A Orientação Educacional hoje... Para onde caminhamos? Para além da mera orientação vocacional e das obrigações previstas nas leis, hoje, o Orientador Educacional está, cada vez mais, consciente de seu papel profissional, trabalhando de forma interdisciplinar1, com todos os elementos que fazem parte do processo educativo: alunos, professores, funcionários, pais ou responsáveis, demais técnicos e comunidade do entorno em que a escola está situada. O Orientador Educacional deve comprometer-se com: 1. a realidade concreta dos alunos, percebendo-os como sujeitos de sua própria história e não como meros indivíduos que devem ser ajustados à sociedade; 2. a formação de cidadãos críticos, que possuem desejos e anseios; 3. uma prática educativa que é, ao mesmo tempo, coletiva e individual e que tem, na diversidade de seus atores, um campo fértil de aprendizado sobre os valores pessoais e sociais; 4. a discussão coletiva e efetivação do projeto políticopedagógico da escola, articulando-o às ações cotidianas. Os ramos de atuação do Orientador Educacional podem ser distribuídos em orientação escolar, relação família-escolacomunidade, orientação psicopedagógica e em relação à saúde, relações humanas, orientação para o lazer, orientação vocacional e para o trabalho, e acompanhamento pós-escolar. O papel da Orientação Educacional pode, ainda, ultrapassar o âmbito da instituição escolar convencional, contribuindo com outros setores condizentes com a sua formação. Collares (2006) ressalta o papel de liderança e mediação exercido pela função e menciona a necessidade de atuação do Orientador Educacional em hospitais, empresas, ONGs, consultorias, escolas de informática ou línguas, academias, conselhos tutelares e penitenciárias, trabalhando na área de reabilitação profissional, relações interpessoais, recursos humanos entre outros serviços. Contudo, não devemos perder de vista o trabalho do Orientador Educacional no âmbito escolar e como partícipe da organização do currículo da escola. Podemos, dessa forma, elencar alguns dos fazeres do Orientador Educacional na escola: • contribuir para disseminar um clima harmonioso na escola e nas relações interpessoais de seus integrantes, difundindo valores como a solidariedade; • responsabilizar-se, juntamente com os demais profissionais da escola, pela elaboração e acompanhamento do desenvolvimento da proposta pedagógica da Escola; 1 Interdisciplinaridade diz respeito à integração de todos os saberes/disciplinas/atividades. Demanda do educador uma nova atitude diante da questão do conhecimento, pois a prática interdisciplinar necessita de humildade, coerência, espera, respeito e desapego. • articular com a Equipe Técnica e professores a elaboração dos planos de trabalho, acompanhando sua implantação; • investigar, orientar e acompanhar o processo de recuperação dos alunos com baixo rendimento escolar; • informar pais sobre o rendimento escolar; • acompanhar e encaminhar, quando necessário, os alunos com necessidades educativas especiais; • elaborar, com os demais integrantes da Equipe Técnica, suporte pedagógico e atividades de formação continuada. Estas são algumas das competências do Orientador Educacional. Observemos, abaixo, quais as dimensões do seu trabalho diante da organização da escola. 3 AS DIMENSÕES DO TRABALHO DO ORIENTADOR EDUCACIONAL E A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO DA ESCOLA 3.1 A organização da escola Sabemos que a escola não foi sempre do jeito que estamos acostumados a encontrar. Antes da Revolução Industrial, no século XIX, e da formação da sociedade capitalista, a escola era destinada a sacerdotes e membros da elite. Com o advento da indústria, a sociedade precisou de um outro tipo de homem, um cidadão, preparado para “vender” sua mão-de-obra, ou seja, a força de trabalho transforma-se em mercadoria. Esse homem deveria ter o tipo de formação adequado para as especificidades da vida e do trabalho; esse foi um processo lento; aos poucos, foi gerando a forma escolar que temos hoje. Segundo Milet (2002), interessou à sociedade capitalista promover a improdutividade da escola, para que se reproduzisse a força de trabalho, ou seja, o excedente de mão-de-obra barata, o chamado exército industrial de reserva. A autora acrescenta... A linguagem escolar expressa nos programas curriculares, no conteúdo dos livros didáticos, na fala do professor, nas normas disciplinares, nas regras de convivência reflete idéias, sentimentos e modelos de comportamento próprios da classe dominante...(p.43). Temos, hoje, um grupo de profissionais que atua na instituição escolar e está subordinado a uma estrutura de tipos e níveis de ensino, acompanhando o que determina a legislação vigente, fruto de negociações e interesses políticos. Contudo, a organização da escola está, ainda, subordinada às relações sociais internas (professor-aluno, professor-professor, aluno-aluno, professor-funcionário, funcionário-aluno) e externas (com a comunidade-meio de comunicação de massa), tornando-a um dos espaços da sociedade complexa, integrante de uma totalidade dinâmica. Como a sociedade está em conflito e em mudança constante, a escola não poderia deixar de sofrer tais influências. Podemos dizer, ainda, que a instituição escola possui uma forma peculiar que se reproduz de maneira regular em instituições semelhantes mesmo que nas situações mais precárias e adversas. Pérez Gómes (2001, p.15) afirma que a escola não é um simples agrupamento de pessoas. Trata-se de uma distribuição geográfica, social, política, temporal, de profissionais e sujeitos, de espaços e tempos, isto é, uma distribuição cultural típica desta instituição, que compõe uma rede de significados compartilhados determinados pelos mecanismos de interação e intercâmbio. Foto extraída do site: www.gettyimages.com.br A organização interna da escola constitui-se de referenciais emanados tanto da esfera administrativa como da esfera pedagógica, que se inter-relacionam e se complementam. Segundo Derouet, ...Um estabelecimento de ensino não é apenas uma unidade pedagógica, é também uma pequena empresa de restauração que pode servir mais de um milhar de refeições; é também uma pequena empresa de limpeza e de manutenção, se considerarmos que os efetivos em pessoal auxiliar e administrativo representam, mais ou menos, metade do número de professores (1996, p. 75). Nessa organização administrativa e pedagógica também se manifestam questões essenciais como a estruturação do tempo e do espaço, fazendo florescer uma cultura própria, produzida no seu interior, demarcada por relações de poder na e da escola. São questões constitutivas de uma cultura própria, que, apesar da semelhança em alguns casos a uma empresa no que tange aos aspectos administrativos, apresenta especificidades que nenhuma outra instituição possui. Segundo Pérez Gómez (2001, p.17), a escola não é um amálgama e sim um espaço ecológico de cruzamento de diferentes culturas. Ela, ao mesmo tempo em que propicia a mediação reflexiva dos valores e das relações sociais de uma determinada sociedade, também desenvolve e reproduz sua própria cultura, gerando um conjunto de significados e comportamentos próprios. A educação deve ser entendida como portadora de um processo complexo de enculturação, e a função da escola é... ...oferecer ao indivíduo possibilidade de detectar e entender o valor e o sentido dos influxos explícitos ou latentes, que está recebendo em seu desenvolvimento como conseqüência de sua participação na complexa vida cultural de sua comunidade (Pérez Gómez, 2001, p.18). Assim, ao se pensar na diferenciação da instituição escola em relação às outras instituições, faz-se necessário ainda descrever como a forma escolar constituiu-se social e historicamente, e, ainda, como essa forma influencia a sociedade como um todo e vice-versa. A forma escolar, como resultado histórico de um processo de socialização da infância e da juventude, padronizou os saberes para existirem dentro de uma determinada organização. A escola é o espaço de tempo que tenta sistematizar e socializar as informações contidas na sociedade. A essa formatação dos saberes dáse o nome de currículo, o qual dialeticamente acaba conformando a organização de toda a escola. Vincent (1994) deu um conteúdo bastante particular à idéia de forma escolar, demonstrando que a sociedade moderna se caracteriza por estruturar-se a partir de um tipo específico de socialização, a socialização escolar. Foto extraída do site: www.gettyimages.com.br Ressalta-se que os saberes estão espalhados por toda a sociedade, mas a escola tem uma forma tão poderosa que quase tudo relacionado ao ensino, aprendizagem, socialização, disciplina, avaliação etc, mesmo quando aparece noutros lugares na sociedade, funciona tendo por referência a forma que a escola dá à organização dos saberes e que predomina sobre outras formas. Segundo Pérez Gómez (2001), além do currículo, os rituais e costumes, as relações existentes, a organização comportamental dos estudantes, são elementos típicos de uma cultura escolar que tanto condiciona como pressiona os comportamentos de todos os envolvidos no processo, constituindo-se outro entendimento da forma escolar. Contudo, essa forma escolar pode e deve ser refletida e está em permanente reorganização. O Orientador Educacional é o profissional que pode contribuir decisivamente para repensar, constantemente, essa organização escolar, pelo fato de atuar com os diversos segmentos do contexto escolar e estar diretamente relacionado com questões que têm gerado polêmica neste contexto, como avaliação, evasão e repetência, disciplina, cidadania, valores humanos, problemas de aprendizagem entre outros. Pense e responda: É possível o Orientador Educacional interferir na organização da escola a ponto de modificar algumas práticas e formas que estão impregnadas no dia-a-dia dessa instituição e de seus profissionais?