A INTEGRALIDA DE DO CUIDADO COMO EIXO DA GESTÃO HOSP ITALAR LUIZ CARLOS DE OLIVEIRA CECILIO EMERSO N ELIAS MERHY Campi n a s , mar ço de 2003. Um a defi n i ç ã o ini ci a l de int e g r a l i d a d e Noss a primeir a tar ef a, qua n d o nos ocup a m o s de pens a r o tem a da inte gr alid a d e da ate n ç ã o no hospit al, é tent a r const r ui r uma definição de integ r a li d a d e que sirv a de guia par a a cond u ç ã o de nossa s reflexõe s. Par tin do do sens o comu m e cor r e n d o o risco de uma tautologi a, pode rí a m o s dize r que a aten ç ã o integ r al de um pacie n t e no hospit al seria o esforço de uma abor d a g e m comple t a , holística, port a n t o integ r a l, de cad a pesso a port a d o r a de nece s si d a d e s de saúd e que, por um cer to período de sua vida, precis a s s e de cuida do s hospit al a r e s . Tal abo r d a g e m implica ri a em gar a n ti r desd e o cons u m o de toda s as tecnologi a s de saú d e disponíveis par a melho r a r e prolong a r a vida, até a criaç ã o de um ambi e n t e que res ult a s s e em confor to e segu r a n ç a par a a pesso a hospit aliza d a . Cuida d o inte g r al em saúd e ocorr e r i a a par tir de uma combin a ç ã o gen e r o s a e flexível de tecnologi a s dur a s, leve- dur a s e leves (MERHY , 2002) 1 . “Tecnolo gia” e “Hu m a n iz a ç ã o” combin a d a s , no des afio de adot a r o “luga r” do pacie nt e e suas nec es sid a d e s singul a r e s como ponto de par tid a par a qualqu e r interv e n ç ã o hospit al a r . Acha m os que tal tipo de definição, em princípio, é bast a n t e razo áv el como ponto de par tid a par a a const r u ç ã o do texto, mas não é suficient e . Outr a s 1 Tecnologi a s dur as : aquel as ligados a equipa m e n t o s, proce di m e n t o s ; tecnologia s leve- dur a s: aquel a s decor r e n t e s do uso de sabe r e s bem estr u t u r a d o s , como a Clínica e a Epide mi ologi a; tecnologi a s leves: aquel a s relacionais, no espa ço inte r s u bj e tivo do profission al de saúd e e pacien t e . 1 ques t õ e s precis a m ser agr e g a d a s a ela, na pers p e c tiv a de se trat a r a inte g r a lid a d e da aten ç ã o como tem a da gest ã o hospital a r . A inte g r alid a d e da aten ç ã o dois hospit al a r pode ser proble m a t iz a d a a parti r de ângulo s: a inte g r a lid a d e da aten ç ã o olhad a no hospit al e a partir do hospit al (a integ r a li d a d e ten d o como refer ê n ci a inte g r a lid a d e o aten di m e n t o no ambi e n t e hospit al a r em si) e a tendo como refer ê n ci a a inse r ç ã o do hospital no “siste m a ” de saú d e . Explor a m o s , a segui r, este s dois âng ulos. A int e g r a l i d a d e do cuid a d o no ho s p i t a l: o cuid a d o co m o sín t e s e de m ú lt i p l o s cuid a d o s . O cuida d o , nas orga niz a ç õ e s de saúd e em ger al, mas no hospit al em par tic ul a r , é, por sua natu r e z a , nec e s s a r i a m e n t e conju g a ç ã o do tra b al ho domin a ç ã o e de de relaçõ e s multidisciplin a r , vários profission ais. muito assim é t r ic a s isto Mec a nis m o s de pode r é, depe n d e da instituído s de entr e as vária s corp o r a ç õ e s profission ais ocult a m a impr e s ci n dív el colabor a ç ã o que deve existir ent r e os vários trab al h a d o r e s , como oper a d o r e s de tecnologi a s de saúd e , par a que o cuid a d o acont e ç a . O cuida d o, de form a idealiza d a , rece bi do/vivido pelo pacie n t e é som a t ó rio de um gra n d e núm e r o de pequ e n o s cuida do s par ci ais que vão se comple m e n t a n d o , de man ei r a mais ou menos conscie n t e e negoci a d a , ent r e os vários cuida d o r e s que circul a m e prod uz e m a vida do hospit al. Assim, uma complexa tra m a de atos, de proc e di m e n t o s , de fluxos, de rotina s, de sab e r e s , nu m proce s s o dialético de comple m e n t a ç ã o , mas ta mb é m de disp u t a , vão comp o n d o o que ent e n d e m o s como cuida d o em saúd e . A maior ou meno r inte g r a lid a d e da ate nç ã o rece bi d a res ult a, em boa medid a, da forma como se articul a m as prátic a s dos trab al h a d o r e s do hospit al. O cuid a d o hospital a r ocor r e no contexto de uma cresc e n t e racion aliza ç ã o das prá tic a s hospit al a r e s (CARAPINH EIRO , 1998), car a c t e r iz a d a , entr e outr a s 2 coisa s, pela decom p o siç ã o do ato médico global em inúm e r o s outros atos diag n ó s ti co s e ter a p ê u t i co s , realiza d os por vários trab al h a d o r e s difer e n t e s . Par a ilustr a r este fato, bast a imagin a r m o s os cuida do s de um pacie n t e com diab e t e s inte r n a d o com um qua d r o de desco m p e n s a ç ã o . Além dos cuida d o s iniciais do plant o nis t a , que o rece b e e inter n a a par tir do pront o- socor r o, ele rece b e r á tam b é m cuida d o s da enfer m a g e m , pode r á ser visto, em algu m mom e n t o , pelo ciru r gi ã o vascula r , pelo car diologist a , pelo endoc ri n ologis t a , pela nutricio nist a , pela assiste n t e social e pela psicólog a . Além do mais, ter á seu corpo escr u tin a d o por uma bat e ri a de exam e s , algun s deles bast a n t e complexos, realiza d o s em serviço s difer e n t e s e por profission ais disitnt o s. Uma das sobr e c a r g a s - talvez a maio r - do proce s s o ger e n ci al do hospit al cont e m p o r â n e o é cons e g ui r coor d e n a r ade q u a d a m e n t e este conjunt o diver sifica do, espe ci aliza d o, frag m e n t a d o de atos cuid a d o r e s individu ai s, que res ult e em uma dad a coor d e n a ç ã o do cuid a d o (MERHY & CECILIO , 2002). Esta dinâ mic a , cad a vez mais pres e n t e na vida dos hospit ais, é um aspe c t o cent r al a ser consid e r a d o na discus s ã o da integ r a lid a d e e na sua corr el a ç ã o com o proce s s o de gest ã o. Uma coisa é pens a r o trab al h o em equip e “como soma t ó ri a de açõe s espe cífica s de cad a profission al, como linha de mon t a g e m do trat a m e n t o da doenç a , tendo a cur a como ideal (...) a hier a r q u i a e a rigidez de pap éis codificad os” (NICÁCIO apud SILVEIRA, 2003 ); a outr a , é pens a r arr a njo s institucio n ai s, modos de oper a r a gest ã o do cotidia n o sobr e a micro p olític a do trab al h o que result e m em uma atu a ç ã o mais solidá ri a e conc e r t a d a de um gra n d e núm e r o de tra b al h a d o r e s envolvidos no cuida d o. Nest a medid a, par e c e- nos que o tem a da inte g r a lid a d e do cuida d o no hospit al, como nos dem ais serviços de saúd e, pass a, nece s s a r i a m e n t e , pelo aperf eiço a m e n t o da coor d e n a ç ã o do trab al h o de equipe como uma tem a par a a gest ã o hospit ala r . O ho s p i t a l no “sis t e m a de saú d e ”: o outr o ân g u l o da int e g r a l i d a d e . 3 “Siste m a de saúd e” (entr e asp a s) já sinaliza a discus s ã o que nós pret e n d e m o s fazer. A noção de siste m a traz implícit a a idéia de funcion a m e n t o har m o nio s o ent r e part e s, cada qual com sua “funç ão”, que cont rib u a par a o bom funcion a m e n t o do todo. O conceito de “siste m a de saúd e” denot a uma conc e p ç ã o idealiza d a , de car á t e r nor m a t iv o da saúd e, que não se sust e n t a na prá tic a. Qualq u e r obse r v a d o r ate n to do Siste m a Único de Saúd e (SUS), seja ele um inves tig a d o r engaj a d o em uma pes quis a , seja um dirige n t e ou ger e n t e , sab e que o den o mi n a d o “siste m a de saúd e ” é, na verd a d e , um cam p o atr av e s s a d o por várias lógicas de funcion a m e n t o , por múltiplos circuitos mais ou menos form aliza d o s , nem sem p r e e fluxos “racion ais”, de pacie n t e s , muita s vezes inte r r o m p i d o s e trunc a d o s , cons t r uí d os a parti r de prot a g o nis m o s , inte r e s s e s e sen tido s que não pode m ser subs u m i d o s à uma única racion alid a d e institu cio n al ord e n a d o r a . Mais do que um “siste m a ”, deve rí a m o s pens a r em uma rede móvel, assim é t r ic a e incom pl e t a de serviços que ope r a m distint a s tecnologi a s de saú d e e que são aces s a d o s de forma desigu al pelas difer e n t e s pess o a s ou agr u p a m e n t o s , que deles nece s sit a m . Uma das conse q ü ê n c i a s dest a form a de funcion a m e n t o é a imens a dificulda d e de se conse g ui r a integ r a li d a d e do cuid a d o, qu an d o nosso ponto de obse rv a ç ã o é o usuá rio e não este ou aqu el e serviço de saúd e . A inte g r a lid a d e do cuida do que cad a pess oa real neces sit a , freq ü e n t e m e n t e tran sv e r s a liz a todo o “siste m a ”. Não há integ r a lid a d e radic al sem esta possibilida d e de tran sv e r s a li d a d e . A integ r alid a d e do cuida d o só pod e ser obtid a em rede . Pode have r algu m gra u de integ r a li d a d e “focaliza d a ” qua n d o uma equip e, em um serviço de saúd e, atr a vé s de uma boa articul a ç ã o de suas prá tic a s, conse g u e escut a r e aten d e r , da melhor form a possível as nec e s si d a d e s de saú d e trazid a por cada um (CECILIO , 2001). Poré m , a “linha de cuida d o ” pens a d a de form a plen a, atr a ve s s a inúm e r o s serviços de saúd e. O hospit al pode ser visto como um compo n e n t e funda m e n t a l da inte g r alid a d e do cuid a d o pens a d a de form a amplia d a ,c o m o uma “esta ç ã o” no circuito que cada indivídu o perco r r e par a obte r a integ r a li d a d e de que nec e s sit a. Como desdo b r a m e n t o de 4 tal pre mis s a , nos fica a tar ef a de pens a r quais dispositivos pode m ser pens a d o s , no hospital, que o “cone c t e m ” , de forma mais adeq u a d a à rede de serviços de saú d e . Como pens a r a inte g r alid a d e , “olhan d o” dest a esta ç ã o que é o hospit al. A forma mais tradicion al de se pens a r o hospital no “siste m a de saúd e” é como refer ê n c i a em dete r m i n a d a s situ aç õ e s de maior compl exid a d e ou gravid a d e . Por tal conc e p ç ã o , o hospit al cont rib ui ri a par a a integ r ali d a d e do cuida do, fazen d o uma ade q u a d a contr a- refer ê n c i a após realiz a r o aten di m e n t o . Com cer t e z a, seria já um gra n d e gan ho a imple m e n t a ç ã o efetiva desse s circuitos bas e- topo e topobas e, que, na prátic a, sabe m o s bem, nem sem p r e são muito bem sucedi d o s (poré m , pouco ente n d e r melho r porq u e os siste m a s de refe r ê n ci a- contr a r e f e r ê n c i a funcion a m com a racion alida d e pret e n d i d a contin u a sendo um bom tema de investig a ç ã o ). pens a r Mes mo a contrib uiç ã o se funcion a s s e m do hospit al be m, deveri a m ser exe mp lo, que, por mais que se amplie e se aprim o r e as urg ê n ci a s/ e m e r g ê n c i a s hospit al a r e s segu e m novas possibilida d e s imagin a d a s . de se Sab e m o s, por a red e básica de serviços, sendo impor t a n t e s port a s de ent r a d a da popula ç ã o no seu des ejo de aces s a r o SUS. Sem que r e r apon t a r as explicaçõ e s par a tal fato, o que quer e m o s rete r , aqui, é que não temos sabido trab al h a r de form a mais cuida d o s a esta de m a n d a espon t â n e a que tanto aflige os trab al h a d o r e s e os ger e n t e s nos seus cotidia no s . Atend e r , dia após dia, esta dem a n d a inte r mi n á v e l, torn a- se uma tar ef a desg a s t a n t e e de result a d o s sem p r e duvido so s , se o crité rio é uma avalia ç ã o dos impac t o s sobr e a saúd e da popula ç ã o . No enta n t o, as urg ê n ci a s / e m e r g ê n c i a s segu e m funciona n d o de form a tradicio n al, na base da queixa- cond u t a , res ult a n d o em um Clínica redu cionis t a e ineficaz, que, em princípio, apont a par a tudo, menos par a a integ r alid a d e . Porq u e as pesso a s contin u a m busc a n d o aten di m e n t o nos serviços de urg ê n ci a ? Uma form a de explica r este fenô m e n o tão obse rv a d o , é recon h e c ê- lo como uma estr a t é g i a intuitiva e “selva g e m ” das pesso a s na busc a da integ r a li d a d e ! Um apa r e n t e par a d oxo, mas tam b é m um sinto m a que cabe ri a aos serviço s 5 exa min a r e m sem nenh u m prec on c e it o ou a priori e, mais do que isso, busca r invent a r novos dispositivos e novas form a s de escut a par a tais “ruídos”. Um bom ponto de par tid a par e c e ser a orga niz a ç ã o de equip e s de acolhim e n t o nos serviço s de urg ê n ci a capa cit a d a s par a o recon h e ci m e n t o e enc a m i n h a m e n t o de pacie n t e s que nece s sit a m de cuida d o s mais regul a r e s e aprop ri a d o s em outro s serviço s da rede. Nes t e caso, o hospital é que m faria a refer ê n c i a par a outr o s serviço s, coloca n d o em ques tion a m e n t o a idéia do sens o comu m de que a alta complexid a d e está “no topo”, lá onde fica o hospit al. Par a o hiper t e n s o ou o port a d o r de qualqu e r doenç a crônic a, seja adulto ou crianç a , o “topo”, em det e r mi n a d o mom e n t o da vida, é acess a r a red e “básic a”, ser bem acolhido e esta r vincula do a uma equipe. (CECILIO , 1997). Se pen s a m o s o hospit al como uma esta ç ã o pela qual circula m os mais varia d o s tipos de pess oa s , port a d o r a s das mais difer e n t e s neces si d a d e s , em difer e n t e s mom e n t o s de suas vidas singul a r e s , pode m o s imagin a r ainda outr a s forma s de trab al h a r a integ r a lid a d e . Por exem plo, o mome n t o de alta de cada pacie nt e deve ser pen s a d o como um mom e n t o privilegia d o par a se produzi r a continuid a d e do trat a m e n t o em outros serviços, não ape n a s de forma buroc r á t ic a , cum p r i n d o pap el do cont r a- refe r ê n ci a ”, mas pela const r u ç ã o um ativa da linha de cuida d o nec es s á r i a àqu el e pacien t e específico. O período da inter n a ç ã o pode, inclusive, ser aprov eit a d o par a apoiar o pacie n t e na dire ç ã o de conquist a r uma maior auto n o mi a e na recons t r u ç ã o de seu modo de and a r a vida. Retor n a r e m o s a esses ponto s ao apr e s e n t a r m o s , base a d o s em algu m a s expe riê n ci a s que temo s aco m p a n h a d o , modos de se fazer a gest ã o hospit al a r a partir do eixo do cuida d o . A int e g r a l i d a d e da at e n ç ã o co m o baliz a d o r da ge s t ã o ho s p i t a l a r: as linhas de produção do cuidado como estratégia gerencial. 6 Por todas as ques t õ e s apont a d a s acim a, é que temos proc u r a d o pens a r , nos último s dois anos, modos de fazer a gest ã o que tome m como refer ê n c i a a prod u ç ã o do cuida d o da forma mais integ r a l possível e que nos serviss e, ao mes m o tem po, como refer e n ci al par a a interv e n ç ã o na gest ã o da micro polític a do trab al h o em saúd e, nest e s esta b el e ci m e n t o s , fazend o a model a g e m da gest ã o como um todo a par ti r do cuida do ao pacien t e . Desd e o início da déc a d a de 199 0, como a que vivencia m o s na Sant a Cas a do Par á (CECILIO , 1994), já vínha m o s expe ri m e n t a d o movime n t o s novas forma s princip ai s: de redu ç ã o “gover n a r dos o hospit al”, níveis decisó rios a par tir de dois (“ach a t a m e n t o dos org a n o g r a m a s ” ) e condu ç ã o colegia d a das decisõe s, tanto na alta direç ã o, como nas equip e s decisõ e s : pres t a d o r a s os dois eixos de serviço. Desc e n t r a liz a ç ã o cap az e s de reinve n t a r um e democ r a t iz a ç ã o hospit al de das tradiç ã o cent r aliz a d o r a e com fortes esq ue m a s instituídos de domin a ç ã o e cont rol e. A apo st a de fundo dest e tipo de opção era que seria possível, a par tir de uma con d u ç ã o mais par ticip a tiva do hospit al, obte r um maior gra u de ades ã o dos trab al h a d o r e s par a o projeto de cons t r u ç ã o de hospit ais públicos de boa qualid a d e . Claro que outros arr a njos e dispositivos fora m sendo imple m e n t a d o s na per s p e c tiv a da qualificaç ã o da assist ê n ci a , poré m , o que que r e m o s dest a c a r é que, esse s modos de faze r a gest ão que fomos expe ri m e n t a n d o , por suas pre mis s a s de democ r a t iz a ç ã o do modo de gover n a r ) , era m deve do r e s de uma conc e p ç ã o política do mun d o car a c t e r i z a d a , entr e outr a s coisas, pela defes a radical de uma socied a d e mais igualit á ri a e par ticip a tiva , mais solidá ri a e inclusiv a que, ent r e outr a s cois as, cons e g ui s s e viabilizar um siste m a público de saú d e univer s al, qualifica d o e sob cont r ole social. Trab alh á v a m o s um projeto par a os hospit ais, espe cifica m e n t e , que, no fundo, par a além da racion aliza ç ã o ger e n ci al, era um desdo b r a m e n t o de um projeto par a a socied a d e bra sileir a. Gestã o democ r á t i c a , ades ã o dos trab a l h a d o r e s , const r u ç ã o de hospit ais públicos de boa qualida d e , implan t a ç ã o do SUS, tran sfo r m a ç ã o da socie d a d e : a cadei a de 7 apo st a s (qua s e seqü e n c i al) que implicit a m e n t e os novos modelos de gest ã o faziam! Com tudo que cons e g ui m o s expe ri m e n t a r e inova r, per c e b e m o s , no corr e r dos ano s, que o nosso des ejo de “de moc r a t i z a r a vida do hospital” , apes a r de nos par e c e r tão justo e nece s s á r i o, encon t r a v a dificuld a d e s na sua imple m e n t a ç ã o , e só par cial m e n t e ocor ri a. Algo como se o hospit al funcion a s s e com lógicas instituíd a s que teim av a m em “esca p a r ” dos novos arr a njo s mais coletivos que íamos expe ri m e n t a n d o . Algo como se os espa ç o s de tra n s p a r ê n c i a e explicit aç ã o de comp r o m i s s os públicos (com a qualida d e do cuida do) que íamo s expe ri m e n t a n d o não cons e g ui s s e m ser total m e n t e contin e n t e s par a o mund o real do hospital, com sua s car a c t e r í s ti c a s singula r e s desco n h e c e r que tais arr a njo s que propicia r a m solidá ri a segu e m contin u a m o s sendo adot a n d o , impor t a n t e s sem p r e que de funcion a m e n t o. Sem uma reflexão mais coletiva e estr a t é gi a s de possível, modos gest ã o (tanto colegia d o s é que de fazê- la), com eç a m o s a nos inter r o g a r que outr a s lógicas do hospit al, que nos fugia m, precis av a m ser melho r comp r e e n d i d a s e trab a lh a d a s na e pela gest ã o. Foi a par tir dest e tipo de indag a ç ã o que nos volta mo s de uma man ei r a mais precis a par a o tem a da prod u ç ã o do cuida do. Não que ele não estives s e pres e n t e nas form ul a ç õ e s ante r io r e s , mas tra t av a- se, agor a , de radic aliz á- lo como o eixo do proc e s s o conc eit u ai s ger e n ci al par a hospit ala r . abor d a r a E, além prod u ç ã o disso, do tính a m o s cuida do com mais a elem e n t o s discus s ã o da micro p olític a do tra b al h o vivo em saúd e (MERHY , 2002) e tem á ti c a da sua coor d e n a ç ã o nos hospit ais (MERHY & CECILIO, 2002). 8 Pen s a r a gest ã o de um hospit al é, ante s de mais nada, tenta r esta b e le c e r da form a mais clar a possível, quais os mec a ni s m o s de coor d e n a ç ã o adot a d o s par a tocar , da melho r man ei r a possível, o seu cotidia no. Convive m, nos hospit ais, múltipla s form a s de coor d e n a ç ã o , apoia d a s em lógicas bem difer e n t e s . Há um modo de coor de n a r que se apoia, clar a m e n t e , na lógica das profissõ e s . O pess o al de enfer m a g e m conve r s a entr e si par a esta b el e c e r as escal a s de trab al h o, as rotin a s, as troc a s de plant ã o, como cobrir as faltas de coleg a s, etc. Seria uma “conv e r s a entr e enfer m e i r o s” par a orga niz a r o mund o do tra b al h o da enfe r m a g e m . A refer ê n ci a par a este grupo profission al é a chefia ou direto r a de enfe r m a g e m do hospit al. Os médicos conve r s a m ent r e si par a cobrir escal a s, par a solicita r par e c e r e s técnicos de outr os coleg a s , em par ticul a r par a busc a r apoio nas hor a s em que os proble m a s dos pacie n t e s são mais des afia d o r e s e exige m uma identifica d a “outr a ent r e fisiote r a p e u t a s diret a m e n t e e opinião”. os A mes m a assist e n t e s outros form a sociais, profission ai s de os de coor d e n a ç ã o psicólogos, nível os pod e ser dentist a s , univer sit á ri o que os atu a m na assist ê n ci a aos pacie n t e s . Há um outr o modo de se fazer a coor d e n a ç ã o que segu e a lógica de “unida d e s de produ ç ã o”, ou seja, é uma coor d e n a ç ã o voltad a par a “prod u t o s ” ou serviços, envolven d o, nece s s a r i a m e n t e , múltiplos tipos de trab a lh a d o r e s ou uma equip e, como ocor r e nas cha m a d a s “ár e a s meio”, qual seja, aquel a s produ t o r a s dos insum o s que ser ã o usad o s no cuid a d o ao pacien t e . coor d e n a ç ã o do Exem plos des ta coord e n a ç ã o por unida d e s de produ ç ã o : a labor a t ó r io, da nutriç ã o e dieté tic a, da radiologia, do almox a rif a d o, etc. O forne ci m e n t o do serviço ou produ t o que car a c t e r iz a m est as unid a d e s (sua miss ão) é gar a n ti d o pela coor d e n a ç ã o de distintos proce s s o s de trab al h o de vários tipos de profission ai s, que é be m difer e n t e da lógica de coor d e n a ç ã o por profissõe s. Só que nest e últimos casos, qua n do vamos olhar como se faz a coor d e n a ç ã o das unida d e s tipica m e n t e assiste n ci ais, não é possível identifica r m o s uma coor d e n a ç ã o ou ger ê n ci a única. Quan do obser v a m o s a coor d e n a ç ã o das unida d e s produ t o r a s de cuida do, não há, nor m al m e n t e , esta 9 coor d e n a ç ã o unifica d a (“um chefe único”), na medida em que esta se faz, de form a mais visível, pela lógica das profissõe s : chefia médica do CTI e chefia de enfe r m a g e m do CTI; chefia médic a da mate r ni d a d e e chefia de enfe r m a g e m da mat e r n i d a d e , e assim por diant e. Dest a man ei r a , se é possível nome a r e reco n h e c e r , de fato, um chefe (de toda a equip e) do labor a t ó r io, um chefe (de tod a a equipe) do almoxa rif a d o, o mes m o não ocor r e nas unida d e s assist e n ci ai s: cad a profiss ã o zela par a um lógica próp ri a pres e r v a r seus espa ç o s de pode r e autono mi a , seg u e de tra b al h o e de prá tic a s profission ai s e, port a n t o , de coor d e n a ç ã o dos seus cotidia no s . Seria possível dizer que o “chefe” (médico) do CTI coord e n a , de fato toda a equip e? Que ele tem pode r par a inte rf e ri r na lógica de coor d e n a ç ã o do trab al ho da enfe r m a g e m ? Sab e m o s que não. Então, como se explica que, afinal, se cons e g u e realiza r o cuida d o ao pacie n t e de form a inte g r a l, com come ço, meio e fim, do mom e n t o da inter n a ç ã o até a hor a da alta, (ou da ent r a d a no PS ou até a saída com uma receit a...) car a c t e r iz a n d o uma terc ei r a (e crucial) lógica de coor d e n a ç ã o : aqu el a base a d a no cuida do ? 10 O delica d o proce s s o de coor d e n a ç ã o meca n is m o s princip ais . cont a t o entr e do cuida do se faz atr av é s de dois O primeir o deles, é a criaç ã o de “pont e s” ou ponto s de as lógica s da profiss ã o: médicos e enfer m e i r o s e os outro s profission ais têm que conve r s a r par a que o cuida do se realize. Uma coor d e n a ç ã o “em ato”, o encont r o de duas prátic a s , de dois sabe r e s , em ger al car a c t e r i z a d a por uma situa ç ã o tipo coma n d o- execuç ã o, princip al m e n t e na relaç ã o entr e médico e enfer m e i r o s /c o r p o de enfe r m a g e m . A prátic a da enfer m a g e m (e dos outro s profission ais) é, em boa medid a , “coma n d a d a ” , model a d a , cond u zid a , orien t a d a pelo ato médico (centr al) que deté m o monopólio do diagnó s ti co e da ter a p ê u t i c a “princip al”. Tal fato, esta b el e c e uma relaç ã o de “det e r m i n a ç ã o ” da prá tic a médic a desco n si d e r a r em que os relaç ã o às outr a s prá tic a s profission ais, mes m o profission ais não- médicos, todos eles, cons e r v a m sem sua esp e cificid a d e e um bom gra u de autono mi a próp rios de suas “profissõ e s ”. Podese afir m a r que este s pontos de cont a t o, estes can ais, nem sem p r e são “livres”, bem definidos e vistos ou aceito s como reg r a s do jogo institucion al e, por isso mes m o , são fonte per m a n e n t e s de ruídos, de tens õe s e de disput a s . que nos inter e s s a é: seria possível pens a r A ques t ã o uma form a de coor d e n a ç ã o mais horizo n t al, mais desob s t r uí d a , mais regul a r , mais “institu cion aliz a d a ” entr e os vários profission ais, cent r a d a no cuida d o? A seg u n d a estr a t é g i a par a o suce s s o da coor de n a ç ã o na lógica do cuida d o é o pap el quas e “silencioso” da prá tic a da enfer m a g e m , no cotidia no, de gar a n ti r todos os insum o s nece s s á r i o s ao cuida d o: a enfe r m a g e m artic ula e enca m i n h a todos os proce di m e n t o s nece s s á r io s à realizaç ã o de exa m e s comple m e n t a r e s , sup e rvisio n a as condiçõ e s de hotela ri a, dialog a com a família, circula ç ã o do pacien t e ent r e as áre a s , é res pon s á v e l por cond u z a uma gam a muito gra n d e de ativida d e s que result a m , afinal, no cuida do . 11 A prop o s t a de se fazer a ges t ã o a par tir da integ r a li d a d e do cuida d o cont a dest a s compl ex a s que st õ e s . Tem a pret e n s ã o facilite m a coor d e n a ç ã o das prá tic a s cotidia n a s de ten t a dar criar meca nis m o s que do hospit al de form a mais articul a d a , “leve”, com can ais de comu nic a ç ã o mais definidos, mais solidá ri a, mais demo c r á t i c a , menos “ruidos a ”, em par tic ul a r a coor d e n a ç ã o da prátic a dos vários profission ais envolvidos no cuida do. Como fazer isso? A primeir a coisa foi comp r e e n d e r m o s que a custo s a coor d e n a ç ã o do hospit al se faz seguind o várias lógica s, de form a que a lógica de funcion a m e n t o de cada unida d e de produ ç ã o/ c ui d a d o (que espe r á v a m o s pode r comp r e e n d e r ou “capt u r a r ” nos colegia d o s de cada unida d e ) é ape n a s um delas. A lógica de coor d e n a ç ã o das corpo r a ç õ e s é um instituído muito pode r o s o na vida da org a niz a ç ã o hospital a r e que, por sua natu r e z a - lugar de cons t r u ç ã o de identid a d e s profission ais, de defes a de espa ç os de autogov e r n o , de relaçõ e s de domin a ç ã o - esca p a das dimen s õ e s rep r o d u zi n d o- se. A própri a lógica, mais coletivas em si, da da coor d e n a ç ã o prod u ç ã o e segu e do cuida d o, e sua micro p olític a, “tra ns b o r d a ” o proce s s o de coor d e r n a ç ã o e as atribuiçõ e s de uma equip e assis t e n ci al, na medid a que só pode ser realiza d a tran sv e r s a liza d a , isto é, perco r r e n d o várias unida d e s de cuida do Mais do que isso, pode m o s dizer que, na per s p e c tiva de form a do hospit al. da integ r alid a d e , a tran sv e r s a lid a d e do cuida do realiza- se em uma red e mais ampla de serviços, na qual o hospit al é ape n a s uma esta ç ã o, como afirm a m o s ante s. Tratav a- se, pois, de parti r das expe riê n ci a s de gest ã o par ticip a tiva que vính a m o s expe ri m e n t a n d o , des de o início dos anos 90, par a tent a r m o s pens a r novos arr a n jo s e dispositivos que fosse m cap az e s de inter r o g a r , abso rv e r , tran sfo r m a r , sem neg á- los, algun s instituídos que identificáv a m o s que tinh a m imagin á r io da orga niz a ç ã o . Atuar sobr e a lógica da muita força no coord e n a ç ã o das corp o r a ç õ e s , como per c e b e m o s , é um dos melho r e s desafios par a isso. Como 12 res p eit a r a coord e n a ç ã o da enfer m a g e m como corpo r a ç ã o profission al, com seus valor es , suas repr e s e n t a ç õ e s , sua lógica de funcion a m e n t o , que lhe gar a n t e sua identid a d e , mas integ r a n d o- a, ao mes m o tem po, a uma lógica de coor d e n a ç ã o mais horizont al e inte r dis ciplin a r do cuida do ? Como res p eit a r a auto n o m i a iner e n t e à prá tic a médic a, incor po r a n d o- a, no enta n t o, à lógica do cuida d o pens a d a de form a mais integ r a l? Como const r ui r a gest ã o de forma que a res p o n s a b iliza ç ã o pelo cuida do se dess e em uma linha de prod u ç ã o do cuida d o , contín u a e que se trans v e r s a liza , atr av e s s a n d o , sem desco n tin ui d a d e , luga r e s do hospital ou mes m o vários outros serviços de saúd e ? Como subs u mi r tod a a lógica da prod u ç ã o dos insum o s hospital a r e s à lógica da produ ç ã o do cuida d o ? Como recri a r os esp aç o s colegia d o s de form a a torn á- los mais contine n t e s a ess a s várias orien t a r a m lógicas ? os novos Esta s fora m des e n h o s algu m a s das orga niz a cio n a i s que ques tõ e s vimos cent r ai s que experi m e n t a d o , ultima m e n t e . Ente n d e m o s que as linhas de prod u ç ã o do cuida d o são cent r a d a s em proce s s o s de tra b al h o mar c a d o s de modo muito claro pela micro polític a do trab al h o vivo em ato, enqu a n t o as linha s de prod u ç ã o de insum o s , como reg r a , obed e c e m a outros arr a njo s de microp olític a , nos quais a dime n s ã o do trab a l h o mor to é muito mais pres e n t e (MERHY, 2002) e (MERHY & CECILIO, 2002). Na seqü ê n ci a , apr e s e n t a m o s , o modelo básico de remo d e l a g e n s que temo s trab al h a d o em três hospit ais: O Hospit al Mat e r n o Infantil Presid e n t e Varg a s de Porto Alegr e/RS, o Hospital São João Batist a em Volta Redon d a /RJ e o Cent r o Infan til Dr. Boldrini em Cam pin a s / S P . São hospit ais com história s difer e n t e s de inte rv e n ç ã o , mas que comp a r t ilh a m , nest e mom e n t o , dese n h o s de ges tã o const r u í d o s sobr e o princípio da inte gr a lid a d e e da qualida d e do cuida d o , nas direçõ e s que apont a m o s até agor a . A idéia ger al do modo de fazer a gest ã o que consig a combin a r , de form a mais abr a n g e n t e , as vária s lógicas de coord e n a ç ã o do hospital, torn a n d o- as mais explícita s par a o coletivo gesto r como suas 13 mat é r i a s prima s de interv e n ç ã o ger e n ci al, tem a segui nt e repr e s e n t a ç ã o gráfica, em ger al: Flux o g r a m a de m o d e l o de ge s t ã o ce n t r a d o na co or d e n a ç ã o do cui d a d o I D uc uc2 uc3 uc4 A uc 1 uc5 uc1 uc6 uc8 uc7 uc9 B uc10 C A : Lin h a de cuid a d o a ( atr ave s s a as unida d e s de cuida do 1, 2,3 e 4). E F B : Linh a de cui d a d o b ( atr av e s s a as unida d e s de cuida do 1, 5,6 e 7). C : Linh a de cui d a d o c (atr ave s s a as unida d e s de cuida do 1,8,9 e 10). D : Linh a de en s i n o e pes q u i s a (atr av e s s a / t r a n s v e r s a liz a todas as unida d e s de cuid a d o). E: Linh a de apoi o ad m i n i s t r a t i v o (supri m e n t o , finanç a s , RH, serviços ger ais, etc). F : Linh a de apoi o téc n i c o (labor a t ó r i o, Imag e m , Banco de sang u e , Nutriç ã o , etc). Esta é a repr e s e n t a ç ã o do esqu e m a ger al que tem sido adot a d o nos três hospitais citad o s, com variaçõ e s em função de suas espe cificid a d e s . A prim ei r a difer e n ci a ç ã o diz resp eito ao núm e r o e composiç ã o das linha s do cuida d o . No 14 Cen t r o Infa n t i l Bol d ri n i , um hospit al (filant r ó pi co) pediá t ri co espe ci aliza d o de nível ter ci á rio/q u a t e r n á r i o, as linhas de cuida d o são duas: cuida d o s com crian ç a s port a d o r a s de cânc e r e cuida do s com as crianç a s hem a t oló gic a s . No Hos p i t a l Mat e r n o port a d o r a s Infa n t il Pre s i d e n t e de patolo gi as Varg a s de Porto Alegr e, as linhas de cuida d o são qua t r o: linha mat e r ni d a d e segu r a , linha de cuid a d o de crian ç a s e adoles c e n t e s , linha de cuida d o da mulhe r e linha de cuid a d o da saúd e ment al da mulhe r . Em Volta Redon d a , o Hos p i t a l Mu n i c i p a l São João Bat i s t a est á trab al h a n d o com dua s linha s de cuida d o: a linha de pacie n t e s adultos clínico- cirúr gi co s e uma linha de cuida d o mate r n o- infantil. As linhas de cuida d o são coor d e n a d a s , sem p r e , por uma dupla form a d a por um profission al médico e por um profission al enfe r m e i r o, pelo menos, pois há situ a ç õ e s nas quais equip e s multip r ofission ais fazem part e dest a compo siç ã o , como no caso do Boldrini. Busca- se, com este arr a njo, incor po r a r a lógica das corp o r a ç õ e s mais impor t a n t e s , por é m subs u mi d a , ou pelo menos inter r o g a d a de modo claro pela lógica horizon t aliz a d a do cuida do. Cada unida d e de prod u ç ã o de cuid a d o , que pode ser atr av e s s a d a por mais de uma linha de prod u ç ã o de cuid a d o, tem um coor d e n a ç ã o unificad a , isto é, tem um coor d e n a d o r respo n s á v el pela coor d e n a ç ã o de todo o tra b al ho da equipe. Este coor de n a d o r de unid a d e pode ser um enfe r m e i r o, um médico ou qualqu e r outro profission al de nível unive r sit á r i o. Os coor d e n a d o r e s de linha têm como atrib uiçõ e s princip ais: 1. facilita r e estimula r uma boa articul aç ã o funcion al entr e as vária s unida d e s de cuid a d o atr av e s s a d a s pela linha, busc a n d o a maior integ r a li d a d e possível da sua pro d u ç ã o . Um bom exem plo da impor t â n c i a dest a atrib uiç ã o é pen s a r o quan to uma assist ê n ci a qualificad a ao part o depe n d e de uma boa artic ul a ç ã o 15 ent r e os profission ais que fazer a rec e p ç ã o da pacie n t e , a gar a n ti a de vag a na mat e r n i d a d e , o aces so à sala de par t o, os cuida do s com a pué r p e r a e com o neon a t o , a event u a l nece s si d a d e de leito em unida d e de ter a pi a intensiv a par a a mãe e par a o filho, o uso do banco de leite. Uma linha contínu a e artic ul a d a de cuid a d o s que vão sendo realiza do s em unida d e s de cuida do difer e n t e s . 2. Apoiar os coor d e n a d o r e s das unida d e s de cuida do no exer cício de suas atrib uiç õ e s . 3. Faze r uma inte rloc uç ã o diret a com médicos e enfe r m e i r o s, em todos os asp e c to s de sua vida funcion al e profission al, tendo sem p r e a pers p e c tiv a do cuid a d o. A lógica de coor d e n a ç ã o das corpo r a ç õ e s res p ei t a d a , mas inserid a na per s p e c tiv a horizont al do cuida do. Algum a modifica ç õ e s impor t a n t e s têm sido realiza d a s nos orga no g r a m a s hospit al a r e s em função da adoç ã o de coor d e n a ç ã o por linha s de cuida do s. Uma delas é a criaç ã o de uma dire to ri a colegia d a do hospit al compos t a pelos coor d e n a d o r e s de linha de prod u ç ã o do cuida do, pelos coor de n a d o r e s das linhas de pro d u ç ã o de insum o s e pela coor d e n a ç ã o da linha de ensino e pesq ui s a. Com tal compo siç ã o, pret e n d e- se cria r uma espa ço mat ricial de direç ã o supe rio r do hospit al cen t r a d o na lógica da produ ç ã o do cuida do, mas conte m p l a n d o sua nec es s á r i a articul aç ã o prod u ç ã o de insu m o s. com as lógicas de coor d e n a ç ã o das profissõ e s e de Ao mes m o tem p o, cria m- se colegia d os técnicos em cad a linh a de produ ç ã o de cuida do, dos quais par ticip a m os coor d e n a d o r e s daq u el a linh a, os coor d e n a d o r e s ou ger e n t e s das unida d e s assist e n ci ais atr av e s s a d a s pela linh a e “convid a do s ” par a a discus s ã o de tem a s ligados ao cuida do. Por exem plo, das reu niõ e s do colegia do técnico da linha de cuida d o da atenç ã o à mat e r n i d a d e , par ticip a m os coord e n a d o r e s da linha (um profission al médico e um profissio n al enfe r m e i r o ), os ger e n t e s do ambul a t ó rio (onde se faz o pré- nat al), o ger e n t e do bloco obst ét ri c o, a ger e n t e do aloja m e n t o conjun to, o ger e n t e do CTI neon a t a l e o ger e n t e do CTI de adultos, mas pode r ã o ser convida d o s o ger e n t e do 16 labo r a t ó r i o ou do banco de san g u e ou da nutriç ã o e dieté tic a par a discu tir e delib e r a r sobr e toda s as ques tõ e s espe cífica s afet a s ao cuida d o (rotin a s, fluxos, protocolos de aten di m e n t o, etc). Como os dois coor d e n a d o r e s de linha pres e n t e s à reu ni ã o fazem par te da direç ã o supe r io r do hospit al (direto ri a colegia d a) , criase um arr a njo institucion al que facilita a “conex ão”, diga m o s assim, de proce s s o s decisó rio s (refer e n t e s à micropolític a do hospital) autôno m o s , desc e n t r a liz a d o s e agiliza d o s com a direcion alid a d e mais ger al pre t e n d i d a pelo hospit al. Trab al h a n d o com a conce p ç ã o do hospit al como uma “esta ç ã o” de uma intric a d a red e de cuida d os , os coor de n a d o r e s das linhas de produ ç ã o do cuida do ter ão , como uma das suas atribuiçõ e s , ajuda r na criaç ã o e est a bilizaç ã o de linhas que rom p e m os limite s do hospit al e se tran sv e r s a liz a m por outros serviços visan d o a inte g r a lid a d e do cuida d o. Bast a pens a r como uma linha de cuida d o s cirú r gic o s , por exe m plo, lida com pesso a s que “vêm de algu m luga r ” e depois “dever ã o ir par a outro luga r”, par a imagin a r a cons tituiç ã o da integ r a lid a d e do cuida d o. Quer e m o s dizer, com isto, que todo o proc e s s o de aces so à age n d a do bloco cirú r gic o, o pré- oper a t ó ri o, o ato cirúr gi co e o acom p a n h a m e n t o pós- oper a t ó ri o comp õ e m um continuun de equip e s, profission ais e respo n s á v ei s que estão den t r o , mas tam b é m fora do esp aç o físico rest rit o do hospit al. Os coor d e n a d o r e s de linha de cuid a d o deve r ã o ter a preoc u p a ç ã o de busc a r uma melho r artic ula ç ã o entr e esta s várias “esta ç õ e s cuida d o r a s ”. Isto vale par a toda s as linhas. A assis t ê n c i a ao par to, por exem plo, só pode ser pens a d a na sua integ r a li d a d e qua n d o o hospit al cons e g u e se articul a r adeq u a d a m e n t e com a rede básic a de serviço s, na qual a prod u ç ã o do cuida do se inicia (pré- nat al), mas continu a após o par to (cuid a d o s com a pué r p e r a e com o recé m- nascido, anticon c e p ç ã o , etc) e assim por dian t e. A integ r a lid a d e do cuida do é tar ef a de red e. A gest ã o do hospit al cent r a d a no cuida d o dever á apr e n d e r a trab al h a r , de form a radical, o hospital como ape n a s uma das “esta ç õ e s” da red e de cuida do. Nest a medid a, reite r a m o s , que o pap el do hospit al no “siste m a de saúd e” não pode se rest ri n gi r a fazer 17 cont r a r e f e r ê n ci a de pacie n t e s enca mi n h a d o s . Dos coor de n a d o r e s das linhas de prod u ç ã o de cuida d o, espe r a- se uma postu r a mais ativa na const r u ç ã o deste s fluxos institucio n ai s, esta bilizad o s e regula r e s de pacie n t e s ent r e as “est a çõ e s ” prod u t o r a s de cuida d o s . Par a isso são neces s á r i o s proce s s o s de negocia ç ã o com outro s ator e s extr a- hospit al a r e s , em partic ula r com as secr e t a r i a s municip ais de saú d e ou outr os gesto r e s , com as coor d e n a ç õ e s de distritos (ou regiõe s) de saú d e (ond e existir e m) e com as unida d e s básic a s . Este fato agr e g a novas tar ef a s par a os coord e n a d o r e s de linha s de produ ç ã o do cuida d o que, com toda a cer t ez a , não são simple s e desp r ovid a s de dificulda d e s . Mas possíveis, e nece s s á r i a s , com cer te z a . O dese n h o de fóruns gesto r e s, mais unifica dos par a a gest ã o integ r a l das linh as de cuida do, precis a m ser expe ri m e n t a d o s . 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