A EXPANSÃO DO NÚMERO DE CURSOS E DE MODALIDADES DE ENGENHARIA Vanderli Fava de Oliveira – [email protected] Eduardo Furtado A. de Paula – [email protected] Marcos Vinícius de Oliveira Costa – [email protected] Pedro Henrique Pernisa Fernandes – [email protected] Universidade Federal de Juiz de Fora Rua José Lourenço Kelmer, s/n – Campus Universitário, São Pedro CEP: 36036-900 - Juiz de Fora – MG Resumo: O objetivo deste trabalho é apresentar um estudo sobre a expansão e o crescimento do número de cursos e de modalidades de Engenharia. Para tanto são recuperados estudos já realizados no Observatório da Educação em Engenharia da UFJF buscando foco na construção de uma linha do tempo sobre esta expansão de modalidades. Os dados utilizados são os disponíveis no portal do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) e no sistema E-MEC. O retrospecto sobre a formação em Engenharia e as definições das modalidades, tem como base o compêndio “Trajetória e estado da arte da formação em Engenharia, Arquitetura e Agronomia” (CONFEA/INEP, 2010). Um dos resultados a que se permite chegar é que na medida em que as soluções dos problemas emanados por um determinado campo aumentam a complexidade, passam a ser abrangidos pela área de Engenharia que tem como uma das atividades fundamentais projetar soluções. Palavras-chave: Educação em Engenharia, Modalidades de Engenharia, Crescimento das Engenharias 1. INTRODUÇÃO O objetivo principal deste trabalho é apresentar um estudo sobre a expansão e o crescimento do número de cursos e de modalidades de Engenharia buscando identificar quais os principais fatores que foram determinantes para que essa expansão ocorresse. Neste estudo procura-se focar na construção de uma linha do tempo sobre esta expansão de modalidades e na identificação dos principais desdobramentos das modalidades mais antigas e as inter-relações guardadas entre elas ao longo do tempo. Os dados sobre os cursos foram obtidos no portal do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP, 2015) e no Sistema E-MEC (2015). O estudo sobre as modalidades tem sua base em trabalhos já realizados no Observatório da Educação em Engenharia da UFJF (OEE/UFJF, 2015) sobre essa expansão e esse crescimento geral da Engenharia. Em termos de retrospecto sobre a Engenharia, a base principal é o compêndio composto por 11 volumes que trata da “Trajetória e estado da arte da formação em Engenharia, Arquitetura e Agronomia” (CONFEA/INEP, 2010), que foram editados a partir de uma parceria entre o INEP e o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CONFEA) que contou com a participação do coordenador do OEE/UFJF como um dos organizadores e autor. 2. EXPANSÃO DAS MODALIDADES DE ENGENHARIA 2.1. Organização das Modalidades por Enfoques A Engenharia como emprego de métodos e técnicas para construir, transformar materiais e fabricar ferramentas existe desde os primórdios da civilização, no entanto, a Engenharia como um conhecimento organizado e estruturado em bases científicas é recente, tendo surgido apenas no século XVIII. O desenvolvimento da Engenharia acompanhou a criação de novas tecnologias e descobertas científicas, visto que é da sua natureza, buscar direcionar as forças da natureza para o uso e conveniência do homem conforme definiu Thomas Tredgold em 1824. Assim é que os estudos das leis da física e das transformações químicas nos séculos XVII e XVIII permitiram a criação das Engenharias Civil e Química, respectivamente. As máquinas da Revolução Industrial levaram ao surgimento da Mecânica; a Segunda Revolução Industrial impulsionou a Engenharia Elétrica, entre outros exemplos. O ensino da Engenharia buscou acompanhar esse desenvolvimento, visto que o conhecimento e a aplicação da tecnologia se tornavam cada vez mais complexos. Os cursos de Engenharia no Brasil também seguiram esta tendência de acompanhar as transformações na tecnologia e na indústria, além de serem influenciados pelas condições econômicas, políticas e sociais vigentes. Houve um grande crescimento do número de cursos de Engenharia, principalmente a partir de 1996 e esse crescimento foi acentuadamente maior no denominado setor privado (figura 1). Figura 1 – Crescimento do número de Cursos de Engenharia Privados – Públicos - Total Fonte: Organizado com dados que constam no portal do INEP (2015) e do Sistema E-MEC (2015) Para melhor compreensão da expansão das modalidades de Engenharia que foram surgindo no Brasil, optou-se por agrupá-las em conjuntos denominados enfoques. Estes enfoques procuram combinar os principais fatores, as novas aplicações e o incremento das modalidades pré-existentes, os quais foram determinantes para o surgimento de novas modalidades. Considera-se como modalidade de Engenharia apenas a primeira denominação do curso, não contabilizando em separado as ênfases de uma mesma modalidade. Como exemplo cita-se o curso de Engenharia de Produção que possui ênfases em Mecânica, Civil, Elétrica, entre outras. Nesse caso considera-se como modalidade a Engenharia de Produção, sendo o segundo nome (mecânica, civil, elétrica, etc.) considerado como ênfase, portanto, não sendo considerado em separado. Neste estudo foram encontradas 64 modalidades. Quando consideradas as ênfases podem ser encontradas cerca de 200 denominações distintas. Tais modalidades foram agrupadas segundo os enfoques que constam da tabela 1. ANO Século XVII Tabela 1 – Organização das modalidades de Engenharia em Enfoques ENFOQUE MODALIDADES (C) D/C Tradicionais 12 / 1834 Anos 50 Focadas/produto 11 / 184 Anos 50 Novas Tecnologias (NT): Mecânica/ Automação 17 / 519 Civil (713), Elétrica (428), Mecânica (384), Química (183), Agrícola (32), Minas (28), Metalúrgica (22), Industrial (17), Cartográfica (13), Agrimensura (10), Geológica (3), Fortificação (1) Florestal (66), Petróleo (62), Pesca (21), Aeronáutica (10), Naval (6), Têxtil (5), Aeroespacial (5), Automotiva (5), Ferroviária (2), Cerâmica (1), Portuária (1) Computação (195), Automação (169), Eletrônica (50), Telecomunicações (38), Mecatrônica (34), Software (20), Instrumentação (3), Manufatura (1), Sistemas Digitais (1), Acústica (1), Computacional (1), Informação (1), Redes de Comunicação (1), Teleinformática (1), Eletrotécnica (1), Nuclear (1), Nanotecnologia (1) Alimentos (98), Materiais (52), Bioprocessos (19), Biomédica (13), Biossistemas (3), Bioquímica (2), Biotecnologia (1) Anos NT: Química 60 Bioquímica 7 / 188 Anos Ambiente Ambiental (300), Energia (22), Sanitária (12), Hídrica (5), Bioenergética (3) 70 5 / 342 Produção (707), Agroindustrial (2), Agronegócios (1), Gestão (1), Inovação Anos Gestão/Inovação (1) 70 5 / 712 Sec Focadas/transversais Física (8), Transportes (6), Sistemas (3), Mobilidade (1), Infraestrutura (1) XXI 5 / 19 Sec Segurança Segurança no Trabalho (2), Saúde e Segurança (1) XXI 2/3 D (total de denominações) / C (total de cursos) Fonte: Organizada pelo autor com base nas modalidades cadastradas no sistema E-MEC (acessado em mai/2015) Tais enfoques das modalidades de Engenharia podem ser assim definidos: • Tradicionais – São as pioneiras ou as que se desdobraram da Engenharia que surgiu como Engenharia Militar e que passaram a ser também cursadas por civis. • Focadas em um produto – São as que surgiram principalmente em função da necessidade de intervenção integrada na cadeia produtiva de um determinado produto ou empreendimento com base principalmente nos conhecimentos inerentes a outras modalidades. • Novas Tecnologias: Mecânica/Automação – São as que surgiram principalmente em função das novas tecnologias e com base na informática a partir da revolução desencadeada principalmente pela automação. • Novas Tecnologias: Química/Bioquímica – São as que surgiram a partir das novas tecnologias com base principalmente no desenvolvimento da química e da bioquímica. • Ambiente – São as surgiram principalmente com base nos impactos ambientais, na escassez de recursos naturais e na poluição decorrente de resíduos e efluentes. • Gestão/Inovação – São as surgiram principalmente em função da necessidade da integração entre projeto, produção e gestão. • Focadas/transversais – São as surgiram principalmente em função das necessidades de estudos e projetos de sistemas complexos como os logísticos e os infra estruturais. • Segurança – Engenharia de Segurança era tratada como uma especialização latu sensu e cursada por egressos de qualquer das modalidades de Engenharia. Na 1ª década deste século esta especialização passou também a ser curso de graduação em engenharia. O crescimento destes enfoques é mostrado na figura 2. Verifica-se que as denominadas tradicionais continuam sendo as que mais crescem. No Brasil, o incremento do crescimento do número de cursos coincide com a expansão do número de modalidades que ocorre a partir da metade da última década do século passado. Em 20 anos o número de modalidades de Engenharia dobrou e vem alcançando outros setores anteriormente não abrangidos pela formação Engenharia. Figura 2 – Crescimento do número de cursos de cada enfoque Fonte: Organizado com dados que constam no portal do INEP (2015) e do Sistema E-MEC (2015) O retrospecto e as definições sobre as modalidades foram elaborados tendo como base os 11 volumes do compêndio “Trajetória e estado da arte da formação em Engenharia, Arquitetura e Agronomia” (CONFEA/INEP, 2010). Na página seguinte a figura 3 mostra a linha do tempo das principais modalidades de Engenharia que hoje contam com 5 ou mais cursos em funcionamento. Além dos 3.801 cursos totalizados na tabela 1, ainda existem mais 67 cursos de graduação cadastrados no sistema E-MEC com a denominação de Engenharia sem explicitar a modalidade. Também não foram contabilizados 322 cursos de Engenharia que não explicitaram a data de início. Ou seja, existem cadastrados no sistema E-MEC 4.190 cursos de Engenharia quando não se contabiliza também os extintos e os em extinção. Figura 3 – Linha do Tempo da criação das modalidades de cursos de Engenharia Fonte: Construída com base nos dados do sistema E-MEC (2015) e no Compêndio CONFEA/INEP, 2010 As definições a seguir têm como base o compêndio Trajetória e estado da arte da formação em Engenharia, Arquitetura e Agronomia” (CONFEA/INEP, 2010) do qual o coordenador deste á um dos autores. 2.2. Tradicionais Segundo TELLES (1994), a Engenharia como arte de construir é tão antiga quanto o homem, porém quando considerada como um conjunto organizado de conhecimentos com base científica é recente e datada do século XVIII. A Escola de Engenharia mais antiga que constituiuse como tal, a École Nationale des Ponts et Chausseés, foi criada em 1747 em Paris/França e foi a primeira escola do mundo a diplomar profissionais com o título de “engenheiros”. A engenharia tem sua origem nos exércitos nacionais que habilitavam oficiais para projetar e executar obras de interesse militar como pontes, fortificações e estradas. Aos poucos, a engenharia foi se expandindo para outras aplicações, se distanciando do meio militar surgindo assim a denominação Engenharia Civil (para não ser confundida com a Engenharia Militar) de onde todas as outras derivam (TELLES, 1994). A Engenharia Mecânica é umas das primeiras a derivar da Engenharia Civil, visto que nas grandes obras de construção eram necessários equipamentos mecânicos. Ainda no contexto da Revolução Industrial surge a modalidade de Engenharia de Minas, também derivada da Civil à qual foi acrescentada o conhecimento geológico necessário para explorar as jazidas do então cada vez mais requisitado carvão mineral. Um marco da Engenharia de Minas é a fundação da École des Mines em Paris em 1783. No Brasil, a Escola de Minas de Ouro Preto, a segunda instituição de Engenharia (1874) criada no país, foi a primeira a formar Engenheiros de Minas. A Engenharia Elétrica surge quando os princípios físicos da eletricidade e do magnetismo começaram a ser aplicados em equipamentos úteis ao homem no século XIX. A Engenharia Industrial é especializada em gerenciar os recursos necessários à produção, surgiu como uma especialização da Civil na área fabril, incorporando aos conhecimentos de infraestrutura os estudos dos processos e da mão de obra. O desenvolvimento de processos fabris envolvendo transformações físico-químicas levou ao desenvolvimento da Engenharia Química. As estruturas metálicas são de grande importância para as grandes construções, os primeiros estudos da Engenharia Metalúrgica surgiram dentro da Engenharia Civil e a crescente necessidade pelos materiais levaram a sua criação como curso pleno. A Engenharia Cartográfica, definida como o ramo da Engenharia que estuda, planeja, projeta e realiza a base que sustenta uma representação cartográfica, também é derivada diretamente da Engenharia Civil, sendo um aprofundamento da área de topografia A Engenharia de Agrimensura é semelhante, porém especializada na definição dos limites reais dos terrenos, enquanto que a Cartográfica segue focada na representação cartográfica desta realidade. Nesta trajetória das Engenharias até a década de 1930, observa-se que as modalidades criadas, além de originadas do meio militar dedicavam-se à infraestrutura (Civil, Elétrica e de Minas) ou aos processos industriais (Industrial, Mecânica, Química e Metalúrgica). Estas modalidades são classificadas como tendo um enfoque tradicional e dariam origem às Engenharias com enfoque em novas tecnologias após a Segunda Guerra Mundial. 2.3. Focadas em um produto Estas Engenharias articulam o conhecimento e as áreas de atuação de diversas outras modalidades para serem aplicados no contexto de um determinado produto ou empreendimento e suas inter-relações de viabilização e produção. Verifica-se que nestas são encontrados conhecimentos relacionados à Engenharia Civil, Mecânica, Agrimensura, Agrícola, Ambiental como é o caso da Florestal e Pesca. As Engenharias Aeronáutica, Naval, Automotiva tem sua maior base na engenharia Mecânica. As Engenharias Ferroviária e Portuária têm foco em infraestrutura de modais logísticos. A Engenharia Cerâmica é uma focalização da Engenharia de Materiais. Insere-se também neste enfoque as engenharias que tratam da integração vertical de um determinado produto como é o caso da Engenharia de Petróleo e da Engenharia Têxtil. Portanto, as definições destas, de certa maneira estão contempladas principalmente nas Engenharias Tradicionais e de Novas Tecnologias. 2.4. Novas Tecnologias: Mecânica/Automação A Segunda Guerra Mundial, apesar da grande hecatombe para a humanidade, proporcionou um intenso avanço tecnológico inicialmente voltado para o esforço militar. Destaca-se a criação da primeira máquina calculadora digital em 1943, inaugurando a área computacional. O uso de transistores, inventados em 1947, revolucionou a eletrônica, abrindo caminho para uma gama enorme de aplicações e possibilidades de implementação de circuitos eletrônicos complexos. Essas invenções necessitavam ser incorporadas a sistemas e processos que permitissem a sua exploração em grande escala, surgindo assim a demanda por um profissional de Engenharia nas áreas recém desenvolvidas. A partir da década de 1950, os conceitos e conteúdos relacionados à Automação e Computação são incorporados aos cursos de Engenharia do ITA e da USP. As invenções eletrônicas com fins bélicos, como o radar, o sonar, os sistemas de comunicação, entre outras, desenvolvidas para garantir aos combatentes vantagens estratégicas, tiveram suas aplicações civis largamente difundidas após a Segunda Guerra e assim surgiu a Engenharia Eletrônica. Nos anos que precederam o conflito a área era conhecida como "engenharia de rádio" e apenas no final dos anos 1950 o termo Engenharia Eletrônica começou a ser empregado. Em 1959 foi inventado o circuito integrado, que permite uma concentração de dispositivos eletrônicos em um mesmo dispositivo semicondutor, denominado chip, possibilitando uma redução significativa do tamanho dos circuitos, surgindo assim a microeletrônica. Este e outros avanços dos anos 1950-1960 possibilitaram uma nova gama de mecanismos e sistemas que trariam importantes inovações às indústrias e conforto ao homem. Assim, estes novos conteúdos, antes agregados aos cursos tradicionais de Engenharia, se transformariam em novas modalidades. Os conteúdos mais relacionados foram rapidamente expandindo e foi surgindo a necessidade de maior foco em suas pesquisas. Assim, a eletrônica deu origem a novas modalidades de Engenharia, como a Mecatrônica que une os conhecimentos de Mecânica e Eletrônica. Além desta, surgiram a Engenharia de Telecomunicações, Engenharia Eletrotécnica, Engenharia de Software e Engenharia de Sistemas Digitais. 2.5. Novas Tecnologias: Química/Bioquímica Durante a década de 80, um novo grupo começou a emergir com enfoques voltados a busca do atendimento às crescentes demandas globais por melhores condições de vida. Estas foram acompanhadas pelo amplo desenvolvimento de novas tecnologias no ramo das indústrias químicas que começavam a se preocupar cada vez mais com o bem estar e a saúde da população. Deste modo, foram criados novos cursos com enfoques voltados à produção de alimentos e bebidas de qualidade, produtos fármacos e vacinas, cosméticos e fertilizantes entre outros. Por este viés, pôde-se observar o surgimento gradativo de diversas áreas com pesquisas voltadas à otimização de serviços no setor de saúde. Dentre estas, ressalta-se a criação de cursos como: Engenharia de Alimentos, Engenharia de Bioprocessos, Engenharia Biomédica, Engenharia de Biossistemas, Engenharia de Biotecnologia, Engenharia de Bioquímica e Engenharia de Saúde e Segurança. Os estudos nesta área emergiram de estudos derivados das atividades propostas pelos modelos desenvolvidos principalmente no campo da Engenharia Química. 2.6. Ambiente A temática relativa ao Ambiente começou a ser tratada no final do século XIX vislumbrando os problemas que poderiam ser derivados da exploração dos recursos naturais do planeta e resíduos e efluentes decorrentes do crescimento industrial. O cientista Svante Arrhenius (1859 – 1927) foi o primeiro a propor que esse aumento da concentração de gás carbônico poderia alterar de forma significativa a temperatura e o clima do planeta, no entanto, muitos ainda não acreditavam nessas conclusões e por falta de tecnologia e conhecimentos comprobatórios o tema perdeu força. Já no início dos anos 60, com as observações do cientista Charles David Keeling foi possível apresentar um gráfico que mostraram o ritmo com que os seres humanos estavam mudando a composição química da atmosfera. Este gráfico ficou conhecido como a curva de Keeling e se tornaria o grande ícone da mudança climática. Neste contexto, surgiu a necessidade de um profissional de engenharia que pudesse responder aos questionamentos e proporcionar novos conhecimentos capazes de superar os novos desafios. Assim vários cursos surgiram e o que tinha maior potencial de satisfazer as demandas seria a Engenharia Ambiental. Pouco a pouco, a questão ambiental passou a ganhar espaços cada vez mais consistentes dentro do contexto socioeconômico nacional e internacional, o que proporcionou a criação das leis ambientais (federais e estaduais) cada vez mais severas. Assim a questão ambiental ganhou força na engenharia, e os cursos de Engenharia Sanitária acrescentaram a denominação Ambiental. Outras Engenharias voltadas para o meio ambiente surgiram, como Engenharia Hídrica, Engenharia em Energia e Engenharia Bioenergética, que foram criadas em 1998, 2002 e 2008 respectivamente. 2.7. Gestão/Inovação A Engenharia de Produção é o curso que abriu um novo enfoque para as Engenharias. Pensar em gestão nas indústrias e empresas utilizando os conceitos da engenharia de Produção, tem sua origem no século XVIII, quando empresários e administradores ingleses introduziam em suas fábricas métodos bem avançados, como sistemas de custeio, pesquisa de mercado, planejamento das instalações, estudo de arranjos físico de máquinas e programação da produção. Com a segunda Revolução Industrial e o aumento da importância da indústria surgiu nos Estados Unidos a Engenharia Industrial que foi criada a partir do Scientitic Management, obra do grupo de engenheiros: F.W. Taylor, Frank Lilian Gilbreth e H.L. Gantt. Essa Engenharia Industrial guarda semelhança com a Engenharia de Produção do Brasil. A formação em Engenharia de Produção no Brasil foi iniciada somente na segunda metade do século XX, na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo com a criação das disciplinas: Engenharia de Produção e Complemento de Organização Industrial por iniciativa do professor Ruy Aguiar da Silva Leme. Os primeiros Engenheiros de Produção como ênfase da Mecânica, se formaram na USP em 1960. A expansão das empresas nacionais e principalmente das multinacionais, acabaram por determinar a necessidade de melhoria na competitividade e na qualidade dos seus produtos e foi a grande causa na segunda metade do século o aparecimento de uma grande demanda de administradores profissionais, que não era atendida pelos cursos existentes. 2.8. Focadas/transversais São consideradas neste enfoque as Engenharias que se aprofundam em um determinado conhecimento básico ou básico aplicado das Engenharias com o intuito de aprimorar os projetos que destes se utilizam. A Engenharia Física, de uma maneira geral, aplica conhecimentos de Física na pesquisa e desenvolvimento de materiais e tecnologia, portanto tem como base principal o conhecimento de física e suas aplicações na Engenharia. A Engenharia de Transportes se aprofunda na área de transportes, que é contemplada na Engenharia Civil com o objetivo de tratar tais conhecimentos de maneira focada nos problemas de transporte de bens e pessoas e das respectivas vias e modais. A Engenharia da Mobilidade também se envolve na área de transportes se diferenciando mais no que se refere ao planejamento e à logística do que a Engenharia de Transportes. A Engenharia de Infraestrutura é que trata dos elementos que permitem a implantação de empreendimentos de produção sendo um aprofundamento da Engenharia Civil na área de implantação das condições para a viabilização de empreendimentos diversos. A Engenharia de Sistemas tem como base o desenvolvimento de sistemas tecnológicos podendo ser industriais ou comerciais. Com isso, essa Engenharia trata os sistemas que subsistem em praticamente todas as demais Engenharias trabalhando principalmente na melhoria da integração destes sistemas. 2.9. Segurança As áreas de Saúde e Segurança nos empreendimentos se tornaram complexas e também passaram a demandar profissionais formados dentro do escopo da Engenharia. Trata-se do ramo da engenharia responsável por prevenir riscos à saúde e à vida do trabalhador. O profissional que atua nesta área é definido como o que tem como função e competência assegurar que o trabalhador não corra riscos em sua atividade profissional, sejam estes danos físicos ou psicológicos. Sendo assim, o trabalho do Engenheiro de Segurança é voltado para a análise e prescrição das medidas necessárias em um ambiente de trabalho para evitar a ocorrência de incidentes, sejam estas por meio do estudo das condições do ambiente de trabalho, da criação e aplicação de equipamentos e máquinas seguros, orientação à Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA), avaliação de toxicidade, ergonomia no trabalho, higiene do trabalho, entre outros. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS A extensa e complexa história e evolução da Engenharia mostra a correlação entre o desenvolvimento de novas tecnologias úteis ao homem com a criação de modalidades de Engenharia. Considerando que o atual ritmo das inovações não arrefeceu, muito pelo contrário, deve-se esperar que novas áreas de graduação em Engenharia surjam e pleiteiem reconhecimento. A organização das modalidades utilizada neste trabalho, isto é, o agrupamento em enfoques, não é uma forma cristalizada. Pode-se determinar outras formas de agrupar estas modalidades dependendo dos contextos e parâmetros a serem adotados. De todo modo, este estudo permite mostrar alguns caminhos que podem subsidiar estudos que busquem entender a significativa expansão de modalidades de Engenharia. É de se destacar que após a 2ª Grande Guerra, o mundo experimentou um significativo avanço tecnológico, especialmente no setor eletro/eletrônico, notadamente com o desenvolvimento da automação e da computação. Com isso, novas modalidades de Engenharia surgiram para fazer frente à complexidade demandada em função dessas novas tecnologias. A maioria dessas novas modalidades surgiu inicialmente como ênfase das tradicionais. A partir dessa nova realidade, a Engenharia deixou de se restringir às questões de aplicação tradicional da tecnologia e passou a atuar em campos como a Saúde (Alimentos, Genética, Bioquímica, etc.) e Sociais Aplicadas (Gestão, Trabalho, Segurança, etc.). Verifica-se que na medida em que alguma atividade aumenta o seu grau de complexidade nos seus estudos, passa-se a exigir conhecimentos mais acurados, principalmente de Matemática e Física e de estruturação e solução de problemas, logo essa atividade passa a ser encampada pela Engenharia. Isso ocorre em função da natureza do conhecimento encerrado nesta área que tem base no “raciocínio lógico” e no desenvolvimento de habilidades e competências relacionadas com a “estruturação” de novos produtos e empreendimentos (projeto e execução de produtos e empreendimentos) ou para a “desestruturação” com o objetivo de equacionar problemas e projetar soluções. A partir desta perspectiva, novas modalidades poderão surgir, principalmente em função do acelerado desenvolvimento tecnológico, do aumento da complexidade dos problemas a serem enfrentados e da limitação dos recursos do planeta. 4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS INEP/CONFEA (2010). Compêndio (11 volumes): Trajetória e estado da arte da formação em Engenharia, Arquitetura e Agronomia, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anisio Teixeira e Conselho Federal de Engenharia e Agronomia, Brasilia, 2010 FERNANDES, Pedro H. P., OLIVEIRA, Vanderli Fava. ENADE 2014: UM ESTUDO SOBRE AS ALTERAÇÕES PREVISTAS PARA A ENGENHARIA. In: COBENGE 2014 - XLII Congresso Brasileiro de Educação em Engenharia, 2014, Juiz de Fora. COBENGE 2014. Brasilia - DF: ABENGE, 2014. OEE/UFJF (2015) OBSERVATÓRIO DA EDUCAÇÃO EM ENGENHARIA que pertence ao Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Formação e o Exercício Profissional da Faculdade de Engenharia (NEPENGE). Faculdade de Engenharia, Universidade Federal de Juiz de Fora. Relatórios de Pesquisa OLIVEIRA, V. F (2006). Crescimento, Evolução e o Futuro dos Cursos de Engenharia. Revista de Ensino de Engenharia, Brasilia – DF, v. 24, p. 03-12. OLIVEIRA, V. F.; ALMEIDA N. N.; Carvalho, D. M. & PEREIRA, F. A. A. (2013). Um estudo sobre a expansão da formação em Engenharia no Brasil. Revista de Ensino de Engenharia da ABENGE, Brasilia OLIVEIRA, Vanderli Fava (2010). Quadro Geral sobre a Formação em Engenharia no Brasil. In: FORMIGA, M. M. Maciel & CARMO, L. C. Scavarda (Org.). ENGENHARIA PARA O DESENVOLVIMENTO: Inovação, Sustentabilidade e Responsabilidade Social como Novos Paradigmas. Brasilia - DF: SENAI/DN, p. 197-210. OLIVEIRA, Vanderli Fava; ALMEIDA, Nival Nunes; CARMO, Luiz C. Scavarda (2012). Estudo comparativo da formação em Engenharia: Brasil, BRICSS e principais países da OCDE. In: COBENGE 2012 - XL Expansão da Formação em Engenharia – Revista de Ensino de Engenharia – ISBN 0101 - 5001 31 Congresso Brasileiro de Educação em Engenharia, 2012, Belém - PA. O Engenheiro Professor e o Desafio de Educar. Brasilia - DF: ABENGE. v. 1. PARDAL, P & LEIZER, L (1996). “O Berço da Engenharia Brasileira” Revista de Ensino de Engenharia, n 16, (dez), pp 37-40 PARDAL, P (1986). 140 anos de doutorado e 75 de livre docência no Ensino de Engenharia no Brasil. Escola de Engenharia – UFRJ, Rio de Janeiro PORTAL INEP (2015). Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Sinopse da Educação Superior de 1991 a 2011, inep.gov.br. SISTEMA E-mec (2015). Sistema de Cadastro de Instituições e de Cursos Superiores emec.mec.gov.br TELLES, P C S (1994). História da Engenharia no Brasil: Século XX. 2 Ed. Rio de Janeiro, Clavero EXPANDING THE NUMBER OF COURSES AND ENGINEERING MODALITIES Abstract: The aim of this paper is to present a study on the expansion and growth of the number of courses and engineering modalities. For that is retrieved previous studies at the Observatory of Engineering Education in UFJF, seeking to focus on building a timeline on this expansion. The data used are available on the website of the National Institute of Educational Studies Anísio Teixeira (INEP) and E-MEC system. The retrospect on training in engineering and the definitions of terms, is based on the compendium "Trajectory and state of the art training in Engineering and Architecture" (CONFEA/INEP, 2010). One of the results who are allowed to come to is that to the extent that the solutions of the problems emanating from a given field to the complexity, are now covered by the Engineering area which has as one of the fundamental activities design solutions. Key-words: Engineering Education, Engineering Modalities, Growth of Engineering.