Projeto de Identidade Visual para os grupos PET-UFPEL Projeto de Identidade Visual para os grupos PETUFPEL Visual identity design for the PET-UFPEL groups PITHAN, Flávia Ataide; Doutora; Universidade Federal do Rio Grande do Sul [email protected] ALMEIDA, Henrique Rockenbach; aluno do curso de Design Gráfico da Universidade Federal de Pelotas. [email protected] DACOL, Ana Maria. Graduada em Design Gráfico pela Universidade Federal de Pelotas [email protected] MARCHESE, Carolina Moraes; Graduada em Design Gráfico pela Universidade Federal de Pelotas [email protected] Resumo Este artigo apresenta as etapas metodológicas percorridas para desenvolvimento de uma Identidade Visual para os grupos PET-UFPEL. O resultado foi embasado por pesquisa bibliográfica sobre conceitos do design, identidade visual e metodologia projetual. Os grupos - que não possuíam um sistema de identificação - agora contam com uma proposta de identidade visual coerente e estruturada, desenvolvida com foco nas necessidades de valorização e concretização do programa. O projeto foi apresentado aos grupos PET da instituição e aprovado. Palavras Chave: identidade visual; grupos PET-UFPEL; metodologia. Abstract This paper presents the methodological steps followed to develop a visual identity for the UFPEL-PET groups. The result has been always based on the literature about concepts of the design, the branding and of the project methodology. The groups – that has no a identity system - now have a proposal of coherent and structured visual identity, developed to valorize and to reinforce the program proposals. The project has been shown to the PET groups of the institution and has been approved. Keywords: visual identity; PET-UFPEL groups; methodology A demanda A necessidade de uma Identidade Visual para os grupos PET da UFPEL foi detectada por dois bolsistas do programa vinculados ao curso de Artes Visuais - Design Gráfico. A DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º CONGRESSO NACIONAL DE DESIGN Projeto de Identidade Visual para os grupos PET-UFPEL princípio esta inversão, já que o corriqueiro na profissão é que “um cliente” solicite o projeto para um designer, tornou o projeto desafiador desde o primeiro instante. Torne-se ainda mais difícil trabalhar a partir da proposta do projetista, ao invés de trabalhar “suprindo a demanda do cliente”, de acordo com o que geralmente acontece na área. Em outras palavras, se já é bastante difícil conseguir valorizar o design quando existe a solicitação de um projeto pelo cliente, torna-se ainda mais desafiador trabalhar com a concepção inversa: o profissional identificar uma demanda e apontar a necessidade do projeto. Ao longo do texto evidenciam-se as ações executadas para convencer “o cliente1” da necessidade do projeto. Neste caso, “o cliente” também foi um fator complicador do mesmo, pois se estava tratando com vários grupos diferentes, de cursos de graduação diferentes e que por sua vez são geridos por tutores diferentes e compostos por estudantes diferentes. Voltarse-á a este ponto mais adiante. Importante aqui é ressaltar que atitudes profissionais análogas ao que se propôs com o projeto são importantes para evoluir o design em âmbito nacional e buscar definitivamente o reconhecimento frente à sociedade. Alexandre Wollner, um dos mais antigos designers do Brasil por formação, graduado pela Escola de Ulm, trabalha com esta ideia, mas alerta sobre a atitude reprovável de algumas agências ou de alguns designers que, com o intuito de ganhar concorrências, apresentam os projetos já prontos aos clientes. Para ele, é importante que o designer sugira ao cliente sua necessidade, podendo o mesmo acatar ou não a proposta. Nas palavras do próprio Wollner, citado por Stolarski (2005), “posso dizer o que é bom fazer, o cliente pode concordar e eu posso dizer quanto custa. Mas oferecer um trabalho pronto é antiprofissional” (p. 65). De acordo com esta ideia, os alunos do curso de Artes Visuais com habilitação em Design Gráfico identificaram a necessidade de uma identidade visual para o programa e elaboraram uma apresentação/proposta para o desenvolvimento do projeto. Os grupos discutiram a proposta em reunião deliberativa entre todos os grupos e concordaram com a criação do projeto. Até este momento existiam apenas nove cursos participantes do programa. Os últimos dois grupos, Ciência da Computação e Engenharia Hídrica, foram criados ao longo do andamento do projeto. O briefing Na etapa de aplicação do briefing, junto a cada um dos nove cursos de graduação – que já possuíam bolsistas atrelados ao Programa de Educação Tutorial na época da execução desta etapa – foram coletadas as mesmas informações conforme se descreve a seguir. Vale salientar que no decorrer do desenvolvimento deste projeto de pesquisa, mais dois novos cursos de graduação vincularam-se ao PET, já apontando possivelmente para a necessidade de uma Identidade Visual que não esteja atrelada aos cursos e sim ao programa em si. Em primeiro lugar, a pergunta aos grupos foi sobre quais objetivos gostariam de contemplar com a Identidade Visual. Posteriormente investigou-se sobre os tipos de atividades realizadas pelos grupos. As questões seguintes foram: - Quais características positivas e negativas vocês identificam no seu grupo? - Com qual tipo de público o grupo costuma tratar? - Como é a relação do grupo com a comunidade acadêmica do curso ao qual está vinculado? - Valores a serem explorados e valores a serem evitados. 1 Utiliza-se a palavra cliente por não encontrar um termo mais apropriado para designar aquele que encomendaria o projeto ou aquele para quem o projeto seria necessário, que não o público-alvo. Assim, sempre que esta palavra aparecer no texto entre aspas é porque se refere aos 11 grupos PET-UFPEL envolvidos. DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º CONGRESSO NACIONAL DE DESIGN Projeto de Identidade Visual para os grupos PET-UFPEL Ao final, pediu-se todo o material disponível (arquivos, impressos, CDs, etc) com a Identidade Visual de cada grupo para futuras análises. Também foram pedidas sugestões caso o grupo as tivesse. A partir das respostas ao briefing, algumas definições iniciais foram possíveis. Esta etapa foi mais complexa do que normalmente seria, pois como já citado anteriormente são vários grupos para atender e será preciso contemplar as necessidades de todos. Tarefa bastante mais complexa do que se fosse um único cliente. Em outras palavras, o “cliente” com o qual se está tratando é múltiplo, plural. É sempre mais difícil convencer e satisfazer um número maior de pessoas. De um modo geral, todos os grupos evidenciaram a importância da Identidade Visual transmitir a ideologia com a qual o programa trabalha: a indissociabilidade entre Ensino, Pesquisa e Extensão, visando suprir carências e necessidades advindas dos cursos de graduação. A preocupação foi, portanto, um ponto unânime. Além disso, ficou óbvio o desejo de uma maior integração entre os grupos, valorizando o Programa e aumentando o reconhecimento do mesmo frente à Universidade. Essas questões foram ratificadas pelas próprias atividades desenvolvidas pelos bolsistas, que vão desde a proposição e execução de projetos de pesquisa, até a organização de cursos e oficinas e até mesmo participações em congressos e visitas técnicas. Os grupos possuem públicos variados, abrangendo a comunidade externa, os alunos da graduação e pós-graduação e segmentos mais específicos da sociedade para cada grupo conforme sua área de atuação, como por exemplo, a comunidade rural para os grupos da Engenharia Agrícola e Agronomia, e estudantes de ensino básico e médio, para os grupos dos cursos de Física e Pedagogia. Para a maioria dos bolsistas, a relação com os alunos está melhorando gradativamente, talvez como resultado de suas atuações ao longo da existência do programa e de um modo geral os professores tutores apóiam as atividades propostas pelos bolsistas. Resumidamente, os valores a serem explorados na Identidade Visual são: a diversidade (não só em relação às atividades, mas também aos projetos e aos diferentes alunos e se acrescentaria aqui também a diversidade de cursos envolvidos), a integração, a autonomia (os grupos valorizam a autonomia permitida em relação à unidade ao qual estão vinculados), o comprometimento e a credibilidade (características associadas a um comportamento conquistado através de atitudes responsáveis e maduras). As características a serem evitadas são, principalmente, a desorganização e instabilidade (já que existe uma grande rotatividade de bolsistas, por vezes não dando continuidade às atividades programadas). O ponto forte foi em relação aos valores a serem evitados, onde a maioria dos grupos referiu-se a uma característica seguidamente associada ao Programa: de o mesmo ser elitista. Os grupos julgam esta associação negativa e os alunos vinculados ao PET acreditam que esta discriminação denigre a imagem do Programa. A análise de dados A etapa da análise tratou dos atuais símbolos e logotipos utilizados pelos grupos PET, através de uma reflexão acerca dos aspectos sintáticos, semânticos e pragmáticos, com o objetivo de verificar sua adequação comunicacional, conforme proposta de Niemeyer (2007) apoiada pelos novos fundamentos do design (LUPTON; PHILLIPS, 2008). Torna-se a frisar que uma identidade visual bem estruturada e concisa facilita o reconhecimento de uma instituição e auxilia na valorização desta como uma entidade organizada e engajada em seus objetivos. Para a realização desta etapa, utilizou-se o material recolhido no briefing, o qual contempla as marcas atuais dos grupos e as aplicações dessas em diversos meios. Acredita-se DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º CONGRESSO NACIONAL DE DESIGN Projeto de Identidade Visual para os grupos PET-UFPEL que antes de passar ao Processo de Design, especificamente, é necessário construir uma base de conhecimento sólida, a qual será a responsável pela filosofia do projeto (FUENTES, 2006) e possibilitará um repertório suficiente para o momento da criação. A falta de embasamento dos projetos em design é apontada por diversos autores como a principal causa de fracasso dos mesmos. Daí a importância e a necessidade de trabalhados desenvolvidos sob alicerces sólidos e já consagrados metodologicamente na área. A metodologia do design tem por objetivo aumentar o conhecimento das coisas e dar maior sustentação ao ato criativo, permitindo ampliar os pontos de vista sobre um determinado problema, aumentando o seu conhecimento e facilitando uma perspectiva global até a sua resolução (FUENTES, 2006, p. 15). Sendo assim, foi realizado o processo de análise das marcas de cada grupo PET da UFPEL, buscando descobrir os significados dos elementos visuais presentes, além de analisar as características relacionadas à linguagem visual (DONDIS, 2003; NEWARK, 2009), juntando, assim, elementos para a criação da nova marca. As análises foram embasadas por pesquisas bibliográficas acerca de leis e teorias da percepção visual, bem como conceitos semióticos. Em um primeiro momento foram realizadas análises individuais, para cada marca de cada grupo PET, o que não caberia expor aqui pela própria extensão do artigo. Em um segundo momento, foi realizada uma análise geral destacando características encontradas em todas as análises e que será mostrada no presente artigo. FIGURA 1: marcas utilizadas pelos grupos PET-UFPEL A partir desta amostra verificou-se uma grande variação visual em decorrência da diversidade de cursos e áreas pertencentes ao Programa de Educação Tutorial da UFPEL. A análise geral foi feita levando em consideração o contexto, os objetivos da mensagem visual apresentada e a expectativa dos receptores. Quando se trata de identidade visual, a otimização de determinadas características visuais determina a maneira como o observador perceberá e compreenderá a mensagem. A DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º CONGRESSO NACIONAL DE DESIGN Projeto de Identidade Visual para os grupos PET-UFPEL clareza de informações é importante para que ocorra a identificação por parte do observador, o qual faz observações e associações através das cores, da hierarquia das mensagens, da tipografia, dos símbolos utilizados, do estilo da linguagem visual empregada. Com relação às construções das marcas apresentadas, constatou-se que a maioria procura utilizar associações entre imagem e texto. Além disso, as imagens estão mais associadas às especificidades dos cursos em questão do que ao Programa, o que se julga não ser o ideal pelas questões já expostas ao longo do texto. Não são enfatizadas as representações simbólicas do tripé que rege as atividades do PET – pesquisa, ensino e extensão. Este é um ponto crucial, visto que todos os grupos ressaltaram a importância deste ponto. No âmbito da informação textual, as marcas dos grupos apresentam divergências entre elas. Não há uma unidade no que se refere à identificação da sigla PET: alguns grupos utilizam a sigla com inicial P em caixa-alta e a restante da sigla em caixa baixa. Isso descaracteriza a sigla que significa Programa de Educação Tutorial, tornando-a suscetível a confusões com termos que possuem a mesma grafia como, por exemplo, “pet shop” ou “garrafa pet”. Em relação à tipografia, há uma grande variação desta em uma mesma marca, quando aplicada em diversos meios (impresso, eletrônico, etc.). A conseqüência é que com decorrer do tempo se perde a referencia inicial dessa marca e a identificação pelo receptor que deve ser rápida acaba prejudicada. Outro fator crítico é a falta de hierarquia nas informações contidas nas marcas, referentes ao nome do curso, à sigla PET e aos símbolos, o que influencia a percepção e conseqüentemente a compreensão da totalidade da mensagem. “Qualquer que seja a abordagem, a hierarquia emprega marcas claras de separação para sinalizar a mudança de um nível a outro” (LUPTON, 2008, p.115). Esse é um dos mais importantes elementos da linguagem visual e, portanto, merece ser bastante pensado (DONDIS, 2003). Com relação à aplicação das marcas em diversos meios e às questões técnicas, notouse uma despreocupação estético-formal e técnica. Algumas situações encontradas foram: utilização da marca em pequena escala comprometendo assim a visibilidade da informação; distorção das imagens com relação à dimensão da marca; utilização de imagem em baixa resolução, alterações da diagramação dos elementos, estilos visuais alterados, etc. Isso tudo aponta para a necessidade de um manual de identidade visual, tornando a aplicação dessas marcas sistemática, de forma que obedeçam às leis construtivas definidas pelo profissional habilitado, responsável pelo projeto. A análise aqui apresentada possibilita um conhecimento maior sobre os problemas comunicacionais das atuais identidades visuais dos grupos. Através dela pode-se confirmar a necessidade do desenvolvimento de uma nova identidade que contemple os aspectos conceituais dos grupos PET- UFPEL de forma coesa e coerente. Educando “os clientes” Após o desenvolvimento das análises, julgou-se indispensável realizar uma nova reunião com os grupos, o que foi feito de um a um. Durante a reunião foram mostrados para cada grupo os pontos deficientes da sua marca. Após, foi apresentada a análise geral já descrita neste texto. Nas reuniões, novas discussões bastante profícuas ocorreram com os grupos, acrescentando maiores informações ao projeto e fornecendo ainda maiores subsídios para uma criação bem embasada. Pode-se dizer que este momento funcionou como um reforço ao briefing e também como uma forma de educar “o cliente”, pois as apresentações foram cuidadosamente desenvolvidas a partir de muito referencial teórico do design. DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º CONGRESSO NACIONAL DE DESIGN Projeto de Identidade Visual para os grupos PET-UFPEL Além disso, alertou-se para o fato de que a existência de diferentes marcas para cada grupo, não contribuía para o primeiro reconhecimento desejável do grupo: a identificação visual. O projeto tomou força e o objetivo passou a ser de que a criação da Identidade Visual não constitua somente uma mudança estética e superficial, mas sim um catalisador para um desenvolvimento e uma evolução dos grupos, divulgando a filosofia e importância do trabalho dos bolsistas e também do próprio Programa de Educação Tutorial para a qualificação dos cursos de graduação e do ensino de uma maneira ampla. Os grupos mostraram-se bastante convencidos quanto ao trabalho que estava sendo desenvolvido e também bastante curiosos em relação ao resultado. Valendo-se disso, tornouse clara a necessidade da criação de uma marca capaz de gerir não só a identificação, mas também representar e fortalecer as características organizacionais dos grupos. Gerando alternativas Com base em todas as etapas já desenvolvidas, partiu-se para a geração de alternativas. De acordo Löbach (2001), esta etapa consiste na “produção de ideias baseandose nas análises realizadas. Nesta fase de produção de ideias a mente precisa trabalhar livremente, sem restrições para geram a maior quantidade possível de alternativas (p. 150). Vários rafes foram feitos, conforme mostra a Figura 2, sempre considerando os valores e conceitos desejados pelos grupos para representação na marca. Figura 2: alguns rafes produzidos livremente pelo grupo de trabalho Uma das pistas para a solução final foi a ideia de explorar a tríplice finalidade do Programa (ensino, pesquisa e extensão), pois foi talvez a característica que mais apareceu nos rafes, sendo bastante explorada por todos do grupo de pesquisa/criação. Dessa forma, ficou evidente um possível direcionamento para a proposta de identidade visual, que deveria estabelecer uma relação direta com as três dimensões. Outra decisão direcionou ainda mais a solução para uma exploração tipográfica, já que algumas ideias revelaram esse viés, como mostra a Figura 3. DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º CONGRESSO NACIONAL DE DESIGN Projeto de Identidade Visual para os grupos PET-UFPEL Figura 3: alguns rafes produzidos pelo grupo de trabalho com exploração tipográfica Outro conceito explorado foi a utilização de módulos. Com base no trabalho do grupo Total Design, de Amsterdam, para a empresa Furness, apresentado na Figura 4, definiu-se que uma solução similar conseguiria agregar à marca a ideia de vários grupos dentro de um mesmo programa, vários cursos diferentes com as mesmas atividades e objetivos, ou seja, a diversidade das áreas dentro da unidade do Programa de Educação Tutorial. Figura 4: marca da Furness desenvolvida pelo grupo Total Design Fonte: Hollis, 2000, p. 203 DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º CONGRESSO NACIONAL DE DESIGN Projeto de Identidade Visual para os grupos PET-UFPEL A solução final Depois de ter todas as diretrizes definidas para serem seguidas, o grupo juntou e discutiu ideias ao longo de algumas semanas e chegou na proposta final para a identidade visual, a qual uniu a característica da tríplice finalidade do programa com a busca por um símbolo baseado em tipografia, trabalhando junto a isso a concepção de módulos (que seriam os grupos) que formariam o todo (PET). A proposta para o símbolo (Figura 5) foi a de ter uma especificidade para cada curso ou gerar uma abstração a partir das iniciais de cada curso. Com essa abstração se buscou que não gerasse algo completamente diferente de grupo para grupo, pois se queria diferenciar os grupos, mas ao mesmo tempo não descaracterizar a identidade para todo o Programa. Característica bastante desafiadora, porque a princípio paradoxal: buscar a diferença na semelhança e a unidade a partir da diversidade. Além disso, como novos grupos ainda podem surgir, a proposta do símbolo pensado pelo grupo deveria permitir que um novo símbolo fosse gerado facilmente, apenas seguindo as especificações que poderão ser encontradas no manual de identidade visual. Figura 5: símbolos em módulos triangulares baseados em tipografia Após ter definido o símbolo, uma tipografia foi projetada exclusivamente para a aplicação na identidade visual. A parte interna do “P” desta tipografia serviu de base para o símbolo, por ser uma forma dinâmica, que passa a ideia de um balão de comunicação. Definiu-se que quando sigla, no caso para PET e para UFPEL, os tipos devem aparecer em caixa alta e que quando palavra os tipos devem alternar entre caixa alta e caixa baixa. As cores empregadas seguem o padrão cromático por área de conhecimento, apenas usando tons diferentes das cores, cores essas definidas em documentos que explicam como organizar cerimoniais de formaturas de curso superior. A solução final é apresentada na Figura 6. DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º CONGRESSO NACIONAL DE DESIGN Projeto de Identidade Visual para os grupos PET-UFPEL Figura 6: solução final para o logotipo dos grupos A solução do grupo de trabalho foi apresentada aos demais grupos PET da UFPEL em reunião com todos os grupos denominada InterPET, no dia 8 de outubro de 2010. Todos os grupos acusaram um alto índice de aprovação, com exceção do grupo da Agronomia, o qual julgou a solução muito racional e exata para se encaixar “à natureza do curso”. Apesar dessa resistência inicial por parte da Agronomia, julgou-se que esse grupo possivelmente possa adotar a solução no futuro, pois se julgou que a esse comportamento está atrelado ao apego que os integrantes possuem com a antiga marca, a qual apresenta uma solução com características visuais quase que opostas às novas características propostas. A solução será entregue a cada um dos grupos (os quais já fizeram a solicitação) em mídia digital. Deverão ser disponibilizados o manual de identidade visual - apresentando a marca, seus dados construtivos e suas aplicações – bem como os arquivos digitais necessários para a correta, exata e fácil aplicação da mesma. Discussão sobre o processo Torna-se relevante perceber que o desenvolvimento do projeto não seguiu etapas metodológicas propostas por um único autor. De modo geral, seguiram-se as etapas imprescindíveis em qualquer projeto de design, com base em autores consagrados como Redig (1983), Fuentes (2006), Wollner (2003) e Bonsiepe (1983). Partiu-se de um problema (apresentado no artigo em “demanda”) para se chegar a uma solução final. Joaquim Redig, um dos pioneiros da profissão no Brasil, já definia o design como uma relação de dependência com o projetar. Para ele, design é um “trabalho que, através de uma seqüência definida de etapas, parte de um objetivo (necessidade) para chegar a um objeto (forma)” (REDIG, 1983, p. 52). No caso do projeto apresentado, chegou-se a um objeto visual, que é a identidade visual para os grupos PET da UFPEL. Pode-se perceber, analisando as propostas de Wollner (2003) e Strunck (2001) citadas resumidamente a seguir, que o projeto percorreu uma metodologia apoiada nas mesmas etapas cruciais propostas pelos autores. De acordo com Wollner (2003), o processo de design se dá em quatro estágios: levantamento de informação, análise de fatos relevantes, hipóteses com base na análise dos fatos e, por último, a verificação das hipóteses. Para ele, é importante a [...] capacidade do designer de chegar a conclusões baseadas nos fatos. Perceber as novas relações entre o que ele conhece e o que acredita que pode servir à DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º CONGRESSO NACIONAL DE DESIGN Projeto de Identidade Visual para os grupos PET-UFPEL comunidade, produzindo o design que mais bem se adapte às constantes mudanças de situações e necessidades (WOLLNER, 2003, p. 87). Strunck (2001) também defende o número de quatro etapas gerais para o desenvolvimento de um projeto. Na fase de definições, realiza-se o briefing2 com o cliente, são feitas as pesquisas necessárias (concorrência, perfil público-alvo), pode ser usada a técnica do brainstorming3 para geração de ideias, define-se a qualidade final desejada, o orçamento, entre outras coisas. Na fase de criação executam-se vários rafes4, estudam-se leiautes, faz-se a diagramação das ilustrações, fotos, esquemas e textos e finalmente parte-se para as definições de cores, tipografia e outros elementos visuais, sempre considerando os aspectos ergonômicos, ecológicos, sociais e tecnológicos envolvidos. Na fase de finalização, após aprovação do cliente, faz-se o fechamento de arquivos, as revisões finais, a escolha das cores nas tabelas (CMYK5 ou pantone6). Na última fase, da produção gráfica, ocorre a produção das peças: fotolitos, provas, impressão. O projeto passou primeiramente pela etapa de definições (briefing, análise de dados e amadurecimento de conceitos através da apresentação de informações para os grupos PET durante reuniões individuais com cada grupo, conforme apresenta este artigo em “educando os clientes”). O briefing foi realizado de forma cuidadosa e as discussões sobre o mesmo no grupo de trabalho foram exaustivas, para que nenhuma informação passasse despercebida e nenhum desejo dos “clientes” fosse negligenciado. Tomou-se como inspiração a frase do pedagogo norte-americano John Dewey, para o qual “50% do problema está resolvido quando bem identificado”. Foi dessa forma que as características e os conceitos a serem incluídos na marca foram eficientemente definidos. Através da análise dos dados, foi possível elencar pontos importantes para que a marca suprisse todas as necessidades dos grupos PET já existentes e também de futuros grupos que poderiam e podem surgir, conforme mostrou este artigo no tópico anterior. Pensamento similar é defendido por Bonsiepe (1983), o qual evidencia que a “metodologia não tem finalidade em si mesmo! É só uma ajuda no processo projetual” (p. 34). Ele estrutura então os problemas a serem desenvolvidos através de uma situação inicial dada, a qual passará por um processo de transformação, chegando a uma situação final. Ele evidencia que quanto mais bem definida esteja a situação inicial, melhor será o resultado na situação final. Posteriormente o projeto partiu para a etapa de criação, através de diversas reuniões com o grupo de trabalho para geração de alternativas, discussões sobre as ideias surgidas, amadurecimento de ideias e nova geração de alternativas e assim diversas vezes sucessivamente até se chegar a uma proposta considerada apropriada por todo o grupo de trabalho. Então, por último, partiu-se para a etapa de finalização do projeto, onde após a definição da solução final a mesma foi apresentada em reunião com todos os grupos PET e defendida em seus aspectos formais e conceituais, tendo sido aprovada. O quesito tempo para o desenvolvimento da identidade visual foi considerado relevante, tendo em vista que não se tinha um prazo rígido, o projeto foi gradativamente 2 São informações e referências fornecidas pelo cliente sobre o produto ou objeto a ser projetado, seu mercado e objetivos. É uma técnica de grupo utilizada para a geração de ideias, baseada em discussões com o objetivo de determinar associações sobre um problema proposto. 4 Forma aportuguesada de rough, que significa um rascunho, utilizado na primeira fase de estudos por um designer, o qual vem antes do leiaute e da arte final. 5 Padrão de cores utilizado para impressão, configurado a partir das 4 cores: c = ciano, m = magenta, y = amarelo e k = Black. Optou-se por representar o preto com o k para não ser confundido com blue. 6 Tabela universal de cores a qual associa cada tonalidade de cor a um código, sendo um dos padrões de cores mais utilizado em artes gráficas como referência para impressão. 3 DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º CONGRESSO NACIONAL DE DESIGN Projeto de Identidade Visual para os grupos PET-UFPEL amadurecendo e dessa forma chegando-se a uma solução ideal. Atualmente, diante dos prazos curtos exigidos pelas agências e escritórios de design, devido à grande concorrência, este aspecto foi um privilégio, que não condiz com a realidade do mercado de trabalho. Encerra-se essa discussão com o pensamento de Villas-Boas (2003) relacionado à atividade projetual. Para ele, o designer “coteja requisitos e restrições, gera e seleciona alternativas, define e hierarquiza critérios de avaliação e engendra um produto que é a materialização da satisfação de necessidades humanas através de uma configuração e de uma conformação palpável” (p. 22). Foi o que o projeto perseguiu durante todo o processo tendo alcançado um resultado relevante. Resultados Este artigo apresentou todas as etapas realizadas para o desenvolvimento de uma Identidade Visual para os grupos PET da UFPEL, considerando o aporte teórico necessário e desejável para projetos desta envergadura. Projetos assim são extremamente relevantes para a consolidação da profissão. São importantes, em primeiro lugar, porque incentivam aos alunos: que saem da graduação com uma postura pró-ativa, engajada e solidificada teoricamente. Mais, experiências como esta permitem o contato com a prática de projetos, tornando o aluno um profissional apto a encarar o mercado de trabalho com maior preparo, experiência e maturidade. Atribuições só compreendidas a partir da observação e emprego de uma base metodológica já consagrada do design, ratificando que a profissão não é tão prática como acreditavam (ou ainda acreditam) alguns profissionais formados há décadas atrás ou alguns leigos que atuam como designers, em outras palavras, ratificando que a teoria é tão importante quanto a experiência e é através da teoria e da pesquisa que o design conseguirá evoluir neste país. Para isso é crucial oferecer cursos de graduação diferenciados, que proporcionem ao aluno uma formação crítica. Sabe-se que isso não é o mais comum e que experiências com projetos como o apresentado ainda são numericamente tímidas. São importantes, em segundo lugar, porque ajudam a disseminar a importância da profissão – ainda não amplamente reconhecida – através de discussões com outras áreas. No Brasil, infelizmente, o design [...] ainda não possui o mesmo poder de transformação que o Desenho alemão teve na reconstrução de uma nação, que, por duas vezes, sucumbiu à destruição da guerra, e muito menos que o desenho dos americanos e dos ingleses pós-guerra, que modernizou e mudou a nossa cultura das ideias e do comportamento, por causa de novos valores introduzidos através da cultura material, em outros continentes (GOMES, 1998, p. 73). São importantes, por fim, para incentivar e alavancar a pesquisa na área e, conseqüentemente, talvez impulsionar a criação de um maior número de cursos de pósgraduação específicos em design no Brasil, que segundo o site da CAPES (http://www.capes.gov.br/) conta com apenas três cursos de doutorado e doze de mestrado. Em relação ao projeto especificamente, salienta-se a importância de uma Identidade Visual para a divulgação e reconhecimento dos grupos do Programa de Educação Tutorial da Universidade Federal de Pelotas. Uma identidade visual única agregará maior força e expressividade aos grupos envolvidos. Um projeto com maior profissionalismo, regido pelos preceitos já instituídos do design gráfico, que considere não só a estética da marca, mas também a simbologia, a ergonomia e, principalmente, a funcionalidade, atinge um nível comunicacional otimizado frente ao público atingido. Vai-se além e arrisca-se ao afirmar que, em um mundo tão múltiplo visualmente, o ideal seria que o Programa de Educação Tutorial DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º CONGRESSO NACIONAL DE DESIGN Projeto de Identidade Visual para os grupos PET-UFPEL de todo o país tivesse uma única Identidade Visual, fortalecendo ano após ano sua filosofia e sua atuação, criando uma unidade maior e mais forte. Por enquanto, espera-se que o reconhecimento gradativo da marca PET-UFPEL possibilite uma maior identificação frente ao público e que ao longo do tempo ajude a agregar valor ao Programa, sendo um passo importante rumo a uma mudança efetiva e significativa nas atuações dos grupos, desejo manifestado pelos bolsistas e tutores que anseiam por contribuir para um ensino de maior qualidade. Referências BONSIEPE, Gui. Um experimento em projeto de produto : desenho industrial. Brasília (DF): CNPq, 1983. DONDIS, Donis A. Sintaxe da linguagem visual. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 2ª Ed. 4ª tiragem. DURAND, Gilbert. O retorno do mito: introdução à mitodologia. Mitos e Sociedades. In Revista FAMECOS mídia, cultura e tecnologia, nº 23, abril 2004. FUENTES, Rodolfo. A prática do design gráfico: uma metodologia criativa. São Paulo: Rosari, 2006. GOMES, Luiz Vidal Negreiros. Desenhando: um panorama dos sistemas gráficos. Santa Maria: Ed. UFSM, 1998. HOLLIS, Richard. Design Gráfico: Uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2000. LÖBACH, Bernd. Design Industrial – Bases para a configuração dos produtos industriais. São Paulo: Blucher, 2001. LUPTON, Ellen e PHILIPPS, Cole. Novos Fundamentos do Design. São Paulo: Cosac Naify, 2008. NEWARK, Quentin. O que é Design Gráfico?. Porto Alegre: Bookman, 2009. NIEMEYER, Lucy. Elementos de semiótica aplicados ao design. Rio de Janeiro: 2AB, 2007. NOJIMA, Vera Lúcia. Comunicação e leitura não verbal. In: Formas do Design – Por uma metodologia interdisciplinar. Org. Rita Maria de Souza Couto e Alfredo Jefferson de Oliveira. Rio de Janeiro: 2AB, PUC-Rio, 1999. PAVIANI, Jayme. A Arte na Era da Indústria Cultural. Porto Alegre: PyR Edições, 1987. DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º CONGRESSO NACIONAL DE DESIGN Projeto de Identidade Visual para os grupos PET-UFPEL REDIG, Joaquim. Sentido do Design ou desenho industrial ou desenho de produto e programação visual. Rio de Janeiro : Imprita, 1983. STOLARSKI, André. Alexandre Wollner e a formação do design moderno brasileiro. São Paulo: Cosac Naify, 2005. STRUNCK, Gilberto Luiz Teixeira. Como criar identidades visuais para marcas de sucesso. Editora Rio Books, 2001. VILLAS-BOAS, André. O que é [e o que nunca foi] design gráfico. Rio de Janeiro: 2AB, 2003, 5 ed. WOLLNER, Alexandre. Design Visual 50 anos. São Paulo: Cosac Naify, 2003. DESENHANDO O FUTURO 2011 | 1º CONGRESSO NACIONAL DE DESIGN