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PRAÇA SETE, RUA DA BAHIA E PRAÇA DA LIBERDADE: ROTAS
URBANAS DA CENTRALIDADE MODERNA BELO-HORIZONTINA
Marcelo Cedro
Centro Universitário UNA
[email protected]
RESUMO
A cidade de Belo Horizonte, durante as três primeiras décadas do século XX se sustentou como capital moderna
a partir de sua primeira centralidade urbana. Praça Sete, Rua da Bahia e Praça da Liberdade, itinerário material
e simbólico que integrava o discurso de modernidade a partir dos seguintes atributos: arquitetura arrojada,
racionalidade urbana, espaços privilegiados para lazer, entretenimento e consumo, ambiente inovador e de
sofisticação. Após breve delimitação sobre critérios de classificação de uma centralidade, esse artigo, no
segundo momento elenca os valores simbólicos adquiridos pela centralidade urbana belo-horizontina, tendo em
vista a construção de representações construídas pela imprensa, pela literatura modernista e por mensagens
publicitárias. A metodologia de pesquisa utilizada reportou-se à consulta documental de atas, relatórios e ofícios
referentes ao processo de construção de Belo Horizonte; também foram utilizados jornais e revistas publicados
nas três primeiras décadas do século XX, além de recorrer a poesias e memórias dos escritores modernistas que
frequentaram a centralidade urbana da capital mineira, nos anos 1920-30.
Palavras-chave: Praça Sete. Rua da Bahia. Praça da Liberdade. Centralidade urbana. Modernidade.
ABSTRACT
The city of Belo Horizonte, during the first three decades of the twentieth century has been sustained as a modern
capital from its first urban center. Seven Square, Bahia‟ Street and Freedom Square, material and symbolic
journey that integrated the discourse of modernity from the following attributes: bold architecture, urban rationality,
privileged spaces for leisure, entertainment and consumption, innovative and sophisticated. After brief outline of
the classification criteria of a central, this Article, the second lists the symbolic values when acquired by the
central urban Belo Horizonte, in order to construct representations constructed by the press, modernist literature
and advertisements. The research methodology used is reported to the consultation document of minutes, reports
and letters relating to the construction of Belo Horizonte, were also used newspapers and magazines published in
the first three decades of the twentieth century, besides resorting to poetry and memoirs of writers modernists
who attended the urban center of Belo Horizonte, in the years 1920-30.
Keywords: Seven Square. Bahia‟s Street. Liberty Square. Urban centrality. Modernity.
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1 INTRODUÇÃO
Este artigo é parte integrante, após submeter-se a adaptações, de tese de doutorado, em
andamento, elaborada e desenvolvida no programa de pós-graduação em Ciências Sociais
(PUCMINAS). A pesquisa, aqui apresentada, analisa a centralidade urbana da cidade de
Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, considerando sua inserção na dinâmica
de modernidade periférica, peculiar ao processo de urbanização de diferentes países da
América Latina nos século XX. O trajeto, compreendido entre a Praça Sete, Rua da Bahia e
Praça da Liberdade, é parte integrante à área central – planejada pelo poder público
coadunado ao discurso republicano moderno, intrínseco à fundação da capital mineira no
limiar do século XIX. Assim, a intenção é identificar materialidades, simbolismos e
representações, atribuídos a essa centralidade urbana no sentido de ser referência da
modernidade da capital mineira, durante as três primeiras décadas do século XX. Para tal
propósito, optou-se em consultar atas, relatórios e outros documentos vinculados ao
planejamento e à construção da cidade mineira, além das representações construídas pela
imprensa, pelas mensagens publicitárias e pela literatura modernista no período aqui
selecionado.
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BELO
HORIZONTE:
SIMBOLISMOS
E
MATERIALIDADES
DE
SUA
CENTRALIDADE URBANA
A cidade de Belo Horizonte durante as três primeiras décadas do século XX se sustentou
como capital moderna a partir de sua primeira centralidade urbana. Projetada pelo poder
público como ícone da modernidade republicana, seus espaços foram elaborados por
engenheiros sintonizados com o positivismo e com o urbanismo franceses. A área inscrita
no perímetro delimitado pela Avenida do Contorno recebeu prioridade na sustentação do
discurso de modernidade e contava com investimentos que contribuíram para que a cidade
aspirasse ao requinte e à sofisticação. Nesse sentido, afirma-se que a primeira centralidade
urbana da capital mineira tornou-se atração para o consumo, para os serviços e sede
administrativa, mas, sobretudo, referência simbólica e material de uma cidade moderna
quanto à sociabilidade, à moda e ao entretenimento. Seu simbolismo moderno era
demonstrado pelo traçado racional e arborizado da Avenida Afonso Pena, da Praça Sete e
do paisagismo inovador do Parque Municipal que abrigava esportistas e intelectuais. O
trajeto que ia da Rua da Bahia até a Praça da Liberdade, lócus do poder estadual, reunia
vitrines, cafés, livrarias, bomboniéres e estabelecimentos comerciais de contornos modernos
representantes das novidades da urbe.
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A cidade de Belo Horizonte foi projetada e construída no propósito de ser uma centralidade.
Na acepção de Flávio Villaça (2001), muitas cidades são consideradas centralidades na
medida em que exercem forte influência sobre determinada região. Tito Aguiar (2010) – ao
sintetizar as proposições de Dulci (1999) e de Resende (1974) –, reforça que a mudança da
capital “buscou propiciar a Minas Gerais um centro, uma cidade que pudesse polarizar não
apenas a vida política e administrativa do Estado, mas também a economia e a sociedade
mineiras”.
Sob a perspectiva geopolítica, a escolha foi estratégica devido à sua posição central e à
proximidade do antigo centro administrativo, isto é, a menos de 100 quilômetros de distância
da cidade de Ouro Preto. Desde então, facilitava o acesso e a integração com outras
regiões do Estado. O antigo eixo central do Estado permanecia como sede política, embora
encampando nova roupagem republicana. Tradição e modernidade traduzidas no projeto da
nova capital em virtude do propósito de existir como polo irradiador e aglutinador de Minas
Gerais1.
Heliana Salgueiro (2001) contrasta a noção de centralidade regional atribuída à nova capital
mineira com a antiga sede administrativa do Estado. A intenção das elites mineiras
republicanas era construir uma cidade como “agente de polarização de uma região [...] a
cidade capital como nó de comunicação”, em sintonia aos princípios da economia política
francesa. Em contrapartida, as cidades coloniais mineradoras se localizavam “no fim dos
caminhos e não em seus cruzamentos”, portanto, fadadas ao isolamento e às dificuldades
de comunicação.
Entretanto, o nível de centralidade investigado nesse artigo não se reporta à influência
regional ou geográfica exercida pela nova capital mineira, mas de fato, ao princípio da
existência de várias centralidades internas no espaço urbano, de acordo com
posicionamentos de Spósito (1997), de Villaça (2001), de Heitor Frúgoli Jr. (2008) e de
Hansen (2002). Segundo os pesquisadores, não são critérios demográficos ou geográficos
que norteiam a noção de centralidade, mas sua capacidade funcional e seu nível de
conexão com outras espacialidades da urbe. A atração e a referência exercidas por aquela
centralidade que permite o deslocamento de pessoas de outros territórios da cidade no
sentido de usufruir serviços, trabalho ou lazer.
Sugere Pesavento (2007) que a centralidade pode denotar referenciais simbólicos atribuídos
ao espaço urbano. A Praça Sete e os desdobramentos da área central são caminhos
traduzidos em importante centralidade urbana na medida em que concentravam as
principais atividades comerciais, financeiras, administrativas e de entretenimento nos
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primeiros anos da nova capital mineira. Mas também, a rota urbana – cujo percurso iniciavase na Avenida Afonso Pena, cruzando a Praça Sete, subindo a Rua da Bahia até a Praça da
Liberdade – representava referenciais simbólicos da modernidade periférica. A delimitação
dessa trajetória se constituiu como a primeira centralidade da capital mineira através da
interação entre agentes e receptores do poder simbólico de pressupostos conferidos pela
modernidade periférica. Posteriormente, em distintas temporalidades, outras centralidades
urbanas se constituiriam, ostentando, o discurso de modernidade: o entorno da Lagoa da
Pampulha (década de 1940-50); a região da Savassi (décadas 1960-70); o bairro Belvedere
(década 1990 até os dias atuais).
Pierre Bourdieu (2007) constata que o poder simbólico alcança legitimidade através da
produção e da reprodução de sua crença, multiplicando-se no intuito de ser reconhecido e
consagrado. As centralidades urbanas adquirem valores simbólicos quando se constituem
em espaços referenciais e naquilo em que se acredita reproduzir a inteligibilidade do
discurso moderno. Nessa perspectiva, a centralidade urbana da Praça Sete e de suas
adjacências, além de concentrar atividades políticas, financeiras e de serviços, também é
dotada de capital simbólico. O discurso daquilo que se compreende ou se constrói como
referente ao moderno – busca pelo novo, racionalidade urbana, cosmopolitismo, espaços
culturais e de sociabilidade – na interpretação de Bourdieu (2007) são caracterizados de
estruturas estruturantes, ou seja, “... instrumentos de conhecimento e de construção do
mundo objetivo [...] que também se estruturam subjetivamente e se reproduzem através de
materialidades simbólicas”. A eficácia dessa reprodução se concretiza através de projetos
político-culturais empreendidos pelos agentes: especialistas, intelectualidade, poder público
e atores privados. Nos países de modernidade periférica, as intervenções estéticas no
espaço urbano contribuem para a reprodução do poder simbólico de agentes envolvidos. Os
instrumentos de dominação simbólica se traduzem nas materialidades urbanas, definidas
por Bourdieu, como estruturas estruturadas, isto é, projetos e intervenções urbanísticas,
monumentos, traçados de praças de ruas e de avenidas, realização de eventos, edificações,
etc. que incorporam em si a crença da modernidade e são associados a se tornar
referências espaciais da cidade moderna. Todavia, o reconhecimento do poder simbólico
pelos seus receptores não é percebido como algo arbitrário ou violento em razão de sua
sutileza “quase mágica que permite o equivalente daquilo que é obtido pela força física ou
econômica [...] de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo, e
deste modo ação sobre o mundo” (BOURDIEU, 2007).
A propósito da Avenida Afonso Pena, seu projeto previa uma extensão que se iniciava na
Praça do Mercado (atual Praça Rio Branco, na Rodoviária) percorrendo trajetória que
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cruzava a Avenida Amazonas, na Praça 12 de outubro, cortando a Rua da Bahia, Avenida
Brasil e Paraúna (depois Getúlio Vargas), até finalizar-se em seu limite com a Avenida do
Contorno, no Alto do Cruzeiro (atual Praça Milton Campos). Posteriormente, esse roteiro
sofreria várias alterações com a sua ampliação e o seu alargamento. Desde sua idealização,
a Avenida Afonso Pena tornou-se indispensável artéria da capital, imagem que se
estenderia durante as décadas seguintes e se consolidaria na contemporaneidade.
Inspirada pelos bulevares parisienses, o poder público empreendeu arborização da avenida
através da plantação de centenas de mudas de fícus benjamina que emolduravam a rigidez
do traçado urbano, dando charme e formosura à área central ao contrastar sombra e
luminosidade (DUARTE, 2007). Similar à finalidade do Parque Municipal, a vegetação
urbana da Avenida Afonso Pena se propunha a exercer a função ecológica de pulmão da
cidade e também o embelezamento estético, conforme pressupostos urbanísticos modernos
que unia o útil ao belo. Duarte (2007) atribui importante papel às árvores plantadas,
especialmente os fícus perfilados, que alcançaram valor simbólico de patrimônio coletivo e
se juntaram a outros fatores que estimulavam o encontro e que permitiram a apropriação do
espaço pelos habitantes, apesar de em muito serem práticas pertencentes às elites belohorizontinas (CHACHAM apud DUARTE, 2007). Todavia, apesar dos privilégios sociais que
restringiam a presença da maioria da população da capital mineira, os cafés, os cinemas e o
footing, provavelmente também recebiam a presença de eventuais frequentadores de outros
territórios da urbe que eram seduzidos e atraídos pelo cenário de sociabilidade, cuja
referência do moderno fazia-se visível material e simbolicamente.
As elegantes belo-horizontinas adquiriram dois hábitos de bom gosto. Fazer esporte
no Parque e fazer footing na Avenida. Pela manhã, o Parque: o remo, o tênis, o
exercício, o oxigênio, o sol, principalmente, que dá à pele o tom retour de plage tão
em voga. À tarde, na hora azul, a linda perspectiva da Avenida cheia de crepúsculo,
como uma grande taça de coquetel cor de topázio (REVISTA BELLO HORIZONTE,
1933).
Importantes edifícios foram construídos no significativo corredor da cidade, reunindo
múltiplos estilos arquitetônicos em distintas temporalidades e de grande valor simbólico e
material para a capital mineira: Igreja São José (1910), Palácio da Justiça (1912),
Conservatório de Música (1926), Automóvel Clube (1929), Cine Brasil (1932), Café Nice
(1939), Teatro Francisco Nunes (1950), Prédio da Prefeitura (1937), Palácio das Artes
(1971), Othon Palace Hotel (1978), dentre outras edificações não menos importantes ali
estabelecidas que alteravam, ao longo dos anos, a configuração original da Avenida Afonso.
A Praça Sete – coração vital da cidade e embrião da futura vocação metropolitana de Belo
Horizonte (MONTE-MOR, 1994) –, considerada o ponto nevrálgico da área central por ligar
importantes territórios da urbe e também por concentrar importantes atividades e serviços.
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Localizada no cruzamento com as Avenidas Afonso Pena e Amazonas: o epicentro dessa
centralidade urbana moderna.
Denominada, originalmente, Praça Doze de Outubro, teve nome alterado para Praça Sete
de Setembro no ano de 1922, diante das comemorações mineiras do centenário da
Independência do Brasil. No local, foi realizada cerimônia para inauguração de obelisco para
ali ser erigido (DIÁRIO DE MINAS, 1922). Todavia, somente no ano de 1924 é que o
monumento- conhecido como „pirulito‟ foi tardiamente colocado (BELO HORIZONTE, 1924).
Pode afirmar-se que a instalação do „Pirulito‟ assinalou definitivamente a Praça Sete como
signo do moderno, ao passo que outras importantes cidades no cenário internacional, a
exemplo de Paris, Londres, Roma e Washington, já ostentavam em suas praças, naquele
período, semelhante monumento. Posteriormente, também as cidades de Buenos Aires e de
São Paulo teriam áreas urbanas demarcadas com similar marco arquitetônico, embora de
maiores dimensões físicas. O obelisco sugere o simbolismo materializado na função de dar
visibilidade à demarcação do moderno na centralidade urbana belo-horizontina. Fato
igualmente pertinente, ao destacar que, na década de 1960, o pirulito foi transferido para a
Praça Diogo de Vasconcelos, na Savassi, no sentido de delimitar simbolicamente aquele
território que surgia para a modernidade e demonstrava fluidez e movimento das
centralidades urbanas belo-horizontinas.
As praças da era moderna –, ilustradas pelos modelos de Londres e de Paris que romperam
com o passado medieval –, não foram concebidas para a permanência ou para a
concentração de pessoas e de atividades (SENNET, 1998). Controlar a circulação, manter a
ordem, privilegiar a mobilidade, atrair cafés e requintadas moradias eram pautas de
urbanistas. Também projetavam praças monumentais que alteraram a paisagem parisiense
e londrina a partir do século XVIII. Lugares de encontro e de múltiplos usos experimentados
por essas cidades centenárias iam “sendo consumidos pelo espaço tomado como
monumento a si mesmo” (op.cit.): exemplo ilustrado pela belo-horizontina Praça da
Liberdade.
Os espaços públicos projetados por Aarão Reis não se destinavam à permanência ou à
aglomeração (LEMOS, 2010), mas para atender a estética, a inovação e a circulação. No
entanto, a cidade pulsava e contradizia os seus planejadores, apesar de dados espaços
terem sido apropriados por parte da elite belo-horizontina. Investimentos comerciais
privados, práticas de sociabilidade como o footing e as matinés das salas de cinema
espalhadas pela Avenida Afonso Pena, e também localizados no trecho da Praça Sete,
eram sinais vitais para romper a frieza da cidade.
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As simbologias do moderno, principalmente como referência de visibilidade, de
comunicação, de atração, de consumo foram sustentadas pela Praça Sete nos anos que se
seguiram ao século XX até a contemporaneidade: circularidade urbana, visibilidade,
diversidade arquitetônica, missas campais, lócus do consumo, espaço de movimentos
sociais e lutas políticas etc. (MAGALHÃES, 2008).
O Parque Municipal também foi outro símbolo moderno localizado na área central de Belo
Horizonte – paisagem arborizada que margeava a Avenida Afonso Pena –, projetado para
ser o maior parque da América do Sul (MINAS GERAIS, 1895). O paisagista francês Paul
Villon espelhou-se no modelo inglês que representava, assim como nas modernas cidades
daquele período, a necessidade de existir um pulmão da urbe, interagindo o bucólico com o
urbano. Na modernidade anglo-europeia, o surgimento dos parques urbanos visava
“institucionalizar o tempo livre dos trabalhadores (ócio) nestes espaços. Isso aconteceu
porque a urbanização reduziu os espaços livres que poderiam servir para o lazer. O controle
dos corpos dos trabalhadores atrelado à construção dos parques” (MACEDO; SAKATA,
2002). Entretanto, não foi o processo de industrialização que provocou o surgimento dos
parques no Brasil, em virtude de seu início tardio, em meados do século XX, mas a
construção de simulacros de uma vida europeia para as elites locais (op.cit.). Nas cidades
do Rio de Janeiro e de São Paulo, desde o período imperial e no alvorecer da República,
paisagistas e botânicos franceses projetavam parques influenciados pelo romantismo e pelo
ecletismo europeu.
No interior do Parque, previa-se a construção de espaços destinados ao lazer, como um
restaurante e um cassino, além de um observatório meteorológico dedicado à ciência. Área
verde, lago, cascatas e pontes compunham o projeto ecológico da centralidade belohorizontina e que foi inaugurado dois meses antes da nova capital, embora sem contar com
a finalização total de suas obras. Na intenção de manter a proposta moderna de
arborização, a prefeitura, durante a administração municipal do prefeito Flávio dos Santos,
adquiriu 13.500 mudas de árvores de variadas espécies, junto ao Horto Florestal e também
vindas das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo (BELO HORIZONTE, 1924).
O Parque representaria importante espaço de sociabilidade, embora restrito aos seus
frequentadores, na maioria membros da elite belo-horizontina. Em suas dependências, a
prática de esportes, como o remo, o ciclismo e o futebol, ilustrava a importação da
mentalidade „burguesa‟ moderna baseada no higienismo e na vida física saudável. O
esporte moderno era uma prática concebida por garotos e jovens, filhos da alta elite local,
sinônimo de sofisticação nos primeiros anos da capital mineira. Exemplo disso foi a
fundação, no ano de 1908, nas dependências do parque, do que viria a ser uma instituição
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esportiva mineira, o Atlético Mineiro football club, futuramente, alteraria sua denominação
para Clube Atlético Mineiro. Segundo Euclides Couto (2003), as partidas eram disputadas
em campos improvisados – eram eventos isolados, seletivos e restritos aos frequentadores
do parque que, gradativamente cresciam devido ao apoio institucional recebido, já que
muitos de seus praticantes eram filhos de políticos e de pessoas influentes na capital
mineira.
Apresentações artísticas, bandas de música, festas beneficentes eram eventos frequentes
que atraiam a presença ao parque, de grupos sociais de maior poder aquisitivo da cidade,
como o “comparecimento de gentis senhoritas e as senhoras que acompanham [...] no
concurso de barraquinhas [...] e a cada momento, se ouvia uma bem ensaiada orquestra,
composta de numerosas e belas mocinhas da nossa elite” (O BEIJA-FLOR, 1914).
O culto ao novo sendo submetido permanentemente à modernidade euro-americana fez
com que os países periféricos negassem o passado, passando a considerá-lo sem qualquer
significação. O presente se torna sempre vinculado ao internacional. A arquitetura dos
edifícios da centralidade investigada ilustra bem a modernidade pela qual a cidade de Belo
Horizonte pretendia simbolizar. A tendência eclética, com predominância do estilo
neoclássico francês, compunha o complexo administrativo estadual pelas feições do Palácio
do governo, das secretarias e das repartições públicas.
O Palácio da Administração, projetado pelo engenheiro José de Magalhães –, que realizou
estudos na Escola de Belas Artes de Paris –, reunia sofisticação, imponência e elegância
segundo o gosto europeu. Abílio Barreto (1996) enumera a variedade de materiais utilizados
na sua construção e em seu acabamento interno que representavam o requinte e o moderno
daquele momento: armações de ferro das escadarias, estruturas metálicas da cobertura,
além do mármore Carrara provenientes da Bélgica; telhas fabricadas em Marselha; pinho de
Riga importado da Letônia.
A pintura e a decoração dos múltiplos cômodos, corredores, pavilhões e salões ficaram a
cargo do renomado artista alemão, Friedrich Anton Steckel e de sua equipe de decoradores
nacionais e estrangeiros que, além dos trabalhos internos realizados no Palácio da
Liberdade, também ornamentaram outros importantes edifícios públicos e privados
(BARRETO, 1996). Mesmo após a sua inauguração oficial, em 1898, os trabalhos não
cessaram e tiveram continuidade nos períodos posteriores, destacando-se que, em 1920, a
edificação passou por reformas para receber a visita diplomática de soberanos belgas.
Painéis alegóricos e desenhos artísticos, elaborados entre os anos 1900 a 1902, retratavam
temáticas vinculadas à ordem, ao progresso, à fraternidade e à liberdade – lemas
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revolucionários franceses. Grande parte da decoração dos forros, cúpulas e paredes dos
salões seguia a moderna técnica estuque e papier mâche. O piso em parquet, importado da
Rússia; candelabros em bronze, estilo Luís XVI; lustres de cristais tchecos e revestimentos
em madeira dourada acrescentavam-se ao rico mobiliário, às finas porcelanas e aos
elegantes tapetes importados da França. Avanço tecnológico para a época e utilizado pelos
projetistas dessa moderna construção, foi a estrutura metálica desmontável, proveniente de
oficinas belgas, fabricada com detalhes florais para ser utilizada como escadaria do palácio
mediante tendência art-nouveau.
Lynn Hunt (1991) destaca que, ao priorizar a história cultural da Revolução Francesa, os
objetos cotidianos daquele período traziam em si a nuança do ardor revolucionário.
Mobiliário, porcelanas, espelhos decorados com cenas e alegorias temáticas que
representavam a prosperidade, liberdade, igualdade e a vitória, associadas às deusas
homônimas da antiguidade clássica. Richard Sennet (2006) acentua que, dentre os
emblemas revolucionários, o predileto recaía sobre a figura feminina e maternal de
Marianne: “rosto de uma jovem deusa grega, dotada de um nariz reto, testa alta e queixo
bem-formado”. Sob esse prisma, na fachada frontal superior do Palácio da Liberdade, foi
esculpido o rosto dessa figura alegórica, representando divindades clássicas associadas à
vitória e à liberdade, símbolos atribuídos ao processo revolucionário de fundação da
república francesa contra a tirania do Antigo Regime, representado por figuras paternais e
masculinas. A transposição dessa liberdade ao planejamento urbano, principalmente na
gestão municipal parisiense do prefeito Barão de Haussmann, consistia em “espaços sem
obstrução, nem limites, onde tudo fosse transparente e nada escondido” (SENNET, 2006).
Nesse sentido, percebe-se a transposição de signos modernos europeus para contextos
bastante distintos de modernidade periférica. A fundação da república brasileira da qual a
cidade de Belo Horizonte se constituiu em grande ícone.
Outros três edifícios, destinados a sediar as secretarias estaduais2, compunham – ao lado
do Palácio da Administração –, o complexo administrativo da Praça da Liberdade e também
ostentavam bustos esculpidos em suas fachadas superiores que expressavam a
feminilidade republicana francesa. Denominação deste espaço que realça o discurso de
liberdade dos conjurados mineiros inscrito nos pressupostos políticos-culturais republicanos
dos quais o símbolo maior, naquele período, a cidade de Belo Horizonte. As sedes do poder
público, propositalmente polarizadas em local elevado na área central da cidade,
resgatavam o simbolismo da acrópole clássica ao proporcionar visão abrangente e
privilegiada sobre a pólis, garantindo eficácia no controle social.
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Sob essa ótica, a concepção de liberdade sugerida pelo projeto urbanístico pode ser
vinculada sobre a análise da cidade ateniense na qual “a liberdade não se equiparava à
anarquia, mas a uma existência ordenada dentro de uma comunidade que era governada
por um código estabelecido” (FINLEY, 1988). O pensamento político moderno, sobretudo a
partir dos teóricos contratualistas nos séculos XVII e XVIII, resgatava princípios do mundo
clássico envolvendo democracia, liberdade e cidadania que seria incorporado ao discurso
republicano euro-americano e absorvido pelos países periféricos.
Na área central, outras importantes edificações públicas foram construídas – influenciadas
pelo estilo arquitetônico neoclássico –, destinadas aos poderes judiciário e legislativo: os
Palácios da Justiça e do Congresso, ambos na Avenida Afonso Pena. Todavia, as obras do
Palácio do Congresso não tiveram continuidade e, posteriormente, o edifício dos Correios e
o prédio da Prefeitura lhe substituíram. O edifício que se transformou no Instituto de
Educação foi inicialmente projetado para sediar o fórum da cidade.
Na concepção de Villaça (2001), o centro de uma cidade não pode existir por si mesmo,
apesar de sua condição ser planejada por urbanistas e pelo poder público. O espaço é
dialético e a sua produção suscita deslocamentos e processos sociais que delimitam quais
funções e significados são atribuídos às áreas internas da cidade. O urbanista ainda
discorda dos elementos comumente apontados na caracterização das áreas centrais:
destino dos sistemas viários principais da urbe; local que abriga importantes instituições e
grandes estabelecimentos de comércio. Tais equívocos são apontados como falsas ideias
da existência de espaços congelados e privados de movimento dialético. Não são definições
abstratas ou edificações preconcebidas que irão definir a natureza de um centro. Villaça
ilustra tais afirmações ao demonstrar que não são as edificações construídas que tornam os
espaços áreas centrais ou parte delas. Quando isso ocorre, é justificado pelo processo de
apropriação ocorrido no entorno dessas edificações, atribuindo a elas parte integrante das
áreas centrais. Desde então, teoriza que “o centro de um circulo e/ou triângulo não preexiste
em relação a ele, enquanto ponto sim, enquanto centro não. Um ponto somente torna-se
centro se e quanto houver o círculo” (VILLAÇA, 2001).
Conceitos de modernidade empregados na zona urbana, sobretudo, realçados pela
arquitetura e pelo urbanismo, implementados pelo poder público, mas também,
posteriormente por intervenções de atores privados na Rua da Bahia. Nesse sentido, cogitase que a rota urbana percorrida da Praça Sete até a Praça da Liberdade transformou-se em
centralidade ao emitir valores simbólicos e referenciais de uma cidade moderna. Mesmo
elitista e de fato um espaço tacitamente aceito como segregador, o discurso era
amplamente divulgado.
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A Rua da Bahia, nas três décadas do século XX, complementou a área central para que
essa se tornasse centralidade moderna através da parceria econômica entre atores privados
e o poder público. Flávio Villaça (2001) afirma que essa via, “a Rua do Ouvidor mineira”,
concentrava comércio, centralizava serviços, lazer e encontro das elites. Essa função foi
adquirida pela ligação direta entre a estação ferroviária e “a colina onde se formaram os
primeiros bairros de mais alta renda e onde também foi erigido o Palácio da Liberdade”
(op.cit.). Nesse sentido, “não foi pela sua proximidade ao Palácio – questão de status – mas
por drenar clientela de alta renda” (ibidem) que a Rua da Bahia tornou-se importante eixo do
consumo, do entretenimento e dos negócios. Villaça ainda sinaliza que a decadência da Rua
da Bahia iniciou-se na década de 1930, ocasião em que passava a perder a hegemonia
atrativa dos setores de alta renda em razão da expansão de novas áreas centrais, como a
Praça Sete.
Em alusão a Jane Jacobs (2000), a cidade é dotada de comportamento aparentemente
misterioso e indomável que foge ao controle e às expectativas daqueles que a planejam. As
cidades necessitam de usos onipresentes, mediante mecanismos diversos, complexos e
densos que “propiciem entre eles uma sustentação mútua e constante, tanto econômica
quanto social” (JACOBS, 2000). Para a pesquisadora, o diagnóstico de zonas urbanas
equivocadas consiste na ineficiência entre o planejamento urbana e a pulsação da vida real.
Não significa aqui afirmar que a área central da cidade de Belo Horizonte foi um
empreendimento malsucedido, mas sim, apontar que a artificialidade de seus ambientes
dificultou inicialmente a integração de seu espaço ao comportamento social. Assim, a
pesquisadora impõe severas críticas à teoria urbanística ao sugerir que “é tolice planejar a
aparência de uma cidade sem saber que tipo de ordem funcional ela possui”. O modelo
utópico de espaços hierarquizados e de funções predefinidas determinava as espacialidades
a ser desenvolvidos e estabelecidos a indústria, o comércio, o lazer e o habitat residencial.
Criar “ambientes agradáveis, cujos moradores fossem dóceis” era a meta do planejamento
urbano europeu do século XIX, cujos pressupostos inspiraram a concepção e o redesenho
de cidades brasileiras.
2.1 Literatura e imprensa: representações modernas da centralidade belo-horizontina
As centralidades urbanas podem ser impregnadas de referências materiais e simbólicas
(PESAVENTO, 2007). Por exemplo, marcos arquitetônicos, fluxos de pessoas, locais de
encontro, práticas religiosas e de consumo são caracterizados por sua materialidade urbana
que, no entanto, passa a significar algo especial para grupos e indivíduos. A partir desses
espaços, referenciais simbólicos são construídos através de sentimentos de identidade que
se associam à memória, ao pertencimento, ao estilo de vida e à experiência vivida. Pode
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afirmar-se que as centralidades urbanas – construídas e recriadas pela intervenção do
poder público, setores privados e ações comunitárias – dão forma à cidade e estimulam a
construção de suas representações.
A literatura se inscreve em uma das modalidades metodológicas para resgatar imagens e
discursos construídos no que concerne às referências espaciais da cidade (PESAVENTO,
2002). O escritor se utiliza do texto para interpretar, compreender e reconstruir, realizando
interseções entre a realidade e a literatura. Nesse sentido, Becker (2009) assinala que
representações são relatos sobre a sociedade, sobre como as pessoas “tentam contar a
outras pessoas o que sabem sobre sua sociedade”. Esses relatos não englobam a
totalidade social, mas fragmentos dela. Além do mais, o sociólogo sublinha que são
impressões alinhadas às experiências vividas mediante interações individuais e coletivas de
dado recorte espacial e temporal.
Nessa ótica, Cyro dos Anjos, Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade ilustraram
percepções do moderno, presentes na centralidade urbana de Belo Horizonte no período em
que habitaram, antes de seguir carreira no Rio de Janeiro. Impressões de intelectuais da
geração literária modernista, provenientes de cidades do interior e que se envolveram com
novas experiências e sensações de uma cidade capital. Em alusão a Mannheim (WELLER,
2010), ressalta-se que os literatos possuíam vínculo geracional, não no seu sentido
biológico ou cronológico, mas na perspectiva de compartilharem experiências e sensações
vividas ao flanarem, frequentarem e explorarem espaços da urbe e em adquirirem novos
hábitos da vida moderna. Cada grupo etário pode vivenciar o seu tempo interior em um
mesmo período cronológico.
A Praça Sete, a Rua da Bahia, Avenida Afonso Pena, Praça da Liberdade – territorialidades
urbanas, referenciadas simbolicamente pelo moderno e frequentadas pelos escritores
modernistas nas décadas de 1920 e 1930. Michel de Certeau (2008) sugere que as cidades
podem ser vistas além do olhar totalizador de acadêmicos, de políticos e de urbanistas, ao
passo que pode ser pensada pelas práticas cotidianas daqueles que se situam embaixo “de
onde cessa a visibilidade”, isto é, “pelos praticantes ordinários da cidade”. Imagens da
cidade produzidas por experiências de “caminhantes e pedestres”, condição na qual se
situavam Dos Anjos, Nava e Drummond, jovens que – alternavam-se entre o
deslumbramento, o entusiasmo e a frustração – buscavam se adequar à vida urbana.
Os trechos selecionados e abaixo reproduzidos, embora extrapolem o formato habitual de
citações acadêmicas, ilustram a representação dos autores, acerca da centralidade urbana
belo-horizontina, como marco referencial de pulsação do estilo de vida moderno.
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[CYRO DOS ANJOS]
Já me imaginava nos bares, aturdido pelo corre-corre dos garçons, já subia a Rua
da Bahia com os companheiros, já me incorporava ao footing da Praça da
Liberdade, onde em noites de retreta Priscilas outras haviam de surgir aos
punhados. Depois do footing, meu pensamento tomava o bonde, apeava na porta do
Odeon, entrava na sala de projeções, mirava, guloso, a esplendente plateia. A fita
era de Pola Negri. Tudo como diziam as cartas do Newton. E, antes de alcançar a
Pensão Albornoz, onde iria alojar-me, não apenas já assumira o status de cidadão
metropolitano, mas também me arrogara, uma por uma, as prerrogativas estudantis,
em que Belo Horizonte era pródiga (A menina do sobrado, 1994).
[CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE]
Por que será que quanto a gente sobre a Avenida João Pinheiro corrige
insensivelmente a dobra do paletó e passa a mão no pescoço, para ver se não
esqueceu a gravata em casa? (MINAS GERAIS. Kodack, 1930).
O bonde conduz os frequentadores de cinema, que aproveitam a viagem para
discutir as vantagens e desvantagens dos filmes sonoros [...] Gente nos cafés da
Avenida Afonso Pena. Pedaços de maxixe saltam das vitrolas [...] música da xícara
sobre o mármore abafando o chiar dos discos. [...] As vitrines expõem o último
modelo de suéter (MINAS GERAIS. Vamos ver a cidade, 1930).
Em frente ao cinema Pathé, eu espiava os cartazes de fitas para sempre silenciosas.
Às sextas feiras havia sessão Fox no Odeon, e as três meninas, da rua Goiás
compareciam de branco, de vermelho e de namorado. O mundo era pequeno e
limitava-se ao norte pelo Café Estrela, na Rua da Bahia, e a leste pela casa Oscar
Marques, na Avenida Afonso Pena [...] (MINAS GERAIS. Da velha cidade, 1931).
[PEDRO NAVA]
A noite caiu. Era hora de irmos nos preparar para o baile no Clube Belo Horizonte
[...] Entramos a pé por Goiás, descemos solenemente a Rua da Bahia e subimos a
escada de ferro do clube que coruscava de luzes e de apanhados de serpentina.
O salão do Estrela era um prodígio de decoração belle-époque. Havia cinco portas
de frente. Serviam só as três do meio porque as dos extremos tinham sido viradas
em vitrines onde se exibiam bebidas caras, queijos estrangeiros, latarias.
Ah! Noites...as calçadas ficavam cheias e como o tráfego de Bahia era escasso,
seus declives e a subida até a linha de bondes eram ocupados pelos rapazes
esperando a entrada das namoradas para seguirem-nas.
As idas e vindas da conversa iam nos levando de um a outro dos viajantes
modernistas paulistas. Não deixávamos um deles sem nosso dedo de prosa. O era
um grupo só, ora ele subdividia em vários na Praça Sete, em Afonso Pena, Bahia.
(Beira-Mar, memórias 4, 1985)
Boemia, lazer e cinemas da Rua da Bahia, o footing e as retretas da Praça da Liberdade e
os deslocamentos entre esses espaços pelas linhas de bonde ou pela flânerie tornaram-se
anseios de uma juventude ávida por novas sensações, descobertas e experiências. Esses
pontos eram referenciais da modernidade na primeira centralidade urbana da cidade de Belo
Horizonte aos olhos de uma geração, sobretudo, provenientes de municípios do interior do
Estado3.
As categorias discursivas – modernidade e progresso –, absorvidas pelo ideal republicano e
sustentadas no final do século XIX, pelo poder público e pelas elites republicanas, se
14
tornavam recorrentes, sobretudo, nas representações construídas pela imprensa belohorizontina, importante aliada na construção da identidade belo-horizontina. A imagem de
uma cidade em crescimento contínuo e rumo ao progresso se alternava com as críticas
submetidas à existência de seus problemas urbanos característicos da era moderna
(insuficiência de verbas públicas, incapacidade do sistema público de transportes,
dificuldades no transito, crescimento urbano desordenado etc.).
As representações de cidade capital moderna atribuídas à Belo Horizonte, embora não
tenham alcançado um discurso uníssono, foram sustentadas por grande parte da imprensa
escrita, nas décadas seguintes à sua inauguração oficial em 1897. Certas matérias e
depoimentos publicados pelos jornais periódicos desqualificavam a cidade, atribuindo-lhe
características de tédio e de monotonia que, no entanto, se viram acompanhadas de
discurso enaltecedor da modernidade e do progresso da capital mineira. A maioria das
críticas depreciativas veiculadas era proveniente da imprensa do interior do Estado,
principalmente das cidades opositoras – Juiz de Fora e Ouro Preto – à escolha de Belo
Horizonte como sede administrativa estadual (CASTRO, 1997). Altos gastos do poder
público, descrença do projeto urbano de integração regional, condições naturais insalubres,
cidade burocrática e vazia, dentre outras impressões que eram publicadas no decorrer dos
anos à inauguração oficial da capital – não somente através de textos jornalísticos, mas
também de crônicas e de depoimentos redigidos por visitantes e por intelectuais renomados
–, contribuíram negativamente para a imagem da urbe e também para que “a indústria e o
desenvolvimento esperado tardassem a chegar” (op.cit.).
Entretanto, a imprensa local – desde os tempos da transferência da sede administrativa para
o antigo arraial – emitia certa parcialidade ao compartilhar dos propósitos das elites
republicanas, ao enaltecer seu projeto de modernidade e, quase se eximindo às críticas ao
poder público estadual. Maria Céres Castro (1997) justifica essa postura adotada pela
imprensa belo-horizontina, no sentido de cumprir papel agregador de indivíduos e de grupos
sociais em torno de uma cidade construída e ocupada artificialmente por pessoas vindas de
fora e –, por antigos moradores que tiveram perdidas suas referências identitárias em
relação ao espaço. De fato, o discurso emitido pela imprensa escrita, desde os tempos das
polêmicas provocadas em torno da escolha da nova capital estadual, girava em torno de
construir positivamente a imagem do arraial tendo em vista ser essa “a única possibilidade
de transformação da vida pobre e decadente” (op.cit.) e, posteriormente, também na cidade
construída, “condensando-se numa comunidade avassalada pelo progresso que ainda não
conseguiu enraizar-se” (idem).
15
Longe de afirmar-se que o conteúdo jornalístico seja absorvido absolutamente pelo público
leitor, mas é uma ferramenta utilizada para encampar um discurso enfático de modernidade
para a capital mineira. Max Weber (2002), ao emitir comentários sociológicos sobre a
imprensa moderna – em 1910 –, assegura que ela “introduz, sem dúvida, deslocamentos
poderosos nos hábitos de leitura e com isso provoca poderosas modificações na
conformação, no modo e na maneira como o indivíduo capta e interpreta o mundo exterior”.
O ritmo frenético de mudanças da modernidade potencializa informações atualizadas e
opiniões emitidas que são repassadas ao homem moderno que, anseia em se dar conta
daquilo que acontece na sua época. O sociólogo destaca o caráter seletivo da imprensa
escrita quanto ao que se publica e como as opiniões emitidas nos editoriais e nas
reportagens são variáveis e inesgotáveis na era moderna, circunscrevendo-se em relações
de poder e de interesses.
Pierre Bourdieu (1997) destaca que o campo jornalístico é um espaço autônomo de
relações, de disputas e de normas específicas. Os meios de comunicação, além de
interpretar os fatos e representar parcialmente o real, influenciam outros meios de
comunicação, isto é, selecionam matérias temáticas que são reproduzidas e repetidas em
vários órgãos da imprensa. O que se publica em um jornal, muitas vezes é reproduzido por
outros jornais em virtude de objetivar alcançar e/ou garantir seu publico leitor. Entretanto,
não se poderia ainda afirmar que, naquela época – dos primeiros anos do século XX – o
campo jornalístico em Belo Horizonte já havia constituído sua autonomia e seu
profissionalismo. Castro (1997) delimita o ano de 19264, como data emblemática na
transição de uma fase ainda relativamente amadora da imprensa local, em virtude da
existência de jornais e de revistas marcadas pela durabilidade efêmera5 e que exerciam “a
função de potencialização das vozes, estreitamento de laços, criação de identidade e
possibilidades de visibilidade pública aos interesses, aspirações e desejos de indivíduos e
grupos que se radicam no espaço da nova cidade” (idem).
Para a ilustração de tal afirmativa, optou-se aqui pela leitura de jornais diários e semanais
circulados pela cidade até a década de 1930, sem, contudo eleger rigorosamente um título
específico. A seleção de reportagens concentrou-se na data comemorativa de aniversário de
fundação de Belo Horizonte – 12 de dezembro –, período emblemático para a cidade,
sobretudo, quando a urbe completou uma, duas e três décadas, nos respectivos anos de
1907, 1917 e 1927, embora também tenham sido consultadas outras datas significativas e
aproximadas a esse corte temporal sugerido. Entretanto, para o espaço destinado a este
artigo, optou-se em não reproduzir todo o material pesquisado, tendo em vista a similaridade
de suas manchetes enaltecedoras do moderno.
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Modernidade, progresso, presente otimista e perspectivas promissoras para a cidade são
assim registrados:
Fabulosa cidade que surgiu das ruínas de vetusto arraial, hoje cortada de belas e
largas avenidas com ajardinamentos de luxo e todo o conforto de uma cidade
moderna [...] Surto de arrojo e de iniciativa como igual não registra a nossa raça,
Belo Horizonte representa um fato único e virgem das cidades modernas (DIÁRIO
DA TARDE, 1910).
Quando a cidade completou duas décadas de existência no ano de 1917, prossegue o
enaltecimento da modernidade belo-horizontina:
É com orgulho que constatamos que ela se um tornou um centro verdadeiramente
moderno, uma capital digna desse nome e do povo laborioso e ordeiro que, leve na
sua construção, traçada e executada com uma rapidez pasmosa, um dos melhores
surtos da sua energia e da sua vitalidade [...] (DIÁRIO DE MINAS, 1917).
A Cidade de Minas é hoje o futuroso Belo Horizonte, centro urbano que já passou
dos âmbitos da simples promessa. (CORREIO DA TARDE, 1917).
Também se noticiou a visita da caravana modernista na capital mineira, em 1924, com
bastante entusiasmo: “Belo Horizonte hospeda desde ontem um brilhante grupo de artistas e
intelectuais paulistanos que veio a Minas recolher aspectos, costumes e tradições das
nossas cidades históricas” (DIÁRIO DE MINAS, 1924a). Enquanto os visitantes ilustres
permaneciam na cidade, a euforia modernizante era divulgada pelo noticiário: “o surto do
progresso que vem tendo ultimamente a capital, tornando-a um centro de primeira ordem,
não só social como materialmente falando, irradia pelas vizinhanças” (DIÁRIO DE MINAS,
1924b).
As notas positivas do progresso persistiam no discurso otimista veiculado, quando do
aniversário de trinta anos da capital mineira: “hoje, a cidade tem seu quarteirão de bancos,
os estabelecimentos de crédito se multiplicam. Nas ruas e avenidas, mais de 1000
automóveis cantam pela voz das suas sirenes, o hino da velocidade e da vertigem” (DIÁRIO
DE MINAS, 1927).
Atração, concentração, circulação, consumo, indústria, arrojada arquitetura, especulação
imobiliária, lazer e segregação eram características peculiares de cidades modernas,
identificadas, portanto, na centralidade urbana belo-horizontina. O consumo e o estilo de
vida são dois elementos identificados por Lemos (2010) para melhor visualizar não somente
a segregação e os serviços da área central, mas também para “traduzir os valores dos
ideais modernos”. Nesse sentido, identificam-se na imprensa escrita belo-horizontina,
incontáveis anúncios publicitários que se concentram a certos espaços públicos, traduzindo
empreendimentos privados oferecidos na rota urbana da modernidade belo-horizontina
localizada em sua territorialidade central.
17
O antropólogo Everardo Rocha (2000) sugere que a publicidade veicula materiais simbólicos
que orientam comportamentos “do que pode ou do que deve ser ali projetado tornando-se
uma
modalidade
de
experiência
cultural
e
da
identidade
coletiva”.
Formatar
comportamentos, construir identidades, produzir narrativas e, também: delimitar, categorizar
e hierarquizar espaços urbanos – eis algumas das funções do discurso publicitário. Bourdieu
(2007) sinaliza que o consumo traça distinções sociais que são traduzidas na crença do que
se está consumindo. O consumo relacionado à posição social e ocupacional permite
classificar os níveis de diversos capitais existentes (econômico, cultural, social etc.) que são
investidos e reproduzidos socialmente através de hierarquias. Desde então, o anúncio de
produtos, de serviços e de atividades idealizadas como modernas seleciona consumidores e
categoriza espaços urbanos onde são veiculados e vendidos.
Para ilustrar, foram selecionados, aleatoriamente, anúncios e discursos publicitários – em
temporalidades variadas – publicados por variados jornais nos quais se associam produtos
modernos e inovadores, mensagens de sofisticação e de magia, às territorialidades urbanas
compreendidas “pelo vetor sul, subindo-se a Rua da Bahia, o quadrante mais coadunado
com a modernidade da belle époque tinha como perímetros as avenidas Afonso Pena,
Amazonas e Liberdade (depois João Pinheiro)” (LEMOS, 2010).
Restaurantes, hotéis, delikatessens, cafés, salões de beleza, sapatarias, alfaiatarias, loja de
confecções, de artigos de viagem e de produtos elétricos, cristaleiras, revendedoras de
automóveis, dentre outros estabelecimentos, aludiam à inovação e à sofisticação na
propaganda de seus produtos e de seus serviços na provável intenção de atrair
consumidores de maior poder aquisitivo para àquela centralidade.
As mensagens publicitárias, abaixo, são identificadas ao perímetro delimitado pela Avenida
Afonso Pena:
Hotel de Minas: Av. Afonso Pena 575. Montado com esmero, capricho e
escrupuloso asseio, possuindo ótimo quartos (A CAPITAL, 1907).
A instaladora – material elétrico em geral, Afonso Pena 315 (CARNAVAL, 1922).
Conservas, bebidas finas, licores, presuntos e objetos para presentes encontram-se
no Trianon. O Trianon é frequentado pela alta sociedade belo-horizontina
(CARNAVAL, 1924).
Casa Crystal – o maior sortimento de cristais finos, louças, porcelanas. Av. Afonso
Pena 707 (O ESTADO, 1927).
Expressões estrangeiras eram constantemente utilizadas, além dos termos progresso,
universal, moderno como adjetivos enaltecedores na construção de discurso cosmopolita e
18
arrojado. Moda, elegância e tecnologia auxiliavam a delimitar a centralidade urbana belohorizontina a tornar-se referência simbólica da modernidade.
Seguindo pela Rua da Bahia a caminho da Praça da Liberdade, a diversidade de serviços e
de estabelecimentos continuava a delimitar a referência moderna da centralidade belohorizontina: lojas e estabelecimentos concentrando serviços, atividades financeiras e
espaços de entretenimento. Lemos (2010) constata que “o comércio mais requintado
especializou-se na Bahia e Afonso Pena”.
Salões de beleza que, além de prestarem serviços de barbearia e cabelereiro, vendiam
perfumes importados; alfaiatarias que realizavam, sob medida, cortes e costuras a partir de
finos tecidos confeccionados; lojas vendendo roupas e acessórios: sinais da moda belohorizontina a serviço das elites sintonizadas ao cosmopolitismo. De acordo com Simmel
(1998), seguir à moda adquire tendência à imitação, uma das condições “fundamentais do
ser” para assegurar satisfação e confiança ao indivíduo perante suas ações, estimular
hábitos e estilos de vida desenvolvidos nas cidades modernas, além de marcar distinções
sociais quando realça as diferenças através de vestimentas, expressões e julgamentos
estéticos.
Salão high-life – Francisco Allevato. Este importante ateliê acaba de receber um
completo sortimento de perfumarias que vende pelos preços mais reduzidos.
Luxuoso salão de cabelereiro e barbeiro, é o preferido pela alta sociedade belohorizontina. Av. Paraopeba, em frente ao Grande Hotel, esquina com Rua da Bahia
(BELO HORIZONTE, 1905);
Casa London. Especialidades em artigos para homens, perfumarias, chapéus,
calçados, bengalas, objetos de arte. Rua da Bahia, 884 (A CAPITAL, 1913);
Parc Royal – o grande baluarte da elegância Horizontina. Rua da Bahia, 894 (O
HORIZONTE, 1924).
Cafés, Restaurantes, bomboniéres, delikatessens eram muito comuns e contavam em seus
espaços internos com salão de bilhar, projetores de cinema e outros atrativos aos
frequentadores.
Confeitaria Porto Arthur. Bebidas finas, artigos para fumantes, artigos de
confeitarias, frutas secas e frescas, biscoitos de diversas marcas, cerveja frappé,
chops, conservas em latas, balas, queijos, a final, um completo sortimento de
confeitarias, figos secos e ameixas. Rua da Bahia, 995 Salles & Prata (BELO
HORIZONTE, 1905)
O Trianon é a sorveteria mais chique, mais elegante; onde a fina flor de Belo
Horizonte aflui. Rua da Bahia, 911 (REVISTA BELLO HORIZONTE, 1933).
4 CONCLUSÕES
No propósito de interligar o Estado de Minas Gerais e construir uma centralidade regional, o
processo de transferência e de construção de sua nova capital transformou Belo Horizonte
19
em ícone nacional da modernidade republicana. Entretanto, o nível de centralidade
investigado não se limitou a estratégias geográficas em níveis regionais. Reportou-se às
áreas internas ao espaço urbano, caracterizadas, não somente pela sua capacidade
funcional ou pelo seu nível conexão, mas, sobretudo, pelos seus referenciais simbólicos.
Nesse sentido, optou-se em atribuir ao itinerário compreendido entre Praça Sete, Rua da
Bahia e Praça da Liberdade, a denominação de centralidade urbana da capital mineira
representante da modernidade belo-horizontina. As materialidades e simbolismos de seu
percurso elencavam os seguintes atributos característicos do ser moderno: requinte
arquitetônico, racionalidade urbana, espaços privilegiados de lazer e de sociabilidade,
ambiente de sofisticação, inovação, novo estilo de vida e consumo. Esse discurso moderno
se sustentava pelas representações simbólicas referendadas, sobretudo pelas notícias
veiculadas pela imprensa local; pelas percepções e interpretações dos escritores
modernistas, acerca dos espaços por eles frequentados; e, pelas mensagens publicitárias
em apelo ao progresso e ao cosmopolitismo. Posteriormente, em temporalidades distintas,
outras centralidades da capital mineira foram delimitadas, ancoradas por representações
materiais e simbólicas da modernidade, demonstrando fluidez e movimento dos espaços
urbanos.
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Notas
[1] Não obstante, Otávio Dulci (1999) –, ao se referir às pesquisas do economista Paul Singer – alerta
que, somente na década de 1920 é que a capital mineira iniciou o papel de núcleo integrador da
economia estadual, “[...] e mesmo assim de forma limitada, sem abranger o Estado como um todo, mas
apenas as zonas menos desenvolvidas do centro para o norte, cujo comércio se fazia através da capital”.
[2] Secretarias do Interior, das Finanças e da Agricultura. Contudo, no edifício destinado à Secretaria do
Interior, agregava-se a Secretaria de Polícia e a Inspetoria de Higiene e o Instituto Vacínico. No prédio da
Secretaria das Finanças, sediava-se também a Coletoria e a Imprensa Oficial. A Junta Comercial e o setor
específico de repartição e de regulamentação de terras dividiriam o prédio da Secretaria da Agricultura
(BARRETO, 1996).
[3] Em trabalho de grande relevância acadêmica, Luciana Andrade (2004) destaca as visões subjetivistas
de Ciro dos Anjos, Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade, confrontadas com o processo de
transformação da capital mineira nos anos 1920-30. A pesquisadora identifica o sentido de ambivalência
da modernidade em sua relação entre progresso e nostalgia.
[4] Lançamento do jornal Correio Mineiro: “assinala o advento da moderna imprensa belo-horizontina,
constituída como empreendimento comercial, voltado para a viabilização do retorno do capital investido”
(CASTRO, 1997).
[5] Castro (1997) realizou levantamento dos principais jornais que circulavam em Belo Horizonte, a partir
das respectivas datas indicadas: Bello Horizonte (1895); A Capital (1896), Diário de Minas (1899), Jornal
do Povo (1899), A Epocha (1904), Vida Mineira (1906), Correio do Dia (1909), Diário da Tarde (1910),
Estado de Minas (1912), A Tarde (1912), Estado de Minas (1919), Avante (1924) e o jornal oficial do
Estado, o Minas Gerais. Essa relação refere-se à época da construção da cidade até o decorrer da
década de 1920. A pesquisadora revela que a maior parte era produzida artesanalmente e de curta
existência, inclusive, muitos deles não sobrevivendo após períodos eleitorais. O Diário de Minas foi
23
exceção e teve maior durabilidade, devido “à sua ligação com o Partido Republicano Mineiro”, tornandose, ao lado do Minas Gerais, órgãos que se sintonizavam ao discurso do Estado.
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