ENTRE O TRABALHO, A ESCOLA E O LAR: O CASO DA ESCOLA
PROFISSIONAL FEMININA DE BELO HORIZONTE
Warley Alves Gomes.
Universidade Federal de Minas Gerais
Carla Simone Chamon
Centro Federal de Educação Tecnológica – Campus II
RESUMO: Nossa intenção neste artigo é estabelecer as relações entre a modernidade, o ensino
profissional e a educação feminina na cidade de Belo Horizonte durante as primeiras décadas do
século XX. Tendo como objeto de análise a Escola Profissional Feminina de Belo Horizonte, dirigida
pelo Dr. Benjamin Flores, buscamos levantar algumas questões sobre o ensino profissional feminino,
pensando as possíveis relações deste tipo de ensino com as representações construídas em torno das
mulheres até então. A questão-chave do trabalho é refletir se o ensino profissional feminino seria uma
ruptura com a idéia de que o lugar da mulher seria limitado ao lar.
PALAVRAS-CHAVE: Escola Profissional Feminina; Modernidade; Ensino Profissional
1. Introdução
Essa comunicação tem como tema a questão do ensino profissional no Brasil no início
do século XX. Nossa intenção é focar no ensino técnico-profissional feminino, tendo como
objeto a Escola Profissional Feminina de Belo Horizonte, fundada em 19131, buscando refletir
sobre o lugar e o papel desse ensino na escolarização feminina no início da república. Essa
investigação, ainda em andamento, tem se preocupado, de um lado, em entender as primeiras
iniciativas de criar escolas de ensino profissional pra mulheres, de outro, interessa-nos saber
como se articulou o ensino feminino com o ensino profissional em um mundo no qual as
mulheres passaram a freqüentar as escolas tardiamente e, em que medida, esse ensino rompia
com a idéia, até então em voga, de educar a mulher para ser esposa, mãe e dona-de-casa.
Essas questões serão aqui trabalhadas a partir do diálogo com a bibliografia sobre o
tema e das fontes encontradas sobre a Escola Profissional Feminina de Belo Horizonte nos
jornais da capital mineira nas primeiras décadas do século XX. Os jornais pesquisados foram:
A Tarde (durante 1912 à 1932), o Diário da Tarde (1910-1934), o Minas Gerais (1938-1941),
o Estado de Minas (1919) e alguns outros jornais pesquisados de forma menos istemática,
como é o caso do Correio de Minas.. Também foram feitas pesquisas no Almanack Guia de
Bello Horizonte, encontrado entre os exemplares da Coleção Linhares, na Biblioteca Central
da UFMG.
2. Os jornais, o ensino profissional e a República
Como fonte básica desse trabalho, não podemos no esquecer que o jornal deve ser
entendido como uma fonte construída a partir de um determinado ponto de vista, pautado em
escolhas diversas. Cabe aqui destacar que, segundo James William Goodwin Jr.:
Ler o jornal como um documento, portanto construído, significa perceber que um jornal existe
como um artefato produzido, desde a escolha das notícias a serem publicadas, passando pela
redação do texto a publicar, o tipo (formato e tamanho da letra) a ser utilizado, se há ou não
destaque visual (símbolos, gravuras, ilustrações), até à escolha do lugar onde o texto (ou a imagem)
será colocado dentro do jornal (GOODWIN, 2007, p.75).
Ou seja, o jornal não representa, de forma alguma, uma “verdade” objetiva, mas antes nos
apresenta um ponto de partida, um olhar direcionado, uma subjetividade presente. Longe de
nos apresentarem informações desinteressadas e neutras, um texto de jornal é produzido
através de um processo que abrange recortes, escolhas e possibilidades (GOODWIN Jr.,
2007). É necessário, então, atentarmos para as intencionalidades dessa fonte, não nos
esquecendo também que, nas sociedades modernas do século XIX e início do XX, o jornal
procurava atuar como um agente formador e civilizador tanto das classes populares, como das
elites, procurando guiar a sociedade para um futuro marcado pelo progresso.
Em relação ao ensino profissional, ela surge nos jornais, como um elemento associado
a idéia de progresso material e moral. O ensino profissional – masculino ou feminino, urbano
ou agrário, para pessoas “de bem” ou para criminosos – foi visto como um fator importante
para o progresso do país, como nos mostra esta matéria do jornal O Correio da Tarde. A
matéria trata de uma conferência realizada pelo dr. Carneiro Leão:
O conferencista tratou do assumpto sob todos os pontos de vista e estudou a influencia do
ensino profissional no progresso dos povos, mostrando finalmente o papel que elle precisa
desempenhar no engrandecimento econômico do Brasil.
A these foi ventilada sob os seus variados aspectos: pedagógicos, sociaes, políticos, econômicos,
Moraes. O orador demonstrou a eficácia do ensino technico, que não tem por fim, como muitos
pensam, em fazer artífices autômatos, mas homens íntegros, na plenitude de todas suas qualidades.
(...)
O ensino profissional dará à grande massa a educação para o trabalho eficiente e útil, o gênio
inventivo, os hábitos do esforço systematico, a coragem para pensar e agir, de coordenar para
melhorar e crear. (CORREIO DA TARDE, 5 de Dezembro 1917, p.1).
Como podemos ver a questão do ensino profissional não estava ligada apenas à questão da
integração do país em uma economia industrial. Ela ia mais além, buscando justificar-se em
um discurso progressista, na integração das camadas populares a um sistema maior,em
consonância com o progresso material do país. Para as elites mineiras, o interesse econômico
do país não estava dissociado da idéia de uma melhoria social e moral das camadas menos
abastadas da sociedade.
O ensino profissional está bastante ligado ao discurso republicano do início do século,
um discurso que buscava legitimar o novo regime político brasileiro como aquele capaz de
levar a nação brasileiro, pelas vias do progresso, à um futuro promissor. Na edição de 12 de
dezembro de 1910 do Diário da Tarde encontramos um exemplo da associação feita entre a
República, Belo Horizonte e o progresso:
A mudança da capital do Estado, além de antiqüíssima aspiração do povo mineiro, se impunha
de há muito como inadiável medida administrativa: somente razões de alto valor político e
econômico poderiam, de facto, justificar um ato como a transferencia de sede de um governo e isso
num período de reorganisação em que o paiz não voltara ainda do natural abalo produzido por uma
completa e radical transformação no seu regimén governativo.
A velha e legendária Ouro Preto é que não podia mais, absoluta e evidentemente, continuar
como metrópole de um Estado tão importante, como este, pois já não correspondia, quer esthetica
quer economicamente, aos surtos para o progresso e a civilização de um povo laborioso e que já
tem affirmado a sua energia e a sua capacidade em vários rasgos de yankismo, entre os quaes se
inscreve como um dos mais audaciosos a própria construção desta cidade-maravilha. (Diário da
Tarde, 12 de dezembro 1910, p.1)
A República seria as luzes e a civilidade, em oposição à escuridão e à barbárie do regime
monárquico recém-derrubado. Tal discurso aparece com freqüência na imprensa brasileira do
início do século, visto esta ser um dos principais meios de circulação de informação naquela
época, e se apresentar na maioria das vezes como a “detentora da verdade”. Buscou-se
construir representações que apresentassem a República como um regime político moderno,
contrário à monarquia, que seria ultrapassada, tirânica. É claro que devemos fazer uma leitura
crítica destas fontes, pensando que embora se colocassem como “donos da verdade”, a
imprensa apenas exibe alguns pontos de vista, no caso dos argumentos acima, o ponto de vista
das novas elites republicanas que buscavam legitimar seu poder, apresentando o país na rota
do desenvolvimento, da industrialização e do progresso.
Se por um lado encontramos este tipo de discurso que busca legitimar a nova
República, por outro não podemos pensar que ele se sustenta apenas através de palavras. Sem
dúvida, entre o final do século XIX e o início do século XX o país passou por uma intensa
modernização. Entendemos o conceito de modernização a partir da interpretação de Marshall
Berman, que a definiu como um processo de mudanças materiais, urbanas e tecnológicas que
ocorrem em uma determinada sociedade. Para Marshall Berman a modernização e o
modernismo (que seria o desenvolvimento intelectual, criativo e artístico) são os movimentos
da modernidade, marcada por uma sucessão de mudanças que ocorrem em um ritmo cada vez
mais intenso2. A mudança do regime político brasileiro ocorreu no mesmo contexto marcado
por diversas outras mudanças como a abolição da escravidão e um certo desenvolvimento
tecnológico - ferrovias, bondes, iluminação elétrica, entre outros.
É importante termos em mente que esta associação do regime republicano com a
modernidade não é de pouca importância para pensarmos a própria construção da cidade de
Belo Horizonte. Belo Horizonte foi planejada para ser uma espécie de cidade-símbolo da
modernidade republicana no Brasil. Buscou-se assim construir uma representação de Belo
Horizonte articulando-a com o ‘novo”, o “moderno”, o exemplo para o país que adentrava na
República. Suas ruas e avenidas foram construídas tendo como exemplo a Paris de Hausmann
e Buenos Aires, ou seja, duas cidades que se projetaram como importantes representações da
modernidade urbana entre o final do século XIX até meados do século XX.
Letícia Julião, em seu texto Belo Horizonte: itinerários da cidade moderna (18911920), reflete sobre esses primeiros anos de Belo Horizonte e seus aspectos de cidade
moderna. A autora pensa as ambigüidades dessa modernidade, seu caráter excludente e sua
vida urbana. A cidade foi projetada visando a construção de um novo espaço, cosmopolita,
racional, em incessante transformação, em oposição à vida rural e arcaica das outras cidades
mineiras. Julião constrói boa parte de seu texto baseada nas idéias de Marshall Berman sobre
a modernidade no subdesenvolvimento. No caso, Belo Horizonte foi planejada por uma elite
para ser uma cidade moderna, mas as instituições e práticas sociais ainda se davam de
maneira tradicional, conservadora. Construída no local onde se encontrava uma àrea rural,
Curral Del Rey, Belo Horizonte não podia surgir isenta das tensões entre o modo de vida
tradicional e o moderno. Sem falar no caráter conservador das elites mineiras, que marcou
profundamente a vida social da cidade em seus primeiros anos. Tensões que irão marcar
também o ensino profissional feminino nesse período.
3. A Escola Profissional Feminina de Belo Horizonte
Foi na moderna capital Belo Horizonte que, em 1913, o professor Benjamim Flores
fundou a Escola Profissional Feminina3. Segundo Abílio Barreto, essa escola funcionou sem
reconhecimento do Estado até 1919, quando então recebeu autorização para registro do
diploma de suas alunas (BARRETO, 1950, p. 217)4.
Um primeiro ponto a ser levantado sobre a Escola é sobre o caráter simbólico que seu
nome nos apresenta. O fato de ser uma escola profissional, e de isto já vir marcado em sua
própria denominação, nos remete a um esforço por parte de seus criadores em inserir os
ensinos ministrados na escola aos valores de um país que buscava se inserir na lógica
capitalista como uma nação industrializada e moderna. A Escola Profissional Feminina de
Belo Horizonte busca construir a representação de um ensino articulado aos valores modernos
em uma cidade moderna – Belo Horizonte. Seria, a princípio, um método de ensino moderno,
adequado à sociedade capitalista-industrial, e localizado na cidade-símbolo da modernidade
republicana.
Mas, se o ensino profissional, seja urbano ou rural, aparecia nos discursos
republicanos em associação a progresso material e à idéia de uma civilização moderna, como
pensar o ensino profissional feminino em uma sociedade que ainda via como desnecessária a
escolarização da mulher? Nesse sentido, que tipo de ensino esta Escola Profissional Feminina
apresentava? Seria ele um ensino moderno? Uma ruptura com o ensino feminino de então?
A fonte mais antiga que encontramos sobre a escola e suas disciplinas data de fevereiro de
1920 e apresenta as disciplinas ofertadas no curso:
Diariamente, do meio dia às duas da tarde, à rua Bernardo Guimarães n.1577, próximo à Chefia de
Polícia, acha-se aberta a matrícula nos vários cursos da Escola, a qual confere a suas alumnas o
diploma de:
Normalista profissional, desenhista, guarda-livros, chimico-analista, dactylographo, tachygrapho,
telegraphista, e bem assim certificados de mestra em – costuras, flores, chapéos, pastelaria etc. (...)
(MINAS GERAIS, 11 de Fevereiro 1920, p.7)
Quando olhamos para os cursos ministrados podemos perceber que em grande parte
eles não se apresentam como nada muito estranho ao universo feminino: desenhista, guardalivros, datilografia, telegrafista, costuras, flores, chapéus, tudo isto nos remete à concepção
que se tinha da mulher como um sexo-frágil, incapacitada para atividades tidas como mais
“pesadas”, próprias para o sexo masculino. A disciplina que mais se destacaria entre as outras,
sem dúvida, é a de “chimico analista”. Infelizmente não encontramos mais qualquer menção a
esta atividade nas fontes posteriores, o que talvez indique que a disciplina não foi bem aceita,
ou mesmo, tenha se transformado em outra atividade.
Outra disciplina que também nos chama a atenção é o curso de desenho. Segundo
Giseli Novelli, a respeito do ensino profissional em São Paulo, o curso de desenho era tido
como muito importante pelos educadores do ensino profissional, sendo uma matéria teórica
de fundamental importância para aguçar a visão e as noções de percepção. De acordo com a
autora, sobre o ensino profissional em São Paulo:
Durante os anos de 1910, o Desenho foi a única cadeira teórica considerada central e básica nos
cursos profissionalizantes, tanto na Escola Profissional Feminina como na Escola Profissional
Masculina e cuja função era a de preparar as alunas para os diferentes ofícios. (NOVELLI, 1995, p.
7)
Buscando ir um pouco mais fundo em nossas questões vamos retroceder um pouco no
tempo e tentar elucidar como se dava a educação feminina no século XIX. O estudo de Diva
do Couto Gontijo Muniz Um toque de gênero: história e educação em Minas Gerais (18351892) (GONTIJO MUNIZ, 2003) é bastante explicativo quanto à educação que era destinada
às mulheres durante o período imperial.
A partir da leitura do livro de Diva Muniz podemos constatar que às mulheres eram
reservados apenas o ensino básico das primeiras letras, e também de disciplinas tidas como
mais “sensíveis” pela sociedade. Algumas de família mais abastada, ou órfãs que caiam nas
graças de alguma freira caridosa, poderiam ter o privilégio de estudar em uma escola
secundária que poderia oferecer mais possibilidades de aprendizado do que as simples escolas
primárias, incluindo disciplinas como o francês, a literatura, pintura, os bordados, a costura, a
música, o desenho, geografia, história economia doméstica. Desta forma, as escolas femininas
mais sofisticadas – e apenas elas – passaram a preparar a mulher para uma convivência não
mais limitada à casa, mas também aquela dos salões de festas. Isto não rompe com os velhos
papéis associados à mulher: o de mãe, esposa, educadora – ela era responsável pela primeira
educação dos filhos – e representante da família em sociedade.
Segundo Louro (1997), esse ideal hegemônico de educação da mulher para o domínio
da casa explica a exclusão do ensino superior e das disciplinas científicas na sua formação,
bem como a predominância da educação moral e das prendas domésticas, acrescidas de uma
instrução intelectual superficial. O objetivo da educação feminina era preparar a mulher para
cuidar dos filhos e do marido e, no caso das mais afortunadas, para ter certo brilho social,
ocupando “as importantes posições de senhora”.
Devemos ressaltar que a grande maioria das moças não usufruíram deste tipo de
educação mais sofisticada. O ensino que prevalecia era mesmo o das primeiras letras, e isto
quando muito, visto que a maioria da população era analfabeta neste período. Agora, sua
educação tornava-se necessária não para que ela concorresse com os homens no espaço
público, mas para que ela pudesse cumprir melhor seu papel de irmã, esposa e mãe.
Quando olhamos para o perfil das disciplinas da Escola Profissional Feminina de Belo
Horizonte, podemos perceber diversas permanências em relação à educação feminina do
século XIX. Tendo como base o texto de Guacira Lopes Louro e Dagmar Meyer A
escolarização do doméstico. A construção de uma escola técnica feminina (1946-1970)
(LOURO; MEYER, 1996), podemos observar como o ensino técnico-profissional feminino
foi antes de tudo uma forma de capacitar a mulher para serviços que não estavam muito
distantes da esfera doméstica. A Escola Profissional Feminina de Belo Horizonte apresenta
diversos aspectos que nos remetem a esta esfera do lar, como é o caso dos cursos de costura,
bordados, chapéus, desenhos e etc. Como apontam Lopes e Dagmar, este ensino técnicoprofissional é mais uma espécie de escolarização dos saberes domésticos – ou seja, uma
transformação dos saberes domésticos em saberes escolares - que propriamente um ensino
estritamente profissional. As matérias ofertadas nos indicam a possibilidade de serviços que
podem ser executados na própria casa ou em um ambiente reservado, permanecendo assim
uma estratégia educacional que buscava restringir a mulher ao espaço do lar.
Estratégia que comungava com as imagens femininas que representavam a mulher
como boa dona de casa, caracterizada por virtudes como a submissão, a docilidade, a
habilidade nas tarefas do lar e no cuidado com os filhos. Em um artigo publicado no jornal O
Estado de Minas, datado de 23/07/1919, podemos perceber a circulação dessa imagem:
A mais legítima aspiração das moças, o seu desejo mais vivo, o seu destino natural é o casamento.
E quam poucas se preparam para esse estado! A maioria entra no seu lar como o aprendiz na
officina, para começar a instrucção doméstica desde os primeiros rudimentos. Mas o officio de
dona de casa tem os seus percalços, a que só se habitua uma menina sob as vistas exigentes da mãi.
Mui poucas terão o bom senso e a boa vontade de descer do céu, aonde as transporta um casamento
de amor, à realidade da vida, a fazer o seu aprendizado de governo da casa. (...)
E a mulher que não sabe proporcionar ao marido uma mesa agradável, deixa escapar das mãos um
dos fios indispensáveis na trama da felicidade doméstica. (ESTADO DE MINAS, 23 de Julho
1919, p.1)
Como se pode observar, a partir do trecho acima, a imagem da mulher não vem dissociada do
casamento e do cuidado com o lar. O casamento é “o seu desejo mais vivo, o seu destino
natural”. E para que o casamento ande bem é necessário que a mulher saiba “proporcionar ao
marido uma mesa agradável”.
Embora a Escola Profissional não significasse um completo rompimento com as
representações construídas em relação à mulher, ela também não se constituía apenas por
permanências em relação ao sistema educacional, e mesmo social, do século passado. Existe
aí sim, alguns elementos que são inovadores e podem ser relacionados com o tempo no qual o
país vivia. Como dissemos anteriormente, o esforço por integrar o ensino voltado para as
mulheres à uma lógica de profissionalismo capitalista é, com certeza, uma amostra de uma
mudança de sensibilidade em relação à um tempo de mudanças.
Como podemos ver a questão do ensino profissional não estava ligada apenas à
questão da integração do país em uma economia industrial. Ela ia mais além, buscando
justificar-se no bem social, na integração da massa a um sistema maior, em benefício do país.
Se por um lado, percebemos que por trás deste discurso positivo acerca do ensino profissional
existe um forte interesse econômico por parte das elites, por outro não podemos afirmar que
elas não acreditavam que de fato estavam realizando algo de positivo para as camadas
populares. De fato, uma coisa não exclui a outra.
Em relação ao ensino profissional a Escola Profissional Feminina está incluída entre
uma série de outras iniciativas que buscavam vincular a idéia de ensino à idéia do trabalho,
como é o caso da Escola de Aprendizes Artífices5. De fato, podemos notar algumas iniciativas
muito próximas de ambas as partes, como, por exemplo, as exposições realizadas com o
intuito de apresentar os trabalhos produzidos pelas alunas. Esta notícia publicada no jornal
Minas Gerais nos dá uma pequena amostra do aspecto destas exposições:
“Escola Profissional Feminina de Belo Horizonte
Exposição de trabalhos
Será inaugurada hoje às 14 horas na Escola Profissional Feminina, pelo seu diretor professor
Benjamin Flores, a exposição de trabalhos: bordados, chapéus, desenhos, costura, etc.,
confeccionados pelas alunas daquele educandário, durante o corrente ano letivo.
A exposição poderá ser visitada diariamente das 13 às 16 horas, até o próximo dia 2 de dezembro
do corrente ano.
Exames – Encerraram-se ontem, às 14 horas, as inscrições para exames de primeira época, que
terão início logo no começo de dezembro, de acordo com a tabela afixada na secretaria da Escola.
Só poderão submeter-se às provas as alunas que houverem requerido suas inscrições até aquela
data.” (MINAS GERAIS, 29 Novembro 1939, p.8).
Como podemos observar, a exposição ocorre no final do ano, e funciona como uma espécie
de “balanço” do que foi feito ao longo do ano letivo. A partir dos trabalhos expostos
podemos, mais uma vez, enfatizar o fato de que as disciplinas ministradas não rompiam
completamente com a idéia do lar: “bordados, chapéus, desenhos, costura” nos remetem
diretamente para um universo feminino relacionado à esfera do lar. O curso propunha um
aprendizado que pudesse fornecer às moças uma profissão que elas pudessem realizar dentro
de suas casas, que funcionasse como um acréscimo à renda do marido. Como a matéria é
datada de 1939, podemos pensar que ao longo dos passados 20 anos da inauguração oficial da
escola, ela ainda manteve suas características fundamentais, à exceção do curso de físicoquímica, que como já apontamos, não aparece mais nas outras fontes encontradas6.
4. Conclusões
Já nos voltando para a conclusão de nosso texto podemos pensar que o ensino
profissional feminino, no início do século XX, ainda associa-se à idéia de que o lugar
prioritário da mulher é o lar. Não percebemos nas disciplinas fornecidas pela escola qualquer
característica que ligasse as alunas ao trabalho “naturalmente exercido pelos homens”. Flores,
bordados, costuras, chapéus, ainda são imagens que remetem ao universo doméstico, buscam
manter a mulher no espaço reservado a elas. É claro que este é o resultado de uma situação de
tensão entre um tradicionalismo presente em uma sociedade que sempre buscou restringir o
espaço destinado às mulheres e o surgimento de uma sociedade capitalista e industrializada,
em conjunto com o desejo das mulheres de se emanciparem do domínio masculino, ou ao
menos de ocuparem lugares sociais antes restritos à elas. Concordando com Giseli Novelli
(NOVELLI, 2006b) afirmamos que o esforço por fundar um ensino profissional feminino já
revela alguns aspectos de um duplo papel que começava a ser exercido pelas mulheres: o de
mães, esposas e donas de casa e o de trabalhadoras assalariadas. Sem dúvida, podemos
afirmar, a partir da Escola Profissional Feminina de Belo Horizonte, que a mulher se
encontrava cada vez mais dividida entre o lar, a escola – que se tornava mais acessível a elas –
e o trabalho.
Não seria exagero dizer que a Escola Profissional Feminina de Belo Horizonte é, de
certa forma, produto de novas sensibilidades surgidas então. Ela busca refletir o moderno, em
uma cidade moderna. É uma forma de se integrar ao discurso, de se construir a partir dele,
mesmo que suas práticas ainda estejam arraigadas pelos velhos hábitos. De certa forma é
inegável que ela representa uma vontade de mudança em relação ao lugar da mulher na
sociedade. Mas por outro lado ela também mostra como este era um passo difícil de ser dado.
Não podemos nos esquecer das várias facetas que a história nos oferece, e que um estudo
aprofundado só pode dar-se a partir da exploração de diversos pontos de vista.
5. Referências
BARRETO, A. Resumo Histórico de Belo Horizonte 1701-1947. BH: Imprensa oficial, 1950.
BERMAN, M. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura na modernidade. São Paulo,
Companhia de bolso, 2007.
CARVALHO, M. L. M. 2006b. Dispensário de Puericultura: Escola Profissional Feminina na
Assistência e Proteção à Infância. In: VI Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação
“Percursos e Desafios da Pesquisa e do Ensino de História da Educação”, Uberlândia-MG, em
abril.
CHAMON, Carla Simone. Escolas em reforma, saberes em trânsito: a trajetória de Maria
Guilhermina Loureiro de Andrade (1869-1913). Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008.
CHAMON, Carla Simone. História da Escola de Aprendizes Artífices de Minas Gerais
(1910-1914). Projeto de pesquisa. 2008.
GOODWIN JR., James William. Cidades de papel: Imprensa, Progresso e Tradição.
Diamantina e Juiz de Fora, MG (1884-1914). 2007. Tese de Doutorado. Universidade de São
Paulo, USP, Brasil.
GONTIJO MUNIZ, Diva do Couto. Um toque de gênero: história e educação em Minas
Gerais (1835-1892). Brasília, D.F.: Editora Universidade de Brasília; FINATEC, 2003.
JULIÃO, Letícia. Belo Horizonte: itinerários da cidade moderna (1891-1920). In: DUTRA,
Eliana Regina de Freitas; SILVEIRA, Anny Jackeline Torres. BH: horizontes históricos. Belo
Horizonte: C/Arte, 1996.
LOPES, Eliane Marta Santos Teixeira; GALVÃO, Ana Maria de Oliveira. Historia da
educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
LOURO, Guacira Lopes; MEYER, Dagmar. A escolarização do doméstico. A contrução de
uma escola técnica feminina (1946-1970). In: Educação, sociedade e culturas. Nº 5. 1996,
PP. 129-159.
NOVELLI, Giseli. Ensino Profissionalizante na cidade de São Paulo: um estudo sobre o
currículo da Escola Profissional Feminina nas décadas de 1910, 1920 e 1930. Associação
Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação – ANPED, 1995. Disponível em:
http://www.anped.org.br/reunioes/27/gt09/t0910.pdf. Acesso em: 01/05/2010.
6. Periódicos pesquisados
Almanack Guia de Bello Horizonte, 1912-1913.
Correio da Tarde, B.H., 05/12/1917.
Diário da Tarde, B.H., 1910-1934.
Estado de Minas, B.H., 1919.
Minas Gerais, B.H., 1938-1941.
Tarde, A, B.H., 1912-1932.
Colocar texto da Carla Chamon – CEFET e outro.
1
Trabalho desenvolvido no âmbito do projeto “História, Escola e Trabalho: a Escola de Aprendizes Artífices de
Belo Horizonte”, financiado pela Fapemig e pelo CNPq.
2
Embora todo o livro de Berman circule em torno das mudanças geradas na modernidade, o capítulo 1, O fausto
de Goethe: a tragédia do desenvolvimento, parece ser o que melhor evoca a idéia da velocidade e do dinamismo
no qual estas ocorrem.
3
Os estudos de Maria Lucia Mendes de Carvalho (CARVALHO, 2006b) e Giseli Novelli (NOVELLI, 1995) nos
dão notícia de que esta iniciativa não ocorreu de maneira isolada em Belo Horizonte. As autoras, nos referidos
textos, trabalham com o ensino profissional feminino em São Paulo abordando um período próximo ao nosso.
4
Um anúncio que encontramos sobre a Escola Profissional Feminina, datado de fevereiro de 1920, estabelece a
fundação da escola em 1919 – dado que contradiz com a afirmação de Abílio Barreto. É provável que seu
fundador Benjamin Flores desejasse reivindicar uma certa legitimidade para a Escola, desconsiderando os anos
de funcionamento sem o diploma reconhecido. Embora Barreto não especifique em que mês de 1920 o registro
dos diplomas da escola foi autorizado, é possível que no momento do anúncio isto já tenha sido efetuado. Assim
1919 figuraria como o marco zero da escola e os anos anteriores, talvez anos incertos, movidos pela estruturação
da escola, seriam relegados ao esquecimento.
5
A fundação da Escola de Aprendizes Artífices de Minas Gerais se deu através do Decreto nº 7566, assinada
pelo presidente Nilo Peçanha em 1909. Este decreto determinou a criação de 19 Escolas de Aprendizes Artífices
no território brasileiro, associando o progresso ao amparo às classes populares.
6
Nossa pesquisa foi até o ano de 1941. Até este ano ainda são encontradas notícias sobre a Escola Profissional
Feminina. É interessante perceber nos jornais desta época, principalmente no Minas Gerais, por ser o jornal
oficial do governo, a tentativa de associar a escola com o governo do Estado Novo. Resta a dúvida se tal
associação era ou não voluntária por parte da Escola Profissional Feminina e seu diretor, o dr. Benjamin Flores.
Uma das coisas que mais nos chamou a atenção foi a existência de um Centro Cívico-literário “Getúlio Vargas”,
ao qual as alunas da Escola Profissional Feminina eram associadas. Até onde fomos na pesquisa não
encontramos outra referência sobre o Centro Cívico-literário “Getúlio Vargas”.
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entre o trabalho, a escola e o lar - CEFET