VEREDAS - REVISTA CIENTÍFICA DE TURISMO
ANO I
N° 1
Em Torno do Uso Turístico do
Patrimônio Histórico: o Caso da Igreja
de Nossa Senhora de Nazaré do
Almagre (Cabedelo - PB)1
1
Trabalho apresentado
no GT “Acervos”,
durante o X Encontro
Estadual de Professores de História,
realizado pela ANPUHPB no Campus I da
Universidade Federal
da Paraíba (João
Pessoa), entre 29 de
maio e 1° de junho de
2002.
2
Do árabe al-magrâ:
argila avermelhada
usada na construção
civil. Os portugueses
também usavam o
termo para nomear
arrecifes
avermelhados existentes na
costa do Nordeste do
Brasil.
Carla Mary S. Oliveira
Pesquisadora do LABTUR-IESP
e Professora do Curso de Graduação em Turismo do IESP
E-mail: <[email protected]>
Introdução Histórica
Nos primeiros tempos da presença portuguesa em terras
brasileiras, a Fé católica se tornou presente, de modo físico,
em diversos pontos da área litorânea próxima à sede da
Capitania Real da Paraíba e na várzea do rio que lhe cedeu o
nome logo nos primeiros anos da conquista. Vários templos
cristãos tiveram agregadas às suas funções de catequese e
conversão dos gentios a função de servir como ponto estratégico
de defesa militar, não só na Paraíba, mas em boa parte do
litoral nordestino.
Caso observemos alguns dos detalhados mapas
confeccionados durante e logo após a ocupação neerlandesa
na Paraíba (1634-1654), perceberemos que havia o cuidado
de se identificarem claramente os templos que poderiam ser
utilizados (ou será que já não o seriam?) como pontos de
observação militar.
Além da Igreja de Nossa Senhora da Guia, erguida pelos
carmelitas em Lucena, no promontório que se ergue sobre a
foz do Paraíba, outra que também aparece comumente nesses
documentos é a de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre2,
situada na Praia do Poço e de onde se pode divisar boa parte
do acesso meridional à foz do Paraíba, desde a Praia de
Fig. 1 - Detalhe do Mapa
que comprehende do Cais
do Viradoiro da Cide. da
Para. até a enciada da
Vila de S. Miguel da Bahia
da Traição, final do século
XVII. LEGENDA: 1 - Igreja e
Hospício de N. Sra. da Guia;
2 - Igreja de N. Sra. de
Nazaré do Almagre e
povoado da Praia do Poço.
JULHO DE 2002
47
EM TORNO DO USO TURÍSTICO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO
3
4
Fundada em 1539 por
Santo Inácio de Loyola,
e reconhecida pelo
papa Paulo III na bula
Regimini Formula
Ecclesia, de 27 de
setembro de 1540, a
Companhia de Jesus
diferenciava-se das
outras ordens religiosas existentes no início
da Idade Moderna por
sua organização de
inspiração militar e,
também, por uma série
de normas estabelecidas por seu fundador,
como a inexistência de
um hábito específico
para seus membros; a
não manutenção de um
coro musical regular
em seus quadros; a
proibição a seus religiosos, através de
votos específicos, de
aceitar privilégios ou
mordomias eclesiásticas; a obrigação de
atuar em ações missionárias no exterior, sob
ordem papal; a preferência pela catequese e
educação de jovens de
todas as classes sociais, incluindo-se aí a
instrução dos ignorantes e dos pobres e o
ministério dos sacramentos aos doentes e
prisioneiros. Contrariamente àquilo que
normalmente se acredita, a ordem não foi
criada com a intenção
específica de opor-se
ao Protestantismo. Na
verdade, quando Santo
Inácio começou a
devotar sua vida à
Igreja, em 1521,
dificilmente já teria
ouvido falar nos reformistas protestantes da
Europa setentrional
(New Advent Catholic Encyclopædia).
New Advent Catholic
Encyclopædia.
Fig. 2 - Detalhe de
“Brasilia qua parte paret
Belgius”, mapa de Frans
Janz Post, publicado como
anexo ao História dos
fatos recentemente
praticados durante oito
anos no Brasil, de
Caspar Von Baerle (1647).
LEGENDA: 1 - Igreja e
Hospício de N. Sra. da
Guia; 2 - Igreja de N. Sra.
de Nazaré do Almagre.
Camboinha até a ponta do Cabo Branco.
Os religiosos da Companhia de Jesus3 que acompanharam
a expedição de conquista da Capitania da Paraíba e fundação
de sua sede, em julho de 1585, tinham como objetivo principal
dedicar-se à catequese dos indígenas, dentro do espírito
missionarista daquela ordem. Apenas dois meses antes, em
25 de maio do mesmo ano, o papa Gregório XIII estabelecia,
na bula Ascendente Domino, que os jesuítas tinham entre
suas obrigações a conversão de almas para o catolicismo e a
assistência espiritual aos fiéis4
Nesse sentido, justifica-se o fato de os jesuítas, assim como
os carmelitas, terem dividido sua atuação na Paraíba em duas
frentes bem distintas: a do convento, colégio e Igreja de São
Gonçalo, instalados na cidade de Filipéia de Nossa Senhora
das Neves, atual João Pessoa, e a do convento e Igreja de
Nossa Senhora de Nazaré do Almagre, situados à beira-mar,
distando mais de 15 km da sede da capitania e cerca de 5 km
da foz do rio Paraíba.
N. Sra. de Nazaré do Almagre:
Templo Jesuíta, Franciscano ou Beneditino?
Quase nada se sabe, concretamente, sobre a história da
Igreja e do Convento de Nossa Senhora de Nazaré sob domínio
dos inacianos. É certo que houve disputas entre jesuítas e
franciscanos sobre o controle da área onde hoje está o bairro
do Poço, em Cabedelo. Apesar de os franciscanos terem recebido
provisão daquelas terras e do aldeamento indígena que ali se
situava já em 1589, diretamente das mãos do capitão-mor
Frutuoso Barbosa, parece que só exerceram “seus direitos”
após a saída dos seguidores de Santo Inácio (Mello Neto &
Mello, 2000: 07-08). Com a expulsão dos jesuítas, em 1593
(Barbosa, 1994: 140-141), o conjunto arquitetônico da Praia
48
VEREDAS - REVISTA CIENTÍFICA DE TURISMO
ANO I
N° 1
CARLA MARY S. OLIVEIRA
do Poço, já semiconcluído 5, passou ao controle dos franciscanos,
que ali teriam permanecido ao menos até a conquista
holandesa.
Segundo Ulysses P. Mello Neto e Virgínia P. Mello (2000:
12), por volta de 1740 o aldeamento do Almagre, há muito
abandonado pelos franciscanos e já com a denominação de
“Utinga”6 - mas ainda dedicado a N. Sra. de Nazaré - passou
ao controle dos beneditinos, que teriam aperfeiçoado as obras
do prédio inicial erguido pelos jesuítas, “melhorando suas
paredes” a fim de ali realizar a primeira missa abacial7.
Diferentemente dos outros templos barrocos com função
catequizadora existentes na Paraíba8, não há, nos entalhes
em calcário de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre, nenhuma
referência à flora local: a decoração do arco cruzeiro do altarmor se resume a folhas de acanto estilizadas, enquanto os
portais laterais da nave são ornados apenas com singelas
vieiras. A vieira - ou la verena - é um símbolo recorrente do
cristianismo desde as Cruzadas, representando a jornada de
purificação à Terra Santa. Ela passou a ser usada, após o século
XIII, como dístico da Ordem de São Thiago de Compostela e,
por extensão, da peregrinação à igreja daquela congregação,
na Galícia, ao norte da Espanha.
Em toda a Europa medieval a concha estilizada da vieira
passou a marcar a entrada de locais sagrados, especialmente
de igrejas e catedrais, como uma indicação de que ao cruzálos se adentrava o espaço santo e se conseguia atingir a
transcendência e a salvação9.
5
O único prédio concluído à época da expulsão
era o da igreja.
6
Termo de origem tupi:
“água branca”.
7
Missa celebrada por
abades; neste caso, os
beneditinos.
8
Igreja de São Francisco/ Convento de Sto
Antônio e Igreja e
Hospício de Nossa
Senhora da Guia.
9
New Advent Catholic
Encyclopædia.
10
Fig. 3 - Parte interna da Igreja de N. Sra. de Nazaré do Almagre, com o arco
cruzeiro ainda de pé. Foto de Walfredo Rodriguez, cerca de 1921/ 192210.
JULHO DE 2002
49
O verso da foto de
Rodriguez traz a
seguinte legenda:
“Ruínas da Igreja de
Nossa Senhora de
Nazareth. Photo tirada
da nave da igreja para
a capela mor, mostrando a outra face do arco.
Não existindo mais o
trono, a photo apanhou
a fonte ou lavatório da
sacristia que fica no
fundo da igreja. Vê-se
[sic] as duas portas
laterais, entradas para
a nave; as duas tribunas por cima das portas, os dois altares
laterais e num dos
lados a base do púlpito.
Photo Walfredo Rodriguez. Legenda J.D.
Santos” (Mello Neto &
Mello, 2000).
EM TORNO DO USO TURÍSTICO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO
Quanto à Igreja de N. Sra. de Nazaré do Almagre, sua
fachada original, que hoje está irreconhecível, mas que pode
ser visualizada ainda em fotos do início do século passado,
remete-nos à sobriedade dos primeiros projetos do Barroco
italiano.
Fig. 4 - Foto do conjunto
documental existente no
Processo de Tombamento
Federal das ruínas do Almagre,
IPHAN, 1938. Note-se a
sobriedade das linhas da
portada e a vieira no centro da
trave superior. Ao fundo, uma
janela que se abria para a face
oeste do prédio.
Fig. 4 a - Detalhe da mesma
portada, em foto de 1999.
Essa característica de Nossa Senhora de Nazaré contrapõese à virtuosidade criativa presente nas igrejas de Nossa Senhora
da Guia, em Lucena, e de São Francisco, em João Pessoa, e,
mais ainda, pode representar até mesmo a idéia de que a
catequese do gentio devia se dar por outros meios e não
preferencialmente através do apelo visual.
A posição privilegiada de Nossa Senhora de Nazaré do
Almagre, numa praia da qual se podia perceber qualquer
aproximação marítima a partir do litoral sul e, mais ainda,
resguardada de um eventual desembarque inimigo em suas
proximidades, por ser protegida pelos arrecifes avermelhados
que acompanham a linha costeira, só reforça o entendimento
de que havia uma ligação intrínseca entre a “máquina” de
conquista lusitana e o poderio eclesiástico.
50
VEREDAS - REVISTA CIENTÍFICA DE TURISMO
ANO I
N° 1
CARLA MARY S. OLIVEIRA
Fig. 5 - Fachada principal da Igreja de N. Sra. de Nazaré do Almagre.
Foto de Walfredo Rodriguez, 1927.
Pode-se argumentar que o cuidado em construir os
complexos arquitetônicos convento/ igreja 11 ou hospício/
igreja12 em locais estratégicos tinha como justificativa a defesa
dos próprios religiosos, é possível crer que esse entendimento
não responde à complexidade de relações de poder que se
estabeleciam entre o espaço religioso - o das igrejas, conventos
e outros prédios ligados à Igreja Católica - e o próprio Estado
português e, num âmbito maior, à própria conquista.
Fig. 6 - Fachada principal da Igreja de N. Sra. de Nazaré do Almagre.
Foto de Carla Mary S. Oliveira, 1999.
JULHO DE 2002
51
11
Nossa Senhora de
Nazaré do Almagre,
São Bento e Santo
Antônio/ São Francisco.
12
Nossa Senhora da
Guia.
EM TORNO DO USO TURÍSTICO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO
Fig. 7 - Desenho
esquemático da fachada
da Igreja de N. Sra. de
Nazaré do Almagre,
baseado em fotos do
início do século XX.
13
Trato mais acuradamente desta hipótese
no terceiro capítulo de
minha Dissertação de
Mestrado, intitulada
Arte, religião e
conquista: os sistemas simbólicos do
poder e o Barroco na
Paraíba, defendida
perante o Programa de
Pós-Graduação em
Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (Campus I - João
Pessoa) em 06 de agosto de 1999, sob orientação do Prof. Dr.
Ariosvaldo da Silva
Diniz.
As ruínas de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre poderiam
ser consideradas - apesar das diferenças estilísticas que
mantém em relação às outras igrejas barrocas paraibanas como um sinal de que havia, na Capitania Real da Parahyba,
um certo imbricamento entre o poder temporal e a estrutura
eclesiástica dedicada à conversão e catequese dos índios e à
assistência espiritual dos colonos13.
Fig. 8 - Planta da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre.
Todas suas paredes, exceto as que cercavam o altar-mór,
estavam de pé em 1921. Hoje, estão eretas apenas as que aparecem
hachuradas no croqui acima (baseado em Mello Neto & Mello, 2000).
LEGENDA: 1 - púlpito; 2 - altares laterais; 3 - altar-mór; 4 - sacristia;
5 - corredores laterais; 6 - nave;
7 - câmaras (acesso ao coro no andar superior).
52
VEREDAS - REVISTA CIENTÍFICA DE TURISMO
ANO I
N° 1
CARLA MARY S. OLIVEIRA
Uma Ruína e Seu Valor Como Monumento
Hoje, em pleno mundo globalizado, certos prédios e locais
históricos costumam ser valorizados muito mais por terem um
“potencial” econômico a ser explorado do que por sua
representatividade na construção de uma visão mais
abrangente da História local, deixando-se de lado detalhes que,
a longo prazo, podem mesmo levar ao desvirtuamento e à
descaracterização de conjuntos extremamente significativos
do ponto de vista cultural.
Por exemplo: o que representa realmente o quase nada se
saber, concretamente, sobre a história da Igreja e do Convento
de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre? Se hoje, já em ruínas,
aquele templo causa um maravilhamento único a quem o
vislumbra a partir da autopista que liga as praias de Intermares
e Poço, na cidade de Cabedelo, próximo à divisa com o município
de João Pessoa, que dizer do efeito que devia produzir sobre
os índios que habitavam aquela localidade?
Ao nos aproximarmos de suas paredes que mal se mantém
de pé e observarmos, de modo mais acurado, os detalhes de
cantaria que ainda resistem à ação da chuva e do vento,
podemos identificar, por entre as pedras e portais caídos e
naqueles que ainda repousam eretos, a cristalização de um
universo imagético totalmente alheio aos trópicos e, por
conseguinte, muito mais próximo aos jesuítas, franciscanos e
beneditinos do que aos indígenas que eles pretendiam
converter.
Esta imagem de arruinamento se torna ainda mais
impactante quando se toma conhecimento de que a Igreja de
Nossa Senhora de Nazaré do Almagre é tombada pelo Governo
Federal desde 1938, época em que cerca de 90% de suas
paredes ainda se erguiam sobre o areal da Praia do Poço e
dividiam a paisagem com os coqueiros e os cajueiros.
Sendo o registro material de uma das primeiras ocupações
sistemáticas da localidade em que hoje está o município de
Cabedelo, as ruínas da Praia do Poço têm uma importância
enorme para a construção de uma identidade histórica para os
cabedelenses, resgatando sua memória e possibilitando uma
tentativa de vislumbre de parte do cotidiano daqueles que
construíram aquele monumento.
Se essa memória e essa identidade podem vir a ser
aproveitadas para o estabelecimento de um roteiro turístico
histórico, com implicações econômicas positivas para a cidade
e geração de empregos, trata-se de uma fase posterior. Antes
disto, é preciso que se desenvolvam outras etapas, não menos
importantes do ponto de vista turístico: restaurar ou consolidar
o monumento tombado, estudá-lo, comparar versões sobre
sua história, discutir opiniões, planejar seu aproveitamento,
conscientizar a população do entorno, sinalizar o local,
JULHO DE 2002
53
EM TORNO DO USO TURÍSTICO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO
revitalizá-lo e fornecer qualificação profissional àqueles que
vierem, de fato, trabalhar no local como guias ou monitores
dos visitantes.
Recentemente, tem-se constatado que o turismo motivado
pela busca de atrativos culturais e históricos representa mais
de 80% das viagens (Barretto, 2000: 21), daí a crescente
valorização econômica de sítios, conjuntos, monumentos ou
lugares históricos. Nesse sentido, o planejamento turístico
baseado no aproveitamento do patrimônio cultural deve se
preocupar com três aspectos fundamentais: preservação da
originalidade aliada ao restauro; adoção de políticas de
preservação que passem pela esfera pública e pela sociedade
civil; e planejamento quanto à capacidade de carga que o bem
patrimonial pode receber, de modo que sua conservação e
reinserção na vida cultural local se tornem possíveis (Barretto,
2000: 78).
Fig. 9 - Altar lateral esquerdo,
nave da Igreja de N. Sra. de
nazaré do Almagre, em foto de
1999.
O Aproveitamento Turístico de Bens Patrimoniais:
Uma Meta a Alcançar
Nos últimos anos, muitos cientistas sociais que se dedicam
ao estudo do fenômeno turístico tem atentado para o fato de
que ele pode ser um motivador para “a existência e reabilitação
de sítios e monumentos históricos, construções e monumentos”
(Barretto, 2000: 32), ao se transformar o espaço ocupado pelo
bem patrimonial num espaço também recreacional e de vivência
cultural não só para os turistas mas, especialmente, para os
habitantes locais, pois assim todo o possível processo de
54
VEREDAS - REVISTA CIENTÍFICA DE TURISMO
ANO I
N° 1
CARLA MARY S. OLIVEIRA
restauração e revitalização não teria apenas o objetivo de
“vender” o patrimônio.
Pelo contrário, ao revitalizar um monumento o que se deve
pretender, justamente, é fortalecer a memória local e a
identidade dos indivíduos que convivem com aquele bem
patrimonial no dia-a-dia, de modo que ele seja reinserido na
vivência cultural local.
Nesse sentido, torna-se necessária uma atitude diferenciada
em relação às ruínas do Almagre. Tendo se tornado um
monumento histórico literalmente “tombado”, o conjunto da
Praia do Poço merece atenção redobrada, exatamente por
tratar-se de uma construção que se arruinou principalmente
no decorrer do século XX. Há, inclusive, registros de que
durante a segunda metade do século XIX suas paredes teriam
dado abrigo, como morada, a uma família de proprietários rurais
da região, perdendo totalmente suas atribuições eclesiásticas
(Mello Neto & Mello, 2000: 14).
Segundo Françoise Choay (1996, 2001), um monumento
só adquire o status de “histórico” quando a própria população
que convive com o monumento lhe atribuiu esta qualidade.
Talvez seja possível considerar que a Igreja do Almagre só
tenha chegado a sua situação atual justamente por ter tido
seu uso laicizado, ou seja, por ter perdido seu uso religioso e,
por conseguinte, seu interesse histórico para os habitantes
locais. O que se perdeu nas ruínas do Almagre? O que deve
ser resgatado antes mesmo que se pense em aproveitar tal
bem patrimonial como um atrativo turístico? Numa visão
benjaminiana, poderíamos mesmo afirmar que aquele
monumento perdeu sua aura, sua sacralidade, ao tornar-se
apenas uma moradia.
Qual seria, então, a atitude diferenciada necessária, no caso
específico deste monumento? Alguns estudos apontam no
sentido de que não basta o investimento de vultosas
quantias,por parte do poder público ou da iniciativa privada,
somente no restauro arquitetônico do bem patrimonial. É
preciso haver, principalmente, o investimento no aspecto social
e histórico, ou seja, no restabelecimento de uma identidade
local que tenha laços ligando-a àquele monumento:
“Primeiramente, há que se promover um trabalho
de promoção interna, almejando o resgate do
orgulho pelo lugar. Não se pode pensar em
potencializar o turismo em local que é descrente
de si mesmo, que não tem orgulho pelo que tem e
o que é. Mobilizar todos os atores da cidade e fazer
por acontecer ações imediatas, catalisadoras da
opinião pública são estratégias que vêm
demonstrando eficácia em alguns locais.” (Simão,
2001: 69)
JULHO DE 2002
55
EM TORNO DO USO TURÍSTICO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO
Fig. 10 - Pia da sacristia, Igreja
de Nossa Senhora de Nazaré do
Almagre. Hoje esta peça e
também a parede que a
sustentava estão caídas sobre o
terreno, sendo possível sua
remontagem. Foto de Walfredo
Rodriguez, 1921.
Considerações Finais
14
A esse respeito, ver
Beni (1998: 87), Simão
(2001: 68), Barretto
(2000: 76), e Rodrigues (2001: 15-24).
15
Ver Swarbrooke
(2000).
Vários autores destacam a subutilização turística dos
atrativos culturais no Brasil14, ao contrário do que, usualmente,
ocorre em países europeus ou na América do Norte15. Cabe
aqui destacar que a implantação da atividade econômica do
turismo, por menor que seja a localidade, não deve implicar
na expulsão dos moradores e, tampouco, numa descaracterização acelerada de elementos que, a princípio,
constituíam o próprio atrativo cultural: “o turismo se incorpora
para agregar valores e não para subtraí-los” (Simão, 2001:
69).
Em se tratando de uma atividade que se deseja sustentável,
o turismo baseado em atrativos culturais não pode prescindir
de uma ampla articulação entre as políticas de gestão pública
e os interesses da iniciativa privada, bem como do
estabelecimento de parcerias com a população, potencializando
significativamente a qualidade de vida local.
Por fim, não basta intuir ou vislumbrar as capacidades de
aproveitamento turístico de uma determinada localidade. Tornase necessário, primordialmente, o desenvolvimento de
estratégias coerentes no sítio receptor, abrangendo tanto o
conhecimento aprofundado da oferta como da demanda por
produtos turísticos, ou seja, dos atrativos em potencial que
porventura existam naquele local e, também, do perfil do turista
que pode vir a freqüentá-los.
Deste modo, o turismo cultural pode ser visto tanto como
“um possibilitador da preservação dos valores culturais e da
qualidade de vida local” (Simão, 2001: 75), assim como um
agente potencializador da reapropriação de bens patrimoniais
de uma determinada localidade por seus habitantes. E parece
ser esta a principal qualidade turística que pode vir a consolidar56
VEREDAS - REVISTA CIENTÍFICA DE TURISMO
ANO I
N° 1
CARLA MARY S. OLIVEIRA
se em Cabedelo, no que se refere às ruínas do Almagre:
fomentar não apenas a economia local mas, especialmente, a
redescoberta de uma identidade latente, que talvez repouse
fundeada à beira dos arrecifes avermelhados do quebra-mar
natural da Praia do Poço, contemplando as poucas paredes
que restam da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré.
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JULHO DE 2002
57
EM TORNO DO USO TURÍSTICO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO
Fontes das Ilustrações
Figuras 1, 2, 4a, 6, 7 e 9
OLIVEIRA, Carla Mary S. Arte, religião e conquista: os sistemas simbólicos
do poder e o Barroco na Paraíba. João Pessoa: PPGS-UFPb, 1999
(Dissertação de Mestrado em Sociologia).
Figuras 3, 4, 5 e 10
MELLO NETO, Ulysses P. & MELLO, Virgínia P. A igreja de Nossa Senhora de
Nazaré (ruínas do Almagre). João Pessoa: s.r., 2000. Trabalho não
publicado. 113 p.
Figura 8
Ilustração de Carla Mary S. Oliveira, 2002, baseada em Mello Neto & Mello
(2000).
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Disponível em <http://www.iphan.gov.br>.
Acesso em 17/ ago./ 2001.
New Advent Catholic Encyclopædia.
Disponível em: <http://www.knight.org/advent/>.
Acesso em 12/ mar./ 1999.
Artigo recebido em
04/ fev./ 2002.
Aprovado para
publicação em
22/ fev./ 2002.
RESUMO
ABSTRACT
EM TORNO DO USO TURÍSTICO
DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO: O
CASO DA IGREJA DE NOSSA
SENHORA DE NAZARÉ DO
ALMAGRE (CABEDELO - PB)
A Igreja de N. Sra. de Nazaré do
Almagre, construção do século XVII
localizada na Praia do Poço, Município
de Cabedelo, Paraíba, é um monumento tombado pelo IPHAN desde
1938, e hoje se encontra em ruínas.
Neste trabalho discutimos a validade
do turismo para o resgate de bens
patrimoniais semelhantes, bem como
para a reconstrução da identidade
local a partir deste resgate. Por ser
uma atividade que pode interferir
diretamente na qualidade de vida dos
habitantes locais, o turismo deve ser
fruto de um amplo planejamento, que
considere especialmente as implicações sociais e culturais desta alternativa econômica para a comunidade
envolvida. O resgate turístico, portanto, pode ser também um meio de se
reencontrar a aura benjaminiana deste
monumento, perdida quando o prédio
original desvinculou-se de atividades
eclesiásticas, ainda no século XIX.
AROUND THE TOURISTIC USE OF
HISTORICAL HERITAGE: THE
CASE OF THE CHURCH OF OUR
LADY OF NAZARETH OF
ALMAGRE (CABEDELO - PB)
Palavras-Chave:
Patrimônio
Histórico; Cultura; Turismo; Paraíba;
Aura.
58
The Church of Our Lady of Nazareth
of Almagre, a building of the 17th
century located at the Poço Beach, in
Cabedelo City, Paraíba State, Brazil,
is a monument protected by IPHAN
since 1938, and today it’s in ruins. In
this work we discussed the validity of
the tourism for the ransom of similar
cultural heritage, as well as for the
reconstruction of the local identity
starting from this ransom. For being
an activity that can interfere directly
in the quality of the local inhabitants’
life, the tourism should be fruit of a
wide planning, which especially
considers the social and cultural
implications of this economic alternative for the involved community.
The tourist ransom, therefore, it can
also be a middle to re-find the Walter
Benjamin’s aura of this monument,
lost when the original building has
leaved its ecclesiastical activities, still
in the 19th century.
Keywords: Historical Heritage;
Culture; Tourism; Paraíba; Aura.
VEREDAS - REVISTA CIENTÍFICA DE TURISMO
ANO I
N° 1
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Em Torno do Uso Turístico do Patrimônio Histórico