Grupos de Acção Social nas Paróquias
A Caritas Portuguesa encontra-se numa fase de perplexidade perante os
imperativos dos próximos três anos. Os problemas sociais apresentam contornos
extremamente complexos e não se vislumbram soluções satisfatórias, tanto em
Portugal como na União Europeia.
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Os estados nacionais e a EU no seu todo, revelam-se incapazes de corresponder às
expressões dos cidadãos e das famílias. A sociedade portuguesa encontra-se
profundamente dividida: o Governo e o próprio Estado são contestados
sistematicamente, os órgãos de soberania também divergem entre si e os grupos
sociais de menores recursos vêem agravados e perpetuados o menosprezo e a
exclusão tradicionais.
Perante um quadro de tamanha incerteza, a caritas portuguesa defronta-se com
duas interrogações nevrálgicas: deverá vincular-se ao princípio da universalidade
abrangendo tendencialmente todas as pessoas e todos os problemas, ou deverá
limitar-se a determinados grupos sociais e a determinados projectos? Deverá
vincular-se ao princípio da radicalidade, actuando na raíz dos problemas,
assumindo as responsabilidades próprias e intervindo junto dos órgãos de
soberania e de outras entidades, ou deverá limitar-se a objectivos assistenciais?
As orientações internacionais e nacionais apontam claramente para os princípios da
universalidade e da radicalidade. Isso mesmo foi consagrado na Instrução Pastoral
da Conferência Episcopal Portuguesa relativa à “Acção Social da Igreja” (cf. nº 17,
12 e 13, conjugados com o nº 31)
É evidente que a Caritas não dispõe, nem é desejável que disponha, de meios
necessários para aplicar, “materialmente” os princípios da universalidade e da
radicalidade, como se ela fosse uma espécie de super-Estado, mais ou menos
teocrático.
Pelo contrário, a característica identificadora da sua acção social é a solicitude
orientada pela caridade cristã. Os princípios da universalidade e da radicalidade
podem assim ser efectivados mediante:
a) A acção social de proximidade com a prestação das ajudas possíveis;
b) O conhecimento solidário dos problemas sociais;
c) O estudo e a proposta de soluções apresentadas aos centros de decisão
política e a outras entidades;
d) A oração que é por natureza, universal e radical.
Em termos institucionais, a universalidade e a radicalidade implicam, além do mais,
a animação, a comunhão de bens, a formação e a expansão ( ou existência e
desenvolvimento) de grupos de acção social nas paróquias.
Grupos de acção social nas paróquias
Qualquer que seja a respectiva designação, os grupos de acção social emanam da
própria comunidade paroquial, e a Caritas portuguesa e as Diocesanas deverão
apoiar a sua criação, desenvolvimento e actualização. Nada obsta naturalmente,
bem pelo contrário, a que alguns grupos emanados das comunidades paroquiais, se
insiram também na caritas.
Mesmo que existam IPSS católicas numa paróquia, os grupos de acção social
continuam a ser indispensáveis, embora se possam intergrar nessas instituições. Na
verdade os grupos podem:
- estar presentes em todas as zonas das paróquias;
- e estar abertos a todos os problemas sociais, não se limitando a determinadas
“valências”.
Para que os grupos funcionem convenientemente, deverão visar determinados
objectivos e realizar determinadas actividades.
Os objectivos são fundamentalmente a assistência, a promoção e o
desenvolvimento. Ainda que os grupos se vejam forçados a actuar só na esfera
assistencial, nunca deveriam perder de vista os outros dois objectivos.
Quanto ás actividades, importa distinguir as que se realizam no exterior e no
interior do grupo.
As do exterior desenrolam-se junto das pessoas carenciadas e das entidades que
possam contribuir para a solução dos respectivos problemas. Tais actividades são
fundamentalmente:
+ Acolhimento de casos e problemas sociais:
. primeiro contacto;
. Cooperação no conhecimento dos problemas das pessoas acolhidas;
. Cooperação na procura das vias de solução necessárias.
+ Prestação das ajudas possíveis
. Visitas, informações, preenchimento de documentos, explicações,
encaminhamento, ajuda em deslocações…;
. Serviços que implicam trabalho manual ( higiene pessoal, limpeza
doméstica, reparação e construção da habitação ….);
. Eventualmente, dádiva de bens, incluindo a cooperação na concessão de
pequenos créditos e outras ajudas financeiras.
+ Mediação junto de entidades públicas e particulares:
. Mediação para a solução de casos e problemas particulares;
. Intervenção destinada à prevenção e solução, em profundidade, de
problemas sociais.
+ Acompanhamento de cada caso e problema social:
. Contacto com as pessoas envolvidas e com as entidades que podem
contribuir para a solução daqueles problemas;
. Recolha e tratamento de dados para melhor se aferir a situação e se
adoptarem novas linhas de acção.
As actividades a realizar no interior do grupo são fundamentalmente as
seguintes:
+Recolha e tratamento de dados resultantes das actividades externas:
- Recolha e tratamento estatístico dos dados;
- Reflexão sobre esses dados e elaboração de pequenos relatórios;
- Difusão sintética desses relatórios, visando a consciência e compromissos
sociais;
+ Formação dos membros do grupo
- Formação inicial e contínua, incluindo a formação na acção;
-Leitura, estudo e reflexão pessoais.
+ Espiritualidade
- Emanada da acção social;
- Inserida na espiritualidade e liturgia de toda a Igreja.
+ Reuniões destinadas:
- À reflexão-formação contínua;
- À análise dos problemas sociais pendentes e à procura das respectivas
soluções.
Formação
A formação acha-se estreitamente integrada na vida da Caritas, com realce para a
formação na acção. Não se exclui – bem pelo contrário – a hipótese de cooperação
com universidades e outras entidades.
Parece recomendável que prossiga a formação sistemática destinada a dirigentes, a
técnicos e a outros profissionais da Caritas e dos grupos de acção social. Parece
também recomendável a prática de algumas modalidades de formação:
= inicial e contínua
= pessoal e em grupo;
= à distância, presencial e itinerante;
= a reflexão a partir da acção e a formação mais específica.
Será particularmente fecunda a vivência do círculo virtuoso que vai desde a acção
diária, se prolonga na reflexão, no estudo e na formação pessoal, e se reflecte na
espiritualidade que, por sua vez, enriquece a acção.
(Extractos do documento “Linhas de Actuação Estratégica da Caritas Portuguesa
2007/2009”
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