7 IMPLANTAÇÃO DE UM HOSPITAL GERAL E O CAMINHAR DA COORDENAÇÃO DO SERVIÇO DE ENFERMAGEM: STRESS, COPING E BURNOUT Maria Lúcia Silva Servo* RESUMO — Descrevo a experiência da implantação de um hospital geral, público estadual pertencente a um município do Estado da Bahia e os sentimentos experimentados no processo de ativação desse órgão da saúde frente à epidemia de gastrenterite. Relato as vivências da coordenação do serviço de enfermagem, em que o trabalho é desenvolvido num ambiente organizacional, cuja estrutura é típica das escolas científicas e clássicas da administração. Procuro compreender e apreender o stress desencadeado no sistema social no período em foco e identificar as áreas de estressores os mecanismos de coping utilizados e o burnout desencadeado no trabalho nesta caminhada. Apóio-me em Selye, Bianchi, Chaves, Lazarus, Launier entre outros autores. Sinalizo que as enfermeiras são acometidas pela síndrome do stress em menor ou maior grau, em seu cotidiano, pois vivenciam situações de pressão nos espaços micropolíticos onde desenvolvem suas atividades, que são permeados por conflitos, cujo modelo de organização fundamenta-se no taylorismo, fordismo e fayolismo. Aponto como situações agravantes de stress: o macrossistema em que se processa o trabalho, cujo modelo gera ansiedade e maniqueísmo, aliado ao modelo nightingleano, gênese da divisão social e técnica do trabalho desse profissional e que traduz o ideal normativo num campo socialmente estruturado. PALAVRAS-CHAVE: Enfermagem; Stress; Coping e burnout em enfermagem; Stress e trabalho em enfermagem. 1 MINHA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL A reflexão acerca da realidade que permeia a prática de enfermagem no país e das minhas experiências leva-me a *Prof. Adjunto (DSAU/UEFS). Doutora em Enfermagem. E-mail: [email protected] Universidade Estadual de Feira de Santana – Dep. de Saúde. Tel./Fax (75) 3224-8089 - BR 116 – KM 03, Campus - Feira de Santana/BA – CEP 44031-460. E-mail: [email protected] Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 8 constatar que os enfermeiros são acometidos pela síndrome do stress em menor ou maior grau, em tempos e ocasiões diferentes, independente da área de atuação. Essa reflexão é centrada na minha vivência em enfermagem na área assistencial, como enfermeira de pediatria (19821983); na área administrativa, como coordenadora do serviço de enfermagem de um Hospital Geral Estadual (1983-1988); na docência, como professora da disciplina Administração Aplicada à Enfermagem, em curso de graduação (1988 até a presente data) e Administração em Serviços de Saúde em cursos de pósgraduação (1995); e em área organizativa, como presidente da Associação Brasileira de Enfermagem Regional de Feira de Santana (1989-1992). Na minha trajetória profissional, sempre me dediquei à prática administrativa aliada ao ensino da administração. Independente da área de atuação, sempre vivenciei situações de pressão que certamente provocaram, de minha parte, uma resposta fisiológica e psicológica. Paralelamente ao meu agir profissional, sempre busquei qualificação realizando cursos de especialização, mestrado e doutorado. A vivência e a realização desses cursos foram permeadas igualmente por pressões, tal como no exercício profissional. No que diz respeito à enfermagem sempre tenho assumido nas quatro áreas de atuação (assistencial, administrativa, docência e organizativa) a liderança enquanto processo social, que vem sendo construída ao longo dessa trajetória - significando um exercício contínuo de relacionamento interpessoal, de tomada de decisões - dentro de ambientes organizacionais cujas estruturas são típicas das escolas científicas e clássicas da administração. No presente estudo, detenho-me nas vivências da área administrativa, por ser aquela em que tenho maior experiência profissional, seja em nível de prática como de teoria (coordenação de serviços assistenciais, de ensino e em entidade de classe (ABEn) e o exercício da docência), focalizando uma situação especifica do cotidiano do exercício profissional em determinado momento do meu ser profissional. Descrevo aqui, a experiência da implantação de um hospital geral público estadual e os sentimentos experimentados no Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 9 desempenho de uma coordenação de serviço de enfermagem; buscando perceber, compreender e apreender o stress que certamente existiu em todo o sistema social em que vivi naquele período. Estabeleci para este estudo os objetivos: 1. Descrever a experiência de implantação de um hospital e os sentimentos experimentados no decorrer do processo, como coordenadora do serviço de enfermagem. 2. Identificar as áreas de estressores, os mecanismos de coping e o burnout na atuação profissional frente à situação descrita. 3. Analisar a atuação profissional frente ao stress, ao coping e ao burnout. 2 O DISCURSO DA LITERATURA 2.1 O STRESS E OS ESTRESSORES Na literatura, as concepções sobre o stress são várias, divergem entre si e nem sempre são esclarecedoras. Para Albrecht (1978) o stress é um conjunto específico de condições bioquímicas do corpo da pessoa que refletem a tentativa do corpo de fazer o ajuste. Lazarus e Launier (1978) assinalam que o stress é qualquer evento que demande do ambiente interno ou externo e que taxe ou exceda as fontes da adaptação de um indivíduo ou sistema social. Selye (1959) reporta que o stress é uma resposta não específica do corpo para alguma demanda não-específica que requeira dele uma reação mais forte que aquela que corresponde a sua atividade orgânica normal. Vasconcelos (1992), numa abordagem mais esclarecedora do que a de Selye, pontua o stress como um processo psicofisiológico que permeia e integra a rede de emoções, sensações, comportamentos, considerando a unicidade de corpo, mente e espírito. Sei que o stress é uma reação normal aos desafios que encontramos em conseqüência de situações e ou tensões que vivenciamos. Todos nós precisamos do stress, pois ele prepara Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 10 o organismo para lidar com situações difíceis da vida. É preciso, entretanto, compreendê-lo para utilizá-lo em nosso benefício. Qualquer situação que desperte uma emoção forte, boa ou má, que exija mudança, é um estressor, isto é, uma fonte de stress. O estressor, segundo Vasconcelos (1992), é o agente estimulante ou a situação que está desencadeando a excitação do organismo. O estressor pode ser, portanto, qualquer agente físico, químico, biológico ou psicológico, de natureza intrínseca ou extrínseca ao sujeito. Importante ressaltar que os agentes estimulantes não causam, necessariamente desprazer e podem proporcionar sensação agradável, porém, convergem para um estado de grande excitação, como cita Vasconcelos (1992): um beijo apaixonado, passar no vestibular, relação sexual satisfatória, entre outros. O tipo de reação e pró-ação do indivíduo frente ao estressor é que delineia um estado de eutress ou distress, pois esses (estressores) por si só não definem o desencadeamento do stress. Haverão que ser consideradas as características individuais. Os estressores são diversificados, porém, cada evento é sentido, vivenciado individualmente. E assim, um mesmo evento pode produzir uma reação agradável ou desagradável a depender do indivíduo, apesar de serem mobilizados os mesmos hormônios e gastas as mesmas energias, conforme assinala Selye (1959). O processo de stress se divide em três fases, identificadas por Selye (1959) que denominou de Síndrome de Adaptação Geral (SAG) o conjunto de reações de adaptação frente ao estressor: reação de alarme, resistência e exaustão. A primeira fase, de alarme ou alerta, é o momento inicial da resposta ao estressor, em que há mobilização geral das forças orgânicas de defesa contra um determinado agente. A pessoa experimenta uma série de sensações que às vezes não identifica como stress. Os sintomas são variados, tais como: taquicardia; sudorese, cefaléia, palidez, pressão alta; fadiga, insônia; dificuldade respiratória; falta de apetite; apertar de mandíbulas; pressão no peito e estômago tenso. Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 11 Na segunda fase, a da resistência, acontece o seguimento ao processo de resposta de defesa da fase anterior, a pessoa permanece assim até que o estressor desapareça ou entra na terceira fase. A pessoa busca se adaptar à situação, tenta restabelecer o equilíbrio interno, utilizando a energia de que o organismo necessita para outras funções vitais. Como conseqüência, pode ocorrer mobilização específica de um órgão, irritabilidade, isolamento social, incapacidade de desligar-se; impotência; ranger dentes; apertar de mandíbulas, e o desaparecimento dos sintomas físicos. Na terceira fase, de exaustão, é o momento em que o pseudo-equilíbrio adquirido na fase de resistência seria perdido. Nesta fase, alguns sintomas iniciais reaparecem e outros se desenvolvem, é o que assinala Lipp e outros (1990). Os sintomas são caracterizados pelo colapso energético do órgão vulnerável; aparecimento de uma patologia orgânica ou óbito súbito. 2.2 O STRESS E O TRABALHO DO ENFERMEIRO, O COPING E O BURNOUT As preocupações com o stress têm sido cada vez maiores por parte dos profissionais de saúde, uma vez que esse fato, vem desempenhando um papel importante no processo trabalhosaúde-doença, devido às conseqüências, tais como, incapacidade e morte dos trabalhadores. A enfermagem é uma profissão estressante, é o que assinala Menzies (1970), que relaciona a enfermagem ao stress. Essa autora afirma que o trabalho com pessoas doentes requer grande demanda de compaixão, sofrimento e simpatia e que, ao lidar com essa situação, o enfermeiro pode se sentir irritado, deprimido e desapontado; sentimentos incompatíveis com o desempenho profissional, trazendo como conseqüência a culpa e o aumento da ansiedade. Bauk (apud BIANCHI, 1990) enfatiza que ser responsável por pessoas, como acontece com os enfermeiros, demanda um tempo maior de trabalho voltado à interação, aumentando a probabilidade de ocorrência do stress em função de conflitos interpessoais. Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 12 As repercussões do stress no trabalho do enfermeiro são referidas por Packard; Motowidlo (1987); Sadler (1989) no nível de âmbito pessoal e no âmbito organizacional. Brow e Dashiff (apud BIANCHI 1990) e Couto (1987) acrescentam o nível de âmbito na esfera familiar. Por sua vez, Albrecht (1982) e Malloy (1984) e outros, pontuam os efeitos psicofisiológicos e organizacionais. Baseada em vários autores, entre os quais, Adey, Norbeck e Randolph (apud BIANCHI, 1990) reconhece cinco áreas de estressores no trabalho do enfermeiro: a administrativa; relacionamento com a equipe médica e de enfermagem; ambiente; assistência de enfermagem; e, vida pessoal. Albrecht (1982) enumera os fatores que participam do equilíbrio adequado entre stress e recompensa no trabalho do enfermeiro, que são: a carga de trabalho; variáveis físicas e químicas; status do trabalho; prestação de contas; variedade de tarefas; contato humano; desafio físico; e, desafio mental. Ressalto que a pessoa e a organização são responsáveis pelo equilíbrio desses fatores para a diminuição do stress através da utilização dos mecanismos de coping. Para Lazarus e Folkman (1984), o coping constitui-se nos esforços cognitivos e comportamentais constantemente mudados para controlar demandas internas e/ou externas específicas que são avaliadas como excedendo ou fadigando os recursos da pessoa. Ray e outros (apud BIANCHI, 1990) assinalam que coping é a ação dirigida para a resolução ou diminuição da situação problemática. São vários os autores que incluem o coping em diferentes classificações. Dressler (1980) refere ao coping de ação direta e de ação defensiva; Moos e Billings (1982) pontuam o coping focalizado na avaliação, no problema e na emoção; Daniels (1985), por sua vez, menciona os mecanismos de autodomínio, de domínio da carreira e de sistemas de suporte; e, Lazarus e Launier (1978) classificam o coping nas categorias enfocado no problema e na emoção. De modo geral, os mecanismos de coping viáveis para a diminuição do stress podem ser simplificados como: Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 13 mecanismos de âmbito individual ou de auto - abordagem através da elaboração de estratégias que visam aumentar o conhecimento e a conscientização do problema; mecanismos de âmbito organizacional que visam o apoio administrativo e o aprimoramento do pessoal; mecanismos de âmbito da educação, através da realização de cursos de atualização, aperfeiçoamento e de pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado). Entendo que, se não houver um investimento em esforços em termos individuais organizacionais para o enfrentamento aos estressores, poderá ser desencadeado o burnout. Forster (1988) assinala que o burnout é uma síndrome de exaustão física e emocional que provoca um auto - conceito e atitudes no trabalho negativas, podendo afetar o enfermeiro, o cuidado do paciente e o funcionamento da organização. Como se vê, o burnout é o stress profissional acontecem na terceira fase da síndrome de adaptação geral descrita por Selye (1959) - a exaustão. Nessa fase, em nível de burnout, existem três estágios. No primeiro estágio, o indivíduo apresenta poucos sintomas e consegue reverter o quadro sozinho; no segundo, o indivíduo apresenta maior número de sintomas com diferentes recorrências, não consegue reverter o quadro sozinho, precisa de suporte do grupo; e o terceiro estágio corresponde a uma fase crítica, em que todos os sintomas estão presentes e a pessoa precisa afastar-se do ambiente. O burnout diz respeito a um grupo, não é centralizado na pessoa. 3 VIVENCIANDO A IMPLANTAÇÃO E ATIVAÇÃO DO HOSPITAL FRENTE À EPIDEMIA DA GASTRENTERITE A situação ora apresentada é focalizada em determinado período do meu ser e fazer profissional. A implantação e ativação de um hospital geral, público, estadual, de grande porte, certamente constitui uma grande experiência profissional e resulta em crescimento pessoal. Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 14 Dentre as providências com tal finalidade, ocupei-me apenas com aqueles ligadas à estruturação do serviço de enfermagem. Inicialmente, elaboramos (eu mais duas enfermeiras) um planejamento e um cronograma das atividades que seriam desenvolvidas, como: previsão e provisão do pessoal de enfermagem; treinamento e orientação desse pessoal; organização do Serviço de Enfermagem – Unidade de Pacientes Externos (emergência e ambulatório), Unidade de Pacientes Internos (clínica médica, clinica cirúrgica, pediatria e materno - infantil), Unidade do Bloco Operatório (centro cirúrgico e centro obstétrico), Central de Material e Esterilização e Berçário de Alto-risco; elaboração do manual de procedimentos técnicos e regimento interno; padronização de caixas cirúrgicas e impressos; levantamento dos materiais permanentes, de consumo e instrumentais cirúrgicos; adequação das instalações físicas existentes; testagem dos aparelhos e equipamentos, entre outras variáveis existentes e intervenientes. A inauguração do hospital aconteceu em 15 de março de 1984. O seu funcionamento pleno estava previsto para julho do mesmo ano, com a ativação gradativa de unidades-piloto. Encontrávamos-nos cumprindo o planejamento, sem maiores problemas, administrando bem os imprevistos, até que aconteceu a epidemia de gastrenterite (abril de 1994) na região de Feira de Santana (BA). Tratava-se de uma situação inesperada, todo o hospital parado, o serviço de enfermagem não estava estruturado. Não tínhamos soro fisiológico, glicosado, esparadrapo, atadura, suporte de soro e fraldas... O serviço de nutrição sem estrutura, o lactário não funcionava, o pessoal despreparado... Porém, a população precisava ser atendida, o número de óbito crescia assustadoramente e o hospital lá estava, lindo, moderno, “um elefante branco” sem funcionar. Abriram-se as portas do hospital, num clima de ansiedade, angústia e incertezas. E hoje eu questiono: a força da criança determinou o funcionamento do hospital? ou foi uma necessidade social da população? As providências foram tomadas imediatamente, o governo do Estado nunca havia sido tão eficiente. Supriu as necessidades Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 15 urgentes, providenciou soros, ataduras, esparadrapo, verba, suporte de soro, fraldas, entre outras. Ativamos seis unidades de enfermagem em uma semana para uma única especialidade - Pediatria - e assim as fizemos funcionar de forma totalmente desestruturada, porém necessária e imediata, a Unidade de Emergência, Pediatria, Clinica Médica, Clínica Cirúrgica, Materno-Infantil e Central de Material e Esterilização. Não tínhamos uma escala mensal elaborada, os funcionários ainda não estavam distribuídos por unidade, segundo experiência e habilidades, e as enfermeiras estavam desenvolvendo programas de educação continuada. Por outro lado, os demais serviços, tais como: Serviço de Nutrição e Dietética, Social, de Fisioterapia, Laboratório, Rx, Lavanderia, Almoxarifado e Banco de Sangue, SAME, Setor de Pessoal entre outros, encontravam-se em fase de estruturação. A minha carga horária ultrapassava os limites do humano. Eu iniciava minha jornada às seis horas e trinta minutos e normalmente a encerrava às vinte e quatro horas. Esqueci a vida lá fora, a família ficou de lado. Naquele momento, não poderia ser diferente, como coordenadora do serviço de enfermagem tinha que manter a situação sob controle. Havia muito a fazer e a decidir: Preparar as escalas dos funcionários, checar a presença dos funcionários escalados, providenciar a lista de freqüência, fornecer dados estatísticos para a Secretaria da Saúde do Estado (número de admissão, de alta e óbitos) de hora em hora, providenciar compra de medicações, supervisionar, ajudar na assistência, providenciar a abertura das outras unidades, administrar as questões de duplo vínculo, dobra de turno e despreparo de alguns funcionários para assistir à criança, dentre outros problemas que surgiam a cada segundo. Essa situação durou exatamente quinze dias. Passada a epidemia, restou-me a sensação do dever cumprido. Apesar de esgotada, pude, finalmente, respirar aliviada. Não foi possível operacionalizar o funcionamento do hospital conforme planejamento. Depois da epidemia, não se justificava a sua desativação, e assim, a pediatria e a clínica médica haveriam de funcionar plenamente. Apesar da forma como funcionou inicialmente, o cotidiano do hospital que atendeu à necessidade social da população Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 16 imprimiu na mídia a imagem de padrão de qualidade e o serviço de enfermagem encontrava-se inserido nesse contexto, pois dispunha de uma metodologia de assistência implementada, primava pela qualidade da intervenção de enfermagem e a satisfação da equipe. A coordenação de enfermagem tinha autonomia e, conseqüentemente, poder de decisão e respaldo nas instâncias superiores. A situação descrita é nitidamente percebida como de stress em potencial. Pois, foi desencadeada por uma forte pressão do sistema social, portanto, problemática. A demanda foi proveniente do ambiente externo. Era imprescindível uma forte reação de adaptação do sistema técnico e social existente em termos de ambiente hospitalar e ambiente externo (equipe de saúde, usuários e população em geral), integrando uma rede de emoções, sensações, comportamentos, individual e grupal. A questão assim colocada contempla as concepções de stress abordadas por Albrecht (1978), no que se refere “a tentativa de fazer o ajuste”. Lazarus e Launier (1978) quanto “a demanda do ambiente externo” e “sistema social”; Selye (1959) quanto a “demanda não específica que requeria uma reação mais forte”; e Vasconcellos (1992) que percebe o stress como um processo psico-fisiológico (emoções, sensações, comportamentos...). Hoje, percebo que a implantação e a operacionalização do hospital de forma improvisada e desestruturada em atendimento a uma necessidade real da população funcionaram como eutress para os profissionais da instituição naquele momento; pois o hospital era novo e moderno, todos eram recém-contratados, estavam motivados e ansiosos para atuarem. Foi o stress que todos vivenciaram coletivamente e, certamente, o estressor focal - epidemia da gastrenterite, os estressores contextuais ambiente interno e externo e os estressores residuais - individuais (crenças, valores, medos), prepararam-nos para lidar com situações difíceis. Desse modo, apreendo que os estressores foram variados e o fato experienciado de forma individual, apesar da situação exigir uma reação do sistema social - grupo. Quanto a mim, entendo que o stress foi positivo (eutress) diante da situação e da responsabilidade inerente ao cargo e Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 17 à função que eu então exercia. Verdade é que a implantação do hospital não ocorrera nos moldes planejado, mas, é verdade, também, que todo planejamento é flexível e que quando a gente gerencia, gerencia, potencialmente os imprevistos. Devo confessar que ocorreu uma situação de crise e que, talvez, naquele momento, não me dei conta da grandeza do desafio a ser superado, o que, acredito, facilitou de certo modo o enfrentamento. Provavelmente, naquele momento, enquadrei-me, em termos de reações, na fase de alarme da Síndrome de Adaptação Geral, identificada por Selye (1959). Houve uma mobilização orgânica geral, com uma série de sensações não identificadas como stress, traduzidas em sudorese, cefaléia, insônia, falta de apetite, acidez no estômago e taquicardia. Os estressores foram diversificados e desencadeados na área administrativa, no relacionamento interpessoal, no ambiente, na assistência de enfermagem e na vida pessoal. Tem como agravante o macrossistema, em que o processo de trabalho do enfermeiro encontra-se inserido e que adota um modelo de organização fundamentado no Taylorismo. Esse modelo gera ansiedade, maniqueísmo e, aliado ao modelo nightingleano, gênese da divisão social e técnica do trabalho do enfermeiro, traduz o ideal normativo num campo socialmente estruturado, na perspectiva da racionalidade instrumental, gênese das teorias administrativas e que tem forte influência na prática da enfermagem. Reconheço que, naquele período, os estressores vinham de todas as áreas descritas por Bianchi (1990). Na área administrativa, identifico a falta de treinamento ou orientação da equipe de enfermagem, a falta de suporte dos outros serviços, a sobrecarga de trabalho, a ativação imediata de unidades sem estruturação prévia, a improvisação, o controle de dados estatísticos em condições de sobrecarga, a infinidade e prontidão de ações que exigiam muito dinamismo, o contato restrito com o cliente em função da responsabilidade administrativa, aliado à falta de planejamento da assistência. Na área de relacionamento com a equipe médica e de enfermagem, ressalto a falta de suporte em grupo e a situação Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 18 em questão que não permitia o devido descanso. Com relação ao ambiente, assinalo a desorganização da unidade e a exposição a riscos de infecção hospitalar, pela falta de treinamento do pessoal a fim de controlá-la, aliado alta de desinfetantes na instituição. No que se refere à assistência de enfermagem, enfatizo a falta de estrutura do serviço para uma intervenção de enfermagem efetiva, a convivência com uma epidemia sem suporte para o devido atendimento, e a responsabilidade pela vida dos clientes. Na vida pessoal, destaco os horários incomuns resultando em sobrecarga de trabalho. Como mecanismo de coping, acredito que foi utilizada a classificação de Moos; Billings (1982), que é focalizado na avaliação em que há uma redefinição cognitiva, através da busca de alternativas para enfrentar a realidade. 4 PERCORRENDO O CAMINHO: A SITUAÇÃO, A VIVÊNCIA E A ANÁLISE DA COORDENAÇÃO DO SERVIÇO DE ENFERMAGEM A coordenação do serviço de enfermagem de um hospital geral, público, estadual, de grande porte, se constitui em grande experiência e crescimento profissional e pessoal e que certamente proporciona ferramentas-suporte para o exercício profissional, principalmente na área gerencial. Não faço uma descrição detalhada de tal experiência. Procuro ser objetiva, visando atingir os objetivos estabelecidos para este estudo. O cotidiano do hospital imprimiu na mídia a imagem de padrão de qualidade. O serviço de enfermagem encontrava-se inserido nesse contexto. Esse serviço dispunha de uma metodologia da assistência implementada e primava pela qualidade da intervenção de enfermagem e satisfação da equipe. A coordenação de enfermagem tinha autonomia e, conseqüentemente, poder de decisão e respaldo nas instâncias superiores. Cabe considerar, no entanto, que por se tratar de uma instituição pública, estadual, ficaria vulnerável às pressões e Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 19 interferências políticas. Por essa razão, a chegada do período de eleições estaduais constituiu um momento de desestruturação de todo um trabalho que vinha sendo construído com seriedade, compromisso e competência. Trabalhar nesse espaço tornouse incompatível com as minhas expectativas profissionais. Instalou-se, nesse período, o caos institucional frente aos desmandos administrativos/gerenciais e políticos, tais como: mudança de diretoria, substituição de chefias, transferências aleatórias, superlotação de leitos, contratações indevidas, excesso de ligaduras de trompas, colocação de funcionários à disposição segundo o critério do apadrinhamento. A conseqüência dessa situação é visível: desestruturação do serviço, insatisfação da equipe de enfermagem, queda na qualidade da assistência, aumento do absenteísmo, ambiente de trabalho inadequado, relacionamento interpessoal difícil, implicando falta de condições de trabalho. Desenvolvi gastrite, úlcera de stress, hepatite medicamentosa, muita ansiedade, inquietação, angústia, insatisfação profissional, diarréia, conflito de papel, sensação de vazio, aborrecimento, insônia e cefaléia. Na época, surgiu, em uma certa universidade, o concurso público para professor auxiliar de ensino para a disciplina Administração Aplicada à Enfermagem. Era tudo o que eu queria. Fiz a inscrição, preparei-me, fiz o concurso e fui aprovada. Solicitei a minha rescisão e fui em busca de outros caminhos e de inúmeras outras possibilidades... Paralelamente a esse fato, fiz ginástica, investi no meu lazer, participei de eventos científicos, fiz terapia e tratamento médico. No caminhar da coordenação desse serviço, me reporto, especificamente, ao momento em que foi desencadeada a crise geral na instituição e que coincide com o período de eleições estaduais, ocorrendo os desmandos e as interferências administrativas/ gerenciais e político-partidárias. A situação descrita é nitidamente percebida como de stress em potencial, desencadeada por uma forte pressão do sistema social, portanto, problemática, cuja demanda foi proveniente do ambiente externo e que exigiu uma reação forte de adaptação Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 20 do sistema técnico e social existente, em termos do ambiente hospitalar, da equipe de saúde enquanto indivíduo e grupo, dos usuários e da população em geral, integrando uma rede de emoções, sensações, comportamentos nos aspectos individual e grupal. A questão assim colocada contempla, num movimento dialético, as concepções de stress abordadas por Albrecht (1978), no que refere “a tentativa de fazer o ajuste”. Lazarus; Launier (1978) quanto “a demanda do ambiente externo” e “sistema social”; Selye (1959) quanto “demanda não específica que requeria uma reação mais forte”; e Vasconcelos (1992) que percebe o stress como um processo psico-fisiológico (emoções, sensações, comportamentos...). Foi o stress que todos vivenciaram em grupo e, certamente, o estressor focal – desestruturação da instituição, os estressores contextuais - ambiente interno e externo e os estressores residuais - individuais (crenças, valores, medos), preparounos para lidar com situações difíceis na vida. É evidente a diversificação dos estressores e que o evento foi vivenciado de forma individual, apesar da situação exigir uma reação do sistema social - grupo. Quanto a mim, compreendo que o stress foi negativo (distress) diante da situação e responsabilidade compatível com o cargo e a função de coordenadora que eu então exercia. Sei que todo planejamento é flexível e que os imprevistos existem e que são comuns no ambiente hospitalar... A crise foi instalada e os desafios que se apresentavam precisavam serem superados...talvez, naquele momento, não me tenha dado conta do “tamanho” do desafio tornando possível o enfrentamento apesar de tão difícil. Nesse caminhar e experenciada essa situação de crise, naquele momento, apresentei reações, que correspondem à primeira fase do stress descrita por Selye (1959), na qual, há mobilização orgânica geral, com uma série de sensações não identificadas como stress, traduzidas em sudorese, cefaléia, insônia, falta de apetite, acidez no estômago e taquicardia, que ia se agravando a cada dia. Nesse contexto de permanente conflito em que estava inserida, acredito que entrei em burnout, exatamente na terceira Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 21 fase (exaustão) da síndrome de adaptação geral, identificada por Selye (1959). Como referi anteriormente, desenvolvi uma gastrite que evoluiu para uma úlcera por stress (diagnosticada) e uma hepatite medicamentosa, entrando no primeiro estágio do burnout conseguindo reverter o quadro sozinha e sem suporte de grupo. Apoiando-me em Bianchi (1990), reconheço que, naquele período, os estressores foram diversificados e desencadeados nas quatro áreas de atuação, a saber: administrativa, relacionamento interpessoal, ambiente, assistência de enfermagem e vida pessoal. Na área administrativa, eu identifico a falta de suporte da equipe de enfermagem e dos outros serviços, a sobrecarga de trabalho, mudança de diretoria, substituição de chefias, transferências aleatórias, superlotação de leitos, contratações indevidas, excesso de ligaduras de trompas, funcionários colocados à disposição tendo como critério o apadrinhamento, a infinidade e prontidão de ações que exigiam muito dinamismo aliado à falta de autonomia. Na área de relacionamento com a equipe interdisciplinar, eu assinalo a falta de suporte em grupo, relacionamento interpessoal difícil e a situação em questão que aumentava o conflito nas relações. Com relação ao ambiente, eu me reporto o caos institucional, a interferência política partidária no cotidiano hospitalar e conseqüentemente a desorganização da unidade e ambiente de trabalho inadequado, finalizando em falta de condições de trabalho. No que refere à assistência de enfermagem, eu enfatizo a desestrutura do serviço de enfermagem efetiva, o conviver com todo tipo de deficiência, a insatisfação da equipe de enfermagem, a queda na qualidade da assistência e o aumento do absenteísmo. E na vida pessoal, eu destaco a insatisfação profissional, o sentimento de impotência, o adoecer, a ansiedade, a inquietação, a angústia, o conflito de papel, a sensação de vazio e os aborrecimentos. Compreendo como agravante dessa situação, o macrossistema em que o processo de trabalho do enfermeiro encontra-se inserido, o qual adota o modelo de organização Taylorista, que gera ansiedade, maniqueísmo, aliado ao modelo nightingleano, Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 22 gênese da divisão social e técnica do trabalho do enfermeiro e que traduz o ideal normativo num campo socialmente estruturado. A fim de superar os obstáculos relatados, utilizei como mecanismo de coping a busca da resolução do problema e o desenvolvimento de recompensa alternativa para enfrentar a realidade, classificado por Moos e Billings (1982), como coping focalizado no problema; e o mecanismo de autodomínio, de domínio de carreira e sistemas de suporte, reconhecidos por Daniels (1985). 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esses fatos representam um marco inesquecível na minha vida pessoal e profissional na implantação e ativação de um hospital e no exercício da coordenação de um serviço de enfermagem Após o relato desta experiência, fica evidente a necessidade do entendimento do processo de trabalho do enfermeiro reconhecendo a enfermagem como uma profissão potencialmente ansiogênica e estressante, exposta a uma desagregação da estrutura física e psíquica dos seus exercentes, aliado ao perfil psicológico apto para a adesão do modelo de formação nightingleano...São apenas proposições provocativas para um debate reflexivo... ESTABLISHMENT OF A GENERAL HOSPITAL AND THE DEVELOPMENT OF THE COORDINATION OF THE NURSING SERVICE: STRESS, COPING AND BURNOUT ABSTRACT — I describe the experience of implantation of a service of nursing in a general, public hospital state of a city in the State of Bahia and the feelings lived deeply in its activation front to the epidemic of gastroenteritis and story the experiences of the coordination of the nursing service, where the work is developed in a organizational environment, whose structure is typical of the scientific and classic schools of the administration. I look for to understand and to apprehend stress unchained in the social system in that period and to identify to the areas of stressors and the mechanisms of coping used and burnout unchained in the work Sitientibus, Feira de Santana, n.34, p.7-24, jan./jun. 2006 23 of the nurse in this walked. I support myself in Selye, Bianchi, Chaves, Lazarus, Launier among others authors. I signal that the nurses are attacks for the syndrome of stress in minor or greater degree, in its daily one, therefore they live deeply situations of pressures in the spaces micro politicians where they develop its work, who are permeates by conflicts, whose model of organization is based on the taylorism, fordism and fayolism. I point as situations aggravations of stress: the macro system where if it processes the work of the nurse, whose model generates anxiety and maniqueism, ally to the nightinglean model, geneses of the social division and technique of the work of the nurse and that it translates the normative ideal in a field socially structuralized. KEY WORDS: Nursing; Stress; Coping and Burnout in Stress nursing and work in nursing. REFERÊNCIAS ALBRECHT, T. L. What job stress means for the staff nurse. Nurs. Adm. O. Germantown, n.7, v.1, p.1-11, Fall 1982. ALBRECHT, K. O gerente e o estresse: faça o estresse trabalhar para você. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. BIANCHI, E.R.F. 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