesanato, música e dança”, um local de paisagens exóticas, paradisíacas e
intactas, onde as pessoas vivem em contacto harmonioso com a natureza e intocadas
pela civilização.
No Turismo, o que muitas vezes é apresentado como autêntico, nos folhetos de
informação e promoção turística, nem sempre corresponde à realidade, daí a necessidade
de criar encenações e representações intencionalmente para os turistas.
Tendo em consideração que todas as tradições são inventadas em determinado
momento, e todas elas mudam com a passagem do tempo, adaptando-se a novas
circunstâncias, esta expectativa em relação à autenticidade e à imutabilidade cultural não
faz sentido. Tal como Hobsbawm e Ranger (citados por Barreto, 2007: 105) referem, as
cerimónias e rituais são frequentemente criados e recriados com uma finalidade
específica, sob o conceito de “tradições inventadas” que se referem a “práticas,
geralmente governadas por regras tácita ou implicitamente aceites e por um ritual de
natureza simbólica que procura inculcar certos valores e normas de comportamento por
reiteração, o que automaticamente implica continuidade com o passado”. As tradições
inventadas destinam-se também ao consumo turístico, por uma “necessidade de
mercado” (Barretto, 2007), onde a cultura autêntica se transforma em matéria-prima,
através do recurso a elementos caraterísticos e diferenciais de cada cultura para criar um
produto turístico comerciável e competitivo a nível internacional.
O legado cultural é, assim, transformado em produto de consumo, que traz lucros
enquanto atração turística. No Turismo, “autêntico” equivale, em suma, à cultura
tradicional. O que aconteceu nos últimos anos, no campo do Turismo, tal como Barretto
(2007: 106) defende, no entanto, é que foram inventadas tradições que não têm
referentes no passado, com a única finalidade de servir de atrativo cultural, consistindo,
afinal, em atrativos artificiais, uma vez que não se sustentam numa história verídica. Estas
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
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manifestações são, por isso, desprovidas de significado cultural, se considerarmos o
passado como único referente. Estas manifestações desligadas do passado podem conter
significado, mas dificilmente serão consideradas “património”, dado serem recentes.
No entanto, tal como Edward Bruner (2004) defende, o Turismo, para além das
vantagens económicas, também permite que a comunidade se veja envolvida no
processo de recuperação da memória coletiva, de reconstrução da História, e da
verificação das fontes; permite, ainda, que membros dessa comunidade tomem
consciência, pela primeira vez, do papel que o seu local de origem teve em determinado
momento da História.
Para Edward Bruner (1986) e MacCannel (1992), aquilo que é apresentado no
Turismo é uma nova cultura construída especificamente para uma audiência de turistas.
Não há uma simulação porque não há um original. As atuações para turistas surgem, com
certeza, de dentro da matriz cultural, mas todas as atuações são novas, pois o contexto, a
audiência e os tempos mudam continuamente, adquirindo novos significados, que, no
entanto, como atrás referido, não constituem imediatamente “património”.
Jonh Urry (1990; 1995), por sua vez, afirma que os turistas de hoje sabem que a
autenticidade é encenada e não dão importância ao facto, desde que a encenação seja de
boa qualidade. Barretto (2007: 100) defende que, na atualidade, existe consenso acerca
desta ideia veiculada por Urry, o que tem contribuído para superar essa discussão, “cada
vez mais impregnada na subjetividade”.
Considerado uma das atividades que mais tem fomentado o contacto intercultural
entre pessoas, povos e grupos, o Turismo transforma lugares funcionais em lugares que
proporcionam vivências e experiências. O Turismo Cultural fomenta o conhecimento de
outras culturas, assim como a vivência de experiências novas, que está associada às
emoções e aos sentidos, que o património cultural imaterial oferece, por natureza – para
além dos sítios, paisagens e bens patrimoniais, as produções culturais a eles associadas:
artes visuais, artes manuais, festivais, festividades, gastronomia, entre outros. O
património cultural, sobretudo o imaterial, oferece uma experiência turística muito
completa, que integra, entre outras, vivências sensoriais (através de sons, sabores,
odores, imagens), sociais (pela comunicação, convivência, partilha e interação), e
culturais (na participação em eventos, festivais, atividades).
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
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As sensações e as emoções contidas nesse produto são determinantes para a
motivação da visita dos turistas, estando acima da procura de conhecimento científico ou
do artístico (Marques, 2009a; 2009b). Tendo em conta o papel determinante da imagem
afetiva e das emoções na escolha dos destinos ou locais turísticos, o Turismo Cultural
presta-se como uma das atrações que mais motivam a visita de turistas e a adesão dos
mesmos a determinados eventos e atividades relacionadas com o património imaterial.
Segundo Marques (2009a), tendo em conta que o lazer e o Turismo são atividades
com uma forte componente hedónica, as emoções adquirem um papel preponderante na
experiência de consumo, na perceção da qualidade de serviços, na satisfação e nos
comportamentos pós-compra, ocupando um lugar de destaque no estudo e avaliação da
procura turística, assim como na definição de estratégias de captação de visitantes.
Vários estudos demonstraram que os turistas que incluíam, na antecipação das
suas férias, elementos sensoriais e atividades que pretendiam realizar, tinham
expectativas mais positivas relativamente às férias e ficavam mais satisfeitos com a
experiência vivida (Marques, 2009a), uma vez que a resposta hedónica ocorre não apenas
durante a experiência turística, mas também durante o processo de decisão, como reação
aos estímulos de comunicação e marketing.
Numa perspetiva de marketing, tendo em conta o estudo do comportamento
fundado na psicologia ambiental e, complementarmente, na psicologia social do
consumidor, considera-se que os turistas viajam porque retiram gratificações desse
comportamento. Contudo, não é tanto o produto em si que determina a intensidade de
resposta emocional, mas a situação em que o consumo ocorre, e o valor que o
consumidor atribui a uma experiência de consumo específica, pela antecipação dos
resultados afetivos da experiência no destino, incluindo nela elementos sensoriais e
atividades que pretendem realizar. Estudos demonstraram que a existência de
expectativas mais positivas relativamente aos destinos originava experiências mais
satisfatórias (Marques, 2009a). Por outro lado, a associação da antecipação com emoções
anteriormente vividas intensifica a motivação para a escolha de um destino, pelo que a
sugestão de experiências sensoriais passadas podem ser usadas como fatores de atração
futura, em estratégias de marketing turístico.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Aplicando estes conceitos ao património imaterial e ao Turismo Cultural, podemos
concluir que este tem a potencialidade de proporcionar uma série de experiências
sensoriais que são atrativas para os turistas, oferecendo gratificações e satisfazendo
expectativas e motivações de vários tipos: intelectual (pela aquisição de conhecimentos e
saberes), sensorial e emocional (pelo contacto e vivência real de experiências sensoriais),
e mesmo social (pelo reconhecimento e significado que é atribuído ao património). As
associações simbólicas atribuídas ao património tornam a imagem afetiva mais atraente.
Tal pode acontecer com manifestações culturais e experiências que encerram promessas
emocionais, como a gastronomia, as danças, a música, práticas sociais e atos festivos.
De facto, seja pela atração nostálgica que o património cultural imaterial pode
exercer, enquanto representação simbólica da cultura, seja pelo apelo das emoções e
sensações que a experiência deste tipo de Turismo propicia, o Turismo Cultural ocupa um
lugar privilegiado nas escolhas de turistas que visitam Portugal.
Os dados provenientes de um estudo de mercado encomendado pelo Turismo de
Portugal, IP à GfK Metris, efetuado em 2010, com os objetivos de, entre outros, avaliar a
satisfação dos turistas e identificar as motivações de visita dos mesmos, a Portugal,
permitiram concluir, com clareza, que, para além da oferta natural, a oferta cultural
(incluindo monumentos e museus, e atividades culturais) deste país ocupa o mais alto
nível em termos de satisfação. Para além das paisagens e das praias, a gastronomia e os
vinhos são os pontos de contacto com maior nível de satisfação, sendo ainda os aspetos
que mais superam as expectativas. Por outro lado, determinados aspetos relacionados
com a capacidade de receção dos turistas estrangeiros, como o domínio de idiomas
estrangeiros e a informação turística encontram-se entre os níveis mais baixos de
satisfação, em relação às expectativas, pelo que são pontos a ter em conta na divulgação
do património cultural.
Na Carta Internacional do Turismo Cultural, adotada pelo ICOMOS na 12ª
Assembleia Geral no México, em Outubro de 1999, a propósito da gestão do Turismo nos
sítios com significado patrimonial, a atividade turística é apresentada como uma forma de
aceder ao património que pertence “a todas as pessoas”, as quais, por sua vez, têm o
“direito e a responsabilidade de compreender, apreciar e conservar os seus valores
universais”.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
A noção de Património apresentada neste documento é integrada, incluindo, para
além das paisagens e da biodiversidade, locais históricos, sítios e ambientes construídos,
coleções, práticas culturais passadas e continuadas, conhecimentos e experiências
vividas, registando e exprimindo o longo processo do desenvolvimento histórico, e
formando a essência das diversas identidades nacionais, regionais, indígenas e locais,
sendo uma parte integrante da vida moderna. Na Carta, o Turismo é considerado um
ponto de referência dinâmico e um instrumento positivo para o desenvolvimento e para o
intercâmbio, pelo que tanto o Turismo doméstico como o Turismo internacional estão
entre os veículos mais importantes para as trocas culturais, proporcionando uma
experiência pessoal, não só sobre aquilo que sobreviveu do passado, mas também sobre
a vida e a sociedade contemporânea. A Carta reconhece que o Turismo Cultural é
crescentemente apreciado como sendo uma força positiva para a conservação cultural, já
que pode, através da criação de fundos e da educação, contribuir para a sua conservação,
podendo ser um importante fator no desenvolvimento, quando gerido com equilíbrio e
eficácia.
O património cultural, as diversidades e as culturas vivas são, assumidamente,
grandes atrações turísticas, e um dos objetivos primários da gestão do património é a
comunicação do seu significado e a necessidade da sua conservação para a sua
comunidade residente e para os visitantes.
O património cultural é encarado como um recurso material e espiritual, que
permite efetuar uma narrativa do desenvolvimento histórico, pelo que, tendo um papel
importante na vida moderna, deve ser tornado física, intelectual e/ou emocionalmente
acessível ao público geral. Tanto os aspetos físicos como os intangíveis das expressões
culturais e de contexto alargado são apontados como pontos a proteger e conservar,
facilitando uma compreensão e uma apreciação do significado do património, pela
comunidade residente e pelos visitantes, de uma maneira equitativa e sustentável, já que
alguns dos aspetos individuais do património natural e cultural têm a eles associados
valores universais, outros de importância nacional, regional ou local.
Em Março de 2011, o IMC promoveu uma jornada de trabalho anual dedicada ao
tema "A importância do marketing na promoção dos museus", partindo do princípio de
que os museus devem abrir-se e focar a sua atenção, não apenas na sua comunidade
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
envolvente, na sua região, ou o seu país, mas também numa dimensão internacional,
fortalecendo o seu papel estratégico na promoção da cultura e no desenvolvimento
económico, através da organização de eventos culturais, suscitando o interesse e a visita
de públicos diferenciados.
As questões consideradas centrais foram a importância dos Museus na valorização
da oferta de Turismo Cultural, como podem os museus responder melhor às necessidades
específicas de uma visita turística e revestir-se de maior atratividade, qual o grau de
satisfação dos turistas e como este deve ser monitorizado, e como aprofundar a parceria
entre museus, entidades regionais, rede de comercialização e Turismo de Portugal.
Reconhecendo que o incremento da atividade museológica e o surgimento de
uma diversa tipologia de museus, nos últimos anos, em Portugal, não foram
acompanhados por uma adequada estratégia de gestão cultural, económica e social, o
Instituto dos Museus e da Conservação apelou para a necessidade destas instituições
comunicarem, não só com a sua comunidade de base, a sua região e o seu país, como
também numa dimensão internacional, promovendo a cultura a par do desenvolvimento
económico (para a fixação da população), organizando eventos culturais e divulgando os
seus produtos de forma competitiva, para suscitar o interesse e atrair a visita de
diferentes públicos.
Assim, desta jornada de trabalho promovida pelo IMC, concluiu-se que é através
do enfoque na comunicação e no marketing que os museus devem concentrar-se em
atividades que valorizem a experiência e o enriquecimento da visita turística; identificar e
conhecer claramente os públicos que visitam os museus, para melhor corresponder às
expectativas dos visitantes e conseguir a sua satisfação; tornar a interpretação acessível a
todos os públicos, através de recursos variados, incluindo dispositivos multimédia,
réplicas, a comunicação verbal, a oferta de atividades experimentais e interativas;
envolver as comunidades na atividade de divulgação dos museus, sobretudo através de
boas práticas de acolhimento local; manter uma programação regular, a par da renovação
de serviços de acordo com os objetivos e necessidades de visita; estar preparado para
acolher os turistas estrangeiros, fornecendo informação no local em várias línguas,
disponibilizando material informativo, mantendo o funcionamento de websites em, pelo
menos, uma língua estrangeira, proporcionando visitas guiadas e promovendo o
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
envolvimento das equipas técnicas dos museus nas suas atividades para visitantes; e
realizar uma leitura integrada do património na envolvente dos museus, como espaços de
fruição pública. Todas estas estratégias vão no sentido de desenvolver uma atividade
promocional centrada no “cliente” dos museus.
A par destas ações, foi realçada a vantagem do envolvimento das entidades
turísticas regionais e agências de promoção turística no diálogo e criação de parcerias no
quadro da organização da oferta e da promoção turística interna e externa, assim como a
importância que o papel da rede de comercialização turística pode assumir no
empacotamento da oferta, e na gestão e criação de produtos turísticos que constituam
uma oferta integrada.
Enquanto serviços públicos, os museus devem estar cientes de como o seu serviço
é levado a cabo, pois, tal como (Hooper-Greenhill, 1994) afirma, um serviço público não
será mantido se não for usado. Não só se torna importante saber quem visita os museus,
mas também o que lá vão fazer, para além de visitar as exposições, e também por que
razão determinadas pessoas consideram que visitar museus não é adequado para elas.
Uma comunicação interpessoal e interativa, em vez da “comunicação de massas”
(Hooper-Greenhill, 1994), mais distante e para a qual as exposições se encontram, muitas
vezes, devotadas, que permita a troca de ideias, o feedback do visitante, uma maior
acessibilidade ao conhecimento daquilo que é exposto ou proporcionado ao visitante,
aumentando o seu papel ativo, e fomentando a relação dos museus com a sociedade,
fará com que as pessoas se aproximem mais dos museus e sintam que estes espaços são,
de facto, para todos. Visitantes pouco regulares de museus indicaram como possíveis
fatores de aumento da sua motivação para a visita a museus a existência de um ambiente
mais convidativo, relaxante e informal, com exposições envolventes e mudanças
ocasionais de exposições, assim como a abordagem de aspetos da vida quotidiana do
passado, feitos, história local e nacional (Hooper-Greenhill, 1994).
A procura da melhoria contínua, para os museus, passa também por se adaptar às
necessidades do público e atrair diferentes tipos de visitantes, proporcionando
exposições com recursos multimédia e interativas, para envolver o visitante e dar vida ao
passado, a par de atividades diversificadas e adaptadas a públicos diversos.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
I.V Os museus como espaços promotores de cultura e de educação
Definidos pelo ICOM como instituições de caráter permanente, sem fins lucrativos,
colocados ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, os museus são espaços
abertos ao público, cuja atividade inclui a aquisição, a conservação, o estudo, a
comunicação e exposição de testemunhos materiais do Homem e do seu meio ambiente,
com objetivos orientados para o estudo, a educação e a fruição1. Esta é uma definição
que se estende igualmente aos sítios e monumentos naturais, arqueológicos e
etnográficos e aos sítios e monumentos históricos com caraterísticas de museu pelas suas
atividades de aquisição, conservação e comunicação dos testemunhos materiais dos
povos e do seu meio ambiente, assim como a vários outros espaços, instituições ou
organizações sem fins lucrativos que desenvolvem atividades de conservação,
investigação, educação, formação, documentação e outras relacionadas com museus e
museologia.
O ICOM reconhece a Convenção da UNESCO como uma iniciativa significante para
a renovação da relação dos museus com o património imaterial, nomeadamente através
da promoção de abordagens integradas sobre o património material e o património
imaterial, referindo os museus como veículos para a contextualização de coleções do
passado e para demonstrar a sua relevância no presente (Galla, 2003).
Focando, sobretudo, o papel das bibliotecas e arquivos no tratamento do
património imaterial, pela documentação de coleções, defende que o desafio atual
consiste em estabelecer padrões para a documentação do património imaterial.
Insistindo nesta ideia, o ICOM considera necessário possuir ferramentas de
documentação adequadas, que permitam a integração eficaz do património imaterial na
prática museológica. Defende, ainda, que o património imaterial é relevante para todas
as formas de património, seja ele móvel ou imóvel, material ou imaterial, um produto da
criatividade ou do desenvolvimento, e que, por isso, ele requer colaboração
interdisciplinar, não sendo da exclusiva responsabilidade dos museus (Galla, 2003).
1
Extraído dos Estatutos do ICOM, adoptados na 16ª Assembleia Geral do ICOM (Haia, Holanda, 5 de Setembro de 1989) e alterados
pela 18ª Assembleia Geral do ICOM (Stavanger, Noruega, 7 de Julho de 1995) e pela 20ª Assembleia Geral do ICOM (Barcelona,
Espanha, 6 de Julho de 2001) Artigo 2º.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Definir o papel dos museus relativamente ao património imaterial tem sido uma
preocupação de vários autores ligados à museologia e a instituições que regulam o
património.
No seu artigo “Museology and the Intangible Heritage of Learning”, Ann Davis
(2004), baseando-se em autores como John H. Falk e Lynn D. Dierking, debruça-se sobre a
questão da aprendizagem no contexto dos museus, entendendo-a como uma forma de
património imaterial, fazendo-o equivaler a conhecimento.
Segundo esta autora, as pessoas acorrem aos museus procurando precisamente
aquilo que os museus podem oferecer-lhes em termos de património imaterial, pois, na
sua opinião, elas visitam os museus com o principal intuito de aprender, e a
aprendizagem é o principal “bem” que elas, efetivamente, levam dessa experiência. Davis
acrescenta que, “neste mundo cada vez mais complexo, as pessoas anseiam por
encontrar conhecimento e significado”, e por isso mesmo vão aos museus. Também
Hooper-Greenhill (2000) partilha desta ideia de que o ser humano procura significado,
quando se refere ao papel educativo dos museus. No entanto, este significado não é
estático, mas sim sujeito a mudanças ao longo da vida, pois as circunstâncias históricas e
culturais afetam a interpretação que é feita. Para Hooper-Greenhill, o significado é
construído através e dentro de uma cultura, tal como a perceção, a memória e a
interpretação são construtos culturais. A memória, por sua vez, é organizada em torno de
experiências e episódios pessoais, estando relacionada com experiências biográficas, mais
do que com coisas abstratas, pelo que a transmissão de conhecimento em museus deve
ter em conta todos estes fatores. Os processos de interpretação são complexos e ativos, e
isso significa também que não existe conhecimento fora do indivíduo, pois o
conhecimento forma-se através do significado que cada indivíduo constrói a partir das
experiências que vive, e é a isso que, segundo Hooper-Greenhill (2000), se chama
interpretação no âmbito da Arqueologia.
No mesmo sentido de pensamento, para Falk e Dierking (2000), que, por sua vez,
fazem recordar as teorias de John Dewey (citado por Davis, 2004), os museus são locais
onde tanto as crianças como os adultos podem descobrir de uma forma lúdica sobre o
“passado, o presente e o futuro da humanidade, o mundo natural, e o cosmos”, um
espaço onde o público pode “encontrar significado e ligação”, que é, afinal, na sua
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
opinião, o propósito da aprendizagem – “construir significado e encontrar ligações”. A
experiência da visita ao museu seria, assim, uma espécie de encontro com si mesmo,
enquanto indivíduo e parte de uma comunidade, que vai encontrar e reforçar a sua
identidade e sentimento de pertença a uma cultura e a um mundo mais vasto. Na
aprendizagem que o visitante faz, ele revê-se e recorda, ele toma consciência de si
mesmo, de acordo com a interpretação que ele próprio faz daquilo que apreende. Essa
experiência deve ser de caráter lúdico e não-formal. Também Hooper-Greenhill (2000)
defende a ideia de que os museus constroem significado através da interpretação da
cultura e dos vestígios materiais, assim como de abordagens pedagógicas, de caráter
informal, que determinam relações cada vez mais próximas com o público ou visitantes,
reforçando o papel social destas instituições.
A interpretação dos objetos pode ser meramente factual ou revestida de
significado emocional (Hooper-Greenhill, 2000: 3). Por outro lado, eles estão sujeitos a
múltiplas interpretações, por vezes até contraditórias. E se os objetos, individualmente,
são de interpretação complexa, mais o são em conjunto, em exposições (combinando
grupos de objetos com palavras e imagens. Segundo esta autora, o significado dos objetos
no seu conjunto reside na relação estabelecida entre estes e outros elementos, com a
finalidade de comunicar. A forma como se expõe (incluindo a maneira como os objetos
são usados ou dispostos; a forma como os textos são escritos; o envolvimento sensorial –
visual, táctil, auditivo; o uso da luz, da cor, e do espaço, entre outros) constitui,
porventura, o mais importante meio de transmissão de conhecimento e significado, em
museus, sendo também uma questão problemática e complexa porque se trata de uma
“tecnologia visual”, e porque nem sempre é tida em conta a forma como a mente dos
visitantes irá processar o que eles observam e efetuar a sua interpretação. Se as
exposições são criadas com o objetivo de comunicar significado através da sua
visualização e dos textos que as acompanham, então elas devem conter uma coerência
interna, que facilite a sua compreensão pelo visitante, considerando ainda a existência de
diferentes públicos e, por conseguinte, diversas formas de apreensão de significado e
conhecimento.
John Dewey explica esta relação entre o indivíduo e a aprendizagem no contexto
dos museus e outras instituições culturais, especialmente no contacto com a arte. Para
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
ele, é necessário que haja uma ação inteligente e intencionada para que a interação de
uma experiência se torne significativa. Por outro lado, para Dewey, a vida inteligente
envolve três componentes: ação, emoção e entendimento. Assim, a nossa experiência
nos museus só se torna viva se estiver baseada em experiências concretas e vividas. A
ligação especial que ocorre entre um visitante e um objeto de museu, entre um
espectador e uma obra de arte, é uma atividade, um esforço que parte da pessoa. Esse
esforço é válido e repetido porque, segundo Dewey, o contacto, a ligação que se
estabelece faz libertar “hábitos antigos e profundamente estabelecidos” ou “memórias
orgânicas enraizadas”. No entanto, esses velhos hábitos são “implantados de novas
formas”, adaptando-se a “um mundo mais completamente integrado”, de maneira a que
“eles próprios atinjam uma nova integração”.
Dewey antecipa, assim, a nova museologia, dando ênfase ao papel ativo do
visitante no seu processo de aprendizagem. No espaço do museu, um visitante pode ter
experiências mais ativas ou passivas, conforme o tipo de atividade, sendo que quanto
mais ativo for o papel do visitante, mais ele aprenderá e apreciará a sua experiência. Os
museus dispõem de vários instrumentos para proporcionar essas experiências…
A Convenção da UNESCO (2003) sugere, de acordo com Cabral (2009), que a
salvaguarda do património imaterial deve ser feita de várias formas: uma que engloba a
identificação, a documentação e a pesquisa sobre o património; outra onde se inscreve a
sua preservação, proteção e promoção; e uma terceira que compreende ações de
valorização, transmissão (através da educação formal e da educação não formal), e a sua
revitalização.
Os museus têm claramente um papel preponderante em qualquer uma destas
formas de atuação sobre a salvaguarda e promoção do património imaterial, e todas elas
são discutíveis do ponto de vista antropológico quando se trata de culturas vivas, como já
foi debatido anteriormente. Em relação ao terceiro ponto de ação, será importante
refletir sobre a forma como os museus podem e devem ser transmissores desse
património.
Nesse sentido, tenhamos em mente um aspeto focado por Dewey (citado por
Davis, 2004) – o de que o significado contribui para que se dê valor às coisas. Segundo
este filósofo, as pessoas procuram constantemente o significado e o valor das coisas, e
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
esta procura é fluida, e está em constante desenvolvimento. Dewey realçou a ideia de
que aprender deve ser algo holístico e contextual, que deve ocorrer num ambiente
alargado, mas baseia-se na cultura específica do indivíduo. Assim, aprender, de uma
forma geral, e aprender em museus, em particular, é uma atividade participada, um
diálogo que requer envolvimento e esforço.
Segundo Hooper-Greenhill (1998), os desafios que se colocavam a estas
instituições, no final do século XX, para o século seguinte, eram conservar (recuperar e
conservar peças e objetos), estudar (investigar sobre esses objetos), e comunicar (através
das atividades e práticas profissionais que permitem aceder aos objetos e ao resultado da
investigação sobre os mesmos). Segundo esta autora, a comunicação nos museus inclui,
para além das atividades de publicidade e marketing, que servem para atrair visitantes, o
estudo (investigação e avaliação) das suas necessidades, proporcionando o material
necessário para satisfazer essas mesmas necessidades intelectuais (de educação e ócio).
No âmbito dos museus, a educação e o ócio encontram-se juntos, estando relacionados
com o saber e o espírito. As exposições, os workshops e as mostras servem esse propósito
educativo dos museus, que oferecem a oportunidade de aprofundar o conhecimento e a
experiência. Mesmo na sua vertente lúdica, as atividades disponibilizadas pelos museus
têm sempre como objetivo último a oferta de algo novo, que desperte o interesse do
visitante e tenha um valor potencial, pois estão cientes de que aprende-se melhor de
forma lúdica (Hooper-Greenhill, 1998: 189, 190). Tal como a educação, de uma forma
geral, também a noção de educação para os museus sofreu uma evolução, passando a
considerar atividades mais variadas e um público mais vasto e diferenciado. Para além de
workshops e visitas para grupos escolares, os museus passaram a organizar outras
exposições, workshops e publicações, por exemplo, para outros públicos, como escolas,
famílias e adultos interessados em aprender. Tal como Eilean Hooper-Greenhill (1998:
192) defende, esta educação feita pelos museus é exercida tanto dentro como fora dos
mesmos, e tanto serve aqueles que procuram amplo conhecimento como aqueles que
procuram pouco, estando “conscientes de que necessitam de ampliar o seu público e ter
mais peso em mais setores da sociedade”.
Dando mais importância aos processos do que aos resultados, por outro lado, os
museus têm a possibilidade de expandir e aproximar mais da realidade as atividades que
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
promovem, dando também mais espaço à curiosidade. Para aquela autora (1994, 1998), a
função educativa dos museus concretiza-se através de dois métodos comunicativos: a
comunicação de massas e a comunicação interpessoal, sendo a primeira mais distante e a
segunda mais direta, mas ambas informais e orientadas para a satisfação de
necessidades. Formas de comunicação como exposições, mostras temáticas, publicações,
filmes, materiais educativos, serviços de empréstimo e museus móveis inserem-se no
primeiro tipo e não são necessariamente negativas. A forma direta de comunicação
engloba estratégias como a experimentação, desenho e outras atividades práticas, troca
de ideias, dramatização, conferências e workshops.
A forma como o contacto com novos conhecimentos e experiências é
proporcionado pelos museus é, também, determinante para a atribuição de significado à
informação que é transmitida aos visitantes, pois o nível de participação do visitante na
apresentação da informação irá condicionar a sua memorização, uma vez que o ser
humano memoriza mais facilmente aquilo que faz e diz (Hooper-Greenhill, 1998: 193),
devendo as formas de aprendizagem e participação estar de acordo com a quantidade de
informação que somos capazes de recordar. Assim, a prática e a participação ativa serão
as melhores formas para melhorar a perceção e reforçar a memorização. A via simbólica
de apreensão, marcadamente abstrata, feita através da linguagem verbal é a mais
complexa e exigente. A forma icónica, muito frequente em museus, que recorre ao
método visual ou outras representações bidimensionais ou tridimensionais da realidade,
em exposições, torna a apreensão mais concreta e menos complexa, pois apela, de
imediato aos sentidos. Contudo, “as imagens são elementos complexos e o seu uso nem
sempre é tão simples quanto parece”, para além de nem sempre as exposições retirarem
o máximo proveito do potencial didático que os elementos icónicos possuem para
transmitir mensagens (Hooper-Greenhill, 1998: 195). Segundo esta autora, uma maior
associação dessas imagens a coisas reais e do quotidiano pode facilitar o processo de
comunicação. Alargar a oferta de possibilidades de interação com essas imagens é outra
forma de as tornar mais significativas, apostando em atividades como salas de
descoberta, manipulação de objetos, filmes, vídeos interativos, e encenações.
No entanto, a forma ativa, conduzida através de coisas reais, como objetos,
pessoas, atos ou experiências é a mais acessível para qualquer nível de aprendizagem e
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
de conhecimento, podendo ser aplicada com diferentes tipos de pessoas. Esta forma de
apreensão resulta, ainda, mais divertida e interessante (Hooper-Greenhill, 1984: 194,
195), pelo que os museus deverão apostar em estratégias como exposições interativas,
oficinas práticas e a manipulação de objetos e instrumentos, jogos seguidos de trabalho
de reflexão e análise, usando processos dinâmicos e criativos.
Enquanto espaços de comunicação, os museus são, também, produtores de
cultura. Nas abordagens sobre teoria social e cultural (Hooper-Greenhill, 2000), a
interpretação e o reconhecimento crescente do poder generativo da cultura e da
comunicação conduz-nos à crença de que a representação não reflete a realidade, mas
atribui significado e confere valor. Assim, ela forma realidade. Na cultura, a comunicação
é entendida como uma forma de produção e reprodução, devido ao seu papel na
construção de significado através das ações dos indivíduos e grupos. Ao atribuir
designações, classificar e dispor vestígios materiais, os museus fazem opções para se
adaptar ou resistir a classificações culturais que afetam as suas vidas e identidades
(Hooper-Greenhill, 2000), dando também aos seus visitantes a oportunidade de usar os
seus conhecimentos prévios para construir novo conhecimento, construindo significado
através de experiências interpretativas proporcionadas pelos museus, que reforçarão o
seu sentimento enquanto agentes sociais.
Segundo esta autora, entendidos como uma forma de política cultural, os museus
podem reunir os conceitos de narrativa, diferença, identidade e estratégias de
interpretação no sentido de criar formas de negociação das práticas culturais dominantes.
Tomando uma posição crítica, os profissionais dos museus têm a possibilidade de cruzar
fronteiras facultando diferentes narrativas, e estabelecendo ligações entre diversas
disciplinas.
I.VI O Património Imaterial e os museus: uma nova conceção de museu?
Que implicações terá tido este conceito mais recente – de património imaterial,
para espaços de dinamização cultural como os museus, e na forma de encarar o
património cultural de índole imaterial, ou mesmo o de natureza material?
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Apesar de defenderem que ele não trouxe nada de novo, alguns autores assumem
que terá tido implicações práticas na forma de encarar o património e de o expor e
promover em museus.
André Desvallées (2004) (Conselheiro permanente do ICOM e responsável por
“Thesaurus Museologicus”), no seu “Provocative Paper” apresentado no Simpósio
Internacional, organizado pelo ICOFOM, da 20ª Conferência Geral do ICOM, em Seul,
Coreia, levantou algumas questões sobre os termos “imaterial” e “intangível”,
defendendo que, do ponto de vista museológico, o “imaterial” não é mais do que “a
emanação do material”, que não pode existir ou ser exposto sem testemunhos tangíveis
(artefactos ou espécimes naturais). Assim apresentado, o património imaterial poderia
apenas consistir naquilo que os vestígios materiais representam e significam, não estando
claramente definido.
Por outro lado, a questão do “património imaterial” será, para Desvallées (2004),
uma falsa questão, por não o considerar algo de novo, assumindo que “os historiadores
de arte sabem que grande parte da criação é imaterial”. De facto, a criação pode ser
parcialmente imaterial, já que é mental e que tem significados, mas tal não é suficiente
para que a obra se torne “património imaterial”, pois este requer um reconhecimento
social.
Da mesma forma, ainda que os etnólogos tenham já registado, antes do
surgimento do conceito de “património imaterial”, “as manifestações culturais das
diferentes culturas”, como “as festas, as cerimónias, as danças, os processos de
fabricação ou momentos da vida” e de não se tratar, de facto, de um novo problema
afirmar que um objeto não tem sentido por si só, ou que “os museus estão repletos de
objetos (património material) que são o suporte do património imaterial” (Desvallées,
2004), o reconhecimento da importância histórica e cultural do património imaterial veio
legitimar, sobretudo, a sua classificação internacional/mundial, e reforçar a sua
salvaguarda, não apenas a sua inventariação, ajudando, ainda a defini-lo e a interpretá-lo.
O património imaterial está, naturalmente, associado à Etnografia, dada a sua relação
com as manifestações culturais, mas não se limita a esse aspeto.
Curiosamente, Pais de Brito (2009), atual Diretor do Museu Nacional de Etnologia,
partilhando da ideia de que o património imaterial se aproxima da Etnografia, realça, no
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
entanto, a dificuldade de os museus etnográficos acompanharem e representarem o
presente, num diálogo permanente com a realidade existente, pelo que considera que
estes se foram tornando cada vez mais representativos do passado e, assim, “em museus
de História ou Arqueologia”, onde “o tempo é guardado e categorizado”… Será, então,
que até os museus de Etnografia estão condenados a ser uma vitrina do passado? Ou será
que a solução passa, apenas, por encarar o património de um outro prisma? Tanto os
vestígios materiais como os próprios museus devem ser encarados de outra forma,
abordando o património material e o património imaterial em estreita articulação.
Sendo a vitalidade uma das caraterísticas fundamentais do património imaterial,
alguns autores demonstraram o receio de que a musealização de vestígios que
testemunhem esse património “pudesse parar a mudança” e “produzir objetos mortos,
que não têm nada em comum com o património imaterial real e vital das comunidades e
dos indivíduos”. Mas será que a musealização dos objetos que testemunham o
património imaterial estará, de facto, a fossilizar a cultura imaterial e a impedir a sua
natural renovação?
Mesmo a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, da
UNESCO, de 2003, não esteve isenta de polémica sobre a questão da “fossilização”, pelo
seu próprio título alusivo à preservação, proteção, ou conservação do património cultural
imaterial, apesar de, em conteúdo, defender a sua livre mutação.
A musealização de objetos representativos da cultura imaterial estará a ser
erradamente interpretada como um desses processos de fossilização, já que a presença e
divulgação de um ou mais exemplares no espaço de um museu não impede a continuação
da sua evolução (no sentido de mudança), e de permanecer “vivo” através da
transmissão, reinvenção e recriação. Da mesma forma, tal como Inaba (2009) defende,
tendo em consideração que o património cultural imaterial está em constante processo
de recriação, podemos questionar a relevância do aspeto “autenticidade”, tal como ele é
aplicado em relação ao património cultural material, na sua identificação e salvaguarda.
Cada objeto teve, num determinado contexto (temporal, espacial e cultural), o seu
significado, que pode ser estudado e divulgado, sem prejuízo de continuar a ser
transformado por ação de fatores de continuidade e de mudança cultural. O papel do
museu, enquanto instituição que promove a educação e a cultura, é o de transmitir
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
saberes, pelo que a sua ação está em consonância com a natureza do património
imaterial. Apesar de o objeto deixar de se encontrar no seu contexto de utilização
habitual, tal não implica que ele fique desprovido de significado. Aquilo que ele
representou no seu contexto de utilização corresponde ao seu significado, que é
interpretado no espaço do museu, ao mesmo tempo que continua a viver na memória
coletiva, e a refletir-se em aspetos de continuidade e/ou de mudança cultural, de acordo
com as vivências de uma comunidade.
Se aceitarmos a posição de autores que defendem que a intervenção legal sobre o
património cultural só é plausível quando recai sobre produções e espaços desaparecidos
e que transcendem agora os seus próprios autores, já que a sua aplicação sobre culturas e
espaços naturais vivos irá interferir, parar e fossilizar a dinâmica dos processos sociais,
institucionalizar intervenções de poder na vida dos indivíduos e grupos, resultando
inoperante e gerando, muitas vezes, um efeito contrário ao desejo de proteção dos traços
originais dessa cultura (Barañano, 2007: 292), então a musealização de vestígios
arqueológicos enquanto recursos auxiliares do conhecimento e da compreensão do
significado de traços culturais de tempos passados estará à margem de polémicas sobre a
fossilização, ainda que, em muitos casos, façam ainda parte de uma herança cultural que
se reflete no presente.
Os museus etnográficos vieram tentar estabelecer uma aproximação com as
comunidades e a sua cultura, sobretudo a popular, enquanto outros museus, de índole
temática ligada ao património imaterial, realçaram aspetos culturais que anteriormente
não seriam tão valorizados. Os museus etnográficos trouxeram, contudo, várias
preocupações e questões acerca da “fossilização” de culturas vivas, sendo muitas vezes
alvo de críticas, em alguns casos bem fundamentadas, devido à forma inadequada como
se apropriaram e expuseram determinados aspetos culturais e até humanos (Durand,
2007). Surge, assim, a questão: estará a divulgação do património imaterial confinada aos
museus de natureza etnográfica, ou poderá um museu de Arqueologia, por exemplo,
também ter esse papel? Em caso afirmativo, estará ele a ser totalmente cumprido, tendo
em conta a função mais alargada dos museus na divulgação cultural e promoção turística
do património, tirando proveito do desenvolvimento do Turismo Cultural?
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Em Portugal, o património imaterial está oficialmente associado aos museus,
sendo atribuição do Instituto dos Museus e da Conservação, IP (IMC), que promove,
através do seu Departamento de Património Imaterial, o estudo, a salvaguarda e a
divulgação do Património Cultural Imaterial.
Em termos de divulgação de património imaterial, e após a ratificação portuguesa
da Convenção de 2003, da UNESCO, o trabalho realizado pelos museus da Rede
Portuguesa de Museus (RPM) esteve, até bem recentemente sobretudo associado à
recolha, inventário, estudo, classificação de manifestações culturais, e à constituição e
exposição de testemunhos materiais das mesmas, à semelhança daquilo que já vinha
sendo efetuado no âmbito de museus etnográficos, como demonstram pesquisas
efetuadas por Freire (2009). O registo de informação em diversos suportes, facilitado por
meios tecnológicos mais avançados, de captação de som, imagem e movimento, trouxe
alguma inovação, e mais qualidade, a esse trabalho, que beneficiou de orientações
científicas oriundas de órgãos como a UNESCO e, a nível nacional, o IMC. O facto de estes
estudos terem recaído sobre objetos ainda em uso e no seu contexto original (Freire,
2009) faz crer que eles encerram vida. No entanto, a sua divulgação, feita através de
publicação da informação recolhida, pouco ou nada transmite a sensação de vitalidade.
Alguns museus têm realizado, no entanto, outras ações mais adequadas à promoção do
património imaterial (Freire, 2009), como atividades educativas onde são transmitidos
saberes-fazer, oficinas para adultos e crianças, e outras atividades de caráter prático,
como jogos tradicionais (Museu Municipal de Penafiel, Museu Municipal de Faro).
Verifica-se que, nos exemplos facultados por Freire (2009), são os museus detentores de,
entre outras, coleções de caráter etnográfico, que mais se destacam na promoção deste
tipo de atividades de índole prática de transmissão. Nos casos observados por esta
autora, como exemplos da realidade museológica nacional, são mencionados os saberesfazer como parte das atividades de divulgação do património imaterial, mas raramente
são especificadas as práticas que os concretizam e as temáticas abordadas. É também
feita alusão aos Programas Escolares, mas, novamente, sem especificar as atividades que
ajudam a compreender e a transmitir este património.
Nos exemplos aqui facultados, o contacto e o envolvimento da comunidade são
procurados e fomentados, não apenas para contribuir para a recolha e registo de
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
testemunhos da cultura imaterial, mas também para a realização de algumas ações que
promovem a troca de saberes, apesar de a ênfase estar, ainda, sobretudo colocada nos
estudos, recolha e registo, e sua posterior divulgação através da exposição de coleções, e
da apresentação das conclusões dos estudos efetuados sobre os vestígios materiais e as
manifestações culturais, em eventos públicos criados para o efeito. O trabalho de reflexão
e de estudo é de grande importância para o conhecimento do significado das
manifestações culturais, que, em alguns casos, ainda não foram classificadas como
património. Esses estudos podem fundamentar a sua classificação. No entanto, somente
conjugando a transmissão dos próprios saberes, através da experiência prática, com a
compreensão do seu significado, se completa a ação de promoção do património
imaterial. Desvalorizo, por outro lado, as tentativas forçadas de dar continuidade e
revitalizar práticas culturais que já não encontram identificação nas comunidades. A
realização de muitas das manifestações culturais que se procura revitalizar (sobretudo,
festas tradicionais) serve, atualmente, apenas como entretenimento dentro das próprias
comunidades, nas quais o significado de tais tradições já se perdeu no tempo. Intervir no
sentido de dar continuidade a tais manifestações sem que a comunidade nelas encontre
significado ou identificação será, para os museus, uma ação desprestigiante. Por outro
lado, investigar sobre elas será apenas uma forma de as registar e, eventualmente, dar a
conhecer, sem que haja implicações práticas a nível da evolução do património.
À exceção dos museus de caráter etnográfico, onde se incluem os dois exemplos
acima descritos, o património imaterial não parece ser trabalhado de forma consciente, a
nível nacional.
Terá, assim, a clarificação e distinção do (novo?) conceito de património imaterial
trazido, de facto, alguma inovação na forma como ele é divulgado nos museus? E serão
estas as estratégias mais adequadas para esse fim?
Documentar é, sem dúvida, uma função dos museus, pois essa tarefa permite
valorizar e contextualizar. Essa será uma estratégia de divulgação daquilo que podemos
chamar de vertente imaterial do património, ou seja, da própria história e percurso dos
vestígios expostos em museus, ou mesmo de exemplos ou amostras. No entanto, divulgar
o património imaterial carece de estratégias que vão muito além da recolha, registo,
inventário, e documentação. O património imaterial, pelo seu caráter de vitalidade e
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
expressividade física, que estão presentes em todas as manifestações culturais, envolve
práticas e saberes que são, por natureza, transmitidos de geração em geração, a pessoas
de uma mesma comunidade, ou (porque não?) externas à mesma. Assim, mais do que
proceder à sua documentação, deve ser promovida, mas não forçada, a sua transmissão,
adaptação e evolução, para prolongar a sua vitalidade e a sua prática evolutiva, enquanto
fizerem sentido em termos culturais e sociais. Os museus, enquanto espaços de saber e
cultura, como representantes de uma comunidade, têm também essa função. O
desenvolvimento de atividades práticas e reais, que sirvam este objetivo, será a forma
ideal de cumprir este seu papel.
A tarefa fundamental dos museus não será, assim, apenas a conservação, o
inventário e a divulgação, mas também a transmissão, através da dinamização de
atividades de caráter prático e da educação não formal, de acordo com a natureza do
património imaterial.
Qual será, então, o papel dos vestígios materiais, exibidos nos museus, na
promoção do património imaterial?
Tal como afirma Desvallées (2004), o “material” testemunha o “imaterial”, já que
“em termos museológicos, o intangível só pode existir enquanto emanação do material e
a sua restituição só pode ser uma evocação feita através de provas materiais”. Para ele,
todo o interesse mais recente pelo “património imaterial” e “a campanha atual a favor da
proteção do património intangível” deriva do facto de “este património ter sido
largamente ignorado, e mesmo desprezado, pela maioria dos políticos”, até então. Ainda
segundo Desvallées, os museus são também responsáveis, por terem, “durante muitos
anos, desprezado tudo aquilo que não se destacasse como grande arte”, numa clara
preferência por objetos de valor artístico em detrimento do seu significado (e valor)
cultural.
Os museus foram refletindo uma mudança gradual de mentalidade face ao valor
patrimonial. Se, de início, se dava mais importância ao valor material (e comercial) dos
achados, se eram os critérios da História da Arte e a monumentalidade dos vestígios que
se sobrepunham no momento de seleção dos vestígios a recolher dos trabalhos
arqueológicos e a expor em museus, mais tarde passa-se a valorizar, não só o material em
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
si, mas também o significado histórico-cultural dos vestígios, e a sua representatividade
nesse contexto.
Facto é, e os dados estatísticos fornecidos pelo IMC (2011) assim o comprovam,
que os visitantes (sobretudo, turistas) sentem uma maior atração por monumentos de
maior dimensão e edifícios ou construções que ostentam uma maior riqueza material e
beleza estética. Em Portugal, as visitas a palácios atingem números bastante superiores às
visitas feitas a museus ou sítios arqueológicos, sobretudo se estes últimos se encontrarem
muito degradados. As visitas a museus são maioritariamente efetuadas por público
escolar. A informação, geralmente complexa, sobre as coleções expostas, que nem
sempre é percetível sem a ajuda de um guia ou de informação adicional que auxiliem a
sua interpretação e valorização, torna-se menos acessível a determinados públicos,
afastando-os dos museus, para contemplação de monumentos que cativam pela sua
dimensão e ostentação, valor artístico, ou beleza estética. Em termos de visitantes
estrangeiros, a já mencionada barreira linguística e a falta de atividades orientadas para
esse público podem ser fortes entraves à captação de público oriundo de outros países.
Os números revelados pela estatística, apesar de reais, não são tanto o reflexo de
uma preferência turística ou cultural, mas antes a consequência de uma inadequada
política cultural e insuficiente adequação das estratégias de promoção de espaços
culturais como os museus. Tornar a informação acessível é um primeiro passo para
contrariar essa tendência. A valorização do património imaterial e a abordagem
diferenciada que este proporciona, nos museus, não se fechando sobre os vestígios
materiais, podem revestir estes espaços culturais de maior atratividade para o seu
público.
Não será, de facto, algo de novo, afirmar que os objetos não têm qualquer sentido
por si só. Para além disso, a interpretação que fazemos dos objetos está sujeita ao
contexto em que eles são apresentados e à visão subjetiva de cada visitante. Mas não
será possível objetivar esta interpretação?
Tal como Giovanni Pinna (2003) e Hooper-Greenhill (1994, 1998, 2000) defendem,
os museus desempenham uma importante função no que concerne à construção do
significado que é atribuído aos objetos. No caso de um museu de Arqueologia, por
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
exemplo, todo o processo de trabalho que está por trás das coleções, desde a prospeção
arqueológica à investigação documental, e ao registo, seleção, conservação e eventual
restauro das peças achadas, condicionará as interpretações históricas e científicas de um
determinado objeto. Da mesma forma, a própria montagem das exposições num museu
atribui significados simbólicos aos artefactos.
Os objetos são fundamentais para simbolizar e representar ideias e pensamentos
mais complexos, facilitando a sua compreensão. Eles dão forma material a ideias
abstratas que, sem este testemunho visual, seriam mais difíceis de interpretar. Os
vestígios materiais são testemunhos de uma cultura, de modos de viver e de formas de
encarar o mundo, traduzindo valores, práticas, costumes e crenças, quando
contextualizados no tempo, no espaço e na relação dos indivíduos (a eles associados) com
o meio que os rodeia. Os objetos exibidos em museus são fortes potenciais geradores de
reação e de emoção nos visitantes, seja porque lhes transmitem familiaridade ou porque
lhes causam estranheza, podendo em ambos os casos ser usados como forma de atrair o
público para as questões culturais que os envolvem e explorar esses significados.
A interpretação dos artefactos, que atuam como símbolos da cultura imaterial, é
feita através de um processo sensorial e cognitivo, que envolve simultaneamente o corpo
e a mente (Hooper-Greenhill, 2000), na apreensão de nova informação no ambiente que
nos rodeia, e no ato de processar esta informação relacionando-a com o conhecimento
pré-existente. A interpretação dos objetos deve, assim, ser interativa e dialógica, para os
tornar significativos.
Para além de podermos ver os objetos, também podemos ler, falar e escrever
sobre eles. A forma verbal de conhecimento é especialmente importante na
interpretação dos vestígios materiais porque, tal como Hooper-Greenhill (2000) afirma,
permite analisar e avaliar o conhecimento sobre os objetos, facilita a comparação entre
diferentes ideias, e possibilita a partilha e a discussão. Sem o conhecimento verbal seria
mais difícil efetuar alterações no conhecimento ou desenvolver conceitos mais
complexos.
Outra questão importante, ainda segundo esta autora, é a de que a interpretação
baseia-se na descoberta do significado de algo através de uma experiência de diálogo
entre o detalhe e o todo, numa interrelação entre ambos, pelo que o todo deve ser
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
entendido a partir dos elementos individuais e as suas combinações, e, por outro lado, o
entendimento total de cada elemento requer a compreensão do todo. Assim acontece
em relação à interpretação dos vestígios materiais enquanto elementos de uma
exposição e a cultura enquanto o todo que se pretende que seja apreendido com base
nesses testemunhos individuais.
Nesse sentido, os museus, enquanto instituições às quais interessa o património
cultural, são veículos privilegiados de transmissão e promoção do mesmo, em termos
turísticos, recreativos, educativos e comunitários. Os museus (e não apenas os de
natureza etnográfica) têm evoluído no sentido de deixarem de ser meros depósitos de
objetos em exposição, tornando-se espaços dinâmicos, de investigação constante e de
comunicação cultural, representando simbolicamente a sociedade e a cultura,
contribuindo para a criação de memória coletiva e identidade, reproduzindo expressões
culturais, transmitindo conhecimentos e valores, e proporcionando experiências e
sensações.
Assim, os objetos expostos, por exemplo, auxiliam a comunicação de
determinadas ideias, sugerindo e permitindo diferentes interpretações, de acordo com o
contexto passado e o contexto presente, através da educação não formal, e de técnicas
de interpretação que permitam o diálogo entre o visitante e aquilo que ele visita, e a
participação ativa do mesmo nesse processo.
Citando ainda Giovanni Pinna (idem), através destes processos de atribuição de
significado aos objetos, o museu “ajuda a formar um corpo de conhecimento e, portanto,
uma herança cultural”, que é apresentada e divulgada a uma comunidade que encontra
identificação com ela ao reconhecê-la, pelo que os museus não só incitam à interpretação
participativa do significado dos artefactos expostos, como também à transmissão de
cultura (de saberes-fazer e de conhecimento sobre práticas culturais).
O valor histórico e cultural atribuído ao património, e aos vestígios arqueológicos
expostos em museus, dota-os de significado no contexto histórico-cultural subjacente.
Tal como Eilean Hooper-Greenhill (2000) sugere, podemos fazer uma distinção
clara entre os museus dos séculos XIX e XX e os museus do século XXI, observando e
perspetivando uma evolução significativa no funcionamento e no papel dos museus face
à cultura e ao património imaterial.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
O futuro produtivo dos museus passa pelo incremento da sua aproximação à
comunidade e a um mais vasto e diferenciado público; pelo desenvolvimento de
atividades diversas e adaptadas a diferentes níveis de conhecimento e necessidades,
tornando mas acessíveis a compreensão e a interpretação dos seus conteúdos (do seu
espólio e daquilo que ele representa); pela promoção de experiências enriquecedoras
baseadas na prática e no contacto interativo com os artefactos; pela transmissão de
cultura, através da educação não formal e do fomento da reflexão sobre o significado
cultural dos testemunhos materiais, e a promoção do património imaterial a eles
associados.
Os museus do século XXI prefiguram-se diferentes dos seus antecessores,
redefinindo os seus objetivos e posição na sociedade e na cultura, encarando novos
desafios. Ao contrário dos museus dos séculos XIX e XX, os museus da atualidade
tenderão a abandonar gradualmente o desejo de criar grandes coleções, preocupando-se
com a forma como os objetos que acolhem e salvaguardam poderão ser usados para criar
significado e transmitir conhecimento, e não com a mera acumulação. Eles darão mais
atenção ao património imaterial, pois ele dará corpo às culturas cujos testemunhos
materiais já se encontram grandemente destruídos e inativos, ajudando a compreender o
seu significado e utilidade.
A exposição dos testemunhos materiais deixará de ser a principal forma de
comunicação dentro dos museus, para se tornar uma de muitas outras formas de
comunicação, fazendo parte de um conjunto de eventos que podem preceder ou suceder
a sua montagem ou a inclusão de objetos na mesma. A inclusão de um objeto na
exposição permanente será sempre precedida de investigação cuidada e provida de
sentido, no conjunto dos outros objetos expostos ou a expor. Outras formas de
comunicação passam por abordagens diferenciadas das exposições patentes, da
realização de atividades diversas de caráter prático, interativo e experiencial, fomentando
sempre o envolvimento sensorial e global, e a participação ativa e crítica do público na
construção do seu conhecimento, dando primazia à interpretação de significados
culturais e à transmissão de saberes-fazer, com as inevitáveis evoluções e adaptações ao
presente, permitindo a reflexão e a mudança, tal como a incorporação de diferentes
vozes e perspetivas, que serão deixadas em aberto. Assim, os museus estarão também a
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O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
criar cultura, ajudando a reformular valores e a transformar relações culturais entre os
indivíduos e o património, reposicionando as suas visões face ao mesmo.
Os museus de caráter etnográfico continuarão a enfrentar questões morais e
éticas na representação simbólica de culturas vivas através de testemunhos materiais,
enquanto a função desses objetos não estiver clara em termos museológicos, e perante a
comunidade. O papel dos museus em relação ao património imaterial de culturas do
passado será mais dificilmente questionado ou alvo de controvérsia, pois os objetos
usados como representação de uma cultura já estão desprovidos da sua utilidade original
e não serão descontextualizados do seu ambiente de uso quando movidos para o museu,
uma vez que os próprios espaços estão desprovidos de vida ou de utilização pelos
indivíduos e comunidades nas quais faziam sentido cultural.
A atividade dos museus transporá as suas instalações, abrindo-se e participando
ativamente na vida da comunidade, fornecendo apoio científico a eventos e a iniciativas
culturais relacionadas com o seu espólio e a sua área de investigação e atuação.
A promoção do património imaterial nos museus, de uma forma geral, dependerá
do entendimento deste conceito e da aceitação da sua importância na interpretação dos
vestígios materiais neles expostos, assim como de uma mudança de atuação com base
nesse património, no sentido da criação de atividades que permitam a sua transmissão e
conhecimento pela via informal.
É necessário transpor para a prática as recomendações já feitas e aprovadas, e isso
requer também uma reflexão séria sobre questões concetuais, a formação de recursos
humanos e a gestão de recursos materiais e de parcerias. Sem uma interiorização de
conceitos, as ações serão inconsistentes.
A democratização dos espaços culturais, tão defendida por vários autores, não é
somente necessária para o público mas também para aqueles que trabalham nos próprios
museus. A informação deve estar acessível a todos eles, para que estes, depois, a possam
trabalhar conveniente e eficazmente, para o público. Não basta enviar para os museus
leis e recomendações. Elas carecem de discussão e análise, para serem cabalmente
entendidas e aproveitadas na prática museológica. Trata-se de uma questão de política
cultural, mas também de formação profissional.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Através do exposto, vislumbrámos já uma relação entre museus de Arqueologia e
património imaterial, mas esta questão será tratada mais em pormenor no próximo
capítulo.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
II. Arqueologia, museus e divulgação do património imaterial em Portugal
II.I A evolução da investigação arqueológica e da interpretação dos vestígios
materiais como fonte de conhecimento sobre o Património Imaterial, e sua
valorização
A investigação arqueológica constitui uma forma de descoberta e conhecimento
do passado da humanidade, não apenas após a História (depois do surgimento da
escrita), mas também, e sobretudo, da Pré e Proto-História, através da interpretação dos
vestígios materiais encontrados. O trabalho dos arqueólogos tem, atualmente, como
objetivo, segundo Carlos Fabião (2011: 10), obter conhecimentos sobre esse passado e
“entregá-los à sociedade que suporta, direta ou indiretamente, os custos dessa
investigação”.
A Arqueologia como disciplina científica resulta, pois, citando Carlos Fabião (1999:
105) “da consciência de que o género humano e o planeta que habita são o produto de
um longuíssimo processo de formação e de uma, igualmente longa, história de
interações”.
Apesar de podermos, porventura, considerar dois períodos para a origem da
Arqueologia (Silva, 1999), nomeadamente o Renascimento europeu (durante o qual
foram descobertos testemunhos materiais do mundo clássico), e a segunda metade do
século XIX, foi apenas durante este último período que a Arqueologia se afirmou como
disciplina científica, baseada em descobertas que atestavam a antiguidade da
humanidade.
O trabalho de investigação em Arqueologia representa um processo meticuloso,
um trabalho físico (no trabalho de campo), mas também intelectual (no estudo, na
investigação, no trabalho de laboratório). Com efeito, para Renfrew e Bahn (1998: 9), a
tarefa mais difícil com que o arqueólogo se depara é “saber como interpretar a cultura
material em termos humanos” (1998: 9), e ser capaz de responder a questões sobre a
forma como foram utilizados os objetos, ou por que motivo as construções tinham um
determinado formato por exemplo. No fundo, conseguir explicar, através dos
testemunhos materiais, a intencionalidade que está por trás dos objetos e vestígios
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
encontrados. Esta continua a ser uma das motivações da investigação arqueológica no
século XXI.
Precisamente pela necessidade que a Arqueologia tem de responder a este tipo de
questões, e fazer um estudo que não se limite ao aspeto material dos vestígios do
passado, ela está associada à Antropologia e à História (enquanto crónica completa da
humanidade, desde o seu início, há cerca de três milhões de anos). Ao contrário do que
sucede em Portugal, onde a Arqueologia é considerada, em termos académicos, um ramo
da História, em países como os Estados Unidos da América, ela é um dos três ramos da
Antropologia (a par da Antropologia Física, da Linguística e da Antropologia Social e
Cultural). Em ambos os casos, poder-se-á, afirmar, contudo, que a Arqueologia está ligada
ao estudo das sociedades do passado, com base na cultura material deixada por elas,
investigando sobre um tempo anterior àquele que a Antropologia Cultural estuda (sendo
que esta analisa as comunidades contemporâneas). Carlos Fabião (1999: 105) alerta, no
entanto, para o facto de que, apesar de a Arqueologia se basear no pressuposto de que é
possível conhecer formas de viver passadas através de vestígios materiais que delas
restaram, tal não significa que “arqueologia” seja sinónimo de “história da cultura
material”.
Por outro lado, excluindo a Antropologia Física (que estuda, sobretudo, os aspetos
biológicos), a Arqueologia será a “única fonte significativa de informação” (Renfrew e
Bahn, 1998: 9) para o estudo da cultura material do passado, já que as fontes históricas
convencionais apenas têm início com o surgimento do primeiro documento escrito, tendo
esse acontecimento ocorrido em períodos diferentes em cada parte do mundo. Tal como
Rodanés Vicente (1988: 25, 26) afirma, a Pré-História corresponde ao “período da vida
humana anterior às fontes escritas”, o que, para Clark (citado por Rodanés Vicente, 1988:
26), equivale “à história das sociedades que não foram capazes de registar a sua própria
história”.
Para conhecer essa História sem fontes escritas, a investigação arqueológica
assenta no estudo dos artefactos encontrados, dos vestígios em pedra, cerâmica, e osso,
mas também em formas de expressão que ficaram registadas nestes suportes (como as
gravuras e pinturas rupestres). Estes testemunhos arqueológicos constituem a
informação que documenta um período sobre o qual não existe outro tipo de fontes, pelo
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
que o estudo desses objetos é o que nos permite aproximar do conhecimento de
sociedades pré-históricas concretas e, portanto, da sua cultura ou forma de viver.
A investigação arqueológica sobre a Pré-História requer um método próprio e tem
encarado algumas dificuldades, mas a chamada “Pré-História moderna” (Rodanés
Vicente, 1988: 142) tem revelado avanços consideráveis, passando a considerar, não
apenas os objetos, mas as sociedades, prestando particular atenção à reconstrução dos
fenómenos sociais e económicos, com base na interpretação desses vestígios
arqueológicos, refletindo uma visão antropológica na condução dos estudos sobre esse
período da vida humana. Fabião (1999: 106) vai ainda mais longe na sua posição face à
investigação arqueológica sobre a Pré-História, defendendo que foi precisamente neste
domínio que a Arqueologia viu as suas técnicas e estratégias de intervenção
desenvolvidas e afinadas; foi, também, neste âmbito que a Arqueologia se afirmou como
disciplina autónoma e foi graças às práticas nele desenvolvidas que a investigação
arqueológica relativa a outros períodos deixou de estar dependente de documentos
escritos.
Segundo Renfrew e Bahn (1998), a Arqueologia pode ser considerada uma
disciplina humanística, uma ciência humana, uma vez que o seu objetivo é compreender
o género humano, mas porque estuda o passado da humanidade é também uma
disciplina histórica. Mas, enquanto o historiador se baseia em registos que fornecem
informações de uma forma mais direta, ainda que também suscetíveis de interpretação, o
arqueólogo encontra material que pouco diz sobre si mesmo, e que obriga a conduzir um
estudo científico rigoroso e completo, que inclui métodos técnicos, que vão desde a
datação radiocarbónica até ao estudo de restos de alimentos encontrados em recipientes
de cerâmica, e à análise dedutiva.
Como disciplina, a Arqueologia serviu-se, em suma, de dois métodos
fundamentais, de aplicação universal: o estratigráfico e o tipológico (Fabião, 1999), mas
foi a ligação que esta estabeleceu com outras disciplinas científicas que lhe permitiu
fundamentar as suas análises de forma ainda mais rigorosa e abrangente. A Arqueologia,
nos finais dos anos 80 e início dos anos 90 do século passado, estava marcada por várias
abordagens que foram surgindo ao longo dos trinta anos precedentes, tendendo a
desenvolver-se, por outro lado, em diferentes subdivisões cronológicas (como o
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Paleolítico, ou a Arqueologia Clássica da Grécia e Roma Antigas), e em especialidades, que
podem contribuir para o estudo de vários períodos arqueológicos diferentes (como a
Arqueologia Ambiental, a Arqueologia Subaquática, ou a Etnoarqueologia). Esta última
veio adicionar à investigação arqueológica o estudo de povos vivos, e da sua cultura
material, com o objetivo de melhor compreender os registos arqueológicos do passado,
ou seja, recorrendo ao presente para melhor explicar o passado.
Renfrew e Bahn (1998) apontam dois principais aspetos que, na sua opinião,
distinguem o estado da Arqueologia nos anos 90 do século passado: a consciência de que
esta disciplina pode contribuir para a compreensão, não só da Pré-História e da História
Antiga, mas também de períodos históricos mais recentes, e a consciência da importância
de entender o registo arqueológico de uma forma mais profunda (para explicar questões
sobre como algo aconteceu ou se formou, por exemplo), recorrendo à chamada
Etnoarqueologia. Carlos Fabião (1999: 105) considera, no entanto, redundante o termo
Etnoarqueologia, uma vez que “o recurso a informação de natureza etnográfica e
histórica como método de identificação da realidade observada” já é feito, na
investigação arqueológica, há um tempo considerável (desde o século XVIII, pelo menos,
no caso de Portugal). Para este autor, a investigação sobre o passado mais remoto esteve
sempre dependente de informação de natureza etnográfica ou antropológica, tanto para
“a identificação e descodificação dos artefactos, como para a interpretação das
realidades sociais”.
Uma ideia parece, no entanto, gerar consenso: se as abordagens tradicionais se
ocupavam, sobretudo, de unir as diversas peças do puzzle e recriar a cultura material do
passado, ou “completar a imagem dos mais recentes” (Renfrew e Bahn, 1998: 14), agora a
Arqueologia depara-se com um novo objetivo: reconstruir o modo de vida das pessoas
que estão na origem dos registos arqueológicos. Torna-se, assim, importante, conhecer a
forma como eles viviam e porquê, para compreender a razão da mudança cultural, que
era já preocupação da chamada Arqueologia Processual, não só em termos gerais, de
toda a humanidade, mas também das particularidades de uma determinada cultura.
As primeiras escavações organizadas por investigadores mais empreendedores
tiveram lugar no século XVIII. Mas são os estudos geológicos do século XVIII e o avanço
dado pela ciência no século XIX, no sentido do “reconhecimento da antiguidade do
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O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Homem” (Renfrew e Bahn, 1998: 24), que vieram dominar a visão sobre a História da
humanidade, e o lugar do Homem na História, oferecendo uma nova perspetiva à
investigação em Arqueologia. Foram os vestígios encontrados pelo francês Jaques
Boucher de Perthes (1788 - 1868), um inspetor de alfândega, durante o seu trabalho nas
cascalheiras do rio Somme, que o levaram a publicar, em 1841, nas Antiguidades
Antediluvianas, provas convincentes da associação daquele local de artefactos humanos,
de pedra talhada, a que hoje chamamos “bifaces”, e de ossos de animais extintos, à
existência humana muito antes do dilúvio descrito na Bíblia. Estas descobertas, aliadas às
obras A Origem das Espécies, de 1859, e A origem do Homem, de 1871, da autoria do
naturalista britânico Charles Darwin, foram determinantes para o início da investigação
arqueológica sobre as origens do Homem, com base em vestígios materiais, mas também
para a tipologia praticada no estudo e classificação dos vestígios arqueológicos,
colocando em evidência o processo de evolução, e de mudança cultural, nascendo, assim,
um novo paradigma interpretativo para o estudo do passado mais remoto (Silva, 1999).
Com a religião destronada pela ciência, no que toca ao conhecimento e explicação
da vida na Terra, a partir da segunda metade do século XIX, o paradigma “criacionista” é
substituído pelo “evolucionista” (Fabião, 2011: 97), e o evolucionismo passa a orientar as
investigações sobre o passado e, portanto, a prática arqueológica.
Os factos positivos e as provas, baseadas na observação e na análise, são, agora, a
preocupação central da investigação arqueológica, pois a ciência ganha um lugar de
destaque no progresso humano, como fator de apoio ao desenvolvimento económico e
social. Esta visão reflete-se na investigação arqueológica pela forma como as sociedades
do passado passam a ser entendidas: como “sujeitas a diferentes estádios de
desenvolvimento, que eram diretamente observáveis” (Fabião, 2011: 98). A observação
geológica, com a associação de determinados fósseis a distintos estratos foi determinante
para estabelecer comparações em áreas geográficas distantes, e comprovar a teoria
evolucionista que passa a marcar a investigação arqueológica, sobretudo a Arqueologia
Pré-Histórica.
O modelo criado, na Dinamarca, para explicar as antiguidades expostas no seu
Museu de Antiguidades Nacionais (na falta de referências de autores latinos na
Escandinávia) reflete uma interpretação cultural apoiada no desenvolvimento
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O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
tecnológico, como um processo civilizacional baseado numa crescente sofisticação
técnica, que permitia estabelecer uma ordem cronológica fundamentada pela tecnologia
envolvida na produção dos artefactos, mas também na matéria-prima utilizada, surgindo,
assim, as designações de “Idade da Pedra”, “Idade do Bronze” e “Idade do Ferro” (que
acabariam por ser sucessivamente ampliadas para quatro, cinco e, depois, seis (Fabião,
1999: 113)), progressivamente adotadas no resto da Europa, pelo seu caráter neutro, mas
também claro, do ponto de vista científico, pois podia ser testado e comprovado. Esta
ideia de evolução técnica tornava-se, no entender de Fabião (2011: 125) ainda, mais
atrativa numa Europa que estava a viver a era industrial e que encarava este
acontecimento, de certa forma, como o culminar desse progresso.
De facto, o surgimento do conceito de Pré-História, apenas possível após se ter
estabelecido o paradigma evolucionista, gerou um tempo acerca do qual não havia
quaisquer registos escritos. Assim, a Arqueologia deixou de ser um instrumento de
comprovação de fontes escritas para se tornar no veículo exclusivo de obter
conhecimento sobre esse passado longínquo.
A ligação entre Arqueologia e Antropologia começa, também, nessa altura a
intensificar-se na investigação. O antropólogo Franz Boas (1858 - 1942) alertou para a
necessidade de ter mais atenção na recolha e classificação de informação de campo,
passando a ser elaborados extensos inventários de caraterísticas culturais e desenhos de
vestígios, que encaixava com a chamada “abordagem histórica direta da Arqueologia”
(Renfrew e Bahn, 1998: 34). Nos Estados Unidos, por exemplo, foi feito um trabalho
conjunto de antropólogos e arqueólogos no estudo dos índios americanos.
Já nos anos 30 (do século XX) recorreu-se a métodos como o Sistema Taxonómico
(do Médio Oriente), para ordenar os materiais consoante a identificação de similaridades
entre conjuntos de artefactos de zonas ou regiões diferentes, para descobrir respostas a
questões sobre o período de origem dos artefactos, a que outros materiais estão
associados, para chegar à questão fundamental sobre a quem pertenciam estes
artefactos, a que povo, a quem se associava essa cultura, partindo da observação de uma
repetição constante de determinada “indústria artefactual” (Renfrew e Bahn, 1998: 34).
Mas ainda mais importante foi a crescente preocupação com os motivos das sequências
culturais, ou seja, o motivo para a ocorrência de mudanças e acontecimentos passados.
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O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
A seguir à Segunda Guerra Mundial, novas ideias vêm questionar as abordagens
tradicionais em Arqueologia, e novamente a influência da Antropologia vem procurar
explicar a mudança através do estudo dos modos de adaptação ao meio, que foi
denominado de abordagem ecológica.
Mas foi a partir dos anos oitenta do século XX que a Arqueologia conheceu o seu
maior desenvolvimento, tanto a nível do método de trabalho como a nível da sua
colocação em prática. Com efeito, a perspetiva pós-moderna e multidisciplinar, que
marcou a investigação em Arqueologia nos finais do século XX, seria, segundo Alcina
Franch (1989: 201), a tendência para o futuro da mesma, no sentido da aproximação de
métodos e técnicas até então separadas, como aconteceu com a já consumada conjunção
das abordagens arqueológica, etnohistórica e etnográfica.
Em suma, tal como Fabião (1999: 106) afirma, a origem e o desenvolvimento da
Arqueologia têm como base a constatação de duas realidades: da “unidade essencial do
Homem”, ou do conceito de Humanidade, e da “extrema diversidade cultural das
sociedades humanas”. Ainda de acordo com o mesmo autor, estas duas constatações
geraram, de certa forma, dois campos de ação: um virado para o estudo da humanidade,
e outro dedicado a questões étnicas, nacionais, regionais e locais.
II.II Arqueologia e museus em Portugal
Tendo em conta que o trabalho mais aprofundado e recente levado a cabo sobre a
relação entre a investigação arqueológica e museus, em Portugal, é o realizado por Carlos
Fabião, a análise que se segue, sobre a realidade portuguesa, terá como principal base as
conclusões publicadas por este autor.
Em Portugal, não surgiram ideias inovadoras que ajudassem a moldar a
Arqueologia, mas os seus investigadores souberam, segundo Fabião (2011), quase
sempre, incorporar as inovações que chegaram do exterior, dos “principais centros
criadores europeus”, de forma rápida e expedita, nas suas práticas, tendo seguido a
evolução que se verificou em outros países, “ao mesmo tempo e ao mesmo ritmo” que
eles (Fabião, 1999).
Não obstante, receberam, também, as influências da mentalidade predominante
no mundo cristão ocidental, que, de certa forma, impediram o desenvolvimento desta
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disciplina nos séculos anteriores. No século XVI, a Bíblia (cujos textos eram lidos de forma
literal) era a referência cultural e histórica para os europeus, e a Humanidade era
considerada resultado de obra divina.
Independentemente da época em que nos encontremos, a investigação
arqueológica, como qualquer outra atividade científica, ficará condicionada pelos
paradigmas, conceitos e conhecimentos existentes na altura. Assim, apesar de começar a
despertar a noção de que existia um passado enterrado, que podia ser estudado e
interpretado, as investigações estavam ainda limitadas por preconceitos e pela falta de
conhecimentos sobre o próprio passado.
Refletindo um fascínio pela Antiguidade Clássica, os eruditos quinhentistas
(também chamados de “humanistas”) tentaram colecionar e, por vezes, até “forjar”
(Fabião, 2011: 20), antiguidades romanas. Nesta altura, segundo este mesmo autor, os
vestígios materiais tinham “um caráter meramente acessório”, pois questões agora tão
valorizadas como a autoria e a originalidade, e outras tão condenadas como o plágio e a
falsificação, não eram entendidas da mesma forma, pelo que estas práticas levaram à
proliferação de falsos documentos e monumentos. Os vestígios materiais eram, para além
disso, usados apenas como confirmação das informações contidas nos documentos e
relatos já existentes (Fabião, 2011: 26), não se procurando aprofundar ou questionar as
fontes documentais com base num estudo dos mesmos.
Já na segunda metade do século XVI, André de Resende é um autor que se destaca
pelo uso de um método diferente, criticando o uso sem critério das antiguidades
monumentais, e recorrendo à leitura de inscrições e à observação direta de outros
vestígios, conjugando-os com as fontes literárias. Estes esforços tinham, contudo, apenas
o objetivo de relatar a História de um país, numa perspetiva de reconstrução dos
acontecimentos, mas concentrando-se, muitas vezes, numa única época histórica, como a
antiguidade romana. Um respeito crescente pelos vestígios materiais foi surgindo a partir
desta época, pelo que durante o século XVIII a magnificência dos monumentos e as
maravilhas artísticas continuam a ser o centro das atenções dos observadores (Fabião
2011: 81), apesar de novos pontos de interesse surgirem, nesta altura, em relação a
vestígios arqueológicos mais associados à vida comum, mas que cativam pela sua
representatividade enquanto testemunhos de ocorrências não habituais (como as ruínas
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da cidade de Pompeia, vitimada pela erupção catastrófica do vulcão Vesúvio, no ano de
79). Não deixa de ser uma atração causada pelo caráter monumental dos vestígios
materiais – não pela beleza e ostentação, mas pela dimensão da tragédia e destruição.
Em Portugal, o interesse revelado pela conservação de vestígios materiais está
também ainda, nesta época, centrado na vontade de os utilizar como ornamento do
espaço urbano, como aconteceu com o templo romano de Évora, cujo terreno foi alvo de
escavações para deixar a ruína exposta ao público como “emblema” da cidade (Fabião,
2011: 82). Os vestígios materiais passam, assim, a estar gradualmente mais acessíveis ao
público, mas as questões arqueológicas ou o significado daqueles permanecem assunto
de eruditos e escassamente acessíveis a outras pessoas.
No sentido de tornar os vestígios arqueológicos fisicamente acessíveis a um
público mais alargado, um novo movimento de caráter associativo e cívico surge em
Portugal, nesta altura (mais propriamente, em 1849), virado para a escavação das ruínas
de Tróia (ou “a Pompeia portuguesa”, como Fabião (2011: 86) a intitula) e a construção
de um museu público para expor o espólio exumado. Formada nesta altura, a Sociedade
Archeologica Lusitana tinha como objetivos de trabalho não apenas obter conhecimento
sobre a História e a Geografia, como também o conhecimento de “costumes antigos”,
revelando um certo interesse pela dimensão cultural (no sentido antropológico do termo)
dos vestígios materiais. O espaço de museu é, neste caso, visto como um local de
contacto entre o público e os vestígios arqueológicos, promovendo o acesso de mais
pessoas aos mesmos, pois o objetivo seria, sobretudo, expor o espólio, não apenas
armazená-lo ou conservá-lo. A procura do reconhecimento público do trabalho
arqueológico transparece, de certa forma, nesta atitude, como se a exposição dos
artefactos se tratasse de uma maneira de retribuir os apoios solicitados à comunidade.
Podemos, assim, afirmar que o aumento da expressão pública da Arqueologia se
procurou fazer, também, através de museus, apesar de os projetos em questão não
terem sido totalmente concretizados por falta de alguns dos apoios solicitados, pelo que
a divulgação dos resultados dos trabalhos foi feita, apenas, através de uma publicação.
Na opinião de Carlos Fabião (2011: 105), a investigação arqueológica sobre a PréHistória, em Portugal, não nasceu num ambiente académico, mas sim num ambiente de
técnicos de terreno. A Comissão Geológica de Portugal (criada em 1857) conduziu e
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publicou alguns dos primeiros estudos arqueológicos que permitiram conhecer a
realidade nacional em relação ao passado pré-histórico do território. A investigação tinha
como principal propósito provar a existência de vida pré-histórica (ou a antiguidade da
vida na Terra) e recolher provas materiais da mesma, atestando a evolução das espécies
ao longo do tempo (sobretudo, da humana), pela atribuição ao Homem da produção de
determinados artefactos encontrados. O significado antropológico dos vestígios materiais
está implícito neste propósito da investigação. Eles não são vistos apenas como objetos
em si mesmos, mas como o produto de uma vivência e relação com o meio, pela sua
associação à vida humana em determinado contexto espácio-temporal. A realização do IX
Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Históricas, em Lisboa, em
1880, demonstra claramente a relação estreita estabelecida entre as duas ciências, não só
fora de Portugal, como já a nível nacional. Cinco anos mais tarde, a criação da disciplina
de Antropologia, Paleontologia Humana e Arqueologia Pré-Histórica, na Universidade de
Coimbra, reforça esta coesão entre a Antropologia e a Arqueologia na investigação e,
agora, também na formação académica, em Portugal.
Ainda nesta altura, uma nova consciência nacional toma forma, pois o desenho de
um novo mapa político da Europa, com a formação de novos Estados nacionais, gera uma
série de “tentativas de construção de Identidades Nacionais” (Fabião, 2011: 98) relativas
aos diferentes países, como afirmação e simbologia da sua essência. Neste panorama, as
tradições populares do espaço rural ganham uma crescente atenção, enquanto emblemas
de uma identidade nacional. Por outro lado, o passado é usado como elemento de
legitimação de fronteiras, e começa a ser entendido como responsabilidade social do
novo Estado Liberal. Nesta altura, é valorizada, ainda, a prossecução do estudo da
continuidade civilizacional entre o passado e o presente, sobretudo entre o Império
Romano e a Europa contemporânea, ainda que o interesse pela época romana comece a
esmorecer em detrimento de uma crescente valorização e curiosidade pela época
medieval (Fabião, 2011: 123). Há também, à semelhança do que acontecia pelo resto da
Europa, a tentativa de defender as origens da Nação em épocas mais remotas, como nos
lusitanos, já que a cultura dominante era fortemente nacionalista (Fabião, 2011: 126).
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Por outro lado, começa a afirmar-se uma nova corrente de investigação: o
positivismo, que busca a verdade sobre o passado com base no rigor científico e em
documentos autênticos.
Nos finais do século XIX, Francisco Martins Sarmento (1833-1899), formado não
em Arqueologia mas em Direito, e em homenagem ao qual foi criada a Sociedade Martins
Sarmento, que ainda hoje se mantém ativa, revelou-se como um dos mais importantes
pioneiros da Arqueologia portuguesa, tanto pelo contributo que deu para a afirmação de
uma entidade étnica (lusitana), numa dimensão histórica, como pela influência que
exerceu sobre a geração seguinte (Fabião, 2011: 126), preferindo as escavações aos livros,
como fonte de descoberta sobre as origens étnicas do povo lusitano. Os artefactos
serviam para “sustentar a ideia de uma continuidade cultural de raiz lusitana” (Fabião,
2011: 132). Fabião (2011: 133) refere, ainda, um interesse por parte de Martins Sarmento
em aprofundar o conhecimento do ambiente cultural dos lusitanos, incluindo costumes
ligados ao culto de divindades e o culto dos mortos, através do estudo de monumentos
funerários e epigrafia contida nos mesmos (sobretudo em aras votivas). Discutíveis e
erróneas, algumas das suas conclusões vieram a ser contraditas, no entanto, mais tarde,
por outros estudos, mas a intenção latente era de cariz cultural, sendo os seus interesses
de natureza etnográfica (Fabião, 1999: 113).
Dos estudos de Martins Sarmento destaca-se, sobretudo, a defesa da longa
continuidade da cultura castreja enquanto afirmação da etnogénese lusitana no noroeste
da Península Ibérica e a sua resistência face à ocupação romana, que adquiriu
notabilidade numa sociedade que era, então, predominantemente nacionalista. Esta ideia
acabou por suscitar interesse a nível internacional, e a atenção de futuros arqueólogos
portugueses, também interessados em prosseguir estes estudos sobre a continuidade da
cultura castreja (Fabião, 2011: 137), como comprova, por exemplo, o estudo de Manuela
Martins (1993).
Segundo Fabião (2011: 137), durante as décadas que se seguiram, foi abandonada
a procura sobre vestígios de épocas remotas da existência do Homem no território
nacional, para dar lugar à busca sobre as origens da nação. Segundo o mesmo autor
(1999: 114), tal como acontece atualmente, as iniciais investigações de caráter
etnográfico em Arqueologia serviram propósitos nacionalistas e “pretensões de afirmação
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social”. Fabião defende, no entanto, que os paradigmas que marcaram a investigação
arqueológica desde cedo assentaram em questões antropológicas, que determinaram a
interpretação cultural dos vestígios.
Na segunda metade do século XIX, surge a preocupação em conservar e proteger
monumentos históricos, sob a ideia de que eles constituem um símbolo nacional, de
acordo com o espírito nacionalista então dominante, defendendo, por isso, que a
responsabilidade de o fazer cabe ao Estado. Neste contexto ideológico, os vestígios
romanos foram
desvalorizados face
aos
medievais,
que
eram
considerados
verdadeiramente nacionais. Por outro lado, os “pequenos objetos”, mais abundantes do
que as tão consideradas “obras de arte”, no território nacional, eram também, de certa
forma, desvalorizados na constituição de coleções por parte da aristocracia portuguesa,
como faz notar Carlos Fabião (2011: 154, 155). Não será surpreendente, portanto, que as
primeiras medidas de proteção tenham escolhido edifícios monumentais, como os
mosteiros da Batalha e dos Jerónimos (por iniciativa de Mouzinho de Albuquerque). Esta
postura face aos vestígios materiais revela um interesse pela monumentalidade e valor
artístico dos mesmos, em detrimento do seu significado cultural.
Em Portugal, no século XIX destaca-se, segundo Raposo (1999: 169), a falta de
ensino e de museus, que condicionaram o avanço da investigação e divulgação em
Arqueologia, não existindo museus para albergar e expor convenientemente as várias
coleções já existentes.
Os primeiros museus de arqueologia terão surgido apenas na segunda metade do
século XIX, por iniciativa de arqueólogos (Raposo, 1999: 170), o que não surpreende,
dado que estes eram os detentores de trabalhos de investigação e estavam a par da
evolução dos estudos efetuados sobre os vestígios disponíveis. Nos finais desse século, os
museus de vocação arqueológica, em Portugal, eram já em grande número (três
nacionais, e dez regionais ou locais), sendo que apenas um deles era exclusivamente
arqueológico.
A nível nacional, José Leite de Vasconcelos (1858 - 1941) foi uma das primeiras
personalidades que revelou interesse pelo património de caráter imaterial. Apesar de não
ser formado em Arqueologia, mas sim em Medicina, foi a sua natural curiosidade em
conhecer e registar aspetos culturais em comunidades rurais, pelas suas particularidades,
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O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
que o levaram a dedicar-se seriamente aos estudos arqueológicos e etnográficos,
esboçando, em 1882, um projeto sobre as Tradições Populares de Portugal, no qual
tencionava “desenvolver o estudo das mitologias, tradições populares e línguas de
Portugal e da Galiza desde as eras mais remotas até hoje [então]” (Fabião, 2011: 159).
A
preocupação
“romântica”
deste
investigador
perante
o
risco
de
desaparecimento de tradições, práticas e objetos ligados à cultura rural fez surgir o
desejo de criar um museu onde testemunhos materiais da mesma pudessem ser
preservados, dando, assim, origem ao Museu Etnográfico Português, que, mais tarde (em
1897) mudou o seu nome para Museu Etnológico (supostamente, para não ser
confundido com o Museu Etnográfico Colonial da Sociedade de Geografia de Lisboa,
como Fabião (2011: 162) afirma. A divisão do espólio em duas secções, sendo uma delas a
“arqueológica” (correspondente aos objetos representativos das origens até ao século
XVIII), e a outra a “moderna” (Fabião, 2011: 162), dedicada à Etnografia, expressa a
relação bipartida entre a Arqueologia e a Etnografia, atribuindo-lhes épocas distintas. A
exposição estaria projetada para demonstrar os fatores de continuidade que estiveram na
origem do povo português “desde a mais remota antiguidade” (Fabião, 2011: 162). O
Museu Etnográfico teria, ainda, a ambição de “instruir” aqueles que desconheciam as
suas próprias origens e as tradições culturais do seu país, procurando também incentivar
artistas portugueses a seguir os modelos nacionais, de forma a dar-lhes continuidade
cultural. Tratava-se, assim, tal como Carlos Fabião (1999: 116) afirma, de um projeto
nacionalista, virado para a “construção de identidade nacional” (2011: 162), estando aqui
visível o propósito cultural e formador dos museus de caráter arqueológico e etnográfico,
enquanto agentes transmissores e continuadores de uma cultura. Depois de criado o
Museu, o seu diretor, Leite de Vasconcelos, prosseguiu a investigação arqueológica e os
estudos etnográficos (de observação, registo e recolha de testemunhos materiais), sob o
lema positivista (Fabião, 2011: 163), por todo o País, para enriquecer as coleções do
Museu, e criou, ainda, a revista Arqueólogo Português, para a publicação de notícias
sobre sítios e artefactos reconhecidos e encontrados no território nacional. Estas
atividades marcaram a Arqueologia portuguesa dos finais do século XIX e da primeira
década do século XX. Outros estudos, como os de um grupo de trabalho liderado pelo
naturalista Rocha Peixoto e o engenheiro Ricardo Severo, no norte de Portugal, sobre
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castros, debruçaram-se também sobre um conjunto disciplinar vasto, no qual a
Arqueologia fazia par com a História, a Etnografia e a Antropologia (Fabião, 2011: 167),
denotando a importância dos estudos arqueológicos para o conhecimento do povo
português, através de vestígios materiais, de acordo com os objetivos da sua publicação,
Portugália.
Nos finais do século XIX, a Arqueologia já detinha, em Portugal, vários museus
recetores de coleções de âmbitos temáticos e geográficos diversos, mas ainda faltava,
segundo Raposo (1999: 171) investir na sua articulação, havendo ainda um apelo social,
que este critica, à manutenção dos espólios nos seus locais de origem, em museus de
âmbito local, a par de uma vontade expressa de criar museus regionais que
representassem essas realidades locais (como ilustra a proposta de Estácio da Veiga, por
exemplo), a fim de evitar a sua “dispersão”, como terá defendido Rocha Peixoto (citado
por Raposo, 1999: 172). Uma visão diferente terá tido José Leite de Vasconcelos, que
logrou criar um Museu Nacional da área da Arqueologia, inicialmente designado por
Museu Etnográfico Português, e depois por Museu Etnológico Português, revelando a
ligação entre Arqueologia e Etnografia.
A preferência por esta tipologia de museu era reflexo da ideologia vigente, nos
finais do século XIX, predominantemente nacionalista, que valorizava a herança que os
antepassados nos legaram.
Os museus então criados e, em especial, o Museu Nacional, serviram de
instrumentos de legitimação e institucionalização da atividade arqueológica, contribuindo
para o reconhecimento da Arqueologia como uma disciplina científica.
No período do Estado Novo, durante o qual a Arqueologia foi praticamente
“ignorada” (Silva, 1999: 136), foram mais valorizados os organismos locais e regionais,
tendo o âmbito temático passado a integrar, para além da Arte e da Arqueologia, a
Etnografia, a História Local e até as Ciências Naturais (Raposo, 1999: 173), apesar de
serem os testemunhos históricos das origens da nacionalidade a destacar-se como foco
de interesse, nesta altura, que terá motivado a recuperação de castelos e igrejas (Silva,
1999: 136).
O atraso na educação que caraterizou a época da Ditadura em Portugal (Raposo,
1999; Silva, 1999) terá sido responsável, por um lado, pela falta de profissionais
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especializados em Arqueologia, visível no final desse período (Silva, 1999), e, por outro,
pela falta de qualidade no serviço prestado pelos museus, que eram pouco aproveitados
em termos científicos e culturais (Raposo, 1999). Segundo este autor, foi entre o final da
década de 60 e inícios da década de 70 (do século XX) que os museus conheceram, em
Portugal, um maior desenvolvimento. Na segunda metade do século XX, com efeito, e
como Raposo (1999) faz notar, a maior parte dos museus existentes inclui coleções
arqueológicas, entre coleções díspares, o que hoje já se encontra relativamente alterado.
No século XX, destacaram-se investigações e a musealização de sítios
arqueológicos de grande importância no panorama nacional, como as ruínas romanas de
Conímbriga, cujo museu de sítio nasceu já na segunda metade do século, em 1962. Se
estas ações terão tido, entre outros, o objetivo de afirmar o património monumental
português junto de investigadores estrangeiros, das áreas da Arqueologia e da
Antropologia (Fabião, 2011: 174), nas décadas compreendidas entre os anos 30 e os anos
60 foi o despontar da indústria turística (Fabião, 2011: 175) que terá motivado a
valorização do património arqueológico, em Portugal.
Até 1980, a atividade de investigação em Arqueologia não conheceu, no entanto,
grande evolução, sendo acusada até de ser realizada com um certo amadorismo (Fabião,
2011: 179), dada a falta de técnicos especializados nessa área, em Portugal. Com a
criação, em 1980, do Instituto Português do Património Cultural, e com a aprovação, em
1985, da Lei de Bases do Património Cultural, como Fabião (idem) defende, foi concedida
uma nova atenção aos vestígios do passado, “alargando substancialmente o leque das
realidades contempladas”. Várias iniciativas locais no sentido da investigação
arqueológica demonstram o aumento da “consciência do valor do património como
recurso económico local, sobretudo nas regiões do interior” (Fabião, 2011: 180). A
administração central investiu grandemente na criação de centros interpretativos em
sítios e conjuntos arqueológicos, e a formação de nível superior em Arqueologia começa a
ganhar mais destaque nas universidades, permitindo efetuar um trabalho com maior
rigor e correção, e com uma mais vasta perspetiva de análise, que permitisse ter em
conta, não apenas aspetos materiais, como também os domínios imateriais da cultura
subjacente aos vestígios arqueológicos.
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Também os movimentos cívicos a favor da proteção do património arqueológico,
em detrimento de interesses económicos, tiveram expressão nesta segunda metade do
século XX, gerando campanhas em diferentes regiões do país. A defesa do conjunto de
arte rupestre do Vale do Côa, que, de ameaçadas pela construção de uma barragem,
passaram a Património da Humanidade (em 1998), e a longa batalha pela proteção de
importantes vestígios da época da ocupação romana em Bracara Augusta, face a vários
projetos de construção e obras públicas, que proliferavam nesta altura, são dois exemplos
ilustrativos de uma, ainda, certa fragilidade dos instrumentos de salvaguarda do
património arqueológico, em Portugal.
Devido à expansão que a atividade arqueológica conheceu a partir dos anos 80,
aumentou também consideravelmente o número de museus com coleções de
arqueologia (Raposo, 1999: 175). Braga encontra-se, nessa altura, entre os distritos que
apresentam uma maior taxa de crescimento, entre 1973 e 1997 (idem).
Em 1997, graças à ratificação da Convenção de Malta para a Proteção do
Património Arqueológico, um acordo internacional, o Parlamento português reconheceu
a importância da salvaguarda do património arqueológico, comprometendo-se a, no
mínimo, promover o registo prévio à sua destruição.
Atualmente, na opinião de Carlos Fabião (2011: 181), a “perspetiva nacionalista” já
não paira sobre as investigações arqueológicas, apesar de existir uma consciência sobre a
importância do património arqueológico na “construção das identidades locais, regionais
e nacionais”. A promoção regional e local tem, agora, maior relevo, pela afirmação de
singularidades locais, ligadas à cultura de comunidades mais reduzidas. No mesmo
sentido, novos conceitos como o das paisagens culturais vieram assumir uma outra
dimensão deste património, em “ligação com o ambiente e com as vivências das
populações locais” (idem), não desvalorizando, no entanto, as vantagens económicas que
um aproveitamento turístico do mesmo pode oferecer, sobretudo se existir uma boa
articulação política de museus em rede.
82
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
II.III O potencial papel dos museus de Arqueologia na divulgação do património
imaterial
Ao contrário do que acontece com os bens arqueológicos imóveis (ou sítios), cuja
destruição, por motivos imperiosos, é permitida por lei, após efetuado o seu registo, os
bens arqueológicos móveis estão sob uma lei que obriga à sua conservação. Vários sítios
são, no entanto, valorizados e musealizados.
Mas, em Portugal, é nos museus que os bens arqueológicos móveis (sejam eles
provenientes de trabalhos arqueológicos ou de achados fortuitos) devem, por lei, ser
conservados, conforme instituído no artigo 14º da Lei-Quadro dos Museus Portugueses,
através da qual está prevista a proteção desses bens pelo Estado.
Por conseguinte, os museus apresentam-se como um local de reserva de bens
arqueológicos móveis. Geralmente, estes bens adquirem valor social, ou patrimonial,
apenas após adequada investigação científica que ateste esse valor, dado serem
provenientes de épocas mais remotas. Por outro lado, ao contrário dos objetos de arte
(que apelam à imaginação e ao sentido estético) e dos objetos etnográficos (que
estabelecem forte ligação com o presente, com a memória ainda viva de um passado
recente, e com a experiência do quotidiano), os bens arqueológicos requerem mais do
que a simples contemplação: para os interpretar e compreender é necessário conhecer o
seu contexto, e nisso reside o desafio dos museus de Arqueologia face às suas coleções,
obrigando a que as reservas sejam mais do que meros armazéns (Raposo, 2009: 100).
Assim, e tal como definido pela Lei-Quadro dos Museus Portugueses, as funções dos
museus são, para além do estudo e investigação, da incorporação, do inventário e
documentação, da conservação, e da segurança, a interpretação e exposição, e a
educação.
Os resultados do último estudo publicado sobre museus em Portugal - O
Panorama Museológico em Portugal [2000 - 2003], levado a cabo pelo Observatório das
Atividades Culturais, indicam a existência de 33 museus de Arqueologia no nosso país,
para além de vários outros que, não sendo apenas de Arqueologia, também contêm,
entre outras, coleções dessa natureza. Entre os de maior dimensão, encontram-se o
Museu Nacional de Arqueologia (situado em Lisboa), o Museu D. Diogo de Sousa (de
estatuto regional, em Braga), e o Museu Monográfico de Conímbriga (um museu de sítio).
83
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Para Raposo (2009: 78), os dados fornecidos pelo Inquérito aos Museus em Portugal, de
1998, e pel’ O Panorama Museológico em Portugal, referente ao período de 2000 a 2003,
não refletem com exatidão a realidade da representatividade dos museus de Arqueologia
em Portugal. O levantamento de dados conduzido em 1998 dá conta de um total de vinte
museus (correspondendo a 4% do total de museus em Portugal), e o estudo de 20002002 aponta a existência de trinta e três museus de Arqueologia no País (representando
5,6% do total de museus). Existirão, de facto, em Portugal, tal como Raposo (idem)
defende, mais museus com coleções de Arqueologia, por vezes até maioritárias, mas que
não se reconhecem como museus de Arqueologia, mas sim como museus mistos ou como
museus de História.
Tal como a criação do Instituto Português de Museus (IPM), em 1993, foi um
marco importante na gestão do património material (ou os bens móveis do Património
Arqueológico), o surgimento do Instituto dos Museus e da Conservação (resultante da
fusão do Instituto Português de Museus com o Instituto Português de Conservação e
Restauro) e do seu Departamento de Património Imaterial, em 2007, foram
determinantes para dar forma a políticas de preservação, documentação e promoção do
património imaterial.
Apesar da criação destes serviços derivados do governo central, a política de
gestão dos museus tem sido, aparentemente, desajustada às realidades locais e
particularidades dos museus, na opinião de Virgílio Correia (2008-2009), que aponta a
excessiva centralização do poder de decisão e de atuação e, subsequente, inoperância
dos institutos públicos, face às necessidades reais dos museus, atrasando o
desenvolvimento dos seus projetos.
A relação entre a investigação arqueológica e a atividade museológica envolve
uma colaboração bilateral entre arqueólogos e museus, na qual os primeiros se ocupam
da entrega do conjunto completo de vestígios, devidamente documentados e
contextualizados, colaborando, também, na investigação, exposição e divulgação das
coleções; e os segundos oferecem condições de armazenagem, catalogação e
inventariação, arquivo de documentação, e divulgação de coleções, dando continuidade
ao trabalho de investigação e interpretação. Os museus poderão, ainda, funcionar, face
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
aos sítios arqueológicos, como “centros interpretativos” (Correia, 2008-2009), que
ajudem a interpretar esses vestígios, gerindo com eficácia recursos técnicos e humanos,
assim como a procura turística. Para este autor, essa será uma forma de melhor gerir o
património, mas também de valorizar a identidade cultural e fomentar o respeito pelo
passado, já que os museus são, segundo ele, “instituições de memória”.
As questões de financiamento de projetos de investigação arqueológica, em
Portugal, muitas vezes limitativas em relação à sua duração, a que estão sujeitas as
entidades científicas tradicionais, como os Centros de Investigação e as Universidades,
reforçam o papel dos museus, face à tutela e salvaguarda dos materiais e seus registos,
assim como o de dar continuidade aos estudos ao longo de sucessivas gerações, se
necessário e justificável.
Os museus serão, ainda, as instituições mais vocacionadas para desenvolver a
comunicação sobre os vestígios arqueológicos, promovendo a articulação entre eles e a
sociedade, dada a sua função cultural e educativa.
Os métodos utilizados e as conclusões resultantes das investigações
arqueológicas, considerando a sua evolução, demonstram uma clara preocupação com
aspetos culturais, fornecendo importantes informações sobre a forma de vida em
diferentes épocas da existência humana. Essa informação, sendo válida do ponto de vista
científico, é uma fonte de conhecimento que pode ser legitimamente transmitido pelos
museus que detêm os testemunhos materiais dessas culturas, que servem, por sua vez,
de símbolos ilustrativos das mesmas. Os museus de Arqueologia apresentam a
particularidade de poder expor e dar a conhecer à sociedade, e de forma equitativa,
culturas ancestrais que outro tipo de museus (como os etnográficos) não permitem
abordar, dada a natureza mais recente do seu espólio.
Para Raposo (2009: 76), a Arqueologia é “o mais democrático dos patrimónios”
porque “os bens arqueológicos existem em todo o lado, da aldeia à cidade, literalmente
debaixo dos nossos pés, e preenchem um amplíssimo leque de expressões sociais, que
vão (…) do mais pequeno objeto móvel ao monumento megalítico, ao castro e ao
castelo”.
85
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Estes fatores justificam, de certa forma, a proximidade existente entre a
Arqueologia e a Etnografia, apesar de existirem importantes diferenças entre as duas
disciplinas. Na opinião de Raposo (2009: 76), essas diferenças abonam a favor da
Arqueologia, pois a distanciação no tempo permite estabelecer associações entre objetos
e traços culturais entre diferentes épocas históricas, encontrando reflexos culturais, como
as existentes entre “a lucerna romana, o candil islâmico, a candeia medieval e a
lamparina que ainda vemos em casas ou em mercados rurais”. Na mesma linha de
pensamento, e em termos patrimoniais, serão as mais antigas a adquirir mais facilmente
o estatuto de “património” por serem coletivamente mais valorizadas, sendo que,
segundo o mesmo autor, a nível pessoal tendemos a valorizar mais os testemunhos
materiais que associamos a memórias familiares, mas a nível coletivo valorizamos mais
aquilo que está mais distante no tempo, porque os vestígios do passado constituem
“plataformas mais comuns de identificação no plano coletivo” (Raposo, 2009: 76).
Num museu de Arqueologia, os objetos expostos são o principal testemunho de
um passado mais remoto, de há, pelo menos, cinquenta anos atrás. Mas é relativamente
à Pré-História que estes vestígios são de extrema importância, dado que são o único tipo
de fonte disponível para conhecer a forma como o ser humano vivia e se relacionava com
o meio antes de existirem registos escritos. Os artefactos são usados para interpretar
uma determinada cultura e perceber de que forma têm diferentes culturas evoluído até
ao presente.
A musealização de vestígios arqueológicos não levanta questões de “fossilização”,
que são, sobretudo, de caráter temporal, pois os achados pertencem a épocas
relativamente remotas, já sofreram uma evolução e, portanto, não possuem o mesmo
significado ou caráter utilitário, no presente. Eles são, como Correia (2008-2009: 50)
afirma, “etnografia de sociedades mortas”. O facto de os vestígios arqueológicos
poderem pertencer a “sociedades mortas” não garante, no entanto, que as
representações criadas desse passado cultural, num contexto de borderzone2,
correspondam a uma visão fidedigna daquele, quando efetuadas sem rigor científico e/ou
histórico. Essa visão pode, mesmo, cristalizar-se ou fossilizar-se, dificultando que novas
2
Conceito analisado no capítulo I.IV.
86
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
interpretações, mais fidedignas, sejam aceites pelo público que assiste a tais
representações.
Os museus são, aliás, as instituições onde deve ser entregue o espólio
arqueológico recolhido pelos arqueólogos, no seu trabalho de campo, e, de preferência,
estando estabelecido desde o início das escavações o destino do mesmo, para uma
melhor articulação entre os dois espaços e os diferentes profissionais e respetivas áreas
de atuação, como a conservação e o restauro, a documentação, o registo, o inventário e
demais investigação para melhor estudar os vestígios, preservá-los, valorizá-los, expô-los
e dá-los a conhecer.
Sendo museus de caráter científico, os museus de Arqueologia consideram
relevante para fins de investigação todo o material recolhido numa escavação e toda a
documentação existente. Tal não significa, no entanto, que todo o material em questão
será alvo de exposição. Ele contribui para estudar todo o conjunto e obter conclusões
cientificamente fundadas e, portanto, mais válidas, que permitem também conhecer o
contexto histórico-cultural dos vestígios e, portanto, o património imaterial a ele
associado, o que não significa que a interpretação que fazemos dos bens arqueológicos
possa ser considerada “património”. A dimensão imaterial dos objetos é distinta de
património imaterial.
A musealização de sítios arqueológicos oferece, sobre os museus, as vantagens do
contacto “direto” com os vestígios do passado, nos seus respetivos contextos, podendo
além disso ser espaços refuncionalizados (Raposo, 2009: 77), com ou sem fins turísticos.
Mas, comparados com os sítios musealizados, os museus oferecem a vantagem de
promover “a integração do particular em visões mais amplas”, permitindo também que o
visitante se confronte com “a aura do objeto do passado” (idem), e descubra o seu
significado, criadas as condições e os serviços adequados a essa experiência.
Por outro lado, a exposição dos artefactos não terá, no âmbito do património
imaterial, a mesma posição central que detém o património material, apesar de os
vestígios materiais servirem de testemunhos dessa cultura imaterial, ajudando a
interpretar a mesma, dentro de um modelo de educação não formal que os museus
devem conduzir para o público, adaptando a forma de comunicação utilizada aos
distintos tipos de visitantes. A divulgação do património imaterial deverá privilegiar a
87
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
transmissão de saberes e da reprodução e experimentação, com as subjacentes mutações
naturais decorrentes da evolução cultural e social, para que faça sentido na atualidade
em questão.
Numa abordagem que inclui a experimentação e a reprodução, os artefactos
podem, ainda, adquirir uma maior relação com o presente ao serem reutilizados e
reinterpretados na cultura atual. Através da produção de réplicas e recriações neles
inspiradas, os artefactos adaptam-se ao presente. Uma moeda romana, por exemplo,
utilizada na época de origem como instrumento de pagamento em trocas comerciais,
pode ser, na atualidade, enquanto réplica, incorporada num ornamento ou numa peça de
joalharia, não deixando de fazer, simultaneamente, parte do património cultural material,
por representar um objeto utilizado num contexto cultural ancestral, mas também
imaterial, por representar uma determinada forma de estar e de interagir dentro dessa
mesma cultura, ou mesmo a técnica e os saberes envolvidos na sua produção. Da mesma
forma, a réplica de uma ânfora utilizada para transportar vinho ou azeite, na época
romana, poderia servir, atualmente, de peça de arte decorativa num espaço doméstico.
Independentemente da forma como a herança cultural prevalece ao longo do
tempo histórico-cultural, o estudo contextualizado dos vestígios arqueológicos permite,
geralmente, concluir que eles testemunham um passado que ainda encontra eco no
presente, porque eles representam uma etapa do processo da nossa evolução (seja ela
positiva ou negativa). As técnicas de produção artesanal (em barro, por exemplo) e a
gastronomia (destacando-se no caso português, em particular, a cozinha mediterrânica)
ilustram bem o alcance temporal que uma herança cultural de caráter imaterial pode
atingir, porque sobrevive graças à memória coletiva, que serve de veículo de transmissão.
Um museu de Arqueologia tem, nesse sentido, e quanto ao património imaterial, um
duplo papel: o de salvaguarda e preservação (através do trabalho de investigação e de
inventário, e da aplicação de técnicas de conservação e restauro dos vestígios materiais),
e o de divulgação e transmissão de conhecimentos a que os vestígios materiais estão
associados, através da dinamização de atividades de interpretação e de teor prático e
experimentativo, no âmbito da sua ação educativa não formal e lúdica.
88
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
III. O Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa na divulgação do
Património Imaterial
III.I O Museu D. Diogo de Sousa: caraterização
A história do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, o segundo maior e mais
importante museu de Arqueologia em Portugal, leva-nos a percorrer um caminho que se
inicia na época em que a Arqueologia nasceu (século XIX), passando pelo período em que
diversas abordagens floresciam e convergiam no campo da investigação arqueológica
(século XX), e a compreender de que forma os vestígios e artefactos nele agora expostos
(século XXI) chegaram até nós, os critérios que subjazem à forma como são apresentados
e divulgados ao público, e a visão que transmitem sobre o património cultural imaterial.
III.I.I Enquadramento geográfico e sociocultural do Museu
Localizado na cidade de Braga, sede do mesmo concelho, na província do Minho, e
região noroeste de Portugal, este museu insere-se numa localidade marcada pela forte
atividade comercial, pela expansão urbana e o crescimento populacional, sobretudo de
idade jovem, que justificou a sua eleição como Capital Europeia da Juventude, para o ano
de 2012. Em 2011, o Concelho possuía 181 819 habitantes, numa área com cerca de 184
km2, que corresponde a uma elevada densidade populacional de 991,38 habitantes/km 2.
Entre 2001 e 2011, o município de Braga apresentou a maior taxa de evolução da
população, entre os 25 (de 84 municípios que constituem a região norte - NUT III) que
registaram um acréscimo na população residente, contrariando a tendência geral nesta
região.
No contexto de políticas sub-regionais de desenvolvimento e de mobilidade, a
cidade de Braga é sede da Grande Área Metropolitana do Minho (GAM), a terceira maior
do país, que é constituída pelos concelhos de Amares, Barcelos, Braga, Cabeceiras de
Basto, Celorico de Basto, Esposende, Fafe, Guimarães, Póvoa de Lanhoso, Terras de
Bouro, Vieira do Minho, Vila Nova de Famalicão, Vila Verde e Vizela, que no seu total
contabiliza cerca de 800 000 habitantes.
Atualmente, a nível de vias de acesso e de redes de transporte, a cidade possui um
leque de opções diversificadas, que a ligam fácil e rapidamente às principais cidades do
89
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
país, através de uma rede viária e rodoviária nacional, assim como às localidades
limítrofes e ao país vizinho.
A par destas condições, a cidade oferece um conjunto satisfatório de serviços de
informação e de acolhimento de visitantes e turistas (oferta hoteleira e restauração), para
além de vários pontos de interesse turístico, incluindo museus, sítios arqueológicos,
espaços naturais e património edificado de índole religiosa, refletindo o seu caráter
fortemente religioso, que marcou, e ainda marca, a história de Braga, enquanto antigo e
importante centro religioso de Portugal. Braga está inserida numa região que atrai,
sobretudo, pela sua gastronomia, património edificado, festividades e paisagens, um
pouco à semelhança daquilo que acontece no resto do País. No entanto, a oferta cultural
da cidade não reflete totalmente as suas potencialidades, carecendo de eventos regulares
ao longo do ano e de atividades que dinamizem os locais de interesse.
No quotidiano, a cidade apresenta um ambiente dinâmico, no qual convivem o
antigo e o moderno, e um estilo de vida marcadamente atual e cada vez mais
cosmopolita, grandemente influenciado pela atividade universitária.
A conjugação destes fatores dota o Museu D. Diogo de Sousa de um potencial
vasto público, sobretudo da população jovem estudantil, num contexto educativo,
proveniente das variadas localidades que integram o distrito de Braga, mas também dos
vários e próximos distritos vizinhos. Visitantes e turistas oriundos de outros pontos do
País e do estrangeiro, usualmente visitantes sazonais da região e da cidade, apresentamse como público a considerar e a atrair através de adequadas formas de promoção e
divulgação.
III.I.II História do Museu e das suas coleções
As coleções do Museu D. Diogo de Sousa são, essencialmente, constituídas por
espólio resultante da investigação arqueológica sistemática efetuada na região Norte,
sobretudo no concelho de Braga, e o seu conjunto abarca um vasto período cronológico e
cultural, desde o Paleolítico até à Idade Média. Mas é sobretudo a época da ocupação
romana da cidade de Braga, então designada de Bracara Augusta, que domina, não só
pela importância que este período teve no passado histórico e cultural desta cidade,
assim como da romanização no percurso da História Peninsular e Mundial, mas também
90
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
pelos numerosos e significativos vestígios que têm sido encontrados, à medida que são
feitas intervenções no solo desta cidade.
A consciencialização e a preocupação crescentes em relação à salvaguarda do
património cultural, e a iniciativa das instituições e da comunidade, permitiram que estes
vestígios não fossem destruídos, obrigando à paragem de obras para que o trabalho
arqueológico de salvamento fosse concretizado.
Importa, assim, conhecer as condições locais que envolveram a descoberta desses
achados, a evolução do trabalho de investigação arqueológica mais significativo que foi
feito nesta cidade e nesta região, e que contribuiu grandemente para a formação do
importante espólio que pertence ao Museu e à comunidade, e a sua musealização.
O interesse pelos vestígios materiais do passado bastante remoto desta região
começou a evidenciar-se, sobretudo, a partir do século XIX, com o nascimento da
Arqueologia. Alguns estudiosos, como Martins Sarmento, Albano Bellino, Mário da Cunha
Cardoso, Alberto Sampaio, ou Rui de Serpa Pinto, contribuíram para a divulgação de
sítios, reuniram coleções de objetos e escreveram sobre a Arqueologia de Entre-Douro e
Minho. Mas foi a figura que inspirou o nome deste museu quem deu um contributo
fundamental para a recolha dos testemunhos arqueológicos mais antigos da cidade de
Braga que se encontravam dispersos. D. Diogo de Sousa (1461 - 1532), nomeado
arcebispo de Braga em 1505, tinha formação humanista e longa permanência em Roma. É
visto como o precursor do salvamento de Bracara Augusta, tendo sido também
responsável por importantes medidas de remodelação urbanística na cidade de Braga. A
ele são atribuídas as primeiras preocupações com a salvaguarda do património em Braga,
nomeadamente a recolha de marcos miliários provenientes das vias romanas existentes
em torno da cidade, e outras inscrições (Nunes, 1996), atualmente integrados na
exposição permanente do Museu, mas outrora reunidos à volta da Capela de Santa Ana,
como demonstra um mapa desenhado por Manoel Barbosa, e publicado por Georgius
Braun (ou Bráunio), na sua obra sobre “as cidades mais importantes da Europa”, onde
aparecem também outros vestígios de Bracara Augusta, como o fórum, muralhas e
necrópoles (Nunes, 1996).
Apesar dos valores que emergiram durante essa época (renascentista) a favor da
proteção do património, e das ações isoladas desenvolvidas ao longo dos três séculos que
91
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
se seguiram, a falta de uma instituição de caráter museológico que albergasse e
congregasse esforços pela defesa dos achados arqueológicos ainda dispersos pela cidade
não permitiu uma evolução significativa no sentido de uma adequada salvaguarda dos
vestígios achados. O mesmo implicou que todo esse património não se encontrasse ainda
disponível ao público.
Em 1899, Albano Bellino tomou a iniciativa de instalar o seu museu particular,
numa loja que pertencia ao antigo Paço Arquiepiscopal, constituindo um núcleo de
Arqueologia, com base em aquisições e ofertas de particulares e da própria Câmara, mas
poucos anos mais tarde, após a sua morte, em 1906, este espólio foi doado à Sociedade
Martins Sarmento, em Guimarães.
Foi, então, em 1918, já após da implantação da República em Portugal, e com o
desenvolvimento de uma política de proteção patrimonial, que foi criado o “Museu de
História da Arte e Arqueologia”, a primeira versão do Museu de Arqueologia D. Diogo de
Sousa, que ficou instalado no Paço Arquiepiscopal de Braga, e gerido pela Câmara
Municipal de Braga. No entanto, a falta de condições várias impediu que este museu
mantivesse um funcionamento regular até 1980.
Havia, contudo, sido dado um passo importante para a salvaguarda dos vestígios
já reunidos, combatendo a dispersão do património local até então na posse de
particulares e outras instituições, e o Museu foi ganhando o apreço da comunidade, que
contribuiu com depósitos e doações para o seu espólio, que foram integrados na
Exposição Permanente do Museu. O ato de depósito não é, no entanto, irreversível, dado
que os depositantes mantêm em seu nome o título de propriedade dos mesmos objetos;
o Museu apenas os acolhe, preserva e dá a conhecer.
Um desses exemplos é J. J. Rigaud de Sousa, professor e investigador, considerado
pioneiro na defesa e preservação do património local, que incentivou o desenvolvimento
da Arqueologia bracarense, e que, em 1973, foi nomeado Conservador adjunto do
Museu, elaborando, então, o primeiro inventário das suas coleções. Tendo estudado,
especialmente, as mais remotas épocas da região bracarense, publicou obras sobre esta e
outras temáticas e dirigiu as primeiras escavações na região. Foi membro de diversas
sociedades científicas, entre as quais o movimento CODEP (Comissão de Defesa e Estudo
do Património) / ASPA (Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património
92
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Cultural e Natural), o qual, em 1976, contribuiu para o início da operação de salvamento
de Bracara Augusta. J. J. Rigaud de Sousa procurou impedir a destruição sistemática dos
vestígios romanos, propondo à Junta Nacional de Educação, em 1973, a criação de uma
espécie de zona histórica e arqueológica protegida, em Braga, com os limites: Campo da
Vinha e Rodovia, Avenida da Liberdade, Rotunda de Maximinos e Rua da Cruz de Pedra
(Alves et al., 1977), mas esta nunca chegaria a ser publicada (Martins e Lemos, 1998).
A necessidade de proteger o património em risco devido à expansão urbana de
Braga, em meados da década de sessenta, motivou a criação do Campo Arqueológico de
Braga, numa ação conjugada da Universidade do Minho e da CODEP. Este foi o primeiro
projeto que formou uma equipa de trabalho permanente, a cargo da Unidade de
Arqueologia da Universidade do Minho (UAUM), com o objetivo de salvar o património
arqueológico de Bracara Augusta – os monumentos e estações arqueológicas que se
encontravam em risco devido ao aumento de planos de construção na cidade, tendo
também em vista o seu estudo científico e a sua divulgação cultural.
Este Campo operou até 1980, dando depois origem a duas novas instituições, que
passaram a funcionar em articulação com a Unidade de Arqueologia da Universidade do
Minho, criada em 1977: o Serviço Regional de Arqueologia do Norte, encarregue da
cartografia e do salvamento do património arqueológico, e o Museu Regional de
Arqueologia D. Diogo de Sousa, ao qual cabia conservar e fazer a exploração museológica
dos vestígios encontrados. A Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, tendo
integrado os quadros técnicos superiores, ficou incumbida de conduzir o tratamento
científico dos resultados, enquanto o Museu D. Diogo de Sousa, no ano da sua
revitalização (1980), absorveu os restantes técnicos que operavam no Campo
Arqueológico de Braga.
Face à descoberta de um significativo património que este trabalho arqueológico
proporcionou, impôs-se dotar o Museu de um quadro de pessoal técnico habilitado e de
condições materiais adequadas à preservação dos vestígios encontrados. A maioria
destes técnicos, que fez parte da equipa que havia trabalhado no Campo Arqueológico de
Braga, foi inicialmente formada através da prática e dos ensinamentos que recebeu da
orientação dos arqueólogos da UAUM, de estágios no Museu Monográfico de Conímbriga
e na delegação de Lisboa do Instituto Arqueológico Alemão. O pessoal técnico
93
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
responsável pelo trabalho de restauro completou a sua formação académica superior; os
restantes foram fazendo percursos escolares e académicos distintos.
Com a sua revitalização, em 1980, e dispondo de técnicos especializados, o Museu
Regional de Arqueologia D. Diogo de Sousa foi redefinido como um organismo cientificocultural no âmbito disciplinar de Arqueologia, dependente da Administração Central, com
uma natureza e objetivos específicos nos domínios do apoio à investigação, da
museologia, da divulgação cultural, do apoio ao ensino e à defesa e preservação do
património arqueológico local e regional.
A sua “segmentação” no domínio da Arqueologia implicou, por isso, também uma
nova seleção de espólio antes de ser criado o espaço expositivo, na procura de um
discurso expositivo mais coerente e significativo, o que demonstra que aspetos como o
significado histórico-cultural e a representatividade dos vestígios se sobrepuseram a
questões de valor material ou “artístico”.
Entre 1980 e 2006, a atividade de divulgação do Museu ficou, no entanto,
condicionada pela inexistência de espaços expositivos abertos ao público, por o seu
quadro de pessoal se ter concentrado e especializado sobretudo no setor tecnicolaboratorial, e por estar enquadrado num projeto de Arqueologia urbana. No entanto, a
prestação de apoio à investigação e a outros organismos afirmou este Museu como um
importante centro dinamizador da preservação e valorização de sítios e coleções.
Em Junho de 2007, o Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, abriu, finalmente,
ao público, de forma regular e programada, nas novas instalações estrategicamente
projetadas para a zona arqueológica mais representativa e mais bem preservada da
cidade romana de Bracara Augusta (Fig. 1), junto a alguns núcleos de ruínas
arqueológicas, também visitáveis, como as termas romanas do Alto da Cividade (dos
inícios do século II), o cruzamento sul entre o decumanus maximus e o cardus maximus um troço bem conservado de uma grande cloaca (rede de esgotos) da época de Augusto,
que foi conservado no interior da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, ou ainda a marcação
no pavimento das estruturas arqueológicas romanas detetadas no arranjo do Largo de
São Paulo. Esta localização permitiu o reordenamento da área envolvente e a articulação
do Museu com os núcleos de ruínas que podem integrar um circuito de visita dos
vestígios da cidade romana.
94
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Fig. 1. Museu D. Diogo de Sousa (direita), Termas Romanas e Teatro Romano (esquerda)
Também no local onde foram edificadas as novas instalações do Museu, durante
as escavações arqueológicas que precederam a construção do edifício, foram
encontrados vestígios de uma construção do século I, com a particularidade de ter um
mosaico romano. Devido à elevada acidez que carateriza o solo em Braga, este tipo de
achado raramente se preserva, por isso procedeu-se à sua integração nas instalações do
Museu, no espaço-cripta do bloco de serviços, como parte da Exposição Permanente (Fig.
2).
Fig. 2. Mosaico romano conservado in situ
O Museu D. Diogo de Sousa ficou, desde essa altura, dependente do Instituto dos
Museus e da Conservação, criado em 2007, e do Ministério da Cultura, integrando ainda a
Rede Portuguesa de Museus e o conjunto de Museus do Eixo Atlântico.
Uma nova política de atuação cultural a nível nacional veio permitir que, para
além dos trabalhos de inventário, técnico laboratorial e de apoio à investigação, o Museu
95
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
passasse a desenvolver a atividade de comunicação e divulgação de valores patrimoniais,
abrindo-o à comunidade e reforçando o seu papel de agente cultural, através da
dinamização de diversas atividades educativas e do apoio a eventos cientifico-culturais.
III.I.III As coleções do Museu
As coleções do Museu são constituídas por dois grandes núcleos – os antigos
achados, maioritariamente materiais líticos epigrafados, sem contexto arqueológico
preciso, e as coleções que ingressaram neste museu após 1980, enquadradas em projetos
de investigação arqueológica de âmbito local e regional. Relativamente a estas últimas, o
Museu dispõe de informação associada aos respetivos contextos arqueológicos, o que
constitui uma mais-valia para o conhecimento da ocupação mais antiga da região. Alguns
desses sítios podem ser visitados, proporcionando uma oferta turístico-cultural mais
integrada.
Para além dessa ligação entre as coleções e os respetivos sítios de proveniência, as
peças foram objeto de uma intervenção de restauro e valorização.
Por motivos diversos, as coleções do Museu sofreram algumas alterações, que
acabaram por gerar um conjunto expositivo mais coerente. De entre as peças que
constituíam o acervo inicial do Museu, os bens artísticos foram depositados num outro
museu da cidade de Braga, vocacionado para as artes decorativas, integrando-as de
forma mais adequada à sua natureza. Parte do espólio arqueológico de natureza
epigráfica acabou, no entanto, por ficar na posse de particulares, ou em instituições de
natureza museológica, como o Museu da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães. O
Museu D. Diogo de Sousa veio, contudo, a reunir um conjunto significativo de outras
peças de natureza lítica epigrafadas, com o decorrer das intervenções arqueológicas
feitas na região de Braga, que foram integradas na sua Exposição Permanente.
Com efeito, graças a esta atividade arqueológica crescente e à revitalização do
Museu, em 1980, o material arqueológico proveniente das escavações, das ações de
salvamento, e de outros projetos de investigação efetuados em Braga, e no território em
seu redor, foi depositado neste museu um grande e importante número de vestígios, que
representam diferentes épocas históricas vividas na região norte do país.
96
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
A Exposição Permanente do Museu D. Diogo de Sousa é, assim, composta por
cinco núcleos expositivos, repartindo-se por quatro salas, ordenadas de forma
cronológica, de acordo com o período histórico que representam os vestígios que
compõem as coleções, e o espaço-cripta do Museu, composto por um mosaico romano in
situ. A Sala 1 (Fig. 3) contém vestígios que retratam o período da Pré e Proto-História do
Norte de Portugal, subdividindo-se em cinco temas: A Pré-História antiga do Minho - O
litoral, A Pré-História antiga do Minho - O interior, Os primeiros agricultores e pastores do
Noroeste de Portugal: o Neolítico e o Calcolítico, A Idade do Bronze no Noroeste de
Portugal, e A Idade do Ferro no Noroeste de Portugal. Na Sala 2 (Fig. 4), é retratada a
Integração do Noroeste Peninsular no Império Romano, de acordo com três temas: O
comércio a longa distância, A circulação monetária, e a Produção local – As indústrias
artesanais. Na Sala 3 (Fig. 5), está representada Bracara Augusta, sob três aspetos: O
urbanismo, Os espaços públicos, e O espaço doméstico. Também sobre Bracara Augusta,
a Sala 4 (Fig. 6) retrata, contudo, outros aspetos: As vias, O mundo dos mortos, O
sagrado, e Antiguidade Tardia.
Fig. 3. Aspeto da Sala 1 da Exposição Permanente
Fig. 4. Aspeto da Sala 2 da Exposição Permanente
Fig. 5. Aspeto da Sala 3 da Exposição Permanente
Fig. 6. Aspeto da Sala 4 da Exposição Permanente
O Museu dispõe, ainda, de Exposições Temporárias, tanto na sala destinada para
esse fim como noutros espaços do Museu, de acordo com o seu Programa de Atividades.
97
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
A exposição temporária mais significativa que o Museu albergou até ao momento foi Vita
Vitri – O Vidro Antigo em Portugal, uma exposição itinerante.
III.I.IV O papel do Museu no Circuito Arqueológico de Braga
Em torno do Museu existem alguns núcleos de ruínas arqueológicas visitáveis, que
constituem um circuito de visita, proporcionando uma melhor compreensão da ocupação
antiga de Braga. A partir do momento da sua revitalização, e graças aos novos elos
institucionais que dela advieram, o Museu D. Diogo de Sousa passou a deter uma ligação
particular às ruínas arqueológicas da cidade de Braga, fazendo a sua divulgação e
assumindo um papel de entidade mediadora e promotora junto da comunidade local.
Muito do espólio que se encontra exposto no Museu provém destes sítios arqueológicos,
pelo que existe entre eles uma relação que é evidenciada do discurso expositivo e nas
atividades de interpretação dos artefactos.
III.I.V A atividade de conservação e restauro
A atividade técnico-laboratorial do Museu D. Diogo de Sousa é fundamental,
tendo contribuído para a sua afirmação como promotor da articulação funcional entre os
novos elos institucionais decorrentes da revitalização do Museu, nomeadamente com a
Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho e o Serviço Regional de Arqueologia
da Zona Norte, e, mais tarde, o Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga.
Esta função traduz-se na detenção de competência de intervir, a nível local, nos domínios
da preservação e divulgação das ruínas e do espólio de Bracara Augusta, assim como a
nível regional (Norte), no âmbito de projetos de salvaguarda e valorização do património
arqueológico.
Possui técnicos especializados e uma área específica de laboratório, onde é
desenvolvida uma atividade técnico laboratorial regular, que inclui a conservação, o
estudo e o restauro do espólio retirado das escavações de Bracara Augusta, quer de trate
de salvamentos ou de locais em estudo. Estes técnicos dão, ainda, apoio à recuperação de
achados provenientes de estações arqueológicas inseridas no Plano Nacional de
Trabalhos Arqueológicos, ou de coleções depositadas em museus ou núcleos
museológicos, muitos dos quais em processo de reestruturação.
98
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Este setor de atividade do Museu faz ainda o registo gráfico, fotográfico, e de
inventário de peças, como complemento do trabalho de restauro das mesmas, com o
intuito de elaborar catálogos, ou outras edições de caráter científico ou de divulgação
(como os Cadernos de Sala e o Roteiro do Museu), cuja informação integra a base de
dados do Museu. Nos casos em que os vestígios podem ser preservados no local, como
acontece com as ruínas arqueológicas da cidade de Braga, o Museu contribui com apoio
técnico para a sua conservação e valorização, estabelecendo núcleos que passam a
integrar um circuito arqueológico de visita fora do Museu. A integração dessas ruínas na
malha urbana atual permite ao público fruir desses espaços de uma forma consciente,
fomentando a proteção e a valorização dos testemunhos patrimoniais que fazem parte da
memória coletiva desta cidade. À semelhança do trabalho desenvolvido na cidade, o
Museu apoia a valorização de sítios e núcleos de ruínas espalhados pela região, muitos
dos quais beneficiando de fundos oriundos de programas de apoio comunitário. Desta
forma, o Museu contribui para a criação de uma rede de sítios que podem integrar
circuitos turísticos de cariz cultural.
O Laboratório de Conservação e Restauro também abre ao público, no último
sábado de cada mês, com visitas orientadas, no âmbito do programa “Sábados no
Museu”, e como parte integrante do programa de determinadas oficinas lúdicopedagógicas.
III.I.VI Atividades desenvolvidas
A par do trabalho técnico, o Museu desenvolve, através do seu Serviço Educativo,
um conjunto de atividades destinadas sobretudo ao público escolar, mas também à
comunidade em geral, nas quais se incluem a organização de visitas guiadas à Exposição
Permanente e às exposições temporárias do Museu, e às ruínas de Bracara Augusta, ou
pontualmente, a outros locais de interesse arqueológico, como a Mamoa e Núcleo
Interpretativo de Lamas, situado a 6 km de Braga.
O Serviço Educativo (SE) medeia o contacto do público com o espólio
arqueológico, valorizando o conhecimento e promovendo a ligação com as coleções do
Museu. As atividades desenvolvidas seguem um programa estruturado, e são postas em
prática por técnicos deste serviço. As atividades regulares incluem, para além
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
do acolhimento, visitas livres, visitas orientadas e visitas guiadas à Exposição Permanente,
a organização de exposições temporárias de várias temáticas (sendo as mais frequentes
relacionadas com artes plásticas e fotografia, com destaque para os habituais “Encontros
da Imagem”), oficinas lúdico-pedagógicas, contos animados, jogos, workshops, festas de
aniversário, programas de férias (Natal, Carnaval, Páscoa e Verão), “Sábados no Museu”,
seminários, encontros, conferências, feiras do livro (das quais se destaca o “Natal do
Livro”), concertos musicais (nomeadamente, aos sábados, a iniciativa “Saber Ouvir”,
dedicada à música clássica), teatro (anualmente, o Museu acolhe parte do Festival
Mimarte), entre outras atividades programadas de acordo com as especificidades
dos diversos públicos (grupo etário, grau de ensino, objetivo da visita, necessidades
especiais), e as épocas do ano, como celebrações anuais (Dia Internacional dos Museus e
Noite dos Museus, entre outros), e os períodos de aulas e de férias.
O Museu organiza, ainda, anualmente, uma atividade relacionada com a
comemoração do Dia Internacional dos Museus – “No Museu Acontece… A Minha Escola
Vai ao Museu Festejar o Dia Internacional dos Museus”, e coorganiza o “Torneio de Jogos
Romanos de Tabuleiro”, também de frequência anual, e colabora com as escolas e outras
entidades no apoio à investigação e ao desenvolvimento e divulgação de projetos,
cedendo espaços para atividades desenvolvidas, entre outros.
Quando devidamente enquadradas, desenvolve também outras atividades, em
escolas ou para grupos organizados, que tenham em vista a divulgação da metodologia
específica de trabalho inerente ao setor laboratorial.
A ação do Serviço Educativo é complementada com materiais e recursos de apoio
lúdico-didático, e auxiliares da visita, na sua maioria criados pelo próprio, que ajudam a
contextualizar e a interpretar o espólio da Exposição Permanente: maquetas, quadros
multimédia, caixas móveis de material arqueológico, histórias editadas em DVD, filmes
didáticos em DVD, puzzles, folhetos didáticos e fichas de exploração pedagógica, fichas de
sala e fichas informativas, jogos didáticos e jogos online, histórias infanto-juvenis,
recursos documentais e publicações periódicas, entre outros), alguns deles elaborados
em conjunto com autarquias ou outros organismos de documentação didática. Estes
recursos permitem desenvolver estratégias de comunicação que visam uma mais ampla
divulgação das temáticas ligadas ao património regional, sobretudo junto do público mais
100
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
jovem. O Serviço Educativo disponibiliza grande parte destes recursos online, para que
possam ser previamente visualizados, selecionados e preparados pelos organizadores ou
acompanhantes das visitas de grupo, e outros visitantes, de acordo com os objetivos da
visita e o público-alvo. As histórias editadas em DVD destinam-se à exibição interna, no
Museu. No entanto, diversos jogos sobre a atividade arqueológica e o espólio do Museus
estão disponíveis online.
III.I.VII Instalações, equipamentos e serviços
O atual edifício onde está instalado o Museu D. Diogo de Sousa, construído de raiz,
numa zona de interesse arqueológico, dotou-o de instalações modernas e de condições
físicas de usufruto acessíveis e aprazíveis. Os espaços destinados ao uso ou visita do
público incluem, para além das quatro salas da Exposição Permanente, de uma sala de
Exposição Temporária, e de um espaço-cripta (que exibe uma ruína de mosaico romano,
integrada na Exposição Permanente), duas salas do Serviço Educativo, um auditório, um
laboratório de conservação e restauro, biblioteca, reserva, um amplo jardim com espaços
verdes e um espaço para a realização e apresentação de eventos, de inspiração romana,
complementados por uma loja e uma cafetaria. O Serviço Educativo criou, ainda, dois
espaços cénicos que retratam diferentes períodos históricos: o “Espaço Romano” – uma
sala onde é recriado um triclinium, entre outros elementos da cultura romana; e uma
recriação do habitat da Pré e Proto-História, onde estão representados espaços de abrigo
e várias atividades de subsistência dessa época.
Os espaços de exposição, assim como outros de uso público, estão equipados com
recursos multimédia que auxiliam a interpretação das coleções e proporcionam uma
interação com as mesmas. O equipamento multimédia inclui ecrãs tácteis, plasmas,
monitores e ecrãs com computador para interação.
III.I.VIII Comunicação e promoção turístico-cultural
O Museu desenvolve variadas estratégias de comunicação e de divulgação das
suas coleções, atividades e serviços, procurando adaptá-las ao público-alvo.
O seu Programa Mensal de Atividades, assim como eventos e espetáculos
(musicais, expositivos, teatrais, entre outros), são divulgados através da imprensa
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
regional e nacional, da Agenda Cultural da cidade de Braga, do seu website, da sua página
na rede social facebook, da exposição de cartazes e da disponibilização de folhetos no
Museu. A divulgação do Programa Anual de Atividades do Serviço Educativo do Museu
era, inicialmente, feita através do website do Museu e da publicação de um folheto/guia
de programação bastante completo e informativo, mas o programa referente ao ano
letivo 2011/2012 foi já divulgado através de uma nova estratégia: o mailing, enviando
para Escolas e Agrupamentos de Escola (o principal público-alvo deste serviço), por
correio eletrónico, o Programa em formato digital, no início do ano letivo.
As coleções do Museu são divulgadas, sobretudo, no seu website, no Portal dos
Museus do serviço Braga Digital, e no portal MatrizNet (uma versão MatrizWeb específica
do Instituto dos Museus e da Conservação), a partir do qual é disponibilizado o catálogo
coletivo on-line das coleções dos museus que fazem parte do IMC, com conteúdos em
permanente atualização (http://www.matriz.imc-ip.pt/), assim como no Roteiro de
Museus, do Instituto Português de Museus/Rede Portuguesa de Museus, no Roteiro
Turístico de Braga – “A Nossa Terra”, no Mapa Turístico de Braga, e no Roteiro Turístico
do Minho, “Minho em Mil Sugestões”.
Os cartazes e os folhetos que são afixados no próprio museu destinam-se
principalmente à promoção de eventos (como workshops ou colóquios), de atividades
sazonais (como programas de férias), de exposições temporárias, e de espetáculos
(musicais, e outros), dado o seu caráter não permanente.
Para além destas, a publicação regular em papel consiste, essencialmente, no
Programa de Atividades anual, que é distribuído no espaço do Museu, e no Posto de
Turismo local, tendo uma tiragem bastante reduzida.
A promoção do Museu D. Diogo de Sousa, das suas coleções e do património
inerente é feita, também, através da comercialização de artigos disponíveis na sua Loja,
cujo acesso é livre, dentro do horário de abertura do mesmo. O Museu disponibiliza, para
compra, guias e roteiros sobre as exposições, e um DVD da autoria do IMC sobre as
coleções do Museu, para além de material promocional. Os preços praticados (definidos
pelo IMC) são, no entanto, pouco convidativos.
Muitos dos produtos comercializados na Loja do Museu são inspirados nas suas
coleções: réplicas de peças arqueológicas, em cerâmica, prata ou bronze; jóias; e jogos de
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
tabuleiro. Outros artigos, especialmente os de papelaria, são essencialmente
promocionais. Para além das publicações, os artigos de produção artesanal do próprio
Museu têm como principal objetivo divulgar o património cultural associado às coleções
do Museu, aproximar o público do espólio, e facilitar a sua interpretação. Os projetos
mais recentes nesse sentido são uma coleção de fantoches de mão que representam uma
família romana, a família de Titus, uma série de kits que permitem a recriação de objetos
e ferramentas caraterísticos de determinada cultura ou época, ou de atividades artísticas
e culturais, e peças de vestuário de produzidas artesanalmente no Museu.
Através do seu website, o Museu elucida, também, sobre as formas de acesso e de
transporte para o Museu, para além de facultar informações úteis, como horários de
funcionamento e de condições de acesso e de estacionamento.
O Museu tem vindo a apostar, de uma forma crescente, no recurso às novas
tecnologias da informação e da comunicação, para chegar ao seu público, em diversos
âmbitos: na divulgação do Museu, das suas coleções, de eventos, de atividades e de
serviços; na realização de marcações de visitas e de pré-inscrições em atividades; na
procura de feedback sobre os seus serviços (na realização de um inquérito de satisfação
online); no desenvolvimento de jogos interativos online, e de postais eletrónicos de
divulgação do Museu, que podem ser enviados pelos visitantes do seu website; e na
divulgação dos produtos comercializados na Loja do Museu, para além da troca de correio
eletrónico para facultar informações sobre o Museu a as suas atividades. Estas estratégias
têm sido eficazes, sobretudo pela forma direta e rápida, mas também atrativa, de
comunicar com o público, para além de serem uma útil ferramenta de gestão de
informação, mais ecológica, e sustentável, em termos económicos e de organização do
trabalho.
O recurso a outras línguas é fundamental para chegar ao visitante estrangeiro. O
Museu recorre à tradução, em Inglês e Francês, dos Cadernos de Sala, que auxiliam a
compreensão da Exposição Permanente. Todos os textos que acompanham a Exposição
Permanente, incluindo as legendas, encontram-se traduzidos em Inglês. Por questões
orçamentais, recursos como os multimédia das salas de exposição e vídeo do auditório
não foram traduzidos.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Elaborou, também, um folheto com informação mais resumida, em Inglês,
Francês, Espanhol e Italiano, para turistas estrangeiros. O seu website também se
encontra na versão inglesa, apesar de não estar completo, em comparação com a versão
portuguesa, sobretudo a informação acerca das atividades desenvolvidas pelo Museu, os
eventos e exposições temporárias, assim como os produtos à venda na Loja do Museu.
Este é um aspeto a melhorar. O Museu não possui um departamento de comunicação,
nem profissionais que trabalhem esses aspetos de uma forma permanente. No âmbito da
sua colaboração com o Colégio Internacional de Braga – CLIB, o Museu beneficia de
alguns serviços gratuitos de tradução (para Inglês), mas a sua ação é pontual, e não
suficiente. A existência de um departamento de comunicação viria, não só dar resposta a
esta necessidade de comunicação multilingue, mas também auxiliar no desenvolvimento
de estratégias de comunicação, informação e divulgação, que, atualmente, é auxiliado
através de trabalho de voluntariado, dadas as contingências de caráter financeiro.
III.I.IX Público-alvo e procura
Seguindo a tendência demonstrada pela maior parte dos museus nacionais (IMC,
2011), no Museu D. Diogo de Sousa o público escolar ocupa a maioria do número de
visitantes que acorre ao Museu e que participa nas atividades por ele promovidas, pelo
que este dirige a sua atividade de divulgação, especialmente, para o público local ou
regional, adotando estratégias gradualmente mais eficazes de promoção e de
comunicação.
No entanto, o público estrangeiro é, de certa forma, negligenciado, por falta de
recursos humanos e financeiros capazes de dar resposta às suas necessidades.
Afortunadamente, este público estrangeiro é, por norma, culto e esclarecido, pelo que a
visita orientada (sem presença de guia) é a estratégia mais utilizada com estes visitantes.
Por outro lado, o facto de visitarem o Museu em reduzidos grupos (muitas vezes,
constituídos por apenas duas pessoas), leva a que não sejam considerados como
eventuais participantes em oficinas lúdico-pedagógicas ou workshops, por exemplo.
Considero, no entanto, que um museu com esta dimensão deve ter em conta a procura
externa, e adequar as suas atividades a este público, como forma de melhor o receber e
estimular a sua visita, valorizando mais o aspeto turístico-cultural, não só porque acredito
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
que ele teria interesse em usufruir de outras atividades para além das visitas à Exposição,
como também que o aspeto linguístico é o principal (senão único) entrave à sua
execução, e, portanto, de relativamente fácil solução (recorrendo à formação adequada
dos seus técnicos).
Há também um público estudantil universitário, nacional e internacional, que
pode ser tido em conta, sobretudo os de cursos relacionados com a Arqueologia,
Património e Cultura, História, Arquitetura, entre outros, da Universidade do Minho,
possibilitando a formação de grupos de participantes em atividades do Museu.
III.I.X Apoio à investigação e divulgação científicas e à formação
A nível científico, o Museu contribuiu durante vários anos para a edição dos
Cadernos de Arqueologia, publicação de caráter científico sobre os estudos arqueológicos
levados a cabo pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho. A partir de 1999,
esta revista foi reformulada e passou a denominar-se Cadernos de Arqueologia –
Monografias.
Relativamente aos recursos documentais, a par dos materiais e recursos
facultados pelo Serviço Educativo, a biblioteca do Museu disponibiliza, no horário de
funcionamento deste, obras e publicações periódicas especializadas sobre Arqueologia,
Património, Museus, e sobre as temáticas históricas e culturais associadas aos vestígios
expostos no Museu, entre outras. Nela, também o público infantil e juvenil pode
encontrar publicações adequadas a esta faixa etária, podendo ainda ter acesso a outras
obras que pertencem à (ainda reduzida) biblioteca do Serviço Educativo.
O Museu D. Diogo de Sousa presta, regularmente, apoio à formação, promovendo
e auxiliando vários cursos de formação específica, acolhendo vários técnicos em regime
de formação em exercício, em diversas áreas de intervenção, para os dotar das noções
necessárias à realização de trabalhos concretos, e de formação no domínio da
Conservação e Restauro, e do Desenho, mas também de outras áreas como o Turismo, a
Animação Cultural e as Tecnologias da Comunicação.
Procurando agir com base numa política de valorização patrimonial concertada a
nível regional, que promova a verdadeira identidade cultural desta zona do país, este
Museu tem vindo, ainda, a apoiar projetos de criação ou reestruturação de museus e
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
núcleos museológicos, para consolidar e melhorar a rede de infraestruturas de caráter
museológico na Região, independentemente da sua dimensão e natureza institucional.
Este apoio engloba trabalho laboratorial, de tratamento do espólio, entre outros aspetos
mais específicos.
À luz desta política de atuação, o Museu tem em perspetiva aprofundar a
consolidação e a expansão de elos de cooperação com outros museus e demais
organismos intervenientes ao nível do Património, abrir o Museu à Cidade e à Região para
estimular o gosto e a fruição da sua memória coletiva, assim como estreitar as ligações
com os profissionais dos domínios específicos da museologia e contribuir para a
promoção de uma política museológica a nível nacional.
III.II A origem, o estudo e a interpretação dos vestígios materiais expostos no
Museu
As coleções do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa revestem-se de uma
grande importância histórica e patrimonial por se tratar de achados contextualizados, que
provêm de “escavações arqueológicas realizadas segundo uma metodologia correta e de
acordo com os critérios científicos atuais” (Silva, 1999). Não só o contexto de origem, mas
também o historial das peças e todo o trabalho de recuperação, estudo e valorização
levado a cabo no Museu dotaram esses vestígios de um significado mais aprofundado,
que permitiu depois enriquecer as formas de divulgação, através de “uma multiplicidade
de leituras (…) e abordagens” (Silva, 1999), promovidas sobretudo através do seu Serviço
Educativo.
Bracara Augusta tem uma comprovada importância histórica no contexto
nacional, ibérico e europeu. Ela foi o centro de um território mais vasto, que corresponde
atualmente a todo o norte do país, excetuando apenas a zona do distrito de Bragança
(Delgado, Martins e Lemos, 1989). Os vestígios que resistiram à passagem de milhares de
anos não conservam a sua original monumentalidade, mas constituem, ainda assim, um
património científico, histórico e, portanto, culturalmente valioso e significativo, que
representam, não só o período de ocupação romana e medieval, mas todo o passado de
uma região, desde o período pré-histórico. O destaque habitualmente dado ao projeto de
salvamento da cidade romana, quando se aborda a questão da investigação arqueológica
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
nesta região, abafa, de certa forma, outros significantes estudos efetuados, pelas mesmas
entidades responsáveis pelo projeto de Bracara Augusta, sobre sítios e vestígios
arqueológicos situados fora da área ocupada pela cidade romana. No entanto, eles estão
interligados, pois, por um lado, foi o surgimento deste projeto, e da sua equipa de
trabalho, que permitiu efetuar estudos sobre outras áreas do noroeste de Portugal, ao
dotá-lo de capacidade e autoridade para conduzir escavações e investigação na região em
questão. Efetivamente, e salvo as exceções a considerar, foram os achados, muitas vezes
ocasionais, da época da ocupação romana, que levantaram o interesse pela sua
preservação e estudo, e que levaram, depois, a outras descobertas sobre períodos
históricos anteriores, no decorrer de ações de salvamento, de emergência, de
escavações, e de estudos sistemáticos, levados a cabo pela Unidade de Arqueologia da
Universidade do Minho, em cooperação com o Museu D. Diogo de Sousa. A aprovação do
projeto de Salvamento de Bracara Augusta dotou esta equipa de proteção política e
jurídica, assim como de recursos humanos e materiais, para intervir e estudar o
património arqueológico de toda a região, não apenas da cidade romana.
Como já foi visto no capítulo sobre a história do Museu, foi necessário superar
diversos obstáculos até que o espólio arqueológico da região em torno de Braga pudesse
ser reunido e exposto ao público. Nesse capítulo, foi feita especial alusão ao processo de
musealização dos vestígios arqueológicos. Neste, pretende-se dar uma visão mais
particular sobre os condicionalismos geográficos, naturais, políticos, jurídicos,
económicos, sociais e culturais sobre a prática arqueológica local, que apresente uma
perspetiva mais precisa sobre o historial da generalidade dos vestígios que integram o
espólio do Museu e o património da cidade e da região a que ele está também associado,
assim como sobre os fatores que condicionam a abordagem e a divulgação destes
vestígios.
III.II.I As fontes de conhecimento
Quando se iniciou o salvamento e o estudo sistemático da cidade romana de
Bracara Augusta e da região noroeste de Portugal, em 1976, já existiam dados recolhidos
até então, que serviram de fonte às investigações. Estas fontes incluíam epigrafia, mapas,
documentos históricos, vestígios arqueológicos recolhidos (Martins, 1991), obras de
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
autores clássicos, como Estrabão, notícias de jornais regionais (dos séculos XIX e XX),
livros de atas da Câmara Municipal de Braga desde 1837, e manuscritos de vários autores
existentes no Arquivo Distrital de Braga e no Arquivo da Câmara Municipal de Braga
(Oliveira, 1998).
A grande problemática que envolveu estas fontes esteve, ao longo de várias
décadas, associada à sua dispersão, à escassez de conhecimentos sobre os vestígios já
encontrados, e à falta de estudos cientificamente rigorosos sobre as mesmas.
A sua inventariação cuidada e o seu estudo sistemático apenas foi possível a partir
do momento em que foi criada uma unidade especializada em Arqueologia na cidade de
Braga (UAUM), que, reunindo conhecimentos e recursos capazes, desenvolveu trabalho
de campo, fez novas descobertas, aprofundou a investigação sobre os vestígios
arqueológicos da região noroeste do país, e divulgou a nova informação resultante dos
estudos realizados. Desde a sua criação, o trabalho conjunto da Unidade de Arqueologia e
do Museu D. Diogo de Sousa permitiu construir uma base de dados informatizada para
estudos presentes e futuros, a par do apoio documental que a biblioteca do Museu
oferece ao público, fomentando a investigação sobre a História e o património. A criação,
mas sobretudo a revitalização do Museu, foi fundamental para a reunião, a preservação,
o estudo, o restauro, a valorização e a adequada divulgação do espólio recolhido.
As fontes escritas são de enorme importância na investigação arqueológica, pela
informação que adicionam aos vestígios. No estudo desta cidade romana, indicadores
fornecidos pela epigrafia, em especial a das inscrições funerárias, por exemplo,
permitiram reconstituir o seu povoamento e desenvolvimento. Inscrições deste género,
sobretudo as honoríficas, permitiram também conhecer pormenores sobre a organização
social (Martins, 1991).
O estudo do urbanismo foi feito com base em inúmeras escavações, que
permitiram descobrir estruturas e traçados do plano, tanto do romano como do
medieval, apesar de os edifícios monumentais não terem sido conservados, à exceção
daquilo que resta das termas romanas do Alto da Cividade, em Maximinos.
Para o conhecimento das relações e produtos comercias, sobretudo em relação às
importações e à produção local, tão bem retratados na exposição permanente do Museu,
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
contribuíram grandemente os estudos sobre vestígios de cerâmica, vidro, metais e
objetos de adorno (Martins, 1991).
Há aspetos relativos a determinadas épocas, como a ocupação, despovoamento
e/ou destruição da cidade entre os séculos V e XI, que continuam sem fontes suficientes
para que uma reconstituição do passado seja feita, quer se trate de fontes históricas ou
arqueológicas. Ainda assim, nestes casos, a Arqueologia consegue fornecer dados que
outras fontes não foram capazes, recolhendo testemunhos que permitem perceber sinais
de mudança e/ou de continuidade da vida urbana em determinadas alturas, como no
século V, através do estudo dos enterramentos, dos materiais presentes nas cerâmicas
locais e importadas, e nas remodelações de edifícios públicos e privados, por exemplo
(Martins, 1991).
Fontes datadas da Idade Média testemunharam, também, estruturas da cidade
romana que esta época ajudou a destruir. Documentos do século XII fazem referência a
troços da muralha romana, alguns muros e ruínas de alguns edifícios, apesar de Bracara
Augusta ter ficado, aparentemente, fora da produção escrita medieval (Martins, 1991).
No entanto, em relação ao passado da cidade de Braga, só mais tarde se
intensificou o interesse, como fenómeno provocado pelas ideias renascentistas,
disseminadas pelo continente europeu, no século XVI. Nesta cidade, a ação dos
arcebispos, de entre os quais se destaca D. Diogo de Sousa, foi determinante para a
recolha e preservação de património de interesse histórico para a região
(nomeadamente, coleccionando as antiguidades romanas de Braga e da região, e
recolhendo lápides e miliários no Campo de Santana, que constituiu a primeira tentativa
de formar um museu de Arqueologia na cidade).
De entre as fontes escritas que serviram de prova documental às investigações
arqueológicas sobre o passado desta cidade, pode, ainda, ser mencionado um mapa da
cidade, supostamente desenhado por Manoel Barbosa (Nunes, 1996), e publicado, em
1594, por Georgius Braun (ou Bráunio), que alude a determinados espaços de Bracara
Augusta, como o Forum (Martins, 1991; Nunes, 1996), muralhas e necrópoles (Nunes,
1996), e locais de saída das principais vias militares, demonstrando que nessa época era
ainda visível grande parte das vias romanas (Martins, 1991). Este tipo de informação
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O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
também poderá ter sido importante para analisar questões de mudança e de
continuidade na história da região.
A primeira fonte bibliográfica, de autoria local (do arcebispo D. Rodrigo da Cunha),
de síntese sobre a história da cidade de Braga teve origem apenas no século XVII. Ela
forneceu informação sobre a ocupação da cidade até à Alta Idade Média, na qual se inclui
a primeira descrição de determinadas ruínas ainda visíveis na altura, como um anfiteatro
(romano) na zona de Maximinos (Martins, 1991; Nunes, 1996), que terá servido de pista
para o estudo sobre essa área, levado a cabo pela Unidade de Arqueologia, já no século
XX, assim como referências a aquedutos e várias inscrições latinas (Nunes, 1996).
Outra fonte que procurou reunir informação sobre a história da cidade surgiu no
século seguinte, sob o espírito iluminista. O seu autor, também um religioso, Jerónimo
Contador de Argote, combinou fontes escritas romanas com vestígios da mesma época,
numa tentativa de reconstituir a história desta cidade. Esta ampla obra terá dado um
contributo significativo para investigações futuras, fornecendo numerosas informações,
descrições de ruínas, interpretação de inscrições, incluindo a primeira gravura conhecida
da Fonte do Ídolo (Nunes, 1996), testemunho do culto a divindades indígenas durante a
ocupação romana, e a delimitação do perímetro da cidade romana, com base em restos
da sua muralha, ainda existentes na altura (Martins, 1991).
A estas fontes, vieram juntar-se informações sobre novos achados, entre os
séculos XVIII e XIX, divulgadas em publicações como a Gazeta de Lisboa, as Memórias
Paroquiais, e o Dicionário Geográfico de Luís Cardoso.
Outros nomes, de eruditos bracarenses, como Pereira Caldas, Albano Belino e José
Teixeira, destacam-se, nesta época, no papel da salvaguarda do espólio arqueológico em
núcleos museológicos, refletindo já uma conceção da Arqueologia enquanto disciplina
científica (Martins, 1991).
Foi, precisamente, um destes eruditos, Albano Belino, que, por sua iniciativa, criou
o primeiro núcleo museológico de Arqueologia, em Braga, numa loja do Paço
Arquiepiscopal, onde reuniu a sua significativa coleção particular – vários monumentos
epigráficos da Cidade e seus arredores, cerâmica, fíbulas, fragmentos de mosaicos e
tijolos, e lápides. As coleções e os esforços de divulgação de Albano Belino constituíram
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O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
um forte contributo para o conhecimento de várias inscrições romanas de Braga, e da
muralha da Cidade.
Na segunda metade do século XX, grandes alterações urbanísticas em Braga
proporcionam a descoberta de inúmeros vestígios arqueológicos, mas também a sua
perda ou destruição (Nunes, 1996: 24). Com efeito, partir dos anos 60, uma sucessão de
destruições da antiga cidade romana leva ao surgimento de mais achados, cujas notícias
de divulgação, por iniciativa do Cónego Arlindo da Cunha, ficaram registadas na imprensa
periódica regional, mais recentemente compiladas numa obra de Eduardo Pires de
Oliveira (1998). Esses achados foram também recolhidos e mantidos como testemunhos
materiais, em diferentes museus (Martins, 1991).
A zona da Colina de Maximinos e da Cividade fica ameaçada pela construção de
edifícios, nessa década, mas os diversos alertas feitos pelo padre Arlindo Ribeiro da
Cunha, realçando os achados já efetuados, levam a Câmara Municipal a promover
algumas escavações, dirigidas por Rigaud de Sousa (da Junta Nacional de Educação – JNE,
e conservador do Museu D. Diogo de Sousa). Com base neste trabalho de campo, Rigaud
de Sousa publicou alguns trabalhos sobre as descobertas realizadas (Nunes, 1996),
divulgando resultados da investigação.
Desde 1976, da ação do Campo Arqueológico (realização de múltiplas
intervenções de salvamento, emergência e escavações), surgiram vários conhecimentos
que vieram completar, ou complementar, as informações recolhidas a partir das fontes já
existentes, sobretudo sobre a evolução e a estrutura urbana de Bracara Augusta
(Martins, 1991).
A revitalização do Museu D. Diogo de Sousa, em 1980, permitiu, finalmente, alojar
os vestígios materiais que serviram de fonte à investigação sobre o passado desta cidade
e da região, preservando-os, restaurando-os e valorizando-os, através do estudo e da
divulgação.
As fontes materiais e documentais do passado foram, especialmente ao longo das
últimas três décadas, confrontadas com novas descobertas e incorporadas em estudos
elaborados com rigor científico por profissionais especializados, pertencentes à Unidade
de Arqueologia da Universidade do Minho, pelo que o conhecimento que presentemente
podemos obter sobre os vestígios arqueológicos divulgados pelo Museu D. Diogo de
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Sousa é já fidedigno e bastante profundo, ainda que constantemente sujeito a novas
descobertas proporcionadas pelo avanço da investigação.
III.II.II Condicionalismos naturais e aspetos de conservação e restauro dos
vestígios arqueológicos
As condições naturais (antes de extraídos ou intervencionados) e artificiais (depois
de extraídos, intervencionados ou musealizados) que envolvem os vestígios e artefactos
arqueológicos determinam a sua conservação. Por outro lado, o seu restauro, o seu
estudo e classificação, que interferem na sua leitura e interpretação, estão dependentes
de uma correta conservação. O historial dos sítios arqueológicos da região noroeste de
Portugal e das peças expostas no Museu D. Diogo de Sousa é revelador da complexidade
da investigação e interpretação em Arqueologia, e da forma como os fatores e técnicas de
conservação e de restauro estão relacionados com a divulgação do património cultural
arqueológico.
A maioria dos achados que vieram compor o espólio deste museu provêm de
períodos históricos tão remotos (desde a Pré-História até à Idade Média), que apenas foi
possível encontrar vestígios constituídos ou produzidos com materiais tão resistentes a
agentes de deterioração, como a pedra, a cerâmica, o vidro, e os metais, pelo que, aqui,
serão especialmente analisadas questões de conservação e restauro relativas a estes
materiais.
Em matéria de conservação dos vestígios rochosos, um fenómeno destaca-se: a
meteorização, que pode ser química ou física. A meteorização química e a meteorização
física estão, normalmente, interligadas, reforçando-se mutuamente. A primeira ocorre
quando os minerais numa rocha são alterados ou dissolvidos quimicamente. O
esborratamento ou mesmo o desaparecimento das inscrições que se encontram em
antigos monumentos, ou vestígios (como estátuas, estelas funerárias, entre outros) são
resultado da meteorização química (também chamada de alteração química). A
meteorização física ocorre quando a rocha sólida se fragmenta por processos físicos, que
não alteram a sua composição química. O cascalho de blocos de pedras e colunas que,
antigamente, formavam edifícios ou estruturas estáveis, e as fendas e aberturas em
túmulos e monumentos antigos são, primordialmente, o resultado da meteorização física
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O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
(também chamada de meteorização ou alteração mecânica). Quanto mais rápido for o
decaimento, maior se torna o enfraquecimento dos fragmentos e mais susceptível se
torna a rocha de se quebrar; quanto menores forem os fragmentos, maior a superfície
disponível para o ataque químico e mais rápido se torna o decaimento.
Especificamente em relação à conservação dos vestígios arqueológicos
provenientes da região minhota, dois aspetos foram realçados pela equipa da Unidade de
Arqueologia: as questões que envolvem a conservação das estruturas e ruínas, e os
problemas associados ao tratamento dos objetos recolhidos ou resultantes de escavações
ou de achados ocasionais. Na sua opinião, a conservação das ruínas, nesta região, foi
especialmente dificultada pelas condições climatéricas, nomeadamente o nível elevado
de pluviosidade, e pela natureza litológica da rocha que foi utilizada como matéria-prima
na construção – o granito. Desta forma, o elevado índice de meteorização do granito,
associado à forte pluviosidade, levou a que as estruturas expostas à água pluvial ficassem
destruídas, por vezes em poucos anos (Delgado, Martins e Lemos, 1989). Estes aspetos
não só impedem a conservação de determinados vestígios como também exigem um
acrescido cuidado no trabalho de escavação, e a proteção (cobertura) das estruturas
rochosas, antes de as colocar a descoberto, como aconteceu com as termas romanas da
Colina de Maximinos, ainda durante o período em que decorreu o estudo sobre as
mesmas (Delgado, Martins e Lemos, 1989).
Assim, torna-se necessário que determinados sítios arqueológicos sejam dotados
de estruturas de proteção permanente adequadas, se pretendermos, de facto, preserválos de agentes físicos e químicos que provocam a sua deterioração e erosão, mas também
de atos de vandalismo. Projetos específicos de consolidação e restauro, musealização, e
integração na paisagem e/ou no espaço urbano são soluções que, por sua vez, dependem
de condições de financiamento e de planos de urbanização que tenham em conta o
património cultural.
Entre outros fatores naturais (agentes físicos e químicos), que impedem ou
dificultam a conservação e identificação dos vestígios arqueológicos, nesta região,
destacam-se a elevada acidez dos solos e a humidade, que provocam a degradação dos
materiais, como a cerâmica e os metais.
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O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Em relação à cerâmica, são os vestígios mais antigos, e que foram cozidos a
relativamente baixas temperaturas, que menos resistência oferecem a fatores como o
esmagamento, a acidez dos solos e a humidade. O exemplo relativo ao mosaico romano
encontrado e preservado in situ, e integrado no espaço do Museu D. Diogo de Sousa,
demonstra que a degradação do calcário, provocada pela fraca resistência à acidez do
solo e à humidade, levou, por sua vez, ao esbatimento da cor, mas o recurso a técnicas de
conservação e restauro permitiram que ele fosse relativamente preservado, e
aproveitado para divulgação do património cultural a ele associado. Neste caso, a sua
considerável dimensão e a especificidade da sua constituição, para além da raridade com
que ocorre este tipo de achados na região minhota (devido, precisamente, à dificuldade
de preservação motivada pela acidez dos solos), justificou a sua preservação in situ (Silva
e Guimarães, 1994). Nele foram, e continuam a ser, feitas intervenções de conservação e
restauro, assim como uma valorização do espaço envolvente, com o objetivo de
completar a sua visão, facilitar a compreensão do seu significado no contexto do
urbanismo de Bracara Augusta, e divulgar técnicas utilizadas na sua construção (idem). A
este vestígio e a estes objetivos, estão, também, associadas as criações de oficinas lúdicopedagógicas sobre o tesselatum, o mosaico romano.
Os metais, sendo um material que reage quimicamente ao contacto com outros
materiais e com os demais agentes externos, tornam-se especialmente vulneráveis. Por
outro lado, o fabrico e a constituição metálica são fatores decisivos para a sua resistência
a agentes de deterioração como a humidade; o ferro forjado, por exemplo, torna-se mais
frágil do que o ferro fundido, pois a sua constituição em camadas permite a incorporação
da humidade, que depois cristaliza e provoca o levantamento das camadas, degradando
as peças. Assim, é dada prioridade aos metais, na conservação, ao nível preventivo,
estabilizando o ambiente em que se encontram, para que possam ser estudados; numa
segunda fase, é feita a sua prevenção curativa, recorrendo à estabilização com base em
produtos químicos.
Nesta região, o vidro é o material que consegue conservar-se em estado óptimo,
dada a sua resistência aos solos ácidos e à humidade, apesar da sua fragilidade face a
outros fatores, como esmagamentos. Por isso, a forma como é efetuada a escavação e a
extração dos achados em vidro é determinante para que eles sejam conservados. O
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O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Museu possui o vestígio de um frasco em vidro, que foi possível preservar graças à forma
como foi extraído – em bloco, não removendo a terra que se encontra, neste caso, no
interior da peça, e que impede que as diferentes partículas que resultam do
estilhaçamento do vidro da mesma se soltem e desfaçam a peça. Esta é a técnica que
previne a necessidade de proceder à extremamente difícil tarefa de juntar e colar
fragmentos em vidro, na tentativa de reconstruir um achado deste material.
Por oposição, os vestígios de ossos e as madeiras, mas sobretudo este último, são
os que mais dificilmente se preservam com a passagem do tempo, dada a sua composição
orgânica. Por isso, são muito raros os vestígios em osso ou madeira encontrados nesta
região, relativamente a épocas anteriores à romanização, mas também relativamente a
esta. O único vestígio em madeira encontrado e conhecido, até ao momento, na região,
foram algumas estacas que serviram de suporte na construção do muro que circundava a
cidade de Bracara Augusta, durante a ocupação romana. Elas conservaram-se na água do
Rio Este, comprovando a teoria de que as madeiras duras ou rijas, geralmente
empregadas na construção, conservam-se melhor dentro de água do que expostas ao ar.
A mudança de ambiente, após a remoção de um achado do local onde foi
encontrado, desencadeia uma série de reações face à luz, temperatura e humidade. A sua
adequada extração é crucial para que não se deteriore precocemente, ainda antes de ser
alvo de conservação. A falta de formação científica dos arqueólogos no domínio da
conservação e do restauro, e a ausência de técnicos especializados nessa área no campo
onde decorrem as escavações, podem levar à ocorrência de erros irreparáveis nos
vestígios, como acontecia no período inicial de atividade do Campo Arqueológico de
Braga. Assim, na falta de técnicos de conservação e restauro no terreno, é preferível a
remoção dos vestígios em bloco (envolvidos em terra). O correto acondicionamento dos
achados e o tempo que medeia o seu levantamento e a sua chegada ao laboratório para
tratamento são fatores fundamentais para que se minimize a exposição dos materiais a
fatores de degradação. No entanto, nem sempre são tomadas as medidas adequadas,
pelo que vários são os vestígios que ficam irreparáveis, e inaproveitáveis do ponto de
vista museológico, pois deixa de ser possível a sua leitura e interpretação.
A questão temporal é dificilmente transponível, dado que os arqueólogos têm
direito a reter os vestígios decorrentes das escavações, para estudo, por um período de
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cinco anos. Mesmo excluindo as situações em que esse prazo é largamente ultrapassado,
cinco anos pode ser demasiado tempo para que os achados se mantenham conservados.
O trabalho de conservação precede o de restauro, e é feito em duas vertentes:
preventiva e curativa.
A conservação preventiva permite a monitorização e/ou controlo do processo de
deterioração no meio ambiente em que se encontram os vestígios arqueológicos.
Consiste em ações diretas e indiretas, com o objetivo de adiar ou retardar os fatores
responsáveis pela deterioração. Desse modo, concretiza-se a prevenção de danos futuros,
criando as condições ótimas à conservação, tendo em conta a manipulação, o transporte,
armazenamento e exposição de objetos. Considera-se conservação preventiva a formação
eficaz de todos aqueles que lidam com objetos culturais (como o conhecimento dos
princípios básicos da conservação científica), o uso de embalagens adequadas ao
armazenamento e ao transporte de uma obra de arte, a correta iluminação, e as
condições ambientais (de temperatura e humidade) adequadas ou apropriadas a cada
tipo de matéria-prima.
A conservação curativa consiste numa ação direta efetuada sobre o objeto em
tratamento, com a intenção de atrasar ou resolver definitivamente qualquer tipo de
deterioração sofrida. A intervenção dá-se somente a nível do suporte material.
O restauro consiste na ação direta sobre o artefacto e todos os seus elementos
(forma, cor, decoração), com a intenção de facilitar e devolver a sua compreensão e
significado histórico, com o maior respeito possível pela sua estética, história e
integridade física. A intervenção sobre uma lacuna também é considerada restauro.
A intervenção técnica sobre os achados arqueológicos em termos de conservação
e restauro toca duas vertentes: a do trabalho de campo (na qual apenas se age sobre a
conservação), que engloba a forma como são efetuadas as escavações, e extraídos,
acondicionados e transportados os achados. Nesta fase, também é possível proceder à
lavagem e/ou limpeza dos vestígios, desde que efetuada por um técnico especializado, o
que nem sempre tem sido conseguido nesta região. À medida que os achados vão ficando
a descoberto, sejam eles vestígios amovíveis ou estruturas a preservar in situ, é
necessário proceder à sua rápida estabilização, minimizando as consequências da
mudança de ambiente. Em determinadas situações, os técnicos de conservação e
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O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
restauro do Museu são chamados, pela equipa de investigação arqueológica da Unidade
de Arqueologia da UM, a intervir na conservação preventiva e curativa, assim como na
reconstituição de sítios arqueológicos desta região, dando parecer sobre a melhor forma
de atuar. Esta não é, no entanto, uma prática corrente, não existindo uma ação
coordenada e conjunta permanente entre as duas equipas, pelo que os resultados de
investigação nem sempre são tão positivos quanto poderiam ser.
Várias foram, no entanto, as intervenções feitas pela equipa de conservação e
restauro do Museu, em sítios arqueológicos da região minhota, como a Mamoa de Lamas,
o Mosaico romano encontrado no espaço onde foi instalado o Museu, as Termas
Romanas do Alto da Cividade, a Domus de Santiago (situada no Largo de Santiago), o
troço de uma cloaca (integrado nas instalações da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva), a
Domus da Escola Velha da Sé, o Balneário Pré-Romano da Estação de Caminhos-de-Ferro,
a Domus das “Frigideiras do Cantinho”, a Zona Arqueológica das Carvalheiras, e os
vestígios de uma via romana e um miliário encontrados, mais recentemente, nas
instalações de uma loja comercial, na Rua Frei Caetano Brandão. Nas Carvalheiras, por
exemplo, esta equipa coordenou e colaborou na realização dos trabalhos de limpeza,
drenagem e definição dos limites da zona, efectuando conservação preventiva; mas
também atuou no âmbito do restauro, reconstruindo parte dos muros. Neste trabalho, foi
colocada uma tela de separação entre a camada original e a camada acrescentada, para
distinguir claramente as diferentes partes. Em termos de materiais, foi utilizada (sempre
que possível) pedra aparelhada, aproveitando a que foi retirada do local das escavações,
e argamassa (composta por uma base de cal e saibro) semelhante à originalmente usada.
Na Mamoa de Lamas (que foi descoberta durante a remoção de uma árvore aquando da
preparação de um terreno para construção), esta equipa fez a reconstrução deste antigo
monumento funerário, recolocando as pedras no sítio de onde tinham sido deslocadas,
com base nas marcas ainda visíveis. Na Domus de Santiago, assim como no troço da via
conservado nas instalações da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, foram efetuadas
limpezas.
A seleção dos achados arqueológicos para conservação e restauro é feita pela
equipa da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, ou pelo Gabinete de
Arqueologia da Câmara Municipal de Braga (dependendo de quem tenha efetuado o
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levantamento), considerando o parecer de historiadores, que decidem sobre a
significância e representatividade dos mesmos, e a sua relevância histórica e patrimonial,
podendo também propor a musealização de determinados sítios arqueológicos, assim
como a conservação e o restauro de determinados achados, recorrendo à colaboração do
Laboratório de Conservação e Restauro do Museu. A decisão sobre os achados que irão
integrar as coleções do Museu e ser expostos ao público cabe, no entanto, à Direção do
Museu.
Nos trabalhos de conservação que efetua, a equipa técnica do Museu estabelece
como ação prioritária a estabilização dos achados, para travar o seu processo de
deterioração. Todas as peças passam, obrigatoriamente, pela fase de conservação,
considerando que todas elas necessitam, pelo menos, de ser alvo de limpeza ou lavagem.
Nas intervenções de restauro, os técnicos do Museu procuram reconstruir as peças
respeitando as suas caraterísticas originais (sobre as quais é feita investigação prévia),
nomeadamente a forma da peça, o material (ou materiais) que a constituem, e a técnica
utilizada na sua produção. Através do restauro, pretende-se, ainda, valorizar o espólio
que vai ser exposto, no sentido de permitir a sua leitura e interpretação. Assim, são
usadas determinadas técnicas de reconstituição dos originais, que têm um objetivo
iminentemente pedagógico, como a reprodução, em plástico, de algumas peças de metal
que não são facilmente perceptíveis devido ao seu estado de degradação irreversível; ou,
ainda, a construção de réplicas para melhor ilustrar o uso de determinados achados,
como as fichas de jogo, para as quais foram criados tijolos/placas de jogo aproveitando
pedra retirada das escavações (vestígios descontextualizados e, portanto, considerados
“lixo arqueológico”). Nessas placas de jogo foram gravadas linhas, reproduzindo exemplos
de jogos romanos, com base em vestígios existentes noutras partes do país. Essa pedra foi
ainda usada para construir outras placas e fichas de jogo, para prática de jogos romanos
de tabuleiro nas oficinas lúdico-pedagógicas correspondentes e no espaço público do
Museu. À semelhança do “lixo arqueológico” em pedra, pequenas pedras recolhidas na
costa minhota, e pedaços de vidro, foram também utilizados para criar fichas de jogo,
como era usual na época romana.
No que toca à exposição das peças, há importantes questões de conservação a
considerar: os níveis de temperatura, de humidade e de iluminação ambientais, tal como
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o contacto físico entre diferentes materiais, são determinantes para manter as peças em
bom estado. Neste aspeto, os técnicos de restauro destacam alguns pontos negativos na
forma como foram expostos alguns objetos nas vitrinas. De facto, será errado pensar que
basta colocar um objeto numa vitrina, para que ele se conserve, pois todo o ambiente
que é criado à volta da peça, dentro e fora da vitrina, determina a sua conservação. Os
suportes para as peças metálicas terão sido verificados pelos técnicos de restauro, em
termos da compatibilidade de materiais, da mesma forma que foram introduzidos fundos
de vidro nas vitrinas. No entanto, os mesmos sentem que as suas recomendações não
foram tidas em conta pelos arquitetos envolvidos na montagem da exposição, em relação
a aspetos como os suportes utilizados com peças de metal (que apenas toleram o
contacto com materiais inertes). Por outro lado, apontam uma questão técnica, em
relação à conservação deste tipo de material. Dada a sua suscetibilidade face às
condições ambientais, estes foram colocados em vitrinas que possuem aparelhos de
medição dos níveis de humidade e de temperatura. Apesar de as peças em metal
mantidas nas vitrinas serem tratadas pelo mesmo processo que se utiliza nos museus
europeus, este não parece ser completamente eficaz, uma vez que os aparelhos
colocados nas vitrinas não controlam ativamente ou regularizam esses níveis, nem tão
pouco são reguláveis, pelo que apenas informam sobre as condições atuais.
Consequentemente, e apesar de restar a possibilidade de retirar a peça de exposição para
efectuar uma intervenção, qualquer ação sobre o material em estado de fragilidade pode
resultar desfavorável, pelo que torna-se, muitas vezes, preferível não intervir.
As técnicas, os métodos e os objetivos do trabalho de conservação e de restauro
levado a cabo pela equipa técnica do Museu sofreram uma evolução considerável ao
longo da sua existência. Inicialmente, os achados considerados de interesse para estudo e
restauro, que advinham das escavações efetuadas pelo Campo Arqueológico da
Universidade do Minho, eram enviados para Coimbra, pois os técnicos existentes não
possuíam, na altura, formação suficiente para efetuar as intervenções necessárias. Com o
decorrer das sucessivas escavações e do aumento considerável de achados arqueológicos,
sentiu-se a necessidade de formar adequadamente os colaboradores do Campo
Arqueológico, pelo que se iniciou a formação técnica, em conservação e restauro, de
alguns deles, em Conímbriga. A região veio beneficiar destes novos conhecimentos, que
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foram aplicados na conservação e no restauro de sítios e vestígios arqueológicos locais,
pelo que, atualmente, o Laboratório de Conservação e Restauro do Museu D. Diogo de
Sousa tem capacidade técnica de resposta face às solicitações que recebe, apesar do
grande volume de trabalho que se lhe apresenta.
A evolução faz-se notar, sobretudo, em relação ao crescente respeito pelos
achados, de uma forma geral, e pelas caraterísticas originais dos vestígios, na
preocupação em utilizar materiais de restauro reversíveis (que possam ser removidos, se
necessário, sem alterar a peça original), e numa mais adequada metodologia de trabalho,
que adveio de um maior conhecimento sobre os diversos materiais. No preenchimento
ou reconstrução volumétrica, por exemplo, o tipo de material utilizado é escolhido com o
objetivo de proteger o original. Nos casos em que se consegue obter o perfil completo da
peça (com o auxílio do desenho), é feita a reconstituição total da peça, mas deixa-se
propositadamente visível a parte que é acrescentada (ao contrário daquilo que era
ensinado há anos atrás), para que se distinga claramente a parte original da parte
restaurada.
Todos os trabalhos são efetuados com base em estudos cientificamente rigorosos,
tanto na pesquisa que é realizada pela equipa do Laboratório de Conservação e Restauro
do Museu, como em estudos, sobre elementos paralelos, já existentes sobre Conímbriga
(onde determinados achados arqueológicos da época da ocupação romana se
mantiveram em melhor estado de conservação, devido às diferentes condições
ambientais naturais, e onde os estudos sobre esse tipo de vestígios foram efetuados mais
cedo).
A questão da conservação e do restauro, assim como a importância do respeito
pela preservação do património cultural, são também divulgadas através da ação do
Serviço Educativo do Museu, com a colaboração dos técnicos do Laboratório de
Conservação e Restauro do mesmo. Essa ação consiste na realização de workshops de
sensibilização, e de visitas ao Laboratório e à Exposição Permanente, durante os quais são
explorados aspetos e técnicas de conservação e restauro, com recurso a exemplos de
vestígios expostos.
A atividade de restauro levada a cabo pelo Museu reflete as mais atuais
tendências nesta área (Carbonara, 2009), entendendo-a como uma intervenção que serve
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o objetivo de conservar e transmitir, futuramente, obras de interesse histórico, artístico
ou ambiental, para facilitar a sua leitura e interpretação, ao mesmo tempo que se procura
não apagar os traços da passagem do tempo que elas revelam. Esta atitude baseia-se,
ainda, no respeito pelo material original e pela obra enquanto fonte documental
autêntica, não deixando, no entanto, de constituir um ato crítico de interpretação, ou
uma hipótese crítica ou proposta, que não é verbal mas expressa concretamente no
próprio trabalho realizado sobre os vestígios, sempre sujeito a modificação, sem contudo
alterar irreversivelmente o original.
A ligação entre o trabalho de restauro e o acesso ao património monumental, e a
outros vestígios, pode defini-lo como “um ato cultural” (Carbonara, 2009). Por outro lado,
o seu propósito de transmissão virado para as futuras gerações leva-o a assumir uma
função educacional. Ambos estão em consonância com o papel dos museus na sociedade,
e com a sua função de divulgação do património. Neste aspeto, deve ser considerado o
lugar ocupado pela memória na sociedade atual, enquanto fator de valorização do
passado que estes vestígios representam, havendo sinais de que o interesse pela
conservação e o restauro tem vindo a ser reforçado.
III.II.III Desenvolvimento versos conservação
A região noroeste de Portugal, de onde provém a maioria do espólio exposto no
Museu D. Diogo de Sousa, oferece a particularidade de possuir uma densidade de
povoamento e um crescimento económico elevados, que se tem traduzido,
especialmente ao longo dos últimos quarenta anos, num constante alargamento da rede
viária e num ritmo intenso de construção civil, tanto nas zonas urbanas como nas zonas
rurais. Estes fatores, tal como a mecanização progressiva do trabalho agrícola, a
florestação, as explorações pedreiras, e os aproveitamentos hidroelétricos (UAUM,
[1981?]), assim como aberturas de valas para saneamento, cabos telefónicos ou
eletricidade (Delgado, Martins e Lemos, 1989), levaram à ameaça e/ou destruição de
património arqueológico, ao longo de várias décadas.
Mas não são apenas os acontecimentos mais recentes que determinam a
destruição ou adulteração dos vestígios arqueológicos. É do conhecimento comum, por
exemplo, que parte da cidade romana de Bracara Augusta ficou soterrada sob os edifícios
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O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
medievais, tendo-se aproveitado muita da pedra aparelhada para as novas construções
(UAUM, [1981?]; Martins, 1991; Fontes, Lemos e Cruz, 1997;). Outra parte da cidade
romana terá ficado debaixo do solo utilizado para a atividade agrícola, à volta da cidade
romana. Com o aumento da construção civil nos anos sessenta e setenta, esses terrenos
começaram a ser revolvidos, destruindo vestígios de Bracara Augusta de forma
descontrolada (UAUM, [1981?]).
O salvamento e a conservação do património arqueológico não impedem o
progresso económico e social, podendo recorrer-se, em última instância, ao registo
topográfico e fotográfico dos monumentos cujo desaparecimento é inevitável, e à recolha
do espólio deles proveniente. Pela sua relevância cultural, a salvaguarda e o estudo dos
vestígios arqueológicos podem, inclusivamente, contribuir para o desenvolvimento
económico e social de uma região, através do fomento do Turismo interno e externo.
Em Braga, há exemplos da conservação de vestígios arqueológicos, sobretudo da
época da ocupação romana, integrados em imóveis mais recentes, e que constituem um
motivo de atração turística, como a Domus das “Frigideiras do Cantinho”, onde os restos
de estruturas de uma domus (casa) romana datada do Baixo-Império podem ser
visualizados de cima, através do vidro que constitui o piso do Café, durante o horário de
abertura deste. Outro exemplo será o Balneário Pré-Romano da Estação, o único vestígio
deste género conhecido até ao momento no território de Braga (mas semelhante a vários
outros existentes nesta região do país), que foi descoberto durante as obras de
construção da Estação de Caminhos-de-Ferro. As ruínas foram preservadas e
musealizadas no local, estando permanentemente abertas ao público. Um outro exemplo,
ainda, será um troço de uma grande cloaca (rede de esgotos) da época de Augusto
(século I), cujo traçado coincide com um importante eixo da cidade romana, e os vestígios
de uma rua medieval (a Rua Verde), que foram integrados nas instalações da Biblioteca
Lúcio Craveiro da Silva. Muitos destes locais são visitáveis.
III.II.IV Questões políticas, jurídicas e científicas
Frequentemente, os achados arqueológicos, nesta região, ocorreram em situações
casuais, como a atividade agrícola, a construção de uma casa, ou a realização de obras
122
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
públicas. Em alguns casos, os artefactos foram mantidos na posse dos particulares que os
acharam; outras vezes, eles foram depositados em instituições que os acolheram e
preservaram, como o Museu D. Diogo de Sousa. Mas até bem tarde (século XX), estes
vestígios encontraram-se dispersos, descontextualizados e pobremente estudados. Os
restantes ficaram desprotegidos ao longo de vários séculos, e a maior parte foi alvo de
destruição, sem que existisse uma entidade oficial ou configuração legal que os
salvaguardasse.
No século XIX e na primeira parte do século XX, foram já realizados alguns
trabalhos de investigação arqueológica com uma certa base científica, mas ainda muito
marcados pelo amadorismo e romantismo característicos da mentalidade da época
(Martins, 1993). Apenas na segunda metade do século XX, técnicos especializados em
Arqueologia conseguem impor-se, na região, passando a ser requisitados para efetuar o
adequado estudo científico de locais, assim como o levantamento de informação e de
espólio para tratamento e divulgação (UAUM, [1981?]).
Na região de Braga, a investigação arqueológica ficou, oficialmente, a cargo da
UAUM. Esta unidade cultural depende da Reitoria e integra o Conselho Cultural da
Universidade do Minho, e a sua criação (em 1977) surgiu na sequência da atribuição da
direção científica e técnica do Projeto de Salvamento de Bracara Augusta a esta
instituição, em 1976.
A maior e mais significativa parte do espólio exposto no Museu D. Diogo de Sousa
provém das escavações efetuadas no âmbito deste projeto, que envolveu grandiosos
esforços políticos, legislativos, e financeiros.
As primeiras diligências efetuadas no sentido de obter proteção jurídica devem-se
ao Dr. Rigaud de Sousa que, em 1974, propõe a delimitação de uma zona de proteção
histórico-arqueológica na cidade de Braga, incluindo a cidade romana e a cidade medieval
(Delgado, Martins e Lemos, 1989; Nunes, 1996).
Essa proteção previa o acompanhamento de eventuais obras por arqueólogos, e a
sua suspensão quando o estudo e a preservação dos vestígios arqueológicos encontrados
o aconselhassem ou determinassem, mas este parecer da Junta Nacional da Educação ou
a zona de proteção não chegaram a ser publicados no Diário da República (Nunes, 1996:
26).
123
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Apesar de algumas tentativas de obter proteção legal para os vestígios
arqueológicos, os interesses de construção urbanística foram sobrepostos às
preocupações com a defesa do património cultural, pelo que a Universidade do Minho
sentiu que, enquanto entidade à qual competia também “a defesa dos valores culturais e
do património da região que serve”, devia fazer algo para intervir na situação de
desproteção em que se encontravam importantes vestígios, sobretudo na zona de
Maximinos e Cividade. Assim, em 1975 é feito um estudo sobre o impacto das
urbanizações em curso (que fica a cargo de Henrique Barreto Nunes), e um plano a
delinear as estratégias a seguir, para ser apresentado ao Ministério da Educação (Nunes,
1996). Simultaneamente, é criada a CODEP, um movimento cívico que reuniu como
fundadores as mais influentes e proeminentes individualidades interessadas na proteção
e no estudo do património regional, entre os quais vários elementos da Universidade do
Minho, o Diretor da Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Braga, o Conservador do
Museu D. Diogo de Sousa (J. J. Rigaud de Sousa) e um Arqueólogo e estudioso do passado
bracarense (Eduardo Pires de Oliveira).
Este movimento foi determinante para o avanço do Projeto de Salvamento de
Bracara Augusta, e, por conseguinte, de um vasto espólio de toda a região noroeste de
Portugal, pois apoiou e dinamizou a posição da UM perante a opinião pública (Nunes,
1996), reunindo apoiantes, e gerando reações positivas por parte das entidades
responsáveis pelo património cultural português, nomeadamente da Direção Geral dos
Edifícios e Monumentos Nacionais e da Junta Nacional de Educação (Nunes, 1993).
A CODEP desenvolveu esforços no sentido da validação do interesse científico das
ruínas, promoveu escavações (que foram realizadas por alunos da Faculdade de Letras de
Coimbra e estudantes do Serviço Cívico de Braga, e dirigidas pelo Professor Jorge Alarcão,
da Faculdade de Letras de Coimbra, “o maior especialista português em Arqueologia
romana” (Nunes, 1993)), conseguiu provar a existência e importância de vestígios de
Bracara Augusta (Delgado, Martins e Lemos, 1989; Nunes, 1993), e conduzir a uma
proposta (de Jorge Alarcão) para a criação de um campo arqueológico em Braga. Depois
de criado o Campo Arqueológico de Braga (em 1976), depois de ter reunido experiência e
credibilidade, e de se manterem sérias dificuldades de proteção do património da Cidade,
124
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
os membros da CODEP decidiram transformar a sua comissão na ASPA, tendo-a criado em
1977.
Apesar de algumas palavras de franco otimismo (ainda com reminiscências
românticas) proferidas por personalidades como os, então, Ministro da Administração
Interna, Coronel Costa Brás, e Primeiro-Ministro, Mário Soares, aquando da sua passagem
pelo Campo Arqueológico, no seu primeiro ano de funcionamento (Delgado, Martins e
Lemos, 1989; Nunes, 1993), o futuro ainda se mostrava incerto para a ação do Campo, e
para a proteção e o estudo do património arqueológico da região.3
Em 1976, dois importantes e interligados passos foram dados para a investigação
arqueológica local: a criação do Campo Arqueológico de Braga, a cargo da UAUM, e a
definição de uma Zona Arqueológica de Braga, de considerável extensão, que foi
reconhecida de grande valor patrimonial, tanto a nível nacional como europeu (Martins e
Lemos, 1997). A lei que definiu esta zona (Decreto Lei 640/76, de 30 de Julho),
juntamente com outras que se seguiram em 1977 e 1978, permitiu o avanço dos
trabalhos de salvamento e investigação da cidade romana. A publicação de um conjunto
de legislação definindo medidas cautelares, envolvendo vários ministérios, permitiu
desbloquear a situação urbanística e cultural na cidade de Braga. Estas medidas incluíram,
ainda, a aquisição de terrenos (por troca) já com infra-estruturas de urbanização, na zona
de Maximinos, e a concessão à UM das verbas necessárias para as explorações
arqueológicas previstas, pelo que parte dos problemas urbanísticos pendentes ficou
resolvida (Delgado, Martins e Lemos, 1989).
Esta proteção legal pecava, no entanto, por ser apenas provisória. Para além disso,
as reformulações e prorrogações não foram fáceis de obter devido às mudanças ocorridas
na constituição dos governos, na conjuntura política da altura (Delgado, Martins e Lemos,
1989). Assim, e apesar de alguns esforços da Unidade de Arqueologia em regulamentar o
regime de construção na Zona Arqueológica de Braga, razões várias levaram a que os
terrenos arqueológicos ficassem sem qualquer proteção legal efetiva após 1979, com as
consequentes pressões construtivas sobre essa área (Martins e Lemos, 1997).
3
O Coronel Costa Brás terá dito, a 19 de Novembro: “Os valores arqueológicos serão defendidos e preservados. Se for necessário
recorrer a demolições, haverá demolições; se for necessário expropriar, haverá expropriações”; Mário Soares, a 20 de Novembro, terá
afirmado: “Não se construirá mais em Braga sobre ruínas romanas”.
125
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
A elaboração de um anteprojecto de lei pelo então responsável pela UAUM,
Francisco Alves, em 1980, propõe legislação mais completa e flexível do que a existente
sobre a proteção do património cultural. Esta proposta foi apresentada com o consenso
do Governo Civil, da Câmara Municipal de Braga, em 1981, do novo responsável pela
UAUM, Francisco Sande Lemos, e do representante da Direção-Geral dos Monumentos
Nacionais (Arquiteto Rosado Correia). O projeto foi reformulado pelo Instituto Português
do Património Cultural, tendo depois ficado bloqueado porque não foi aceite pelos
representantes do poder local (Delgado, Martins e Lemos, 1989).
Em alternativa, os responsáveis pelo Projeto de Bracara Augusta propuseram a
classificação dos vestígios já escavados, para os salvaguardar. Entre estes vestígios
encontravam-se importantes zonas arqueológicas como os restos da muralha romana que
circundava a cidade, as Carvalheiras, e as termas do Alto da Cividade. As primeiras
obtiveram a classificação de Imóvel de Interesse Público; as últimas, tendo sido
classificadas como Monumento Nacional em 1986, vieram beneficiar, dois anos mais
tarde, de uma zona especial de proteção, através da definição de uma área reservada e
condicionada face à construção.
As ruínas de Bracara Augusta ficaram, assim, parcialmente protegidas (em
algumas zonas), carecendo, ainda, de uma solução global.
Se o início da atividade do Campo Arqueológico (entre 1976 e 1978) foi marcado
por um “permanente conflito”, que opunha um “progresso urbano discutível à proteção e
estudo de valores arqueológicos de indiscutível importância” (Alves et al., 1977: 416),
essa atividade desenvolve-se e a afirma-se já a partir de 1977, altura em que se começa a
encontrar “abundante e significativo espólio” (Delgado, Martins e Lemos, 1989), ao longo
de várias escavações, onde importantes descobertas são feitas, sobretudo na área da
Colina de Maximinos: uma conduta de água e uma residência romana (designada por
Casa da Bica), um hipocausto e um edifício termal romano.
São feitas sondagens de resistividade elétrica em diversas áreas onde se supõe
existirem ruínas, sobretudo em terrenos particulares. Em 1978, sondagens geofísicas
(escavações) levadas a cabo na zona de S. Marcos confirmam ruínas romanas. Por outro
126
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
lado, são ampliadas as zonas de trabalho na Colina de Maximinos, descobrindo-se as
termas; ao mesmo tempo, são realizadas várias intervenções de emergência em vários
pontos da cidade, motivadas por aberturas de valas para saneamento, cabos telefónicos
ou eletricidade, e que viriam a estender-se por toda a década e posteriormente.
Durante estas intervenções acabam por ser encontrados vestígios (como cerâmica
de produção manual) de épocas anteriores à ocupação romana, como a Idade do Bronze,
pelos quais não se esperava. Na década de 80 aprofundam-se escavações e estudos
importantes, de sítios arqueológicos como as Termas, a necrópole romana da rua do
Caires, e a Zona das Carvalheiras (ínsula romana), que se prolongam por vários anos. Em
1987, na Congosta da Palha, o município inicia desaterros para construção de parque
subterrâneo de estacionamento, destruindo dezenas de sepulturas romanas, mas a
rápida intervenção permitiu salvar e registar oitenta túmulos.
Consciente da complexidade de financiamento, e das exigências humanas e
logísticas que uma escavação sistemática da extensa cidade romana acarretaria, a equipa
formada em 1976 tinha como principais objetivos delimitar a cidade romana, efetuar os
acompanhamentos, as emergências e os salvamentos que se avistassem necessários,
mantendo em paralelo algumas escavações programadas, para estudar o urbanismo e a
arquitetura da antiga cidade romana.
No entanto, devido aos avanços da construção na cidade de Braga, a partir de
1980, passaram a ter prioridade as intervenções de emergência e salvamento, não
deixando espaço para o estudo sistemático das escavações ou para a realização de
trabalhos programados de investigação (Martins e Lemos, 1997).
A criação do Gabinete de Arqueologia, pela Câmara Municipal de Braga, em 1992,
no âmbito do Centro Histórico, veio, assim, reforçar o controlo das situações de
emergência nessa área, tal como as construções que, no perímetro urbano, colocassem
em causa o subsolo arqueológico. A aquisição de terrenos por parte da Câmara Municipal,
nomeadamente a zona non edificandi da Colina da Cividade (área arqueológica que inclui
as importantes termas romanas), foi, no entanto, a única solução encontrada para
salvaguardá-los da construção.
Por outro lado, com a ação do Plano Diretor Municipal, foram impostas medidas
cautelares face a áreas arqueológicas situadas dentro do perímetro urbano, definindo
127
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
pequenas zonas de reserva arqueológica, nas quais a construção ficou limitada a
equipamentos de superfície (Martins e Lemos, 1997). Estas medidas trouxeram um novo
fôlego para o prosseguimento dos trabalhos de investigação, para uma consolidação do
Projeto e o reforço da sua componente científica.
III.II.V Avanços científicos e culturais na investigação arqueológica local
O projeto de Salvamento de Bracara Augusta tornou-se, desta forma, um
“verdadeiro projeto de Arqueologia Urbana”, que permitiu obter uma vasta informação
acerca do urbanismo da cidade romana (Martins e Lemos, 1997). No entanto, os
condicionalismos próprios do trabalho em espaço urbano impossibilitaram o seguimento
de um plano prévio, pelo que as várias intervenções feitas ao longo de vários anos vieram
atrasar o estudo e a valorização dos resultados. Assim, até aos anos 90, os conhecimentos
sobre Bracara Augusta advinham de uma acumulação de informações dispersas, mas não
eram ainda completos ou conclusivos porque a interpretação dos resultados não
conseguia acompanhar o ritmo acelerado das intervenções de salvamento (Martins e
Lemos, 1997).
Dificuldades de financiamento para escavações orientadas submetem este tipo de
estudos a constrangimentos especiais, enquanto os salvamentos, sendo de caráter
aleatório, não permitem estabelecer objetivos específicos, apesar dos resultados deste
trabalho serem acrescentados aos já existentes sobre a cidade romana (Martins e Lemos,
1997).
A partir dos anos 90, os estudos sobre Bracara Augusta incidiram sobre o
urbanismo e arquitetura dos edifícios (tendo em vista a sua reconstituição), o material
depositado no Museu D. Diogo de Sousa, procedente de duas décadas de escavações
(entre os quais: cerâmicas, vidros, moedas, metais, e vários objetos de uso quotidiano), o
interface entre a cidade e o meio envolvente (em termos de aprovisionamento de
matérias-primas, como água e pedra, entre outros abastecimentos).
Os objetivos de estudo de cada uma destas áreas vão de encontro, em maior ou
menor grau, ao conhecimento da organização social e da forma de vida na época da
ocupação romana, em Bracara Augusta, cuja temática domina grande parte das
atividades de divulgação do património imaterial feita pelo Museu.
128
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
O estudo do urbanismo e da arquitetura contribuíram para recuperar a topografia
antiga da cidade romana, para definir os limites da malha ortogonal e identificar as
caraterísticas da arquitetura pública e privada (com base na conclusão do estudo do
edifício público das termas do Alto da Cividade e da zona arqueológica das Carvalheiras),
identificar o sistema de distribuição de água na cidade, definir a rede de saneamento, e
confirmar a localização do Forum. O estudo do interface entre a cidade e o meio
envolvente permitiu conhecer melhor os recursos e as matérias-primas usados na
construção (através da identificação das pedreiras que abasteceram a cidade, em
diferentes épocas construtivas), identificar as fontes de abastecimento hídrico à cidade, e
a organização do povoamento rural da região envolvente de Braga, assim como da
ocupação suburbana. O estudo dos materiais provenientes das escavações contribuiu
para melhor conhecer a vida económica da cidade (através da análise da produção
artesanal, das importações e da circulação monetária), identificar os fabricos locais de
louça comum, as áreas de proveniência das cerâmicas finas importadas, e a circulação
monetária, no Alto e Baixo-Império.
A intenção de recriar modelos virtuais dos conjuntos arquitetónicos escavados,
como as termas romanas do Alto da Cividade e a Casa das Carvalheiras, exemplo ímpar da
arquitetura urbana privada em Bracara Augusta, que contribuiu para o conhecimento do
urbanismo desta cidade romana (Martins, 1997) teve como propósito tornar este
património arqueológico mais compreensível e acessível ao grande público (Martins e
Lemos, 1997).
Para além do projeto institucional de Bracara Augusta, a Unidade de Arqueologia,
enquanto Unidade Cultural, tem ainda como objetivo a prestação de serviços
especializados à comunidade no âmbito do estudo, salvaguarda, valorização e divulgação
de outro património arqueológico, tendo colaborado regularmente, desde a sua criação,
com diferentes entidades públicas e privadas que foram solicitando os seus serviços
especializados, designadamente, o Instituto Português do Património Arquitetónico
(IPPAR), o Instituto Português de Arqueologia (IPA), que em 2007 deram origem, através
da sua extinção e fusão, ao Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Arqueológico (IGESPAR IP)4, a Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais
(DGEMN)5, autarquias, museus, e outras entidades culturais interessadas na valorização
do património arqueológico.
A Unidade de Arqueologia de Braga foi, assim, por várias vezes, chamada a emitir
pareceres, fazer reconhecimentos e intervir no salvamento de monumentos e sítios
arqueológicos da região Entre-Douro e Minho (e mesmo em Trás-os-Montes e Beira Alta),
desde o início da sua atividade, com a equipa do Campo Arqueológico de Braga, pelo que
os estudos sobre os vestígios encontrados, e posteriormente divulgados no Museu D.
Diogo de Sousa, foram sempre conduzidos com rigor científico.
Para que as operações e investigações pudessem ter lugar, foi também importante
o apoio facultado pelas várias entidades (instituições e individualidades) envolvidas nas
requisições apresentadas à Unidade de Arqueologia. São, disso, exemplo o Governo Civil
de Braga, a Câmara Municipal de Celorico de Basto e o Engenheiro Ilídio de Araújo,
relativamente às escavações efectuadas, em 1977, no Sítio Proto-Histórico de Pedroso
(Rêgo, Celorico de Basto), onde a Unidade de Arqueologia foi chamada a intervir para
efetuar um salvamento devido ao alargamento de uma estrada municipal, que ameaçava
destruir um conjunto de covas abertas no saibro granítico. Tanto o espólio lítico retirado
dos buracos de poste e das covas, como as estruturas evidenciadas, foram de grande
importância para o aprofundar o ainda reduzido conhecimento da cultura da Idade do
Bronze no Noroeste português.
Um outro exemplo em que uma situação de ameaça sobre o património
arqueológico e cultural se transforma numa oportunidade de descoberta e investigação
foi o revolvimento de estruturas arqueológicas e espólio provocados pela abertura de
uma estrada, em finais de 1979, no concelho de Fafe, que deixaram a descoberto muros e
enchimentos estratigráficos. A pedido, e com o apoio, da Câmara Municipal de Fafe, a
Unidade de Arqueologia de Braga realizou escavações nesse local. O troço de uma rua e o
4
Criado no âmbito do programa PRACE, através do Decreto-Lei nº 96/2007 de 29 de Março, resultando da fusão do IPPAR e do IPA,
incorporando também parte das atribuições da extinta DGEMN.
5
Pelo D.L. nº 223/2007 de 30 de Maio, a DGEMN foi integrada no Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana, IHRU, no que diz
respeito à intervenção sobre o património habitacional não classificado e ao desenvolvimento e gestão do Sistema de Informação para
o Património (SIPA), com exceção das atribuições relativas ao património classificado, que ficaram na competência do IGESPAR.
130
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
espólio cerâmico encontrados revelaram pertencer à época romana e contribuíram para
reforçar a ideia de que a urbanização dos castros com as ruas e zonas habitacionais (neste
caso, do povoado fortificado de Santo Ovídio) já definidas remontam a esse período.
III.II.VI Recursos humanos
Um dos fatores mais importantes na investigação, que determina a sua qualidade,
é sem dúvida a qualificação dos recursos humanos envolvidos. A Unidade de Arqueologia
da Universidade do Minho começou por possuir uma equipa de trabalho que operou no
Campo Arqueológico até 1980. Esta contou com o contributo de profissionais
especializados, que orientavam as operações no terreno e os estudos laboratoriais e
documentais, mas grande parte dos seus colaboradores não tinha formação
especializada. Eles foram progressivamente adquirindo sensibilidade e competências
através da prática e da orientação dos arqueólogos que coordenavam os trabalhos e,
alguns deles, ainda através de estágios realizados no Museu Monográfico de Conímbriga
e na delegação de Lisboa do Instituto Arqueológico Alemão (UAUM, [1981?]).
Com a revitalização do Museu D. Diogo de Sousa, em 1980, o Campo Arqueológico
foi também reformulado, e a equipa dividiu-se entre a Unidade de Arqueologia e o
Museu, tendo a primeira conservado os técnicos superiores, e o segundo albergado o
restante pessoal.
Os técnicos responsáveis pelo trabalho de restauro completaram a sua formação
académica superior, permitindo ao Museu assegurar um trabalho de qualidade nesta área
de atuação; os restantes foram fazendo percursos escolares e académicos distintos, que
lhes proporcionaram desenvolver capacidades anteriormente exploradas. A esta equipa
vieram, ao longo dos anos, juntar-se outros profissionais com formação superior,
fortalecendo-a e diversificando-a, permitindo ao Museu, não só beneficiar da longa
experiência e familiaridade com os vestígios que os profissionais oriundos do Campo
Arqueológico traziam consigo, como também das competências e do saber especializado
de técnicos ligados a áreas fundamentais ao desenvolvimento das atividades de
divulgação, no Museu, como o Desenho, a Arqueologia, a História e o Turismo.
O Museu tem sabido, ainda, manter-se aberto a outros profissionais que
contribuem para o desenvolvimento e divulgação das suas atividades, sobretudo através
131
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
de programas de estágio profissional e de voluntariado, em áreas diversas como a
Animação Cultural, o Património Cultural e as Novas Tecnologias da Informação e da
Comunicação. Mas também a Unidade de Arqueologia sentiu, com o passar do tempo, a
necessidade de ampliar e melhorar a sua equipa de trabalho, especialmente na área da
investigação, no sentido de estudar o espólio que estava a avolumar-se.
III.II.VII Metodologia de investigação
Concebido como uma “unidade arqueológica de intervenção local polivalente”
(Alves et al., 1977: 418), o projeto do Campo Arqueológico constituiu a primeira forma de
trabalho de investigação arqueológica organizada e regulamentada no noroeste de
Portugal. Este projeto previa uma divisão do trabalho arqueológico em quatro secções
relacionadas entre si: trabalho de campo, intervenções de emergência, trabalho de
laboratório, e atividades para a Carta Arqueológica.
Apesar dos limitados recursos (materiais e humanos) disponíveis no início da sua
atividade, verifica-se que a equipa de trabalho da Unidade de Arqueologia demonstrou
reconhecer, já nos anos setenta do século XX, a importância da adaptação da
metodologia de trabalho às condições específicas do sítio e da época de estudo em cada
escavação, procurando o rigor do método para um registo científico adequado, já que
que as escavações envolvem um processo longo, durante o qual é feito o registo não só
das estruturas mas também dos sedimentos que as envolvem (UAUM, [1981?]).
Para conhecer e salvar o património arqueológico desta região, o Campo
Arqueológico de Braga colocou em prática um conjunto de operações distintas e
articuladas, como prospeções e reconhecimentos, para a localização no mapa e a
descrição dos monumentos, sítios ou achados; levantamentos topográficos e fotográficos,
para registar as caraterísticas, dimensões e contexto das estruturas arqueológicas, a par
de um trabalho de laboratório organizado em quatro secções: tratamento e restauro do
espólio, desenho, fotografia e documentação, rentabilizando os recursos humanos
disponíveis.
Estas fases do tratamento laboratorial dos elementos recolhidos e registados no
campo, fosse o espólio, fossem os levantamentos e os desenhos de cortes, eram
encaradas com rigor, para que eles adquirissem significado. O tempo dedicado a este
132
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
trabalho de gabinete seria, em média, o triplo daquele passado no campo (UAUM,
[1981?]). O trabalho laboratorial incluía a lavagem, a marcação, a codificação, a
conservação, a reconstrução, o desenho, o tratamento de fotografia, e secretariado.
Do trabalho de campo (prospeção e escavação arqueológica) provinha,
normalmente, uma grande quantidade de material que, antes de ser armazenado,
passava por um processo de tratamento e estudo cuidadoso. No Campo Arqueológico, no
seu período de funcionamento entre 1976 e 1980, por exemplo, foi depositado espólio de
setenta e quatro sítios arqueológicos. Quando dava entrada no laboratório, ele era
primeiramente inventariado, depois era lavado e marcado, ficando registada nas próprias
peças a sua proveniência, para que pudesse ser identificado mais facilmente. Os
fragmentos de cerâmica, o género de material mais abundantemente encontrado, eram,
de seguida, colados, e procedia-se ao restauro integral das peças sempre que se obtinha
um perfil completo.
Se a dificuldade de identificação e restauro de espólio em cerâmica residia,
sobretudo, no facto de este se encontrar normalmente partido em diversos fragmentos,
muitas vezes dispersos, e incompleto, ou ainda degradado, impedindo a distinção de
traços decorativos ou de inscrições, no caso dos metais era o estado de adiantada
corrosão, provocada pela acidez dos solos do Noroeste de Portugal em que eram
encontrados, que dificultava o seu tratamento e estudo. Assim, e dado que o Campo
Arqueológico não possuía as técnicas ou o equipamento mais sofisticado que o
tratamento deste material exige, apenas eram realizadas operações simples de limpeza e
impregnação para paragem do processo de reações químicas, sendo as peças
consideradas mais importantes ou com problemas mais graves enviadas para restauro no
Museu Monográfico de Conímbriga. O espólio metálico obriga, ainda, a criar condições de
conservação especiais, pelo que era mantido, artificialmente e à parte, num ambiente
quente e seco.
Independentemente da natureza dos materiais, a sua organização em depósito era
primordial, para que o acesso a qualquer fragmento se processasse rapidamente após a
consulta dos ficheiros, para posterior estudo.
Já no Campo Arqueológico, o desenho era encarado como uma das bases de
sustentação mais importantes da atividade arqueológica, por ser mais rigoroso e
133
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
esclarecedor do que a fotografia. A sua qualidade e rigor científico fazem dele um
instrumento que pode ser utilizado em qualquer momento da investigação, mesmo
quando as interpretações e as hipóteses levantadas ficam desatualizadas. O desenho do
espólio é feito segundo regras estabelecidas para cada género, e é usado para a
publicação da sua maior parte. Este trabalho inclui ainda o desenho dos levantamentos
das estruturas arqueológicas e dos cortes, com base nos originais efetuados em campo.
A fotografia era tratada em laboratório próprio do Campo Arqueológico, com
autonomia no trabalho a preto e branco. Servia para registar, revelar e imprimir imagens
e informação sobre as prospeções, os reconhecimentos e as escavações efetuados, assim
como do espólio considerado mais significativo.
A este laboratório cabia, ainda, a produção de provas e diapositivos para a
elaboração de relatórios, publicações, ensino, congressos e conferências, e de provas em
grande formato para as exposições.
O setor da documentação revestia-se de particular importância para o trabalho de
pesquisa bibliográfica e investigação sobre o espólio encontrado no campo. A
documentação era feita em ficheiros centralizados que asseguravam um mais rápido
acesso à informação. Estes englobavam um vasto conjunto de documentos sobre a
arqueologia do Minho e do Noroeste, como cartografia, plantas, levantamentos, registos
de campo, desenhos, fichas bibliográficas, fotos, diapositivos e espólio. Neste setor foi
feito um esforço de ordenamento dos circuitos de utilização, para melhor servir e
organizar o público interessado (Instituto Português do Património Cultural, outros
departamentos do Estado, Autarquias, investigadores, docentes, estudantes, entre
outros).
As escavações feitas pelo Campo Arqueológico da Unidade de Arqueologia da
Universidade do Minho, entre 1976 e 1980, visaram, sobretudo, o salvamento de sítios
ameaçados, incidindo em monumentos e sítios de épocas distintas, desde a Pré-História
até à Idade Média.
Apesar de a equipa de investigadores da Unidade de Arqueologia abranger, já
nessa altura, uma relativa diversidade de especialidades, foi, por vezes, necessário
procurar a colaboração de outros especialistas para assegurar o tratamento científico dos
resultados, como aconteceu no caso do estudo dos resultados das escavações efetuadas
134
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
no Convento de Santa Marinha da Costa (situado na Costa, em Guimarães), em 1979 e
1980 (UAUM, [1981?]), e do trabalho de sondagem sobre um dos sítios ameaçados pelo
mar, em 1978, no Forte do Cão, na Gelfa (Vila Praia de Âncora, Caminha), que foi feito em
conjunto pela Unidade de Arqueologia e pela Área de Ciências da Terra da Universidade
do Minho, no âmbito do Campo Arqueológico, por requerer conhecimentos de Geologia.
Normalmente, tal como aconteceu neste caso, os primeiros dados recolhidos não
permitem retirar informações conclusivas, sendo necessário recorrer a outros trabalhos e
estudos, como o alargamento da área escavada, e de análises policlínicas e de Carbono
14, para obter, entre outras informações, conclusões cronológicas, a definição do tipo de
habitat e a reconstituição do ambiente (vegetação), e datações absolutas, levando os
objetivos da investigação a concretizar-se apenas vários anos mais tarde, deixando
pendentes a compreensão dos vestígios, e os significados que estão por trás dos dados
apurados na investigação.
Se, no início da atividade arqueológica efetuada nesta região, foi a falta de
preparação das intervenções, que foram quase sempre de emergência, e de recursos
(humanos, materiais e técnicos) capazes de dar resposta rápida ao tratamento adequado
dos achados, durante a década de 80 foi o intenso aumento da atividade arqueológica em
torno dos vestígios da cidade romana que deixou muitos dados acumulados para estudo,
pois o ritmo das escavações, a falta de planos prévios para estabelecer objetivos em
situações de salvamento, e a insuficiência de recursos humanos, em número e em
especialização, não permitiu a sua análise sistemática.
Assim, e face à grande quantidade de informação proveniente dos trabalhos
arqueológicos, a equipa do Campo Arqueológico decidiu, já nos anos noventa, manter o
método de registo efetuado no campo (por já ser considerado de grande importância e
encarado com exigência de qualidade), mas reavaliar de forma permanente os resultados
anteriormente obtidos, para que a investigação pudesse evoluir em termos de
observação e interpretação dos dados. Tornou-se, ainda, necessário iniciar um estudo
sistemático dos materiais provenientes de várias escavações.
No entanto, nenhuma das instituições envolvidas no Projeto (Unidade de
Arqueologia, Museu D. Diogo de Sousa, e Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal
de Braga) possuía, aparentemente, recursos humanos disponíveis para efetuar essa
135
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
investigação, pois os existentes destinavam-se prioritariamente ao trabalho nas
escavações e tratamento do espólio (Martins e Lemos, 1997), pelo que se recorreu à
criação de um Mestrado de Arqueologia na Universidade do Minho, em 1993-94, com
uma especialização em Arqueologia Urbana, a funcionar a partir de 1995, para formar e
integrar num projeto de Arqueologia Urbana recursos humanos especializados em
diversas áreas, como a Arqueologia, a História, a Arquitetura e a Informática, para uma
investigação multidisciplinar.
O recurso a novas tecnologias da informação e à informatização dos registos
provenientes, sobretudo, dos cadernos de campo das escavações, veio facilitar a
organização, avaliação e acesso à grande quantidade de informação acumulada,
disponibilizando-a para a realização de estudos específicos. Para além disso, este
tratamento de dados veio compilar informações e registos que, inevitavelmente, se
encontravam dispersos pelas três entidades envolvidas no Projeto de Salvamento de
Bracara Augusta (a Unidade de Arqueologia, responsável pelo estudo e direção científica
das escavações, o Museu D. Diogo de Sousa, responsável pelo espólio das escavações e
pela documentação, e o Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga,
responsável pelas intervenções de emergência e salvamento na área do Centro Histórico
desta cidade), facilitando o seu tratamento, estudo e divulgação.
Deu-se, assim, início, a uma série de estudos específicos onde se incluem, por
exemplo, a produção local de cerâmica, e a arquitetura dos edifícios romanos, que
permitiram aprofundar o conhecimento sobre importantes vestígios arqueológicos da
época romana em Bracara Augusta, cujas réplicas (em maqueta) integram atualmente a
exposição permanente do Museu D. Diogo de Sousa, nomeadamente as Termas Romanas
do Alto da Cividade e a Casa das Carvalheiras. Estes sítios arqueológicos, e as réplicas
respetivas, vieram servir de contexto a visitas temáticas e a contos animados sobre esta
época, realizados no Museu, no âmbito do seu Serviço Educativo, tal como a informação
sobre a produção local de cerâmica fundamentou a criação de oficinas lúdico-pedagógicas
sobre este tema.
Os técnicos do Serviço Educativo do Museu puderam beneficiar dos resultados
destes estudos para se documentar e preparar o trabalho de divulgação do espólio do
Museu, embora outras pesquisas documentais tenham sido necessárias, assim como, em
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alguns casos, a frequência de formação específica, para que determinados ensinamentos
pudessem ser transmitidos ao público, quer durante as visitas guiadas, como na
realização de atividades de caráter prático, como os jogos romanos, a produção cerâmica,
ou a criação de indumentária, adornos e penteados romanos.
III.II.VIII Correntes de influência na interpretação dos vestígios
Sabendo que os estudos sistemáticos sobre o espólio arqueológico divulgado pelo
Museu D. Diogo de Sousa tiveram início no século XX, tendo em conta a existência de
várias correntes de interpretação em Arqueologia ao longo desse século, e partindo do
princípio de que cada abordagem determina um tipo de leitura diferente, importa
conhecer as influências metodológicas e ideológicas que nortearam as leituras e
interpretações feitas sobre os vestígios materiais que constituem o espólio divulgado pelo
Museu D. Diogo de Sousa, pois dessa leitura depende o conhecimento específico que se
detém sobre o património a divulgar. Para efetuar esta análise, será tida em conta a
opinião da Professora Manuela Martins, atual presidente da Unidade de Arqueologia da
Universidade do Minho, um dos elementos mais antigos deste núcleo de trabalho, que
agora dirige. A visão aqui expressa pela Professora Manuela Martins sobre a
interpretação em Arqueologia foi, como declarado pela mesma, formatada por ideias e
leituras referenciais na sua formação e perceção do mundo, do passado e da sociedade,
de autores como Bourdieu, Foucault e Habermas, que sustentam parte das premissas de
um novo “paradigma interpretativo” na Arqueologia, conhecido como pós-processual.
Relativamente à ideia de “passado”, Manuela Martins (1993) recusa uma
conceção baseada na “realidade cumulativamente apreendida, quer seja numa perspetiva
historicista, que o recria como narrativa do que aconteceu, seja na perspetiva positivista,
que o olha como algo objetivável e mensurável”. Em vez de um “passado objetivo”, ou
“processos evolutivos”, que pode ser “reconstruído por acumulação de observações”, é
preferida uma ideia de passado sujeito à interpretação, valorizando, ainda, a ação do
indivíduo que o constrói, salvaguardando, no entanto, a possibilidade de o significado
resultante não ser conclusivo, dada a sua dependência de modelos culturais e
disciplinares dominantes, que condicionam a compreensão efetuada pelo indivíduo
(1993: 4).
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O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Reconhecendo a preponderância do evolucionismo no pensamento modernista
sobre as questões da continuidade e mudança, enquanto estrutura de pensamento que
domina a visão do homem ocidental face ao passado, ao presente e ao futuro da
humanidade, Manuela Martins admite a sua influência na leitura que é feita do tempo, do
espaço, das culturas, e de outros conceitos fundamentais para os estudos arqueológicos,
históricos e antropológicos. Manuela Martins faz notar, no entanto, que os conceitos
utilizados na interpretação do passado não são senão representações e formas de lidar
com a realidade, pelo que as leituras efetuadas obedecem a um modelo estruturante do
discurso e da linguagem, que, por sua vez, dependem da experiência e da informação que
se detém no momento. Assim, esses conceitos estão constantemente sujeitos à
reinterpretação (1993: 5).
Para Manuela Martins, os conceitos de tempo, espaço e cultura, utilizados na
investigação arqueológica, como em outras disciplinas, encontram-se profundamente
ligados, pois as culturas ocorrem, forçosamente, num tempo e num espaço específicos,
mas o que lhes dá sentido é o comportamento humano.
Ainda segundo Manuela Martins, a ideia de evolução das sociedades, presente na
investigação em Ciências Humanas, nas quais se situa a Arqueologia, pressupõe a
existência de descontinuidade e de mudança, pela passagem por sucessivos estádios, do
simples ao complexo, numa escala temporal. Assim, nos estudos de longos períodos de
tempo, habituais na investigação arqueológica, são procuradas as descontinuidades e a
sua explicação, para entender a evolução das sociedades.
Para Manuela Martins (1993: 6), a atenção dada pela Arqueologia às mudanças de
cariz tecnológico deve-se ao facto de elas permitirem escalonar as culturas numa ordem
temporal linear, que facilita a sua leitura. Ela admite, no entanto, que esta prática
inserida no evolucionismo também impõe limites à própria conceção de evolução, ao
pressupor como processo de mudança e de crescente complexidade nas alterações
efetuadas, “no sentido de uma maior transformação de energia, maior adaptação ao
meio, maior especialização funcional, maior integração social e maior diferenciação
estrutural”, pois esse foi o sentido tendencial de evolução (ou mudança) demonstrado
pela civilização ocidental.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Manuela Martins defende, assim, que a abordagem científica sobre a evolução e
transformação das sociedades deve ser explicativa e, portanto, requer uma análise causal,
com base em modelos e metodologias que ajudam a construir uma representação do
passado.
Das diferentes leituras realizadas durante o século XIX, no noroeste português,
consideradas como alternativas sobre o mesmo passado por Manuela Martins (1993: 7),
destacam-se as tendências tradicionalistas do Romantismo que, sob ideais patrióticos e
regionalistas, orientaram as investigações de eruditos locais bem conhecidos, como
Martins Sarmento e Alberto Sampaio. M. Martins considera esta uma visão romântica e
tradicionalista, que procurava a continuidade histórica, e recusava a mudança face ao
passado. Apesar de valorizar os esforços pioneiros de figuras como Martins Sarmento
enquanto introdutores da Arqueologia como disciplina científica em Portugal, M. Martins
acredita que eles pecam por terem estado fortemente marcados pelos ideais românticos,
que não permitiram uma visão objetiva sobre a evolução e a mudança cultural. O
trabalho destes investigadores é visto como “regionalista” e amador, para além de
criador de “fortes constrangimentos” face ao desenvolvimento dos conhecimentos, ao
longo de várias décadas (Martins, 1993: 8).
Para M. Martins, esta mentalidade, caraterizada pelo amadorismo, pelo
isolamento dos investigadores, e pelo entendimento da Arqueologia enquanto busca das
origens de uma região, que dominou o início da investigação arqueológica do século XX,
só viria a ser totalmente superada nos anos 80 do século XX. No entanto, foi este
paradigma que acabou por fornecer um “modelo interpretativo coerente que, entretanto,
se multiplicava e para o qual os investigadores buscavam apenas filiações étnicas”
(Martins, 1993: 8).
Nos anos 80 a prática arqueológica de campo lavada a cabo pela Unidade de
Arqueologia da Universidade do Minho estava, finalmente, definida num quadro
normativo e, por influência do Positivismo, aspetos como o “romantismo, o amadorismo
e o anacronismo” (Martins, 1993: 53) foram desaparecendo do panorama da investigação
arqueológica. Assim, vários projetos de investigação conduzidos no norte do País sobre
temas relacionados com a Pré e a Proto-História permitiram levantar novas questões,
139
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
num novo enquadramento teórico, que possibilitaram novas leituras dos registos
arqueológicos e, por conseguinte, novos conhecimentos e interpretações dos mesmos.
Uma nova visão dos conceitos de tempo e de espaço veio permitir que os sítios
arqueológicos e os vestígios materiais da cultura fossem encarados, não como modelos
ou padrões culturais, mas como algo que pode ser interpretado em termos
socioeconómicos, simbólicos, e de dinâmica de ocupação do espaço (Martins, 1993).
Podemos, efetivamente, afirmar que nesta década se deu um avanço muito
importante na interpretação da cultura material, pela valorização da simbologia e
significado dos vestígios arqueológicos, que passaram a ser estudados enquanto parte de
um todo. Os sítios arqueológicos passaram a ser vistos como algo que não está isolado,
mas sim inserido numa paisagem e em redes de povoamento, e os objetos e estruturas
passaram a ser estudados em termos tecnológicos, funcionais e simbólicos (Martins,
1993: 54).
A investigação dos anos 80, no noroeste português, ficou marcada pelo
positivismo na forma de encarar aspetos como o tempo e o espaço, que se traduziu em
práticas metodológicas como o recurso sistemático à estratigrafia, a utilização
generalizada do radiocarbono (C14), a aplicação de modelos de análise espacial, e
trabalhos de âmbito paleo-ecológico, com o objetivo de compreender a “evolução da
paisagem e dos processos de desenvolvimento económico e social das comunidades”
(Martins, 1993: 54).
Em vez de se centrar na procura de traços homogéneos, como anteriormente era
feito, a investigação passa a reconhecer e a valorizar “variabilidades sincrónicas e
diacrónicas” (Martins, 1993: 54), dando outra expressão à noção de tempo e à relação
existente entre os acontecimentos, não apenas numa perspetiva dos factos passados
numa mesma época, como também numa aceção dinâmica da sucessão do tempo. O
espaço adquiriu, assim, uma expressão temporal, e passou a ser interpretado com base
na sua interação com as comunidades; ao ser contextualizado, ele ganhou uma dimensão
histórica, permitindo fazer leituras em termos funcionais e socioeconómicos (Martins,
1993).
Surge, assim, uma nova perspetiva sobre os factos históricos e os artefactos,
influenciada pelas ideias da Nova Arqueologia, que deixa de encarar as mudanças como
140
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
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ocorrências bruscas geradas por acontecimentos motivadores de instabilidade, para
passar a percecionar a mudança como processo dinâmico de transformação, procurando
a construção de uma “sequência menos segmentada pelos factos históricos e os
artefactos”, e “mais conforme aos processos de dinâmica económica e social” (Martins,
1993: 55).
Por outro lado, e apesar de recusar a ideia de isolamento das comunidades, esta
abordagem estabelece uma visão diferente da sua antecedente em relação às influências
externas: em vez de as ver como consequência de “migrações, ou simples difusão”, elas
são encaradas como o resultado de “diferentes níveis de interação regional e supraregional”, que motivam “processos dinâmicos de transformação” dentro das
comunidades (Martins, 1993: 55).
Analisando as influências da abordagem pós-processualista, e voltando à
problemática da evolução cultural, numa nova relação entre tempo, espaço e cultura,
numa reavaliação das questões da continuidade e da mudança, podemos afirmar que de
uma aceção de tempo, valorizado como cronologia, e de espaço, como um mero cenário,
pela arqueologia tradicional, passou-se, nos anos 80, sob a influência de uma abordagem
social, a ter os três conceitos – tempo, espaço e cultura, finalmente, inter-relacionados. A
cultura é vista como um processo (composto por normas, valores, representações
cognitivas e materiais), “através do qual a prática social se constitui e se transforma”, e o
tempo e o espaço são encarados como “estruturas” e “condições estruturantes da vida
social e cultural, do comportamento e da ação”, pois eles são indissociáveis da prática
social, que os gera e reformula de forma permanente (Martins, 1993: 58). Esse tempo
construído por cada comunidade, num processo social e cultural, confere temporalidade
à cultura material e às formas espaciais, traduzindo-se em “modelos específicos de
relações intra-culturais e inter-culturais”, que resultam em comportamentos diários (ou
hábitos), na noção de tempo biográfico dos indivíduos, e no tempo das instituições.
À semelhança do tempo, o espaço está associado à cultura e, portanto, é visto
como “um meio através do qual as relações sociais se produzem e reproduzem”. Mas ele
está também relacionado com o tempo; por isso, M. Martins defende que, para
compreender uma cultura, é necessário entender a forma como os indivíduos se
relacionam no espaço, e interagem em diferentes momentos. O espaço é visto como uma
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
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entidade fortemente simbólica, pois é nele que se ordena, representa e transforma a
visão que os membros de uma comunidade têm do universo, que determina a
organização e o sentido atribuído à vida humana. A cultura surge, assim, como “um
contexto de ação e não como simples consequência da mesma” (Martins, 1993: 58).
Isso implica que, em termos de continuidade e mudança, os estudos se
concentrem nas ações dos indivíduos em interação social e ambiental, pois são essas
ações que aparecem materializadas nos vestígios arqueológicos, expressando traços
culturais. As diferentes formas de interação que caraterizam cada comunidade resultam
na diversidade cultural do passado, que observamos nos testemunhos materiais.
As continuidades, por seu turno, acontecendo dentro de um processo dinâmico
que carateriza a evolução das sociedades, não serão exatamente estáticas, alimentandose de mudanças e escondendo alterações em termos de práticas e manifestações sociais.
Este fenómeno acaba, segundo M. Martins (1993: 58), por gerar “contradições entre os
princípios estruturantes da reprodução social e os seus agentes”, levando a conflitos que
apenas são superados através de mudanças estruturais.
Por isso, as explicações dadas para a evolução cultural ou social pela Arqueologia
tradicional (com base nos acontecimentos ou nas mudanças tecnológicas) e pela
abordagem processualista (com base na ecologia e na lógica socioeconómica) não foram
consideradas suficientes, pois são também de considerar, nesta análise, uma
complexidade de experiências e de sentidos práticos e simbólicos, carregados de
intenção, que se encontram em permanente estruturação, na evolução histórica.
Passa-se, assim, a realçar o valor da compreensão do passado e da interpretação
individual do narrador, pelo que os conceitos de espaço e de tempo representados nos
registos arqueológicos aparecem como associados a “sucessivos presentes” (Martins,
1993: 59). Mais do que buscar causas para a ocorrência das mudanças, tornou-se
importante compreendê-las no contexto das continuidades que sustentam a herança
histórica das sociedades, visíveis em diversos aspetos que caraterizam as sociedades do
presente.
As culturas do passado, que geraram estruturas socioeconómicas, simbólicas e
ideológicas deixaram traços visíveis na sociedade, na mentalidade e na paisagem do
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presente, constituindo continuidades e evoluções que marcam as sociedades atuais, e
que ajudam a compreendê-las.
Fica, assim, expressa a sugestão de que, na interpretação em Arqueologia, e para
que sejam feitas uma mais abrangente análise e uma melhor compreensão dos aspetos
materiais e imateriais das culturas do passado, seja importante considerar tanto as
mudanças como as continuidades, que determinam a herança cultural das comunidades e
sociedades.
Por outro lado, a conceção tripartida de cultura aqui defendida por Manuela
Martins está em consonância com a natureza do património imaterial, tanto pela interrelação entre cultura, espaço e tempo, como pela premissa de que ela está em constante
mudança, evolução e transformação, refletindo-se em ações e representações.
A investigação da qual advém o conhecimento dos testemunhos materiais
pertencentes ao espólio do Museu beneficiou, sobretudo a partir dos anos 80 e 90 do
século XX, e com a criação da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, da
evolução epistemológica e científica ocorrida em outros países. A adoção de abordagens
e metodologias mais rigorosas e abrangentes conduziu à elaboração de estudos
culturalmente contextualizados, que valorizaram questões de continuidade e de mudança
cultural, aspetos culturais singulares, e uma visão integrada de tempo, espaço e cultura.
Neles foram realçados aspetos relacionados com hábitos de vida, a produção artesanal, a
dieta alimentar, a organização social, o culto religioso, as artes, o lazer, as relações
familiares, os espaços domésticos e os espaços públicos, a relação entre o indivíduo e a
natureza, entre outros aspetos, que constituem, de forma evidente, domínios do
património imaterial.
A investigação que foi efetuada por esta unidade cultural centrou-se na região do
noroeste português, mas todos os estudos sobre os vestígios recorreram à análise
comparativa com dados obtidos por outras investigações, de outros tempos e locais, não
se fechando numa perspetiva regional.
Presentemente6, Manuela Martins continua a considerar, no entanto, que a
interpretação feita dos vestígios materiais é diferente em cada estudo efetuado em
Arqueologia (e o mesmo acontece dentro da equipa da UAUM). Isso deve-se, no seu
6
As declarações de Manuela Martins aqui apresentadas foram proferidas, pessoalmente, através de entrevista semiestruturada, por
via telefónica e correio eletrónico, em Abril de 2012.
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entender, às distintas “formações teóricas dos arqueólogos”, ou mesmo à “ausência de
qualquer formação de natureza teórica, que nem sempre é ministrada nas Universidades,
ou é simplesmente omitida”. Será por isso, também, que, segundo M. Martins, “ainda há
quem ache que a Arqueologia é uma simples técnica de escavação”, havendo, ainda
atualmente, muitos arqueólogos que “rejeitam que a prática arqueológica esteja já
submetida a constrangimentos teóricos”.
M. Martins defende precisamente o contrário e, por isso, considera que “é o
pensamento teórico que preside ao próprio registo, variando este muito entre os
arqueólogos, porque só se regista aquilo que se percebe”. Assim, o registo arqueológico
no campo (de artefactos, ecofactos, contextos, estruturas, etc.) será feito de acordo com
a capacidade de cada um o compreender, com base na sua “formação, no conhecimento
e no raciocínio analógico”, que determinam a visão que cada um possui daquilo que
escava. Para M. Martins, apesar de os diferentes paradigmas teóricos e metodológicos se
terem sucedido no tempo, eles ainda coexistem, continuando a ser usados em diferentes
doses.
A questão da interpretação dos vestígios materiais, em Arqueologia, torna-se
complexa devido à tendente “variabilidade das análises e interpretações produzidas”, que
se agrava, segundo M. Martins, consoante a natureza dos vestígios, de acordo com “o seu
período cronológico e cultural”, mas também com “o seu caráter fragmentário”, que
impede os artefactos e estruturas de chegarem intactos até ao presente. No entanto,
para M. Martins, também não é possível ter uma análise linear da questão e afirmar, por
exemplo, que os pré-historiadores fazem interpretações “mais sofisticadas” apenas
“porque lidam com vestígios mais fragmentados”, em comparação com “aqueles que
lidam com contextos construtivos dos períodos históricos”.
Assim, por um lado, “a interpretação não é uma etapa do processo arqueológico,
que apenas se coloca na fase de laboratório” e, por outro, compete ao arqueólogo
“desenhar contextos e hipóteses interpretativas diversas”, uma vez que, para M. Martins,
“a Arqueologia não é uma ciência exata, mas uma disciplina discursiva que cria cenários
representativos do passado, com base em modelos de análise”.
M. Martins vê como desejável, mas difícil de alcançar, que os diferentes olhares
interpretativos se complementem na interpretação dos vestígios, pois isso dependeria,
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em grande parte, “da capacidade do arqueólogo e dos seus interesses, bem como de
financiamentos para a investigação”, algo que “nem sempre é fácil de conseguir” em
Portugal, onde, segundo M. Martins, “as análises são muitas vezes vistas como
dispensáveis”.
Manuela Martins atribui o “valor imaterial dos objetos” não ao próprio objeto mas
ao “contexto e conteúdo que lhe é acrescentado pelo arqueólogo”, e, para ela, “o
problema mais complexo que a Arqueologia tem que enfrentar” é “assumir que a
interpretação é subjetiva e que apenas constrói partes de um todo”, posicionando-se
contra as “barricadas tradicionalistas que ainda acreditam que os objetos falam por si”,
sem que sejam formuladas perguntas sobre os mesmos.
Analisando as palavras de Manuela Martins, verifica-se que a mesma insiste muito
na questão da subjetividade na interpretação dos vestígios arqueológicos apesar de
assumir que ela depende de modelos que as procuram, de certa forma, objetivar. O
problema residirá, afinal, no facto de diferentes arqueólogos seguirem modelos
interpretativos distintos, que ainda coexistem. Mas pior do que tudo isso será não
trabalhar de forma multidisciplinar, sem recolher visões de várias disciplinas, pois é a
interpretação multidisciplinar que criará uma análise suficientemente abrangente dos
vestígios, para que sejam entendidos de forma mais completa e rigorosa, que permita,
depois, explorar esse recurso material relacionando-o, se aplicável, com património
imaterial.
III.II.IX Contributos para o conhecimento do património imaterial
Ao longo da sua existência, e sobretudo a partir dos anos 80 do século passado,
muitos avanços tiveram lugar na investigação sobre o património arqueológico da região
noroeste. Entre eles, contam-se estudos sobre vestígios provenientes de várias épocas,
desde a Pré-História até à Idade Média. Ao longo da década de noventa, foram realizados
e divulgados estudos sobre zonas e vestígios arqueológicos, que testemunham a
existência da cidade romana de Bracara Augusta, e que ajudam a conhecer a forma como
se vivia na altura.
Os vários estudos realizados pela Unidade de Arqueologia não se limitam a efetuar
uma análise material dos vestígios; não se detêm apenas com aspetos formais, estilísticos
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ou técnicos, mas procuram conhecer o contexto exato em que foram encontrados e em
que foram utilizados, para que possam ser historicamente valorizados e significativos.
Os métodos de investigação utilizados no estudo dos vestígios arqueológicos, e a
profundidade desse mesmo estudo, dependem das condições envolventes, dos recursos
disponíveis, e da natureza e estado dos vestígios. No estudo da zona arqueológica das
Carvalheiras, ou no das termas do Alto da Cividade, por exemplo, foi feita uma
interpretação do conjunto tendo, sobretudo, em conta uma análise dos aspetos
arquitectónicos e, portanto, do seu processo de construção e da sua estrutura (Martins,
1997). Este estudo sobre a zona das Carvalheiras revelou dados importantes sobre as
técnicas e materiais de construção utilizados na época da ocupação romana, em Bracara
Augusta, aspetos do urbanismo e da arquitetura urbana privada da cidade romana,
permitindo conhecer a sua estrutura, composição, e funcionalidade das diferentes
divisões (Martins, 1997); em resumo: o espaço doméstico, mas também a sua
representatividade dentro da malha urbana.
No estudo de peças de cerâmica, como lucernas, por exemplo, procurou-se a
técnica utilizada, estudou-se a forma e os materiais envolvidos na construção da peça, a
sua origem espacial e histórica, por comparação com estudos já existentes e peças
expostas em outros museus, a sua cronologia (com base no estudo morfológico), e a
análise de inscrições, como a marca de oleiro (Morais, 1997a). Estas peças serviram de
testemunhos sobre a estrutura social e cultural, e sobre as relações comerciais externas
existentes em Bracara Augusta, na época romana.
A análise de elementos arqueozoológicos, como restos de ossos e dentes de
animais, em estudos sobre povoados pré e proto-históricos da região minhota (Antunes,
1991), revelou dados sobre hábitos alimentares (produtos consumidos, forma de cozinhar
os alimentos, fontes de energia e técnicas utilizadas na sua confeção e cozedura), sobre
os animais existentes (espécies e subespécies dominantes, tanto enquanto animais
domésticos, como selvagens), as atividades de produção e exploração, como a pastorícia
e a caça, e o destino que era dado aos restos dos alimentos; em suma, a relação e forma
de interação entre o indivíduo e o meio em que ele estava inserido.
A confrontação de obras de autores clássicos (sobretudo de Estrabão) com dados
arqueológicos demonstrou, por exemplo, a especificidade do Noroeste Peninsular no
146
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
quadro da ocupação romana, relativamente à integração de produtos como o vinho e o
azeite na estrutura alimentar, e as consequências económicas daí resultantes (Morais,
1997c), realçando aspetos de continuidade e mudança cultural entre os fins do século I
a.C. e meados do século seguinte, nas comunidades do NO peninsular. A interpretação de
registos epigráficos, o estudo da presença de cerâmica na região (em especial, ânforas
vinárias e ânforas de azeite), estudos de paleocarpologia (a partir de análises
comparativas de macrorestos de sementes), a análise crono-cultural de testemunhos
arqueológicos resultantes de escavações, o recurso a referências paleobotânicas, a
análise de vestígios arqueozoológicos, análises arqueométricas (de cronologias
construtivas), aliados a relatos provenientes de obras clássicas e históricas, resultaram
numa interpretação culturalmente contextualizada sobre a evolução do uso e da
produção de dois produtos que entraram nos hábitos alimentares do povo desta região.
Os estudos publicados pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho,
que servem de base informativa sobre o espólio do Museu D. Diogo de Sousa, e do
trabalho de divulgação que nele é feito, foram efetuados já sob a influência de correntes
de investigação e de interpretação mais recentes, em Arqueologia, pelo que os objetivos
e a metodologia neles apresentados focam aspetos relacionados com a dimensão
imaterial dos vestígios e a sua contextualização cultural, como “relações de continuidade
e descontinuidade”, “leituras funcionais e socioeconómicas”, “as fases cronológicasculturais”, “factores geoestratégicos”, ou “o contexto ambiental” (Bettencourt, 2000;
Bettencourt, 2001).
Por outro lado, procurar padrões culturais é uma tendência recorrente na
investigação histórica, mas também na Arqueologia. No entanto, esta aprendeu, através
da prática, que há vários exemplos que não se enquadram em qualquer padrão, e que
isso não diminui a sua importância. Por exemplo, nos vestígios provenientes da Idade do
Bronze encontrados na região minhota verificou-se que cada peça é única, contendo
formas e decorações que não se vêem repetidas em outras peças, pois as técnicas de
produção ainda não incluíam a utilização de moldes. Outro exemplo, também da área da
produção cerâmica, é o do estudo sobre duas lucernas vidradas de época romana
encontradas em Bracara Augusta, onde foi aplicada a técnica pouco frequente do vidrado
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
de chumbo, a partir de um fragmento vidrado em forma de cabeça de cavalo que se
descobriu pertencer a uma lucerna, e de uma lucerna intacta de bico redondo (Morais,
1997a). Aceitar, compreender, valorizar e divulgar a sua singularidade é também divulgar
património imaterial.
Por vezes, como já foi dito atrás, descobrir a funcionalidade de uma peça e o seu
significado trata-se de um processo complexo, e nem sempre alcançável em tempo útil,
sendo apenas feitas suposições. Outras vezes, as hipóteses lançadas de início, com base
nos dados recolhidos nas diversas fases de estudo, ficam estanques, não sendo possível
obter resultados científicos rigorosos que levem à identificação e compreensão dos
vestígios, e logo ao seu restauro e/ou exposição ao público. Nesses casos, os vestígios
ficam depositados e conservados em armazém, para sempre ou até que novos avanços
sejam feitos na investigação. Os vestígios chamados selados ou lacrados, que são
encontrados no local original onde foram deixados, in situ, são válidos do ponto de vista
científico, enquanto que aqueles que foram movidos e adulterados impedem que seja
feita uma interpretação rigorosa, e que os estudos sejam válidos ou conclusivos. Mas
também existem exemplos de situações em que o facto de os vestígios não se terem
conservado in situ não impediu que a investigação fosse conclusiva (Martins, 1997).
Pelo caráter provisório das hipóteses colocadas, e devido aos fatores atrás
descritos, os estudos podem ser prolongados por tempo indefinido, e estar sujeitos a
atualização, incluindo espólio já exposto e divulgado, imposta pelo avanço científico e por
novas descobertas que a investigação proporcione. Tal aconteceu, por exemplo,
relativamente à zona arqueológica das Carvalheiras, cujo complexo estudo se prolongou
por vários anos (Delgado e Lemos, 1985; Delgado e Lemos, 1996; Martins, 1997).
A investigação em Arqueologia permite o encontro com o passado, interpretá-lo, e
entendê-lo melhor, e esse trabalho beneficia dos avanços tecnológicos e da evolução dos
métodos de investigação (cientificamente rigorosos e tecnologicamente avançados), das
fontes disponíveis (vestígios documentais e vestígios materiais), por um lado, da
abordagem (multidisciplinar) utilizada na sua interpretação (abrangente e aberta às
questões de continuidade e mudança cultural), e ainda dos conhecimentos e das técnicas
de conservação, restauro, valorização e exposição dos sítios e objectos, que determinam
148
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
o tipo de leitura que é feita na divulgação do espólio arqueológico, e da sua dimensão
cultural.
Conhecer o contexto passado dos vestígios é determinante para compreender e
objetivar o seu significado. Os objetos têm uma dimensão não material que vai mais além
da mera explicação ou informação sobre a sua origem espácio-temporal, e a sua utilidade
prática. Colocar os objetos a falar é procurar neles traços, mais ou menos, percetíveis
sobre os hábitos, as formas de interação com o meio envolvente, e a visão do mundo que
eles transmitem sobre uma determinada comunidade e cultura.
É nesse sentido que um museu de Arqueologia não só pode divulgar o património
imaterial como ser um local privilegiado para tal, pois a investigação arqueológica
permite obter, tratar e interpretar, com mais segurança e rigor científico, os vestígios
materiais que testemunham o passado da humanidade, sobretudo de épocas anteriores
ao surgimento da escrita.
Impõe-se, no entanto, ter em conta que, tal como foi aqui afirmado, todos os
vestígios possuem uma vertente material e uma vertente imaterial. Podemos,
porventura, afirmar que a vertente material não será geradora de dúvidas, uma vez que
associamos automaticamente o material a objeto ou forma física; mas o mesmo não
acontece em relação à sua vertente imaterial, que é mais difícil de definir.
Por um lado, como foi referido no capítulo relativo à definição e às dimensões do
património imaterial, é necessário ter em conta que o imaterial, enquanto património,
pode incorporar também aspetos materiais. Por outro (e, neste caso, a questão aplica-se
tanto ao património imaterial como ao material), a noção de “património” é
fundamental, já que nem todos os vestígios ou manifestações culturais podem ser
considerados “património”.
Durante a sondagem inicial que efetuei junto dos profissionais do Museu D. Diogo
de Sousa, para aferir acerca da sua visão sobre o património imaterial e da eventual ação
desenvolvida pelo Museu no sentido da divulgação do mesmo, estas questões
assomaram de forma evidente (e assumidamente ou não) na maioria das respostas. Estas
são dúvidas que ainda prevalecem, de uma forma geral, em relação ao património
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
imaterial, não apenas por parte de profissionais deste museu, pelo que é importante ter
esses conceitos bem clarificados, sobretudo por quem trabalha questões relacionadas
com o património imaterial, pois estar ciente de que se está, efetivamente, a fazê-lo
(como acontece no Museu D. Diogo de Sousa) pode contribuir para uma melhor ação de
divulgação do mesmo.
Tal como foi definido na secção de contextualização teórica deste estudo, só
podemos considerar como património aquilo que é comummente aceite por uma
comunidade (mais, ou menos, alargada) como sendo representativo da sua identidade
cultural (no sentido antropológico do termo), apesar de não podemos esperar que todos
os elementos de determinada comunidade sintam ou reconheçam, pessoalmente, algo
como parte da sua identidade, sobretudo quando se trata de património imaterial (já que
este sobrevive graças à sua (re) transmissão). Tal pode acontecer porque não se
identificam com determinados valores que lhe estão subjacentes (como acontece, em
Portugal, por exemplo, em relação à tauromaquia, por questões que se prendem com a
defesa dos direitos dos animais), por desconhecimento das suas raízes e de determinados
costumes que entraram em desuso, e que deixaram gradualmente de ser transmitidos de
forma natural, de geração em geração (como acontece em relação a determinadas
tradições e atividades artesanais, na região minhota de Portugal, como as vindimas, as
desfolhadas, a arte de trabalhar o linho ou o barro). Noutros casos, as gerações mais
recentes, devido às diversas inovações e mudanças ocorridas nas várias áreas da vida
humana, veem determinados conhecimentos, artes, valores, costumes e crenças do
passado como algo obsoleto (como as antigas formas de produção artesanal face ao
fabrico industrial, em relação à cerâmica, por exemplo, ou as antigas técnicas manuais
face aos atuais métodos mecânicos, como acontece na produção de vinho).
Assim, é considerada a visão e o sentimento que prevalece, de uma forma geral,
na comunidade, até que as exceções e diferentes tendências eventualmente se
fortaleçam de tal forma que transformem essa realidade, e se tornem o sentimento, a
mentalidade e a prática dominantes. O património como memória e herança do passado
pode ser considerado como pertença cultural, não impedindo a inevitável mudança ao
longo do tempo. Assim, passado e evolução cultural são compatíveis, podendo coexistir.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Neste estudo, foram tidas em conta estas questões de mudança, valorizando a
memória e a herança cultural como património (imaterial) que pode ser transmitido, quer
de geração em geração, como através da função da educação não formal de que os
museus são dotados, enquanto instituições culturais e transmissoras de saber. Desta
forma, os museus valorizam a memória e a herança cultural como algo que, mesmo não
fazendo parte dos usos atuais, faz parte do processo cultural que tornou a nossa
sociedade naquilo que ela é presentemente, contribuindo para a sua evolução. Conhecer
esse passado e tomar contacto com ele ajuda as pessoas a conhecerem e a perceberem a
sua origem, sem que tal impeça que continuem a operar-se mudanças culturais.
Por outro lado, ainda, importa clarificar a diferença entre “vertente imaterial do
património” e “património imaterial”. Pela primeira, podemos entender, no contexto
deste estudo, toda a informação válida (do ponto de vista científico) disponível acerca do
património, seja ele material ou imaterial, incluindo desde dados cronológicos e
geográficos até ao seu significado histórico-cultural. Será, assim, todo o contexto a que o
vestígio está associado, a sua própria história, incluindo o seu percurso de descoberta e
de recuperação, assim como o seu significado. Era esta a noção que a maioria dos
profissionais do Museu tinha, inicialmente, de “património imaterial”, não tendo em
conta a noção de património. Os vestígios arqueológicos tornam-se património pelo facto
de serem representativos de uma determinada cultura e identidade, passada e/ou
presente, sendo um testemunho e um reflexo das práticas, representações, expressões,
conhecimentos e competências de uma cultura. Esse será o património imaterial ao qual
o património material, incorporado em instrumentos, objetos, artefactos ou espaços
culturais, está associado. As comunidades, grupos e, eventualmente, indivíduos
reconhecem-nos como fazendo parte do seu passado e daquilo que está também na
origem do que são no presente. Transmitido de geração em geração, e constantemente
recriado pelas comunidades e grupos em função do seu meio envolvente, da sua
interação com a natureza, e da sua história, este património imaterial confere-lhes um
sentido de identidade e de continuidade.
Quando, neste estudo, se fala de divulgação do património imaterial, pretende-se,
assim, aludir às formas através das quais esse património, atrás definido, é transmitido ao
público deste museu, no âmbito da sua função de promotor cultural, partindo dos
151
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
vestígios arqueológicos que constituem o seu espólio e dos sítios arqueológicos que
integram um circuito histórico-cultural das várias épocas retratadas pelas coleções do
Museu. Nesse sentido, as informações de caráter cronológico, geográfico, ou mesmo
histórico, por exemplo, não são consideradas património, mas sim um complemento
informativo acerca do mesmo, ainda que possam ser fundamentais para a sua
interpretação e para o seu reconhecimento como património. O património imaterial a
transmitir, ou divulgar, consiste em conhecimentos, técnicas, artes, formas de expressão,
e visões sobre o mundo, que se procura recriar através de atividades práticas de fomento
da aprendizagem não formal e do contacto direto com os mesmos, levando os
participantes a reconhecer o contributo daquelas para a sua identidade e cultura atuais.
Em conclusão, a informação que é recolhida e trabalhada por arqueólogos,
historiadores e outros profissionais especializados permite construir um conhecimento
mais profundo sobre os artefactos, constituindo a sua vertente imaterial. Estes vestígios
não se transformam, no entanto, automaticamente em património, apenas por serem
estudados. Os estudos fundamentam a sua classificação e proteção legal, atestando a sua
relevância histórica e cultural. Assim aconteceu no caso em que esta análise incide, pois
os estudos especializados, em conjunto com os testemunhos materiais encontrados,
recuperados, restaurados e interpretados, foram decisivos para que o seu valor
patrimonial fosse reconhecido, e que os achados fossem considerados um testemunho da
nossa identidade cultural, o que veio refletir-se num movimento a favor da sua
salvaguarda, especialmente em relação aos vestígios da antiga cidade romana de Bracara
Augusta, e a sua posterior classificação e proteção legal.
Este caso particular é um exemplo demonstrativo de como o reconhecimento
social do património arqueológico se faz, geralmente, em duas fases que não são
necessariamente concomitantes, com a interpretação feita pelos especialistas e o
reconhecimento do valor científico e patrimonial feito pelas instituições a preceder o
reconhecimento identitário que é feito pelo público. Curiosamente, no caso do
património etnográfico acontece, muitas vezes, o oposto.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
III.III O Contributo do Museu D. Diogo de Sousa na divulgação do património
imaterial
Antes da abertura do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa ao público, em
2007, a atividade arqueológica levada a cabo na região noroeste e os vestígios dela
provenientes foram expostos à comunidade através da organização de exposições,
colóquios e visitas guiadas, por iniciativa do Campo Arqueológico de Braga, da Unidade de
Arqueologia da Universidade do Minho, que conduzia a investigação nesta região, com a
colaboração do Museu D. Diogo de Sousa, para divulgar a atividade arqueológica local,
dar a conhecer o valor e o significado do património arqueológico e dos processos de
estudo e conservação, e sensibilizar a comunidade para a importância de o defender e
preservar.
Já também antes da reestruturação do Museu (1980), o espólio arqueológico a ele
pertencente era utilizado para fins educativos. Nessa altura, ele era essencialmente
divulgado a dois tipos de público: um público mais restrito, frequentador do curso de
licenciatura em História e Ciências Sociais ministrado na Universidade do Minho, que
tinha acesso à Biblioteca especializada da Unidade de Arqueologia, ao contacto com os
materiais arqueológicos provenientes das escavações, à informação atualizada
privilegiada por parte dos respetivos docentes (simultaneamente, investigadores da
Unidade de Arqueologia), e às diversas ações do Laboratório da Unidade, onde tinham a
oportunidade de observar e praticar técnicas de restauro, desenho e tratamento de
informação desde o início do processo até à publicação dos resultados; e um público
escolar do Ensino Básico e Secundário, que ao longo do ano letivo visitava, sob orientação
de profissionais do Campo Arqueológico, o circuito de ruínas de Bracara Augusta e o
Laboratório.
A procura turística, que em 1980 registou uma média de oito visitantes por dia,
era composta sobretudo por emigrantes, que acorriam a esta zona durante o Verão.
Mas uma questão impõe-se: será que estas ações promoviam ou divulgavam o
património imaterial, ou somente o material? Certamente, essa vertente ainda estaria
pouco desenvolvida nas atividades promovidas; mas já nessa altura, mesmo que de forma
inconsciente, porque este tema ainda não era tão debatido, a dimensão imaterial estava
a ser transmitida, por exemplo através da reconstituição de cerâmica, num mini153
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
laboratório que esteve a funcionar durante a exposição JUVEMINHO, realizada, em Braga,
em 1980 (UAUM, [1981?]). Essa atividade serviu para divulgar técnicas de trabalho
artesanal, que fazem parte da herança cultural desta comunidade.
Depois da reestruturação do Museu, mas ainda antes da abertura do Museu ao
público, era o Museu que se “deslocava” às escolas, para divulgar o seu espólio. Um dos
técnicos do Museu, que agora integra o Serviço Educativo do mesmo, deslocava-se às
escolas do distrito de Braga, levando até ao público escolar conhecimentos sobre as
coleções e sensibilizando o mesmo para a importância da proteção do património
arqueológico. Nessas sessões formativas, de caráter lúdico, eram apresentadas imagens
do espólio e exploradas várias questões, desde a sua origem, até ao seu significado
histórico e cultural.
Agora, tal como antes, o principal público do Museu D. Diogo de Sousa e,
provavelmente, de todos os demais museus portugueses, é o público escolar, dada a
função cultural e educativa destas instituições, pelo que as atividades de divulgação do
património se centram sobretudo nesse tipo de público, desenvolvendo-se num viciante
ciclo relacional. Se, por um lado, podemos afirmar que é o público escolar que mais
frequentemente visita o Museu, por outro podemos dizer que a maioria das atividades
promovidas por esta instituição cultural tem como alvo o mesmo público, atraindo, assim,
continuamente o mesmo tipo de público, que é levado ao Museu por professores e
educadores, todos os anos.
Enquanto museu de Arqueologia, o Museu D. Diogo de Sousa divulga, sobretudo,
património que faz parte do nosso passado histórico e cultural, algum pertencente aos
primórdios da vida humana, mas cuja herança está ainda atualmente presente na vida da
comunidade, sobretudo a época da ocupação romana na cidade de Braga, o período mais
destacado na Exposição Permanente do Museu, tanto pelo numeroso espólio como pela
sua simbologia e representatividade, e relação com os demais testemunhos existentes
fora do Museu – monumentos e sítios arqueológicos também visitáveis, e atividades
culturais de Braga.
As atividades de divulgação que o Museu realiza e/ou apoia promovem o encontro
entre o passado e o presente, o conhecimento e a memória, a identificação do público
154
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
com aquilo que, de diversas formas, lhe é apresentado e proporcionado através de
experiências práticas e do contacto interativo.
O papel ativo do público é valorizado e procurado, encorajando a sua participação
ativa na criação do próprio conhecimento e na interpretação dos significados dos objetos
expostos. A aproximação entre público e vestígios arqueológicos é, tanto quanto possível,
fomentada, para que ele possa senti-los como parte da sua vida e identidade. A
dessacralização dos objetos expostos é de grande importância para essa aproximação,
não sendo incompatível com a preservação ou o respeito pelo património. No Museu D.
Diogo de Sousa, foram criadas alternativas face à impossibilidade de tocar peças que
precisam de ser mantidas em vitrinas por motivos de conservação, num ambiente de
temperatura e humidade adequados. O contacto com réplicas das peças expostas é uma
das alternativas.
Outra é a utilização que foi dada ao chamado “lixo arqueológico”, peças e vestígios
descontextualizados, e que foram colocados em armazém, por não reunirem informação
suficiente para serem integrados na Exposição Permanente. Este material é utilizado
durante visitas guiadas, proporcionando aos participantes uma experiência prática de
contacto físico com vestígios arqueológicos, que são o ponto de partida para questões
que estão por trás dos objetos: a partir do fragmento de um machado, por exemplo,
explora-se a forma como era utilizado e para que servia; a base de uma ânfora pode
servir para explicar o resto do objeto, a forma como assentava no fundo das
embarcações, e o motivo de ter esse determinado aspeto; e um fragmento de cerâmica
pode servir para explorar o significado das decorações nele contidas. E todos esses
aspetos são ainda analisados através do confronto das caraterísticas desses vestígios do
passado com a cultura do presente.
A participação do público é fomentada, ainda, através da realização de atividades
como workshops, oficinas lúdico-pedagógicas, e jogos, nas quais ele tem a oportunidade
de recriar, de diferentes formas, por vezes adaptadas à atualidade, artes, saberes e
técnicas, que pertencem ao seu legado cultural imaterial, e que encontram eco no
presente, ressalvando as transformações naturalmente decorrentes da evolução social e
cultural que carateriza o património e as expressões culturais.
155
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
No Museu D. Diogo de Sousa, existe a consciência de que o material documenta o
imaterial e, portanto, é dos vestígios que nele estão expostos, e dos monumentos, sítios
arqueológicos, e outros testemunhos, que se encontram fora do seu espaço e que fazem
parte de todo o conjunto patrimonial que representam, que se parte para a abordagem
da dimensão imaterial dos objetos. A construção de réplicas que permitam uma melhor
observação e interpretação dos vestígios é uma das estratégias de divulgação utilizadas
pelo Museu. Estas réplicas adquirem várias formas: peças de cerâmica e em metal,
estatuetas, peças de joalharia, jogos, e maquetas, tanto para venda, como enquanto
material que é utilizado em oficinas práticas, ou ainda na Exposição Permanente. A Casa
das Carvalheiras é um exemplo de sítio arqueológico no qual o Museu se baseou para
ilustrar a forma como uma família (abastada) teria vivido na época da ocupação romana,
em Bracara Augusta, pois trata-se do vestígio de casa romana mais bem conservado
desta zona. Pela dimensão pouco comum e caraterísticas peculiares desta domus, foi
possível concluir que teria pertencido a uma família muito abastada. A grande maqueta
integrada na Exposição Permanente (Fig. 7) permite ilustrar costumes da época,
associando-a ao quotidiano de uma família romana que teria vivido em Bracara Augusta.
Fig. 7. Maqueta da Casa das Carvalheiras
Essa família, que passou a ser utilizada como mascote do Museu, foi, por seu
turno, criada a partir da informação contida nas inscrições encontradas numa estela
funerária, também parte do espólio do Museu. Dessa estela advêm os nomes atribuídos a
algumas das personagens principais de uma série de histórias adaptadas sobre a época
romana vivida em Bracara Augusta, que são representadas para o público infantil, no
Museu, através da atividade “Contos Animados”, assim como na história original
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
publicada em livro – “Titus e os Legionários” (que faz parte de uma coleção a ampliar
futuramente), nas histórias originais editadas em DVD, nos Folhetos Educativos, nas
Fichas de Sala, Fichas Informativas, Fichas de Exploração Pedagógica, nos Jogos
Interativos, e em diverso material promocional do Museu. Mais recentemente, durante o
ano de 2011, as personagens que compõem o núcleo familiar de Titus foram, também,
recriadas em tecido (felpo), pelos próprios técnicos do Serviço Educativo, e colocadas à
venda na Loja do Museu. A associação entre a “Casa das Carvalheiras” e a família de Titus
Satrius é meramente ficcional, e esse facto é transmitido ao seu público.
Dada a complexidade e extensão da Exposição Permanente do Museu, os seus
profissionais sentiram a necessidade de elaborar estratégias e recursos que
simplificassem a compreensão do espólio por parte, sobretudo, do seu público escolar
mais jovem, mas também do público com necessidades educativas especiais, público
sénior, entre outros. Assim, foram criados diversos instrumentos informativos e
educativos, de caráter lúdico e pedagógico, tal como atividades adaptadas a cada tipo de
público e objetivos.
O património imaterial associado ao património material exposto no Museu
começou a ser promovido a partir da abordagem da vertente imaterial do espólio em
exposição, pelo que surgiu de uma forma não consciente ou propositada, e como meio de
simplificar a informação, torná-la mais acessível e inteligível, mais próxima daquilo que é
familiar a um público mais jovem, mas também como forma de cativar a atenção de
vários tipos de público, dado que permite explorar questões mais curiosas e não
meramente factuais, ao mesmo tempo que pode ser explorada de forma prática em
oficinas lúdico-pedagógicas, jogos e até representações teatrais. O caráter prático das
atividades promovidas veio, ainda, reforçar o contributo do Museu na divulgação do
património imaterial.
A ação de divulgação do património cultural imaterial que o Museu D. Diogo de
Sousa desenvolve é levada a cabo dentro e fora do Museu, através de atividades e
iniciativas internas (incluindo as propostas do IMC e do ICOM, como a comemoração do
Dia Internacional dos Museus), e de parcerias com outras instituições e outros projetos,
especialmente de índole local e regional.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
As oficinas lúdico-pedagógicas, os contos animados e os jogos são desenvolvidos
em diversos contextos, de acordo com o Programa de Atividades do Museu, estando
presentes no seu programa para escolas, mas também no programa geral, destinando-se
não só ao público escolar, como também ao público sénior, a famílias, e outros grupos.
São, por isso, selecionadas segundo os objetivos, interesses e necessidades de cada tipo
de público, e inseridas em atividades diversas e programas específicos, como visitas
temáticas, Festas de Aniversário, “Sábados no Museu” (programa destinado a famílias), e
Programas de Férias (de Verão, do Natal, do Carnaval e da Páscoa).
III.III.I Os Contos Animados
Estes contos são inéditos ou adaptados da literatura infantil, e têm como objetivo
dar a conhecer ao público mais jovem, de uma forma lúdica e interativa, o espólio
arqueológico do Museu, e o modo de vida em épocas históricas passadas a ele associado.
As histórias já criadas e representadas no Museu versam sobre duas épocas históricas
distintas: a Pré-História peninsular (de que é exemplo “Uma delícia de mamute!”), e a
época da ocupação romana em Bracara Augusta (como “A romana Catilina que bocejava
a toda a hora”, ou “O traseiro do Senhor Titus Satrius”. Os contos estão classificados em
duas temáticas: “Na Pré-História: Histórias em Movimento”, com os quais se transmite
conhecimento sobre a vida humana na Pré-História e as atividades de subsistência
desenvolvidas nessa época, e “Os Romanos: Histórias em Movimento” ou “Histórias com
Romanos”, que dão a conhecer o quotidiano romano, assim como o espaço doméstico e o
espaço público em que os romanos desenvolviam diferentes atividades, realçando
aspetos culturais.
O SE também já criou e adaptou histórias para ocasiões específicas, como o
começo da Primavera, que foi incluído no Programa de Férias da Páscoa. A história “O
nascimento das estações”, inspirada num mito grego, foi representada nesse contexto, e
serviu de pretexto para abordar a temática da religião na época da ocupação romana em
Bracara Augusta, das divindades indígenas, mas também as gregas e as egípcias, das
quais existem vestígios arqueológicos que integram as coleções do Museu (uma ara
votiva a Júpiter, nela designado por “Divinus Maximus”; e uma estatueta de Minerva, em
bronze) e vestígios relacionados, situados na cidade de Braga, como a Fonte do Ídolo. Esta
158
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
história encontra-se, agora (em 2011), em fase de readaptação para apresentação ao
público, estando a ser preparados os cenários da peça, que em breve integrará o
programa de atividades do Serviço Educativo.
Outro exemplo destes contos animados é a história “O Titus vai às termas”, uma
adaptação da história original “O grande banho”, que foi apresentada ao público infantil
do ensino pré-escolar no “Dia Internacional do Livro Infantil”, em 2008. Através dela,
foram transmitidos aspetos do quotidiano romano, como a vida familiar e o espaço
doméstico, os jogos romanos, e as termas.
Utilizando objetos, fantoches, marionetas, bonecos e personagens humanas,
criados e representados por técnicos do Serviço Educativo do Museu, e de cenários,
também criados pelo SE, as histórias retratam múltiplos aspetos do quotidiano e
costumes, como as habitações, a alimentação, as relações familiares e sociais, o
vestuário, a educação, o lazer, o comércio, as atividades produtivas, as artes, ou ainda as
crenças religiosas, entre outros, através do enredo da própria história, e da incorporação
de aspetos culturais na caraterização do cenário, das personagens, e mesmo no ambiente
envolvente, como o som (música de inspiração romana para acompanhar histórias sobre
a época romana), ou até a caraterização do público (a quem é colocado um manto
romano, nas representações de histórias sobre a época romana) para o envolver numa
atmosfera condizente com a história. Os cenários, elaborados com muito engenho, rigor
histórico e criatividade, também pelos técnicos do SE, contêm, sobretudo, recriações (em
material reciclado) de artefactos que compõem a exposição permanente do Museu (Fig.
8).
Fig. 8. Representação de um conto das “Histórias com Romanos”
159
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Durante a representação dos contos, alguns dos elementos do público são
convidados a participar na peça, como personagens e como criadores do enredo. As
restantes crianças, que ficam a assistir, também são, por várias vezes, ao longo da
representação, encorajadas a intervir na interpretação e construção da história. No final,
todos são convidados a descobrir e refletir sobre a mensagem, a moral da história, que
encerra valores culturais universais, como a amizade.
Assim, esta relação entre os objetos e aquilo que eles transmitem, e que, neste
caso, é veiculado através da representação teatral, está sempre (que possível) presente
nas atividades de divulgação, para estreitar a relação entre o espólio do Museu e o
público. Estas atividades são, por isso, conjugadas com uma visita ao núcleo da exposição
permanente do Museu mais estreitamente associado à história em questão. Quando a
história escolhida é, por exemplo, “A romana Catilina que bocejava a toda a hora”, a visita
recai em especial sobre a maqueta da Casa das Carvalheiras. A história é utilizada como
ponto de partida para o contacto com os vestígios arqueológicos, criando um
envolvimento contextual adequado à faixa etária e nível de desenvolvimento do público
infantil. A recriação da Casa é apresentada como um espaço que traduz vivências, hábitos
quotidianos, culturais, sociais e económicos de uma determinada época histórica. A
ênfase é colocada na interpretação, no significado dos objetos (do material), mais do que
na construção em si, para compreender as motivações que estariam por trás de certos
aspetos, para comparar as casas da altura com as de agora, e a forma como estavam
organizadas e decoradas, por exemplo.
E porque o SE também procura estimular a criatividade e a interpretação ativa do
público, estes contos são ainda complementados com atividades de expressão plástica,
como o desenho e a pintura, sobre a peça a que assistiram, ou mesmo a
elaboração/decoração de um fantoche da personagem principal da história
correspondente (como o Titus). Nessas atividades, o público põe em prática as
impressões que recolheu da apresentação do conto. Nos seus desenhos e pinturas fica
expressa a ideia que a sua memória reteve durante a representação teatral; neles
podemos ver as cores, as personagens, os espaços, os objetos, recriados de uma forma
tão fiel quanto a sua destreza artística permite alcançar.
160
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
O desafio que se coloca, presentemente, ao SE é o de desenvolver esta atividade
com o público escolar do 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico, escolhendo e adaptando ou
criando outras histórias adequadas a essa faixa etária, pois os contos têm sido somente
dirigidos às crianças do Ensino Pré-escolar e 1º Ciclo do Ensino Básico. Por outro lado,
esta atividade requer a participação de um mínimo de três técnicos do SE, para contar a
história e manipular os fantoches, marionetas, bonecos, ou representar personagens, o
que nem sempre é fácil de conjugar com as suas demais tarefas inerentes ao
funcionamento do Museu, sobretudo nos dias em que há maior afluência de visitantes.
Faz também parte dos planos do SE criar ou adaptar novas histórias, relacionadas
com o espólio e as épocas representados na Exposição Permanente do Museu, que
possam ser disponibilizadas às escolas para serem representadas por alunos no espaço do
Museu, sobretudo em datas comemorativas, como forma de colaboração entre o Museu
e as instituições escolares, na preparação das suas atividades, e como meio de aproximar
estes dois espaços de educação e cultura.
III.III.II Os Jogos
O Serviço Educativo do Museu adaptou e desenvolveu vários tipos de jogos,
classificando-os em diferentes categorias: Jogos de Sala, Jogos de Campo, Jogos Romanos
de Tabuleiro, outros Jogos de Tabuleiro, e Jogos Interativos Online.
Os Jogos de Sala (“À descoberta do Museu: Uma peça, uma história”, e “Em busca
do legionário de Bracara Augusta”) são realizados no interior do Museu e no seu espaço
de exposição. Têm objetivos específicos orientados para a descoberta, observação e
conhecimento de artefactos arqueológicos em exposição, de uma forma lúdica, para os
conhecer mais profundamente, interpretando as peças em conjunto com o grupo e o
monitor do SE.
Os Jogos de Campo englobam os “Jogos romanos de campo” e a atividade “Jogar e
brincar como os Romanos”. São realizados no espaço exterior do Museu e em outros
contextos, como a Braga Romana, e recriam jogos e brincadeiras da época romana, para
dar a conhecer jogos e atividades de lazer praticadas pelos Romanos e perceber como
estes se divertiam, que desportos praticavam e quais as origens de alguns dos jogos
161
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
atuais. Alguns dos jogos incluem, por exemplo, brincadeiras e corridas com arcos (“Jogo
do arquinho” (Fig. 9)), bolas de trapo e latas (“Jogo das bolas” (Fig. 10)), e outros objetos.
Neste tipo de atividades, procura-se fazer uma recriação que seja o mais rigorosa
possível, mas, em alguns casos, para facilitar a prática dos jogos, é usada a sua versão
mais recente, como é o caso do “Jogo do arquinho”, cuja gancheta não possui a mesma
forma que a originalmente utilizada pelos Romanos.
Fig. 9. Jogo do arquinho
Fig. 10. Jogo das bolas
Os Jogos Romanos de Tabuleiro foram recriados no Museu a partir de fichas de
jogo e de um dado, que foram achados nas escavações de Bracara Augusta, e com base
em vestígios de tabuleiros de jogo achados em vários sítios romanos ao longo do
território nacional. São, atualmente, três os jogos disponíveis: Jogo do Soldado (Ludus
Latrunculorum), Jogo do Moinho (Merellus), e Jogo da Tabula (Duodecim Scripta). São
jogos que deram origem a outras versões mais actuais, e que fazem parte da herança
cultural do País. Esta atividade é também conjugada com uma visita temática à Exposição
Permanente do Museu, para conhecer os vestígios arqueológicos que motivaram a
integração destes jogos no Programa de Atividades do Serviço Educativo do Museu.
Fig. 11. Oficina de Jogos Romanos de tabuleiro
162
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Para além de estarem disponíveis a todo o público, para serem jogados, através de
réplicas
produzidas
em
cerâmica
(reaproveitando
material
de
vestígios
descontextualizados), no espaço público do Museu, estes três jogos de tabuleiro estão
também à venda, na Loja do Museu, em dois materiais distintos – cerâmica e cartão. No
entanto, eles são mais frequentemente utilizados pelo público escolar, em oficinas lúdicopedagógicas do Serviço Educativo do Museu, e no âmbito do “Torneio de Jogos Romanos
de Tabuleiro”, organizado em parceria com uma escola de Braga, por iniciativa de um
docente de uma escola do Concelho, no âmbito de uma investigação académica. O Museu
presta apoio ao evento de várias formas: na cedência de espaços para a realização dos
jogos, na divulgação e promoção do evento, e na disponibilização de informação e dos
jogos para a realização do torneio. Apesar de ter tido uma boa aceitação por parte do
público escolar, envolvendo a participação de várias escolas do concelho de Braga, esta
atividade encontra-se, atualmente, dependente da disponibilidade de o docente dar
continuidade ao projeto, estando, para já, programada nova edição para 2012.
Estes jogos são também, habitualmente, promovidos no espaço destinado à Área
Pedagógica, no evento anual Braga Romana.
A recriação destes jogos pode servir para explorar competências académicas, nas
áreas da Matemática, da História e da Educação Tecnológica, mas também sociais e
culturais. Os participantes têm, nessa atividade, um papel ativo, não só na aplicação como
também na construção do seu saber. De uma forma lúdica, ela ajuda a desenvolver
capacidades como a concentração, a análise, a abstração, a estratégia, o respeito pelas
regras e pelo adversário, enquanto se divulga hábitos e costumes da época Romana,
relativamente a atividades de lazer e tempos livres, mas também de formas de estar em
sociedade, promovendo o seu património cultural e reforçando os laços identitários que
os unem a esse passado histórico.
Os outros Jogos de Tabuleiro (“Corridas no Circo Máximo”, ou Circus Maximus, e
Ludi Saeculares) são inspirados nas Corridas do Circo Máximo e nos grandes jogos
romanos que se realizavam uma vez em cada 110 anos. O primeiro pode ser jogado num
tabuleiro gigante, sobre o qual se deslocam os jogadores, mas também existe numa
versão de mesa, tal como o jogo Ludi Saeculares (que tem ainda uma versão online). Esta
atividade também proporciona o conhecimento de atividades lúdicas praticadas pelos
163
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Romanos, ao mesmo tempo que explora conhecimentos sobre os seus costumes e
cultura.
Para além dos jogos de tabuleiro, foram criados dois jogos interativos online para
o público infanto-juvenil, que estão disponíveis através do Portal dos Museus do Braga
Digital. São jogos desenvolvidos no próprio museu, com os conhecimentos e a tecnologia
que estavam, na altura, ao seu alcance, pelo que ficaram um pouco aquém das
expectativas. O atraso que ainda atualmente se verifica no desenvolvimento e
funcionamento do próprio Portal dos Museus no Braga Digital impediu a sua divulgação.
No entanto, o Museu continua expectante em relação ao futuro deste projeto, estando a
investir na evolução da sua página.
“Em busca do passado através da arqueologia” leva os seus jogadores a conhecer,
através da experiência do jogo, as diferentes etapas e vertentes do trabalho
arqueológico, desde a prospeção até à reserva e exposição em museu. Permite-lhes
perceber o processo que precede a exibição de vestígios arqueológicos num museu, a
complexidade de todo o caminho percorrido por uma peça até chegar aos olhos do
público, para que possam valorizar o património que têm perante si, e lhes seja mais fácil,
também, compreender o seu significado.
O jogo “Bracara Augusta”, tal como o nome indica, leva os jogadores a explorar a
cidade romana e os seus principais espaços públicos, dos quais existem vestígios
estudados e expostos, quer nos próprios locais, como em museus. As perguntas feitas ao
longo do jogo levam os jogadores a refletir e a conhecer a forma como se vivia não só
nesta mas em qualquer cidade que esteve sob o domínio romano. De uma forma lúdica,
ajuda-os a atribuir um significado aos vestígios arqueológicos, e a melhor interpretar
aquilo que veem ou visitam.
Mais recentemente, o Museu criou (desta vez com o recurso a profissionais
especializados), com base numa ficha de jogo que contém uma inscrição alusiva aos
famosos jogos romanos que se realizavam uma vez em cada 110 anos, encontrada nas
escavações de Bracara Augusta, um novo jogo interativo online, com site próprio, cujo
nome, “Ludi Saeculares”, evoca estes jogos que foram celebrados, no ano 17 a. C., pelo
Imperador Augusto. Este jogo está disponível no Museu, em tabuleiro, para ser jogado
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
livremente, e em www.ludisaeculares.com, em Português e Inglês, com conta associada
na rede social facebook. Tem-se verificado uma adesão razoável do público ao jogo.
Trata-se de um jogo mais abrangente, que permite aprofundar o conhecimento
sobre a ocupação romana na região norte de Portugal, mormente dos sítios
arqueológicos visitáveis, divulgar os artefactos existentes em museus da região, e
estimular o conhecimento da cultura romana que está na origem da identidade nacional e
europeia. Todos estes jogos são disponibilizados enquanto ferramenta lúdico-pedagógica
que pode ser usada no Museu, nas escolas, e até mesmo em casa, como complemento de
formação, com a finalidade de aprendizagem ou lazer.
III.III.III As Oficinas Lúdico-Pedagógicas
Estas oficinas estão agrupadas em dois tipos: Oficinas de Arqueologia
Experimental e Oficinas de Expressão Plástica. Têm como objetivo geral o contacto direto
e contextualizado com o espólio arqueológico em exposição, assim como a compreensão
de conceitos histórico-culturais e arqueológicos.
III.III.III.I Oficinas de Arqueologia Experimental
De acordo com o âmbito da atividade prática desenvolvida em cada oficina,
podemos ainda considerar dois tipos de Oficinas de Arqueologia Experimental: por um
lado, aquelas que exploram as fases do processo arqueológico, e que promovem o
conhecimento sobre o percurso que o espólio arqueológico faz até ser exposto, através
da simulação de escavação arqueológica e lavagem de espólio (“Brincar aos arqueólogos”
e “O aprendiz de arqueólogo e o laboratório de restauro”, que inclui visita ao Laboratório
de Conservação e Restauro do Museu); e, por outro, atividades de produção de objetos e
instrumentos, e a prática de técnicas ancestrais ligadas à expressão artística e ao modo de
vida de diferentes épocas. Enquanto o primeiro tipo promove a sensibilização para
questões relacionadas com a investigação arqueológica, a conservação e o restauro de
vestígios arqueológicos, e o respeito pelo património cultural, o segundo proporciona a
divulgação do património imaterial, através do contacto com práticas ancestrais e do
ensinamento de técnicas, artes e saberes caraterísticos de diferentes épocas históricoculturais.
165
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
As atividades proporcionam experiências tão distintas, ricas e interessantes, que
merecem ser descritas individualmente. Na oficina “Atividades do Homem da Pré e ProtoHistória: Produção de instrumentos” (Fig. 12), os participantes encontram-se num local
próprio, no interior do Museu, onde foi feita uma simulação de sítio arqueológico com
representação do habitat do Homem da Pré e Proto-História.
Fig. 12. Oficina “Atividades do Homem da Pré e Proto-História”
Nela, eles têm a oportunidade de manusear artefactos arqueológicos e
experimentar algumas técnicas, como a produção de fogo, a tecelagem, a moagem, a
produção de ornamentos, a produção cerâmica, entre outros, com o objetivo de dar a
conhecer a vida do Homem pré e proto-histórico e as atividades de subsistência que este
desenvolveu, realçando a evolução das técnicas utilizadas ao longo das diferentes fases
da evolução do Homem até à Idade do Ferro. Esta oficina tem a particularidade de ser
realizada num cenário propositadamente criado para representar um ambiente da Pré e
Proto-História, onde se pode fazer o enquadramento espacial das vivências que se
pretende ilustrar. Neste caso, criou-se algo material para melhor explicar o imaterial, tal é
a sua importância na exploração do espólio arqueológico e na interpretação da cultura.
A oficina “Cerâmica manual: Como fazer em barro” permite compreender alguns
conceitos relacionados com os materiais, as tecnologias, a produção e a funcionalidade
das peças cerâmicas da Pré e Proto-História, através da criação artesanal de formas, e da
decoração de peças que são modeladas em barro.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Uma outra oficina, esta sobre a época romana – “Tesselatum – Mosaico Romano:
Como é e como se constrói” (Fig. 13), leva os participantes a criar padrões e/ou a recriar
motivos romanos, de forma a construir um fragmento de mosaico, depois de ser feita
uma introdução ao tema através da observação do mosaico da domus do Museu e de
peças ilustrativas em exposição.
Fig. 13. Oficina “Tesselatum – Mosaico Romano”
Os objetivos desta atividade são compreender alguns conceitos relacionados com
as tecnologias e a produção de materiais de construção, o acabamento, o revestimento
de paredes e pavimentos, tipos de matéria-prima e motivos decorativos utilizados; e
estabelecer a relação entre os recursos naturais da região, as atividades produtivas e o
quotidiano da época romana. Com esta atividade, são transmitidas aos participantes
técnicas de construção e decoração da época romana com base no tesselatum, o mosaico
romano.
Dado que o programa do Serviço Educativo é elaborado, sobretudo, para o público
escolar, este é revisto e remodelado no final de cada ano letivo. No final do ano letivo
2010/2011, e também com base em dados recolhidos do público, através de um inquérito
de satisfação, e da recolha de opiniões, foram feitas algumas alterações no programa
para 2011/2012.
167
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Uma das principais alterações em termos de oficinas lúdico-pedagógicas foi a
transformação de três workshops (existentes em formato de workrest – atividades de fimde-semana destinadas a adultos e famílias) em oficinas de arqueologia experimental
destinadas aos alunos do Ensino Secundário, Profissional, e Cursos de Educação e
Formação de Adultos (EFA), preenchendo uma lacuna existente no Programa, para esta
faixa etária, para a qual o Serviço Educativo do Museu disponibilizava apenas visitas às
exposições e os jogos romanos de tabuleiro (se excetuarmos as atividades de caráter
geral). Para além de continuarem a ser oficinas de sensibilização para a preservação do
património, elas passam, agora, a proporcionar a prática de técnicas de conservação e
restauro do património arquitetónico (e de diferentes materiais e matérias-primas
utilizados na sua construção), enquanto são abordados aspetos históricos e culturais
associados ao património arqueológico desta região, à sua investigação e significado.
Nelas se demonstra como questões de conservação e restauro do património
arqueológico podem condicionar o estudo e a interpretação de vestígios arqueológicos,
assim como o conhecimento que obtemos sobre o passado. Não estando diretamente
ligadas à divulgação do património imaterial, elas são um ponto de partida para o
desenvolvimento e adaptação de atividades a esta faixa etária.
“De Bracara Augusta ao Museu” proporciona uma experiência prática sobre as
várias fases do processo de restauro de um achado arqueológico, e a descoberta de como
os objetos usados na cidade de Bracara Augusta chegam até ao Museu, dando a conhecer
a metodologia de investigação utilizada em arqueologia e nos processos de restauro.
“Água mole em pedra dura” promove a realização de experiências para observação do
efeito dos ácidos sobre a pedra, assim como a observação dos efeitos de alteração de
monumentos por ação das chuvas ácidas, outros agentes naturais e a intervenção
humana, com o objetivo de compreender os fatores de degradação do património
construído. Finalmente, “Santinhos de pau carunchoso” permite a observação do efeito
de infestantes e de agentes humanos sobre a madeira e sua alteração, para além da
observação de fenómenos de alteração em peças de madeira, para compreender os
fatores de degradação do património móvel neste tipo de material.
168
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
III.III.III.II Oficinas de Expressão Plástica
São vários os exemplos de atividades deste tipo que o Serviço Educativo do Museu
promove. De uma forma geral, recorrem a técnicas como o desenho, a pintura, a gravura,
a colagem, a construção e a reciclagem. Devido à sua especificidade, serão descritas
individualmente.
Na oficina “Os artistas da Pré-História: Cores, rabiscos e outros riscos” (Fig. 14), é
feita a exploração dos temas representados na arte pré-histórica, devidamente
contextualizados, acompanhada de visita ao núcleo da Pré-História, da Exposição
Permanente, para observação das representações de gravuras rupestres, e posterior
elaboração de desenho, gravura e pintura.
Fig. 14. Oficina “Os artistas da Pré-História”
O seu objetivo é dar a conhecer os recursos naturais usados pelo Homem préhistórico, e as técnicas e materiais utilizados nas variadas manifestações de arte préhistórica.
Através da oficina “Adornos e acessórios de ontem e de hoje”, os participantes são
levados a criar e produzir objetos a partir da recolha, reutilização e reciclagem de diversos
materiais, incluindo recursos naturais como bolotas, pauzinhos, ramos, folhas, etc., para
melhor compreender o significado do seu uso pelo ser humano ao longo do tempo.
“Construções da Proto-História” é uma oficina que recria o habitat do Homem da
Idade do Bronze e do Ferro, recorrendo à reciclagem de materiais, à construção, ao
desenho, à pintura e à colagem. Com esta atividade, dá-se a conhecer a organização
interna dos povoados e da distribuição dos elementos construídos pelo Homem destas
épocas, na paisagem natural.
169
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Um tema já explorado numa das oficinas de arqueologia experimental é abordado,
de forma diferente, numa oficina de expressão plástica: “Tesselatum – Mosaico Romano:
Brincar com mosaicos”. Esta abordagem diferenciada está também relacionada com uma
faixa etária inferior, que implica um grau de dificuldade de execução mais baixo. Nesta
oficina, os participantes criam padrões para a construção de um painel de mosaico,
através da pintura e colagem, com os mesmos objetivos da oficina de arqueologia
experimental.
“O que nos dizem os objetos: Imagens, textos, símbolos e outros motivos” é uma
oficina que permite interpretar o espólio arqueológico, reconhecer a sua importância e
significado, mediante a observação e identificação das peças em exposição, e posterior
recriação de inscrições epigráficas, de decorações e de outros motivos, em suportes
variados de material reciclado.
Existem, ainda, outras oficinas lúdico-pedagógicas que, apesar de não integrarem
atualmente o Programa de Atividades do Serviço Educativo, estão disponíveis para
escolha do público e são importantes para a transmissão de conhecimentos sobre hábitos
culturais. A oficina “Acessórios do equipamento do soldado romano”, por exemplo,
proporciona a oportunidade de criar e produzir acessórios do equipamento do soldado
romano, em pasta de papel e outros materiais reciclados, com o objetivo de facilitar a
compreensão da importância e do significado do seu uso, no contexto da cultura romana,
e também de adquirir e colocar em prática técnicas de produção desses acessórios,
recriando-os com materiais alternativos. “Os romanos e os deuses: Textos, símbolos e
outros motivos” é uma oficina que envolve a observação, identificação e recriação de
inscrições epigráficas em suportes variados de material reciclado, para reconhecer as
representações e vestígios arqueológicos com referência a divindades romanas, focando,
assim, aspetos culturais relacionados com crenças, práticas e rituais de culto. Outra
oficina interessante do ponto de vista da transmissão de aspetos culturais é designada
“Indumentária romana: Como se veste?”. Nela, é feita a simulação da aplicação de peças
de vestuário e de acessórios próprios da indumentária romana, para que os participantes
adquiram técnicas de utilização da indumentária romana, conheçam as normas sociais de
utilização, e as normas de criação da indumentária romana, em termos de materiais,
170
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
cores e formas, fomentando o respeito pelo rigor histórico na recriação e uso da
indumentária romana em eventos culturais e educativos.
O programa do Serviço Educativo para 2011/2012 foi enriquecido com novas
ofertas de atividades e com iniciativas inovadoras, preenchendo possíveis lacunas; no
entanto, por imperativos financeiros, todas as oficinas lúdico-pedagógicas passaram,
neste ano letivo, a ter um custo de um euro por participante, quando antes eram
gratuitas, pelo que correm, teoricamente, o risco de obter uma diminuição do número de
participantes inscritos, ao longo deste período.
III.III.IV Workshops
Os workshops que o SE do Museu promove destinam-se, principalmente, ao
público adulto, ao qual se pretende transmitir, consolidar e avivar conhecimentos e
técnicas relacionados com saberes e costumes que fazem parte de um passado histórico,
cuja herança ainda hoje é visível, nos costumes e na vida cultural desta região, e não só.
Um dos mais importantes workshops, pela adesão alcançada, e pela sua relevância
e pertinência no contexto cultural da cidade de Braga, é a “Oficina de indumentária
romana, adereços e penteados”. Este projeto foi criado em 2010, e tem vindo, desde
então, a receber um número crescente de inscritos, que ambicionam preparar-se de
forma adequada para participar nos cortejos e outras atividades realizados no âmbito do
programa do evento cultural Braga Romana, que tem lugar nesta cidade, anualmente, há
oito anos. Através desta atividade, o Museu apoia os interessados na recriação e
confeção de vestuário e objetos de adorno romanos, e na recriação de penteados da
época, de maneira a que haja um maior rigor histórico na forma como os participantes se
apresentam nos cortejos e outras atividades, que pretendem representar a época romana
em Bracara Augusta.
Entretanto, e apesar de este workshop se destinar, simultaneamente, ao público
feminino e ao público masculino, verificou-se uma lacuna face a este último, não em
relação à sua indumentária mais comum, mas a um tipo de equipamento mais específico,
que é frequentemente procurado por ele, para a recriação da personagem do soldado
romano. Assim, o SE do Museu decidiu implementar um novo workshop, que foi já
incluído no Programa de Atividades para 2011/2012 – a “Oficina de construção de
171
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
equipamento do soldado romano”, com base na reciclagem de materiais, e que
funcionará à semelhança do modelo praticado na “Oficina de indumentária romana,
adereços e penteados”.
Um outro workshop ligado à divulgação de património cultural imaterial foi criado,
em 2011, a propósito da comemoração do “Dia Internacional dos Museus” (celebrado a
18 de Maio), que nesse ano foi dedicado ao tema “Museus e Memória” – museus
enquanto espaços de memória, que é avivada através do contacto com os objetos
expostos. Este projeto surgiu no âmbito da minha colaboração enquanto voluntária do
Museu, dado o interesse mútuo em fortalecer e diversificar a vertente imaterial nas
atividades por ele promovidas. Trata-se de um workshop que relaciona a prática culinária
romana com a alimentação tradicional mediterrânica, e a gastronomia portuguesa, em
especial a minhota.
“Ementa Romana – Venha cozinhar como um Romano!” tem como objetivo levar
os seus participantes a descobrir as origens de receitas culinárias, tradições
gastronómicas e hábitos alimentares que fazem parte do seu património cultural
imaterial, através da observação e interpretação de objetos e vestígios em exposição no
Museu (para se familiarizarem com os produtos, utensílios e técnicas utilizados na
armazenagem, preparação e confeção de alimentos, na época romana, em Bracara
Augusta), da reflexão e discussão sobre “Cozinha Romana e Gastronomia Mediterrânica”,
e da experiência prática de preparação, confeção e prova de receitas que compõem a
proposta de uma “ementa romana”, adaptadas de receitas originais da época.
Este workshop foi integrado no programa dos meses de Maio e Junho, mas não se
realizou por falta de inscrições, em grande parte devido ao facto de ser uma atividade
paga. No entanto, já durante o ano letivo de 2011/2012, o interesse demonstrado por
uma escola profissional da Região em participar numa atividade relacionada com a
culinária, dado envolver alunos de um curso dessa área, levou à reformulação e
adaptação do workshop “Ementa Romana: Venha cozinhar como um Romano”, criando
uma oficina lúdico-pedagógica para o público escolar. A oficina recebeu o título de
“Cozinha romana”, e é composta por visita ao núcleo expositivo sobre o espaço
doméstico, despensa, cozinha e mesa, para conhecer utensílios e técnicas de
armazenagem, preparação, confeção e apresentação de alimentos, em Bracara Augusta,
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
para além de uma sessão teórica sobre hábitos alimentares e gastronómicos romanos,
incluindo uma abordagem sobre os principais ingredientes presentes na cozinha romana,
a sua utilização e técnicas de confeção. Os participantes têm, ainda, a oportunidade de
confecionar (Fig. 15), e provar (Fig. 16), a receita de uma bebida, e uma entrada ou uma
sobremesa (de acordo com as opções facultadas) tradicionais da época romana. Esta
oficina mantém os objetivos definidos para o workshop “Ementa romana”, realçando o
conhecimento sobre a gastronomia mediterrânica e a sua influência na cozinha
tradicional portuguesa.
Fig. 15. Oficina “Cozinha Romana” (confeção)
Fig. 16. Oficina “Cozinha Romana” (prova)
Tal como acontece com as demais atividades promovidas pelo SE do Museu, todos
estes workshops estão associados a espólio presente na Exposição Permanente, que
testemunha e ilustra parte da informação divulgada durante a sua realização. Por isso,
todos incluem no seu programa uma visita à Exposição, para refletir, interpretar e
estabelecer paralelismos entre os vestígios arqueológicos e o conhecimento que se tem
do passado histórico e cultural desta região, que estas oficinas procuram avivar e recriar,
realçando também a sua dimensão suprarregional. Estas atividades são de grande
relevância para a divulgação do património imaterial, não só pelo domínio cultural que
abordam, como também pelo seu caráter prático, formativo e atual. Ainda hoje
encontramos reflexos desse passado, que está em constante evolução, mas sempre
presente, em tantos aspetos da vida desta comunidade.
As principais ameaças à concretização de workshops (à semelhança do que
aconteceu com os workrests) são os constrangimentos de caráter financeiro, que levam a
que estas atividades não sejam gratuitas. O público retrai-se perante a necessidade de
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
pagar inscrição, pelo que a participação pode tornar-se mais reduzida, apesar do
interesse demonstrado.
III.III.V As visitas guiadas à Exposição Permanente e à Exposição Temporária
A Exposição Permanente do Museu está repartida por quatro salas, ordenadas de
forma cronológica, de acordo com o período histórico que representam os vestígios que
compõem as coleções, e o espaço cripta do Museu composto por um mosaico romano in
situ. Dentro de cada sala, os objetos são dispostos de acordo com a sua funcionalidade,
dando origem a núcleos expositivos, ou secções, como, por exemplo, “A Idade do Ferro
no Noroeste de Portugal” (sala um, subordinada à Pré e Proto-História do Norte de
Portugal), “A Produção Local – As Indústrias Artesanais” (sala dois, subordinada à
Integração do Noroeste Peninsular no Império Romano), “Os Espaços Públicos” (sala três,
que retrata Bracara Augusta), e “O Sagrado” (sala quatro, também sobre Bracara
Augusta).
Esta divisão por secções está patente de diversas formas: na identificação de cada
secção através dos painéis presentes em cada sala, na identificação de cada vitrina, e nos
Cadernos de Sala, que servem de suporte sobretudo às visitas livres ou orientadas (não
guiadas), identificando e contextualizando as peças em exposição.
O espaço cripta apresenta um mosaico romano in situ, que foi, como o nome
indica, conservado no próprio local onde foi construído e achado, constituindo um núcleo
expositivo.
A distribuição dos vestígios arqueológicos por núcleos diferentes revela uma
preocupação em associá-los, não apenas a determinada época histórica, e à
funcionalidade que as peças terão tido, como também à sua simbologia, o que denota a
importância dada ao significado e ao contexto de utilização dos objetos a expor, e o
interesse em transmiti-los de uma forma clara ao público visitante. Este contexto é
evocado pelos técnicos do SE durante as visitas guiadas à Exposição, realçando aspetos
imateriais da cultura que os vestígios representam. Na visita ao núcleo expositivo sobre a
Produção Local e as Indústrias Artesanais, por exemplo, é evocada a arte de trabalhar o
barro, que está na origem de peças de cerâmica produzidas nesta região, enquanto na
visita ao núcleo que retrata os Espaços Públicos, de Bracara Augusta, são focados, por
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
exemplo, hábitos e costumes dessa comunidade, como a ida às termas, a prática de
desporto e de jogos, e ainda as relações sociais. Os visitantes são levados a interpretar o
que observam, com base no conhecimento histórico de que se dispõe sobre cada época, e
a estabelecer paralelismos entre o passado e o presente, a tirar conclusões sobre a
evolução e a continuidade dos costumes, e do contributo que estas ações passadas terão
dado para a forma como se vive atualmente: a quem devemos o traçado das vias,
determinadas técnicas de construção e atividades de lazer, por exemplo.
Os técnicos do SE sentem que, para estimular a curiosidade dos visitantes e captar
a sua atenção para as coleções, não basta referir a origem das peças, mas que é
necessário explicar o que representavam no seu contexto de vida, de utilização. Será isso
que lhes vai dar sentido e significado. Sem olvidar os limites que se impõem à imaginação,
e a necessidade de manter um rigor científico, os técnicos procuram estimular a
visualização mental de cenários de utilização de determinadas peças, que os levem a
contextualizar e a perceber melhor o seu significado.
A montagem da Exposição Permanente foi da responsabilidade de uma
profissional designada pelo Instituto dos Museus e da Conservação. A Direção do Museu
teve, no entanto, um importante papel nesse processo, pois a ela coube a seleção do
espólio e elaboração dos textos a exibir, a escolha de imagens e técnicas utilizadas na
apresentação de alguns pormenores que facilitassem a inclusão e a compreensão de
determinados aspetos associados ao espólio em exposição, assim como a definição dos
critérios de organização do espólio no espaço, quer por salas, como por vitrinas. Estes
critérios determinaram uma divisão por período histórico de origem e por funcionalidade
das peças.
Este trabalho conjunto nem sempre encontrou consenso de ambas as partes.
Acima de questões meramente estéticas, o Museu colocou a importância da
comunicação com o público, e dedicou o seu esforço a esse propósito, procurando
valorizar as peças em exposição e, simultaneamente, torná-las mais significativas e
compreensíveis para os seus visitantes. Mais do que a grandeza estética ou material das
peças, foi valorizado o seu significado histórico e cultural. Dessa forma, as peças foram
contextualizadas, e a sua dimensão imaterial foi realçada. Na sala 1, podemos ver um
175
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
exemplo de contextualização, que divulga a técnica do uso de materiais líticos, através da
apresentação de desenhos ilustrativos (Fig. 17).
Fig. 17. Painel ilustrativo do uso de materiais líticos
Fig. 18. Desenho contextualizador de um
fragmento cerâmico
Outra estratégia utilizada foi o desenho, para apresentar, por exemplo, a
reconstituição completa de uma lucerna, demonstrando a que tipo de peça pertencia um
fragmento cerâmico encontrado, na forma de cabeça de cavalo (Fig. 18).
Uma outra estratégia de contextualização importante foi a de criar e incluir na
Exposição réplicas de sítios arqueológicos, dos quais existem vestígios expostos. É o caso
da Casa das Carvalheiras e das Termas Romanas do Alto da Cividade, ambas situadas em
Braga e representativas da época da ocupação romana nesta cidade. Através delas, a
exploração, a compreensão e a interpretação de aspetos como o quotidiano (vivências,
hábitos), as habitações (divisões da casa, organização do espaço, dimensões, decoração,
mobiliário), o comércio (lojas, produtos comercializados), a produção local (cerâmica,
metalurgia), as atividades de lazer (desporto, termas, jogos), as relações sociais (de
comércio, familiares, de género), ou até os hábitos alimentares, podem ser facilitadas.
As visitas temáticas a núcleos expositivos são, para além de uma manifestação da
vontade de simplificar a compreensão do espólio exposto, uma forma de contextualizar e
explorar aspetos mais particulares de determinado período histórico ou dos costumes de
uma determinada comunidade, com base nos vestígios arqueológicos expostos. Assim,
numa visita temática ao núcleo sobre a Produção Local e as Indústrias Artesanais
(integrado no conjunto expositivo da sala dois, sobre “A Integração do Noroeste
176
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Peninsular
no
Império
Romano),
os
visitantes
poderão
interpretar
mais
pormenorizadamente o tipo de materiais, as técnicas de fabrico, a arte decorativa e o
significado dos motivos utilizados na produção e nas indústrias artesanais locais, para
além da sua funcionalidade e significado na vida e nos costumes da comunidade local
dessa época, da evolução que terá ocorrido ao longo do tempo, e dos paralelismos que
podem ser estabelecidos entre o passado e o presente.
Durante as visitas guiadas, o público é incitado a refletir e a interpretar aquilo que
vê, fazendo deduções. Sob o ponto de vista da funcionalidade dos objetos na vida
quotidiana da época, o público é levado a refletir sobre o que traduzem os vestígios
expostos, e como eles nos podem ajudar a conhecer o passado e a forma como se vivia,
focando diversos aspetos da vida – como se encarava o trabalho, o lazer, a morte, ou a
beleza, por exemplo.
Das exposições temporárias que já passaram, até ao momento, pelo Museu D.
Diogo de Sousa, a exposição Vita Vitri – O Vidro Antigo em Portugal, foi a mais
significativa e merecedora de destaque, não só pela sua duração, e pela sua dimensão e
relevância dentro do panorama cultural nacional, como também pela estreita relação
com parte do espólio do Museu.
A exposição, que envolveu o Ministério da Cultura, o Instituto dos Museus e da
Conservação (IMC), o Museu D. Diogo de Sousa, e o Museu Nacional de Arqueologia,
surgiu da conjugação de vários fatores inerentes à atividade museológica nacional, à
investigação arqueológica em curso, à história da indústria vidreira portuguesa e sua
recente transformação, e a circunstâncias conjunturais decorrentes da aplicação do
Programa Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) (Silva e Raposo, 2009).
O conteúdo desta exposição estava intimamente ligado a parte da Exposição
Permanente, nomeadamente aos núcleos relativos ao período romano, pelo que foram
integrados na Exposição Temporária alguns dos objetos de vidro pertencentes às coleções
do Museu. A informação sobre estes resulta do trabalho de investigação da Unidade de
Arqueologia da Universidade do Minho, e do Museu, e de investigações académicas,
como os “Vidros Romanos de Bracara Augusta”, da autoria de Mário Cruz, e de novos
conhecimentos provenientes da investigação continuada em vários sítios arqueológicos
177
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
do país, que puseram em evidência este tema e contribuíram para a sistematização dos
processos de produção e para o conhecimento do vidro na Antiguidade (idem).
O projeto desta exposição teve como objetivo fazer uma nova e atual abordagem
sobre o ciclo de vida do vidro antigo em Portugal, desde o seu nascimento até à sua
morte e renascimento, através da reciclagem, num processo que se estende desde a
Antiguidade até à atualidade. Com esta iniciativa, o Museu quis realçar a importância da
continuidade cultural sobre o trabalho com o vidro, numa relação evidente entre o
passado e o presente, sobretudo sobre as técnicas de fabrico artesanal ainda hoje
utilizadas (Fig. 19), a reciclagem (costume quase tão antigo quanto o próprio vidro), o
valor e o significado atribuídos a este material, a multiplicidade de aplicações do mesmo,
e a funcionalidade das peças produzidas (Fig. 20), aspetos que fazem parte do nosso
património imaterial, em constante transformação.
Mais uma vez, os vestígios materiais encontrados através da prospeção e
investigação arqueológica constituem o ponto de partida para a descoberta do
simbolismo e significado das peças – a sua dimensão imaterial.
Fig. 19. Ilustração sobre técnica de fabrico
Fig. 20. Contextualização de vestígios de acordo com a sua
funcionalidade (enterramentos em urnas)
Para uma melhor sistematização da informação, esta foi dividida em secções, que
figuraram, tanto no catálogo e no guia de exposição, como na própria sala de exposição.
178
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Tal como acontece com outros objetos exibidos na Exposição Permanente,
também nesta exposição temporária sobre o vidro foi tida em conta a funcionalidade das
peças, no momento de as dispor nas vitrinas, salvaguardando, no entanto, a
multiplicidade de funções que algumas peças apresentam. O próprio texto do catálogo da
exposição alude a este facto: “As peças agora expostas estão arrumadas segundo a
função original pressuposta o que não impede a multifuncionalidade de muitas delas.
Uma garrafa pode facilmente ir à mesa ou acabar como candelabro improvisado”. Por
outro lado, sendo o vidro “um material versátil e atrativo, possui múltiplas aplicações que
ainda hoje estamos a descobrir”.
III.III.VI Os recursos pedagógicos
Os recursos pedagógicos auxiliares da visita ao Museu criados pelo Serviço
Educativo englobam DVDs, Folhetos Educativos, Fichas de Sala, Fichas Informativas e
Fichas de Exploração Pedagógica, para além dos Jogos Educativos, que se encontram
analisados à parte.
Até ao momento, são três as histórias editadas em DVD: “Um dia na vida do jovem
Titus”, “O quotidiano do senhor Titus Satrius” e “Titus e o primo Julius”. Este recurso
antecedeu a existência dos “Contos Animados” – as representações teatrais, e foi
utilizado sobretudo até esta atividade ter entrado no Programa de Atividades do Museu.
A primeira foi criada para o público mais jovem (até ao 2º Ciclo do Ensino Básico
com o objetivo de ser uma alternativa ao filme sobre Bracara Augusta, cujo visionamento
serve de introdução às visitas ao Museu. Esta história faz uma contextualização espáciotemporal como preparação para a visita ao Museu, oferecendo ainda uma visão sobre o
quotidiano de um jovem romano em Bracara Augusta, através do qual os visitantes ficam
a conhecer os hábitos e costumes dessa época, a vida familiar, escolar e social de uma
criança romana.
A segunda história segue o mesmo formato que a primeira, mas incide na vida de
um adulto pertencente à classe média-alta, a sua vida quotidiana, familiar e social,
incluindo aspetos das relações sociais, económicas, políticas, e religiosas.
179
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
A história “Titus e o primo Julius” realça também vários aspetos da vida familiar e
social de crianças e adultos romanos, tendo dado, depois, origem à publicação em livro da
história “Titus e os Legionários”, a primeira de uma coleção que o Museu pretende criar.
À semelhança dos contos animados, as histórias que o Museu publica em livro ou
DVD são criadas à volta dos objetos e vestígios arqueológicos que fazem parte do espólio
do Museu, sempre com o objetivo de dar a conhecer a forma como se vivia na época da
ocupação romana em Bracara Augusta. O protagonista, Titus, juntamente com a sua
família e amigos, dá vida a uma personagem que representa um jovem habitante desta
cidade romana. Através do Titus, podemos conhecer o quotidiano desta época, assim
como ver objetos que se encontram expostos no Museu devidamente contextualizados,
para que possam ser mais facilmente interpretados, sobretudo por um público infantojuvenil.
O Folheto Didático e as Fichas de Sala são destinados ao público juvenil. Incluem
exercícios de exploração para acompanhar a visita à Exposição Permanente, orientando a
sua interpretação através da contextualização do espólio.
O Serviço Educativo do Museu D. Diogo de Sousa criou, ainda, um conjunto de
Fichas Informativas e Fichas de Exploração Pedagógica, que podem ser utilizadas pelo
público geral e pelo público escolar, em particular, em diversos momentos: na
preparação, durante a realização ou após a sua visita ao Museu, como complemento da
mesma. Estas fichas encontram-se divididas em temas, sobre vários aspetos da vida
humana que caracteriza cada período histórico e sobre o trabalho arqueológico, que
percorrem todas as épocas retratadas na Exposição Permanente deste museu, desde a
Pré-História até à Época Romana. Cada tema remete para um ou mais núcleos expositivos
e para as oficinas lúdico-pedagógicas ou jogos correspondentes, sempre que aplicável.
Trata-se de um recurso que está disponível no website do Museu, e na sua página no
Portal dos Museus, do Braga Digital, e que está em constante desenvolvimento e
ampliação.
Já em finais de 2011, o SE do Museu voltou a inovar, criando kits compostos por
materiais, e cartões com informação histórico-cultural e instruções sobre técnicas de
execução, para elaborar réplicas de instrumentos e artefactos presentes ou
representados na Exposição Permanente, tais como uma ponta de lança do Homem pré180
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
histórico, material para recriar uma gravura rupestre, e um mosaico romano (com
tesselas), entre outros. Com estes kits, transmite-se saberes, técnicas e artes, assim como
conhecimentos (em forma de curiosidades) sobre o nosso passado histórico, de acordo
com o conteúdo expositivo do Museu e os sítios arqueológicos a ele associados. Estes
conjuntos foram projetados para o público infanto-juvenil, que poderá ser acompanhado
por adultos na realização das atividades, e foram colocados à venda na Loja do Museu.
Por outro lado, eles serão, também, utilizados como brinde nas Festas de Aniversário
infanto-juvenis organizadas pelo SE do Museu.
III.III.VII O apoio à formação, ao debate e à investigação
Neste âmbito, o Museu D. Diogo de Sousa disponibiliza espaço, dá apoio à
formação e ao trabalho de investigação académica, presta informação, e divulga a
realização de eventos promovidos pelas escolas e outras instituições interessadas. A sua
ação, a este propósito, nem sempre parte da sua iniciativa, revelando-se muitas vezes
apenas através da colaboração em eventos culturais de iniciativa externa.
Para além da disponibilização de documentação existente na Biblioteca do Museu,
ou mesmo de obras que se encontram à venda na Loja do Museu, sobre temáticas
específicas, resultantes de investigações já efetuadas, muitas delas relacionadas com o
património imaterial, a formação e informação estão também presentes em ações de
apoio a professores, educadores, e outros, na preparação da sua participação em eventos
culturais, como a Braga Romana, seja através da simples facultação de informação, como
da deslocação de profissionais às escolas para orientar a realização de trabalhos práticos,
ou ainda de workshops temáticos realizados no Museu.
Na organização do Torneio de Jogos Romanos de Tabuleiro, o Museu tem o
importante papel de disponibilizar informação sobre os jogos e os próprios jogos,
fomentando o conhecimento das regras de jogo e a sua prática.
Ainda direcionada para o público escolar, o Museu desenvolve, anualmente, uma
iniciativa associada às comemorações do Dia Internacional dos Museus, que incentiva a
pesquisa sobre aspetos histórico-culturais relacionados com a cidade romana de Bracara
Augusta. Através deste projeto, que se intitula “A minha escola vai ao museu comemorar
o Dia Internacional dos Museus”, todos os anos, as escolas são convidadas a participar
181
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
com os seus alunos na comemoração dessa data, renovando anualmente o tema
escolhido. O objetivo desta atividade é levar os alunos a pesquisar, fotografar sítios
arqueológicos, criar ou recriar a cidade romana, ou o que dela resta, para elaborar
trabalhos em diversos formatos (desde o desenho, a pintura, trabalhos manuais, até
filmes e peças de teatro), que depois são apresentados no espaço do Museu, em
colaboração com as escolas, para que o público escolar, neste caso em particular, tome
contacto com os vestígios arqueológicos de Bracara Augusta, a sua história e significado,
e conheçam melhor as suas origens e a sua própria identidade. Trata-se de uma forma de
aprender ativamente, através da experiência e do contacto direto com os vestígios. Tanto
ao pesquisar, como ao elaborar e ao apresentar os seus trabalhos, o público jovem está a
interpretar, a criar uma visão da História, e a recriar este património, de acordo com as
suas vivências e a atualidade. O Museu promove esta ação de várias formas: na
organização e divulgação do concurso, no apoio à preparação e execução dos trabalhos a
realizar pelos participantes (prestando informação e orientação científica), e na
divulgação e valorização dos trabalhos realizados, através de uma exposição inserida nas
comemorações do Dia Internacional dos Museus, em Maio, mas também durante os
meses de Julho, Agosto e Setembro, no espaço do Museu, dando-os a conhecer ao
público.
No sentido, ainda, de estreitar a sua ligação às escolas e à educação, preparando
os professores para uma melhor interação com o Museu e o património histórico-cultural,
este participa, em 2012, na preparação e realização de quatro Ações de Formação
creditadas para Professores sobre Bracara Augusta e sobre o papel educativo dos
museus, com particular atenção para a atividade do Serviço Educativo do Museu D. Diogo
de Sousa. Através desta ação, será dada uma visão mais abrangente sobre a interpretação
dos vestígios arqueológicos e sobre as atividades que os museus podem desenvolver
nesse sentido, seguindo o exemplo deste museu.
O Museu D. Diogo de Sousa recebe, também, entre outros eventos de caráter
científico (alguns ligados à História), a realização de colóquios, encontros e palestras,
sobre variados temas. De entre os já realizados, destaco um dos colóquios inseridos no
Ciclo “Museus e Património Imaterial: agentes, fronteiras, identidades”, da iniciativa do
Departamento de Património Imaterial do IMC, que teve lugar em Novembro de 2008.
182
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Este evento foi, naturalmente, relevante pela temática abordada, pelos seus objetivos de
debate e sensibilização para o património imaterial, mas também pelo contributo para a
descentralização da cultura.
III.III.VIII A colaboração em projetos culturais
A colaboração do Museu em projetos de índole cultural resulta, acima de tudo, de
parcerias desenvolvidas com o Pelouro Municipal da Cultura, do Município de Braga,
participando na organização e realização de alguns eventos culturais desta cidade.
Um desses eventos é o Festival de Teatro de Braga – Mimarte (Fig. 21), cuja
parceria é desenvolvida desde a sua primeira edição, há doze anos, com a finalidade de
envolver o Museu no programa cultural deste serviço municipal.
A participação do Museu concretiza-se no acolhimento da representação de peças
teatrais cujas índole e temática estejam relacionadas com o contexto expositivo do
Museu. Assim, os espetáculos de teatro clássico, de origem grega ou romana, são os
escolhidos para serem apresentados ao público no espaço do Museu, dando preferência,
sempre que possível, ao Teatro do Jardim, uma área de teatro ao ar livre, com uma
estrutura que se assemelha aos teatros romanos. Nota-se, assim, uma preocupação em
respeitar a temática do Museu, em privilegiar a transmissão cultural que está associada
aos conteúdos do mesmo, através de manifestações artísticas, que expressam os valores
e a herança cultural que o próprio museu divulga, com base no seu espólio, e em criar um
ambiente de espetáculo que leve o público a sentir melhor essa envolvência cultural, pela
escolha do espaço exterior.
Fig. 21. Representação teatral da tragédia grega “As Bacantes”, no Festival Mimarte
183
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Por altura das comemorações da Semana Santa, em Braga, o Museu participou na
“Feira da Páscoa”, organizada pelo Município desta cidade e pela Associação de Artesãos
organizaram, em 2011 e 2012, no centro da Cidade, para promover produtos tradicionais
e o artesanato. O Museu D. Diogo de Sousa, enquanto instituição convidada, divulgou,
durante a sua presença, a atividade que desenvolve, em especial, sobre a época romana
em Bracara Augusta, coleções patentes no Museu, para além de disponibilizarem para
venda alguns artigos provenientes da sua Loja. Este tipo de evento não permitiu
proporcionar ao público experiências concretas, que os levasse a contactar de forma mais
ativa e direta com o património imaterial que esta instituição tem para divulgar, mas foi
feito um esforço em contextualizar o mais possível a época que estava a representar,
através do uso de indumentária romana por parte dos profissionais presentes no evento,
da demonstração do uso de lucernas. A partir dos artigos à venda, alguns deles réplicas
de peças expostas no Museu, foi possível partilhar, com os visitantes, conhecimentos
sobre o quotidiano e a forma como se vivia, na época romana. Em 2012 foram também
disponibilizadas para venda peças de vestuário romano criadas no Museu.
Braga Romana – Reviver Bracara Augusta é um evento da iniciativa do Município
de Braga, organizado pelo Pelouro da Cultura há oito anos, entre os meses de Maio e
Junho, com a colaboração do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, e o apoio e
participação de outras entidades, sobretudo educativas, culturais e recreativas. Este
evento, que tem como objetivos a promoção turístico-cultural e a sensibilização para a
salvaguarda e valorização do património arqueológico da Cidade, pretende ser uma
recriação histórica de Bracara Augusta, da época da ocupação romana, fundada pelo
Imperador Augusto há cerca de dois mil anos. É no centro histórico de Braga que se
concentram as atividades, que integram, entre outras, a recriação de um mercado da
época e de um acampamento militar, o serviço de alimentação tradicional em tabernas,
cortejos romanos, espetáculos de artes circenses, representações teatrais, animação de
rua com figuras mitológicas e gladiadores, interpretações musicais e danças orientais, e
uma área pedagógica.
Enquanto instituição cultural e educativa que promove a investigação, a
salvaguarda e a divulgação do património arqueológico desta cidade e região, cujos
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
principais vestígios remontam à época da ocupação romana da mesma, o Museu D. Diogo
de Sousa colabora na organização deste evento de três formas. Enquanto conselheira, no
processo de seleção dos artesãos (e, portanto, dos produtos) que irão integrar o
“mercado romano”, juntamente com a organização do evento. Enquanto formadora, na
organização e realização da oficina de indumentária romana (Fig. 22), compostas por seis
sessões, entre os meses de Março e Abril. Este workshop de recriação e confeção de
vestuário, penteados e adereços da época romana foi criado para apoiar as pessoas que
pretendem participar no evento Braga Romana com o máximo rigor histórico possível.
Fig. 22. Participantes da edição de 2012 do workshop de Indumentária Romana
Também nesse sentido, o Museu presta auxílio às escolas e outras entidades do
Concelho, facultando, de forma gratuita, informação e formação sobre a época romana
em Bracara Augusta, que as ajuda a preparar os seus projetos de participação no evento,
sob a forma de animação de rua, sobretudo nos cortejos e no mercado.
O apoio facultado no âmbito deste evento visa, principalmente, conferir um maior
rigor histórico, quer na atuação, como na caraterização dos participantes, de acordo com
a indumentária própria da época romana, sobre a qual ainda subsistem, de uma forma
geral, várias dúvidas, como demonstram as imagens divulgadas sobre o evento.
Para além disso, este museu participa na Braga Romana, realizando, na “Tenda
Pedagógica”, atividades educativas direcionadas sobretudo para o público infanto-juvenil.
Na edição de 2011, as atividades promovidas foram jogos romanos (“Jogo do arquinho”,
185
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
“Jogo das bolas” e Jogos Romanos de Tabuleiro) e oficinas lúdico-pedagógicas sobre a
construção do mosaico romano (tesselatum) e a elaboração de adornos e acessórios de
inspiração romana, sob a orientação de técnicos do Serviço Educativo do Museu. A tenda
foi partilhada com o Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga, que a
ocupou, em períodos alternados, com ateliês de olaria e de pintura de azulejo, também
eles ligados à temática do Museu.
O Serviço Educativo tem a preocupação de, com estas atividades, proporcionar ao
público uma experiência de contacto com hábitos e costumes da época romana, que
fazem parte do nosso legado cultural. Apesar de um pouco renitente em tomar a
iniciativa, depois de convidado o público mostrou-se bastante participativo e
entusiasmado com as atividades propostas, identificando-se com elas, ainda que não
estivessem muito familiarizados com as mesmas, por já não serem usuais no presente. As
oficinas, sendo pagas, por imposições financeiras do Museu, não tiveram tanta
recetividade, mas procurou-se passar a informação também através de cartazes que
descreviam e ilustravam essas atividades, e do diálogo com o público que mostrou
interesse por elas.
O SE, com o apoio do Grupo de Amigos do Museu, iniciou em 2012 um novo
projeto que incrementará ainda mais a sua colaboração com eventos como o Braga
Romana, criando peças de vestuário romano, feminino e masculino, utilizando técnicas,
materiais (em termos de composição e cor), e design, o mais autênticos possível, para
venda e para aluguer, ajudando a suprir a necessidade que muitas pessoas interessadas
em participar em atividades relacionadas com a época romana sentem todos os anos,
sobretudo durante a realização do cortejo noturno da Braga Romana, que costuma ter
uma adesão massiva de público a assistir. As peças serão acompanhadas por um pequeno
texto informativo sobre o significado, o uso, as técnicas, os materiais e o design nelas
aplicados, assim como a forma correta de as vestir (como colocar o manto, ou como
apertar o cordão que serve de cinto, por exemplo).
Tendo sido convidado a participar na Braga - Capital Europeia da Juventude 2012,
o Museu D. Diogo de Sousa propôs a adaptação do seu workshop sobre gastronomia
mediterrânica, e romana, associando-a à promoção de hábitos alimentares saudáveis
entre os jovens, através do conhecimento da sua herança gastronómica, com a
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
colaboração da Direção Regional de Saúde do Norte, criando uma oportunidade para
divulgar património imaterial. Esta sugestão acabou por não ser aceite pela organização
do evento, sendo substituída por outro workshop não ligado a património imaterial.
Em conclusão, o Museu D. Diogo de Sousa, com base no trabalho de investigação
e no reconhecimento obtido acerca do património material, usa os vestígios que expõe ao
público como testemunhos de uma cultura do passado que ainda se reflete, de várias
formas, na vida presente desta comunidade, e que, portanto, é seu património imaterial.
Na sua ação de divulgação, procurando aproximar o público das suas coleções, e
facilitar a sua interpretação, o Museu acaba por ser um veículo transmissor de património
imaterial, porque, através de atividades de índole prática e informal, e o envolvimento
em eventos culturais e educativos da comunidade local, passa ensinamentos ao seu
público, e à comunidade, reforçando os laços identitários com esse património (já
reconhecido). Nesse contexto, o património imaterial está também a ser recriado de
acordo com a realidade atual, seguindo uma tendência evolutiva (no sentido de
mudança). O contexto espacial, por exemplo, pode ter mudado, mas procura-se manter a
essência daquilo que é transmitido. No seu papel informativo, educativo e cultural, o
Museu procura fazer uma transmissão rigorosa sobre o passado, promovendo o
conhecimento cientificamente válido, com base em estudos efetuados, pelo que, nesse
aspeto, podemos afirmar que é valorizada a questão da autenticidade.
Por outro lado, aquilo que não pode ser recriado ou mostrado é descrito, relatado
ou contado, para que o contexto se torne percetível para o público. A comunidade cria
cultura, o museu gera conhecimento.
No seu curto espaço de existência, o Serviço Educativo do Museu D. Diogo de
Sousa desenvolveu um grande e importante trabalho de divulgação do património, tanto
material como imaterial, e encontra-se em constante inovação. Soube explorar com
competência e criatividade os recursos disponíveis, e rentabilizar o seu potencial humano
e material. Beneficiou do conhecimento de técnicos especializados e de profissionais que
estão com o Museu desde a sua reestruturação, que adquiriram saberes através da
prática e do contacto direto privilegiado com o espólio, no trabalho de campo com
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
arqueólogos da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho (no Campo
Arqueológico de Braga, entre 1976 e 1980).
Os workshops, as oficinas lúdico-pedagógicas e os jogos são exemplos de
atividades nas quais a herança cultural aparece ligada à recriação e à mudança constante
que carateriza o património imaterial. Os materiais utilizados são reinventados pois,
sobretudo por razões ecológicas e económicas, não podem ser utilizados os originais. As
técnicas, no entanto, procuram ser fiéis às do passado, pois são artes e saberes que se
pretende transmitir e reavivar. O património imaterial tem esta particularidade de ser
transmissível, mas também posto em prática, experimentado e visível, através da sua
materialização em diversas formas físicas, como objetos, imagens, sons, ou gestos,
comportamentos e ações. Nas oficinas de expressão plástica e em algumas oficinas de
arqueologia experimental, o resultado é, geralmente, materializado em objetos e
imagens. Já com os jogos são os comportamentos, gestos e ações que resultam dos
saberes transmitidos. Noutras situações, como na “Oficina de indumentária romana,
adereços e penteados” ou na oficina de “Cozinha romana”, os participantes adquirem
técnicas e saberes que geram resultados materiais quando postos em prática.
Este património, que geralmente é passado de geração em geração, dentro de
uma comunidade, é, no caso dos museus, transmitido através da formação e educação
não formal, que é um dos seus papéis na sociedade.
Os museus, enquanto instituições, devem transmitir o património imaterial de
forma consciente, tal como é feito com o património material. A transmissão espontânea
e não planeada é própria e aceitável apenas em comunidade restrita, pequenos grupos
ou individualmente entre pessoas singulares de uma comunidade, como sejam os
ensinamentos passados em contexto familiar, de geração em geração. A existência de um
conceito que é o de “património imaterial” não está na mente dessas pessoas e grupos
restritos, ainda que o estejam a divulgar com a consciência de que ele faz parte da sua
herança cultural. Tal não é admissível numa instituição cultural como um museu, cuja
ação deve ser de natureza profissional. A consciencialização e a preparação dos
profissionais envolvidos na divulgação do património imaterial tem de ser equivalente à
existente para a divulgação do património material. O conceito está claramente definido
e preparado para ser trabalhado na prática museológica, mas requer reflexão de acordo
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
com a natureza das coleções existentes em cada museu, para que esse património possa
ser explorado e divulgado de forma adequada ao seu público, que se deseja abrangente.
A equipa do Museu D. Diogo de Sousa necessita de efetuar esse trabalho de reflexão e
preparação para realizar a divulgação, que já faz, do património imaterial associado às
suas coleções, de forma consciente e deliberada.
Em termos turísticos, as atividades aqui descritas como exemplos fornecidos por
este museu de Arqueologia proporcionam experiências e vivências hedónicas e holísticas,
não apenas cognitivas. São uma forma de atrair visitantes, e com estratégias de
aproximação a outros públicos, nomeadamente o público de idade adulta e os turistas
estrangeiros, através da adaptação linguística, entre outras, elas poderiam ajudar a
fomentar o Turismo Cultural.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Conclusão
O património imaterial não é uma falsa questão. Este conceito, ainda
relativamente recente, surgiu num ambiente de contestação face ao desigual
reconhecimento que o património dito material já tinha alcançado, inclusivamente a nível
internacional, nomeadamente com a Convenção para a Proteção do Património Cultural e
Natural Mundial, da UNESCO, em 1972, que deixava de fora o património imaterial, ainda
pouco valorizado e definido.
Traçando um percurso cronológico, verifica-se que o conceito e o seu
reconhecimento partiram de outros como o folclore e a cultura tradicional e popular, que
levaram o património imaterial a ser associado, sobretudo, ao património de caráter
etnográfico. A recomendação da UNESCO para a “salvaguarda da cultura tradicional e do
folclore” (de 1989), e a sua assinatura da Declaração Universal sobre a Diversidade
Cultural (de 2001) são exemplos de medidas de proteção sobre este património, que
ainda não era definido como “imaterial”.
O reconhecimento da importância histórica e cultural do património imaterial, e a
sua proteção legal através da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural
Imaterial da UNESCO (de 2003), que viria a entrar em vigor em 2006, e a ser ratificada por
Portugal em 2008, veio legitimar, sobretudo, a sua classificação internacional, e reforçar a
sua salvaguarda, não apenas a sua inventariação, ajudando, ainda a defini-lo e a
interpretá-lo.
Apesar da ligação evidente entre património etnográfico e património imaterial,
um olhar mais atento sobre a sua definição (UNESCO, 2003) e domínios (UNESCO, 2009)
prova que ele não se resume às tradições populares e ainda que, para além de aspetos
intangíveis, o património imaterial comporta, também, elementos materiais (incluindo
objetos e lugares), que as manifestações culturais utilizam e incorporam. São, assim,
consideradas como manifestações do património imaterial as tradições e expressões
orais, artes do espetáculo, práticas sociais, rituais e eventos festivos, acontecimentos e
práticas relacionadas com a natureza e o universo, e as técnicas artesanais tradicionais.
Frequentemente confundido com “vertente” ou “dimensão imaterial” dos objetos,
o património imaterial é ainda entendido, muitas vezes, apenas como o significado que
190
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
lhes é atribuído. Mesmo que esse significado seja de natureza cultural e histórica, tal não
é suficiente para que o possamos considerar “património”. Esta é uma questão
primordial, pois a classificação de “património” pressupõe o reconhecimento por parte de
uma comunidade, mais ou menos restrita, como algo que pertence à sua identidade e
herança cultural, que é transmitido de geração em geração, e que evolui e se modifica
com o passar do tempo. O recurso à patrimonialização da cultura está intimamente ligado
a um esforço de conservação e de valorização, pela sua simbologia e importância
atribuída no reforço do sentimento de identidade e da memória coletiva, mas é também
uma questão política e de afirmação nacional, que encerra, ainda, interesses económicos.
Neste processo de seleção que a patrimonialização requer é, também, crucial o papel dos
especialistas – arqueólogos, antropólogos, arquitetos, historiadores da arte, biólogos e
outros, para certificar o valor dos elementos culturais dignos de serem patrimonializados
e reconhecer como bem de tutela pública o que antes não estava reconhecido como tal.
Este reconhecimento público e legal torna-os mais atraentes e alvo de aproveitamento
turístico.
Apelativo pela sua natureza holística e hedónica, o património imaterial, que é
essencialmente cultural, é um alvo de exploração turística potencialmente mais forte do
que o já bem consagrado património material. Há muito que o Turismo Cultural é um dos
mais importantes motivos de visita de turistas a Portugal, cujas gastronomia e
festividades, a par do clima, das paisagens e dos monumentos (património material), são
grandemente apreciadas.
Uma das razões apontadas pela UNESCO para a criação da Convenção para a
Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, em 2003, foi precisamente “o papel do
património cultural imaterial como fator de aproximação e intercâmbio entre os seres
humanos”, que o Turismo fomenta. A experiência turística proporciona o contacto
intercultural, o conhecimento de outras culturas e a vivência de sensações e emoções,
também oferecida pelo património cultural, sobretudo o imaterial, porque ele apela aos
sentidos. Estas experiências constituem uma forte motivação e fator de satisfação para
turistas, sobretudo os estrangeiros. A gastronomia, as danças, a música, práticas sociais e
atos festivos são recursos que fazem do Turismo Cultural uma potencial aposta de
sucesso em todo o país, especialmente no norte, onde as praias serão menos procuradas,
191
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
e onde as paisagens, os monumentos, a gastronomia e as festividades ganham mais
destaque.
Tanto o ICOMOS (através da adoção da Carta Internacional do Turismo Cultural,
em 1999), a nível internacional, como o IMC (uma instituição que está, agora, em vias de
ser integrada na futura Direção Geral do Património Cultural), a nível nacional, mostramse cientes da importância económica do Turismo, e da sua ligação ao Turismo Cultural.
Assim, eles têm incentivado os museus a investir em estratégias de marketing
internacional, a estabelecer parcerias e uma rede de comercialização, melhorando, ainda,
aspetos como a capacidade de receção dos turistas estrangeiros, o domínio de idiomas e
a informação turística.
Ainda que sejam definidos, pelo ICOM, como instituições sem fins lucrativos, os
museus não se manteriam abertos se não fossem, pelo menos, economicamente
sustentáveis. Assim demonstram posições de diferentes quadrantes (cf. IMC, 2011, e
Hooper-Greenhill, 1994). Tal é conseguido através do Turismo.
Os museus enfrentam, no entanto, desafios no sentido de atrair um maior número
de visitantes e, simultaneamente, um público mais diversificado. O alcance desse objetivo
pode passar pela oferta de ambientes mais descontraídos e informais, pelo incremento
de abordagens comunicacionais que favoreçam a aproximação e a interação humana com
o público que visita os museus (através da comunicação interpessoal e interativa), mas
também pelo desenvolvimento de estratégias que tornem o conhecimento e o
entendimento das exposições mais acessível (através da interpretação dos objetos no seu
conjunto, e não individualmente, da interação virtual com os objetos expostos, e ainda
pela forma de expor e pela coerência interna na exposição, que deve favorecer a
contextualização dos objetos). Esta forma mais prática e interativa de abordar as coleções
expostas e viver a visita a museus está em consonância com a atividade de promoção do
património imaterial, preconizando, de facto, uma nova conceção de museu.
É adequado e vantajoso apostar na divulgação do património imaterial a turistas
internacionais, por dois motivos principais, para além dos de ordem económica. Por um
lado,
independentemente
do
ponto
do
planeta
que
visitemos,
dificilmente
encontraremos uma manifestação cultural que não consigamos interpretar ou entender,
e, mesmo, nela encontrar identificação, já que a humanidade partilha um passado
192
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
evolutivo com vários pontos comuns, e formas de expressão semelhantes, para além de
um contexto de existência temporal idêntico. Por outro lado, o contacto aberto e
harmonioso entre pessoas de origens culturais diversas e a partilha de experiências
fomentam o respeito pela diversidade cultural e pelo património, contribuindo para a
criação de uma consciência coletiva global face à valorização da preservação do
património, tanto material como imaterial.
Assim, a divulgação turística pode contribuir para reafirmar o valor patrimonial e
cultural destes testemunhos da cultura imaterial, servindo de veículo de reforço da
proteção e salvaguarda do património, dado que os indivíduos possuem, naturalmente,
mais propensão para proteger aquilo que conhecem e compreendem, não só quando
esse património é parte intrínseca da sua cultura enquanto elementos de um grupo ou
comunidade, mas também quando ele faz parte de outras culturas, ou da História da
humanidade.
Para fomentar a procura internacional, no entanto, há ainda aspetos a melhorar
nos nossos museus, nomeadamente o uso mais corrente de línguas estrangeiras e a
adaptação linguística das atividades práticas neles dinamizadas, para estreitar relações
com os visitantes e permitir a comunicação e sua participação nessas atividades. Por
outro lado, o recurso às tecnologias da informação, nas quais se incluem a internet, pode
ser uma forma prática, sustentável e até democrática de os museus fazerem divulgação e
comunicarem. Isso pode ser feito através do correio eletrónico, websites e redes sociais,
por exemplo, reforçando a comunicação com o público, ampliando e diversificando os
serviços prestados. Sabendo das limitações financeiras e da escassez de recursos que os
museus nacionais enfrentam, de uma forma geral, o aspeto linguístico e comunicacional é
um veículo a explorar a favor do aumento e diversificação de afluxo aos museus.
Entidades internacionais representativas dos museus e sítios, como o ICOM e o
ICOMOS, cujas linhas de ação têm reflexo, a nível nacional, em recomendações do IMC,
reconhecem, por outro lado, a preponderância dos museus na salvaguarda e promoção
do património imaterial, realçando a sua particular posição privilegiada de proximidade
com as comunidades.
Sendo mais complexo do que o património material, o património imaterial tem
acarretado dificuldades de promoção e divulgação, não só por parte das comunidades
193
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
como também por parte de instituições culturais, como os museus. Ambos enfrentam
críticas como a “mercantilização da cultura” com fins turísticos, e a “fossilização” de
património cultural, quando o Turismo não é apenas uma atividade económica mas
também cultural, que sempre existiria sem a primeira função, e a segunda questão não se
coloca se aceitarmos que a exibição de exemplares representativos de uma cultura num
espaço de natureza museológica não impede a sua evolução.
Talvez por isso o património imaterial tenha estado, a nível museológico, em
Portugal, até ao momento, sobretudo associado à atividade de inventariação (para a
inscrição de expressões culturais no “Inventário Nacional do Património Cultural
Imaterial”, do IMC) e aos museus de caráter etnográfico. No fundo, a principal razão
parece residir, contudo, num ainda fraco conhecimento deste conceito e da falta de
preparação dos diferentes profissionais ligados à cultura, ao património e à museologia,
em relação ao património imaterial. Em Portugal, o património imaterial está oficialmente
associado aos museus, tendo sido atribuição do Instituto dos Museus e da Conservação,
IP (IMC), que promove, através do seu Departamento de Património Imaterial, o estudo, a
salvaguarda e a divulgação do Património Cultural Imaterial.
As mudanças orgânicas que se encontram em curso na Cultura, em Portugal, estão
a criar uma certa ansiedade face à condução da política cultural do país. A extinção do
Ministério da Cultura, e a passagem de competências que antes pertenciam ao IMC para
Direções Regionais da Cultura, colocará museus que estavam sob a tutela do IMC sob
uma nova direção, com consequências ainda imprevisíveis para o funcionamento de
vários museus e para a condução das suas atribuições.
Seguindo as sugestões da Convenção da UNESCO (2003), a salvaguarda do
património imaterial deve ser feita de várias formas: por um lado, a identificação, a
documentação e a pesquisa sobre o património; por outro, a sua preservação, proteção e
promoção; e, por fim, ações de valorização, transmissão (através da educação formal e da
educação não formal), e a sua revitalização.
De facto, os museus, enquanto instituições culturais e educativas, apresentam-se
como as entidades potencialmente mais competentes para promover e divulgar o
património imaterial associado às suas coleções. Sem retirar às comunidades o seu papel
de transmissor espontâneo, os museus são, à partida, dotados de suficiente credibilidade
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
e rigor científico, para transmitir esse mesmo património de forma consciente e
planeada, tal como fazem em relação ao património material que expõem e interpretam.
A questão prende-se, agora, sobre a forma de o fazer. Sendo o resultado da
relação e interação do ser humano com o meio que o rodeia e, por isso, composto por
uma grande variedade de expressões culturais, o património imaterial é caraterizado pelo
dinamismo e caráter prático. Assim, os museus devem usar a sua função de promotores
da educação não formal para dinamizar atividades práticas que proporcionem a
experimentação para a aquisição de saberes e técnicas, a transmissão e a recriação de
conhecimentos, visões e expressões, que não se esgotam nesses momentos e atividades
mas que se refletirão de alguma forma na vida e forma de estar dos recetores. Os museus
deverão apostar em estratégias como exposições interativas, oficinas práticas, a
manipulação de objetos e instrumentos, e jogos, seguidos de trabalho de reflexão e
análise, usando processos dinâmicos e criativos. Elas podem resumir-se a vivências e
memórias ou continuar a reproduzir-se e a serem retransmitidas, recriadas e até
reinventadas, seguindo o seu próprio percurso evolutivo, com mais ou menos
repercussões culturais, para a memória coletiva.
O património imaterial está, naturalmente, associado à Etnografia, dada a sua
relação com as manifestações culturais, mas não se limita a esse aspeto, pelo que outros
museus que não os de caráter etnográfico podem também explorar esse recurso cultural.
Pelas razões atrás mencionadas, e que se prendem com a natureza tão abrangente do
património imaterial, podemos afirmar que a maior parte dos museus terão aspetos a
explorar nesse domínio. Para este estudo, no entanto, foram escolhidos os museus de
Arqueologia pela grande quantidade de museus que, mesmo não sendo de Arqueologia,
detêm, nas suas coleções, espólio arqueológico ou relacionado com sítios arqueológicos,
em Portugal, por estes museus não serem habitualmente associados ao património
imaterial, e pela sua importância para o conhecimento e compreensão de um património
mais ancestral, mas que se reflete ainda na cultura do presente.
Os museus de Arqueologia apresentam a particularidade de poder expor e dar a
conhecer à sociedade, e de forma equitativa, culturas ancestrais que outro tipo de
museus (como os etnográficos) não permitem abordar, dada a natureza mais recente do
seu espólio. A proximidade existente entre a Arqueologia e a Etnografia não impede a
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
existência de importantes diferenças entre as duas disciplinas. Essas diferenças podem,
em determinados aspetos, abonar a favor da Arqueologia, pois a distanciação no tempo
permite estabelecer associações entre objetos e traços culturais entre diferentes épocas
históricas, encontrando reflexos culturais ao longo do tempo, até ao presente. Por outro
lado, e em termos patrimoniais, as mais antigas podem mais facilmente adquirir o
estatuto de “património” por serem coletivamente mais valorizadas, sendo que a nível
pessoal tendemos a valorizar mais os testemunhos materiais que associamos a memórias
familiares, mas a nível coletivo valorizamos mais aquilo que está mais distante no tempo,
porque os vestígios do passado constituem vetores mais comuns de identificação no
plano coletivo.
Num museu de Arqueologia, os objetos expostos são o principal testemunho de
um passado mais remoto, de há, pelo menos, cinquenta anos atrás. Mas é relativamente
à Pré-História que estes vestígios são de extrema importância, dado que são o único tipo
de fonte disponível para conhecer a forma como o ser humano vivia e se relacionava com
o meio antes de existirem registos escritos. Os artefactos são usados para interpretar
uma determinada cultura e perceber de que forma diferentes culturas têm evoluído até
ao presente.
Apesar de investigar e interpretar vestígios materiais, a Arqueologia não está
apenas ligada ao património material porque vestígios arqueológicos materiais
musealizados ou expostos num museu podem também ser património imaterial, ainda
que se tratem de objetos, instrumentos, artefactos ou espaços físicos, apresentando-se
como testemunhos do passado histórico-cultural de determinada comunidade. Mesmo
representando o passado da humanidade, eles têm uma relação com o presente. A
Etnoarqueologia (como especialidade da Arqueologia) é uma prova da relação existente
entre a Arqueologia e a Etnografia, como disciplinas que se complementam no estudo da
humanidade e das sociedades humanas e suas culturas, materiais e imateriais. A
Etnoarqueologia veio adicionar à investigação arqueológica o estudo de povos vivos, e da
sua cultura material, com o objetivo de melhor compreender os registos arqueológicos do
passado, ou seja, recorrendo ao presente para melhor explicar o passado.
Os anos 90 do século passado trouxeram a consciência de que a Arqueologia pode
contribuir para a compreensão, não só da Pré-História e da História Antiga, mas também
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
de períodos históricos mais recentes, e a consciência da importância de entender o
registo arqueológico de uma forma mais profunda (para explicar questões sobre como
algo aconteceu ou se formou, por exemplo), recorrendo à chamada Etnoarqueologia. Há,
no entanto, quem o considere um termo redundante, já que a investigação sobre o
passado mais remoto esteve sempre dependente de informação de natureza etnográfica
ou antropológica, tanto para a identificação e descodificação dos artefactos, como para a
interpretação das realidades sociais.
Por outro lado, com o abandono das abordagens tradicionais, em Arqueologia, e a
passagem à abordagem pós-processual, torna-se gradualmente mais importante
conhecer a forma como os povos do passado viviam e porquê, para compreender a razão
da mudança cultural, que era já preocupação da chamada Arqueologia processual, não só
em termos gerais, de toda a humanidade, mas também das particularidades de uma
determinada cultura.
No século XX ainda persistiram ideais nacionalistas, tanto na investigação
arqueológica como no âmbito da museologia, mas nas décadas compreendidas entre os
anos 30 e os anos 60 foi o despontar da indústria turística que terá motivado a
valorização do património arqueológico, em Portugal.
Avanços científicos, a evolução dos paradigmas interpretativos da cultura e da
História da humanidade, a par do desenvolvimento na educação e preparação de
profissionais, contribuíram para o conhecimento dos vestígios arqueológicos numa
perspetiva mais abrangente e multidisciplinar, orientada para o estudo das culturas
associadas aos vestígios encontrados. No entanto, tal como acontece com o trabalho de
investigação levado a cabo pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, a
principal responsável pelos estudos sobre as coleções expostas no Museu D. Diogo de
Sousa e sobre os sítios arqueológicos a elas associados, continuam a coexistir, em
Arqueologia, diferentes perspetivas que presidem à interpretação que é feita dos
mesmos. Apesar de partilharem uma mesma metodologia de trabalho de campo, a
abordagem efetuada sobre os vestígios pode variar muito consoante a formação e
especialização de cada arqueólogo.
Depois de questões políticas, jurídicas e científicas, e de conservação, estes são
fatores que condicionam grandemente a investigação arqueológica e o conhecimento que
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
se detém acerca dos vestígios, a sua valorização e o seu reconhecimento a nível
patrimonial.
Um museu de Arqueologia tem, quanto ao património imaterial, um duplo papel:
o de salvaguarda e preservação (através do trabalho de investigação e de inventário, e da
aplicação de técnicas de conservação e restauro dos vestígios materiais), e o de
divulgação e transmissão do património imaterial a que os vestígios materiais estão
associados, através da dinamização de atividades de interpretação e de teor prático, no
âmbito da sua ação educativa não formal e lúdica.
Os museus desempenham uma importante função no que concerne à construção
do significado que é atribuído aos objetos. Num museu de Arqueologia, todo o processo
de trabalho que precede a exposição das coleções, desde a prospeção arqueológica à
investigação documental, e ao registo, seleção, conservação e eventual restauro das
peças achadas, condicionará as interpretações históricas e científicas de um determinado
objeto. Da mesma forma, a própria montagem das exposições atribui significados
simbólicos aos artefactos.
Os objetos são fundamentais para simbolizar e representar ideias e pensamentos
mais complexos, facilitando a sua compreensão. Os vestígios materiais são testemunhos
de uma cultura, de modos de viver e de formas de encarar o mundo, traduzindo valores,
práticas, costumes e crenças, quando contextualizados no tempo, no espaço e na relação
dos indivíduos (a eles associados) com o meio que os rodeia.
De âmbito regional, o Museu D. Diogo de Sousa é um dos maiores e mais
significativos museus de Arqueologia de Portugal, situado no norte do País, na cidade de
Braga. O seu longo percurso de existência iniciou-se na época em que a Arqueologia
nasceu (século XIX), atravessou o período em que diversas abordagens floresceram e
convergiram no campo da investigação arqueológica (século XX), e culminou na exposição
dos vestígios e artefactos, completando a sua função pública de museu, no século XXI.
A conjugação de vários fatores geográficos e sócio-culturais dota o Museu D.
Diogo de Sousa de um potencial vasto público, sobretudo da população jovem estudantil,
num contexto educativo, mas visitantes e turistas oriundos de outros pontos do País e do
estrangeiro, usualmente visitantes sazonais da região e da cidade, apresentam-se como
público a considerar e a atrair, através de adequadas formas de promoção e divulgação.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
As coleções do Museu D. Diogo de Sousa são, essencialmente, constituídas por
espólio contextualizado, resultante da investigação arqueológica sistemática efetuada na
região Norte, sobretudo no concelho de Braga, e o seu conjunto abarca um vasto período
cronológico e cultural, desde o Paleolítico até à Idade Média. A época da ocupação
romana da cidade de Braga, então designada de Bracara Augusta, domina, no entanto,
não só pela importância que este período teve no passado histórico e cultural desta
cidade, no processo de romanização da Península Ibérica e do Mundo, mas também pelos
numerosos e significativos vestígios encontrados.
Este caso particular é um exemplo demonstrativo de como o reconhecimento
social do património arqueológico se faz, geralmente, em duas fases que não são
necessariamente concomitantes. A interpretação efetuada pelos especialistas e o
reconhecimento do valor científico e patrimonial pelas instituições precederam o
reconhecimento identitário pelo público.
A sua “segmentação” no domínio da Arqueologia implicou uma seleção de espólio
na procura de um discurso expositivo mais coerente e significativo, valorizando o
significado histórico-cultural e a representatividade dos vestígios. A própria localização do
Museu é significativa, tendo o edifício sido estrategicamente projetado para a zona
arqueológica mais representativa e mais bem preservada da cidade romana de Bracara
Augusta, junto a alguns núcleos de ruínas arqueológicas, que integram o Circuito
Arqueológico de Braga.
Desde a sua abertura ao público, em Junho de 2007, de forma regular e
programada, que o património imaterial associado ao património material exposto no
Museu começou a ser promovido de uma forma não consciente ou propositada, através
da abordagem da vertente imaterial do espólio em exposição, como meio de simplificar a
informação, torná-la mais acessível e inteligível, mas também como forma de cativar a
atenção de vários tipos de público. A ação de divulgação do património cultural imaterial
que o Museu D. Diogo de Sousa desenvolve é levada a cabo dentro e fora do Museu,
através de atividades e iniciativas internas (incluindo as propostas do IMC e do ICOM,
como a comemoração do Dia Internacional dos Museus), e de parcerias com outras
instituições e outros projetos, especialmente de índole local e regional.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
O Museu transmite o património imaterial, sobretudo através da ação do seu
Serviço Educativo, criando e dinamizando atividades de índole prática e informal, e o
envolvimento em eventos culturais e educativos da comunidade local, passando
ensinamentos ao seu público, e à comunidade. Rentabilizando com competência e
criatividade os recursos humanos e materiais disponíveis, esta ação está em constante
inovação, e baseia-se na exploração de diversas temáticas de forma prática em oficinas
lúdico-pedagógicas (de arqueologia experimental, de expressão plástica, e de
experimentação), recriação de jogos, workshops, representações teatrais, a criação de
recursos pedagógicos, o apoio à formação, ao debate e à investigação, e a colaboração
em projetos de índole cultural e educativa, para além de uma abordagem comunicativa e
interativa das suas exposições, e da manipulação de objetos. Assim são transmitidos e
experimentados conhecimentos, saberes, práticas, usos, técnicas, visões e expressões
que fazem parte da nossa herança cultural, e que remontam a épocas tão diversas como
a Pré e Proto-História e a época da romanização em Bracara Augusta. Eles abordam
vários aspetos culturais como a gastronomia, artes do espetáculo, práticas sociais e
técnicas artesanais tradicionais, entre outros. Estes aspetos culturais são reconhecidos
enquanto “património” por profissionais especializados como os arqueólogos e
investigadores, e autoridades culturais mas, também, cada vez mais, pelo público nãoespecialista.
Esse património imaterial é recriado de acordo com a realidade atual, não
impedindo a sua evolução (no sentido de mudança). Na prática, determinados aspetos
como o contexto espacial, materiais e técnicas podem ser diferentes dos originais, mas no
seu papel informativo, educativo e cultural, o Museu procura fazer uma transmissão
rigorosa sobre o passado, promovendo o conhecimento cientificamente válido, com base
em estudos efetuados, pelo que, nesse aspeto, podemos afirmar que é valorizada a
questão da autenticidade, mas sobretudo o rigor científico das informações veiculadas.
Em termos turísticos, as atividades aqui descritas proporcionam experiências e
vivências hedónicas e holísticas, não apenas cognitivas. Elas são uma forma de atrair
visitantes, e com estratégias de aproximação a outros públicos, nomeadamente o público
de idade adulta e os turistas estrangeiros, através da adaptação linguística, entre outras,
elas poderiam ajudar a fomentar o Turismo Cultural.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Este museu oferece a imagem dos museus que se pretende para um futuro
produtivo. A sua forma de trabalho incorpora já estratégias como o incremento da sua
aproximação à comunidade e a um mais vasto e diferenciado público; o desenvolvimento
de atividades diversas e adaptadas a diferentes níveis de conhecimento e necessidades,
tornando mas acessíveis a compreensão e a interpretação dos seus conteúdos (do seu
espólio e daquilo que ele representa); a promoção de experiências enriquecedoras
baseadas na prática e no contacto interativo com os artefactos; a transmissão de cultura,
através da educação não formal e do fomento da reflexão sobre o significado cultural dos
testemunhos materiais, e a promoção do património imaterial a eles associado.
O Museu usa os objetos expostos para criar significado e transmitir conhecimento,
em detrimento do desejo de criar grandes coleções, tendendo, também, a dar mais
atenção ao património imaterial, usando os objetos como testemunhos materiais dessa
cultura imaterial.
A exposição dos testemunhos materiais é apenas uma de outras formas de
comunicação, que passam por abordagens diferenciadas das exposições patentes, da
realização de atividades diversas de caráter prático, interativo e experiencial.
Fomentando sempre o envolvimento sensorial e global, e a participação ativa e crítica do
público na construção do seu conhecimento, e dando primazia à interpretação de
significados culturais e à transmissão de saberes-fazer, sem impedir as inevitáveis
evoluções e adaptações ao presente, o Museu está também a criar cultura, ajudando a
reformular valores e a transformar relações culturais entre os indivíduos e o património,
reposicionando as suas visões face ao mesmo.
A atividade do Museu transpõe as suas instalações, abrindo-se e participando
ativamente na vida da comunidade, fornecendo apoio científico a eventos e a iniciativas
culturais relacionadas com o seu espólio e a sua área de investigação e atuação.
A melhoria na divulgação do património imaterial no Museu, de uma forma geral,
dependerá do entendimento deste conceito e da compreensão da sua importância na
interpretação dos vestígios materiais neles expostos. Nota-se, ainda, a necessidade de
transpor para a prática as recomendações já feitas e aprovadas, de fazer uma reflexão
séria sobre questões concetuais, a formação de recursos humanos e a gestão de
parcerias. Sem uma interiorização de conceitos, as ações serão inconsistentes; por isso, a
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
equipa do Museu D. Diogo de Sousa necessita de efetuar um trabalho de reflexão e
preparação para realizar a divulgação, que já faz, do património imaterial associado às
suas coleções, de forma consciente e deliberada, continuando a exibir o dinamismo, a
inovação e a qualidade de serviço que o caraterizam.
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Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
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Filmografia
Dennis O’Rourke, Cannibal Tours, DCinema, 1998, 67 min.
Leng Shang, Mon Village Taoping, Sichuan Television, 1998, 45 min.
Nicholas Kurzon, Sight Unseen, Documentary Educational Resources, 1996, 27 min.
211
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Índice de fotografias
Figura
Descrição e autoria
Pág.
Fig. 1
Vista aérea sobre o Museu D. Diogo de Sousa (à direita), Termas Romanas e
respetivo Centro Interpretativo e ruínas de Teatro Romano (à esquerda), ainda
não musealizadas.
© 2007 Microsoft Corporation
95
Fig. 2
Mosaico Romano conservado in situ, no espaço-cripta do Museu D. Diogo de
Sousa.
© 2012 Ivone Coelho
95
Fig. 3
Aspeto da Sala 1 da Exposição Permanente do Museu D. Diogo de Sousa.
© 2012 Ivone Coelho
97
Fig. 4
Aspeto da Sala 2 da Exposição Permanente do Museu D. Diogo de Sousa.
© 2012 Ivone Coelho
97
Fig. 5
Aspeto da Sala 3 da Exposição Permanente do Museu D. Diogo de Sousa.
© 2012 Ivone Coelho
97
Fig. 6
Aspeto da Sala 4 da Exposição Permanente do Museu D. Diogo de Sousa.
© 2012 Ivone Coelho
97
Fig. 7
Maqueta da Casa das Carvalheiras, integrada na Exposição Permanente do
Museu D. Diogo de Sousa.
© 2011 Ivone Coelho
156
Fig. 8
Representação de um conto das “Histórias com Romanos”, no Jardim do Museu
D. Diogo de Sousa, por técnicos do Serviço Educativo, no Dia Mundial da Criança.
© 2011 MDDS
159
Fig. 9
“Jogo do arquinho”, jogado por participantes no evento “Braga Romana”.
© 2011 Ivone Coelho
162
Fig. 10
“Jogo das bolas”, jogado por participantes no evento “Braga Romana”.
© 2011 Ivone Coelho
162
Fig. 11
Aspeto da oficina de Jogos Romanos de Tabuleiro no Museu D. Diogo de Sousa.
© 2008 MDDS
162
Fig. 12
Aspeto da oficina “Atividades do Homem da Pré e Proto-História”.
© 2009 MDDS
166
Fig. 13
Aspeto da oficina “Tesselatum – Mosaico romano: como é e como se constrói”.
© 2009 MDDS
167
Fig. 14
Aspeto da oficina “Os artistas da Pré-História: cores, rabiscos e outros riscos”.
© 2008 MDDS
169
212
Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia:
O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga
Fig. 15
Aspeto da fase de confeção de uma receita de inspiração romana, por um
participante, na oficina “Cozinha Romana”.
© 2011 MDDS
173
Fig. 16
Aspeto da fase de prova de uma receita de inspiração romana confecionada
pelos participantes na oficina “Cozinha Romana”, no espaço de recriação de um
triclinium (sala de refeições e convívio romana), no Museu D. Diogo de Sousa.
© 2011 MDDS
173
Fig. 17
Painel ilustrativo do uso de materiais líticos (à direita) expostos na vitrina (à
esquerda), na Sala 1 da Exposição Permanente do Museu D. Diogo de Sousa.
© 2012 Ivone Coelho
176
Fig. 18
Desenho contextualizador (à esquerda) de um fragmento cerâmico (em baixo, à
direita): uma cabeça de cavalo que teria pertencido a uma lucerna, presente
numa vitrina da Exposição Permanente do Museu D. Diogo de Sousa.
© 2012 Ivone Coelho
176
Fig. 19
Desenho ilustrativo de uma técnica de fabrico em vidro, e vestígio arqueológico
no qual terá sido usada essa técnica, presente na Exposição Temporária “Vita
Vitri – O vidro antigo em Portugal”.
© 2011 Ivone Coelho
178
Fig. 20
Exemplo da contextualização de vestígios de acordo com a sua funcionalidade.
Peças em vidro achadas em urnas. Exposição Temporária “Vita Vitri – O vidro
antigo em Portugal”.
© 2011 Ivone Coelho
178
Fig. 21
Representação teatral da peça “As Bacantes”, tragédia grega da autoria de
Eurípedes, pelo Grupo Acutema, de Málaga, no âmbito do Festival Mimarte, no
espaço exterior do Museu.
© 2008 MDDS
183
Fig. 22
Participantes e monitora da edição de 2012 do workshop de Indumentária
Romana, já trajadas com as roupas que confecionaram nessa oficina, na visita
final à Exposição Permanente.
© 2012 Ivone Coelho
185
213
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