O RIO TOCANTINS ENGOLIU MEU AVÔ
Cronicontos
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Francisco Perna Filho
O RIO TOCANTINS
ENGOLIU MEU AVÔ
CRONICONTOS
Goiânia - GO
2012
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BIBLIOTECA ESTADUAL PIO VERGAS
PER
Perna Filho, Francisco.
rio
O Rio Tocantins engoliu Meu Avô / Francisco Perna Filho
Goiânia : Kelps, 2012
116 p.
ISBN: 978-85-8106-225-9
1. Literatura Brasileira. contos. I. Título.
CDU: 821.134.3 (81) - 34
Índice para catálogo sistemático:
literatura brasileira
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meio, sem a autorização prévia e por escrito do autor. A violação dos Direitos Autorais
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Impresso no Brasil
Printed in Brazil
2012
Goiânia em Prosa e Verso
Maximo Gorki, numa viagem pelas distâncias da União Soviética,
viu-se rodeado por muitos jovens e não tão jovens, após uma palestra,
que lhe mostraram seus escritos e falaram das dificuldades que tinham
para publicá-los. O velho escriba solicitou à União de Escritores que
olhasse com carinho aquelas pessoas desamparadas e excluídas do
circuito editorial do país, pois, em sua opinião, dali poderia sair um ou
mais artistas que valessem a pena. Essa era a ideia: publicar e publicar.
Um Bernardo Élis, que porventura surgisse daquele meio, compensaria
tanto papel, tinta e trabalho gastos.
É com essa mesma mentalidade que a Prefeitura de Goiânia,
através de sua Secretaria de Cultura, criou o programa Goiânia em Prosa
e Verso. Neste ano de 2012, em sua 5ª edição, o programa publica 204
autores, entre consagrados e novos.
A importância da literatura para a sociedade e para o indivíduo
pode ser focada de vários ângulos, dentre os quais, o fato inegável de que
um grande livro ajuda a formar o mundo. O Dom Quixote, de Cervantes
Saavedra, ajudou em muito no enriquecimento e na consolidação do
idioma espanhol. Mais ainda se pode dizer de A Divina Comédia, de
Dante, que, segundo grande número de estudiosos, foi fundamental
para a criação da língua e da nação italianas.
A relação da literatura com a história é muito íntima e até pouco
tempo era desconsiderada. Para se conhecer a formação do Rio Grande
do Sul, nada melhor do que ler O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo.
Para o conhecimento da luta pela terra, na Bahia, o recomendado é Jorge
Amado. O que poderia ser mais estimulante para o aprofundamento na
alma e nos sentimentos do caboclo sertanejo de Minas Gerais? Nada além
de Guimarães Rosa.
O caminho literário para o conhecimento e a vivência dos
fenômenos históricos e sociais é mais eficiente e prazeroso do que o
melhor tratado acadêmico sobre o assunto. Isso ocorre porque a
literatura, como arte, ultrapassa os dados objetivos e circula na área dos
sentimentos e das emoções, apelando para o que há de mais humano no
leitor: seu lado lúdico, lírico, afetivo e dramático.
A falta de leitura criou uma situação assustadora em nosso país:
cerca de 30% dos considerados alfabetizados padecem de uma deformação
grave: conseguem ler as palavras, mas não entendem o que leem; 70% dos
estudantes universitários não interpretam corretamente os textos que leem,
e sua capacidade de comunicação escrita é precária, quando não é nula.
Tudo isso é reforçado pela linguagem em acrônimos imposta pela internet.
Resultado: a falência da fantasia, a morte do sonho e da imaginação.
A superação dessa catástrofe só é possível pela leitura constante de
boa literatura, pelo contato com os estilos cultos e elaborados, a leitura
dos autores consagrados.
Uma pergunta de difícil resposta é necessariamente formulada
quando se trata de um programa como o Goiânia em Prosa e Verso,
que pretende dar oportunidade a escritores ainda desconhecidos e que
estão fora do circuito editorial, acadêmico ou de mercado. A pergunta
se refere ao valor artístico da obra. Em primeiro lugar, nós não temos
a receita para determinar o valor de uma obra nova, recém-escrita,
pela primeira vez mostrada ao público. O melhor é não ter opinião
preconcebida a respeito, permitindo o livre trânsito das várias posturas,
sejam estilísticas ou ideológicas, e deixar que a história, como tem feito
no decorrer dos séculos, faça seu trabalho de limpeza e separe o que vai
permanecer do que vai para o esquecimento.
Seja para o simples prazer, seja para ampliar conhecimentos, a
fruição estética, o contato com a literatura de qualidade, comprovada
e testada pela história, é fundamental para o ser humano, para o
desenvolvimento de seu espírito crítico, para a substituição, em seu
ser, de valores inferiores por valores superiores, para ampliar sua visão
do mundo, para aumentar sua capacidade criativa, para desenvolver
sua imaginação e fantasia, para o enriquecimento da vida interior do
indivíduo e da sociedade.
Maestro Joaquim Jayme
Secretário Municipal de Cultura
Aproveito esses escritos para homenagear a minha Avó paterna,
Maria Nolêto Perna, e aos meus tios e tias, filhos de Manoel Perna, que
se incumbiram de levar adiante o seu legado de sabedoria, honestidade,
amor ao próximo. São eles: Raimunda Coelho Perna (Mundica), Tito
Nolêto Perna (In Memoriam), Francisco Nolêto Perna (In Memóriam),
Anália Nolêto Aquino, DilaNolêto Aquino, Elza Nolêto Perna e Edvaldo
Nolêto Perna.
Aqui também homenageio meus irmãos, meus primos - em especial a minha prima Altair Machado Perna, por ter disponibilizado
uma cópia do Jornal A Tarde, de Carolina – MA (1944), que trazia uma
crônica sobre nosso Avô, e ao primo Carlos Alberto Varão Perna, pela
gentileza de digitalizar esse material, com o qual abro este livro -, filhos
e sobrinhos, bem como aos esposos e esposas dos meus tios, em especial
à minha Mãe, Adalgisa Nolêto Perna, pela imensa colaboração e companheirismo, no sentido de educar homens e mulheres e difundir, mundo
afora, a Família Perna.
SUMÁRIO
Apresentação............................................................................................... 11
Manoel Perna.............................................................................................. 13
O Rio Tocantins engoliu meu Avô........................................................... 15
Eu jamais imaginara a dor da alma.......................................................... 17
Síncope......................................................................................................... 19
Ouvindo a própria voz............................................................................... 23
Encontro de amigos................................................................................... 25
Religião, xenofobia,.................................................................................... 29
sexo e literatura........................................................................................... 29
Nelson da Luz, a céu aberto...................................................................... 33
Seres da Recepção....................................................................................... 35
Via crucis..................................................................................................... 37
Até as pedras cantam................................................................................. 39
Últimas palavras......................................................................................... 41
Ternura, talvez seja..................................................................................... 45
o que nos falta............................................................................................. 45
A bela moça da praça................................................................................. 47
Um olhar sobre as diferenças.................................................................... 49
Espaço e preconceito.................................................................................. 51
Signos em rotação...................................................................................... 55
O Silêncio dos Inocentes........................................................................... 57
Espelhado de céu muito sereno................................................................ 61
Ascensão e queda....................................................................................... 65
Deformidades............................................................................................. 67
A droga da vagina ...................................................................................... 69
Um canto no canto do muro pode
soar turvo como pode soar música.......................................................... 71
9
A ilusão digital............................................................................................ 73
Da necessidade de envelhecermos........................................................... 75
O pó da Pós-Modernidade........................................................................ 77
Quem vende o seu voto, vota contra si mesmo...................................... 79
Enriquecimento de urânio........................................................................ 83
Olhando o homem, o peixe se reconhece............................................... 87
Os demônios são mais nobres ................................................................. 89
Medo, um ato de humanidade.................................................................. 91
Uma Temporada no Inferno..................................................................... 93
Do Meu Caminhar..................................................................................... 95
Qua me stultitia insanire putas?............................................................... 97
Plenilúnio.................................................................................................... 99
O poeta e a cidade – memórias ............................................................. 103
Pontos de fuga........................................................................................... 107
O que sabemos a respeito de nós mesmos............................................ 109
Crônica, uma teoria................................................................................. 111
10
APRESENTAÇÃO
As crônicas e contos aqui reunidos foram escritos e publicados
entre 2005 e 2012 - em vários veículos de comunicação de Goiânia e
Palmas: jornais, revistas, blogs etc. -, e versam sobre os mais variados temas: política, opinião, artes plásticas, literatura, abordando aspectos do
nosso cotidiano e da nossa contemporaneidade, e a sua publicação atende a um desejo da minha Esposa, Rosana, de vê-los reunidos em livro.
Este livro é uma homenagem que faço ao meu Avô paterno, Manoel de Sales Perna, morto por afogamento no Rio Tocantins, em 1946,
cujo corpo se perdera nas suas correntezas, nunca sendo encontrado. O
título faz alusão à crônica homônima que escrevi há algum tempo: “ O
Rio Tocantins engoliu meu Avô”.
Os textos, aqui organizados, não seguem uma ordem temática e/
ou histórica, abarcam os gêneros textuais: crônica e conto, daí o nome
Cronicontos. Também não seguem qualquer ordem de classificação,
tão somente aparecem intercalados, cabendo a você leitor, caso seja do
seu interesse, distingui-los. Para isso, no final do livro, teorizo sobre o
assunto crônica: material construído para atender aos meus alunos do
Curso de Jornalismo da Faculdade Cambury, turma de 2005.
Março de 2012
11
MANOEL PERNA
Por J. Nogueira Rêgo
Aos solavancos das águas em fortíssimo banzeiro, sumiu-se e
morreu em naufrágio no Tocantins, Manoel de Sales Perna – Mandú.
Foi um golpe trágico no destino da infeliz vítima. Ele que fora um
dos mais destros e fortes nadadores das nossas águas, a zombar, afoito,
em braçadas largas dos ímpetos das correntes, teve que sucumbir procurando salvar uma netinha no momento terrível do naufrágio da barca
que a velha “Camocim” rebocava.
Quem, nesta cidade, não conhecia Manoel Perna?!
Era a alegria enfeitada nos gestos de meninice, a brincar pilhérico
com toda gente numa expansão jovial peculiar à sua própria natureza.
Desde moço era a mesma índole alegre, comunicativa, fértil em
criar termos esquisitos e jocosos. Era uma alma boa, vivendo neste
mundo ininterruptamente a zombar das dificuldades da vida, sem alterar, absolutamente, a bonomia do seu caráter.
A casa de sua família era sempre o ponto onde os índios de toda
esta vasta região vinham se hospedar, ouviam-lhe a palavra amiga, pediam-lhe conselhos, tinham-lhe atenção qual se fora um verdadeiro
chefe de tribo; ao chegarem, varejavam-lhe a casa, tomavam conta do
corredor, da varanda e cozinha, dormiam pelo chão, as janelas, de onde
contemplavam o dia inteiro a rua, ficavam encardidas de urucu e, quantas vezes, em noites de luar, espalhavam-se em roda à porta da rua e era
um formigar de gente a assistir as danças selvagens das aldeias ritmadas
com gestos e toadas monótonas.
Os Craô chorarão sentidos a falta do amigo de todos os tempos.
Homens, mulheres e crianças virão trazer o preito de sua amizade, de
sua saudade, ao velho Perna – seu protetor desde a meninice.
13
Pobres caboclos que, embora tenham a assistência da Missão
Evangélica, não têm contudo o conforto desse amigo de muitos e muitos anos.
JORNAL A TARDE - Ano XXI - Maranhão - Carolina - 30 de Novembro de
1946 - Número 824 – Editor: Catão Maranhão.
14
O RIO TOCANTINS ENGOLIU MEU AVÔ
Os rios, naturalmente, correm. É da natureza deles o livre curso.
Não tem nada que os impeça, rompem qualquer obstáculo que se lhes
apresente. Não fazem distinção de tempo e leito, não consideram castas
nem poder, retumbam os gritos ancestrais; não param nunca, mesmo
quando lhes desviam o curso, mesmo quando desembocam no mar.
Pelos rios, os homens descobriram outras terras, alimentaram
descobertas e distâncias. Neles, depositaram esperanças, viram-se refletidos e morreram inúmeras vezes, como o meu avô, Manoel de Sales
Perna, um exímio nadador, a quem o rio não deu guarida, engolido pelo
Tocantins ao salvar a minha prima, Maria Úrsula, bem próximo à cidade de Carolina, no Maranhão.
As pessoas morrem, os rios são perenes. A qualquer tempo, estão
em movimento. Nunca se repetem, sempre impressionam, seduzem e
devoram. Água não tem cabelo, professam os antigos, e se tivesse, sem
hesitar, diria que o meu avô teria vivido um pouco mais, a tempo de me
conhecer e poder falar um pouco sobre a sua vida, suas origens, e da
afeição pelos índios Krahô.
Dele sei pouco, mas sempre pude imaginá-lo, quando não pelas
histórias contadas pelo meu pai, Francisco Nolêto Perna, pela fotografia
ampliada que o meu tio, Tito Perna, traz emoldurada na sala de sua casa
e, mais recente, sendo redescoberto, por obra da ficção, pelo escritor
Bernardo Carvalho, no premiado “Nove Noites”, Companhia das Letras
(2003), quando o engenheiro Manoel Perna, que na vida real era barbeiro, pôde contar a história d o antropólogo americano BuellQuain,
discípulo de Ruth Benedict da Universidade de Columbia, nos Estados
Unidos, que se suicidou em 1939, aos 27 anos, poucos dias após deixar
15
a aldeia Krahô, a caminho de Carolina, no Maranhão, para se encontrar
com o meu Avô. Fato que, embora sirva à ficção de Carvalho, aconteceu
na vida real, como atestam os documentos e o testemunho do meu pai.
Apesar de não ter podido conhecê-lo em vida, vejo-o sempre em
meu pai, em mim, nos meus filhos e irmãos. Vejo-o no rio que o engoliu, pois passou a fazer parte dele, uma vez que o seu corpo nunca foi
encontrado. Eternizou-se nas suas corredeiras, imortalizou-se no seu
remanso, como na mitologia: os rios da eternidade.
Vejo-o sempre quando vou a Miracema do Tocantins, quando
miro o rio do Porto do Padre, da Praia de Areia, do Flutuante do “Seu”
Manoel, da Praia do Urubu, da Usina do Lajeado. Muitos desses lugares,
que agora citei, já não existem mais, mas vivem na minha memória,
como o meu avô, que, pela obra da ficção, virou personagem e “zombou” do rio que o engoliu. (02/05/2008).
16
EU JAMAIS IMAGINARA
A DOR DA ALMA
Quando eu era pequeno, ficava horas deitado no colo da “Mamãeninha” a ouvir o barulho sonolento e longínquo dos barcos a vapor, que
cruzavam o Tocantins, precisamente em Miracema do Norte (Tocantins, até então, era só o rio), e ficava ali, na mais pura inocência, contemplando as estrelas, quando ela me fazia cafuné e me contava histórias,
que iriam me marcar para sempre.
Quantas e quantas vezes, ali, naquela meia-lua de cimento, em
que eu me sentava e deitava no seu colo macio (ela sentada em tamborete) eu pude vê-la chorar, sem entender o que se passava, o que de fato
ela estava sentindo. Eu era muito jovem para compreender o universo,
e chorar, para mim, era apenas algo exterior, eu jamais imaginara a dor
da alma.
O tempo passou, eu cresci, ela se foi. A partir daí eu comecei a
materializar a dor, o sofrimento, a ausência e a solidão, já não era mais
o mesmo, apesar dos vinte e poucos anos, ainda cheio de muitos sonhos
e ilusões. Continuei a contemplar o céu, não com a mesma frequência;
não com a mesma inocência, por que eu já conhecia a solidão, já sabia
dos desencontros, e eu me tinha demasiadamente humano.
Os barcos passaram a ser eternos, ficaram na minha memória, e
sempre que alguém querido se vai, eles deslizam suavemente pelos meus
olhos. Com os barcos eu aprendi sobre chegadas e partidas, eu aprendi a
contemplar lonjuras e a chorar abandonos e nunca mais me saiu da alma
o peso e a dor do mundo, eu passei a contabilizar os dias e os becos, os
murmúrios e solidões, talvez aí o poeta tenha surgido.
Com os barcos eu conheci mundos, revi o colo de minha mamãe17
ninha, encontrei pessoas, que me foram preciosas, mas que se foram tão
rapidamente, sem que eu pudesse ao menos agradecer pela amizade.
Pessoas que surgem nas nossas vidas, dividem conosco a sua felicidade,
acostumam-nos com as suas presenças e depois, leves demais, vão–se
embora, nos deixando com uma dor tão grande, não nos dando tempo
para nada.
Não sabemos ao certo o que nos aguarda, que rumo tomaremos,
quem encontraremos no caminho, como estaremos amanha. Apenas
caminhamos, para bem lembrar Fernando Pessoa:navegar é preciso, viver não é preciso, pois viver é de uma imprecisão danada, já que nunca
saberemos que dor nos aguarda. Ela sempre nos surpreende, quando
alguém parte, quando alguém sofre, quando alguém clama por justiça.
Talvez os barcos tenham muito a nos ensinar, embora fabricados
por nós, comportam a dor da madeira cortada, da solidão de seus portos de origem, de suportar tanta carga, mas estão sempre a deslizar pelos
rios da sabedoria. Quem sabe eles nos digam muito de nós, por que,
apesar de toda inconsciência, nos ajudam na travessia dessa nossa longa
vida. (15/07/2008)
18
SÍNCOPE
As pernas não respondiam. Por mais que tentasse, nada. Estavam
ali imobilizadas, soltas, distendidas, presas à cama. Algo que ele demorou a compreender. Somente tomando consciência da real situação em
que se encontrava, quando, num átimo, sentiu um leve formigamento
na perna esquerda, o que o fez, subitamente, tentar tocá-la, mas não
pôde, estava preso, do tronco para baixo, totalmente à mercê do que ele
sempre temera: a total dependência dos outros.
O quarto velho e desgastado compunha um ambiente triste e desolador, imprimindo no branco manchado de suas paredes a história de
muitas vidas que por ali passaram. Do teto, também pintado de branco,
um pouco mais conservado, pendiam duas finas correntes, nas quais os
tubos de soro eram fixados, servindo, muitas vezes, aos olhos toldados
de algum paciente, como apêndice dos seus delírios.
Era longe demais para chorar, para lembrar-se de qualquer coisa que o tornasse ao comum, ao familiar. Uma feição grave se apossou do seu rosto, parecia desconhecer tudo, inclusive a si mesmo, de
quem não lembrava o nome. Tudo era muito longe, diria distante,
como os dedos dos pés que não se mexiam, não serviam para nada,
totalmente inúteis. Quem o teria deixado ali, que mal fizera para que
um filho da puta qualquer o imobilizasse daquela maneira? Se pelo
menos ele pudesse se lembrar de alguma coisa, um nome que fosse;
quem sabe o dele.
Um desespero tomou conta de si, precisava acalmar-se, o corpo
estava molhado de suor. Alguém veio, caminhou em sua direção, estacou ali, bem próximo dele, mas nada disse. Uma fragrância silvestre
invadiu o quarto. Tinha de se segurar, não havia nada a fazer, era só
esperar. Talvez alguém que viera acabar de fazer o serviço. Bastariam
19
mais dois passos, o travesseiro, e pá! Acabou. Um verdadeiro pânico
sobre ele se abateu.
Acenderam as luzes, e ele, como que aliviado, mas ainda sem saber de nada, contemplou os grandes olhos verdes da enfermeira que
esboçara um sorriso, depositando a bandeja de remédios e seringas na
mesinha ao lado da sua cama, quando, delicadamente e satisfeita, inoculou a agulha da seringa no tubo de soro, posteriormente prometendo
que ele ficaria bom. Logo tudo acabará! Sentiu-se aliviado.
Por um momento, certo torpor, uma quentura percorrera-lhe o
corpo, foi quando pôde divisar, do outro lado, numa cama parecida com
a sua, um senhor de uns setenta anos, cabelo branco e escasso, todo entubado e amarrado pelos pulsos. Estava num sanatório, num hospício,
pensou. Sua cabeça girou, sentiu o que lhe restava do corpo bambo, mas
um sentir sem muita esperança. Um sentimento alheio a tudo, como
aquele que se tem quando reencontramos pessoas que há muito não
víamos, que por elas alimentávamos muita feição e encantamento, mas
que, ao revê-las, descobrimos que o nosso poder criador é lastimável, o
que amávamos era o longe, o distante. Naquele momento conseguimos
varrer os últimos vestígios de uma existência, de um compartilhamento.
Adormeceu.
Acordou com uma grande vontade de esvaziar a bexiga, foi ao
desespero. Como? Como sairia dali para mijar? estava paralisado, preso
duplamente pelas pernas e pelo soro que o obrigava a conservar a mão
esquerda sobre o lençol, sobre o colchão da cama. Ouviu um som vindo
de fora, percebeu que se tratava de um rádio, um programa religioso.
Muita gritaria. Inquietou-se. Sua bexiga iria estourar, o que fazer? Tentou chamar a enfermeira, mas o som ficara preso na garganta, estava
muito fraco, debilitado. Com uma mão começou a pressionar o pinto,
que também estava adormecido. Que loucura! Do outro lado, o senhor
da cama estrebuchava, tentava se soltar, fazendo um alarido estranho,
um som esquisito, um piado, um chiado, sabe-se lá, eram espasmos seguidos, parecendo que após tamanho esforço, o homem não se restabeleceria, mas contrariando as previsões, ele se acalmara, o cansaço se
esvaíra, e ele voltara a dormir.
Também não resistiu, deixou-se abater, mijou-se todo, mas tam20
bém nada mais importava, estava ali mesmo, imobilizado, inútil, desprezado. Por um bom tempo quedou aliviado, era o que parecia. Uma
sensação de bem estar, de alívio. Mas a felicidade durou pouco, fora arrastado por um sentimento de perda, de desprezo. O coração era puro
ruído, como uma velha máquina de arroz, ia e vinha, parecendo querer
arremessá-lo para outra realidade, talvez menos cruel. Não tinha certeza de qual. Viver era mesmo muito difícil, principalmente na condição
em que se encontrava. Ali, preso, sozinho. Ao som do seu coração, mais
uma vez adormeceu.
Bom dia! Bom dia! Fora acordado pelos berros do médico que o
saudara. Como vai o meu paciente? Parece-me muito bem! Ouvia tudo
aquilo ainda desconfiado, sem saber bem ao certo do que se tratava.
Tentou virar-se subitamente, mas fora impedido por uma dor bem aguda, vindo da sua virilha; nisso percebeu que tinha conseguido mexer a
perna, os dedos dos pés. Não podia acreditar naquilo que estava fazendo, ele que há tão pouco estivera em pânico, sem ninguém, imobilizado,
a mercê dos outros. Agora ali, sentindo dor, mexendo com as partes
baixas.
Levou a mão ao pinto, pôde senti-lo. Apalpou o saco, estava crescido, suado, grudado na sua perna nua. Um sentimento de alegria tomou conta de todo o seu ser. O médico a tudo assistia sem entender
nada, estava ali, contemplando aquele homem que se redescobria. Mais
uma vez falou: vejo que a anestesia já passou, deixe-me ver o corte, puxou de supetão o curativo. Perfeito! a cirurgia foi um sucesso, não há
mais hérnia, agora é só repouso. Você está de alta, vou pedir a enfermeira para tirar o seu soro, na próxima semana você vem para tirarmos os
pontos.
Um telefone tocou, deu-se conta que estava na mesinha ao lado
da sua cama. Pôde reconhecê-lo como seu, um celular. Esticou o braço direito para pegá-lo. Alô! Disse ele. Uma voz melodiosa respondeu:
Amor, estou indo buscá-lo, preparei um café da manhã delicioso para
você. Por um momento, contemplou os raios de sol que entravam pelo
velho vitrô, sorveu o ar da manhã e sorriu aliviado. (novembro de 2008)
21
OUVINDO A PRÓPRIA VOZ
Tudo foi muito estranho e engraçado, lembro-me bem, eu estava
na rodoviária de Miracema do Norte, não posso precisar o ano, década
de 70, quando vi pela primeira vez um gravador e ouvi a gravação que
dele saia, fiquei encantado. Como seria possível aquilo?
Cheguei em casa deslumbrado com o novo conhecimento, com
a nova tecnologia. Meses depois, meu Pai foi a Goiânia e nos presenteou com um belo gravador, último tipo, genuinamente japonês, uma
maravilha. Passamos a gravar todos os sons que encontrávamos, que
fazíamos acontecer, desde batidas em latas, até o som da descarga do
banheiro, tudo com muito entusiasmo e graça.
Passamos a gravar as nossas conversas, as conversas dos vizinhos.
Brincávamos de espiões, cantávamos e nos dizíamos cantores, artistas.
Enquanto isso, uma montoeira de fitas K-7 ia se acumulando nas estantes da casa, compondo a nossa coleção. O certo é que éramos puro
entusiasmo, a mesma que tínhamos pelos inúmeros livros da minha infância.
São agradáveis lembranças, mas, o mais agradável, o inusitado, o
puro estranhamento, deu-se na fazenda Caridade, do meu avô materno, quando, à noite, nas reuniões que fazíamos, sob a luz dos candeeiros e lamparinas, no pátio da casa grande, o meu pai, Francisco Nolêto
Perna; meus avós, vovô Antônio Nolêto e vovó EuzébiaNolêto; minha
mãe, Adalgisa Nolêto; meus irmãos; meus amigos que levávamos; os
vaqueiros; e os trabalhadores da fazenda estávamos conversando e, depois de muita conversa, após termos ouvido o pífaro de taboca do seo
Tonhão, meu pai pediu silêncio. Todos silenciaram, e ele, meu pai, apertou o PLAY do gravador para ouvirmos as nossas falas, as conversas ali
travadas, o som ancestral do seo Tonhão. Foi o êxtase total, uma cena
23
indescritível, se considerarmos o rosto, o deslumbramento de cada um.
Deus ali se manifestara, o mito, a cosmogonia, os espíritos ancestrais
orquestravam aquele evento.
Talvez, se fosse hoje, nada de extraordinário aconteceria, ainda
mais por se tratar de ouvir a própria voz, uma simples gravação não causaria tanto entusiasmo, numa época de instantaneidade, de tecnologias
que capturam a voz, a imagem, os movimentos e, para muitos, a aura de
cada um.
As lembranças da infância são para sempre, não se apagam, boas
ou ruins, estarão sempre presentes, como podemos ver no filme O Caçador de Pipas (The KiteRunner), Direção de Marc Forster, baseado
no romance do afegão KhaledHosseini (2003), que conta a história de
Amir (Khalid Abdalla), um garoto Pashtun rico de WazirAkbar Khan,
distrito de Cabul, que é atormentado pela culpa de ter traído seu amigo
de infância, Hassan, filho do empregado do seu pai, Hazara Uma história comovente, de perdas encontros e desencontros.
Falo do filme, porque foi ele que me fez reviver este fato do gravador, uma história não de tristeza, mas de alegria, de boas lembranças,
quando silenciávamos para ouvirmos a nossa voz, amparados pela luz
das lamparinas, dos candeeiros e, muitas vezes, da lua cheia que nos
acompanhava. Uma lembrança gostosa de descoberta e aprendizado. (04/03/2008)
24
ENCONTRO DE AMIGOS
Para Madel Nolêto Perna
Fui o primeiro a chegar, tudo era silêncio, as luzes ainda estavam
apagadas. Entrei, deixei alguns livros sobre a escrivaninha, sentei-me e
fiquei esperando para ver quem entrava depois de mim.
Era muito cedo, li alguns textos, fiz algumas pesquisas, conferi a
manchete dos principais jornais, e esperei. Por algum momento, tive a
impressão de que alguém havia chegado. Pura impressão! Somente eu
permanecia ali.
Impacientei-me, deixei um aviso de que eu estava presente, mas
que me ausentaria por um instante. Saí, fui à padaria da esquina, tomei
um café delicioso, li o jornal diário, e voltei para interagir com os amigos, mas nada, eles ainda não tinham chegado. Fiquei preocupado, será
que eu me enganara quanto ao horário? Não! Pude ver que já passava
das oito e eles não chegavam, ninguém dava sinal de vida.
Resolvi adiantar umas atividades, escrevi algumas páginas, permaneci ali na expectativa, coloquei uma música e deixei-me embalar.
Imerso que estava na música, não me dei conta de que Marcelo acabara
de entrar. Chegou, permaneceu quieto, não falou com ninguém, apenas
anunciou que chegara. Depois de constatado sua presença, respeitei seu
desejo de ficar isolado, também permaneci quieto.
Após Marcelo, entraram Karine, Paulo e Rodrigo, todos eles pareciam cumprir um ritual, se portaram como Marcelo, silenciosamente. A
princípio, fiquei apreensivo, imaginando que eles tivessem alguma coisa
contra mim, mas depois percebi que era paranóia minha.
Lembrei-me de outras situações, de outros espaços, de outros
lugares. Quantas vezes ficamos desconfiados, aturdidos, desolados, só
porque alguém que a gente conheceu passa por nós, não nos cumpri25
menta, como se não existíssemos, como se o conhecimento de outrora,
o bate-papo, as piadas, as gargalhadas, a roda de amigos, nada disso importasse, tivesse um pouquinho de valor, até descobrirmos que a pessoa
era míope e havia esquecido os óculos em casa.
Ponderei nas minhas observações. Fiquei meio hesitante quanto
a puxar conversa, mas arrisquei um “Oi!”. Não logrei êxito, a pessoa,
não vou falar o nome, pois pega mal, simplesmente não me deu atenção, estava ocupada. Vê se pode, numa manhã como aquela, tranquila,
ainda muito cedo, a pessoa já está ocupada, faz-me uma desfeita dessas.
Logo para mim que nunca que lhe neguei uma palavra, uma resposta;
que quase nunca me disse ocupado. Não porque não trabalhe, muito
pelo contrário, mas por achar indelicado negar uma palavra para um
amigo, mesmo um conhecido, ou colega de trabalho, como queiram as
designações.
Continuei com o meu trabalho, quando entraram Rosana, Madel, Bôsco, Jádson e Maurício, todos eles de uma só vez, já passava
das nove da manhã, muito tarde para um dia de trabalho, mas cada
um tem seus motivos. Madel acenou com uma carinha alegre, pediu
minha atenção e disse: Compadre, estou achando você muito sério
hoje, o que lhe aconteceu? Achei graça da carinha, e respondi com
outra carinha de tristeza, dizendo, em seguida, que de fato estava um
pouco entristecido, por imaginar que ninguém me dava atenção, mas
que o meu humor, depois dessa receptividade toda por parte dela, já
começava a melhorar.
Trocamos mais algumas palavras, falamos do óbvio, nos aquietamos nos nossos afazeres, e o tempo passou. Era mesmo um dia frio, frio
não somente pela temperatura do ar condicionado naquela sala, exageradamente 17º graus, mas pelo clima que se instalara ali, não sei se somente da minha parte, uma vez que as outras pessoas sorriam, trocavam
palavras, olhares. O que sei, de fato, é que o mar parecia não estar para
peixe, muito menos para pescador.
O telefone tocou, não o meu, o da sala, e todos, absortos nos seus
afazeres, permaneceram ali, sentados, totalmente alheios ao que se passava exterior aos seus afazeres. Tive de me levantar, atravessei a sala,
entrei na cabine de vidro, onde o chefe ficava, e atendi o bendito, digo, o
26
estridente telefone. Ninguém, simplesmente ninguém, do outro lado da
linha. Era mesmo uma manhã atípica. Não me aborreci, simplesmente
voltei para o meu lugar e prossegui viagem nos meus afazeres.
Mais uma vez tive de ausentar-me da sala, mas deixei um recado,
eu precisava ir urgente ao banheiro. Logo na saída esbarrei com a moça
do café, que vinha abarrotada de garrafas e odores, contagiando todo o
corredor por onde passara. Olhamo-nos, ela entrou, eu saí apressadamente. Como diz o ditado: “um pé lá, outro cá”. Foi desse jeito, eu estava
muito envolvido com o meu trabalho e tinha pouco tempo para realizar
aquela atividade. A minha pesquisa, aparentemente banal, me tomaria
muito tempo ainda.
Quando voltei, recebi um recado: “durante a sua ausência Maurício tentou falar com você”. Eu pensei comigo, esse cara é muito estranho. Nós estávamos tão próximos, ele sabia que eu estava ali, anunciou
quando chegou, passamos, desde a sua chegada, mais de duas horas próximas, para ele só puxar conversa quando eu me fizera ausente. Isso só
pode ser gozação, pensei. Mas tudo bem!
Depois dessa do Maurício, eu resolvi agir. Pensei comigo mesmo:
você não vai perder nada, muito pelo contrário, você só tem a ganhar.
Arrisquei uma conversa com o Bôsco: olá! mas nada de resposta. O camarada simplesmente não me respondeu, achei-o grosseiro, mal educado e prepotente. Nada disso, era só julgamento precipitado, na verdade,
o cara não havia percebido que eu falava com ele, estava mergulhado até
a tampa nos seus afazeres, mas, após uns dois minutos, ele me respondeu: amigo, desculpe-me, é que eu precisava entregar um relatório agora de manhã, sem falta, e tive de terminá-lo com urgência, os homens
precisavam dele.
Fiquei aliviado, era só impressão minha. Talvez com os outros
também ocorresse o mesmo. Cada um nos seus afazeres, prioritariamente o ganha-pão, depois as conversas, as piadas, as gozações. Falamos
amenidades, refletimos sobre o momento político, sobre os desmandos
e escândalos: tudo igual, só o disfarce é que muda, disse-me.
Perguntou-me o que eu iria fazer no final da tarde, eu disse que
não tinha nada programado, que pensava em sair para tomar uma cervejinha. Tudo bem, disse ele, é isso mesmo, uma cervejinha. Aonde va27
mos, perguntou-me. Não sei ainda, respondi. Que tal o Toscana? emendei. Perfeito, disse ele. - Então tá combinado, respondi. Voltamos para
os nossos afazeres.
Depois daquele caloroso bate-papo, resolvi passar tudo a limpo,
sem receio nenhum, chamei para conversar: Karine, Rosana, Jádson,
Paulo, Rodrigo e Marcelo, com todos eles tive papos para lá de amistosos, reconhecemos que estávamos em dívida uns com os outros, que
precisávamos sair, nos falar mais, foi quando eu lhes comuniquei que
havia marcado com o Bôsco, no Toscana, eles acharam maravilhoso.
Combinamos às seis.
Eu simplesmente estava feliz, quase feliz, pois ainda faltava o
Maurício, que estava ausente. Resolvi ligar para ele, falou-me que teve
de sair às pressas, pois tinha uma audiência às 9h30, e que não podia se
atrasar. Falei do nosso encontro, ele acenou positivamente.
Estavam o Jádson, o Maurício e a Karine, todos muito animados, quando eu cheguei. Abraçamos-nos, foram minutos de sorrisos e
brincadeiras. Nisso foram chegando os outros: Paulo, Rodrigo, Marcelo,
Rosana e Madel. Foi uma grande festa, juntamos mais duas mesas, e a
diversão havia começado sem tempo para acabar. Varamos a noite, já
passava das duas, quando resolvemos ir embora.
Embalados pelos chopes, nos despedimos com promessas de nos
encontrarmos mais vezes. Desejamo-nos boa sorte, felicidades. Mais
uma vez, abraçamo-nos, pedimos a atenção de cada um ao volante, e
o cuidado com os bafômetros. Em coro, cantamos: Se vai dirigir, não
beba; Se vai beber, não dirija, e completamos: mas se já bebeu e tem
de dirigir, vá belezinha pra casa. Foi quando a Madel falou: Amigos, a
amizade tem de ser presencial, vamos nos encontrar mais vezes, chega
de Messenger.(2008)
28
RELIGIÃO, XENOFOBIA,
SEXO E LITERATURA
Quando me contenho, me tenho; quando me solto, sou óbvio.
(Chico Perna) Esta semana, tivemos aqui na Revista Bula, apaixonadas discussões sobre os mais variados temas, a começar pelo da existência ou não
de Deus. Outro papo foi um texto - dito “xenófobo” pelo Angelini - escrito pela minha amiga Cássia Fernandes. Também presenciamos um
mini diálogo - entre o Braz e o Flávio Paranhos - versando sobre a arte
do elogio nas terras goyazes. Um espaço riquíssimo, digno das boas cabeças que aqui vêm, mesmo que seja para tratar de amenidades.
Apesar dos temas profundos aqui tratados, nesta edição particular, questões metafísicas deram o tom da conversa, exaltaram os ânimos,
até porque discutir religião, como estamos cansados de saber, sempre
traz opiniões apaixonadas. Tudo bem, cada um na sua, ou quem sabe,
dependendo dos embalos noturnos, na dos outros.
E por falar na dos outros, quem diria, o Ronaldo, o grande astro
das estrelas, foi logo se envolver com meteoros, e olha que meteoros.
Agora o Rapaz está deprê, perdendo alguns contratos, sem coragem
sequer para processar quem quer que seja. Ao Fantástico, disse que se
fosse processar alguém se auto-processaria. Boa, né? Mas boa mesmo
é a do travesti que terá sua autobiografia lançada por algum maluco, o
que não é de assustar ninguém, porquanto neste país qualquer medíocre
vira celebridade. Perdemos o senso! E ele, o fenômeno, perdeu a sorte:
nem o trevo de quatro folhas na virilha pôde salvá-lo. Aliás, deu azar, já
que o seu algoz disse ter beijado várias vezes aquelas folhinhas.
29
Mas a notícia do Ronaldo não foi a pior, ele tem dinheiro, tem
poder e a mídia. Não sofrerá tanto. Agora, o duro são as crianças maltratadas e mortas aqui e fora do Brasil, como o caso daquela austríaca que
viveu sob o jugo do pai-monstro, por muitos anos. Dura é a condição
subumana das pessoas que dependem de barcos para o seu transporte
na Amazônia. Duros são os bebês no freezer daquela mãe em Wenden,
Alemanha.
Dizem que a vida imita a arte, podem até dizer, mas há muito
que a arte não é mais referencial para nada. A vida tem sido muito dura
e cruel, perdeu-se o senso de tudo. Mata-se sem dó e com requintes
de uma crueldade que não imaginamos. Tortura-se com a maestria de
quem educa. Roubam-nos a esperança, a alegria, o entusiasmo para
acreditar que as coisas podem melhorar.
Tudo parece desmoronar, até ouvirmos a história de Esaú e Jacó.
Não a história bíblica, nem a machadiana, mas uma história de seres
reais: dois meninos pobres em recursos materiais, mas ricos em espírito
e determinação, nos provando que as dificuldades podem, sim, ser vencidas, quando se tem o apoio da família. Que o estudo é e será sempre
uma possibilidade de melhoria de vida, um caminho para o desenvolvimento humano. Esaú, Medicina; Jacó, Ciências Sociais.
Esaú foi aprovado em primeiro lugar no vestibular de Medicina
da Universidade Federal de Pernambuco. Anda meia hora a pé, para
pegar um ônibus, e, depois, de ônibus, anda mais uma hora, até chegar à
Universidade. Jacó, da mesma forma, também empreende essa jornada,
para cumprir os créditos no curso de Ciências Sociais.
Esses meninos são mais do que reais, são filhos de país que lêem,
pais que valorizam o conhecimento, que sabem, como diz meu amigo
Pedro Luzt, referindo-se à sua mãe, “que uma caneta pesa bem menos
do que uma enxada e pode mudar vidas”. É o que estamos vendo. Quando a família é consciente da importância da leitura, valoriza a educação,
os estudos, certamente os filhos herdarão esse gosto, saberão, também,
legar aos seus filhos essa corrente redentora da mediocridade humana.
Pois bem, experiência como a dos garotos de Recife não são solitárias. Na Bahia, mais precisamente no sertão, um professor de Literatura, ex-professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, preo30
cupado com o desenvolvimento das pessoas de sua cidade, não hesitou
em levar para lá todo seu acervo literário, mais de cinco mil livros, que
estão transformando o cotidiano da cidade, transformando vidas, possibilitando aos seus pares a possibilidade de também se tornarem leitores
críticos do mundo.
Em Natal, o inusitado, o juiz Mário Jambo, da 2ª Vara Criminal da
Justiça Federal do Rio Grande do Norte, sentenciou que Paulo Henrique
da Cunha Vieira, Ruan Tales Silva de Oliveira e Raul Bezerra de Arruda
Júnior terão de estudar para continuar em liberdade provisória. Os três
foram presos durante a Operação Colossus. Em agosto de 2007, quando
a Polícia Federal prendeu 18 pessoas acusadas de integrar uma quadrilha especializada em roubar senhas de correntistas de bancos pela internet e falsificar cartões de créditos. Os acusados terão de ler três livros de
literatura e, a cada três meses, eles terão de entregar um resumo de dez
laudas dos livros indicados pelo juiz. As primeiras obras a serem lidas
são A hora e a vez de Augusto Matraga, último conto do livro Sagarana,
de Guimarães Rosa, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos.
Três experiências maravilhosas - os pais de Esaú e Jacó, o professor de literatura e o magistrado de Natal - que fazem a diferença, que
nos levam a refletir sobre o caminho da leitura, e que dariam uma bela
discussão aqui na Bula - para lá da metafísica. (07/05/2008). 31
NELSON DA LUZ, A CÉU ABERTO
Em outubro de 2011, Nelson Renato da Luz, um cidadão brasileiro, miserável, morador de rua, foi preso ao tentar furtar placas de zinco
da estação República do metrô de São Paulo. Dois dias depois, a juíza da
14ª Vara Criminal da Capital converteu o flagrante em prisão preventiva
e, posteriormente, por intercessão de alguns advogados, defensores dos
oprimidos, descobriu-se que o “meliante” era inimputável, por sofrer de
transtornos mentais, o que fez com que o relator da 1ª Câmara de Direito Criminal cogitasse interná-lo num hospital de custódia e tratamento,
mas concluiu que tal medida só se aplicaria nos casos de crimes violentos ou praticados com grave ameaça, o que não era o caso de Nelson, daí
a decisão de converter a prisão preventiva em prisão domiciliar.
Até aí, tudo bem, o hilário nessa história toda é que o mendigo é
morador de rua, sem teto, sem residência fixa, sem “domicilio”, vivendo
a céu aberto, quando não, sob as marquises dos prédios da grande cidade de São Paulo, não podendo, portanto, cumprir prisão domiciliar aos
moldes da Justiça Brasileira, já que prisão domiciliar pressupõe permanecer em casa, sem direito de sair à rua, o que, no caso dele, contraria a
determinação do juiz, e o coloca na condição de descumpridor de uma
ordem judicial, podendo ser preso a qualquer momento, mesmo já estando preso.
Pensando de outra maneira, já que sua prisão é domiciliar e
ele é um sem-teto e vive nas ruas, pela lógica, o seu domicílio são as
ruas, sendo assim, não poderá, em hipótese alguma, ser considerado
um infrator da lei, uma vez que das ruas não se ausenta, nelas permanece, mesmo sem ter consciência do que seja prisão domiciliar;
mas é certo que saiba muito de ausências, de privações, de frio, de
fome e de abandono.
33
Não sabemos o que se passa na cabeça de ser que furta placas; não
sabemos com pretensão ele as furtou. Talvez, quem sabe, tenha fixação
pelos signos, pelos símbolos, pela linguagem. Ou mais simples, queira
apenas proteger-se das intempéries: do frio, da chuva, dos ditos “humanos”, empedernidos pela própria estupidez. Ou, talvez, sonhasse mesmo
com um cantinho, um abrigo para si, onde pudesse cumprir a sua prisão mental, o que, por ironia o levara à prisão e ao constrangimento de
cumprir uma pena a céu aberto, passagem que me faz lembrar um dos
maiores poetas da língua Portuguesa, o goiano José Décio Filho, que
insistia em vender um terreno, que possuía em Goiânia (se não me falha
a memória), ao também escritor e imortal da ABL, Bernardo Elis, que,
não resistindo aos inúmeros apelos do amigo, fora conhecer tal terreno,
estacando admirado ante a pequenez da gleba, o que o fez interrogar
José Décio: - É este o terreno, Zé? No que José Décio respondeu: - Já
viu o tamanho do céu?
Assim como em José Décio Filho, talvez, para Nelson, o céu seja
o limite, onde poderá refestelar-se com alguns flashes de sanidade, sem
os privilégios dos “ladrões sofisticados”, que usam terno e gravata e têm
foro privilegiado e nenhum sentimento. (15/03/2012)
34
SERES DA RECEPÇÃO
Depois de vencer a oralidade, que foi fundamental para nos dar
conta de um passado remoto, com seus ritos iniciáticos e escatológicos,
suas crenças e mitos, o homem empreendeu pesquisas, as mais diversas,
sempre buscando a melhor forma de expressão, que culminaria com a
invenção da escrita pelos sumérios e egípcios, e evoluiria até o ano de
1522, com a publicação do primeiro caderno de caligrafia pelo italiano
Ludovico Arrighi, para chegar aos nossos dias com as tecnologias mais
avançadas.
Foram séculos de oralidade até esta maravilhosa invenção: a escrita e, posteriormente, as várias formas de publicação, de impressão.
De lá para cá, o homem levou anos para aperfeiçoá-la, procurou compreender o seu tempo, comparar épocas, atitudes e comportamentos.
Conheceu estilos, imitou-os, para depois desenvolver o seu. Um processo lento e solitário.
O percurso de uma construção escrita é, muitas vezes, complicado. E mbrenha-se em matas densas, sentenças várias, tratados e aparentes irresoluções. Há de se buscar o melhor ângulo: ponto de vista,
para chegar aonde se quer chegar. Escrever é necessário, principalmente
quando se tem o que dizer, porquanto requer concentração, conhecimento, insistência e persistência, mesmo para o factual.
Escreve-se hoje para repercutir amanhã, um amanhã tão impreciso quanto aquilo que virá a ser fato. Um amanhã que se reportará ao
hoje, que já será ontem e, mais uma vez, um outro fato, muito mais
importante, ganhará status de novidade e tornar-se-á providencial para
matar a sede de leitura (ou de informação) dos carentes leitores de uma
vida sem graça: seres da recepção.
“Nenhum texto é gratuito”, já disseram, mesmo porque as impres35
sões que carrega refletem a intenção de quem o escreve, ou para quem
se dirige. Afinal, toda impressão traz um ponto de vista e, ao leitor, cabe
refazer os caminhos, buscar o foco, aceitar ou refutar o dito. Mas, para
isso, há de se compreender o escrito, o que, de certa forma, proporciona
a quem se aventura por esse campo, o da leitura, uma ampliação das
coisas, dos fatos.
Escrever por vocação quase sempre é prazeroso. Mas não se pode
deixar enganar ao acreditar que talento é tudo. Ledo engano, talento
facilita, mas nada substitui o conhecimento pela leitura, pelo estudo.
Escrever, como navegar, ao contrário de viver, deve ser preciso, caso
contrário, corre-se o risco de ser abatido ou trombar em uma grande
rocha da incompreensão.
Muitos tentam dizer, mas, infelizmente, patinam e não saem do
lugar. Outros falam, falam; ou melhor, escrevem, escrevem e não dizem
nada, obra da tautologia, do despreparo. Uns citam, citam e se perdem
em remorsos. Quanto papel é depositário do lixo gerado à mercê da
cola, da cópia, do sem-sentido. Quantos fantasmas perambulam à espera de algum endinheirado com vontade de “ser lido”. Pois, escrever,
também é forma de imortalidade. Não é preciso ter talento – como nos
fazem crer as academias.
Depois de tanto caminhar, inquietar-se, procurar a melhor forma
de expressão, vive-se, agora, a glória da instantaneidade, da precisão tecnológica, mas, ao mesmo tempo, parece haver um desinteresse pela matéria mais densa, pelo estudo mais aprofundado. As pessoas têm pressa
em dizer, em viver, estão fartas de informação e fofoca, mas ausentes de
criticidade e reflexão. Tropeçam na língua, na linha e morrem às margens do texto.(22/07/2008).
36
VIA CRUCIS
O ápice do amor é a morte, diz George Bataille no seu livro
O Erotismo, pois, segundo ele, para que uns tenham vida, é preciso
que outros seres morram, e isso só se dá no paroxismo do amor,
aqui entendido como a força de Eros: vida, em oposição a Thanatos, morte.
Se a morte é a única certeza que nós temos com relação ao futuro,
o que nos parece óbvio, a ausência que ela provoca pode ser relativa, ou
melhor, o que se supõe como fim, pode ser apenas o começo de uma
perpetuação.
O corpo é vital para o espírito aqui na terra. A terra é o espelho desse corpo quando tudo se acaba. Viver, sofrer, seguir em
frente, eis o que o sentimento de vitalidade nos provoca, já que as
paredes são apenas ilusões, barreiras materiais para onde correm
os homens.
O que sabemos da vida, a não ser que a possuímos até perdê-la?
Melhor dizendo, como encaramos o nosso dia-a-dia e refletimos o nosso modo de existir? Não estaríamos distantes demais daquilo que seria
considerado ideal para um ser humano?
Quantas vidas ainda teremos de viver? Quantas catástrofes teremos de presenciar? Quantos pilantras teremos de eleger para que
consigamos entender o verdadeiro sentido da nossa existência? Talvez
milhares, porquanto o homem parece não querer enxergar o lastro de
destruição por ele deixado.
Pensemos nas guerras, na fome, no tráfico de seres humanos.
Pensemos do poder de potência dos negociadores de armas, nos obtusos governos que se alastram pelo mundo afora. Pensemos na exploração sexual de crianças e adolescentes, nos desvios do dinheiro público,
37
nas licitações fraudulentas, nos traficantes de drogas, soldados da destruição.
Muita coisa ruim tem tentado se perpetuar no mundo, mas as
almas de boa vontade, os anjos da boa nova têm insistido nas ações que
valorizam o ser humano, têm buscado a preservação da vida, a valorização da solidariedade, o amor incondicional entre os povos.
Talvez o que tenhamos feito tenha sido pouco, mas não em vão.
Cada olhar de apoio, cada palavra de encorajamento, cada gesto de solidariedade, tudo isso tem uma importância imensurável, tudo isso é
capaz de transformar vidas, tanto de quem doa quanto de quem recebe.
São gestos como esses que nos dão a dimensão do que é ser verdadeiramente humano, a força de Eros em toda sua plenitude, com toda a sua
força, para o reaprendizado de existências.(08/07/2008).
38
ATÉ AS PEDRAS CANTAM
Minas Gerais já legou ao Brasil grandes nomes no campo das
Artes. Na Literatura, destacamos Guimarães Rosa, Carlos Drummond
de Andrade, Pedro Nava, Autran Dourado, Ziraldo, Ruy Castro, Mário
Palmério e tantos outros; nas artes, mais especificamente na Música, os
valores também são grandiosos, para apenas exemplificar, falemos de
Milton Nascimento, Lô Borges, Toninho Horta, Flávio Venturini, Beto
Guedes, Wagner Tiso, os grupos: Skank e Jota Quest.
Quando falei que Minas já legou, poderia ter mencionado outros
nomes tão bons, mas sem o peso midiático, sem o conhecimento devido, sem a valorização, ainda do belo e grande trabalho que desenvolvem.
Sei muito bem que o Brasil desconhece o Brasil, como bem sei, também,
que Minas Gerais desconhece muito dos seus talentos artísticos, como é
o caso do Mestre Obolari, como é conhecido o músico e professor universitário Geraldo MagellaObolari de Magalhães: Matemático, Mestre
em Planejamento e Gestão Ambiental,e, para completar, piloto privado
de avião.
As estações, a natureza, os nomes e as coisas vivem em perfeita
harmonia na musicalidade marcante do Mestre Obolari, nelas estão o
ritmo, a leveza e os tons, colhidos na alegre infância, na paisagem mineira rica em fauna e flora; em mitos e lendas, em muita musicalidade
e força telúrica.
Obolari, que atualmente vive em Palmas – TO, no Centro-Norte
do Brasil, é um cara tranqüilo, de bom papo, muito culto, apaixonado por literatura; um grande conhecedor da obra de Nelson Rodrigues.
Obolari, com sua visão perquiridora, enxerga bem além da simples
realidade, traz essa visão apurada para introspecção de suas músicas,
sempre melodiosas, que falam de amor, relacionamentos e reencontros.
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Quem ouve Obolari, sem sombra de dúvidas, tem um registro para
sempre das melodiosas baladas que, por certo, ainda embalarão muitos
casais, serão temas de muitos romances e comporão a alegria das belas
manhãs tropicais.
Será preciso conferir, em breve, suas belas canções, como: “Jamais” e “FlyAway” em parceria com Ed Porto; “Encontro “Até as Pedras
Cantam”; “Doroty (Querendo Dizer)”; “Amor Interestelar”, já que o músico prepara seu primeiro CD, uma obra que já sai madura e com muita
qualidade. (03/07/2008).
40
ÚLTIMAS PALAVRAS
Para M.Cavalcanti
Já passava das 9h, subitamente fora acordado pelo barulho do
despertador, levantou-se de sobressalto e olhou apressadamente para o
relógio no criado da cama. Era preciso correr, não tinha muito tempo.
Olhou-se no espelho da sala, vira um rosto amassado pela longa noite
de sono. A barba por fazer, não ficaria bem ir assim. Abriu o armário do
banheiro, pegou uma gilete, creme de barbear, tudo muito corrido, tudo
muito depressa, tudo muito preciso.
Era preciso acelerar, o carro cantou pneu, saiu em disparada.
Nada poderia detê-lo, não fossem os sinais que sucessivamente iam se
fechando. Conspiração! Pensou. Não adiantava impacientar-se, mas impacientou-se. Esmurrou o volante, saltitou no banco do carro. Ensaiou,
numa seqüência rápida, engatar todas as marchas, mas nada. O carro
permanecia imóvel, apesar de bufar pelas aceleradas do seu condutor. O
homem, a máquina e o sinal.
Lembrou-se do que lhe dissera a viúva, logo após ficar sabendo
do acontecido: “ele estava bem, fez um lanche às 15h, tomou banho às
19h, tomou um copo de leite às 20h e viu televisão. Às 22h, beijou-me, se
disse indisposto, e foi se deitar. Ninguém sabia de nada, ele nunca havia
mencionado que sentisse qualquer coisa. Nenhuma dor, nada! Continuava como sempre, seguia a sua rotina no atelier, continuava muito
visitado por amigos, discípulos e colecionadores.
Os sinais foram se abrindo, um a um, e o carro arrancou com
toda força. Não poderia atrasar-se. Afinal de contas aquela seria a última
homenagem que faria ao seu grande amigo. Acelerou fundo, passou sob
o viaduto em direção a Bela Vista, passou em disparada pelo autódro41
mo, não parou no sinaleiro que, de súbito, se fechara. Precisava chegar a
tempo. Precisava chegar a tempo.
Retornou ao que lhe dissera a viúva: “Nos últimos dias, eu o achei
estranho, há muito que ele não abria um velho armário onde guardava suas primeiras telas, as quais não mostrava para ninguém”. - Falava,
emocionada, a mulher – “Chegou mesmo a dizer: Eu quero que a Celina
fique com esta tela, se me esquecer, não deixe de dar a ela”. O quadro era
um velho Dom Quixote montado no seu Rocinonte, assinado em letras
vermelhas, datado de dezembro de 1963.
Muitos carros estavam estacionados ao longo da pista lateral do
cemitério, ele deu a seta, indicando que viraria para o lado esquerdo. À
sua frente, do outro lado, uma placa com letras grandes e prateadas em
que se podia ler: “Cemitério Memorial”. Suspirou fundo, esperou um
carro que passava no sentido contrário da pista, mais uma vez acelerou com vontade, atravessou a pista, virou para direita, muitos carros,
muito movimento. Procurou um lugar no estacionamento, parou a uma
quadra da sala de velório. Desceu do carro, caminhou rápido, estava um
pouco alterado, temia não mais encontrar o amigo, apressou o passo,
passou por um longo corredor, quando encontrou um conhecido, perguntando pelo amigo morto, obteve como resposta: “não, ainda não o
enterram”.
Estava com sorte, pensou. Passou por duas salas, apressou o passo
mais ainda, chegou à sala, onde o amigo estava sendo velado, no momento em que estavam fechando o caixão, na hora em que já estavam
colocando os parafusos que prendiam a tampa, no exato momento, ele
estacou e, ali mesmo, gritou: “Por favor, não fechem! Não fechem! Eu
preciso vê-lo pela última vez, por favor! Houve um silêncio, as pessoas se entreolharam, o caixão foi reaberto, quando ele, se aproximando
do caixão, começou um discurso, a princípio desconexo, para depois ir
tomando forma, tornando-se inteligível. Na medida em que falava se
lembrava da viúva: “ele falou muito da exposição que fariam em homenagem a ele, a homenagem que você estava organizando. “Ele gostava
muito de você”.
Todos ali, comovidos e atônitos, presenciavam aquele homem na
sua última homenagem, nos arroubos da meia idade, no enlevo das pa42
lavras, menos alguém, um homem alto, de uns quarenta e seis anos,
que meneava a cabeça negativamente, enquanto ele pronunciava suas
comoventes palavras: “Ele foi nosso mestre, todos nós, se não a maioria,
aprendemos com ele. O nosso pai no desenho, na pintura, um verdadeiro mestre na acepção mais elevada do termo. Obrigado mestre e amigo”.
Enquanto proferia suas últimas palavras, absorto naquilo que
acreditava, não observou as pessoas mais próximas ao caixão, atônitas,
pareciam não entender aquele discurso esquizóide, ainda mais vindo
de pessoa tão culta. Só se deu conta quando o homem se aproximou e
falou baixinho ao seu ouvido: “Pedro, Pedro, quem está aí não é o seu
amigo Cervantes, quem está aí é mamãe, a minha mãe, você entrou na
sala errada”. Quando se deu conta do feito, não sabia o que dizer e não
disse, naquele momento, apenas uma sentença fora pronunciada: “mamãe, mamãe! a vovó tá dormindo. A vovó tá dormindo”.(28/06/2008)
43
TERNURA, TALVEZ SEJA
O QUE NOS FALTA
Cada um deve comportar os seus abismos, apesar da insuficiência de muitos, que, a reboque, carregam uma dor bem maior do que
suportam e, por isso, precisam de ajuda, de compreensão, de quem lhes
garanta o pão de cada dia e a doce palavra de consolo.
Talvez não saibamos, ainda, da nossa impotência. Do tempo que,
célere, nos conduz. Das tragédias diárias que teremos de enfrentar. Da
dor progressiva de quem chora a depressão. Do triste olhar de quem há
muito perdeu a esperança. Pouco sabemos da nossa desumanidade, já
que o nosso interesse é pelo corpo, pela forma, pelo poder e dinheiro.
Se pouco sabemos, é porque a nossa ignorância é bem maior do
que a vontade de enxergar a miséria humana - tão próxima de nós, tão
dentro de nós – colocar-se no lugar do outro. Ser mais solidário, altruísta, sensato e irmão. Ninguém vence o mundo sem vencer-se a si mesmo.
Ninguém dá carinho sem conhecê-lo.
Nada do que fazemos passa incólume aos olhos da natureza. Toda
ação gera uma reação, isso é mais do que sabido. As nossas inimizades
são do tamanho dos inimigos que possuímos. Os nossos delírios, aos
olhos alheios, não passam de loucura. Ama-se o aprazível, o que é belo,
o fácil.
Quantos se julgam dono do saber, do conhecimento, do estabelecimento que dirigem, da repartição onde trabalham. Quantos maltratam por insegurança, por incompetência e, por que não dizer, por pura
maldade. Quantos, por inveja, desprezam, ofendem e, covardemente,
perseguem.
Amar aquilo que se faz é, no mínimo, compreensível, agora, acei45
tar o outro nas suas diferenças, nos seus delírios, na sua impaciência, são
atitudes enlevadas, dignas de humanidade, de sensatez, de libertação.
O mundo, as artes e o saber não têm donos, estão aí para os homens de fé, de coragem, de determinação e sensatez, apesar dos abutres
que rondam as nossas cabeças tentando uma brecha para sua devoção.
Ternura, talvez seja o que nos falta, ou pelo menos, um pouco daquilo que necessitamos para enfrentar a turbulência da nossa desumanidade. Juntando a ela um pouco de carinho, afeto, atenção e empatia,
sem sombra de dúvidas, o mundo tornar-se-ia mais mundo e menos
imundo. (21/06/2008).
46
A BELA MOÇA DA PRAÇA
Eu sempre procurei observar as coisas ao meu redor, o mundo
que me cerca, as pessoas com as quais convivo, os traços que compõem
as raças, os textos, os mais variados, a natureza na sua totalidade, dentro
do universo que eu alcanço. Tudo atendendo a uma ordem que só eu entendo, mas que, para muitos, é uma total desorganização, já que penso
por imagens, logo a minha vida é pura imaginação, apesar do cartesianismo que impera à minha volta.
Tudo nos serve, de alguma forma, para alguma coisa. A leitura
mais banal, o palito de picolé, ali jogado, a lata de óleo fora do lugar, os
riscos na parede, a parede descascada, um pé de chinelo no monturo,
um olhar enviesado, uma mulher embevecida, um bêbado desconcertante, um otário na sua prepotência, um pobre diabo na sua impavidez.
Tudo tem uma serventia neste mundo.
Se tudo tem uma serventia, é preciso saber observar, ir além do
convencional, e isso um bom bar ajuda, e foi o que fiz, pois sempre me
considerei um homem dado à tardes etílicas, a convescotes “sabadais”.
Um ser de Brahmas e limões, de boêmias e ilusões, postado desde muito
cedo numa mesa do Canindé, na Praça da Cirrose, quando ela entrou,
um tanto plácida, cabelos a altura dos ombros, pele morena, curvas tonais, olhar de perscrutação, altura bem acima do efeito dos meus goles,
e um jeito de pronunciar que aprisionava. As palavras não conseguiriam
traduzir o seu cheiro, mas tudo bem, eu estava bem ali.
Ela chegou, não sei de onde veio, mas foi logo passando por mim
e sentou-se a três mesas da que eu estava sentado. Todos a olhavam, e
eu, desde o momento da sua chegada, vibrava de emoção, mas não sabia
o que fazer. Foi quando apareceu uma menina, dessas que vendem flores
nos bares e desafiou-me a comprar um rosa, dizendo que a moça, ela
47
mesmo, havia pedido. Não acreditei, mas também não me calei, propus
o seguinte: - se você entregar um bilhete para ela, e ela gostar do escrito,
eu compro a flor e ainda te dou um cruzado, ou cruzeiro? Não me lembro mais. Só sei que ela topou. Pedi-lhe um tempo para compor o bilhete, e ela ficou de passar mais tarde (dez minutos) para levar o bilhete, e
foi aí que eu pasmei, já que não me vinha nada à mente para compor o
que eu julgara a minha maior arma de conquista: a poesia.
Beberiquei a cerveja, chupei o limão, tomei um pouquinho da
pinga de engenho (por que de engenho e arte, como diria o Velho Camões, em mares tão tenebrosos) e desafiei a procela, os mares bravios
da minha ignorância, até lembrar-me, de súbito, de uma velha música
de infância: Maria Bonita. Lembram: acorda Ma..ri..á bo.ni..ta/le..van.
ta, vai fazer o ca...fé. Valha-me Deus! Isso é coisa pra se lembrar agora,
pensei comigo, mas a música insistia em permanecer ali, não abrindo
espaço para mais nada.
A menina da flor olhava-me insistentemente, e nada, nenhum
pouquinho de inspiração, e eu correndo o risco de perder a moça para
alguém mais ousado que, mesmo sem versos ou bilhete, pudesse ir até
ela e simplesmente, por magnetismo, seduzi-la, aí tudo estaria perdido.
Foi aí que eu deixei de lado o preconceito e comecei a cantarolar, cantarolar a tal Maria Bonita, quando, de repente, eis que surge o grande
verso, a sentença que me condenaria ao paraíso, a eternidade: Quem
não adora a cor morena, morre, sonha e não vê nada...Estou acordado,
assinado: Chico Perna.(09/06/2008)
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UM OLHAR SOBRE AS DIFERENÇAS
a muda da minha rua falou-me das estrelas,
com ela aprendi a escutar o rio da minha infância.
Ao nascermos, a primeira leitura que fazemos do mundo é a leitura sensorial: os sons, as cores, os cheiros, a temperatura, as texturas,
os sabores. Daí, passamos para abstração do mundo, começamos a sair
do concreto para o abstrato, vamos eliminando as figuras; passamos ao
simbólico, às sentenças, ao descortínio do que se nos apresenta implícito, nas entrelinhas. Tornamo-nos críticos do mundo e das coisas, senhores do nosso nariz, da nossa boca, do nosso paladar, do nosso cheiro, do
nosso som. Espelhos de uma sociedade perfeita, aparelhada de um estado perfeito, de uma justiça perfeita, de um legislativo perfeito, portanto
de homens perfeitos. Democraticamente perfeitos.
Descoberto um mundo não tão perfeito, ou quase imperfeito,
modificamos a nossa crença, antes absoluta, para um aprendizado de
realidades outras: os nossos pares são tão imperfeitos quanto nós, mas
não se dão conta disso, até serem colocados à prova da convivência,
quando os pré-conceitos afloram, quando a razão é imperativa e degrada, alija e maltrata.
Começamos a nos redescobrir como seres sensíveis, dotados de
sentidos e de intuição; capazes de sentimentos e de reflexão. Passamos a
valorizar o que somos e o que temos. Passamos a olhar o mundo, outra
vez, com os olhos infantis para o descortino de um tempo ainda não
corrompido. Um mundo vibrante, de formas e cores; de sons e cheiros.
Redescobrimos a beleza do simples, para uma contemplação de plenitudes.
Reabilitamo-nos para a convivência plena: sem preconceito, sem
49
discriminação, sem qualquer estigma. O outro nas suas particularidades, com as suas diferenças, com as suas idiossincrasias. O outro que
- ao nos mostrar aquilo que somos - nos habilita para recifração de um
mundo mais humano e pleno.(07/06/2008)
50
ESPAÇO E PRECONCEITO
Há muito que ouço e leio julgamentos do tipo: “esses são poetas menores”, “aqueles são poetas maiores”. Fale-se muito, classifica-se
sem critérios, abusa-se de chavões, mas consistentemente nada se tem
de concreto. Sobressaindo-se os ditos “Grandes” os “consagrados”, os
“intocáveis”, donos de uma obra magistral. “A melhor de todas”. Já ouvi
muito dos “ditos consagrados” e olha que as academias, os salões, as
agremiações, estão cheios desses imortais indivíduos, tão sonhadores
nem quem tempo têm para realidade.
Para a realidade literária, aquela que bate à porta, que clama para
ser lida e ouvida. Aquela que está na rua, nas velhas cidades, na universalidade dos becos, no lirismo da despedida. Uma realidade que pulsa
na Internet, nos blogs, nos fóruns, nas revistas eletrônicas, exemplo, a
Bula.
Lembro-me de ouvir por aí, da boca de muitos intelectuais, que
eles jamais escreveriam para blogs, para revistas eletrônicas, que isso
seria rebaixar-se; que tais espaços não tinham a nobreza para comportar tamanha erudição e imortalidade. Que bobagem! Eu dizia, e ficava
observando, escrevendo, refletido. E vi quando as coisas começaram a
mudar, quando os nossos intelectuais, os renomados, passaram a descobrir o alcance que tem a Internet. Descobriram também que revistas
como esta não se faz do dia para noite, é preciso paciência, seriedade,
determinação e bom conteúdo.
A propósito do que estou dizendo, lembrei-me de Julio Cortázar,
escritor argentino, numa entrevista concedida ao jornalista uruguaio
Omar Prego, ao ser perguntado sobre as influências sofridas pelos autores latino-americanos, e a resistência deles em aceitar tais influências,
principalmente quando os pais intelectuais eram, também, latino-ame51
ricanos. E, mais ainda, a recusa desses escritores a escreverem o que
consideravam como gêneros menores: romances policiais, rádionovelas
e memórias.
A esse questionamento, que agora transcrevo, Julio Cortázar, inteligentemente, responde perguntando: “Será que isso não vem das falsas
categorias de valores que existem na literatura, e em tantas outras coisas nesta vida? Porque em outro nível ocorre o caso de escritores que
recusariam, horrorizados, um eventual convite para que escrevessem
radionovelas. Porque consideram que a radionovela é um gênero secundário, insignificante, e eles não poderiam concordar em fazer uma coisa
dessas. Raciocínio sumamente sofismático, porque tudo se resolveria fazendo boas novelas de rádio, que aliás existem(...)” e completa “(...)Em
Cuba, por exemplo, mais de uma vez disse aos escritores cubanos, que
se queixam de não serem editados, principalmente os jovens: “vocês se
queixam porque não são editados, e na realidade vocês deveriam é tomar de assalto e se apropriar dos novos meios de comunicação cultural
de Cuba, ou seja, o rádio e a televisão.” A resposta é sempre a mesma:
“Ah, isso não, eu sou poeta”, ou: “Eu sou romancista.” Consideram indigno pôr a mão em outros meios de comunicação”. Pena não ter ele, Cortázar, durado para contemplar, estupefato, a explosão que é a Internet.
Talvez dissesse - como diria meu pai: - Um colosso!
Rompido o preconceito, abertas as portas da interatividade, muitos questionamentos surgem, suscitados pelo espaço democrático que
temos aqui na Bula, um desses questionamentos diz respeito ao que foi
colocado logo atrás a respeito da fala de Cortázar e do que mencionei
no início deste texto: o quanto somos preconceituosos quando o assunto
é arte, principalmente Literatura e, mais ainda, quando essa literatura é
brasileira.
Na edição passada - há uma discussão sobre o valor de alguns
críticos literários, como Harold Bloom: se ele tem ou não tem competência ou se é um mero modismo inventado pela mídia, como também
o fora “Claude Levy Straus”. Depois disso, para atender a uma amiga, doutoranda, do Carlos Willian, vieram as batidas listas: “melhores
obras”, “maiores autores”(aqui entraria Julio Cortázar, que era altíssimo,
e que recebeu de Juan Rulfo, o seguinte comentário: “Tem um coração
52
tão grande que Deus necessitou fabricar um corpo para acomodar esse
coração.”), dos “melhores filmes”. Há uma repetição, as mesmas obras,
os mesmos autores, algo muito fechado, desconsiderando o quanto de
coisa maravilhosa existe na Literatura universal, na Literatura Brasileira
Universal. Todas as obras citadas nessas listas têm o seu valor, são grandes, sim, mas se considerarmos que são listas pessoais, são tão iguais,
mas tão iguais que parecem não permitir que se fale de outras obras.
Pensemos, por exemplo, em E.T.A. Hoffmann, Juan Carlos Onetti, Franz Kafka, Carlos Fuentes, RuanRulfo, Autran Dourado, Murilo
Rubião, Willian Faulkner, Alenjo Carpentier, e, claro, Gerardo Mello
Mourão, autor do grande poema épico “Os Peãs”; do tão maravilhoso: “Invenção do Mar”; e do mais musical deles: “Cânon & Fuga”, do
qual transcrevo poema a seguir e aproveito para encerrar parte desta
reflexão: O que as sereias diziam a Ulisses na Noite do mar
Sobre a frase musical de Ivar Frounberg “Wassagen die Sirenenals
Odysseus vorbeisegelte”
Ninguém jamais ouviu um canto igual
Ao canto que te canto
Escuta: as ondas e os ventos se calaram e a noite e o mar
Só ouvem minha voz – a noite e o mar e tu
Marinheiro do mar de rosas verdes:
Virás: é um leito de rosas e lençóis de jasmim – e ao ritmo
De teu corpo entre a cintura e as ancas
Mais o lençol de aromas de meu corpo
Em monte de pétalas desfeito:
E dormirás comigo
E os que dormem com deusas
Deuses serão
53
Vem dormir comigo
E comigo
e todas as sereias.
Todas as deusas se entregam
ao amante que um dia possuiu uma deusa
e então todas as fêmeas dos homens
Helenas, Briseidas e a Penélope tua
hão de implorar às Musas – e as Musas a Eros e Afrodite
a volúpia de uma noite contigo.
Não partas!
Se partires
As velas de tua nau serão escassas
Para enxugar-te as lágrimas – e nunca
Nunca mais tocarás a pele das deusas
Nunca mais a virilha das fêmeas dos homens
E nunca mais serás um deus
E nunca mais a melodia de uma canção de amor
Dos hinos do himineu:
Abelhas mortas para sempre irão morar
Na pedra do jazigo de cera
De teus ouvidos cegos.
Mas vem
E vem dormir comigo
E comigo
E minhas mãos irmãs e todas
As sereias do mar
As sereias da terra
E as sereias dos céus. (21/05/2008) 54
SIGNOS EM ROTAÇÃO
Até bem pouco tempo, professor era aquele que professava algo,
tinha o que dizer, valia-se da sua cátedra para incutir conhecimentos,
semear o bem, os mais edificantes ensinamentos. Tempo de Mestres,
não somente de títulos, mas de fato, e de artes, ser universal, de uma
alma grande e profícuo conhecimento.
O que aconteceu com tão valioso ser? Praticamente inexiste. Sobraram poucos e esta geração quase não teve ou tem a oportunidade
de conviver com um desses, uma vez que a nossa realidade acadêmica é caótica, já não comporta os grandes mestres: magister, os que aí
estão, quase sempre, não passam de oportunistas de um mercado em
ascensão, já que não deram certo nas suas profissões originárias, descambaram para uma área, que, à primeira vista, parece tudo acolher, daí
a tragédia em que vivemos.
Se por um lado não existem mais os mestres, certamente não há
razão para existência de discípulos, muito mais ainda num tempo de
muita exaltação midiática e pouco aprofundamento nas questões essenciais, como pensar o outro, a solidariedade, a ética, o meio ambiente,
sem falar na nossa rica e preciosa Língua Portuguesa, que de tão maltratada e vilipendiada, perdeu força e prestígio, um exemplo claro disso
está nas universidades, mais especificamente nos cursos de comunicação social.
Como vemos, se não há uma valorização da Língua Portuguesa, nem mesmo nos cursos em que ela é de fundamental importância,
como jornalismo e publicidade e propaganda, quem dirá nos outros
cursos, onde ela “não é tão importante assim.” Mas tudo bem! Dirão
uns. - Tudo isso faz parte da modernidade, vivemos na era da imagem,
precisamos dominar a técnica, e acabou! Vociferarão outros. Ninguém
55
sentirá falta da Língua, muito menos dos grandes Mestres, uma vez que
não se pode sentir falta daquilo que não se conhece.
A realidade é dura e triste, mas o que me dá um dó danado é ninguém fazer nada, é deixar gente tão incompetente, sem conhecimento
mínimo das questões básicas, como ensino e aprendizagem, movidos
apenas pela vaidade e a ganância do mercado, passar-se por mestre, por
dono do saber, conduzir pessoas, destinos, desconsiderando a própria
ignorância.
Como dizem: a vida é cíclica, e, por isso, talvez, ainda venhamos,
nas gerações pósteras, a reaver os mestres que se foram, reformados no
ânimo e no sangue dos vindouros homens de bem, e aí, um outro ser,
que também sou eu, numa crônica como esta, não lamentará ausências,
mas falará de feitos e bondade, de respeito e solidariedade, tudo isso
escrito em bom Português.
*Título tomado de empréstimo ao escritor Mexicano Octávio Paz.
(08/04/2008)
56
O SILÊNCIO DOS INOCENTES
A dor da gente é dor de menino acanhado
Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar Que salta aos olhos igual a um gemido calado A sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar Moinho de homens que nem girimuns amassados Mansos meninos domados, massa de medos iguais Amassando a massa a mão que amassa a comida Esculpe, modela e castiga a massa dos homens normais
(Raimundo Sodré) Uma das coisas mais abjetas praticadas pelo ser humano é a tortura, seja ela física ou psicológica. Ato desumano, covarde, perverso e
indigno. Atenta contra o que há de mais caro ao ser humano, sua liberdade.
Pelo menos é praxe na história universal que a torturas atendam
a fins vários, mas, primordialmente, o que se sobressai é a de retirar do
torturado confissões sobre algo que ele sabe ou que supostamente poderia saber sobre pequenos delitos ou sobre crimes mais graves.
Os métodos são vários, utilizados desde muito pela humanidade,
como o fez a igreja Católica naquilo a que chamou de santa inquisição
- na Idade Média - quando utilizou toda forma de aparelhos de tortura,
como alicates, tesouras, garras metálicas para destroçar seios e mutilar
órgãos genitais, barras de ferro aquecidas e chicotes. Os métodos eram
vários, o que importava era a eficácia para obter informações sobre bruxaria, satanismo e outras loucuras inimagináveis. Tudo em nome de um
deus que não era o nosso.
57
Há notícias de que o padre dominicano Bernardo Guy (BernardusGuidonis, 1261-1331) escreveu o livro LiberSententiarumInquisitionis (Livro das Sentenças da Inquisição) no qual descreve vários métodos
utilizados para obter confissões dos acusados, tanto físicos como psicológicos, dentre os quais o de obrigar a vítima a ingerir urina e excrementos. Se na Idade Média as práticas beiravam ao rudimentar, na modernidade ganharam sofisticação, como as câmaras de gás ou os campos de
concentração, criados pela bestial figura de Adolf Hitler. Nas ditaduras
espalhadas pelo mundo, milhares de pessoas sucumbiram nas mãos carniceiras de hediondas figuras. No nosso País não foi diferente, milhares
de estudantes, pais e mães de família foram maltratados, torturados e
mortos em nome de um regime de exceção.
Dos métodos utilizados pelos torturadores brasileiros, alguns
chocaram e ainda chocam a todos, como seguem: Choque elétrico, Pau-de-arara, Cadeira de dragão, Afogamento, Telefone, Palmatória, Espancamento, Esbofeteamento, Empalamento, Queimadura com cigarros, Geladeira, Mordida de cachorro, Coroa de Cristo, Violação sexual,
Arrancamento de dentes, Injeções de éter subcutâneas, Arrancamento
de unhas, Soro da “verdade” (Pentotal), Fuzilamento simulado, Ameaça
de morte (à própria pessoa, filhos, companheiros etc), Assistir à tortura
de companheiros, Aplicar torturas em companheiros, Desorganização
temporo-espacial.*
Como se vê, a bestialidade humana se supera a cada tempo, às
vezes nos pega de surpresa, nos deixando estarrecidos, como foi o caso
da menina L. de 12 anos, torturada aqui em Goiânia pela “empresária”
Sílvia Calabresi, 42, que, sem sombras de dúvidas, conhecia muito bem
os métodos medievais de tortura descritos acima. O que choca, além
do ato covarde da tortura, é a frágil figura torturada, sozinha, indefesa,
obrigada a toda forma de humilhação e dor.
O que choca é saber dos gritos silenciosos desta criança, das
dores da alma que persistirão por toda vida. O que choca é a indiferença de tantas pessoas à dor desse ser tão fragilizado. Oh, Deus!
Pelo menos o que se tem lido sobre tortura é que os torturadores
buscam, a qualquer preço, a confissão de suas vítimas, confissão de
58
algum delito, de alguma trama. E dessa pobre criancinha, que confissão ela buscava obter?
Fora brutalmente maltratada, alijada do que se tem de mais caro,
o direito à infância e à liberdade. Não estudava, passava dias sem comer,
trabalhava até 1h40 da madrugada, retomando o trabalho doméstico às
5h. Viveu todo tipo de humilhação, inclusive métodos medievais, como
ingerir fezes e urina de cachorro. Era constantemente amarrada, queimada com ferro elétrico, tinha as unhas mutiladas, a língua mutilada,
era amordaçada, sendo obrigada a ficar por horas com um pano, dentro da boca, embebido por pimenta, a mesma que lhe era aplicada nos
olhos.
Como deve ter sofrido esta menininha, meu Deus. Como deve ter
clamado por socorro, silenciosamente. Uma coisa me chamou atenção,
o paradoxo do ato: ao mesmo tempo em que torturava, que buscava não
sei que tipo de confissão, tapava a boca da menina, não permitindo que
ela falasse. Arrancava-lhe pedaços da língua. Por pouco não tivemos
mais um serial killer, pela forma como vinha agindo, consciente dos
seus atos, já havia torturado outras crianças, agora era só intensificar as
sessões de tortura, até não se contentar mais com a dor física, buscando
a morte.
Transtorno? Transtornados ficamos nós, ao assistirmos boquiabertos ao sadismo dessa besta, dessa psicopata, que, ajudada pela empregada doméstica, Vanice Maria Novaes, 23, cometera tamanha brutalidade. O que impressiona é que a empregada doméstica em vez de
defender a criança das atrocidades da patroa, age contrariamente, e
também passa a torturar a sua igual, o que nos remete a Machado de
Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, no Capítulo LXVIII / O
Vergalho[1], quando um ex-escravo, Prudêncio, açoita outro em praça
pública e, questionado pelo antigo patrão sobre o porquê daquele ato,
recebe com resposta: “É um vadio e um bêbado”, a essa fala, segue a seguinte reflexão de Brás Cubas:
(...)Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um
miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha
de se desfazer das pancadas recebidas, transmitindo-as a outro. Eu, em
criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca e desancava-o sem com59
paixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado
da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e
ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as
subtilezas do maroto!(...)
Recorremos à ficção na tentativa de uma compreensão do real,
mas não há compreensão quando os casos se multiplicam, como os
maus tratos do aposentado Ovídio Martinelli, de 93 anos, que sofre do
mal de Alzheimer, e foi espancado pelas suas “cuidadoras” Rosângela Pereira Coutinho, de 44 anos, e Patrícia Santos Alves, de 25. Cenas
chocantes que nos deixam indignados, estarrecidos, sofridos, principalmente quando são cometidas contra seres tão frágeis e indefesos e, por
se saber que os atos não são praticados por estranhos, mas por pessoas
tão próximas, que ainda ousamos chamar de próximos e sempre oferecemos a outra face.
O título deste texto foi tomado de empréstimo ao filme (Silenceof The Lambs, The, 1991), dirigido por Jonathan
Demme. (28/03/2008).
60
ESPELHADO DE CÉU MUITO SERENO
Depois de morar em São Luis do Maranhão, Cuiabá, Palmas,
Goiânia e Fortaleza, Jádson Barros Neves voltou à sua pequena cidade,
Guaraí-TO, para uma jornada de intensas leituras e escritas.
Leitor de William Cuthbert Faulkner, estudioso contumaz das
nossas Letras, traz na alma, um tanto quanto inquieta, os causos, lendas
e mitos da Região Norte, principalmente do sul do Pará, onde trabalhou
como vendedor de secos e molhados, juntamente com seu pai, já falecido.
Jádson, ao longo dos seus quarenta e dois anos de existência, vem
construindo um trabalho de fôlego na narrativa contemporânea brasileira, mais particularmente na categoria conto. Detentor de diversos
prêmios literários, tanto no Brasil, como no exterior, valendo destacar o
Concurso Guimarães Rosa/Radio France Internationale.
Enquanto o primeiro livro não chega (ainda é para este ano) Jádson vai se firmando como escritor, conquistando novos leitores e novas premiações, como recentemente o fez, nos 40 anos da UNICAMP,
quando teve o seu conto “O Funil” incluído no livro “CONTOS – UNICAMP ano 40” (Editora da Unicamp,2007).
Ambientado num vilarejo qualquer, às margens de um rio qualquer, da memória do autor, o conto nos fala de companheirismo e perdas. Conta a história de Suzana, viúva de Orlando, e a do seu cunhado,
José, na incansável busca para encontrar o irmão que fora tragado pelo
rio quando nadava de volta para canoa, após recuperar a sua vara de
pesca que caíra na água.
Narrada em terceira pessoa, intercalada por idas e vindas, irrompendo, às vezes, o discurso direto e o discurso indireto livre. O tempo
narrado compreende quatro dias na vida dos personagens, desde a Sexta
61
à tarde, quando Orlando caiu no rio, o Sábado e Domingo de buscas, até
Segunda feira, quando o corpo foi encontrado.
Já de início, pode-se ver a força narrativa de Jádson, as belas imagens com que trabalha, consubstanciadas pela força lírica do seu texto.
Como se pode conferir neste trecho:
“José havia remado a tarde inteira, por mais de dez quilômetros,
rio abaixo, e também havia procurado ao longo do delta, nos baixios
e nos remansos e agora estava exausto. Subia a ladeira que dava no vilarejo, onde uma lua gorda, amarela, nascia atrás da colina da igreja.
Quando passava, as pessoas olhavam-no em silêncio, e José as cumprimentava e baixava a cabeça e as pessoas também baixavam a cabeça. Era
um coro só, o coro do silêncio. José vinha adoecido daquele crepúsculo
rápido e sangrento, daquele fim de inverno chuvoso, que ainda repercutia no horizonte em forma de relâmpagos esparsos.(...)”.
Com assomada capacidade perceptiva Jádson Barros Neves consegue, pela plasticidade de suas imagens, compor a atmosfera propícia
para o fato narrado, como quando descreve a velha casa onde moram
José e Suzana e, outrora, Orlando:
“A casa onde ela morava era velha, pintada de um amarelo corrompido pela ação das intempéries e descascada pelo sol. Esquecida,
quase abandonada há anos, suas duas portas, suas três janelas fechadas,
com fendas na madeira, guardando o silêncio e a poeira de muito tempo
de esquecimento”.
Assim como a descrição encimada, muitos outros belos trechos
são marcadamente inesquecíveis, como o que segue: “Ela concordou mais uma vez com a cabeça e José foi fechando
os olhos lentamente, contemplando a imensa lua amarela que sangrava
perto da janela e lembrando do quanto era bonita a chuva no delta. Vira-a à tarde, uma cortina escura, que cavalgou escurecendo o horizonte”.
Percebe-se aqui, pelas passagens lidas e superficialmente analisadas, o pleno domínio da narrativa curta por Jádson Barros, a primazia
com que tece as tensões nas suas histórias, sempre carregadas de muita
reflexão e humanidade. Um voltar-se sobre si mesmo, revelando e encobrindo, causando no leitor a vontade de seguir adiante, como bem nos
ensina Wendel Santos:
62
“O conto forma-se sob o anseio de duas tensões: o de revelar e o
de encobrir. Tais tensões podem compor-se de modo o mais diverso. Há
o conto que alterna revelação e encobrimento; há o conto que, de início,
revela um mínimo suficiente para despertar a curiosidade leitora e, em
seguida, numa ordem de crescimento constante, encobre seu objeto até
o ponto em que é necessário outra vez revelá-lo(...)”
Jádson sabe muito bem do que fala Wendel Santos. Ele tem pleno
domínio da técnica e da arte da escrita, sem falar no seu apurado senso
estético. Adentrar a sua obra é permitir-se participar desse jogo, dessas
tensões, para uma jornada de acontecimentos. O leitor está convidado a
conhecer mais de perto o poder criativo deste autor tocantinense, que,
sem medo de errar, faz parte do que de melhor há na Literatura Brasileira. Boa leitura!.
63
ASCENSÃO E QUEDA
O que leva um indivíduo a expor o filho ao vexatório papel de se
transformar na bola da vez na imprensa nacional, ainda mais se pensarmos que este filho tem apenas oito anos, e que tal atitude poderá marcá-lo negativamente para o resto da vida? Dizem as más línguas que tudo
foi arquitetado pelo pai, que é candidato a vereador e queria um tempo
na mídia. Não sei se devo acreditar nisso. Seria patético admiti-lo, mas
vindo do “ser humano”, tudo é possível. É difícil julgar, e acho que não devemos fazê-lo, mas o caso tornou-se público e merece as nossas considerações. De que lado estamos?
Ou será que não devemos tomar partido e proceder de uma perspectiva
de quem vê e se indigna, mas se cala? Não sei, sinceramente, não sei.
Talvez para compreendermos um pouco mais como tudo isso funciona,
precisemos compreender a lógica do mercado, do capital.
Por Deus, eu já sofri muito sendo professor universitário, principalmente quando indivíduos ali chegam cheios de sonhos, de promessas
e de ilusão. Caem de pára-quedas e ali permanecem, como o quadro, a
carteira, o giz, para lembrar o contundente ensaio do professor Nilton
Mario Fiório, “Ser ou estar, eis a questão?”, em que reflete sobre o aluno
histórico e o aluno geográfico.
Como no ensaio, pude conviver com tantos indivíduos que não
sabiam por que estavam ali, não liam, mal escreviam e, ainda por cima,
se davam ao luxo de querer boas notas. Triste, muito triste. Tristíssimo!
Principalmente se pensarmos que eles conseguiram legalmente ingressar na universidade – via “vestibular” – e ali se descobriram incapazes,
despreparados, enganados, mas aí já era tarde, tarde da noite, uma noite
sem perspectiva de amanhecimento.
O caso da criança, transformada em gênio no primeiro momento
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pela imprensa, para depois ser motivo de chacota, de execração pública,
como é costume por estas plagas, nos leva a uma retrospectiva e nos faz
lembrar o caso Avestruz Máster tão disputada pela mídia, por políticos e
empresários, até descobrirem a farsa, o rombo, os arranhões na imagem
de quem dela esteve próxima.
Com a criança não foi diferente, apesar de o pai querê-lo como
um gênio e lutar para isso, em nenhum momento pensou na exposição
do filho, muito pelo contrário, fez questão de apresentá-lo a todos, mas
tudo começou a desmoronar, quando a OAB (Ordem dos Advogados do
Brasil) e o Conselho Estadual da Educação se mostraram preocupados
e cobraram providências, para que, posteriormente, o MEC prometesse
fazer uma devassa nos métodos utilizados pelas universidades particulares - nos seus propalados “vestibulares agendados”. Paralelo a isso, o
jornal Diário da Manhã publicou um texto escrito pelo futuro “acadêmico” de Direito, o que demonstrou algumas deficiências gramaticais
do garoto, natural para sua idade, porém relevantes para um universitário e, ao mesmo tempo, revelou a aberração de algumas faculdades e/
ou universidade para cooptar alunos, não se importando se eles usam
fraldas ou não.
Antes tarde do que nunca, diz o ditado. Eu também penso assim.
Mesmo tarde este caso vem reforçar aquilo que vínhamos dizendo ao
longo desses últimos anos, a irresponsabilidade de alguns empresários
que tratam a educação como um produto qualquer, movido pela ganância, pela possibilidade do lucro fácil, quando não encontram algo
mais rentável para investirem os seus milhões. Educação é coisa séria,
feita de erros e acertos e envolve uma parcela grandiosa de humildade
de quem ensina e de quem aprende, e sensatez de quem nela investe.
(14/03/2008)
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DEFORMIDADES
Goiânia, vira e mexe, sempre tem se destacado como notícia nacional. No passado, foi o Césio; há pouco, a febre amarela, que levou a
população ao desespero, todos em busca da vacina, inclusive eu, que,
um mês após receber a dose, contraí dengue, passei maus bocados, pelo
menos estava tranqüilo com relação à febre amarela, caso contrário, teria enlouquecido, porquanto alguns sintomas são muito parecidos.
Passado o surto da febre, um caso inusitado aconteceu: um casal
que se dizia “fugindo das FARC” chamou a atenção da mídia nacional,
o casal relatou que havia percorrido - a pé - milhares de quilômetros,
da Colômbia ao Brasil, passando pela Venezuela, pela Amazônia, até
chegar a Goiânia, depois de ter perdido um filho para aquela organização terrorista. Mais tarde, veio-se a descobrir, após a morte da esposa
(que morrera de malária) a verdade: o casal fugia não das FARC, mas
da pobreza do seu país. Procuravam melhores condições de vida. Mas
como mentira tem pernas curtas, o rapaz será deportado, ficando apenas a imagem de um casal sonhador, abrigado no Hospital de Doenças
Tropicais, guarnecido pela força policial goiana.
Mas as más notícias não param por aí, principalmente quando
envolve o erário, como aconteceu recentemente, o desvio de mais de 900
mil reais dos cofres do Ibama, supostamente desviados por uma funcionária que cuidava das finanças - segundo declarações do Procurador
da República em Goiás - e que teria gastado boa parte desse montante
numa clínica de estética. Tudo muito bem maquiado, bem urdido, um
atentado à flora e à fauna brasileiras. E haja beleza! Quase um milhão de
reais, dividido entre filhos e outras laranjas, laranjas da terra, que agora,
depois de despencarem do talo, amargarão por longos anos.
Agressão à fauna, à flora, desvio de conduta, tudo tem marcado
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o nosso País e, claro nossa grande Goiânia, como a trágica história de
uma senhora, de 48 anos, que teve o útero retirado, após ser confundida
com uma outra paciente. Segundo relato da própria vítima, ela fora internada para fazer uma reconstituição do períneo, mas começou a achar
tudo muito estranho: “Eu senti que algo estava repuxando, perguntei
ao médico o que ele estava fazendo e ele respondeu: estou retirando o
seu útero.” O mais grave de tudo isso, a mulher que teve o útero retirado
fazia tratamento para engravidar, estava na fila de espera do Hospital
das Clínicas, para se submeter a inseminação artificial. Trágico, não?
Mas as notícias não param, às vezes trágicas, como o caso da retirada do útero da senhora acima; às vezes hilária, como a história do
padre de uma paróquia em Goiânia que proibiu às mulheres, principalmente nas cerimônias matrimoniais, de comparecerem à igreja trajando
vestidos decotados, costas nuas, para evitar, segundo o pároco, um mal
estar entre os fieis. Pois, segundo ele, as beldades não se vestem decentemente, não usam sutiã, deixando os seios eriçados, à mostra. O padre
deve ter lá suas razões, talvez seja preferível proibir a se autoflagelar,
principalmente quando se tem uma visão tão apurada. Às mulheres,
uma saída: mudar de igreja ou de vestido. (27/02/2008)
“Mulher presa com maconha na vagina”, O Popular, 1º/2/2012
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A DROGA DA VAGINA
O título acima parece pejorativo e, numa primeira leitura, muitos ficarão indignados, dirão que é falta de respeito, que eu não gosto
da coisa, que isso tudo não passa de complexo, de machismo e outras
coisitas mais.
Não é nada disso, eu só estou reproduzindo uma notícia veiculada
num jornal de Goiânia, a história de uma jovem senhora que, para satisfazer o seu marido, que cumpre pena no CEPAIGO, foi pega com 360
gramas de haxixe, muito bem guardados, sabe aonde? Na vagina! Isso
mesmo, ou como diriam os antigos, na bainha.
Até o ano de 1700, o termo “vagina” era empregado para falar de
tudo o que era “bainha”, “invólucro”, “casca”, e que os soldados, portanto,
a usavam a tiracolo, para guardar (enfiar) suas espadas. Só bem mais
tarde, na Renascença, é que o termo vagina passou a denominar o tubo
ou bainha na qual se encaixava a espada masculina, o pênis. [1]
Pensemos, se sexo vicia, causa dependência, imagine sexo com
droga, em altas doses. Droga comprimida, pronta para causar desatinos,
droga sob a saia, paliativo para uma droga de vida, entre grades e desilusões. Dessa forma, sexo torna-se perigoso, além do vício, dá cadeia. Daí
o título desta crônica:
A Droga da Vagina, para sintetizar o dilema de uma jovem senhora compenetrada, que, com um simples abrir e fechar de pernas, pariu
um rio de angústia.
Angústia que se repete em várias partes desse nosso país, quando mulheres desconsiderando o amor-próprio, submissas, exploradas e
maltratadas se veem abandonadas de toda sorte: os filhos sucumbiram
ao crime, o marido, há muito encarcerado, rumina os poucos momentos de uma liberdade fugidia, porque esperança não há, como pudemos
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constatar no Fantástico, há algum tempo, o documentário Falcão, os
Meninos do Tráfico, a história da história de uma falta de perspectiva,
crianças perdidas no tráfico, natimortos, pois o único sonho que lhes
resta é o de vir a ser bandido. Matar ou morrer não importa, outros sempre virão. São autômatos de uma guerra urbana, e as suas histórias são
escritas com metralhadoras, fuzis AR-15 e pistolas, não aprenderam,
como muitos homens da política, a cultuar belas palavras e encantadoras mentiras, com as quais se escondem e, como mágicos, sobrevivem
ilesos aos trovões madrugadores.
[1] PEREIRA J., Luiz Costa. Com a Língua de Fora, São Paulo:Angra, 2002,p.53
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Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma
rima, não seria solução. Mundo, mundo, vasto mundo, mais vasto é o meu coração. Carlos Drummond de Andrade UM CANTO NO CANTO DO MURO
PODE SOAR TURVO COMO PODE SOAR
MÚSICA
Numa passagem do livro “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago, o médico que acabara de cegar comunica ao seu superior, diretor
clínico do hospital onde trabalhava que estava cego e que precisavam
alertar ao Ministério da Saúde sobre a epidemia de cegueira: “Não lhe
parece que deveríamos comunicar ao ministério o que está a passar”,
“por enquanto acho prematuro, pense no alarme público que iria causar
uma notícia destas”, “com mil diabos, a cegueira não pega”, “A morte
também não pega, e apesar disso todos morremos”. “Todos morremos”,
esta é a sentença. Morremos, e grande parte de nós cegou; não há remédio que nos traga de volta à luz.
Saramago na sua literatura nos coloca a par da nossa alienação,
da nossa cegueira para as coisas do mundo. Talvez esteja aí a grande
charada da dita pós-modernidade: o homem transformado na própria
tecnologia, só a ela rende tributos: há muito que se esquecera do mundo
real, há muito que perdera a autonomia, há muito que não mais sabe de
si. Dito assim, soa como generalidade, parece que tudo se perdeu, mas
não! Cito Saramago como contraponto para falar da poesia de Sinésio
Dioliveira, mineiro de Belo Horizonte, que ainda cedo veio para Goiânia, formou-se em Letras Vernáculas – UCG, foi professor de Língua
Portuguesa, até ingressar no jornalismo, quando demonstrou o seu talento como editor de cultura e como cronista, o que lhe rendeu o Troféu Goiás — categoria crônica - da Academia Goiana de Letras. Sinésio
Dioliveira, que desde muito tempo conheço e respeito como poeta, só
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agora resolveu dividir com o goianiense sua percepção de mundo, a natureza filtrada pelas lentes de sua máquina e pelas belas imagens de sua
poesia.
Sinésio tem vocação para palavra, tem tino para notícia, conhece
bem o seu ofício, o que o deixa muito tranqüilo para ensaiar novas linguagens, como é o caso da fotografia, já que, como editor, sabe que uma
boa imagem torna-se fundamental na composição de uma notícia. Acho
que aí nasceu a idéia de fundir imagem fotográfica à imagem poética.
O poeta e sua câmera captando os melhores ângulos de uma vida
dedicada à perscrutação do substrato do homem simples, da natureza pujante. De captar com maestria o instante, o silêncio, a verdadeira
performance de quem assesta a sua lente para compreensão do homem
inserto no tempo, incerto na vida, a percorrer os desvão de uma cidade
medonha, como um flâneur baudelariano.
Sinésio é desses seres preocupados com a humanidade, tudo no
mundo tem o seu valor; aprendeu muito cedo a valorizar a natureza, o
respeito ao próximo. O poeta tem um olhar muito apurado para perceber o simples, justamente no momento que vivemos o supérfluo, o
efêmero, sem nos darmos conta de estamos fora da realidade das coisas; vagamos como autômatos; somos diluídos na miséria assustadora
dos que não podem ver porque lhes falta a compreensão do simples, ou
na decrepitude daqueles que só enxergam os seus pares, a despeito de
qualquer contato com as diferenças do mundo. A incapacidade humana
para a percepção daquilo que lhe foge à compreensão, aquilo que dele
diverge.
É aí que entra o homem, o poeta, o fotógrafo, chamando para
uma nova forma de olhar: “Os pássaros são notas musicais duma canção
celeste. Eles poesiam o céu”. assim se manifesta Sinésio Dioliveira num
dos seus fotopoemas. Dessa forma Sinésio nos brinda com seu canto,
um canto de beleza e sensibilidade, nos chamando para um aprendizado
de chão, assim como também o faz Manoel de Barros.(30/09/2008)
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A ILUSÃO DIGITAL
Para o professor Marcos Palacios
Mediado por interfaces várias, o homem se apropria da tecnologia e referenda o seu desejo de potência. O que antes era desconhecido,
hermético, passa a ser natural, quando, conectado, brinca de deus ao
ensaiar, com cores, formas e sons, o grande texto “mundo”. Com um
simples toque, é capaz de viajar para as mais longínquas paragens e interagir – na ilusão de sua virtualidade – com outros mundos tão “reais”
quanto os seu.
Cada mundo comporta suas peculiaridades, é preciso desvendar-lhe os códigos, as várias linguagens com as quais opera, para sentir-se
inserto e dele apropriar-se. Qualquer descuido pode ser fatal, é preciso
atenção total para não se deixar contaminar pelas pestes que rondam o
ciberespaço, os monstros escondidos nos becos digitais, prontos para
atacar o incauto navegador aventureiro.
Assim como o espaço real, o espaço digital também tem seus limites, qualquer desatenção pode custar caro ao transgressor, fazê-lo refém
da própria astúcia, mas aí a pena deixa de ser virtual e passa a ser real.
Cada um deve saber onde pisar, para não ser tragado pelos movediços
links, ali postos, e embarcar num mar textual de mentiras e ciberilusão.
Para qualquer viagem é preciso precaução; as provisões devem
ser suficientes para o embate da jornada; é preciso ter pleno conhecimento das vias a serem percorridas, para isso o viajante deve munir-se de bússola e mapas, é preciso não confundir as sinalizações, pois
como disse o poeta: “Navegar é preciso, viver não é preciso”, mas essa
precisão pode ser relativa, caso o navegante desconheça os códigos.
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Depois de assegurar-se das dificuldades da viagem, de conhecer o percurso a ser seguido, e dominando aquilo que é básico a qualquer internauta/cidadão, colocamo-nos nos nossos assentos, na cadeira de nossa
escrivaninha, e ali viajamos por mundos, até então inimaginados, à procura de novidades, notícias, inventos e/ou por simples curiosidades.
Basta um cabo, ou um sistema que nos permita uma conexão,
para mergulharmos hipertextualmente nessa vastidão digital de convivências nem sempre amistosas, mas necessárias, como podemos presenciar, cada vez mais, a proximidade entre a blogosfera e a midiasfera,
uma se alimentando da outra, ou quem sabe, uma contribuindo com a
outra: pautando ou repercutindo fatos de uma humanidade há muito
esquecida.
O que antes era espaço privilegiado da mídia, de quem detinha o
poder econômico, passa a ser de todos, ou de pelo menos de quem quer
e tem o que dizer como o são as revistas eletrônicas, como é o caso da
Revista Bula, ou dos blogs, que vem crescendo no grau de importância
e passam a ter status de formadores de opinião, ganhando espaço nas
páginas virtuais de grandes jornais do país, como é o caso do Blog do
Noblat, só para citar um exemplo, no jornal O Globo.
Não sei o que nos aguarda, o que vem por aí, só sei de uma coisa,
os saltos são grandiosos, como o que estou dando agora: da virtualidade
do meu desktop, ao apropriar-me desses ícones todos, componho este
metatexto, iluminado pelas luzes de uma tecnologia que cada vez mais
me seduz e que dela sou refém. Passamos a computar horas e mais horas de navegação, “sem lenço e sem documento”, tendo como bússola
apenas a nossa vontade, o desejo de romper rumo, quebrar barreiras,
superar limites. Iluminados pela seqüêncianúmerica de “zeros” e “uns”,
no limite dos sem limite, na finitude do infinito, um olhar sempre atento
buscando na ilusão do que vemos a linguagem mais apropriada para
acalentar as nossas horas de “solidão” e “tédio”, na sala de estar do nosso
mundo real. (23/09/2008)
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DA NECESSIDADE
DE ENVELHECERMOS
Quando nos damos conta, constatamos que o tempo passou tão
depressa, que nós envelhecemos, pois já não somos mais aquela jovialidade que nos supúnhamos. Perdidos, às vezes, ficamos impossibilitados
de não podermos mais fazer muito daquilo que fazíamos; as nossas forças, há muito, se esvaíram. Não há mais tempo para buscar o perdido,
recuperar o irrecuperável.
Envelhecer poderia ser sinônimo de amadurecimento, de responsabilidade, de paz e tranqüilidade, no entanto, temos constatado que
não é bem assim, já que muitas pessoas, às vezes pela própria sorte, outras pela inconsciência, terminam por desvirtuar o verdadeiro sentido
do que venha a ser envelhecer.
Amadurecer requer tomada de consciência, reflexão constante, aceitação; apesar de existirem os que envelhecem e não se dão
conta disso, em si, permanecem como verdadeiros mocinhos, à revelia de tudo e de todos, ridiculamente expõem-se em trajes e atavios
de uma idade que há muito se foi. Outros, por medo de envelhecer,
unem bocas e orelhas, peitos e costas, virilhas e bundas, nas inúmeras plásticas que fazem, adquirindo deformidades que só aumentam
o descontentamento, a baixa auto-estima e as crises existenciais, que
levam à depressão.
Envelhecer traz responsabilidades, atitude, muitas vezes, não alcançada por algumas pessoas, já que, apesar dos anos, muitos indivíduos
persistem na falta de compromisso, em não honrar acordos, buscando
uma vida fácil à custa da boa vontade dos outros. São pessoas que desperdiçam o tempo, não querem progredir, não vislumbram melhoras,
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não têm expectativas. Tudo é momentâneo, não existe amanhã, até que
o amanhã chegue e lhes mostre, outra vez, a necessidade.
Apesar de a velhice ser um momento de tranqüilidade e paz, quantos indivíduos envelhecem com fel, falando mal da vida e do mundo,
culpando a Deus pelas desgraças e desacertos, sempre perseguindo os
seus semelhantes. Este tipo de gente insiste em destilar o seu veneno, a
maledicência, a continuar explorar o próximo, a ordenar destruição e
assassinatos. A sua bandeira é a prepotência e a arrogância. Quantos não
estão por aí a ocupar cargos representativos: presidentes, governadores,
juízes, só para citar algumas categorias, sem falar no simples escriturário, no estelionatário, no ladrão de galinhas. São seres que contribuem,
e muito, para o caos social, já que não estão preocupados nem com o
bem-estar das pessoas e nem com a harmonia planetária.
Viver não é fácil, é uma experiência muito dolorosa, mas gratificante. O que falta ao ser humano é uma tomada de consciência de que
a alegria que brota na casa ao lado pode ser a ilusão de felicidade que
trazemos. Não se constrói uma vida sem dor, e é da natureza humana
envelhecer, Graças a Deus!. Envelhecemos para nos darmos conta de
que o tempo não para, da possibilidade majestosa de outros seres virem
ao mundo, da necessidade de nos vermos como pais, tios, avós. Tudo
isso é muito belo e nos conforta. A natureza é sábia e nos cobra muito
caro pelos nossos atos, tendo em conta que nos foi confiada a vida, que
nos foi confiado um corpo, com o qual haveremos de enfrentar muitas
dificuldades, muitas intempéries e percalços; difíceis caminhos teremos
de percorrer.
Sendo assim, o sentimento de potência que trazemos é a primeira prova de que somos perecíveis, de que caminhamos com as nossas
pernas, mas que uma força grandiosa nos conduz, apesar de pensarmos
diferente, é assim que as coisas acontecem. Iludimo-nos com a eternidade, com a nossa juventude, com a perenidade, perdemo-nos nas nossas
vontades e vaidades, nos nossos desejos e imposições. Quando Iludidos
estamos pela eternidade, humanamente envelhecemos, humanamente
partimos.(08/09/2008)
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O PÓ DA PÓS-MODERNIDADE
Para Flávio Paranhos,
Por que o artista quase sempre se revela um incompreendido na
expressão que adota ou manifesta? Esta é uma das interrogações que ouvimos e que, muitas vezes, nos fazemos. A arte, como manifestação do
espírito, tem um fim que é atingir os sentidos na pretensão de suscitar
sentimentos, despertar para a contemplação do belo. Sendo assim, de
onde advém o gosto? da subjetividade imediata ou puramente do contato exterior com objeto que, por sua vez, torna-se sensível?
O que é ter gosto? Por que gostamos? Qual é a natureza do artístico? O que é arte? Para que ela serve? A arte deve possuir um caráter
de universalidade e objetividade, já que o sentimento é subjetivo? E não
sendo o gosto advindo do sentimento, mas forjado, incutido, criado por
elementos artificiais e massificantes, teria ele valor no julgamento de
uma obra para qualificá-la como artística, como obra de arte?
Como é próprio ao ser humano voltar-se para as coisas e tirar,
pelas suas impressões, o que é bom ou o que é ruim, também ao ser
humano é dado, irrefletidamente, buscar referências várias de “especialistas” sobre o valor que deve ser dado a determinadas obras, o
que as caracterizariam como arte ou não, como tem acontecido em
salões de arte, espalhados pelo mundo, quando privilegiam instalações absurdas, experiências bizarras, em nome de uma “arte pós-moderna”, que de tão pós, reflete a acéfala conceituação dos seus
curadores.
Não que os salões não tenham valor, claro que têm, é uma oportunidade para que novos artistas sejam revelados, para que a sociedade tenha contato com a produção do seu tempo, inteirando-se das mais
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variadas técnicas e expressões, educando o olhar para as diferenças:o
belo, o feio, o cômico e o trágico.
Os salões precisam buscar uma identidade, refletir o seu tempo,
sair da mesmice, voltar à atenção para outros valores, mas que não venham com a malfadada desculpa da desconstrução. Desconstruir o quê?
Por quê? Se Duchamp[1] o fizera, assim como Picasso, é porque detinha
o domínio da técnica do desenho e da pintura, para só depois chegar
aos objetos, como o Grande Vidro, e a instalação La Mariéemise a nu par
sescelibateires, même. Elementos metatextuais, caracterizadores de um
olhar crítico para com as artes daquele tempo, já que havia a intenção
de provocar, de causar apreensão e indignação. Coisas que os “artistas”
de agora não fazem, já que as ditas instalações de hoje mais parecem
gambiarras: não dizem nada, nada provocam, apenas nos roubam energia e tempo.
Talvez a incompreensão perene não seja do artista, como foi falado no início deste texto, mas do espectador que, apesar do desconhecimento de técnicas e expressões, é dotado de senso crítico para julgar o
que agrada ou não, mas vê-se encurralado ao se deparar com opiniões
tão formadas por parte dos mermitões que nada dizem, nada lêem, nada
criticam, apenas seguem e servem. Seguem o crítico, tão técnico quanto
o técnico de geladeiras. Servem à mídia, que de tão rasa não se toma pé.
Assim, o espectador, sem voz, perde a identidade e o rumo, e passa a
andar em círculos entre os vidrinhos de penicilina e ampolas de vidro,
para dormir o sono nas redes entrelaçadas de um sono personalizado,
fotografado em sonhos pelas máquinas digitais, e revelado no envelope
de madeira que, por sua vez será guardado no cofrinho inflável da posteridade.
(20/08/2008)
[1]Marcel Duchamp (1887-1968). Para saber mais sobre o artista, recomenda-se O Pequeno Prefácio a Duchamp: ainda sobre o grande vidro, por Jorge Lúcio de Campos.
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QUEM VENDE O SEU VOTO, VOTA
CONTRA SI MESMO
Como se já não bastasse todo tipo de mazela social: crimes hediondos, sequestros, estupros, corrupção de toda monta, ainda temos
de conviver, em período eleitoral, com uma das mais abomináveis práticas: o comércio do voto. Comércio, porque há mais de um agente nesse
negócio, quem compra, compra de alguém; quem vende, vende para alguém; pode ocorrer que alguém compre de algumas pessoas (intermediário ou atravessador) e venda para outra pessoa (candidato). Portanto,
não se pode dizer que comprar voto é uma prática de mão única, não,
muitos são os envolvidos; muitos são os corrompidos; muitos são os
corruptores; muitos são os corruptos, esse bichinho inofensivo, como
bem diria aquele personagem do Jô Soares.
Quando se fala em compra de votos, o que nos vem à cabeça é
alguém pagando uns trocados para aquele ser (eleitor) que se propõe a
vender o seu voto. Pode ser assim, mas não é essa a regra, os candidatos são muito criativos e, se valendo das carências e necessidades dos
eleitores, inventam mil e uma maneiras de burlar a justiça eleitoral. São
alimentos diversos: sal, açúcar, óleo, tíquetes de leite, bebidas , dentaduras, óculos, sapatos, roupas, ajuda para obter documentos, pagamento
de fiança de presos, cimento, areia, pedra, tijolos e outros materiais de
construção; ferramentas, insumos agrícolas, uniformes para clubes esportivos, bolas e redes, enxovais, cobertores, berços e tantas outras coisas, que chegam a estarrecer qualquer cidadão de bem.
O negócio tem proporções tais que, segundo dados do IBGE, citados pelo Movimento pelo Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE),
lançada no dia 19 de novembro de 2007, na sede da Ordem dos Advoga79
dos do Brasil (OAB), em Brasília, desde as eleições de 2000, até a data do
lançamento dessa campanha, mais de 600 políticos foram cassados, por
corrupção eleitoral, pela Justiça. O Movimento pelo combate à Corrupção Eleitoral, no sentido de coibir tal Prática tão nefasta, criou o lema
“Voto Não Tem Preço, Tem Consequência”.
Tudo isso só foi possível, graças às mobilizações populares, ao empenho da imprensa em não camuflar nada, à atitude de políticos honestos, comprometidos com as melhorias em todos os setores da sociedade, com os avanços sociais. Graças a essas mobilizações, conseguiu-se a
aprovação da Lei 9.840, que proíbe a compra de votos e o uso eleitoral da
máquina administrativa, como podemos ler no seu Art. 41-A: “Ressalvado o disposto no art. 26 e seus incisos, constitui captação de sufrágio,
vedada por esta lei, o candidato doar, oferecer, prometer, ou entregar,
ao eleitor, com o fim de obter-lhe o voto, bem ou vantagem pessoal de
qualquer natureza, inclusive emprego ou função pública, desde o registro da candidatura até o dia da eleição, inclusive, sob pena de multa de
1.000 a 50.000 UFIRs, e cassação do registro ou do diploma, observado
o procedimento previsto no art. 22 da Lei Complementar no 64/90.»
Muita coisa vem mudando para melhor, ao longo desses anos,
como a Lei 9.840. Por conta dela, os malversadores do erário foram cassados; os abusos econômicos vêm sendo combatidos, como podemos
confirmar nos dados da Agência Brasil de Comunicação, com o número
de políticos cassados até o ano de 2007: Minas Gerais 71; Rio Grande
do Norte 60; São Paulo 55; Bahia 54; Rio Grande do Sul 49; Ceará 37;
Paraíba 36; Goiás 33; Santa Catarina 25; Piauí 22; Mato Grosso 20; Mato
Grosso do Sul 18; Rio de Janeiro 18; Roraima 17; Paraná 16; Maranhão
14; Pará 14; Pernambuco 14; Rondônia 13; Sergipe 10; Amazonas 2;
Acre 1; Distrito Federal 1. Combater práticas tão perversas - como a do poderio econômico de vencer a qualquer preço, sem se preocupar com quer que seja,
matando, apezinhando, alijando do processo, perseguindo, o que nos
faz lembrar a fábula do lobo e do cordeiro, de Jean de La Fontaine (La
Fontaine) - é de fundamental importância para todos nós, pois só assim teremos de fato um país democrático, igualitário, comprometido
com o bem-estar de sua população. Cada um precisa despertar para
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sua responsabilidade como cidadão, capaz de banir práticas tão obtusas
como essa da compra de votos. Precisamos ter consciência de que o voto
vendido são vidas que estão sendo roubadas, são recursos que deixarão
de ser aplicados na saúde, na educação e na cultura. Não podemos nos
calar, temos de alardear para que todos sejam fiscais da moralidade na
política, para que cada indivíduo saiba que quem vende o seu voto, vota
contra si mesmo.(20/08/2008)
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ENRIQUECIMENTO DE URÂNIO
Para Helverton Baiano
Urânio, até os 12 anos, era um menino retraído, raquítico, sem
perspectiva nenhuma. Vivia numa casinha velha, de pau-a-pique, e não
conhecia cidade grande. Cresceu ouvindo história de trancoso, superstições e outras inculcacões. Sempre dormiu em rede e criou-se andando
a cavalo, correndo pelas quintas do seu avô, e nadando nu pelos riachos
das cercanias.
Aos oito anos, ganhou da sua avó um pente de chifre e um espelhinho, daqueles ovalados, com a foto de uma mulher pelada. Depois disso, precipitava-se pelos córregos, matas, banheiros, buracos de
portas, fechaduras, rachaduras nas paredes, debaixo das camas, sempre
querendo roubar, nem que fosse por pequeno espaço de tempo, algum
seio, bunda ou, simplesmente, a ligeira visão de uma comportada ou
esvoaçada penugem.
Contava as horas para o banho das suas vizinhas, sempre com
um olhar ligeiro, galopante nas suas fantasias. Inclinou-se, desde logo,
para aquilo que ele viria, mais tarde, a chamar de predestinação: um empresário de corpos. Passou observar o sexo das éguas, cadelas e porcas,
tentava fazer comparações com os de suas vizinhas, analisava tudo.
Descobriu algumas revistas de conteúdo explícito sobre sexo no
armário do seu pai, roubando-as para folheá-las, quando ficava sozinho
em casa. Passou a taramelar a porta do quarto e ficar horas trancado,
chegando, muitas vezes, a causar preocupação à sua mãe, que, ao passar
pelo quarto, ouvia o rangido das molas da cama, uns gemidos esquisitos
e, logo após, um breve silêncio.
Passou a observá-lo mais, até descobrir que as meias do filho estavam desaparecendo, sem que ela soubesse como, só vindo a saber mais
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tarde, quando, por displicência de Urânio, que deixara a porta aberta,
surpreendera-se com o filho deitado na cama, com o pênis vestido pela
meia, cavalgando nas fantasias dele. Tentou voltar, mas já era tarde.
Urânio, aos 15 anos, invocou-se com a bailarina de um circo, que
passava pela sua cidade, ficando preso a ela por um longo tempo, enclausurado, só saia à noite, quando ela precisava trabalhar. Apesar de a
sua mãe implorar para que ele voltasse para casa, Urânio, contrariando
os ensinamentos maternos, começou a dividir a amada com os colegas
de rua, em troca de uns míseros reais. Não demorou muito, e toda a
cidade passou a freqüentar a “Rua de Baixo”, e os fartos trechos de Ema,
alcunhada de senhora dos aflitos.
Os negócios progrediam, e a notícia de Urânio se espalhou pelas
cidades vizinhas, atraindo jovens, adolescentes, senhores, trabalhadores do campo, empresários; todos querendo alguns instantes de prazer
e carinho; outros, atraídos pela curiosidade, do que para muitos não
passava de especulação: bandinha, a “moça” que só tinha uma banda
do sexo, que, por muitas noites tirou o sono de Urânio. Como ela, também tinha Pichula, uma anã de bunda farta, atração à parte, pela forma
peculiar de olhar, seus olhos eram diferentes: um verde e o outro azul.
Carmem, ou “cara quadrada”, era bastante gorda e fogosa, destacando-se pela forma do rosto e pelos sons que produzia quando fazia “amor”.
Maria Angolista, uma sublimidade na cama, poço de lirismo e libido,
que, ao chegar ao orgasmo, cantava: Tô fraca! Tô fraca! Tô fraca!. Tonha
Vaga-lume, diziam, quando abria as pernas, uma luzinha acendia lá no
fundo. Também tinha “Jurema Olho-de-porco”, umas das mais procuradas, pela peculiaridade do seu serviço; sem falar na descomunal “Lupéria Taturana-Bezerra”.
Urânio viveu dias de glória e reconhecimento, apesar da ingenuidade para certos assuntos, conseguia se sair muito bem com o negócio
ao qual se propusera, chegando a ser cotado para prefeito da sua cidade,
mesmo contrariando o padre, o pastor e alguns moralistas, que, mais
tarde, também passaram a usufruir dos serviços da “Casa da Rua de
baixo”.
Urânio tornou-se um poço de alegria e poder, cada vez mais solicitado e influente, ditava os dias de silêncio e as noites de gritos e desco84
bertas, principalmente por ter a seu favor as molas do mundo: dinheiro
e sexo. Viu-se convidado para tudo, inclusive, para apadrinhar crianças
e noivos; já não distinguia as amizades do interesses. A todos tratava
bem, quando era destratado, encarregava a Pau-de-Goiaba, um brutamonte maneta, de cabeça chata, e sem um fio de cabelo na cabeça, umas
três sessões de descarrego no Lago da Piabinha.
Os tempos foram mudando, e Urânio sentiu necessidade de expandir os negócios, passou a importar travestis, transexuais e drag-queens, apaixonou-se, assim que viu “Olga Tamanduá Bandeira”, uma raridade na fauna daquela região. Por conta disso, descobriu-se bi, bitolado,
amarrado, chegando a ponto de ser padrinho, em São Paulo, da Parada Gay. Foi quando se viu indignado ao ler numa manchete de Jornal:
“Bush se diz contra o enriquecimento de urânio para fins bélicos”. Quase
explodiu, queria saber o porquê daquele despeite, será que as pessoas
não podiam ganhar dinheiro honestamente? Foram precisos dias para
que ele pudesse entender que a manchete não se referia a ele.
Passado o constrangimento, Urânio viu-se envolvido num dos
mais enigmáticos episódios de sua vida: numa sexta feira treze, quando
cavalgava tranqüilo pela partes de Olga, sentiu-se como uma formiga,
comprimido pelas garras e sugado pela tromba da sua amada, literalmente transformada em um tamanduá. Foi um “deus-nos-acuda”, uma
verdadeira gritaria, até que alguém que já sabia da transformação, Zé
Lambu, chegar com uma espingarda e desferir, com bala de prata, um
tiro mortal na testa de Olga, que logo voltou à aparência humana, só que
sem vida.
Depois daquele episódio, Urânio nunca mais foi o mesmo, foi outro. Envolvera-se em vários episódios não convencionais como seguir
formigas em correição para devorá-las, abraçar por longas horas árvores
e animais, e, de vez em quando, ficava de quatro para transportar folhas
no seu dorso: do quintal para sentina, quando ali as depositava, voltado
à forma ereta. Sempre que se sentia só, ele saia pelas ruas enviesadas da imaginação, parava na velha igreja, no final da cidade, um olhar para além do
que compreendia. Naquela tarde, ele parecia determinado a se ausentar
de vez, cumpriu o que prometera, fincou os dedos na terra e, mortifi85
cado, ficou ali por toda noite, armazenando uma claridade intensa em
todo o seu corpo. Já não se lembrava de mais nada, somente fitava o
horizonte, o céu de um azul cobalto, até explodir em série, em risos, em
Césio.(05/08/2008)
86
OLHANDO O HOMEM,
O PEIXE SE RECONHECE
Há dias em que estamos mais leves, longe dos problemas comuns,
libertos de toda preocupação, quando movidos pela busca da paz, da
tranquilidade, buscamos nos acomodar à beira de um riacho, de um
lago; à sombra de uma árvore ou guarda-sol, para deleitar as horas de
harmonia com o universo.
Pois foi assim neste final de semana, quando, ciceroneado pelo
amigo, poeta e jornalista, Sinésio Dioliveira, conheci um pesque-pague
dos mais aprazíveis, aqui em Goiânia, mais precisamente ao lado da Vila
Muitirão. Foi uma surpresa, pelo fato de antes ele haver me convidado e
eu nunca ter aceitado, ou melhor, nunca ter dado certo para que eu fosse
conhecer aquele lugar tranquilo, de paz e muitas surpresas, a começar
pela pescaria em si, atividade que o meu amigo Sinésio, segundo ele
mesmo, é um expert.
Pois bem, chegamos ao local, ao pesque-pague, logo na entrada
estava escrito: “Tambaquis e Tucunarés, só para pesca esportiva”. Entramos, o Sinésio pediu uma isca, algumas cervejas e fomos para a labuta;
e que labuta! Armamos a tralha toda: anzol, chumbada, vara de pescar,
carretilha e isca, tudo o que era preciso para uma boa tarde de pescaria,
segundo os entendidos.
O meu amigo atirou a isca aos peixes, um silêncio apoderou-se da
tarde, fez-nos contemplativos e esperançosos: dois homens e a vastidão
do mundo, assombrados com o encantamento do lago, com a solidão da
espera, prestes a refletir o peixe no seu morredouro: “morrer pela boca”,
como diriam os nossos pais.
Estávamos ali, numa expectativa de águas, espectadores serenos
87
da longa espera do peixe que não vinha; da linha frouxa a deslizar pela
água fria, quando virei-me para ele, para dizer que talvez fosse eu o empecilho, talvez a minha energia o estivesse impedido de pegar muitos
peixes, como era de costume,já que não sou afeito a jogos e pescarias,
esta última só praticava quando criança, no Rio Tocantins. No que ele
me tranquilizou: “fique calmo, sempre que eu venho aqui pesco um bocado, logo vamos fisgar um”.
Após ser tranqüilizado pelo amigo, continuamos nossa peleja: o
homem, a linha, o lago e os peixes. Mais uma vez a isca fora atirada a
esmo. Enquanto isso, a menos de duzentos metros, um senhor fazia a
festa na pesca esportiva: pescava e soltava os pescados, ou melhor, os
grandalhões, principalmente as Caranhas. E nós? nada! Continuávamos
na longa espera, fisgados pelos peixes que tentávamos pescar, já que alguns deles, à nossa frente, alegres e saltitantes pareciam saber do nosso
intento e, por isso, ironizavam a nossa labuta.
O amigo Sinésio, na sua paz e calma interior, tranquilizou-me dizendo que era assim mesmo, logo fisgaríamos um grande. Tentamos,
fisgamos dois, mas eram fortes e escaparam, um deles levou o anzol.
Ficamos boquiabertos, mas tudo era festa, confraternização. O amigo
saiu, foi ao bar e pediu para fritarem um peixe do estoque deles, por sinal, muito saboroso. Continuamos na lida: isca aos peixes, cerveja como
refresco; peixe na linha, só no pensamento.
Já escurecia, quando a linha ficou tesa, sentiu-se um puxão, e ali
estava o bruto, o gigante, o inominado prêmio das águas, um peixe pesando “meio quilo”, uma Caranha de dar água na boca, para alegria
do meu amigo, que já se tinha como um grande contador de histórias,
história de pescador.(29/07/2008).
88
OS DEMÔNIOS SÃO MAIS NOBRES
Persignar-se, é esse o termo, ante o desconhecido. A evocação
do sagrado para o socorro das nossas aflições terrenas, dos nossos
temores,da precisão nossa de cada dia. Um olhar que se volta para os
céus, um andar que caminha para adiante, um sentir-se que projeta a
proteção. A vida transformada pela prece, tão necessária nesses conturbados dias em que vivemos.
A miséria humana, o clamor dos pobres da América, o silenciar
dos poderosos. Tempos difíceis em céu de brigadeiro. O progresso material que se propala, fragiliza o espírito do homem bom, escarnece a
nobreza dos atos, matando no ser a esperança e a fé no sagrado.
Se a fé, a evocação do sagrado, a busca da proteção divina, são
alentos para o ser que enxerga o enredo do mal. O que será do ser que
sofre os “infortúnios da sorte”, as tramas desse mal e insiste em desconhecê-las? Pior ainda, o indivíduo que tudo sabe, que tudo conhece, e
vale-se do sagrado, do nome de Deus para amealhar bens e poder, para
tramar e beneficiar os seus, para perseguir e castigar, maquiado na sua
bondade, passando-se por bom na “profissão” que exerce, na religião
que prega, na reunião que conduz.
O Ser que assim age, esquece-se do verdadeiro significado de ser
cristão, impelido pela ganância, apropria-se da “verdade”, do poder,
para escravizar, humilhar, perseguir, sempre na pele de cordeiro, sempre
bom aos olhos dos que olham de fora e nada veem. Um sorriso sempre
aberto, um brilho no olhar que cega, já que tudo isso faz parte do jogo,
da trama, da maledicência. Ao se julgar inteligente demais, desconhece
a própria incompetência, o ridículo que representa, porquanto os seus
séquitos sempre estão a bajulá-lo, a fazê-lo acreditar que é importante
e potente, que age sensatamente. Que, ao humilhar, perseguir, alijar do
89
processo, nada mais faz do que castigar o indivíduo que contra ele se
rebelou, ou por tão somente não ter com ele simpatizado.
Os demônios são mais nobres, se nos apresentam como tal: ruins,
perversos, demoníacos. Não querem camuflar nada, vivem das artimanhas que inventam. O objetivo que buscam é tão somente o mal. Contra
eles, temos a prece, a cruz, o “pelo sinal”, água benta (lustral), os bons
pensamentos. Contra os outros, os da pele de cordeiro, o que temos é a
sorte de não cair nas suas teias, de não fazermos parte do seu ódio, de
termos, acima deles, a quem possamos recorrer. Alguém que nos possa
proteger. (2004)
90
MEDO, UM ATO DE HUMANIDADE
O medo que carregamos é a memória que trazemos das coisas,
sem a experiência, não há evocação, por isso é que as crianças são
destemidas, carregam apenas o não revelado e obscuro soluço dos
deuses. Amedontrar-se é, pois, sentir-se humano e requer coragem
para tal.
Há pouco, senti-me totalmente tomado por uma vontade de falar sobre este tema: o medo das coisas, o que buscamos e tememos, o
que tememos e não conseguimos buscar, o que, a duras penas, levamos
adiante. A necessidade que temos de chegar sempre em primeiro lugar,
amedrontando aqueles que nos seguem, que nos acompanham, aqueles
a quem dirigimos, aos nossos in-subordinados.
O medo que nos cerca é, de todo, a arma que temos contra os
corajosos, os ousados, os usados. Por que estamos sempre com um pé
atrás, prontos para recuar, para dar o grito de alarme e sair correndo
e, às vezes, é isso que nos salva, que nos determina como vencedores,
como duradouros. O medo é a égide do historiador, ele não participa
das guerras, das lutas; não se envolve nas diatribes, por que ele precisa
contar os fatos. Alguém tem de contar a história.
O que move os críticos de todas as áreas é, justamente, o medo.
Falo daqueles que temem e não se arriscam, jamais, a ousar nas áreas
que criticam, preferem ficar na espreita, com um olhar carregado de teoria a mover-se de um lado para outro apenas a falar do que desconhece.
Falo empresário que patenteia o invento alheio e, por “medo”, não revela
o autor, morre de ganhar dinheiro em cima dele. Do jornalista que se esconde atrás dos fatos, por pura incompetência, valendo-se das agências
de notícias e das cópias do alheio. Do professor de Língua Portuguesa,
principalmente das universidades, que ensina regras e mais regras do
91
bom falar e escrever e, por medo, fica escondido nas teorias sem nunca
se revelar na escrita.
Sentir medo é sentir-se preso e liberto, alegre e triste, fechado e aberto. Sentir medo é ser dúbio, é ser inconsciente, às vezes inconsequente, porque viver requer pressa e determinação. Uns, aceleram demais e vão-se embora, sem medo, sem ressentimento: “vida
louca,vida,vida breve, se eu não posso te levar, quero que você me leve”.
Outros, petrificados que estão nas suas prepotências, não enxergam o
amanhã, só o agora, o presente que são, para esses, o medo é a força do
apego, o delírio da perpetuação.
Quem não tem medo, que atire a primeira bala, o primeiro olhar,
como o fazem os pistoleiros que, por medo, atraiçoam; os mandantes
que, por covardia, pagam. Os políticos, que seduzem, prometem, e
abandonam. Todos medrosos e covardes, revelando o lado pútrido do
medo.
Sentir medo é o que nos mantêm calados, é que nos mantêm no
emprego, é o que nos faz “ingênuos”, precisamos sentir medo para prosseguir, criar os nossos filhos, conhecer os nossos netos e, se possível
protegê-los quando alguém tentar amedrontá-los, como acontece com
a minha filhinha, todas as vezes que ela escuta esse grito: oooooolha a pamonnnnnnnnha!! e corre para os meus braços. É o primeiro exercício de humanidade: sentir medo, um medo instantâneo, infantil, até o
próximo e ousado ato. As crianças pertencem aos deuses, nós, ao medo,
humanamente ao medo. Até que digam o contrário.(2006).
Em 1º de setembro de 2004, primeiro dia de aula, um comando
que reclamava em particular o fim da guerra na Chechênia manteve
mais de mil pessoas no ginásio da escola durante três dias, até quando o
exército lançou um assalto. Trezentas e trinta pessoas, entre as quais 186
crianças, morreram na operação. (Fote: Portal Terra)
92
UMA TEMPORADA NO INFERNO*
Todas as guerras são abomináveis, traços de bestialidade e incerteza; transgressoras da liberdade e da razão, retalhos de humanidade.
Todas as guerras são martírios, segregadoras da alma humana; violento
atentado ao espírito; disseminadoras de um ódio gratuito.
Por mais lógica que se possa imaginar ao se declarar uma guerra,
ela nos soará sempre paradoxal: não há violência que nos conserte; não
há martírio que nos redima.
Toda guerra é imposta, autoritária, ditatorial. Toda ditadura é deprimente, olhar deturpado da realidade, sentimento ameaçador e covarde. Discurso ideológico e sectário; monólogo opressor.
Toda guerra é violenta, e a violência não é local, municipal, estadual ou globalizada. Não é assunto jurisdicional, é ontológica. Alguns a
manifestam mais branda, perseguindo, retaliando, alijando; outros, dela
são membros, como um braço, uma perna. A ela pertencem e, para esses, a vida é um risco feito a lápis na mão de um deus pagão. Ninguém
se salva.
De todas as formas de violência, a infantil é inaceitável, é irremediável, deixa marcas na alma, é ferida que não se cura, transtorna o ser
e, quase sempre, dele não se desprega. É na infância que apuramos o
olhar para as coisas do mundo. Que definimos as cores do nosso por vir:
muitas vezes quente, muitas vezes frias, outras tantas matizadas, quantas sem luz. A violência que pare a violência, como um espelhamento.
Lembremos de Mohammed, o prematuro, nascido sob os “auspícios”
da Guerra do Iraque; de Intizar, criança que perdeu os braços, também
no Iraque, após ser atingido por uma bomba americana, fruto da bestialidade de Bush. Lembremos de Hiroshima, seis de agosto de 1945, às
08:15 da manhã, o piloto de um avião B-29, Paul Tibbets lança a pri93
meira bomba atômica, deixando um lastro de destruição; a cena é repetida em Nagasaki, nove de agosto, com a bomba “Fatman”. Lembremos
a cena daquela criança nua, desesperada. Lembremos do Kosovo, uma
outra criança chorando, sobre os escombros, a morte dos pais; e agora,
numa foto comovente de Segei Dalzhenko, vimos uma criança ensanguentada, desesperada, fugindo dos sequestradores da Escola de Beslan,
na Ossélia do Norte, Rússia.
Não há como se calar, fechar os olhos, diante de tanta barbárie, de
tanto medo que nos oprime, da insegurança que invadiu os nossos lares,
já que as ruas há muito foram tomadas, brutalizadas, esquecidas.
Há muita dor nos nossos corações, transtornados que estão pela
impotência ante o espetáculo a que assistimos: nas ruas de São Paulo,
quando mendigos são brutalmente assassinados; no Rio de Janeiro, as
balas que se encontram com os seus alvos, porquanto os homens é que
estão perdidos. Em Brasília, a violência pública em muitos setores, e
a privada? quem não se lembra do índio Galdino “ludicamente” queimado? Uma repetição bárbara e inquisitorial, como em Joana D’Arc.
Em Goiânia, quanto crimes insolúveis. Não há mais distinção de classes;
não se respeita mais autoridade constituída, todos sentem a mesma dor.
Todos pela morte tornam-se iguais.
É uma imensa tristeza que nos massacra, a impotência que nos
dói no fundo da alma, um grito desesperado de socorro, sem ter para
onde correr, fugir. Quanto mais nos afastamos, mais nos vemos refletidos nessas cenas de barbárie, mais temerosos ficamos, ao protagonizar
espetáculos tão brutais.
O que nos resta? Talvez a imagem desesperada das crianças de
Beslan, em pânico, tentando sobreviver de rosas, como relataram após
serem libertas dos seus algozes. As flores que brotam do caos, como
em de Ferreira Gullar, Poema Sujo: Num cofo no quintal na terra preta
cresciam plantas e rosas (como pode o perfume nascer assim?). Talvez nos
restem os livros, a educação pela palavra, a poesia como motor de toda
transformação.(2004)
* Título tomado de empréstimo a Jean Arthur Nicolas Rimbaud, poeta francês (18591891).
94
DO MEU CAMINHAR
Para meu Pai, quando da sua partida
Os pais são sempre os filhos refletidos, se não na aparência,
ao menos na vontade na doce vontade de perpetuação. Os pais nunca morrem, partem para uma outra dimensão que não conhecemos,
apenas imaginamos e torcemos para que o voo seja pleno de encantamento.
Quem poderá dizer mais de mim do que os traços que trago da
minha ancestralidade? Cada passo, cada olhar, um semblante às vezes
esmaecido pelo sentimento do mundo, tudo comporta um traço de
quem a mim deu o muito do meu caminhar.
O meu pai é puro fluxo das longínquas corridas deste rio Tocantins, parte também dos meus antepassados. Do grito de tantos outros
gritos da minha descendência. Meu pai foi o responsável por parte da
minha ousadia, da minha predileção pelas letras, do meu entusiasmo
pelo mundo e pela coragem que tenho trazido para romper difíceis dias
de abandono.
“O homem precisa ser ousado” Era assim que ele dizia, mas a sua
ousadia não poderia prescindir do caráter, da ética, do respeito ao próximo, da sabedoria que só os mais velhos e o tempo trazem. Ele me
ensinou que o trabalho dignifica, a solidariedade fortalece, o amor nos
encoraja e nos conduz.
Meu pai está escrito nos portais de cada casa, de cada árvore, de
cada rua desta nossa Miracema. Ele está no correntinho, na Vitamina,
no banho do rio, na Caridade, no Ouro Verde, na feira, no bolo de arroz,
no vinho de caju, no licor de casca de laranja, nas missas de domingo,
95
nos remédios caseiros, nos carnavais. No meu pai está a nossa indelével
alegria. Nele estamos nós.
Com ele se vão o nosso imenso amor e nossa eterna gratidão, conosco fica a sua perpetuação na grandeza de espírito e o imenso azul
dos seus olhos.
96
QUA ME STULTITIA INSANIRE PUTAS?
Natural é ser diferente, poder dizer o que se sente, o que se pensa;
fugir dos lugares comuns, sondar o próprio abismo existencial e comungar com os seus pares, com a aflição do mundo, com o dilúvio de ausências e não responder ao chamado dos manipuladores. Eis um traço de
insanidade que muitos carregam, mas poucos conseguem alimentar o
seu desconserto diante do mundo.
Os loucos atendem aos chamados interiores, dizem não à exterioridade. Não refletem o tempo, ousam; não alimentam esperanças, vivem; não se prendem a nada, celebram. São defensores da vida libertária
e plena. As suas mentes são as suas sentenças. O medo não existe, a distância é inócua. O vício não tem cabresto. Eles, os loucos, avolumam-se
como caixas empilhadas, são muitos, são múltiplos, apesar de tudo isso,
ou por serem assim, são ternos, mesmo que não saibam.
A loucura está mais presente no mundo do que se pensa, manifesta-se no mais recôndito dos seres, na hora imprecisa, não tem cerimônia, não se atrela a nada, basta que algo que desconhecemos a motive e,
deliberadamente, ela nos chega, toma conta, desconserta, desestabiliza
e, por ser assim, muitos não conseguem divisá-la, não compreendem a
sua linguagem, o seu discurso.
Somente os loucos, os leves de espírito, os pensadores, os poetas,
os artistas e, lógico, os psiquiatras e psicólogos (nem todos, claro!)conseguem conviver com ela. Erasmo de Rotterdã lhe dedicou um belo ensaio: Elogio da Loucura; Michel Foucault escreveu A História da loucura;
Cervantes, magistralmente, criou um dos personagens mais maravilhosos e insanos da literatura universal: Don Quixote, O cavaleiro da triste
figura; Machado de Assis, em O Alienista, nos brinda com Simão Bacamarte e a sua Casa Verde; Fernando Sabino, seguindo a modalidade pi97
caresca, também aborda o tema, em O Grande mentecapto, Sem falar na
genialidade, inexplicável, de Fernando Pessoa, com seus heterônimos,
com sua loucura literária e o seu desassossego:“toda a sinceridade é uma
intolerância. Não há liberais sinceros. De resto, não há liberais.”
Todos eles, pensadores e artistas, especularmente refletem o seu
tempo, os seus pares, os seus anseios. Traduzem a natureza humana e o
abissal caminho que percorrem. Convivem com a fúria humana, com a
aparência das coisas e as suas manifestações.
Se ser louco é rebelar-se, ser são é mover-se socialmente. É buscar
o equilíbrio, é apascentar os lobos da discórdia, analisando os possíveis
passos que se vai dar. Ser paciente e ser compreensivo, é olhar com profundidade os acontecimentos. É ser paciente e obediente e adaptar-se
às mais variadas situações do dia-a-dia, aos absurdos presenciados nas
ruas, nas repartições públicas, em todo tipo de descaso para com o cidadão, na relação diária com os seus pares.
Ser são é deixar-se governar por incompetentes, é acreditar que a
justiça é cega, que esses ruídos veiculados em algumas emissoras de rádio são música, que o conceitual, nas instalações absurdas, é arte, que as
grandes redes de supermercado vendem barato, e que as universidades
públicas são para pobre.
Ser são ou não, eis a questão! A “rima” é pobre, mas a questão é
séria: de que lado estamos? De que lado você está? Nada melhor do que
se olhar no espelho: se você for diferente... (26/04/2012)
* “De que loucura julgas tu que eu sofra?”
98
PLENILÚNIO
Uma bola de fogo cruzou o céu da fazenda e, rodopiante, acompanhou os mesmos movimentos de Natinho em volta da fogueira de
São João, por um momento, pareceu coalhada no firmamento, todos
a observavam, ao passo que se voltavam para o menino, que também
inerte se perdia no pesadelo do esquecimento. A bola saiu do seu descanso aparente, zigzagueou por sete vezes, descendo em disparada de
encontro ao peito de Natinho, que se desfez em cinzas. Naquela noite.
Um menino, um rádio e a ilusão do futebol. Foi assim que muitos
disseram, anos depois, quando Natinho já não estava mais entre nós.
Era Copa do Mundo de Futebol, México, 1970, estávamos reunidos em
volta de uma mesinha de centro, no alpendre da minha casa, ouvindo
um rádio à válvula, quando ele chegou. Tinha os olhos tristes e distantes
e uma palidez de ausências. Viera com a sua mãe e dela não se desgrudara por nenhum instante até o apito final, quando oBrasil venceu a
Itáliapor 4 a 1 no estádio Azteca.
Durante a narração do jogo, num dado momento, começou a girar em torno de si mesmo, até cair desfalecido. Foi um alvoroço. Trouxeram álcool, esfregaram nos seus pulsos. Jogaram água na sua cabeça,
e nada. Quando já pensavam em chamar o médico, ele começou a se
mexer e, como se nada tivesse acontecido, abriu os olhos e levantou-se
tranqüilamente. A mãe, sem se pronunciar, o pegou pelo braço e o levou
para fora da casa. O jogo já estava no fim. Ouviu-se uma gritaria, foguetes e muito riso. O Brasil sagrara-se tricampeão do Mundo.
Alguns dias se passaram, e eu, ao voltar do trabalho, deparei-me
com o menino, com os olhos arregalados, um cabo de vassoura na mão,
e o rádio à válvula todo destruído. Sem saber o que fazer, pedi que chamassem a mãe dele, na casa ao lado. Quando ela veio, o menino come99
çou a berrar e a pular repetidas vezes. Ela o pegou pela orelha, pediu-me
desculpas, prometendo arcar com o prejuízo, e o levou embora. Mais
tarde vim a saber o porquê daquela destruição. Por insistência de um
garoto, filho da dona da casa na qual ele estava hospedado, resolvera
procurar, por entre as válvulas, os homens que narravam o jogo com a
promessa de ganhar - deles - uma bola.
Desde cedo, Natinho demonstrou uma predileção pela forma circular, arredondada. Ainda no meu colo teve a sua primeira experiência
com essa forma, quando, na Lua Cheia de Áries, gritou descontroladamente e pinoteou, como querendo se soltar dos meus braços, para depois adormecer profundamente. E foi assim durante muito tempo, por
doze ou treze vezes ao ano, repetia o ritual do plenilúnio, postava-se no
batente da porta, que dava para o pátio, e ali, após um longo momento
de contemplação, começava falar em uma língua estranha e rodopiar em
volta de si mesmo, até cair inconsciente. Cresceu contando as luas, e, naqueles dias que antecediam ao espetáculo celeste, ele se transformava, ficava quieto, silencioso e isolado.
Gostava de refugiar-se na Grota, um riacho de água gelada, que passava
atrás do sítio da fazenda. Sentava-se na sua ribanceira, e de lá atirava
pedras na água. Encantava-se com os círculos que iam se formando,
crescendo e indo embora. Entre uma pedra e outra, aproveitava para
fazer rolar, ladeira abaixo, as laranjas que trazia consigo, num misto de
gozo e felicidade.
Natinho cresceu e, aos dez anos, ficou extasiado ao se deparar
com um repolho, sobre a mesa da cozinha, aquela lua verde esbranquiçada, todo fundido em camadas, como ele viria a chamá-lo. Depois do
susto, ficou andando por uma hora em volta da mesa, numa contemplação circunferencial, sem saber o porquê daquele sentimento. Durante
toda aquela semana pensou no repolho, chegou até sonhar que ele tinha
vida e eles eram amigos. Jamais aceitou comê-lo e repreendia, enfurecido, quem o fizesse na sua frente.
Desde a primeira vez que vira uma bola, nunca mais tivera sossego. Foi num exemplar da revista Cruzeiro, esquecida por um visitante
na varanda da nossa casa. Naquele dia, algo mágico aconteceu. Ficou
transtornado, deu cambalhotas, chorou. Até então só conhecia as boli100
nhas de meia que eu confeccionava para ele brincar. Depois disso, não
quis mais comer, não saia do quarto, sempre trazia consigo a fotografia
da bola, comprimida no peito nu e esguio. Uma paixão avassaladora.
O tempo passava e Natinho parecia mais esquisito, mais só, redondo nas suas elucubrações, nos seus pensamentos e visões, como
a que ele tivera no momento que estava no curral ajudando o pai na
ordenha do gado, como ele mesmo me dissera, e uma Lobeira, dessas
bem grandes e verdes, desprendeu-se não se sabe de onde e começou a
levitar, movendo-se em círculos, depois caiu e quicou inúmeras vezes,
até desaparecer por detrás do curral. Seu pai nada percebera, mas jamais acreditou que o nosso filho estivesse predestinado ao encantamento, como os fatos viriam a se confirmar, anos depois. Na noite em que
comemoramos o Pentacampeonato, uma bola de fogo cruzou o céu da
fazenda. À primeira vista, pensávamos que fosse fogos de artifício, algo
a mais na comemoração da vitória do Brasil sobre a Alemanha, apenas
pensamos, porque ela parecia repetir os movimentos do nosso filho. Ao
sair do seu descanso aparente, zigzagueou por sete vezes, descendo em
disparada de encontro ao peito dele, que se desfez em cinzas. (2005)
101
O POETA E A CIDADE – MEMÓRIAS
As cidades sempre me fascinaram, desde muito cedo, eu tenho
um certo encantamento com relação a elas, não importa o tamanho, a
simplicidade, o povo que nelas vive. Sendo cidade, já está no meu gosto,
e como gosto de ser urbano, sem desprezar, é claro, a vida tranquila do
campo.
A cidade da nossa infância sempre nos marca, positiva ou negativamente, dependendo do que ali foi vivido, conquistado ou perdido, das
pessoas com as quais convivemos, como fomos ambientados. A minha
cidade foi-me muito significativa: Miracema do Norte, na década de 60,
era um lugar de mais ou menos 6.000 habitantes, mas, para mim, era
uma metrópole, gigantesca: suas ruas longas, intermináveis, estirões no
centro do mundo. Os seus becos, os seus postes de madeira: dois fios
esticados e uma lâmpada não muito potente, faziam as noites mais amenas e diluíam o olhar brilhante dos vaga-lumes. A luz era gerada num
velho motor a óleo dísel que, por horas a fio, mastigava a escuridão,
prolongando o ilusório dia das nossas infâncias.
O tempo passou, acostumei-me com os dias longos e tristes: um
dia uma festa, noutro, o sino seco da matriz carpia a ausência de mais
um que partia, os martelos cadenciados desenhavam os caixões durante toda noite, já que não tínhamos funerárias. A cidade atravessava as
estações, o Rio Tocantins banhava a cidade, muitas vezes exagerava no
banho e a cidade, quase submersa, chorava escombros e doenças, até
recompor-se e firmar-se com seus ventos gerais, no mês de julho.
E ali eu cresci, corri descalço pela piçarra que cobria as ruas, brinquei com barquinhos de papel na enxurrada, colhi frutos silvestres pelo
Correntinho e Bica, andei de bicicleta pelas ruas esburacadas, chupei
manga e caju no pé, andei por quintas e nadei muitas vezes nas águas
103
imensas do Tocantins. Descobri o sexo com as meninas no fundo quintal, até ser descoberto e levar uma surra de palmatória, ritos de passagem, como a minha primeira comunhão, tudo por curiosidade para
experimentar o sabor de uma hóstia. Sempre a cidade como palco.
Fiz o meu primeiro grau na Escola Paroquial Santa Terezinha, dirigida pelos Padres Redentoristas, que mais tarde passou a se chamar
Escola Estadual Santa Terezinha, e o segundo grau no Colégio Tocantins, sob a coordenação das irmãs da Assunção.
II
Na década de oitenta, mudei-me para Goiânia. Cheguei lá, em
1981, e fui morar na Rua 03 com Assis Chateaubriand, no Setor Oeste,
vizinho da Praça Tamandaré: a explosão jovem daquele tempo. O Setor Oeste era um Bairro Nobre, e continua sendo, mas trazia a doçura
de uma cidade pequena, o encanto de suas praças, a tranquilidade de
suas ruas, ainda com poucos edifícios. O Fórum e o Palácio da justiça
eram apenas armações de concreto, seres do abandono. Bairros como o
Jardim América começavam a despontar. Nova Suíça, timidamente se
escondia para lá da 85, só depois, com a abertura da T-63, é que ganhou
ares de nobreza.
O tempo passou, nasceu o Flamboyant: uma revolução arquitetônica e conceitual. A cidade já não era a mesma, começava tomar feição
de uma cidade do mundo. Bem mais tarde vieram os outros shoppings,
enquanto isso, os bares fervilhavam de gente: D. Quixote, Beb’s, Jotas,
Trem Azul, Flor da Pele, na Assis Chateubriand, com o canto de Gilberto Correia e a voz e o toque preciso dos violões do Valtinho e do João
Bolívar. O velho Trem Azul, sem falar na Praça da Cirrose, palco de boêmios e paqueras, com destaque para o Bar do Seu Marconi: o Canindé,
com seus vendedores de rosas e amendoins, com as curvas modernas
das moças e das cervejas, geladas em pé, nos 16 freezers incansáveis.
Andando um pouquinho mais, podia-se ouvir a flauta afinada de Gilson
Mundin, e, à noite, já bem mais leve, um encontro marcado no Latidude
2000, embalado pela voz do Pádua.
Aquele foi um tempo maravilhoso. De lá para cá, muita coisa mu104
dou, a cidade tomou um ar de Grande Cidade, foi absorvida pelo progresso, pela cobiça. Perdeu a inocência e deixou-se seduzir pelos que
vinham de fora e prometiam transformá-la em um lugar mais aprazível.
Prometeram urbanizá-la e, por pouco, não a destruíram.
III
Goiânia me traz belas lembranças, porque lá vivi uma boa parte,
ou melhor, a maior parte da minha vida. Quem não se lembra do Hotel
Presidente, do seu Cine Presidente, onde assisti pela primeira vez ao
filme The Wall , Pink Floyd? Quem não se lembra da Galeria do Beto,
no setor oeste, com seus barzinhos e lojas? Do Saloon, na República
do Líbano. Do Hotel Bandeirante, com seu Piano Bar, palco de grandes acontecimentos sociais? Umuarama Hotel, Samambaia Hotel, Hotel
Araguaia, Lord Hotel, todos fazendo parte desta bonita história? Momentos de uma vida, olhares vários de um tempo de encantamento, os
belos bailes do Jóquei e do Jaó. Talvez pela distância, fato normal nas
nossas fantasias de perpetuação do que é bom.
E a Praça Universitária? coisa igual não havia, ali embalei os meus
sonhos, meus amores, a minha boêmia, quando comecei o meu curso
de Letras na UCG, agosto de 1984, Época de D. Fernando. Vivíamos
ainda a efervescência dos movimentos políticos, participei de algumas
passeatas do DCE, juntamente com Denise Carvalho, Donizete, Edvirgens, Claudinho, Sinésio Dioliveira, e tantos outros irmão de luta.
Participei do Festival Interno da Universidade Católica – I FIUC, fazendo parte de um pequeno caderno das músicas classificadas, na Gestão
Águas de Março. Vivemos as Diretas, Já! Esta cidade sempre acolhedora
e efervescente.
Em 1985, estávamos em Brasília ensaiando os primeiros passos de
uma Democracia, mas não vimos Tancredo Neves no Poder, voltamos
frustrados eu e mais uma centena de colegas da juventude socialista,
que, durante dias, no DCE da UFG, nos preparamos para tão magnífico
evento: confeccionamos faixas e cartazes. Bons tempos aqueles, apesar
da repressão, da covardia e da humilhação.
Não só os ruídos de um belo tempo permanecem, mas a alegria,
105
alguns sinais de uma alegria significativa que ainda resiste a todo o progresso material dos nossos dias. Sempre voltei o meu olhar para estas
duas cidades: Miracema e Goiânia, um olhar que perscruta o sentido
dos acontecimentos, que, além do barulho ensurdecedor das máquinas,
consegue ouvir o longínquo assobiar do vento e o rouco latido do cão
abandonado. Um ser que se volta para as marcas do tempo e, com elas,
redescobre sua ancestralidade, sonhos e percalços, com elas revive as
longas conversas e madrugadas que nunca se repetiam, mas que traziam
vontades e transformações.
106
PONTOS DE FUGA*
Algumas leituras nos são fundamentais, por nos situarem no tempo e no espaço e contribuírem para a nossa formação, não permitindo
que se faça na realidade o imaginário perverso, e nem o bestial na sensatez. Quantas já nos aliviaram a dor alma e nos livraram do sono letal
da ignorância, quando em imensas noites alimentaram as manhãs vindouras e os seguros passos de novas caminhadas.
Sobre elas, como bem o fez Hélio Pólvora no seu livro de ensaio ‘O
Espaço Interior‘ (Editora da Universidade do Mar e da Mata, 1999), depois de ensaiar sobre a literatura universal, dedicou um capítulo às suas
leituras e as de sua geração: ‘O que a minha geração leu’ – permitindo-nos um passeio saboroso pelo que há de mais diverso e importante na
literatura universal: “A minha geração leu muito. Claro, a tevê só chegou
quando éramos adultos. Para matar o tempo, que sempre resiste e acaba
nos matando, segundo a lição de Machado de Assis, tínhamos apenas
a Rádio Nacional, com os seus programas de auditório e dramatização
de romances e contos, à base de uma parafernália de efeitos especiais.
Sobrava tempo para leituras, devaneios. O livro foi companheiro diário,
amigo sem rosto e sobretudo amigo fiel”.
Tal exposição, ao mesmo tempo em que nos fala de um espaço
não muito longínquo, também nos dá a dimensão da formação de um
dos nossos maiores contistas do Brasil, quando revela as “Leituras ao
acaso, sem a ordem cronológica das escolas e dos movimentos literários”, nos mostrando a capacidade que cada indivíduo, pelas suas eleições, tem de autoformar-se, bastando apenas um despertar, para que o
mundo se faça inteiro e, irrepreensivelmente, nos dê as respostas que
tanto buscamos nesses dias tão atribulados.
A literatura universal está cheia de relatos das mais diversas “ex107
periências iniciáticas” como foi o caso de Jean-Paul Sartre, Simone de
Beauvoir, François Mauriac, todos eles, de alguma maneira, trazem lembranças agradáveis das primeiras leituras, quase sempre adquiridas na
infância, ao passo que avaliam o quanto elas foram fundamentais para
que eles chegassem onde chegaram.
Todos têm uma história para contar, apoiados que estão nas suas
experiência vividas e lidas, como é o caso do Escritor e Jornalista Inglês Graham Greene (Pontos de Fuga, Record, 1980), ao relatar magistralmente as suas leituras de mundo: Haiti, Vietnam, Praga, Paraguai,
Quênia, África, numa demonstração de que a precisão da vida está em
enfrentá-la.
Todos nós temos os nossos pontos de fuga, como no título de
Greene, quando incisivamente fixamos os nossos olhos para além do
horizonte empobrecido que nos maltrata. Talvez aí esteja a saída para
os nossos dramas, sem que precisemos de mártires, como as crianças
libanesas, os chorosos massacres da violência urbana, e tantos outros
que se perderam pelos Parques do mundo.
Por tudo isso é que eu me pergunto: o que a minha geração leu ou
está lendo, nesse exato momento? E os outros? De que motivação precisamos para começar a ler, para ensaiar o primeiro capítulos das nossa
experiências? Pode ser que, como muitos dizem, livro no Brasil seja coisa para elite, para ricos. Mas eu me pergunto, e as bibliotecas públicas? E
o esforço individual? E a experiência dos nossos grandes escritores que,
muitas vezes, por situações várias, tiveram de criar alternativas, lendo o
que lhes chegava às mãos, tomando emprestado, fazendo cooperativas,
criando salas de leitura.
Para quem quer começar, existem inúmeras maneiras e, talvez,
este texto seja um começo. Que tal conhecer Hélio Pólvora, Graham
Greene, Sartre, Hugo de Carvalho. Que tal fazer um passeio pela Grande Goiânia e conhecer as suas bibliotecas. Que tal escrever a sua própria
história.
* Título tomado de empréstimo a Graham Greene.
108
O QUE SABEMOS A RESPEITO
DE NÓS MESMOS
A luz, que para muitos pode cegar, torna-se essencial para outros,
já que enxergar é ir além do que a vista alcança, quando, ao traduzir o
visível, ampliamos o sentido das coisas e, com elas, compomos a alegoria da existência.
Tudo o que sabemos a respeito de nós, de algum modo, nos foi
dado a partir dos outros, a despeito de qualquer vontade nossa. Impressões que vão compondo os estereótipos do mundo, apesar de serem,
muitas vezes, rasas demais.
É bem certo que não sabemos quase nada, mas algumas respostas poderemos encontrar, quando passarmos a observar o mundo mais
detidamente, e isso, de certa forma, poderemos aprender com a arte,
bendito fruto dos nossos artistas, tributadores da nossa inexperiência,
do nosso convívio, das nossas diminutas percepções. São eles redesenhadores de um mundo que sempre quisemos e queremos, coberto de
humanidade.
Talvez jamais saibamos, embora necessitemos de um mínimo de
compreensão para suportarmos essa árdua caminhada, arrebatados que
estamos pelo mercado que nos segrega pela fúria de um capital que nos
diferencia, pelo abismo imposto por todas essas diferenças que a “modernidade” nos impõe.
Quantas obras literárias teremos de ler para que alcancemos uma
compreensão do que é humano, para saber que Quixotes são necessários à nossa sobrevivência, que as utopias alimentam a ilusão da nossa
perenidade e, que com elas, refazemos, a cada dia, os nossos moinhos
de vento?
109
De quantos Míchkin necessitaremos para humanizar o mundo?
De quantos Riobaldos para nos revelar a profunda geografia das nossas obtusas almas? Quantos Lorcas para nos dizer das agruras de uma
morte inocente? De Jivagos, laras, Kareninas, Bovarys, para sabermos o
quanto dói a perseguição, a calúnia, a ofensa e a maldade que, nos nossos dias, têm sido frequentes?
Tudo isso nos leva a refletir sobre o valor da arte, sobre as possibilidades que o artista tem para transformar as coisas. Tudo isso nos faz
crer na transformação do espírito, nas cores de um novo amanhecer.
Só a arte nos livra do tenebroso anoitecer da ignorância, só ela nos faz
avançar para além do que nos prende.
110
CRÔNICA, UMA TEORIA
1. O que é crônica?
O próprio nome já nos remete para um significado, porquanto crônica vem de Cronus deus do tempo, chegando para nós como uma
modalidade narrativa curta, de caráter pessoal e lírica. Primando por
recortes de realidade e abordando uma temática variada. Às vezes,
pode trabalhar com relatos do cotidiano, mas sempre iluminada pelo
toque especial do autor.
2. Existe uma estrutura para escrever uma crônica?
A crônica não deve ultrapassar “60 linhas”. Os parágrafos devem ser
curtos e bem estruturados; a linguagem deve ser expressiva e elegante.
3. Como se escreve uma crônica?
Como se escreve qualquer texto, o autor deve ter um conhecimento
do assunto a ser abordado, dominar o código linguístico e, acima de
tudo, primar pela clareza e objetividade.
4.Crônica: jornalismo ou literatura?
Pode-se considerar tanto jornalismo quanto literatura. Por ocupar
um espaço no jornal, constituindo material desse veículo e refletindo
as características desse espaço, a crônica é matéria jornalística “não
referencial”, primando, às vezes, pela coloquialidade e pelo aspecto
conotativo da linguagem. Literária por trazer em essência a percepção lírica do autor, portanto subjetiva, e a criatividade, de estrutura
curta, como o conto, embora desse se distanciando pela simplicidade
e fluidez.
111
5. Crônica: razão ou emoção?
Razão e emoção. Racionaliza-se ao projetar o texto, ao determinar
para que público ele se destina, ao estruturá-lo como feição estilística. Emoção pelo tema trabalhado, pela subjetividade do autor, pelos
elementos conotativos e pela expressividade da linguagem.
6. O que inspira uma crônica?
A vida em todos os seus aspectos: a mulher que passa, o olhar perdido e distante do oprimido, a desigualdade social, a incompreensão
humana, a solidão, a alegria etc.. a própria crônica.
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Este livro foi impresso na oficina da Asa Editora
Gráfica/ Kelps, no papel: Off-set LD 75g, composto
nas fontes Minion Pro corpo 11,5;
agosto, 2012
A revisão final desta obra é de responsabilidade do autor
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