ANÁLISE GEOAMBIENTAL DA BACIA DO IGARAPÉ PARACURI, DISTRITO DE ICOARACI, BELÉM-PA; SUBSÍDIOS PARA UM DESENVOLVIMENTO URBANO SUSTENTÁVEL.1 _____________________________________________________________ Kátia Fernanda Garcez Monteiro Paiva Sub-Projeto de Pesquisa associado ao projeto MEGAM-NAEA-UFPA.( Bolsa-FADESP/FINEP 183-00/98) [email protected] ABSTRACT The present study has as an objective to analyze the urbanity occupation and the various use that the population makes in the area of micro basin of the Paracuri river stressing the negative impact of disordely occupation under the area of clay extraction. The micro basin of Paracuri river is locate in Icoaraci district, integrated part of metropolitan region of Belém is a exemple of the interlude problem between the disorganize occupation and the member enviroments problem, where the residents suffer of enviroment degradation as well incentivates, due to addition of individual behaviours, characterezed by a unconcerned of public power with a environment conservation, or for lack of environment education. In face of adapted methodology with base in the world map of area studied to utilize the remote sensorial with instument of research by air photografy of the years of 1986 and 1999, for better comprehension of evolution the urban occupation in the area of the micro basin of Paracuri river. Since then we outstand the principals environments problems as the rise the erosion process, the silting up and the pollution in the Paracuri river and Livramento. Still approaching the principal recomendation as a subsidy for a minimization envirnment degradation originated by anthropology activity in the area of micro basin of the Paracuri river . RESUMO O presente estudo analisa a ocupação urbana e os diversos usos que a população faz nas áreas da micro bacia do igarapé Paracuri, enfatizando os impactos negativos da ocupação desordenada sob as áreas de extração de argila. A bacia do igarapé Paracuri, está situada no distrito de Icoaraci, parte integrante da Região metropolitana de Belém, é um exemplar do problema de interligação entre a ocupação desordenada e os problemas sócio ambientais, onde os moradores sofrem da degradação ambiental como também alimentam a mesma, devido a Revista Científica da UFPA http://www.ufpa.br/revistaic Vol 3, março 2002 soma de comportamentos individuais, caracterizados por uma despreocupação do poder público com a conservação ambiental e por falta de educação ambiental da população. Diante da metodologia adotada com base no mapeamento da área estudada utilizou-se o sensoriamento remoto como ferramenta de pesquisa, através de fotografias aéreas, dos anos de 1986 e 1999, para melhor compreensão da evolução da ocupação nas áreas da bacia. A partir de então destacou-se os principais problemas ambientais, como: o aumento do processo erosivo, o assoreamento e a poluição nos igarapés Paracuri e Livramento, apontando para as principais recomendações como subsídios para a minimização da degradação ambiental decorrente das atividades antrópicas na área da bacia do igarapé Paracuri. INTRODUÇÃO A Região Metropolitana de Belém (RMB) é contornada pelo Estuário Guajarino que dá à cidade de Belém uma caraterística geográfica peculiar: o fato de ser uma cidade influenciada por rios, igarapés, baías, e bacias hidrográficas de dimensões continentais, o crescimento da cidade não foi acompanhada de um planejamento urbano adequado, principalmente levando em consideração a vasta rede hidrográfica que a cidade possui. A falta de planejamento pode ser percebida na bacia do igarapé Paracuri, como nas ocupações de áreas impróprias à moradia as áreas de várzeas. As populações mais carentes acabam por ocupar as baixadas processo que ocorre na maioria das cidades da Amazônia, onde constroem suas habitações de madeiras, retiradas das margens dos igarapés, vão morar sob áreas alagadas, onde não há água encanada, luz, coleta de lixo, dentre outras infra-estruturas básicas necessárias para uma qualidade de vida saudável. Os prejuízos para estes ecossistemas são vários, entre elas desmatamento das margens dos igarapés, poluição do solo e da água, aumento do processo erosivo nas margens dos igarapés etc. Contudo os prejuízos à saúde dessa população tornam-se mais expressivos nestas áreas, visualizados pelos altos índices de doenças de veículação hídrica, como diarréias agudas, dengue e leptospirose. A idéia de que os terrenos marginais e os rios constituem uma área a ser explorada, tem colocado o homem e a natureza em papeis distintos na história da construção dos espaços urbanos principalmente nas áreas de expansão urbana da cidade de Belém, sem levar em consideração que a cidade é um sistema aberto onde todos os elementos estão interligados uns aos outros, que na interferência em um elemento do sistema todos irão ser atingidos. As conseqüências desta intervenção, muitas vezes de forma desordenada no ambiente, vão ser configurados no espaço urbano sob as mais diversas formas, como grande bolsões de miséria nas periferias dos grandes centros, pessoas morando nas margens e sobre os igarapés, sem equipamentos urbanos, sem infraestrutura básica, sem qualidade de vida. Este é o retrato da ocupação urbana na zona periférica da cidade de Belém, justificando a importância da pesquisa para subsidiar a comunidade seja com instrumentos teóricos, seja com a orientação a cerca da educação ambiental, considerando a água como elemento central da vida urbana. Revista Científica da UFPA http://www.ufpa.br/revistaic Vol 3, março 2002 Neste sentido justifica-se a presente pesquisa no relevante papel científico e social que irá trazer não só para a área pesquisada como também em toda região amazônica, haja visto que os povos amazônidas estão localizados na em uma faixa que concentra 20% de toda água doce disponível do planeta. OBJETIVO GERAl: Estudar a bacia hidrográfica do Paracuri e suas implicações sócio ambientais, de modo a subsidiar o planejamento e gestão ambiental da bacia hidrográfica, visando a melhoria na qualidade de vida da população. OBJETIVOS ESPECÍFICOS: Analisar o processo de urbanização e seus problemas ambientais nas áreas da bacia do igarapé Paracuri; Fornecer elementos teóricos para melhor compreensão dos aspectos associados ao uso do solo e a degradação ambiental nas áreas de várzeas da bacia do igarapé Paracuri; Identificar e analisar o modelo de gestão e planejamento urbano adotado pela Prefeitura municipal de Belém, para as áreas de bacias hidrográficas; Analisar o perfil sócio econômico da população, e os conflitos de interesses presentes na concepção dos comitês ambientais da bacia do Paracuri. METODOLOGIA Adotou-se o Estudo de Caso para analisar quantitativamente e qualitativamente os problemas ambientais da área estudada. Para a efetivação da pesquisa, foi iniciada com o levantamento bibliográfico em diversos órgãos públicos, como: IBAMA (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), SEGEP (Secretaria de Gestão e Planejamento , Prefeitura Municipal de Belém), SECTAM ( Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente), CODEM(Companhia de Desenvolvimento e Administração da área Metropolitana de Belém) , bibliotecas públicas e particulares para os levantamentos de informações preliminares que serviram de suporte teórico necessário para as análises e conclusões das etapas posteriores. Foram feitas coletas do material cartográfico, fotografias aéreas e imagens de satélites importantes para a análise da identificação e localização da área de estudo. Utilizou-se a abordagem multitemporal, com a ajuda do sensoriamento remoto, para analisar os processos de ocupação nas áreas de várzeas da bacia do igarapé Paracuri. Nesta etapa contou-se com os laboratórios de geoprocessamento do NAEA(Núcleo de Altos Estudos Amazônicos-UFPA) e do Museu Emílio Goeldi. Objetivando compreender melhor cenário da realidade a ser estudada, desenvolveuse a pesquisa participativa com aplicação de questionários e relatos orais dos moradores que habitam as margens dos igarapés Paracuri e Livramento, no sentido de conhecer o perfil sócio econômico das pessoas da área. REFERENCIAL TEÓRICO Freqüentemente estabelece-se confusão em torno do conceito de gerenciamento de bacia hidrográfica (GBH), confundindo-o com gerenciamento de recursos hídricos, ou seja, Revista Científica da UFPA http://www.ufpa.br/revistaic Vol 3, março 2002 o gerenciamento de um único recursos ambiental a água, quando realizado no âmbito de uma bacia hidrográfica. O gerenciamento de bacia hidrográfica deve ser considerado como resultado da adoção da bacia hidrográfica como unidade de planejamento e intervenção da gestão ambiental, sistêmica e globalizada. Ou seja integrar os elementos que fazem parte da bacia hidrográfica, não só os elementos físicos, biológicos, mas também os elementos sócio econômicos presentes nas relações sociais, percebendo-se que todos estes elementos deverão ser vistos juntamente com o meio ambiente, que estes fazem parte de um todo maior, rompendo com a visão reducionista de resolver os problemas ambientais. Segundo IBAMA(1995), o Gerenciamento de Bacia Hidrográfica(GBH) é um processo de negociação social, sustentado por conhecimentos científicos e tecnológicos, que visa a compatibilização das demandas e das oportunidades de desenvolvimento da sociedade com o potencial existente e futuro do meio ambiente, na unidade espacial de intervenção da bacia hidrográfica, à longo prazo. Para TONET e LOPES (1996), na evolução do gerenciamento de bacias hidrográfica é possível distinguir três fases, que adotam modelos gerenciais mais complexos, mas que, apesar disso, possibilitam uma abordagem mais eficiente do problema: o modelo burocrático, o modelo econômico financeiro e o modelo sistêmico de integração participativa. No modelo burocrático buscava-se estabelecer condições para a solução da questão ambiental, omitindo-se a necessidade do planejamento estratégico e da negociação política, sem a participação social plena e representativa, sem a percepção interativa entre os subsistemas natural e sócio- econômico. No modelo econômico- Financeiro, é caracterizado pela predominância do emprego das negociações político-representativas e econômicas, através de instrumentos econômicos e financeiros, aplicados pelos poderes públicos para a promoção do desenvolvimento na região. como objetivo estratégico a reformulação institucional que busca integrar sistematicamente os 4 tipos de negociação social: o econômico, o político, o jurídico e o político participativo. Caracteriza-se pela criação de uma estrutura sistêmica, na forma de uma matriz institucional de gerenciamento, responsável pela execução de funções gerenciais específicas pela adoção de três instrumentos principais: o planejamento estratégico por bacia hidrográfica, a tomada de decisão através de deliberações multilaterais e descentralizadas e o estabelecimento de instrumentos legais e financeiros. Conforme LANNA et al (1997), o gerenciamento de bacias hidrográficas é complexo e envolve diversos interesses conflitantes, o poder público deve reconhecer , sem abdicar de seu papel de gestor e coordenador, a necessidade de promover a descentralização do gerenciamento, permite a interferência de representantes dos diversos segmentos interessados, facilitando o processo de construção de um novo modo de gerenciar os problemas ambientais de forma objetiva e transparente. De acordo com a lei dos Recursos Hídricos nº 9.433-/1997, considera um avanço a sociedade brasileira em direção ao desenvolvimento urbano sustentado, conceber a gestão de bacias hidrográficas como forma de mensurar e discutir os problemas ambientais, assim como a participação popular nas decisões que envolvam a bacia hidrográfica como elemento de gestão e intervenção. O art. 38 da lei dos recursos hídricos, compete aos comitês de bacia hidrográfica, no âmbito de sua área de atuação: - promover o Revista Científica da UFPA http://www.ufpa.br/revistaic Vol 3, março 2002 debate das questões relacionadas a gestão dos recursos hídricos e articular a atuação das entidades intervenientes. Segundo Barros(2000), a palavra Gestão tem sido muito utilizada atualmente e quase sempre entendida como sinônimo de gerenciamento ou administração. Segundo o Dicionário do Aurélio, Gestão é o ato de gerir, gerenciar, administrar. No entendimento mais amplo, o gerenciamento é parte da gestão, é atividade administrativa envolvendo mais especificamente a execução e acompanhamento das ações. A gestão é mais abrangente atuando no planejamento global a partir das vertentes políticas, econômicas e sociais. RESULTADOS E DISCUSSÕES Os resultados preliminares da pesquisa já iniciada apontam que, a ocupação desordenada em direção aos cursos fluviais do Paracuri e a grande concentração de poluição das águas dos igarapés que compõem a bacia, vem comprometendo a qualidade da água para o uso da população, que por outro lado recorrem à outras fontes de abastecimento como construir poços escavados desordenadamente sem nenhum critério técnico, transformando essas fontes de abastecimento em verdadeiras fontes de proliferação de doenças para a população que dela se serve. A área próxima da foz do igarapé Paracuri vem sofrendo com grandes aterramentos nas suas margens, está com aproximadamente 300 metros de extensão e é limitada pela área conhecida como área de Brasilit. De acordo com o relatório expedido pelo IBAMA em dezembro de 1999 sobre áreas desmatadas e aterradas próximas ao igarapé Paracuri, estas foram divididas em lotes, receberam aterramentos e foram totalmente devastadas. A forma como a população utiliza e ocupa as áreas de várzea do Paracuri, acabaram conduzindo a um cenário de insalubridade do ambiente, comprometendo não só o meio físico, mas a saúde da população que habita o local, devido ao grande déficit de água potável, principalmente nas áreas de ocupações mais recentes, que vem obrigando parte da população a utilizar o sistema de poço escavado a céu aberto como fonte de água potável. Contudo, a população não considera as medidas de segurança, assim constroem seus poços de maneira desordenada, próximo a sanitários, que sofrem inundações ocasionando também a poluição das águas subterrâneas, enfim, o que predomina é o empirismo e a improvisação. Daí a triste estatística de grande parcela da população já ter sido acometida por infecção intestinal, inclusive levando a óbito um número considerável de crianças na área do igarapé Paracuri. Em visitas pelas margens do igarapé Paracuri, observou-se um grande número de famílias utilizando a água do igarapé para abastecimento doméstico como única fonte de água para consumo. Dessa complexa relação entre população e os usos da água no igarapé Paracuri, surgem problemas que afetam a sociedade como um todo e, diretamente o ambiente, pois tanto as águas superficiais quanto as subterrâneas, neste contexto de ocupaçôes desordenadas são os recursos mais explorados e degradados ao mesmo tempo, trazendo como conseqüência direta o agravamento na saúde da população local. Nas áreas de várzeas da bacia do Paracuri, além da poluição por toda parte, encontrase a exploração de argila na forma manual; embora seja considerada um atividade pontual, se comparada com extrações por máquinas pesadas, existe na área um número significativo Revista Científica da UFPA http://www.ufpa.br/revistaic Vol 3, março 2002 de pessoas trabalhando nesta atividade, estima–se que na área hoje, estejam trabalhando cerca de 100 à 150 pessoas, que abastecem as olarias do famoso artesanato cerâmico do bairro Paracuri. Por outro lado a vasta utilização dos solos da bacia do Paracuri,(várzea, terra firme e igapó), vem se configurando num espaço problemático, onde estão presentes os grandes proprietários de terras, os grupos dos excluídos (posseiros) e o Estado, como principais agentes causadores dos problemas ambientais na bacia do Paracuri, transformando os igarapés em áreas de recepção de todo o tipo de dejetos produzidos por esta complexa sociedade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ANDREOLI, Cleverson V. e SOUZA, Marcos L. de Paula. Gestão Ambiental Por Bacias Hidrográficas. In: MAIMON, Dalia (org.). Ecologia e Desenvolvimento. Rio de Janeiro: Aped, 1992. p 99 – 116. ABELÉM, Aurélia Gomes. Amazônia: Ocupação e Reorganização do Espaço Urbano. In: OLIVEIRA, Nilson Pinto (org.). Meio Ambiente: QualidadeVida e Desenvolvimento. Belém: NUMA/UFPA., 1992. p01-27. BARROS, Airton B. de. Gestão de Bacias Hidrográficas em Áreas Urbanas. SEGEP( Secretaria de Gestão e Planejamento de Belém): (mimeo).Belém, 2000. CASTRO, Edna ; PINTON, Florence. Faces do Trópico Úmido: Conceitos e Novas Questões sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente. Belém Cejup. UFPA/NAEA. 1997 p 30 –58. COSTA, Antônio Carlos L. da. Poluição Ambiental em àreas Urbanas, Belém,1999.(mimeo). LANNA, Antônio E. Leão (org).Sistemas de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Boletim Informativo. Associação Brasileira de Recursos Hídricos. São Paulo: 1997. PAIVA, Kátia Fernanda G. M. Considerações sobre o Uso e Ocupação na Micro Bacia do Igarapé Paracuri, Distrito de Icoaraci- Belém/Pa: E seus Problemas Ambientais. Monografia de especialização. NUMA- UFPA: Belém,2000. POLÍTICA NACIONAL DE RECURSOS HÍDRICOS. Lei Nº 9.433 de 8 de janeiro de 1997. Ministério do Meio Ambiente dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal. Brasília, 1998. Revista Científica da UFPA http://www.ufpa.br/revistaic Vol 3, março 2002 HERNANDEZ, Becerra E. Ordenación de Cuencas Hidrográficas: Como la Fiananciam siete Paises de America Latina.Revista Internacional de Silvicultura e Indústrias Florestais, Roma 1994. Revista Científica da UFPA http://www.ufpa.br/revistaic Vol 3, março 2002