DOI: 10.4025/4cih.pphuem.541 OS GRUPOS SOCIAIS EXCLUÍDOS E SUAS PARTICULARIDADES NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO: UM ESTUDO DE CASO NA CIDADE DE MARINGÁ (PR) Jaqueline Telma Vercezii Ricardo Luiz Töwsii César Miranda Mendesiii Introdução A construção desse objeto particular de estudo não tem como pretensão esgotar as inúmeras possibilidades que a temática apresenta e sim construir uma abordagem teórica mediante a atual realidade investigada. É uma tentativa de atrelar ao conceito estudado, adotado aqui como categoria de análise geográfica, uma realidade palpável no contexto intraurbano de Maringá. Adota-se esta postura, pois baseou-se na seguinte discussão de Souza (1988): Na perspectiva de avançar a crítica, gerar polêmicas e fazer caminhar o processo de conhecimento sobre a produção e a apropriação do espaço, em especial nos países do Terceiro Mundo, propomos que o estudo do urbano considere, pelo menos, quatro categorias analíticas: O capital [...], o Estado [...], a renda da terra [...] e, finalmente, a luta de classes, manifestada na cidade sob múltiplas formas: violência, invasões, resistências, apropriações “indébitas” do espaço (do público pelo privado, e vice-versa (SOUZA, 1988, p. 66). Faz-se alusão sobre a última categoria apontada pela autora, singularizando os termos “luta de classes” e “campo de lutas”, pois considera-se que, a partir do momento em que há a luta de classes no contexto intra-urbano, esse contexto se transforma em um campo de lutas (CORRÊA, 1999). Relacionou-se a luta de classes aos grupos sociais excluídos. Assim, esse artigo faz uma reflexão sobre um dos muitos aspectos do processo de urbanização, destacando os problemas estruturais que inúmeras cidades apresentam, como exclusão social, ocupação espontânea desestruturada, segregação social, que acabam por transformar o espaço urbano em um campo de lutas. Objetivou-se também enfocar brevemente a desterritorialização e a produção de aglomerados de exclusão sob um estudo de caso na cidade de Maringá. Vista como processo, elencou-se as estratégias que, historicamente, proporcionaram e induziram à segregação e à conseqüente formação de aglomerados de exclusão na Região Metropolitana de Maringá. 1630 Espaço e movimentos sociais urbanos Os movimentos sociais urbanos resultam das desigualdades existentes na organização espacial urbana, caracterizado por ser um distinto modo de manifestação das classes sociais. A desigualdade na organização do espaço urbano pode ser notada por meio das relações entre áreas residenciais. De um lado tem-se um bairro habitado por uma população de alta renda, constituída por proprietários dos meios de produção e assalariados bem remunerados, que com suas luxuosas residências, usufruem de uma ótima infra-estrutura e de serviços adequados: luz, água, esgoto, etc. A localização desses bairros se dá em áreas de alto padrão social, com elevado preço da terra. Contrapondo a esses luxuosos bairros, existem outros ocupados por pessoas de baixa renda, alguns até sem renda, formados por operários não qualificados, que geralmente estão alocados no subemprego ou até mesmo desempregados, vivendo em favelas ou áreas paupérrimas, localizadas em diferentes lugares no espaço urbano, habitando também conjuntos habitacionais construídos pelo Estado, e, em muitos casos, morando em casas precárias autoconstruídas, caracterizando assim, um sobre trabalho. Estas áreas estão localizadas principalmente na periferia, sendo essas normalmente dispersas e distantes do centro da cidade e possuindo terrenos com preços relativamente baixos. Considerando a conscientização da população quanto às diferenças sócio-espaciais de ocupação do solo urbano, como já dito, o espaço se torna palco de manifestações e reivindicações por parte desse grupo populacional que se expõe. Os movimentos sociais urbanos assumem exigências que são manifestadas no interior dos bairros e em locais de reprodução das classes sociais. Os motivos de reivindicações estão pautados no direito à habitação e aos equipamentos coletivos como: água, esgoto, entre outros, que Lefebvre (2001) o denomina de “direito à cidade”, podendo ser manifestadas por intermédio das associações de moradores. Outro fator marcante no interior das lutas sociais refere-se ao fato dessas terem como alvo o Estado e não os proprietários dos meios de produção. Segundo Lojkine (1997) os movimentos sociais podem assumir um papel significativo nas transformações da sociedade e de sua organização espacial, quando duas questões associadas ao espaço geográfico forem esclarecidas: Primeiramente quando for desmoronada a barreira ideológica que isola o mundo da produção do mundo da reprodução, ou seja, quando ficar claro que as questões que emergem 1631 nos locais de trabalho e nos locais de residência são na realidade uma única questão desdobrada pelo capitalismo e pela sua organização (LOJKINE, 1997). Em segundo lugar, quando os movimentos sociais ultrapassam a escala local, do bairro e da cidade, e se inserirem em uma escala nacional, que abranja questões da fábrica e do bairro, ou seja, quando ficar fora à idéia de unidade da totalidade sócio-espacial. Se isso não for concretizado, os movimentos sociais urbanos, que são uma expressão da especialização da organização social, estarão destinados a se esvaziarem, na medida em que as reivindicações forem atendidas em um todo ou em parte, já que não é com remendos que se resolve a questão da desigualdade social, principal responsável pelas lutas no espaço urbano (LOJKINE, 1997). Os movimentos sociais, isto é, movimentos que tornaram o espaço urbano verdadeiro campo de lutas, tiveram fundamental importância dentro da crise do abastecimento e dos movimentos populares que surgiram no pós-guerra, devido à aguda carência de habitação com que se defrontou a população urbana de todas as cidades brasileiras. Esta crise ganha interesse no processo de produção e de comercialização de moradias no Brasil. As mobilizações populares tornam-se importantes diante das questões habitacionais, surgindo a luta contra os despejos e emergindo movimentos sociais urbanos nos bairros periféricos. A Desterritorialização e a Produção de Aglomerados de Exclusão - Um Estudo de Caso na Cidade de Maringá As redefinições territoriais do trabalho em diversas partes do nosso país são resultantes do capitalismo, pois o mesmo monopoliza as forças organizadoras do espaço sócio-político e econômico em que vivemos bem como apresenta elementos que ora atraem, ora repulsam processos redefinidores do espaço conforme o estágio e o interesse do capital. Assim, a estrutura espacial revela especificidades conforme a compatibilidade funcional entre os agentes atuantes, pré-definindo as regiões. Desde que a Região Metropolitana de Maringá foi criada, novas informações e condições sobre a questão já emergiram. Nos últimos anos, a mesma tem apresentado reordenações sem precedentes, refletindo ainda mais o papel de influência e da centralidade que Maringá exerce sobre os municípios arrolados no contexto. Maringá como município polarizador, reflete a ação do planejamento urbano da CMNPiv no momento de sua fundação, perpetuando uma posição privilegiada tanto de disponibilidade de capital gerado pela economia local que acaba por investir em empreendimentos, quanto pelos reflexos de cidade planejada e moderna. Perpetuando uma 1632 imagem que contempla status de cidade próspera, a mesma reforça, pelos investimentos do capital público e privado uma condição de cidade excludente e segregadora, já que a mesma “não” apresenta nem mesmo favelas nem áreas com distorções funcionais. A ordenação socioeconômica que reflete as ações evidenciam, pelas conquistas políticas até mesmo da institucionalização da região metropolitana em 1998, a existência de uma elite econômica com força e influência política que acaba por estimular um processo de crescimento e de investimento direcionados à estruturação de tecnopólos. Julgamos que a ação do poder público municipal, aliada à do mercado imobiliário, desde o início, revestiu-se de um caráter definidor da cidade como um espaço segregado socialmente (...) uma hierarquia socioeconômica na ocupação do espaço urbano pela população que se reproduziu a partir do modelo núcleo-periferia. (...) de um arranjo espacial que operacionalizou a segregação da pobreza para outros municípios e possibilitou ao município-sede preservar as características urbanísticas - privilegiadas - previstas no projeto inicial, que asseguraram à cidade uma configuração ajardinada e bela (RODRIGUES, 2004, p.98) A realidade da cidade pólo da Região Metropolitana de Maringá (R.M.M) está vinculada a um processo de urbanização que reflete a tendência mundial, embora com particularidades decorrentes do próprio processo de colonização e de ocupação da Região Norte do Estado do Paraná. Os processos de (re) organização e intensificação do espaço urbano maringaense estão intrinsecamente relacionados à situação econômica do meio em questão, refletindo a estrutura do capital/Estado atuantes em maior ou menor grau na sociedade que é caracterizada pelas relações societais de diferentes grupos de indivíduos, onde o homem sofre transformações e transforma o seu espaço circunstancial em busca de uma aquisição material e conseqüentemente de qualidade ou estilo de vida. Neste sentido, as reflexões de Bourdieu (2001) acerca de “estilo de vida” e gosto de grupos em particular que procuram ocupar espaços específicos para moradia justificam as preferências quanto à forma de habitar os “condomínios exclusivos”. Diante dessa política, fica evidente a discrepância da ocupação do espaço urbano conforme a condição de renda da população. Condição essa homologada pelo poder público ao gerar o planejamento para a edificação do espaço urbano. A segmentação sócio-espacial presente em Maringá e região desde a sua estruturação, aprofundou-se com o passar do tempo, reproduzindo a idealização de uma ocupação “elitizada” nas áreas centrais e a periferia para as residências populares, mais uma vez reforçamos que essa 1633 realidade repete-se com relação à cidade pólo e as cidades do seu entorno - aglomerado (Sarandi e Paiçandú). Neste sentido, A produção do espaço urbano constituído pela atual RM de Maringá (PR) obedeceu, desde a sua gênese, a uma orientação que reproduziu, no território, processos de desigualdade social pela ação do mercado imobiliário e do poder público. Ao segmentar as áreas a serem comercializadas, segundo as especificidades socioeconômicas dos adquirentes, esse mercado fomentou, ao longo de mais de meio século, uma ocupação residencial também segmentada. Em toda essa região, acabou sendo definida uma espacialidade que separou os moradores conforme as suas possibilidades econômicas de acesso ao solo urbano e, ao fim, segregou-os num limite tão extremo que os grupos de renda baixa da população só encontraram possibilidades de moradia fora das áreas urbanas centrais (OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES, 2006, p.05) A referência de Maringá como uma cidade de porte médio e que encontra-se “como uma ocupação do espaço caracterizada pelo núcleo-periferia predominantemente polarizada” (RODRIGUES, 2004) ainda se faz pertinente, embora no presente momento está se visualizando uma reordenação da ocupação do espaço pela “expulsão” da população de baixa renda para áreas mais periféricas, reafirmando e acentuando ainda mais o caráter segregador que a cidade apresenta. É o caso do Núcleo Habitacional Santa Felicidade fundado na década de 1970 para atender uma política de desfavelamento implementada pelo poder público municipal. O loteamento em questão compreende uma área de 101.250,00 m2. Esse conjunto possui 293 domicílios particulares permanentes, contando com uma população de 1.312 pessoas (IBGE, 2000). Ao considerar o número de pessoas que se encontram abaixo da linha de pobreza, temse ao todo 689 pessoas que representam mais de 50% da população total do Núcleo Habitacional, confirmando assim um alto índice de pobreza concentrado neste espaço. Atualmente (2009) esse núcleo habitacional surge novamente como alvo da política pública/privada que ao intencionar a valorização da região, está implantando uma política de revitalização da área em questão e destinando uma ação de re-alocação da população para outros bairros periféricos na cidade de Maringá. Essa proposta de revitalização e requalificação urbana do Conjunto Habitacional Santa Felicidade foi encaminhada por intermédio do projeto apresentado pela Prefeitura de Maringá ao Governo Federal e tem previsão orçamentária de R$ 25 milhões em investimentos por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Esta idealização de reordenação apresenta, segundo estudiosos da Universidade Estadual de Maringá, distorções, pois a Zona Especial de Interesse Social (Zeis) do Conjunto 1634 Habitacional Santa Felicidade não fica no bairro e que existe a previsão de construção de casas em terrenos públicos que ficam em outros bairros e que estavam reservados para equipamentos públicos como escolas ou postos de saúde, por exemplo. “Não há uma lei municipal transformando a área do Santa Felicidade em uma Zeis. O que se sabe é que no final do ano passado, foi aprovada uma lei para criação de Zeis em áreas periféricas do limite urbano de Maringá, com o objetivo de desafetar estes terrenos para a construção de casas do PAC”, afirmou a coordenadora do Observatório das Metrópoles em Maringá, Ana Lúcia Rodrigues. A coordenadora ainda questiona que: a área transformada em Zeis não pode ser utilizada para a especulação imobiliária e o Conjunto Santa Felicidade, que não foi transformado em Zeis, vai receber grande parte dos investimentos e, com isto, a área vai ser valorizada. Coincidentemente, toda essa iniciativa tomou fôlego com a visível ação da promoção imobiliária por meio da implantação de Condomínios Horizontais na região próxima ao objeto em questão, situação essa que contextualiza e exemplifica as palavras de Leitão: (...) os grandes incorporadores atuariam em determinadas áreas com um amplo apoio governamental, que se dá de diversas formas: da implantação de infraestrutura básica à elaboração de planos urbanísticos que modificam significativamente os critérios de parcelamento e de edificação na área em questão, assegurando assim, ganhos excepcionais para este agente (LEITÃO, 1999, p.44) Citamos como exemplo mais significativo até mesmo pela sua proximidade o Condomínio Horizontal Villagio de Bourbon. Essa obra abrange uma área de 157.087,00 m2, o maior condomínio horizontal da cidade de Maringá e também o mais luxuoso em padrão de construção. Cada lote contempla 500m2 e o espaço de uso comum promete algo inédito na cidade. Mas, afinal, como relacionar o caso Santa Felicidade com todo o arcabouço teórico acima apresentado? Como essa alternativa gerou conflitos? Que conflitos? Como responder aos objetivos do trabalho, que é discorrer sobre o espaço urbano como campo de lutas, frente a esse estudo de caso? Esses são os problemas dessa pesquisa. Não todos serão respondidos a contento, mas pesquisas anteriores e do cotidiano da população residente no Conjunto Habitacional Santa Felicidade nos traz algumas respostas: Na década de 80, moradores de 14 pequenas favelas existentes no Município de Maringá foram transferidos para o Conjunto Habitacional Santa Felicidade, chamado primeiramente de Profilurb, um núcleo popular construído com recursos públicos, onde hoje se concentra grande número de pessoas cujas rendas eram e se mantêm muito baixas. Situado 1635 na zona sul da cidade de Maringá, foram construídas 30 casas de alvenaria, sem divisões, as quais deveriam ser executadas pelos moradores (SOARES, et al, 2008). As autoras colocam ainda que, visto por fora, o bairro apresentava um aspecto urbanístico agradável e seguro. A euforia da população era latente. Reinava a expectativa de que casas novas e próprias eram suficientes para o estabelecimento de um novo paradigma social. Não demorou muito para que todos os problemas comuns em áreas de favelamento viessem à tona com dimensões preocupantes (SOARES, et al, 2008). A primeira luta que se estabeleceu foi a luta de classes. Com o intuito de preservar a imagem da cidade, a iniciativa privada direcionou um novo conjunto habitacional para os recém desintegrados dos focos de favelamento na cidade. O que se viu foi o estabelecimento da segregação sócio-espacial. Fragmentando o tecido urbano, alojou os “menos favorecidos pela sorte” em um local único, um reduto dos ex-favelados. A maioria das casas, sem escritura pública de propriedade, em vez de divisões e benfeitorias, comporta hoje o que chamam de “puchados”, construídos precariamente para acomodar novos membros dos núcleos familiares (em uma mesma residência existem duas ou mais famílias compostas por diferentes gerações), ou seja, as dificuldades financeiras associadas à ausência e/ou ineficiência das políticas públicas levam os filhos a continuar morando de forma improvisada no mesmo imóvel, após o casamento ou união informal. Há também, a incidência de vários invasores num mesmo terreno. Para situar apenas parte da dimensão do problema, existem “puchados” assentados sobre a rede de esgoto público. São comuns as situações de transbordo no interior das “casas” (SOARES, et al, 2008, p. 2). As autoras complementam ainda que, mesmo não tendo características de favelas, a população do bairro carrega esse estigma. Ocorre a luta pela sobrevivência frente a uma sociedade elitista porque passa Maringá, de modo geral. Há uma maquiagem dos conceitos que pairam sobre a cidade, denotando-a como de qualidade de vida invejável, frente às realidades sociais existentes no cenário nacional. Araújo (2005) chama a atenção em relação à igualdade do bairro comparado aos outros, ou seja, mesmo tendo aspectos negativos, como população oriunda de focos de subhabitação, baixa escolaridade e estreita relação com a marginalidade, a população local observa os pontos positivos do bairro, como infra-estrutura e equipamentos urbanos, por exemplo, deixando de lado essas vicissitudes. No entanto, Embora o Santa Felicidade seja um bairro bastante peculiar na história do município, essa peculiaridade tem uma face negativa e também pode ser ameaçadora porque associa o bairro à marginalidade, à pobreza, à inferioridade dos seus moradores em relação ao restante da cidade. Diante disso, o Santa Felicidade seria o pior bairro, o mais violento, onde residiriam ladrões, viciados, mães solteiras e prostitutas. Para se defender dessa imagem negativa e generalizadora, seus moradores construíram a 1636 representação social do bairro como igual a qualquer outro, com problemas, mas possuindo também qualidades (ARAÚJO, 2005, p. 205). Por necessitarem de manter a integridade do bairro, ou quem sabe, reconstruir no imaginário da cidade as similaridades, os seus moradores sentem-se como “vítimas das conseqüências desse imaginário, como a discriminação, quando afirmam ser moradores do bairro, quando procuram emprego ou, por exemplo, quando são abordados pela polícia” (ARAÚJO, 2005, p. 206). Forma um campo de lutas quando a própria autora descreve que há uma representação social que defende os interesses do bairro, mais como uma questão de inserção na sociedade maringaense do que qualquer outra coisa. Há, portanto, lutas que envolvem o poder público versus população e instituições (IES, por exemplo), que tomam posições quanto ao plano. Em entrevista ao poder público, tem-se a seguinte versão: No caso do Santa Felicidade, na verdade isso é uma ZEIS, isso possibilita você poder trabalhar determinadas áreas da cidade com uma legislação específica pra ela, você altera e abranda a legislação pra poder resolver determinados problemas; o nosso plano diretor foi muito draconiano sobre o ponto de vista do tamanho de lote, então ele cria um problema em relação ao custo da terra e produção de lotes urbanizáveis, e só através das ZEIS você consegue resolver. Questões de regularização fundiária também, que não é um problema muito intenso em Maringá mas em outras cidade é, com as ZEIS, isso fica mais facilitado. E tem outros instrumentos... (J.G.B., 2008) Em conversa rápida com moradores, adquiriu-se a seguinte fala: Nós não queremos sair daqui. Na minha casa moram ao todo vinte pessoas, nós fomos puxando (sic) pra poder encaixar nossos filhos. A prefeitura quer dar uma casa de trinta e cinco metros, é nova, mas não cabe todo mundo. Além disso eu gosto daqui, não quero ir embora, mas já assinei o papel que me mostraram (J.S., 2008) Já a Universidade Estadual de Maringá, na pessoa de A.L.R., conforme já colocado, rebate a idéia do poder público, da seguinte forma: a área transformada em Zeis não pode ser utilizada para a especulação imobiliária e o Conjunto Santa Felicidade, que não foi transformado em Zeis, vai receber grande parte dos investimentos e, com isto, a área vai ser valorizada. Dessa forma “trava-se” posicionamentos, discussões e, consequentemente, lutas no interior da cidade sobre essa situação historicamente emersa no processo de urbanização 1637 maringaense, fruto das ações dos diversos agentes, inclusive os grupos sociais excluídos, agente de principal enfoque nesse trabalho. Considerações Finais O capitalismo em conjunto com a demasiada concentração da população, maiormente nas médias e grandes cidades, ocasionou e ocasiona lutas na realidade em que as encerra. Por outro lado, visando o Brasil, existiu e continua existindo uma gama diversa de movimentos sociais em todos os campos da sociedade, no poder público e no privado. Isso ocorre do resultado da organização espacial das cidades e dos grandes núcleos urbanos, nas quais a sociedade se torna vítima de suas próprias injustiças, afetando uma ou outra camada específica de modo mais contundente. Problemas significativos vêm sendo impulsionados pela ausência de políticas publicas que asseguram no mínimo o sentimento de cidadania e justiça social para a população pobre. Percebemos que na medida em que o desemprego aumenta nas médias e nas grandes cidades, junto com elas também surgem as ocupações espontâneas, a periferização, a desigualdade social e a fragmentação do espaço em áreas dotadas de infra-estrutura e também, em áreas marcadas pela precariedade dos serviços urbanos. De fato, a desordem toma conta dos espaços esquecidos pelo poder publico e pelo mercado imobiliário e nesse aspecto ela se apresenta como uma alternativa para essa população excluída e pouco inserida no mercado legal. Inúmeras reflexões caminham no sentido de reafirmar que as cidades são compostas por extratos sociais que constituem a sociedade e que as possibilidades das diferenças desses extratos é que as proporcionam identidades particulares. Os promotores imobiliários, ao proporcionar a diferenciação sócio-espacial como reflexo do poder aquisitivo, acabam por gerar um produto que denomina-se de segregação, gerando políticas direcionadas e reforçadoras com objetivos bem delineados pelo desejo do Capital, que no caso da cidade de Maringá é retratado pela relação dual Público/privado. O Conjunto em questão foi produzido pelo Estado e atualmente perpassa pela estratégia de remanejamento parcial da população. Tentou-se, nesse trabalho, inseri-los à categoria dos grupos sociais excluídos, que também são produtores do espaço urbano. Suas principais estratégias no espaço urbano são a produção da favela, invasão de terrenos públicos e baldios, estratégias essas, que esses grupos se tornam efetivamente agentes modeladores do 1638 espaço (CORRÊA, 1999). Tem como ações, também, a resistência e as diversas formas de lutas no espaço, referendados no decorrer do trabalho. Notas i Doutoranda em Geografia - PGE-UEM – Maringá-PR, Bolsista Capes (Doutorado); Participante do Grupo de Estudos Urbanos (GEUR); Membro do Observatório das Metrópoles – Núcleo de Maringá. [email protected] ii Mestrando em Geografia – PGE-UEM-Maringá-PR. Bolsista do CNPq/UEM; Membro do Grupo de Estudos Urbanos (GEUR-DGE-UEM) – [email protected] iii Cesar Miranda Mendes: Docente do Departamento de Geografia e Arquitetura e Urbanismo – UEM. Coordenador do Grupo de Estudos Urbanos (GEUR); Doutor – USP; Pós-Doutorado – IPPUR/UFRJ; Membro do Observatório das Metrópoles – Núcleo de Maringá. [email protected] iv CMNP: Companhia Melhoramentos Norte do Paraná Referências ARAÚJO, Marivânia. (2005) O Bairro Santa Felicidade por ele mesmo. Espaço Urbano e Formas de Representações Sociais em Maringá, Paraná. (Tese – Doutoramento em Ciências Sociais). Unesp: Araraquara, 295p. BELOTO, Gislene. Legislação Urbanística. Instrumento de regulação e exclusão territorial. 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