REPRESENTAÇÕES SOCIAIS EXISTENTES ENTRE AS
PROSTITUTAS E OS DEMAIS GRUPOS PROSTITUÍDOS,
MORADORES CIRCUNDANTES E POLICIAIS DA ÁREA CENTRAL
DE PONTA GROSSA – PR
Thiago Alberto Coloda- ([email protected])
Bianca de Andrade – ([email protected])
Resumo: O presente trabalho tem como objetivo identificar as representações
sociais de um dos grupos mais presentes na prostituição de Ponta Grossa: as
mulheres. Essas mulheres que se prostituem tanto nas ruas da cidade quanto em
pontos fixos edificados, mantêm relações com outros grupos que também fazem
programas.
Palavras-chave: prostituição, mulheres, relações sócio-espaciais.
Introdução
A pesquisa procurará demonstrar se existe uma relação harmônica ou
conflituosa entre as prostitutas, os gays, as travestis, os michês, os moradores
próximos aos locais de prostituição e os policiais. Mas as mulheres não dependem
somente dos programas para sua sobrevivência. Precisam também de um espaço
para ficar, e isso está relacionado com os moradores e com o comercio estabelecido
nas áreas onde acontece a prostituição. Por isso se torna importante saber a relação
existente entre os moradores, comércio e as prostitutas.
Essas mulheres, em muitos casos, ficam em situação de perigo quando os
clientes se negam a pagar ou quando batem nelas. Por isso elas precisam da
proteção e do apoio da polícia. Mas nem sempre isso acontece de maneira correta,
pois ocorre o chamado abuso de poder. Cabe a pesquisa descobrir o que acontece
na cidade de Ponta Grossa.
Semana de Geografia, 18., 2011. Geografias não mapeadas? Ponta Grossa: DEGEO/DAGLAS, 2011. ISSN 2176-6967
Ao fim, espera-se que com os resultados alcançados na pesquisa seja
possível contribuir para uma melhoria nas questões que envolvem a sociedade
juntamente com esse grupo de mulheres que se prostituem por diversos motivos.
Representações Sociais entre Grupos Prostituídos de Ponta Grossa
Na área central da cidade de Ponta Grossa – PR podem ser encontrados
muitos grupos de pessoas que sobrevivem da prostituição. Garotas de programa,
michês, gays e travestis se dividem em grupos e ficam na espera por pessoas que
procurem por seus serviços. Mas afinal como acontece a representação social
desses grupos entre si? Não se deve esquecer que esses grupos não mantêm
apenas relações entre si, mas também com moradores, comerciantes e policiais.
Alguns dos grupos se prostituem em espaços físicos edificados, outros nas ruas e
ainda os que se prostituem em ambos locais.
Embasando-se na teoria das representações sociais de Serge Moscovici
(2009), onde se pautará em compreender este fenômeno por meio de uma
perspectiva coletiva dos grupos sociais acima citados. Mas, sem romper as
individualidades dentro de cada grupo, por meio do discurso dos integrantes destes.
Considera-se “representações” neste caso, as simbologias que cada grupo
envolvido possui em suas características singulares, e o termo “sociais”, enquadrase nas relações sociais entre os diferentes grupos, anteriormente elencados,
presentes na pesquisa. Sendo assim, as simbologias construídas mediante as
relações estabelecidas na área central de Ponta Grossa entre todos os grupos
envolvidos podem ser compreendidas mediante embasamento nesta teoria.
Entender como ocorre essas relações sociais, no dia-a-dia dessas pessoas, é
fundamental para poder identificar os principais fatores que reproduzem os
preconceitos de exclusão desses grupos anteriormente falados. Essas simbologias
construídas, relacionam-se a cultura das pessoas que compõe esses grupos, bem
como sua história de vida, que seguramente reflete em muitas de suas escolhas e
atitudes atualmente, seja por vontade própria, seja por necessidade de
sobrevivência.
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O grupo central do trabalho são as prostitutas. Essa relação entre as
prostitutas de rua e os demais grupos prostituídos acontece de distintos modos
concomitantemente. Pois existem prostitutas que mantêm amizade com travestis,
gays, michês, mas, existem também, prostitutas que possuem certas rivalidades
com esses atores. Outra questão relevante relaciona-se ao fato de haverem
situações conflituosas entre as próprias prostitutas, o que ocasiona mais uma
questão que pode alterar a espacialidade desses grupos.
Todas essas situações acontecendo mutuamente, envolvendo grupos
prostituídos diversos, circundados por uma sociedade eticamente construída por um
modo de vivência já consolidado, constituem esse fenômeno. Essa perspectiva
“correta” de como se deve portar socialmente é muito bem elucidada por Ornat
(2008). O objetivo deste resumo visa apontar alternativas, mediante um estudo do
evento, que possibilitem a diminuição destes conflitos entre os grupos prostituídos, e
também que corroborem para a superação de pré-conceitos relevantes ao tema.
O espaço onde acontecem esses conflitos é variado, complexo e mutável,
constituindo-se assim naquilo que Gillian Rose (1993 apud ORNAT, 2008, p. 46)
conceitua como “Espaço Paradoxal”.
Segundo Nabozny (2006, p.4) este espaço enquanto um campo de lutas
constitui-se como sendo:
(...) complexo, envolve variadas articulações e dimensões e se constitui
uma interessante construção metodológica na geografia. A mulher não pode
ser vista apenas como constituinte de um gênero, mas também da
sexualidade, da raça, da religião e da classe social.
Nessa perspectiva, as mulheres que se prostituem, não podem mais ser
vistas como apenas um elemento errado e sem importância social. Sofrendo
diversas discriminações, sejam por meio de ofensas diretas ou indiretas, onde o
constrangimento espacial se verifica pelas confissões dadas em entrevistas.
(...) Se eu achasse um serviço decente, eu ia encarar um serviço decente
sabe? (...) Muita gente descrimina nóis, o pessoal da igreja, que tem gente
dali que frequenta nóis. Rejeitam nóis assim como um cachorro (...)
Chamam policia pra tirar nóis dali, eles fala que nóis tamo fazendo coisa
que a gente não faz (RUIVA, 2011).
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A Prefeitura Municipal de Ponta Grossa contribui para a manutenção da ONG
Renascer no sentido financeiro, uma vez que destina parte de sua verba para a
prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e também para a manutenção do
salão de beleza que funciona na sede do Grupo Renascer. Isso pode ser visto como
um avanço significativo para as pessoas envolvidas nessa causa. E também como
uma importante alavancada em relação aos níveis governamentais, mostrando
assim, uma postura de superação de pré-conceitos.
Outra concepção que pode ser usada para compreender o presente evento é
a perspectiva adotada por Souza (2000), onde ele aponta que um mesmo território
mostra diferentes formas durante o linear do tempo. Isto é, o local onde acontece a
prostituição possui outras funções além dessa, como o de comércio varejista, a
existência de prédios de saúde, locais de lazer etc. E, no período noturno ser uma
área que passa a ter a função da prostituição como principal vetor. Alem disso, o
mesmo lugar ocupado por um grupo de mulheres para a prostituição durante o dia, a
noite é ocupado por um grupo diferente das pessoas que ficam ali no período diurno.
Outro fator importante é que os grupos prostituídos possuem seus espaços já
determinados, mas muitas vezes também se misturam. E é aqui que se torna
importante uma pesquisa quanto às relações existentes entre esses grupos, para
que possa haver uma melhor compreensão do cotidiano dessas pessoas.
Mais um dos aspectos importantes a ser analisado é se os moradores
concordam ou não com as atividades praticadas pelas mulheres que se prostituem.
Uma vez que as mesmas precisam de um lugar para se estabelecerem e trabalhar.
As pessoas que moram ao redor das áreas de prostituição são importantes, pois
caso as prostitutas vierem a sofrer algum tipo de violência, terão a quem recorrer, já
que nem sempre o lugar é protegido por policiais. Aqui é identificado mais uma peça
chave na pesquisa: os policiais.
A polícia nem sempre protege esses grupos que estão à margem da
sociedade, mesmo que esses possuam razão. E como o estudo se propõe a
pesquisar o caso de Ponta Grossa, se torna indispensável à informação de como a
polícia age em relação às prostitutas. Um exemplo dessa relação pode ser verificado
no trabalho de Rodrigues (2003), onde a autora aponta um abuso de poder por parte
dos policiais, afirmando que eles:
Semana de Geografia, 18., 2011. Geografias não mapeadas? Ponta Grossa: DEGEO/DAGLAS, 2011. ISSN 2176-6967
Havia ocasiões ainda em que eram eles, os próprios agentes da lei, que se
colocavam como os exploradores. Utilizando-se de seu poder e autoridade,
negociavam proteção ou simplesmente a não fiscalização do “negócio” em
troca do recebimento de favores sexuais das prostitutas sem,
entretanto, submeter-se à relação contratual estabelecida normalmente
com os clientes (p.33).
Com isso, a importância de investigar e compreender como acontece a
relação entre os policiais e as prostitutas em Ponta Grossa – PR ganha maior
relevância.
Considerações Finais
Como resultados preliminares encontrados até o presente estágio do trabalho
foi possível identificar algumas das relações estabelecidas entre as mulheres que se
prostituem, com outros grupos que também se prostituem na cidade.
Outro ponto esclarecido se remete as questões sociais de vida dessas
mulheres. Pois os preconceitos muitas vezes aparecem dentro do próprio lar dessas
moças, que acabam precisando esconder seu ofício dos pais, dos filhos, dos amigos
para poderem se inserir na companhia dessas pessoas. Não sendo assim excluídas
dos círculos sociais familiares. Isto é, para que elas possam ter uma vida dentro dos
moldes éticos sociais atuais, onde prostituição é vista com olhar de exclusão, elas
acabam precisando omitir que são prostitutas para poderem ter família e amigos.
Suas relações com os moradores e comerciantes das áreas circundantes aos
locais de prostituição ocorrem de duas maneiras possíveis de caracterização até o
momento. A primeira é violenta, onde as meninas são fortemente ofendidas e
expulsas das proximidades dos estabelecimentos comerciais principalmente. A
segunda maneira é pacífica, ou seja, os comerciantes são cordiais, não exigem que
elas não se aproximem da sua área comercial, apenas pedem muitas vezes para
que não fiquem em frente à porta ou que façam programas especificamente na
frente do posto comercial. Com relação às casas, até o momento não foi possível
identificar quaisquer problemas nesse sentido. Já na relação com os policiais, até
agora foi possível verificar que os policiais mantêm uma relação harmoniosa com as
prostitutas, não abusando de seu poder junto a elas.
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REFERENCIAS
MOSCOVICI, S. Representações Sociais: Investigações em Psicologia Social.
Trad. Pedrinho A. Guareschi. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2009. 404 p.
NABOZNY, A. Uma discussão sobre gênero e acesso ao espaço urbano: o paradoxo
da participação política cívica e da participação no Estado. Revista de História
Regional. Ponta Grossa: Dep. História, UEPG. Vol.11(1), verão de 2006. p. 07-28.
ORNAT, M. J. Território da prostituição e instituição do ser travesti em Ponta
Grossa – Paraná. 2008, 160 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade
Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2008.
Prefeitura
Municipal
de
Ponta
Grossa.
Disponível
www.pontagrossa.br.gov.br>. Acesso em: 18 ago. 2011.
em:
<http:
PROSTITUTA. Entrevista com prostituta de rua. Entrevistadores: Bianca de
Andrade e Thiago Alberto Coloda. Ponta Grossa: 2011. Gravador de som.
RODRIGUES, M. T. Polícia e Prostituição Feminina em Brasília – Um Estudo de
Caso. 2003, 369 f. Tese (Doutorado em Sociologia) – Universidade de Brasília,
Brasília, 2003.
SOUZA, M. L. O território: sobre espaço e poder, autonomia e desenvolvimento. In:
CASTRO, I. E.; GOMES, P C C.; CORRÊA, R. L. (Orgs.). Geografias: Conceitos e
Temas. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. p. 77-115.
Semana de Geografia, 18., 2011. Geografias não mapeadas? Ponta Grossa: DEGEO/DAGLAS, 2011. ISSN 2176-6967
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