Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.13, n.1, p.15-20, 2011
ISSN 1517-8595
CARACTERIZAÇÃO DE FRUTOS DE CINCO ACESSOS DE JUAZEIRO
(Zizyphus joazeiro Mart.)
Leirson Rodrigues da Silva1, Norma Danielle Silva Barreto1 , Patrício Ferreira Batista1,
Fernanda Aspázia Rodrigues de Araújo1, Patrícia Lígia Dantas de Morais2
RESUMO
A Caatinga nordestina apresenta riqueza diversificada em espécies vegetais. No entanto, a
potencialidade dessas espécies como fonte de nutrientes importantes para a dieta humana ainda
é pouco conhecida. Dentre essas espécies, se encontra o juazeiro. O presente trabalho teve como
objetivo avaliar as características físicas e físico-químicas de frutos de cinco acessos de
juazeiro. Os frutos, no estádio maduro, foram colhidos de plantas que compõem o bosque
existente no campus da UFERSA, Mossoró, RN, acondicionados em sacos plásticos e
transportados para o laboratório de Fisiologia Pós-colheita da UFERSA. Para a caracterização
do fruto realizaram-se as seguintes análises: massa fresca, comprimentos longitudinal e
transversal, DL/DT, firmeza da polpa, vitamina C, sólidos solúveis (SS), acidez titulável (AT),
pH e relação SS/AT. O delineamento experimental foi o inteiramente casualizado, com cinco
tratamentos e cinco repetições de 6 frutos para cada parcela. Os acessos avaliados apresentam
variabilidade para todos os caracteres estudados. Os acessos que apresentaram as melhores
características físicas de massa e firmeza foram J1 e J4, respectivamente. Os frutos do juazeiro
caracterizam-se como matéria-prima de grande potencial para aproveitamento comercial, tanto
para consumo in natura como para industrialização, apresentando elevados teores de vitamina C
e sólidos solúveis, além de alta relação SS/AT. Os acessos J1 e J5 se destacaram com maior
conteúdo de vitamina C apresentando-se com os maiores valores, que foram de 102,58 e 96,02
mg/100 g de polpa, respectivamente.
Palavras-chave: qualidade, vitamina C, sólidos solúveis, Caatinga
CHARACTERIZATION OF FIVE ACCESSIONS OF JUAZEIRO FRUIT
(Zizyphus joazeiro Mart.)
ABSTRACT
The Brazilian Caatinga vegetation presents a large variety of vegetal species. However, the
potentiality of these species as an important source of nutrients for human diet is still not
entirely known. Among these species, there is the juazeiro. The present work aims at evaluating
the physical and physicochemical properties of the fruit picked from five accesses of juazeiro.
The fruit, in its mature stage, was harvested from plants in the UFERSA campus’ forest area in
Mossoró-RN. The fruit was kept in plastic bags and transported to the laboratory of Postharvest
Physiology at UFERSA. In order to determine the fruit characterization, the following analyses
were done: fresh mass, longitudinal and transversal lengths, DL/DT, pulp firmness, vitamin C,
soluble solids (SS), titratable acidity (AT), pH and ratio SS/AT. The experimental design was
entirely randomized, with five treatments and five replications of 6 fruits for each part. The
evaluated accesses present variability for all studied characters. The accesses that exhibited the
best physical characteristics of mass and firmness were the J1 and the J4. The fruit of the
juazeiro is a raw material of enormous commercial potential for exploitation and in natura
consumption, with vitamin C content, soluble solids and high SS/AT relation. The J1 and J5, if
detached with larger vitamin C content, present 96.02; 102.58 and mg/100 g of pulp,
respectively.
Keywords: quality, vitamin C, soluble solids, Brazilian caatinga vegetation
Protocolo 103.040 23/09/2009
1
Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia, Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA), Mossoró-RN; e-mail:
[email protected]
2
Dra. e Professora Adjunta da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA), Mossoró, RN. E-mail: [email protected]
15
16
Caracterização de frutos de cinco acessos de juazeiro (Zizyphus joazeiro mart.)
INTRODUÇÃO
É grande o manancial de recursos
genéticos autóctones existentes no Brasil,
capazes de assegurar o uso sustentável do
potencial biótico e abiótico de forma vantajosa,
com o emprego consciente do capital
intelectual. Trata-se de um país que ostenta os
cinco principais biomas existentes em seus 851
milhões de hectares, o quinto maior em
extensão do globo terrestre, em que somente
para plantas, apresenta o montante de 55 mil
espécies, muitas delas endêmicas do País,
correspondendo a cerca de 21% do total
mundial catalogado. Isto eleva, sobremaneira, a
responsabilidade nacional pela manutenção e
uso sustentável desses recursos doados pela
natureza, principalmente para evitar a erosão
genética ou mesmo a extinção de espécies que
levaram séculos para serem criadas e
disponibilizadas para a população brasileira
(Villela-morales e Valois, 2000).
Por se tratar de um bioma, a caatinga
nordestina é classificada, por Giacometti (1993)
como um dos centros de diversidade 6NE/Caatinga, apresentando riqueza diversificada de espécies vegetais; no entanto, a
potencialidade dessas espécies como fonte de
nutrientes importante para dieta humana ainda é
muito pouco conhecida, mas existem muitas
populações de plantas da caatinga não
estudadas. Em função do desconhecimento
muito pouco de seus benefícios é aproveitado
pelo homem.
O juazeiro, Zizyphus joazeiro Mart.
(Rhamnaceae), é uma árvore brasileira típica
dos sertões nordestinos, endêmica da Caatinga
(Prado e Gibbs, 2003), apresenta grande
potencial econômico e relevância para a região
semiárida, podendo ser utilizada como
ornamental, na medicina popular, na fabricação
de cosméticos e na alimentação de animais,
principalmente nos períodos de seca. O fruto é
uma drupa globosa de coloração amarelo-pardo,
sendo comestível, doce e com elevados teores
de vitamina C (Lorenzi, 2000).
Apesar da grande utilidade a exploração
do juazeiro limita-se ao extrativismo e são
poucos os conhecimentos capazes de contribuir
para o desenvolvimento tecnológico da cultura
(Brito et al., 2005).
De acordo com Oliveira et al., (1999) os
aspectos físicos dos frutos referentes à
aparência externa, tamanho, forma e cor da
casca, constituem atributos de qualidade
importantes para comercialização dos frutos.
Silva et al.
Apesar disto, para as espécies do gênero
Zizyphus há poucas informações a este respeito.
As transformações físico-químicas dos
frutos ocorrem durante todo o processo de
maturação, afetando constituintes como ácidos,
amido, açúcares, vitamina C, e umidade, entre
outros. Referidas variáveis físico-químicas são
atributos
de
qualidade
dos
frutos
comercializados in natura, assim como, os
destinados ao processamento.
A acidez e os sólidos solúveis são as
variáveis que mais interessam à indústria de
processamento de frutos. Também são variáveis
que indicam o estádio de maturação fisiológica
dos mesmos (Chitarra e Chitarra, 2005). No
caso do juazeiro, não foi encontrada, na
literatura, qualquer informação sobre as
características físico-químicas dos frutos.
Em razão da escassez de estudos, no que
se refere à qualidade do juá, este trabalho teve
como objetivo avaliar as características físicas e
físico-químicas de frutos de cinco acessos de
juazeiro no município de Mossoró, RN.
MATERIAL E MÉTODOS
Avaliaram-se frutos de cinco acessos de
juazeiro, selecionados por apresentarem
características morfológicas distintas quanto à
presença de espinhos, frutos de maior tamanho
e formato das folhas, localizados na
Universidade Federal Rural do Semiárido/
UFERSA no município de Mossoró, RN, no
mês de abril de 2008. Os frutos foram colhidos
maduros, acondicionados em sacos plásticos e
transportados para o Laboratório de Fisiologia
Pós-Colheita da UFERSA; posteriormente, os
frutos foram descascados para a retirada do
endocarpo.
Os frutos foram avaliados quanto às
seguintes características físicas: massa total,
que
foi
obtida
utilizando-se balança
semianalítica; diâmetro longitudinal (DL),
transversal
(DT)
e
relação
DL/DT,
determinados com auxílio de paquímetro
manual e firmeza, determinada através de um
penetrômetro manual modelo Mc Cormick FT
327, com valor máximo de leitura 30 Ib/pol2 e
ponteira de 6 mm de diâmetro, quando foi
realizada uma leitura na porção basal do fruto.
Também foram avaliados, quanto às seguintes
características físico-químicas: sólidos solúveis
(SS), utilizando-se refratômetro digital, de
acordo com a metodologia da AOAC (2002) e
pH, utilizando-se potenciômetro, conforme
AOAC (2002); acidez titulável (AT), segundo
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Caracterização de frutos de cinco acessos de juazeiro (Zizyphus joazeiro mart.)
Instituto Adolfo Lutz (1985) e os resultados
expressos em % de ácido cítrico; relação
SS/AT, obtida por meio do quociente entre SS e
AT e vitamina C, de acordo com a metodologia
de Strohecker e Henning (1967).
O delineamento experimental empregado
foi o inteiramente casualizado com cinco
repetições. Os tratamentos consistiram de cinco
diferentes acessos (J1, J2, J3, J4 e J5). Os dados
obtidos foram submetidos à análise de variância
através do software Sisvar e as médias
comparadas pelo teste de Tukey, a 5% de
probabilidade.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Conforme a Tabela 1, a massa média dos
frutos diferiu entre os acessos avaliados, tendo
o J1 apresentado maior média (3,91g), seguido
do J2 (3,66g) que não diferiu estatisticamente.
A elevada massa do fruto é uma característica
bastante importante e está presente em todos os
acessos estudados indicando que esses são
promissores, tanto para o consumo in natura
como para industrialização. Sabe-se que a
massa do fruto é uma característica relevante
para o mercado de frutas frescas, já que os
frutos são comercializados por massa; além
disso, os frutos mais pesados são também os de
maior tamanho, tornando-se mais atrativos para
os consumidores. Segundo Carvalho (1994),
vários fatores podem alterar a massa dos frutos,
entre eles o estádio de maturação em que os
frutos foram colhidos.
Observou-se diferença significativa entre
os acessos avaliados para os diâmetros
longitudinal e transversal dos frutos. Para o
diâmetro longitudinal, os frutos do acesso J1
apresentaram maior valor; entretanto, não
diferiram estatisticamente dos genótipos J3 e
J4. Os valores médios encontrados variaram de
15,54 a 16,34 mm (Tabela 1), resultados que
indicam que os frutos desse estudo são menores
que os encontrados por Silva e Matos (1998),
que apresentaram valores de 17 a 23 mm de
comprimento. Para o diâmetro transversal do
fruto foram encontrados valores entre 18,16 a
19,94 mm dentro, portanto, da faixa dos
encontrados por Silva e Matos (1998), de 19 a
26 mm.
Silva et al.
17
O acesso J3 tem valor médio estatísticamente superior ao dos demais acessos quanto
à relação diâmetro longitudinal e transversal,
sendo, portanto,
considerado o mais
arredondado (Tabela 1). Esta relação é
indicadora do formato do fruto, que é mais
arredondado sempre que este quociente se
aproxima de 1,0. As indústrias dão maior
preferência aos frutos arredondados, por
facilitarem as operações de limpeza e o
processamento (Chitarra e Chitarra, 2005).
A firmeza do fruto diferiu entre os
acessos avaliados, apresentando variação entre
23,02 a 30,24 N, com média geral de
aproximadamente 26,64 N. O acesso J4
apresentou maior valor médio de firmeza mas
não diferiu estatisticamente do acesso J3
(Tabela 1). Esses valores demonstram que os
frutos de juazeiro dos diferentes acessos
poderão ter uma vida útil pós-colheita maior, de
acordo com a maior resistência, resultante da
maior firmeza do fruto que os mesmos possuem
contra danos físicos e/ou mecânicos. A firmeza
do fruto, apesar de ser um atributo físico, está
relacionada com a solubilização de substâncias
pécticas as quais, segundo Chitarra e Chitarra
(2005), quando em grande quantidade,
conferem textura macia aos frutos. Frutos
considerados com boa conservação, como os
melões Amarelos, apresentam valores elevados
para firmeza do fruto (Paiva et al., 2003).
Para os sólidos solúveis todos os acessos
apresentaram valores acima do estabelecido
pela legislação vigente, que define o padrão de
identidade e qualidade (PIQ) de qualquer
produto de origem vegetal e estabelece
parâmetros de classificação e padronização de
polpas (Brasil, 1999). O acesso J5 foi o que
apresentou menor conteúdo de sólidos solúveis
(13,55%), que não diferiu estatisticamente do
acesso J4 (Tabela 2). Os valores de sólidos
solúveis constatados para juá foram superiores
aos encontrados para fruto de umbuzeiro
(10,10%) por Costa et al., (2004) e umbu-cajá
(11,25%) por Lima et al., (2002).
Considerando-se esta variável, todos os frutos
dos acessos estudados são propícios para a
produção de sucos pois, segundo Lima et al.,
(2002), frutos destinados a este fim tecnológico
devem possuir valores de SS superiores a 8%.
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Caracterização de frutos de cinco acessos de juazeiro (Zizyphus joazeiro mart.)
Silva et al.
Tabela 1. Massa do fruto (g), diâmetro longitudinal (DL) e transversal (DT), relação DL/DT e
firmeza em diferentes acessos (J) de juazeiro, UFERSA, 2008
Genótipos
DL (mm)
DT (mm)
DL/DT
Massa do
fruto (g)
Firmeza
(N)
J1
16,34 a
19,94 a
0,82 b
3,91 a
23,02 c
J2
15,59 b
19,26 ab
0,80 b
3,66 ab
25,33 bc
J3
16,34 a
17,91 c
0,91 a
3,33 bc
29,22 ab
J4
15,72 ab
19,01 abc
0,82 b
3,50 bc
30,24 a
J5
15,54 b
18,16 bc
0,85 b
3,19 c
25,39 bc
2,06
3,12
3,50
5,72
7,90
C.V (%)
Médias seguidas de mesma letra nas colunas não diferem significativamente pelo teste de Tukey a nível de 5% de
probabilidade
Quanto à acidez titulável não houve
diferença significativa entre os acessos
estudados, apresentando valores entre 0,120,14% de ácido cítrico. Os valores de pH
observados foram bem elevados, tendo o
acesso J2 se destacado com a maior média
(Tabela 2). Esses valores foram próximos aos
constatados por Albuquerque et al., (2007) em
melão, cuja variação foi de 5,99 a 6,12.
A relação SS/AT propicia boa avaliação
do sabor dos frutos, sendo mais representativa
do que a medição isolada de açúcares e de
acidez (Pinto et al., 2003). Os acessos não
apresentaram diferença significativa para esta
variável, atingindo o valor médio de 132,24.
Estes valores foram maiores que os
apresentados por Fonseca et al., (2003) para
carambola. Esta alta relação SS/AT é uma
característica de qualidade desejável pelos
consumidores pois propicia sabor agradável ao
paladar.
Tabela 2. Sólidos solúveis (%), vitamina C (mg/100g de polpa), acidez titulável (% de ácido cítrico),
relação SS/AT e pH de diferentes acessos (J) de juazeiro, UFERSA, 2008
Genótipos
Vitamina C
AT (%)
18,16 a
102,58 a
0,12 a
145,25 a
6,45 b
J2
19,52 a
67,16 b
0,13 a
152,99 a
6,89 a
J3
19,52 a
65,78 b
0,13 a
151,08 a
6,46 b
J4
16,16 ab
77,28 b
0,14 a
112,98 a
5,65 c
J5
13,55 b
96,02 a
0,13 a
98,89 a
5,87 c
C.V (%)
11,94
8,15
17,33
23,70
2,80
J1
SS (%)
SS/AT
pH
Médias seguidas de mesma letra nas colunas não diferem significativamente pelo teste de Tukey a nível de 5% de
probabilidade
Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.13, n.1, p.15-20, 2011
Caracterização de frutos de cinco acessos de juazeiro (Zizyphus joazeiro mart.)
Os acessos J1 e J5 não apresentaram
diferença significativa para o conteúdo de
vitamina C, destacando-se com os maiores
valores, que foram de 102,58 e 96,02 mg/100 g
de polpa, respectivamente (Tabela 2). Esses
teores de vitamina C são considerados elevados
para frutos, sendo semelhantes ao observado
por Bueno et al., (2002) para goiaba, que é
considerado um fruto com elevados teores de
vitamina C.
CONCLUSÕES
Os acessos avaliados apresentam
variabilidade para todos os caracteres
estudados, possibilitando a seleção de matrizes
promissoras, para implantação de pomares
comerciais. Os juás que apresentaram as
melhores características físicas de massa e
firmeza, respectivamente, tanto para consumo
in natura como para processamento
agroindustrial, são os provenientes dos acessos
J1 e J4.
Os frutos de juazeiro se caracterizam
como matéria-prima de grande potencial para
aproveitamento comercial, tanto para o
consumo in natura como para industrialização,
apresentando elevados teores de vitamina C e
sólidos solúveis, além de alta relação sólidos
solúveis/acidez titulável. Os acessos J1 e J5 se
destacaram com maior conteúdo de vitamina C.
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