UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO COPPEAD DE ADMINISTRAÇÃO MARCELO SAMPAIO DA FRANCA COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR ENDIVIDADO: UM ESTUDO EXPLORATÓRIO DA EXPERIÊNCIA DE FAMÍLIAS NA COMPRA DO CARRO RIO DE JANEIRO 2013 MARCELO SAMPAIO DA FRANCA COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR ENDIVIDADO: UM ESTUDO EXPLORATÓRIO DA EXPERIÊNCIA DE FAMÍLIAS NA COMPRA DO CARRO Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Administração, Pós-Graduação Instituto COPPEAD em de Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Administração. Orientadora: Leticia Moreira Casotti, D.Sc. Rio de Janeiro 2013 F814c Franca, Marcelo Sampaio da Comportamento do consumidor endividado: um estudo exploratório da experiência de famílias na compra do carro / Marcelo Sampaio da Franca. – Rio de Janeiro: UFRJ, 2013. 151 f.: il.; 31 cm. Orientadora: Leticia Moreira Casotti. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto COPPEAD de Administração, 2013. 1. Comportamento do Consumidor. 2. Marketing. 3. Administração – Teses. I. Casotti, Leticia Moreira (Orient.). II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto COPPEAD de Administração. III. Título. CDD 658.8 MARCELO SAMPAIO DA FRANCA COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR ENDIVIDADO: UM ESTUDO EXPLORATÓRIO DA EXPERIÊNCIA DE FAMÍLIAS NA COMPRA DO CARRO Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Administração, Pós-Graduação Instituto COPPEAD em de Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Administração. Aprovada em _________________________________________________________ Prof.ª. Leticia Moreira Casotti, D.Sc. (Orientadora) – COPPEAD/UFRJ _________________________________________________________ Prof.ª. Maribel Carvalho Suarez, D.Sc. – COPPEAD/UFRJ _________________________________________________________ Prof. Vinicius Andrade Brei, D.Sc. – EA/UFRGS DEDICATÓRIA Dedico esta dissertação a Leandro de Oliveira Leal (in memoriam) AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, por guiar meus passos, por me capacitar a superar mais um desafio e por não me deixar "inquietar com preocupações, guardando sempre meu coração e meus pensamentos em Sua paz". Agradeço a Ivanovna e Márcia Sampaio, as mulheres da minha vida desde sempre, por criarem um ambiente perfeito para meus estudos e por serem meu porto seguro, meus exemplos, minhas parceiras. Agradeço também a Marco Polo, por toda torcida e oração. Agradeço a Carolina Senna, por fazer a vida bonita de qualquer jeito, e a Maria do Carmo Senna, pelo carinho e tratamento sem igual. Agradeço a Leticia Casotti, pelo acolhimento, confiança e orientação. Agradeço a Helio Celidonio, de quem partiu a sugestão para cursar o mestrado, por todo apoio e incentivo, e também ao Banco Central, por estimular o aperfeiçoamento acadêmico e profissional de seus servidores. Agradeço a Anderson Pires, Brunna Pinho, Daniel Pimenta, Luiz Gustavo Schiavo e Yandra Bredoff, pelas conversas que ajudaram a definir rumos importantes da pesquisa. Agradeço à Cátedra Fiat de Estudos de Consumo, pelo apoio em toda a pesquisa de campo. Além disso, agradeço os problemas que foram compartilhados por profissionais da Fiat do Brasil sobre experiências recentes com consumidores endividados pela compra do automóvel. Agradeço a Vera Estrella, pela gentileza de ceder salas para a realização de algumas entrevistas. Agradeço também aos casais que compartilharam suas experiências de dificuldades financeiras, muitas vezes me recebendo em suas casas. Agradeço aos professores e demais profissionais do COPPEAD, pelos ensinamentos e pela atenção dedicada aos alunos. Agradeço ainda a toda turma 2011, pela companhia ao longo do curso, e especialmente a Carlos Ambrosio, Celina Rebello, Debora Mattioda, Edgar Ferreira, Glauce Nascimento, Leonardo Sertã, Mariana David, Michel Cohen e Natalia Miralles, cuja ajuda foi fundamental em diversas ocasiões do mestrado. RESUMO FRANCA, Marcelo Sampaio da. Comportamento do consumidor endividado: um estudo exploratório da experiência de famílias na compra do carro. Rio de Janeiro, 2013. Dissertação (Mestrado em Administração) – Instituto COPPEAD de Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013. O presente estudo exploratório procurou entender a experiência de dificuldades financeiras vivida por famílias que se endividaram para adquirir um automóvel. De natureza qualitativa, a pesquisa contou com vinte entrevistas em profundidade junto a casais que financiaram a compra do carro e não conseguiram efetuar os pagamentos previstos. Dentre os achados do estudo, destaca-se que o automóvel aparece como um luxo necessário, pois, ao mesmo tempo em que sinaliza o pertencimento desses casais a um grupo social com o qual desejam se identificar e ser identificados, também marca sua diferenciação em relação àqueles "sem nenhuma condição financeira". Além disso, no financiamento do carro, que se soma a uma rotina de parcelamento de compras, a preocupação de conseguir fazer o valor da prestação "caber no bolso" parece limitada ao momento da aquisição, deixando as famílias com um orçamento sensível a eventuais comprometimentos da renda. De uma forma geral, os achados de pesquisa apontam para relatos que mostram famílias iludidas em diversas situações que permeiam o processo de consumo do automóvel. Montadoras, por sua vez, precisam estar atentas ao tratamento que seus clientes têm recebido das financeiras a elas coligadas e das agências terceirizadas de cobrança, cujas práticas são comparadas as de agiotas. Chama-se atenção ainda para a necessidade de as empresas promoverem tanto a concessão responsável de crédito quanto a educação para o consumo. Palavras-chave: Endividamento. Comportamento do Consumidor. Família. Carro. ABSTRACT FRANCA, Marcelo Sampaio da. Comportamento do consumidor endividado: um estudo exploratório da experiência de famílias na compra do carro. Rio de Janeiro, 2013. Dissertação (Mestrado em Administração) – Instituto COPPEAD de Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013. The present exploratory study sought to understand the types of financial difficulties experienced by families who run into debt to buy a car. Qualitative in nature, the research involved in-depth interviews with twenty couples who financed the purchase of the car and could not make the payments. Among the study's findings, it is worth noting that the car appears as a necessary luxury because, while it associates these couples to a social group they wish to identify with and be identified by, it also marks the differentiation from those "without financial condition". Moreover, when financing a car, which adds up to a routine installment, the concern of getting the value "to fit in your pocket" seems limited to the time of acquisition, leaving families with a budget sensitive to possible compromises in income. In general, the research findings indicate reports of deluded families in several situations that permeate the process of the purchase of the automobile. Automakers, in turn, need to be mindful of the treatment their clients have received from financial affiliates and third party collection agencies, whose practices are compared to moneylenders. Attention is also drawn to the need for companies to promote both responsible credit granting and consumer education. Keywords: Indebtedness. Consumer Behavior. Family. Car. LISTA DE FIGURAS Figura 1: Movimento de Significado. ................................................................................... 31 Figura 2: Framework da Interação entre Identidades nas Práticas de Consumo. .................... 47 Figura 3: Práticas de Consumo com Cartão de Crédito e Movimento entre os Espaços de Estilo de Vida Socialmente Construídos. ............................................................... 53 Figura 4: Sentimentos Associados ao Automóvel ............................................................... 126 Figura 5: Rotina de Parcelamento ....................................................................................... 127 Figura 6: Sentimentos Associados à Dívida ........................................................................ 128 LISTA DE QUADROS Quadro 1: Perfil dos Entrevistados. ...................................................................................... 66 Quadro 2: Imaginário de Famílias Com e Sem Carro............................................................ 85 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABEP – Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa ANEF – Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras BACEN – Banco Central do Brasil BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CCEB – Critério de Classificação Econômica Brasil CCT – Consumer Culture Theory CDC – Crédito Direto ao Consumidor GNV – Gás Natural Veicular IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística INSS – Instituto Nacional do Seguro Social IPI – Imposto sobre Produtos Industrializados IPVA – Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores SUMÁRIO 1. 2. INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 25 1.1 RELEVÂNCIA DO TEMA ................................................................................... 25 1.2 ORGANIZAÇÃO DO ESTUDO ........................................................................... 27 REVISÃO DE LITERATURA ..................................................................................... 29 2.1 3. 4. SIGNIFICADOS E SENTIMENTOS NO CONSUMO DE AUTOMÓVEIS ......... 29 2.1.1 A perspectiva simbólica do consumo .................................................................. 29 2.1.2 Automóveis e significados .................................................................................. 32 2.1.3 Automóveis e sentimentos .................................................................................. 36 2.2 FAMÍLIA COMO AGENTE DE INFLUÊNCIA ................................................... 40 2.3 O PROCESSO DE ENDIVIDAMENTO DO CONSUMIDOR .............................. 49 METODOLOGIA ......................................................................................................... 58 3.1 PARADIGMA INTERPRETATIVISTA................................................................ 58 3.2 TIPO DE PESQUISA ............................................................................................ 59 3.3 A ESCOLHA DA CATEGORIA ESTUDADA ..................................................... 61 3.4 PERGUNTAS DE PESQUISA .............................................................................. 61 3.5 SELEÇÃO DOS ENTREVISTADOS .................................................................... 62 3.6 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DAS INFORMAÇÕES ..................................... 66 3.7 LIMITAÇÕES DO MÉTODO ............................................................................... 68 DISCUSSÃO DE RESULTADOS ................................................................................ 70 4.1 SIGNIFICADOS E SENTIMENTOS ASSOCIADOS AO AUTOMÓVEL ............ 74 4.1.1. O luxo necessário ............................................................................................... 75 4.1.2. Sonho de consumo parcelado.............................................................................. 77 4.1.3. Patrimônio simbólico ......................................................................................... 81 4.1.4. Imaginário de famílias com e sem carro .............................................................. 84 4.2 A FAMÍLIA NO PROCESSO DE DECISÃO E COMPRA DO CARRO ............... 87 4.2.1 Reconhecimento do desejo ................................................................................. 88 4.2.2 Negociações para um desejo comum .................................................................. 90 4.2.3 O desejo que "cabe no bolso" ............................................................................. 92 4.2.4 Papéis de gênero ................................................................................................. 94 4.3 FORMAS DE LIDAR COM OS CUSTOS RELATIVOS AO AUTOMÓVEL ...... 96 4.3.1 Falhas no planejamento das famílias ................................................................... 97 4.3.2 Gerenciamento dos custos pelas famílias ............................................................ 99 4.3.3 Influência de imprevistos no orçamento das famílias ........................................ 103 4.4 O ENDIVIDAMENTO PARA AQUISIÇÃO DE BENS ...................................... 104 4.4.1 Parcelamento como rotina ................................................................................ 104 4.4.2 Planejando o presente ....................................................................................... 107 4.4.3 A dívida que "cabe no bolso"............................................................................ 109 4.5 DIFICULDADES DE PAGAMENTO: SIGNIFICADOS, SENTIMENTOS E ENFRENTAMENTO ..................................................................................................... 114 5. 4.5.1 O endividamento internalizado ......................................................................... 114 4.5.2 Famílias que enfrentam, que mudam ou que adiam ........................................... 116 4.5.3 Desafios e experiências comuns ....................................................................... 120 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 124 5.1. "ME ENGANO QUE EU GOSTO" ..................................................................... 128 5.2. A EXPERIÊNCIA COM AS FAMÍLIAS............................................................. 130 5.3. OUTRAS CONTRIBUIÇÕES DO ESTUDO ...................................................... 132 5.4. SUGESTÕES PARA PESQUISAS FUTURAS ................................................... 133 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................ 135 ANEXO 1 – ROTEIRO DAS ENTREVISTAS .................................................................. 146 ANEXO 2 – CRITÉRIO DE CLASSIFICAÇÃO ECONÔMICA BRASIL ........................ 151 25 1. INTRODUÇÃO O principal objetivo da pesquisa foi estudar a experiência de dificuldades financeiras vivida por famílias que se endividaram para adquirir um automóvel, isto é, que utilizaram financiamento ou arrendamento mercantil (leasing) como modalidade de pagamento. Para dar suporte à consecução desse objetivo geral, o estudo buscou, mais especificamente: identificar significados e sentimentos envolvidos na compra do carro da família; examinar como é a participação da família na aquisição do veículo; compreender como a família lida com os custos inerentes ao automóvel; entender como a família vê o recurso ao endividamento para a aquisição de bens; e conhecer significados, sentimentos e experiências originados das dificuldades financeiras. 1.1 RELEVÂNCIA DO TEMA Na busca por pesquisas realizadas dentro do tema endividamento do consumidor, foram encontrados estudos principalmente nas áreas de psicologia econômica (KATONA, 1975; LIVINGSTONE e LUNT, 1992, 1993; LEA, WEBLEY e LEVINE, 1993; TOKUNAGA, 1993), de políticas públicas (HILL, 1994), de saúde (DRENTEA, 2000; DRENTEA e LAVRAKAS, 2000; READING e REYNOLDS, 2001; JACOBY, 2002; KASSER, 2002; KASSER e KANNER, 2004) e de proteção ao consumidor (FALLS e WORDEN, 1988; KINSEY e LANE, 1978; LANGREHR e LANGREHR, 1979, 1989; SHEPARD, 1984; SHIERS e WILLIAMSON, 1987; SULLIVAN e DRECNIK, 1984). No âmbito dos estudos de comportamento do consumidor, porém, foram encontradas poucas pesquisas na literatura internacional, que estão associadas ao endividamento pelo uso do cartão de crédito (BERNTHAL, CROCKETT e ROSE, 2005; MENDOZA e PRACEJUS, 1997). No Brasil, foram identificados dois trabalhos relacionando os níveis de materialismo e dívida (MOURA, 2005; PONCHIO, 2006) e um investigando a natureza e as estratégias de enfrentamento dos problemas financeiros de consumidores pobres (MATTOSO e ROCHA, 2005). Mudando o foco da produção acadêmica para a mídia de massa, percebe-se, no entanto, que o endividamento do consumidor constitui tema em reiterada exposição, seja em programas que trazem orientações de finanças pessoais para um consumo equilibrado, seja em notícias que evidenciam os índices de inadimplência e os riscos econômicos associados, seja em reportagens especiais de fim de ano que demonstram o que fazer com o 13º salário (LUQUET, 2013; BRANCO, 2013; SANTOS, 2012). Matérias de jornal chamam atenção 26 para o peso recorde das dívidas no orçamento das famílias brasileiras e que comprometem percentuais cada vez maiores da renda anual (STEPHAN, 2012; DE CHIARA, 2011). Ainda, uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre orçamento familiar havia revelado que sete em cada dez famílias sentem alguma dificuldade para chegar ao final do mês com seus rendimentos (IBGE, 2010). O Relatório de Estabilidade Financeira, publicado pelo Banco Central em 2012, também chama atenção para esse crescimento do endividamento das famílias observado nos últimos anos e atribui como causas a estabilidade da economia associada à expansão do crédito (BACEN, 2012). Níveis tão elevados de endividamento, porém, trazem consigo o potencial de ocasionar dificuldades de pagamento e, por conseguinte, inadimplência. Infelizmente, em meio a uma população sem o grau necessário de conhecimento sobre opções de produtos e serviços financeiros, bem como sobre direitos e deveres como cidadãos e consumidores, esse risco é maior. Araujo e Souza (2010) observam que esse cenário de maior facilidade na obtenção de crédito, aliado à ausência de uma adequada educação financeira, desfavorece tanto comportamentos de consumo mais próximos da realidade socioeconômica dos indivíduos quanto tomadas de decisões mais conscientes sobre riscos e oportunidades. Tendo em vista que a inadimplência acarreta um maior custo de crédito para a sociedade como um todo – é elemento responsável por mais de 20% na composição do elevado spread bancário no Brasil (BACEN, 2011) –, o fato de ela vir apresentando tendência de alta desde março de 2011 e ter saltado de 5,1%, em dezembro de 2011 para 5,4%, em junho de 2012 (BACEN, 2012), aponta para a pertinência de se buscar uma maior compreensão sobre o processo de contração de dívida pelo consumidor e o contexto do surgimento das dificuldades de pagamento. Não obstante sejam múltiplas as fontes de endividamento suscitadas pelo consumo e algumas formas de pagamento, como o cartão de crédito, despontem como vilões da saúde financeira dos consumidores (DE CHIARA, 2012; TURCI, 2011), a pesquisa objeto desta dissertação terá como foco a dívida contraída para a aquisição de um automóvel. Trata-se de um bem comumente tido como sonho de consumo (STEFANO, 2010), com valor unitário relativamente elevado e que pode trazer impactos financeiros significativos e duradouros no orçamento doméstico, principalmente se adquirido por meio de financiamento. A esse respeito, dados da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (ANEF) informam que 51% dos novos carros comercializados durante 2012 utilizaram o financiamento bancário como modalidade de pagamento (ANEF, 2013). Além disso, o 27 Relatório de Estabilidade Financeira apontou o financiamento de veículos como o principal responsável pela alta na inadimplência de pessoas físicas mencionada anteriormente (BACEN, 2012), fato que também foi objeto de grande cobertura jornalística (CUCOLO e NAKAGAWA, 2012; MARTELLO, 2012; WARTH, 2012), ainda mais tendo em vista as medidas do Governo Federal de estímulo à economia via redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na compra de carros (DORIA, 2012). Retomando a perspectiva teórica, vale ressaltar que tanto o endividamento (COHEN, 2007) quanto a família (COMMURI e GENTRY, 2000; EPP e PRICE, 2008) constituem tópicos com agendas de discussão propostas ou sugeridos como oportunidades de pesquisa. Considerando que o automóvel é um bem durável cuja aquisição pode demandar alto envolvimento emocional e financeiro da família, ele se torna propício a uma investigação que congregue ambos os temas. Acredita-se, portanto, que uma pesquisa sobre o comportamento do consumidor de automóvel endividado pode trazer um melhor entendimento sobre motivações que levam uma família a recorrer ao expediente do financiamento para antecipar sua capacidade de consumir bens. Uma compreensão mais clara do contexto em que surgem as dificuldades de pagamento pode igualmente gerar conhecimento acerca de práticas, rituais e negociações relativas ao consumo em família, bem como a respeito dos impactos dos contratempos financeiros sobre a identidade familiar (EPP e PRICE, 2008). 1.2 ORGANIZAÇÃO DO ESTUDO O capítulo seguinte traz uma revisão da literatura acadêmica desenvolvida em torno de três tópicos principais: significados e sentimentos relacionados ao consumo de automóveis; influência da família no comportamento de consumo; e endividamento do consumidor. A seleção de tais tópicos procurou abarcar cada aspecto do tema da presente pesquisa – a experiência de dificuldades financeiras vivida pela família que contrai dívida para a compra do carro. No terceiro capítulo, são descritas e situadas as opções metodológicas da pesquisa objeto desta dissertação, incluindo as justificativas quanto ao paradigma adotado, ao método de coleta de informação escolhido e à categoria de consumo estudada. Além disso, o capítulo ainda traz as questões de pesquisa, os critérios para seleção de entrevistados, os procedimentos de análise e interpretação dos dados e algumas limitações da metodologia empregada. 28 O quarto capítulo descreve resumidamente o histórico da situação de dificuldade financeira vivida pelas famílias pesquisadas, como forma de contextualizar a discussão que se segue acerca dos resultados das entrevistas realizadas. As interpretações propostas se desenvolvem por meio de cinco categorias de análise definidas a partir do discurso dos entrevistados e buscam confrontar os achados do campo e as teorias existentes sobre o assunto de pesquisa. No quinto e último capítulo, são tecidas as considerações finais, que contêm algumas reflexões acerca das principais descobertas proporcionadas pelo estudo, além de sugestões para pesquisas futuras em torno do assunto. 29 2. REVISÃO DE LITERATURA O presente capítulo tem por objetivo apresentar a revisão de literatura, que foi estruturada de forma a apoiar os principais aspectos relativos ao tema de pesquisa, que consiste na experiência de dificuldades financeiras vivida pela família a partir do endividamento contraído para a compra do carro. Inicialmente, procurou-se levantar estudos relacionados ao consumo de automóveis, para se compreender significados associados a esse bem e sentimentos que ele pode provocar nos consumidores. A crença subjacente é de que uma melhor compreensão sobre a importância do carro como objeto de consumo pode trazer luz para o entendimento dos esforços realizados para tê-lo. Em seguida, são apresentadas pesquisas com foco na família, como agente de influência nos hábitos de consumo. Acredita-se que o entendimento das histórias, negociações, rituais e valores vivenciados no seio familiar pode contribuir para a compreensão de padrões no comportamento de consumo. Por fim, foi abordado o tema do endividamento diretamente, procurando checar o que tem sido produzido na literatura acadêmica sobre o mesmo. Este esforço foi útil para verificar como o assunto costuma ser abordado, as proposições teóricas, as dificuldades relacionadas à sua natureza delicada e o relativo pequeno número de pesquisas na área de estudos de consumo abordando o tópico. 2.1 SIGNIFICADOS E SENTIMENTOS NO CONSUMO DE AUTOMÓVEIS 2.1.1 A perspectiva simbólica do consumo A tradição de pesquisa do consumidor centrada nos aspectos socioculturais, experienciais, simbólicos e ideológicos do consumo é a Consumer Culture Theory1 (CCT), denominação proposta por Arnould e Thompson (2005) em artigo no qual fazem uma revisão sintetizada dos cerca de vinte anos de produção acadêmica da área. Apesar do nome, os autores ressalvam que a CCT não constitui uma grande teoria unificada em torno da cultura de consumo, mas uma família de perspectivas teóricas que tratam das relações dinâmicas entre as ações dos consumidores, o mercado e os significados culturais (ARNOULD e THOMPSON, 2005). Essa linha de estudos do consumidor percebe o consumo – e as escolhas e práticas 1 Teoria da Cultura de Consumo. 30 comportamentais associadas – como fenômenos sociais e culturais, em oposição a fenômenos psicológicos ou puramente econômicos (CCT, 2012). Entende-se, portanto, que os indivíduos consomem bens e serviços tendo em vista o referencial sociocultural de significados que aspiram para si próprios e/ou desejam expressar a terceiros. Nesse sentido, investigações sobre como as pessoas retrabalham e transformam os significados simbólicos codificados em anúncios, marcas, ambientes de varejo e bens materiais, de modo a manifestar suas circunstâncias pessoais e sociais, suas identidades e seus almejados estilos de vida, têm sido enfatizadas pela CCT (ARNOULD e THOMPSON, 2005). No âmbito desses estudos relacionados aos aspectos simbólicos do consumo, sobressai a figura dos bens materiais, por sua capacidade de representar e comunicar significado cultural. Miller (2007), por exemplo, ao discorrer sobre a abordagem da cultura material ao consumo, informa que os "estudos de cultura material trabalham através da especificidade de objetos materiais para, em última instância, criar uma compreensão mais profunda da especificidade de uma humanidade inseparável da sua materialidade" (MILLER, 2007, p. 47). Não por acaso o autor considera o livro The World of Goods: Towards an Anthropology of Consumption, de Mary Douglas e Baron Isherwood, publicado em 1979, um dos grandes responsáveis pela revolução dos estudos de consumo em direção a essa abordagem mais atenta aos símbolos e significados culturais. A obra teria advogado a compreensão dos bens materiais como um sistema de comunicação – em uma analogia com a linguagem – e do consumo como um ato que dá visibilidade e estabilidade às categorias da cultura. Nas palavras de Douglas e Isherwood (2004, p. 108), "a função essencial do consumo é sua capacidade de dar sentido". Dessa forma, o entendimento dos bens de consumo como comunicadores de categorias culturais e valores sociais, isto é, como constituintes de um sistema simbólico, abre a possibilidade de "ler" e compreender padrões da própria sociedade através dos seus padrões de consumo (MILLER, 2007). Anos mais tarde, McCracken (1986) ajudaria a consolidar essa abordagem antropológica do processo de consumo (MILLER, 2007), ao vislumbrar a qualidade móvel dos significados culturais comunicados pelos bens materiais. De acordo com o autor, as teorizações vigentes falhavam em observar que o significado está em constante trânsito, em ininterrupto fluido (MCCRACKEN, 1986, 2003a). Essa nova perspectiva teórica se traduziu no esquema conceitual sintetizado na Figura 1 a seguir, que contém três instâncias para a localização do significado (mundo culturalmente constituído, bens de consumo e consumidor individual) e dois momentos de transferência (mundo-para-bem e bem-para-indivíduo). No 31 primeiro momento, a publicidade e o sistema de moda extrairiam significados do mundo culturalmente constituído e os transfeririam para os bens de consumo; no segundo momento, rituais de consumo (posse, troca, arrumação e despojamento) moveriam os significados dos bens para o consumidor (MCCRACKEN, 1986, 2003a). Mundo culturalmente constituído Publicidade/ Sistema de moda Sistema de moda Bens de consumo Ritual de posse Ritual de troca Ritual de arrumação Ritual de despojamento Consumidores individuais Explicação: Localização do significado Instrumento de transferência de significado Figura 1: Movimento de Significado. Fonte: Adaptado de McCracken (1986, p. 72). Outra importante contribuição de McCracken (2003b) diz respeito ao conceito de "significado deslocado", uma categoria específica de significado cultural referente a ideais culturais considerados inacessíveis, que são removidos da vida cotidiana e realocados em uma dimensão distante de tempo ou espaço. Segundo o autor, o consumo seria uma forma utilizada pela cultura para restabelecer o acesso a esses significados. Por essa perspectiva, os bens de consumo serviriam como pontes para o significado deslocado e para uma versão idealizada da vida. Uma questão interessante é que, de acordo com o autor, quando os indivíduos passam da mera cobiça à efetiva posse de um bem, este normalmente é algo além do seu poder de compra. "Não há motivo para aspirar àquilo que está prontamente ao alcance" (MCCRACKEN, 2003b, p. 143). Trata-se de uma compra longamente contemplada e imaginada e que comumente inclui bens de alto envolvimento, como um carro, um relógio, uma peça de roupa, um perfume ou gêneros alimentícios especiais. Assim, a posse de um bem desse tipo funcionaria como prova da existência de um estilo de vida idealizado e aspirado pelo indivíduo. 32 2.1.2 Automóveis e significados O automóvel, na condição de bem material, detém essa capacidade de carregar e transmitir significados variados. De fato, Suarez (2010) observou que a dimensão simbólica atrelada ao seu consumo tem sido o enfoque de diversas pesquisas sobre o consumidor (GRUBB e HUPP, 1968; BELK, BAHN e MAYER, 1982; HIRSCHMAN, 2003; BELK, 2004; DALLI e GISTRI, 2006; LUEDICKE, 2006; LUEDICKE e GIESLER, 2008), nas quais a categoria de produto é analisada. Já na década de 1960, o estudo de Grubb e Hupp (1968) buscou desenvolver uma metodologia que permitisse melhor comparabilidade entre as medidas usadas para a autoconceituação dos consumidores e para os aspectos relevantes de seu comportamento de consumo, a partir de uma pesquisa junto a estudantes proprietários de modelos populares de automóveis Volkswagen e Pontiac. A premissa teórica em que os autores se basearam foi a de que o autoconceito do consumidor está relacionado ao seu comportamento de consumo. Entre outras coisas, isso quer dizer que, quando certo indivíduo consome determinado produto, ele está comunicando que deseja se ver associado com o tipo de pessoa que ele percebe como consumidor daquele produto. Essa espécie de associação simbólica foi suportada pelos resultados da pesquisa, permitindo aos autores concluírem que os consumidores das duas marcas de automóveis se percebiam significativamente diferentes e tinham percepções concretas de estereótipos dos proprietários de cada marca. Além disso, os respondentes se perceberam similares aos outros que possuíam o mesmo carro e bastante diferentes dos donos da marca concorrente. Essa capacidade de os automóveis transmitirem diferentes mensagens sobre seus proprietários é retomada por Belk, Bahn e Mayer (1982), ao revisarem a literatura sobre os mecanismos que os indivíduos usam para codificar e decodificar o consumo. Na codificação, seria buscada a proximidade entre a imagem de categorias de produtos e a autoimagem de consumidores, isto é, as pessoas procuram expressar um pouco de si, dizer algo sobre o que são ou como se veem através da escolha dos produtos que consomem. Já a decodificação envolve o processo de formação de impressões acerca de terceiros a partir das dicas que eles revelam através de seu consumo. Embora outros produtos e serviços tenham sido considerados pelos autores ao longo de sua revisão de literatura (bebidas, casas, atividades de lazer, roupas e acessórios, cigarros etc.), para seu objetivo de abordar o desenvolvimento de aspectos simbólicos do consumo 33 entre crianças, Belk, Bahn e Mayer (1982) optaram por utilizar somente as categorias "carros" e "casas". Assim, de modo a atender esse propósito de investigação de como se originam estereótipos relacionados ao consumo, os pesquisadores apresentaram a cerca de mil crianças, adolescentes e adultos fotos coloridas de carros e casas de diferentes preços, tamanhos e estilos. Todos os estímulos foram feitos como comparação de pares e a tarefa era atribuir descrições pessoais, como "feliz", "esperto", "alguém com muitos amigos", "mesquinho" etc., ao proprietário de um dos dois objetos do par. Uma das conclusões dos autores é que a habilidade de reconhecer as implicações simbólicas das escolhas de consumo varia com a idade: é mínima entre as crianças em fase pré-escolar, significante no segundo ano de estudos e quase completamente desenvolvida no sexto ano; estudantes universitários apresentam o maior grau de estereótipos de consumo; e, entre os adultos mais velhos, os estereótipos são mais fracos, embora a habilidade de reconhecer o simbolismo do consumo ainda seja pronunciada. Mesmo textos culturais supostamente menos imersos na ideologia do consumo, como o chamado cinema de arte italiano, utilizam a categoria "automóvel" para propósitos metafóricos (DALLI e GISTRI, 2006), isto é, valem-se da capacidade dos carros de promover a associação de símbolos e imagens. A partir de uma análise de filmes dos principais mestres italianos dos anos 1945 a 1975, Dalli e Gistri (2006) procuram destacar como essas obras representam a cultura de consumo, em especial pela inserção de bens de consumo. Entre as conclusões dos autores está a de que uma das principais categorias de produto representadas nos filmes de arte italianos é justamente a de carros, junto com a de cigarros, tendo ambas sido usadas como componentes realísticos do cenário e pela sua natureza simbólica. No caso dos automóveis, foi observado que os produtores começam a escolher modelos e marcas de acordo com o papel social dos personagens e com as situações: o Fiat 600, muito comum nos anos 1960, por exemplo, assumiu o estereótipo de carro utilitário; conversíveis, como o Lancia Aurelia B24, foram definitivamente associados a atores bonitos e encantadores; carros muito grandes significavam riqueza e esnobismo etc. Dessa forma, Dalli e Gistri (2006) entendem que, ao enfatizar o papel que produtos tinham na cultura de consumo, os cineastas contribuíram para o desenvolvimento de um discurso metafórico e imaginário ao qual esses bens de fato pertenciam. Ainda no âmbito do simbolismo dos automóveis, Belk (2004) se propôs a entender, por meio de entrevistas em profundidade com homens fascinados por carros e de observações em encontros de colecionadores, concursos de carros, autoshows etc., o potencial simbólico 34 que muitos homens investem em suas máquinas, que chegam a ser vistas tanto como extensões deles próprios quanto como seres animados. No primeiro caso, há a possibilidade de os carros receberem características pessoais dos donos, por meio de customização e tuning, e, inversamente, de transmitirem aos seus proprietários atributos relativos a status ou potência. No segundo caso, os carros são muitas vezes tratados como crianças, amigos e até amantes, no sentido de que levam para si boa parte da atenção que as esposas gostariam de receber de seus maridos; ou são dotados de personalidade, como se carros ou marcas em particular tivessem características próprias, alguns mais masculinos, outros mais femininos. Além disso, o autor aborda a visão dos carros como objetos sagrados, recebedores de grande devoção, em meio a um processo de sacralização que envolve rituais (limpeza, polimento), salvação e sacrifício (processos de restauração), peregrinação (grandes autoshows, museus do automóvel) e a separação do mundo profano das commodities. Quanto aos desdobramentos positivos e negativos desse fenômeno que Belk (2004) denomina "autoerotismo" na vida dos seus entusiastas e na dos outros membros da família, o autor aponta que, da mesma forma que os carros servem como assunto de conversa entre homens e os cuidados com o mesmo podem envolver os filhos homens, tendo um aspecto de socialização, eles podem se tornar um refúgio, um lugar de escape e terapia, com características antissociais. Outra implicação é a existência de um potencial compulsivo e de vício nessa relação de cuidados com os carros, que envolve justificativas como a de uma doença sem tratamento, a de se estar preservando a história do país ou da família ou a de que se trata de brinquedo de adultos, o que ressalta o aspecto lúdico do entusiasmo por automóveis. A questão simbólica do intercâmbio ou transmissão mútua de atributos entre veículos e seus proprietários mencionada anteriormente também havia sido de certa forma vislumbrada por Hirschman (2003), em sua investigação das estruturas semióticas – visuais e verbais – caracterizadoras e comunicadoras do etos do extremo individualismo norte-americano. Por meio da análise de uma série histórica de anúncios publicados em revistas com temas, ícones e retórica voltados para os adeptos desse tipo de individualismo, a autora pôde perceber como, em relação aos polos de uma de suas categorias de tensão subjacentes – instrumentalismo vs. antropomorfismo – chama atenção o fato de automóveis e seus equipamentos muito comumente encontrarem a propensão do individualista de enquadrá-los no segundo grupo. Isso significa que carros são anunciados com características humanas similares às daqueles aos quais se destinam, como malvadeza, rapidez e resistência. 35 Luedicke (2006), por sua vez, vai investigar essa dimensão simbólica da construção de significados no contexto das comunidades de marca, compreendidas como sistemas sociais. Sob essa compreensão, tais comunidades estariam inseridas em ambientes sociais e ambos se construiriam, situariam e legitimariam mutuamente. Pelo framework conceitual proposto pelo autor, as comunidades de marca devem ser observadas como comunicações contínuas em meio ao seu ambiente social, sob três aspectos: o da diferenciação, que é gerada de forma bivalente, com construções internas e externas de significados; o da necessidade de discursos contínuos, sendo a quantidade e a qualidade das contribuições comunicativas determinantes para a associação e sobrevivência da comunidade; e o da presunção de instabilidade, em virtude da tendência humana ao esquecimento, o que faz das comunidades ainda mais dependentes de reprodução comunicativa contínua. A evidência empírica que Luedicke (2006) vai buscar para essa proposição conceitual é a HUMMER Brand Community (HBC), comunidade que evoluiu em torno de um veículo utilitário esportivo de estilo militar extremamente distinto e controverso. Para tanto, o autor faz uma abordagem da HBC sob perspectivas múltiplas, incluindo entrevistas fenomenológicas em profundidade, coleta de dados netnográficos e artefatos históricos, tanto a favor quanto contra o modelo e seus adeptos. Tal procedimento é consistente com o conceito de ambientes sociais mencionado anteriormente, mais amplo que a comunidade de marca, que só agrega entusiastas. Os achados do estudo revelam que um grupo de distinções ideológicas bivalentes (capacidade off-road vs. irresponsabilidade ambiental, atenção positiva vs. vaidade egoísta, e superioridade social vs. excesso de consumo de combustível) fornecem temas para discutir, razões para socializar e significados para identificar, tanto para adeptos quanto antagonistas da marca, envolvendo a HBC em uma disputa contínua em meio ao seu ambiente social sobre os significados predominantes da marca e da comunidade. Vale destacar que a marca HUMMER e as disputas ideológicas de significados envolvendo seus defensores e opositores serão objeto de outro trabalho de Luedicke e Giesler (2008), no qual os autores propõem o conceito de "consumo contestado", que compreenderia um conjunto de práticas influenciadoras interativas através das quais os consumidores explicitamente desafiam e criticam cada uma das escolhas, comportamentos e ideologias de consumo dos outros. A análise de Luedicke e Giesler (2008) revela práticas clássicas de antagonismo do consumidor, que oferecem valiosos insights sobre a criação e proliferação de ideologia, cultura e significado de marca a partir da perspectiva do consumidor. 36 Além dessa capacidade de carregar e transmitir significados culturais, demonstrada nas pesquisas atentas à dimensão simbólica associada ao seu consumo, o automóvel é reconhecido por ser um bem material capaz de despertar sentimentos variados nos consumidores, como os de fascínio e devoção encontrados por Belk (2004). Essa habilidade dos carros também recebeu a atenção de diversos trabalhos na área de estudos de consumo (BELK, GER e ASKEGAARD, 2003; CHITTURI, RAGHUNATHAN e MAHAJAN, 2008; DESMET, HEKKERT e JACOBS, 2000; LUCE, 1998) e será abordada a seguir. 2.1.3 Automóveis e sentimentos Com o intuito de avançar o conhecimento sobre o modo com que os consumidores consomem, Holt (1995) empreendeu um estudo observacional de dois anos junto a espectadores presenciais de partidas de beisebol e propôs um framework com quatro metáforas descritoras das práticas que constituem o consumo: consumo como experiência; consumo como integração; consumo como classificação; e consumo como jogo. A primeira metáfora, do consumo como experiência, é a que fundamenta as pesquisas interessadas nas reações subjetivas e emocionais dos consumidores aos objetos de consumo. De acordo com o autor, Holbrook e Hirschman (1982) foram pioneiros nesse tipo de pesquisa (HOLT, 1995), percebendo a experiência de consumo como um fenômeno voltado para a busca de fantasias, sentimentos e diversão. Para tanto, os pesquisadores construíram um quadro geral de representação das variáveis tipicamente presentes em um comportamento de consumo e compararam as diferentes abordagens feitas pelo modelo prevalente do processamento da informação e pela perspectiva experiencial a cada uma delas. O procedimento evidenciou que a pesquisa convencional negligenciava importantes aspectos da experiência de consumo, em especial sua natureza simbólica, hedônica e estética. A agregação da visão experiencial aos estudos do comportamento do consumidor, portanto, fazia-se necessária para a compreensão dos estados emocionais que surgem durante o consumo (HOLBROOK e HIRSCHMAN, 1982). Desde então, diversas pesquisas procuraram aprofundar o entendimento sobre esse aspecto experiencial do consumo, investigando como diferentes tipos de emoções e sentimentos se relacionam ao processo de consumo, sua influência sobre a decisão de compra, seu desencadeamento durante a ou como consequência da aquisição, seus impactos sobre a avaliação dos consumidores etc. Por exemplo, a experiência de consumo tem sido ligada à esperança (MACINNIS e DE MELLO, 2005), ao hedonismo (HIRSCHMAN e HOLBROOK, 37 1982; O'SHAUGHNESSY e O'SHAUGHNESSY, 2002), à nostalgia (HOLBROOK, 1993), ao amor (AHUVIA, 2005), ao sagrado (BELK, WALLENDORF e SHERRY, 1989), ao fascínio (BELK, 2004), ao afeto (EREVELLES, 1998), à inveja (BELK, 1997) e ao desejo (ELLIOTT, 1997; BELK, GER e ASKEGAARD, 2003). No que se refere à categoria de consumo investigada nesta dissertação, é possível destacar não só a pesquisa de Belk, Ger e Askegaard (2003), mas também as de Chitturi, Raghunathan e Mahajan (2008), Desmet, Hekkert e Jacobs (2000) e Luce (1998), que abordaram sentimentos e emoções envolvidos no consumo de automóveis. O artigo de Belk, Ger e Askegaard (2003) se baseia nas experiências de ansiar por e fantasiar sobre determinados bens vivenciadas cotidianamente por consumidores, recaindo o foco dos autores sobre os pensamentos, sentimentos, emoções e atividades evocadas quando consumidores de diferentes culturas são instados a refletir sobre o desejo. Os resultados da pesquisa indicaram que o desejo é sentido como uma emoção muito forte, essencialmente positiva, mas cuja perseguição pode levar a transgressões das limitações internalizadas sobre o que é um apropriado comportamento social. Além disso, mesmo tendo cultivação interna, desejos são altamente influenciados por fatores externos, como propagandas, filmes, televisão e, principalmente, interações com parentes, amigos, colegas de trabalho etc. Essa natureza social do desejo implica a não independência das preferências do consumidor. Nesse sentido, a atração que um objeto exerce sobre alguém não seria explicada por suas características intrínsecas (funcionalidade, desempenho, beleza etc.), mas sim pelas esperanças do consumidor no potencial desse objeto como viabilizador de relações e aceitação em sociedade. No estudo ainda sobressaíram alguns bens e experiências como objetos de desejo por excelência: carros, barcos, férias, casas bonitas, comer bem e marcas de luxo mundiais. Isso apontaria para a existência de uma cultura de consumo globalizada, com um imaginário comum quanto à base material do que seria uma boa vida de consumo. O carro, especificamente, pode despertar emoções tão fortes que chegam a ser expressas como sensações corporais tal qual a descrita por um entrevistado: "Eu queria tanto aquele carro que eu podia sentir seu gosto!" (BELK, GER e ASKEGAARD, 2003, p. 333, tradução nossa). Luce (1998) também atenta para as emoções despertadas por automóveis em seu estudo sobre processo decisório. A autora se utiliza da categoria para fazer experimentos baseados no framework teórico por ela proposto para a melhor compreensão do modo com que os consumidores lidam com decisões carregadas de emoção, em especial as opções de 38 enfrentamento da situação por meio do evitamento de emoções negativas. Os resultados obtidos indicam que: a dificuldade de fazer trade-off, em meio à necessidade de tomar uma decisão, aumenta a emoção negativa na ausência de uma opção de evitamento; e que a escolha de manter o status quo, que é uma opção de evitamento, aumenta com a dificuldade de fazer o trade-off. De acordo com a autora, categorias de produto como carro e seguro de vida consistentemente envolvem trade-offs entre atributos ligados a objetivos altamente valorizados (segurança física, estabilidade financeira), de tal forma que as decisões de consumo relacionadas a elas podem seguramente ser associadas com emoções negativas. O principal problema é a possibilidade de fazer uma escolha não ótima (suboptimal choice), que leve a resultados negativos, arrependimento e culpa. Desmet, Hekkert e Jacobs (2000) também investigam essa capacidade dos carros de despertar emoções. Porém, diferentemente de Luce (1998), mais preocupada com o papel das emoções negativas no processo decisório, estes autores se propõem a apresentar um instrumento de medição de emoções, positivas e negativas, geradas pela aparência dos produtos, a Product Emotion Measure. Essa ferramenta se baseia no autorrelato dos respondentes a partir de dezoito animações de um personagem de desenho animado e é utilizada em um estudo empírico para medir as emoções provocadas por diferentes modelos de carros. Embora seja uma pesquisa exploratória, os resultados mostraram que os diferentes veículos desencadearam emoções mistas de duas formas: no mesmo indivíduo e entre indivíduos distintos. No primeiro caso, quando se deparam com um carro, as pessoas se deparam com variadas combinações de emoções (escolheram mais de uma emoção pra explicar o que sentiam), o que é explicado pela natureza complexa dos produtos, sendo que diferentes aspectos do seu design podem provocar reações distintas. No segundo caso, como reações emocionais são pessoais, diferentes pessoas podem exprimir reações diversas a um mesmo estímulo, o que está vinculado ao tipo de preocupação prévia que ela tem com a obtenção de determinado produto, como exibição de status ou sentimento de segurança. Pode-se dizer que essas preocupações prévias dos indivíduos com status ou segurança guardam relação, respectivamente, com os objetivos de promoção e prevenção oriundos da chamada Teoria do Foco Regulatório 2 (HIGGINS, 1997; 2000). Tais conceitos, em conjunto com outros desenvolvidos sobre benefícios hedônicos e utilitaristas do consumo, bem como 2 Objetivos de prevenção são aqueles que devem ser cumpridos, como "se comportar de uma maneira segura e protegida" e "ser responsável", e eliminam ou reduzem significativamente a probabilidade de uma experiência dolorosa. Objetivos de promoção são aqueles que as pessoas aspiram atender, como "parecer bacana" e "ser sofisticado", e aumentam a probabilidade de uma experiência prazerosa (Higgins, 1997; 2000). 39 sobre satisfação e encantamento do cliente, formam o arcabouço teórico do framework conceitual proposto por Chitturi, Raghunathan e Mahajan (2008) acerca do papel dos benefícios hedônicos e utilitaristas na evocação de vários tipos de emoções positivas e negativas pós-consumo. A partir da constatação de que elevados níveis de satisfação não são suficientes para garantir elevada fidelidade, os autores se propõem a investigar a relação entre os benefícios – hedônicos vs. utilitaristas – do design de produtos e os sentimentos pósconsumo de satisfação e encantamento dos clientes. Também no estudo desses autores a categoria de produto "automóvel" (além de celular e laptop) será utilizada para testar a proposição teórica. Os achados primários da pesquisa indicam que: produtos que atendem ou superam as necessidades utilitárias dos clientes e cumprem os objetivos de prevenção melhoram a satisfação do cliente (por exemplo, um carro com freios ABS e controle de estabilidade); e produtos que atendem ou superam os desejos hedônicos dos clientes e cumprem os objetivos de promoção aumentam o encantamento do cliente (por exemplo, um carro com teto solar panorâmico e sistema de áudio sixspeaker). Além disso, a pesquisa constata que os sentimentos primários antecedentes da satisfação são as emoções de prevenção de confiança e segurança proporcionadas pelos benefícios utilitários, enquanto que os sentimentos primários antecedentes do encantamento são as emoções de promoção de contentamento e excitação proporcionadas pelos benefícios hedônicos. Finalmente, os resultados mostram que encantar os clientes melhora sua fidelidade, medida pelo boca-a-boca e pelas intenções de recompra, mais do que apenas satisfazê-los. Conforme extenso levantamento feito por Suarez (2010), são numerosos e diversificados os estudos que envolvem o consumo da categoria de produto automóvel, seja nas áreas de Marketing e Comportamento do Consumidor ou outras afins. Ante todo o exposto, é possível perceber que o carro é um bem de consumo que: detém intensa carga simbólica, possibilitando associações variadas de imagens com seus proprietários; é capaz de despertar emoções diversas, ora sendo objeto de grande devoção, ora ocasionando sentimentos conflitantes no processo decisório; pode satisfazer ou encantar consumidores, dependendo da capacidade do modelo em atender os diferentes objetivos que movem os compradores; e pode envolver forte interferência de grupos de referência na decisão de compra, tendo em visto a natureza social do desejo. Na próxima sessão, será dada maior atenção a essa questão dos grupos de referência, por meio de uma revisão da literatura produzida sobre a família e sua influência nos hábitos de consumo. 40 2.2 FAMÍLIA COMO AGENTE DE INFLUÊNCIA Os seres humanos possuem uma natureza social: vivem e interagem cotidianamente em diversas esferas de relacionamento interpessoal, fazem parte de grupos, tentam agradar aos outros e seguem padrões de conduta a partir da observação de ações alheias (SASTRE, SERRALVO e MORAS, 2010; SOLOMON, 2011). Nesse contexto, o consumo de produtos, serviços e marcas emerge como importante forma de interação social, segundo Sastre, Serralvo e Moras (2010). Como consequência, o comportamento dos consumidores dificilmente será indiferente à influência de pessoas com quem eles se relacionam direta ou indiretamente. Tal compreensão é compartilhada por Solomon (2011), para quem o desejo de conformidade ou identificação com indivíduos ou grupos chega a ser a primeira motivação de algumas pessoas para muitas de suas compras e atividades. Esses terceiros capazes de exercer influência sobre o comportamento das pessoas são justamente quem caracterizam o chamado grupo de referência. Park e Lessig (1977, p. 102, tradução nossa) definem um grupo de referência como "um indivíduo ou grupo, real ou imaginário, concebido como tendo relevância significativa para as avaliações, aspirações ou comportamento de um indivíduo". Inserem-se nesse conceito: artistas, atletas, bandas de música, colegas de escola ou trabalho, comunidades de marca (MCALEXANDER, SCHOUTEN e KOENIG, 2002), familiares, institutos de pesquisa, jornalistas, médicos, políticos, revistas especializadas, tribos de consumidores3 (COVA e COVA, 2002) etc. Segundo Park e Lessig (1977) e Bearden e Etzel (1982), são três os tipos de influência que os grupos de referência exercem sobre os consumidores: informacional, utilitária e expressiva de valor. A influência informacional é baseada no desejo de tomar decisões fundamentadas. Para tanto, a pessoa buscará ou aceitará as recomendações feitas por terceiros com experiência reconhecida ou conhecimento especializado sobre o produto ou serviço. Já a influência utilitária reflete uma conformidade das decisões de compra do indivíduo às preferências de outrem, como meio de atender suas expectativas e assim conseguir possíveis recompensas ou evitar imagináveis punições. A influência expressiva de valor, por sua vez, é caracterizada pela aceitação de sugestões alheias em virtude de um desejo do consumidor de ver a própria imagem associada com as características expressas pelo grupo de referência ou 3 Apesar de afirmarem que as tribos não sejam diretamente comparáveis aos grupos de referência, Cova e Cova (2002) defendem que esses grupos têm relevante poder de afetar e influenciar os comportamentos das pessoas que os compõem, o que não confronta a definição de Park e Lessig (1997). Além disso, Solomon (2011) também inclui as tribos de consumidores entre os tipos de grupos de referência. 41 de um simples sentimento seu de afeição ou simpatia pelo mesmo (PARK e LESSIG, 1977; BEARDEN e ETZEL, 1982). Todavia, uma tentativa posterior de validação de escala feita por Bearden, Netemeyer e Teel (1989) indicou que as percepções dos consumidores quanto às influências utilitária e expressiva de valor eram difíceis de distinguir empiricamente. De acordo com Childers e Rao (1992), essas duas concepções aparentam representar a noção de influência normativa e talvez pudessem ser combinadas. Com efeito, essa função normativa está associada a referentes como pais, professores e pares (amigos, colegas de trabalho, vizinhos), que transmitem normas, valores e atitudes, por meio de uma interação direta, ajudando a estabelecer e a reforçar padrões fundamentais de conduta e afetando uma gama mais ampla de decisões de consumo (KELLEY, 1952; CHILDERS e RAO, 1992; SOLOMON, 2011). A família, assim, destaca-se como um grupo de referência normativa. Já em outra tipologia, proposta por Blackwell, Miniard e Engel (2005 apud SASTRE, SERRALVO e MORAS, 2010), a família é citada como o principal exemplo de grupo de referência primário, classificação que abriga aqueles de maior impacto e maior influência, nos quais a interação entre os participantes ocorre com frequência, frente a frente ou não. Os grupos primários ainda se caracterizam pelo compartilhamento de valores, crenças e comportamentos e por uma coesão que leva seus integrantes a valorizarem as normas e opiniões do grupo. Não por acaso Commuri e Gentry (2000) afirmam que talvez um dos campos mais estudados sobre o comportamento de consumo da família seja a influência dos membros da família no consumo individual. Dentro desse contexto, algumas áreas objeto de investigação foram a influência intergeracional e a família como grupo de referência (MOORE-SHAY e LUTZ, 1988; CHILDERS e RAO, 1992). Já no que se refere à influência dos membros da família no processo decisório coletivo, Commuri e Gentry (2000) ressaltam a considerável atenção que o conceito de influência relativa recebeu da literatura. Belch e Willis (2002), por exemplo, investigaram os impactos das mudanças na estrutura da família sobre as influências relativas do casal na tomada de decisão familiar. De acordo com Moore, Wilkie e Lutz (2002, p. 17, tradução nossa), o conceito de influência intergeracional "refere-se à transmissão de informações, crenças e recursos, dentro da família, de uma geração para a seguinte", sendo um mecanismo fundamental para a manutenção da cultura ao longo do tempo. Para investigar o papel desse tipo de influência na formação de atitudes e crenças dos consumidores com relação ao mercado, o estudo de Moore-Shay e Lutz (1988) abordou as interações diádicas entre mães e filhas com base em 42 um modelo de coorientação. Esse modelo visava examinar os níveis de concordância e de precisão das respostas dos pares a algumas proposições, indicando, respectivamente, a extensão da transferência intergeracional e a efetividade da comunicação subjacente. Ao todo, 49 estudantes universitárias e respectivas mães preencheram questionários nos quais relataram as próprias preferências por marcas, regras de escolha e crenças quanto ao funcionamento do mercado (relação preço-qualidade, nível de conhecimento dos vendedores etc.), bem como estimaram as de seu par. Os resultados da pesquisa indicaram que mães e filhas provavelmente compartilham mais preferências por marcas e estratégias de compras do que crenças abstratas sobre o mercado e também que o sentido da influência entre gerações é primariamente dos pais para os filhos. Childers e Rao (1992) replicaram e estenderam o modelo de Bearden e Etzel (1982) sobre a influência de grupos de referência nas decisões de compra dos indivíduos sobre produtos e marcas, com o propósito de avaliar sua validade ao longo do tempo e em diferentes contextos culturais. Para tanto, questionários abordando a influência de pares não familiares (amigos, colegas de trabalho, vizinhos) sobre as decisões de consumo, bem como sua variação em função de o produto ser consumido pública ou privadamente ou de ser considerado um luxo ou uma necessidade, foram respondidos por 196 norte-americanos e 149 tailandeses participantes de associações Alumni de programas de MBA e integrantes de famílias nucleares e estendidas4, respectivamente. Além disso, a influência de membros da família foi abordada por meio de um exame das influências intergeracionais, mais especificamente da transferência de lealdade à marca. Os resultados do estudo não somente deram suporte ao framework teórico original como também proporcionaram insights sobre como a influência do grupo de referência pode variar conforme seja exercida por pares ou pela família. Em essência, a influência de pares é relativamente maior para produtos de consumo público e de luxo, e as decisões de consumo referentes a produtos menos conspícuos (de consumo privado ou necessidades) estão mais sujeitas à influência dos membros da família. A pesquisa ainda indicou diferenças na influência exercida por pares de acordo com o tipo de família: em famílias nucleares, o grau com que um indivíduo é influenciado por pares parece ser significativamente maior para produtos e marcas consumidos publicamente, o que não ocorre em famílias estendidas. Isso provavelmente ocorre porque, em famílias nucleares, o número de membros familiares 4 Uma típica família nuclear compreende dois cônjuges e um pequeno número de crianças. Já famílias estendidas normalmente abrigam uma figura patriarcal ou matriarcal e numerosos filhos adultos, que podem ter seus próprios cônjuges e descendentes (CHILDERS e RAO, 1992). 43 imediatos é limitado, enquanto em família estendidas são numerosos os familiares capazes de exercer influência na tomada de decisão do indivíduo (CHILDERS e RAO, 1992). Voltando-se para a influência dos membros da família no consumo coletivo, Belch e Willis (2002) realizaram uma pesquisa com 458 homens e mulheres (229 casais), para examinar se os achados de estudos das décadas de 1970 e 1980, a respeito das influências relativas de maridos e esposas sobre a tomada de decisão familiar, permaneciam generalizáveis. Os questionários aplicados buscavam obter informações sobre a influência de cada membro em três etapas do processo de decisão (iniciação, pesquisa e avaliação e decisão final) e também em áreas específicas de decisão (quando e onde comprar, quanto gastar, marca etc.) relativas a sete produtos e serviços. De acordo com os autores, os resultados sugerem que houve mudanças significativas nos papéis assumidos no processo decisório familiar, com destaque para a compra do automóvel, um produto anteriormente dominado pelo marido: as mulheres ganharam mais influência na maioria das áreas de tomada de decisão, sendo que o ganho foi significativamente maior na fase de iniciação do processo decisório, embora elas também tenham aumentado sua influência na etapa de pesquisa e avaliação e na decisão final. Não são somente Commuri e Gentry (2000), porém, que percebem como o tópico da influência familiar tem sido objeto de diversos estudos do consumidor. Para Epp e Price (2008), a pesquisa do consumidor da família tem sido dominada por uma preocupação com a forma pela qual os indivíduos influenciam e orquestram o consumo das famílias, geralmente enfatizando como negociam a alocação de recursos dentro de uma família e como influenciam outros membros da família (COMMURI e GENTRY, 2005; MOORE, WILKIE e LUTZ, 2002). Nesse domínio, as autoras ainda incluem alguns trabalhos investigando o modo com que indivíduos representam a família na condição de self5 estendido e os diferentes níveis de persuasão que consumidores sofrem conforme tenham uma autoimagem independente ou definida em função de relações interpessoais (TIAN e BELK, 2005; AAKER e LEE, 2001). A pesquisa de Commuri e Gentry (2005) procurou demonstrar a inadequação das perspectivas teóricas dominantes sobre a tomada de decisão familiar aos domicílios nos quais a renda da mulher é superior à do marido. De acordo com os autores, a falha dessas teorias poderia estar em sua presunção de que todos os recursos são postos em um fundo comum. 5 Optou-se por não traduzir o termo self, tendo em vista que a busca de uma tradução adequada per se já configura uma investigação à parte. Conforme levantamento de Souza e Gomes (2005), nas traduções para a língua portuguesa no Brasil, self não tem sido traduzido, não obstante seja possível encontrar as traduções "consciência", "eu" e "si" em publicações de Portugal. 44 Sendo assim, dois estudos foram empreendidos para investigar a alocação de recursos dentro das famílias. O primeiro revelou que, embora dispusessem de fundos conjuntos para cobrir despesas de rotina, lares chefiados6 por mulheres também adotavam fundos segregados capazes de ofuscar as diferenças salariais e de permitir a representação de papéis semelhantes aos de domicílios chefiados por homens. Um mecanismo encontrado para o marido figurar o bom provedor, a despeito da primazia econômica da mulher, consistia em ligar uma despesa carregada de significado simbólico (parcela da hipoteca, por exemplo) ao seu fundo individual. O segundo estudo comparou lares chefiados por mulheres e por maridos e deu suporte adicional aos achados do primeiro quanto ao uso de múltiplos fundos como ferramenta que possibilita aos casais lidar com as implicações idiossincráticas de a esposa ser melhor remunerada que o marido. Moore, Wilkie e Lutz (2002) também conduziram uma investigação composta por dois estudos, porém com o objetivo de examinar a relação entre as influências intergeracionais e o brand equity7. O primeiro estudo, que foi construído a partir de uma survey junto a 102 pares de mães e filhas, para isolar e quantificar os impactos intergeracionais sobre o brand equity, revelou que estes são persistentes e poderosos para uma variedade de bens de consumo. No entanto, seus efeitos são seletivos: parecem beneficiar fortemente algumas marcas, mas outras não. No segundo estudo, os autores procuraram entender mais profundamente a natureza desses efeitos, por meio de entrevistas em profundidade com 25 estudantes universitárias, tanto no ambiente do lar como em ocasiões de compras, utilizando a abordagem da história de vida. Entre os achados de pesquisa, sobressaem algumas formas de manifestação das interferências geracionais na vida dos consumidores (reação condicionada pela repetição, mecanismo de evitamento de riscos, meio de vínculo emocional etc.), alguns fatores de seu desenvolvimento (grande número de episódios de consumo, longos períodos de tempo, negociações e adequações para refletir preferências pessoais etc.) e algumas forças sustentadoras e enfraquecedoras de tais influências na idade adulta (desejo de manutenção da autoidentidade, fornecimento de produtos pelos pais, novas influências de cônjuges e colegas de quarto, restrição de renda etc.). Já Tian e Belk (2005), constatando uma presença mais evidente de objetos relacionados à vida pessoal, ao lar e à família no local de trabalho, desenvolveram um estudo sobre os significados desses bens exibidos como extensões do self. Foram entrevistados 6 O termo chefiado aqui se refere exclusivamente ao cônjuge com maior rendimento no lar. Representa o valor adicional atribuído a um produto ou serviço como resultado de esforços e investimentos de marketing (MOORE, WILKIE e LUTZ, 2002). 7 45 dezessete funcionários de uma empresa de tecnologia, previamente instruídos a fotografar doze objetos que tivessem importância para eles em seus ambientes de trabalho. A formulação das perguntas se preocupou em conduzir ao compartilhamento das experiências e associações relativas às posses exibidas, que incluíram tanto extensões funcionais de um self próprio do trabalho, voltadas para a melhoria de desempenho (laptops) ou a inibição de interações distrativas (fones de ouvido), quanto extensões primariamente relacionadas a um self da casa, voltadas a sensações do passado (souvenires de férias) e do futuro (sonhos de consumo), à brincadeira (pequenas coleções, bolas) e à família (retratos familiares, desenhos de criança, fotos de animais de estimação, presentes dados por parentes). De acordo com os autores, os achados do estudo sugerem extensões para o conceito de self estendido, como a compreensão de que, ao invés de formarem um todo integrado, os selves da casa e do trabalho costumam competir, procurando se impor um no domínio físico do outro. O grau com que extensões do self não relacionado ao trabalho (relativos à vida pessoal, ao lar ou à família, por exemplo) são reveladas ou escondidas no local de trabalho reflete uma negociação da fronteira casa-trabalho e a visão de que aspectos da identidade e da vida pertencem a cada domínio. Além disso, pressão dos pares e preocupações da corporação com a própria imagem também ajudam a estabelecer limites para o grau de representações pessoais no local de trabalho (TIAN e BELK, 2005). Outro conceito relacionado ao self é o de autoimagem8, que expressa a percepção que uma pessoa tem de si, podendo ser independente ou interdependente (GOUVEIA et al, 2005). Um indivíduo com autoimagem independente se vê e define com base em atributos internos e características únicas que o distinguem dos outros (inteligente, agressivo etc.), enquanto alguém com autoimagem interdependente se percebe e define em função de relações interpessoais (pai de família, bom amigo etc.). Tais noções, oriundas da psicologia social, serão relacionadas por Aaker e Lee (2001) aos conceitos de objetivos de promoção e prevenção9 da Teoria do Foco Regulatório (HIGGINS, 1997; 2000), para estudar o impacto persuasivo de diferentes mensagens sobre os consumidores e o processamento de informação subjacente. O estudo foi realizado a partir de quatro experimentos, que envolveram um total de 551 estudantes de universidades nos Estados Unidos e na China (refletindo diferenças 8 De acordo com Gouveia et al (2005), o termo autoimagem é utilizado no Brasil como tradução para o termo inglês self-construal. 9 Ver nota 2, à pág. 38. 46 culturais de individualismo e coletivismo), bem como simulações de situações que estimulavam o pensamento individual ou em termos de equipe. Os resultados demonstraram que as distintas visões do self encorajam diferentes perspectivas sobre a busca dos objetivos do foco regulatório: para os indivíduos com autoimagem independente, a informação focada na promoção (fornece mais energia) levou a atitudes mais positivas em relação a um website e a níveis mais elevados de afinidade com a marca do que informações focadas em prevenção (evita doenças), ocorrendo o inverso para indivíduos com autoimagem interdependente. Além disso, a compatibilidade entre o apelo persuasivo da mensagem e o foco regulatório da pessoa faz com que esta demonstre maior recordação do seu conteúdo e seja mais exigente quanto à força de argumento, o que pode ser explicado pelos processamentos mais elaborados que ocorrem quando a informação é compatível com autoimagem do indivíduo (AAKER e LEE, 2001). A despeito da importância desses e de outros estudos sobre a influência da família nos hábitos e decisões de consumo dos indivíduos, Epp e Price (2008) entendem que as teorias, questões de pesquisa e métodos correntes no domínio do consumo da família têm falhado em abordá-lo como um empreendimento verdadeiramente coletivo. Mais que isso, estaria sendo completamente ignorado o fato de que as famílias abrigam uma série de identidades que coexistem e interagem nas experiências cotidianas, que se envolvem em práticas de consumo complementares e concorrentes e que afetam as decisões coletivas: a identidade coletiva da família como um todo; as identidades relacionais de grupos menores no seu interior (casal, irmãos, pai-filho); e as identidades individuais de seus membros. Cabe destacar que, para as autoras, a identidade familiar é resultado das interações compartilhadas entre esses subconjuntos ou faixas de identidade, isto é, não se trata de um conceito pronto nas mentes das pessoas, mas de algo co-construído em ação. Como consequência, a unidade de análise do consumidor deveria se afastar de medidas internas do indivíduo para focar as práticas comunicativas (atividades de consumo simbólico, por exemplo) que constituem e delimitam a identidade coletiva, tanto para os membros da família quanto para terceiros (EPP e PRICE, 2008). A Figura 2 a seguir traz o framework concebido pelas autoras: 47 Faixas de Identidade Familiar Família Relacional Individual Formas de Comunicação Narrativas Rituais Dramas Sociais Interações Cotidianas Transferências Intergeracionais Recursos Simbólicos de Mercado Marcas Objetos Atividades Serviços Moderadores Adaptabilidade das Formas de Comunicação Concordância dos Membros Comprometimento dos Membros Sinergia (Dissonância) entre as Faixas de Identidade Rupturas e Transições Barreiras à Representação Necessidades de Identidade Contextuais Figura 2: Framework da Interação entre Identidades nas Práticas de Consumo. Fonte: Adaptado de Epp e Price (2008, p.52). Por esse framework, as formas de comunicação a que as famílias recorrem para gerenciar as interações entre as representações de identidades individuais, relacionais e coletivas incluem rituais, narrativas, dramas sociais, interações cotidianas e transferências intergeracionais. Essas práticas comunicativas, por sua vez, podem lançar mão de recursos simbólicos de mercado, como marcas, objetos, atividades e serviços. Segundo as autoras, objetos e atividades de consumo podem servir como acessórios fundamentais ou verdadeiras muletas para haver uma interação familiar (EPP e PRICE, 2008). Esse entendimento, de certa forma, está em sintonia com a interpretação de Belk (2004) a respeito do aspecto de socialização presente nas atividades de cuidado com o carro, tendo em vista o envolvimento conjunto de pais e filhos. Ainda, o framework prevê alguns moderadores do processo de gerenciamento de identidades por meio de atividades de consumo: o grau de adaptabilidade das famílias quanto a formas de comunicação e símbolos; os níveis de concordância dos membros da família quanto à identidade coletiva e de seu comprometimento em manter determinadas representações; a medida da sinergia entre a identidade familiar e as identidades individuais e relacionais; rupturas e transições que desafiam práticas de identidade, bem como a forma com que a família utilizará recursos do mercado para responder a essas perturbações; barreiras 48 iniciais e correntes à representação identitária; e respostas contextuais para o fluido de necessidades das identidades individuais, relacionais e familiar. Algumas colocações de Epp e Price (2008) acerca dos moderadores acima merecem atenção especial, em virtude de potenciais desdobramentos sobre o processo de endividamento, que será objeto da seção seguinte. Quando abordando a sinergia entre os diferentes tipos de identidade, por exemplo, as autoras questionam se objetos de consumo que tenham uma relação simbólica e/ou uma associação especial com diversas identidades relacionais (em oposição àqueles que são valorizados por uma ou poucas identidades) são mais propensos a serem vistos como insubstituíveis ou inalienáveis. Caso um carro financiado se enquadre nessa situação, pode ser difícil para a família desfazer-se do bem, ainda que o endividamento atrelado pese em sua renda. Com efeito, a própria aquisição de um automóvel por meio de financiamento pode ser entendida como um evento de ruptura na identidade da família, ainda que desejado ou planejado, assim como um casamento, o nascimento de uma criança e a compra de uma casa nova (EPP e PRICE, 2008). Outras rupturas, no entanto, são menos previsíveis ou desejáveis, como divórcio, doença grave e desemprego, e podem afetar as "programadas", comprometendo a capacidade de pagamento. A esse respeito, Bolea (2000 apud EPP e PRICE, 2008, p. 58) afirma que os testes a que a família resiste, bem como as maneiras com que ela responde às mudanças para garantir sua sobrevivência tornam-se parte fundamental de sua identidade coletiva. Epp e Price (2008) também percebem em eventos críticos e não planejados desse gênero possíveis pontos de transição capazes de estimular mudanças imediatas na identidade familiar. Apesar disso, as autoras afirmam que são poucos os estudos do consumidor que conectam os desafios enfrentados pela identidade da família durante esses momentos de transição e o comportamento de consumo associado em que ela irá se envolver para restaurar, manter ou reconstruir seu sentido de família. Já com relação às barreiras do mercado que restringem as práticas de construção de identidade, Epp e Price (2008) identifica que a falta de recursos financeiros pode impedir que a família represente suas identidades nas formas que deseja, levando a uma redefinição forçada da identidade familiar. Um exemplo dado pelas autoras de atividade de consumo central para representações da identidade familiar e que pode ser inviabilizada por restrições financeiras é a viagem de férias. E então as pesquisadoras questionam que estratégias orientadas ao consumo as famílias poderiam usar para superar essas barreiras. Nesse sentido, talvez o fenômeno do endividamento possa ser compreendido como um mecanismo utilizado 49 para antecipar o consumo de um bem tido como fundamental para a construção da identidade da família, porém fora dos limites orçamentários correntes. Não é difícil vislumbrar como o acesso que uma família tem a bens materiais, comparado ao de outras famílias, pode moldar sua identidade coletiva (EPP e PRICE, 2008), com impacto nas práticas de consumo. 2.3 O PROCESSO DE ENDIVIDAMENTO DO CONSUMIDOR A aquisição de marcadores de consumo que sinalizam uma boa vida pode ser considerada condição sine qua non para a participação na cultura de consumo, sendo difícil que se faça qualquer exagero sobre a importância do endividamento dos consumidores para a busca desse estilo de vida (BERNTHAL, CROCKETT e ROSE, 2005). Com efeito, o crédito se tornou um expediente comum ao qual consumidores recorrem para adquirir bens; gerenciar esse recurso, porém, pode ser problemático para alguns deles (MENDOZA e PRACEJUS, 1997). Para Hill (1994), uma consequência adversa do uso ampliado do crédito são os problemas do consumidor com a gestão do débito. Quando o crédito obtido supera a capacidade de pagamento do indivíduo, ele acaba acumulando dívida e fica sujeito não somente a sérias consequências financeiras, mas também a um estigma social de irresponsável, autocondescendente e impaciente (LIVINGSTONE e LUNT, 1992). Em face desses desdobramentos negativos e possivelmente duradouros, Mendoza e Pracejus (1997) ressaltam a importância de investigar os antecedentes do uso excessivo do crédito, o que teria sido contemplado na literatura por meio de alguns trabalhos nas áreas de política do consumidor (DESSART e KUYLEN, 1986) e de psicologia econômica (LIVINGSTONE e LUNT, 1992, 1993; TOKUNAGA, 1993), preocupados com a identificação de características dos consumidores com potencial para acumular dívidas em geral. No âmbito da psicologia econômica, especificamente, a investigação sobre endividamento teve início em 1975, com a publicação de Psychological Economics, por George Katona (DAVIES e LEA, 1995), que listou três razões para um indivíduo gastar mais do que ganha: baixa renda, insuficiente para cobrir até despesas essenciais; alta renda combinada com um forte desejo de gastar; e falta de vontade de economizar, independentemente da renda. Com essa lista, Katona (1975) inseriu motivações psicológicas e comportamentais na abordagem da origem dos problemas com crédito, não restringindo suas explicações a circunstâncias econômicas adversas. O estudo de Dessart e Kuylen (1986) concluiu que o perfil das famílias mais propensas a ter excesso de dívidas era o de locatários (sem casa própria), com filhos entre sete e dezoito 50 anos e com saldos em aberto junto a diferentes empresas. Uma variável individual identificada pelos autores que desfavorece a predisposição ao endividamento é o locus de controle10 interno: "quanto mais os devedores sentem que podem controlar suas vidas e as coisas ao seu redor, menos provável é que eles entrem em dificuldades financeiras" (DESSART e KUYLEN, 1986, p. 320, tradução nossa). Os pesquisadores ainda sugeriram alguns fatores que contribuem para o problema da dívida, como a falta de compreensão das consequências de transações financeiras, o crédito facilmente acessível e a falta de competências de gestão do dinheiro (DESSART e KUYLEN, 1986). Já o estudo de Livingstone e Lunt (1992) utilizou medidas individuais de atitude para identificar devedores problemáticos. De acordo com os autores, devedores tendem a manter atitudes um tanto favoráveis ao crédito e ao débito, especialmente pela possibilidade de acesso imediato a bens cuja compra, de outra forma, teria de ser adiada. Além disso, os pesquisadores também identificaram fatores demográficos e econômicos que diferenciavam devedores e não devedores: a classe social tinha uma relação negativa com a dívida, enquanto a renda disponível era positivamente relacionada com o débito. Ainda, o número absoluto de dívidas de uma pessoa era positivamente relacionado com o nível global de endividamento. Em outra pesquisa, Livingstone e Lunt (1993) relataram que as estratégias financeiras de poupadores e tomadores de empréstimos não eram necessariamente excludentes entre si, a despeito de as concepções estereotipadas de um grupo e outro sugerirem que seus comportamentos tinham diferentes motivações e consequências. Na verdade, esses pesquisadores encontraram um número considerável de respondentes que possuíam, simultaneamente, dívida e poupança. O perfil psicológico das pessoas em problema com dívidas ainda foi estudado a partir da perspectiva da teoria da dependência: Tokunaga (1993) supôs que consumidores com problemas relacionados ao crédito tinham um perfil psicologicamente semelhante ao de viciados. O autor descobriu, por exemplo, que locus de controle externo e sentimento de autoeficácia inferior estão entre as características de pessoas que usam o crédito excessivamente. De acordo com Tokunaga (1993), esses consumidores veem o dinheiro como fonte de poder e prestígio e são menos propensos a tomar medidas apropriadas para reter o seu dinheiro. No entanto, ao contrário das expectativas do pesquisador, os consumidores com 10 Refere-se ao grau com que o indivíduo percebe os acontecimentos como dependentes do seu próprio comportamento. Aqueles com locus de controle interno acreditam que seu comportamento influencia os eventos, enquanto aqueles com locus de controlo externo tendem a ver os acontecimentos como sendo resultado do acaso, do destino ou das ações dos outros (ROTTER, 1966 apud TOKUNAGA, 1993, p. 298). 51 problemas de crédito não apresentam níveis mais altos de tomada de risco ou de busca de sensação, como seria previsto por um modelo de dependência. Mendonza e Pracejus (1997), já no âmbito da pesquisa do consumidor, procuraram explorar a relação entre a orientação temporal do indivíduo 11 e o uso descomedido do cartão de crédito, como forma de abordar especificamente o perfil do consumidor com dívida acumulada nesse meio de pagamento, até então negligenciado pela literatura (MENDOZA e PRACEJUS, 1997). O nível de utilização do cartão foi medido pelo número de cartões possuídos, em face da dificuldade para obter outras variáveis, como quantia total da dívida, valor médio dos pagamentos mensais e a razão entre dívida e renda. Embora os resultados tenham confirmado que a orientação temporal tem impacto significante sobre a quantidade de cartões possuída, esse impacto se deu na direção oposta à predita pelos autores: ter uma orientação temporal futura – e não presente – é que estava associada à posse de mais cartões. Segundo os pesquisadores, o fato de os respondentes serem estudantes universitários pode ajudar a explicar o resultado: esses jovens podem ter maiores expectativas que o resto da população em sua habilidade pagar o débito, vinculadas à crença na obtenção futura de um bom trabalho após a graduação, por exemplo. Com relação à dificuldade relatada para obter informações sobre a dívida, Mendoza e Pracejus (1997) informaram que Lea, Webley e Levine (1993) já haviam observado que a natureza sensível deste tópico tem algumas vezes impedido uma descrição completa e acurada das causas e consequências do endividamento excessivo. A despeito da "taxa de resposta decepcionante" (LEA, WEBLEY e LEVINE, 1993, p. 112, tradução nossa), os autores afirmaram que resultados da pesquisa sugerem que a dívida é fortemente influenciada por circunstâncias econômicas adversas, mas que os fatores sociais e psicológicos também são importantes. Nesse sentido, existiriam condições para o desenvolvimento de uma "cultura da dívida" autossustentável, já que, em uma sociedade dirigida pelo consumo, estar em débito se tornou um modo de vida. A literatura sobre endividamento, porém, não se limita à identificação das características dos consumidores com dívidas. Segundo Hill (1994), os pesquisadores têm respondido à necessidade de investigação dos problemas de crédito do consumidor de três formas principais: além dessas abordagens voltadas ao desenvolvimento de um perfil 11 Diz respeito à tendência de o indivíduo focar a atenção em uma determinada região temporal. Segundo Jones (1994), uma orientação ao futuro pode ser percebida no hábito de definir objetivos e traçar planos, enquanto uma orientação ao presente pode ser caracterizada por certa impulsividade e espontaneidade no comportamento. 52 psicológico dos consumidores endividados, entre as quais o autor inclui os estudos de indivíduos caracterizados como impulsivos (ROOK, 1987) ou compulsivos (FABER e O'GUINN, 1988; O'GUINN e FABER, 1989), tem havido pesquisas focadas nos efeitos do endividamento sobre o bem-estar dos consumidores (KINSEY e LANE, 1978; LANGREHR e LANGREHR, 1989; SHEPARD, 1984; SHIERS e WILLIAMSON, 1987; SULLIVAN e DRECNIK, 1984) e investigações preocupadas com a proteção dos consumidores contra as soluções oferecidas por credores (LANGREHR e LANGREHR, 1979; FALLS e WORDEN, 1988). Entretanto, a partir da constatação de que tais pesquisas não teriam examinado adequadamente a conturbada relação entre agências de cobrança de dívidas e consumidores endividados, Hill (1994) se propôs a investigar as crenças, sentimentos e comportamentos dos cobradores e devedores um em relação ao outro. As entrevistas em profundidade revelaram que cobradores identificam pelo menos dois tipos diferentes de consumidores endividados: aqueles que são cooperativos ou por recearem as desconhecidas consequências de suas dívidas estarem sob o cuidado de agências especializadas ou por precisarem liquidar seus débitos para obter novos créditos para compras maiores, como do carro ou da casa; e os não cooperativos, que são abertamente confrontadores ou, inversamente, muito solícitos, mas igualmente sem pretensão de pagar. Pelo lado dos consumidores, o autor conseguiu encontrar três explicações principais para os problemas financeiros enfrentados: a ocorrência de alguma tragédia recente que exauriu os recursos da família (doenças graves com tratamentos caros, por exemplo), a desaceleração da economia com o advento de desemprego, subemprego ou redução salarial, e a inaptidão para gerenciar o uso do crédito. Já para Bernthal, Crockett e Rose (2005), a literatura teria falhado em identificar as práticas que os consumidores empregam para lidar com o endividamento. Sendo assim, os autores realizaram uma investigação na área da pesquisa do consumidor com foco nas práticas relacionadas ao cartão de crédito e descobriram que elas podem tanto favorecer o alcance de objetivos de estilo de vida definidos pelo consumo quanto restringir a capacidade de realizálos, esta última situação caracterizando a metáfora da "prisão do devedor", ou seja, uma vida de enfrentamento das propriedades confinantes da acumulação de dívidas. A Figura 3 a seguir sintetiza o modelo sugerido pelos pesquisadores: 53 Trajetória de Restrição Alcance Controle Espaços de Estilo de Vida do Consumidor Enfrenta mento "Prisão do Devedor" Trajetória de Libertação O Mercado Figura 3: Práticas de Consumo com Cartão de Crédito e Movimento entre os Espaços de Estilo de Vida Socialmente Construídos. Fonte: Adaptado de Bernthal, Crockett e Rose (2005, p.133). Entre as práticas que caracterizam o espaço do alcance de objetivos estão o uso do cartão de crédito para a construção ou a sinalização do estilo de vida, como na aquisição de experiências valorizadas ou de bens que demonstrem ausência de restrições materiais. Já o espaço da "prisão do devedor" é marcado pela necessidade de lidar com os custos psicológicos e financeiros do endividamento. Referenciar gastos como necessários e apropriados, focar o aspecto altruísta do ato de presentear e pagar pouco mais que o valor mínimo da fatura estão entre as práticas concebidas para proteger psicologicamente o usuário dos efeitos negativos do acúmulo de dívida sobre seu autoconceito e para justificar o uso continuado de cartões de crédito, apesar de endividamento elevado. As práticas de enfrentamento das consequências financeiras visam postergar/evitar o pagamento das obrigações e a alteração dos padrões correntes de consumo e consistem em uma espécie de "baralhamento" das dívidas: recursos de um cartão são usados para pagar a conta mais onerosa de outro, pagamentos são priorizados em função das taxas de juros e empréstimos que consolidem as dívidas muitas vezes são contratados. Isto é, os endividados encontram formas de criar um espaço vivível dentro das "muralhas de sua prisão", usando as regras do mercado em vantagem própria (BERNTHAL, CROCKETT e ROSE, 2005). O modelo teórico proposto por Bernthal, Crockett e Rose (2005) também informa que a capacidade de os consumidores se moverem entre esses dois espaços de estilo de vida 54 (alcance de objetivos vs. "prisão do devedor") é influenciada por características de autocontrole pessoais. Negar ou postergar a gratificação que acompanha a aquisição e o consumo pode manter o indivíduo longe do confinamento, ao passo que uma inabilidade de apresentar autocontrole pode conduzi-lo diretamente para lá. Esses movimentos, denominados trajetórias de libertação e de restrição, respectivamente, ainda trazem ideologias subjacentes: uma ideologia de frugalidade é mais evidente entre as pessoas na trajetória de libertação, que têm maior controle sobre o cartão de crédito e menores níveis de dívida; aqueles na trajetória da restrição, por sua vez, apresentam sentimentos mais proeminentes de compensação, no sentido de que se acreditam merecedores de "prêmios" por enfrentarem as dificuldades do diaa-dia, utilizando o cartão de crédito como meio legítimo para adquiri-los. Cohen (2007) também não deixa de notar alguns paradoxos interessantes entre as práticas daqueles consumidores que fazem rolagem da dívida – que habitariam a metáfora da "prisão do devedor" sugerida por Bernthal, Crockett e Rose (2005) –, ao abordar o predomínio do cartão de crédito como sistema de pagamento e suas implicações para a sustentabilidade no consumo. A autora observa, por exemplo, que esses "roladores" de dívida devem destinar uma parcela significativa de sua renda mensal ao pagamento de juros e taxas do cartão de crédito, que é o meio preferencial para ampliar a capacidade de consumo. Ocorre que, por terem que desviar constantemente uma porcentagem substancial das finanças familiares para cobrir tais despesas, esses consumidores são forçados a reduzir, em termos absolutos, o seu consumo no longo prazo (COHEN, 2007). Independentemente da observação dessas contradições nos níveis de consumo que o cartão de crédito pode provocar, o principal objetivo de Cohen (2007) é propor uma agenda para a discussão de mudanças estruturais nas práticas de empréstimo que respondem pela popularidade desse sistema de pagamento, destacando as ligações entre o crédito ao consumidor e o consumo sustentável. De acordo com a autora, a prevalência de cartões de crédito e a acumulação de dívida do consumidor nos países avançados têm sido fatores importantes para o crescimento econômico. À medida que o hábito comum entre os consumidores deixa de ser poupar dinheiro para compras futuras e passa a ser antecipar novas aquisições por meio de endividamento, fica evidenciada para Cohen (2007) a preponderância do papel do gerenciamento financeiro familiar na capacitação para um consumismo mais responsável ambiental e socialmente. Segundo a autora, as discussões acerca da sustentabilidade no consumo têm se restringido a iniciativas com foco em eficiências materiais e energéticas, que, embora favoreçam notáveis ganhos de curto prazo, tendem no 55 longo prazo a ocasionar melhorias aquém das expectativas e efeitos-rebote imprevistos. Assim, programas de políticas eficazes precisariam reconhecer as dimensões sociais e financeiras da tomada de decisão do consumidor e se tornar mais atentos ao papel das famílias como catalisadores da produção (COHEN, 2007). Cohen (2007) ainda faz um levantamento de pesquisas na área da saúde sugerindo que a acumulação de níveis insustentáveis de endividamento pode contribuir para a diminuição do bem-estar no longo prazo (DRENTEA, 2000; DRENTEA e LAVRAKAS, 2000; READING e REYNOLDS, 2001; JACOBY, 2002; KASSER, 2002; KASSER e KANNER, 2004). Os achados de tais estudos estabeleceriam um contraponto à percepção de que o uso do crédito seria psicologicamente fortalecedor, uma vez que o endividamento para o consumo responderia à necessidade imediata de manutenção da saúde mental, em meio a um ambiente estimulador de ansiedade pela promoção onipresente de produtos. Alguns estudos no Brasil também abordaram a questão do endividamento para o consumo, tanto direta (MOURA, 2005; PONCHIO, 2006) quanto indiretamente (BRUSKY e FORTUNA, 2002; MATTOSO e ROCHA, 2005). Com relação às razões que motivaram essas pesquisas, parece ser útil considerar a distinção feita por Lea, Webley e Levine (1993). De acordo com os autores, são dois os principais tópicos que despertam o interesse nas pesquisas sobre endividamento: os fatores que levam algumas pessoas a usarem o crédito mais intensamente que outras; e os fatores que fazem alguns indivíduos entrarem em situações de dificuldade de pagamento, com a possibilidade de ocasionar acúmulo de dívidas até níveis impagáveis (LEA, WEBLEY E LEVINE, 1993). Sob essa perspectiva, os estudos de Moura (2005), Ponchio (2006) e Brusky e Fortuna (2002) aparentam estar mais relacionados ao primeiro tópico, enquanto a pesquisa de Mattoso e Rocha (2005) parece se aproximar mais do segundo. Nesse sentido, é possível perceber ainda que a presente dissertação volta seu interesse para a compreensão do segundo grupo de fatores. Moura (2005) se propôs a estudar o impacto do materialismo, valor dado aos bens materiais e às propriedades, na atitude em relação ao endividamento e no nível de dívida para financiamento do consumo junto a famílias de baixa renda da cidade de São Paulo. As principais conclusões da autora foram que o materialismo tem efeito direto sobre a atitude ao endividamento, mas indireto sobre a dívida, e que o efeito mais relevante sobre a dívida vem da vulnerabilidade das famílias, mas no sentido inverso do esperado, ou seja, quanto menor a vulnerabilidade, maior o volume de dívida. Uma possível explicação é que, entre os indivíduos que vivem com baixos rendimentos (a renda compõe a dimensão socioeconômica 56 da vulnerabilidade), aqueles com renda relativamente mais alta têm mais acesso ao crédito e, portanto, mais oportunidades de entrar em acordos de parcelamento do que aqueles com menor renda (MOURA, 2005). O estudo de Ponchio (2006) também utilizou o contexto de consumidores de baixa renda do município de São Paulo para explorar e caracterizar as manifestações do materialismo e medir seu impacto na contratação de carnês de crediário. Os achados da pesquisa confirmam a tese de que não apenas fatores econômicos adversos levam as pessoas a se endividarem (KATONA, 1975; LEA, WEBLEY e LEVINE, 1993) e que o estudo da demanda por crédito para consumo necessariamente deve testar a influência de variáveis sociodemográficas e psicológicas. Constatou-se, por exemplo, que o materialismo está associado à idade (indivíduos mais novos tendem a ser mais materialistas que os mais velhos) e à educação (adultos analfabetos tendem a ser menos materialistas que adultos tardiamente alfabetizados, sendo a busca por escolaridade na fase adulta possivelmente motivada por desejos de melhor empregabilidade, renda e maior participação na sociedade de consumo), mas não ao gênero ou à renda. A pesquisa de Brusky e Fortuna (2002), como citado acima, não abordou diretamente, ou pelo menos não exclusivamente, a questão do endividamento para consumo. Trata-se de um projeto desenvolvido para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com o objetivo de proporcionar um maior entendimento sobre a demanda por microfinanças no País. Com metodologia qualitativa, o estudo foi conduzido nas cidades de São Paulo e Recife junto a grupos de microempresários, autônomos, assalariados e desempregados, com renda entre zero e seis salários mínimos. Entre os achados relativos ao endividamento para consumo, os autores perceberam que, mesmo relatando uma incapacidade de fazer sobrar dinheiro ao fim do mês, os entrevistados separavam as quantias necessárias para pagar as prestações de suas compras financiadas ou para cobrir multas e juros dos cartões de crédito. Esses pagamentos de dívidas, segundo os pesquisadores, podem ser vistos como "poupança invertida" e mostram a capacidade de fazer sobrar dinheiro, quando é preciso (ou quando se quer). A pesquisa de Mattoso e Rocha (2005), por sua vez, procurou investigar a natureza dos problemas financeiros enfrentados por consumidores pobres, moradores da favela da Rocinha, na cidade do Rio de Janeiro, e as estratégias adotadas para o seu enfrentamento. Os resultados indicaram que as dificuldades vividas originavam-se tipicamente de eventos inesperados como desemprego, redução ou suspensão de renda, gravidez, divórcio, doença, 57 morte e emergências em geral, e que as soluções mais utilizadas para contornar a situação eram não pagar ou contrair empréstimos. O estudo revelou ainda que, nesse contexto, "ter nome", que significa, essencialmente, ter acesso a crédito, torna-se um demarcador social a evidenciar quem está bem financeiramente (e apto a "emprestar o nome", isto é, a abrir um crediário em seu nome ou a usar o próprio cartão de crédito para fazer as compras de outra pessoa) e quem está mal e inadimplente (com o "nome sujo", ou seja, listado em cadastros de devedores, e que precisa "pedir um nome emprestado" para consumir). 58 3. METODOLOGIA Este capítulo tem por objetivo descrever e situar as opções metodológicas da pesquisa objeto desta dissertação. Inicialmente é exposta a adoção do paradigma interpretativista. Em seguida, são oferecidas as razões que motivaram a escolha da abordagem exploratória, bem como da entrevista em profundidade como método qualitativo de coleta de dados e da aplicação de exercícios projetivos. Além disso, são apresentadas justificativas para a escolha da categoria de automóveis, como instrumento para estudar o endividamento. As perguntas de pesquisa, os critérios para seleção dos entrevistados e a proposta de análise das informações coletadas também integram o presente capítulo, que se encerra com o levantamento de algumas limitações da metodologia adotada. 3.1 PARADIGMA INTERPRETATIVISTA Todo pesquisador é guiado por princípios que combinam crenças sobre ontologia, epistemologia e metodologia (DENZIN e LINCOLN, 2006). Os princípios ontológicos se referem à compreensão do investigador sobre a natureza do ser humano e da realidade; os epistemológicos, à relação existente entre o investigador e o conhecido; e os metodológicos, à forma de o investigador adquirir conhecimento. Esse conjunto de crenças e sentimentos em relação ao mundo e ao modo como este deveria ser compreendido e estudado, que orienta a ação do pesquisador, é o que Lincoln e Guba (1985) vão denominar paradigma. Para Patton (2008, p. 423, tradução nossa) o paradigma "informa aos seus adeptos o que é importante, legítimo e razoável (...), dizendo o que fazer sem a necessidade de longas considerações existenciais e epistemológicas". Essa característica dos paradigmas, porém, constituiria tanto sua força quanto sua fraqueza: eles tornam a ação possível, mas mantêm suas razões subjacentes ocultas em suposições não questionadas (LINCOLN e GUBA, 1985; PATTON, 2008). O paradigma adotado neste estudo é o interpretativista, que, segundo Denzin e Lincoln (2006), supõe uma ontologia relativista (existem múltiplas realidades), uma epistemologia subjetivista (pesquisador e pesquisado trabalham juntos na criação das compreensões) e um conjunto naturalista (no mundo natural) de procedimentos metodológicos. De acordo com Patton (2008), o paradigma interpretativista volta sua atenção para o significado do comportamento humano, o contexto da interação social e as conexões entre estados subjetivos e comportamento. Enfatiza-se, assim, a capacidade humana de conhecer e compreender os outros a partir de introspecção e reflexão baseadas em descrições detalhadas obtidas por meio 59 de métodos como observação direta, entrevista aberta e em profundidade e estudo de caso. Pelo paradigma interpretativista, portanto, a construção do conhecimento decorre da combinação de diferentes visões sobre um tema; previsibilidade ou leis gerais não são buscadas, mas sim a diversidade de descrições e interpretações acerca de um mesmo fenômeno (LINCOLN e GUBA, 1985). 3.2 TIPO DE PESQUISA De acordo com Malhotra (2006), o objetivo da pesquisa exploratória, como o próprio nome indica, é explorar determinado problema ou situação, para descobrir ideias e percepções que possibilitem sua maior compreensão. A abordagem exploratória é especialmente pertinente quando há pouco ou nenhum conhecimento científico sobre o grupo, processo, atividade ou situação que se deseja examinar (STEBBINS, 2008) ou quando o conhecimento sobre o tema na área de estudo é pouco sedimentado (VERGARA, 2005). Esse parece ser justamente o caso do tema da presente pesquisa na área de estudos de consumo. Conforme exposto no capítulo de introdução, o tema do endividamento tem recebido bastante atenção da mídia de massa, além de ter sido investigado por outras áreas do conhecimento; no âmbito dos estudos de consumo, contudo, o endividamento não tem conquistado muito espaço. A opção por um método qualitativo decorre igualmente de sua indicação para explorar áreas sobre as quais pouco se sabe (STERN, 1980 apud STRAUSS e CORBIN, 2008), sendo a pesquisa qualitativa uma importante metodologia usada na pesquisa exploratória (MALHOTRA, 2006). Não por acaso há predominância de dados qualitativos na maioria dos estudos exploratórios (STEBBINS, 2008). Além disso, segundo Strauss e Corbin (2008), o uso da pesquisa qualitativa é motivado sobretudo quando o problema de pesquisa está relacionado ao entendimento dos significados ou da natureza de experiências vividas pelas pessoas. Isso porque os métodos qualitativos são úteis para obter detalhes intricados sobre fenômenos como sentimentos, processos de pensamento e emoções difíceis de extrair ou de descobrir por meio de métodos de pesquisa mais convencionais (STRAUSS e CORBIN, 2008). A abordagem qualitativa, portanto, aparenta ser a ideal para a temática do endividamento, cuja natureza sensível inclusive já acarretou, em pesquisas quantitativas, taxas de resposta desapontadoras (LEA, WEBLEY e LEVINE, 1993) e dificuldades para obtenção de informações sobre valor total da 60 dívida, valor médio dos pagamentos mensais e a proporção entre dívida e renda (MENDOZA e PRACEJUS, 1997). Dentre os métodos qualitativos de coleta de dados, a escolha recaiu sobre a entrevista em profundidade com roteiro semiestruturado12. A entrevista em profundidade é considerada um dos métodos mais poderosos dentro do arsenal qualitativo (MCCRACKEN, 1988) e, na definição de Malhotra (2006), constitui uma abordagem direta, pessoal e aberta, cuja principal utilidade é proporcionar à pesquisa exploratória maior entendimento a respeito do problema estudado. Para Gaskell (2000), a entrevista qualitativa é o meio de que o pesquisador dispõe para formar uma compreensão mais detalhada das crenças, atitudes, valores e motivações relacionados ao comportamento das pessoas. McCracken (1988, p. 9, tradução nossa) chega a dizer que a entrevista "oferece a oportunidade de entrar na mente de outra pessoa, para ver e experimentar o mundo como ela própria faz". Ademais, Malhotra (2006) destaca que o método pode ser usado com eficácia em casos que envolvam a sondagem detalhada do entrevistado a respeito da compra de um carro novo ou a discussão de tópicos confidenciais, delicados e embaraçosos, como finanças pessoais, o que reitera a pertinência do uso da entrevista em profundidade na pesquisa proposta. No que se refere à inclusão de exercícios projetivos no roteiro de entrevista, cabe dizer que atende à necessidade de favorecer a superação de alguma inibição ou reserva própria da natureza do tema endividamento. Segundo Malhotra (2006, p. 167) a técnica projetiva é "uma forma não-estruturada e indireta de fazer perguntas que incentiva os entrevistados a projetarem suas motivações, crenças, atitudes ou sentimentos subjacentes sobre os problemas em estudo". A vantagem dessa técnica está em aumentar a validade das respostas, particularmente quando os problemas abordados são pessoais, delicados ou estão sujeitos a severas normas sociais (MALHOTRA, 2006). O entendimento de Rook (2006) quanto às vantagens das técnicas projetivas é similar. Para o autor, como o consumo muitas vezes ocorre em ambientes imersos em normatizações sobre certo e errado, a natureza indireta das questões projetivas encoraja os consumidores a se desviarem do "desejado socialmente" ou supostamente "esperado pelo pesquisador", expressando mais honestamente seus sentimentos primários sobre gastar dinheiro, comer e beber, usar preservativos etc. (ROOK, 2006). 12 O roteiro utilizado nas entrevistas está disponível no Anexo 1 desta dissertação. 61 3.3 A ESCOLHA DA CATEGORIA ESTUDADA A escolha da categoria de automóveis como instrumento para explorar o tema do endividamento no âmbito dos estudos de consumo se baseou, principalmente, em três fatores: a utilização profícua do produto em outras pesquisas da área (SUAREZ, 2010); a crescente participação alcançada pelo financiamento como opção de pagamento na compra de carros no Brasil (ANEF, 2013); e a recente tendência de alta na inadimplência em financiamentos de veículos (BACEN, 2012). Em primeiro lugar, o automóvel é um produto cujo consumo apresenta forte dimensão simbólica, podendo envolver elevado engajamento emocional e financeiro da família, além de um extenso processo de decisão. Por essas características, a categoria tem sido utilizada como fonte de dados empíricos em diversas pesquisas sobre o consumidor, conforme levantamento realizado por Suarez (2010). No que se refere à consolidação do financiamento como meio preferencial de compra de automóveis pelos brasileiros, dados da ANEF informam que cerca de 51% dos novos automóveis comercializados durante 2012 utilizaram o financiamento bancário como modalidade de pagamento (ANEF, 2013). O financiamento de veículos, por sua vez, conforme Relatório de Estabilidade Financeira, publicado pelo Banco Central, tem sido a modalidade de crédito com maior contribuição para a recente elevação na inadimplência de pessoas físicas, que manteve a tendência de alta iniciada em março de 2011, atingindo 5,4% em junho de 2012 contra 5,1% em dezembro de 2011 (BACEN, 2012). Se, do total de famílias brasileiras que compram um carro novo, metade o faz contraindo dívida, isto é, antecipando sua capacidade de consumir, aparentemente fica evidenciada a pertinência do uso da categoria de automóveis em um estudo sobre endividamento. Se, adicionalmente, muitas dessas famílias enfrentam dificuldades de pagamento posteriores, parece estar reiterada a adequação desse produto à natureza da investigação proposta. 3.4 PERGUNTAS DE PESQUISA As perguntas de pesquisa foram elaboradas a partir da revisão de literatura e das entrevistas realizadas como pré-teste. 62 A principal pergunta que a pesquisa objeto da presente dissertação pretende responder é esta: "Como é a experiência de dificuldades financeiras vivida pelas famílias a partir do endividamento contraído para a aquisição de um automóvel?" O desenvolvimento da resposta a essa pergunta principal, por sua vez, será apoiado pela compreensão do contexto em que ocorreu a compra do carro e das circunstâncias em que surgiram os problemas financeiros. Sendo assim, são propostas as seguintes questões complementares: a) Quais são os principais significados e sentimentos envolvidos na compra do carro? b) Como é a participação da família na aquisição do veículo? c) Como as famílias lidam com os custos inerentes ao automóvel? d) Como as famílias veem o recurso ao endividamento para a aquisição de bens? e) Quais são os principais significados, sentimentos e experiências originados das dificuldades financeiras? 3.5 SELEÇÃO DOS ENTREVISTADOS O processo de seleção de entrevistados para a pesquisa, assim como o delineamento dos critérios de escolha, começou durante o pré-teste do roteiro de entrevistas. No início, a preocupação básica era que os selecionados fossem consumidores pertencentes a famílias que tivessem passado ou estivessem passando por uma experiência de dificuldades financeiras em virtude da dívida contraída para a aquisição de um automóvel. Ainda não havia, por exemplo, uma definição quanto à forma de abordagem da família (quantos e quais membros seriam entrevistados) nem quanto a filtros relacionados a aspectos demográficos. Dessa forma, a etapa de teste do roteiro deveria servir não somente para verificar a clareza e a adequação das perguntas propostas, mas também para avaliar o indivíduo ou o grupo que seria estudado, além de possíveis parâmetros demográficos dos pesquisados. Tendo em vista a recorrência de notícias sobre a elevação da inadimplência e a responsabilização do financiamento de veículos como seu maior contribuidor (BACEN, 2012), havia certa expectativa de facilidade na localização de pessoas com problemas para pagar as prestações do carro financiado. Por esse motivo, para o pré-teste do roteiro, foi adotada a mesma estratégia de recrutamento por conveniência que havia sido proposta para o momento das entrevistas efetivas, isto é, por meio de indicações e contatos da rede de conhecimento do pesquisador. 63 Essa fase inicial de testes, porém, apontou para a dificuldade e para o risco de impertinência dessa opção de recrutamento. Embora muitos contatos informassem "certamente conhecer" indivíduos na situação procurada, tais manifestações se traduziram em uma única indicação concreta. Entretanto, a pessoa indicada, que havia sido lembrada por "viver reclamando" da dificuldade de pagar o financiamento do carro, mostrou-se relutante para admitir seus problemas financeiros durante a entrevista realizada. Essa resistência da entrevistada, assim como o receio do pesquisador de forçar sua superação, indicou que a ligação estabelecida pela rede de contatos não era adequada, no caso desse tema aparentemente delicado e que sugeria constrangimento e desconforto nas conversas iniciais. Sendo assim, em função das inesperadas dificuldades para encontrar pessoas na situação desejada e para extrair informações sensíveis no único caso conseguido, foram tomadas duas decisões: seria mantido o recrutamento por conveniência para as entrevistas dessa etapa de pré-teste, quando não havia a exigência de problemas com o pagamento do financiamento do veículo; e seria contratado um serviço profissional de recrutamento para as entrevistas efetivas da pesquisa. Entendeu-se, portanto, que, para os objetivos do pré-teste de averiguar a qualidade do roteiro e de indicar a melhor forma de abordagem da família, bastaria que a mesma houvesse inserido recentemente um automóvel financiado no orçamento doméstico. Além da entrevista anteriormente citada, o pré-teste contou com mais quatro entrevistas. Esse total de cinco entrevistados representaram quatro famílias pesquisadas, da seguinte forma: na primeira família, somente a esposa foi entrevistada; na segunda, somente o marido; na terceira, o casal, separadamente; e na quarta, somente o filho adulto. Vale ressaltar que, nesta pesquisa, os termos "casal", "marido", "esposa" e afins se referem livremente ao par formado por homem e mulher e que vive junto, com o intuito de ser reconhecido como família. Todas as entrevistas dessa fase de testes geraram informações interessantes, mas a abordagem de ambos os membros do casal como porta-vozes da experiência familiar foi a que proporcionou maior riqueza de detalhes, em virtude das informações que se complementaram na fala de cada um a respeito da compra do automóvel e dos seus efeitos sobre as finanças da família. Dessa forma, ficou definida a abordagem de casais para as entrevistas e que cada um seria entrevistado separadamente, para evitar distração ou inibição dos informantes (BERENT, 1966). 64 Uma vez alcançada essa definição quanto à forma de abordagem das famílias e realizados pequenos ajustes no roteiro testado, deu-se prosseguimento à contratação de um serviço profissional de recrutamento. Esse serviço consiste na localização de indivíduos com o perfil definido pelo pesquisador: famílias que tivessem passado ou estivessem passando por uma experiência de dificuldades financeiras por causa da dívida contraída para a aquisição de um automóvel. Inicialmente, havia uma intenção de não considerar filtros relacionados a aspectos demográficos nesse perfil, de modo a não adicionar mais obstáculos à seleção, que já havia apresentado sinais de dificuldade. No entanto, as entrevistas iniciais sugeriram também que a existência de filhos na casa poderia contribuir para a configuração de uma realidade de consumo com maior comprometimento do orçamento doméstico e, consequentemente, com mais dificuldades financeiras. Com efeito, ao estudar casais sem filhos, Azevedo (2010) observou um comportamento de consumo diferenciado, pautado na liberdade, na imprevisibilidade, no individualismo e na orientação ao lazer. Tais especificidades, por sua vez, pareciam relacionadas ao fato de esses casais desfrutarem de maior renda discricionária (LEE e SCHANINGER, 2003). Outro critério demográfico adicionado ao perfil repassado à empresa de recrutamento dizia respeito à localização geográfica dos respondentes: eles deveriam pertencer a famílias residentes no estado do Rio de Janeiro. Tal decisão foi tomada por uma questão não só de acessibilidade, mas também como forma de definir um contexto para a pesquisa, cuja importância é defendida por Arnould, Price e Moisio (2006). No que se refere ao número de entrevistados, a presente pesquisa contou com dez casais, totalizando vinte entrevistas, todas aproveitadas para análise. Essa quantidade de respondentes adere ao entendimento de Gaskell (2000) de que um grande número de entrevistas pode não implicar necessariamente uma compreensão mais aprofundada do fenômeno estudado. As vinte entrevistas realizadas contabilizaram mais de quinze horas de conversação registradas em áudio, que foram convertidas em 394 páginas de transcrições. O tempo médio de duração das entrevistas foi de 46 minutos, tendo a mais longa se prolongado por 65 minutos e a mais curta, por 34 minutos. Dessa forma, o tempo de duração das entrevistas parece estar de acordo com Malhotra (2006), para quem uma entrevista pode durar de trinta minutos a mais de uma hora. Considerou-se que essas informações eram suficientes para o estudo exploratório proposto. 65 As entrevistas foram realizadas no período de setembro a novembro de 2012, em locais escolhidos pelos entrevistados conforme sua conveniência, ou seja, em suas casas, em seus ambientes de trabalho ou em salas cedidas pelo instituto de pesquisa contratado para realizar o recrutamento. No Quadro 1 a seguir, é apresentado um breve perfil dos entrevistados, com as seguintes informações: idade, ocupação, tempo de relacionamento, número de filhos e suas idade, bairro e município de residência, classe social de acordo com o "Critério Brasil" 13, da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP), modelo, ano de fabricação e montadora do carro da família, forma de pagamento acordada e número de parcelas pagas e atrasadas. Para manter o anonimato dos respondentes, na análise das informações foi adotada a marca do automóvel da família como o nome do casal. 13 O Critério de Classificação Econômica Brasil (CCEB), conhecido como Critério Brasil, encontra-se disponível no Anexo 2 desta dissertação. 66 Casal Cônjuge Idade Sr. 45 Celta Ocupação Operador de Máquinas Sra. 43 Atendente Sr. 31 Vigilante Cerato Sra. 29 Recepcionista Sr. 47 Motorista de Entregas Classe A Sra. 31 Dona de Casa Sr. 33 Atendente de Produção Fox Sra. 33 Atendente Sr. 46 Aposentado da Marinha Mégane Sra. 44 Técnica em Enfermagem Sr. 32 Coordenador de Relacionamento Palio I Sra. 31 Dona de Casa Sr. 35 Analista de Suporte Palio II Sra. 32 Vendedora de Roupas Sr. 40 Coordenador de Hidráulica Siena Sra. 41 Supervisora de Atendimento Sr. 34 Técnico em Eletrotécnica Symbol Turin Sra. 29 Suporte Comercial Sr. 49 Policial Militar Tempo Nº de de filhos relacion (idades) amento Bairro (município) Classe Carro/Ano** social* (montadora) Forma de pagamento Nº de parcelas pagas (atrasadas) 23 1 (21) Vila Meriti (Duque de Caxias) C1 Celta/2003 (Chevrolet) 3 1 (10) Cachambi (Rio de Janeiro) B2 Cerato/2011 (KIA) 0+ 60x R$ 1.730 4 (10) 8 1 (5) Ilha do Governador (Rio de Janeiro) B2 Classe A/2001 (MercedesBenz) R$ 6.000 + 48x R$ 800 41 (7) 5 1 (3) Porto Novo (São Gonçalo) B2 Fox/2008 (Volkswagen) 0+ 72x R$ 670 36 (6) 25 2 (24,16) Campo Grande (Rio de Janeiro) B2 Mégane/2001 (Renault) 0+ 60x R$ 560 24 (10) 7 1 (2) Pilar (Duque de Caxias) B1 Palio/2010 (Fiat) R$ 3.000 + 60x R$ 830 2 (20) 7 1 (3) Jardim Sulacap (Rio de Janeiro) B1 Palio/2008 (Fiat) 20% + 48x R$ 460 38 (10) 8 1 (6) Chatuba (Mesquita) B1 Siena/2009 (Fiat) Veículo anterior + 60x R$ 650 24 (2) 3 1 (1) Campo Grande (Rio de Janeiro) B1 Symbol/2011 (Renault) Veículo anterior + 48x R$ 440 6 (5) 20 3 (18,16,13) Bento Ribeiro (Rio de Janeiro) B2 J3 Turin/2012 (JAC) 0+ 60x R$ 1.100 8 (4) R$ 3.000 + refinanciado 60x R$ 470 2x*** Técnica em Sra. 44 Enfermagem * De acordo com o Critério de Classificação Econômica Brasil, disponível no Anexo 2. ** Ano de fabricação. *** O casal Celta não sabe precisar quantas parcelas foram pagas ao todo. Do último refinanciamento, havia uma parcela atrasada. Quadro 1: Perfil dos Entrevistados. Fonte: Elaborado pelo autor. 3.6 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DAS INFORMAÇÕES Uma vez com a posse do material transcrito, o passo seguinte consistia em organizar, interpretar e analisar as informações. Tais procedimentos costumam ser conduzidos em meio 67 a um processo de codificação, que consiste na elaboração de categorias, na redução dos dados e na verificação de existência de relações entre as categorias. Para tanto, foi cogitada inicialmente a utilização do software ATLAS.ti, desenvolvido especificamente para a análise de dados qualitativos, como instrumento de auxílio na organização do extenso material coletado, inclusive pela possibilidade de cruzamento de temas e de criação de diagramas. Todavia, ao mesmo tempo em que o programa se mostrava de grande valia no tratamento das informações isoladas, ele parecia limitar ou dificultar uma percepção mais completa e integrada dos dados, importante para o reconhecimento de relações, conexões, conflitos e contradições inerentes ao tema do endividamento. A esse respeito, Schwandt (2006, p.197), ao discorrer sobre a tradição interpretativista, informa que "para entender uma parte (uma frase, um enunciado ou um ato específico), o investigador deve entender o todo (o complexo de intenções, crenças e desejos ou o texto, o contexto institucional, a prática, a forma de vida, o jogo de linguagem etc.) e vice-versa". Além disso, para a presente pesquisa, optou-se por adotar preceitos do enfoque elaborado por Gill (2000) para a análise do discurso, cujo caráter artesanal a autora afirma não haver como negar, constituindo-se a mesma um processo sempre "intensivo em mão de obra" (p. 180, tradução nossa). De acordo com a pesquisadora, análise do discurso é o nome dado a diferentes perspectivas sobre o estudo de textos, que compartilham do pressuposto que o discurso tem importância central na construção da vida social. Nesse sentido, o termo discurso se refere a todas as formas de interação oral ou escrita, como conversas cotidianas, entrevistas e textos de qualquer tipo (GILL, 2000). Segundo Gill (2000), a análise do discurso contém quatro temas principais: uma preocupação com o discurso em si, que se traduz pelo interesse no seu próprio conteúdo e na sua própria organização; uma visão da linguagem como construtiva e construída, isto é, textos constroem a vida social e o mundo, mas sua composição envolve escolha e combinação dos recursos linguísticos disponíveis; uma ênfase do discurso como forma de ação, tendo em vista que as pessoas, como atores sociais, procuram adequar o discurso ao contexto interpretativo em que se encontram; e uma convicção na organização retórica do discurso, no sentido de que sua elaboração sempre procura torná-lo persuasivo. O emprego da análise do discurso nesta dissertação assimilou alguns passos sugeridos por Gill (2000). De acordo com a autora, uma vez transcritas as entrevistas realizadas, o pesquisador deve mergulhar no material a ser estudado, lendo e relendo as transcrições até que se tornem familiares. Essa leitura cuidadosa e atenta ainda deve comportar um 68 movimento entre texto e contexto, de forma a favorecer o exame do conteúdo, da organização e das funções do discurso, com base naqueles quatro temas principais acima expostos. Após essa imersão preliminar nos textos transcritos, foi dado seguimento ao processo de codificação, por meio da elaboração de categorias de análise. Essas categorias usadas para a codificação, de acordo com Gill (2000), são determinadas pelas questões de interesse do pesquisador. É possível dizer, porém, que aspectos do referencial teórico e temas revelados pelas entrevistas também influenciaram na definição das categorias propostas no capítulo de discussão dos resultados. Definidas as categorias, a análise ocupou-se de explorar as informações para conferir substância a cada uma delas. Nesse trabalho de construção das categorias, procurou-se não somente perceber padrões, diferenças e contradições presentes dos dados, mas também integrar a teoria revisada. Quanto ao fato de os dados serem constituídos essencialmente pelo falado, a análise deve ir além (GASKELL, 2000) e examinar o que não é dito, os silêncios (GILL, 2000). Para tanto, torna-se fundamental a atenção do pesquisador aos contextos que permeiam todo o discurso (GILL, 2000), de forma a alcançar seu objetivo mais amplo de procurar significados e compreensão (GASKELL, 2000). 3.7 LIMITAÇÕES DO MÉTODO Os resultados deste estudo, por sua natureza exploratória e pela utilização de metodologia qualitativa, não podem ser considerados conclusivos ou utilizados para fazer quaisquer generalizações (MALHOTRA, 2006) em relação à experiência de dificuldades financeiras vivida pelas famílias pesquisadas. É preciso salientar, porém, que a principal preocupação deste trabalho consistiu justamente em buscar detalhes e particularidades, sem abrir mão de apontar eventuais semelhanças e diferenças entre as respostas dos entrevistados. No que se refere ao emprego de entrevistas em profundidade, é possível destacar algumas dificuldades inerentes ao método, como a limitação ao que é lembrado pelo entrevistado no momento da interação. Além disso, segundo Gaskell (2000), o entrevistado pode: ter um linguajar próprio que dificulta a correta compreensão de sua fala; omitir detalhes importantes, seja por considerá-los muito óbvios, seja por achá-los difíceis de traduzir em palavras ou grosseiros e indelicados; e fornecer respostas que não reflitam exatamente seu pensamento, em virtude de uma percepção distorcida da situação apresentada. 69 Vale mencionar ainda a opção por uma categoria de consumo específica. A escolha do automóvel como objeto de investigação atendeu ao interesse de proporcionar maior foco e aprofundamento das questões relacionadas ao consumo via endividamento. Se o recurso a somente uma categoria pode ter limitado os achados da pesquisa, acredita-se ter evitado o risco de dispersão e superficialidade que a agregação de outras categorias poderia trazer. Tendo em vista que as informações coletadas e aqui analisadas foram objeto de um esforço interpretativo, deve-se reconhecer a subjetividade presente nas mesmas, que não podem ser consideradas simplesmente objetivas. Com efeito, as análises realizadas trazem não somente a visão do pesquisador, mas também os conceitos e teorias levantados durante a revisão de literatura, que se misturam aos achados do campo e se inserem no processo de sua interpretação. 70 4. DISCUSSÃO DE RESULTADOS Neste capítulo procura-se realizar uma discussão a partir das informações levantadas nas entrevistas qualitativas, sendo utilizadas como fios condutores da análise as perguntas de pesquisa que motivaram o estudo. Esse processo inclui ainda a associação e o confronto dos dados coletados no campo com proposições teóricas presentes no capítulo de revisão da literatura. Com base no roteiro e nas informações captadas no decorrer das entrevistas, foram elaboradas categorizações temáticas com o intuito de facilitar a compreensão, favorecer a comparação e auxiliar na interpretação do conjunto de dados. Há categorias que aparecem mais em algumas famílias do que em outras, o que se deve ao caráter subjetivo de um estudo exploratório. São elas: (1) Significados e sentimentos associados ao automóvel. Esta categoria de análise procura explorar a dimensão simbólica do consumo de automóveis e entender sua influência na motivação para a compra, além de trazer uma compilação do imaginário dos entrevistados sobre famílias com e sem carro, captado a partir de exercício projetivo; (2) A família no processo de decisão e compra do carro. Nesta categoria, procura-se abordar o aspecto coletivo da aquisição do automóvel, como prática de consumo simbólico propícia à interação das identidades familiares; (3) Formas de lidar com os custos relativos ao automóvel. O objetivo desta categoria de análise é compreender as consequências dos custos decorrentes da posse do automóvel no controle do orçamento doméstico; (4) O endividamento para aquisição de bens. Nesta categoria, busca-se entender a influência de percepções sobre o endividamento para consumo e de circunstâncias do financiamento do automóvel na incapacidade de pagamento; (5) Dificuldades de pagamento: significados, sentimentos e enfrentamento. O objetivo desta categoria de análise é captar possíveis desdobramentos do estado de inadimplência sobre a identidade familiar. No entanto, de modo a proporcionar uma melhor contextualização para a discussão proposta, previamente será feita uma descrição resumida das famílias estudadas e dos principais aspectos relacionados à compra de seus carros e à sua incapacidade de pagamento. 71 Casal Celta Casados há 23 anos, o Sr. e a Sra. Celta (operador de máquinas e atendente) moram em uma casa no bairro de Vila Miriti, em Duque de Caxias, com um filho de 21 anos. A compra do Celta, zero quilômetro, foi concebida e levada a cabo pelo marido, que queria: poder responder às constantes necessidades médicas de sua sogra sem depender de parentes ou conhecidos; e aliviar o "sufoco" pelo qual a esposa passava diariamente por "pegar ônibus lotado para trabalhar". Para o pagamento do financiamento, que seria sua responsabilidade, o Sr. Celta contava com o efeito duplicador de horas extras de trabalho sobre seu salário básico. Entretanto, cerca de três anos após a compra, a empresa em que trabalhava "cortou as horas extras" e ele ficou alguns meses sem conseguir pagar as parcelas de R$ 470,00. Foi feito então um refinanciamento com pagamento em 48 vezes de R$ 390,00. Dois anos depois, o Sr. Celta foi demitido e, desempregado por quase um ano, ficou sem pagar as prestações nesse período. No novo emprego, o salário inferior e a dívida acumulada implicaram uma nova renegociação, que previu um pagamento de R$ 1.000,00 mais 48 parcelas de R$ 250,00. Mesmo considerado um valor "incrível" pelo Sr. Celta, a parcela devida pela ocasião da entrevista estava atrasada há quinze dias "porque usaram o dinheiro para outra coisa". Casal Cerato O Sr. e a Sra. Cerato (vigilante e recepcionista) vivem juntos há três anos e criam um menino de dez anos, que é filho apenas do marido. Quando compraram seu Cerato, zero quilômetro, ele trabalhava como taxista, "pagando a famosa diária" (não tinha veículo próprio), e ela, como supervisora em um salão de beleza. Cerca de quatro meses após a aquisição, o dono do táxi utilizado pelo Sr. Cerato se mudou de cidade e vendeu o carro para alguém que preferiu não dividi-lo. Pouco tempo depois, o salão em que a Sra. Cerato trabalhava foi vendido, e o posto de supervisão, ocupado por pessoa da confiança do novo proprietário. Com o desemprego de ambos, as prestações de R$ 1.730,00 não puderam ser pagas, situação inalterada após a recolocação com salários que "não chegam nem perto" dos anteriores. Além disso, o casal passou a viver "de favor" na casa da mãe da Sra. Cerato, no bairro do Cachambi, no subúrbio do Rio de Janeiro, porque também não conseguiu pagar o aluguel da moradia anterior. Casal Classe A O Sr. e a Sra. Classe A (motorista de transportadora e dona de casa) moram em uma casa no bairro da Ilha do Governador, na cidade do Rio de Janeiro, estão juntos há oito anos e 72 têm um filho de cinco anos. Como o carro de trabalho fica à disposição do marido para uso pessoal e familiar, o casal "não estava procurando alguma coisa do tipo" até o Classe A ser oferecido a eles pelo então proprietário, conhecido da família. A partir daí, a Sra. Classe A, que trabalhava em um restaurante na época, ficou muito interessada pela oportunidade e o marido concordou com a compra. Os problemas de pagamento começaram quando o restaurante em que a esposa trabalhava faliu, restando pagar sete das 48 prestações do financiamento. Sem a contribuição da mulher, a parcela de R$ 800,00 ficou além das possibilidades de pagamento do Sr. Classe A. Casal Fox O Sr. e a Sra. Fox (atendente de produção e atendente em corretora de seguro saúde) têm um relacionamento de cinco anos e moram em uma casa construída por eles no bairro de Porto Novo, no município de São Gonçalo, com sua filha de três anos. A compra do Fox, zero quilômetro, foi imaginada para o momento da gravidez da esposa, que tinha uma pequena padaria em sociedade com o irmão. Em sua gestação, porém, houve graves complicações e ela precisou deixar de trabalhar. Pouco tempo depois, o irmão se mudou de cidade e o negócio precisou ser vendido. Sem a renda da Sra. Fox, que era a maior da casa, o casal não conseguiu mais pagar as parcelas de R$ 670,00. Casal Mégane O Sr. e a Sra. Mégane (sargento da Marinha aposentado e técnica em enfermagem) são casados há 25 anos e moram no bairro de Campo Grande, no Rio de Janeiro, com um casal de filhos; a moça tem 24 anos e o rapaz, dezesseis. A vontade de voltar a ter um carro cresceu à medida que se avolumaram as situações em que o casal era "obrigado a pedir favor a parentes". Quando compraram o Mégane, usado, o marido já tinha empréstimo consignado, descontado diretamente em sua folha de pagamento, e seu salário não era suficiente para a obtenção do crédito necessário. Por isso, a compra só foi possível mediante a assinatura do contrato pela irmã da Sra. Mégane. Sem reajustes salariais "há anos" e contraindo novos empréstimos para manter o padrão de vida, o casal foi perdendo o poder de compra até se tornar impraticável o pagamento da prestação de R$ 560,00. Além disso, houve doenças que exigiram a compra de medicamentos caros e agravaram ainda mais a situação. 73 Casal Palio I Casados há sete anos, o Sr. e a Sra. Palio I (coordenador de relacionamento em empresa de informática e dona de casa) têm um filho de dois anos e moram em uma casa no bairro de Pilar, em Duque de Caxias. A ideia de comprar um carro veio com o nascimento da criança e foi implementada após a Sra. Palio I ser demitida da empresa em que trabalhava anteriormente, quando recebeu uma indenização. Parte dessa verba foi utilizada para dar a entrada no pagamento do Palio, zero quilômetro, e o restante, para montar um negócio próprio junto com o marido, que não estava trabalhando na época. O empreendimento, porém, foi malsucedido e ambos tiveram que voltar a procurar emprego. O Sr. Palio I conseguiu se recolocar, mas a esposa teve que ficar cuidando do filho, uma vez que problemas de saúde impediram sua mãe de continuar tomando conta da criança. Com somente uma fonte de renda, o pagamento das parcelas de R$ 830,00 do financiamento não pôde ser mantido. Casal Palio II Juntos há sete anos e com uma filha de três anos, o Sr. e a Sra. Palio II (analista de suporte em informática e vendedora de roupas) moram em uma casa no bairro de Jardim Sulacap, no Rio de Janeiro. No mesmo terreno, fica a casa da mãe do Sr. Palio II, que mora com o irmão e o pai. Quando compraram seu Palio, seminovo, a esposa, que era "bem empregada" em um banco e "tinha um salário muito bom", ficou integralmente responsável pelo pagamento do carro, que também havia sido ideia sua. Contudo, faltando pagar dez das 48 prestações de R$ 460,00, a Sra. Palio foi demitida e não teve como manter os pagamentos. Casal Siena O Sr. e a Sra. Siena (coordenador de hidráulica e supervisora de atendimento), moram no bairro da Chatuba, no município de Mesquita, são casados há oito anos e têm um filho de seis anos. A compra do Siena, zero quilômetro, foi planejada pelo marido, que estava "detestando levar pra oficina" o carro antigo. No entanto, como seu nome constava em cadastro de devedores, o contrato precisou ser assinado no nome da mãe da esposa. A primeira dificuldade de pagamento aconteceu quando o Sr. Siena ficou desempregado. Os pagamentos só foram regularizados meses depois, quando ele aceitou um cargo em Fortaleza, no estado do Ceará, no qual conseguiu um salário melhor. Ocorre que mais à frente um incidente de trabalho fez com que o Sr. Siena ficasse em licença médica por cerca de cinquenta dias. Após a primeira quinzena de afastamento, seus rendimentos passaram a ser o 74 benefício pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), cujo valor foi insuficiente para cobrir as prestações de R$ 650,00. Casal Symbol Quando casaram, há cerca de três anos, o Sr. e a Sra. Symbol (técnico em eletrotécnica e agente de suporte comercial) fizeram um financiamento habitacional para a compra do apartamento em que moram no bairro de Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro. Em virtude desse investimento, o casal concordou em ter um carro básico e usado, "só para não ficar a pé" até surgir uma oportunidade de trocar por um melhor. Com a gravidez da Sra. Symbol, dois anos depois, o marido entendeu que tal ocasião havia chegado e, apesar dos receios iniciais da esposa quanto ao acúmulo de dívidas, eles acabaram concordando em trocar de carro. Seis meses após a compra do Symbol, "praticamente zero quilômetro" (era carro de test drive), o marido precisou emprestar dinheiro para a cirurgia de emergência a que seu sobrinho teve que se submeter, porque os pais da criança não tinham como custear. Pouco tempo depois, sua sogra também teve uma urgência médica e a família onerou muito seu orçamento com os custos da internação e dos medicamentos. Como não dispunham de reservas financeiras, o casal viu os R$ 440,00 previstos para as prestações do veículo serem consumidos por essas situações e acabou ficando cinco meses sem pagar o financiamento. Casal Turin O Sr. e a Sra. Turin (policial militar e técnica em enfermagem), casados há vinte anos, vivem em Bento Ribeiro, subúrbio do Rio de Janeiro, com duas filhas, de dezoito e dezesseis anos, e um filho de treze. A compra do J3 Turin, zero quilômetro, da família foi conduzida somente pelo marido, que estava cansado dos problemas que o carro velho passou a dar após um acidente. O Sr. Turin, que tinha um pequeno comércio na garagem de sua casa, considerava a renda dele proveniente como não pertencente ao orçamento da família e seria essa a fonte dos recursos para o pagamento do carro. Outro acidente, porém, deixou o Sr. Turin sem ter como manter a "birosquinha" em funcionamento, o que impactou diretamente no pagamento das prestações de R$ 1.100,00. 4.1 SIGNIFICADOS E SENTIMENTOS ASSOCIADOS AO AUTOMÓVEL A compreensão das categorias culturais e valores sociais comunicados por um bem material é fundamental para o entendimento da sua importância como objeto de consumo, pois é tendo em vista o referencial sociocultural de significados que aspiram para si próprios 75 e/ou desejam expressar a terceiros que os indivíduos efetuam o ato de consumo (ARNOULD e THOMPSON, 2005; DOUGLAS e ISHERWOOD, 2004; MCCRACKEN, 1986, 2003a; MILLER, 2007). Assim, esta seção procura explorar a perspectiva simbólica presente no consumo de automóveis, a partir da análise do discurso das famílias entrevistadas, para identificar significados e sentimentos associados à posse do carro e entender sua influência na motivação para a compra. 4.1.1. O luxo necessário As entrevistas indicaram percepções variadas a respeito do significado do automóvel. Se luxo e necessidade fossem considerados construtos opostos em um continuum (MARTINS e IKEDA, 2012), o carro poderia ser considerado um luxo-necessário, pois supostamente teria se deslocado de um extremo (luxo) ao outro (necessidade) com o passar do tempo, de acordo com alguns relatos identificados: O carro hoje em dia é necessidade, não é mais luxo. (Sr. Cerato, 31). Dificilmente uma família hoje não tem necessidade de ter um carro. Carro é mais necessidade do que conforto. (Sr. Fox, 33). Veículo não é mais um luxo, né. Ele é uma necessidade pra transporte familiar. (Sr. Turin, 49). Visto por esse grupo como artigo necessário, a situação colocada no exercício projetivo de uma família sem seu próprio automóvel foi justificada basicamente pela ausência de condições financeiras. Outras possibilidades (não saber dirigir, por exemplo) só aparecem esporadicamente, e não como primeira razão para a família não ter carro. Dessa forma, a compreensão parece ser a de que, havendo ou se configurando um padrão econômico que permita a compra de um carro, este estará ou será automaticamente incluído como realidade da família, independentemente de ano ou modelo: Se tivessem condições, com certeza teriam um carro. (Sra. Fox, 33). Hoje em dia não se tem carro por questão financeira. (Porque a pessoa, tendo recursos...) ela vai querer um carro. (Sra. Turin, 44). O carro passou a ser necessidade, eu penso assim... indiferente de modelo ou ano, o carro em si. (Sra. Cerato, 29). Eu não estou falando de carro zero, mas de um carro. Dificilmente a família que puder comprar um carro não vai comprar, acho pouco provável. (Sr. Fox, 33). As falas que caracterizam os carros como necessidade das famílias aparecem mais atreladas aos benefícios funcionais do bem, que em essência é um meio de transporte. Como é 76 na dimensão utilitária de um produto que os consumidores esperam alcançar seus objetivos de prevenção14 (CHITTURI, RAGHUNATHAN e MAHAJAN, 2008; HIGGINS, 1997; 2000), seria razoável esperar a presença de objetivos desse tipo incentivando a aquisição do automóvel. Com efeito, as entrevistas evidenciaram uma preocupação em evitar dificuldades próprias do transporte coletivo, como restrição de horários, escassez e superlotação; o carro, como alternativa, ofereceria tranquilidade e conforto na locomoção da família. Outra aspiração comum era a de independência, sendo o carro próprio sinônimo de "não ter que depender de transporte público" ou "não ter que pedir favor a vizinho". Tal autonomia se torna particularmente crítica em situações emergenciais, sobretudo, se envolvem filhos. Seja porque crianças naturalmente frequentam mais médicos e hospitais, seja porque a saúde dos filhos gera uma preocupação diferenciada nos pais, era recorrente a alusão à necessidade do automóvel para dar segurança, para garantir uma pronta resposta ou uma reação imediata nessas circunstâncias. (Carro) é necessidade, ainda mais com lance de hospital, com filho... às vezes precisa levar pra hospital ou coisa parecida e acaba sendo prioridade mesmo. (Sr. Cerato, 31). Não tem como ter uma criança de três anos em casa e de madrugada precisar de alguma coisa e não ter o que fazer... bater na porta de vizinho, alguma coisa assim... (Sr. Fox, 33). Pra gente, (o carro) é necessidade. Com uma criança pequena, com tudo, e é necessidade. (...) Até mesmo para o lazer das crianças, pra gente ir no mercado, se passar mal, levar ao médico, alguma coisa. (Sra. Palio II, 32). Porque uma família com um filho dificilmente seria possível (não ter carro). (Sr. Turin, 49). Embora tenham predominado nos testemunhos argumentos que configuram o carro como uma necessidade, é preciso lembrar que esse entendimento parece responder apenas por uma parcela da motivação para a compra, haja vista estudos que já apontaram a diversidade de sentimentos e a devoção que os carros são capazes de despertar (BELK, 2004). Não por acaso é extensa a pesquisa acadêmica sobre a perspectiva simbólica presente no consumo de automóveis (SUAREZ, 2010). Sem entrar na discussão sobre o que é e o que não é luxo nem no mérito da colocação "carro não é mais luxo", é possível encontrar na própria fala dos entrevistados indicações de que o automóvel é ou se mantém como forte marcador da condição socioeconômica do proprietário, o que inclusive vai afetar a forma como o bem é desejado. 14 Ver nota 2, à pág. 38. 77 Se a principal razão apresentada no exercício projetivo, pelo conjunto de entrevistados, para uma família não possuir um automóvel é a falta de recursos financeiros, pode-se pensar em uma associação primária do tipo "ter carro é ter dinheiro" e "não ter carro é não ter dinheiro"15. Não parece se tratar apenas de uma oposição entre ricos e pobres, mas ter carro significa fazer parte de um grupo social distinto, o "grupo com alguma condição financeira", em oposição ao "grupo sem nenhuma condição financeira". Sob essa perspectiva, o automóvel passa a ser um símbolo muito importante do pertencimento ao primeiro grupo. A esse respeito, o discurso dos entrevistados indica haver dois possíveis caminhos para a compra do carro: ou a família está (ou acredita que está) melhorando sua situação econômico-financeira e quer registrar essa transição por meio da aquisição do automóvel; ou a família adquire o veículo movida pelo desejo de se sentir incluída e de sinalizar que faz parte daquele grupo social, independentemente de ter uma condição financeira condizente. Nos dois caminhos o movimento para a compra do carro envolve "o outro", que pode ser "todo mundo" ou "os vizinhos", em uma referência a grupos sociais de referência e de convivência. E tivemos a vantagem de comprar um carro pra gente. A gente estava estabilizado, tanto eu quanto ela num serviço legal, entendeu? Tinha condições para isso e eu dei a ideia. (Sr. Cerato, 31). Em 2009 eu entrei em uma empresa bem legal, e você se empolga, está com um salário legal. Aí eu falei "Tá na hora de trocar de carro". (Sr. Siena, 40). Os vizinhos pensaram a mesma coisa que eu pensaria: "O negocio está indo bem por lá". (Sra. Classe A, 31). Acho que o vizinho se preocupa muito com a vida do outro vizinho, isso infelizmente existe. Eles pensaram o quê? "Fulano está ganhando bem, fulano está bem de vida", por ter comprado um carro. (Sra. Mégane, 44). Às vezes, em festas que a gente ia, ou ele ia viajar, todo mundo tinha carro e ele não tinha. (Sra. Fox, 33). Enquanto não tiver uma mudança de vida, eu não acredito, não (que a família esteja planejando comprar um carro)... porque não é o perfil da pessoa, né. (Sr. Turin, 49). 4.1.2. Sonho de consumo parcelado Apesar de a aquisição do automóvel sinalizar o ingresso em um novo grupo social, parece haver um reconhecimento de que o tipo de compra, financiada ou à vista, diferencia esse grupo do "grupo dos ricos", que mora nos endereços mais caros do Rio de Janeiro: 15 O final desta seção traz um quadro que sintetiza o imaginário dos entrevistados acerca de duas famílias, uma com e outra sem carro, captado por meio de exercício projetivo. É interessante observar o grau de desigualdade que pode marcar a caracterização de famílias cuja diferenciação inicialmente proposta se resumia à presença ou à ausência do automóvel. 78 Eu nunca ouvi falar que (alguém) foi na loja e comprou um carro à vista. (Sra. Turin, 44). À vista eu acho quase impossível, pra te ser sincero. (...) Se você falar pra mim "Pô, o cara mora lá na Vieira Souto", eu vou falar "Pô, meu irmão, o cara, pra morar na Vieira Souto, ele tem dinheiro para chegar na agência e comprar um carro de R$ 30 mil à vista". (Sr. Cerato, 31). Curiosamente, os relatos sugerem que não ter recursos suficientes para a aquisição do automóvel à vista não desestimula, mas contribui para a sua transformação em um sonho de consumo, em um objeto de desejo. Segundo McCracken (2003b, p. 143), "não há motivo para aspirar àquilo que está prontamente ao alcance". Nesse sentido, a posse de um bem que está além do poder de compra atual do indivíduo pode funcionar como prova da existência de um estilo de vida idealizado e aspirado por ele (MCCRACKEN, 2003b). A compra do carro, portanto, não poderia ter o mesmo significado no "grupo com alguma condição financeira" e no "grupo dos ricos", capaz inclusive de comprar o automóvel sem parcelar o valor. As colocações abaixo reforçam a percepção de que os automóveis podem ser diferenciadores de grupos sociais e possuem significados que são deslocados (Ver McCracken (2003b)): (Comprar um carro é um sonho para qualquer pessoa?) Não, não. Dependendo do estilo (...) se fosse uma pessoa da Zona Sul, seria mais fácil. (Sra. Fox, 33). O carro, ele nunca vai deixar de ser um sonho de consumo. Mas aí se vai a níveis... nós podemos dizer que chega às Ferraris, aos Audis da vida, né. (...) Ou seja, o sonho de consumo de quem não tem comida é um prato de feijão com arroz. E o sonho de consumo de quem tem um prato de comida já é comer picanha. (Sr. Turin, 49). Essa espécie de deslocamento dos sonhos de consumo que aparece na colocação do Sr. Turin sugere que não há razão para sonhar com o que é facilmente acessível (MCCRACKEN, 2003b). Dessa forma, o carro mais adequado à realidade de recursos da família pode não ter apelo suficiente para se tornar o objeto de desejo. A esse respeito, chama atenção em algumas entrevistas o fato de modelos básicos e populares, mais simples e baratos, não aparecerem entre o rol de possibilidades lembradas pela ocasião da compra, o que pode estar relacionado ao fato de não serem considerados os sinalizadores que buscam para a concretização do sonho ou por não carregarem os significados que gostariam de transmitir aos grupos de referência. Ao longo das entrevistas é possível perceber que perde força a descrição do carro como necessidade, indiferente a ano ou modelo, pautada principalmente por objetivos de prevenção e mais focada em benefícios utilitaristas. Ao mesmo tempo, ganha espaço nos relatos a associação do carro com o sonho, com benefícios hedônicos que atendam a objetivos 79 de promoção16 e com significados que o veículo transmitirá a respeito do seu proprietário (CHITTURI, RAGHUNATHAN e MAHAJAN, 2008; HIGGINS, 1997; 2000). Você se sente bem. Você entrar num... dirigir um Cerato e entrar e dirigir um Corsa não é a mesma coisa. (Sr. Cerato, 31). Eu falei "Gol e Palio todo mundo tem. Vamos escolher uma coisa diferente". E na época o Fox estava em alta, né? Não tinha quase ninguém, não via ninguém na rua... "Pô, vamos escolher um que quase ninguém tem, chamar a maior atenção, vai ficar legal". (Sra. Fox, 33). Eu acho que significou a satisfação de falar que eu tenho alguma coisa que é minha, foi o status, agora eu estou andando de Mercedes (...). Eu sentia que eu estava tirando onda. (Sra. Classe A, 31). É a primeira vez que a gente compra carro com airbag, essas coisas que fazem diferença. Não seria a mesma coisa se eu tivesse comprado uma Fiat Uno. Não seria. Tem a satisfação sim. (Sr. Turin, 49). Os testemunhos acima demonstram que a grandeza dos sonhos não é balizada somente pela condição financeira da família. Belk, Ger e Askegaard (2003) já haviam ressaltado que a atração exercida por um objeto tem explicação na esperança do seu potencial como viabilizador de relações e aceitação em sociedade. Isso implica dizer que a dimensão simbólica presente no consumo do automóvel dificilmente deixará de levar em consideração a condição daqueles com os quais a família se relaciona, em termos comparativos, ou seja, a família desejará ter um carro "diferente", que "ninguém tem", que "está em alta", que "chama a atenção", que confere "status" ou que "tira onda". Essa preocupação com as diferentes associações que podem ocorrer em virtude do carro adquirido, presente nos exemplos acima, está em sintonia com os achados de Grubb e Hupp (1968) sobre a relação entre o autoconceito do consumidor e seu comportamento de consumo, com a habilidade dos adultos em reconhecer o simbolismo do consumo observada por Belk, Bahn e Mayer (1982) e com o critério do papel social dos personagens, identificado por Dalli e Gistri (2006) no cinema de arte italiano, para a escolha de modelos e marcas. Nesse sentido, o tipo de associação pretendida pela família ao adquirir um automóvel como registro simbólico da melhoria em sua condição econômico-financeira pode influenciar sua tentativa de entrada no grupo superior da hierarquia social. Quando os pares se encontram naquele nível de "qualquer ano ou modelo" e este não é suficiente para despertar o desejo da família, existe uma preocupação de diferenciação e a compra deverá ter o significado de "ser melhor" do que os outros, pela posse do veículo. Já quando os pares se encontram em um patamar de consumo mais próximo ao do sonho da família, parece predominar uma vontade 16 Ver nota 2, à pág. 38. 80 de equiparação, com valor de integração. Interessante observar que essas diferentes percepções podem coexistir em uma mesma família, como nos relatos abaixo: (Quando eu dirijo o carro) eu me sinto diferente das pessoas. Me passa uma sensação de eu ser melhor que alguém. (Sra. Fox, 33). Não, (os vizinhos não comentaram) porque na maioria quase todo mundo já tinha carro... tanto melhores que o meu, quanto do mesmo tipo. Então, não foi nada assim de extraordinário. (Sr. Fox, 33). Havendo uma preponderância do significado de deslocamento, como evidenciado na fala da Sra. Fox, essa mudança de grupo social pode desencadear no comprador do carro sentimentos como "vaidade", "exibicionismo", "ostentação", "deslumbramento" e "sensação de superioridade" em relação aos outros, que, por sua vez, são descritos com sentimentos e reações como "inveja", "olho grande" e "incredulidade". Isso aí é mais para o lado da vaidade, né. (...) Você sente, as pessoas olham pra você na rua, falam "Caraca, olha o carro do cara". (Sr. Cerato, 31). Eu sei de pessoas no bairro que "Nossa, fulano...", ia cumprimentar "...parabéns!", mas com aquelas pontas de inveja, olho grande. (Sr. Mégane, 46). Nossa, é um olho que só Jesus! (risos). (...) Os vizinhos falam "São metidos. Pra que comprar um carro zero morando aqui?" (Sra. Siena, 41). Sempre causa uma certa inveja aos outros porque é o sonho de todos ter o seu carro novo. (...) E, pelo menos na minha pessoa, causa até constrangimento porque quem foi criado no subúrbio como eu fui criado teve uma educação diferenciada. (...) A gente não deixa de ter um vínculo direto com o vizinho. (...) A gente às vezes gostaria de compartilhar... os mais chegados amigos compartilham essa felicidade. É como se eles também tivessem realizado o próprio sonho. Mas, no geral, não. No geral causa inveja. (Sr. Turin, 49). Se fosse pela profissão (policial), eles iam dizer que estava roubando, né (risos). Caso contrário, se fosse uma (profissão) comum, "É seu?", com certeza nunca uma pergunta te engrandecendo por você ter algo. É para ter certeza de que é seu ou se você pegou emprestado. Aos primeiros olhos ninguém diz que é seu. (Sra. Turin, 44). O constrangimento, que é um sentimento manifestado no relato do casal Turin, parece ter alguma associação com a profissão do marido, que é policial. Tendo em vista que se trata de uma ocupação ocasionalmente vinculada a práticas ilegais, como abuso de poder ou corrupção, tanto no noticiário cotidiano quanto em obras cinematográficas, torna-se uma preocupação para a família não favorecer uma aproximação com esse tipo de imagem. Isso pode inclusive trazer restrições ao padrão do automóvel desejado, que não deverá se deslocar muito do nível de renda percebido como compatível para o policial, de modo a evitar desconfiança. 81 Não obstante a ocorrência dos sentimentos mencionados acima, as entrevistas parecem indicar que o processo de transição entre grupos sociais marcado pela compra do carro – tenha valor de deslocamento ou de equiparação – é quase sempre percebido como a "realização de um sonho", uma "conquista" ou uma "vitória". Nesse caso, tal movimento é geralmente acompanhado de sentimentos positivos como "satisfação", "bem-estar", "felicidade", "orgulho" e "prazer"; em um relato mais entusiasmado, a emoção que acompanha esse "upgrade na vida" chega a ser descrita como "melhor do que qualquer droga" poderia proporcionar. Quando eu consegui comprar meu carro, foi a maior felicidade, uma conquista, realização de um sonho. Os sentimentos são os melhores possíveis, de quando você corre atrás de alguma coisa, batalha, se esforça, consegue conquistar, cara. (Sr. Cerato, 31). Uma satisfação enorme você comprar um carro zero, você ver um bem daquele, entendeu? Pô, é muito bom! Muito boa a sensação de poder comprar um carro naquela circunstância. (Sr. Fox, 33). É uma vitória, né... a compra do seu veículo. (Sr. Turin, 49). É muito feliz... borbulhante, vamos dizer assim. Realização de sonho é bom (...) Se pudesse engarrafar e vender assim a emoção da hora, né? Acho que é melhor do que qualquer droga que tem por aí, como dizem, né (risos). (Sra. Celta, 43). 4.1.3. Patrimônio simbólico Outro significado do automóvel, que está subjacente a essas ideias de conquista e realização, é o de patrimônio. Se a posse de um carro sinaliza o alcance de certo padrão de vida, é porque há um entendimento anterior de que a posse de bens em geral serve como medida das condições de vida de uma pessoa ou de uma família. Por essa perspectiva, uma vida feliz, vitoriosa e de sucesso, digna de ser perseguida, seria marcada pelo acúmulo de riquezas e bens materiais. Como os entrevistados, uma vez perguntados sobre o hábito de juntar dinheiro, informaram que tal prática é muito difícil e "coisa para poucos"17, parece restar a eles a possibilidade de aplicação dos recursos financeiros em objetos de consumo. Então, a justificativa para a eleição do carro como um dos destinos preferenciais dos recursos que poderiam estar em algum tipo de poupança é a sua capacidade como reserva de valor. Por maior que seja a depreciação a atuar sobre seu valor de compra e por maiores que possam ser os recursos despendidos com juros do financiamento, isso parece não ter relevância: o que importa para o grupo de entrevistados é que aquele bem é a materialização de uma soma, de um valor monetário que, de outra forma, não conseguiria ser acumulado. 17 As dificuldades no gerenciamento do dinheiro serão tratadas na seção referente ao endividamento como mecanismo de aquisição de bens. 82 (A justificativa para comprar um carro era) Pra gente ter um bem também. Era mais isso assim, pra gente ter um bem. (Sra. Cerato, 29). O cara corre atrás para ter aquele dinheiro (da parcela do financiamento). Acho que é uma maneira de economizar numa coisa mais durável. (Sr. Classe A, 47). Essa compreensão do automóvel como patrimônio da família terá impacto inclusive na disposição para mantê-lo, independentemente de ser essa ou não a melhor decisão sob o aspecto financeiro. Eu achava assim: eu já paguei, vamos dizer, dois anos... R$ 6 mil? R$ 12 mil! Se eles me dessem R$ 3 mil e eu devolvesse o carro, eu achava que valeria à pena. Mas eles não devolvem nada, eles não te dão nada e você tem que dar o carro, aí eu achei também ruim. (...) Então eu prefiro dar um jeito pra pagar. (Sra. Fox, 33). Atreladas à visão do carro como "patrimônio", "bem" ou "valor", apareceram ainda duas concepções complementares: a de solidez na vida e a de investimento. A primeira implica que a posse de bens materiais de alto valor não somente indica uma vida de realizações, mas também traz uma sensação de segurança contra adversidades, no sentido de que há de onde extrair recursos em uma situação extrema. Já a segunda concepção quer dizer que o carro é utilizado como "forma de capitalização" na construção contínua de patrimônio, isto é, o veículo atual nada mais é do que um passo em direção a outro passo futuro, que será um carro de maior valor ou que exigirá menos esforço financeiro, em ambos casos significando um movimento de evolução ou conquista. Um bem material, né. (...) Eu acho que o carro representa um patrimônio pra família porque de uma hora para outra você teve algum problema e esse patrimônio pode ser usado pra você de repente vender, resolver os seus problemas ou então, sei lá, se for o meu caso, ajudar uma família, se precisar, coisas desse tipo. Se precisar, eu vendo. (Sr. Celta, 45). Aí já utiliza esse valor do bem como entrada, entendeu? Acredito que vai ficar uma coisa até mais fácil de pegar o carro, dar entrada e financiar só a diferença, aí fica uma parcela mais barata. (Sr. Fox, 33). Esse carro daqui a seis anos ele tem um valor. Eu dou ele de entrada e tiro outro com uma prestação muito mais módica e reduzo de sessenta (vezes) pra cinquenta, pra quarenta. (...) Tem que se capitalizar pra poder ter alguma coisa. (Sr. Turin, 49). Afora esses significados mais relacionados a aspectos socioeconômicos e financeiros, as entrevistas também revelaram a questão simbólica do intercâmbio ou transmissão mútua de atributos entre veículos e seus proprietários (BELK, 2004; HIRSCHMAN, 2003) e da percepção do automóvel como um ser animado (BELK, 2004). Em alguns relatos, pode-se observar que a descrição do carro vai além e inclui características de instituições e relações pertencentes à esfera humana: ele é "família", ele é "casamento", ele é "paixão", ele é "filho", ele é "companheiro". 83 Vou falar, eu, (Sra. Cerato), como mulher, naquele carro que era lindo, eu me sentia maravilhosa ali dentro. (Sra. Cerato, 29). (O que não podia faltar no carro era) Essa mala família. Porque eu sou família, não tem jeito. (Sr. Turin, 49). Não (cogitei vender ou devolver o carro). Estou casado com ele. (Sr. Mégane, 46). Era exatamente o carro que eu estava procurando, estava lá me esperando. Aí eu olhei, foi paixão à primeira vista. (Sra. Palio II, 32). É meu segundo filho. Os cuidados que eu tenho com o meu filho são incomparavelmente maiores, mas depois do meu filho é com o carro. (Sr. Symbol, 34). Eu sinto como se ele fosse meu companheiro mesmo, né? (...) Eu sinto como que ele faz parte da família mesmo. Porque passou por várias etapas de turbulência e ele conseguiu sobreviver. A verdade é essa. (Sr. Celta, 45). Vale reiterar ainda que os sentimentos positivos dos entrevistados com relação ao automóvel são, no geral, inabaláveis, no sentido de que não sofrem influência da situação de dificuldade financeira e de incapacidade de pagamento18. O carro ou "não tem culpa" ou "não tem nada a ver com a história". Portanto, da mesma forma que, para os homens aficionados por automóveis, existe uma profunda separação entre seus carros e o mundo profano das coisas ordinárias (BELK, 2004), para os entrevistados, parece que o carro e a dívida contraída para sua compra não pertencem à mesma realidade. Embora este seja o entendimento usual, há duas manifestações de sentimento dissonantes. Na primeira, o carro em si também não é afetado pela situação desfavorável, porém, por esta ter fugido completamente do controle da família, reconhece-se a perda iminente do veículo, o que traz sentimentos de tristeza, frustração e saudade. Eu acho muito triste. É porque, assim, a gente já não pode mais passear, não pode ficar dando sopa com o carro, vamos dizer assim. Então fica, né? Você fica frustrado, fica meio triste assim. (Sra. Cerato, 29). Saudade. Como eu te falei, adoro dirigir, eu gostava do meu carro, foi o primeiro... (Sr. Cerato, 31). Já a segunda manifestação é efetivamente contrária ao veículo. Trata-se da única responsabilização direta do carro pela situação negativa encontrada entre os vinte entrevistados e o sentimento é de raiva. Nesse caso específico, na realidade, nem é exatamente 18 Os significados e sentimentos associados à dívida serão abordados em seção específica. 84 um sentimento da família como um todo, mas da esposa, que, mesmo sem ter participado da decisão de compra, sofre suas consequências igualmente19. É igual se fosse o bem e o mal. (...) Por mais que ele me dê o conforto, me dê a tranquilidade, mas também tá tirando o sono. Então, assim... dá raiva. (Sra. Turin, 44). 4.1.4. Imaginário de famílias com e sem carro O Quadro 2 a seguir traz uma síntese das principais respostas dos entrevistados quanto à caracterização de duas famílias solicitada no exercício projetivo proposto no início de cada entrevista. O intuito foi descontrair os entrevistados em relação ao tema central da pesquisa. A situação apresentada falava de uma família sem carro e pedia que descrevessem essa família. Algumas perguntas de apoio foram preparadas, indagando onde moravam, se faziam compras financiadas e de que tipo e quais eram as ocupações do casal. Em seguida, a mesma situação era proposta para uma família com carro. A análise desse quadro permite compreender que o carro, assim como a casa e outros bens de consumo mencionados, são capazes de construir um imaginário sobre as pessoas e, ao mesmo tempo, atribuir a elas características, indicando que em uma sociedade de consumo os indivíduos parecem ser mesmo inseparáveis da cultura material (MCCRACKEN, 2003a; MILLER, 2007). Foi possível ver também como a categoria automóvel sinaliza movimentos de ascensão social: apenas com a informação "sem carro" ou "com carro", os entrevistados descreveram outros movimentos que simbolizavam conquistas, seja de outros bens materiais, seja de formas de aquisição de bens, seja de trabalho ou ocupações desempenhados. No imaginário dos entrevistados, não ter carro está associado a famílias que não possuem casa própria (alugada, herdada) ou que até têm a propriedade, mas de casas descritas com complementos negativos que desvalorizam essa posse, como "pequena", "ainda em construção", "em prédio antigo", "com infiltrações", "de difícil acesso", "precisando de reforma". Já na segunda parte do exercício projetivo, quando as famílias têm carro, as moradias não são apenas descritas como próprias; elas trazem descrições com complementos positivos que, em geral, invertem a situação desfavorável atribuída à família quando não tinha carro. As casas passam a ser maiores, mais confortáveis, em "área nobre", "planejada", "com vista", "vagas de garagem" e "sem infiltrações". 19 As circunstâncias dessa compra serão tratadas em maiores detalhes na seção referente à participação da família no processo de decisão e compra do carro. eletrodomésticos eletrodomésticos celular, rádio, roupas, som, tv bicicleta para o filho, geladeira, tv eletrodomésticos básicos necessários casa própria em área nobre casa com mais quartos ou piscina casa melhor em área melhor casa 3 quartos com anexo e quintal grande casa 3 quartos própria casa própria maior e mais confortável apto alugado casa 2 quartos casa em área de difícil acesso casa média casa 1 quarto alugada casa própria casa própria Sra. Classe A Sr. Fox Sra. Fox Sr. Mégane Sra. Mégane Sr. Palio I Sra. Palio I casa alugada casa em construção apto médio financiado Sr. Siena Sra. Siena Sr. Symbol computador, tv eletrodomésticos móveis tudo na casa eletrodomésticos básicos necessários casa própria casa média precisando de reforma apto alugado em prédio com condomínio barato casa média precisando de reforma Sra. Turin casa própria construída e mais confortável Quadro 2: Imaginário de Famílias Com e Sem Carro. Fonte: Elaborado pelo autor. eletrodomésticos, eletroeletrônicos armário de cozinha, eletrodomésticos calçados, eletrodomésticos, medicamentos, roupas casa própria mais confor- computador, fogão, geladeira, tável e espaçosa com suíte tv casa construída e melhor estruturada apto próprio com 1 ou 2 ar-condicionado, micro-ondas, vagas de garagem tv casa própria bonita e espaçosa Sr. Turin Sra. Symbol apto pequeno financiado apto alugado apto alugado em prédio casa própria mais conforantigo tável e com vista melhor Sra. Palio II Sr. Palio II ar-condicionado, celular, micro-ondas eletrodomésticos, roupas casa própria em área nobre apto alugado em área comercial Sr. Classe A casa própria celular, rádio, roupas, som, tv fogão, geladeira, som, tv casa melhor sem infiltração apto. médio com inflitrações Sra. Cerato eletrodomésticos, eletroeletrônicos armário de cozinha, eletrodomésticos eletrodomésticos mais caros eletrodomésticos mais sofisticados eletrodomésticos recémlançados das melhores marcas passeios, viagens compra à vista porteiro técnico em área industrial analista em empresa de construção civil vendedor instalador de carpete pedreiro cargo administrativo vendedor auxiliar administrativo eletrodomésticos (somente parcela em caso extremo) imóvel técnico em informática porteiro sargento caseiro de sítio funcionário público motorista de transportadora bancário corretor de plano de saúde funcionário público lixeiro eletrodomésticos mais sofisticados eletrodomésticos eletrodomésticos eletrodomésticos, roupas eletrodomésticos top de linha em menos parcelas eletrodomésticos mais sofisticados e mais caros em menos parcelas armário de cozinha, cama box, armário de cozinha, cama box, geladeira, máquina de lavar geladeira, máquina de lavar casa própria maior apto 2 quartos financiado eletrodomésticos, eventualmente eletricista ou mecânico eletrodomésticos melhores e mais caros Sr. Cerato eletrodomésticos FSC policial militar empreendedor engenheiro vendedor com remuneração melhor cargo administrativo metalúrgico servidor público de nível superior funcionário de grande empresa estatal cargo administrativo com salário melhor microempresário técnico em enfermagem sub-tenente vendedor de loja funcionário público advogado engenheiro empresário funcionário de cia. aérea contador dono de pequeno negócio FCC Ocupação do marido FCC casa própria planejada e construída pelo casal celulares, eletrodomésticos FSC Compras financiadas casa herdada precisando de reforma casa própria Família com carro (FCC) Moradia Família sem carro (FSC) casa cedida pelos pais sendo ampliada Sra. Celta Sr. Celta Entrevistado dona de casa dona de casa analista em empresa pequena dona de casa dona de casa revendedora de roupas e produtos de beleza vendedora de loja dona de casa dona de casa dona de casa dona de casa técnica em enfermagem dona de casa dona de casa manicure vendedora em shopping (meio expediente) atendente cargo administrativo dona de casa vendedora em loja de moda feminina FSC dona de casa técnica em enfermagem cargo administrativo vendedora técnica em enfermagem vendedora de loja dona de casa empresária dona de casa dona de casa cabeleireira dona de casa dona de casa dona de casa advogada médica dona de casa dona de casa vendedora de loja ajuda o marido no pequeno negócio FCC Ocupação da esposa Ecosport (Ford) Corsa (Chevrolet) Civic (Honda) Siena (Fiat) Idea (Fiat) Gol (Volkswagen) SpaceFox (Volkswagen) Ecosport (Ford) Gol (Volkswagen) Voyage (Volkswagen) Gol (Volkswagen) Gol (Volkswagen) Ecosport (Ford) Gol (Volkswagen) Corolla (Toyota) Focus (Ford) Ecosport (Ford) Sandero (Renault) Gol (Volkswagen) Gol (Volkswagen) Carro da FCC (montadora) 85 86 Quando perguntados sobre as compras financiadas das famílias com e sem carro, o movimento para bens melhores, ainda que financiados, também acontece quando a família hipoteticamente passa a ter carro. Não foi um movimento tão claro quanto o que havia sido descrito para as moradias, pois alguns entrevistados mantiveram as mesmas categorias de produtos para as compras financiadas de famílias com e sem carro. Mesmo assim, em alguns casos, os celulares, micro-ondas, televisões, geladeiras, fogões, computadores, roupas e compras descritos como "básicos" e "necessários" nas famílias sem carro, são substituídos ou complementados por "mais caros", "mais sofisticados", "top de linha", "recém-lançados" e "melhores marcas", quando a família tem carro. Para a família com carro, o imaginário dos entrevistados trouxe ainda alguns produtos diferenciados, como imóveis, passeios e viagens, além de observações registrando que essas famílias podem não precisar parcelar suas compras, isto é, podem "comprar à vista", "em menos parcelas" ou "parcelam apenas em casos extremos". Sabe-se que, da mesma foram que a posse de bens materiais como automóvel e moradia, dentre outros, constrói a identidade em nossa sociedade de consumo, o trabalho ou a ocupação também são responsáveis pela construção da identidade. Alguns autores (JENKINS, 2004; RANSOME, 2005) discutem como a identidade é formada na contemporaneidade pelo trabalho e pelo consumo. Nas famílias descritas como sem carro, o homem aparece limitado a ocupações pouco qualificadas, como as de lixeiro, porteiro, corretor, instalador, pedreiro, vendedor. A posse do carro, de forma similar ao que foi observado na questão da moradia, abre espaço para ocupações bem mais qualificadas, no exercício projetivo tanto dos homens quanto das mulheres entrevistadas: lixeiro passa a contador, corretor e eletricista passam a empresários de pequeno negócio, pedreiro passa a metalúrgico, e porteiro passa a policial ou técnico em enfermagem. Mesmo sendo observado esse movimento de ascensão profissional das famílias sem para as com carro, as ocupações mais qualificadas dos homens não ficaram distantes das ocupações dos entrevistados, conforme descrito no capítulo de metodologia (ver Quadro 1). Quando foi pedido que descrevessem o carro da família para a qual haviam construído um breve perfil de posses e ocupações, os modelos apresentados foram, em geral, simples, sugerindo também que não se descolaram de suas realidades. Quando perguntados sobre a ocupação da mulher, no entanto, o exercício projetivo parece trazer algumas diferenças, ou melhor, não é tão clara a natureza dos movimentos profissionais das mulheres a partir da posse do carro. Quando a manicure passa a advogada, a 87 vendedora a médica ou a dona de casa a empresária, tem-se uma lógica semelhante àquela descrita sobre a ocupação dos homens. Quando, porém, a posse do carro sinaliza que profissionais menos qualificadas passam a ser donas de casa no imaginário tanto de homens quanto de mulheres, quando donas de casa passam a funções mais simples como vendedora ou técnica de enfermagem, ou quando donas de casa continuam donas de casa, fica mais difícil fazer algum tipo de inferência ou interpretação. Essas informações podem sugerir a existência de contradições e conflitos no papel profissional de mulheres na sociedade contemporânea. 4.2 A FAMÍLIA NO PROCESSO DE DECISÃO E COMPRA DO CARRO O entendimento das atividades de consumo como mecanismos utilizados pelas famílias para constituir e delimitar sua identidade coletiva (EPP e PRICE, 2008) pode contribuir para a compreensão da compra do automóvel como um empreendimento coletivo. No caso das famílias estudadas, a aquisição do veículo pode ser percebida como uma prática de consumo que marca uma transição da identidade familiar, sendo o carro o recurso simbólico utilizado na construção de uma narrativa de ascensão social. Dessa forma, esta seção procura explorar as motivações, preferências e influências manifestadas pelo casal ao longo do processo familiar de decisão e compra do automóvel, além de apontar eventuais diferenças de gênero. As entrevistas indicam que a aquisição do automóvel da família pode apresentar processos de decisão distintos, com variedade de agentes e níveis de participação em suas diferentes etapas. Embora o modelo adotado por Solomon (2011) para a tomada de decisão do consumidor contenha quatro estágios principais, que vão do reconhecimento da necessidade, passando pela busca de informações e pela avaliação de alternativas, até a escolha do produto, o próprio autor entende que ele é um tanto simplista para decisões de natureza coletiva. Nos casos pesquisados, parecem ser dois os principais fatores a adicionar complexidade ao referido modelo: a situação de ter que convencer (ou ignorar) o cônjuge após o reconhecimento da necessidade, como condição para dar prosseguimento ao processo; e a preponderância da definição das possibilidades financeiras sobre as decisões relativas ao produto. O primeiro estágio, portanto, compreende não só o reconhecimento da necessidade do automóvel por um cônjuge, mas também o compartilhamento dessa informação com o outro. Com relação a esse momento inicial, os relatos aparentam sugerir uma variação restrita à 88 pessoa que assume o papel de iniciador – marido ou esposa – e aos motivos informados como despertadores do desejo pelo veículo. A partir dessa manifestação, porém, abre-se espaço para diferentes tipos de posicionamento do companheiro com relação à ideia proposta. A esse respeito, as entrevistas parecem indicar que a postura adotada pelo parceiro pode resultar na mencionada necessidade de seu convencimento (ou desconsideração), além de influenciar o nível de engajamento do casal na busca de informações, na avaliação de alternativas e na escolha do produto. Já no que se refere às possibilidades financeiras da família, os depoimentos dos entrevistados apontam para sua aparente onipresença na tomada de decisão, delimitando as opções em todos os estágios, do começo ao fim do processo. 4.2.1 Reconhecimento do desejo Dos dez casais entrevistados, sete informaram que a primeira manifestação de desejo pelo carro partiu do marido e três, da esposa. Embora a natureza qualitativa da presente pesquisa não permita qualquer inferência de ordem estatística, é possível dizer que a simples ocorrência de mulheres exercendo o papel de iniciador no processo de compra do veículo corrobora o estudo de Belch e Willis (2002). A partir da análise dos efeitos de mudanças na estrutura da família sobre o processo decisório de compra familiar, os autores chegaram à conclusão de que, mesmo o marido permanecendo o mais influente na iniciação da decisão de comprar um automóvel, havia aumentado significativamente o grau relativo de influência das esposas nessa etapa (BELCH e WILLIS, 2002). Apesar dessa constatação, vale ressaltar que os três casos de aquisição do automóvel da família iniciados com uma manifestação feminina apresentam algumas especificidades. Em dois deles (casais Palio I e Palio II), o marido não possuía habilitação para dirigir. No terceiro (casal Classe A), o esposo já contava com veículo da empresa em que trabalhava para uso pessoal e familiar. Até que ponto tais circunstâncias podem ter comprometido o interesse desses homens por um carro é uma incógnita. O que os relatos permitem afirmar é que suas esposas tiveram motivos próprios suficientes para querer comprar um carro. Com efeito, entre as razões que essas mulheres alegam ter despertado e/ou alimentado seu desejo pelo veículo, aparecem duas com caráter mais individualista, no sentido de que se referem ou a um histórico individual de posse de carros ou a sensações particulares de "desespero" pelo tempo sem automóvel ou de "agitação" pela "oportunidade muito boa" de compra. É interessante notar, nos discursos a seguir, como a migração do "eu" para o "nós" 89 ocorre justamente quando se passa da exposição de motivos para a declaração da vontade de comprar: Eu sempre tive carro. Quando eu fiz dezoito anos, meu pai me deu um carro. Então eu fiquei uma época sem carro. Então já começou a me dar desespero. Falei "Não, vamos comprar, vamos comprar" e a gente comprou. (Sra. Palio II, 32). Sabe quando você fica assim, é uma oportunidade muito boa, é um carro muito bom, está em um preço legal? E aí a minha pulguinha ficou muito agitada e eu falei "Vamos ter que comprar". (Sra. Classe A, 31). De forma semelhante, os testemunhos de iniciadores masculinos também informam algumas motivações privativas para a compra ou troca do carro, como "ser alucinado por carro", "sempre ter dirigido o carro de amigos", "detestar levar o carro para a oficina" ou "não aguentar mais o carro velho". Eventualmente, a evidência dessa motivação personalista parece demandar alguma dissimulação por meio da adaptação do discurso, como bem percebe a Sra. Cerato: Ele sempre trabalhou dirigindo, era taxista, sempre quis ter um carro. Aí eu acho que foi mais essa coisa, porque, na verdade, ele não gosta, ele é alucinado por carro. Então ele sempre falava... primeiro era "meu", né, quando namorava: "Vou comprar o meu carro" (risos). E depois "Vamos comprar o nosso carro". (Sra. Cerato, 31). Eu tinha um grupo de amigos que quase todos tinham carro, só que do grupo eu era o único que não bebia. Então eu sempre dirigi o carro deles. (...) Pô, você toma gosto naquela coisa. (...) Aquilo vai cultivando o desejo de ter um carro. (Sr. Fox, 33). Eu falei que estava na hora de mudar porque estava começando a ir muito pra oficina e eu detesto ficar levando carro pra oficina. (Sr. Siena, 40). Trouxe pra ela (Sra. Turin): "Vou comprar um carro novo porque eu não aguento mais o velho". (Sr. Turin, 49). Nem todas as razões apresentadas, porém, são individualistas. Alguns depoimentos sugerem que o reconhecimento da necessidade do automóvel decorreu de motivações mais coletivas ou altruístas. Nesse caso, os iniciadores do processo de compra afirmam querer "facilitar o transporte da esposa para o trabalho", "não depender de parentes para ajudar a sogra", "viabilizar certas atividades da família sem ser obrigado a pedir favores", "oferecer mais conforto para a esposa grávida" ou "ajudar nos cuidados com o filho recém-nascido": Onde nós moramos, nós temos dificuldade com transporte. (...) A gente achou melhor comprar um carro para se locomover e para a (Sra. Fox) trabalhar, porque na época ela trabalhava. (Sr. Fox, 33). Na época a gente tinha a minha sogra muito doente e a gente ficava dependendo de parente aqui, parente ali e eu botei na minha cabeça de comprar um carro para ajudar a mãe da minha esposa. (Sr. Celta, 45). Ficamos um tempo sem carro. O que acontece? Para fazer algumas coisas, você é obrigado a pedir a cunhado, cunhada, então fica ruim, fica chato. (Sr. Mégane, 46). 90 Tínhamos um carro mais simples, básico, sem luxo, sem conforto, sem arcondicionado, direção e nada disso e, com ela ficando grávida, eu vi a necessidade de ter um carro mais confortável. (Sr. Symbol, 34). Quando nasceu (nosso filho), eu falei: "(Sr. Palio I), a gente precisa comprar um carro", porque o carro ajuda muito. (Sra. Palio I, 31). 4.2.2 Negociações para um desejo comum Manifestada a vontade de adquirir um automóvel pelo iniciador, abrem-se algumas possibilidades de negociação com o cônjuge para a concretização da ideia. Nas famílias pesquisadas, o companheiro normalmente se posicionou a favor da compra. Em dois casos, porém, o iniciador teve que enfrentar a resistência do companheiro (casais Symbol e Turin), impondo-se a necessidade de convencer ou ignorar o parceiro para se chegar à tomada de decisão. De uma forma geral, as entrevistas parecem indicar que o nível de consenso do casal com relação à importância dessa compra para a família pode influenciar o engajamento de cada um na busca de informações, na avaliação de alternativas e na escolha do produto. Uma forma válida de compreender o posicionamento do parceiro em relação à compra do carro consiste em recorrer a construtos do modelo teórico de Epp e Price (2008) sobre a interação de identidades familiares nas práticas de consumo. Dos sete fatores que as autoras entendem moderar como as famílias constituem e gerenciam suas identidades, pelo menos três aparentam estar presentes nessa passagem da intenção para a decisão de comprar o automóvel das famílias pesquisadas. São eles: eventos de transição da identidade familiar; nível de concordância dos membros da família quanto à identidade coletiva; e grau de sinergia entre as identidades da família (EPP e PRICE, 2008). Embora Epp e Price (2008) não mencionem expressamente a compra do carro como um evento de transição da identidade, parece ser razoável entender sua qualificação como tal, tendo em vista os exemplos elencados pelas autoras: casamento, nascimento de filho e compra de uma casa (EPP e PRICE, 2008). Em se tratando das famílias estudadas, esse caráter de transição fica reforçado, uma vez que conferem à aquisição do automóvel o significado de ascensão social. Assim, para os casais entrevistados, a compra do carro aparentemente pode ser um acontecimento tão buscado quanto os citados pelas autoras e cercado de expectativa similar. Entretanto, a priori, nada impede que um casal apresente níveis diferentes de concordância quanto à identidade familiar e aos objetos de consumo que contribuem para a sua constituição. Nos casos investigados, um entendimento compartilhado quanto à 91 importância do carro para a família, independentemente de quem fez a proposição inicial, parece ter suscitado no cônjuge uma atitude de "comprar a ideia" ou "concordar com a loucura"; uma compreensão "muito diferente", porém, aparenta ter implicado na discordância do companheiro, tornando inúteis as "tentativas de convencimento", conforme relatos abaixo: Foi a nossa conquista, porque depois que eu comprei essa ideia do carro, então fiquei naquela ansiedade. Quando chegou é igual doce para criança, fiquei super feliz, entendeu? (Sra. Cerato, 31). Eu concordei. Nessa parte, a gente se entende... nessas loucuras assim, a gente se entende. De falar "Vamos trocar?", "Vambora!" (Sra. Siena, 41). Assim... o nosso jeito de pensar é muito diferente. (...) Por mais que ele tente me convencer do contrário, minha resposta melhor até hoje ainda é que dava-se um jeito de consertar o outro carro... (Sra. Turin, 44). Já a medida da sinergia entre a identidade coletiva da família (em vias de transição pela compra do carro) e as identidades individuais de cada cônjuge parece ter relação com o grau de engajamento que marido e esposa apresentaram no processo de compra. Quanto a isso, as entrevistas revelam envolvimentos que variam de um mero aval ou apoio até uma participação entusiasmada, capaz de alterar aspectos inicialmente concebidos para o carro. No primeiro caso, se o cônjuge não percebe sua identidade atrelada à pretendida transição da identidade coletiva, ele pode preferir "não se meter" ou "dar pitaco" na compra ou só se preocupar em "não ter aporrinhação", como exemplificado nos seguintes depoimentos: Ela deixou tudo por minha conta, ela não se meteu, não deu pitaco... não falou o que ela queria. Ela queria o carro. Na verdade, ela queria era isso. (Sr. Celta, 45). Eu só falei "Se o carro não me der muita aporrinhação, vai valer o investimento". (...) Foi mais ela (que participou). Ela que praticamente falou "É esse que vamos pegar" (Sr. Classe A, 47). Se o parceiro, porém, acredita que a aquisição do automóvel pode afetar a identidade coletiva e a sua identidade individual similarmente, parece haver motivos para ele "realmente se animar", "gostar de ver tudo", "falar o que não pode faltar" e até determinar qual será o modelo escolhido: Depois que eu realmente me animei, eu dei uma olhada no carro, também achei maravilhoso e tal. (...) Eu queria preto, ar condicionado, vidro elétrico e um som bonito. Completamente diferente do que ele pensava (risos). Quando eu falava isso, ele respondia "Não, mas tem, tá". (Sra. Cerato, 31). Carro quem quis foi meu marido. Ele queria um carro seminovo, né? Um Fiat Uno, que eu acho horrível esse carro. E eu que consegui convencer ele a comprar um carro zero. (...) Eu, como gosto de ver tudo, eu fiquei verificando os lugares, fiquei assim buscando informações. (Sra. Fox, 33). Ele escolhe o carro. Aí eu falo o que não pode faltar. Tem que ter quatro portas, tem que ter ar condicionado. (Sra. Siena, 41). 92 Minha esposa, assim que olhou o carro, bateu o olho, "Esse aqui". Eu falei "Mas isso aqui é carro importado". Ela "Não, esse aqui". Aí eu olhei, fui ver se o carro era bom, completo. "O carro é completo. Então tá". (Sr. Mégane, 46). 4.2.3 O desejo que "cabe no bolso" Como se pode observar, as discussões conduzidas acima sobre o processo de compra do automóvel das famílias pesquisadas não incluíram o componente financeiro. Todavia, o teor das entrevistas parece sugerir que a questão financeira pode ser preponderante em relação às negociações realizadas em todos os estágios da tomada de decisão. De fato, uma das principais preocupações dos casais estudados com relação à compra aparenta ser definir o valor do orçamento doméstico que pode ser direcionado para o financiamento do veículo, uma vez que comprar à vista é para os "ricos" e juntar dinheiro previamente não é uma possibilidade considerada20. Essa espécie de "dotação orçamentária" para a aquisição do carro, por sua vez, parece influenciar fortemente definições de duas naturezas: as relativas ao envolvimento financeiro de cada membro do casal; e as relacionadas a aspectos do veículo (ano, modelo, tamanho, potência etc.). Nas compras efetuadas pelas famílias pesquisadas, o engajamento financeiro aparentemente foi determinado mais por necessidade que por voluntariedade. Quando o proponente era capaz de cobrir aquela "dotação" somente com recursos próprios21, comumente ele se tornava responsável pelo pagamento do financiamento, sem a colaboração do cônjuge. Nesse caso, do ponto de vista financeiro, o iniciador parecia gozar de autonomia para dar prosseguimento ao processo de compra, sendo a concordância do parceiro apreciada, mas não necessária. Quando, porém, a viabilização da compra dependia da complementação com recursos do cônjuge, tornava-se imprescindível que este fosse favorável à compra ou que, pelo menos, pudesse ser convencido da sua importância. Nessa situação, a responsabilidade pelo pagamento do carro costumava ser compartilhada, com marido e mulher procurando contribuir de forma equitativa. Como mencionado anteriormente, as entrevistas revelaram dois casos de parceiros contrários à ideia do automóvel: casais Symbol e Turin. Seus processos de compra ilustram 20 As dificuldades no gerenciamento do dinheiro serão tratadas na seção referente ao endividamento como mecanismo de aquisição de bens. 21 O caso de famílias que afirmam adotar um fundo comum está compreendido na discussão. A questão passa a ser sobre o grau de autonomia ou influência do cônjuge que deu a ideia do carro quanto à destinação de recursos do fundo para a cobertura da referida "dotação", se ele pode tomar essa decisão sozinho ou se precisa da concordância do parceiro. 93 como a autonomia financeira do iniciador pode levar a soluções distintas para a resistência enfrentada, com diferentes desdobramentos. No caso da família Symbol, o marido, que se dizia cansado do carro velho sem arcondicionado e queria proporcionar mais conforto ao filho recém-nascido no verão que se aproximava, levantou o interesse pela troca do carro. Contudo, em face da necessidade de colaboração financeira da esposa, que era "meio contra" à compra, foi preciso o Sr. Symbol apresentar "argumentos" para o seu convencimento. Tendo em vista que a Sra. Symbol "acabou concordando", não há razões para não considerar essa aquisição como fruto de uma decisão consensual. No começo eu meio que fui contra, eu achei que a gente estava se endividando, mas ele argumentou, falou que precisava para a gente ir no mercado, por essas coisas... Aí eu vendo também pelo meu filho acabei concordando. (Sra. Symbol, 29). Já no caso da família Turin, o marido queria um carro novo porque "não aguentava mais o velho", que passou a apresentar muitos problemas após um acidente. Como o Sr. Turin considerava a renda proveniente de seu pequeno comércio "um dinheiro só dele", desvinculado do orçamento familiar, e essa era suficiente para cobrir o financiamento do veículo, ele não se preocupou em convencer a esposa, que preferia "dar um jeito de consertar" o carro antigo. Ele "simplesmente foi" comprar o carro, em uma decisão autônoma. No entanto, a Sra. Turin não parece admitir a pretensa autonomia financeira do marido como condição para um planejamento que não seja conjunto, tanto que diz ter ficado "chocada" e com "cara de babaca" frente à atitude do esposo, que é percebida como uma "sacanagem": Meu esposo simplesmente deslumbrou a historia de ter um carro e foi... (...) Eu embirro um pouco pelo fato de não ter sido uma coisa planejada em conjunto. (...) Quando eu fui encontrar com ele, ele já estava lá na agência, já olhando e dizendo "Eu comprei esse". Eu olhei para a cara dele, fiz aquela cara de babaca, né "Comprou esse? Tá de sacanagem...". "Não, comprei". Pensei "Não deve estar falando a verdade...". E de fato ele estava falando a verdade. Aquilo foi um choque pra mim. (Sra. Turin, 44). No que diz respeito à influência exercida pela sugerida "dotação orçamentária" sobre as definições relativas a aspectos do automóvel, um quarto moderador do modelo teórico de Epp e Price (2008) acerca da interação de identidades familiares parece poder ser encontrado: barreiras de mercado que restringem as práticas de construção de identidade. Segundo as autoras, a falta de recursos financeiros pode impedir que a família represente suas identidades nas formas que deseja, levando a uma redefinição forçada da identidade familiar (EPP e PRICE, 2008). Nesse sentido, as entrevistas revelam que as possibilidades financeiras da família, isto é, o "orçamento", o "bolso", a "prestação" ou a "renda" delimitam em muitos 94 casos as decisões relacionadas ao ano, modelo, tamanho e potência do carro. Essa limitação financeira impede que os entrevistados adquiram o carro que "queriam muito" ou que "ainda desejam" e faz com que eles "tenham que se adaptar", conforme testemunhos abaixo: Um amigo meu disse que 1.0 é uma coisa horrível, eu não acho, entendeu? Porque, além de ser o que cabe no meu bolso, eu não posso ficar aborrecido com algo que é meu, eu tenho que me adaptar. (Sr. Siena, 40). Eu a princípio queria muito o Golf porque, pô, eu acho lindo. Só que a vendedora foi informando "Olha só, a manutenção do Golf é cara, o seguro do Golf é caro". (...) Aí ficou entre o Gol e o Fox. (...) (O Golf) ia fugir do nosso orçamento. (Sr. Fox, 33). Eu queria um sedã. Mas porque eu não podia comprar um carro perua, né, uma station. Não tinha como, ficava muito acima da minha prestação. (Sr. Turin, 49). O (Sr. Palio I) queria um carro maior, só que na hora da compra, acabou da gente não tendo como comprar por questão de renda, enfim, a gente acabou comprando o Palio. (Sra. Palio I, 31). Não chegamos a comprar um carro zero... mas porque estava bem mais caro, a prestação ia ficar um pouquinho alta para o nosso bolso. (Sra. Palio II, 32). É o que eu falei para você, eu comprei o Celta na época, mas o carro que eu desejo comprar ainda é um Gol. É, com certeza... (Sr. Celta, 45). O Symbol é um carro muito confortável, dá muita satisfação... embora, se eu pudesse adquirir, eu adquiria um Civic... mas é um carro confortável, eu acho muito bom. (Sra. Symbol, 29). 4.2.4 Papéis de gênero Os processos de compra do automóvel conduzidos pelas famílias pesquisadas aparentam comportar, ainda, certa influência de gênero em algumas definições quanto ao envolvimento de cada cônjuge. Parece haver, entre os entrevistados, uma percepção geral da existência de papéis predominantemente masculinos na aquisição do carro, a despeito da crescente influência da mulher (BELCH e WILLIS, 2002). Destacam-se, nesse contexto, as transações realizadas pelo casal quanto à atribuição das seguintes responsabilidades: pela negociação no momento da compra; e pelo pagamento do financiamento do veículo, no qual há a presença de um componente simbólico. Embora o estudo de Belch e Willis (2002) sugira que a influência da esposa tenha aumentado em todos os estágios do processo de compra do automóvel, para os casais estudados, determinada função parece competir ao homem: negociar as condições de compra (preço, prazo, forma de pagamento, brindes etc.) diretamente com o vendedor. De fato, em quase todos os casos investigados, o marido ficou à frente dessas negociações, independentemente de ter sido ele a pessoa que deu a ideia do carro, que assinou o contrato de 95 financiamento ou que ficou responsável pelo pagamento. Na compra do casal Palio I, por exemplo, mesmo a esposa tendo iniciado o processo de compra, escolhido o modelo que considerava "carro de mulher" e assinado o contrato, coube ao marido assumir a negociação junto à concessionária: (A palavra final foi) minha porque acabou sendo o Palio e eu era louca pelo Palio, porque eu acho que é um carro de mulher. O (Sr. Palio I) não ficou muito satisfeito não, mas eu quis. (...) Está no meu nome, mas ele que negociou tudo. (...) O (Sr. Palio I) tem muita lábia. Então ele foi conversando para reduzir um pouco o valor de entrada, para reduzir parcelamento, e aí a gente conseguiu. (Sra. Palio I, 31). O único caso em que a esposa desempenhou o papel de negociador, entre as dez famílias pesquisadas, foi o do casal Palio II. Para tanto, "ter um poder da palavra incrível" talvez pudesse ser entendido como uma competência determinante para ela se incumbir dessa responsabilidade, ainda mais considerando que "ter muita lábia" foi um dos motivos sugeridos no relato anterior para o marido ter ficado à frente das negociações. Eu tenho um poder da palavra incrível. Negociei, negociei, cheguei mais ou menos no patamar que eu queria. Ficou no meio, entre eles e eu, não ficou nem do jeito deles nem do meu. (Sra. Palio II, 32). O teor das entrevistas com a família Palio II, porém, parece sugerir que a compra do carro não é a única coisa "resolvida" pela esposa. Na realidade, ela aparenta dominar as decisões do lar como um todo, no sentido de que "ali a palavra final é dela". Como consequência dessa ocupação prévia de um posto tradicionalmente masculino, a atuação da Sra. Palio II frente às negociações com a concessionária talvez possa ser compreendida não como exceção, mas sim como confirmação de que essa função compete predominantemente ao homem. Ela demonstrou interesse em querer comprar por gostar muito da marca Fiat, um carro que ela gosta, o Palio, então ela resolveu comprar e fomos até um loja. (Sr. Palio II, 35). A palavra final aqui (em casa) é minha. (Sra. Palio II, 32). Já com relação à responsabilidade pelo pagamento do financiamento do veículo, alguns casos estudados parecem assinalar uma importância simbólica da sua atribuição à figura masculina. Como dito, nas compras cuja viabilização passava pelo engajamento financeiro de ambos os cônjuges, tal responsabilidade costumava ser compartilhada, com marido e mulher procurando contribuir de forma equitativa. Algumas dessas famílias, porém, aparentavam ofuscar a participação da mulher no pagamento do carro, por meio do rearranjo do acordo firmado sobre o orçamento doméstico: ao invés de aplicar diretamente seus recursos no automóvel, a mulher passava a assumir uma parcela maior das "despesas da casa"; 96 uma vez diminuída sua colaboração nesses gastos, o homem tornava-se apto a pagar o financiamento do veículo "sozinho" ou "integralmente", conforme depoimentos abaixo: (Você ficou responsável integralmente pelo pagamento?) Exato. Caso desse algum problema, aí ela chegaria. Mas ela ficaria responsável por outras situações, despesas da casa, mas a prioridade do pagamento do carro seria comigo. (Sr. Siena, 40). O que ela ganhava era o suficiente para manter as despesas da casa e eu pagar o carro. Eu pagaria o carro sozinho, as despesas do carro, e ela continuaria com a despesa da casa. (Sr. Fox, 33). Eu fiquei com o carro e ela ficou com mais alguma coisa da casa, porque a gente paga também o apartamento. (Sr. Symbol, 34). Fui eu (quem ficou responsável pelo pagamento), mas ela me ajudava. Se ela não me ajudasse pagando as prestações, ela me ajudava nas despesas de casa. (Sr. Mégane, 46). A situação acima, de certa forma, assemelha-se à vislumbrada por Commuri e Gentry (2005) em estudo sobre a tomada de decisão familiar em domicílios chefiados 22 pela mulher. De acordo com os autores, um mecanismo adotado nesses lares para o marido figurar como bom provedor, a despeito da primazia econômica da esposa, consistia em ligar uma despesa carregada de significado simbólico (parcela da hipoteca, por exemplo) ao seu fundo individual. Nos casos em apreço, o financiamento do carro parece ser a despesa a portar tal importância simbólica. Contudo, no lugar da maior renda da mulher, o que se procura disfarçar é dependência do homem em relação à renda da parceira, para comprar um bem associado simbolicamente a uma narrativa de ascensão social. Nessas famílias, portanto, o papel de bom provedor parece ser atribuído àquele que "ficou com o carro" ou com "a prioridade do seu pagamento", independentemente das negociações engendradas para tornar isso possível. 4.3 FORMAS DE LIDAR COM OS CUSTOS RELATIVOS AO AUTOMÓVEL Uma vez concretizado o sonho de adquirir o carro da família, os entrevistados parecem ser chamados mais cedo ou mais tarde à realidade de custos que o veículo encerra. Os casais estudados falam, por exemplo, do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), do seguro, do combustível, da manutenção, da garagem, do licenciamento, das multas, dos consertos. Sendo assim, a presente seção procura explorar alguns aspectos abordados pelas famílias pesquisadas acerca dessas despesas que se somam à prestação do veículo, para entender possíveis efeitos da sua aquisição sobre o orçamento doméstico e o 22 O termo chefiado aqui se refere exclusivamente ao cônjuge com maior rendimento no lar. 97 cotidiano familiar. Além disso, busca compreender formas encontradas para lidar com esses gastos, muitas vezes não considerados no processo de compra do automóvel. 4.3.1 Falhas no planejamento das famílias Alguns casais estudados reconhecem certo descuido no "planejamento" realizado para a aquisição do carro. Para eles, o valor da prestação, "parcela mensal" ou "mensalidade" aparenta ter sido o grande foco de atenção, fazendo com que "nem pensassem nos outros gastos". Como tais custos são inerentes ao consumo do automóvel, "ter que vê-los depois" parece ser a consequência natural de não ter pensado neles "na hora de comprar" ou "no começo". Entretanto, tendo em vista que o orçamento dessas famílias não foi planejado adequadamente, são relatadas dificuldades para assimilar todas as despesas: Na hora de comprar a gente só pensa na parcela mensal, se consegue dar algum dinheiro a mais para abater na mensalidade. Mas não pensa nos outros gastos. (Sra. Siena, 41). A gente acaba não incluindo no planejamento. Você não tem que colocar só o parcelamento, você tem que colocar IPVA, tem que colocar gasolina, manutenção, seguro. No começo, a gente compra o carro e nem pensa. (Sra. Palio I, 31). Depois é que a gente tem que torcer, a gente tem que ver o custo do sonho. E o primeiro mês foi legal, o segundo mês já foi tira daqui, bota ali. (Sra. Turin, 44). Outras famílias, porém, afirmam ter considerado em seu "orçamento" ou "programação" os principais custos relativos ao automóvel, conforme exemplificado nos testemunhos abaixo: Eu tinha noção de que tem que ter uma garagem, que você paga IPVA, que todo ano tem licenciamento, que você pode ter multas, que você pode ter problemas com o carro. (Sr. Cerato, 31). A gente já tinha visto isso também, estava dentro do orçamento: seguro, IPVA, tudo. (Sra. Fox, 33). A princípio pensei que essa parcela poderia ser do Golf, só que, com o acréscimo de todas as outras condições que vêm agregadas ao carro, não só o pagamento da parcela (...) seguro, manutenção, aquela coisa toda (...), eu excluí (o Golf como alternativa de compra) porque fugiu do meu orçamento. (Sr. Fox, 33). É, a gente já tinha programado. Até tanto a gente pode pagar naturalmente. Dá pra gente pagar o carro, dá pra dar o dinheiro pra manutenção, pro combustível. (Sra. Palio II, 32). Como se pode observar, esses relatos também transparecem uma preocupação com a "parcela mensal", mas sugerem uma concepção diferente: para esse segundo grupo de famílias, "parcela" parece ser o "até tanto", no limite permitido do orçamento, que pode ser despendido com o carro. Sendo assim, a parcela do orçamento a ser comprometida com o 98 automóvel não se resume à parcela do financiamento ou prestação; ela inclui tanto a prestação quanto as "condições que vêm agregadas". Ao conceber "parcela" dessa forma, tais famílias supostamente afastariam o risco a que o grupo anterior ficou exposto por considerar, para a parcela do financiamento, o valor da parcela disponível do orçamento, isto é, por deixar o orçamento "no limite" antes mesmo da incidência de custos em princípio inevitáveis. Ocorre que tanto as famílias que "só pensaram na parcela" quanto as que "já tinham visto tudo" antes de comprar o carro acabaram chegando a uma situação semelhante de dificuldade financeira e se tornando igualmente incapazes de pagar o financiamento do automóvel. Esse destino comum, a despeito da suposta diferença de risco que declararam incorrer, sugere certa inconsistência no discurso de bom planejamento apresentado pelo segundo grupo de famílias. Pode-se questionar se o relato da compra melhor planejada exprime uma crença genuína na mesma ou uma resistência em admitir os próprios erros de planejamento, mas é possível encontrar na própria fala desses entrevistados indícios de falhas que podem ter contribuído para chegarem à circunstância de adversidade financeira: Quando chega é que você toma aquele susto. O primeiro IPVA ainda não tinha o gás, falei até para ele "Nossa! Salgado, né?" Aí ele até falou "Mas eu tinha comentado com você". Mas ele não tinha falado o valor exato porque nem ele sabia (...) A esperança é a ultima que morre, eu imaginei que fosse um pouco menos. (Sra. Cerato, 29). O IPVA (surpreendeu), não achei que ia ser tão caro como foi. Pra mim, por o carro ser 1.0 (...) pra mim, "Meu carro é 1.0, vai ser barato". (Sr. Celta, 45). O pior mesmo é a porcaria do IPVA. O carro tem onze anos e tu paga R$ 1 mil de IPVA, é meio desproporcional, né. (...) É muito dinheiro por nada. (...) O carro está parado há um tempão, não estou nem usufruindo da rua. (Sr. Classe A, 47). Preço absurdo, R$ 800. Eu acho um roubo (o IPVA). (Sra. Mégane, 44). IPVA é bem salgado, né. Pelo menos, o do nosso carro. Acho que tinha que dar um jeito disso aí diminuir. (Sra. Fox, 33). Com efeito, os testemunhos acima parecem demonstrar a "surpresa" ou o "susto" dos entrevistados com o IPVA, talvez o custo mais fortemente vinculado ao automóvel, por sua obrigatoriedade legal. Em alguns casos, a surpresa é francamente exposta. Em outros, ela aparenta estar contida na veemência das reclamações dirigidas ao imposto, o que pode indicar alguma frustração por esse custo não ter sido da forma que essas famílias esperavam ou até precisavam para "poder pagar naturalmente". Aberta ou velada, tal surpresa é incompatível com o discurso do bom planejamento e sugere que alguns custos podem ter sido mais "comentados" do que efetivamente calculados ou então uma qualidade muito precária no levantamento de informações para a compra. Nesse caso, "ter esperança" e "imaginar" que 99 determinado custo seria "barato" ou "um pouco menos" parecem ser posturas próximas às confessadas pelo primeiro grupo quando admitiu "nem pensar" nele. Portanto, independentemente do discurso adotado quanto à qualidade do planejamento feito para a aquisição do automóvel, as famílias entrevistadas aparentam ter cometido falhas que as expuseram de forma semelhante ao risco de dificuldades financeiras. Essas falhas de planejamento sugerem o desequilíbrio do orçamento doméstico para o recebimento de todas as despesas do veículo, mesmo com algumas alternativas buscadas para diminuir seu impacto sobre o cotidiano familiar. 4.3.2 Gerenciamento dos custos pelas famílias A decisão de comprar o carro, para o grupo de entrevistados, parece envolver negociações, escolhas e renúncias no âmbito familiar, uma vez que o pagamento do financiamento do veículo passa a demandar recursos que poderiam ser gastos de outra forma. O orçamento doméstico "no limite" após a aquisição do automóvel pode fazer com que outros itens de consumo valorizados pela família passem a ter que se considerados entre as opções de cortes. Nesse sentido, os relatos parecem indicar a existência de duas formas principais de as famílias estudadas tentarem manter seu nível de gastos "dentro do orçamento": o gerenciamento dos custos relativos ao carro; e a negociação de outras despesas do cotidiano familiar. Um dos custos associados ao carro que aparenta oferecer maiores dificuldades de pagamento para as famílias estudadas é o IPVA. Embora as entrevistas indiquem uma ciência geral de que o imposto segue um calendário de cobrança relativamente fixo, costumando incidir nos primeiros meses do ano, o conjunto de entrevistados parece percebê-lo como uma despesa excepcional ao cotidiano familiar de gastos. Essa percepção, inclusive, reforça a ideia de que o planejamento de compra do automóvel pode não ter incluído tal custo na "parcela mensal" do orçamento destinada ao carro. Como resultado dessa falta de provisão para o IPVA a partir de recursos habituais, alguns casais entrevistados costumam vincular seu pagamento ao recebimento de rendimentos também considerados excepcionais, principalmente, 13º salário, premiação em remuneração variável e adicional de férias. (O IPVA) entra sempre em cima do final do ano, onde você tem sempre um serviço extra, você ganha mais dinheiro. Você tem o 13º salário, eu junto as férias em cima dessa época, eu planejo pra receber todo o bruto do meu dinheiro. (Sr. Turin, 49). 100 O IPVA era logo no começo do ano e combinava junto com a empresa quando pagava a premiação do ano anterior. Então, eu já pegava de uma parte e pagava logo, já entrava o ano sem essa preocupação, entendeu? (Sr. Fox, 33). O bom é que eu sempre paguei ele (o IPVA) nas férias. (Sr. Celta, 45). A lógica descrita acima se baseia no aumento, ainda que temporário, dos rendimentos da família, como forma de comportar uma despesa para a qual o orçamento doméstico não foi adequadamente preparado. Outra maneira de gerenciar esse orçamento "estourado", quando "não sobra nada", passa pela tentativa de redução dos custos mal calculados do carro, tendo sido diversos os mecanismos lembrados pelas famílias pesquisadas. O "kit gás", que é a conversão do carro para Gás Natural Veicular (GNV), habilita o proprietário a obter o desconto de 75% sobre o valor do IPVA, oferecido pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro como incentivo à redução de poluentes emitidos pela frota fluminense. Além disso, serve para reduzir os gastos com combustível, uma vez que o GNV é uma opção mais econômica que a gasolina ou o etanol (BARROS, 2012). Contudo, nem todas as famílias que consideraram essa possibilidade conseguiram implementar efetivamente a estratégia. Dentre as dificuldades de instalação do "kit gás", a falta de homologação do procedimento pela montadora do carro, o receio de que problemas mecânicos causados pela conversão compensem seus benefícios e a crença de que há impacto sobre a potência do automóvel são mencionadas nos depoimentos abaixo: Na época não sobrou (dinheiro). (...) Esse era um dos motivos para a gente colocar o kit gás, para reduzir o IPVA. (...) porque é muito caro, IPVA é muito alto e a gente acabou parcelando esse ano e tudo para poder pagar. (Sra. Palio I, 31). O IPVA aqui no Rio de Janeiro ele é muito caro. Um IPVA de R$ 1.600 num carro desse é muita coisa. E eu não posso usar o gás porque a empresa não libera, não homologou o gás do carro, pra redução. (Sr. Turin, 49). Eu cheguei a pensar em botar gás para poder quebrar esse (IPVA)... Me falaram que era uma aporrinhação danada porque o carro era meio melindroso para botar gás e eu desisti. É trocar seis por meia dúzia, vou ficar morrendo em mecânica toda hora. (Sr. Classe A, 47). Nós pensamos em comprar o carro e comprar kit gás para reduzir o IPVA, entendeu? Mas nós não fizemos isso. (...) O povo fica falando que o carro era 1.0, aí não ia subir isso, não ia subir aquilo. (Sra. Celta, 43). Outra forma de lidar com o custo de combustível eventualmente percebida nas entrevistas foi a redução da própria utilização do veículo, conforme relatos abaixo: Por ele ser flex, a gente até ficou com uma alternativa maior de custo de combustível, mas chegou um período que tanto álcool quanto gasolina ficaram muito caros. Então, teve um período que realmente, assim, fugiu um pouco do orçamento. A gente diminuía o uso do carro para não gastar tanto combustível. (Sr. Fox, 33). 101 (Usar menos o carro em um mês em que se esteja apertado, isso pode acontecer?) Acontece, acontece sim. (Sra. Turin, 44). Não realizar os serviços relativos à manutenção em concessionárias das montadoras de automóveis também aparece como uma prática recorrente das famílias entrevistadas para o controle dos gastos do carro. As concessionárias, que são representantes das marcas das montadoras, além de cobrarem "muito caro", são vistas com desconfiança em relação aos serviços que prestam. Os entrevistados parecem contar com as sugestões de amigos e um dos relatos abaixo chega a insinuar que a despesa de manutenção deve ser evitada por completo, na esperança de que o carro "não dê nenhum problema". (Manutenção) Na concessionária é muito caro, cara. Muito caro. (...) Como eu tinha muito conhecimento então eu levava em alguns colegas de confiança. (Sr. Cerato, 31). Eu vou te confessar... Eu só levei o carro na concessionária para fazer uma revisão, foi a primeira. (...) Foi a única revisão que eu levei. Porque até um amigo que trabalhava na concessionária falou "Pô, seu carro tá novo, não tem nada pra fazer, não precisa trocar nada, não tem nada condenado. Então eu não te aconselho a ficar trazendo o carro aqui não, cara." (...) Não fiz revisão e o carro não deu problema. Problema nenhum. (Sr. Fox, 33). Essa opção de eliminar determinado custo do carro para o qual a família não se programou, que aparece no combustível e na manutenção preventiva, também se faz presente com relação ao seguro. Algumas famílias, por "não ter como custear" o seguro, parecem ter "preferido arriscar", conforme relatos abaixo: Não, não teve como custear (o seguro). Ia encarecer muito mais do que já está sendo caro. (Sra. Turin, 44). (O carro) nunca teve seguro. (...) porque a gente já estava pagando a prestação e o seguro ia ficar pesado e era esse negocio da gente saber que o carro era um carro que quase não era roubado. Então a gente preferiu arriscar. (Sra. Classe A, 31). Já outras famílias informam ter encontrado uma alternativa ao seguro convencional, na forma de uma proteção veicular (OLIVEIRA, 2011) oferecida por "cooperativas", "associações" ou "consórcios". No lugar do prêmio anual que as seguradoras cobram pela cobertura do veículo, esse serviço contratado por algumas famílias entrevistadas estabelece um valor mensal variável, calculado a partir do rateio, entre todos os usuários, dos custos dos sinistros cobertos pela entidade naquele mês. Eu consegui achar um segurozinho tipo cooperativa, entendeu? Então ficou bem mais em conta. Eu pagava acho que R$ 170 e pouco por mês, cara. (Sr. Cerato, 31). Acabei fazendo (o seguro) por uma cooperativa, né? Esses que tem aí muito de cooperativa hoje em dia. (...) É todo mês, o ano inteiro. A parcela, ela variava... às vezes a gente pagava, vamos botar assim, R$ 120, no outro mês a gente pagava R$ 130. (Sr. Celta, 45). 102 Eu achei um (seguro) agora que tem uma outra forma de organização que eu acho interessante, porque é uma cooperativa e você paga mensal contínuo. (...) Por exemplo, ele tem lá mil carros e os mil, eles fazem um rateio por mês. (...) Então tem mês que eu pago 160, tem mês que eu pago... por exemplo, o mês que houve menos sinistro eu pago R$ 120. (Sr. Siena, 40). Ainda que os discursos acima considerem essa proteção veicular um "achado", principalmente em função do custo mais baixo que o seguro convencional, tal percepção está longe de ser uma unanimidade. Outros relatos qualificam tais serviços como não estando entre os "melhores", como não sendo "seguro mesmo" ou até como incapazes de "dar a mesma segurança". Essa falta de confiança pode tanto gerar receio de "não saber como seria", no caso de necessidade de acionar efetivamente o serviço, quanto ocasionar a migração para o seguro padrão, mesmo sendo mais caro. O seguro a gente fazia seguros sempre melhores. A gente já teve Porto Seguro, já teve Unibanco. Agora a gente faz um seguro que é de uma associação. Graças a Deus, a gente não precisou usar. E eu não sei como seria, porque eu acho que não cobre muita coisa, não. Porque ele é muito barato, ele é R$ 180, R$ 170, por mês. (Sra. Siena, 41). O seguro ano passado... Eu comecei com uma cooperativa, mas aí eu não vi tanta segurança e eu fiz um seguro mesmo. (...) Todos os orçamentos acabaram elevando muito o valor, mas é uma coisa que a gente tem que pagar porque a gente tem que se sentir seguro. (Sra. Palio I, 31). A gente pensou até em não fazer na hora de renovar, a gente pensou fazer aquele outro, ele que me explica, que é de consórcio, que é mais barato, mas ele ficou com medo de não dar a mesma segurança. (Sra. Symbol, 29). Quando é estabelecida uma situação de "ter que pagar" determinado custo do carro para o qual o orçamento doméstico não foi adequadamente preparado, como é o caso do seguro para a Sra. Palio I, as famílias pesquisadas parecem se ver obrigadas a fazer trade-offs ou "abrir mão" de algo. Como seus orçamentos aparentam estar "no limite", acaba sendo necessário negociar outros itens de consumo eventualmente com níveis de importância similares ao do automóvel. Tal circunstância, como consequência da falta de planejamento, pode fazer com que algumas famílias se sintam "machucadas" ou "passando aperto", por verem custos próprios do carro disputando espaço no orçamento doméstico com despesas relativas a outros itens importantes, como a casa, a escola dos filhos e o lazer: No início do ano tem a escola, tem material, que também não é barato (...) IPTU... Mesmo sendo dividido (o IPVA), acaba pesando. Então quando junta isso tudo em um, dois meses, que são no inicio do ano, machuca. (Sra. Cerato, 29). Porque você só pode parcelar o IPVA em três parcelas. (...) São três meses que você passa apertado, ainda mais que é um mês que cai matrícula, que tem que pagar um monte de coisas, material escolar e fica o "Ó". (Sra. Classe A, 31). 103 Tudo (mudou). Muitas coisas ficaram pendentes, né. (...) Minha pintura de casa, minha reforma de um banheiro. (...) Então nessas coisas o carro atrapalhou muito, até hoje eu não consegui. (Sra. Turin, 44). Tem a luz, você tem que economizar na luz. (...) "Ah, tem uma viagem". Geralmente o pessoal viaja, não vou com a família porque esse dinheiro... Então você acaba tendo que abrir mão de outras coisas para poder arcar com a responsabilidade. (Sra. Palio I, 31). Quando fazia um passeio... hotel fazenda, a gente ia lá com o pacote completo, com estadia, com a grana que a gente tinha que separar lá pra tomar uma cerveja. (...) A gente fazia um passeio, dois, por ano. Hoje já tem um tempo que a gente não faz um passeio assim. (Sr. Siena, 40). A gente todo final de semana ia para shopping, para teatro, não tem como. Impactou sim, lazer impactou. (Sra. Palio II, 32). De forma diversa, outras famílias parecem ter percebido nessa necessidade de fazer ajustes no orçamento uma oportunidade para rever sua "maneira de ser". O carro, nesse acaso, aparenta ter "ajudado bastante" para a busca de um comportamento de consumo mais consciente, para o corte de "supérfluos" e "besteiras": A gente também mudou nossa maneira de ser. (...) A gente ia no mercado, a gente comprava mil e uma besteiras. (...) Então o carro em si ele ajudou a gente a enxugar mais essa parte do mercado, a comprar mais o necessário. O supérfluo era só mesmo pro filho, né, porque era adolescente na época, essas coisas todas, mas o restante enxugamos bastante isso daí, ajudou bastante. (Sr. Celta, 45). Ir para um supermercado... eu chegava na prateleira e saía pegando diversas coisas que não eram tão necessárias. (Agora falo) "Isso não vou levar porque tenho que pagar a prestação". (Sra. Mégane, 44). 4.3.3 Influência de imprevistos no orçamento das famílias A despeito de todas essas demonstrações de como os custos relativos ao carro afetaram seu orçamento e cotidiano, as famílias estudadas não admitem em seus relatos que as lacunas observadas no planejamento de seus gastos estão relacionadas aos problemas de pagamento enfrentados após a aquisição do automóvel. Tanto para as famílias que admitem "só ter pensado na parcela" quanto para as que afirmam "já ter visto tudo" antes da compra do carro, as estratégias que precisaram ser adotadas para tentar controlar o orçamento após essa aquisição eram e permaneceriam válidas e suficientes para realizar o pagamento dos custos relativos ao veículo continuamente. O conjunto dos entrevistados fala, de uma forma geral, que seus problemas financeiros fugiram ao controle por causa da ocorrência de fatos imprevistos graves, que ou reduziram a renda (p. ex., perda do emprego) ou trouxeram um gasto excepcional e prioritário (p. ex., urgência médica de parente). Em outras palavras, as famílias entrevistadas não percebem ou 104 não assumem as suas falhas de planejamento, o seu orçamento "estourado" nem o risco a que estavam expostas em virtude do endividamento contraído a partir da compra do automóvel. A tendência de atribuir a eventos alheios e inesperados a incapacidade de pagamento posterior será abordada a seguir. 4.4 O ENDIVIDAMENTO PARA AQUISIÇÃO DE BENS O reconhecimento da aquisição de bens que sinalizam uma boa vida como condição indispensável à participação na cultura de consumo contemporânea é importante para a compreensão da preponderância do endividamento como mecanismo de compra, uma vez que o crédito torna imediato o acesso a marcadores de consumo cuja obtenção, de outra forma, seria mais difícil para muitos consumidores (BERNTHAL, CROCKETT e ROSE, 2005; COHEN, 2007; HILL, 1994; LIVINGSTONE e LUNT, 1992; MENDOZA e PRACEJUS, 1997). Dessa forma, a presente seção procura trazer percepções dos entrevistados sobre o expediente de contrair dívida para o consumo. Além disso, busca identificar circunstâncias e condições referentes ao financiamento do automóvel da família, para entender sua influência no surgimento das dificuldades de pagamento. 4.4.1 Parcelamento como rotina Assim como, para Lea, Webley e Levine (1993), estar em débito se tornou um modo de vida, para os entrevistados, de uma forma geral, o endividamento para o consumo é tido por uma "prática normal", uma "cultura brasileira", um "vício" ou uma "mentalidade" aparentemente reforçada pela constante exposição midiática. Isto é, parece estar internalizada a ideia de que, se o valor de um bem extrapola o orçamento mensal, a solução para a sua aquisição deve ser o parcelamento, e não poupar dinheiro para comprar à vista, porque isto "ninguém consegue" e "não é o costume". (Compra-se eletrodoméstico financiado) por não ter condições de comprar à vista, que é o normal, né. (...) Se a pessoa estiver dentro de um orçamento, (...) vale a pena financiar, nada de extraordinário, não. (Sr. Fox, 33). É uma prática, né? Já é uma cultura nossa do Brasil, ninguém junta dinheiro pra comprar. Se endivida e compra. (Sr. Turin, 49). Pagar à vista é muito difícil, não tem como pagar à vista hoje, você já tem que pagar o aluguel, pagar comida. Então, para não ultrapassar (o que você possa pagar no mês), as outras coisas têm que ser parceladas. (...) Eu acho que é cultural mesmo, poucas pessoas têm o costume de guardar dinheiro. (Sra. Classe A, 31). Eu acho que a pessoa acaba parcelando por vício. (Sra. Symbol, 29). 105 Eu acho que a maioria das pessoas hoje tem bem isso (comprar eletrodomésticos parcelados) em mente, né, de acordo com o que eles veem na televisão. (Sra. Fox, 33). Não tem como comprar à vista. Não dá, não dá pra comprar à vista. (...) Chegar no seu pagamento e no ato, a pessoa de hoje, assalariada, não consegue. (Sra. Turin, 44). O cara tem que ganhar muito e ter uma sobra grande para no final ter alguma coisa guardada (que permita comprar à vista). (Sr. Classe A, 47). Como se pode observar nos relatos acima, o pagamento à vista parece estar muito relacionado com uma disponibilidade imediata e suficiente de dinheiro. Então, para o grupo de entrevistados, duas condições precisariam ser atendidas para a ocorrência dessa forma de pagamento: uma renda que comportasse o valor integral do bem e o não comprometimento prévio da mesma com outros gastos. Ter essas condições em mente contribui para o entendimento da normalidade com que as famílias pesquisadas encaram o endividamento como meio de consumo. Primeiro, porque não são poucos os objetos de desejo cujo valor pode superar o poder de compra mensal desses consumidores, como eletrodomésticos, eletrônicos, mobiliário de casa e o próprio carro. Segundo, porque os casais estudados reportam que a renda da família é rapidamente consumida com as despesas do dia-a-dia. Talvez seja essa a razão de comprar um bem à vista após juntar o dinheiro necessário por algum período de tempo ser uma possibilidade raramente cogitada e, quando tanto, atribuída a famílias "organizadas", "pacientes" ou "com pulso firme", não pertencentes ao grupo de convivência dos entrevistados. Acho que à vista só realmente aquela família que é muito organizada e consegue guardar aquele dinheiro, o que também é difícil. Tem (família assim), mas é difícil. (Sra. Cerato, 29). Hoje em dia, pra você comprar à vista, você tem que ficar esperando aí de dois a três meses, aqueles que têm cabeça e paciência de guardar um pedaço de dois, de três a seis meses, pra poder chegar lá e comprar algo à vista. (Sra. Turin, 44). Só quem tem muito pulso firme que compra à vista (...) Compra à vista é (pra) quem tem aquela mentalidade "eu vou juntar até eu ter o dinheiro pra comprar à vista, até ter o desconto" e dificilmente... eu não convivo com ninguém que tenha esse pensamento, eu não conheço ninguém que consiga fazer isso. (Sra. Classe A, 31). Nos testemunhos acima, é possível identificar dois fatores internos ou comportamentais que aparentam reforçar o aspecto de naturalidade do consumo via endividamento: a dificuldade de juntar dinheiro e o imediatismo do consumo. A julgar pelos 106 relatos a seguir, não seria exagero dizer que o primeiro fator é bem ilustrado pelo famoso verso "dinheiro na mão é vendaval"23: É difícil (guardar dinheiro) porque não se dá, não tem como. Você está com dinheiro na mão e você só tem aquele dinheiro quando está na sua mão. Se você abriu a mão, você não tem mais dinheiro. (...) E olha que eu sou meia (mão fechada)... mas, hoje em dia, se meu pagamento durar cinco dias, é muitíssimo, é muita coisa. Deve ser um feriado com tudo fechado, caso contrário, não dura. (Sra. Turin, 44). O dinheiro na mão não fica. (...) Se você não gastar numa coisa que você quer, você não vai ver onde foi parar o dinheiro. (Sr. Classe A, 47). Um dia você tem R$ 1.800, no outro você não tem R$ 180. (Sr. Turin, 49). Assim, eu sempre tive um problema seríssimo com juntar dinheiro. (...) Você fala "Pô, vamos almoçar ali no shopping hoje? Vamos lá no cinema? Eu vou gastar só R$ 50, R$ 60 e guardo os outros R$ 100". Aí, meu amigo, vai... aí chega lá, você gosta de alguma coisa, tem os R$ 100, você acaba comprando (risos). (Sr. Cerato, 31). É importante observar que essa incapacidade de reter dinheiro ajuda muito a explicar porque o endividamento desponta como único recurso para a aquisição de bens cujo valor extrapole o orçamento doméstico. Trata-se de uma "obrigação" autoimposta pelas famílias estudadas para "não gastar futilmente" seus recursos e garantir que parte deles seja direcionada para objetos de consumo valorizados por elas, conforme colocações abaixo: Eu sou do seguinte pensamento: se você não fizer dívida, você não tem nada. (Sra. Classe A, 31). Coisas que custam mais de R$ 1.000, por exemplo, para mim é só financiado. (...) (A parcela é como se fosse) uma obrigação, exatamente. Às vezes, você segura um gasto aqui e outro ali para focar naquilo. Muitas vezes, você gasta futilmente, nem nota que gastou o dinheiro e não teve proveito quase nenhum. (Sr. Classe A, 47). Você sabe que, tipo assim, vai fazer um financiamento, você vai pagar R$ 200 por mês daquele financiamento. Só que, se você não fizer a compra, você não consegue guardar aqueles R$ 200, entendeu? (risos) Então a pessoa acaba tipo "Não, vou comprar o carnê, que eu sei que tenho condições de pagar. E o carnê, tipo assim, é a minha obrigação, não tem como fugir". Agora tu pegar do teu pagamento e guardar R$ 200 é bem mais difícil. (...) Por isso que eu acho mais fácil assim, entre aspas, quando você tem ali a conta. Porque, pega o pagamento, a primeira coisa que você faz é o quê? Separar os R$ 200, botar lá junto com a conta pra esperar o dia pra pagar. (Sr. Cerato, 31). Eu prefiro comprar parcelado e ter aquela conta todo mês do que juntar o dinheiro e comprar. Juntar seis meses um dinheiro e comprar um bem, eu nunca consigo fazer isso. (...) Porque eu gasto com outras coisas. (Sra. Siena, 41). Como se pode observar, "poupar vs. gastar" não é o conflito presente na fala dos entrevistados. Em seu lugar, aparece um conflito relativo ao "como gastar" ou "em que gastar", o que aponta para algum grau de incoerência no discurso da incapacidade de guardar 23 Verso da música "Pecado Capital", lançada em 1974 pelo cantor e compositor Paulinho da Viola. 107 dinheiro, já que o parcelamento implica "segurar outros gastos" ou "separar parte do dinheiro". Tal situação remete ao conceito de "poupança invertida", que aparece no estudo de Brusky e Fortuna (2002) e se refere justamente à capacidade de fazer sobrar dinheiro quando preciso (ou quando se quer), para o pagamento de prestações e juros. Assim, considerar o pagamento parcelado como uma espécie de poupança, isto é, "fazer dívida para ter alguma coisa" parece servir como mecanismo para diminuir nos entrevistados a dissonância cognitiva em relação à sua escolha de não guardar dinheiro. 4.4.2 Planejando o presente O segundo fator de natureza interna a contribuir para a normalidade do consumo por meio do endividamento – o imediatismo – já havia sido identificado por Livingstone e Lunt (1992) como um dos motivos para devedores manterem certa atitude favorável ao crédito e ao débito, especialmente pela possibilidade de acesso imediato a bens cuja compra, de outra forma, teria de ser adiada. Bernthal, Crockett e Rose (2005), ao estudar práticas relacionadas ao cartão de crédito, também haviam chegado à conclusão de que uma inabilidade de apresentar autocontrole (isto é, de negar ou postergar a gratificação que acompanha a aquisição e o consumo) pode conduzir o indivíduo para a "prisão do devedor", denominação dada pelos autores para uma vida caracterizada pelo enfrentamento das propriedades confinantes da acumulação de dívidas. De fato, essa vontade de antecipar o consumo aparece nas entrevistas: (Recorre-se ao financiamento) Por causa do imediatismo, ninguém quer comprar nada pra esperar pra receber. Faria um consórcio... "Olha, mas daqui a sessenta meses eu te dou o carro". "Não, daqui a sessenta meses eu posso ter morrido". (Sr. Turin, 49). Eu acho isso (tentar juntar uma grana e depois comprar à vista) um pouco difícil, as pessoas gostam das coisas muito ligeiras, entendeu? (Sr. Siena, 40). (Poupar para depois comprar o bem) Acho bem difícil, cara. No meu caso, acho bem difícil. Porque é uma renda... é muito tempo, cara. Muito tempo. (Sr. Cerato, 31). Hoje acho que a facilidade e o imediatismo que você tem de ter alguns bens, acho que faz com que você, ao invés de comprar só a geladeira nesse momento, você troque geladeira, fogão e mais alguma outra coisa e parcele isso à frente. (Sr. Symbol, 34). Um terceiro fator, de ordem externa, a atuar em favor da naturalidade com que o endividamento para o consumo é percebido é o crédito facilmente acessível, que já havia sido apontado por Dessart e Kuylen (1986) como contribuinte para o problema da dívida: 108 Hoje em dia o normal é você ter (produtos financiados). Até pela facilidade que você vai nas lojas aí de eletrodomésticos e tudo mais. (Sr. Cerato, 31). (Compram eletrodomésticos financiados) Porque hoje a facilidade da compra, ela é grande. (Sr. Fox, 33). Pela facilidade hoje de crédito, entendeu? Hoje tem essa facilidade de crédito. Então, pela facilidade de crédito, o cara com o nome limpo, só com a identidade, ele compra praticamente qualquer coisa pra dentro de casa. (Sr. Siena, 40). Porque hoje em dia não é difícil você abrir uma linha de crédito para tirar um veículo. (Sr. Turin, 49). Se "muita organização", "paciência" e "pulso firme", que poderiam funcionar como soluções para os dois primeiros fatores – dificuldade de juntar dinheiro e imediatismo do consumo –, já aparentam ser esforços de difícil empreendimento ou pertencentes à realidade de outras famílias, pode-se imaginar quão complicado seria para o conjunto de entrevistados oferecer resistência ao crédito fácil, cuja oferta está sob o controle de um elemento estranho. Com efeito, a facilidade de crédito parece alimentar a compreensão de que é perfeitamente possível o acesso imediato a bens sem a necessidade de acúmulo prévio de recursos. Dessa forma, o caráter de naturalidade do crédito se torna sólido ao ponto de alguma restrição ou recusa na sua concessão ocasionar a busca de métodos alternativos para garanti-lo. Destacamse nesse ponto negociações envolvendo o "nome", significando acesso ao crédito (MATTOSO e ROCHA, 2005): caso a renda não seja suficiente para conseguir o crédito pretendido, pode-se "pegar emprestado o nome"24 de alguém com renda compatível; caso um cônjuge esteja com o "nome sujo", o esperado é que aquele com "nome livre" assuma a responsabilidade contratual pela dívida. Quem assinou o contrato foi a minha cunhada. (...) Porque na época o meu ganho não dava para comprar o carro, o banco não liberava. A minha cunhada tem uma situação bem melhor e ela o banco já passou direto. (Sr. Mégane, 46). (No dia da compra) Fui eu, minha esposa, meu filho e minha sogra, até porque eu comprei no nome dela, porque meu nome estava inadimplente. (Sr. Siena, 40). Como ele era taxista, toda a burocracia que eles pediam, para ele iria ser muito mais difícil. Então no meu nome foi muito mais fácil. (Sra. Cerato, 29). (O negócio foi fechado no nome) Do meu marido. (...) Na verdade eu não podia ter nada no meu nome porque eu estava com o nome sujo e eu não tinha renda suficiente. (Sra. Classe A, 31). Tudo no meu nome. É questão de renda, né... a minha renda era compatível com o que a financeira precisava pra provar. E foi o quê? Nome livre, né... ele com o nome sujo, eu com o nome limpo. (Sra. Palio II, 32). 24 De acordo com Mattoso e Rocha (2005), "emprestar o nome" consiste em abrir um crediário ou usar o cartão de crédito para fazer as compras de outra pessoa, ficando esta responsável pelos pagamentos na ocasião ou ocasiões previstas. 109 Embora a percepção de facilidade a respeito do acesso ao crédito seja a habitual entre os entrevistados e a ocorrência de uma eventual restrição aparente poder ser contornada sem maiores dificuldades, é possível identificar uma visão destoante e talvez mais realista. O discurso da Sra. Turin parece indicar que a obtenção do crédito, pelo menos o de alto valor, é percebida como o feito de um "campeão", que não fica "à espera" de uma oferta, mas antes demonstra coragem para "meter a bifa" e passar pelos "processos" necessários, superando toda "burocracia" ativamente. Dessa forma, ela foi a única a falar da dificuldade de obter crédito, ao mesmo tempo em que coloca aquele que o obtém como heroico lutador. Porque, assim, eu digo que o brasileiro, ele nunca tem vez, ele fica sempre na espera de algo. Então quando um chega e mete a bifa mesmo e fala "Eu vou comprar, é isso que eu quero" e quando eles conseguem isso, é muito bom. Até mesmo por causa da burocracia que se tem hoje de comprar algo de tanto valor. É tanto processo que você passa, é tanto isso, é tanto aquilo que, quando você passa por isso tudo, "Pô, já sou campeão". (Sra. Turin, 44). Ressalvado esse relato diferenciado, o teor geral das entrevistas parece indicar uma complementaridade na forma com que os três fatores citados – dificuldade de juntar dinheiro, imediatismo do consumo e facilidade de crédito – atuam em prol do endividamento das famílias pesquisadas. Contudo, estar endividado per se não implica encontrar-se em apuros para honrar os compromissos no futuro. Daí a importância de se entender que aspectos da utilização desse expediente para a aquisição de bens podem favorecer o surgimento de dificuldades de pagamento. Grosso modo, a compra financiada de um objeto de consumo envolve quatro elementos – preço do bem, taxa de juros, prazo de pagamento e valor da prestação. Não obstante, os testemunhos referentes à aquisição do carro aparentam sinalizar um foco maior no último, em detrimento dos demais. 4.4.3 A dívida que "cabe no bolso" Nos relatos das circunstâncias do financiamento, menções ao valor do automóvel, aos juros cobrados e aos anos de pagamento praticamente não aparecem, sugerindo que são informações pouco relevantes nas decisões dos entrevistados, em relação ao que de fato interessa: de quanto será a parcela mensal e se ela parece ser razoável no orçamento individual ou da família. Já tinha dado uma estudada para ver quanto fica a parcela e tal. (...) Mas foi o valor da parcela (que foi decisivo para a compra). (Sr. Cerato, 31). Eu acho que foi mais isso que eu te falei da parcela. (...) foi isso que foi decisivo porque o carro a gente queria de qualquer forma. (Sra. Cerato, 29). 110 Foi em 72 vezes e o valor (da parcela) a gente já tinha conversado sobre o valor já antes. Tinha que ser até aquele valor. Se fosse a mais, não poderia aceitar. (...) Foi (ser até aquele valor que determinou o número de vezes) porque só dava para pagar aquele valor. (Sra. Fox, 33). Eu não podia passar de R$ 1.100, não. (...) (Foram) sessenta vezes, pra chegar nesse valor de prestação. (Se tivesse que ser em mais vezes pra chegar nesse valor), eu teria feito. (O foco era) no valor da parcela. Porque os juros sempre vão estar abusivos, não tem jeito. (Sr. Turin, 49). Esse desequilíbrio na atenção dada aos elementos do financiamento tem alguns desdobramentos que podem ajudar no entendimento de como as famílias estudadas atingiram o estado de inadimplência. Os depoimentos sugerem, por exemplo, que subjacente a essa preponderância do valor da parcela no financiamento do automóvel está a preocupação de que a mesma "caiba no orçamento". É possível dizer, portanto, que aquelas condições de suficiência de renda e de seu não comprometimento prévio, mencionadas como necessárias para o pagamento à vista, também estão presentes de certa forma no pagamento parcelado: o valor da prestação do carro passa a ser um custo fixo mensal que precisa ser integralmente comportado pela renda e pago antes de esta ser consumida de outra maneira. Nesse contexto, qualquer inconsistência que as famílias pesquisadas apresentassem com relação a uma ou outra condição poderia deflagrar dificuldades para pagamento do financiamento do veículo, risco esse ampliado pela reduzida atenção dada ao prazo de pagamento. Com efeito, todos os casos estudados apresentavam financiamentos com duração igual ou superior a 48 meses e, como observado na fala de alguns entrevistados, esses prazos poderiam ser ainda maiores, se necessário para se chegar ao valor de prestação concebido para caber no orçamento. Logo, a ausência de garantias de que a suficiência de renda seria mantida até o final do contrato e de que a família estaria imune a ocorrências que comprometessem os recursos programados para o carro configuraria uma situação de exposição a problemas de pagamento, exposição essa que cresceria com o horizonte de tempo dos financiamentos contratados. Ainda a respeito desse destaque da parcela como chamariz do consumo via endividamento, merece atenção um aspecto interessante e que apareceu em alguns testemunhos sobre a incapacidade de pagamento, que é o "desejo de parcelar a parcela". Esse desejo parece ser mais um indicador do quão profundamente está estabelecida a "cultura do parcelamento" ou do endividamento para o consumo. Como dito, para as famílias estudadas, o pagamento da prestação do carro parece se revestir das características de um pagamento à vista, que demanda uma renda compatível e disponível para sua liquidação integral. Se essas 111 condições deixam de ser atendidas em algum momento e o valor da parcela passa a extrapolar o orçamento mensal, é razoável esperar a mesma solução que os entrevistados entendem como natural para situações desse tipo, isto é, o parcelamento: Eu acho que a prestação é mais difícil de pagar porque a prestação você não pode parcelar uma prestação, entendeu? Você tem que ter ou o dinheiro todo e paga ou você vai pagando juros, juros até embolar a conta.(...) IPVA parece, acredito eu, que pode ser parcelado, o seguro também eu acredito que pode ser parcelado. (...) Mas a prestação em si não tem como. (Sra. Turin, 44). Ah, só a prestação do carro mesmo (que é mais complicado de pagar), que é pesada. A prestação, R$ 1.700. O resto dá para você levar tranquilo. IPVA você pode parcelar, multa também. (Sr. Cerato, 31). Uma vez abordados esses desdobramentos da primazia que os entrevistados dão ao valor da prestação, cabe averiguar o nível de atendimento das condições de suficiência e disponibilidade de renda, necessárias para o pagamento normal do financiamento do veículo. Como visto na seção que tratou dos significados e sentimentos associados ao automóvel, para o grupo de entrevistados, a compra financiada desse bem costuma registrar uma evolução da circunstância econômico-financeira da família. Logo, seria normal esperar que o atendimento da primeira condição de compatibilidade entre renda e valor da parcela fosse, de fato, um cuidado das famílias. Entretanto, as entrevistas parecem indicar que tal preocupação restringese à observação desse requisito pela ocasião da compra, no sentido de que conseguir pagar a prestação naquele momento sinaliza que essa capacidade estará mantida no futuro. Em outras palavras, os entrevistados parecem não considerar a possibilidade de ocorrência de contratempos que afetem a renda, tais como desemprego ou problemas de saúde, no horizonte de tempo do financiamento: A gente estava estabilizado, tanto eu quanto ela num serviço legal, entendeu? Tinha condições para isso e eu dei a ideia (de comprar o carro). (...) O problema nosso, assim, não foi a falta de planejamento não, foi que a vida deu uma reviravolta, ela saiu do trabalho dela e eu praticamente saí do meu, aí foi quando desandou tudo. (Sr. Cerato, 31). A gente vive meio que pelo momento, entendeu? A gente não previu isso de acontecer, senão a gente tinha feito uma reserva, tinha enxugado alguma coisa. (...) Então a gente não se programou muito assim pra essas emergências. (Sr. Siena, 40). Faz sete meses que a gente parou de pagar, foi porque eu fiquei desempregada. (...) eu acho que o que aconteceu foi um imprevisto. (Sra. Classe A, 31). O que aconteceu com a família foi que (...) tivemos o problema de doença, que não tinha o tal da reserva que eu até falei na (família) Ferreira (...). Aí, quer dizer, correu tudo pra lá e foi que começou a dar o problema dos atrasos. (Sra. Celta, 43). Eu era bem empregada, eu tinha um salário muito bom e eu fui mandada embora, não estava esperando. Então eu tive que parar de pagar o carro, não tinha como manter. (Sra. Palio II, 32). 112 Primeiro foi um sobrinho meu, que meu irmão estava desempregado, e ele precisou fazer uma cirurgia e ele não tinha condições e eu abri mão do que tinha no momento pra poder auxiliá-lo. (...) E logo duas semanas depois a minha sogra também precisou passar por uma cirurgia emergencial que também a gente (ajudou)... onerou medicação, onerou internação e tudo mais. (Sr. Symbol, 34). Já a segunda condição, de não comprometimento da renda com outros gastos, torna-se particularmente problemática em função da já citada incapacidade de guardar dinheiro das famílias estudadas. Como visto, essa característica pode favorecer a aquisição de bens via endividamento e, caso ocorram novas compras financiadas antes da conclusão do pagamento de anteriores, haverá uma sobreposição de compromissos. Essa situação sozinha não configurará um problema, se o somatório dos valores a pagar for abrigado pela renda familiar. Todavia, é perceptível nas entrevistas o reconhecimento de um potencial de risco no acúmulo de prestações, que apareceu de forma mais pronunciada nos exercícios projetivos, ou seja, situações de descontrole com parcelas foram atribuídas a "outros": Eles podem agora estar apertados pra conseguir pagar (o financiamento do carro). (...) De repente, fizeram outras compras, né? Compraram outras coisas e ficou muita coisa para pagar. E agora está enrolado. (Sra. Fox, 33). (Considerando que estão) pagando muitas parcelas, ainda não. Ainda não estão planejando, não (comprar um carro). (...) Fica muita parcela. (Sra. Cerato, 29). (A família) pode até estar planejando comprar o carro, mas primeiro está vendo esse lado da casa, né. Porque, se você for juntar as duas coisas, aí fica difícil, você não consegue nem fazer uma coisa e nem outra. (Sr. Celta, 45). Beleza, comprou (o carro). Mas o risco de acumular parcelas... e, quando acumula, os juros é grande. E pra você tentar reverter essa situação é complicado, ele corre um risco aí de devolver esse carro. (Sr. Siena, 40). Quando perguntados diretamente sobre a existência de outras compras parceladas pela ocasião da compra do carro ou do surgimento das dificuldades de pagamento, o grupo de entrevistados raramente respondeu afirmativamente. Mais que isso, quando indagados se o pagamento de outros compromissos dificultou a liquidação da prestação do automóvel ou vice-versa, a resposta habitual foi de a interferência ser nula. De uma forma geral, as famílias pesquisadas atribuem a dificuldade de pagamento ao advento de uma situação imprevista grave, como as relatadas anteriormente, que ou reduziram a renda (p. ex., perda do emprego) ou trouxeram um gasto excepcional e prioritário (p. ex., urgência médica de parente). Até mesmo o Sr. Celta, que é um dos poucos entrevistados a reconhecer abertamente falhas no planejamento para a aquisição do carro, acredita que não teria enfrentado problemas se mantidas as condições salariais da época da compra: Uma família regradazinha, direitinha, ela compra (financiado) mais o essencial, né. Ela não vai fazer que nem eu fiz, a gente fez na época né, comprar o carro e sair 113 comprando um montão de coisa, depois que fomos ver o orçamento, entendeu? (...) A gente, na verdade, quando fez as contas, a gente esqueceu da Leader. Esquecemos, mas esquecimento mesmo. A empolgação do carro fez esquecer algumas coisas. (...) Tinha também na época também a escola do garoto. A gente não planejou tudo assim e depois de um tempo que nós fomos ver. Foi o que aconteceu. As horas extras terminaram, cortaram as horas extras. É isso aí que acabou... (Se tivesse continuado com as horas extras) teria dado tranquilo. Tranquilo. (Sr. Celta, 45). Vale dizer que essa tendência apresentada pelas famílias estudadas de responsabilizar grandes eventos alheios à sua vontade pela circunstância adversa em que se encontram indica um locus de controle25 externo. Tal característica, aliada à normalidade com que os entrevistados percebem o hábito de endividar-se, parece complementar os achados do estudo de Dessart e Kuylen (1986). De acordo com os autores, uma variável individual que desfavorece a predisposição ao endividamento é o locus de controle interno, ou seja, um entendimento de que os acontecimentos são influenciados pelo próprio comportamento. Como se pode observar, as duas condições necessárias para que o pagamento do financiamento do automóvel ocorresse sem percalços – suficiência e disponibilidade de renda – não aparentam estar muito consolidadas nas aquisições efetuadas pelo grupo de entrevistados. A preocupação com o atendimento da primeira condição parece restringir-se ao momento da compra, mesmo a suficiência de renda sendo imprescindível por toda a vigência do contrato. Se a família entende que em determinada circunstância a prestação do carro cabe no seu orçamento, parece haver justificativa suficiente para se "tentar" a compra ou "achar que dá para pagar" o financiamento do começo ao fim. No que diz respeito à observação da segunda condição, se as entrevistas não permitem concluir que a disponibilidade de recursos para o pagamento do carro foi afetada pela sobreposição de outras compras financiadas, elas revelam, pelo menos, quão sensível essa disponibilidade pode ser ao surgimento de gastos excepcionais. Tal situação pode sugerir que o orçamento da família, com a prestação do automóvel, esteja no limite, sem muita margem de manobra, conforme testemunho a seguir. Nesse caso, ficaria reforçada a compreensão de que o atendimento da condição de suficiência de renda não existe para alguns dos entrevistados. Porque meio que a gente está no limite. A gente faz meio que "Sobrou uma grana? Então vamos passear, vamos viver o momento". (Sr. Siena, 40). Por outro lado, é possível imaginar que a já mencionada incapacidade de os casais estudados juntarem dinheiro amplifica essa sensibilidade dos recursos destinados ao veículo, 25 Ver nota 10, à pág. 50. 114 expondo a família a um duplo problema: como não conseguem poupar, não possuem reserva para emergências; como não existe poupança, precisam utilizar os recursos disponíveis para cobrir as despesas extraordinárias, o que não raro implica cessar o pagamento do carro. Nesse contexto, apesar de a tendência geral dos entrevistados ser não perceber os eventos como dependentes do seu próprio comportamento, é possível identificar manifestações reconhecendo que algum grau de previdência poderia mitigar os impactos do "inevitável", como a seguinte: O que eu faria diferente seria não em relação ao carro, mas em relação a outras coisas. Não abriria mão de ter um mínimo de reserva possível porque tem coisa que é inevitável. A gente não está livre do que possa acontecer. (Sr. Symbol, 34). 4.5 DIFICULDADES DE PAGAMENTO: SIGNIFICADOS, SENTIMENTOS E ENFRENTAMENTO A falta de recursos financeiros pode restringir práticas de consumo constituidoras da identidade familiar, inclusive levando a uma redefinição forçada da mesma (EPP e PRICE, 2008). Dessa forma, torna-se importante compreender rupturas e mudanças na identidade da família ocasionadas não somente pela deterioração de sua situação financeira, mas também pelas maneiras encontradas para enfrentar os desafios desse momento (BOLEA, 2000 apud EPP e PRICE, 2008). A partir desses entendimentos, esta seção procura identificar significados e sentimentos desencadeados pela incapacidade de pagamento do financiamento do carro, de forma a compreender como o estado de inadimplência pode conduzir a família a uma nova realidade ou mesmo uma nova identidade. Além disso, serão abordadas as estratégias utilizadas pelas famílias entrevistadas para o enfrentamento da circunstância adversa. 4.5.1 O endividamento internalizado A aquisição do automóvel procura sinalizar uma ascensão da família na hierarquia social e costuma ser percebida como uma conquista, geralmente acompanhada por sentimentos positivos de satisfação, felicidade e orgulho. As entrevistas sugerem, porém, que a incapacidade de pagar a dívida contraída para obter o veículo suscita significados e sentimentos quase opostos, indicando a suspensão daquele movimento evolutivo ou um retrocesso. Se adquirir o carro tem o valor de vitória ou de realização de um sonho, não conseguir pagá-lo significa "fracasso", "desengano" e "decepção", usualmente acompanhados de reações como "tristeza", "frustração", "depressão" e "preocupação": 115 Tristeza total. É... sinto... (tempo refletindo) acho que até é um pouco de exagero, mas é o que às vezes eu sinto, parece que eu fracassei, entendeu? (Sra. Cerato, 29). Tristeza... tristeza. Frustrado. Uma coisa que você achou que tinha realizado, que na verdade não aconteceu, durou pouquíssimo. (Sr. Cerato, 31). Eu sinto uma tristeza profunda, uma depressão que eu falo "Caramba, cara... seis meses atrás eu estava com meu carro na boa" e agora não poder mais andar com o carro é bem decepcionante assim. (...) Eu fico chateada de às vezes você não dormir e pensar "Caramba, o que eu vou fazer para resolver?" É um incômodo, né, todo dia você tem de falar "Eu tenho que dar um jeito e não foi hoje que eu arrumei a solução". (Sra. Classe A, 31). Rapaz, eu vou te confessar... Eu nem durmo direito. Não durmo. (...) Quando eu vejo aquilo que eu não tenho condições de pagar, aquilo me assusta, aquilo me preocupa. (Sr. Fox, 33). Embora pareça haver certa lógica nessa oposição entre os significados e sentimentos associados à aquisição do carro e aqueles vinculados à incapacidade de saldá-lo, é preciso registrar a presença de algum nível de incoerência no discurso dos entrevistados. As famílias estudadas aparentam apresentar um locus de controle 26 externo, que se traduz pelo não reconhecimento da própria responsabilidade no infortúnio financeiro vivido. Portanto, se a tendência entre elas é apontar grandes eventos alheios à sua vontade como causa da situação desfavorável, não parece fazer muito sentido entenderem que fracassaram ou que falharam. Afinal, tais percepções pressupõem um forte componente de controle interno sobre os acontecimentos, como o "empenho" ou o "intento correto" observados nos relatos a seguir: Numa coisa que eu me empenhei, parece que eu fracassei, apesar da culpa não ter sido minha, eu não ia imaginar nunca que ia acontecer essas coisas. (Sra. Cerato, 29). Penso que eu tô errada, né. Realmente eu tô porque eu comprei para pagar e não estou pagando. Só que não tem como eu explicar isso a eles (credores)... do que aconteceu, não foi culpa minha também. (Sra. Fox, 33). Essa aparente contradição relativa ao locus de controle talvez possa ser superada a partir da interpretação de que se trata, na realidade, da expressão de uma mudança em curso na identidade de algumas famílias. De acordo com Epp e Price (2008), eventos críticos e não planejados, como aqueles aos quais os entrevistados atribuem sua circunstância financeira adversa (desemprego, problemas graves de saúde etc.), são capazes de estimular mudanças imediatas na identidade familiar. Nesse caso, mesmo que as famílias pesquisadas não admitam ou não queiram admitir qualquer culpa por terem adentrado aquela situação, é possível que algumas delas estejam começando a manifestar uma vontade de assumir o controle sobre o processo de saída, com diferentes graus de internalização dessa 26 Ver nota 10, à pág. 50. 116 responsabilidade. Outras famílias, no entanto, aparentam ter mantido uma postura mais passiva e esperam uma melhoria futura não necessariamente vinculada a iniciativas próprias. Vale ressaltar que esses movimentos de "entrada" e "saída", assim como a situação de descontrole financeiro a que se referem, parecem guardar semelhança com os seguintes construtos do modelo teórico que Bernthal, Crockett e Rose (2005) construíram a partir de um estudo com foco nas práticas relacionadas ao cartão de crédito: "trajetória de restrição", "trajetória de libertação" e "prisão do devedor", respectivamente. As trajetórias remetem à capacidade de os consumidores se aproximarem ou se distanciarem de uma vida caracterizada pelo enfrentamento das propriedades confinantes da acumulação de dívidas, vida essa apreendida pela metáfora da "prisão do devedor". Assimilando a terminologia proposta por Bernthal, Crockett e Rose (2005) e considerando a possibilidade de mudança no locus de controle, pode-se dizer que as famílias pesquisadas apresentam três níveis distintos de internalização da responsabilidade pela trajetória de libertação: integral, parcial e nulo. As famílias com internalização integral parecem ter a própria imagem gravemente afetada pelo estado de inadimplência e conferir ao processo de libertação o simbolismo de "resgate do orgulho perdido". As famílias com internalização parcial aparentam ter sua autoimagem menos impactada pelo não cumprimento das obrigações financeiras e atribuir ao percurso de saída o significado de "adequação a uma realidade indesejada". Já as famílias com internalização nula, ou simplesmente sem internalização, não parecem ver sentido em prejudicar a imagem que têm de si em virtude de uma situação pela qual julgam não ter culpa, o que implica para a trajetória de libertação um sentido de "esperança de um futuro melhor". Como se pode observar, o grau de responsabilidade que as famílias entrevistadas imputam a si próprias pela construção da trajetória de libertação aparenta depender de dois fatores interligados: do impacto percebido da inadimplência sobre sua imagem; e dos significados atribuídos à superação do problema. Além disso, o nível dessa internalização parece influenciar a estratégia de enfrentamento adotada: enquanto o primeiro grupo (integral) restringe os expedientes admissíveis para sua recuperação, o segundo grupo (parcial) não oferece óbices aos mesmos, e o terceiro grupo (nulo) simplesmente não adota qualquer um. 4.5.2 Famílias que enfrentam, que mudam ou que adiam O primeiro grupo de famílias, que internaliza integralmente a responsabilidade pela trajetória de libertação, parece entender que seu estado de insolvência, mesmo provocado por 117 eventos imprevistos e indesejados, em nada modifica as obrigações previamente assumidas. Na realidade, para essas famílias, ter obrigações aparenta ser o meio normal de alcançar seus objetivos de consumo e "pagá-las sempre em dia", motivo de orgulho, por atestar sua capacidade de concretizar o estilo de vida almejado. Tal circunstância reporta ao "espaço de alcance de objetivos", construto que se opõe à "prisão do devedor" no modelo de Bernthal, Crockett e Rose (2005) e se refere justamente ao uso do crédito como viabilizador de estilos de vida desejados. Era razoável esperar, portanto, que a perda dessa condição imprimisse nos entrevistados desse grupo a vontade de reavê-la brevemente. De fato, é perceptível nos seus testemunhos tanto a preocupação de enquadrar a situação desfavorável como "passageira" quanto o desejo de "dar a volta por cima": Eu tenho dívidas, tudo, mas tudo dentro do orçamento. O que eu tenho pra pagar, conta, tudo é dentro do orçamento. Quando vira o mês, eu vou lá, pego e pago. Tudo previsto. (...) Se for puxar o histórico, o começo, as parcelas iniciais, todas elas eram pagas rigorosamente em dia... ou até antes. Então, era tudo realmente dentro do previsto, não tinha nada assim que fosse... Era pra estar acabando agora... 72 vezes, seis anos, estaria pagando agora o último ano sem problema nenhum. Tinha que ser daquela forma. (Sr. Fox, 33). Antes eu tinha a minha dívida com cama, mesa e banho, vamos botar assim, eu sempre pagava em dia. (Sra. Turin, 44). É passageiro. Não, é passageiro, é passageiro. Acostumado a dar (a volta por cima). (Sr. Turin, 49). Nesse contexto de "resgate do orgulho perdido", questões relativas ao "nome" parecem indicar que nem todo expediente é apropriado para o empreendimento. Conforme Mattoso e Rocha (2005), "ter nome limpo" identifica a pessoa honrada, que tem acesso a crédito e uma situação financeira equilibrada, ao passo que o "nome sujo" indica o estado de inadimplência e a inclusão em cadastros de maus pagadores. Dessa forma, embora reconheçam a possibilidade de "limpar o nome" pelo decurso do tempo 27 ou por meio de ações judiciais que afrouxem as condições de pagamento acordadas, as famílias desse primeiro grupo não parecem julgar tais soluções como válidas para sanar o orgulho ferido, o que aparenta só ocorrer quando se "entra e sai pela porta da frente", ou seja, realizando os pagamentos "idoneamente" na forma contratada: Não foi uma coisa inconsequente. Eu não acordei achando que "Não, vou comprar um carro porque dá para eu pagar". Não foi. (...) Eu quero pagar, sempre tive meu nome limpo, entendeu? (...) O objetivo é realmente voltar ao normal. Porque eu sempre tive linha de crédito, tudo. (...) Eu sempre tive o nome tranquilo, nunca tive nada... Eu nunca fui aquela pessoa que esteve sempre com nome sujo. Aconteceram esses fatos e isso fez com que eu ficasse na situação que estou hoje, mas não 27 A prescrição da dívida, assim como o prazo máximo de cadastro em órgãos de restrição de crédito, é de cinco anos, a contar a partir da data em que a dívida venceu. 118 significa que eu esteja acomodado nessa situação "Ah, daqui a cinco anos limpa". Eu não tenho essa perspectiva, eu quero limpar pagando. Chegar lá no final (e dizer) "Está aqui, o valor devido é esse, vamos pagar, vamos sentar e negociar", seja lá o que for. Vou pagar e resolver o problema, mas fazer uma coisa de forma que seja aquilo que a gente planejou, entrar e sair pela porta da frente. Eu comprei com o intuito de pagar e vou pagar. (Sr. Fox, 33). Eu poderia colocar na justiça por juros abusivos. (...) Mas, vem cá: quando eu comprei o carro, eu já sabia que aqueles juros não eram reais. Eu acho que as empresas de financeiras deveriam ser mais sinceras só (...), pra evitar justamente que as pessoas se sintam ludibriadas e entrem com ações e recursos contra essas empresas. (Sr. Turin, 49). Eu me comprometi com aquilo perante a financeira, eu sabia de quanto seria, de quanto teria e sabia também do não cumprimento da minha parte o que poderia arcar, com o que eu poderia arcar. E hoje eu acredito que seja interessante para eles que eu pague e é interessante para mim que eu fique de forma idônea com eles também. (Sr. Symbol, 34). Esse fazer questão de "limpar pagando" ou "voltar ao normal" observado nos relatos acima parece indicar ainda uma forte preocupação desses entrevistados em não ver a própria imagem associada à das "pessoas" inconsequentes ou que passam por ludibriadas, descrições próximas ao estigma social de irresponsável e autocondescendente que Livingstone e Lunt (1992) informam acompanhar o indivíduo cuja dívida supera a capacidade de pagamento. De certa forma, essa repulsa à imagem de "demandante de intervenção judicial" ou "acomodado" acaba conferindo a ambas posturas o rótulo comum de inadmissível, por não configurarem a internalização plena da responsabilidade pela solução do problema. Todavia, as famílias cujas atitudes se assemelham a tais posturas aparentemente têm um entendimento bem distinto sobre sua própria situação. O segundo grupo de famílias, por exemplo, que internaliza parcialmente a responsabilidade pela trajetória de libertação, parece entender que a degradação da situação financeira existente à época da aquisição do carro, como consequência de eventos alheios à sua vontade, tem o condão de suprimir a validade das condições do financiamento contratado. Trata-se de um entendimento de que, se o contexto de vida foi mudado por razões indesejadas e que escapam ao seu controle, nada mais justo que adequar o compromisso assumido à nova realidade. Desse modo, para esse segundo grupo, "pagar na forma contratada" parece ser o correto somente na manutenção da sua capacidade de pagamento. Porém, essa pretendida adequação, que seria a forma encontrada por essas famílias para controlar seu processo de libertação, não é recebida como razoável pela parte credora; fica então justificado o recurso a terceiros com poder para dirimir o conflito, no caso, os órgãos judiciários. Quanto à justiça dessa solução, é possível encontrar testemunhos indicando tanto uma crença genuína na 119 mesma quanto sua conveniência para reduzir a dissonância cognitiva em relação à falta de disposição para arcar com as consequências previstas no contrato: Eu botei na justiça. Eu estou depositando em juízo. Botei para baixar um pouco a parcela. E consegui. (...) Eu vi uma advogada e nós corremos atrás com a advogada e o que acontece? Ela estudou a causa, ela viu que o carro estava com muita taxa em cima, então nós botamos na justiça e o juiz bateu o martelo: de R$ 560, ele foi para R$ 250. (...) No final eu posso requerer todos os documentos da justiça que eu depositei fazendo uma lei do juiz, uma decisão do juiz. (...) Eu achei essa a solução justa. (Sr. Mégane, 46). A gente também entrou (com ação) para não perder o carro. (...) Eles me ligam às vezes, mas a intenção deles ainda é que a gente pague a parcela em atraso, só que a gente não quer. Agora a gente pensa o quê? Quitar o carro. Aí a gente está juntando dinheiro, o advogado já está estipulando mais ou menos um valor para negociação da gente quitar o carro. (...) Só que hoje o valor não chega a R$ 25 mil, é menor. (...) Eu não fiz uma entrega amigável porque teria salto remanescente. Então inviável você entregar, perder o veículo e ainda ficar com uma dívida, e com meu nome sujo. (...) O certo seria eu ter pagado o financiamento. Mas como não tive condições, e também se eu entregasse eu ia acabar perdendo o que eu já tinha dado de entrada... (Sra. Palio I, 31). De repente na justiça ele consegue um acordo de "Oh, vamos ficar no zero a zero? Como é que tá o carro? Tá legal? Tá inteiro? Tá, eu te entrego o carro e elimino a dívida". (...) Assim, não sei se seria justo para a financeira, né? (Sr. Cerato, 31). O terceiro grupo de famílias, por sua vez, engloba aqueles casais para os quais a ocorrência de eventos imprevistos não parece ter provocado uma mudança imediata na identidade, pelo menos não em relação ao locus de controle. Em seus relatos, essas famílias dão a entender que, se o seu comportamento não teve influência sobre os acontecimentos que deflagraram a inadimplência e tampouco pôde evitá-los, não há motivo para supor que o mesmo tenha o condão de providenciar uma solução. Isso não quer dizer que as famílias desse terceiro grupo estejam confortáveis com a situação, mas tão somente que acreditam que o processo de libertação depende de (e pode esperar) "tudo voltar a dar certo". Essa espécie de "relaxamento" perante o momento vivido aparenta ainda ser alimentada por uma crença de que não haverá um agravamento do quadro, o que pode ter relação com o fato de essas famílias terem se aproximado bastante do final do financiamento 28. Talvez haja uma sensação de que muito esforço não será necessário, seja por entenderem que qualquer melhora na situação financeira já baste para regularizar o pagamento, seja por se considerarem em uma boa posição para eventuais negociações. Até agora a gente não se mexeu muito não. (...) Eu procurei me orientar. Era final de financiamento, são dez parcelas. Então foi o que o advogado me orientou. Ele falou: "(Sra. Palio II), fica tranquila porque o banco não vai te botar na justiça, não é 28 As famílias que compõem esse grupo pagaram entre 79% e 85% do total de parcelas do financiamento. As demais famílias entrevistadas saldaram entre 3% e 50% da dívida. 120 interessante para eles mover uma ação contra você, por causa de R$ 5 mil, pode ficar tranquila". Por isso que, a partir daí, eu comecei a relaxar. (Sra. Palio II, 32). Não adianta, não vou pagar ainda. Talvez a (Sra. Classe A) possa ter consultado. Eu não liguei ainda. Eu mesmo não procurei ainda. (Sr. Classe A, 47). Eu pretendo pagar esse (carro) primeiro, futuramente, se tudo der certo, se agora no final do ano eu conseguir arrumar um emprego. (Sra. Classe A, 31). 4.5.3 Desafios e experiências comuns Independentemente do grau de responsabilização que assumam pela trajetória de libertação, as famílias entrevistadas parecem compartilhar experiências assemelhadas na "prisão do devedor". Ao contrário do que se poderia imaginar, por exemplo, o forte intuito de limpar o nome e recuperar o orgulho, observado nas famílias do primeiro grupo, não parece colocá-las em melhor situação para escapar da situação de descontrole financeiro. A esse respeito, Mattoso e Rocha (2005) já haviam destacado que as formas para buscar a adimplência eram percebidas quase sempre como inatingíveis pela classe mais popular. Talvez essa percepção decorra do fato de "limpar pagando" depender de renegociações da dívida junto ao banco, à financeira ou à agência de cobrança. Nesse sentido, algumas entrevistas são mais críticas e sugerem que tais instituições credoras tendem a impor condições eventualmente consideradas injustas, que acabam por desencadear sentimentos de impotência, resignação e acuamento: (Seria mais justa) Uma renegociação com menos juros, né. Os juros de lá é muito agressivo. E outra coisa, aquilo ali que você já pagou, aquilo ali morre, isso que eu acho errado. Aquilo ali é como se fosse nada, você renegocia de novo uma nova parcela e aquilo ali que você pagou não entra, eu não entendo. (...) Você pode aumentar (o prazo). Assim, eles fazem assim: vamos supor, eu pagava R$ 672. Mas, se eu quiser pagar R$ 500,00, (ficam) R$ 500 em 82 (parcelas). Então, pô... irreal isso aí, acho ridículo isso. Não acho certo. (Sra. Fox, 33). Sinceramente? Eu... (tempo refletindo) não acho injustiça (a renegociação), né? Porque juros é juros e, infelizmente, a gente não tem como combater uma coisa como essa. (Sra. Celta, 43). Na realidade, não são apenas as circunstâncias de renegociação que fazem surgir sentimentos desse gênero. Os testemunhos dão a entender que os contatos dos credores para cobrar o pagamento da dívida costumam ser bastante incômodos e constrangedores, o que também havia sido observado no estudo de Hill (1994). Além disso, tais interações são capazes de fazer os entrevistados sentirem como se estivessem sendo coagidos por agiotas ou como se fossem bandidos. Eles ligam noite e dia, é uma situação constrangedora, você se sente um bandido, um ladrão. (Sra. Palio II, 32). 121 Eu fiquei até meio aborrecido "Caramba, quinze dias atrasado, já estão ligando". Você se sente até meio impotente, né? Nós que quisemos essa aquisição e tal e agora está acontecendo isso. (Sr. Siena, 40). A gente já fez essa renegociação duas vezes, mas aí começa pagar de novo e, tipo assim, parece agiota isso. (Sra. Fox, 33). Aparentemente, toda essa opressão característica da "prisão do devedor" e as dificuldades inerentes à trajetória da libertação testam duramente a resiliência das famílias e podem deflagrar um eventual desejo de alívio imediato, que se traduz pela vontade de se livrar da responsabilidade pela dívida, passando-a adiante juntamente com o veículo. O curioso é que essa solução instantânea parece ser cogitada por famílias dos três diferentes grupos, isto é, mesmo aqueles que afirmam fazer questão de pagar na forma contratada têm seu momento de "desespero", ainda que não o admitam abertamente: Cara, eu penso que isso tinha que ser mais planejado, pra que a gente não passasse isso agora, né, não estivesse na situação que está agora. É uma situação desesperadora? Não, não é. Porque você tem a opção de passar para terceiros, de devolver, e é aquilo... (Sra. Turin, 44). Entretanto, apesar de muito aventada, essa transferência da dívida para terceiros não foi efetivada por nenhum dos casais estudados. Como reportam não haver forma de passar completa e legalmente a dívida para outra pessoa, os entrevistados temem a configuração de um cenário no qual permanecessem com a dívida em seu nome, porém sem a posse do carro, o que é um risco correlato ao de "emprestar o nome"29, conforme observado por Mattoso e Rocha (2005). Se empreendida a contento, porém, tal prática poderia ser compreendida como um "empréstimo tardio e reverso de nome falso": "tardio" porque o automóvel é recebido pelo destinatário final em momento posterior ao da compra; "reverso" porque a ajuda vem daquele que aceita pagar o financiamento, e não de quem assinou o contrato, cujo nome poderá ser limpo; e "falso" por que o inadimplente não tem mais um nome para emprestar. A gente já até pensou em (...) passar o financiamento pra terceiros, que eu não acho viável, não confio... Só se tivesse um outro método que tirasse totalmente o nome dele da jogada. (...) Porque (se o terceiro não quitar) ele estaria sem o carro e com o nome sujo. Então isso eu não acho muito viável. (Sra. Turin, 44). O carro tá alienado no meu nome, eu não posso passar ele para outra pessoa, só se ele estivesse quitado. (...) Quer dizer, eu acho até que tem gente que faz. Eu não faria. Se eu não me engano, tem gente que pega, vamos supor, você é meu amigo e você está com o carro. "Então tá, deixa o carro comigo, eu vou pagando... vou pagando pra você", mas sei lá (...) Você não tem como fazer um contrato, sei lá como se chama, um documento passando a responsabilidade total praquela pessoa. (Sra. Cerato, 29). 29 Ver nota 24, à pág. 108. 122 Ocorre que esse temido cenário, contra toda lógica, parece poder se estabelecer a despeito da manutenção da posse do automóvel pela família inadimplente. Isso ocorre quando se tem o carro, mas não se pode usá-lo por receio de um mandado de busca e apreensão 30 impetrado pela instituição credora. O caso do casal Cerato talvez seja o mais emblemático nesse sentido, pois o veículo está escondido tal qual uma vítima de sequestro, sob a justificativa de que é "a única coisa que se tem" para manter aberta a possibilidade de negociação. Essa situação parece fazer com que a família se sinta na clandestinidade, "sabendo o que pode acontecer", já que "a lei está aí pra isso": Por isso que eu tenho muito medo de perder o carro, por isso que eu quase não uso ele, porque o carro na verdade é a única coisa que eu tenho pra poder negociar. Se alguém vem aqui, algum oficial de justiça vem aqui, pega o carro e leva, a financeira vai falar "Meu irmão, já recuperei o carro. Mas aqui, sua dívida é essa daqui, se vira". Então ela manda carta até hoje para renegociação. (Sr. Cerato, 31). A gente já não pode mais passear, não pode ficar dando sopa com o carro. (...) É um receio. Porque é aquilo, a lei está aí para isso, a gente já sabe o que pode acontecer, já que nós, por enquanto, preferimos segurar, pra talvez renegociar isso, enfim, ver no que vai dar. A gente tem que se privar, ele tá lá e a gente aqui. (Sra. Cerato, 29). (Não poso usar o carro) Porque ele está com atraso e estou com medo de entrar em busca e apreensão e eu deixo ele na minha mãe. (...) Isso é um incômodo, eu me sinto muito incomodada, ter e não ter, eu tenho e não posso usar. (Sra. Classe A, 31). O temor da busca e apreensão pode ainda gerar outras reações, como a devolução amigável do veículo, para evitar a "vergonha" da situação de se ver abordado em casa, aos olhos da vizinhança, ou o empenho para "nunca deixar" acontecer: Com três meses diz que dá busca e apreensão. E nós já entregamos um carro quando fez três meses. (...) Então eu nunca deixo juntar três. (...) Foi assim. Juntou três meses. A gente não conseguia acertar de jeito nenhum. Aí ele falou que dava busca e apreensão, que batia em casa e tudo. A gente não queria passar por essa vergonha, aí foi lá e devolveu. Eu não sei como funciona. (Sra. Siena, 41). Mas também não vou pegar o carro e esconder porque deu busca e apreensão. (...) Se desse busca e apreensão, eu sou o primeiro a levar. (...) Eu mesmo faço. (Sr. Turin, 49). Ademais, as entrevistas dão a entender que viver na "prisão do devedor" gera grande desconforto pela necessidade de fazer escolhas, priorizar gastos. Nesse sentido, sobressai a importância dada às despesas do cotidiano familiar, especialmente às voltadas para a educação ou lazer dos filhos, que "não podem ser cortadas de jeito nenhum". A presença da dívida em aberto, portanto, parece não justificar "abrir mão da vida que se tem", como esforço para saldá-la, o que está em sintonia com o entendimento de Bernthal, Crockett e Rose (2005) 30 O objetivo da ação de busca e apreensão, decorrente de contrato de alienação fiduciária, é ver apreendido o bem objeto do contrato e visa garantir o pagamento do saldo devedor em aberto. 123 de que as práticas de enfrentamento das consequências financeiras visam postergar/evitar a alteração dos padrões correntes de consumo: E não vou tirar de uma prioridade que é casa, que é a escola por causa disso. (Sra. Cerato, 29). Eu não mexi no orçamento da família. Não vou fechar as portas, "Não, olha, vamos parar tudo, vamos fechar tudo que a gente vai pagar isso aí". Não. Eu até perco o carro, mas eu não abro mão do que minha família tem e não pode perder. (Sr. Turin, 49). Como a situação ficou muito ruim, eu falei "Eu não vou deixar de pagar colégio pro meu filho, curso de inglês pro meu filho, pra pagar o carro". Eu tenho que pagar, porque a prioridade é o meu filho. Então eu dei prioridade às coisas do meu filho e deixei o carro para depois. (Sra. Palio II, 32). No final do ano passado falei "Pô, a gente vai ter que começar... vai ter que escolher". E logicamente foi o carro. (...) As despesas de casa, o colégio do garoto e tal acabam consumindo quase tudo. (Sr. Classe A, 47). A Sky é uma coisa que não pode cortar de jeito nenhum, o Cauã (filho) é viciado em televisão. Ele (o marido) também é viciado, mas, se não tiver, não tem. O Cauã não entende que não tem. (Sra. Siena, 41). Ainda no âmbito dessa relutância em modificar os padrões de consumo, aparece a recorrência ao crédito alheio como forma de viabilizar a aquisição de bens e serviços cujo valor extrapole o orçamento mensal, inviabilizando o pagamento à vista. Nesse caso, pedir um "empréstimo de nome" não somente implica depender de amigos ou familiares, situação já destacada por Mattoso e Rocha (2005), como também aparenta determinar uma prioridade de pagamento. Com efeito, os discursos parecem indicar uma maior preocupação em não sujar o nome do amigo ou parente do que em buscar a limpeza do próprio nome. Então o que eu faço? Quando eu compro, eu compro no cartão da minha irmã, no cartão de um amigo e essa compra é prioridade. Por quê? Porque não é meu. Então às vezes eu pago até antes. (Sr. Siena, 40). Na verdade eu priorizei pagar as contas que não estavam no meu nome, por exemplo, a geladeira foi comprada no cartão de crédito da minha mãe, por isso dei prioridade a pagar. (Sra. Classe A, 31). 124 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente estudo exploratório teve como principal objetivo investigar a experiência de dificuldades financeiras vivida por famílias que contraíram dívida para a aquisição de um automóvel. No entanto, é interessante dar mais um passo atrás e lembrar as razões que motivaram esta pesquisa em seu estágio mais embrionário. Na literatura, dois tópicos de interesse podem ser destacados nas pesquisas sobre endividamento: identificar fatores que levam algumas pessoas a usarem o crédito mais intensamente que outras; e identificar fatores que fazem alguns indivíduos entrarem em situações de dificuldade de pagamento, com a possibilidade de acúmulo de dívidas até níveis impagáveis. Em princípio, a presente pesquisa se insere no segundo tópico, mas cabe destacar que teve como inspiração inicial a possibilidade mais ampla de vislumbrar oportunidades para iniciativas de educação financeira e que podem se traduzir em contribuições para consumidores, empresas e também políticas públicas. O endividamento, per se, não é visto aqui como algo ruim; contrair dívidas não implica necessariamente problemas para saldá-las. Pelo contrário, o crédito pode ser importante ferramenta para o alcance de estilos de vida diversos e apoiados pelo consumo. Portanto, quando se menciona educação financeira, a ideia subjacente não é combater o endividamento, mas capacitar o consumidor para a gestão da dívida, favorecer o uso consciente do crédito pelas famílias, em um ambiente no qual é possível observar consumidores deixando de poupar dinheiro para compras futuras e passando a antecipar novas aquisições por meio de endividamento. Tal capacitação se torna especialmente importante no contexto brasileiro, cujo modelo de desenvolvimento econômico aparenta ser ancorado no estímulo ao consumo e que observa uma crescente participação de famílias de classe média baixa no universo de consumo, com todas as oportunidades e riscos a ele associados. Acredita-se que a discussão de resultados realizada no capítulo anterior trouxe respostas para as perguntas de pesquisa e propiciou o conhecimento de diversos aspectos relativos às formas de utilização do crédito e de tratamento da dívida pelas famílias entrevistadas. Dessa forma, o presente estudo exploratório contribui para a área de comportamento do consumidor, tendo em vista que analisou um grupo de famílias que vivencia esse momento de ampliação da experiência consumista e, ao mesmo tempo em que tenta concretizar seus sonhos de consumo, também enfrenta os aspectos difíceis do endividamento. Além disso, os achados desta pesquisa trazem várias implicações para políticas públicas e podem servir como fonte de informação útil não somente para ações de 125 educação financeira das famílias, mas também para a atuação de todos os agentes envolvidos direta ou indiretamente nas experiências de dificuldades financeiras estudadas, entre os quais se destacam as empresas montadoras de automóveis, os estabelecimentos concessores de crédito, as instituições de proteção ao crédito, os órgãos de proteção ao consumidor e as entidades reguladoras. As perguntas de pesquisa e os principais achados que elas proporcionaram são retomados a seguir, como forma de fomentar a reflexão sobre a contribuição deste estudo para os agentes acima relacionados. Quais são os principais significados e sentimentos envolvidos na compra do carro? Para as famílias pesquisadas, a compra do automóvel parece registrar uma evolução da condição socioeconômica ou um "upgrade na vida". O carro aparece assim como um luxo necessário, pois, ao mesmo tempo em que sinaliza o pertencimento dessas famílias a um grupo social com o qual desejam se identificar e ser identificadas, também marca a diferenciação em relação àqueles "sem nenhuma condição financeira". Os carros funcionam como marcadores de um estilo de vida idealizado e aspirado pelas famílias entrevistadas. Daí suas referências à aquisição do carro como a realização de um sonho, mas um "sonho de consumo parcelado", uma vez que o pagamento à vista não é reconhecido por esse grupo como alternativa. Esse significado idealizado e deslocado dos automóveis faz com que modelos mais básicos e baratos, que talvez coubessem com mais folga no orçamento, sequer sejam lembrados entre as opções de compra, por não serem considerados sinalizadores do estilo de vida sonhado. Em meio a esse cenário de realização de sonho, o carro ainda simboliza um patrimônio em formação ou uma opção de investimento, já que a sua posse é percebida como a materialização de uma soma, de um valor monetário que, de outra forma, não conseguiria ser acumulado pelos casais entrevistados. Sendo assim, os sentimentos positivos de satisfação, felicidade e orgulho que o automóvel suscita nas famílias contribui para que não antecipem dificuldades financeiras e incapacidade de pagamento. Fica a impressão de que, para os entrevistados, o carro e a dívida contraída para sua compra não pertencem à mesma realidade, conforme ilustra a Figura 4 a seguir: 126 Satisfação Bem-estar Automóvel Felicidade Dívida Prazer Orgulho Figura 4: Sentimentos Associados ao Automóvel. Como é a participação da família na aquisição do veículo? Nos processos de compra estudados, o espaço para a interação familiar parece se abrir quando um dos cônjuges manifesta ao outro o desejo por um automóvel. A reação do companheiro pode ser favorável ou contrária à ideia proposta, o que pode tornar necessário que o proponente convença ou ignore o parceiro. Nessas situações, o componente financeiro aparece como determinante, já que o valor de prestação deve "caber no bolso" da família. Foi possível observar, entre os casais pesquisados, que o engajamento financeiro de cada um aparenta ser determinado mais por necessidade que por voluntariedade. Chamou atenção também o fato de algumas famílias aparentarem ocultar a dependência da contribuição financeira da mulher para a compra do carro, por meio do rearranjo do acordo firmado sobre o orçamento doméstico: ao invés de aplicar diretamente seus recursos no automóvel, a mulher passa a assumir uma parcela maior de outras despesas da casa e concede ao homem o papel de provedor do carro, que é um símbolo da ascensão social da família. Como as famílias lidam com os custos inerentes ao automóvel? As famílias admitem "só ter pensado na parcela" antes da compra e as falhas de planejamento sugerem que o financiamento do carro deixou o orçamento doméstico "no limite", logo, sem espaço para o recebimento de todas as despesas do veículo. Surpresa? Eles falam de várias estratégias que vão da busca por driblar custos relativos ao carro até abrir mão de outras despesas do cotidiano familiar, de diferentes naturezas tais como a moradia, a escola dos filhos ou mesmo gastos supérfluos. A despeito de todas as indicações de que as parcelas do carro e os outros custos não esperados afetaram seu orçamento e cotidiano, as famílias estudadas atribuem a outros grandes eventos alheios à sua vontade, como perda do emprego ou problemas de saúde, a 127 situação financeira desfavorável que estão vivendo. Dessa forma, elas preservam o "objeto de desejo" automóvel dos infortúnios também narrados a partir de sua posse. Como as famílias veem o recurso ao endividamento para a aquisição de bens? Pagamento parcelado é rotina e a "cultura do parcelamento" parece estar tão arraigada que alguns testemunhos revelaram um "desejo de parcelar a parcela", em meio às dificuldades de pagar o carro. Os relatos fornecem pistas sobre possíveis causas para o consumo via endividamento e descrevem uma espécie de círculo vicioso, conforme Figura 5 a seguir: o desejo de consumir mais e agora leva a uma dificuldade de poupar, que é apoiada pela ampla oferta de crédito fácil no mercado, que, por sua vez, leva ao desejo de consumir mais e agora. "Desejo de Parcelar a Parcela" Facilidade de Crédito Rotina de Parcelamento Dificuldade de Juntar Dinheiro Imediatismo do Consumo Figura 5: Rotina de Parcelamento. O planejamento dos entrevistados parece se limitar ao presente, isto é, sua preocupação se restringe a conseguir pagar a prestação no momento da compra. Em outras palavras, as famílias pesquisadas querem saber que valor de prestação "cabe no bolso", o que quase sempre significa "o máximo que poderiam pagar". O orçamento desse grupo de famílias estava "no limite" e esse limite foi ultrapassado com gastos excepcionais, inclusive relativos ao carro, mas que haviam sido ignorados no planejamento da compra. Quais são os principais significados, sentimentos e experiências originados das dificuldades financeiras? A incapacidade de pagar a dívida contraída para obter o desejado carro é descrita como um "fracasso", uma "decepção", acompanhada de "tristeza", "frustração", "depressão" e "preocupação". Os sentimentos negativos estão associados à dívida e parecem separados do carro nos relatos dos entrevistados, conforme ilustra a Figura 6 a seguir: 128 Preocupação Fracasso Desengano Dívida Tristeza Frustração Carro Decepção Depressão Figura 6: Sentimentos Associados à Dívida. Para algumas famílias, pagar a dívida pode significar "resgatar o orgulho perdido". Para outras famílias, buscar reduzir o valor devido, até por uma ação judicial, pode ser uma saída apropriada para "uma realidade indesejada". Mas também foi possível observar famílias mais conformadas e que consideram ser possível esperar um momento melhor para saldar a dívida. Independentemente de como se comportam em relação à situação de endividamento, as famílias entrevistadas parecem vivenciar experiências comuns na "prisão do devedor", quando estão sujeitas a credores incômodos e constrangedores ou quando vivenciam o receio de um mandado de busca e apreensão do veículo. 5.1. "ME ENGANO QUE EU GOSTO" De uma forma geral, os achados desta pesquisa sugerem que, desde a compra do carro até o descontrole financeiro, as famílias pesquisadas vivem diversas experiências que podem ser vistas como autoengano, um processo pelo qual "a mente da pessoa consegue de alguma forma manipular-se e iludir-se a si própria" (GIANNETTI, 1997, p. 17). O autoengano aparece quando falam da necessidade de ter o carro e o modelo não parece ser adequado à situação econômico-financeira, como no caso do Sr. Turin, que, mesmo estando inadimplente, explica que uma família de classe média não compra um Corsa, e sim um carro melhor. O autoengano aparece também quando falam do valor da prestação que imaginam poder pagar, considerando que tudo ao redor irá permanecer constante: "A gente estava estabilizado, tanto eu quanto ela... tinha condições para isso". O autoengano das famílias pesquisadas não permite que elas pensem nas "surpresas da vida", embora os prazos dos financiamentos estudados sejam iguais ou superiores a 48 meses. 129 Como enxergar além e reconhecer os riscos associados ao financiamento do automóvel diante da sedução exercida por sua posse no presente? Na condição de objeto de desejo na sociedade, o carro parece ocupar uma posição privilegiada em relação a outras categorias de consumo, que talvez não suscitem o mesmo fascínio, a mesma devoção, a mesma "animação", a mesma vontade de "embarcar na loucura" ou a mesma "empolgação que faz esquecer as coisas". Considerando que a atração exercida por um objeto está associada ao seu potencial em contribuir para a construção de relações e aceitação no grupo social, o significado de inclusão social do automóvel descrito pelas famílias parece torná-lo irresistível. Embora essa dimensão simbólica do carro, tão abordada pela literatura em comportamento do consumidor, tenha sido encontrada no discurso dos entrevistados, vale lembrar que muitas justificativas oferecidas por eles para a compra do veículo contraindo dívidas se encontram no plano racional, mais cognitivo, aparentemente retratando um esforço para continuar qualificando suas decisões como acertadas, o que reitera a ideia de autoengano. Nesse sentido, destaca-se a caracterização do automóvel como necessidade para superar as dificuldades decorrentes do transporte público ou a dependência da ajuda de terceiros em possíveis situações de emergência. O curioso dessa situação é que, para reforçar a percepção da necessidade do carro, os entrevistados conseguem antecipar eventuais ocasiões de risco, o que não ocorre com relação aos perigos da dívida. O autoengano se mantém quando os entrevistados afirmam que repetiriam a compra, se pudessem voltar no tempo, quando não admitem ter superestimado sua capacidade de pagamento, quando não reconhecem falhas de planejamento e quando não aceitam que a possibilidade de eventos excepcionais deveria ter sido considerada antes da compra parcelada. Quando, porém, a justificativa para a compra do carro é racionalizada mediante seu enquadramento como uma opção de investimento, as reflexões ultrapassam o autoengano e apontam para a carência de políticas públicas de educação financeira. De fato, alguns relatos indicam uma fé sincera na adequação do carro a essa finalidade de investimento, tornando difícil saber até que ponto tal percepção decorre de um autoengano muito eficiente ou de noções muito equivocadas sobre o que vem a ser um investimento. Afinal, os custos do financiamento naturalmente fazem com que os entrevistados despendam um volume de recursos superior ao valor do carro comprado, que, por sua vez, ainda sofre considerável depreciação ao longo do tempo. Via de regra, portanto, um automóvel não contribui para aumentar a riqueza do proprietário (sendo utilizado basicamente para passeio) e não deveria 130 ser percebido como uma forma de investimento tal qual um imóvel, bem com que o carro parece ser comparado em alguns discursos. Dessa forma, acredita-se que lacunas de conhecimentos financeiros tão elementares como esses possam colaborar para o problema do endividamento e deveriam ser objeto de programas educacionais. Outro tipo de consideração relacionada a políticas públicas e que foi suscitado pela presente pesquisa diz respeito ao modelo de desenvolvimento adotado pelo governo brasileiro, que parece fazer do estímulo ao consumo a base para o crescimento da economia. Tendo em vista a citada deficiência de educação financeira da população e a crescente participação de classes menos favorecidas no universo de consumo, quão sustentável ou temerária pode ser para a sociedade essa política que parece fomentar um modelo consumista, baseado no uso ampliado do crédito e do parcelamento para antecipar a capacidade de consumo dos cidadãos? Do mesmo modo que os consumidores podem acreditar que estão melhorando de vida, sem perceber ou evitando refletir sobre a ampliação da sua exposição aos riscos do endividamento, talvez a ânsia do crescimento econômico também possa estar levando o País a algum tipo de autoengano quanto à sustentabilidade do seu modelo de desenvolvimento. Sendo assim, a sedução que o carro exerce sobre as famílias entrevistadas parece atingir também o governo brasileiro, tendo em vista a importância estratégica que este confere à indústria automobilística para o crescimento econômico ancorado no consumo, como se percebe nas reiteradas reduções de IPI incidente sobre o setor. Ocorre que tal sedução pode abrigar armadilha semelhante à contida no folclórico canto da sereia, quando o marujo, seduzido pela irresistível melodia, acaba chocando seu barco contra os rochedos. Os entrevistados, tendo a visão de futuro embaçada pela expectativa presente de "realizar o sonho", ignoram os riscos do endividamento. O País, avesso ao modelo trabalhoso de poupança e investimento, prefere o caminho dos subsídios fiscais e creditícios e do incentivo ao consumo, sem maior preocupação com os efeitos dessas medidas sobre a produtividade, a inflação e sua própria sustentabilidade. Em ambos casos, não aparentam ser irrelevantes os riscos de se ver o barco colidindo contra os rochedos. 5.2. A EXPERIÊNCIA COM AS FAMÍLIAS A experiência de estudar as famílias, e não o consumidor individual, também gerou aprendizados importantes. A abordagem de entrevistas com casais, sendo cada cônjuge entrevistado de cada vez, parece contribuir para um conhecimento mais completo acerca da 131 situação estudada. Essa percepção decorre não somente da riqueza de detalhes que a complementação de dados proporciona, uma vez que são duas pessoas informando e lembrando os acontecimentos, mas também da possibilidade de captar diferentes visões, algumas vezes contraditórias, sobre um mesmo fato. Nos casos estudados, a abordagem da família propiciou algumas reflexões interessantes, principalmente, para instituições concessoras de crédito e de proteção ao crédito. Os achados deste estudo indicam que a família, pelo menos do ponto de vista financeiro, deveria realmente ser analisada como uma unidade. Independentemente de informarem fundos conjuntos, individuais ou uma combinação de ambos no gerenciamento do orçamento doméstico, as famílias pesquisadas parecem depender de todos os rendimentos gerados por seus membros – nesse caso, os filhos que trabalham também podem ser convocados a contribuir – e vivenciar conjuntamente as dificuldades financeiras. Portanto, quando a assinatura de um contrato de financiamento é atribuída a determinado cônjuge pelo fato de o outro estar com o "nome sujo", por exemplo, já é sabido que naquela família há uma ou mais dívidas em atraso. Dessa forma, a renda do cônjuge com "nome limpo" parece ser comprometida pela inadimplência do seu companheiro: se os recursos não forem usados diretamente para ajudar na dívida em aberto, provavelmente serão gastos em outras despesas, para compensar uma menor contribuição do cônjuge com débito a liquidar. Então se pergunta: esse tipo de circunstância não deveria ser levada em consideração pelos órgãos de proteção ao crédito, que identificam os mal pagadores, e pelas instituições concessoras de crédito, que analisam a capacidade de pagamento do consumidor? Situação correlata ocorre quando há um "empréstimo de nome" na contratação do financiamento do veículo porque a família compradora não tem renda suficiente para obter o crédito necessário. Nesse caso, parece razoável se questionar: o fato de a família não auferir rendimentos que demonstrem a capacidade de pagar a dívida que pretende contrair não conteria indícios claros de que ela terá problemas com o pagamento? Tal circunstância sugere uma espécie de autoengano coletivo: a família compradora acredita que vai conseguir pagar um valor que analistas financeiros informaram ser incompatível com sua capacidade de pagamento; o parente ou amigo que "empresta o nome" acha que está apenas ajudando o casal a superar uma burocracia irrelevante; e, por último, o concessor do crédito, junto com a empresa que produz o carro, parecem acreditar que a história termina com o empréstimo e com a compra, mesmo tendo informações de que o cliente poderá ter problemas no futuro. 132 Outra circunstância observada no presente estudo, por si só, suscita reflexões acerca da atuação e da responsabilidade de praticamente todos os agentes envolvidos nas experiências de dificuldades financeiras estudadas. Foi possível observar famílias que, não conseguindo pagar o financiamento do carro, acionaram judicialmente a instituição credora pela cobrança de juros abusivos e obtiveram do juiz uma "batida de martelo" para baixar a prestação devida (de R$ 560,00 para R$ 250,00, por exemplo). À primeira vista, uma decisão desse gênero parece responsabilizar a instituição financeira pelos altos juros cobrados e isentar a família da responsabilidade por ter concordado com o pagamento previsto No entanto, um olhar mais crítico pode desencadear diversos questionamentos a respeito de experiências como essa. Tendo em vista um cenário com crescente demanda da sociedade pela responsabilidade social e ambiental das empresas, é preciso trazer essa preocupação com a responsabilidade também para o crédito dirigido ao consumo, tanto da parte do concessor quanto da parte do tomador. Nesse sentido, aproximar-se do cliente, seja para conhecer sua realidade e então oferecer um crédito compatível, seja para não propor soluções "absurdas" quando ele apresenta dificuldades de pagamento, pode ser um caminho a ser seguido pelas empresas. No que se refere ao consumidor, as entrevistas realizadas indicam que há um grupo de cidadãos carentes de uma educação para o consumo que os habilite a gerenciar melhor sua vida financeira e a tomar decisões mais conscientes sobre oportunidades e riscos. 5.3. OUTRAS CONTRIBUIÇÕES DO ESTUDO As situações descritas apontam para a importância de as empresas, principalmente as financeiras, "irem até o contexto" onde seu cliente está para entender mais da sua vida e de seu comportamento de consumo. Os relatos falam do distanciamento, mas também sugerem uma aproximação: Eu nunca tive acesso a nenhuma empresa, financeira. Nunca fizeram nenhum trabalho de pergunta nem nada. (...) Porque ninguém virá aqui pra me perguntar "Como é que está sua vida aí pra pagar esse carro? A gente pode te ajudar?" (Sr. Turin, 49). Essa aparente inacessibilidade, impessoalidade ou desinteresse que alguns entrevistados percebem nas empresas das quais são clientes parece ter contribuído para estimular a conversa com o pesquisador e proporcionar situações inesperadas, como o agradecimento em forma de desabafo do Sr. Fox ao final da entrevista: Obrigado. E é bom falar sobre isso porque quando você conversa com um atendente, a pessoa que liga para cobrar, dificilmente a gente consegue expor esse tipo de situação, entendeu? Explicar qual é a circunstância, o que se pode fazer, o que não 133 pode. Assim, eu não deixei de pagar o carro por "Ah, não paga, deixa aí, deixa tomar, deixa vir pegar", não deixei por isso. Eu quero pagar, sempre tive meu nome limpo, entendeu? (Sr. Fox, 33). No que concerne às montadoras de automóveis, as famílias pesquisadas não fizeram ligação entre elas e as dificuldades financeiras enfrentadas, o que pode estar relacionado à separação que os entrevistados parecem estabelecer entre seus carros e a dívida contraída para adquiri-lo. Tal constatação, contudo, não deveria indicar ausência de motivos de preocupação para essas empresas. Pelo contrário, as fabricantes de carros deveriam pensar que essa associação ainda não é feita, mas que as novas, gratuitas e rápidas mídias sociais disponíveis já representam um aumento do poder dos consumidores em expor suas insatisfações, decepções e angústias. Assim, recomenda-se que as montadoras se mantenham atentas às experiências de endividamento de seus clientes após comprar o produto que elas oferecem. Afinal, as instituições que concedem o crédito ao consumidor, muitas vezes um banco ou uma financeira coligada à fabricante, com a mesma marca no nome, não foram poupadas de críticas: Eu acho que as empresas de financeiras deveriam ser mais sinceras só com o seu cliente porque ela vende dinheiro e ela recebe dinheiro em troca, então ela não precisa colocar o dinheiro que ela ganha como resultado escondido, pra evitar justamente que as pessoas se sintam ludibriadas e entrem com ações e recursos contra essas empresas. (Sr. Turin, 49). O maior sinal de alerta para as montadoras, todavia, vem do tratamento que seus clientes têm recebido a partir do momento em que a cobrança da dívida é transferida para agências especializadas. Os relatos dos consumidores acerca dos contatos com as agências de cobrança trazem expressões muito fortes e alarmantes. Alguns entrevistados chegam a dizer que parecem estar lidando com agiotas ou sendo tratados como bandidos ou ladrões. 5.4. SUGESTÕES PARA PESQUISAS FUTURAS Diversos aspectos observados ao longo deste estudo exploratório poderiam ser objeto de investigação em pesquisas futuras e são aqui apresentados em forma de perguntas de pesquisa: a) Que significados estão relacionados à responsabilidade pelo pagamento do carro? b) Quais são as associações entre a marca do carro e a contração de dívida? c) Como a família lida com decisões autônomas de seus membros a respeito de recursos ou bens coletivos? 134 d) Como as famílias gerenciam os espaços de diferentes categorias de produto no orçamento doméstico? e) Como autoengano e locus de controle externo se relacionam ao acúmulo de dívidas? f) Que associações existem entre a contração de dívida para a compra de bens de alto valor e a formação de poupança? g) Como o modelo teórico de Bernthal, Crockett e Rose (2005) se aplica a dívidas não originadas do uso do cartão de crédito? h) Como é a experiência de recorrer a órgãos de proteção ao consumidor ou judiciários em virtude de dívidas contraídas para o consumo? i) Como é a experiência de famílias que superam as dificuldades financeiras? 135 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AAKER, J. 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Assim, não precisamos ficar parando nossa conversa para eu tomar notas nem corremos o risco de deixar passar detalhes importantes. Para garantir a sua privacidade, em nenhum momento seu nome será divulgado. Você tem alguma dúvida que gostaria de tirar antes de começarmos? (6) Pra começar, queria que você lembrasse que compras financiadas você está pagando agora. Que mais? 2. EXERCÍCIO PROJETIVO: "FAMÍLIAS ALMEIDA E FERREIRA" Vamos fazer um exercício de imaginação! Eu gostaria que você considerasse duas famílias, que nós vamos chamar aqui de Almeida e Ferreira. A Família Almeida é formada por um casal com [X] filho(s), mora aqui em(no)(na) [bairro próximo ao do(a) entrevistado(a)] e eles não têm carro. Já a Família Ferreira acabou de comprar seu primeiro carro zero. Com base nessas informações, eu gostaria que você me ajudasse a imaginar essas famílias com maiores detalhes. Primeiro, a família sem carro: a Família Almeida. (7) Por que você acha que eles não têm carro? (8) Como você imagina que é a casa deles? (9) Você acha que eles costumam comprar produtos financiados? Quais? Por quê? "Me" explica melhor... (10) O Sr. Almeida trabalha onde? E a esposa? (11) Você acha que eles estão planejando comprar um carro? Por quê? 147 Agora a família Ferreira. Então, essa segunda família que estamos imaginando tem um carro zero, também mora no bairro de(o)(a) [mesmo dos Almeida] e tem [X] filhos. (12) Você acha que o Sr. Ferreira trabalha onde? E a mulher dele? (13) Como você imagina a casa deles? O que tem lá? De que tamanho é? É própria? (14) Você acha que eles costumam comprar produtos financiados? Quais? Por quê? (15) Que carro você acha que eles compraram? [Caso a pessoa não consiga especificar um modelo, perguntar sobre preço, tamanho, opcionais etc.] Por quê? (16) Como compraram? Por que eles recorreram a um financiamento para comprar esse carro? / Por que eles compraram à vista? (17) O que significou para eles a compra desse carro? (18) O que você acha que eles sentiram ao comprar esse carro zero? (19) O que você acha que os vizinhos pensaram ao ver o novo carro da Família Ferreira? Agora imagine que se passaram dois anos da compra do carro zero da Família Ferreira. (20) Como você vê essa família? O que aconteceu? 3. O PROCESSO DE DECISÃO DE COMPRA DO AUTOMÓVEL Agora vamos deixar de lado as famílias Almeida e Ferreira e falar da sua família. (21) Quantas pessoas moram na sua casa? O que vocês gostam de fazer juntos? Como é a rotina de vocês? (22) Vocês dois trabalham? O que você faz? E sua esposa / seu marido? (23) Onde seu(s) filho(s) estuda(m)? (24) Que produtos você diria que mais fazem parte da sua vida em família? Por quê? (25) [Se não falar espontaneamente] E o carro? Bem, agora vamos falar da compra do carro zero da sua família. (26) Quem aqui na sua casa foi o primeiro a levantar o interesse em comprar um carro zero? O que ela / você falava? 148 (27) Quais eram as suas principais razões para querer comprar um carro zero? E para não comprar um carro zero? (28) Agora eu faço as mesmas perguntas que tinha feito sobre a Família Ferreira: - O que significou pra vocês comprar esse primeiro carro zero? - O que vocês sentiram? - O que você acha que os vizinhos falaram? (29) Você gosta de falar sobre carro? Por quê? "Me" explica melhor... (30) "Me" fala o que você sente quando dirige esse carro. (31) E mais alguém contribuiu nesse pontapé inicial? O que falava? Que motivos dava para a compra do carro? (32) [Caso não tenha surgido espontaneamente] Qual foi a sua participação nesta etapa da compra? (33) Houve algum episódio específico que determinasse a decisão pela compra? Quanto tempo levou? (34) O que vocês levaram em consideração na hora da escolha do tipo de carro a ser comprado? O que não podia faltar nesse novo carro? Para quem isso era mais importante? Por quê? (35) Como essas coisas afetaram o preço do carro? [Explorar: Encareceu a entrada, a parcela, o IPVA, o seguro etc.?] (36) De quem foi a palavra final sobre o carro a ser comprado? Por que foi essa pessoa que teve a palavra final? 4. O MOMENTO DA COMPRA Agora vamos falar sobre o dia da compra do carro. (37) Você consegue se lembrar do dia da compra do carro? Descreva esse dia, por favor. (38) Quem de vocês ficou à frente das negociações com a concessionária? Como foi? (39) Quem fechou, efetivamente, o negócio? Por quê? (40) E o que foi decisivo para que a compra se concretizasse? 149 (41) Como ficou acordado o pagamento do carro? Houve entrada? Quantas parcelas? [Explorar se o valor da parcela caber no orçamento foi preponderante.] (42) Vocês haviam se informado antes sobre as opções de financiamento disponíveis (leasing, CDC etc.) ou foram informados na hora? Pensaram em poupar para comprar à vista? (43) Quem pagou, quem ficou responsável pelo pagamento? Apenas uma pessoa da família ou mais? Se mais de uma, como se deu a divisão? 5. CUSTOS ASSOCIADOS (44) Como você vê hoje os gastos associados ao seu carro? Quais são eles? [O que não falar espontaneamente, induzir e explorar, em especial com relação ao peso no orçamento doméstico e ao condicionamento do uso do carro.] - Você tem garagem? - Você tem seguro? - E o combustível? - E a manutenção? - E os impostos (IPVA, licenciamento, etc.)? - E multas? Falamos dos principais gastos com o carro. (45) Vocês pensaram neles antes de comprar o carro? (46) Qual deles surpreendeu vocês? (47) Quais são mais complicados de pagar? 6. ORÇAMENTO FAMILIAR E ENDIVIDAMENTO Agora vamos falar um pouco sobre o orçamento familiar e como o pagamento do financiamento pode modificar ou não outros gastos da família. (48) Quando o carro entrou no orçamento da família, o que mudou? [Explorar: Qual o efeito desses gastos em relação aos outros gastos da família?] 150 (49) E aquelas outras parcelas que a família paga além do financiamento do carro. [Citar as compras financiadas respondidas na pergunta 1] Tem mais alguma? Eletrodomésticos? Financiamento imobiliário? Cartão de crédito? Crediário de lojas? Crédito consignado? (50) A compra do carro afetou o pagamento dessa outras parcelas? Ou elas afetam o pagamento do carro e seus gastos? [Explorar: Há uma escala de prioridades?] (51) O que vocês estão fazendo para resolver esse problema (da dívida)? (52) Se você pudesse voltar no tempo, você ainda compraria o carro? Por quê? (53) O que não foi possível prever ou planejar? (54) Qual você acha que seria uma solução mais justa para essa situação? (55) Você pensou em vender o carro? Por quê? (56) O que você sente quando pensa na sua dívida por causa do carro, quando olha para os boletos do financiamento? (57) O que você sente quando pensa hoje no seu carro zero? (58) Quando você pretende trocar de carro? 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS Gostaríamos de agradecer a sua participação nesta pesquisa. Muito obrigado por sua disponibilidade e pelas suas opiniões. Tenha um bom dia / uma boa tarde / uma boa noite. 151 ANEXO 2 – CRITÉRIO DE CLASSIFICAÇÃO ECONÔMICA BRASIL SISTEMA DE PONTOS Posse de itens Televisão em cores Rádio Banheiro Automóvel Empregada mensalista Máquina de lavar Videocassete e/ou DVD Geladeira Freezer (aparelho independente ou parte da geladeira duplex) 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 Quantidade de Itens 1 2 3 1 2 3 1 2 3 4 5 6 4 7 9 3 4 4 2 2 2 2 2 2 4 4 4 2 2 2 4 ou + 4 4 7 9 4 2 2 4 2 Grau de instrução do chefe de família Nomenclatura Antiga Analfabeto/ Primário incompleto Primário completo/ Ginasial incompleto Ginasial completo/ Colegial incompleto Colegial completo/ Superior incompleto Superior completo CORTES DO CRITÉRIO BRASIL Classe A1 A2 B1 B2 C1 C2 D E Fonte: ABEP (2012). Pontos 42 – 46 35 – 41 29 – 34 23 – 28 18 – 22 14 – 17 8 – 13 0–7 Nomenclatura Atual Analfabeto/ Fundamental 1 Incompleto Fundamental 1 Completo / Fundamental 2 Incompleto Fundamental 2 Completo/ Médio Incompleto Médio Completo/ Superior Incompleto Superior completo 0 1 2 4 8