Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Dissertação de Mestrado em Turismo Ivone da Conceição Gachineiro Coelho Orientador: Professor Doutor Jean-Yves Durand Vila Real 2012 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Dissertação submetida para a obtenção do grau de mestre em Turismo (ramo de Gestão Turística) na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, pela candidata Ivone da Conceição Gachineiro Coelho, sob a orientação do Professor Doutor Jean-Yves Durand, da Universidade do Minho. 2 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Resumo Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Com base na realização de um estudo do caso particular do Museu D. Diogo de Sousa, situado em Braga, Portugal, pretende-se demonstrar de que forma os museus de Arqueologia podem contribuir, enquanto agentes culturais e educativos, para a divulgação cultural e a promoção turística do património imaterial associado ao seu espólio arqueológico e aos sítios arqueológicos de cujo circuito de visita fazem parte. Procurar-se-á, ainda, mostrar como estes museus, não habitualmente associados ao Património Imaterial, podem, dessa forma, fomentar o Turismo Cultural em Portugal, particularmente na zona norte do País. Palavras-chave: turismo cultural, património imaterial, museu de arqueologia. Abstract Tourism, Intangible Heritage and Promotion in a Museum of Archaeology: The Museum D. Diogo de Sousa, in Braga Based on the study of the particular case of the Museum D. Diogo de Sousa, located in Braga, Portugal, this paper aims to demonstrate how museums of archaeology can contribute as cultural and educational agents for the cultural and tourist promotion of the intangible heritage related to their archaeological remains and the archaeological sites whose circuit they integrate. It also aims to show how they can help to promote cultural tourism in Portugal, particularly in the north of the country. Key words: cultural tourism, intangible heritage, museum of archaeology. 3 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Agradecimentos Os meus agradecimentos vão para o Professor Fernando Bessa Ribeiro, que sempre me valorizou, inspirou, encorajou e aconselhou da melhor forma e com toda a disponibilidade e simpatia ao longo de todo o Curso. Ao Professor Bessa devo, ainda, a oportunidade de ter conhecido e trabalhado sob a orientação do Professor Jean-Yves Durand, o meu Orientador, cujo trabalho e postura admiro. Ao Professor Jean-Yves agradeço a prontidão com que aceitou conduzir a orientação da minha tese, sem ainda me conhecer, assim como a disponibilidade e simpatia que revelou ao longo de todo o processo de orientação deste trabalho, partilhando a sua sabedoria e experiência. Agradeço, ainda, à Doutora Isabel Silva, Diretora do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, pelo aberto acolhimento com que recebeu a proposta deste estudo sobre o Museu, assim como pela simpatia e disponibilidade que revelou em todo o processo de trabalho. Da mesma forma, agradeço à Doutora Júlia Andrade, Coordenadora do Serviço Educativo do Museu, pela amizade, pelas longas conversas com as quais aprendi sobre Arqueologia, e sobre a origem e o trabalho efetuado com o espólio do Museu, e pela sua generosidade na partilha de informação, sempre que necessário. Os meus agradecimentos vão, também, para todos os Técnicos e Colaboradores do Museu, que contribuíram para a realização deste estudo, partilhando, com amizade, as suas opiniões, a sua experiência e o seu trabalho. Por fim, agradeço a todos aqueles que responderam às minhas solicitações de informação complementar, quando foi necessário, nomeadamente a Professora Manuela Martins, Presidente da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, o Professor Xerardo Pereiro Pérez, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, o Doutor Jorge Raposo, Diretor da Revista de Arqueologia Al Madan, e o Doutor José Neves, Coordenador do Estudo O Panorama Museológico em Portugal, do Observatório das Atividades Culturais. 4 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Índice de conteúdos Lista de siglas 7 Apresentação do projeto de investigação 8 I. Contextualização teórica I.I Cultura e Património: conceitos e processos patrimonializadores I.II O Património Imaterial: definição, domínios e políticas de salvaguarda I.III Cronologia do Património Imaterial: uma perspetiva nacional e internacional I.IV Património Imaterial e Turismo Cultural: uma relação inevitável I.V Os museus como espaços promotores de cultura e de educação I.VI O Património Imaterial e os museus: uma nova conceção de museu? 12 13 19 26 37 48 54 II. Arqueologia, museus e divulgação do património imaterial em Portugal II.I A evolução da investigação arqueológica e da interpretação dos vestígios materiais como fonte de conhecimento sobre o património imaterial, e sua valorização II.II Arqueologia e museus em Portugal II.III O potencial papel dos museus de Arqueologia na divulgação do património imaterial 67 67 III. O Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa na divulgação do património imaterial III.I O Museu D. Diogo de Sousa: caraterização III.I.I Enquadramento geográfico e sociocultural do Museu III.I.II História do Museu e das suas coleções III.I.III As coleções do Museu III.I.IV O papel do Museu no Circuito Arqueológico de Braga III.I.V A atividade de conservação e restauro III.I.VI Atividades desenvolvidas III.I.VII Instalações, equipamentos e serviços III.I.VIII Comunicação e promoção turístico-cultural III.I.IX Público-alvo e procura III.I.X Apoio à investigação e divulgação científicas e à formação 89 89 89 90 96 98 98 99 101 101 104 105 III.II A origem, o estudo e a interpretação dos vestígios materiais expostos no Museu III.II.I As fontes de conhecimento III.II.II Condicionalismos naturais e aspetos de conservação e restauro dos vestígios arqueológicos III.II.III Desenvolvimento versus conservação III.II.IV Questões políticas, jurídicas e científicas III.II.V Avanços científicos e culturais na investigação arqueológica local III.II.VI Recursos humanos III.II.VII Metodologia de investigação III.II.VIII Correntes de influência na interpretação dos vestígios III.II.IX Contributos para o conhecimento do património imaterial 106 107 112 III.III O contributo do Museu D. Diogo de Sousa na divulgação do património imaterial III.III.I Os contos animados III.III.II Os jogos III.III.III As oficinas lúdico-pedagógicas 153 158 161 165 73 83 121 122 128 131 132 137 145 5 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga III.III.III.I Oficinas de arqueologia experimental III.III.III.II Oficinas de expressão plástica III.III.IV Workshops III.III.V As visitas guiadas à Exposição Permanente e à Exposição Temporária III.III.VI Os recursos pedagógicos III.III.VII O apoio à formação, ao debate e à investigação III.III.VIII A colaboração em projetos culturais 165 169 171 174 179 181 183 Conclusão 190 Referências bibliográficas 203 Índice de fotografias 212 6 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Lista de siglas ASPA – Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural CODEP – Comissão de Defesa e Estudo do Património ICOM – International Council of Museums / Conselho Internacional de Museus ICOMOS – International Council of Monuments and Sites / Conselho Internacional de Monumentos e Sítios IGESPAR – Instituto de Gestão do Património IMC – Instituto dos Museus e da Conservação IPA – Instituto Português de Arqueologia IPM – Instituto Português de Museus IPPAR – Instituto Português do Património Arquitetónico MDDS – Museu D. Diogo de Sousa PCI – Património Cultural Imaterial PRACE – Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado RPM – Rede Portuguesa de Museus UAUM – Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho UM – Universidade do Minho UNESCO – United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization / Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura 7 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Apresentação do projeto de investigação A partir de fontes documentais, da observação direta, e da realização de entrevistas semiestruturadas, este estudo pretende demonstrar qual o papel que um museu de Arqueologia, enquanto agente cultural e educativo, pode assumir na divulgação cultural e na promoção turística do património imaterial associado ao seu espólio arqueológico e aos sítios arqueológicos de cujo circuito de visita faz parte. Simultaneamente, será avaliado o seu potencial contributo para o fomento do Turismo Cultural em Portugal, particularmente na zona norte do País, onde está localizado o objeto de estudo. Esta questão adquire particular relevância devido à ligação algo indefinida entre património arqueológico e património imaterial, estando o conceito de património imaterial, em termos museológicos, ainda associado sobretudo à Etnografia. Assim, pretende-se, com este estudo, aferir se a divulgação do património imaterial estará, afinal, confinada aos museus de natureza etnográfica, ou se um museu de Arqueologia poderá também explorar esse recurso cultural. E se, em caso afirmativo, ele estará a ser totalmente cumprido, tendo em conta a função mais alargada dos museus na divulgação cultural e promoção turística do património, tirando proveito do desenvolvimento do Turismo Cultural. Através deste projeto de investigação, procurar-se-á dar resposta a estas e outras questões contextuais, aplicando-as no estudo do caso de um dos maiores e mais significativos museus de Arqueologia de Portugal, situado no norte do País, na cidade de Braga – o Museu D. Diogo de Sousa (MDDS). Este estudo envolverá, também, questões relacionadas com a evolução da investigação arqueológica e condicionalismos dessa atividade, quer de uma forma geral, como neste caso, em particular, enquanto fatores que influenciam os resultados dos estudos efetuados sobre os testemunhos materiais, e a posterior divulgação do património imaterial a eles associado. Através deste projeto de investigação, pretende-se, ainda, de uma forma geral, e em termos concetuais, contribuir para a clarificação do conceito de património cultural imaterial, dos conceitos de cultura e de património a ele associados, e das suas diversas dimensões e manifestações, de acordo com as orientações e documentos oficiais da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (UNESCO); dar uma 8 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga breve perspetiva sobre a evolução do conceito de património cultural imaterial e do seu enquadramento legal, a nível internacional e nacional, assim como das implicações práticas da mesma no sentido da sua salvaguarda e promoção; explicar a relação existente entre a divulgação do património imaterial e o fomento do Turismo Cultural em Portugal, particularmente na zona norte do País; e justificar a importância dos museus, enquanto espaços privilegiados de educação e de cultura, no contributo para a divulgação do património imaterial. Em termos pragmáticos, pretende-se apresentar algumas sugestões para o fomento da divulgação do património imaterial em museus de Arqueologia, a nível turístico, como forma de promover o Turismo Cultural, com base na investigação teórica e no estudo prático efetuados, demonstrando de que forma um museu de Arqueologia pode contribuir para a divulgação do património imaterial que está associado ao seu espólio e aos sítios arqueológicos cujo circuito de visita integra, contrariando a tendência para a redução deste papel aos museus de caráter etnográfico. Pela sua longa existência e percurso complexo e singular, pelo seu estatuto, projeto, área e forma de atuação e de envolvimento na vida cultural do concelho em que está inserido, pelo seu enquadramento geral, e pelo seu dinamismo, que fazem desta instituição um espaço com vida, o Museu D. Diogo de Sousa apresenta-se como um fecundo e interessante objeto de estudo, com base no qual poderão surgir conclusões que contribuam, de forma eficaz, para o alcance dos objetivos definidos para este projeto de investigação. A escolha da área de estudo para esta dissertação prende-se com o particular interesse, pessoal e profissional, por questões culturais e patrimoniais, sobretudo numa perspetiva antropológica, que estão associadas a relações humanas e, portanto, culturais, e políticas, fomentadas pela atividade turística. Esta particular preferência foi intensificada por experiências práticas, como a participação em programas de intercâmbio cultural internacionais, durante a juventude, como guia-intérprete e animadora cultural, que me despertaram o gosto pelo Turismo e a ingressão no curso superior de Turismo, e, mais tarde, pela especialização em Turismo (Gestão Turística). Durante o ano curricular, este interesse aprofundou-se, principalmente no âmbito da unidade de Política Internacional, Globalização e Turismo, através da realização de 9 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga trabalhos práticos sobre questões relacionadas com o Turismo Cultural, com aspetos antropológicos da interação humana promovida pelo Turismo, principalmente o de caráter cultural, e ainda com processos de patrimonialização e de classificação de património, sobretudo a classificação de património da humanidade (da UNESCO). O estudo desenvolvido e agora apresentado provém de um projeto que é o resultado da reformulação de duas ideias anteriores. A opção inicial por estudar o caso da candidatura do Complexo Mineiro Romano de Tresminas, situado em Vila Pouca de Aguiar, a património da humanidade, a apresentar pela Câmara Municipal desse concelho, prendeu-se, não apenas com as preferências atrás descritas, mas também com motivos de proximidade geográfica. No entanto, avaliando melhor a situação, concluí não se tratar de um caso suficientemente interessante, tanto em termos de abrangência como pelas perspetivas negativas sobre os resultados que o estudo já prefigurava. Mantendo o mesmo campo de estudo, optei, em alternativa, por estudar as implicações locais que teria trazido a obtenção do título de património da humanidade pelo Conjunto de Arte Rupestre do Vale do Côa para Vila Nova de Foz Côa. Neste caso, foi o afastamento geográfico do local de estudo que causou o abandono do projeto. Continuando a manter a intenção de estudar questões relacionadas com o património cultural e vestígios de natureza arqueológica, e procurando abordar um conceito que ainda não estivesse suficientemente explorado, surgiu, juntamente com o meu Orientador, a ideia de relacionar o património imaterial com o património arqueológico, e com os museus, enquanto veículos de divulgação do património imaterial no âmbito do Turismo Cultural. Esta relação pouco evidente e ainda pouco reconhecida, mesmo no universo museológico, constituiu uma forte fonte de motivação e um desafio de investigação. Por outro lado, a minha já iniciada colaboração como voluntária do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa possibilitou-me um acesso privilegiado a fontes atualizadas, uma maior familiarização com o funcionamento do Museu, um contacto mais próximo com as pessoas que nele trabalham, observar e participar em atividades desenvolvidas no Museu, criar e dinamizar projetos próprios, e contribuir para a planificação, preparação e realização de diversos documentos, eventos e atividades. Este envolvimento profissional permitiu-me colocar em prática e desenvolver vários 10 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga conhecimentos e competências adquiridos ao longo da formação académica, assim como obter uma perceção mais profunda e real acerca do campo em que a investigação foi conduzida. 11 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga I. Contextualização teórica Será o “património imaterial” uma falsa questão? Por que razão terá havido necessidade de, a determinada altura, introduzir este termo em documentos e discussões, um pouco por todo o mundo, em prol da sua defesa? Será que ele já estava consagrado, ou será que não havia ainda uma noção clara deste domínio do património cultural? O termo “património cultural imaterial” surge pela necessidade de distinguir dois domínios do património cultural: material (também designado tangível) e imaterial (ou intangível, por oposição ao anterior), que está na origem da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (de 2003). O termo “cultural” é mais antigo, sendo utilizado para distinguir dois tipos de património, o cultural e o natural, já anteriormente preconizados pela UNESCO, através da Convenção para a Salvaguarda e Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural (de 1972). O que poderá estar em causa não é apenas o conceito, que “cultural” já englobava, mas sim a forma como ele é valorizado em termos de investigação, apreendido (através da recolha, registo e inventário), exposto ao público, e abordado em atividades de índole cultural e educativa, pois o património imaterial possui caraterísticas próprias que o distinguem do material, que devem ser tidas em conta. Passados cerca de nove anos após a adoção da Convenção da UNESCO para a sua salvaguarda, o conceito de património imaterial continua a suscitar várias dúvidas e a ser, sobretudo, entendido como assunto que diz respeito aos museus de caráter etnográfico. A compreensão deste conceito torna-se complexa porque requer uma contextualização concetual prévia, que engloba vários outros conceitos que devem ser analisados à luz da Antropologia, pois esta é a disciplina que oferece uma visão suficientemente abrangente e crítica sobre os mesmos. Estes conceitos são, em suma, o de cultura, de património, de imaterial, ou intangível, e de material, ou tangível. Depois de clarificados estes conceitos, ficará mais evidente a relação entre o património imaterial e o Turismo Cultural, assim como o papel dos museus e o potencial contributo dos museus de Arqueologia, em particular, na sua promoção. 12 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga I.I Cultura e Património: conceitos e processos patrimonializadores Tendo iniciado uma tentativa de particularizar a cultura e relacioná-la com os grupos sociais, mais de acordo com o que estava a definir-se como objeto de estudo da Antropologia Social e Cultural – as diferenças culturais, o antropólogo Franz Boas (1858 1942) (citado por Barañano, 2007: 47), afirmava que a cultura inclui todas as manifestações dos hábitos sociais de uma comunidade, as reações dos indivíduos sob a influência dos hábitos do grupo em que vivem, e os produtos das atividades humanas, na medida em que são determinados por esses hábitos. Boas estava consciente do caráter flexível e mutável das culturas humanas e da importância que teriam, em todas elas, influências culturais externas. Decidir se a cultura representa uma realidade mental e subjetiva, de caráter psicológico, ou se, pelo contrário, se trata de um fenómeno social e algo estruturado por leis próprias, é importante para determinar o significado dos testemunhos materiais de uma cultura, e definir a relação entre património material e imaterial. As conceções mentalistas, que entendem a cultura como algo que se aprende, e que aquilo que se aprende são, fundamentalmente, perceções, conceitos, receitas, normas e habilidades para fazer coisas, fazem uma separação entre a cultura enquanto “realidade mental” e os artefactos culturais, que são manifestações materiais do que se aprende (Goudenough, in Barañano, 2007: 48). Numa perspetiva integrada da cultura, no entanto, esta separação não faz sentido, e as manifestações materiais da cultura são consideradas uma parte integrante da mesma, refletindo aquilo que motiva e permite a sua criação. Outra questão fundamental é o papel da cultura nos comportamentos sociais dos indivíduos e o seu caráter homogeneizante. Se entendermos a cultura como um atributo exclusivo de um grupo social, poderemos estar a suster uma visão etnicista da mesma, enquanto geradora de fronteiras, definidora de limites sociais e diferenciadora, mais ou menos forte, dos grupos humanos. Existe, atualmente, entre antropólogos, a tendência para encarar a cultura como algo pertencente à humanidade, não apenas a um determinado grupo ou comunidade, já que se trata de algo que não é determinado psicologicamente, mas ativado por um determinado contexto, que pode ser encontrado em diferentes tempos e espaços, não se confinando, portanto, a um local ou país. Daí a razão de o património imaterial poder ser 13 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga partilhado, reproduzido e recriado por indivíduos de outros locais do mundo, aos quais, à partida, esse património não pertenceria. Durand (2011: 39) apresenta dois exemplos dessa realidade: um casal japonês que vence um grande concurso de tango promovido em Buenos Aires, Argentina, e uma “versão global-balcânica” do fado “Uma casa portuguesa”. Simultaneamente, verifica-se uma tendência para o enfraquecimento do nacionalismo, enquanto entendimento do património como algo que pertence somente a cada nação. Até mesmo por uma questão de esforço em valorizar e salvaguardar o património, instituições como a UNESCO reconheceram a necessidade de considerar o património como algo que pertence à humanidade. Tal reflete-se não só na atribuição da classificação de “património da humanidade”, como também em outras políticas de apoio à proteção e valorização do património, seja ele material ou imaterial, natural ou cultural. Para o antropólogo Anthony Wallace (citado por Barañano, 2007: 49), a cultura são “as formas de conduta ou técnicas de resolução de problemas que, por terem maior frequência e menor dispersão que outras formas, (…) têm uma alta probabilidade de serem utilizadas pelos membros de uma sociedade”. De acordo com esta definição, “os processos normativos transformam-se em processos normais” (Barañano, 2007: 49). Esta visão assume as diferenças entre indivíduos, que, no entanto, por partilharem o mesmo espaço físico, condições ecológicas semelhantes e recursos materiais bem delimitados, tanto na sua consistência como na forma de lhes aceder, têm grandes probabilidades de manter uma conduta de certa forma equivalente, assim como uma forma de pensar similar. As regras e normas culturais terão a função de “organizar a diversidade dos indivíduos sociais” (Wallace, in Barañano, 2007: 49). Sendo evidente que, desta forma, a cultura pode estar associada a grupos sociais, apenas, isso significa que ela é, em grande parte, opcional, também porque não é determinada a nível psicológico, nos indivíduos que a praticam (indo contra a ideia da mentalização da cultura). Não existem normas associadas aos esquemas cognitivos que servem para organizar as experiências. Os conteúdos, ou esquemas, cognitivos ativam-se perante determinadas circunstâncias e contextos. Podemos, assim, falar de “hábitos” 14 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga como uma “estrutura estruturada e estruturante” (Barañano, 2007: 49), que existe apenas onde é ativada. Assim, os significados culturais serão, fundamentalmente, individuais e contextuais, ativando-se nos contextos apropriados. Sendo eles circunstanciais, a cultura não acompanha os indivíduos de forma permanente, sendo mutável. Na esfera pública, esta cultura também pressupõe heterogeneidade e diversidade, mesmo dentro de si mesma, sendo que ela as organiza, algo que acontece não só nas sociedades modernas mas também em sociedades ditas tradicionais. Na esfera privada, no entanto, diferentes processos culturais podem coexistir sem que choquem ou se contradigam. Em termos de identificação e prática cultural, e tendo em conta o caráter individual e contextual da cultura, terá a questão territorial ou espacial maior importância do que a questão temporal? Terão mais facilmente pontos em comum indivíduos que partilharam o mesmo território em períodos diferentes, ou indivíduos coetâneos oriundos de países diferentes, e que podem, assim, potencialmente, estabelecer contacto e conviver? Se atribuirmos mais importância à questão territorial, correremos o risco de reforçar as diferenças existentes entre os seres humanos, num discurso cultural identitário, ainda que se procure a salvaguarda e o respeito pelas culturas dos demais. Tal como Barañano (2007: 51) afirma, “as culturas podem ser consideradas recursos abertos, suscetíveis de serem utilizados tanto por nativos como por estranhos”, já que o fundamental é a vinculação desses recursos a determinados contextos. Segundo o mesmo, “longe deles, as culturas (…), se lhes são atribuídos donos, convertem-se em textos retóricos”. O conceito de “património” (material ou imaterial) está, de uma forma geral, associado à ideia de herança, de legado cultural, que se reveste de dinamismo e que é conscientemente selecionado por indivíduos e grupos, que o têm em comum, compartilham e com o qual vivem, transmitindo-o e deixando-o também para as gerações futuras. Considerado um conjunto de recursos e atributos, recebido do passado, não só por herança, mas também de outras formas (Barañano, 2007: 289), o património tem um sentido de posse e de valor, que pode ser o apreço individual ou social atribuído num determinado contexto histórico e segundo um quadro de referências comuns. Mas, acima 15 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga de tudo, o património cultural, enquanto “construção social”, é representativo de uma dada identidade de um grupo, diferenciando-o dos demais. Os legados material e simbólico do património têm sido entendidos como vetores de reforço do sentimento coletivo de identidade e pertença a uma cultura e a um território, mas esta é uma ideia que se encontra agora a ser repensada e reavaliada, numa nova perspetiva de cidadania e identidade, que se impõe num mundo cada vez mais partilhado, e em experiências híbridas, de adaptação e incorporação de vários elementos pertencentes a diferentes culturas, que coexistem pacificamente nos indivíduos e seus hábitos. Por outro lado, o surgimento de um sentimento de nostalgia, no qual o património ganha mais valor e interesse, procurando-se, a todo o custo, preservar e manter o passado intacto, rivaliza com o caráter naturalmente dinâmico e mutável da cultura. A procura da homogeneização de hábitos e tradições através da ação legal para a reafirmação das identidades coletivas, reagindo aos efeitos da globalização, de interferências culturais externas, ou de mudança, não fazem sentido no âmbito do património imaterial, pois os modos de viver, pensar e sentir que os indivíduos e grupos adquirem patrimonialmente do passado modificam-se durante a sua própria existência, para voltarem a ser transmitidos às futuras gerações com as alterações por eles introduzidas. Estas alterações não implicam forçosamente perdas, mas antes o desaparecimento de antigos elementos, a modificação dos seus contextos, a descontinuidade e até a rutura na transmissão, sofrendo um processo de transformação social e histórica, dando lugar a novos componentes, mais pertinentes e adaptados ao presente. As posturas que defendem a resistência do local face ao exterior ou à globalização, para a afirmação das singularidades locais, quer seja através de representações estatais, como de ações populares, bairristas e etnicistas, que promovem e valorizam o património sob uma visão bastante reducionista, são, muitas vezes, o reflexo de uma tendência para considerar o tradicional e popular como um “construto atemporal, ancorado em ambientes ruralizados”, com “valores eternos e contrapostos aos territórios urbanos e industriais” (Barañano, 2007: 291), cuja modernização legitima a mudança e o desenraizamento de hábitos considerados tradicionais. 16 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga A patrimonialização da cultura imaterial, e a sua proteção legal, vieram, de certa forma, reforçar o desejo de conservar tradições e traços culturais de minorias étnicas, contrariando as próprias leis, que assumem o caráter mutável deste património. Numa visão sobre a atualidade, Durand (2011: 39) afirma que, contrariamente ao que acontecia na “era romântica”, a vontade de ter cultura própria possui, agora, raízes populares, de tal forma que provoca suspeição em intelectuais que criticam “o nacionalismo e os essencialismos identitários”. O reconhecimento institucional e legal do património imaterial veio, de certa forma, valorizar ainda mais alguns elementos culturais e étnicos, que fortaleceram o apego aos mesmos e, por outro lado, o desejo de os exibir. Assim, a tentativa de reclamar uma cultura como pertencente a um dono, que, neste caso, pode ser um grupo social, uma comunidade, ou mesmo uma nação, é fechar-se ao exterior, conflituando com a vontade visível de comercializar tradições, bens e costumes, fazendo um aproveitamento do mercado turístico. A valorização do património, expressa através da atribuição de títulos que distinguem exemplares notáveis, teve início no começo do século XX, com a classificação do património material e imóvel. As primeiras classificações em Portugal datam de 1910 e correspondem a edifícios individualizados pelo seu caráter monumental, qualidade arquitetónica ou significado histórico. Ao longo do século XX, começa a ser alargado o conceito de monumento, que deixa de estar individualizado para que a sua envolvente passe a ser também considerada de muita relevância. Assim se chega à consideração de centros históricos, a todo um conjunto edificado, para depois se incluir ainda a paisagem, à qual o conjunto edificado já deve ser associado. O Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR), que, no quadro das orientações definidas pelo Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado (PRACE), deu lugar ao Instituto de Gestão do Património (IGESPAR), na fusão daquele organismo com o Instituto Português de Arqueologia (IPA), e da incorporação de parte das atribuições da extinta Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, em 2006, teve durante vários anos a seu cargo a classificação de imóveis de interesse cultural, considerando as categorias: de Interesse Nacional (com a designação de Monumento Nacional), de Interesse Público ou de Interesse Municipal (classificação camarária). Entretanto, a lei passou a prever uma outra distinção do património, 17 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga definindo ainda as categorias de Monumento, Conjunto e Sítio, conforme as convenções internacionais. O património assim classificado e considerado tem apenas em conta os imóveis de valor cultural, utilizando no processo de avaliação dois tipos de critérios: os de caráter geral, que incluem o valor histórico-cultural, o valor estético-social e o valor técnico-científico; os critérios de caráter complementar incluem a integridade, a autenticidade e exemplaridade do bem em questão. Quanto ao património natural, a classificação de áreas com maior representatividade teve início, em Portugal, em 1970, com a criação do Parque Nacional da Peneda-Gerês. A Rede Nacional de Áreas Protegidas é criada em 1993. As áreas protegidas são consideradas como áreas de interesse nacional, regional ou local. Com a adesão de Portugal à União Europeia, o nosso país foi obrigado a transpor para o Direito interno várias diretivas europeias visando a conservação dos recursos naturais. A expressão mais forte da necessidade de salvaguarda do património imaterial começou a tomar forma, a nível internacional, especialmente após a assinatura da Convenção para a Proteção do Património Cultural e Natural Mundial, da UNESCO, em 1972, que deixava de fora o património imaterial. Numa tentativa de dar resposta às várias manifestações de descontentamento por parte de diferentes países, em 1989 a UNESCO fez uma recomendação para a “salvaguarda da cultura tradicional e do folclore” e, em 2001, assinou a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural. Mas foi em 2003 que este organismo deu o passo principal nesse sentido, através da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, que viria a entrar em vigor em 2006. Portugal ratificou a Convenção em 2008. Passaram, desta forma, a ser consideradas as tradições, expressões orais, artes do espetáculo, práticas sociais, rituais e eventos festivos, acontecimentos e práticas relacionadas com a natureza e o universo, e as aptidões ligadas ao artesanato tradicional, como manifestações do património imaterial. Um pouco à semelhança do que aconteceu relativamente à classificação de Património Mundial, da UNESCO, o conceito de património imaterial ficou exposto a várias questões, como o possível paradoxo entre, por um lado, a defesa da “diversidade cultural”, que este preconiza, ao valorizar as particularidades de cada cultura, e, por outro, o receio de uma internacionalização dos contextos locais (Vinson, 2005), que uma abordagem mais global do património cultural imaterial, causada pela sua promoção 18 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga cultural e a sua divulgação turística, pudesse acarretar. Estes receios fundamentam-se, basicamente, no sentimento de posse que uma abertura cultural e a partilha externa do património imaterial pode colocar, ao limitar o “direito de propriedade” (Durand, 2006: 6) que as comunidades julgam possuir sobre o mesmo. O receio da globalização e da homogeneização cultural, mas, mais ainda, o medo de partilhar além regiões e além-fronteiras, que rivaliza com a vontade de mostrar, com orgulho, aquilo que lhes pertence por herança, gera uma contradição de sentimentos entre o desejo de divulgação do património imaterial e o receio de adulteração do original. A verdade é que quanto mais conhecida for uma prática cultural, maior será a probabilidade de ela ser adotada e praticada em outros locais do planeta. Isso tem acontecido com várias formas de expressão cultural, sobretudo com a dança, a música e a gastronomia, de que são exemplo, em Portugal, a adesão a danças orientais, a miscigenação musical e a atração pela cozinha japonesa. O mesmo acontece, no exterior, face a expressões tradicionalmente portuguesas, como o fado. Agindo com base neste receio, impondo fronteiras à cultura enquanto património e tentando restringi-la a uma comunidade, estamos a impedir a sua circulação, partilha e inovação. Sendo a evolução uma das caraterísticas fundamentais do património imaterial, qualquer ação que tente parar esse processo transforma-o em algo fossilizado e sem sentido atual. De facto, o sentido coletivo de património tem-se intensificado, não só porque se acredita cada vez mais na importância da “responsabilidade coletiva na proteção do património num sentido mais alargado” (Vinson, 2005), que está também associada à classificação de Património Mundial, mas também porque a perspetiva sobre o património cultural tem evoluído em vários sentidos, que impõem uma outra atitude, de maior abertura, face ao mesmo: de material, para uma combinação entre material e imaterial; de imutável e permanente, para mutável e evolutivo; e de etnicista, para global (Durand, 2006). I.II O Património Imaterial: definição, domínios e políticas de salvaguarda O conceito de património imaterial encontra-se definido, pela UNESCO, na Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, de 2003. Neste documento, são também apresentados cinco domínios nos quais este tipo de património 19 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga pode manifestar-se. No entanto, de acordo com a UNESCO (2009), eles não pretendem ser exclusivos. A versão oficial, e atual, adotada pela Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, da UNESCO, de 2003, tendo por base a noção de que o património é aquilo que é comummente aceite por uma comunidade como sendo representativo da sua cultura, e que, portanto, representa a sua identidade cultural, define, no seu art.º 2º, alínea 1, património cultural imaterial como as práticas, representações, expressões, conhecimentos e competências – bem como os instrumentos, objetos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados – que as comunidades, grupos e, eventualmente, indivíduos reconhecem como fazendo parte do seu património cultural. Para a UNESCO, este património cultural imaterial “é transmitido de geração em geração”, e “constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função do seu meio envolvente, da sua interação com a natureza e da sua história”. Conferindo-lhes “um sentido de identidade e de continuidade”, ele contribui para “promover o respeito pela diversidade cultural e a criatividade humana”. Um olhar mais atento sobre esta definição é suficiente para desmistificar duas ideias incorretas que parecem subsistir sobre o património imaterial. Em primeiro lugar, objetos, instrumentos, artefactos e, mesmo, espaços, vulgarmente entendidos como património material, podem também ser considerados património imaterial, quando associados à sua dimensão imaterial de património cultural (práticas, representações, expressões, saberes e competências). Em segundo lugar, o património imaterial é uma parte do património cultural, que é transmitido e recriado ao longo do tempo, sem que haja, no entanto, uma rutura total com o passado, pelo que a identidade das comunidades é composta, não apenas da sua cultura viva e presente, mas também por toda uma herança cultural que elas receberam. Logo, vestígios arqueológicos materiais, musealizados ou expostos num museu, por exemplo, podem também ser património imaterial, ainda que se tratem de objetos, instrumentos, artefactos ou espaços físicos, e sejam testemunhos do passado histórico-cultural de determinada comunidade. No mesmo artigo, a alínea 2 acrescenta que o património cultural imaterial, tal como definido na alínea que a precede, manifesta-se em cinco grandes domínios: 20 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga tradições e expressões orais, incluindo a língua como vetor do património cultural imaterial; artes do espetáculo; práticas sociais, rituais e atos festivos; conhecimentos e usos relacionados com a natureza e o universo; e técnicas artesanais tradicionais. Algumas individualidades ligadas à atividade museológica, como Giovanni Pinna (2003) e Hildegard Vierreg (2004), propuseram criar divisões ou dimensões para o património imaterial no âmbito da museologia, com base na definição e nos domínios apresentados pela UNESCO na Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, mas, dada a subsistência de dúvidas acerca desses mesmos domínios, na interpretação do conceito de património imaterial, a UNESCO lançou, em 2009, um novo documento – Intangible Cultural Heritage Domains, que veio clarificar a composição dos diferentes domínios do património cultural imaterial, a ter em conta. Este quadro composto por cinco domínios pretende ser inclusivo, e nunca exclusivo, permitindo que os estados parte usem um sistema diferente, com divisões diferentes, que acrescentem outros domínios ou novas subcategorias aos domínios existentes, ou designações alternativas para os domínios, por exemplo. Isso pode implicar a incorporação de “subdomínios” já em uso em países onde o património cultural imaterial é reconhecido, tais como “jogos tradicionais”, “tradições culinárias”, “peregrinações” ou ainda “lugares de memória” (UNESCO, 2009). Neste documento, a UNESCO assume que os exemplos de património cultural imaterial não se limitam a uma única manifestação, já que muitos deles abarcam elementos de vários domínios, tal como acontece com os festivais. Os festivais são expressões complexas do património cultural imaterial, que podem incluir canto, dança, teatro, festa, tradição oral, histórias, mostra de artesanato, desportos e outros entretenimentos. Os limites entre os domínios são, por isso, extremamente ténues e muitas vezes variam de comunidade para comunidade. A UNESCO (2009) reconhece que é difícil, senão impossível, impor categorias rígidas externamente. Ainda assim, considera possível e desejável ver cada um destes cinco domínios de referência descritos de forma mais clara e objetiva, para evitar dispersões interpretativas desnecessárias. 1. Tradições e expressões orais Este domínio engloba uma enorme variedade de formas faladas, incluindo provérbios, adivinhas, contos, rimas infantis, lendas, mitos, canções e poemas épicos, 21 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga orações, cantos, músicas, dramatizações, e muito mais. Estas tradições e expressões orais são usadas para transmitir conhecimentos, valores culturais e sociais e memória coletiva. Eles desempenham um papel crucial em manter as culturas vivas. Alguns tipos de expressão oral são comuns e podem ser usados por comunidades inteiras, enquanto outros estão limitados a determinados grupos sociais, só aos homens ou às mulheres, ou apenas aos idosos. 2. Artes do espetáculo As artes do espetáculo variam entre a música vocal e instrumental, a dança e o teatro, e a pantomina, versos cantados, entre outros. Incluem numerosas expressões culturais que refletem a criatividade humana, e que estão também presentes, em certa medida, em muitos outros domínios do património cultural imaterial. A definição de património cultural imaterial que consta na Convenção de 2003, da UNESCO, inclui todos os instrumentos, objetos, artefactos e espaços que estejam associados às expressões e práticas culturais. Assim, o domínio das artes do espetáculo engloba instrumentos musicais, máscaras, trajes, e outros adornos corporais, utilizados na dança, assim como o cenário e os adereços. Quando os espaços específicos onde são apresentados os espetáculos estão intimamente ligados a estes, eles são considerados espaços culturais, pela Convenção. 3. Práticas sociais, rituais e atos festivos Práticas sociais, rituais e atos festivos são atividades que estruturam as vidas das comunidades e de grupos, que são partilhadas e relevantes para muitos dos seus membros. Elas são significantes porque reafirmam a identidade daqueles que as praticam enquanto grupo ou sociedade, sejam elas praticadas em público ou em privado, estando estreitamente ligadas a acontecimentos importantes. As práticas sociais, rituais ou festivas podem, por exemplo, ajudar a assinalar a mudança das estações, datas/ocasiões importantes no calendário agrícola, ou ainda diferentes fases da vida das pessoas. Elas estão profundamente relacionadas com a visão que uma comunidade possui acerca do mundo, assim como a perceção que ela tem acerca da sua própria história e memória. 22 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Estas atividades podem variar de pequenas reuniões até celebrações e comemorações sociais em grande escala. Todos estes subdomínios são vastos, mas também existe bastante sobreposição entre eles. Frequentemente, os rituais e os eventos festivos têm lugar em momentos e locais especiais, e relembram a comunidade acerca de aspetos relacionados com a sua história e a sua visão sobre o mundo. Em determinados casos, o acesso aos rituais pode ser restringido a certos membros da comunidade, como, por exemplo, em rituais de iniciação e em cerimónias de enterramento. Outros eventos festivos são, contudo, uma parte essencial da vida pública e estão abertos a todos os membros da sociedade. Alguns eventos, sobretudo os anuais, são, inclusivamente, partilhados por todo o mundo; é o caso das celebrações que marcam o começo de um novo ano, o começo da Primavera, e o final das colheitas. As práticas sociais estruturam o quotidiano e são conhecidas por todos os membros da comunidade, mesmo que nem todos participem nelas. A Convenção de 2003 da UNESCO dá prioridade às práticas sociais que são especialmente relevantes e emblemáticas para uma comunidade, e que a ajudam a fortalecer o sentimento de identidade e de continuidade com o passado. As práticas sociais, os rituais e os atos festivos englobam uma grande variedade de formas: ritos de adoração; ritos de passagem; rituais de nascimento, de casamento e fúnebres; juramentos de fidelidade; sistemas jurídicos tradicionais; jogos e desportos tradicionais; tradições culinárias; cerimónias sazonais; práticas específicas do homem ou da mulher, entre outras… Mas também várias expressões e elementos físicos como palavras e gestos específicos, declamações, canções ou danças, vestuário caraterístico, procissões, sacrifício de animais, ou comida especial. A UNESCO considera que para assegurar a continuidade de práticas sociais, rituais ou atos festivos é muitas vezes necessário mobilizar um grande número de pessoas, assim como instituições e mecanismos sociais, políticos e legais de uma sociedade, pelo que pode tratar-se de uma tarefa bastante complexa, especialmente se pretendermos abrir ao público o acesso a práticas habitualmente pertencentes a um grupo restrito, assim como o acesso a locais sagrados, objetos cruciais, ou recursos naturais necessários ao desempenho de práticas sociais, rituais ou atos festivos. 23 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga 4. Conhecimentos e usos relacionados com a natureza e o universo Este domínio do património cultural imaterial engloba conhecimento, saberes, habilidades, práticas e reproduções desenvolvidos pelas comunidades através da sua interação com o ambiente natural. Essas formas de pensar o universo são expressas através da linguagem, das tradições orais, do sentimento de pertença a um lugar, de memórias, de espiritualidade e visão do mundo. Elas exercem uma forte influência sobre valores e crenças, e estão na base de muitas práticas e tradições culturais, e são, por seu turno, determinadas pelo ambiente natural e pelo mundo mais amplo da comunidade. Este domínio inclui diversas áreas, tais como a sabedoria ecológica tradicional, o conhecimento indígena, o conhecimento sobre a fauna e flora locais, os sistemas tradicionais de cura, rituais, crenças, ritos de iniciação, cosmologias, xamanismo, ritos de posse, organizações sociais, festas, línguas e artes visuais. 5. Técnicas artesanais tradicionais As técnicas artesanais tradicionais são, provavelmente, a manifestação mais material do património cultural imaterial. No entanto, ao considerá-las na Convenção de 2003, a UNESCO está fundamentalmente preocupada com as habilidades e os conhecimentos envolvidos no trabalho artesanal, e não com os objetos produzidos. Assim, em vez da preservação dos objetos de artesanato, no entender da UNESCO, os esforços devem concentrar-se em encorajar os artesãos a dar continuidade à produção artesanal, e a transmitir os seus conhecimentos e habilidades a outros, especialmente dentro das suas próprias comunidades. Também neste domínio, encontramos várias formas de expressão: utensílios; roupas e jóias; figurinos e adereços para festivais e artes cénicas; recipientes e objetos usados para armazenagem, transporte e proteção; artes decorativas e objetos rituais; instrumentos musicais e utensílios domésticos, brinquedos, tanto para divertimento como para fins educativos. Muitos destes objetos, tais como os criados para ritos festivos, são apenas utilizados por um curto espaço de tempo, enquanto outros podem tornar-se relíquias de família, que são passadas de geração em geração. As habilidades envolvidas na produção artesanal são tão variadas como os objetos criados, podendo tratar-se de um trabalho 24 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga delicado e minucioso (como a produção de votivos de papel), ou de tarefas mais duras e grosseiras (como a criação de um cesto resistente ou um cobertor). No domínio do património, o conceito de cultura que a UNESCO preconiza assemelha-se à noção dada pela Antropologia. Trata-se da cultura enquanto expressão de crenças, modos de vida, modos de pensar, de agir, de ver e de interagir com o mundo, pertencentes a uma comunidade mais ou menos alargada (de grupo restrito, local, regional ou nacional), e que é, portanto, um resultado da participação e da criação coletivas. É um produto da interação do ser humano com o meio em que vive, numa atitude que reflete a sua capacidade criativa e o desenvolvimento das suas habilidades, com o objetivo de dar resposta a necessidades da vida quotidiana e da vida em sociedade. Por outro lado, a UNESCO procura valorizar as diferentes culturas, as suas singularidades, numa tentativa de reforçar o respeito pelas diferenças culturais e pelas minorias étnicas e culturais, como forma de promover o entendimento e a paz no mundo. Este respeito pelo particularismo de cada cultura, que é também partilhado pela Antropologia, trata-se, no fundo, de uma perspetiva política, de fomento de boas relações internacionais, que o Turismo, enquanto experiência que proporciona a abertura, a interação e a partilha de património cultural, ajuda a reforçar. O termo “cultural”, originalmente acrescentado à expressão “património imaterial”, desde que foi criada a Convenção para a sua salvaguarda, passou a ser considerado, de certa forma, redundante ou mesmo reducionista, como demonstra a explicação dada pelo ICOM para a sua omissão no tema atribuído à Conferência Geral do ICOM, em 2004 – “Museus e Património Imaterial”. O ICOM justificou essa opção com o facto de o conceito de Património Imaterial dizer igualmente respeito a recursos naturais e culturais, que se complementam na investigação sobre o património (Galla, 2003), indo, de certa forma, de encontro à ideia, defendida no âmbito da Antropologia, de que a cultura também engloba elementos ou recursos naturais (Barañano, 2007). O conceito de património imaterial, ainda que já definido, continua a levantar muitas questões sobre a sua preservação e atuação sobre o mesmo. Ele impôs, de certa forma, um novo olhar sobre o património cultural, encorajando a valorização de aspetos 25 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga que anteriormente não eram tidos em conta na análise do património, sobretudo os de índole cultural e social. No entanto, as manifestações culturais (i) materiais passaram a ser encaradas como “tesourinhos” regionais ou nacionais, sem uma reflexão prévia sobre o seu real significado. O termo “imaterial” continua a gerar confusão nas mentes que procuram, a todo o custo, apreender algo que, aparentemente, não é materializável, quando, na verdade, todas as manifestações culturais são coisas concretas, materializamse de várias formas detetáveis através dos sentidos, e são facilmente testemunhadas por vestígios materiais. A própria definição fornecida pela UNESCO esclarece que os diferentes domínios do património imaterial são também compostos por elementos materiais, que são utilizados para criar e veicular as diversas expressões de cultura, considerando “as práticas, representações, expressões, conhecimentos e competências”, bem como “os instrumentos, objetos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados”. Acontece que os saberes, conhecimentos e competências envolvidos nas práticas, representações e expressões possuem uma natureza mais intelectual e mental, e, portanto, são mais voláteis e difíceis de captar, mas também de interpretar. Sem o conhecimento dos processos sociais e culturais que justificam a sua transformação em património, as manifestações culturais podem ser imitadas, mas carecem de significado. Por outro lado, a precipitação em comercializar a cultura é feita sem reflexão prévia sobre o seu real significado, e muitas vezes este é fantasiado para apurar a curiosidade sobre possíveis atrações culturais, sobretudo com fins turísticos. Na verdade, tal como Leal (2009) afirma, existe a necessidade de tornar concreto aquilo que está ainda difuso no que concerne ao património imaterial, cujos dilemas são, afinal, resultado de questões de política cultural. A Antropologia coloca-se face ao estudo, abordagem e valorização do património imaterial como o campo no qual deve ser feita essa avaliação sobre as manifestações e vestígios a patrimonializar e divulgar, fundamentando as suas conclusões em reflexões críticas e conhecimento suficientemente abrangente. I.III Cronologia do Património Imaterial: uma perspetiva nacional e internacional Até à verdadeira consagração do conceito de património imaterial, num passo de gigante em direção à sua mundialização, em 2003, com a adoção da Convenção para a 26 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, pela UNESCO, em Paris, várias pequenas iniciativas foram tomadas, tanto a nível internacional, como nacional, incluindo Portugal, começando em 1972, com a aprovação e adoção da Convenção para a Salvaguarda e Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural, da UNESCO, na qual vários Estados Membros sublinharam a importância dedicada à salvaguarda do que mais tarde vem a ser designado de Património Imaterial, e culminando na entrada em vigor da Convenção, em Portugal, a 21 de Agosto de 2008. Ainda que pequenos passos tenham sido dados em Portugal, com vista à salvaguarda do património imaterial, ao longo de vários anos, também na sequência de medidas tomadas a nível internacional, foi necessário chegar até à adoção da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, para que o conceito de património imaterial começasse a clarificar-se e as medidas tomadas se tornassem mais adequadas e eficazes. A participação e contributo dos diferentes estados membros da UNESCO foram essenciais, tanto para a criação, como para a implementação da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, permitindo o seu reconhecimento a nível mundial. Foi, com efeito, um dos estados membros da UNESCO, a Bolívia, que, um ano após a adoção da Convenção para a Salvaguarda e Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural, propôs acrescentar a esta Convenção um Protocolo sobre o direito de propriedade intelectual, a fim de proteger a Cultura Popular, alertando para a necessidade de a ter em conta, tal como tudo o que ela envolve, enquanto criação intelectual de uma determinada comunidade, para a preservação das formas de expressão popular, ou seja, de um dos domínios do património imaterial. Em Portugal, em 1980, é dado um primeiro passo para a salvaguarda do Património Imaterial, através da criação do Instituto Português do Património Cultural (Decreto Regulamentar nº 34/80, de 2 de Agosto), com competências na área do Património Cultural Imaterial, nomeadamente através dos seus Departamentos de Etnologia (art.º 34º), de Musicologia (art.º 37º) e do Inventário Geral do Património Cultural (al. d) do nº 3 do art.º 35º). Nesta altura, a visão do património imaterial ainda 27 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga está estreitamente ligada à Etnografia e aos estudos etnográficos, sendo pouco abrangente. Em 1982, a UNESCO organiza um Comité de peritos sobre a salvaguarda do Folclore, do qual resulta a criação da Secção para o Património Não-Material da UNESCO. Este foi um importante marco na evolução do conceito, e na sua salvaguarda, não tendo, contudo, ainda sido usado o termo “imaterial”. A conferência mundial sobre as políticas culturais, Mondiacult, no México, reconheceu, neste ano, a importância do “património cultural imaterial”, incluindo-o na sua nova definição de “cultura” e de “património cultural”. O conceito de património imaterial começa, assim, a ficar mais delineado e a ganhar uma outra dimensão, ligada à cultura. Em 1985 é publicada, em Portugal, a Lei de Bases do Património Cultural (Lei 13/1985, de 6 de Julho), cujo art.º 43º faz alusão às formas e ao regime de proteção dos “bens imateriais”. Esta lei não teve, no entanto, qualquer aplicabilidade prática neste domínio por falta de desenvolvimento. A Conferência Geral da UNESCO adota, a 15 de Novembro de 1989, a Recomendação para a Salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular, reconhecendo a importância da salvaguarda deste tipo de património cultural, pela e para a comunidade cuja identidade exprime. Neste documento, a cultura tradicional e popular abarca importantes domínios, mais tarde definidos como património cultural imaterial, na Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, em 2003 – a língua, a literatura, a música, a dança, os jogos, a mitologia, os rituais, os costumes, o artesanato, a arquitetura e outras artes, que são transmitidos oralmente, por imitação, e outras formas. Em 1993, a UNESCO dá um importante passo para a salvaguarda de uma das vertentes do património imaterial – as línguas, através do lançamento do projeto Livro Vermelho das Línguas em Risco de Desaparecimento, com o objetivo de sistematizar informação e promover a investigação sobre este tema. Foi deste projeto que resultou o Atlas of the World’s Languages in Danger of Disappearing (Atlas das Línguas em Risco de Desaparecimento), que promove a salvaguarda de determinadas línguas, e que mais 28 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga tarde, em 1995, originou o Data Bank Centre for Endangered Languages (o Banco Central de Dados das Línguas Ameaçadas), da Universidade de Tóquio. No mesmo ano, a UNESCO adota a Declaração de Oaxaca (preparada pelo Comité do México do International Council of Monuments and Sites – Conselho Internacional de Monumentos e Sítios, ICOMOS), na qual é realçada a importância do papel do património cultural na vida quotidiana, e a sua salvaguarda através da ação das respetivas comunidades, tanto na criação de significado sobre os lugares, como no desenvolvimento de práticas que envolvam ativamente as comunidades na salvaguarda dos significados e relações sociais associadas aos lugares. O fomento das práticas tradicionais das comunidades que lhes deram origem é visto como a forma ideal para a promoção da salvaguarda da maior parte dos bens patrimoniais. Ainda no seguimento desta ideia de que cabe às comunidades salvaguardar e dar continuidade ao seu património imaterial, a UNESCO lança, um ano mais tarde, o programa Tesouros Humanos Vivos (na sequência de proposta feita pela República da Coreia). “Tesouros Humanos Vivos” foi a denominação atribuída às pessoas identificadas como possuidoras de conhecimentos e habilidades no domínio do património cultural imaterial, e que podem, por isso, continuar a desenvolver, desempenhar, recriar e transmitir às gerações mais novas esses mesmos conhecimentos e habilidades, para que perdurem. O Relatório da Comissão Mundial da Cultura e Desenvolvimento (da UNESCO) designado por Our creative diversity (“A Nossa Diversidade Criadora”), elaborado em Paris, em 1996, e publicado em 1997, veio lançar o debate sobre o caráter inadequado da Convenção de 1972 no que concerne ao reconhecimento e à proteção do artesanato ou de formas de expressão como a dança e as tradições orais, propondo o desenvolvimento de estratégias adaptadas à diversidade e riqueza do património considerado à escala global. No mesmo ano, a UNESCO lança o Programa Memória do Mundo, com o objetivo de identificar e preservar documentos e arquivos de relevante significado histórico, para assegurar um amplo acesso e conhecimento dos mesmos. Estes documentos incluem manuscritos, tradições orais, registos audiovisuais e eletrónicos, registos sonoros e espólios bibliográficos e arquivísticos de “valor universal”. 29 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Em 1997, a UNESCO lança o programa de Proclamação das Obras-Primas do Património Oral e Imaterial da Humanidade, alargando ao património imaterial a classificação de “Obra-Prima da Humanidade”. Ainda em 1997, a UNESCO e a Comissão Nacional de Marrocos organizam, em Marraquexe, uma consulta internacional de peritos sobre a preservação dos espaços culturais populares. Dois anos mais tarde, o Departamento do Património Cultural da UNESCO e o Centro de Folclore e Património Cultural da Smithsonian Institution, organizam, em Washington, uma conferência com o objetivo de avaliar o estado da situação relativamente à proteção do património cultural imaterial no final do século vinte, e rever a Recomendação para a Salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular, dez anos após a sua adoção, em 1989. Esta conferência foi o culminar de oito seminários regionais levados a cabo pela UNESCO, com a finalidade de fazer uma avaliação sistemática da implementação da Recomendação e da situação atual do sistema de salvaguarda e revitalização do património cultural imaterial. Dela, resultaram várias críticas e propostas de melhoria por parte de vários especialistas. Em 2001, são proclamadas as primeiras “Obras-Primas do Património Oral e Imaterial da Humanidade”, pelo Diretor-Geral da UNESCO, para sensibilizar sobre a importância do património cultural imaterial, para encorajar as comunidades locais a proteger e a manter essas formas de expressão cultural. Várias manifestações de património imaterial têm sido, desde então, premiadas com o título de “Obras-Primas”, com o intuito de reconhecer o valor da componente não-material da cultura, e de envolver os estados na promoção e salvaguarda dessas “Obras-Primas”. Em Portugal, no mesmo ano, é publicada a Lei de Bases da Política e do Regime de Proteção e Valorização do Património Cultural (Lei 107/2001, de 8 de Setembro), cujos artigos 91º e 92º preveem os “regimes especiais de proteção e de valorização” dos “bens imateriais”. Esta lei vem acrescentar as “minorias étnicas” ao Património Cultural Imaterial, ainda não previstas na anterior lei (Lei 13/85), que apenas considerava as “tradições populares”. No âmbito da 7ª Assembleia Regional do ICOM da Ásia/Pacifico, realizada em Xangai (China), em 2002, que foi dedicada ao património cultural material e ao 30 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga património cultural imaterial, é elaborada a Carta de Xangai. Neste documento, é realçado o papel dos museus no reconhecimento e promoção do património imaterial, através das práticas museológicas e patrimoniais na afirmação da criatividade, adaptabilidade e distinção dos povos, lugares e comunidades. A Carta recomenda, assim, que os museus assumam o papel de facilitadores de parcerias construtivas para a salvaguarda deste património da humanidade. Em 2003, a Conferência Geral da UNESCO, reunida, em Paris, na sua 32ª sessão, dá, finalmente, o grande passo aglutinador de várias medidas sobre a definição e proteção do património imaterial, com a adoção da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, que virá a ser o documento base que orienta as ações sobre o património imaterial, nos estados que a ratificam. Esta Convenção teve como referência os instrumentos internacionais existentes em matéria de direitos humanos, em particular a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948, o Pacto Internacional sobre Direitos Económicos, Sociais e Culturais, de 1966 e o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, de 1966, assim como os textos que compõem documentos anteriormente criados, nomeadamente a Recomendação para a Salvaguarda da Cultura Tradicional e do Folclore, de 1989, a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, de 2001 (ambos da UNESCO) e a Declaração de Istambul de 2002 adotada pela Terceira Mesa Redonda dos Ministros da Cultura. Dos motivos que são apresentados no próprio Documento, para a sua origem, realço “a vontade universal e a preocupação comum de salvaguardar o património cultural imaterial da humanidade”, “o grande alcance da atividade desenvolvida pela UNESCO na elaboração de instrumentos normativos para a proteção do património cultural”, em particular a Convenção para a Proteção do Património Mundial, Cultural e Natural de 1972, o facto de ainda não existir “nenhum instrumento multilateral de caráter vinculativo visando a salvaguarda do património cultural imaterial”, o facto de “os acordos, recomendações e resoluções internacionais existentes em matéria de património cultural e natural” necessitarem de ser “eficazmente enriquecidos e complementados por novas disposições relativas ao património cultural imaterial”, “a necessidade de reforçar a consciencialização, em particular das gerações jovens, para a 31 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga importância do património cultural imaterial e da sua salvaguarda”, a necessidade de a comunidade internacional contribuir, juntamente com os Estados Partes na Convenção, “para a salvaguarda deste património num espírito de cooperação e entreajuda”, e “o papel inestimável do património cultural imaterial como fator de aproximação, intercâmbio e entendimento entre os seres humanos”. Neste ano, dado que até ao ano de 2005 as proclamações foram feitas bienalmente, realiza-se também a Segunda Proclamação das “Obras-Primas do Património Oral e Imaterial da Humanidade”. O tema do património cultural imaterial é, mais uma vez, alvo de debate, em 2003, no encontro anual do ICOMOS, realizado no Zimbabué. Em 2004, o Instituto Português de Museus promove a celebração do Dia Internacional dos Museus, subordinado ao tema “Museums and Intangible Heritage” (Museus e Património Imaterial), proposto pelo ICOM, realçando o papel dos museus na promoção do património imaterial. “Museums and Intangible Heritage” foi também o tema da Conferência Geral do ICOM em Seul, no mesmo ano. Um dos resultados desta conferência foi a criação do The International Journal of Intangible Heritage, uma publicação académica e profissional (inglesa) dedicada à promoção da compreensão de todos os aspetos relativos ao património imaterial a nível mundial, assim como à divulgação de investigação efetuada e de exemplos de boas práticas profissionais. No mesmo ano, a Declaração de Yamato para a Abordagem Integrada da Salvaguarda do Património Material e Imaterial, foi aprovada por unanimidade pelos participantes da Conferência Internacional sobre "A Salvaguarda do Património Cultural Material e Imaterial: Rumo a uma Abordagem Integrada", que foi realizada em Nara, no Japão. A Declaração de Yamato é considerada relevante para o trabalho do Comité do Património Mundial, uma vez que tem em consideração a cooperação e coordenação entre as Convenções e Protocolos da UNESCO relativos ao património. De entre as questões discutidas, pode destacar-se a necessidade de harmonizar definições e terminologias usadas por especialistas, no domínio do património cultural material e imaterial; a necessidade de fazer uma abordagem consistente e integrada para a salvaguarda do património material e imaterial, tendo em conta a interdependência e as 32 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga diferenças existentes entre eles; e, por outro lado, a irrelevância da associação do termo “autenticidade” ao património cultural imaterial relativamente à sua identificação e salvaguarda, dado que este património é constantemente recriado. Neste aspeto, a Declaração de Yamato assume uma posição contrária à que consta no Documento de Nara sobre Autenticidade (ICOMOS, 1994). Em 10 de Outubro de 2005, é assinada em Paris a Convenção sobre a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões Culturais. Com este documento, a UNESCO procura reforçar a ideia anteriormente manifestada na Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, de 2001, de que a diversidade cultural constitui uma herança comum da humanidade e que a sua salvaguarda deve constituir um imperativo ético, inseparável do respeito pela dignidade humana. Esta Convenção pretende, ainda, apoiar o desenvolvimento de políticas de proteção e promoção de atividades culturais, bem como manifestações artísticas locais. A Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, adotada, em 2003, pela Conferência Geral da UNESCO, entra em vigor a 20 de Abril de 2006. Neste ano, em Portugal, é publicada a Lei Orgânica do Ministério da Cultura (DL nº 215/2006, de 27 de Outubro), que preconiza, no seu Preâmbulo, a “definição e execução de uma política integrada do património material e imaterial”, consignando ao Instituto dos Museus e da Conservação (IMC) as atribuições em matéria de inventário, valorização e proteção do património cultural imaterial. Em 2007, é criado o Instituto dos Museus e da Conservação, I.P. (DL nº 97/2007, de 29 de Março, e respetiva Portaria nº 377/2007, de 30 de Março) no âmbito do Ministério da Cultura, ao qual se atribuem competências específicas na área do Património Cultural Imaterial, que passa a ter um departamento específico. A criação do Instituto dos Museus e da Conservação, I. P. (IMC, I. P.) resulta da fusão do Instituto Português de Museus (IPM), criado pelo Decreto-Lei nº 278/91, de 9 de Agosto, com o Instituto Português de Conservação e Restauro, criado pelo Decreto-Lei nº 342/99, de 25 de Agosto. No mesmo ano, o Conselho de Ministros aprova a ratificação de Portugal da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (23 de Agosto). 33 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Ainda em Portugal, o IMC inicia a colaboração com a Comissão para o Desenvolvimento da Lei de Bases do Património Cultural (do Ministério da Cultura), no âmbito do Património Cultural Imaterial. Um ano mais tarde, a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial é aprovada por unanimidade pela Assembleia da República, a 24 de Janeiro (Resolução AR nº 12/2008); a 26 de Março procede-se à sua ratificação, por publicação em Diário da República do Decreto do Presidente da República nº 28/2008 (DR nº 60, de 26 de Março). Cerca de quatro meses mais tarde, pelo Aviso nº 137/2008 (publicado em Diário da República nº 144, de 28 de Julho), o Ministério dos Negócios Estrangeiros torna público que a República Portuguesa depositou junto do Diretor-Geral da UNESCO, em 21 de Maio, o seu instrumento de ratificação da Convenção. A Convenção entra em vigor a 21 de Agosto de 2008. Ainda neste ano, e no âmbito das suas atribuições e competências em matéria de salvaguarda e valorização do Património Cultural Imaterial, o Instituto dos Museus e da Conservação realiza um Ciclo de Colóquios subordinado ao tema “Museus e Património Imaterial: agentes, fronteiras, identidades” (de Fevereiro a Novembro), e inicia uma linha editorial - Arquivos do Imaterial, com o objetivo de editar em DVD registos audiovisuais do Património Imaterial. Em 2009, realiza-se a 4ª Sessão do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (em Abu Dabi, nos Emiratos Árabes Unidos - EAU, de 28 de Setembro a 2 de Outubro), dando origem às primeiras inscrições na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, instituída pela Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO. Esta Lista contém exemplos de manifestações culturais tão diversos como a produção de rendas Lefkaritika, em Lefkara (Chipre); o Carnaval de Negros e Brancos, em San Juan de Pasto (Colômbia); as Procissões da Semana Santa em Popayán (Colômbia); o Canto Polifónico de Seto (Estónia); a técnica do Batik (Indonésia); o repertório musical do Radif (Irão); a cerimónia dos Voladores e os lugares de memória e tradições vivas dos Otomí-Chichimecas (México). 34 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Algumas inscrições resultaram de candidaturas multinacionais, como foi o caso do Tango (Argentina e Uruguai) e a cerimónia do Novruz (Azerbaijão, Índia, Irão, Paquistão, Quirguistão, Turquia e Uzbequistão). Com mais de duas manifestações inscritas na Lista por deliberação na 4ª Sessão do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do PCI (Abu Dabi, EAU, 28 de Setembro a 2 de Outubro 2009), contam-se a França (com três), a Croácia (com sete), o Japão (com treze) e a China (com vinte e duas). As novas inscrições acrescem às 90 manifestações transitadas para a Lista no âmbito da entrada em vigor da Convenção (2006), e que foram objeto de proteção pela UNESCO ao abrigo do programa de Proclamação das Obras-Primas do Património Oral e Imaterial da Humanidade (entre 1997 e 2005). Em Portugal, no mesmo ano, é publicado o Decreto-Lei nº 139/2009 (Diário da República, I/S, nº 113, 15 de Junho de 2009) que estabelece o regime jurídico de salvaguarda do património cultural imaterial, em desenvolvimento do disposto na Lei nº 107/2001, de 8 de Setembro, e em harmonia com o direito internacional, nomeadamente com a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (UNESCO, 2003). Em 2010, através do Despacho conjunto dos Ministérios das Finanças e da Administração Pública e da Cultura nº 598/2010, de 4 de Janeiro (publicado em Diário da República, II/S, nº 6, de 11 de Janeiro de 2010), é criado, na dependência do Instituto dos Museus e da conservação, I.P., e em estreita colaboração com a Comissão para o Património Cultural Imaterial, prevista no Decreto-Lei nº 139/2009, de 15 de Junho, um Grupo de Trabalho destinado a realizar o levantamento dos bens culturais imateriais, para que a Comissão possa “cumprir na plenitude e com toda a eficácia as competências que lhe foram atribuídas”. Ainda no mesmo ano, é publicada a Portaria nº 196/2010 (Diário da República, I/S, nº 69, de 9 de Abril de 2010), elaborada no quadro jurídico de salvaguarda do património cultural imaterial estabelecido pelo Decreto-Lei nº 139/2009, de 15 de Junho, e para fins da regulamentação deste. Esta Portaria aprova o formulário para pedido de inventariação de manifestações do Património Cultural Imaterial (PCI) e as respetivas normas de preenchimento da ficha de inventário. Este diploma define as condições inerentes ao processo de identificação, 35 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga estudo e documentação do PCI, tais como o âmbito dos métodos e técnicas de pesquisa a aplicar, ou as qualificações académicas que devem possuir os profissionais responsáveis por esse processo. A Portaria é um instrumento essencial para a operacionalização do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, que se encontra sob a responsabilidade do Instituto dos Museus e da Conservação. No seguimento desta portaria, é publicado, no ano seguinte, o Despacho nº 1018/2011, de 12 de Janeiro (Diário da República, II/S, nº 8, de 12/01/2011, que vem apresentar a designação dos membros que integram a Comissão para o Património Cultural Imaterial, para os efeitos do disposto no Decreto-Lei nº 139/2009, de 15 de Junho. Esta comissão é presidida pelo Diretor do Instituto dos Museus e da Conservação, sendo também integrada pelo Diretor do Departamento do Património Cultural Imaterial do Instituto, entre outras individualidades. Trata-se de um órgão com funções deliberativas, para fins de inscrição de expressões culturais no “Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial”, e competências consultivas no âmbito das componentes específicas da política do PCI, como a emissão de parecer em relação a candidaturas do Estado Português à “Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade” e à “Lista de Património Cultural Imaterial que Necessita de Salvaguarda Urgente”, instituídas pela Convenção de 2003, da UNESCO, sempre que solicitado pelo membro do Governo responsável pela Cultura. Em 2011, o tema escolhido pelo ICOM para a celebração do Dia Internacional dos Museus - Museum and Memory (Museus e Memória) está novamente associado à promoção do património imaterial, realçando a importância das memórias e histórias que os numerosos objetos exibidos pelos museus encerram; esses objetos podem ser a base da memória da comunidade em que estamos inseridos, enquanto expressão do nosso património natural e cultural, daí a relevância de alertar para a necessidade da sua conservação, usando o Dia Internacional dos Museus como uma oportunidade de descobrir e redescobrir a memória individual e coletiva de cada um. O ICOM inclui, ainda, nas suas propostas de trabalho para os museus sobre este tema, a ligação entre memória, comunidade e identidade, e o especial contributo cultural de África para o resto do mundo. 36 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Em conclusão, todo este percurso revela uma preocupação em regulamentar e estandardizar os procedimentos relativos à investigação, recolha, inventário, tratamento, proteção e divulgação do património imaterial, à escala mundial, e em cada um dos estados, de acordo com as suas especificidades e organização interna, no respeito pela diversidade cultural. I.IV Património Imaterial e Turismo Cultural: uma relação inevitável Não sendo possível nem sensato patrimonializar ou conservar tudo o que pertence a uma cultura, o património cultural deve representar, legalmente, e de forma simbólica, uma determinada cultura, através da transformação dos elementos culturais. O património cultural será, assim, o resultado de um processo de seleção e de interpretação dos significados sociais e dos valores, e a reconstrução ou recuperação da memória e da identidade, tendo em conta o caráter evolutivo e mutável da cultura e a transmissão de legados para o futuro (Pérez, 2009). O valor patrimonial não é inerente, mas atribuído, e o recurso à patrimonialização da cultura está intimamente ligado a um esforço de conservação, mas também de valorização, pela sua simbologia e importância atribuída no reforço do sentimento de identidade e da memória coletiva. Atualmente, o processo de patrimonialização implica a “atribuição de novos valores, sentidos, usos e significados”, tanto a objetos, como às formas, aos modos de vida, aos saberes e aos conhecimentos sociais, pelo que o património cultural deve ser entendido no seu contexto sociocultural e económico (Pérez, 1999). No entanto, não será apenas a comunidade (enquanto grupo de pessoas a quem pertence uma determinada cultura) a determinar a patrimonialização de bens, materiais ou imateriais. Tal como defende Pérez (2009), neste processo de seleção que a patrimonialização requer é crucial o papel dos especialistas – arqueólogos, antropólogos, arquitetos, historiadores da arte, biólogos e outros, para certificar o valor dos elementos culturais dignos de serem patrimonializados e reconhecer como bem de tutela pública o que antes não estava reconhecido como tal. Este reconhecimento público e legal torna-os mais atraentes e alvo de aproveitamento turístico. Enquanto instrumento de organização social e simbólica dos recursos naturais herdados, do território humano e da forma como coexistimos com as demais culturas do 37 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga planeta, a patrimonialização da cultura, legitimada pelo poder estadual, pode servir o interesse do Estado em demonstrar a existência de coesão social através da homogeneidade cultural (Barañano, 2007: 294). Substituindo “grandes ideologias”, o património poderá, tal como este autor sugere, impor uma certa ordem no social, sendo utilizado como fator de educação, tomada de consciência cívica, limpeza de imagens não desejadas, e uma integração social que impõe o coletivo sobre os indivíduos. Isso poderá, assim, justificar a atribuição de interesse nacional a um determinado bem, no domínio do património. Ao interesse nacional está associado um valor político e económico que, através das representações patrimoniais, reforça a materialização da cultura, transformando-a em mercadoria (Barañano, 2007: 295), com fins comerciais e industriais, onde se inclui o Turismo. Assim, para este autor, viajar será uma forma de possuir simbólica ou realmente algo que pertence a outros, não constituindo uma aventura, mas sim uma experiência política que lhes é permitido viver por quem detém o poder sobre esse património. A valorização do património com estes fins nem sempre é feita com base nas qualidades intrínsecas dos bens, mas sim em “atribuições inventadas” e mascaradas de autenticidade, compostas por atributos simbólicos que são impostos no mercado, para tornar o bem mais desejável e atrativo à experiência e aquisição. As representações patrimoniais criadas pelo estado no domínio da cultura não só correrão o risco de ser artificiais como poderão deturpar o verdadeiro significado de manifestações culturais, e o seu conhecimento futuro. O aproveitamento turístico do património cultural imaterial, tal como acontece com a sua proteção e conservação, não está isento de polémica. Ter em mente as reais caraterísticas deste património, respeitando o seu significado e papel na vida humana, pode evitar, no entanto, erros de abordagem no âmbito da sua transmissão e exploração com fins turísticos. As principais questões prendem-se com a manutenção da autenticidade e a encenação da cultura, através de representações organizadas expressamente para turistas. Muitos autores têm debatido sobre a pertinência destas práticas. Se considerarmos como autêntico “aquilo que é original, uma mostra dos primórdios da cultura, algo como uma essência verdadeira, uma prática cultural que não 38 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga pode estar contaminada por relações comerciais” (Meethan, citado por Barreto, 2007), ou como a “cultura tradicional e suas origens” que está “associada à qualidade de genuíno e único” (Sharpley, Reisinger e Steiner, citados por Barreto, 2007), então a autenticidade será sinónimo de congelamento, mantendo os mesmo rituais, costumes, ferramentas e linguagem dos ancestrais, sem qualquer alteração ou evolução. Na busca da autenticidade, acaba-se por cair no que Lanfant (citado por Barreto, 2007) qualificou de contradição, pois o Estado, no seu discurso, utiliza o Turismo para levar “progresso” socioeconómico a áreas menos favorecidas, mas ao mesmo tempo pretende que essa sociedade mantenha traços tradicionais para consumo dos turistas. Outros autores, como MacCannel (1992), alertam para o perigo que a comercialização do encontro turístico pode atingir: um ponto de commodification, no qual o legado cultural se transforma em produto de consumo, em mercadoria (commodity), não apenas em relação aos produtos artesanais ou à imagem fotográfica, por exemplo, mas também em relação aos indivíduos. Esta relação entre turistas e indígenas, que levanta preocupações acerca das influências culturais mútuas e da encenação da cultura, gerou o conceito de borderzone, o espaço ou o acontecimento em que se dá o encontro entre os visitantes estrangeiros e a população local. Este conceito foi definido por vários autores. Edward Bruner (2004) distingue, neste âmbito, a existência de dois grupos, aos quais correspondem duas perspetivas diferentes: por um lado, o grupo dos turistas, que viajam pelos locais e normalmente não voltam a eles, procurando “experiências elevadas”; por outro lado, encontram-se as populações locais, que permanecem nesses sítios, e presenciam a movimentação de diferentes grupos de turistas que por eles passam, organizando (juntamente com realizadores e produtores) essas experiências elevadas para os turistas, mas vivendo, acima de tudo, a sua vida quotidiana. Já Ness (citado por Bruner, 2004) afirma que a borderzone se localiza “num sítio concreto no mundo, mas o que nela é criado é uma cultura teatral construída não numa cultura da vida real, mas num imaginário cultural, uma fantasia”, assim tocando também a questão da autenticidade. MacCannel (1992), por seu turno, fala de um conceito de “empty meeting ground” (um espaço vazio de encontro), para se referir à borderzone, descrevendo-a como “um local de novas subjetividades e consciências, onde emergem novas culturas e relações”. 39 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga MacCannel estará, desta forma, a afirmar que nesta interação cultural entre turistas e indígenas está, sobretudo, presente uma outra cultura, que é criada nessa relação entre os dois diferentes grupos. Ainda acerca desta relação e interação, Edward Bruner (2004), considerando a existência de encenação cultural, considera que, na borderzone, ambos os grupos sabem claramente qual o seu papel no “drama turístico”, já que, no Turismo, “os nativos agem de forma primitiva”, e os turistas “suspendem a descrença”, os produtores “colocam em cena um espetáculo superior e o governo fornece as infraestruturas adequadas”, para que todas as partes envolvidas saiam a ganhar. Bruner vê o Turismo como “um teatro improvisado, como um palco situado na borderzone, onde tanto os turistas como os locais são atores”. Para ele, é na borderzone que se dão mais frequentemente os encontros entre os nativos e os grupos organizados de turistas, uma vez que os circuitos são previamente preparados, permitindo uma maior encenação cultural, raramente entrando no espaço uns dos outros. E se, por um lado, os povos indígenas podem sofrer influências culturais através da presença e do contacto com turistas, por outro, também os turistas se deixam envolver pela sua cultura, numa troca provavelmente involuntária. Os documentários de cariz antropológico de Dennis O’Rourke, Cannibal Tours (de 1998) e Leng Shang, Mon Village Taoping (de 1998) são dois exemplos que refletem este tipo de encenação cultural com fins turísticos: um consumo por vezes exagerado da cultura, caindo no extremo da encenação da cultura de que fala MacCannel (citado por Silva, 2003), assim como as influências culturais mútuas geradas na interação entre turistas e indígenas. Neles, sobretudo no primeiro, está também patente um certo choque cultural entre os diferentes grupos. Este choque cultural nem sempre ocorre, no entanto, tal como demonstra o documentário de Nicholas Kurze, Sight Unseen (de 1996). Neste filme, também de cariz antropológico, tanto no quotidiano daqueles que convivem diariamente como vizinhos, provenientes de diferentes locais, como na presença de turistas estrangeiros, Bali aparece como um recetor onde convergem pacificamente diversas influências externas (Documentary Educational Resources, 2012). 40 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Contudo, a mudança e o acolhimento pacífico de interferências culturais nos locais de visita nem sempre é atrativo do ponto de vista do próprio turista. A título de exemplo, neste filme verifica-se que muitos visitantes trazem, em certa medida, consigo, a expectativa de “um Bali autêntico”, quando chegam à Ilha. Esta imagem, trazida principalmente pelas grandes movimentações de turistas do Turismo de massas internacional, consiste num “local caraterizado por uma tradição intemporal, de rituais imutáveis, artesanato, música e dança”, um local de paisagens exóticas, paradisíacas e intactas, onde as pessoas vivem em contacto harmonioso com a natureza e intocadas pela civilização. No Turismo, o que muitas vezes é apresentado como autêntico, nos folhetos de informação e promoção turística, nem sempre corresponde à realidade, daí a necessidade de criar encenações e representações intencionalmente para os turistas. Tendo em consideração que todas as tradições são inventadas em determinado momento, e todas elas mudam com a passagem do tempo, adaptando-se a novas circunstâncias, esta expectativa em relação à autenticidade e à imutabilidade cultural não faz sentido. Tal como Hobsbawm e Ranger (citados por Barreto, 2007: 105) referem, as cerimónias e rituais são frequentemente criados e recriados com uma finalidade específica, sob o conceito de “tradições inventadas” que se referem a “práticas, geralmente governadas por regras tácita ou implicitamente aceites e por um ritual de natureza simbólica que procura inculcar certos valores e normas de comportamento por reiteração, o que automaticamente implica continuidade com o passado”. As tradições inventadas destinam-se também ao consumo turístico, por uma “necessidade de mercado” (Barretto, 2007), onde a cultura autêntica se transforma em matéria-prima, através do recurso a elementos caraterísticos e diferenciais de cada cultura para criar um produto turístico comerciável e competitivo a nível internacional. O legado cultural é, assim, transformado em produto de consumo, que traz lucros enquanto atração turística. No Turismo, “autêntico” equivale, em suma, à cultura tradicional. O que aconteceu nos últimos anos, no campo do Turismo, tal como Barretto (2007: 106) defende, no entanto, é que foram inventadas tradições que não têm referentes no passado, com a única finalidade de servir de atrativo cultural, consistindo, afinal, em atrativos artificiais, uma vez que não se sustentam numa história verídica. Estas 41 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga manifestações são, por isso, desprovidas de significado cultural, se considerarmos o passado como único referente. Estas manifestações desligadas do passado podem conter significado, mas dificilmente serão consideradas “património”, dado serem recentes. No entanto, tal como Edward Bruner (2004) defende, o Turismo, para além das vantagens económicas, também permite que a comunidade se veja envolvida no processo de recuperação da memória coletiva, de reconstrução da História, e da verificação das fontes; permite, ainda, que membros dessa comunidade tomem consciência, pela primeira vez, do papel que o seu local de origem teve em determinado momento da História. Para Edward Bruner (1986) e MacCannel (1992), aquilo que é apresentado no Turismo é uma nova cultura construída especificamente para uma audiência de turistas. Não há uma simulação porque não há um original. As atuações para turistas surgem, com certeza, de dentro da matriz cultural, mas todas as atuações são novas, pois o contexto, a audiência e os tempos mudam continuamente, adquirindo novos significados, que, no entanto, como atrás referido, não constituem imediatamente “património”. Jonh Urry (1990; 1995), por sua vez, afirma que os turistas de hoje sabem que a autenticidade é encenada e não dão importância ao facto, desde que a encenação seja de boa qualidade. Barretto (2007: 100) defende que, na atualidade, existe consenso acerca desta ideia veiculada por Urry, o que tem contribuído para superar essa discussão, “cada vez mais impregnada na subjetividade”. Considerado uma das atividades que mais tem fomentado o contacto intercultural entre pessoas, povos e grupos, o Turismo transforma lugares funcionais em lugares que proporcionam vivências e experiências. O Turismo Cultural fomenta o conhecimento de outras culturas, assim como a vivência de experiências novas, que está associada às emoções e aos sentidos, que o património cultural imaterial oferece, por natureza – para além dos sítios, paisagens e bens patrimoniais, as produções culturais a eles associadas: artes visuais, artes manuais, festivais, festividades, gastronomia, entre outros. O património cultural, sobretudo o imaterial, oferece uma experiência turística muito completa, que integra, entre outras, vivências sensoriais (através de sons, sabores, odores, imagens), sociais (pela comunicação, convivência, partilha e interação), e culturais (na participação em eventos, festivais, atividades). 42 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga As sensações e as emoções contidas nesse produto são determinantes para a motivação da visita dos turistas, estando acima da procura de conhecimento científico ou do artístico (Marques, 2009a; 2009b). Tendo em conta o papel determinante da imagem afetiva e das emoções na escolha dos destinos ou locais turísticos, o Turismo Cultural presta-se como uma das atrações que mais motivam a visita de turistas e a adesão dos mesmos a determinados eventos e atividades relacionadas com o património imaterial. Segundo Marques (2009a), tendo em conta que o lazer e o Turismo são atividades com uma forte componente hedónica, as emoções adquirem um papel preponderante na experiência de consumo, na perceção da qualidade de serviços, na satisfação e nos comportamentos pós-compra, ocupando um lugar de destaque no estudo e avaliação da procura turística, assim como na definição de estratégias de captação de visitantes. Vários estudos demonstraram que os turistas que incluíam, na antecipação das suas férias, elementos sensoriais e atividades que pretendiam realizar, tinham expectativas mais positivas relativamente às férias e ficavam mais satisfeitos com a experiência vivida (Marques, 2009a), uma vez que a resposta hedónica ocorre não apenas durante a experiência turística, mas também durante o processo de decisão, como reação aos estímulos de comunicação e marketing. Numa perspetiva de marketing, tendo em conta o estudo do comportamento fundado na psicologia ambiental e, complementarmente, na psicologia social do consumidor, considera-se que os turistas viajam porque retiram gratificações desse comportamento. Contudo, não é tanto o produto em si que determina a intensidade de resposta emocional, mas a situação em que o consumo ocorre, e o valor que o consumidor atribui a uma experiência de consumo específica, pela antecipação dos resultados afetivos da experiência no destino, incluindo nela elementos sensoriais e atividades que pretendem realizar. Estudos demonstraram que a existência de expectativas mais positivas relativamente aos destinos originava experiências mais satisfatórias (Marques, 2009a). Por outro lado, a associação da antecipação com emoções anteriormente vividas intensifica a motivação para a escolha de um destino, pelo que a sugestão de experiências sensoriais passadas podem ser usadas como fatores de atração futura, em estratégias de marketing turístico. 43 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Aplicando estes conceitos ao património imaterial e ao Turismo Cultural, podemos concluir que este tem a potencialidade de proporcionar uma série de experiências sensoriais que são atrativas para os turistas, oferecendo gratificações e satisfazendo expectativas e motivações de vários tipos: intelectual (pela aquisição de conhecimentos e saberes), sensorial e emocional (pelo contacto e vivência real de experiências sensoriais), e mesmo social (pelo reconhecimento e significado que é atribuído ao património). As associações simbólicas atribuídas ao património tornam a imagem afetiva mais atraente. Tal pode acontecer com manifestações culturais e experiências que encerram promessas emocionais, como a gastronomia, as danças, a música, práticas sociais e atos festivos. De facto, seja pela atração nostálgica que o património cultural imaterial pode exercer, enquanto representação simbólica da cultura, seja pelo apelo das emoções e sensações que a experiência deste tipo de Turismo propicia, o Turismo Cultural ocupa um lugar privilegiado nas escolhas de turistas que visitam Portugal. Os dados provenientes de um estudo de mercado encomendado pelo Turismo de Portugal, IP à GfK Metris, efetuado em 2010, com os objetivos de, entre outros, avaliar a satisfação dos turistas e identificar as motivações de visita dos mesmos, a Portugal, permitiram concluir, com clareza, que, para além da oferta natural, a oferta cultural (incluindo monumentos e museus, e atividades culturais) deste país ocupa o mais alto nível em termos de satisfação. Para além das paisagens e das praias, a gastronomia e os vinhos são os pontos de contacto com maior nível de satisfação, sendo ainda os aspetos que mais superam as expectativas. Por outro lado, determinados aspetos relacionados com a capacidade de receção dos turistas estrangeiros, como o domínio de idiomas estrangeiros e a informação turística encontram-se entre os níveis mais baixos de satisfação, em relação às expectativas, pelo que são pontos a ter em conta na divulgação do património cultural. Na Carta Internacional do Turismo Cultural, adotada pelo ICOMOS na 12ª Assembleia Geral no México, em Outubro de 1999, a propósito da gestão do Turismo nos sítios com significado patrimonial, a atividade turística é apresentada como uma forma de aceder ao património que pertence “a todas as pessoas”, as quais, por sua vez, têm o “direito e a responsabilidade de compreender, apreciar e conservar os seus valores universais”. 44 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga A noção de Património apresentada neste documento é integrada, incluindo, para além das paisagens e da biodiversidade, locais históricos, sítios e ambientes construídos, coleções, práticas culturais passadas e continuadas, conhecimentos e experiências vividas, registando e exprimindo o longo processo do desenvolvimento histórico, e formando a essência das diversas identidades nacionais, regionais, indígenas e locais, sendo uma parte integrante da vida moderna. Na Carta, o Turismo é considerado um ponto de referência dinâmico e um instrumento positivo para o desenvolvimento e para o intercâmbio, pelo que tanto o Turismo doméstico como o Turismo internacional estão entre os veículos mais importantes para as trocas culturais, proporcionando uma experiência pessoal, não só sobre aquilo que sobreviveu do passado, mas também sobre a vida e a sociedade contemporânea. A Carta reconhece que o Turismo Cultural é crescentemente apreciado como sendo uma força positiva para a conservação cultural, já que pode, através da criação de fundos e da educação, contribuir para a sua conservação, podendo ser um importante fator no desenvolvimento, quando gerido com equilíbrio e eficácia. O património cultural, as diversidades e as culturas vivas são, assumidamente, grandes atrações turísticas, e um dos objetivos primários da gestão do património é a comunicação do seu significado e a necessidade da sua conservação para a sua comunidade residente e para os visitantes. O património cultural é encarado como um recurso material e espiritual, que permite efetuar uma narrativa do desenvolvimento histórico, pelo que, tendo um papel importante na vida moderna, deve ser tornado física, intelectual e/ou emocionalmente acessível ao público geral. Tanto os aspetos físicos como os intangíveis das expressões culturais e de contexto alargado são apontados como pontos a proteger e conservar, facilitando uma compreensão e uma apreciação do significado do património, pela comunidade residente e pelos visitantes, de uma maneira equitativa e sustentável, já que alguns dos aspetos individuais do património natural e cultural têm a eles associados valores universais, outros de importância nacional, regional ou local. Em Março de 2011, o IMC promoveu uma jornada de trabalho anual dedicada ao tema "A importância do marketing na promoção dos museus", partindo do princípio de que os museus devem abrir-se e focar a sua atenção, não apenas na sua comunidade 45 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga envolvente, na sua região, ou o seu país, mas também numa dimensão internacional, fortalecendo o seu papel estratégico na promoção da cultura e no desenvolvimento económico, através da organização de eventos culturais, suscitando o interesse e a visita de públicos diferenciados. As questões consideradas centrais foram a importância dos Museus na valorização da oferta de Turismo Cultural, como podem os museus responder melhor às necessidades específicas de uma visita turística e revestir-se de maior atratividade, qual o grau de satisfação dos turistas e como este deve ser monitorizado, e como aprofundar a parceria entre museus, entidades regionais, rede de comercialização e Turismo de Portugal. Reconhecendo que o incremento da atividade museológica e o surgimento de uma diversa tipologia de museus, nos últimos anos, em Portugal, não foram acompanhados por uma adequada estratégia de gestão cultural, económica e social, o Instituto dos Museus e da Conservação apelou para a necessidade destas instituições comunicarem, não só com a sua comunidade de base, a sua região e o seu país, como também numa dimensão internacional, promovendo a cultura a par do desenvolvimento económico (para a fixação da população), organizando eventos culturais e divulgando os seus produtos de forma competitiva, para suscitar o interesse e atrair a visita de diferentes públicos. Assim, desta jornada de trabalho promovida pelo IMC, concluiu-se que é através do enfoque na comunicação e no marketing que os museus devem concentrar-se em atividades que valorizem a experiência e o enriquecimento da visita turística; identificar e conhecer claramente os públicos que visitam os museus, para melhor corresponder às expectativas dos visitantes e conseguir a sua satisfação; tornar a interpretação acessível a todos os públicos, através de recursos variados, incluindo dispositivos multimédia, réplicas, a comunicação verbal, a oferta de atividades experimentais e interativas; envolver as comunidades na atividade de divulgação dos museus, sobretudo através de boas práticas de acolhimento local; manter uma programação regular, a par da renovação de serviços de acordo com os objetivos e necessidades de visita; estar preparado para acolher os turistas estrangeiros, fornecendo informação no local em várias línguas, disponibilizando material informativo, mantendo o funcionamento de websites em, pelo menos, uma língua estrangeira, proporcionando visitas guiadas e promovendo o 46 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga envolvimento das equipas técnicas dos museus nas suas atividades para visitantes; e realizar uma leitura integrada do património na envolvente dos museus, como espaços de fruição pública. Todas estas estratégias vão no sentido de desenvolver uma atividade promocional centrada no “cliente” dos museus. A par destas ações, foi realçada a vantagem do envolvimento das entidades turísticas regionais e agências de promoção turística no diálogo e criação de parcerias no quadro da organização da oferta e da promoção turística interna e externa, assim como a importância que o papel da rede de comercialização turística pode assumir no empacotamento da oferta, e na gestão e criação de produtos turísticos que constituam uma oferta integrada. Enquanto serviços públicos, os museus devem estar cientes de como o seu serviço é levado a cabo, pois, tal como (Hooper-Greenhill, 1994) afirma, um serviço público não será mantido se não for usado. Não só se torna importante saber quem visita os museus, mas também o que lá vão fazer, para além de visitar as exposições, e também por que razão determinadas pessoas consideram que visitar museus não é adequado para elas. Uma comunicação interpessoal e interativa, em vez da “comunicação de massas” (Hooper-Greenhill, 1994), mais distante e para a qual as exposições se encontram, muitas vezes, devotadas, que permita a troca de ideias, o feedback do visitante, uma maior acessibilidade ao conhecimento daquilo que é exposto ou proporcionado ao visitante, aumentando o seu papel ativo, e fomentando a relação dos museus com a sociedade, fará com que as pessoas se aproximem mais dos museus e sintam que estes espaços são, de facto, para todos. Visitantes pouco regulares de museus indicaram como possíveis fatores de aumento da sua motivação para a visita a museus a existência de um ambiente mais convidativo, relaxante e informal, com exposições envolventes e mudanças ocasionais de exposições, assim como a abordagem de aspetos da vida quotidiana do passado, feitos, história local e nacional (Hooper-Greenhill, 1994). A procura da melhoria contínua, para os museus, passa também por se adaptar às necessidades do público e atrair diferentes tipos de visitantes, proporcionando exposições com recursos multimédia e interativas, para envolver o visitante e dar vida ao passado, a par de atividades diversificadas e adaptadas a públicos diversos. 47 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga I.V Os museus como espaços promotores de cultura e de educação Definidos pelo ICOM como instituições de caráter permanente, sem fins lucrativos, colocados ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, os museus são espaços abertos ao público, cuja atividade inclui a aquisição, a conservação, o estudo, a comunicação e exposição de testemunhos materiais do Homem e do seu meio ambiente, com objetivos orientados para o estudo, a educação e a fruição1. Esta é uma definição que se estende igualmente aos sítios e monumentos naturais, arqueológicos e etnográficos e aos sítios e monumentos históricos com caraterísticas de museu pelas suas atividades de aquisição, conservação e comunicação dos testemunhos materiais dos povos e do seu meio ambiente, assim como a vários outros espaços, instituições ou organizações sem fins lucrativos que desenvolvem atividades de conservação, investigação, educação, formação, documentação e outras relacionadas com museus e museologia. O ICOM reconhece a Convenção da UNESCO como uma iniciativa significante para a renovação da relação dos museus com o património imaterial, nomeadamente através da promoção de abordagens integradas sobre o património material e o património imaterial, referindo os museus como veículos para a contextualização de coleções do passado e para demonstrar a sua relevância no presente (Galla, 2003). Focando, sobretudo, o papel das bibliotecas e arquivos no tratamento do património imaterial, pela documentação de coleções, defende que o desafio atual consiste em estabelecer padrões para a documentação do património imaterial. Insistindo nesta ideia, o ICOM considera necessário possuir ferramentas de documentação adequadas, que permitam a integração eficaz do património imaterial na prática museológica. Defende, ainda, que o património imaterial é relevante para todas as formas de património, seja ele móvel ou imóvel, material ou imaterial, um produto da criatividade ou do desenvolvimento, e que, por isso, ele requer colaboração interdisciplinar, não sendo da exclusiva responsabilidade dos museus (Galla, 2003). 1 Extraído dos Estatutos do ICOM, adoptados na 16ª Assembleia Geral do ICOM (Haia, Holanda, 5 de Setembro de 1989) e alterados pela 18ª Assembleia Geral do ICOM (Stavanger, Noruega, 7 de Julho de 1995) e pela 20ª Assembleia Geral do ICOM (Barcelona, Espanha, 6 de Julho de 2001) Artigo 2º. 48 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Definir o papel dos museus relativamente ao património imaterial tem sido uma preocupação de vários autores ligados à museologia e a instituições que regulam o património. No seu artigo “Museology and the Intangible Heritage of Learning”, Ann Davis (2004), baseando-se em autores como John H. Falk e Lynn D. Dierking, debruça-se sobre a questão da aprendizagem no contexto dos museus, entendendo-a como uma forma de património imaterial, fazendo-o equivaler a conhecimento. Segundo esta autora, as pessoas acorrem aos museus procurando precisamente aquilo que os museus podem oferecer-lhes em termos de património imaterial, pois, na sua opinião, elas visitam os museus com o principal intuito de aprender, e a aprendizagem é o principal “bem” que elas, efetivamente, levam dessa experiência. Davis acrescenta que, “neste mundo cada vez mais complexo, as pessoas anseiam por encontrar conhecimento e significado”, e por isso mesmo vão aos museus. Também Hooper-Greenhill (2000) partilha desta ideia de que o ser humano procura significado, quando se refere ao papel educativo dos museus. No entanto, este significado não é estático, mas sim sujeito a mudanças ao longo da vida, pois as circunstâncias históricas e culturais afetam a interpretação que é feita. Para Hooper-Greenhill, o significado é construído através e dentro de uma cultura, tal como a perceção, a memória e a interpretação são construtos culturais. A memória, por sua vez, é organizada em torno de experiências e episódios pessoais, estando relacionada com experiências biográficas, mais do que com coisas abstratas, pelo que a transmissão de conhecimento em museus deve ter em conta todos estes fatores. Os processos de interpretação são complexos e ativos, e isso significa também que não existe conhecimento fora do indivíduo, pois o conhecimento forma-se através do significado que cada indivíduo constrói a partir das experiências que vive, e é a isso que, segundo Hooper-Greenhill (2000), se chama interpretação no âmbito da Arqueologia. No mesmo sentido de pensamento, para Falk e Dierking (2000), que, por sua vez, fazem recordar as teorias de John Dewey (citado por Davis, 2004), os museus são locais onde tanto as crianças como os adultos podem descobrir de uma forma lúdica sobre o “passado, o presente e o futuro da humanidade, o mundo natural, e o cosmos”, um espaço onde o público pode “encontrar significado e ligação”, que é, afinal, na sua 49 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga opinião, o propósito da aprendizagem – “construir significado e encontrar ligações”. A experiência da visita ao museu seria, assim, uma espécie de encontro com si mesmo, enquanto indivíduo e parte de uma comunidade, que vai encontrar e reforçar a sua identidade e sentimento de pertença a uma cultura e a um mundo mais vasto. Na aprendizagem que o visitante faz, ele revê-se e recorda, ele toma consciência de si mesmo, de acordo com a interpretação que ele próprio faz daquilo que apreende. Essa experiência deve ser de caráter lúdico e não-formal. Também Hooper-Greenhill (2000) defende a ideia de que os museus constroem significado através da interpretação da cultura e dos vestígios materiais, assim como de abordagens pedagógicas, de caráter informal, que determinam relações cada vez mais próximas com o público ou visitantes, reforçando o papel social destas instituições. A interpretação dos objetos pode ser meramente factual ou revestida de significado emocional (Hooper-Greenhill, 2000: 3). Por outro lado, eles estão sujeitos a múltiplas interpretações, por vezes até contraditórias. E se os objetos, individualmente, são de interpretação complexa, mais o são em conjunto, em exposições (combinando grupos de objetos com palavras e imagens. Segundo esta autora, o significado dos objetos no seu conjunto reside na relação estabelecida entre estes e outros elementos, com a finalidade de comunicar. A forma como se expõe (incluindo a maneira como os objetos são usados ou dispostos; a forma como os textos são escritos; o envolvimento sensorial – visual, táctil, auditivo; o uso da luz, da cor, e do espaço, entre outros) constitui, porventura, o mais importante meio de transmissão de conhecimento e significado, em museus, sendo também uma questão problemática e complexa porque se trata de uma “tecnologia visual”, e porque nem sempre é tida em conta a forma como a mente dos visitantes irá processar o que eles observam e efetuar a sua interpretação. Se as exposições são criadas com o objetivo de comunicar significado através da sua visualização e dos textos que as acompanham, então elas devem conter uma coerência interna, que facilite a sua compreensão pelo visitante, considerando ainda a existência de diferentes públicos e, por conseguinte, diversas formas de apreensão de significado e conhecimento. John Dewey explica esta relação entre o indivíduo e a aprendizagem no contexto dos museus e outras instituições culturais, especialmente no contacto com a arte. Para 50 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga ele, é necessário que haja uma ação inteligente e intencionada para que a interação de uma experiência se torne significativa. Por outro lado, para Dewey, a vida inteligente envolve três componentes: ação, emoção e entendimento. Assim, a nossa experiência nos museus só se torna viva se estiver baseada em experiências concretas e vividas. A ligação especial que ocorre entre um visitante e um objeto de museu, entre um espectador e uma obra de arte, é uma atividade, um esforço que parte da pessoa. Esse esforço é válido e repetido porque, segundo Dewey, o contacto, a ligação que se estabelece faz libertar “hábitos antigos e profundamente estabelecidos” ou “memórias orgânicas enraizadas”. No entanto, esses velhos hábitos são “implantados de novas formas”, adaptando-se a “um mundo mais completamente integrado”, de maneira a que “eles próprios atinjam uma nova integração”. Dewey antecipa, assim, a nova museologia, dando ênfase ao papel ativo do visitante no seu processo de aprendizagem. No espaço do museu, um visitante pode ter experiências mais ativas ou passivas, conforme o tipo de atividade, sendo que quanto mais ativo for o papel do visitante, mais ele aprenderá e apreciará a sua experiência. Os museus dispõem de vários instrumentos para proporcionar essas experiências… A Convenção da UNESCO (2003) sugere, de acordo com Cabral (2009), que a salvaguarda do património imaterial deve ser feita de várias formas: uma que engloba a identificação, a documentação e a pesquisa sobre o património; outra onde se inscreve a sua preservação, proteção e promoção; e uma terceira que compreende ações de valorização, transmissão (através da educação formal e da educação não formal), e a sua revitalização. Os museus têm claramente um papel preponderante em qualquer uma destas formas de atuação sobre a salvaguarda e promoção do património imaterial, e todas elas são discutíveis do ponto de vista antropológico quando se trata de culturas vivas, como já foi debatido anteriormente. Em relação ao terceiro ponto de ação, será importante refletir sobre a forma como os museus podem e devem ser transmissores desse património. Nesse sentido, tenhamos em mente um aspeto focado por Dewey (citado por Davis, 2004) – o de que o significado contribui para que se dê valor às coisas. Segundo este filósofo, as pessoas procuram constantemente o significado e o valor das coisas, e 51 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga esta procura é fluida, e está em constante desenvolvimento. Dewey realçou a ideia de que aprender deve ser algo holístico e contextual, que deve ocorrer num ambiente alargado, mas baseia-se na cultura específica do indivíduo. Assim, aprender, de uma forma geral, e aprender em museus, em particular, é uma atividade participada, um diálogo que requer envolvimento e esforço. Segundo Hooper-Greenhill (1998), os desafios que se colocavam a estas instituições, no final do século XX, para o século seguinte, eram conservar (recuperar e conservar peças e objetos), estudar (investigar sobre esses objetos), e comunicar (através das atividades e práticas profissionais que permitem aceder aos objetos e ao resultado da investigação sobre os mesmos). Segundo esta autora, a comunicação nos museus inclui, para além das atividades de publicidade e marketing, que servem para atrair visitantes, o estudo (investigação e avaliação) das suas necessidades, proporcionando o material necessário para satisfazer essas mesmas necessidades intelectuais (de educação e ócio). No âmbito dos museus, a educação e o ócio encontram-se juntos, estando relacionados com o saber e o espírito. As exposições, os workshops e as mostras servem esse propósito educativo dos museus, que oferecem a oportunidade de aprofundar o conhecimento e a experiência. Mesmo na sua vertente lúdica, as atividades disponibilizadas pelos museus têm sempre como objetivo último a oferta de algo novo, que desperte o interesse do visitante e tenha um valor potencial, pois estão cientes de que aprende-se melhor de forma lúdica (Hooper-Greenhill, 1998: 189, 190). Tal como a educação, de uma forma geral, também a noção de educação para os museus sofreu uma evolução, passando a considerar atividades mais variadas e um público mais vasto e diferenciado. Para além de workshops e visitas para grupos escolares, os museus passaram a organizar outras exposições, workshops e publicações, por exemplo, para outros públicos, como escolas, famílias e adultos interessados em aprender. Tal como Eilean Hooper-Greenhill (1998: 192) defende, esta educação feita pelos museus é exercida tanto dentro como fora dos mesmos, e tanto serve aqueles que procuram amplo conhecimento como aqueles que procuram pouco, estando “conscientes de que necessitam de ampliar o seu público e ter mais peso em mais setores da sociedade”. Dando mais importância aos processos do que aos resultados, por outro lado, os museus têm a possibilidade de expandir e aproximar mais da realidade as atividades que 52 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga promovem, dando também mais espaço à curiosidade. Para aquela autora (1994, 1998), a função educativa dos museus concretiza-se através de dois métodos comunicativos: a comunicação de massas e a comunicação interpessoal, sendo a primeira mais distante e a segunda mais direta, mas ambas informais e orientadas para a satisfação de necessidades. Formas de comunicação como exposições, mostras temáticas, publicações, filmes, materiais educativos, serviços de empréstimo e museus móveis inserem-se no primeiro tipo e não são necessariamente negativas. A forma direta de comunicação engloba estratégias como a experimentação, desenho e outras atividades práticas, troca de ideias, dramatização, conferências e workshops. A forma como o contacto com novos conhecimentos e experiências é proporcionado pelos museus é, também, determinante para a atribuição de significado à informação que é transmitida aos visitantes, pois o nível de participação do visitante na apresentação da informação irá condicionar a sua memorização, uma vez que o ser humano memoriza mais facilmente aquilo que faz e diz (Hooper-Greenhill, 1998: 193), devendo as formas de aprendizagem e participação estar de acordo com a quantidade de informação que somos capazes de recordar. Assim, a prática e a participação ativa serão as melhores formas para melhorar a perceção e reforçar a memorização. A via simbólica de apreensão, marcadamente abstrata, feita através da linguagem verbal é a mais complexa e exigente. A forma icónica, muito frequente em museus, que recorre ao método visual ou outras representações bidimensionais ou tridimensionais da realidade, em exposições, torna a apreensão mais concreta e menos complexa, pois apela, de imediato aos sentidos. Contudo, “as imagens são elementos complexos e o seu uso nem sempre é tão simples quanto parece”, para além de nem sempre as exposições retirarem o máximo proveito do potencial didático que os elementos icónicos possuem para transmitir mensagens (Hooper-Greenhill, 1998: 195). Segundo esta autora, uma maior associação dessas imagens a coisas reais e do quotidiano pode facilitar o processo de comunicação. Alargar a oferta de possibilidades de interação com essas imagens é outra forma de as tornar mais significativas, apostando em atividades como salas de descoberta, manipulação de objetos, filmes, vídeos interativos, e encenações. No entanto, a forma ativa, conduzida através de coisas reais, como objetos, pessoas, atos ou experiências é a mais acessível para qualquer nível de aprendizagem e 53 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga de conhecimento, podendo ser aplicada com diferentes tipos de pessoas. Esta forma de apreensão resulta, ainda, mais divertida e interessante (Hooper-Greenhill, 1984: 194, 195), pelo que os museus deverão apostar em estratégias como exposições interativas, oficinas práticas e a manipulação de objetos e instrumentos, jogos seguidos de trabalho de reflexão e análise, usando processos dinâmicos e criativos. Enquanto espaços de comunicação, os museus são, também, produtores de cultura. Nas abordagens sobre teoria social e cultural (Hooper-Greenhill, 2000), a interpretação e o reconhecimento crescente do poder generativo da cultura e da comunicação conduz-nos à crença de que a representação não reflete a realidade, mas atribui significado e confere valor. Assim, ela forma realidade. Na cultura, a comunicação é entendida como uma forma de produção e reprodução, devido ao seu papel na construção de significado através das ações dos indivíduos e grupos. Ao atribuir designações, classificar e dispor vestígios materiais, os museus fazem opções para se adaptar ou resistir a classificações culturais que afetam as suas vidas e identidades (Hooper-Greenhill, 2000), dando também aos seus visitantes a oportunidade de usar os seus conhecimentos prévios para construir novo conhecimento, construindo significado através de experiências interpretativas proporcionadas pelos museus, que reforçarão o seu sentimento enquanto agentes sociais. Segundo esta autora, entendidos como uma forma de política cultural, os museus podem reunir os conceitos de narrativa, diferença, identidade e estratégias de interpretação no sentido de criar formas de negociação das práticas culturais dominantes. Tomando uma posição crítica, os profissionais dos museus têm a possibilidade de cruzar fronteiras facultando diferentes narrativas, e estabelecendo ligações entre diversas disciplinas. I.VI O Património Imaterial e os museus: uma nova conceção de museu? Que implicações terá tido este conceito mais recente – de património imaterial, para espaços de dinamização cultural como os museus, e na forma de encarar o património cultural de índole imaterial, ou mesmo o de natureza material? 54 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Apesar de defenderem que ele não trouxe nada de novo, alguns autores assumem que terá tido implicações práticas na forma de encarar o património e de o expor e promover em museus. André Desvallées (2004) (Conselheiro permanente do ICOM e responsável por “Thesaurus Museologicus”), no seu “Provocative Paper” apresentado no Simpósio Internacional, organizado pelo ICOFOM, da 20ª Conferência Geral do ICOM, em Seul, Coreia, levantou algumas questões sobre os termos “imaterial” e “intangível”, defendendo que, do ponto de vista museológico, o “imaterial” não é mais do que “a emanação do material”, que não pode existir ou ser exposto sem testemunhos tangíveis (artefactos ou espécimes naturais). Assim apresentado, o património imaterial poderia apenas consistir naquilo que os vestígios materiais representam e significam, não estando claramente definido. Por outro lado, a questão do “património imaterial” será, para Desvallées (2004), uma falsa questão, por não o considerar algo de novo, assumindo que “os historiadores de arte sabem que grande parte da criação é imaterial”. De facto, a criação pode ser parcialmente imaterial, já que é mental e que tem significados, mas tal não é suficiente para que a obra se torne “património imaterial”, pois este requer um reconhecimento social. Da mesma forma, ainda que os etnólogos tenham já registado, antes do surgimento do conceito de “património imaterial”, “as manifestações culturais das diferentes culturas”, como “as festas, as cerimónias, as danças, os processos de fabricação ou momentos da vida” e de não se tratar, de facto, de um novo problema afirmar que um objeto não tem sentido por si só, ou que “os museus estão repletos de objetos (património material) que são o suporte do património imaterial” (Desvallées, 2004), o reconhecimento da importância histórica e cultural do património imaterial veio legitimar, sobretudo, a sua classificação internacional/mundial, e reforçar a sua salvaguarda, não apenas a sua inventariação, ajudando, ainda a defini-lo e a interpretá-lo. O património imaterial está, naturalmente, associado à Etnografia, dada a sua relação com as manifestações culturais, mas não se limita a esse aspeto. Curiosamente, Pais de Brito (2009), atual Diretor do Museu Nacional de Etnologia, partilhando da ideia de que o património imaterial se aproxima da Etnografia, realça, no 55 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga entanto, a dificuldade de os museus etnográficos acompanharem e representarem o presente, num diálogo permanente com a realidade existente, pelo que considera que estes se foram tornando cada vez mais representativos do passado e, assim, “em museus de História ou Arqueologia”, onde “o tempo é guardado e categorizado”… Será, então, que até os museus de Etnografia estão condenados a ser uma vitrina do passado? Ou será que a solução passa, apenas, por encarar o património de um outro prisma? Tanto os vestígios materiais como os próprios museus devem ser encarados de outra forma, abordando o património material e o património imaterial em estreita articulação. Sendo a vitalidade uma das caraterísticas fundamentais do património imaterial, alguns autores demonstraram o receio de que a musealização de vestígios que testemunhem esse património “pudesse parar a mudança” e “produzir objetos mortos, que não têm nada em comum com o património imaterial real e vital das comunidades e dos indivíduos”. Mas será que a musealização dos objetos que testemunham o património imaterial estará, de facto, a fossilizar a cultura imaterial e a impedir a sua natural renovação? Mesmo a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, da UNESCO, de 2003, não esteve isenta de polémica sobre a questão da “fossilização”, pelo seu próprio título alusivo à preservação, proteção, ou conservação do património cultural imaterial, apesar de, em conteúdo, defender a sua livre mutação. A musealização de objetos representativos da cultura imaterial estará a ser erradamente interpretada como um desses processos de fossilização, já que a presença e divulgação de um ou mais exemplares no espaço de um museu não impede a continuação da sua evolução (no sentido de mudança), e de permanecer “vivo” através da transmissão, reinvenção e recriação. Da mesma forma, tal como Inaba (2009) defende, tendo em consideração que o património cultural imaterial está em constante processo de recriação, podemos questionar a relevância do aspeto “autenticidade”, tal como ele é aplicado em relação ao património cultural material, na sua identificação e salvaguarda. Cada objeto teve, num determinado contexto (temporal, espacial e cultural), o seu significado, que pode ser estudado e divulgado, sem prejuízo de continuar a ser transformado por ação de fatores de continuidade e de mudança cultural. O papel do museu, enquanto instituição que promove a educação e a cultura, é o de transmitir 56 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga saberes, pelo que a sua ação está em consonância com a natureza do património imaterial. Apesar de o objeto deixar de se encontrar no seu contexto de utilização habitual, tal não implica que ele fique desprovido de significado. Aquilo que ele representou no seu contexto de utilização corresponde ao seu significado, que é interpretado no espaço do museu, ao mesmo tempo que continua a viver na memória coletiva, e a refletir-se em aspetos de continuidade e/ou de mudança cultural, de acordo com as vivências de uma comunidade. Se aceitarmos a posição de autores que defendem que a intervenção legal sobre o património cultural só é plausível quando recai sobre produções e espaços desaparecidos e que transcendem agora os seus próprios autores, já que a sua aplicação sobre culturas e espaços naturais vivos irá interferir, parar e fossilizar a dinâmica dos processos sociais, institucionalizar intervenções de poder na vida dos indivíduos e grupos, resultando inoperante e gerando, muitas vezes, um efeito contrário ao desejo de proteção dos traços originais dessa cultura (Barañano, 2007: 292), então a musealização de vestígios arqueológicos enquanto recursos auxiliares do conhecimento e da compreensão do significado de traços culturais de tempos passados estará à margem de polémicas sobre a fossilização, ainda que, em muitos casos, façam ainda parte de uma herança cultural que se reflete no presente. Os museus etnográficos vieram tentar estabelecer uma aproximação com as comunidades e a sua cultura, sobretudo a popular, enquanto outros museus, de índole temática ligada ao património imaterial, realçaram aspetos culturais que anteriormente não seriam tão valorizados. Os museus etnográficos trouxeram, contudo, várias preocupações e questões acerca da “fossilização” de culturas vivas, sendo muitas vezes alvo de críticas, em alguns casos bem fundamentadas, devido à forma inadequada como se apropriaram e expuseram determinados aspetos culturais e até humanos (Durand, 2007). Surge, assim, a questão: estará a divulgação do património imaterial confinada aos museus de natureza etnográfica, ou poderá um museu de Arqueologia, por exemplo, também ter esse papel? Em caso afirmativo, estará ele a ser totalmente cumprido, tendo em conta a função mais alargada dos museus na divulgação cultural e promoção turística do património, tirando proveito do desenvolvimento do Turismo Cultural? 57 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Em Portugal, o património imaterial está oficialmente associado aos museus, sendo atribuição do Instituto dos Museus e da Conservação, IP (IMC), que promove, através do seu Departamento de Património Imaterial, o estudo, a salvaguarda e a divulgação do Património Cultural Imaterial. Em termos de divulgação de património imaterial, e após a ratificação portuguesa da Convenção de 2003, da UNESCO, o trabalho realizado pelos museus da Rede Portuguesa de Museus (RPM) esteve, até bem recentemente sobretudo associado à recolha, inventário, estudo, classificação de manifestações culturais, e à constituição e exposição de testemunhos materiais das mesmas, à semelhança daquilo que já vinha sendo efetuado no âmbito de museus etnográficos, como demonstram pesquisas efetuadas por Freire (2009). O registo de informação em diversos suportes, facilitado por meios tecnológicos mais avançados, de captação de som, imagem e movimento, trouxe alguma inovação, e mais qualidade, a esse trabalho, que beneficiou de orientações científicas oriundas de órgãos como a UNESCO e, a nível nacional, o IMC. O facto de estes estudos terem recaído sobre objetos ainda em uso e no seu contexto original (Freire, 2009) faz crer que eles encerram vida. No entanto, a sua divulgação, feita através de publicação da informação recolhida, pouco ou nada transmite a sensação de vitalidade. Alguns museus têm realizado, no entanto, outras ações mais adequadas à promoção do património imaterial (Freire, 2009), como atividades educativas onde são transmitidos saberes-fazer, oficinas para adultos e crianças, e outras atividades de caráter prático, como jogos tradicionais (Museu Municipal de Penafiel, Museu Municipal de Faro). Verifica-se que, nos exemplos facultados por Freire (2009), são os museus detentores de, entre outras, coleções de caráter etnográfico, que mais se destacam na promoção deste tipo de atividades de índole prática de transmissão. Nos casos observados por esta autora, como exemplos da realidade museológica nacional, são mencionados os saberesfazer como parte das atividades de divulgação do património imaterial, mas raramente são especificadas as práticas que os concretizam e as temáticas abordadas. É também feita alusão aos Programas Escolares, mas, novamente, sem especificar as atividades que ajudam a compreender e a transmitir este património. Nos exemplos aqui facultados, o contacto e o envolvimento da comunidade são procurados e fomentados, não apenas para contribuir para a recolha e registo de 58 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga testemunhos da cultura imaterial, mas também para a realização de algumas ações que promovem a troca de saberes, apesar de a ênfase estar, ainda, sobretudo colocada nos estudos, recolha e registo, e sua posterior divulgação através da exposição de coleções, e da apresentação das conclusões dos estudos efetuados sobre os vestígios materiais e as manifestações culturais, em eventos públicos criados para o efeito. O trabalho de reflexão e de estudo é de grande importância para o conhecimento do significado das manifestações culturais, que, em alguns casos, ainda não foram classificadas como património. Esses estudos podem fundamentar a sua classificação. No entanto, somente conjugando a transmissão dos próprios saberes, através da experiência prática, com a compreensão do seu significado, se completa a ação de promoção do património imaterial. Desvalorizo, por outro lado, as tentativas forçadas de dar continuidade e revitalizar práticas culturais que já não encontram identificação nas comunidades. A realização de muitas das manifestações culturais que se procura revitalizar (sobretudo, festas tradicionais) serve, atualmente, apenas como entretenimento dentro das próprias comunidades, nas quais o significado de tais tradições já se perdeu no tempo. Intervir no sentido de dar continuidade a tais manifestações sem que a comunidade nelas encontre significado ou identificação será, para os museus, uma ação desprestigiante. Por outro lado, investigar sobre elas será apenas uma forma de as registar e, eventualmente, dar a conhecer, sem que haja implicações práticas a nível da evolução do património. À exceção dos museus de caráter etnográfico, onde se incluem os dois exemplos acima descritos, o património imaterial não parece ser trabalhado de forma consciente, a nível nacional. Terá, assim, a clarificação e distinção do (novo?) conceito de património imaterial trazido, de facto, alguma inovação na forma como ele é divulgado nos museus? E serão estas as estratégias mais adequadas para esse fim? Documentar é, sem dúvida, uma função dos museus, pois essa tarefa permite valorizar e contextualizar. Essa será uma estratégia de divulgação daquilo que podemos chamar de vertente imaterial do património, ou seja, da própria história e percurso dos vestígios expostos em museus, ou mesmo de exemplos ou amostras. No entanto, divulgar o património imaterial carece de estratégias que vão muito além da recolha, registo, inventário, e documentação. O património imaterial, pelo seu caráter de vitalidade e 59 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga expressividade física, que estão presentes em todas as manifestações culturais, envolve práticas e saberes que são, por natureza, transmitidos de geração em geração, a pessoas de uma mesma comunidade, ou (porque não?) externas à mesma. Assim, mais do que proceder à sua documentação, deve ser promovida, mas não forçada, a sua transmissão, adaptação e evolução, para prolongar a sua vitalidade e a sua prática evolutiva, enquanto fizerem sentido em termos culturais e sociais. Os museus, enquanto espaços de saber e cultura, como representantes de uma comunidade, têm também essa função. O desenvolvimento de atividades práticas e reais, que sirvam este objetivo, será a forma ideal de cumprir este seu papel. A tarefa fundamental dos museus não será, assim, apenas a conservação, o inventário e a divulgação, mas também a transmissão, através da dinamização de atividades de caráter prático e da educação não formal, de acordo com a natureza do património imaterial. Qual será, então, o papel dos vestígios materiais, exibidos nos museus, na promoção do património imaterial? Tal como afirma Desvallées (2004), o “material” testemunha o “imaterial”, já que “em termos museológicos, o intangível só pode existir enquanto emanação do material e a sua restituição só pode ser uma evocação feita através de provas materiais”. Para ele, todo o interesse mais recente pelo “património imaterial” e “a campanha atual a favor da proteção do património intangível” deriva do facto de “este património ter sido largamente ignorado, e mesmo desprezado, pela maioria dos políticos”, até então. Ainda segundo Desvallées, os museus são também responsáveis, por terem, “durante muitos anos, desprezado tudo aquilo que não se destacasse como grande arte”, numa clara preferência por objetos de valor artístico em detrimento do seu significado (e valor) cultural. Os museus foram refletindo uma mudança gradual de mentalidade face ao valor patrimonial. Se, de início, se dava mais importância ao valor material (e comercial) dos achados, se eram os critérios da História da Arte e a monumentalidade dos vestígios que se sobrepunham no momento de seleção dos vestígios a recolher dos trabalhos arqueológicos e a expor em museus, mais tarde passa-se a valorizar, não só o material em 60 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga si, mas também o significado histórico-cultural dos vestígios, e a sua representatividade nesse contexto. Facto é, e os dados estatísticos fornecidos pelo IMC (2011) assim o comprovam, que os visitantes (sobretudo, turistas) sentem uma maior atração por monumentos de maior dimensão e edifícios ou construções que ostentam uma maior riqueza material e beleza estética. Em Portugal, as visitas a palácios atingem números bastante superiores às visitas feitas a museus ou sítios arqueológicos, sobretudo se estes últimos se encontrarem muito degradados. As visitas a museus são maioritariamente efetuadas por público escolar. A informação, geralmente complexa, sobre as coleções expostas, que nem sempre é percetível sem a ajuda de um guia ou de informação adicional que auxiliem a sua interpretação e valorização, torna-se menos acessível a determinados públicos, afastando-os dos museus, para contemplação de monumentos que cativam pela sua dimensão e ostentação, valor artístico, ou beleza estética. Em termos de visitantes estrangeiros, a já mencionada barreira linguística e a falta de atividades orientadas para esse público podem ser fortes entraves à captação de público oriundo de outros países. Os números revelados pela estatística, apesar de reais, não são tanto o reflexo de uma preferência turística ou cultural, mas antes a consequência de uma inadequada política cultural e insuficiente adequação das estratégias de promoção de espaços culturais como os museus. Tornar a informação acessível é um primeiro passo para contrariar essa tendência. A valorização do património imaterial e a abordagem diferenciada que este proporciona, nos museus, não se fechando sobre os vestígios materiais, podem revestir estes espaços culturais de maior atratividade para o seu público. Não será, de facto, algo de novo, afirmar que os objetos não têm qualquer sentido por si só. Para além disso, a interpretação que fazemos dos objetos está sujeita ao contexto em que eles são apresentados e à visão subjetiva de cada visitante. Mas não será possível objetivar esta interpretação? Tal como Giovanni Pinna (2003) e Hooper-Greenhill (1994, 1998, 2000) defendem, os museus desempenham uma importante função no que concerne à construção do significado que é atribuído aos objetos. No caso de um museu de Arqueologia, por 61 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga exemplo, todo o processo de trabalho que está por trás das coleções, desde a prospeção arqueológica à investigação documental, e ao registo, seleção, conservação e eventual restauro das peças achadas, condicionará as interpretações históricas e científicas de um determinado objeto. Da mesma forma, a própria montagem das exposições num museu atribui significados simbólicos aos artefactos. Os objetos são fundamentais para simbolizar e representar ideias e pensamentos mais complexos, facilitando a sua compreensão. Eles dão forma material a ideias abstratas que, sem este testemunho visual, seriam mais difíceis de interpretar. Os vestígios materiais são testemunhos de uma cultura, de modos de viver e de formas de encarar o mundo, traduzindo valores, práticas, costumes e crenças, quando contextualizados no tempo, no espaço e na relação dos indivíduos (a eles associados) com o meio que os rodeia. Os objetos exibidos em museus são fortes potenciais geradores de reação e de emoção nos visitantes, seja porque lhes transmitem familiaridade ou porque lhes causam estranheza, podendo em ambos os casos ser usados como forma de atrair o público para as questões culturais que os envolvem e explorar esses significados. A interpretação dos artefactos, que atuam como símbolos da cultura imaterial, é feita através de um processo sensorial e cognitivo, que envolve simultaneamente o corpo e a mente (Hooper-Greenhill, 2000), na apreensão de nova informação no ambiente que nos rodeia, e no ato de processar esta informação relacionando-a com o conhecimento pré-existente. A interpretação dos objetos deve, assim, ser interativa e dialógica, para os tornar significativos. Para além de podermos ver os objetos, também podemos ler, falar e escrever sobre eles. A forma verbal de conhecimento é especialmente importante na interpretação dos vestígios materiais porque, tal como Hooper-Greenhill (2000) afirma, permite analisar e avaliar o conhecimento sobre os objetos, facilita a comparação entre diferentes ideias, e possibilita a partilha e a discussão. Sem o conhecimento verbal seria mais difícil efetuar alterações no conhecimento ou desenvolver conceitos mais complexos. Outra questão importante, ainda segundo esta autora, é a de que a interpretação baseia-se na descoberta do significado de algo através de uma experiência de diálogo entre o detalhe e o todo, numa interrelação entre ambos, pelo que o todo deve ser 62 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga entendido a partir dos elementos individuais e as suas combinações, e, por outro lado, o entendimento total de cada elemento requer a compreensão do todo. Assim acontece em relação à interpretação dos vestígios materiais enquanto elementos de uma exposição e a cultura enquanto o todo que se pretende que seja apreendido com base nesses testemunhos individuais. Nesse sentido, os museus, enquanto instituições às quais interessa o património cultural, são veículos privilegiados de transmissão e promoção do mesmo, em termos turísticos, recreativos, educativos e comunitários. Os museus (e não apenas os de natureza etnográfica) têm evoluído no sentido de deixarem de ser meros depósitos de objetos em exposição, tornando-se espaços dinâmicos, de investigação constante e de comunicação cultural, representando simbolicamente a sociedade e a cultura, contribuindo para a criação de memória coletiva e identidade, reproduzindo expressões culturais, transmitindo conhecimentos e valores, e proporcionando experiências e sensações. Assim, os objetos expostos, por exemplo, auxiliam a comunicação de determinadas ideias, sugerindo e permitindo diferentes interpretações, de acordo com o contexto passado e o contexto presente, através da educação não formal, e de técnicas de interpretação que permitam o diálogo entre o visitante e aquilo que ele visita, e a participação ativa do mesmo nesse processo. Citando ainda Giovanni Pinna (idem), através destes processos de atribuição de significado aos objetos, o museu “ajuda a formar um corpo de conhecimento e, portanto, uma herança cultural”, que é apresentada e divulgada a uma comunidade que encontra identificação com ela ao reconhecê-la, pelo que os museus não só incitam à interpretação participativa do significado dos artefactos expostos, como também à transmissão de cultura (de saberes-fazer e de conhecimento sobre práticas culturais). O valor histórico e cultural atribuído ao património, e aos vestígios arqueológicos expostos em museus, dota-os de significado no contexto histórico-cultural subjacente. Tal como Eilean Hooper-Greenhill (2000) sugere, podemos fazer uma distinção clara entre os museus dos séculos XIX e XX e os museus do século XXI, observando e perspetivando uma evolução significativa no funcionamento e no papel dos museus face à cultura e ao património imaterial. 63 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga O futuro produtivo dos museus passa pelo incremento da sua aproximação à comunidade e a um mais vasto e diferenciado público; pelo desenvolvimento de atividades diversas e adaptadas a diferentes níveis de conhecimento e necessidades, tornando mas acessíveis a compreensão e a interpretação dos seus conteúdos (do seu espólio e daquilo que ele representa); pela promoção de experiências enriquecedoras baseadas na prática e no contacto interativo com os artefactos; pela transmissão de cultura, através da educação não formal e do fomento da reflexão sobre o significado cultural dos testemunhos materiais, e a promoção do património imaterial a eles associados. Os museus do século XXI prefiguram-se diferentes dos seus antecessores, redefinindo os seus objetivos e posição na sociedade e na cultura, encarando novos desafios. Ao contrário dos museus dos séculos XIX e XX, os museus da atualidade tenderão a abandonar gradualmente o desejo de criar grandes coleções, preocupando-se com a forma como os objetos que acolhem e salvaguardam poderão ser usados para criar significado e transmitir conhecimento, e não com a mera acumulação. Eles darão mais atenção ao património imaterial, pois ele dará corpo às culturas cujos testemunhos materiais já se encontram grandemente destruídos e inativos, ajudando a compreender o seu significado e utilidade. A exposição dos testemunhos materiais deixará de ser a principal forma de comunicação dentro dos museus, para se tornar uma de muitas outras formas de comunicação, fazendo parte de um conjunto de eventos que podem preceder ou suceder a sua montagem ou a inclusão de objetos na mesma. A inclusão de um objeto na exposição permanente será sempre precedida de investigação cuidada e provida de sentido, no conjunto dos outros objetos expostos ou a expor. Outras formas de comunicação passam por abordagens diferenciadas das exposições patentes, da realização de atividades diversas de caráter prático, interativo e experiencial, fomentando sempre o envolvimento sensorial e global, e a participação ativa e crítica do público na construção do seu conhecimento, dando primazia à interpretação de significados culturais e à transmissão de saberes-fazer, com as inevitáveis evoluções e adaptações ao presente, permitindo a reflexão e a mudança, tal como a incorporação de diferentes vozes e perspetivas, que serão deixadas em aberto. Assim, os museus estarão também a 64 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga criar cultura, ajudando a reformular valores e a transformar relações culturais entre os indivíduos e o património, reposicionando as suas visões face ao mesmo. Os museus de caráter etnográfico continuarão a enfrentar questões morais e éticas na representação simbólica de culturas vivas através de testemunhos materiais, enquanto a função desses objetos não estiver clara em termos museológicos, e perante a comunidade. O papel dos museus em relação ao património imaterial de culturas do passado será mais dificilmente questionado ou alvo de controvérsia, pois os objetos usados como representação de uma cultura já estão desprovidos da sua utilidade original e não serão descontextualizados do seu ambiente de uso quando movidos para o museu, uma vez que os próprios espaços estão desprovidos de vida ou de utilização pelos indivíduos e comunidades nas quais faziam sentido cultural. A atividade dos museus transporá as suas instalações, abrindo-se e participando ativamente na vida da comunidade, fornecendo apoio científico a eventos e a iniciativas culturais relacionadas com o seu espólio e a sua área de investigação e atuação. A promoção do património imaterial nos museus, de uma forma geral, dependerá do entendimento deste conceito e da aceitação da sua importância na interpretação dos vestígios materiais neles expostos, assim como de uma mudança de atuação com base nesse património, no sentido da criação de atividades que permitam a sua transmissão e conhecimento pela via informal. É necessário transpor para a prática as recomendações já feitas e aprovadas, e isso requer também uma reflexão séria sobre questões concetuais, a formação de recursos humanos e a gestão de recursos materiais e de parcerias. Sem uma interiorização de conceitos, as ações serão inconsistentes. A democratização dos espaços culturais, tão defendida por vários autores, não é somente necessária para o público mas também para aqueles que trabalham nos próprios museus. A informação deve estar acessível a todos eles, para que estes, depois, a possam trabalhar conveniente e eficazmente, para o público. Não basta enviar para os museus leis e recomendações. Elas carecem de discussão e análise, para serem cabalmente entendidas e aproveitadas na prática museológica. Trata-se de uma questão de política cultural, mas também de formação profissional. 65 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Através do exposto, vislumbrámos já uma relação entre museus de Arqueologia e património imaterial, mas esta questão será tratada mais em pormenor no próximo capítulo. 66 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga II. Arqueologia, museus e divulgação do património imaterial em Portugal II.I A evolução da investigação arqueológica e da interpretação dos vestígios materiais como fonte de conhecimento sobre o Património Imaterial, e sua valorização A investigação arqueológica constitui uma forma de descoberta e conhecimento do passado da humanidade, não apenas após a História (depois do surgimento da escrita), mas também, e sobretudo, da Pré e Proto-História, através da interpretação dos vestígios materiais encontrados. O trabalho dos arqueólogos tem, atualmente, como objetivo, segundo Carlos Fabião (2011: 10), obter conhecimentos sobre esse passado e “entregá-los à sociedade que suporta, direta ou indiretamente, os custos dessa investigação”. A Arqueologia como disciplina científica resulta, pois, citando Carlos Fabião (1999: 105) “da consciência de que o género humano e o planeta que habita são o produto de um longuíssimo processo de formação e de uma, igualmente longa, história de interações”. Apesar de podermos, porventura, considerar dois períodos para a origem da Arqueologia (Silva, 1999), nomeadamente o Renascimento europeu (durante o qual foram descobertos testemunhos materiais do mundo clássico), e a segunda metade do século XIX, foi apenas durante este último período que a Arqueologia se afirmou como disciplina científica, baseada em descobertas que atestavam a antiguidade da humanidade. O trabalho de investigação em Arqueologia representa um processo meticuloso, um trabalho físico (no trabalho de campo), mas também intelectual (no estudo, na investigação, no trabalho de laboratório). Com efeito, para Renfrew e Bahn (1998: 9), a tarefa mais difícil com que o arqueólogo se depara é “saber como interpretar a cultura material em termos humanos” (1998: 9), e ser capaz de responder a questões sobre a forma como foram utilizados os objetos, ou por que motivo as construções tinham um determinado formato por exemplo. No fundo, conseguir explicar, através dos testemunhos materiais, a intencionalidade que está por trás dos objetos e vestígios 67 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga encontrados. Esta continua a ser uma das motivações da investigação arqueológica no século XXI. Precisamente pela necessidade que a Arqueologia tem de responder a este tipo de questões, e fazer um estudo que não se limite ao aspeto material dos vestígios do passado, ela está associada à Antropologia e à História (enquanto crónica completa da humanidade, desde o seu início, há cerca de três milhões de anos). Ao contrário do que sucede em Portugal, onde a Arqueologia é considerada, em termos académicos, um ramo da História, em países como os Estados Unidos da América, ela é um dos três ramos da Antropologia (a par da Antropologia Física, da Linguística e da Antropologia Social e Cultural). Em ambos os casos, poder-se-á, afirmar, contudo, que a Arqueologia está ligada ao estudo das sociedades do passado, com base na cultura material deixada por elas, investigando sobre um tempo anterior àquele que a Antropologia Cultural estuda (sendo que esta analisa as comunidades contemporâneas). Carlos Fabião (1999: 105) alerta, no entanto, para o facto de que, apesar de a Arqueologia se basear no pressuposto de que é possível conhecer formas de viver passadas através de vestígios materiais que delas restaram, tal não significa que “arqueologia” seja sinónimo de “história da cultura material”. Por outro lado, excluindo a Antropologia Física (que estuda, sobretudo, os aspetos biológicos), a Arqueologia será a “única fonte significativa de informação” (Renfrew e Bahn, 1998: 9) para o estudo da cultura material do passado, já que as fontes históricas convencionais apenas têm início com o surgimento do primeiro documento escrito, tendo esse acontecimento ocorrido em períodos diferentes em cada parte do mundo. Tal como Rodanés Vicente (1988: 25, 26) afirma, a Pré-História corresponde ao “período da vida humana anterior às fontes escritas”, o que, para Clark (citado por Rodanés Vicente, 1988: 26), equivale “à história das sociedades que não foram capazes de registar a sua própria história”. Para conhecer essa História sem fontes escritas, a investigação arqueológica assenta no estudo dos artefactos encontrados, dos vestígios em pedra, cerâmica, e osso, mas também em formas de expressão que ficaram registadas nestes suportes (como as gravuras e pinturas rupestres). Estes testemunhos arqueológicos constituem a informação que documenta um período sobre o qual não existe outro tipo de fontes, pelo 68 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga que o estudo desses objetos é o que nos permite aproximar do conhecimento de sociedades pré-históricas concretas e, portanto, da sua cultura ou forma de viver. A investigação arqueológica sobre a Pré-História requer um método próprio e tem encarado algumas dificuldades, mas a chamada “Pré-História moderna” (Rodanés Vicente, 1988: 142) tem revelado avanços consideráveis, passando a considerar, não apenas os objetos, mas as sociedades, prestando particular atenção à reconstrução dos fenómenos sociais e económicos, com base na interpretação desses vestígios arqueológicos, refletindo uma visão antropológica na condução dos estudos sobre esse período da vida humana. Fabião (1999: 106) vai ainda mais longe na sua posição face à investigação arqueológica sobre a Pré-História, defendendo que foi precisamente neste domínio que a Arqueologia viu as suas técnicas e estratégias de intervenção desenvolvidas e afinadas; foi, também, neste âmbito que a Arqueologia se afirmou como disciplina autónoma e foi graças às práticas nele desenvolvidas que a investigação arqueológica relativa a outros períodos deixou de estar dependente de documentos escritos. Segundo Renfrew e Bahn (1998), a Arqueologia pode ser considerada uma disciplina humanística, uma ciência humana, uma vez que o seu objetivo é compreender o género humano, mas porque estuda o passado da humanidade é também uma disciplina histórica. Mas, enquanto o historiador se baseia em registos que fornecem informações de uma forma mais direta, ainda que também suscetíveis de interpretação, o arqueólogo encontra material que pouco diz sobre si mesmo, e que obriga a conduzir um estudo científico rigoroso e completo, que inclui métodos técnicos, que vão desde a datação radiocarbónica até ao estudo de restos de alimentos encontrados em recipientes de cerâmica, e à análise dedutiva. Como disciplina, a Arqueologia serviu-se, em suma, de dois métodos fundamentais, de aplicação universal: o estratigráfico e o tipológico (Fabião, 1999), mas foi a ligação que esta estabeleceu com outras disciplinas científicas que lhe permitiu fundamentar as suas análises de forma ainda mais rigorosa e abrangente. A Arqueologia, nos finais dos anos 80 e início dos anos 90 do século passado, estava marcada por várias abordagens que foram surgindo ao longo dos trinta anos precedentes, tendendo a desenvolver-se, por outro lado, em diferentes subdivisões cronológicas (como o 69 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Paleolítico, ou a Arqueologia Clássica da Grécia e Roma Antigas), e em especialidades, que podem contribuir para o estudo de vários períodos arqueológicos diferentes (como a Arqueologia Ambiental, a Arqueologia Subaquática, ou a Etnoarqueologia). Esta última veio adicionar à investigação arqueológica o estudo de povos vivos, e da sua cultura material, com o objetivo de melhor compreender os registos arqueológicos do passado, ou seja, recorrendo ao presente para melhor explicar o passado. Renfrew e Bahn (1998) apontam dois principais aspetos que, na sua opinião, distinguem o estado da Arqueologia nos anos 90 do século passado: a consciência de que esta disciplina pode contribuir para a compreensão, não só da Pré-História e da História Antiga, mas também de períodos históricos mais recentes, e a consciência da importância de entender o registo arqueológico de uma forma mais profunda (para explicar questões sobre como algo aconteceu ou se formou, por exemplo), recorrendo à chamada Etnoarqueologia. Carlos Fabião (1999: 105) considera, no entanto, redundante o termo Etnoarqueologia, uma vez que “o recurso a informação de natureza etnográfica e histórica como método de identificação da realidade observada” já é feito, na investigação arqueológica, há um tempo considerável (desde o século XVIII, pelo menos, no caso de Portugal). Para este autor, a investigação sobre o passado mais remoto esteve sempre dependente de informação de natureza etnográfica ou antropológica, tanto para “a identificação e descodificação dos artefactos, como para a interpretação das realidades sociais”. Uma ideia parece, no entanto, gerar consenso: se as abordagens tradicionais se ocupavam, sobretudo, de unir as diversas peças do puzzle e recriar a cultura material do passado, ou “completar a imagem dos mais recentes” (Renfrew e Bahn, 1998: 14), agora a Arqueologia depara-se com um novo objetivo: reconstruir o modo de vida das pessoas que estão na origem dos registos arqueológicos. Torna-se, assim, importante, conhecer a forma como eles viviam e porquê, para compreender a razão da mudança cultural, que era já preocupação da chamada Arqueologia Processual, não só em termos gerais, de toda a humanidade, mas também das particularidades de uma determinada cultura. As primeiras escavações organizadas por investigadores mais empreendedores tiveram lugar no século XVIII. Mas são os estudos geológicos do século XVIII e o avanço dado pela ciência no século XIX, no sentido do “reconhecimento da antiguidade do 70 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Homem” (Renfrew e Bahn, 1998: 24), que vieram dominar a visão sobre a História da humanidade, e o lugar do Homem na História, oferecendo uma nova perspetiva à investigação em Arqueologia. Foram os vestígios encontrados pelo francês Jaques Boucher de Perthes (1788 - 1868), um inspetor de alfândega, durante o seu trabalho nas cascalheiras do rio Somme, que o levaram a publicar, em 1841, nas Antiguidades Antediluvianas, provas convincentes da associação daquele local de artefactos humanos, de pedra talhada, a que hoje chamamos “bifaces”, e de ossos de animais extintos, à existência humana muito antes do dilúvio descrito na Bíblia. Estas descobertas, aliadas às obras A Origem das Espécies, de 1859, e A origem do Homem, de 1871, da autoria do naturalista britânico Charles Darwin, foram determinantes para o início da investigação arqueológica sobre as origens do Homem, com base em vestígios materiais, mas também para a tipologia praticada no estudo e classificação dos vestígios arqueológicos, colocando em evidência o processo de evolução, e de mudança cultural, nascendo, assim, um novo paradigma interpretativo para o estudo do passado mais remoto (Silva, 1999). Com a religião destronada pela ciência, no que toca ao conhecimento e explicação da vida na Terra, a partir da segunda metade do século XIX, o paradigma “criacionista” é substituído pelo “evolucionista” (Fabião, 2011: 97), e o evolucionismo passa a orientar as investigações sobre o passado e, portanto, a prática arqueológica. Os factos positivos e as provas, baseadas na observação e na análise, são, agora, a preocupação central da investigação arqueológica, pois a ciência ganha um lugar de destaque no progresso humano, como fator de apoio ao desenvolvimento económico e social. Esta visão reflete-se na investigação arqueológica pela forma como as sociedades do passado passam a ser entendidas: como “sujeitas a diferentes estádios de desenvolvimento, que eram diretamente observáveis” (Fabião, 2011: 98). A observação geológica, com a associação de determinados fósseis a distintos estratos foi determinante para estabelecer comparações em áreas geográficas distantes, e comprovar a teoria evolucionista que passa a marcar a investigação arqueológica, sobretudo a Arqueologia Pré-Histórica. O modelo criado, na Dinamarca, para explicar as antiguidades expostas no seu Museu de Antiguidades Nacionais (na falta de referências de autores latinos na Escandinávia) reflete uma interpretação cultural apoiada no desenvolvimento 71 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga tecnológico, como um processo civilizacional baseado numa crescente sofisticação técnica, que permitia estabelecer uma ordem cronológica fundamentada pela tecnologia envolvida na produção dos artefactos, mas também na matéria-prima utilizada, surgindo, assim, as designações de “Idade da Pedra”, “Idade do Bronze” e “Idade do Ferro” (que acabariam por ser sucessivamente ampliadas para quatro, cinco e, depois, seis (Fabião, 1999: 113)), progressivamente adotadas no resto da Europa, pelo seu caráter neutro, mas também claro, do ponto de vista científico, pois podia ser testado e comprovado. Esta ideia de evolução técnica tornava-se, no entender de Fabião (2011: 125) ainda, mais atrativa numa Europa que estava a viver a era industrial e que encarava este acontecimento, de certa forma, como o culminar desse progresso. De facto, o surgimento do conceito de Pré-História, apenas possível após se ter estabelecido o paradigma evolucionista, gerou um tempo acerca do qual não havia quaisquer registos escritos. Assim, a Arqueologia deixou de ser um instrumento de comprovação de fontes escritas para se tornar no veículo exclusivo de obter conhecimento sobre esse passado longínquo. A ligação entre Arqueologia e Antropologia começa, também, nessa altura a intensificar-se na investigação. O antropólogo Franz Boas (1858 - 1942) alertou para a necessidade de ter mais atenção na recolha e classificação de informação de campo, passando a ser elaborados extensos inventários de caraterísticas culturais e desenhos de vestígios, que encaixava com a chamada “abordagem histórica direta da Arqueologia” (Renfrew e Bahn, 1998: 34). Nos Estados Unidos, por exemplo, foi feito um trabalho conjunto de antropólogos e arqueólogos no estudo dos índios americanos. Já nos anos 30 (do século XX) recorreu-se a métodos como o Sistema Taxonómico (do Médio Oriente), para ordenar os materiais consoante a identificação de similaridades entre conjuntos de artefactos de zonas ou regiões diferentes, para descobrir respostas a questões sobre o período de origem dos artefactos, a que outros materiais estão associados, para chegar à questão fundamental sobre a quem pertenciam estes artefactos, a que povo, a quem se associava essa cultura, partindo da observação de uma repetição constante de determinada “indústria artefactual” (Renfrew e Bahn, 1998: 34). Mas ainda mais importante foi a crescente preocupação com os motivos das sequências culturais, ou seja, o motivo para a ocorrência de mudanças e acontecimentos passados. 72 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga A seguir à Segunda Guerra Mundial, novas ideias vêm questionar as abordagens tradicionais em Arqueologia, e novamente a influência da Antropologia vem procurar explicar a mudança através do estudo dos modos de adaptação ao meio, que foi denominado de abordagem ecológica. Mas foi a partir dos anos oitenta do século XX que a Arqueologia conheceu o seu maior desenvolvimento, tanto a nível do método de trabalho como a nível da sua colocação em prática. Com efeito, a perspetiva pós-moderna e multidisciplinar, que marcou a investigação em Arqueologia nos finais do século XX, seria, segundo Alcina Franch (1989: 201), a tendência para o futuro da mesma, no sentido da aproximação de métodos e técnicas até então separadas, como aconteceu com a já consumada conjunção das abordagens arqueológica, etnohistórica e etnográfica. Em suma, tal como Fabião (1999: 106) afirma, a origem e o desenvolvimento da Arqueologia têm como base a constatação de duas realidades: da “unidade essencial do Homem”, ou do conceito de Humanidade, e da “extrema diversidade cultural das sociedades humanas”. Ainda de acordo com o mesmo autor, estas duas constatações geraram, de certa forma, dois campos de ação: um virado para o estudo da humanidade, e outro dedicado a questões étnicas, nacionais, regionais e locais. II.II Arqueologia e museus em Portugal Tendo em conta que o trabalho mais aprofundado e recente levado a cabo sobre a relação entre a investigação arqueológica e museus, em Portugal, é o realizado por Carlos Fabião, a análise que se segue, sobre a realidade portuguesa, terá como principal base as conclusões publicadas por este autor. Em Portugal, não surgiram ideias inovadoras que ajudassem a moldar a Arqueologia, mas os seus investigadores souberam, segundo Fabião (2011), quase sempre, incorporar as inovações que chegaram do exterior, dos “principais centros criadores europeus”, de forma rápida e expedita, nas suas práticas, tendo seguido a evolução que se verificou em outros países, “ao mesmo tempo e ao mesmo ritmo” que eles (Fabião, 1999). Não obstante, receberam, também, as influências da mentalidade predominante no mundo cristão ocidental, que, de certa forma, impediram o desenvolvimento desta 73 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga disciplina nos séculos anteriores. No século XVI, a Bíblia (cujos textos eram lidos de forma literal) era a referência cultural e histórica para os europeus, e a Humanidade era considerada resultado de obra divina. Independentemente da época em que nos encontremos, a investigação arqueológica, como qualquer outra atividade científica, ficará condicionada pelos paradigmas, conceitos e conhecimentos existentes na altura. Assim, apesar de começar a despertar a noção de que existia um passado enterrado, que podia ser estudado e interpretado, as investigações estavam ainda limitadas por preconceitos e pela falta de conhecimentos sobre o próprio passado. Refletindo um fascínio pela Antiguidade Clássica, os eruditos quinhentistas (também chamados de “humanistas”) tentaram colecionar e, por vezes, até “forjar” (Fabião, 2011: 20), antiguidades romanas. Nesta altura, segundo este mesmo autor, os vestígios materiais tinham “um caráter meramente acessório”, pois questões agora tão valorizadas como a autoria e a originalidade, e outras tão condenadas como o plágio e a falsificação, não eram entendidas da mesma forma, pelo que estas práticas levaram à proliferação de falsos documentos e monumentos. Os vestígios materiais eram, para além disso, usados apenas como confirmação das informações contidas nos documentos e relatos já existentes (Fabião, 2011: 26), não se procurando aprofundar ou questionar as fontes documentais com base num estudo dos mesmos. Já na segunda metade do século XVI, André de Resende é um autor que se destaca pelo uso de um método diferente, criticando o uso sem critério das antiguidades monumentais, e recorrendo à leitura de inscrições e à observação direta de outros vestígios, conjugando-os com as fontes literárias. Estes esforços tinham, contudo, apenas o objetivo de relatar a História de um país, numa perspetiva de reconstrução dos acontecimentos, mas concentrando-se, muitas vezes, numa única época histórica, como a antiguidade romana. Um respeito crescente pelos vestígios materiais foi surgindo a partir desta época, pelo que durante o século XVIII a magnificência dos monumentos e as maravilhas artísticas continuam a ser o centro das atenções dos observadores (Fabião 2011: 81), apesar de novos pontos de interesse surgirem, nesta altura, em relação a vestígios arqueológicos mais associados à vida comum, mas que cativam pela sua representatividade enquanto testemunhos de ocorrências não habituais (como as ruínas 74 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga da cidade de Pompeia, vitimada pela erupção catastrófica do vulcão Vesúvio, no ano de 79). Não deixa de ser uma atração causada pelo caráter monumental dos vestígios materiais – não pela beleza e ostentação, mas pela dimensão da tragédia e destruição. Em Portugal, o interesse revelado pela conservação de vestígios materiais está também ainda, nesta época, centrado na vontade de os utilizar como ornamento do espaço urbano, como aconteceu com o templo romano de Évora, cujo terreno foi alvo de escavações para deixar a ruína exposta ao público como “emblema” da cidade (Fabião, 2011: 82). Os vestígios materiais passam, assim, a estar gradualmente mais acessíveis ao público, mas as questões arqueológicas ou o significado daqueles permanecem assunto de eruditos e escassamente acessíveis a outras pessoas. No sentido de tornar os vestígios arqueológicos fisicamente acessíveis a um público mais alargado, um novo movimento de caráter associativo e cívico surge em Portugal, nesta altura (mais propriamente, em 1849), virado para a escavação das ruínas de Tróia (ou “a Pompeia portuguesa”, como Fabião (2011: 86) a intitula) e a construção de um museu público para expor o espólio exumado. Formada nesta altura, a Sociedade Archeologica Lusitana tinha como objetivos de trabalho não apenas obter conhecimento sobre a História e a Geografia, como também o conhecimento de “costumes antigos”, revelando um certo interesse pela dimensão cultural (no sentido antropológico do termo) dos vestígios materiais. O espaço de museu é, neste caso, visto como um local de contacto entre o público e os vestígios arqueológicos, promovendo o acesso de mais pessoas aos mesmos, pois o objetivo seria, sobretudo, expor o espólio, não apenas armazená-lo ou conservá-lo. A procura do reconhecimento público do trabalho arqueológico transparece, de certa forma, nesta atitude, como se a exposição dos artefactos se tratasse de uma maneira de retribuir os apoios solicitados à comunidade. Podemos, assim, afirmar que o aumento da expressão pública da Arqueologia se procurou fazer, também, através de museus, apesar de os projetos em questão não terem sido totalmente concretizados por falta de alguns dos apoios solicitados, pelo que a divulgação dos resultados dos trabalhos foi feita, apenas, através de uma publicação. Na opinião de Carlos Fabião (2011: 105), a investigação arqueológica sobre a PréHistória, em Portugal, não nasceu num ambiente académico, mas sim num ambiente de técnicos de terreno. A Comissão Geológica de Portugal (criada em 1857) conduziu e 75 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga publicou alguns dos primeiros estudos arqueológicos que permitiram conhecer a realidade nacional em relação ao passado pré-histórico do território. A investigação tinha como principal propósito provar a existência de vida pré-histórica (ou a antiguidade da vida na Terra) e recolher provas materiais da mesma, atestando a evolução das espécies ao longo do tempo (sobretudo, da humana), pela atribuição ao Homem da produção de determinados artefactos encontrados. O significado antropológico dos vestígios materiais está implícito neste propósito da investigação. Eles não são vistos apenas como objetos em si mesmos, mas como o produto de uma vivência e relação com o meio, pela sua associação à vida humana em determinado contexto espácio-temporal. A realização do IX Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Históricas, em Lisboa, em 1880, demonstra claramente a relação estreita estabelecida entre as duas ciências, não só fora de Portugal, como já a nível nacional. Cinco anos mais tarde, a criação da disciplina de Antropologia, Paleontologia Humana e Arqueologia Pré-Histórica, na Universidade de Coimbra, reforça esta coesão entre a Antropologia e a Arqueologia na investigação e, agora, também na formação académica, em Portugal. Ainda nesta altura, uma nova consciência nacional toma forma, pois o desenho de um novo mapa político da Europa, com a formação de novos Estados nacionais, gera uma série de “tentativas de construção de Identidades Nacionais” (Fabião, 2011: 98) relativas aos diferentes países, como afirmação e simbologia da sua essência. Neste panorama, as tradições populares do espaço rural ganham uma crescente atenção, enquanto emblemas de uma identidade nacional. Por outro lado, o passado é usado como elemento de legitimação de fronteiras, e começa a ser entendido como responsabilidade social do novo Estado Liberal. Nesta altura, é valorizada, ainda, a prossecução do estudo da continuidade civilizacional entre o passado e o presente, sobretudo entre o Império Romano e a Europa contemporânea, ainda que o interesse pela época romana comece a esmorecer em detrimento de uma crescente valorização e curiosidade pela época medieval (Fabião, 2011: 123). Há também, à semelhança do que acontecia pelo resto da Europa, a tentativa de defender as origens da Nação em épocas mais remotas, como nos lusitanos, já que a cultura dominante era fortemente nacionalista (Fabião, 2011: 126). 76 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Por outro lado, começa a afirmar-se uma nova corrente de investigação: o positivismo, que busca a verdade sobre o passado com base no rigor científico e em documentos autênticos. Nos finais do século XIX, Francisco Martins Sarmento (1833-1899), formado não em Arqueologia mas em Direito, e em homenagem ao qual foi criada a Sociedade Martins Sarmento, que ainda hoje se mantém ativa, revelou-se como um dos mais importantes pioneiros da Arqueologia portuguesa, tanto pelo contributo que deu para a afirmação de uma entidade étnica (lusitana), numa dimensão histórica, como pela influência que exerceu sobre a geração seguinte (Fabião, 2011: 126), preferindo as escavações aos livros, como fonte de descoberta sobre as origens étnicas do povo lusitano. Os artefactos serviam para “sustentar a ideia de uma continuidade cultural de raiz lusitana” (Fabião, 2011: 132). Fabião (2011: 133) refere, ainda, um interesse por parte de Martins Sarmento em aprofundar o conhecimento do ambiente cultural dos lusitanos, incluindo costumes ligados ao culto de divindades e o culto dos mortos, através do estudo de monumentos funerários e epigrafia contida nos mesmos (sobretudo em aras votivas). Discutíveis e erróneas, algumas das suas conclusões vieram a ser contraditas, no entanto, mais tarde, por outros estudos, mas a intenção latente era de cariz cultural, sendo os seus interesses de natureza etnográfica (Fabião, 1999: 113). Dos estudos de Martins Sarmento destaca-se, sobretudo, a defesa da longa continuidade da cultura castreja enquanto afirmação da etnogénese lusitana no noroeste da Península Ibérica e a sua resistência face à ocupação romana, que adquiriu notabilidade numa sociedade que era, então, predominantemente nacionalista. Esta ideia acabou por suscitar interesse a nível internacional, e a atenção de futuros arqueólogos portugueses, também interessados em prosseguir estes estudos sobre a continuidade da cultura castreja (Fabião, 2011: 137), como comprova, por exemplo, o estudo de Manuela Martins (1993). Segundo Fabião (2011: 137), durante as décadas que se seguiram, foi abandonada a procura sobre vestígios de épocas remotas da existência do Homem no território nacional, para dar lugar à busca sobre as origens da nação. Segundo o mesmo autor (1999: 114), tal como acontece atualmente, as iniciais investigações de caráter etnográfico em Arqueologia serviram propósitos nacionalistas e “pretensões de afirmação 77 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga social”. Fabião defende, no entanto, que os paradigmas que marcaram a investigação arqueológica desde cedo assentaram em questões antropológicas, que determinaram a interpretação cultural dos vestígios. Na segunda metade do século XIX, surge a preocupação em conservar e proteger monumentos históricos, sob a ideia de que eles constituem um símbolo nacional, de acordo com o espírito nacionalista então dominante, defendendo, por isso, que a responsabilidade de o fazer cabe ao Estado. Neste contexto ideológico, os vestígios romanos foram desvalorizados face aos medievais, que eram considerados verdadeiramente nacionais. Por outro lado, os “pequenos objetos”, mais abundantes do que as tão consideradas “obras de arte”, no território nacional, eram também, de certa forma, desvalorizados na constituição de coleções por parte da aristocracia portuguesa, como faz notar Carlos Fabião (2011: 154, 155). Não será surpreendente, portanto, que as primeiras medidas de proteção tenham escolhido edifícios monumentais, como os mosteiros da Batalha e dos Jerónimos (por iniciativa de Mouzinho de Albuquerque). Esta postura face aos vestígios materiais revela um interesse pela monumentalidade e valor artístico dos mesmos, em detrimento do seu significado cultural. Em Portugal, no século XIX destaca-se, segundo Raposo (1999: 169), a falta de ensino e de museus, que condicionaram o avanço da investigação e divulgação em Arqueologia, não existindo museus para albergar e expor convenientemente as várias coleções já existentes. Os primeiros museus de arqueologia terão surgido apenas na segunda metade do século XIX, por iniciativa de arqueólogos (Raposo, 1999: 170), o que não surpreende, dado que estes eram os detentores de trabalhos de investigação e estavam a par da evolução dos estudos efetuados sobre os vestígios disponíveis. Nos finais desse século, os museus de vocação arqueológica, em Portugal, eram já em grande número (três nacionais, e dez regionais ou locais), sendo que apenas um deles era exclusivamente arqueológico. A nível nacional, José Leite de Vasconcelos (1858 - 1941) foi uma das primeiras personalidades que revelou interesse pelo património de caráter imaterial. Apesar de não ser formado em Arqueologia, mas sim em Medicina, foi a sua natural curiosidade em conhecer e registar aspetos culturais em comunidades rurais, pelas suas particularidades, 78 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga que o levaram a dedicar-se seriamente aos estudos arqueológicos e etnográficos, esboçando, em 1882, um projeto sobre as Tradições Populares de Portugal, no qual tencionava “desenvolver o estudo das mitologias, tradições populares e línguas de Portugal e da Galiza desde as eras mais remotas até hoje [então]” (Fabião, 2011: 159). A preocupação “romântica” deste investigador perante o risco de desaparecimento de tradições, práticas e objetos ligados à cultura rural fez surgir o desejo de criar um museu onde testemunhos materiais da mesma pudessem ser preservados, dando, assim, origem ao Museu Etnográfico Português, que, mais tarde (em 1897) mudou o seu nome para Museu Etnológico (supostamente, para não ser confundido com o Museu Etnográfico Colonial da Sociedade de Geografia de Lisboa, como Fabião (2011: 162) afirma. A divisão do espólio em duas secções, sendo uma delas a “arqueológica” (correspondente aos objetos representativos das origens até ao século XVIII), e a outra a “moderna” (Fabião, 2011: 162), dedicada à Etnografia, expressa a relação bipartida entre a Arqueologia e a Etnografia, atribuindo-lhes épocas distintas. A exposição estaria projetada para demonstrar os fatores de continuidade que estiveram na origem do povo português “desde a mais remota antiguidade” (Fabião, 2011: 162). O Museu Etnográfico teria, ainda, a ambição de “instruir” aqueles que desconheciam as suas próprias origens e as tradições culturais do seu país, procurando também incentivar artistas portugueses a seguir os modelos nacionais, de forma a dar-lhes continuidade cultural. Tratava-se, assim, tal como Carlos Fabião (1999: 116) afirma, de um projeto nacionalista, virado para a “construção de identidade nacional” (2011: 162), estando aqui visível o propósito cultural e formador dos museus de caráter arqueológico e etnográfico, enquanto agentes transmissores e continuadores de uma cultura. Depois de criado o Museu, o seu diretor, Leite de Vasconcelos, prosseguiu a investigação arqueológica e os estudos etnográficos (de observação, registo e recolha de testemunhos materiais), sob o lema positivista (Fabião, 2011: 163), por todo o País, para enriquecer as coleções do Museu, e criou, ainda, a revista Arqueólogo Português, para a publicação de notícias sobre sítios e artefactos reconhecidos e encontrados no território nacional. Estas atividades marcaram a Arqueologia portuguesa dos finais do século XIX e da primeira década do século XX. Outros estudos, como os de um grupo de trabalho liderado pelo naturalista Rocha Peixoto e o engenheiro Ricardo Severo, no norte de Portugal, sobre 79 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga castros, debruçaram-se também sobre um conjunto disciplinar vasto, no qual a Arqueologia fazia par com a História, a Etnografia e a Antropologia (Fabião, 2011: 167), denotando a importância dos estudos arqueológicos para o conhecimento do povo português, através de vestígios materiais, de acordo com os objetivos da sua publicação, Portugália. Nos finais do século XIX, a Arqueologia já detinha, em Portugal, vários museus recetores de coleções de âmbitos temáticos e geográficos diversos, mas ainda faltava, segundo Raposo (1999: 171) investir na sua articulação, havendo ainda um apelo social, que este critica, à manutenção dos espólios nos seus locais de origem, em museus de âmbito local, a par de uma vontade expressa de criar museus regionais que representassem essas realidades locais (como ilustra a proposta de Estácio da Veiga, por exemplo), a fim de evitar a sua “dispersão”, como terá defendido Rocha Peixoto (citado por Raposo, 1999: 172). Uma visão diferente terá tido José Leite de Vasconcelos, que logrou criar um Museu Nacional da área da Arqueologia, inicialmente designado por Museu Etnográfico Português, e depois por Museu Etnológico Português, revelando a ligação entre Arqueologia e Etnografia. A preferência por esta tipologia de museu era reflexo da ideologia vigente, nos finais do século XIX, predominantemente nacionalista, que valorizava a herança que os antepassados nos legaram. Os museus então criados e, em especial, o Museu Nacional, serviram de instrumentos de legitimação e institucionalização da atividade arqueológica, contribuindo para o reconhecimento da Arqueologia como uma disciplina científica. No período do Estado Novo, durante o qual a Arqueologia foi praticamente “ignorada” (Silva, 1999: 136), foram mais valorizados os organismos locais e regionais, tendo o âmbito temático passado a integrar, para além da Arte e da Arqueologia, a Etnografia, a História Local e até as Ciências Naturais (Raposo, 1999: 173), apesar de serem os testemunhos históricos das origens da nacionalidade a destacar-se como foco de interesse, nesta altura, que terá motivado a recuperação de castelos e igrejas (Silva, 1999: 136). O atraso na educação que caraterizou a época da Ditadura em Portugal (Raposo, 1999; Silva, 1999) terá sido responsável, por um lado, pela falta de profissionais 80 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga especializados em Arqueologia, visível no final desse período (Silva, 1999), e, por outro, pela falta de qualidade no serviço prestado pelos museus, que eram pouco aproveitados em termos científicos e culturais (Raposo, 1999). Segundo este autor, foi entre o final da década de 60 e inícios da década de 70 (do século XX) que os museus conheceram, em Portugal, um maior desenvolvimento. Na segunda metade do século XX, com efeito, e como Raposo (1999) faz notar, a maior parte dos museus existentes inclui coleções arqueológicas, entre coleções díspares, o que hoje já se encontra relativamente alterado. No século XX, destacaram-se investigações e a musealização de sítios arqueológicos de grande importância no panorama nacional, como as ruínas romanas de Conímbriga, cujo museu de sítio nasceu já na segunda metade do século, em 1962. Se estas ações terão tido, entre outros, o objetivo de afirmar o património monumental português junto de investigadores estrangeiros, das áreas da Arqueologia e da Antropologia (Fabião, 2011: 174), nas décadas compreendidas entre os anos 30 e os anos 60 foi o despontar da indústria turística (Fabião, 2011: 175) que terá motivado a valorização do património arqueológico, em Portugal. Até 1980, a atividade de investigação em Arqueologia não conheceu, no entanto, grande evolução, sendo acusada até de ser realizada com um certo amadorismo (Fabião, 2011: 179), dada a falta de técnicos especializados nessa área, em Portugal. Com a criação, em 1980, do Instituto Português do Património Cultural, e com a aprovação, em 1985, da Lei de Bases do Património Cultural, como Fabião (idem) defende, foi concedida uma nova atenção aos vestígios do passado, “alargando substancialmente o leque das realidades contempladas”. Várias iniciativas locais no sentido da investigação arqueológica demonstram o aumento da “consciência do valor do património como recurso económico local, sobretudo nas regiões do interior” (Fabião, 2011: 180). A administração central investiu grandemente na criação de centros interpretativos em sítios e conjuntos arqueológicos, e a formação de nível superior em Arqueologia começa a ganhar mais destaque nas universidades, permitindo efetuar um trabalho com maior rigor e correção, e com uma mais vasta perspetiva de análise, que permitisse ter em conta, não apenas aspetos materiais, como também os domínios imateriais da cultura subjacente aos vestígios arqueológicos. 81 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Também os movimentos cívicos a favor da proteção do património arqueológico, em detrimento de interesses económicos, tiveram expressão nesta segunda metade do século XX, gerando campanhas em diferentes regiões do país. A defesa do conjunto de arte rupestre do Vale do Côa, que, de ameaçadas pela construção de uma barragem, passaram a Património da Humanidade (em 1998), e a longa batalha pela proteção de importantes vestígios da época da ocupação romana em Bracara Augusta, face a vários projetos de construção e obras públicas, que proliferavam nesta altura, são dois exemplos ilustrativos de uma, ainda, certa fragilidade dos instrumentos de salvaguarda do património arqueológico, em Portugal. Devido à expansão que a atividade arqueológica conheceu a partir dos anos 80, aumentou também consideravelmente o número de museus com coleções de arqueologia (Raposo, 1999: 175). Braga encontra-se, nessa altura, entre os distritos que apresentam uma maior taxa de crescimento, entre 1973 e 1997 (idem). Em 1997, graças à ratificação da Convenção de Malta para a Proteção do Património Arqueológico, um acordo internacional, o Parlamento português reconheceu a importância da salvaguarda do património arqueológico, comprometendo-se a, no mínimo, promover o registo prévio à sua destruição. Atualmente, na opinião de Carlos Fabião (2011: 181), a “perspetiva nacionalista” já não paira sobre as investigações arqueológicas, apesar de existir uma consciência sobre a importância do património arqueológico na “construção das identidades locais, regionais e nacionais”. A promoção regional e local tem, agora, maior relevo, pela afirmação de singularidades locais, ligadas à cultura de comunidades mais reduzidas. No mesmo sentido, novos conceitos como o das paisagens culturais vieram assumir uma outra dimensão deste património, em “ligação com o ambiente e com as vivências das populações locais” (idem), não desvalorizando, no entanto, as vantagens económicas que um aproveitamento turístico do mesmo pode oferecer, sobretudo se existir uma boa articulação política de museus em rede. 82 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga II.III O potencial papel dos museus de Arqueologia na divulgação do património imaterial Ao contrário do que acontece com os bens arqueológicos imóveis (ou sítios), cuja destruição, por motivos imperiosos, é permitida por lei, após efetuado o seu registo, os bens arqueológicos móveis estão sob uma lei que obriga à sua conservação. Vários sítios são, no entanto, valorizados e musealizados. Mas, em Portugal, é nos museus que os bens arqueológicos móveis (sejam eles provenientes de trabalhos arqueológicos ou de achados fortuitos) devem, por lei, ser conservados, conforme instituído no artigo 14º da Lei-Quadro dos Museus Portugueses, através da qual está prevista a proteção desses bens pelo Estado. Por conseguinte, os museus apresentam-se como um local de reserva de bens arqueológicos móveis. Geralmente, estes bens adquirem valor social, ou patrimonial, apenas após adequada investigação científica que ateste esse valor, dado serem provenientes de épocas mais remotas. Por outro lado, ao contrário dos objetos de arte (que apelam à imaginação e ao sentido estético) e dos objetos etnográficos (que estabelecem forte ligação com o presente, com a memória ainda viva de um passado recente, e com a experiência do quotidiano), os bens arqueológicos requerem mais do que a simples contemplação: para os interpretar e compreender é necessário conhecer o seu contexto, e nisso reside o desafio dos museus de Arqueologia face às suas coleções, obrigando a que as reservas sejam mais do que meros armazéns (Raposo, 2009: 100). Assim, e tal como definido pela Lei-Quadro dos Museus Portugueses, as funções dos museus são, para além do estudo e investigação, da incorporação, do inventário e documentação, da conservação, e da segurança, a interpretação e exposição, e a educação. Os resultados do último estudo publicado sobre museus em Portugal - O Panorama Museológico em Portugal [2000 - 2003], levado a cabo pelo Observatório das Atividades Culturais, indicam a existência de 33 museus de Arqueologia no nosso país, para além de vários outros que, não sendo apenas de Arqueologia, também contêm, entre outras, coleções dessa natureza. Entre os de maior dimensão, encontram-se o Museu Nacional de Arqueologia (situado em Lisboa), o Museu D. Diogo de Sousa (de estatuto regional, em Braga), e o Museu Monográfico de Conímbriga (um museu de sítio). 83 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Para Raposo (2009: 78), os dados fornecidos pelo Inquérito aos Museus em Portugal, de 1998, e pel’ O Panorama Museológico em Portugal, referente ao período de 2000 a 2003, não refletem com exatidão a realidade da representatividade dos museus de Arqueologia em Portugal. O levantamento de dados conduzido em 1998 dá conta de um total de vinte museus (correspondendo a 4% do total de museus em Portugal), e o estudo de 20002002 aponta a existência de trinta e três museus de Arqueologia no País (representando 5,6% do total de museus). Existirão, de facto, em Portugal, tal como Raposo (idem) defende, mais museus com coleções de Arqueologia, por vezes até maioritárias, mas que não se reconhecem como museus de Arqueologia, mas sim como museus mistos ou como museus de História. Tal como a criação do Instituto Português de Museus (IPM), em 1993, foi um marco importante na gestão do património material (ou os bens móveis do Património Arqueológico), o surgimento do Instituto dos Museus e da Conservação (resultante da fusão do Instituto Português de Museus com o Instituto Português de Conservação e Restauro) e do seu Departamento de Património Imaterial, em 2007, foram determinantes para dar forma a políticas de preservação, documentação e promoção do património imaterial. Apesar da criação destes serviços derivados do governo central, a política de gestão dos museus tem sido, aparentemente, desajustada às realidades locais e particularidades dos museus, na opinião de Virgílio Correia (2008-2009), que aponta a excessiva centralização do poder de decisão e de atuação e, subsequente, inoperância dos institutos públicos, face às necessidades reais dos museus, atrasando o desenvolvimento dos seus projetos. A relação entre a investigação arqueológica e a atividade museológica envolve uma colaboração bilateral entre arqueólogos e museus, na qual os primeiros se ocupam da entrega do conjunto completo de vestígios, devidamente documentados e contextualizados, colaborando, também, na investigação, exposição e divulgação das coleções; e os segundos oferecem condições de armazenagem, catalogação e inventariação, arquivo de documentação, e divulgação de coleções, dando continuidade ao trabalho de investigação e interpretação. Os museus poderão, ainda, funcionar, face 84 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga aos sítios arqueológicos, como “centros interpretativos” (Correia, 2008-2009), que ajudem a interpretar esses vestígios, gerindo com eficácia recursos técnicos e humanos, assim como a procura turística. Para este autor, essa será uma forma de melhor gerir o património, mas também de valorizar a identidade cultural e fomentar o respeito pelo passado, já que os museus são, segundo ele, “instituições de memória”. As questões de financiamento de projetos de investigação arqueológica, em Portugal, muitas vezes limitativas em relação à sua duração, a que estão sujeitas as entidades científicas tradicionais, como os Centros de Investigação e as Universidades, reforçam o papel dos museus, face à tutela e salvaguarda dos materiais e seus registos, assim como o de dar continuidade aos estudos ao longo de sucessivas gerações, se necessário e justificável. Os museus serão, ainda, as instituições mais vocacionadas para desenvolver a comunicação sobre os vestígios arqueológicos, promovendo a articulação entre eles e a sociedade, dada a sua função cultural e educativa. Os métodos utilizados e as conclusões resultantes das investigações arqueológicas, considerando a sua evolução, demonstram uma clara preocupação com aspetos culturais, fornecendo importantes informações sobre a forma de vida em diferentes épocas da existência humana. Essa informação, sendo válida do ponto de vista científico, é uma fonte de conhecimento que pode ser legitimamente transmitido pelos museus que detêm os testemunhos materiais dessas culturas, que servem, por sua vez, de símbolos ilustrativos das mesmas. Os museus de Arqueologia apresentam a particularidade de poder expor e dar a conhecer à sociedade, e de forma equitativa, culturas ancestrais que outro tipo de museus (como os etnográficos) não permitem abordar, dada a natureza mais recente do seu espólio. Para Raposo (2009: 76), a Arqueologia é “o mais democrático dos patrimónios” porque “os bens arqueológicos existem em todo o lado, da aldeia à cidade, literalmente debaixo dos nossos pés, e preenchem um amplíssimo leque de expressões sociais, que vão (…) do mais pequeno objeto móvel ao monumento megalítico, ao castro e ao castelo”. 85 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Estes fatores justificam, de certa forma, a proximidade existente entre a Arqueologia e a Etnografia, apesar de existirem importantes diferenças entre as duas disciplinas. Na opinião de Raposo (2009: 76), essas diferenças abonam a favor da Arqueologia, pois a distanciação no tempo permite estabelecer associações entre objetos e traços culturais entre diferentes épocas históricas, encontrando reflexos culturais, como as existentes entre “a lucerna romana, o candil islâmico, a candeia medieval e a lamparina que ainda vemos em casas ou em mercados rurais”. Na mesma linha de pensamento, e em termos patrimoniais, serão as mais antigas a adquirir mais facilmente o estatuto de “património” por serem coletivamente mais valorizadas, sendo que, segundo o mesmo autor, a nível pessoal tendemos a valorizar mais os testemunhos materiais que associamos a memórias familiares, mas a nível coletivo valorizamos mais aquilo que está mais distante no tempo, porque os vestígios do passado constituem “plataformas mais comuns de identificação no plano coletivo” (Raposo, 2009: 76). Num museu de Arqueologia, os objetos expostos são o principal testemunho de um passado mais remoto, de há, pelo menos, cinquenta anos atrás. Mas é relativamente à Pré-História que estes vestígios são de extrema importância, dado que são o único tipo de fonte disponível para conhecer a forma como o ser humano vivia e se relacionava com o meio antes de existirem registos escritos. Os artefactos são usados para interpretar uma determinada cultura e perceber de que forma têm diferentes culturas evoluído até ao presente. A musealização de vestígios arqueológicos não levanta questões de “fossilização”, que são, sobretudo, de caráter temporal, pois os achados pertencem a épocas relativamente remotas, já sofreram uma evolução e, portanto, não possuem o mesmo significado ou caráter utilitário, no presente. Eles são, como Correia (2008-2009: 50) afirma, “etnografia de sociedades mortas”. O facto de os vestígios arqueológicos poderem pertencer a “sociedades mortas” não garante, no entanto, que as representações criadas desse passado cultural, num contexto de borderzone2, correspondam a uma visão fidedigna daquele, quando efetuadas sem rigor científico e/ou histórico. Essa visão pode, mesmo, cristalizar-se ou fossilizar-se, dificultando que novas 2 Conceito analisado no capítulo I.IV. 86 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga interpretações, mais fidedignas, sejam aceites pelo público que assiste a tais representações. Os museus são, aliás, as instituições onde deve ser entregue o espólio arqueológico recolhido pelos arqueólogos, no seu trabalho de campo, e, de preferência, estando estabelecido desde o início das escavações o destino do mesmo, para uma melhor articulação entre os dois espaços e os diferentes profissionais e respetivas áreas de atuação, como a conservação e o restauro, a documentação, o registo, o inventário e demais investigação para melhor estudar os vestígios, preservá-los, valorizá-los, expô-los e dá-los a conhecer. Sendo museus de caráter científico, os museus de Arqueologia consideram relevante para fins de investigação todo o material recolhido numa escavação e toda a documentação existente. Tal não significa, no entanto, que todo o material em questão será alvo de exposição. Ele contribui para estudar todo o conjunto e obter conclusões cientificamente fundadas e, portanto, mais válidas, que permitem também conhecer o contexto histórico-cultural dos vestígios e, portanto, o património imaterial a ele associado, o que não significa que a interpretação que fazemos dos bens arqueológicos possa ser considerada “património”. A dimensão imaterial dos objetos é distinta de património imaterial. A musealização de sítios arqueológicos oferece, sobre os museus, as vantagens do contacto “direto” com os vestígios do passado, nos seus respetivos contextos, podendo além disso ser espaços refuncionalizados (Raposo, 2009: 77), com ou sem fins turísticos. Mas, comparados com os sítios musealizados, os museus oferecem a vantagem de promover “a integração do particular em visões mais amplas”, permitindo também que o visitante se confronte com “a aura do objeto do passado” (idem), e descubra o seu significado, criadas as condições e os serviços adequados a essa experiência. Por outro lado, a exposição dos artefactos não terá, no âmbito do património imaterial, a mesma posição central que detém o património material, apesar de os vestígios materiais servirem de testemunhos dessa cultura imaterial, ajudando a interpretar a mesma, dentro de um modelo de educação não formal que os museus devem conduzir para o público, adaptando a forma de comunicação utilizada aos distintos tipos de visitantes. A divulgação do património imaterial deverá privilegiar a 87 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga transmissão de saberes e da reprodução e experimentação, com as subjacentes mutações naturais decorrentes da evolução cultural e social, para que faça sentido na atualidade em questão. Numa abordagem que inclui a experimentação e a reprodução, os artefactos podem, ainda, adquirir uma maior relação com o presente ao serem reutilizados e reinterpretados na cultura atual. Através da produção de réplicas e recriações neles inspiradas, os artefactos adaptam-se ao presente. Uma moeda romana, por exemplo, utilizada na época de origem como instrumento de pagamento em trocas comerciais, pode ser, na atualidade, enquanto réplica, incorporada num ornamento ou numa peça de joalharia, não deixando de fazer, simultaneamente, parte do património cultural material, por representar um objeto utilizado num contexto cultural ancestral, mas também imaterial, por representar uma determinada forma de estar e de interagir dentro dessa mesma cultura, ou mesmo a técnica e os saberes envolvidos na sua produção. Da mesma forma, a réplica de uma ânfora utilizada para transportar vinho ou azeite, na época romana, poderia servir, atualmente, de peça de arte decorativa num espaço doméstico. Independentemente da forma como a herança cultural prevalece ao longo do tempo histórico-cultural, o estudo contextualizado dos vestígios arqueológicos permite, geralmente, concluir que eles testemunham um passado que ainda encontra eco no presente, porque eles representam uma etapa do processo da nossa evolução (seja ela positiva ou negativa). As técnicas de produção artesanal (em barro, por exemplo) e a gastronomia (destacando-se no caso português, em particular, a cozinha mediterrânica) ilustram bem o alcance temporal que uma herança cultural de caráter imaterial pode atingir, porque sobrevive graças à memória coletiva, que serve de veículo de transmissão. Um museu de Arqueologia tem, nesse sentido, e quanto ao património imaterial, um duplo papel: o de salvaguarda e preservação (através do trabalho de investigação e de inventário, e da aplicação de técnicas de conservação e restauro dos vestígios materiais), e o de divulgação e transmissão de conhecimentos a que os vestígios materiais estão associados, através da dinamização de atividades de interpretação e de teor prático e experimentativo, no âmbito da sua ação educativa não formal e lúdica. 88 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga III. O Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa na divulgação do Património Imaterial III.I O Museu D. Diogo de Sousa: caraterização A história do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, o segundo maior e mais importante museu de Arqueologia em Portugal, leva-nos a percorrer um caminho que se inicia na época em que a Arqueologia nasceu (século XIX), passando pelo período em que diversas abordagens floresciam e convergiam no campo da investigação arqueológica (século XX), e a compreender de que forma os vestígios e artefactos nele agora expostos (século XXI) chegaram até nós, os critérios que subjazem à forma como são apresentados e divulgados ao público, e a visão que transmitem sobre o património cultural imaterial. III.I.I Enquadramento geográfico e sociocultural do Museu Localizado na cidade de Braga, sede do mesmo concelho, na província do Minho, e região noroeste de Portugal, este museu insere-se numa localidade marcada pela forte atividade comercial, pela expansão urbana e o crescimento populacional, sobretudo de idade jovem, que justificou a sua eleição como Capital Europeia da Juventude, para o ano de 2012. Em 2011, o Concelho possuía 181 819 habitantes, numa área com cerca de 184 km2, que corresponde a uma elevada densidade populacional de 991,38 habitantes/km 2. Entre 2001 e 2011, o município de Braga apresentou a maior taxa de evolução da população, entre os 25 (de 84 municípios que constituem a região norte - NUT III) que registaram um acréscimo na população residente, contrariando a tendência geral nesta região. No contexto de políticas sub-regionais de desenvolvimento e de mobilidade, a cidade de Braga é sede da Grande Área Metropolitana do Minho (GAM), a terceira maior do país, que é constituída pelos concelhos de Amares, Barcelos, Braga, Cabeceiras de Basto, Celorico de Basto, Esposende, Fafe, Guimarães, Póvoa de Lanhoso, Terras de Bouro, Vieira do Minho, Vila Nova de Famalicão, Vila Verde e Vizela, que no seu total contabiliza cerca de 800 000 habitantes. Atualmente, a nível de vias de acesso e de redes de transporte, a cidade possui um leque de opções diversificadas, que a ligam fácil e rapidamente às principais cidades do 89 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga país, através de uma rede viária e rodoviária nacional, assim como às localidades limítrofes e ao país vizinho. A par destas condições, a cidade oferece um conjunto satisfatório de serviços de informação e de acolhimento de visitantes e turistas (oferta hoteleira e restauração), para além de vários pontos de interesse turístico, incluindo museus, sítios arqueológicos, espaços naturais e património edificado de índole religiosa, refletindo o seu caráter fortemente religioso, que marcou, e ainda marca, a história de Braga, enquanto antigo e importante centro religioso de Portugal. Braga está inserida numa região que atrai, sobretudo, pela sua gastronomia, património edificado, festividades e paisagens, um pouco à semelhança daquilo que acontece no resto do País. No entanto, a oferta cultural da cidade não reflete totalmente as suas potencialidades, carecendo de eventos regulares ao longo do ano e de atividades que dinamizem os locais de interesse. No quotidiano, a cidade apresenta um ambiente dinâmico, no qual convivem o antigo e o moderno, e um estilo de vida marcadamente atual e cada vez mais cosmopolita, grandemente influenciado pela atividade universitária. A conjugação destes fatores dota o Museu D. Diogo de Sousa de um potencial vasto público, sobretudo da população jovem estudantil, num contexto educativo, proveniente das variadas localidades que integram o distrito de Braga, mas também dos vários e próximos distritos vizinhos. Visitantes e turistas oriundos de outros pontos do País e do estrangeiro, usualmente visitantes sazonais da região e da cidade, apresentamse como público a considerar e a atrair através de adequadas formas de promoção e divulgação. III.I.II História do Museu e das suas coleções As coleções do Museu D. Diogo de Sousa são, essencialmente, constituídas por espólio resultante da investigação arqueológica sistemática efetuada na região Norte, sobretudo no concelho de Braga, e o seu conjunto abarca um vasto período cronológico e cultural, desde o Paleolítico até à Idade Média. Mas é sobretudo a época da ocupação romana da cidade de Braga, então designada de Bracara Augusta, que domina, não só pela importância que este período teve no passado histórico e cultural desta cidade, assim como da romanização no percurso da História Peninsular e Mundial, mas também 90 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga pelos numerosos e significativos vestígios que têm sido encontrados, à medida que são feitas intervenções no solo desta cidade. A consciencialização e a preocupação crescentes em relação à salvaguarda do património cultural, e a iniciativa das instituições e da comunidade, permitiram que estes vestígios não fossem destruídos, obrigando à paragem de obras para que o trabalho arqueológico de salvamento fosse concretizado. Importa, assim, conhecer as condições locais que envolveram a descoberta desses achados, a evolução do trabalho de investigação arqueológica mais significativo que foi feito nesta cidade e nesta região, e que contribuiu grandemente para a formação do importante espólio que pertence ao Museu e à comunidade, e a sua musealização. O interesse pelos vestígios materiais do passado bastante remoto desta região começou a evidenciar-se, sobretudo, a partir do século XIX, com o nascimento da Arqueologia. Alguns estudiosos, como Martins Sarmento, Albano Bellino, Mário da Cunha Cardoso, Alberto Sampaio, ou Rui de Serpa Pinto, contribuíram para a divulgação de sítios, reuniram coleções de objetos e escreveram sobre a Arqueologia de Entre-Douro e Minho. Mas foi a figura que inspirou o nome deste museu quem deu um contributo fundamental para a recolha dos testemunhos arqueológicos mais antigos da cidade de Braga que se encontravam dispersos. D. Diogo de Sousa (1461 - 1532), nomeado arcebispo de Braga em 1505, tinha formação humanista e longa permanência em Roma. É visto como o precursor do salvamento de Bracara Augusta, tendo sido também responsável por importantes medidas de remodelação urbanística na cidade de Braga. A ele são atribuídas as primeiras preocupações com a salvaguarda do património em Braga, nomeadamente a recolha de marcos miliários provenientes das vias romanas existentes em torno da cidade, e outras inscrições (Nunes, 1996), atualmente integrados na exposição permanente do Museu, mas outrora reunidos à volta da Capela de Santa Ana, como demonstra um mapa desenhado por Manoel Barbosa, e publicado por Georgius Braun (ou Bráunio), na sua obra sobre “as cidades mais importantes da Europa”, onde aparecem também outros vestígios de Bracara Augusta, como o fórum, muralhas e necrópoles (Nunes, 1996). Apesar dos valores que emergiram durante essa época (renascentista) a favor da proteção do património, e das ações isoladas desenvolvidas ao longo dos três séculos que 91 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga se seguiram, a falta de uma instituição de caráter museológico que albergasse e congregasse esforços pela defesa dos achados arqueológicos ainda dispersos pela cidade não permitiu uma evolução significativa no sentido de uma adequada salvaguarda dos vestígios achados. O mesmo implicou que todo esse património não se encontrasse ainda disponível ao público. Em 1899, Albano Bellino tomou a iniciativa de instalar o seu museu particular, numa loja que pertencia ao antigo Paço Arquiepiscopal, constituindo um núcleo de Arqueologia, com base em aquisições e ofertas de particulares e da própria Câmara, mas poucos anos mais tarde, após a sua morte, em 1906, este espólio foi doado à Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães. Foi, então, em 1918, já após da implantação da República em Portugal, e com o desenvolvimento de uma política de proteção patrimonial, que foi criado o “Museu de História da Arte e Arqueologia”, a primeira versão do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, que ficou instalado no Paço Arquiepiscopal de Braga, e gerido pela Câmara Municipal de Braga. No entanto, a falta de condições várias impediu que este museu mantivesse um funcionamento regular até 1980. Havia, contudo, sido dado um passo importante para a salvaguarda dos vestígios já reunidos, combatendo a dispersão do património local até então na posse de particulares e outras instituições, e o Museu foi ganhando o apreço da comunidade, que contribuiu com depósitos e doações para o seu espólio, que foram integrados na Exposição Permanente do Museu. O ato de depósito não é, no entanto, irreversível, dado que os depositantes mantêm em seu nome o título de propriedade dos mesmos objetos; o Museu apenas os acolhe, preserva e dá a conhecer. Um desses exemplos é J. J. Rigaud de Sousa, professor e investigador, considerado pioneiro na defesa e preservação do património local, que incentivou o desenvolvimento da Arqueologia bracarense, e que, em 1973, foi nomeado Conservador adjunto do Museu, elaborando, então, o primeiro inventário das suas coleções. Tendo estudado, especialmente, as mais remotas épocas da região bracarense, publicou obras sobre esta e outras temáticas e dirigiu as primeiras escavações na região. Foi membro de diversas sociedades científicas, entre as quais o movimento CODEP (Comissão de Defesa e Estudo do Património) / ASPA (Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património 92 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Cultural e Natural), o qual, em 1976, contribuiu para o início da operação de salvamento de Bracara Augusta. J. J. Rigaud de Sousa procurou impedir a destruição sistemática dos vestígios romanos, propondo à Junta Nacional de Educação, em 1973, a criação de uma espécie de zona histórica e arqueológica protegida, em Braga, com os limites: Campo da Vinha e Rodovia, Avenida da Liberdade, Rotunda de Maximinos e Rua da Cruz de Pedra (Alves et al., 1977), mas esta nunca chegaria a ser publicada (Martins e Lemos, 1998). A necessidade de proteger o património em risco devido à expansão urbana de Braga, em meados da década de sessenta, motivou a criação do Campo Arqueológico de Braga, numa ação conjugada da Universidade do Minho e da CODEP. Este foi o primeiro projeto que formou uma equipa de trabalho permanente, a cargo da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho (UAUM), com o objetivo de salvar o património arqueológico de Bracara Augusta – os monumentos e estações arqueológicas que se encontravam em risco devido ao aumento de planos de construção na cidade, tendo também em vista o seu estudo científico e a sua divulgação cultural. Este Campo operou até 1980, dando depois origem a duas novas instituições, que passaram a funcionar em articulação com a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, criada em 1977: o Serviço Regional de Arqueologia do Norte, encarregue da cartografia e do salvamento do património arqueológico, e o Museu Regional de Arqueologia D. Diogo de Sousa, ao qual cabia conservar e fazer a exploração museológica dos vestígios encontrados. A Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, tendo integrado os quadros técnicos superiores, ficou incumbida de conduzir o tratamento científico dos resultados, enquanto o Museu D. Diogo de Sousa, no ano da sua revitalização (1980), absorveu os restantes técnicos que operavam no Campo Arqueológico de Braga. Face à descoberta de um significativo património que este trabalho arqueológico proporcionou, impôs-se dotar o Museu de um quadro de pessoal técnico habilitado e de condições materiais adequadas à preservação dos vestígios encontrados. A maioria destes técnicos, que fez parte da equipa que havia trabalhado no Campo Arqueológico de Braga, foi inicialmente formada através da prática e dos ensinamentos que recebeu da orientação dos arqueólogos da UAUM, de estágios no Museu Monográfico de Conímbriga e na delegação de Lisboa do Instituto Arqueológico Alemão. O pessoal técnico 93 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga responsável pelo trabalho de restauro completou a sua formação académica superior; os restantes foram fazendo percursos escolares e académicos distintos. Com a sua revitalização, em 1980, e dispondo de técnicos especializados, o Museu Regional de Arqueologia D. Diogo de Sousa foi redefinido como um organismo cientificocultural no âmbito disciplinar de Arqueologia, dependente da Administração Central, com uma natureza e objetivos específicos nos domínios do apoio à investigação, da museologia, da divulgação cultural, do apoio ao ensino e à defesa e preservação do património arqueológico local e regional. A sua “segmentação” no domínio da Arqueologia implicou, por isso, também uma nova seleção de espólio antes de ser criado o espaço expositivo, na procura de um discurso expositivo mais coerente e significativo, o que demonstra que aspetos como o significado histórico-cultural e a representatividade dos vestígios se sobrepuseram a questões de valor material ou “artístico”. Entre 1980 e 2006, a atividade de divulgação do Museu ficou, no entanto, condicionada pela inexistência de espaços expositivos abertos ao público, por o seu quadro de pessoal se ter concentrado e especializado sobretudo no setor tecnicolaboratorial, e por estar enquadrado num projeto de Arqueologia urbana. No entanto, a prestação de apoio à investigação e a outros organismos afirmou este Museu como um importante centro dinamizador da preservação e valorização de sítios e coleções. Em Junho de 2007, o Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, abriu, finalmente, ao público, de forma regular e programada, nas novas instalações estrategicamente projetadas para a zona arqueológica mais representativa e mais bem preservada da cidade romana de Bracara Augusta (Fig. 1), junto a alguns núcleos de ruínas arqueológicas, também visitáveis, como as termas romanas do Alto da Cividade (dos inícios do século II), o cruzamento sul entre o decumanus maximus e o cardus maximus um troço bem conservado de uma grande cloaca (rede de esgotos) da época de Augusto, que foi conservado no interior da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, ou ainda a marcação no pavimento das estruturas arqueológicas romanas detetadas no arranjo do Largo de São Paulo. Esta localização permitiu o reordenamento da área envolvente e a articulação do Museu com os núcleos de ruínas que podem integrar um circuito de visita dos vestígios da cidade romana. 94 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Fig. 1. Museu D. Diogo de Sousa (direita), Termas Romanas e Teatro Romano (esquerda) Também no local onde foram edificadas as novas instalações do Museu, durante as escavações arqueológicas que precederam a construção do edifício, foram encontrados vestígios de uma construção do século I, com a particularidade de ter um mosaico romano. Devido à elevada acidez que carateriza o solo em Braga, este tipo de achado raramente se preserva, por isso procedeu-se à sua integração nas instalações do Museu, no espaço-cripta do bloco de serviços, como parte da Exposição Permanente (Fig. 2). Fig. 2. Mosaico romano conservado in situ O Museu D. Diogo de Sousa ficou, desde essa altura, dependente do Instituto dos Museus e da Conservação, criado em 2007, e do Ministério da Cultura, integrando ainda a Rede Portuguesa de Museus e o conjunto de Museus do Eixo Atlântico. Uma nova política de atuação cultural a nível nacional veio permitir que, para além dos trabalhos de inventário, técnico laboratorial e de apoio à investigação, o Museu 95 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga passasse a desenvolver a atividade de comunicação e divulgação de valores patrimoniais, abrindo-o à comunidade e reforçando o seu papel de agente cultural, através da dinamização de diversas atividades educativas e do apoio a eventos cientifico-culturais. III.I.III As coleções do Museu As coleções do Museu são constituídas por dois grandes núcleos – os antigos achados, maioritariamente materiais líticos epigrafados, sem contexto arqueológico preciso, e as coleções que ingressaram neste museu após 1980, enquadradas em projetos de investigação arqueológica de âmbito local e regional. Relativamente a estas últimas, o Museu dispõe de informação associada aos respetivos contextos arqueológicos, o que constitui uma mais-valia para o conhecimento da ocupação mais antiga da região. Alguns desses sítios podem ser visitados, proporcionando uma oferta turístico-cultural mais integrada. Para além dessa ligação entre as coleções e os respetivos sítios de proveniência, as peças foram objeto de uma intervenção de restauro e valorização. Por motivos diversos, as coleções do Museu sofreram algumas alterações, que acabaram por gerar um conjunto expositivo mais coerente. De entre as peças que constituíam o acervo inicial do Museu, os bens artísticos foram depositados num outro museu da cidade de Braga, vocacionado para as artes decorativas, integrando-as de forma mais adequada à sua natureza. Parte do espólio arqueológico de natureza epigráfica acabou, no entanto, por ficar na posse de particulares, ou em instituições de natureza museológica, como o Museu da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães. O Museu D. Diogo de Sousa veio, contudo, a reunir um conjunto significativo de outras peças de natureza lítica epigrafadas, com o decorrer das intervenções arqueológicas feitas na região de Braga, que foram integradas na sua Exposição Permanente. Com efeito, graças a esta atividade arqueológica crescente e à revitalização do Museu, em 1980, o material arqueológico proveniente das escavações, das ações de salvamento, e de outros projetos de investigação efetuados em Braga, e no território em seu redor, foi depositado neste museu um grande e importante número de vestígios, que representam diferentes épocas históricas vividas na região norte do país. 96 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga A Exposição Permanente do Museu D. Diogo de Sousa é, assim, composta por cinco núcleos expositivos, repartindo-se por quatro salas, ordenadas de forma cronológica, de acordo com o período histórico que representam os vestígios que compõem as coleções, e o espaço-cripta do Museu, composto por um mosaico romano in situ. A Sala 1 (Fig. 3) contém vestígios que retratam o período da Pré e Proto-História do Norte de Portugal, subdividindo-se em cinco temas: A Pré-História antiga do Minho - O litoral, A Pré-História antiga do Minho - O interior, Os primeiros agricultores e pastores do Noroeste de Portugal: o Neolítico e o Calcolítico, A Idade do Bronze no Noroeste de Portugal, e A Idade do Ferro no Noroeste de Portugal. Na Sala 2 (Fig. 4), é retratada a Integração do Noroeste Peninsular no Império Romano, de acordo com três temas: O comércio a longa distância, A circulação monetária, e a Produção local – As indústrias artesanais. Na Sala 3 (Fig. 5), está representada Bracara Augusta, sob três aspetos: O urbanismo, Os espaços públicos, e O espaço doméstico. Também sobre Bracara Augusta, a Sala 4 (Fig. 6) retrata, contudo, outros aspetos: As vias, O mundo dos mortos, O sagrado, e Antiguidade Tardia. Fig. 3. Aspeto da Sala 1 da Exposição Permanente Fig. 4. Aspeto da Sala 2 da Exposição Permanente Fig. 5. Aspeto da Sala 3 da Exposição Permanente Fig. 6. Aspeto da Sala 4 da Exposição Permanente O Museu dispõe, ainda, de Exposições Temporárias, tanto na sala destinada para esse fim como noutros espaços do Museu, de acordo com o seu Programa de Atividades. 97 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga A exposição temporária mais significativa que o Museu albergou até ao momento foi Vita Vitri – O Vidro Antigo em Portugal, uma exposição itinerante. III.I.IV O papel do Museu no Circuito Arqueológico de Braga Em torno do Museu existem alguns núcleos de ruínas arqueológicas visitáveis, que constituem um circuito de visita, proporcionando uma melhor compreensão da ocupação antiga de Braga. A partir do momento da sua revitalização, e graças aos novos elos institucionais que dela advieram, o Museu D. Diogo de Sousa passou a deter uma ligação particular às ruínas arqueológicas da cidade de Braga, fazendo a sua divulgação e assumindo um papel de entidade mediadora e promotora junto da comunidade local. Muito do espólio que se encontra exposto no Museu provém destes sítios arqueológicos, pelo que existe entre eles uma relação que é evidenciada do discurso expositivo e nas atividades de interpretação dos artefactos. III.I.V A atividade de conservação e restauro A atividade técnico-laboratorial do Museu D. Diogo de Sousa é fundamental, tendo contribuído para a sua afirmação como promotor da articulação funcional entre os novos elos institucionais decorrentes da revitalização do Museu, nomeadamente com a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho e o Serviço Regional de Arqueologia da Zona Norte, e, mais tarde, o Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga. Esta função traduz-se na detenção de competência de intervir, a nível local, nos domínios da preservação e divulgação das ruínas e do espólio de Bracara Augusta, assim como a nível regional (Norte), no âmbito de projetos de salvaguarda e valorização do património arqueológico. Possui técnicos especializados e uma área específica de laboratório, onde é desenvolvida uma atividade técnico laboratorial regular, que inclui a conservação, o estudo e o restauro do espólio retirado das escavações de Bracara Augusta, quer de trate de salvamentos ou de locais em estudo. Estes técnicos dão, ainda, apoio à recuperação de achados provenientes de estações arqueológicas inseridas no Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos, ou de coleções depositadas em museus ou núcleos museológicos, muitos dos quais em processo de reestruturação. 98 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Este setor de atividade do Museu faz ainda o registo gráfico, fotográfico, e de inventário de peças, como complemento do trabalho de restauro das mesmas, com o intuito de elaborar catálogos, ou outras edições de caráter científico ou de divulgação (como os Cadernos de Sala e o Roteiro do Museu), cuja informação integra a base de dados do Museu. Nos casos em que os vestígios podem ser preservados no local, como acontece com as ruínas arqueológicas da cidade de Braga, o Museu contribui com apoio técnico para a sua conservação e valorização, estabelecendo núcleos que passam a integrar um circuito arqueológico de visita fora do Museu. A integração dessas ruínas na malha urbana atual permite ao público fruir desses espaços de uma forma consciente, fomentando a proteção e a valorização dos testemunhos patrimoniais que fazem parte da memória coletiva desta cidade. À semelhança do trabalho desenvolvido na cidade, o Museu apoia a valorização de sítios e núcleos de ruínas espalhados pela região, muitos dos quais beneficiando de fundos oriundos de programas de apoio comunitário. Desta forma, o Museu contribui para a criação de uma rede de sítios que podem integrar circuitos turísticos de cariz cultural. O Laboratório de Conservação e Restauro também abre ao público, no último sábado de cada mês, com visitas orientadas, no âmbito do programa “Sábados no Museu”, e como parte integrante do programa de determinadas oficinas lúdicopedagógicas. III.I.VI Atividades desenvolvidas A par do trabalho técnico, o Museu desenvolve, através do seu Serviço Educativo, um conjunto de atividades destinadas sobretudo ao público escolar, mas também à comunidade em geral, nas quais se incluem a organização de visitas guiadas à Exposição Permanente e às exposições temporárias do Museu, e às ruínas de Bracara Augusta, ou pontualmente, a outros locais de interesse arqueológico, como a Mamoa e Núcleo Interpretativo de Lamas, situado a 6 km de Braga. O Serviço Educativo (SE) medeia o contacto do público com o espólio arqueológico, valorizando o conhecimento e promovendo a ligação com as coleções do Museu. As atividades desenvolvidas seguem um programa estruturado, e são postas em prática por técnicos deste serviço. As atividades regulares incluem, para além 99 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga do acolhimento, visitas livres, visitas orientadas e visitas guiadas à Exposição Permanente, a organização de exposições temporárias de várias temáticas (sendo as mais frequentes relacionadas com artes plásticas e fotografia, com destaque para os habituais “Encontros da Imagem”), oficinas lúdico-pedagógicas, contos animados, jogos, workshops, festas de aniversário, programas de férias (Natal, Carnaval, Páscoa e Verão), “Sábados no Museu”, seminários, encontros, conferências, feiras do livro (das quais se destaca o “Natal do Livro”), concertos musicais (nomeadamente, aos sábados, a iniciativa “Saber Ouvir”, dedicada à música clássica), teatro (anualmente, o Museu acolhe parte do Festival Mimarte), entre outras atividades programadas de acordo com as especificidades dos diversos públicos (grupo etário, grau de ensino, objetivo da visita, necessidades especiais), e as épocas do ano, como celebrações anuais (Dia Internacional dos Museus e Noite dos Museus, entre outros), e os períodos de aulas e de férias. O Museu organiza, ainda, anualmente, uma atividade relacionada com a comemoração do Dia Internacional dos Museus – “No Museu Acontece… A Minha Escola Vai ao Museu Festejar o Dia Internacional dos Museus”, e coorganiza o “Torneio de Jogos Romanos de Tabuleiro”, também de frequência anual, e colabora com as escolas e outras entidades no apoio à investigação e ao desenvolvimento e divulgação de projetos, cedendo espaços para atividades desenvolvidas, entre outros. Quando devidamente enquadradas, desenvolve também outras atividades, em escolas ou para grupos organizados, que tenham em vista a divulgação da metodologia específica de trabalho inerente ao setor laboratorial. A ação do Serviço Educativo é complementada com materiais e recursos de apoio lúdico-didático, e auxiliares da visita, na sua maioria criados pelo próprio, que ajudam a contextualizar e a interpretar o espólio da Exposição Permanente: maquetas, quadros multimédia, caixas móveis de material arqueológico, histórias editadas em DVD, filmes didáticos em DVD, puzzles, folhetos didáticos e fichas de exploração pedagógica, fichas de sala e fichas informativas, jogos didáticos e jogos online, histórias infanto-juvenis, recursos documentais e publicações periódicas, entre outros), alguns deles elaborados em conjunto com autarquias ou outros organismos de documentação didática. Estes recursos permitem desenvolver estratégias de comunicação que visam uma mais ampla divulgação das temáticas ligadas ao património regional, sobretudo junto do público mais 100 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga jovem. O Serviço Educativo disponibiliza grande parte destes recursos online, para que possam ser previamente visualizados, selecionados e preparados pelos organizadores ou acompanhantes das visitas de grupo, e outros visitantes, de acordo com os objetivos da visita e o público-alvo. As histórias editadas em DVD destinam-se à exibição interna, no Museu. No entanto, diversos jogos sobre a atividade arqueológica e o espólio do Museus estão disponíveis online. III.I.VII Instalações, equipamentos e serviços O atual edifício onde está instalado o Museu D. Diogo de Sousa, construído de raiz, numa zona de interesse arqueológico, dotou-o de instalações modernas e de condições físicas de usufruto acessíveis e aprazíveis. Os espaços destinados ao uso ou visita do público incluem, para além das quatro salas da Exposição Permanente, de uma sala de Exposição Temporária, e de um espaço-cripta (que exibe uma ruína de mosaico romano, integrada na Exposição Permanente), duas salas do Serviço Educativo, um auditório, um laboratório de conservação e restauro, biblioteca, reserva, um amplo jardim com espaços verdes e um espaço para a realização e apresentação de eventos, de inspiração romana, complementados por uma loja e uma cafetaria. O Serviço Educativo criou, ainda, dois espaços cénicos que retratam diferentes períodos históricos: o “Espaço Romano” – uma sala onde é recriado um triclinium, entre outros elementos da cultura romana; e uma recriação do habitat da Pré e Proto-História, onde estão representados espaços de abrigo e várias atividades de subsistência dessa época. Os espaços de exposição, assim como outros de uso público, estão equipados com recursos multimédia que auxiliam a interpretação das coleções e proporcionam uma interação com as mesmas. O equipamento multimédia inclui ecrãs tácteis, plasmas, monitores e ecrãs com computador para interação. III.I.VIII Comunicação e promoção turístico-cultural O Museu desenvolve variadas estratégias de comunicação e de divulgação das suas coleções, atividades e serviços, procurando adaptá-las ao público-alvo. O seu Programa Mensal de Atividades, assim como eventos e espetáculos (musicais, expositivos, teatrais, entre outros), são divulgados através da imprensa 101 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga regional e nacional, da Agenda Cultural da cidade de Braga, do seu website, da sua página na rede social facebook, da exposição de cartazes e da disponibilização de folhetos no Museu. A divulgação do Programa Anual de Atividades do Serviço Educativo do Museu era, inicialmente, feita através do website do Museu e da publicação de um folheto/guia de programação bastante completo e informativo, mas o programa referente ao ano letivo 2011/2012 foi já divulgado através de uma nova estratégia: o mailing, enviando para Escolas e Agrupamentos de Escola (o principal público-alvo deste serviço), por correio eletrónico, o Programa em formato digital, no início do ano letivo. As coleções do Museu são divulgadas, sobretudo, no seu website, no Portal dos Museus do serviço Braga Digital, e no portal MatrizNet (uma versão MatrizWeb específica do Instituto dos Museus e da Conservação), a partir do qual é disponibilizado o catálogo coletivo on-line das coleções dos museus que fazem parte do IMC, com conteúdos em permanente atualização (http://www.matriz.imc-ip.pt/), assim como no Roteiro de Museus, do Instituto Português de Museus/Rede Portuguesa de Museus, no Roteiro Turístico de Braga – “A Nossa Terra”, no Mapa Turístico de Braga, e no Roteiro Turístico do Minho, “Minho em Mil Sugestões”. Os cartazes e os folhetos que são afixados no próprio museu destinam-se principalmente à promoção de eventos (como workshops ou colóquios), de atividades sazonais (como programas de férias), de exposições temporárias, e de espetáculos (musicais, e outros), dado o seu caráter não permanente. Para além destas, a publicação regular em papel consiste, essencialmente, no Programa de Atividades anual, que é distribuído no espaço do Museu, e no Posto de Turismo local, tendo uma tiragem bastante reduzida. A promoção do Museu D. Diogo de Sousa, das suas coleções e do património inerente é feita, também, através da comercialização de artigos disponíveis na sua Loja, cujo acesso é livre, dentro do horário de abertura do mesmo. O Museu disponibiliza, para compra, guias e roteiros sobre as exposições, e um DVD da autoria do IMC sobre as coleções do Museu, para além de material promocional. Os preços praticados (definidos pelo IMC) são, no entanto, pouco convidativos. Muitos dos produtos comercializados na Loja do Museu são inspirados nas suas coleções: réplicas de peças arqueológicas, em cerâmica, prata ou bronze; jóias; e jogos de 102 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga tabuleiro. Outros artigos, especialmente os de papelaria, são essencialmente promocionais. Para além das publicações, os artigos de produção artesanal do próprio Museu têm como principal objetivo divulgar o património cultural associado às coleções do Museu, aproximar o público do espólio, e facilitar a sua interpretação. Os projetos mais recentes nesse sentido são uma coleção de fantoches de mão que representam uma família romana, a família de Titus, uma série de kits que permitem a recriação de objetos e ferramentas caraterísticos de determinada cultura ou época, ou de atividades artísticas e culturais, e peças de vestuário de produzidas artesanalmente no Museu. Através do seu website, o Museu elucida, também, sobre as formas de acesso e de transporte para o Museu, para além de facultar informações úteis, como horários de funcionamento e de condições de acesso e de estacionamento. O Museu tem vindo a apostar, de uma forma crescente, no recurso às novas tecnologias da informação e da comunicação, para chegar ao seu público, em diversos âmbitos: na divulgação do Museu, das suas coleções, de eventos, de atividades e de serviços; na realização de marcações de visitas e de pré-inscrições em atividades; na procura de feedback sobre os seus serviços (na realização de um inquérito de satisfação online); no desenvolvimento de jogos interativos online, e de postais eletrónicos de divulgação do Museu, que podem ser enviados pelos visitantes do seu website; e na divulgação dos produtos comercializados na Loja do Museu, para além da troca de correio eletrónico para facultar informações sobre o Museu a as suas atividades. Estas estratégias têm sido eficazes, sobretudo pela forma direta e rápida, mas também atrativa, de comunicar com o público, para além de serem uma útil ferramenta de gestão de informação, mais ecológica, e sustentável, em termos económicos e de organização do trabalho. O recurso a outras línguas é fundamental para chegar ao visitante estrangeiro. O Museu recorre à tradução, em Inglês e Francês, dos Cadernos de Sala, que auxiliam a compreensão da Exposição Permanente. Todos os textos que acompanham a Exposição Permanente, incluindo as legendas, encontram-se traduzidos em Inglês. Por questões orçamentais, recursos como os multimédia das salas de exposição e vídeo do auditório não foram traduzidos. 103 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Elaborou, também, um folheto com informação mais resumida, em Inglês, Francês, Espanhol e Italiano, para turistas estrangeiros. O seu website também se encontra na versão inglesa, apesar de não estar completo, em comparação com a versão portuguesa, sobretudo a informação acerca das atividades desenvolvidas pelo Museu, os eventos e exposições temporárias, assim como os produtos à venda na Loja do Museu. Este é um aspeto a melhorar. O Museu não possui um departamento de comunicação, nem profissionais que trabalhem esses aspetos de uma forma permanente. No âmbito da sua colaboração com o Colégio Internacional de Braga – CLIB, o Museu beneficia de alguns serviços gratuitos de tradução (para Inglês), mas a sua ação é pontual, e não suficiente. A existência de um departamento de comunicação viria, não só dar resposta a esta necessidade de comunicação multilingue, mas também auxiliar no desenvolvimento de estratégias de comunicação, informação e divulgação, que, atualmente, é auxiliado através de trabalho de voluntariado, dadas as contingências de caráter financeiro. III.I.IX Público-alvo e procura Seguindo a tendência demonstrada pela maior parte dos museus nacionais (IMC, 2011), no Museu D. Diogo de Sousa o público escolar ocupa a maioria do número de visitantes que acorre ao Museu e que participa nas atividades por ele promovidas, pelo que este dirige a sua atividade de divulgação, especialmente, para o público local ou regional, adotando estratégias gradualmente mais eficazes de promoção e de comunicação. No entanto, o público estrangeiro é, de certa forma, negligenciado, por falta de recursos humanos e financeiros capazes de dar resposta às suas necessidades. Afortunadamente, este público estrangeiro é, por norma, culto e esclarecido, pelo que a visita orientada (sem presença de guia) é a estratégia mais utilizada com estes visitantes. Por outro lado, o facto de visitarem o Museu em reduzidos grupos (muitas vezes, constituídos por apenas duas pessoas), leva a que não sejam considerados como eventuais participantes em oficinas lúdico-pedagógicas ou workshops, por exemplo. Considero, no entanto, que um museu com esta dimensão deve ter em conta a procura externa, e adequar as suas atividades a este público, como forma de melhor o receber e estimular a sua visita, valorizando mais o aspeto turístico-cultural, não só porque acredito 104 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga que ele teria interesse em usufruir de outras atividades para além das visitas à Exposição, como também que o aspeto linguístico é o principal (senão único) entrave à sua execução, e, portanto, de relativamente fácil solução (recorrendo à formação adequada dos seus técnicos). Há também um público estudantil universitário, nacional e internacional, que pode ser tido em conta, sobretudo os de cursos relacionados com a Arqueologia, Património e Cultura, História, Arquitetura, entre outros, da Universidade do Minho, possibilitando a formação de grupos de participantes em atividades do Museu. III.I.X Apoio à investigação e divulgação científicas e à formação A nível científico, o Museu contribuiu durante vários anos para a edição dos Cadernos de Arqueologia, publicação de caráter científico sobre os estudos arqueológicos levados a cabo pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho. A partir de 1999, esta revista foi reformulada e passou a denominar-se Cadernos de Arqueologia – Monografias. Relativamente aos recursos documentais, a par dos materiais e recursos facultados pelo Serviço Educativo, a biblioteca do Museu disponibiliza, no horário de funcionamento deste, obras e publicações periódicas especializadas sobre Arqueologia, Património, Museus, e sobre as temáticas históricas e culturais associadas aos vestígios expostos no Museu, entre outras. Nela, também o público infantil e juvenil pode encontrar publicações adequadas a esta faixa etária, podendo ainda ter acesso a outras obras que pertencem à (ainda reduzida) biblioteca do Serviço Educativo. O Museu D. Diogo de Sousa presta, regularmente, apoio à formação, promovendo e auxiliando vários cursos de formação específica, acolhendo vários técnicos em regime de formação em exercício, em diversas áreas de intervenção, para os dotar das noções necessárias à realização de trabalhos concretos, e de formação no domínio da Conservação e Restauro, e do Desenho, mas também de outras áreas como o Turismo, a Animação Cultural e as Tecnologias da Comunicação. Procurando agir com base numa política de valorização patrimonial concertada a nível regional, que promova a verdadeira identidade cultural desta zona do país, este Museu tem vindo, ainda, a apoiar projetos de criação ou reestruturação de museus e 105 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga núcleos museológicos, para consolidar e melhorar a rede de infraestruturas de caráter museológico na Região, independentemente da sua dimensão e natureza institucional. Este apoio engloba trabalho laboratorial, de tratamento do espólio, entre outros aspetos mais específicos. À luz desta política de atuação, o Museu tem em perspetiva aprofundar a consolidação e a expansão de elos de cooperação com outros museus e demais organismos intervenientes ao nível do Património, abrir o Museu à Cidade e à Região para estimular o gosto e a fruição da sua memória coletiva, assim como estreitar as ligações com os profissionais dos domínios específicos da museologia e contribuir para a promoção de uma política museológica a nível nacional. III.II A origem, o estudo e a interpretação dos vestígios materiais expostos no Museu As coleções do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa revestem-se de uma grande importância histórica e patrimonial por se tratar de achados contextualizados, que provêm de “escavações arqueológicas realizadas segundo uma metodologia correta e de acordo com os critérios científicos atuais” (Silva, 1999). Não só o contexto de origem, mas também o historial das peças e todo o trabalho de recuperação, estudo e valorização levado a cabo no Museu dotaram esses vestígios de um significado mais aprofundado, que permitiu depois enriquecer as formas de divulgação, através de “uma multiplicidade de leituras (…) e abordagens” (Silva, 1999), promovidas sobretudo através do seu Serviço Educativo. Bracara Augusta tem uma comprovada importância histórica no contexto nacional, ibérico e europeu. Ela foi o centro de um território mais vasto, que corresponde atualmente a todo o norte do país, excetuando apenas a zona do distrito de Bragança (Delgado, Martins e Lemos, 1989). Os vestígios que resistiram à passagem de milhares de anos não conservam a sua original monumentalidade, mas constituem, ainda assim, um património científico, histórico e, portanto, culturalmente valioso e significativo, que representam, não só o período de ocupação romana e medieval, mas todo o passado de uma região, desde o período pré-histórico. O destaque habitualmente dado ao projeto de salvamento da cidade romana, quando se aborda a questão da investigação arqueológica 106 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga nesta região, abafa, de certa forma, outros significantes estudos efetuados, pelas mesmas entidades responsáveis pelo projeto de Bracara Augusta, sobre sítios e vestígios arqueológicos situados fora da área ocupada pela cidade romana. No entanto, eles estão interligados, pois, por um lado, foi o surgimento deste projeto, e da sua equipa de trabalho, que permitiu efetuar estudos sobre outras áreas do noroeste de Portugal, ao dotá-lo de capacidade e autoridade para conduzir escavações e investigação na região em questão. Efetivamente, e salvo as exceções a considerar, foram os achados, muitas vezes ocasionais, da época da ocupação romana, que levantaram o interesse pela sua preservação e estudo, e que levaram, depois, a outras descobertas sobre períodos históricos anteriores, no decorrer de ações de salvamento, de emergência, de escavações, e de estudos sistemáticos, levados a cabo pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, em cooperação com o Museu D. Diogo de Sousa. A aprovação do projeto de Salvamento de Bracara Augusta dotou esta equipa de proteção política e jurídica, assim como de recursos humanos e materiais, para intervir e estudar o património arqueológico de toda a região, não apenas da cidade romana. Como já foi visto no capítulo sobre a história do Museu, foi necessário superar diversos obstáculos até que o espólio arqueológico da região em torno de Braga pudesse ser reunido e exposto ao público. Nesse capítulo, foi feita especial alusão ao processo de musealização dos vestígios arqueológicos. Neste, pretende-se dar uma visão mais particular sobre os condicionalismos geográficos, naturais, políticos, jurídicos, económicos, sociais e culturais sobre a prática arqueológica local, que apresente uma perspetiva mais precisa sobre o historial da generalidade dos vestígios que integram o espólio do Museu e o património da cidade e da região a que ele está também associado, assim como sobre os fatores que condicionam a abordagem e a divulgação destes vestígios. III.II.I As fontes de conhecimento Quando se iniciou o salvamento e o estudo sistemático da cidade romana de Bracara Augusta e da região noroeste de Portugal, em 1976, já existiam dados recolhidos até então, que serviram de fonte às investigações. Estas fontes incluíam epigrafia, mapas, documentos históricos, vestígios arqueológicos recolhidos (Martins, 1991), obras de 107 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga autores clássicos, como Estrabão, notícias de jornais regionais (dos séculos XIX e XX), livros de atas da Câmara Municipal de Braga desde 1837, e manuscritos de vários autores existentes no Arquivo Distrital de Braga e no Arquivo da Câmara Municipal de Braga (Oliveira, 1998). A grande problemática que envolveu estas fontes esteve, ao longo de várias décadas, associada à sua dispersão, à escassez de conhecimentos sobre os vestígios já encontrados, e à falta de estudos cientificamente rigorosos sobre as mesmas. A sua inventariação cuidada e o seu estudo sistemático apenas foi possível a partir do momento em que foi criada uma unidade especializada em Arqueologia na cidade de Braga (UAUM), que, reunindo conhecimentos e recursos capazes, desenvolveu trabalho de campo, fez novas descobertas, aprofundou a investigação sobre os vestígios arqueológicos da região noroeste do país, e divulgou a nova informação resultante dos estudos realizados. Desde a sua criação, o trabalho conjunto da Unidade de Arqueologia e do Museu D. Diogo de Sousa permitiu construir uma base de dados informatizada para estudos presentes e futuros, a par do apoio documental que a biblioteca do Museu oferece ao público, fomentando a investigação sobre a História e o património. A criação, mas sobretudo a revitalização do Museu, foi fundamental para a reunião, a preservação, o estudo, o restauro, a valorização e a adequada divulgação do espólio recolhido. As fontes escritas são de enorme importância na investigação arqueológica, pela informação que adicionam aos vestígios. No estudo desta cidade romana, indicadores fornecidos pela epigrafia, em especial a das inscrições funerárias, por exemplo, permitiram reconstituir o seu povoamento e desenvolvimento. Inscrições deste género, sobretudo as honoríficas, permitiram também conhecer pormenores sobre a organização social (Martins, 1991). O estudo do urbanismo foi feito com base em inúmeras escavações, que permitiram descobrir estruturas e traçados do plano, tanto do romano como do medieval, apesar de os edifícios monumentais não terem sido conservados, à exceção daquilo que resta das termas romanas do Alto da Cividade, em Maximinos. Para o conhecimento das relações e produtos comercias, sobretudo em relação às importações e à produção local, tão bem retratados na exposição permanente do Museu, 108 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga contribuíram grandemente os estudos sobre vestígios de cerâmica, vidro, metais e objetos de adorno (Martins, 1991). Há aspetos relativos a determinadas épocas, como a ocupação, despovoamento e/ou destruição da cidade entre os séculos V e XI, que continuam sem fontes suficientes para que uma reconstituição do passado seja feita, quer se trate de fontes históricas ou arqueológicas. Ainda assim, nestes casos, a Arqueologia consegue fornecer dados que outras fontes não foram capazes, recolhendo testemunhos que permitem perceber sinais de mudança e/ou de continuidade da vida urbana em determinadas alturas, como no século V, através do estudo dos enterramentos, dos materiais presentes nas cerâmicas locais e importadas, e nas remodelações de edifícios públicos e privados, por exemplo (Martins, 1991). Fontes datadas da Idade Média testemunharam, também, estruturas da cidade romana que esta época ajudou a destruir. Documentos do século XII fazem referência a troços da muralha romana, alguns muros e ruínas de alguns edifícios, apesar de Bracara Augusta ter ficado, aparentemente, fora da produção escrita medieval (Martins, 1991). No entanto, em relação ao passado da cidade de Braga, só mais tarde se intensificou o interesse, como fenómeno provocado pelas ideias renascentistas, disseminadas pelo continente europeu, no século XVI. Nesta cidade, a ação dos arcebispos, de entre os quais se destaca D. Diogo de Sousa, foi determinante para a recolha e preservação de património de interesse histórico para a região (nomeadamente, coleccionando as antiguidades romanas de Braga e da região, e recolhendo lápides e miliários no Campo de Santana, que constituiu a primeira tentativa de formar um museu de Arqueologia na cidade). De entre as fontes escritas que serviram de prova documental às investigações arqueológicas sobre o passado desta cidade, pode, ainda, ser mencionado um mapa da cidade, supostamente desenhado por Manoel Barbosa (Nunes, 1996), e publicado, em 1594, por Georgius Braun (ou Bráunio), que alude a determinados espaços de Bracara Augusta, como o Forum (Martins, 1991; Nunes, 1996), muralhas e necrópoles (Nunes, 1996), e locais de saída das principais vias militares, demonstrando que nessa época era ainda visível grande parte das vias romanas (Martins, 1991). Este tipo de informação 109 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga também poderá ter sido importante para analisar questões de mudança e de continuidade na história da região. A primeira fonte bibliográfica, de autoria local (do arcebispo D. Rodrigo da Cunha), de síntese sobre a história da cidade de Braga teve origem apenas no século XVII. Ela forneceu informação sobre a ocupação da cidade até à Alta Idade Média, na qual se inclui a primeira descrição de determinadas ruínas ainda visíveis na altura, como um anfiteatro (romano) na zona de Maximinos (Martins, 1991; Nunes, 1996), que terá servido de pista para o estudo sobre essa área, levado a cabo pela Unidade de Arqueologia, já no século XX, assim como referências a aquedutos e várias inscrições latinas (Nunes, 1996). Outra fonte que procurou reunir informação sobre a história da cidade surgiu no século seguinte, sob o espírito iluminista. O seu autor, também um religioso, Jerónimo Contador de Argote, combinou fontes escritas romanas com vestígios da mesma época, numa tentativa de reconstituir a história desta cidade. Esta ampla obra terá dado um contributo significativo para investigações futuras, fornecendo numerosas informações, descrições de ruínas, interpretação de inscrições, incluindo a primeira gravura conhecida da Fonte do Ídolo (Nunes, 1996), testemunho do culto a divindades indígenas durante a ocupação romana, e a delimitação do perímetro da cidade romana, com base em restos da sua muralha, ainda existentes na altura (Martins, 1991). A estas fontes, vieram juntar-se informações sobre novos achados, entre os séculos XVIII e XIX, divulgadas em publicações como a Gazeta de Lisboa, as Memórias Paroquiais, e o Dicionário Geográfico de Luís Cardoso. Outros nomes, de eruditos bracarenses, como Pereira Caldas, Albano Belino e José Teixeira, destacam-se, nesta época, no papel da salvaguarda do espólio arqueológico em núcleos museológicos, refletindo já uma conceção da Arqueologia enquanto disciplina científica (Martins, 1991). Foi, precisamente, um destes eruditos, Albano Belino, que, por sua iniciativa, criou o primeiro núcleo museológico de Arqueologia, em Braga, numa loja do Paço Arquiepiscopal, onde reuniu a sua significativa coleção particular – vários monumentos epigráficos da Cidade e seus arredores, cerâmica, fíbulas, fragmentos de mosaicos e tijolos, e lápides. As coleções e os esforços de divulgação de Albano Belino constituíram 110 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga um forte contributo para o conhecimento de várias inscrições romanas de Braga, e da muralha da Cidade. Na segunda metade do século XX, grandes alterações urbanísticas em Braga proporcionam a descoberta de inúmeros vestígios arqueológicos, mas também a sua perda ou destruição (Nunes, 1996: 24). Com efeito, partir dos anos 60, uma sucessão de destruições da antiga cidade romana leva ao surgimento de mais achados, cujas notícias de divulgação, por iniciativa do Cónego Arlindo da Cunha, ficaram registadas na imprensa periódica regional, mais recentemente compiladas numa obra de Eduardo Pires de Oliveira (1998). Esses achados foram também recolhidos e mantidos como testemunhos materiais, em diferentes museus (Martins, 1991). A zona da Colina de Maximinos e da Cividade fica ameaçada pela construção de edifícios, nessa década, mas os diversos alertas feitos pelo padre Arlindo Ribeiro da Cunha, realçando os achados já efetuados, levam a Câmara Municipal a promover algumas escavações, dirigidas por Rigaud de Sousa (da Junta Nacional de Educação – JNE, e conservador do Museu D. Diogo de Sousa). Com base neste trabalho de campo, Rigaud de Sousa publicou alguns trabalhos sobre as descobertas realizadas (Nunes, 1996), divulgando resultados da investigação. Desde 1976, da ação do Campo Arqueológico (realização de múltiplas intervenções de salvamento, emergência e escavações), surgiram vários conhecimentos que vieram completar, ou complementar, as informações recolhidas a partir das fontes já existentes, sobretudo sobre a evolução e a estrutura urbana de Bracara Augusta (Martins, 1991). A revitalização do Museu D. Diogo de Sousa, em 1980, permitiu, finalmente, alojar os vestígios materiais que serviram de fonte à investigação sobre o passado desta cidade e da região, preservando-os, restaurando-os e valorizando-os, através do estudo e da divulgação. As fontes materiais e documentais do passado foram, especialmente ao longo das últimas três décadas, confrontadas com novas descobertas e incorporadas em estudos elaborados com rigor científico por profissionais especializados, pertencentes à Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, pelo que o conhecimento que presentemente podemos obter sobre os vestígios arqueológicos divulgados pelo Museu D. Diogo de 111 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Sousa é já fidedigno e bastante profundo, ainda que constantemente sujeito a novas descobertas proporcionadas pelo avanço da investigação. III.II.II Condicionalismos naturais e aspetos de conservação e restauro dos vestígios arqueológicos As condições naturais (antes de extraídos ou intervencionados) e artificiais (depois de extraídos, intervencionados ou musealizados) que envolvem os vestígios e artefactos arqueológicos determinam a sua conservação. Por outro lado, o seu restauro, o seu estudo e classificação, que interferem na sua leitura e interpretação, estão dependentes de uma correta conservação. O historial dos sítios arqueológicos da região noroeste de Portugal e das peças expostas no Museu D. Diogo de Sousa é revelador da complexidade da investigação e interpretação em Arqueologia, e da forma como os fatores e técnicas de conservação e de restauro estão relacionados com a divulgação do património cultural arqueológico. A maioria dos achados que vieram compor o espólio deste museu provêm de períodos históricos tão remotos (desde a Pré-História até à Idade Média), que apenas foi possível encontrar vestígios constituídos ou produzidos com materiais tão resistentes a agentes de deterioração, como a pedra, a cerâmica, o vidro, e os metais, pelo que, aqui, serão especialmente analisadas questões de conservação e restauro relativas a estes materiais. Em matéria de conservação dos vestígios rochosos, um fenómeno destaca-se: a meteorização, que pode ser química ou física. A meteorização química e a meteorização física estão, normalmente, interligadas, reforçando-se mutuamente. A primeira ocorre quando os minerais numa rocha são alterados ou dissolvidos quimicamente. O esborratamento ou mesmo o desaparecimento das inscrições que se encontram em antigos monumentos, ou vestígios (como estátuas, estelas funerárias, entre outros) são resultado da meteorização química (também chamada de alteração química). A meteorização física ocorre quando a rocha sólida se fragmenta por processos físicos, que não alteram a sua composição química. O cascalho de blocos de pedras e colunas que, antigamente, formavam edifícios ou estruturas estáveis, e as fendas e aberturas em túmulos e monumentos antigos são, primordialmente, o resultado da meteorização física 112 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga (também chamada de meteorização ou alteração mecânica). Quanto mais rápido for o decaimento, maior se torna o enfraquecimento dos fragmentos e mais susceptível se torna a rocha de se quebrar; quanto menores forem os fragmentos, maior a superfície disponível para o ataque químico e mais rápido se torna o decaimento. Especificamente em relação à conservação dos vestígios arqueológicos provenientes da região minhota, dois aspetos foram realçados pela equipa da Unidade de Arqueologia: as questões que envolvem a conservação das estruturas e ruínas, e os problemas associados ao tratamento dos objetos recolhidos ou resultantes de escavações ou de achados ocasionais. Na sua opinião, a conservação das ruínas, nesta região, foi especialmente dificultada pelas condições climatéricas, nomeadamente o nível elevado de pluviosidade, e pela natureza litológica da rocha que foi utilizada como matéria-prima na construção – o granito. Desta forma, o elevado índice de meteorização do granito, associado à forte pluviosidade, levou a que as estruturas expostas à água pluvial ficassem destruídas, por vezes em poucos anos (Delgado, Martins e Lemos, 1989). Estes aspetos não só impedem a conservação de determinados vestígios como também exigem um acrescido cuidado no trabalho de escavação, e a proteção (cobertura) das estruturas rochosas, antes de as colocar a descoberto, como aconteceu com as termas romanas da Colina de Maximinos, ainda durante o período em que decorreu o estudo sobre as mesmas (Delgado, Martins e Lemos, 1989). Assim, torna-se necessário que determinados sítios arqueológicos sejam dotados de estruturas de proteção permanente adequadas, se pretendermos, de facto, preserválos de agentes físicos e químicos que provocam a sua deterioração e erosão, mas também de atos de vandalismo. Projetos específicos de consolidação e restauro, musealização, e integração na paisagem e/ou no espaço urbano são soluções que, por sua vez, dependem de condições de financiamento e de planos de urbanização que tenham em conta o património cultural. Entre outros fatores naturais (agentes físicos e químicos), que impedem ou dificultam a conservação e identificação dos vestígios arqueológicos, nesta região, destacam-se a elevada acidez dos solos e a humidade, que provocam a degradação dos materiais, como a cerâmica e os metais. 113 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Em relação à cerâmica, são os vestígios mais antigos, e que foram cozidos a relativamente baixas temperaturas, que menos resistência oferecem a fatores como o esmagamento, a acidez dos solos e a humidade. O exemplo relativo ao mosaico romano encontrado e preservado in situ, e integrado no espaço do Museu D. Diogo de Sousa, demonstra que a degradação do calcário, provocada pela fraca resistência à acidez do solo e à humidade, levou, por sua vez, ao esbatimento da cor, mas o recurso a técnicas de conservação e restauro permitiram que ele fosse relativamente preservado, e aproveitado para divulgação do património cultural a ele associado. Neste caso, a sua considerável dimensão e a especificidade da sua constituição, para além da raridade com que ocorre este tipo de achados na região minhota (devido, precisamente, à dificuldade de preservação motivada pela acidez dos solos), justificou a sua preservação in situ (Silva e Guimarães, 1994). Nele foram, e continuam a ser, feitas intervenções de conservação e restauro, assim como uma valorização do espaço envolvente, com o objetivo de completar a sua visão, facilitar a compreensão do seu significado no contexto do urbanismo de Bracara Augusta, e divulgar técnicas utilizadas na sua construção (idem). A este vestígio e a estes objetivos, estão, também, associadas as criações de oficinas lúdicopedagógicas sobre o tesselatum, o mosaico romano. Os metais, sendo um material que reage quimicamente ao contacto com outros materiais e com os demais agentes externos, tornam-se especialmente vulneráveis. Por outro lado, o fabrico e a constituição metálica são fatores decisivos para a sua resistência a agentes de deterioração como a humidade; o ferro forjado, por exemplo, torna-se mais frágil do que o ferro fundido, pois a sua constituição em camadas permite a incorporação da humidade, que depois cristaliza e provoca o levantamento das camadas, degradando as peças. Assim, é dada prioridade aos metais, na conservação, ao nível preventivo, estabilizando o ambiente em que se encontram, para que possam ser estudados; numa segunda fase, é feita a sua prevenção curativa, recorrendo à estabilização com base em produtos químicos. Nesta região, o vidro é o material que consegue conservar-se em estado óptimo, dada a sua resistência aos solos ácidos e à humidade, apesar da sua fragilidade face a outros fatores, como esmagamentos. Por isso, a forma como é efetuada a escavação e a extração dos achados em vidro é determinante para que eles sejam conservados. O 114 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Museu possui o vestígio de um frasco em vidro, que foi possível preservar graças à forma como foi extraído – em bloco, não removendo a terra que se encontra, neste caso, no interior da peça, e que impede que as diferentes partículas que resultam do estilhaçamento do vidro da mesma se soltem e desfaçam a peça. Esta é a técnica que previne a necessidade de proceder à extremamente difícil tarefa de juntar e colar fragmentos em vidro, na tentativa de reconstruir um achado deste material. Por oposição, os vestígios de ossos e as madeiras, mas sobretudo este último, são os que mais dificilmente se preservam com a passagem do tempo, dada a sua composição orgânica. Por isso, são muito raros os vestígios em osso ou madeira encontrados nesta região, relativamente a épocas anteriores à romanização, mas também relativamente a esta. O único vestígio em madeira encontrado e conhecido, até ao momento, na região, foram algumas estacas que serviram de suporte na construção do muro que circundava a cidade de Bracara Augusta, durante a ocupação romana. Elas conservaram-se na água do Rio Este, comprovando a teoria de que as madeiras duras ou rijas, geralmente empregadas na construção, conservam-se melhor dentro de água do que expostas ao ar. A mudança de ambiente, após a remoção de um achado do local onde foi encontrado, desencadeia uma série de reações face à luz, temperatura e humidade. A sua adequada extração é crucial para que não se deteriore precocemente, ainda antes de ser alvo de conservação. A falta de formação científica dos arqueólogos no domínio da conservação e do restauro, e a ausência de técnicos especializados nessa área no campo onde decorrem as escavações, podem levar à ocorrência de erros irreparáveis nos vestígios, como acontecia no período inicial de atividade do Campo Arqueológico de Braga. Assim, na falta de técnicos de conservação e restauro no terreno, é preferível a remoção dos vestígios em bloco (envolvidos em terra). O correto acondicionamento dos achados e o tempo que medeia o seu levantamento e a sua chegada ao laboratório para tratamento são fatores fundamentais para que se minimize a exposição dos materiais a fatores de degradação. No entanto, nem sempre são tomadas as medidas adequadas, pelo que vários são os vestígios que ficam irreparáveis, e inaproveitáveis do ponto de vista museológico, pois deixa de ser possível a sua leitura e interpretação. A questão temporal é dificilmente transponível, dado que os arqueólogos têm direito a reter os vestígios decorrentes das escavações, para estudo, por um período de 115 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga cinco anos. Mesmo excluindo as situações em que esse prazo é largamente ultrapassado, cinco anos pode ser demasiado tempo para que os achados se mantenham conservados. O trabalho de conservação precede o de restauro, e é feito em duas vertentes: preventiva e curativa. A conservação preventiva permite a monitorização e/ou controlo do processo de deterioração no meio ambiente em que se encontram os vestígios arqueológicos. Consiste em ações diretas e indiretas, com o objetivo de adiar ou retardar os fatores responsáveis pela deterioração. Desse modo, concretiza-se a prevenção de danos futuros, criando as condições ótimas à conservação, tendo em conta a manipulação, o transporte, armazenamento e exposição de objetos. Considera-se conservação preventiva a formação eficaz de todos aqueles que lidam com objetos culturais (como o conhecimento dos princípios básicos da conservação científica), o uso de embalagens adequadas ao armazenamento e ao transporte de uma obra de arte, a correta iluminação, e as condições ambientais (de temperatura e humidade) adequadas ou apropriadas a cada tipo de matéria-prima. A conservação curativa consiste numa ação direta efetuada sobre o objeto em tratamento, com a intenção de atrasar ou resolver definitivamente qualquer tipo de deterioração sofrida. A intervenção dá-se somente a nível do suporte material. O restauro consiste na ação direta sobre o artefacto e todos os seus elementos (forma, cor, decoração), com a intenção de facilitar e devolver a sua compreensão e significado histórico, com o maior respeito possível pela sua estética, história e integridade física. A intervenção sobre uma lacuna também é considerada restauro. A intervenção técnica sobre os achados arqueológicos em termos de conservação e restauro toca duas vertentes: a do trabalho de campo (na qual apenas se age sobre a conservação), que engloba a forma como são efetuadas as escavações, e extraídos, acondicionados e transportados os achados. Nesta fase, também é possível proceder à lavagem e/ou limpeza dos vestígios, desde que efetuada por um técnico especializado, o que nem sempre tem sido conseguido nesta região. À medida que os achados vão ficando a descoberto, sejam eles vestígios amovíveis ou estruturas a preservar in situ, é necessário proceder à sua rápida estabilização, minimizando as consequências da mudança de ambiente. Em determinadas situações, os técnicos de conservação e 116 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga restauro do Museu são chamados, pela equipa de investigação arqueológica da Unidade de Arqueologia da UM, a intervir na conservação preventiva e curativa, assim como na reconstituição de sítios arqueológicos desta região, dando parecer sobre a melhor forma de atuar. Esta não é, no entanto, uma prática corrente, não existindo uma ação coordenada e conjunta permanente entre as duas equipas, pelo que os resultados de investigação nem sempre são tão positivos quanto poderiam ser. Várias foram, no entanto, as intervenções feitas pela equipa de conservação e restauro do Museu, em sítios arqueológicos da região minhota, como a Mamoa de Lamas, o Mosaico romano encontrado no espaço onde foi instalado o Museu, as Termas Romanas do Alto da Cividade, a Domus de Santiago (situada no Largo de Santiago), o troço de uma cloaca (integrado nas instalações da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva), a Domus da Escola Velha da Sé, o Balneário Pré-Romano da Estação de Caminhos-de-Ferro, a Domus das “Frigideiras do Cantinho”, a Zona Arqueológica das Carvalheiras, e os vestígios de uma via romana e um miliário encontrados, mais recentemente, nas instalações de uma loja comercial, na Rua Frei Caetano Brandão. Nas Carvalheiras, por exemplo, esta equipa coordenou e colaborou na realização dos trabalhos de limpeza, drenagem e definição dos limites da zona, efectuando conservação preventiva; mas também atuou no âmbito do restauro, reconstruindo parte dos muros. Neste trabalho, foi colocada uma tela de separação entre a camada original e a camada acrescentada, para distinguir claramente as diferentes partes. Em termos de materiais, foi utilizada (sempre que possível) pedra aparelhada, aproveitando a que foi retirada do local das escavações, e argamassa (composta por uma base de cal e saibro) semelhante à originalmente usada. Na Mamoa de Lamas (que foi descoberta durante a remoção de uma árvore aquando da preparação de um terreno para construção), esta equipa fez a reconstrução deste antigo monumento funerário, recolocando as pedras no sítio de onde tinham sido deslocadas, com base nas marcas ainda visíveis. Na Domus de Santiago, assim como no troço da via conservado nas instalações da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, foram efetuadas limpezas. A seleção dos achados arqueológicos para conservação e restauro é feita pela equipa da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, ou pelo Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga (dependendo de quem tenha efetuado o 117 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga levantamento), considerando o parecer de historiadores, que decidem sobre a significância e representatividade dos mesmos, e a sua relevância histórica e patrimonial, podendo também propor a musealização de determinados sítios arqueológicos, assim como a conservação e o restauro de determinados achados, recorrendo à colaboração do Laboratório de Conservação e Restauro do Museu. A decisão sobre os achados que irão integrar as coleções do Museu e ser expostos ao público cabe, no entanto, à Direção do Museu. Nos trabalhos de conservação que efetua, a equipa técnica do Museu estabelece como ação prioritária a estabilização dos achados, para travar o seu processo de deterioração. Todas as peças passam, obrigatoriamente, pela fase de conservação, considerando que todas elas necessitam, pelo menos, de ser alvo de limpeza ou lavagem. Nas intervenções de restauro, os técnicos do Museu procuram reconstruir as peças respeitando as suas caraterísticas originais (sobre as quais é feita investigação prévia), nomeadamente a forma da peça, o material (ou materiais) que a constituem, e a técnica utilizada na sua produção. Através do restauro, pretende-se, ainda, valorizar o espólio que vai ser exposto, no sentido de permitir a sua leitura e interpretação. Assim, são usadas determinadas técnicas de reconstituição dos originais, que têm um objetivo iminentemente pedagógico, como a reprodução, em plástico, de algumas peças de metal que não são facilmente perceptíveis devido ao seu estado de degradação irreversível; ou, ainda, a construção de réplicas para melhor ilustrar o uso de determinados achados, como as fichas de jogo, para as quais foram criados tijolos/placas de jogo aproveitando pedra retirada das escavações (vestígios descontextualizados e, portanto, considerados “lixo arqueológico”). Nessas placas de jogo foram gravadas linhas, reproduzindo exemplos de jogos romanos, com base em vestígios existentes noutras partes do país. Essa pedra foi ainda usada para construir outras placas e fichas de jogo, para prática de jogos romanos de tabuleiro nas oficinas lúdico-pedagógicas correspondentes e no espaço público do Museu. À semelhança do “lixo arqueológico” em pedra, pequenas pedras recolhidas na costa minhota, e pedaços de vidro, foram também utilizados para criar fichas de jogo, como era usual na época romana. No que toca à exposição das peças, há importantes questões de conservação a considerar: os níveis de temperatura, de humidade e de iluminação ambientais, tal como 118 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga o contacto físico entre diferentes materiais, são determinantes para manter as peças em bom estado. Neste aspeto, os técnicos de restauro destacam alguns pontos negativos na forma como foram expostos alguns objetos nas vitrinas. De facto, será errado pensar que basta colocar um objeto numa vitrina, para que ele se conserve, pois todo o ambiente que é criado à volta da peça, dentro e fora da vitrina, determina a sua conservação. Os suportes para as peças metálicas terão sido verificados pelos técnicos de restauro, em termos da compatibilidade de materiais, da mesma forma que foram introduzidos fundos de vidro nas vitrinas. No entanto, os mesmos sentem que as suas recomendações não foram tidas em conta pelos arquitetos envolvidos na montagem da exposição, em relação a aspetos como os suportes utilizados com peças de metal (que apenas toleram o contacto com materiais inertes). Por outro lado, apontam uma questão técnica, em relação à conservação deste tipo de material. Dada a sua suscetibilidade face às condições ambientais, estes foram colocados em vitrinas que possuem aparelhos de medição dos níveis de humidade e de temperatura. Apesar de as peças em metal mantidas nas vitrinas serem tratadas pelo mesmo processo que se utiliza nos museus europeus, este não parece ser completamente eficaz, uma vez que os aparelhos colocados nas vitrinas não controlam ativamente ou regularizam esses níveis, nem tão pouco são reguláveis, pelo que apenas informam sobre as condições atuais. Consequentemente, e apesar de restar a possibilidade de retirar a peça de exposição para efectuar uma intervenção, qualquer ação sobre o material em estado de fragilidade pode resultar desfavorável, pelo que torna-se, muitas vezes, preferível não intervir. As técnicas, os métodos e os objetivos do trabalho de conservação e de restauro levado a cabo pela equipa técnica do Museu sofreram uma evolução considerável ao longo da sua existência. Inicialmente, os achados considerados de interesse para estudo e restauro, que advinham das escavações efetuadas pelo Campo Arqueológico da Universidade do Minho, eram enviados para Coimbra, pois os técnicos existentes não possuíam, na altura, formação suficiente para efetuar as intervenções necessárias. Com o decorrer das sucessivas escavações e do aumento considerável de achados arqueológicos, sentiu-se a necessidade de formar adequadamente os colaboradores do Campo Arqueológico, pelo que se iniciou a formação técnica, em conservação e restauro, de alguns deles, em Conímbriga. A região veio beneficiar destes novos conhecimentos, que 119 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga foram aplicados na conservação e no restauro de sítios e vestígios arqueológicos locais, pelo que, atualmente, o Laboratório de Conservação e Restauro do Museu D. Diogo de Sousa tem capacidade técnica de resposta face às solicitações que recebe, apesar do grande volume de trabalho que se lhe apresenta. A evolução faz-se notar, sobretudo, em relação ao crescente respeito pelos achados, de uma forma geral, e pelas caraterísticas originais dos vestígios, na preocupação em utilizar materiais de restauro reversíveis (que possam ser removidos, se necessário, sem alterar a peça original), e numa mais adequada metodologia de trabalho, que adveio de um maior conhecimento sobre os diversos materiais. No preenchimento ou reconstrução volumétrica, por exemplo, o tipo de material utilizado é escolhido com o objetivo de proteger o original. Nos casos em que se consegue obter o perfil completo da peça (com o auxílio do desenho), é feita a reconstituição total da peça, mas deixa-se propositadamente visível a parte que é acrescentada (ao contrário daquilo que era ensinado há anos atrás), para que se distinga claramente a parte original da parte restaurada. Todos os trabalhos são efetuados com base em estudos cientificamente rigorosos, tanto na pesquisa que é realizada pela equipa do Laboratório de Conservação e Restauro do Museu, como em estudos, sobre elementos paralelos, já existentes sobre Conímbriga (onde determinados achados arqueológicos da época da ocupação romana se mantiveram em melhor estado de conservação, devido às diferentes condições ambientais naturais, e onde os estudos sobre esse tipo de vestígios foram efetuados mais cedo). A questão da conservação e do restauro, assim como a importância do respeito pela preservação do património cultural, são também divulgadas através da ação do Serviço Educativo do Museu, com a colaboração dos técnicos do Laboratório de Conservação e Restauro do mesmo. Essa ação consiste na realização de workshops de sensibilização, e de visitas ao Laboratório e à Exposição Permanente, durante os quais são explorados aspetos e técnicas de conservação e restauro, com recurso a exemplos de vestígios expostos. A atividade de restauro levada a cabo pelo Museu reflete as mais atuais tendências nesta área (Carbonara, 2009), entendendo-a como uma intervenção que serve 120 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga o objetivo de conservar e transmitir, futuramente, obras de interesse histórico, artístico ou ambiental, para facilitar a sua leitura e interpretação, ao mesmo tempo que se procura não apagar os traços da passagem do tempo que elas revelam. Esta atitude baseia-se, ainda, no respeito pelo material original e pela obra enquanto fonte documental autêntica, não deixando, no entanto, de constituir um ato crítico de interpretação, ou uma hipótese crítica ou proposta, que não é verbal mas expressa concretamente no próprio trabalho realizado sobre os vestígios, sempre sujeito a modificação, sem contudo alterar irreversivelmente o original. A ligação entre o trabalho de restauro e o acesso ao património monumental, e a outros vestígios, pode defini-lo como “um ato cultural” (Carbonara, 2009). Por outro lado, o seu propósito de transmissão virado para as futuras gerações leva-o a assumir uma função educacional. Ambos estão em consonância com o papel dos museus na sociedade, e com a sua função de divulgação do património. Neste aspeto, deve ser considerado o lugar ocupado pela memória na sociedade atual, enquanto fator de valorização do passado que estes vestígios representam, havendo sinais de que o interesse pela conservação e o restauro tem vindo a ser reforçado. III.II.III Desenvolvimento versos conservação A região noroeste de Portugal, de onde provém a maioria do espólio exposto no Museu D. Diogo de Sousa, oferece a particularidade de possuir uma densidade de povoamento e um crescimento económico elevados, que se tem traduzido, especialmente ao longo dos últimos quarenta anos, num constante alargamento da rede viária e num ritmo intenso de construção civil, tanto nas zonas urbanas como nas zonas rurais. Estes fatores, tal como a mecanização progressiva do trabalho agrícola, a florestação, as explorações pedreiras, e os aproveitamentos hidroelétricos (UAUM, [1981?]), assim como aberturas de valas para saneamento, cabos telefónicos ou eletricidade (Delgado, Martins e Lemos, 1989), levaram à ameaça e/ou destruição de património arqueológico, ao longo de várias décadas. Mas não são apenas os acontecimentos mais recentes que determinam a destruição ou adulteração dos vestígios arqueológicos. É do conhecimento comum, por exemplo, que parte da cidade romana de Bracara Augusta ficou soterrada sob os edifícios 121 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga medievais, tendo-se aproveitado muita da pedra aparelhada para as novas construções (UAUM, [1981?]; Martins, 1991; Fontes, Lemos e Cruz, 1997;). Outra parte da cidade romana terá ficado debaixo do solo utilizado para a atividade agrícola, à volta da cidade romana. Com o aumento da construção civil nos anos sessenta e setenta, esses terrenos começaram a ser revolvidos, destruindo vestígios de Bracara Augusta de forma descontrolada (UAUM, [1981?]). O salvamento e a conservação do património arqueológico não impedem o progresso económico e social, podendo recorrer-se, em última instância, ao registo topográfico e fotográfico dos monumentos cujo desaparecimento é inevitável, e à recolha do espólio deles proveniente. Pela sua relevância cultural, a salvaguarda e o estudo dos vestígios arqueológicos podem, inclusivamente, contribuir para o desenvolvimento económico e social de uma região, através do fomento do Turismo interno e externo. Em Braga, há exemplos da conservação de vestígios arqueológicos, sobretudo da época da ocupação romana, integrados em imóveis mais recentes, e que constituem um motivo de atração turística, como a Domus das “Frigideiras do Cantinho”, onde os restos de estruturas de uma domus (casa) romana datada do Baixo-Império podem ser visualizados de cima, através do vidro que constitui o piso do Café, durante o horário de abertura deste. Outro exemplo será o Balneário Pré-Romano da Estação, o único vestígio deste género conhecido até ao momento no território de Braga (mas semelhante a vários outros existentes nesta região do país), que foi descoberto durante as obras de construção da Estação de Caminhos-de-Ferro. As ruínas foram preservadas e musealizadas no local, estando permanentemente abertas ao público. Um outro exemplo, ainda, será um troço de uma grande cloaca (rede de esgotos) da época de Augusto (século I), cujo traçado coincide com um importante eixo da cidade romana, e os vestígios de uma rua medieval (a Rua Verde), que foram integrados nas instalações da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. Muitos destes locais são visitáveis. III.II.IV Questões políticas, jurídicas e científicas Frequentemente, os achados arqueológicos, nesta região, ocorreram em situações casuais, como a atividade agrícola, a construção de uma casa, ou a realização de obras 122 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga públicas. Em alguns casos, os artefactos foram mantidos na posse dos particulares que os acharam; outras vezes, eles foram depositados em instituições que os acolheram e preservaram, como o Museu D. Diogo de Sousa. Mas até bem tarde (século XX), estes vestígios encontraram-se dispersos, descontextualizados e pobremente estudados. Os restantes ficaram desprotegidos ao longo de vários séculos, e a maior parte foi alvo de destruição, sem que existisse uma entidade oficial ou configuração legal que os salvaguardasse. No século XIX e na primeira parte do século XX, foram já realizados alguns trabalhos de investigação arqueológica com uma certa base científica, mas ainda muito marcados pelo amadorismo e romantismo característicos da mentalidade da época (Martins, 1993). Apenas na segunda metade do século XX, técnicos especializados em Arqueologia conseguem impor-se, na região, passando a ser requisitados para efetuar o adequado estudo científico de locais, assim como o levantamento de informação e de espólio para tratamento e divulgação (UAUM, [1981?]). Na região de Braga, a investigação arqueológica ficou, oficialmente, a cargo da UAUM. Esta unidade cultural depende da Reitoria e integra o Conselho Cultural da Universidade do Minho, e a sua criação (em 1977) surgiu na sequência da atribuição da direção científica e técnica do Projeto de Salvamento de Bracara Augusta a esta instituição, em 1976. A maior e mais significativa parte do espólio exposto no Museu D. Diogo de Sousa provém das escavações efetuadas no âmbito deste projeto, que envolveu grandiosos esforços políticos, legislativos, e financeiros. As primeiras diligências efetuadas no sentido de obter proteção jurídica devem-se ao Dr. Rigaud de Sousa que, em 1974, propõe a delimitação de uma zona de proteção histórico-arqueológica na cidade de Braga, incluindo a cidade romana e a cidade medieval (Delgado, Martins e Lemos, 1989; Nunes, 1996). Essa proteção previa o acompanhamento de eventuais obras por arqueólogos, e a sua suspensão quando o estudo e a preservação dos vestígios arqueológicos encontrados o aconselhassem ou determinassem, mas este parecer da Junta Nacional da Educação ou a zona de proteção não chegaram a ser publicados no Diário da República (Nunes, 1996: 26). 123 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Apesar de algumas tentativas de obter proteção legal para os vestígios arqueológicos, os interesses de construção urbanística foram sobrepostos às preocupações com a defesa do património cultural, pelo que a Universidade do Minho sentiu que, enquanto entidade à qual competia também “a defesa dos valores culturais e do património da região que serve”, devia fazer algo para intervir na situação de desproteção em que se encontravam importantes vestígios, sobretudo na zona de Maximinos e Cividade. Assim, em 1975 é feito um estudo sobre o impacto das urbanizações em curso (que fica a cargo de Henrique Barreto Nunes), e um plano a delinear as estratégias a seguir, para ser apresentado ao Ministério da Educação (Nunes, 1996). Simultaneamente, é criada a CODEP, um movimento cívico que reuniu como fundadores as mais influentes e proeminentes individualidades interessadas na proteção e no estudo do património regional, entre os quais vários elementos da Universidade do Minho, o Diretor da Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Braga, o Conservador do Museu D. Diogo de Sousa (J. J. Rigaud de Sousa) e um Arqueólogo e estudioso do passado bracarense (Eduardo Pires de Oliveira). Este movimento foi determinante para o avanço do Projeto de Salvamento de Bracara Augusta, e, por conseguinte, de um vasto espólio de toda a região noroeste de Portugal, pois apoiou e dinamizou a posição da UM perante a opinião pública (Nunes, 1996), reunindo apoiantes, e gerando reações positivas por parte das entidades responsáveis pelo património cultural português, nomeadamente da Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais e da Junta Nacional de Educação (Nunes, 1993). A CODEP desenvolveu esforços no sentido da validação do interesse científico das ruínas, promoveu escavações (que foram realizadas por alunos da Faculdade de Letras de Coimbra e estudantes do Serviço Cívico de Braga, e dirigidas pelo Professor Jorge Alarcão, da Faculdade de Letras de Coimbra, “o maior especialista português em Arqueologia romana” (Nunes, 1993)), conseguiu provar a existência e importância de vestígios de Bracara Augusta (Delgado, Martins e Lemos, 1989; Nunes, 1993), e conduzir a uma proposta (de Jorge Alarcão) para a criação de um campo arqueológico em Braga. Depois de criado o Campo Arqueológico de Braga (em 1976), depois de ter reunido experiência e credibilidade, e de se manterem sérias dificuldades de proteção do património da Cidade, 124 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga os membros da CODEP decidiram transformar a sua comissão na ASPA, tendo-a criado em 1977. Apesar de algumas palavras de franco otimismo (ainda com reminiscências românticas) proferidas por personalidades como os, então, Ministro da Administração Interna, Coronel Costa Brás, e Primeiro-Ministro, Mário Soares, aquando da sua passagem pelo Campo Arqueológico, no seu primeiro ano de funcionamento (Delgado, Martins e Lemos, 1989; Nunes, 1993), o futuro ainda se mostrava incerto para a ação do Campo, e para a proteção e o estudo do património arqueológico da região.3 Em 1976, dois importantes e interligados passos foram dados para a investigação arqueológica local: a criação do Campo Arqueológico de Braga, a cargo da UAUM, e a definição de uma Zona Arqueológica de Braga, de considerável extensão, que foi reconhecida de grande valor patrimonial, tanto a nível nacional como europeu (Martins e Lemos, 1997). A lei que definiu esta zona (Decreto Lei 640/76, de 30 de Julho), juntamente com outras que se seguiram em 1977 e 1978, permitiu o avanço dos trabalhos de salvamento e investigação da cidade romana. A publicação de um conjunto de legislação definindo medidas cautelares, envolvendo vários ministérios, permitiu desbloquear a situação urbanística e cultural na cidade de Braga. Estas medidas incluíram, ainda, a aquisição de terrenos (por troca) já com infra-estruturas de urbanização, na zona de Maximinos, e a concessão à UM das verbas necessárias para as explorações arqueológicas previstas, pelo que parte dos problemas urbanísticos pendentes ficou resolvida (Delgado, Martins e Lemos, 1989). Esta proteção legal pecava, no entanto, por ser apenas provisória. Para além disso, as reformulações e prorrogações não foram fáceis de obter devido às mudanças ocorridas na constituição dos governos, na conjuntura política da altura (Delgado, Martins e Lemos, 1989). Assim, e apesar de alguns esforços da Unidade de Arqueologia em regulamentar o regime de construção na Zona Arqueológica de Braga, razões várias levaram a que os terrenos arqueológicos ficassem sem qualquer proteção legal efetiva após 1979, com as consequentes pressões construtivas sobre essa área (Martins e Lemos, 1997). 3 O Coronel Costa Brás terá dito, a 19 de Novembro: “Os valores arqueológicos serão defendidos e preservados. Se for necessário recorrer a demolições, haverá demolições; se for necessário expropriar, haverá expropriações”; Mário Soares, a 20 de Novembro, terá afirmado: “Não se construirá mais em Braga sobre ruínas romanas”. 125 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga A elaboração de um anteprojecto de lei pelo então responsável pela UAUM, Francisco Alves, em 1980, propõe legislação mais completa e flexível do que a existente sobre a proteção do património cultural. Esta proposta foi apresentada com o consenso do Governo Civil, da Câmara Municipal de Braga, em 1981, do novo responsável pela UAUM, Francisco Sande Lemos, e do representante da Direção-Geral dos Monumentos Nacionais (Arquiteto Rosado Correia). O projeto foi reformulado pelo Instituto Português do Património Cultural, tendo depois ficado bloqueado porque não foi aceite pelos representantes do poder local (Delgado, Martins e Lemos, 1989). Em alternativa, os responsáveis pelo Projeto de Bracara Augusta propuseram a classificação dos vestígios já escavados, para os salvaguardar. Entre estes vestígios encontravam-se importantes zonas arqueológicas como os restos da muralha romana que circundava a cidade, as Carvalheiras, e as termas do Alto da Cividade. As primeiras obtiveram a classificação de Imóvel de Interesse Público; as últimas, tendo sido classificadas como Monumento Nacional em 1986, vieram beneficiar, dois anos mais tarde, de uma zona especial de proteção, através da definição de uma área reservada e condicionada face à construção. As ruínas de Bracara Augusta ficaram, assim, parcialmente protegidas (em algumas zonas), carecendo, ainda, de uma solução global. Se o início da atividade do Campo Arqueológico (entre 1976 e 1978) foi marcado por um “permanente conflito”, que opunha um “progresso urbano discutível à proteção e estudo de valores arqueológicos de indiscutível importância” (Alves et al., 1977: 416), essa atividade desenvolve-se e a afirma-se já a partir de 1977, altura em que se começa a encontrar “abundante e significativo espólio” (Delgado, Martins e Lemos, 1989), ao longo de várias escavações, onde importantes descobertas são feitas, sobretudo na área da Colina de Maximinos: uma conduta de água e uma residência romana (designada por Casa da Bica), um hipocausto e um edifício termal romano. São feitas sondagens de resistividade elétrica em diversas áreas onde se supõe existirem ruínas, sobretudo em terrenos particulares. Em 1978, sondagens geofísicas (escavações) levadas a cabo na zona de S. Marcos confirmam ruínas romanas. Por outro 126 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga lado, são ampliadas as zonas de trabalho na Colina de Maximinos, descobrindo-se as termas; ao mesmo tempo, são realizadas várias intervenções de emergência em vários pontos da cidade, motivadas por aberturas de valas para saneamento, cabos telefónicos ou eletricidade, e que viriam a estender-se por toda a década e posteriormente. Durante estas intervenções acabam por ser encontrados vestígios (como cerâmica de produção manual) de épocas anteriores à ocupação romana, como a Idade do Bronze, pelos quais não se esperava. Na década de 80 aprofundam-se escavações e estudos importantes, de sítios arqueológicos como as Termas, a necrópole romana da rua do Caires, e a Zona das Carvalheiras (ínsula romana), que se prolongam por vários anos. Em 1987, na Congosta da Palha, o município inicia desaterros para construção de parque subterrâneo de estacionamento, destruindo dezenas de sepulturas romanas, mas a rápida intervenção permitiu salvar e registar oitenta túmulos. Consciente da complexidade de financiamento, e das exigências humanas e logísticas que uma escavação sistemática da extensa cidade romana acarretaria, a equipa formada em 1976 tinha como principais objetivos delimitar a cidade romana, efetuar os acompanhamentos, as emergências e os salvamentos que se avistassem necessários, mantendo em paralelo algumas escavações programadas, para estudar o urbanismo e a arquitetura da antiga cidade romana. No entanto, devido aos avanços da construção na cidade de Braga, a partir de 1980, passaram a ter prioridade as intervenções de emergência e salvamento, não deixando espaço para o estudo sistemático das escavações ou para a realização de trabalhos programados de investigação (Martins e Lemos, 1997). A criação do Gabinete de Arqueologia, pela Câmara Municipal de Braga, em 1992, no âmbito do Centro Histórico, veio, assim, reforçar o controlo das situações de emergência nessa área, tal como as construções que, no perímetro urbano, colocassem em causa o subsolo arqueológico. A aquisição de terrenos por parte da Câmara Municipal, nomeadamente a zona non edificandi da Colina da Cividade (área arqueológica que inclui as importantes termas romanas), foi, no entanto, a única solução encontrada para salvaguardá-los da construção. Por outro lado, com a ação do Plano Diretor Municipal, foram impostas medidas cautelares face a áreas arqueológicas situadas dentro do perímetro urbano, definindo 127 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga pequenas zonas de reserva arqueológica, nas quais a construção ficou limitada a equipamentos de superfície (Martins e Lemos, 1997). Estas medidas trouxeram um novo fôlego para o prosseguimento dos trabalhos de investigação, para uma consolidação do Projeto e o reforço da sua componente científica. III.II.V Avanços científicos e culturais na investigação arqueológica local O projeto de Salvamento de Bracara Augusta tornou-se, desta forma, um “verdadeiro projeto de Arqueologia Urbana”, que permitiu obter uma vasta informação acerca do urbanismo da cidade romana (Martins e Lemos, 1997). No entanto, os condicionalismos próprios do trabalho em espaço urbano impossibilitaram o seguimento de um plano prévio, pelo que as várias intervenções feitas ao longo de vários anos vieram atrasar o estudo e a valorização dos resultados. Assim, até aos anos 90, os conhecimentos sobre Bracara Augusta advinham de uma acumulação de informações dispersas, mas não eram ainda completos ou conclusivos porque a interpretação dos resultados não conseguia acompanhar o ritmo acelerado das intervenções de salvamento (Martins e Lemos, 1997). Dificuldades de financiamento para escavações orientadas submetem este tipo de estudos a constrangimentos especiais, enquanto os salvamentos, sendo de caráter aleatório, não permitem estabelecer objetivos específicos, apesar dos resultados deste trabalho serem acrescentados aos já existentes sobre a cidade romana (Martins e Lemos, 1997). A partir dos anos 90, os estudos sobre Bracara Augusta incidiram sobre o urbanismo e arquitetura dos edifícios (tendo em vista a sua reconstituição), o material depositado no Museu D. Diogo de Sousa, procedente de duas décadas de escavações (entre os quais: cerâmicas, vidros, moedas, metais, e vários objetos de uso quotidiano), o interface entre a cidade e o meio envolvente (em termos de aprovisionamento de matérias-primas, como água e pedra, entre outros abastecimentos). Os objetivos de estudo de cada uma destas áreas vão de encontro, em maior ou menor grau, ao conhecimento da organização social e da forma de vida na época da ocupação romana, em Bracara Augusta, cuja temática domina grande parte das atividades de divulgação do património imaterial feita pelo Museu. 128 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga O estudo do urbanismo e da arquitetura contribuíram para recuperar a topografia antiga da cidade romana, para definir os limites da malha ortogonal e identificar as caraterísticas da arquitetura pública e privada (com base na conclusão do estudo do edifício público das termas do Alto da Cividade e da zona arqueológica das Carvalheiras), identificar o sistema de distribuição de água na cidade, definir a rede de saneamento, e confirmar a localização do Forum. O estudo do interface entre a cidade e o meio envolvente permitiu conhecer melhor os recursos e as matérias-primas usados na construção (através da identificação das pedreiras que abasteceram a cidade, em diferentes épocas construtivas), identificar as fontes de abastecimento hídrico à cidade, e a organização do povoamento rural da região envolvente de Braga, assim como da ocupação suburbana. O estudo dos materiais provenientes das escavações contribuiu para melhor conhecer a vida económica da cidade (através da análise da produção artesanal, das importações e da circulação monetária), identificar os fabricos locais de louça comum, as áreas de proveniência das cerâmicas finas importadas, e a circulação monetária, no Alto e Baixo-Império. A intenção de recriar modelos virtuais dos conjuntos arquitetónicos escavados, como as termas romanas do Alto da Cividade e a Casa das Carvalheiras, exemplo ímpar da arquitetura urbana privada em Bracara Augusta, que contribuiu para o conhecimento do urbanismo desta cidade romana (Martins, 1997) teve como propósito tornar este património arqueológico mais compreensível e acessível ao grande público (Martins e Lemos, 1997). Para além do projeto institucional de Bracara Augusta, a Unidade de Arqueologia, enquanto Unidade Cultural, tem ainda como objetivo a prestação de serviços especializados à comunidade no âmbito do estudo, salvaguarda, valorização e divulgação de outro património arqueológico, tendo colaborado regularmente, desde a sua criação, com diferentes entidades públicas e privadas que foram solicitando os seus serviços especializados, designadamente, o Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR), o Instituto Português de Arqueologia (IPA), que em 2007 deram origem, através da sua extinção e fusão, ao Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e 129 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Arqueológico (IGESPAR IP)4, a Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN)5, autarquias, museus, e outras entidades culturais interessadas na valorização do património arqueológico. A Unidade de Arqueologia de Braga foi, assim, por várias vezes, chamada a emitir pareceres, fazer reconhecimentos e intervir no salvamento de monumentos e sítios arqueológicos da região Entre-Douro e Minho (e mesmo em Trás-os-Montes e Beira Alta), desde o início da sua atividade, com a equipa do Campo Arqueológico de Braga, pelo que os estudos sobre os vestígios encontrados, e posteriormente divulgados no Museu D. Diogo de Sousa, foram sempre conduzidos com rigor científico. Para que as operações e investigações pudessem ter lugar, foi também importante o apoio facultado pelas várias entidades (instituições e individualidades) envolvidas nas requisições apresentadas à Unidade de Arqueologia. São, disso, exemplo o Governo Civil de Braga, a Câmara Municipal de Celorico de Basto e o Engenheiro Ilídio de Araújo, relativamente às escavações efectuadas, em 1977, no Sítio Proto-Histórico de Pedroso (Rêgo, Celorico de Basto), onde a Unidade de Arqueologia foi chamada a intervir para efetuar um salvamento devido ao alargamento de uma estrada municipal, que ameaçava destruir um conjunto de covas abertas no saibro granítico. Tanto o espólio lítico retirado dos buracos de poste e das covas, como as estruturas evidenciadas, foram de grande importância para o aprofundar o ainda reduzido conhecimento da cultura da Idade do Bronze no Noroeste português. Um outro exemplo em que uma situação de ameaça sobre o património arqueológico e cultural se transforma numa oportunidade de descoberta e investigação foi o revolvimento de estruturas arqueológicas e espólio provocados pela abertura de uma estrada, em finais de 1979, no concelho de Fafe, que deixaram a descoberto muros e enchimentos estratigráficos. A pedido, e com o apoio, da Câmara Municipal de Fafe, a Unidade de Arqueologia de Braga realizou escavações nesse local. O troço de uma rua e o 4 Criado no âmbito do programa PRACE, através do Decreto-Lei nº 96/2007 de 29 de Março, resultando da fusão do IPPAR e do IPA, incorporando também parte das atribuições da extinta DGEMN. 5 Pelo D.L. nº 223/2007 de 30 de Maio, a DGEMN foi integrada no Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana, IHRU, no que diz respeito à intervenção sobre o património habitacional não classificado e ao desenvolvimento e gestão do Sistema de Informação para o Património (SIPA), com exceção das atribuições relativas ao património classificado, que ficaram na competência do IGESPAR. 130 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga espólio cerâmico encontrados revelaram pertencer à época romana e contribuíram para reforçar a ideia de que a urbanização dos castros com as ruas e zonas habitacionais (neste caso, do povoado fortificado de Santo Ovídio) já definidas remontam a esse período. III.II.VI Recursos humanos Um dos fatores mais importantes na investigação, que determina a sua qualidade, é sem dúvida a qualificação dos recursos humanos envolvidos. A Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho começou por possuir uma equipa de trabalho que operou no Campo Arqueológico até 1980. Esta contou com o contributo de profissionais especializados, que orientavam as operações no terreno e os estudos laboratoriais e documentais, mas grande parte dos seus colaboradores não tinha formação especializada. Eles foram progressivamente adquirindo sensibilidade e competências através da prática e da orientação dos arqueólogos que coordenavam os trabalhos e, alguns deles, ainda através de estágios realizados no Museu Monográfico de Conímbriga e na delegação de Lisboa do Instituto Arqueológico Alemão (UAUM, [1981?]). Com a revitalização do Museu D. Diogo de Sousa, em 1980, o Campo Arqueológico foi também reformulado, e a equipa dividiu-se entre a Unidade de Arqueologia e o Museu, tendo a primeira conservado os técnicos superiores, e o segundo albergado o restante pessoal. Os técnicos responsáveis pelo trabalho de restauro completaram a sua formação académica superior, permitindo ao Museu assegurar um trabalho de qualidade nesta área de atuação; os restantes foram fazendo percursos escolares e académicos distintos, que lhes proporcionaram desenvolver capacidades anteriormente exploradas. A esta equipa vieram, ao longo dos anos, juntar-se outros profissionais com formação superior, fortalecendo-a e diversificando-a, permitindo ao Museu, não só beneficiar da longa experiência e familiaridade com os vestígios que os profissionais oriundos do Campo Arqueológico traziam consigo, como também das competências e do saber especializado de técnicos ligados a áreas fundamentais ao desenvolvimento das atividades de divulgação, no Museu, como o Desenho, a Arqueologia, a História e o Turismo. O Museu tem sabido, ainda, manter-se aberto a outros profissionais que contribuem para o desenvolvimento e divulgação das suas atividades, sobretudo através 131 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga de programas de estágio profissional e de voluntariado, em áreas diversas como a Animação Cultural, o Património Cultural e as Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação. Mas também a Unidade de Arqueologia sentiu, com o passar do tempo, a necessidade de ampliar e melhorar a sua equipa de trabalho, especialmente na área da investigação, no sentido de estudar o espólio que estava a avolumar-se. III.II.VII Metodologia de investigação Concebido como uma “unidade arqueológica de intervenção local polivalente” (Alves et al., 1977: 418), o projeto do Campo Arqueológico constituiu a primeira forma de trabalho de investigação arqueológica organizada e regulamentada no noroeste de Portugal. Este projeto previa uma divisão do trabalho arqueológico em quatro secções relacionadas entre si: trabalho de campo, intervenções de emergência, trabalho de laboratório, e atividades para a Carta Arqueológica. Apesar dos limitados recursos (materiais e humanos) disponíveis no início da sua atividade, verifica-se que a equipa de trabalho da Unidade de Arqueologia demonstrou reconhecer, já nos anos setenta do século XX, a importância da adaptação da metodologia de trabalho às condições específicas do sítio e da época de estudo em cada escavação, procurando o rigor do método para um registo científico adequado, já que que as escavações envolvem um processo longo, durante o qual é feito o registo não só das estruturas mas também dos sedimentos que as envolvem (UAUM, [1981?]). Para conhecer e salvar o património arqueológico desta região, o Campo Arqueológico de Braga colocou em prática um conjunto de operações distintas e articuladas, como prospeções e reconhecimentos, para a localização no mapa e a descrição dos monumentos, sítios ou achados; levantamentos topográficos e fotográficos, para registar as caraterísticas, dimensões e contexto das estruturas arqueológicas, a par de um trabalho de laboratório organizado em quatro secções: tratamento e restauro do espólio, desenho, fotografia e documentação, rentabilizando os recursos humanos disponíveis. Estas fases do tratamento laboratorial dos elementos recolhidos e registados no campo, fosse o espólio, fossem os levantamentos e os desenhos de cortes, eram encaradas com rigor, para que eles adquirissem significado. O tempo dedicado a este 132 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga trabalho de gabinete seria, em média, o triplo daquele passado no campo (UAUM, [1981?]). O trabalho laboratorial incluía a lavagem, a marcação, a codificação, a conservação, a reconstrução, o desenho, o tratamento de fotografia, e secretariado. Do trabalho de campo (prospeção e escavação arqueológica) provinha, normalmente, uma grande quantidade de material que, antes de ser armazenado, passava por um processo de tratamento e estudo cuidadoso. No Campo Arqueológico, no seu período de funcionamento entre 1976 e 1980, por exemplo, foi depositado espólio de setenta e quatro sítios arqueológicos. Quando dava entrada no laboratório, ele era primeiramente inventariado, depois era lavado e marcado, ficando registada nas próprias peças a sua proveniência, para que pudesse ser identificado mais facilmente. Os fragmentos de cerâmica, o género de material mais abundantemente encontrado, eram, de seguida, colados, e procedia-se ao restauro integral das peças sempre que se obtinha um perfil completo. Se a dificuldade de identificação e restauro de espólio em cerâmica residia, sobretudo, no facto de este se encontrar normalmente partido em diversos fragmentos, muitas vezes dispersos, e incompleto, ou ainda degradado, impedindo a distinção de traços decorativos ou de inscrições, no caso dos metais era o estado de adiantada corrosão, provocada pela acidez dos solos do Noroeste de Portugal em que eram encontrados, que dificultava o seu tratamento e estudo. Assim, e dado que o Campo Arqueológico não possuía as técnicas ou o equipamento mais sofisticado que o tratamento deste material exige, apenas eram realizadas operações simples de limpeza e impregnação para paragem do processo de reações químicas, sendo as peças consideradas mais importantes ou com problemas mais graves enviadas para restauro no Museu Monográfico de Conímbriga. O espólio metálico obriga, ainda, a criar condições de conservação especiais, pelo que era mantido, artificialmente e à parte, num ambiente quente e seco. Independentemente da natureza dos materiais, a sua organização em depósito era primordial, para que o acesso a qualquer fragmento se processasse rapidamente após a consulta dos ficheiros, para posterior estudo. Já no Campo Arqueológico, o desenho era encarado como uma das bases de sustentação mais importantes da atividade arqueológica, por ser mais rigoroso e 133 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga esclarecedor do que a fotografia. A sua qualidade e rigor científico fazem dele um instrumento que pode ser utilizado em qualquer momento da investigação, mesmo quando as interpretações e as hipóteses levantadas ficam desatualizadas. O desenho do espólio é feito segundo regras estabelecidas para cada género, e é usado para a publicação da sua maior parte. Este trabalho inclui ainda o desenho dos levantamentos das estruturas arqueológicas e dos cortes, com base nos originais efetuados em campo. A fotografia era tratada em laboratório próprio do Campo Arqueológico, com autonomia no trabalho a preto e branco. Servia para registar, revelar e imprimir imagens e informação sobre as prospeções, os reconhecimentos e as escavações efetuados, assim como do espólio considerado mais significativo. A este laboratório cabia, ainda, a produção de provas e diapositivos para a elaboração de relatórios, publicações, ensino, congressos e conferências, e de provas em grande formato para as exposições. O setor da documentação revestia-se de particular importância para o trabalho de pesquisa bibliográfica e investigação sobre o espólio encontrado no campo. A documentação era feita em ficheiros centralizados que asseguravam um mais rápido acesso à informação. Estes englobavam um vasto conjunto de documentos sobre a arqueologia do Minho e do Noroeste, como cartografia, plantas, levantamentos, registos de campo, desenhos, fichas bibliográficas, fotos, diapositivos e espólio. Neste setor foi feito um esforço de ordenamento dos circuitos de utilização, para melhor servir e organizar o público interessado (Instituto Português do Património Cultural, outros departamentos do Estado, Autarquias, investigadores, docentes, estudantes, entre outros). As escavações feitas pelo Campo Arqueológico da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, entre 1976 e 1980, visaram, sobretudo, o salvamento de sítios ameaçados, incidindo em monumentos e sítios de épocas distintas, desde a Pré-História até à Idade Média. Apesar de a equipa de investigadores da Unidade de Arqueologia abranger, já nessa altura, uma relativa diversidade de especialidades, foi, por vezes, necessário procurar a colaboração de outros especialistas para assegurar o tratamento científico dos resultados, como aconteceu no caso do estudo dos resultados das escavações efetuadas 134 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga no Convento de Santa Marinha da Costa (situado na Costa, em Guimarães), em 1979 e 1980 (UAUM, [1981?]), e do trabalho de sondagem sobre um dos sítios ameaçados pelo mar, em 1978, no Forte do Cão, na Gelfa (Vila Praia de Âncora, Caminha), que foi feito em conjunto pela Unidade de Arqueologia e pela Área de Ciências da Terra da Universidade do Minho, no âmbito do Campo Arqueológico, por requerer conhecimentos de Geologia. Normalmente, tal como aconteceu neste caso, os primeiros dados recolhidos não permitem retirar informações conclusivas, sendo necessário recorrer a outros trabalhos e estudos, como o alargamento da área escavada, e de análises policlínicas e de Carbono 14, para obter, entre outras informações, conclusões cronológicas, a definição do tipo de habitat e a reconstituição do ambiente (vegetação), e datações absolutas, levando os objetivos da investigação a concretizar-se apenas vários anos mais tarde, deixando pendentes a compreensão dos vestígios, e os significados que estão por trás dos dados apurados na investigação. Se, no início da atividade arqueológica efetuada nesta região, foi a falta de preparação das intervenções, que foram quase sempre de emergência, e de recursos (humanos, materiais e técnicos) capazes de dar resposta rápida ao tratamento adequado dos achados, durante a década de 80 foi o intenso aumento da atividade arqueológica em torno dos vestígios da cidade romana que deixou muitos dados acumulados para estudo, pois o ritmo das escavações, a falta de planos prévios para estabelecer objetivos em situações de salvamento, e a insuficiência de recursos humanos, em número e em especialização, não permitiu a sua análise sistemática. Assim, e face à grande quantidade de informação proveniente dos trabalhos arqueológicos, a equipa do Campo Arqueológico decidiu, já nos anos noventa, manter o método de registo efetuado no campo (por já ser considerado de grande importância e encarado com exigência de qualidade), mas reavaliar de forma permanente os resultados anteriormente obtidos, para que a investigação pudesse evoluir em termos de observação e interpretação dos dados. Tornou-se, ainda, necessário iniciar um estudo sistemático dos materiais provenientes de várias escavações. No entanto, nenhuma das instituições envolvidas no Projeto (Unidade de Arqueologia, Museu D. Diogo de Sousa, e Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga) possuía, aparentemente, recursos humanos disponíveis para efetuar essa 135 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga investigação, pois os existentes destinavam-se prioritariamente ao trabalho nas escavações e tratamento do espólio (Martins e Lemos, 1997), pelo que se recorreu à criação de um Mestrado de Arqueologia na Universidade do Minho, em 1993-94, com uma especialização em Arqueologia Urbana, a funcionar a partir de 1995, para formar e integrar num projeto de Arqueologia Urbana recursos humanos especializados em diversas áreas, como a Arqueologia, a História, a Arquitetura e a Informática, para uma investigação multidisciplinar. O recurso a novas tecnologias da informação e à informatização dos registos provenientes, sobretudo, dos cadernos de campo das escavações, veio facilitar a organização, avaliação e acesso à grande quantidade de informação acumulada, disponibilizando-a para a realização de estudos específicos. Para além disso, este tratamento de dados veio compilar informações e registos que, inevitavelmente, se encontravam dispersos pelas três entidades envolvidas no Projeto de Salvamento de Bracara Augusta (a Unidade de Arqueologia, responsável pelo estudo e direção científica das escavações, o Museu D. Diogo de Sousa, responsável pelo espólio das escavações e pela documentação, e o Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga, responsável pelas intervenções de emergência e salvamento na área do Centro Histórico desta cidade), facilitando o seu tratamento, estudo e divulgação. Deu-se, assim, início, a uma série de estudos específicos onde se incluem, por exemplo, a produção local de cerâmica, e a arquitetura dos edifícios romanos, que permitiram aprofundar o conhecimento sobre importantes vestígios arqueológicos da época romana em Bracara Augusta, cujas réplicas (em maqueta) integram atualmente a exposição permanente do Museu D. Diogo de Sousa, nomeadamente as Termas Romanas do Alto da Cividade e a Casa das Carvalheiras. Estes sítios arqueológicos, e as réplicas respetivas, vieram servir de contexto a visitas temáticas e a contos animados sobre esta época, realizados no Museu, no âmbito do seu Serviço Educativo, tal como a informação sobre a produção local de cerâmica fundamentou a criação de oficinas lúdico-pedagógicas sobre este tema. Os técnicos do Serviço Educativo do Museu puderam beneficiar dos resultados destes estudos para se documentar e preparar o trabalho de divulgação do espólio do Museu, embora outras pesquisas documentais tenham sido necessárias, assim como, em 136 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga alguns casos, a frequência de formação específica, para que determinados ensinamentos pudessem ser transmitidos ao público, quer durante as visitas guiadas, como na realização de atividades de caráter prático, como os jogos romanos, a produção cerâmica, ou a criação de indumentária, adornos e penteados romanos. III.II.VIII Correntes de influência na interpretação dos vestígios Sabendo que os estudos sistemáticos sobre o espólio arqueológico divulgado pelo Museu D. Diogo de Sousa tiveram início no século XX, tendo em conta a existência de várias correntes de interpretação em Arqueologia ao longo desse século, e partindo do princípio de que cada abordagem determina um tipo de leitura diferente, importa conhecer as influências metodológicas e ideológicas que nortearam as leituras e interpretações feitas sobre os vestígios materiais que constituem o espólio divulgado pelo Museu D. Diogo de Sousa, pois dessa leitura depende o conhecimento específico que se detém sobre o património a divulgar. Para efetuar esta análise, será tida em conta a opinião da Professora Manuela Martins, atual presidente da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, um dos elementos mais antigos deste núcleo de trabalho, que agora dirige. A visão aqui expressa pela Professora Manuela Martins sobre a interpretação em Arqueologia foi, como declarado pela mesma, formatada por ideias e leituras referenciais na sua formação e perceção do mundo, do passado e da sociedade, de autores como Bourdieu, Foucault e Habermas, que sustentam parte das premissas de um novo “paradigma interpretativo” na Arqueologia, conhecido como pós-processual. Relativamente à ideia de “passado”, Manuela Martins (1993) recusa uma conceção baseada na “realidade cumulativamente apreendida, quer seja numa perspetiva historicista, que o recria como narrativa do que aconteceu, seja na perspetiva positivista, que o olha como algo objetivável e mensurável”. Em vez de um “passado objetivo”, ou “processos evolutivos”, que pode ser “reconstruído por acumulação de observações”, é preferida uma ideia de passado sujeito à interpretação, valorizando, ainda, a ação do indivíduo que o constrói, salvaguardando, no entanto, a possibilidade de o significado resultante não ser conclusivo, dada a sua dependência de modelos culturais e disciplinares dominantes, que condicionam a compreensão efetuada pelo indivíduo (1993: 4). 137 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Reconhecendo a preponderância do evolucionismo no pensamento modernista sobre as questões da continuidade e mudança, enquanto estrutura de pensamento que domina a visão do homem ocidental face ao passado, ao presente e ao futuro da humanidade, Manuela Martins admite a sua influência na leitura que é feita do tempo, do espaço, das culturas, e de outros conceitos fundamentais para os estudos arqueológicos, históricos e antropológicos. Manuela Martins faz notar, no entanto, que os conceitos utilizados na interpretação do passado não são senão representações e formas de lidar com a realidade, pelo que as leituras efetuadas obedecem a um modelo estruturante do discurso e da linguagem, que, por sua vez, dependem da experiência e da informação que se detém no momento. Assim, esses conceitos estão constantemente sujeitos à reinterpretação (1993: 5). Para Manuela Martins, os conceitos de tempo, espaço e cultura, utilizados na investigação arqueológica, como em outras disciplinas, encontram-se profundamente ligados, pois as culturas ocorrem, forçosamente, num tempo e num espaço específicos, mas o que lhes dá sentido é o comportamento humano. Ainda segundo Manuela Martins, a ideia de evolução das sociedades, presente na investigação em Ciências Humanas, nas quais se situa a Arqueologia, pressupõe a existência de descontinuidade e de mudança, pela passagem por sucessivos estádios, do simples ao complexo, numa escala temporal. Assim, nos estudos de longos períodos de tempo, habituais na investigação arqueológica, são procuradas as descontinuidades e a sua explicação, para entender a evolução das sociedades. Para Manuela Martins (1993: 6), a atenção dada pela Arqueologia às mudanças de cariz tecnológico deve-se ao facto de elas permitirem escalonar as culturas numa ordem temporal linear, que facilita a sua leitura. Ela admite, no entanto, que esta prática inserida no evolucionismo também impõe limites à própria conceção de evolução, ao pressupor como processo de mudança e de crescente complexidade nas alterações efetuadas, “no sentido de uma maior transformação de energia, maior adaptação ao meio, maior especialização funcional, maior integração social e maior diferenciação estrutural”, pois esse foi o sentido tendencial de evolução (ou mudança) demonstrado pela civilização ocidental. 138 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Manuela Martins defende, assim, que a abordagem científica sobre a evolução e transformação das sociedades deve ser explicativa e, portanto, requer uma análise causal, com base em modelos e metodologias que ajudam a construir uma representação do passado. Das diferentes leituras realizadas durante o século XIX, no noroeste português, consideradas como alternativas sobre o mesmo passado por Manuela Martins (1993: 7), destacam-se as tendências tradicionalistas do Romantismo que, sob ideais patrióticos e regionalistas, orientaram as investigações de eruditos locais bem conhecidos, como Martins Sarmento e Alberto Sampaio. M. Martins considera esta uma visão romântica e tradicionalista, que procurava a continuidade histórica, e recusava a mudança face ao passado. Apesar de valorizar os esforços pioneiros de figuras como Martins Sarmento enquanto introdutores da Arqueologia como disciplina científica em Portugal, M. Martins acredita que eles pecam por terem estado fortemente marcados pelos ideais românticos, que não permitiram uma visão objetiva sobre a evolução e a mudança cultural. O trabalho destes investigadores é visto como “regionalista” e amador, para além de criador de “fortes constrangimentos” face ao desenvolvimento dos conhecimentos, ao longo de várias décadas (Martins, 1993: 8). Para M. Martins, esta mentalidade, caraterizada pelo amadorismo, pelo isolamento dos investigadores, e pelo entendimento da Arqueologia enquanto busca das origens de uma região, que dominou o início da investigação arqueológica do século XX, só viria a ser totalmente superada nos anos 80 do século XX. No entanto, foi este paradigma que acabou por fornecer um “modelo interpretativo coerente que, entretanto, se multiplicava e para o qual os investigadores buscavam apenas filiações étnicas” (Martins, 1993: 8). Nos anos 80 a prática arqueológica de campo lavada a cabo pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho estava, finalmente, definida num quadro normativo e, por influência do Positivismo, aspetos como o “romantismo, o amadorismo e o anacronismo” (Martins, 1993: 53) foram desaparecendo do panorama da investigação arqueológica. Assim, vários projetos de investigação conduzidos no norte do País sobre temas relacionados com a Pré e a Proto-História permitiram levantar novas questões, 139 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga num novo enquadramento teórico, que possibilitaram novas leituras dos registos arqueológicos e, por conseguinte, novos conhecimentos e interpretações dos mesmos. Uma nova visão dos conceitos de tempo e de espaço veio permitir que os sítios arqueológicos e os vestígios materiais da cultura fossem encarados, não como modelos ou padrões culturais, mas como algo que pode ser interpretado em termos socioeconómicos, simbólicos, e de dinâmica de ocupação do espaço (Martins, 1993). Podemos, efetivamente, afirmar que nesta década se deu um avanço muito importante na interpretação da cultura material, pela valorização da simbologia e significado dos vestígios arqueológicos, que passaram a ser estudados enquanto parte de um todo. Os sítios arqueológicos passaram a ser vistos como algo que não está isolado, mas sim inserido numa paisagem e em redes de povoamento, e os objetos e estruturas passaram a ser estudados em termos tecnológicos, funcionais e simbólicos (Martins, 1993: 54). A investigação dos anos 80, no noroeste português, ficou marcada pelo positivismo na forma de encarar aspetos como o tempo e o espaço, que se traduziu em práticas metodológicas como o recurso sistemático à estratigrafia, a utilização generalizada do radiocarbono (C14), a aplicação de modelos de análise espacial, e trabalhos de âmbito paleo-ecológico, com o objetivo de compreender a “evolução da paisagem e dos processos de desenvolvimento económico e social das comunidades” (Martins, 1993: 54). Em vez de se centrar na procura de traços homogéneos, como anteriormente era feito, a investigação passa a reconhecer e a valorizar “variabilidades sincrónicas e diacrónicas” (Martins, 1993: 54), dando outra expressão à noção de tempo e à relação existente entre os acontecimentos, não apenas numa perspetiva dos factos passados numa mesma época, como também numa aceção dinâmica da sucessão do tempo. O espaço adquiriu, assim, uma expressão temporal, e passou a ser interpretado com base na sua interação com as comunidades; ao ser contextualizado, ele ganhou uma dimensão histórica, permitindo fazer leituras em termos funcionais e socioeconómicos (Martins, 1993). Surge, assim, uma nova perspetiva sobre os factos históricos e os artefactos, influenciada pelas ideias da Nova Arqueologia, que deixa de encarar as mudanças como 140 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga ocorrências bruscas geradas por acontecimentos motivadores de instabilidade, para passar a percecionar a mudança como processo dinâmico de transformação, procurando a construção de uma “sequência menos segmentada pelos factos históricos e os artefactos”, e “mais conforme aos processos de dinâmica económica e social” (Martins, 1993: 55). Por outro lado, e apesar de recusar a ideia de isolamento das comunidades, esta abordagem estabelece uma visão diferente da sua antecedente em relação às influências externas: em vez de as ver como consequência de “migrações, ou simples difusão”, elas são encaradas como o resultado de “diferentes níveis de interação regional e supraregional”, que motivam “processos dinâmicos de transformação” dentro das comunidades (Martins, 1993: 55). Analisando as influências da abordagem pós-processualista, e voltando à problemática da evolução cultural, numa nova relação entre tempo, espaço e cultura, numa reavaliação das questões da continuidade e da mudança, podemos afirmar que de uma aceção de tempo, valorizado como cronologia, e de espaço, como um mero cenário, pela arqueologia tradicional, passou-se, nos anos 80, sob a influência de uma abordagem social, a ter os três conceitos – tempo, espaço e cultura, finalmente, inter-relacionados. A cultura é vista como um processo (composto por normas, valores, representações cognitivas e materiais), “através do qual a prática social se constitui e se transforma”, e o tempo e o espaço são encarados como “estruturas” e “condições estruturantes da vida social e cultural, do comportamento e da ação”, pois eles são indissociáveis da prática social, que os gera e reformula de forma permanente (Martins, 1993: 58). Esse tempo construído por cada comunidade, num processo social e cultural, confere temporalidade à cultura material e às formas espaciais, traduzindo-se em “modelos específicos de relações intra-culturais e inter-culturais”, que resultam em comportamentos diários (ou hábitos), na noção de tempo biográfico dos indivíduos, e no tempo das instituições. À semelhança do tempo, o espaço está associado à cultura e, portanto, é visto como “um meio através do qual as relações sociais se produzem e reproduzem”. Mas ele está também relacionado com o tempo; por isso, M. Martins defende que, para compreender uma cultura, é necessário entender a forma como os indivíduos se relacionam no espaço, e interagem em diferentes momentos. O espaço é visto como uma 141 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga entidade fortemente simbólica, pois é nele que se ordena, representa e transforma a visão que os membros de uma comunidade têm do universo, que determina a organização e o sentido atribuído à vida humana. A cultura surge, assim, como “um contexto de ação e não como simples consequência da mesma” (Martins, 1993: 58). Isso implica que, em termos de continuidade e mudança, os estudos se concentrem nas ações dos indivíduos em interação social e ambiental, pois são essas ações que aparecem materializadas nos vestígios arqueológicos, expressando traços culturais. As diferentes formas de interação que caraterizam cada comunidade resultam na diversidade cultural do passado, que observamos nos testemunhos materiais. As continuidades, por seu turno, acontecendo dentro de um processo dinâmico que carateriza a evolução das sociedades, não serão exatamente estáticas, alimentandose de mudanças e escondendo alterações em termos de práticas e manifestações sociais. Este fenómeno acaba, segundo M. Martins (1993: 58), por gerar “contradições entre os princípios estruturantes da reprodução social e os seus agentes”, levando a conflitos que apenas são superados através de mudanças estruturais. Por isso, as explicações dadas para a evolução cultural ou social pela Arqueologia tradicional (com base nos acontecimentos ou nas mudanças tecnológicas) e pela abordagem processualista (com base na ecologia e na lógica socioeconómica) não foram consideradas suficientes, pois são também de considerar, nesta análise, uma complexidade de experiências e de sentidos práticos e simbólicos, carregados de intenção, que se encontram em permanente estruturação, na evolução histórica. Passa-se, assim, a realçar o valor da compreensão do passado e da interpretação individual do narrador, pelo que os conceitos de espaço e de tempo representados nos registos arqueológicos aparecem como associados a “sucessivos presentes” (Martins, 1993: 59). Mais do que buscar causas para a ocorrência das mudanças, tornou-se importante compreendê-las no contexto das continuidades que sustentam a herança histórica das sociedades, visíveis em diversos aspetos que caraterizam as sociedades do presente. As culturas do passado, que geraram estruturas socioeconómicas, simbólicas e ideológicas deixaram traços visíveis na sociedade, na mentalidade e na paisagem do 142 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga presente, constituindo continuidades e evoluções que marcam as sociedades atuais, e que ajudam a compreendê-las. Fica, assim, expressa a sugestão de que, na interpretação em Arqueologia, e para que sejam feitas uma mais abrangente análise e uma melhor compreensão dos aspetos materiais e imateriais das culturas do passado, seja importante considerar tanto as mudanças como as continuidades, que determinam a herança cultural das comunidades e sociedades. Por outro lado, a conceção tripartida de cultura aqui defendida por Manuela Martins está em consonância com a natureza do património imaterial, tanto pela interrelação entre cultura, espaço e tempo, como pela premissa de que ela está em constante mudança, evolução e transformação, refletindo-se em ações e representações. A investigação da qual advém o conhecimento dos testemunhos materiais pertencentes ao espólio do Museu beneficiou, sobretudo a partir dos anos 80 e 90 do século XX, e com a criação da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, da evolução epistemológica e científica ocorrida em outros países. A adoção de abordagens e metodologias mais rigorosas e abrangentes conduziu à elaboração de estudos culturalmente contextualizados, que valorizaram questões de continuidade e de mudança cultural, aspetos culturais singulares, e uma visão integrada de tempo, espaço e cultura. Neles foram realçados aspetos relacionados com hábitos de vida, a produção artesanal, a dieta alimentar, a organização social, o culto religioso, as artes, o lazer, as relações familiares, os espaços domésticos e os espaços públicos, a relação entre o indivíduo e a natureza, entre outros aspetos, que constituem, de forma evidente, domínios do património imaterial. A investigação que foi efetuada por esta unidade cultural centrou-se na região do noroeste português, mas todos os estudos sobre os vestígios recorreram à análise comparativa com dados obtidos por outras investigações, de outros tempos e locais, não se fechando numa perspetiva regional. Presentemente6, Manuela Martins continua a considerar, no entanto, que a interpretação feita dos vestígios materiais é diferente em cada estudo efetuado em Arqueologia (e o mesmo acontece dentro da equipa da UAUM). Isso deve-se, no seu 6 As declarações de Manuela Martins aqui apresentadas foram proferidas, pessoalmente, através de entrevista semiestruturada, por via telefónica e correio eletrónico, em Abril de 2012. 143 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga entender, às distintas “formações teóricas dos arqueólogos”, ou mesmo à “ausência de qualquer formação de natureza teórica, que nem sempre é ministrada nas Universidades, ou é simplesmente omitida”. Será por isso, também, que, segundo M. Martins, “ainda há quem ache que a Arqueologia é uma simples técnica de escavação”, havendo, ainda atualmente, muitos arqueólogos que “rejeitam que a prática arqueológica esteja já submetida a constrangimentos teóricos”. M. Martins defende precisamente o contrário e, por isso, considera que “é o pensamento teórico que preside ao próprio registo, variando este muito entre os arqueólogos, porque só se regista aquilo que se percebe”. Assim, o registo arqueológico no campo (de artefactos, ecofactos, contextos, estruturas, etc.) será feito de acordo com a capacidade de cada um o compreender, com base na sua “formação, no conhecimento e no raciocínio analógico”, que determinam a visão que cada um possui daquilo que escava. Para M. Martins, apesar de os diferentes paradigmas teóricos e metodológicos se terem sucedido no tempo, eles ainda coexistem, continuando a ser usados em diferentes doses. A questão da interpretação dos vestígios materiais, em Arqueologia, torna-se complexa devido à tendente “variabilidade das análises e interpretações produzidas”, que se agrava, segundo M. Martins, consoante a natureza dos vestígios, de acordo com “o seu período cronológico e cultural”, mas também com “o seu caráter fragmentário”, que impede os artefactos e estruturas de chegarem intactos até ao presente. No entanto, para M. Martins, também não é possível ter uma análise linear da questão e afirmar, por exemplo, que os pré-historiadores fazem interpretações “mais sofisticadas” apenas “porque lidam com vestígios mais fragmentados”, em comparação com “aqueles que lidam com contextos construtivos dos períodos históricos”. Assim, por um lado, “a interpretação não é uma etapa do processo arqueológico, que apenas se coloca na fase de laboratório” e, por outro, compete ao arqueólogo “desenhar contextos e hipóteses interpretativas diversas”, uma vez que, para M. Martins, “a Arqueologia não é uma ciência exata, mas uma disciplina discursiva que cria cenários representativos do passado, com base em modelos de análise”. M. Martins vê como desejável, mas difícil de alcançar, que os diferentes olhares interpretativos se complementem na interpretação dos vestígios, pois isso dependeria, 144 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga em grande parte, “da capacidade do arqueólogo e dos seus interesses, bem como de financiamentos para a investigação”, algo que “nem sempre é fácil de conseguir” em Portugal, onde, segundo M. Martins, “as análises são muitas vezes vistas como dispensáveis”. Manuela Martins atribui o “valor imaterial dos objetos” não ao próprio objeto mas ao “contexto e conteúdo que lhe é acrescentado pelo arqueólogo”, e, para ela, “o problema mais complexo que a Arqueologia tem que enfrentar” é “assumir que a interpretação é subjetiva e que apenas constrói partes de um todo”, posicionando-se contra as “barricadas tradicionalistas que ainda acreditam que os objetos falam por si”, sem que sejam formuladas perguntas sobre os mesmos. Analisando as palavras de Manuela Martins, verifica-se que a mesma insiste muito na questão da subjetividade na interpretação dos vestígios arqueológicos apesar de assumir que ela depende de modelos que as procuram, de certa forma, objetivar. O problema residirá, afinal, no facto de diferentes arqueólogos seguirem modelos interpretativos distintos, que ainda coexistem. Mas pior do que tudo isso será não trabalhar de forma multidisciplinar, sem recolher visões de várias disciplinas, pois é a interpretação multidisciplinar que criará uma análise suficientemente abrangente dos vestígios, para que sejam entendidos de forma mais completa e rigorosa, que permita, depois, explorar esse recurso material relacionando-o, se aplicável, com património imaterial. III.II.IX Contributos para o conhecimento do património imaterial Ao longo da sua existência, e sobretudo a partir dos anos 80 do século passado, muitos avanços tiveram lugar na investigação sobre o património arqueológico da região noroeste. Entre eles, contam-se estudos sobre vestígios provenientes de várias épocas, desde a Pré-História até à Idade Média. Ao longo da década de noventa, foram realizados e divulgados estudos sobre zonas e vestígios arqueológicos, que testemunham a existência da cidade romana de Bracara Augusta, e que ajudam a conhecer a forma como se vivia na altura. Os vários estudos realizados pela Unidade de Arqueologia não se limitam a efetuar uma análise material dos vestígios; não se detêm apenas com aspetos formais, estilísticos 145 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga ou técnicos, mas procuram conhecer o contexto exato em que foram encontrados e em que foram utilizados, para que possam ser historicamente valorizados e significativos. Os métodos de investigação utilizados no estudo dos vestígios arqueológicos, e a profundidade desse mesmo estudo, dependem das condições envolventes, dos recursos disponíveis, e da natureza e estado dos vestígios. No estudo da zona arqueológica das Carvalheiras, ou no das termas do Alto da Cividade, por exemplo, foi feita uma interpretação do conjunto tendo, sobretudo, em conta uma análise dos aspetos arquitectónicos e, portanto, do seu processo de construção e da sua estrutura (Martins, 1997). Este estudo sobre a zona das Carvalheiras revelou dados importantes sobre as técnicas e materiais de construção utilizados na época da ocupação romana, em Bracara Augusta, aspetos do urbanismo e da arquitetura urbana privada da cidade romana, permitindo conhecer a sua estrutura, composição, e funcionalidade das diferentes divisões (Martins, 1997); em resumo: o espaço doméstico, mas também a sua representatividade dentro da malha urbana. No estudo de peças de cerâmica, como lucernas, por exemplo, procurou-se a técnica utilizada, estudou-se a forma e os materiais envolvidos na construção da peça, a sua origem espacial e histórica, por comparação com estudos já existentes e peças expostas em outros museus, a sua cronologia (com base no estudo morfológico), e a análise de inscrições, como a marca de oleiro (Morais, 1997a). Estas peças serviram de testemunhos sobre a estrutura social e cultural, e sobre as relações comerciais externas existentes em Bracara Augusta, na época romana. A análise de elementos arqueozoológicos, como restos de ossos e dentes de animais, em estudos sobre povoados pré e proto-históricos da região minhota (Antunes, 1991), revelou dados sobre hábitos alimentares (produtos consumidos, forma de cozinhar os alimentos, fontes de energia e técnicas utilizadas na sua confeção e cozedura), sobre os animais existentes (espécies e subespécies dominantes, tanto enquanto animais domésticos, como selvagens), as atividades de produção e exploração, como a pastorícia e a caça, e o destino que era dado aos restos dos alimentos; em suma, a relação e forma de interação entre o indivíduo e o meio em que ele estava inserido. A confrontação de obras de autores clássicos (sobretudo de Estrabão) com dados arqueológicos demonstrou, por exemplo, a especificidade do Noroeste Peninsular no 146 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga quadro da ocupação romana, relativamente à integração de produtos como o vinho e o azeite na estrutura alimentar, e as consequências económicas daí resultantes (Morais, 1997c), realçando aspetos de continuidade e mudança cultural entre os fins do século I a.C. e meados do século seguinte, nas comunidades do NO peninsular. A interpretação de registos epigráficos, o estudo da presença de cerâmica na região (em especial, ânforas vinárias e ânforas de azeite), estudos de paleocarpologia (a partir de análises comparativas de macrorestos de sementes), a análise crono-cultural de testemunhos arqueológicos resultantes de escavações, o recurso a referências paleobotânicas, a análise de vestígios arqueozoológicos, análises arqueométricas (de cronologias construtivas), aliados a relatos provenientes de obras clássicas e históricas, resultaram numa interpretação culturalmente contextualizada sobre a evolução do uso e da produção de dois produtos que entraram nos hábitos alimentares do povo desta região. Os estudos publicados pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, que servem de base informativa sobre o espólio do Museu D. Diogo de Sousa, e do trabalho de divulgação que nele é feito, foram efetuados já sob a influência de correntes de investigação e de interpretação mais recentes, em Arqueologia, pelo que os objetivos e a metodologia neles apresentados focam aspetos relacionados com a dimensão imaterial dos vestígios e a sua contextualização cultural, como “relações de continuidade e descontinuidade”, “leituras funcionais e socioeconómicas”, “as fases cronológicasculturais”, “factores geoestratégicos”, ou “o contexto ambiental” (Bettencourt, 2000; Bettencourt, 2001). Por outro lado, procurar padrões culturais é uma tendência recorrente na investigação histórica, mas também na Arqueologia. No entanto, esta aprendeu, através da prática, que há vários exemplos que não se enquadram em qualquer padrão, e que isso não diminui a sua importância. Por exemplo, nos vestígios provenientes da Idade do Bronze encontrados na região minhota verificou-se que cada peça é única, contendo formas e decorações que não se vêem repetidas em outras peças, pois as técnicas de produção ainda não incluíam a utilização de moldes. Outro exemplo, também da área da produção cerâmica, é o do estudo sobre duas lucernas vidradas de época romana encontradas em Bracara Augusta, onde foi aplicada a técnica pouco frequente do vidrado 147 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga de chumbo, a partir de um fragmento vidrado em forma de cabeça de cavalo que se descobriu pertencer a uma lucerna, e de uma lucerna intacta de bico redondo (Morais, 1997a). Aceitar, compreender, valorizar e divulgar a sua singularidade é também divulgar património imaterial. Por vezes, como já foi dito atrás, descobrir a funcionalidade de uma peça e o seu significado trata-se de um processo complexo, e nem sempre alcançável em tempo útil, sendo apenas feitas suposições. Outras vezes, as hipóteses lançadas de início, com base nos dados recolhidos nas diversas fases de estudo, ficam estanques, não sendo possível obter resultados científicos rigorosos que levem à identificação e compreensão dos vestígios, e logo ao seu restauro e/ou exposição ao público. Nesses casos, os vestígios ficam depositados e conservados em armazém, para sempre ou até que novos avanços sejam feitos na investigação. Os vestígios chamados selados ou lacrados, que são encontrados no local original onde foram deixados, in situ, são válidos do ponto de vista científico, enquanto que aqueles que foram movidos e adulterados impedem que seja feita uma interpretação rigorosa, e que os estudos sejam válidos ou conclusivos. Mas também existem exemplos de situações em que o facto de os vestígios não se terem conservado in situ não impediu que a investigação fosse conclusiva (Martins, 1997). Pelo caráter provisório das hipóteses colocadas, e devido aos fatores atrás descritos, os estudos podem ser prolongados por tempo indefinido, e estar sujeitos a atualização, incluindo espólio já exposto e divulgado, imposta pelo avanço científico e por novas descobertas que a investigação proporcione. Tal aconteceu, por exemplo, relativamente à zona arqueológica das Carvalheiras, cujo complexo estudo se prolongou por vários anos (Delgado e Lemos, 1985; Delgado e Lemos, 1996; Martins, 1997). A investigação em Arqueologia permite o encontro com o passado, interpretá-lo, e entendê-lo melhor, e esse trabalho beneficia dos avanços tecnológicos e da evolução dos métodos de investigação (cientificamente rigorosos e tecnologicamente avançados), das fontes disponíveis (vestígios documentais e vestígios materiais), por um lado, da abordagem (multidisciplinar) utilizada na sua interpretação (abrangente e aberta às questões de continuidade e mudança cultural), e ainda dos conhecimentos e das técnicas de conservação, restauro, valorização e exposição dos sítios e objectos, que determinam 148 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga o tipo de leitura que é feita na divulgação do espólio arqueológico, e da sua dimensão cultural. Conhecer o contexto passado dos vestígios é determinante para compreender e objetivar o seu significado. Os objetos têm uma dimensão não material que vai mais além da mera explicação ou informação sobre a sua origem espácio-temporal, e a sua utilidade prática. Colocar os objetos a falar é procurar neles traços, mais ou menos, percetíveis sobre os hábitos, as formas de interação com o meio envolvente, e a visão do mundo que eles transmitem sobre uma determinada comunidade e cultura. É nesse sentido que um museu de Arqueologia não só pode divulgar o património imaterial como ser um local privilegiado para tal, pois a investigação arqueológica permite obter, tratar e interpretar, com mais segurança e rigor científico, os vestígios materiais que testemunham o passado da humanidade, sobretudo de épocas anteriores ao surgimento da escrita. Impõe-se, no entanto, ter em conta que, tal como foi aqui afirmado, todos os vestígios possuem uma vertente material e uma vertente imaterial. Podemos, porventura, afirmar que a vertente material não será geradora de dúvidas, uma vez que associamos automaticamente o material a objeto ou forma física; mas o mesmo não acontece em relação à sua vertente imaterial, que é mais difícil de definir. Por um lado, como foi referido no capítulo relativo à definição e às dimensões do património imaterial, é necessário ter em conta que o imaterial, enquanto património, pode incorporar também aspetos materiais. Por outro (e, neste caso, a questão aplica-se tanto ao património imaterial como ao material), a noção de “património” é fundamental, já que nem todos os vestígios ou manifestações culturais podem ser considerados “património”. Durante a sondagem inicial que efetuei junto dos profissionais do Museu D. Diogo de Sousa, para aferir acerca da sua visão sobre o património imaterial e da eventual ação desenvolvida pelo Museu no sentido da divulgação do mesmo, estas questões assomaram de forma evidente (e assumidamente ou não) na maioria das respostas. Estas são dúvidas que ainda prevalecem, de uma forma geral, em relação ao património 149 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga imaterial, não apenas por parte de profissionais deste museu, pelo que é importante ter esses conceitos bem clarificados, sobretudo por quem trabalha questões relacionadas com o património imaterial, pois estar ciente de que se está, efetivamente, a fazê-lo (como acontece no Museu D. Diogo de Sousa) pode contribuir para uma melhor ação de divulgação do mesmo. Tal como foi definido na secção de contextualização teórica deste estudo, só podemos considerar como património aquilo que é comummente aceite por uma comunidade (mais, ou menos, alargada) como sendo representativo da sua identidade cultural (no sentido antropológico do termo), apesar de não podemos esperar que todos os elementos de determinada comunidade sintam ou reconheçam, pessoalmente, algo como parte da sua identidade, sobretudo quando se trata de património imaterial (já que este sobrevive graças à sua (re) transmissão). Tal pode acontecer porque não se identificam com determinados valores que lhe estão subjacentes (como acontece, em Portugal, por exemplo, em relação à tauromaquia, por questões que se prendem com a defesa dos direitos dos animais), por desconhecimento das suas raízes e de determinados costumes que entraram em desuso, e que deixaram gradualmente de ser transmitidos de forma natural, de geração em geração (como acontece em relação a determinadas tradições e atividades artesanais, na região minhota de Portugal, como as vindimas, as desfolhadas, a arte de trabalhar o linho ou o barro). Noutros casos, as gerações mais recentes, devido às diversas inovações e mudanças ocorridas nas várias áreas da vida humana, veem determinados conhecimentos, artes, valores, costumes e crenças do passado como algo obsoleto (como as antigas formas de produção artesanal face ao fabrico industrial, em relação à cerâmica, por exemplo, ou as antigas técnicas manuais face aos atuais métodos mecânicos, como acontece na produção de vinho). Assim, é considerada a visão e o sentimento que prevalece, de uma forma geral, na comunidade, até que as exceções e diferentes tendências eventualmente se fortaleçam de tal forma que transformem essa realidade, e se tornem o sentimento, a mentalidade e a prática dominantes. O património como memória e herança do passado pode ser considerado como pertença cultural, não impedindo a inevitável mudança ao longo do tempo. Assim, passado e evolução cultural são compatíveis, podendo coexistir. 150 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Neste estudo, foram tidas em conta estas questões de mudança, valorizando a memória e a herança cultural como património (imaterial) que pode ser transmitido, quer de geração em geração, como através da função da educação não formal de que os museus são dotados, enquanto instituições culturais e transmissoras de saber. Desta forma, os museus valorizam a memória e a herança cultural como algo que, mesmo não fazendo parte dos usos atuais, faz parte do processo cultural que tornou a nossa sociedade naquilo que ela é presentemente, contribuindo para a sua evolução. Conhecer esse passado e tomar contacto com ele ajuda as pessoas a conhecerem e a perceberem a sua origem, sem que tal impeça que continuem a operar-se mudanças culturais. Por outro lado, ainda, importa clarificar a diferença entre “vertente imaterial do património” e “património imaterial”. Pela primeira, podemos entender, no contexto deste estudo, toda a informação válida (do ponto de vista científico) disponível acerca do património, seja ele material ou imaterial, incluindo desde dados cronológicos e geográficos até ao seu significado histórico-cultural. Será, assim, todo o contexto a que o vestígio está associado, a sua própria história, incluindo o seu percurso de descoberta e de recuperação, assim como o seu significado. Era esta a noção que a maioria dos profissionais do Museu tinha, inicialmente, de “património imaterial”, não tendo em conta a noção de património. Os vestígios arqueológicos tornam-se património pelo facto de serem representativos de uma determinada cultura e identidade, passada e/ou presente, sendo um testemunho e um reflexo das práticas, representações, expressões, conhecimentos e competências de uma cultura. Esse será o património imaterial ao qual o património material, incorporado em instrumentos, objetos, artefactos ou espaços culturais, está associado. As comunidades, grupos e, eventualmente, indivíduos reconhecem-nos como fazendo parte do seu passado e daquilo que está também na origem do que são no presente. Transmitido de geração em geração, e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função do seu meio envolvente, da sua interação com a natureza, e da sua história, este património imaterial confere-lhes um sentido de identidade e de continuidade. Quando, neste estudo, se fala de divulgação do património imaterial, pretende-se, assim, aludir às formas através das quais esse património, atrás definido, é transmitido ao público deste museu, no âmbito da sua função de promotor cultural, partindo dos 151 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga vestígios arqueológicos que constituem o seu espólio e dos sítios arqueológicos que integram um circuito histórico-cultural das várias épocas retratadas pelas coleções do Museu. Nesse sentido, as informações de caráter cronológico, geográfico, ou mesmo histórico, por exemplo, não são consideradas património, mas sim um complemento informativo acerca do mesmo, ainda que possam ser fundamentais para a sua interpretação e para o seu reconhecimento como património. O património imaterial a transmitir, ou divulgar, consiste em conhecimentos, técnicas, artes, formas de expressão, e visões sobre o mundo, que se procura recriar através de atividades práticas de fomento da aprendizagem não formal e do contacto direto com os mesmos, levando os participantes a reconhecer o contributo daquelas para a sua identidade e cultura atuais. Em conclusão, a informação que é recolhida e trabalhada por arqueólogos, historiadores e outros profissionais especializados permite construir um conhecimento mais profundo sobre os artefactos, constituindo a sua vertente imaterial. Estes vestígios não se transformam, no entanto, automaticamente em património, apenas por serem estudados. Os estudos fundamentam a sua classificação e proteção legal, atestando a sua relevância histórica e cultural. Assim aconteceu no caso em que esta análise incide, pois os estudos especializados, em conjunto com os testemunhos materiais encontrados, recuperados, restaurados e interpretados, foram decisivos para que o seu valor patrimonial fosse reconhecido, e que os achados fossem considerados um testemunho da nossa identidade cultural, o que veio refletir-se num movimento a favor da sua salvaguarda, especialmente em relação aos vestígios da antiga cidade romana de Bracara Augusta, e a sua posterior classificação e proteção legal. Este caso particular é um exemplo demonstrativo de como o reconhecimento social do património arqueológico se faz, geralmente, em duas fases que não são necessariamente concomitantes, com a interpretação feita pelos especialistas e o reconhecimento do valor científico e patrimonial feito pelas instituições a preceder o reconhecimento identitário que é feito pelo público. Curiosamente, no caso do património etnográfico acontece, muitas vezes, o oposto. 152 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga III.III O Contributo do Museu D. Diogo de Sousa na divulgação do património imaterial Antes da abertura do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa ao público, em 2007, a atividade arqueológica levada a cabo na região noroeste e os vestígios dela provenientes foram expostos à comunidade através da organização de exposições, colóquios e visitas guiadas, por iniciativa do Campo Arqueológico de Braga, da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, que conduzia a investigação nesta região, com a colaboração do Museu D. Diogo de Sousa, para divulgar a atividade arqueológica local, dar a conhecer o valor e o significado do património arqueológico e dos processos de estudo e conservação, e sensibilizar a comunidade para a importância de o defender e preservar. Já também antes da reestruturação do Museu (1980), o espólio arqueológico a ele pertencente era utilizado para fins educativos. Nessa altura, ele era essencialmente divulgado a dois tipos de público: um público mais restrito, frequentador do curso de licenciatura em História e Ciências Sociais ministrado na Universidade do Minho, que tinha acesso à Biblioteca especializada da Unidade de Arqueologia, ao contacto com os materiais arqueológicos provenientes das escavações, à informação atualizada privilegiada por parte dos respetivos docentes (simultaneamente, investigadores da Unidade de Arqueologia), e às diversas ações do Laboratório da Unidade, onde tinham a oportunidade de observar e praticar técnicas de restauro, desenho e tratamento de informação desde o início do processo até à publicação dos resultados; e um público escolar do Ensino Básico e Secundário, que ao longo do ano letivo visitava, sob orientação de profissionais do Campo Arqueológico, o circuito de ruínas de Bracara Augusta e o Laboratório. A procura turística, que em 1980 registou uma média de oito visitantes por dia, era composta sobretudo por emigrantes, que acorriam a esta zona durante o Verão. Mas uma questão impõe-se: será que estas ações promoviam ou divulgavam o património imaterial, ou somente o material? Certamente, essa vertente ainda estaria pouco desenvolvida nas atividades promovidas; mas já nessa altura, mesmo que de forma inconsciente, porque este tema ainda não era tão debatido, a dimensão imaterial estava a ser transmitida, por exemplo através da reconstituição de cerâmica, num mini153 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga laboratório que esteve a funcionar durante a exposição JUVEMINHO, realizada, em Braga, em 1980 (UAUM, [1981?]). Essa atividade serviu para divulgar técnicas de trabalho artesanal, que fazem parte da herança cultural desta comunidade. Depois da reestruturação do Museu, mas ainda antes da abertura do Museu ao público, era o Museu que se “deslocava” às escolas, para divulgar o seu espólio. Um dos técnicos do Museu, que agora integra o Serviço Educativo do mesmo, deslocava-se às escolas do distrito de Braga, levando até ao público escolar conhecimentos sobre as coleções e sensibilizando o mesmo para a importância da proteção do património arqueológico. Nessas sessões formativas, de caráter lúdico, eram apresentadas imagens do espólio e exploradas várias questões, desde a sua origem, até ao seu significado histórico e cultural. Agora, tal como antes, o principal público do Museu D. Diogo de Sousa e, provavelmente, de todos os demais museus portugueses, é o público escolar, dada a função cultural e educativa destas instituições, pelo que as atividades de divulgação do património se centram sobretudo nesse tipo de público, desenvolvendo-se num viciante ciclo relacional. Se, por um lado, podemos afirmar que é o público escolar que mais frequentemente visita o Museu, por outro podemos dizer que a maioria das atividades promovidas por esta instituição cultural tem como alvo o mesmo público, atraindo, assim, continuamente o mesmo tipo de público, que é levado ao Museu por professores e educadores, todos os anos. Enquanto museu de Arqueologia, o Museu D. Diogo de Sousa divulga, sobretudo, património que faz parte do nosso passado histórico e cultural, algum pertencente aos primórdios da vida humana, mas cuja herança está ainda atualmente presente na vida da comunidade, sobretudo a época da ocupação romana na cidade de Braga, o período mais destacado na Exposição Permanente do Museu, tanto pelo numeroso espólio como pela sua simbologia e representatividade, e relação com os demais testemunhos existentes fora do Museu – monumentos e sítios arqueológicos também visitáveis, e atividades culturais de Braga. As atividades de divulgação que o Museu realiza e/ou apoia promovem o encontro entre o passado e o presente, o conhecimento e a memória, a identificação do público 154 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga com aquilo que, de diversas formas, lhe é apresentado e proporcionado através de experiências práticas e do contacto interativo. O papel ativo do público é valorizado e procurado, encorajando a sua participação ativa na criação do próprio conhecimento e na interpretação dos significados dos objetos expostos. A aproximação entre público e vestígios arqueológicos é, tanto quanto possível, fomentada, para que ele possa senti-los como parte da sua vida e identidade. A dessacralização dos objetos expostos é de grande importância para essa aproximação, não sendo incompatível com a preservação ou o respeito pelo património. No Museu D. Diogo de Sousa, foram criadas alternativas face à impossibilidade de tocar peças que precisam de ser mantidas em vitrinas por motivos de conservação, num ambiente de temperatura e humidade adequados. O contacto com réplicas das peças expostas é uma das alternativas. Outra é a utilização que foi dada ao chamado “lixo arqueológico”, peças e vestígios descontextualizados, e que foram colocados em armazém, por não reunirem informação suficiente para serem integrados na Exposição Permanente. Este material é utilizado durante visitas guiadas, proporcionando aos participantes uma experiência prática de contacto físico com vestígios arqueológicos, que são o ponto de partida para questões que estão por trás dos objetos: a partir do fragmento de um machado, por exemplo, explora-se a forma como era utilizado e para que servia; a base de uma ânfora pode servir para explicar o resto do objeto, a forma como assentava no fundo das embarcações, e o motivo de ter esse determinado aspeto; e um fragmento de cerâmica pode servir para explorar o significado das decorações nele contidas. E todos esses aspetos são ainda analisados através do confronto das caraterísticas desses vestígios do passado com a cultura do presente. A participação do público é fomentada, ainda, através da realização de atividades como workshops, oficinas lúdico-pedagógicas, e jogos, nas quais ele tem a oportunidade de recriar, de diferentes formas, por vezes adaptadas à atualidade, artes, saberes e técnicas, que pertencem ao seu legado cultural imaterial, e que encontram eco no presente, ressalvando as transformações naturalmente decorrentes da evolução social e cultural que carateriza o património e as expressões culturais. 155 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga No Museu D. Diogo de Sousa, existe a consciência de que o material documenta o imaterial e, portanto, é dos vestígios que nele estão expostos, e dos monumentos, sítios arqueológicos, e outros testemunhos, que se encontram fora do seu espaço e que fazem parte de todo o conjunto patrimonial que representam, que se parte para a abordagem da dimensão imaterial dos objetos. A construção de réplicas que permitam uma melhor observação e interpretação dos vestígios é uma das estratégias de divulgação utilizadas pelo Museu. Estas réplicas adquirem várias formas: peças de cerâmica e em metal, estatuetas, peças de joalharia, jogos, e maquetas, tanto para venda, como enquanto material que é utilizado em oficinas práticas, ou ainda na Exposição Permanente. A Casa das Carvalheiras é um exemplo de sítio arqueológico no qual o Museu se baseou para ilustrar a forma como uma família (abastada) teria vivido na época da ocupação romana, em Bracara Augusta, pois trata-se do vestígio de casa romana mais bem conservado desta zona. Pela dimensão pouco comum e caraterísticas peculiares desta domus, foi possível concluir que teria pertencido a uma família muito abastada. A grande maqueta integrada na Exposição Permanente (Fig. 7) permite ilustrar costumes da época, associando-a ao quotidiano de uma família romana que teria vivido em Bracara Augusta. Fig. 7. Maqueta da Casa das Carvalheiras Essa família, que passou a ser utilizada como mascote do Museu, foi, por seu turno, criada a partir da informação contida nas inscrições encontradas numa estela funerária, também parte do espólio do Museu. Dessa estela advêm os nomes atribuídos a algumas das personagens principais de uma série de histórias adaptadas sobre a época romana vivida em Bracara Augusta, que são representadas para o público infantil, no Museu, através da atividade “Contos Animados”, assim como na história original 156 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga publicada em livro – “Titus e os Legionários” (que faz parte de uma coleção a ampliar futuramente), nas histórias originais editadas em DVD, nos Folhetos Educativos, nas Fichas de Sala, Fichas Informativas, Fichas de Exploração Pedagógica, nos Jogos Interativos, e em diverso material promocional do Museu. Mais recentemente, durante o ano de 2011, as personagens que compõem o núcleo familiar de Titus foram, também, recriadas em tecido (felpo), pelos próprios técnicos do Serviço Educativo, e colocadas à venda na Loja do Museu. A associação entre a “Casa das Carvalheiras” e a família de Titus Satrius é meramente ficcional, e esse facto é transmitido ao seu público. Dada a complexidade e extensão da Exposição Permanente do Museu, os seus profissionais sentiram a necessidade de elaborar estratégias e recursos que simplificassem a compreensão do espólio por parte, sobretudo, do seu público escolar mais jovem, mas também do público com necessidades educativas especiais, público sénior, entre outros. Assim, foram criados diversos instrumentos informativos e educativos, de caráter lúdico e pedagógico, tal como atividades adaptadas a cada tipo de público e objetivos. O património imaterial associado ao património material exposto no Museu começou a ser promovido a partir da abordagem da vertente imaterial do espólio em exposição, pelo que surgiu de uma forma não consciente ou propositada, e como meio de simplificar a informação, torná-la mais acessível e inteligível, mais próxima daquilo que é familiar a um público mais jovem, mas também como forma de cativar a atenção de vários tipos de público, dado que permite explorar questões mais curiosas e não meramente factuais, ao mesmo tempo que pode ser explorada de forma prática em oficinas lúdico-pedagógicas, jogos e até representações teatrais. O caráter prático das atividades promovidas veio, ainda, reforçar o contributo do Museu na divulgação do património imaterial. A ação de divulgação do património cultural imaterial que o Museu D. Diogo de Sousa desenvolve é levada a cabo dentro e fora do Museu, através de atividades e iniciativas internas (incluindo as propostas do IMC e do ICOM, como a comemoração do Dia Internacional dos Museus), e de parcerias com outras instituições e outros projetos, especialmente de índole local e regional. 157 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga As oficinas lúdico-pedagógicas, os contos animados e os jogos são desenvolvidos em diversos contextos, de acordo com o Programa de Atividades do Museu, estando presentes no seu programa para escolas, mas também no programa geral, destinando-se não só ao público escolar, como também ao público sénior, a famílias, e outros grupos. São, por isso, selecionadas segundo os objetivos, interesses e necessidades de cada tipo de público, e inseridas em atividades diversas e programas específicos, como visitas temáticas, Festas de Aniversário, “Sábados no Museu” (programa destinado a famílias), e Programas de Férias (de Verão, do Natal, do Carnaval e da Páscoa). III.III.I Os Contos Animados Estes contos são inéditos ou adaptados da literatura infantil, e têm como objetivo dar a conhecer ao público mais jovem, de uma forma lúdica e interativa, o espólio arqueológico do Museu, e o modo de vida em épocas históricas passadas a ele associado. As histórias já criadas e representadas no Museu versam sobre duas épocas históricas distintas: a Pré-História peninsular (de que é exemplo “Uma delícia de mamute!”), e a época da ocupação romana em Bracara Augusta (como “A romana Catilina que bocejava a toda a hora”, ou “O traseiro do Senhor Titus Satrius”. Os contos estão classificados em duas temáticas: “Na Pré-História: Histórias em Movimento”, com os quais se transmite conhecimento sobre a vida humana na Pré-História e as atividades de subsistência desenvolvidas nessa época, e “Os Romanos: Histórias em Movimento” ou “Histórias com Romanos”, que dão a conhecer o quotidiano romano, assim como o espaço doméstico e o espaço público em que os romanos desenvolviam diferentes atividades, realçando aspetos culturais. O SE também já criou e adaptou histórias para ocasiões específicas, como o começo da Primavera, que foi incluído no Programa de Férias da Páscoa. A história “O nascimento das estações”, inspirada num mito grego, foi representada nesse contexto, e serviu de pretexto para abordar a temática da religião na época da ocupação romana em Bracara Augusta, das divindades indígenas, mas também as gregas e as egípcias, das quais existem vestígios arqueológicos que integram as coleções do Museu (uma ara votiva a Júpiter, nela designado por “Divinus Maximus”; e uma estatueta de Minerva, em bronze) e vestígios relacionados, situados na cidade de Braga, como a Fonte do Ídolo. Esta 158 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga história encontra-se, agora (em 2011), em fase de readaptação para apresentação ao público, estando a ser preparados os cenários da peça, que em breve integrará o programa de atividades do Serviço Educativo. Outro exemplo destes contos animados é a história “O Titus vai às termas”, uma adaptação da história original “O grande banho”, que foi apresentada ao público infantil do ensino pré-escolar no “Dia Internacional do Livro Infantil”, em 2008. Através dela, foram transmitidos aspetos do quotidiano romano, como a vida familiar e o espaço doméstico, os jogos romanos, e as termas. Utilizando objetos, fantoches, marionetas, bonecos e personagens humanas, criados e representados por técnicos do Serviço Educativo do Museu, e de cenários, também criados pelo SE, as histórias retratam múltiplos aspetos do quotidiano e costumes, como as habitações, a alimentação, as relações familiares e sociais, o vestuário, a educação, o lazer, o comércio, as atividades produtivas, as artes, ou ainda as crenças religiosas, entre outros, através do enredo da própria história, e da incorporação de aspetos culturais na caraterização do cenário, das personagens, e mesmo no ambiente envolvente, como o som (música de inspiração romana para acompanhar histórias sobre a época romana), ou até a caraterização do público (a quem é colocado um manto romano, nas representações de histórias sobre a época romana) para o envolver numa atmosfera condizente com a história. Os cenários, elaborados com muito engenho, rigor histórico e criatividade, também pelos técnicos do SE, contêm, sobretudo, recriações (em material reciclado) de artefactos que compõem a exposição permanente do Museu (Fig. 8). Fig. 8. Representação de um conto das “Histórias com Romanos” 159 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Durante a representação dos contos, alguns dos elementos do público são convidados a participar na peça, como personagens e como criadores do enredo. As restantes crianças, que ficam a assistir, também são, por várias vezes, ao longo da representação, encorajadas a intervir na interpretação e construção da história. No final, todos são convidados a descobrir e refletir sobre a mensagem, a moral da história, que encerra valores culturais universais, como a amizade. Assim, esta relação entre os objetos e aquilo que eles transmitem, e que, neste caso, é veiculado através da representação teatral, está sempre (que possível) presente nas atividades de divulgação, para estreitar a relação entre o espólio do Museu e o público. Estas atividades são, por isso, conjugadas com uma visita ao núcleo da exposição permanente do Museu mais estreitamente associado à história em questão. Quando a história escolhida é, por exemplo, “A romana Catilina que bocejava a toda a hora”, a visita recai em especial sobre a maqueta da Casa das Carvalheiras. A história é utilizada como ponto de partida para o contacto com os vestígios arqueológicos, criando um envolvimento contextual adequado à faixa etária e nível de desenvolvimento do público infantil. A recriação da Casa é apresentada como um espaço que traduz vivências, hábitos quotidianos, culturais, sociais e económicos de uma determinada época histórica. A ênfase é colocada na interpretação, no significado dos objetos (do material), mais do que na construção em si, para compreender as motivações que estariam por trás de certos aspetos, para comparar as casas da altura com as de agora, e a forma como estavam organizadas e decoradas, por exemplo. E porque o SE também procura estimular a criatividade e a interpretação ativa do público, estes contos são ainda complementados com atividades de expressão plástica, como o desenho e a pintura, sobre a peça a que assistiram, ou mesmo a elaboração/decoração de um fantoche da personagem principal da história correspondente (como o Titus). Nessas atividades, o público põe em prática as impressões que recolheu da apresentação do conto. Nos seus desenhos e pinturas fica expressa a ideia que a sua memória reteve durante a representação teatral; neles podemos ver as cores, as personagens, os espaços, os objetos, recriados de uma forma tão fiel quanto a sua destreza artística permite alcançar. 160 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga O desafio que se coloca, presentemente, ao SE é o de desenvolver esta atividade com o público escolar do 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico, escolhendo e adaptando ou criando outras histórias adequadas a essa faixa etária, pois os contos têm sido somente dirigidos às crianças do Ensino Pré-escolar e 1º Ciclo do Ensino Básico. Por outro lado, esta atividade requer a participação de um mínimo de três técnicos do SE, para contar a história e manipular os fantoches, marionetas, bonecos, ou representar personagens, o que nem sempre é fácil de conjugar com as suas demais tarefas inerentes ao funcionamento do Museu, sobretudo nos dias em que há maior afluência de visitantes. Faz também parte dos planos do SE criar ou adaptar novas histórias, relacionadas com o espólio e as épocas representados na Exposição Permanente do Museu, que possam ser disponibilizadas às escolas para serem representadas por alunos no espaço do Museu, sobretudo em datas comemorativas, como forma de colaboração entre o Museu e as instituições escolares, na preparação das suas atividades, e como meio de aproximar estes dois espaços de educação e cultura. III.III.II Os Jogos O Serviço Educativo do Museu adaptou e desenvolveu vários tipos de jogos, classificando-os em diferentes categorias: Jogos de Sala, Jogos de Campo, Jogos Romanos de Tabuleiro, outros Jogos de Tabuleiro, e Jogos Interativos Online. Os Jogos de Sala (“À descoberta do Museu: Uma peça, uma história”, e “Em busca do legionário de Bracara Augusta”) são realizados no interior do Museu e no seu espaço de exposição. Têm objetivos específicos orientados para a descoberta, observação e conhecimento de artefactos arqueológicos em exposição, de uma forma lúdica, para os conhecer mais profundamente, interpretando as peças em conjunto com o grupo e o monitor do SE. Os Jogos de Campo englobam os “Jogos romanos de campo” e a atividade “Jogar e brincar como os Romanos”. São realizados no espaço exterior do Museu e em outros contextos, como a Braga Romana, e recriam jogos e brincadeiras da época romana, para dar a conhecer jogos e atividades de lazer praticadas pelos Romanos e perceber como estes se divertiam, que desportos praticavam e quais as origens de alguns dos jogos 161 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga atuais. Alguns dos jogos incluem, por exemplo, brincadeiras e corridas com arcos (“Jogo do arquinho” (Fig. 9)), bolas de trapo e latas (“Jogo das bolas” (Fig. 10)), e outros objetos. Neste tipo de atividades, procura-se fazer uma recriação que seja o mais rigorosa possível, mas, em alguns casos, para facilitar a prática dos jogos, é usada a sua versão mais recente, como é o caso do “Jogo do arquinho”, cuja gancheta não possui a mesma forma que a originalmente utilizada pelos Romanos. Fig. 9. Jogo do arquinho Fig. 10. Jogo das bolas Os Jogos Romanos de Tabuleiro foram recriados no Museu a partir de fichas de jogo e de um dado, que foram achados nas escavações de Bracara Augusta, e com base em vestígios de tabuleiros de jogo achados em vários sítios romanos ao longo do território nacional. São, atualmente, três os jogos disponíveis: Jogo do Soldado (Ludus Latrunculorum), Jogo do Moinho (Merellus), e Jogo da Tabula (Duodecim Scripta). São jogos que deram origem a outras versões mais actuais, e que fazem parte da herança cultural do País. Esta atividade é também conjugada com uma visita temática à Exposição Permanente do Museu, para conhecer os vestígios arqueológicos que motivaram a integração destes jogos no Programa de Atividades do Serviço Educativo do Museu. Fig. 11. Oficina de Jogos Romanos de tabuleiro 162 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Para além de estarem disponíveis a todo o público, para serem jogados, através de réplicas produzidas em cerâmica (reaproveitando material de vestígios descontextualizados), no espaço público do Museu, estes três jogos de tabuleiro estão também à venda, na Loja do Museu, em dois materiais distintos – cerâmica e cartão. No entanto, eles são mais frequentemente utilizados pelo público escolar, em oficinas lúdicopedagógicas do Serviço Educativo do Museu, e no âmbito do “Torneio de Jogos Romanos de Tabuleiro”, organizado em parceria com uma escola de Braga, por iniciativa de um docente de uma escola do Concelho, no âmbito de uma investigação académica. O Museu presta apoio ao evento de várias formas: na cedência de espaços para a realização dos jogos, na divulgação e promoção do evento, e na disponibilização de informação e dos jogos para a realização do torneio. Apesar de ter tido uma boa aceitação por parte do público escolar, envolvendo a participação de várias escolas do concelho de Braga, esta atividade encontra-se, atualmente, dependente da disponibilidade de o docente dar continuidade ao projeto, estando, para já, programada nova edição para 2012. Estes jogos são também, habitualmente, promovidos no espaço destinado à Área Pedagógica, no evento anual Braga Romana. A recriação destes jogos pode servir para explorar competências académicas, nas áreas da Matemática, da História e da Educação Tecnológica, mas também sociais e culturais. Os participantes têm, nessa atividade, um papel ativo, não só na aplicação como também na construção do seu saber. De uma forma lúdica, ela ajuda a desenvolver capacidades como a concentração, a análise, a abstração, a estratégia, o respeito pelas regras e pelo adversário, enquanto se divulga hábitos e costumes da época Romana, relativamente a atividades de lazer e tempos livres, mas também de formas de estar em sociedade, promovendo o seu património cultural e reforçando os laços identitários que os unem a esse passado histórico. Os outros Jogos de Tabuleiro (“Corridas no Circo Máximo”, ou Circus Maximus, e Ludi Saeculares) são inspirados nas Corridas do Circo Máximo e nos grandes jogos romanos que se realizavam uma vez em cada 110 anos. O primeiro pode ser jogado num tabuleiro gigante, sobre o qual se deslocam os jogadores, mas também existe numa versão de mesa, tal como o jogo Ludi Saeculares (que tem ainda uma versão online). Esta atividade também proporciona o conhecimento de atividades lúdicas praticadas pelos 163 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Romanos, ao mesmo tempo que explora conhecimentos sobre os seus costumes e cultura. Para além dos jogos de tabuleiro, foram criados dois jogos interativos online para o público infanto-juvenil, que estão disponíveis através do Portal dos Museus do Braga Digital. São jogos desenvolvidos no próprio museu, com os conhecimentos e a tecnologia que estavam, na altura, ao seu alcance, pelo que ficaram um pouco aquém das expectativas. O atraso que ainda atualmente se verifica no desenvolvimento e funcionamento do próprio Portal dos Museus no Braga Digital impediu a sua divulgação. No entanto, o Museu continua expectante em relação ao futuro deste projeto, estando a investir na evolução da sua página. “Em busca do passado através da arqueologia” leva os seus jogadores a conhecer, através da experiência do jogo, as diferentes etapas e vertentes do trabalho arqueológico, desde a prospeção até à reserva e exposição em museu. Permite-lhes perceber o processo que precede a exibição de vestígios arqueológicos num museu, a complexidade de todo o caminho percorrido por uma peça até chegar aos olhos do público, para que possam valorizar o património que têm perante si, e lhes seja mais fácil, também, compreender o seu significado. O jogo “Bracara Augusta”, tal como o nome indica, leva os jogadores a explorar a cidade romana e os seus principais espaços públicos, dos quais existem vestígios estudados e expostos, quer nos próprios locais, como em museus. As perguntas feitas ao longo do jogo levam os jogadores a refletir e a conhecer a forma como se vivia não só nesta mas em qualquer cidade que esteve sob o domínio romano. De uma forma lúdica, ajuda-os a atribuir um significado aos vestígios arqueológicos, e a melhor interpretar aquilo que veem ou visitam. Mais recentemente, o Museu criou (desta vez com o recurso a profissionais especializados), com base numa ficha de jogo que contém uma inscrição alusiva aos famosos jogos romanos que se realizavam uma vez em cada 110 anos, encontrada nas escavações de Bracara Augusta, um novo jogo interativo online, com site próprio, cujo nome, “Ludi Saeculares”, evoca estes jogos que foram celebrados, no ano 17 a. C., pelo Imperador Augusto. Este jogo está disponível no Museu, em tabuleiro, para ser jogado 164 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga livremente, e em www.ludisaeculares.com, em Português e Inglês, com conta associada na rede social facebook. Tem-se verificado uma adesão razoável do público ao jogo. Trata-se de um jogo mais abrangente, que permite aprofundar o conhecimento sobre a ocupação romana na região norte de Portugal, mormente dos sítios arqueológicos visitáveis, divulgar os artefactos existentes em museus da região, e estimular o conhecimento da cultura romana que está na origem da identidade nacional e europeia. Todos estes jogos são disponibilizados enquanto ferramenta lúdico-pedagógica que pode ser usada no Museu, nas escolas, e até mesmo em casa, como complemento de formação, com a finalidade de aprendizagem ou lazer. III.III.III As Oficinas Lúdico-Pedagógicas Estas oficinas estão agrupadas em dois tipos: Oficinas de Arqueologia Experimental e Oficinas de Expressão Plástica. Têm como objetivo geral o contacto direto e contextualizado com o espólio arqueológico em exposição, assim como a compreensão de conceitos histórico-culturais e arqueológicos. III.III.III.I Oficinas de Arqueologia Experimental De acordo com o âmbito da atividade prática desenvolvida em cada oficina, podemos ainda considerar dois tipos de Oficinas de Arqueologia Experimental: por um lado, aquelas que exploram as fases do processo arqueológico, e que promovem o conhecimento sobre o percurso que o espólio arqueológico faz até ser exposto, através da simulação de escavação arqueológica e lavagem de espólio (“Brincar aos arqueólogos” e “O aprendiz de arqueólogo e o laboratório de restauro”, que inclui visita ao Laboratório de Conservação e Restauro do Museu); e, por outro, atividades de produção de objetos e instrumentos, e a prática de técnicas ancestrais ligadas à expressão artística e ao modo de vida de diferentes épocas. Enquanto o primeiro tipo promove a sensibilização para questões relacionadas com a investigação arqueológica, a conservação e o restauro de vestígios arqueológicos, e o respeito pelo património cultural, o segundo proporciona a divulgação do património imaterial, através do contacto com práticas ancestrais e do ensinamento de técnicas, artes e saberes caraterísticos de diferentes épocas históricoculturais. 165 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga As atividades proporcionam experiências tão distintas, ricas e interessantes, que merecem ser descritas individualmente. Na oficina “Atividades do Homem da Pré e ProtoHistória: Produção de instrumentos” (Fig. 12), os participantes encontram-se num local próprio, no interior do Museu, onde foi feita uma simulação de sítio arqueológico com representação do habitat do Homem da Pré e Proto-História. Fig. 12. Oficina “Atividades do Homem da Pré e Proto-História” Nela, eles têm a oportunidade de manusear artefactos arqueológicos e experimentar algumas técnicas, como a produção de fogo, a tecelagem, a moagem, a produção de ornamentos, a produção cerâmica, entre outros, com o objetivo de dar a conhecer a vida do Homem pré e proto-histórico e as atividades de subsistência que este desenvolveu, realçando a evolução das técnicas utilizadas ao longo das diferentes fases da evolução do Homem até à Idade do Ferro. Esta oficina tem a particularidade de ser realizada num cenário propositadamente criado para representar um ambiente da Pré e Proto-História, onde se pode fazer o enquadramento espacial das vivências que se pretende ilustrar. Neste caso, criou-se algo material para melhor explicar o imaterial, tal é a sua importância na exploração do espólio arqueológico e na interpretação da cultura. A oficina “Cerâmica manual: Como fazer em barro” permite compreender alguns conceitos relacionados com os materiais, as tecnologias, a produção e a funcionalidade das peças cerâmicas da Pré e Proto-História, através da criação artesanal de formas, e da decoração de peças que são modeladas em barro. 166 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Uma outra oficina, esta sobre a época romana – “Tesselatum – Mosaico Romano: Como é e como se constrói” (Fig. 13), leva os participantes a criar padrões e/ou a recriar motivos romanos, de forma a construir um fragmento de mosaico, depois de ser feita uma introdução ao tema através da observação do mosaico da domus do Museu e de peças ilustrativas em exposição. Fig. 13. Oficina “Tesselatum – Mosaico Romano” Os objetivos desta atividade são compreender alguns conceitos relacionados com as tecnologias e a produção de materiais de construção, o acabamento, o revestimento de paredes e pavimentos, tipos de matéria-prima e motivos decorativos utilizados; e estabelecer a relação entre os recursos naturais da região, as atividades produtivas e o quotidiano da época romana. Com esta atividade, são transmitidas aos participantes técnicas de construção e decoração da época romana com base no tesselatum, o mosaico romano. Dado que o programa do Serviço Educativo é elaborado, sobretudo, para o público escolar, este é revisto e remodelado no final de cada ano letivo. No final do ano letivo 2010/2011, e também com base em dados recolhidos do público, através de um inquérito de satisfação, e da recolha de opiniões, foram feitas algumas alterações no programa para 2011/2012. 167 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Uma das principais alterações em termos de oficinas lúdico-pedagógicas foi a transformação de três workshops (existentes em formato de workrest – atividades de fimde-semana destinadas a adultos e famílias) em oficinas de arqueologia experimental destinadas aos alunos do Ensino Secundário, Profissional, e Cursos de Educação e Formação de Adultos (EFA), preenchendo uma lacuna existente no Programa, para esta faixa etária, para a qual o Serviço Educativo do Museu disponibilizava apenas visitas às exposições e os jogos romanos de tabuleiro (se excetuarmos as atividades de caráter geral). Para além de continuarem a ser oficinas de sensibilização para a preservação do património, elas passam, agora, a proporcionar a prática de técnicas de conservação e restauro do património arquitetónico (e de diferentes materiais e matérias-primas utilizados na sua construção), enquanto são abordados aspetos históricos e culturais associados ao património arqueológico desta região, à sua investigação e significado. Nelas se demonstra como questões de conservação e restauro do património arqueológico podem condicionar o estudo e a interpretação de vestígios arqueológicos, assim como o conhecimento que obtemos sobre o passado. Não estando diretamente ligadas à divulgação do património imaterial, elas são um ponto de partida para o desenvolvimento e adaptação de atividades a esta faixa etária. “De Bracara Augusta ao Museu” proporciona uma experiência prática sobre as várias fases do processo de restauro de um achado arqueológico, e a descoberta de como os objetos usados na cidade de Bracara Augusta chegam até ao Museu, dando a conhecer a metodologia de investigação utilizada em arqueologia e nos processos de restauro. “Água mole em pedra dura” promove a realização de experiências para observação do efeito dos ácidos sobre a pedra, assim como a observação dos efeitos de alteração de monumentos por ação das chuvas ácidas, outros agentes naturais e a intervenção humana, com o objetivo de compreender os fatores de degradação do património construído. Finalmente, “Santinhos de pau carunchoso” permite a observação do efeito de infestantes e de agentes humanos sobre a madeira e sua alteração, para além da observação de fenómenos de alteração em peças de madeira, para compreender os fatores de degradação do património móvel neste tipo de material. 168 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga III.III.III.II Oficinas de Expressão Plástica São vários os exemplos de atividades deste tipo que o Serviço Educativo do Museu promove. De uma forma geral, recorrem a técnicas como o desenho, a pintura, a gravura, a colagem, a construção e a reciclagem. Devido à sua especificidade, serão descritas individualmente. Na oficina “Os artistas da Pré-História: Cores, rabiscos e outros riscos” (Fig. 14), é feita a exploração dos temas representados na arte pré-histórica, devidamente contextualizados, acompanhada de visita ao núcleo da Pré-História, da Exposição Permanente, para observação das representações de gravuras rupestres, e posterior elaboração de desenho, gravura e pintura. Fig. 14. Oficina “Os artistas da Pré-História” O seu objetivo é dar a conhecer os recursos naturais usados pelo Homem préhistórico, e as técnicas e materiais utilizados nas variadas manifestações de arte préhistórica. Através da oficina “Adornos e acessórios de ontem e de hoje”, os participantes são levados a criar e produzir objetos a partir da recolha, reutilização e reciclagem de diversos materiais, incluindo recursos naturais como bolotas, pauzinhos, ramos, folhas, etc., para melhor compreender o significado do seu uso pelo ser humano ao longo do tempo. “Construções da Proto-História” é uma oficina que recria o habitat do Homem da Idade do Bronze e do Ferro, recorrendo à reciclagem de materiais, à construção, ao desenho, à pintura e à colagem. Com esta atividade, dá-se a conhecer a organização interna dos povoados e da distribuição dos elementos construídos pelo Homem destas épocas, na paisagem natural. 169 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Um tema já explorado numa das oficinas de arqueologia experimental é abordado, de forma diferente, numa oficina de expressão plástica: “Tesselatum – Mosaico Romano: Brincar com mosaicos”. Esta abordagem diferenciada está também relacionada com uma faixa etária inferior, que implica um grau de dificuldade de execução mais baixo. Nesta oficina, os participantes criam padrões para a construção de um painel de mosaico, através da pintura e colagem, com os mesmos objetivos da oficina de arqueologia experimental. “O que nos dizem os objetos: Imagens, textos, símbolos e outros motivos” é uma oficina que permite interpretar o espólio arqueológico, reconhecer a sua importância e significado, mediante a observação e identificação das peças em exposição, e posterior recriação de inscrições epigráficas, de decorações e de outros motivos, em suportes variados de material reciclado. Existem, ainda, outras oficinas lúdico-pedagógicas que, apesar de não integrarem atualmente o Programa de Atividades do Serviço Educativo, estão disponíveis para escolha do público e são importantes para a transmissão de conhecimentos sobre hábitos culturais. A oficina “Acessórios do equipamento do soldado romano”, por exemplo, proporciona a oportunidade de criar e produzir acessórios do equipamento do soldado romano, em pasta de papel e outros materiais reciclados, com o objetivo de facilitar a compreensão da importância e do significado do seu uso, no contexto da cultura romana, e também de adquirir e colocar em prática técnicas de produção desses acessórios, recriando-os com materiais alternativos. “Os romanos e os deuses: Textos, símbolos e outros motivos” é uma oficina que envolve a observação, identificação e recriação de inscrições epigráficas em suportes variados de material reciclado, para reconhecer as representações e vestígios arqueológicos com referência a divindades romanas, focando, assim, aspetos culturais relacionados com crenças, práticas e rituais de culto. Outra oficina interessante do ponto de vista da transmissão de aspetos culturais é designada “Indumentária romana: Como se veste?”. Nela, é feita a simulação da aplicação de peças de vestuário e de acessórios próprios da indumentária romana, para que os participantes adquiram técnicas de utilização da indumentária romana, conheçam as normas sociais de utilização, e as normas de criação da indumentária romana, em termos de materiais, 170 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga cores e formas, fomentando o respeito pelo rigor histórico na recriação e uso da indumentária romana em eventos culturais e educativos. O programa do Serviço Educativo para 2011/2012 foi enriquecido com novas ofertas de atividades e com iniciativas inovadoras, preenchendo possíveis lacunas; no entanto, por imperativos financeiros, todas as oficinas lúdico-pedagógicas passaram, neste ano letivo, a ter um custo de um euro por participante, quando antes eram gratuitas, pelo que correm, teoricamente, o risco de obter uma diminuição do número de participantes inscritos, ao longo deste período. III.III.IV Workshops Os workshops que o SE do Museu promove destinam-se, principalmente, ao público adulto, ao qual se pretende transmitir, consolidar e avivar conhecimentos e técnicas relacionados com saberes e costumes que fazem parte de um passado histórico, cuja herança ainda hoje é visível, nos costumes e na vida cultural desta região, e não só. Um dos mais importantes workshops, pela adesão alcançada, e pela sua relevância e pertinência no contexto cultural da cidade de Braga, é a “Oficina de indumentária romana, adereços e penteados”. Este projeto foi criado em 2010, e tem vindo, desde então, a receber um número crescente de inscritos, que ambicionam preparar-se de forma adequada para participar nos cortejos e outras atividades realizados no âmbito do programa do evento cultural Braga Romana, que tem lugar nesta cidade, anualmente, há oito anos. Através desta atividade, o Museu apoia os interessados na recriação e confeção de vestuário e objetos de adorno romanos, e na recriação de penteados da época, de maneira a que haja um maior rigor histórico na forma como os participantes se apresentam nos cortejos e outras atividades, que pretendem representar a época romana em Bracara Augusta. Entretanto, e apesar de este workshop se destinar, simultaneamente, ao público feminino e ao público masculino, verificou-se uma lacuna face a este último, não em relação à sua indumentária mais comum, mas a um tipo de equipamento mais específico, que é frequentemente procurado por ele, para a recriação da personagem do soldado romano. Assim, o SE do Museu decidiu implementar um novo workshop, que foi já incluído no Programa de Atividades para 2011/2012 – a “Oficina de construção de 171 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga equipamento do soldado romano”, com base na reciclagem de materiais, e que funcionará à semelhança do modelo praticado na “Oficina de indumentária romana, adereços e penteados”. Um outro workshop ligado à divulgação de património cultural imaterial foi criado, em 2011, a propósito da comemoração do “Dia Internacional dos Museus” (celebrado a 18 de Maio), que nesse ano foi dedicado ao tema “Museus e Memória” – museus enquanto espaços de memória, que é avivada através do contacto com os objetos expostos. Este projeto surgiu no âmbito da minha colaboração enquanto voluntária do Museu, dado o interesse mútuo em fortalecer e diversificar a vertente imaterial nas atividades por ele promovidas. Trata-se de um workshop que relaciona a prática culinária romana com a alimentação tradicional mediterrânica, e a gastronomia portuguesa, em especial a minhota. “Ementa Romana – Venha cozinhar como um Romano!” tem como objetivo levar os seus participantes a descobrir as origens de receitas culinárias, tradições gastronómicas e hábitos alimentares que fazem parte do seu património cultural imaterial, através da observação e interpretação de objetos e vestígios em exposição no Museu (para se familiarizarem com os produtos, utensílios e técnicas utilizados na armazenagem, preparação e confeção de alimentos, na época romana, em Bracara Augusta), da reflexão e discussão sobre “Cozinha Romana e Gastronomia Mediterrânica”, e da experiência prática de preparação, confeção e prova de receitas que compõem a proposta de uma “ementa romana”, adaptadas de receitas originais da época. Este workshop foi integrado no programa dos meses de Maio e Junho, mas não se realizou por falta de inscrições, em grande parte devido ao facto de ser uma atividade paga. No entanto, já durante o ano letivo de 2011/2012, o interesse demonstrado por uma escola profissional da Região em participar numa atividade relacionada com a culinária, dado envolver alunos de um curso dessa área, levou à reformulação e adaptação do workshop “Ementa Romana: Venha cozinhar como um Romano”, criando uma oficina lúdico-pedagógica para o público escolar. A oficina recebeu o título de “Cozinha romana”, e é composta por visita ao núcleo expositivo sobre o espaço doméstico, despensa, cozinha e mesa, para conhecer utensílios e técnicas de armazenagem, preparação, confeção e apresentação de alimentos, em Bracara Augusta, 172 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga para além de uma sessão teórica sobre hábitos alimentares e gastronómicos romanos, incluindo uma abordagem sobre os principais ingredientes presentes na cozinha romana, a sua utilização e técnicas de confeção. Os participantes têm, ainda, a oportunidade de confecionar (Fig. 15), e provar (Fig. 16), a receita de uma bebida, e uma entrada ou uma sobremesa (de acordo com as opções facultadas) tradicionais da época romana. Esta oficina mantém os objetivos definidos para o workshop “Ementa romana”, realçando o conhecimento sobre a gastronomia mediterrânica e a sua influência na cozinha tradicional portuguesa. Fig. 15. Oficina “Cozinha Romana” (confeção) Fig. 16. Oficina “Cozinha Romana” (prova) Tal como acontece com as demais atividades promovidas pelo SE do Museu, todos estes workshops estão associados a espólio presente na Exposição Permanente, que testemunha e ilustra parte da informação divulgada durante a sua realização. Por isso, todos incluem no seu programa uma visita à Exposição, para refletir, interpretar e estabelecer paralelismos entre os vestígios arqueológicos e o conhecimento que se tem do passado histórico e cultural desta região, que estas oficinas procuram avivar e recriar, realçando também a sua dimensão suprarregional. Estas atividades são de grande relevância para a divulgação do património imaterial, não só pelo domínio cultural que abordam, como também pelo seu caráter prático, formativo e atual. Ainda hoje encontramos reflexos desse passado, que está em constante evolução, mas sempre presente, em tantos aspetos da vida desta comunidade. As principais ameaças à concretização de workshops (à semelhança do que aconteceu com os workrests) são os constrangimentos de caráter financeiro, que levam a que estas atividades não sejam gratuitas. O público retrai-se perante a necessidade de 173 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga pagar inscrição, pelo que a participação pode tornar-se mais reduzida, apesar do interesse demonstrado. III.III.V As visitas guiadas à Exposição Permanente e à Exposição Temporária A Exposição Permanente do Museu está repartida por quatro salas, ordenadas de forma cronológica, de acordo com o período histórico que representam os vestígios que compõem as coleções, e o espaço cripta do Museu composto por um mosaico romano in situ. Dentro de cada sala, os objetos são dispostos de acordo com a sua funcionalidade, dando origem a núcleos expositivos, ou secções, como, por exemplo, “A Idade do Ferro no Noroeste de Portugal” (sala um, subordinada à Pré e Proto-História do Norte de Portugal), “A Produção Local – As Indústrias Artesanais” (sala dois, subordinada à Integração do Noroeste Peninsular no Império Romano), “Os Espaços Públicos” (sala três, que retrata Bracara Augusta), e “O Sagrado” (sala quatro, também sobre Bracara Augusta). Esta divisão por secções está patente de diversas formas: na identificação de cada secção através dos painéis presentes em cada sala, na identificação de cada vitrina, e nos Cadernos de Sala, que servem de suporte sobretudo às visitas livres ou orientadas (não guiadas), identificando e contextualizando as peças em exposição. O espaço cripta apresenta um mosaico romano in situ, que foi, como o nome indica, conservado no próprio local onde foi construído e achado, constituindo um núcleo expositivo. A distribuição dos vestígios arqueológicos por núcleos diferentes revela uma preocupação em associá-los, não apenas a determinada época histórica, e à funcionalidade que as peças terão tido, como também à sua simbologia, o que denota a importância dada ao significado e ao contexto de utilização dos objetos a expor, e o interesse em transmiti-los de uma forma clara ao público visitante. Este contexto é evocado pelos técnicos do SE durante as visitas guiadas à Exposição, realçando aspetos imateriais da cultura que os vestígios representam. Na visita ao núcleo expositivo sobre a Produção Local e as Indústrias Artesanais, por exemplo, é evocada a arte de trabalhar o barro, que está na origem de peças de cerâmica produzidas nesta região, enquanto na visita ao núcleo que retrata os Espaços Públicos, de Bracara Augusta, são focados, por 174 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga exemplo, hábitos e costumes dessa comunidade, como a ida às termas, a prática de desporto e de jogos, e ainda as relações sociais. Os visitantes são levados a interpretar o que observam, com base no conhecimento histórico de que se dispõe sobre cada época, e a estabelecer paralelismos entre o passado e o presente, a tirar conclusões sobre a evolução e a continuidade dos costumes, e do contributo que estas ações passadas terão dado para a forma como se vive atualmente: a quem devemos o traçado das vias, determinadas técnicas de construção e atividades de lazer, por exemplo. Os técnicos do SE sentem que, para estimular a curiosidade dos visitantes e captar a sua atenção para as coleções, não basta referir a origem das peças, mas que é necessário explicar o que representavam no seu contexto de vida, de utilização. Será isso que lhes vai dar sentido e significado. Sem olvidar os limites que se impõem à imaginação, e a necessidade de manter um rigor científico, os técnicos procuram estimular a visualização mental de cenários de utilização de determinadas peças, que os levem a contextualizar e a perceber melhor o seu significado. A montagem da Exposição Permanente foi da responsabilidade de uma profissional designada pelo Instituto dos Museus e da Conservação. A Direção do Museu teve, no entanto, um importante papel nesse processo, pois a ela coube a seleção do espólio e elaboração dos textos a exibir, a escolha de imagens e técnicas utilizadas na apresentação de alguns pormenores que facilitassem a inclusão e a compreensão de determinados aspetos associados ao espólio em exposição, assim como a definição dos critérios de organização do espólio no espaço, quer por salas, como por vitrinas. Estes critérios determinaram uma divisão por período histórico de origem e por funcionalidade das peças. Este trabalho conjunto nem sempre encontrou consenso de ambas as partes. Acima de questões meramente estéticas, o Museu colocou a importância da comunicação com o público, e dedicou o seu esforço a esse propósito, procurando valorizar as peças em exposição e, simultaneamente, torná-las mais significativas e compreensíveis para os seus visitantes. Mais do que a grandeza estética ou material das peças, foi valorizado o seu significado histórico e cultural. Dessa forma, as peças foram contextualizadas, e a sua dimensão imaterial foi realçada. Na sala 1, podemos ver um 175 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga exemplo de contextualização, que divulga a técnica do uso de materiais líticos, através da apresentação de desenhos ilustrativos (Fig. 17). Fig. 17. Painel ilustrativo do uso de materiais líticos Fig. 18. Desenho contextualizador de um fragmento cerâmico Outra estratégia utilizada foi o desenho, para apresentar, por exemplo, a reconstituição completa de uma lucerna, demonstrando a que tipo de peça pertencia um fragmento cerâmico encontrado, na forma de cabeça de cavalo (Fig. 18). Uma outra estratégia de contextualização importante foi a de criar e incluir na Exposição réplicas de sítios arqueológicos, dos quais existem vestígios expostos. É o caso da Casa das Carvalheiras e das Termas Romanas do Alto da Cividade, ambas situadas em Braga e representativas da época da ocupação romana nesta cidade. Através delas, a exploração, a compreensão e a interpretação de aspetos como o quotidiano (vivências, hábitos), as habitações (divisões da casa, organização do espaço, dimensões, decoração, mobiliário), o comércio (lojas, produtos comercializados), a produção local (cerâmica, metalurgia), as atividades de lazer (desporto, termas, jogos), as relações sociais (de comércio, familiares, de género), ou até os hábitos alimentares, podem ser facilitadas. As visitas temáticas a núcleos expositivos são, para além de uma manifestação da vontade de simplificar a compreensão do espólio exposto, uma forma de contextualizar e explorar aspetos mais particulares de determinado período histórico ou dos costumes de uma determinada comunidade, com base nos vestígios arqueológicos expostos. Assim, numa visita temática ao núcleo sobre a Produção Local e as Indústrias Artesanais (integrado no conjunto expositivo da sala dois, sobre “A Integração do Noroeste 176 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Peninsular no Império Romano), os visitantes poderão interpretar mais pormenorizadamente o tipo de materiais, as técnicas de fabrico, a arte decorativa e o significado dos motivos utilizados na produção e nas indústrias artesanais locais, para além da sua funcionalidade e significado na vida e nos costumes da comunidade local dessa época, da evolução que terá ocorrido ao longo do tempo, e dos paralelismos que podem ser estabelecidos entre o passado e o presente. Durante as visitas guiadas, o público é incitado a refletir e a interpretar aquilo que vê, fazendo deduções. Sob o ponto de vista da funcionalidade dos objetos na vida quotidiana da época, o público é levado a refletir sobre o que traduzem os vestígios expostos, e como eles nos podem ajudar a conhecer o passado e a forma como se vivia, focando diversos aspetos da vida – como se encarava o trabalho, o lazer, a morte, ou a beleza, por exemplo. Das exposições temporárias que já passaram, até ao momento, pelo Museu D. Diogo de Sousa, a exposição Vita Vitri – O Vidro Antigo em Portugal, foi a mais significativa e merecedora de destaque, não só pela sua duração, e pela sua dimensão e relevância dentro do panorama cultural nacional, como também pela estreita relação com parte do espólio do Museu. A exposição, que envolveu o Ministério da Cultura, o Instituto dos Museus e da Conservação (IMC), o Museu D. Diogo de Sousa, e o Museu Nacional de Arqueologia, surgiu da conjugação de vários fatores inerentes à atividade museológica nacional, à investigação arqueológica em curso, à história da indústria vidreira portuguesa e sua recente transformação, e a circunstâncias conjunturais decorrentes da aplicação do Programa Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) (Silva e Raposo, 2009). O conteúdo desta exposição estava intimamente ligado a parte da Exposição Permanente, nomeadamente aos núcleos relativos ao período romano, pelo que foram integrados na Exposição Temporária alguns dos objetos de vidro pertencentes às coleções do Museu. A informação sobre estes resulta do trabalho de investigação da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, e do Museu, e de investigações académicas, como os “Vidros Romanos de Bracara Augusta”, da autoria de Mário Cruz, e de novos conhecimentos provenientes da investigação continuada em vários sítios arqueológicos 177 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga do país, que puseram em evidência este tema e contribuíram para a sistematização dos processos de produção e para o conhecimento do vidro na Antiguidade (idem). O projeto desta exposição teve como objetivo fazer uma nova e atual abordagem sobre o ciclo de vida do vidro antigo em Portugal, desde o seu nascimento até à sua morte e renascimento, através da reciclagem, num processo que se estende desde a Antiguidade até à atualidade. Com esta iniciativa, o Museu quis realçar a importância da continuidade cultural sobre o trabalho com o vidro, numa relação evidente entre o passado e o presente, sobretudo sobre as técnicas de fabrico artesanal ainda hoje utilizadas (Fig. 19), a reciclagem (costume quase tão antigo quanto o próprio vidro), o valor e o significado atribuídos a este material, a multiplicidade de aplicações do mesmo, e a funcionalidade das peças produzidas (Fig. 20), aspetos que fazem parte do nosso património imaterial, em constante transformação. Mais uma vez, os vestígios materiais encontrados através da prospeção e investigação arqueológica constituem o ponto de partida para a descoberta do simbolismo e significado das peças – a sua dimensão imaterial. Fig. 19. Ilustração sobre técnica de fabrico Fig. 20. Contextualização de vestígios de acordo com a sua funcionalidade (enterramentos em urnas) Para uma melhor sistematização da informação, esta foi dividida em secções, que figuraram, tanto no catálogo e no guia de exposição, como na própria sala de exposição. 178 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Tal como acontece com outros objetos exibidos na Exposição Permanente, também nesta exposição temporária sobre o vidro foi tida em conta a funcionalidade das peças, no momento de as dispor nas vitrinas, salvaguardando, no entanto, a multiplicidade de funções que algumas peças apresentam. O próprio texto do catálogo da exposição alude a este facto: “As peças agora expostas estão arrumadas segundo a função original pressuposta o que não impede a multifuncionalidade de muitas delas. Uma garrafa pode facilmente ir à mesa ou acabar como candelabro improvisado”. Por outro lado, sendo o vidro “um material versátil e atrativo, possui múltiplas aplicações que ainda hoje estamos a descobrir”. III.III.VI Os recursos pedagógicos Os recursos pedagógicos auxiliares da visita ao Museu criados pelo Serviço Educativo englobam DVDs, Folhetos Educativos, Fichas de Sala, Fichas Informativas e Fichas de Exploração Pedagógica, para além dos Jogos Educativos, que se encontram analisados à parte. Até ao momento, são três as histórias editadas em DVD: “Um dia na vida do jovem Titus”, “O quotidiano do senhor Titus Satrius” e “Titus e o primo Julius”. Este recurso antecedeu a existência dos “Contos Animados” – as representações teatrais, e foi utilizado sobretudo até esta atividade ter entrado no Programa de Atividades do Museu. A primeira foi criada para o público mais jovem (até ao 2º Ciclo do Ensino Básico com o objetivo de ser uma alternativa ao filme sobre Bracara Augusta, cujo visionamento serve de introdução às visitas ao Museu. Esta história faz uma contextualização espáciotemporal como preparação para a visita ao Museu, oferecendo ainda uma visão sobre o quotidiano de um jovem romano em Bracara Augusta, através do qual os visitantes ficam a conhecer os hábitos e costumes dessa época, a vida familiar, escolar e social de uma criança romana. A segunda história segue o mesmo formato que a primeira, mas incide na vida de um adulto pertencente à classe média-alta, a sua vida quotidiana, familiar e social, incluindo aspetos das relações sociais, económicas, políticas, e religiosas. 179 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga A história “Titus e o primo Julius” realça também vários aspetos da vida familiar e social de crianças e adultos romanos, tendo dado, depois, origem à publicação em livro da história “Titus e os Legionários”, a primeira de uma coleção que o Museu pretende criar. À semelhança dos contos animados, as histórias que o Museu publica em livro ou DVD são criadas à volta dos objetos e vestígios arqueológicos que fazem parte do espólio do Museu, sempre com o objetivo de dar a conhecer a forma como se vivia na época da ocupação romana em Bracara Augusta. O protagonista, Titus, juntamente com a sua família e amigos, dá vida a uma personagem que representa um jovem habitante desta cidade romana. Através do Titus, podemos conhecer o quotidiano desta época, assim como ver objetos que se encontram expostos no Museu devidamente contextualizados, para que possam ser mais facilmente interpretados, sobretudo por um público infantojuvenil. O Folheto Didático e as Fichas de Sala são destinados ao público juvenil. Incluem exercícios de exploração para acompanhar a visita à Exposição Permanente, orientando a sua interpretação através da contextualização do espólio. O Serviço Educativo do Museu D. Diogo de Sousa criou, ainda, um conjunto de Fichas Informativas e Fichas de Exploração Pedagógica, que podem ser utilizadas pelo público geral e pelo público escolar, em particular, em diversos momentos: na preparação, durante a realização ou após a sua visita ao Museu, como complemento da mesma. Estas fichas encontram-se divididas em temas, sobre vários aspetos da vida humana que caracteriza cada período histórico e sobre o trabalho arqueológico, que percorrem todas as épocas retratadas na Exposição Permanente deste museu, desde a Pré-História até à Época Romana. Cada tema remete para um ou mais núcleos expositivos e para as oficinas lúdico-pedagógicas ou jogos correspondentes, sempre que aplicável. Trata-se de um recurso que está disponível no website do Museu, e na sua página no Portal dos Museus, do Braga Digital, e que está em constante desenvolvimento e ampliação. Já em finais de 2011, o SE do Museu voltou a inovar, criando kits compostos por materiais, e cartões com informação histórico-cultural e instruções sobre técnicas de execução, para elaborar réplicas de instrumentos e artefactos presentes ou representados na Exposição Permanente, tais como uma ponta de lança do Homem pré180 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga histórico, material para recriar uma gravura rupestre, e um mosaico romano (com tesselas), entre outros. Com estes kits, transmite-se saberes, técnicas e artes, assim como conhecimentos (em forma de curiosidades) sobre o nosso passado histórico, de acordo com o conteúdo expositivo do Museu e os sítios arqueológicos a ele associados. Estes conjuntos foram projetados para o público infanto-juvenil, que poderá ser acompanhado por adultos na realização das atividades, e foram colocados à venda na Loja do Museu. Por outro lado, eles serão, também, utilizados como brinde nas Festas de Aniversário infanto-juvenis organizadas pelo SE do Museu. III.III.VII O apoio à formação, ao debate e à investigação Neste âmbito, o Museu D. Diogo de Sousa disponibiliza espaço, dá apoio à formação e ao trabalho de investigação académica, presta informação, e divulga a realização de eventos promovidos pelas escolas e outras instituições interessadas. A sua ação, a este propósito, nem sempre parte da sua iniciativa, revelando-se muitas vezes apenas através da colaboração em eventos culturais de iniciativa externa. Para além da disponibilização de documentação existente na Biblioteca do Museu, ou mesmo de obras que se encontram à venda na Loja do Museu, sobre temáticas específicas, resultantes de investigações já efetuadas, muitas delas relacionadas com o património imaterial, a formação e informação estão também presentes em ações de apoio a professores, educadores, e outros, na preparação da sua participação em eventos culturais, como a Braga Romana, seja através da simples facultação de informação, como da deslocação de profissionais às escolas para orientar a realização de trabalhos práticos, ou ainda de workshops temáticos realizados no Museu. Na organização do Torneio de Jogos Romanos de Tabuleiro, o Museu tem o importante papel de disponibilizar informação sobre os jogos e os próprios jogos, fomentando o conhecimento das regras de jogo e a sua prática. Ainda direcionada para o público escolar, o Museu desenvolve, anualmente, uma iniciativa associada às comemorações do Dia Internacional dos Museus, que incentiva a pesquisa sobre aspetos histórico-culturais relacionados com a cidade romana de Bracara Augusta. Através deste projeto, que se intitula “A minha escola vai ao museu comemorar o Dia Internacional dos Museus”, todos os anos, as escolas são convidadas a participar 181 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga com os seus alunos na comemoração dessa data, renovando anualmente o tema escolhido. O objetivo desta atividade é levar os alunos a pesquisar, fotografar sítios arqueológicos, criar ou recriar a cidade romana, ou o que dela resta, para elaborar trabalhos em diversos formatos (desde o desenho, a pintura, trabalhos manuais, até filmes e peças de teatro), que depois são apresentados no espaço do Museu, em colaboração com as escolas, para que o público escolar, neste caso em particular, tome contacto com os vestígios arqueológicos de Bracara Augusta, a sua história e significado, e conheçam melhor as suas origens e a sua própria identidade. Trata-se de uma forma de aprender ativamente, através da experiência e do contacto direto com os vestígios. Tanto ao pesquisar, como ao elaborar e ao apresentar os seus trabalhos, o público jovem está a interpretar, a criar uma visão da História, e a recriar este património, de acordo com as suas vivências e a atualidade. O Museu promove esta ação de várias formas: na organização e divulgação do concurso, no apoio à preparação e execução dos trabalhos a realizar pelos participantes (prestando informação e orientação científica), e na divulgação e valorização dos trabalhos realizados, através de uma exposição inserida nas comemorações do Dia Internacional dos Museus, em Maio, mas também durante os meses de Julho, Agosto e Setembro, no espaço do Museu, dando-os a conhecer ao público. No sentido, ainda, de estreitar a sua ligação às escolas e à educação, preparando os professores para uma melhor interação com o Museu e o património histórico-cultural, este participa, em 2012, na preparação e realização de quatro Ações de Formação creditadas para Professores sobre Bracara Augusta e sobre o papel educativo dos museus, com particular atenção para a atividade do Serviço Educativo do Museu D. Diogo de Sousa. Através desta ação, será dada uma visão mais abrangente sobre a interpretação dos vestígios arqueológicos e sobre as atividades que os museus podem desenvolver nesse sentido, seguindo o exemplo deste museu. O Museu D. Diogo de Sousa recebe, também, entre outros eventos de caráter científico (alguns ligados à História), a realização de colóquios, encontros e palestras, sobre variados temas. De entre os já realizados, destaco um dos colóquios inseridos no Ciclo “Museus e Património Imaterial: agentes, fronteiras, identidades”, da iniciativa do Departamento de Património Imaterial do IMC, que teve lugar em Novembro de 2008. 182 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Este evento foi, naturalmente, relevante pela temática abordada, pelos seus objetivos de debate e sensibilização para o património imaterial, mas também pelo contributo para a descentralização da cultura. III.III.VIII A colaboração em projetos culturais A colaboração do Museu em projetos de índole cultural resulta, acima de tudo, de parcerias desenvolvidas com o Pelouro Municipal da Cultura, do Município de Braga, participando na organização e realização de alguns eventos culturais desta cidade. Um desses eventos é o Festival de Teatro de Braga – Mimarte (Fig. 21), cuja parceria é desenvolvida desde a sua primeira edição, há doze anos, com a finalidade de envolver o Museu no programa cultural deste serviço municipal. A participação do Museu concretiza-se no acolhimento da representação de peças teatrais cujas índole e temática estejam relacionadas com o contexto expositivo do Museu. Assim, os espetáculos de teatro clássico, de origem grega ou romana, são os escolhidos para serem apresentados ao público no espaço do Museu, dando preferência, sempre que possível, ao Teatro do Jardim, uma área de teatro ao ar livre, com uma estrutura que se assemelha aos teatros romanos. Nota-se, assim, uma preocupação em respeitar a temática do Museu, em privilegiar a transmissão cultural que está associada aos conteúdos do mesmo, através de manifestações artísticas, que expressam os valores e a herança cultural que o próprio museu divulga, com base no seu espólio, e em criar um ambiente de espetáculo que leve o público a sentir melhor essa envolvência cultural, pela escolha do espaço exterior. Fig. 21. Representação teatral da tragédia grega “As Bacantes”, no Festival Mimarte 183 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Por altura das comemorações da Semana Santa, em Braga, o Museu participou na “Feira da Páscoa”, organizada pelo Município desta cidade e pela Associação de Artesãos organizaram, em 2011 e 2012, no centro da Cidade, para promover produtos tradicionais e o artesanato. O Museu D. Diogo de Sousa, enquanto instituição convidada, divulgou, durante a sua presença, a atividade que desenvolve, em especial, sobre a época romana em Bracara Augusta, coleções patentes no Museu, para além de disponibilizarem para venda alguns artigos provenientes da sua Loja. Este tipo de evento não permitiu proporcionar ao público experiências concretas, que os levasse a contactar de forma mais ativa e direta com o património imaterial que esta instituição tem para divulgar, mas foi feito um esforço em contextualizar o mais possível a época que estava a representar, através do uso de indumentária romana por parte dos profissionais presentes no evento, da demonstração do uso de lucernas. A partir dos artigos à venda, alguns deles réplicas de peças expostas no Museu, foi possível partilhar, com os visitantes, conhecimentos sobre o quotidiano e a forma como se vivia, na época romana. Em 2012 foram também disponibilizadas para venda peças de vestuário romano criadas no Museu. Braga Romana – Reviver Bracara Augusta é um evento da iniciativa do Município de Braga, organizado pelo Pelouro da Cultura há oito anos, entre os meses de Maio e Junho, com a colaboração do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, e o apoio e participação de outras entidades, sobretudo educativas, culturais e recreativas. Este evento, que tem como objetivos a promoção turístico-cultural e a sensibilização para a salvaguarda e valorização do património arqueológico da Cidade, pretende ser uma recriação histórica de Bracara Augusta, da época da ocupação romana, fundada pelo Imperador Augusto há cerca de dois mil anos. É no centro histórico de Braga que se concentram as atividades, que integram, entre outras, a recriação de um mercado da época e de um acampamento militar, o serviço de alimentação tradicional em tabernas, cortejos romanos, espetáculos de artes circenses, representações teatrais, animação de rua com figuras mitológicas e gladiadores, interpretações musicais e danças orientais, e uma área pedagógica. Enquanto instituição cultural e educativa que promove a investigação, a salvaguarda e a divulgação do património arqueológico desta cidade e região, cujos 184 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga principais vestígios remontam à época da ocupação romana da mesma, o Museu D. Diogo de Sousa colabora na organização deste evento de três formas. Enquanto conselheira, no processo de seleção dos artesãos (e, portanto, dos produtos) que irão integrar o “mercado romano”, juntamente com a organização do evento. Enquanto formadora, na organização e realização da oficina de indumentária romana (Fig. 22), compostas por seis sessões, entre os meses de Março e Abril. Este workshop de recriação e confeção de vestuário, penteados e adereços da época romana foi criado para apoiar as pessoas que pretendem participar no evento Braga Romana com o máximo rigor histórico possível. Fig. 22. Participantes da edição de 2012 do workshop de Indumentária Romana Também nesse sentido, o Museu presta auxílio às escolas e outras entidades do Concelho, facultando, de forma gratuita, informação e formação sobre a época romana em Bracara Augusta, que as ajuda a preparar os seus projetos de participação no evento, sob a forma de animação de rua, sobretudo nos cortejos e no mercado. O apoio facultado no âmbito deste evento visa, principalmente, conferir um maior rigor histórico, quer na atuação, como na caraterização dos participantes, de acordo com a indumentária própria da época romana, sobre a qual ainda subsistem, de uma forma geral, várias dúvidas, como demonstram as imagens divulgadas sobre o evento. Para além disso, este museu participa na Braga Romana, realizando, na “Tenda Pedagógica”, atividades educativas direcionadas sobretudo para o público infanto-juvenil. Na edição de 2011, as atividades promovidas foram jogos romanos (“Jogo do arquinho”, 185 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga “Jogo das bolas” e Jogos Romanos de Tabuleiro) e oficinas lúdico-pedagógicas sobre a construção do mosaico romano (tesselatum) e a elaboração de adornos e acessórios de inspiração romana, sob a orientação de técnicos do Serviço Educativo do Museu. A tenda foi partilhada com o Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga, que a ocupou, em períodos alternados, com ateliês de olaria e de pintura de azulejo, também eles ligados à temática do Museu. O Serviço Educativo tem a preocupação de, com estas atividades, proporcionar ao público uma experiência de contacto com hábitos e costumes da época romana, que fazem parte do nosso legado cultural. Apesar de um pouco renitente em tomar a iniciativa, depois de convidado o público mostrou-se bastante participativo e entusiasmado com as atividades propostas, identificando-se com elas, ainda que não estivessem muito familiarizados com as mesmas, por já não serem usuais no presente. As oficinas, sendo pagas, por imposições financeiras do Museu, não tiveram tanta recetividade, mas procurou-se passar a informação também através de cartazes que descreviam e ilustravam essas atividades, e do diálogo com o público que mostrou interesse por elas. O SE, com o apoio do Grupo de Amigos do Museu, iniciou em 2012 um novo projeto que incrementará ainda mais a sua colaboração com eventos como o Braga Romana, criando peças de vestuário romano, feminino e masculino, utilizando técnicas, materiais (em termos de composição e cor), e design, o mais autênticos possível, para venda e para aluguer, ajudando a suprir a necessidade que muitas pessoas interessadas em participar em atividades relacionadas com a época romana sentem todos os anos, sobretudo durante a realização do cortejo noturno da Braga Romana, que costuma ter uma adesão massiva de público a assistir. As peças serão acompanhadas por um pequeno texto informativo sobre o significado, o uso, as técnicas, os materiais e o design nelas aplicados, assim como a forma correta de as vestir (como colocar o manto, ou como apertar o cordão que serve de cinto, por exemplo). Tendo sido convidado a participar na Braga - Capital Europeia da Juventude 2012, o Museu D. Diogo de Sousa propôs a adaptação do seu workshop sobre gastronomia mediterrânica, e romana, associando-a à promoção de hábitos alimentares saudáveis entre os jovens, através do conhecimento da sua herança gastronómica, com a 186 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga colaboração da Direção Regional de Saúde do Norte, criando uma oportunidade para divulgar património imaterial. Esta sugestão acabou por não ser aceite pela organização do evento, sendo substituída por outro workshop não ligado a património imaterial. Em conclusão, o Museu D. Diogo de Sousa, com base no trabalho de investigação e no reconhecimento obtido acerca do património material, usa os vestígios que expõe ao público como testemunhos de uma cultura do passado que ainda se reflete, de várias formas, na vida presente desta comunidade, e que, portanto, é seu património imaterial. Na sua ação de divulgação, procurando aproximar o público das suas coleções, e facilitar a sua interpretação, o Museu acaba por ser um veículo transmissor de património imaterial, porque, através de atividades de índole prática e informal, e o envolvimento em eventos culturais e educativos da comunidade local, passa ensinamentos ao seu público, e à comunidade, reforçando os laços identitários com esse património (já reconhecido). Nesse contexto, o património imaterial está também a ser recriado de acordo com a realidade atual, seguindo uma tendência evolutiva (no sentido de mudança). O contexto espacial, por exemplo, pode ter mudado, mas procura-se manter a essência daquilo que é transmitido. No seu papel informativo, educativo e cultural, o Museu procura fazer uma transmissão rigorosa sobre o passado, promovendo o conhecimento cientificamente válido, com base em estudos efetuados, pelo que, nesse aspeto, podemos afirmar que é valorizada a questão da autenticidade. Por outro lado, aquilo que não pode ser recriado ou mostrado é descrito, relatado ou contado, para que o contexto se torne percetível para o público. A comunidade cria cultura, o museu gera conhecimento. No seu curto espaço de existência, o Serviço Educativo do Museu D. Diogo de Sousa desenvolveu um grande e importante trabalho de divulgação do património, tanto material como imaterial, e encontra-se em constante inovação. Soube explorar com competência e criatividade os recursos disponíveis, e rentabilizar o seu potencial humano e material. Beneficiou do conhecimento de técnicos especializados e de profissionais que estão com o Museu desde a sua reestruturação, que adquiriram saberes através da prática e do contacto direto privilegiado com o espólio, no trabalho de campo com 187 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga arqueólogos da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho (no Campo Arqueológico de Braga, entre 1976 e 1980). Os workshops, as oficinas lúdico-pedagógicas e os jogos são exemplos de atividades nas quais a herança cultural aparece ligada à recriação e à mudança constante que carateriza o património imaterial. Os materiais utilizados são reinventados pois, sobretudo por razões ecológicas e económicas, não podem ser utilizados os originais. As técnicas, no entanto, procuram ser fiéis às do passado, pois são artes e saberes que se pretende transmitir e reavivar. O património imaterial tem esta particularidade de ser transmissível, mas também posto em prática, experimentado e visível, através da sua materialização em diversas formas físicas, como objetos, imagens, sons, ou gestos, comportamentos e ações. Nas oficinas de expressão plástica e em algumas oficinas de arqueologia experimental, o resultado é, geralmente, materializado em objetos e imagens. Já com os jogos são os comportamentos, gestos e ações que resultam dos saberes transmitidos. Noutras situações, como na “Oficina de indumentária romana, adereços e penteados” ou na oficina de “Cozinha romana”, os participantes adquirem técnicas e saberes que geram resultados materiais quando postos em prática. Este património, que geralmente é passado de geração em geração, dentro de uma comunidade, é, no caso dos museus, transmitido através da formação e educação não formal, que é um dos seus papéis na sociedade. Os museus, enquanto instituições, devem transmitir o património imaterial de forma consciente, tal como é feito com o património material. A transmissão espontânea e não planeada é própria e aceitável apenas em comunidade restrita, pequenos grupos ou individualmente entre pessoas singulares de uma comunidade, como sejam os ensinamentos passados em contexto familiar, de geração em geração. A existência de um conceito que é o de “património imaterial” não está na mente dessas pessoas e grupos restritos, ainda que o estejam a divulgar com a consciência de que ele faz parte da sua herança cultural. Tal não é admissível numa instituição cultural como um museu, cuja ação deve ser de natureza profissional. A consciencialização e a preparação dos profissionais envolvidos na divulgação do património imaterial tem de ser equivalente à existente para a divulgação do património material. O conceito está claramente definido e preparado para ser trabalhado na prática museológica, mas requer reflexão de acordo 188 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga com a natureza das coleções existentes em cada museu, para que esse património possa ser explorado e divulgado de forma adequada ao seu público, que se deseja abrangente. A equipa do Museu D. Diogo de Sousa necessita de efetuar esse trabalho de reflexão e preparação para realizar a divulgação, que já faz, do património imaterial associado às suas coleções, de forma consciente e deliberada. Em termos turísticos, as atividades aqui descritas como exemplos fornecidos por este museu de Arqueologia proporcionam experiências e vivências hedónicas e holísticas, não apenas cognitivas. São uma forma de atrair visitantes, e com estratégias de aproximação a outros públicos, nomeadamente o público de idade adulta e os turistas estrangeiros, através da adaptação linguística, entre outras, elas poderiam ajudar a fomentar o Turismo Cultural. 189 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Conclusão O património imaterial não é uma falsa questão. Este conceito, ainda relativamente recente, surgiu num ambiente de contestação face ao desigual reconhecimento que o património dito material já tinha alcançado, inclusivamente a nível internacional, nomeadamente com a Convenção para a Proteção do Património Cultural e Natural Mundial, da UNESCO, em 1972, que deixava de fora o património imaterial, ainda pouco valorizado e definido. Traçando um percurso cronológico, verifica-se que o conceito e o seu reconhecimento partiram de outros como o folclore e a cultura tradicional e popular, que levaram o património imaterial a ser associado, sobretudo, ao património de caráter etnográfico. A recomendação da UNESCO para a “salvaguarda da cultura tradicional e do folclore” (de 1989), e a sua assinatura da Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural (de 2001) são exemplos de medidas de proteção sobre este património, que ainda não era definido como “imaterial”. O reconhecimento da importância histórica e cultural do património imaterial, e a sua proteção legal através da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO (de 2003), que viria a entrar em vigor em 2006, e a ser ratificada por Portugal em 2008, veio legitimar, sobretudo, a sua classificação internacional, e reforçar a sua salvaguarda, não apenas a sua inventariação, ajudando, ainda a defini-lo e a interpretá-lo. Apesar da ligação evidente entre património etnográfico e património imaterial, um olhar mais atento sobre a sua definição (UNESCO, 2003) e domínios (UNESCO, 2009) prova que ele não se resume às tradições populares e ainda que, para além de aspetos intangíveis, o património imaterial comporta, também, elementos materiais (incluindo objetos e lugares), que as manifestações culturais utilizam e incorporam. São, assim, consideradas como manifestações do património imaterial as tradições e expressões orais, artes do espetáculo, práticas sociais, rituais e eventos festivos, acontecimentos e práticas relacionadas com a natureza e o universo, e as técnicas artesanais tradicionais. Frequentemente confundido com “vertente” ou “dimensão imaterial” dos objetos, o património imaterial é ainda entendido, muitas vezes, apenas como o significado que 190 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga lhes é atribuído. Mesmo que esse significado seja de natureza cultural e histórica, tal não é suficiente para que o possamos considerar “património”. Esta é uma questão primordial, pois a classificação de “património” pressupõe o reconhecimento por parte de uma comunidade, mais ou menos restrita, como algo que pertence à sua identidade e herança cultural, que é transmitido de geração em geração, e que evolui e se modifica com o passar do tempo. O recurso à patrimonialização da cultura está intimamente ligado a um esforço de conservação e de valorização, pela sua simbologia e importância atribuída no reforço do sentimento de identidade e da memória coletiva, mas é também uma questão política e de afirmação nacional, que encerra, ainda, interesses económicos. Neste processo de seleção que a patrimonialização requer é, também, crucial o papel dos especialistas – arqueólogos, antropólogos, arquitetos, historiadores da arte, biólogos e outros, para certificar o valor dos elementos culturais dignos de serem patrimonializados e reconhecer como bem de tutela pública o que antes não estava reconhecido como tal. Este reconhecimento público e legal torna-os mais atraentes e alvo de aproveitamento turístico. Apelativo pela sua natureza holística e hedónica, o património imaterial, que é essencialmente cultural, é um alvo de exploração turística potencialmente mais forte do que o já bem consagrado património material. Há muito que o Turismo Cultural é um dos mais importantes motivos de visita de turistas a Portugal, cujas gastronomia e festividades, a par do clima, das paisagens e dos monumentos (património material), são grandemente apreciadas. Uma das razões apontadas pela UNESCO para a criação da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, em 2003, foi precisamente “o papel do património cultural imaterial como fator de aproximação e intercâmbio entre os seres humanos”, que o Turismo fomenta. A experiência turística proporciona o contacto intercultural, o conhecimento de outras culturas e a vivência de sensações e emoções, também oferecida pelo património cultural, sobretudo o imaterial, porque ele apela aos sentidos. Estas experiências constituem uma forte motivação e fator de satisfação para turistas, sobretudo os estrangeiros. A gastronomia, as danças, a música, práticas sociais e atos festivos são recursos que fazem do Turismo Cultural uma potencial aposta de sucesso em todo o país, especialmente no norte, onde as praias serão menos procuradas, 191 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga e onde as paisagens, os monumentos, a gastronomia e as festividades ganham mais destaque. Tanto o ICOMOS (através da adoção da Carta Internacional do Turismo Cultural, em 1999), a nível internacional, como o IMC (uma instituição que está, agora, em vias de ser integrada na futura Direção Geral do Património Cultural), a nível nacional, mostramse cientes da importância económica do Turismo, e da sua ligação ao Turismo Cultural. Assim, eles têm incentivado os museus a investir em estratégias de marketing internacional, a estabelecer parcerias e uma rede de comercialização, melhorando, ainda, aspetos como a capacidade de receção dos turistas estrangeiros, o domínio de idiomas e a informação turística. Ainda que sejam definidos, pelo ICOM, como instituições sem fins lucrativos, os museus não se manteriam abertos se não fossem, pelo menos, economicamente sustentáveis. Assim demonstram posições de diferentes quadrantes (cf. IMC, 2011, e Hooper-Greenhill, 1994). Tal é conseguido através do Turismo. Os museus enfrentam, no entanto, desafios no sentido de atrair um maior número de visitantes e, simultaneamente, um público mais diversificado. O alcance desse objetivo pode passar pela oferta de ambientes mais descontraídos e informais, pelo incremento de abordagens comunicacionais que favoreçam a aproximação e a interação humana com o público que visita os museus (através da comunicação interpessoal e interativa), mas também pelo desenvolvimento de estratégias que tornem o conhecimento e o entendimento das exposições mais acessível (através da interpretação dos objetos no seu conjunto, e não individualmente, da interação virtual com os objetos expostos, e ainda pela forma de expor e pela coerência interna na exposição, que deve favorecer a contextualização dos objetos). Esta forma mais prática e interativa de abordar as coleções expostas e viver a visita a museus está em consonância com a atividade de promoção do património imaterial, preconizando, de facto, uma nova conceção de museu. É adequado e vantajoso apostar na divulgação do património imaterial a turistas internacionais, por dois motivos principais, para além dos de ordem económica. Por um lado, independentemente do ponto do planeta que visitemos, dificilmente encontraremos uma manifestação cultural que não consigamos interpretar ou entender, e, mesmo, nela encontrar identificação, já que a humanidade partilha um passado 192 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga evolutivo com vários pontos comuns, e formas de expressão semelhantes, para além de um contexto de existência temporal idêntico. Por outro lado, o contacto aberto e harmonioso entre pessoas de origens culturais diversas e a partilha de experiências fomentam o respeito pela diversidade cultural e pelo património, contribuindo para a criação de uma consciência coletiva global face à valorização da preservação do património, tanto material como imaterial. Assim, a divulgação turística pode contribuir para reafirmar o valor patrimonial e cultural destes testemunhos da cultura imaterial, servindo de veículo de reforço da proteção e salvaguarda do património, dado que os indivíduos possuem, naturalmente, mais propensão para proteger aquilo que conhecem e compreendem, não só quando esse património é parte intrínseca da sua cultura enquanto elementos de um grupo ou comunidade, mas também quando ele faz parte de outras culturas, ou da História da humanidade. Para fomentar a procura internacional, no entanto, há ainda aspetos a melhorar nos nossos museus, nomeadamente o uso mais corrente de línguas estrangeiras e a adaptação linguística das atividades práticas neles dinamizadas, para estreitar relações com os visitantes e permitir a comunicação e sua participação nessas atividades. Por outro lado, o recurso às tecnologias da informação, nas quais se incluem a internet, pode ser uma forma prática, sustentável e até democrática de os museus fazerem divulgação e comunicarem. Isso pode ser feito através do correio eletrónico, websites e redes sociais, por exemplo, reforçando a comunicação com o público, ampliando e diversificando os serviços prestados. Sabendo das limitações financeiras e da escassez de recursos que os museus nacionais enfrentam, de uma forma geral, o aspeto linguístico e comunicacional é um veículo a explorar a favor do aumento e diversificação de afluxo aos museus. Entidades internacionais representativas dos museus e sítios, como o ICOM e o ICOMOS, cujas linhas de ação têm reflexo, a nível nacional, em recomendações do IMC, reconhecem, por outro lado, a preponderância dos museus na salvaguarda e promoção do património imaterial, realçando a sua particular posição privilegiada de proximidade com as comunidades. Sendo mais complexo do que o património material, o património imaterial tem acarretado dificuldades de promoção e divulgação, não só por parte das comunidades 193 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga como também por parte de instituições culturais, como os museus. Ambos enfrentam críticas como a “mercantilização da cultura” com fins turísticos, e a “fossilização” de património cultural, quando o Turismo não é apenas uma atividade económica mas também cultural, que sempre existiria sem a primeira função, e a segunda questão não se coloca se aceitarmos que a exibição de exemplares representativos de uma cultura num espaço de natureza museológica não impede a sua evolução. Talvez por isso o património imaterial tenha estado, a nível museológico, em Portugal, até ao momento, sobretudo associado à atividade de inventariação (para a inscrição de expressões culturais no “Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial”, do IMC) e aos museus de caráter etnográfico. No fundo, a principal razão parece residir, contudo, num ainda fraco conhecimento deste conceito e da falta de preparação dos diferentes profissionais ligados à cultura, ao património e à museologia, em relação ao património imaterial. Em Portugal, o património imaterial está oficialmente associado aos museus, tendo sido atribuição do Instituto dos Museus e da Conservação, IP (IMC), que promove, através do seu Departamento de Património Imaterial, o estudo, a salvaguarda e a divulgação do Património Cultural Imaterial. As mudanças orgânicas que se encontram em curso na Cultura, em Portugal, estão a criar uma certa ansiedade face à condução da política cultural do país. A extinção do Ministério da Cultura, e a passagem de competências que antes pertenciam ao IMC para Direções Regionais da Cultura, colocará museus que estavam sob a tutela do IMC sob uma nova direção, com consequências ainda imprevisíveis para o funcionamento de vários museus e para a condução das suas atribuições. Seguindo as sugestões da Convenção da UNESCO (2003), a salvaguarda do património imaterial deve ser feita de várias formas: por um lado, a identificação, a documentação e a pesquisa sobre o património; por outro, a sua preservação, proteção e promoção; e, por fim, ações de valorização, transmissão (através da educação formal e da educação não formal), e a sua revitalização. De facto, os museus, enquanto instituições culturais e educativas, apresentam-se como as entidades potencialmente mais competentes para promover e divulgar o património imaterial associado às suas coleções. Sem retirar às comunidades o seu papel de transmissor espontâneo, os museus são, à partida, dotados de suficiente credibilidade 194 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga e rigor científico, para transmitir esse mesmo património de forma consciente e planeada, tal como fazem em relação ao património material que expõem e interpretam. A questão prende-se, agora, sobre a forma de o fazer. Sendo o resultado da relação e interação do ser humano com o meio que o rodeia e, por isso, composto por uma grande variedade de expressões culturais, o património imaterial é caraterizado pelo dinamismo e caráter prático. Assim, os museus devem usar a sua função de promotores da educação não formal para dinamizar atividades práticas que proporcionem a experimentação para a aquisição de saberes e técnicas, a transmissão e a recriação de conhecimentos, visões e expressões, que não se esgotam nesses momentos e atividades mas que se refletirão de alguma forma na vida e forma de estar dos recetores. Os museus deverão apostar em estratégias como exposições interativas, oficinas práticas, a manipulação de objetos e instrumentos, e jogos, seguidos de trabalho de reflexão e análise, usando processos dinâmicos e criativos. Elas podem resumir-se a vivências e memórias ou continuar a reproduzir-se e a serem retransmitidas, recriadas e até reinventadas, seguindo o seu próprio percurso evolutivo, com mais ou menos repercussões culturais, para a memória coletiva. O património imaterial está, naturalmente, associado à Etnografia, dada a sua relação com as manifestações culturais, mas não se limita a esse aspeto, pelo que outros museus que não os de caráter etnográfico podem também explorar esse recurso cultural. Pelas razões atrás mencionadas, e que se prendem com a natureza tão abrangente do património imaterial, podemos afirmar que a maior parte dos museus terão aspetos a explorar nesse domínio. Para este estudo, no entanto, foram escolhidos os museus de Arqueologia pela grande quantidade de museus que, mesmo não sendo de Arqueologia, detêm, nas suas coleções, espólio arqueológico ou relacionado com sítios arqueológicos, em Portugal, por estes museus não serem habitualmente associados ao património imaterial, e pela sua importância para o conhecimento e compreensão de um património mais ancestral, mas que se reflete ainda na cultura do presente. Os museus de Arqueologia apresentam a particularidade de poder expor e dar a conhecer à sociedade, e de forma equitativa, culturas ancestrais que outro tipo de museus (como os etnográficos) não permitem abordar, dada a natureza mais recente do seu espólio. A proximidade existente entre a Arqueologia e a Etnografia não impede a 195 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga existência de importantes diferenças entre as duas disciplinas. Essas diferenças podem, em determinados aspetos, abonar a favor da Arqueologia, pois a distanciação no tempo permite estabelecer associações entre objetos e traços culturais entre diferentes épocas históricas, encontrando reflexos culturais ao longo do tempo, até ao presente. Por outro lado, e em termos patrimoniais, as mais antigas podem mais facilmente adquirir o estatuto de “património” por serem coletivamente mais valorizadas, sendo que a nível pessoal tendemos a valorizar mais os testemunhos materiais que associamos a memórias familiares, mas a nível coletivo valorizamos mais aquilo que está mais distante no tempo, porque os vestígios do passado constituem vetores mais comuns de identificação no plano coletivo. Num museu de Arqueologia, os objetos expostos são o principal testemunho de um passado mais remoto, de há, pelo menos, cinquenta anos atrás. Mas é relativamente à Pré-História que estes vestígios são de extrema importância, dado que são o único tipo de fonte disponível para conhecer a forma como o ser humano vivia e se relacionava com o meio antes de existirem registos escritos. Os artefactos são usados para interpretar uma determinada cultura e perceber de que forma diferentes culturas têm evoluído até ao presente. Apesar de investigar e interpretar vestígios materiais, a Arqueologia não está apenas ligada ao património material porque vestígios arqueológicos materiais musealizados ou expostos num museu podem também ser património imaterial, ainda que se tratem de objetos, instrumentos, artefactos ou espaços físicos, apresentando-se como testemunhos do passado histórico-cultural de determinada comunidade. Mesmo representando o passado da humanidade, eles têm uma relação com o presente. A Etnoarqueologia (como especialidade da Arqueologia) é uma prova da relação existente entre a Arqueologia e a Etnografia, como disciplinas que se complementam no estudo da humanidade e das sociedades humanas e suas culturas, materiais e imateriais. A Etnoarqueologia veio adicionar à investigação arqueológica o estudo de povos vivos, e da sua cultura material, com o objetivo de melhor compreender os registos arqueológicos do passado, ou seja, recorrendo ao presente para melhor explicar o passado. Os anos 90 do século passado trouxeram a consciência de que a Arqueologia pode contribuir para a compreensão, não só da Pré-História e da História Antiga, mas também 196 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga de períodos históricos mais recentes, e a consciência da importância de entender o registo arqueológico de uma forma mais profunda (para explicar questões sobre como algo aconteceu ou se formou, por exemplo), recorrendo à chamada Etnoarqueologia. Há, no entanto, quem o considere um termo redundante, já que a investigação sobre o passado mais remoto esteve sempre dependente de informação de natureza etnográfica ou antropológica, tanto para a identificação e descodificação dos artefactos, como para a interpretação das realidades sociais. Por outro lado, com o abandono das abordagens tradicionais, em Arqueologia, e a passagem à abordagem pós-processual, torna-se gradualmente mais importante conhecer a forma como os povos do passado viviam e porquê, para compreender a razão da mudança cultural, que era já preocupação da chamada Arqueologia processual, não só em termos gerais, de toda a humanidade, mas também das particularidades de uma determinada cultura. No século XX ainda persistiram ideais nacionalistas, tanto na investigação arqueológica como no âmbito da museologia, mas nas décadas compreendidas entre os anos 30 e os anos 60 foi o despontar da indústria turística que terá motivado a valorização do património arqueológico, em Portugal. Avanços científicos, a evolução dos paradigmas interpretativos da cultura e da História da humanidade, a par do desenvolvimento na educação e preparação de profissionais, contribuíram para o conhecimento dos vestígios arqueológicos numa perspetiva mais abrangente e multidisciplinar, orientada para o estudo das culturas associadas aos vestígios encontrados. No entanto, tal como acontece com o trabalho de investigação levado a cabo pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, a principal responsável pelos estudos sobre as coleções expostas no Museu D. Diogo de Sousa e sobre os sítios arqueológicos a elas associados, continuam a coexistir, em Arqueologia, diferentes perspetivas que presidem à interpretação que é feita dos mesmos. Apesar de partilharem uma mesma metodologia de trabalho de campo, a abordagem efetuada sobre os vestígios pode variar muito consoante a formação e especialização de cada arqueólogo. Depois de questões políticas, jurídicas e científicas, e de conservação, estes são fatores que condicionam grandemente a investigação arqueológica e o conhecimento que 197 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga se detém acerca dos vestígios, a sua valorização e o seu reconhecimento a nível patrimonial. Um museu de Arqueologia tem, quanto ao património imaterial, um duplo papel: o de salvaguarda e preservação (através do trabalho de investigação e de inventário, e da aplicação de técnicas de conservação e restauro dos vestígios materiais), e o de divulgação e transmissão do património imaterial a que os vestígios materiais estão associados, através da dinamização de atividades de interpretação e de teor prático, no âmbito da sua ação educativa não formal e lúdica. Os museus desempenham uma importante função no que concerne à construção do significado que é atribuído aos objetos. Num museu de Arqueologia, todo o processo de trabalho que precede a exposição das coleções, desde a prospeção arqueológica à investigação documental, e ao registo, seleção, conservação e eventual restauro das peças achadas, condicionará as interpretações históricas e científicas de um determinado objeto. Da mesma forma, a própria montagem das exposições atribui significados simbólicos aos artefactos. Os objetos são fundamentais para simbolizar e representar ideias e pensamentos mais complexos, facilitando a sua compreensão. Os vestígios materiais são testemunhos de uma cultura, de modos de viver e de formas de encarar o mundo, traduzindo valores, práticas, costumes e crenças, quando contextualizados no tempo, no espaço e na relação dos indivíduos (a eles associados) com o meio que os rodeia. De âmbito regional, o Museu D. Diogo de Sousa é um dos maiores e mais significativos museus de Arqueologia de Portugal, situado no norte do País, na cidade de Braga. O seu longo percurso de existência iniciou-se na época em que a Arqueologia nasceu (século XIX), atravessou o período em que diversas abordagens floresceram e convergiram no campo da investigação arqueológica (século XX), e culminou na exposição dos vestígios e artefactos, completando a sua função pública de museu, no século XXI. A conjugação de vários fatores geográficos e sócio-culturais dota o Museu D. Diogo de Sousa de um potencial vasto público, sobretudo da população jovem estudantil, num contexto educativo, mas visitantes e turistas oriundos de outros pontos do País e do estrangeiro, usualmente visitantes sazonais da região e da cidade, apresentam-se como público a considerar e a atrair, através de adequadas formas de promoção e divulgação. 198 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga As coleções do Museu D. Diogo de Sousa são, essencialmente, constituídas por espólio contextualizado, resultante da investigação arqueológica sistemática efetuada na região Norte, sobretudo no concelho de Braga, e o seu conjunto abarca um vasto período cronológico e cultural, desde o Paleolítico até à Idade Média. A época da ocupação romana da cidade de Braga, então designada de Bracara Augusta, domina, no entanto, não só pela importância que este período teve no passado histórico e cultural desta cidade, no processo de romanização da Península Ibérica e do Mundo, mas também pelos numerosos e significativos vestígios encontrados. Este caso particular é um exemplo demonstrativo de como o reconhecimento social do património arqueológico se faz, geralmente, em duas fases que não são necessariamente concomitantes. A interpretação efetuada pelos especialistas e o reconhecimento do valor científico e patrimonial pelas instituições precederam o reconhecimento identitário pelo público. A sua “segmentação” no domínio da Arqueologia implicou uma seleção de espólio na procura de um discurso expositivo mais coerente e significativo, valorizando o significado histórico-cultural e a representatividade dos vestígios. A própria localização do Museu é significativa, tendo o edifício sido estrategicamente projetado para a zona arqueológica mais representativa e mais bem preservada da cidade romana de Bracara Augusta, junto a alguns núcleos de ruínas arqueológicas, que integram o Circuito Arqueológico de Braga. Desde a sua abertura ao público, em Junho de 2007, de forma regular e programada, que o património imaterial associado ao património material exposto no Museu começou a ser promovido de uma forma não consciente ou propositada, através da abordagem da vertente imaterial do espólio em exposição, como meio de simplificar a informação, torná-la mais acessível e inteligível, mas também como forma de cativar a atenção de vários tipos de público. A ação de divulgação do património cultural imaterial que o Museu D. Diogo de Sousa desenvolve é levada a cabo dentro e fora do Museu, através de atividades e iniciativas internas (incluindo as propostas do IMC e do ICOM, como a comemoração do Dia Internacional dos Museus), e de parcerias com outras instituições e outros projetos, especialmente de índole local e regional. 199 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga O Museu transmite o património imaterial, sobretudo através da ação do seu Serviço Educativo, criando e dinamizando atividades de índole prática e informal, e o envolvimento em eventos culturais e educativos da comunidade local, passando ensinamentos ao seu público, e à comunidade. Rentabilizando com competência e criatividade os recursos humanos e materiais disponíveis, esta ação está em constante inovação, e baseia-se na exploração de diversas temáticas de forma prática em oficinas lúdico-pedagógicas (de arqueologia experimental, de expressão plástica, e de experimentação), recriação de jogos, workshops, representações teatrais, a criação de recursos pedagógicos, o apoio à formação, ao debate e à investigação, e a colaboração em projetos de índole cultural e educativa, para além de uma abordagem comunicativa e interativa das suas exposições, e da manipulação de objetos. Assim são transmitidos e experimentados conhecimentos, saberes, práticas, usos, técnicas, visões e expressões que fazem parte da nossa herança cultural, e que remontam a épocas tão diversas como a Pré e Proto-História e a época da romanização em Bracara Augusta. Eles abordam vários aspetos culturais como a gastronomia, artes do espetáculo, práticas sociais e técnicas artesanais tradicionais, entre outros. Estes aspetos culturais são reconhecidos enquanto “património” por profissionais especializados como os arqueólogos e investigadores, e autoridades culturais mas, também, cada vez mais, pelo público nãoespecialista. Esse património imaterial é recriado de acordo com a realidade atual, não impedindo a sua evolução (no sentido de mudança). Na prática, determinados aspetos como o contexto espacial, materiais e técnicas podem ser diferentes dos originais, mas no seu papel informativo, educativo e cultural, o Museu procura fazer uma transmissão rigorosa sobre o passado, promovendo o conhecimento cientificamente válido, com base em estudos efetuados, pelo que, nesse aspeto, podemos afirmar que é valorizada a questão da autenticidade, mas sobretudo o rigor científico das informações veiculadas. Em termos turísticos, as atividades aqui descritas proporcionam experiências e vivências hedónicas e holísticas, não apenas cognitivas. Elas são uma forma de atrair visitantes, e com estratégias de aproximação a outros públicos, nomeadamente o público de idade adulta e os turistas estrangeiros, através da adaptação linguística, entre outras, elas poderiam ajudar a fomentar o Turismo Cultural. 200 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Este museu oferece a imagem dos museus que se pretende para um futuro produtivo. A sua forma de trabalho incorpora já estratégias como o incremento da sua aproximação à comunidade e a um mais vasto e diferenciado público; o desenvolvimento de atividades diversas e adaptadas a diferentes níveis de conhecimento e necessidades, tornando mas acessíveis a compreensão e a interpretação dos seus conteúdos (do seu espólio e daquilo que ele representa); a promoção de experiências enriquecedoras baseadas na prática e no contacto interativo com os artefactos; a transmissão de cultura, através da educação não formal e do fomento da reflexão sobre o significado cultural dos testemunhos materiais, e a promoção do património imaterial a eles associado. O Museu usa os objetos expostos para criar significado e transmitir conhecimento, em detrimento do desejo de criar grandes coleções, tendendo, também, a dar mais atenção ao património imaterial, usando os objetos como testemunhos materiais dessa cultura imaterial. A exposição dos testemunhos materiais é apenas uma de outras formas de comunicação, que passam por abordagens diferenciadas das exposições patentes, da realização de atividades diversas de caráter prático, interativo e experiencial. Fomentando sempre o envolvimento sensorial e global, e a participação ativa e crítica do público na construção do seu conhecimento, e dando primazia à interpretação de significados culturais e à transmissão de saberes-fazer, sem impedir as inevitáveis evoluções e adaptações ao presente, o Museu está também a criar cultura, ajudando a reformular valores e a transformar relações culturais entre os indivíduos e o património, reposicionando as suas visões face ao mesmo. A atividade do Museu transpõe as suas instalações, abrindo-se e participando ativamente na vida da comunidade, fornecendo apoio científico a eventos e a iniciativas culturais relacionadas com o seu espólio e a sua área de investigação e atuação. A melhoria na divulgação do património imaterial no Museu, de uma forma geral, dependerá do entendimento deste conceito e da compreensão da sua importância na interpretação dos vestígios materiais neles expostos. Nota-se, ainda, a necessidade de transpor para a prática as recomendações já feitas e aprovadas, de fazer uma reflexão séria sobre questões concetuais, a formação de recursos humanos e a gestão de parcerias. Sem uma interiorização de conceitos, as ações serão inconsistentes; por isso, a 201 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga equipa do Museu D. Diogo de Sousa necessita de efetuar um trabalho de reflexão e preparação para realizar a divulgação, que já faz, do património imaterial associado às suas coleções, de forma consciente e deliberada, continuando a exibir o dinamismo, a inovação e a qualidade de serviço que o caraterizam. 202 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Referências bibliográficas ALCINA FRANCH, José (1989) Arqueología Antropológica, Madrid, Ediciones Akal, S.A. ALVES, Francisco, NUNES, Henrique, LEMOS, Francisco, OLIVEIRA, Eduardo (1977) “O Salvamento de Bracara Augusta”, O Arqueólogo Português, Série III, Vols. VII a IX, Lisboa, 1974/1977, Presidência do Conselho de Ministros/Secretaria de Estado da Cultura/Direcção-Geral do Património Cultural (Revista do Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia), pp. 416-423 ANTUNES, M. Telles (1991) “Povoado proto-histórico de S. 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Diogo de Sousa. © 2012 Ivone Coelho 97 Fig. 5 Aspeto da Sala 3 da Exposição Permanente do Museu D. Diogo de Sousa. © 2012 Ivone Coelho 97 Fig. 6 Aspeto da Sala 4 da Exposição Permanente do Museu D. Diogo de Sousa. © 2012 Ivone Coelho 97 Fig. 7 Maqueta da Casa das Carvalheiras, integrada na Exposição Permanente do Museu D. Diogo de Sousa. © 2011 Ivone Coelho 156 Fig. 8 Representação de um conto das “Histórias com Romanos”, no Jardim do Museu D. Diogo de Sousa, por técnicos do Serviço Educativo, no Dia Mundial da Criança. © 2011 MDDS 159 Fig. 9 “Jogo do arquinho”, jogado por participantes no evento “Braga Romana”. © 2011 Ivone Coelho 162 Fig. 10 “Jogo das bolas”, jogado por participantes no evento “Braga Romana”. © 2011 Ivone Coelho 162 Fig. 11 Aspeto da oficina de Jogos Romanos de Tabuleiro no Museu D. Diogo de Sousa. © 2008 MDDS 162 Fig. 12 Aspeto da oficina “Atividades do Homem da Pré e Proto-História”. © 2009 MDDS 166 Fig. 13 Aspeto da oficina “Tesselatum – Mosaico romano: como é e como se constrói”. © 2009 MDDS 167 Fig. 14 Aspeto da oficina “Os artistas da Pré-História: cores, rabiscos e outros riscos”. © 2008 MDDS 169 212 Turismo, Património Imaterial e Divulgação num Museu de Arqueologia: O Museu D. Diogo de Sousa, em Braga Fig. 15 Aspeto da fase de confeção de uma receita de inspiração romana, por um participante, na oficina “Cozinha Romana”. © 2011 MDDS 173 Fig. 16 Aspeto da fase de prova de uma receita de inspiração romana confecionada pelos participantes na oficina “Cozinha Romana”, no espaço de recriação de um triclinium (sala de refeições e convívio romana), no Museu D. Diogo de Sousa. © 2011 MDDS 173 Fig. 17 Painel ilustrativo do uso de materiais líticos (à direita) expostos na vitrina (à esquerda), na Sala 1 da Exposição Permanente do Museu D. Diogo de Sousa. © 2012 Ivone Coelho 176 Fig. 18 Desenho contextualizador (à esquerda) de um fragmento cerâmico (em baixo, à direita): uma cabeça de cavalo que teria pertencido a uma lucerna, presente numa vitrina da Exposição Permanente do Museu D. Diogo de Sousa. © 2012 Ivone Coelho 176 Fig. 19 Desenho ilustrativo de uma técnica de fabrico em vidro, e vestígio arqueológico no qual terá sido usada essa técnica, presente na Exposição Temporária “Vita Vitri – O vidro antigo em Portugal”. © 2011 Ivone Coelho 178 Fig. 20 Exemplo da contextualização de vestígios de acordo com a sua funcionalidade. Peças em vidro achadas em urnas. Exposição Temporária “Vita Vitri – O vidro antigo em Portugal”. © 2011 Ivone Coelho 178 Fig. 21 Representação teatral da peça “As Bacantes”, tragédia grega da autoria de Eurípedes, pelo Grupo Acutema, de Málaga, no âmbito do Festival Mimarte, no espaço exterior do Museu. © 2008 MDDS 183 Fig. 22 Participantes e monitora da edição de 2012 do workshop de Indumentária Romana, já trajadas com as roupas que confecionaram nessa oficina, na visita final à Exposição Permanente. © 2012 Ivone Coelho 185 213