VEREDAS - REVISTA CIENTÍFICA DE TURISMO ANO I N° 1 Em Torno do Uso Turístico do Patrimônio Histórico: o Caso da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre (Cabedelo - PB)1 1 Trabalho apresentado no GT “Acervos”, durante o X Encontro Estadual de Professores de História, realizado pela ANPUHPB no Campus I da Universidade Federal da Paraíba (João Pessoa), entre 29 de maio e 1° de junho de 2002. 2 Do árabe al-magrâ: argila avermelhada usada na construção civil. Os portugueses também usavam o termo para nomear arrecifes avermelhados existentes na costa do Nordeste do Brasil. Carla Mary S. Oliveira Pesquisadora do LABTUR-IESP e Professora do Curso de Graduação em Turismo do IESP E-mail: <[email protected]> Introdução Histórica Nos primeiros tempos da presença portuguesa em terras brasileiras, a Fé católica se tornou presente, de modo físico, em diversos pontos da área litorânea próxima à sede da Capitania Real da Paraíba e na várzea do rio que lhe cedeu o nome logo nos primeiros anos da conquista. Vários templos cristãos tiveram agregadas às suas funções de catequese e conversão dos gentios a função de servir como ponto estratégico de defesa militar, não só na Paraíba, mas em boa parte do litoral nordestino. Caso observemos alguns dos detalhados mapas confeccionados durante e logo após a ocupação neerlandesa na Paraíba (1634-1654), perceberemos que havia o cuidado de se identificarem claramente os templos que poderiam ser utilizados (ou será que já não o seriam?) como pontos de observação militar. Além da Igreja de Nossa Senhora da Guia, erguida pelos carmelitas em Lucena, no promontório que se ergue sobre a foz do Paraíba, outra que também aparece comumente nesses documentos é a de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre2, situada na Praia do Poço e de onde se pode divisar boa parte do acesso meridional à foz do Paraíba, desde a Praia de Fig. 1 - Detalhe do Mapa que comprehende do Cais do Viradoiro da Cide. da Para. até a enciada da Vila de S. Miguel da Bahia da Traição, final do século XVII. LEGENDA: 1 - Igreja e Hospício de N. Sra. da Guia; 2 - Igreja de N. Sra. de Nazaré do Almagre e povoado da Praia do Poço. JULHO DE 2002 47 EM TORNO DO USO TURÍSTICO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO 3 4 Fundada em 1539 por Santo Inácio de Loyola, e reconhecida pelo papa Paulo III na bula Regimini Formula Ecclesia, de 27 de setembro de 1540, a Companhia de Jesus diferenciava-se das outras ordens religiosas existentes no início da Idade Moderna por sua organização de inspiração militar e, também, por uma série de normas estabelecidas por seu fundador, como a inexistência de um hábito específico para seus membros; a não manutenção de um coro musical regular em seus quadros; a proibição a seus religiosos, através de votos específicos, de aceitar privilégios ou mordomias eclesiásticas; a obrigação de atuar em ações missionárias no exterior, sob ordem papal; a preferência pela catequese e educação de jovens de todas as classes sociais, incluindo-se aí a instrução dos ignorantes e dos pobres e o ministério dos sacramentos aos doentes e prisioneiros. Contrariamente àquilo que normalmente se acredita, a ordem não foi criada com a intenção específica de opor-se ao Protestantismo. Na verdade, quando Santo Inácio começou a devotar sua vida à Igreja, em 1521, dificilmente já teria ouvido falar nos reformistas protestantes da Europa setentrional (New Advent Catholic Encyclopædia). New Advent Catholic Encyclopædia. Fig. 2 - Detalhe de “Brasilia qua parte paret Belgius”, mapa de Frans Janz Post, publicado como anexo ao História dos fatos recentemente praticados durante oito anos no Brasil, de Caspar Von Baerle (1647). LEGENDA: 1 - Igreja e Hospício de N. Sra. da Guia; 2 - Igreja de N. Sra. de Nazaré do Almagre. Camboinha até a ponta do Cabo Branco. Os religiosos da Companhia de Jesus3 que acompanharam a expedição de conquista da Capitania da Paraíba e fundação de sua sede, em julho de 1585, tinham como objetivo principal dedicar-se à catequese dos indígenas, dentro do espírito missionarista daquela ordem. Apenas dois meses antes, em 25 de maio do mesmo ano, o papa Gregório XIII estabelecia, na bula Ascendente Domino, que os jesuítas tinham entre suas obrigações a conversão de almas para o catolicismo e a assistência espiritual aos fiéis4 Nesse sentido, justifica-se o fato de os jesuítas, assim como os carmelitas, terem dividido sua atuação na Paraíba em duas frentes bem distintas: a do convento, colégio e Igreja de São Gonçalo, instalados na cidade de Filipéia de Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa, e a do convento e Igreja de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre, situados à beira-mar, distando mais de 15 km da sede da capitania e cerca de 5 km da foz do rio Paraíba. N. Sra. de Nazaré do Almagre: Templo Jesuíta, Franciscano ou Beneditino? Quase nada se sabe, concretamente, sobre a história da Igreja e do Convento de Nossa Senhora de Nazaré sob domínio dos inacianos. É certo que houve disputas entre jesuítas e franciscanos sobre o controle da área onde hoje está o bairro do Poço, em Cabedelo. Apesar de os franciscanos terem recebido provisão daquelas terras e do aldeamento indígena que ali se situava já em 1589, diretamente das mãos do capitão-mor Frutuoso Barbosa, parece que só exerceram “seus direitos” após a saída dos seguidores de Santo Inácio (Mello Neto & Mello, 2000: 07-08). Com a expulsão dos jesuítas, em 1593 (Barbosa, 1994: 140-141), o conjunto arquitetônico da Praia 48 VEREDAS - REVISTA CIENTÍFICA DE TURISMO ANO I N° 1 CARLA MARY S. OLIVEIRA do Poço, já semiconcluído 5, passou ao controle dos franciscanos, que ali teriam permanecido ao menos até a conquista holandesa. Segundo Ulysses P. Mello Neto e Virgínia P. Mello (2000: 12), por volta de 1740 o aldeamento do Almagre, há muito abandonado pelos franciscanos e já com a denominação de “Utinga”6 - mas ainda dedicado a N. Sra. de Nazaré - passou ao controle dos beneditinos, que teriam aperfeiçoado as obras do prédio inicial erguido pelos jesuítas, “melhorando suas paredes” a fim de ali realizar a primeira missa abacial7. Diferentemente dos outros templos barrocos com função catequizadora existentes na Paraíba8, não há, nos entalhes em calcário de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre, nenhuma referência à flora local: a decoração do arco cruzeiro do altarmor se resume a folhas de acanto estilizadas, enquanto os portais laterais da nave são ornados apenas com singelas vieiras. A vieira - ou la verena - é um símbolo recorrente do cristianismo desde as Cruzadas, representando a jornada de purificação à Terra Santa. Ela passou a ser usada, após o século XIII, como dístico da Ordem de São Thiago de Compostela e, por extensão, da peregrinação à igreja daquela congregação, na Galícia, ao norte da Espanha. Em toda a Europa medieval a concha estilizada da vieira passou a marcar a entrada de locais sagrados, especialmente de igrejas e catedrais, como uma indicação de que ao cruzálos se adentrava o espaço santo e se conseguia atingir a transcendência e a salvação9. 5 O único prédio concluído à época da expulsão era o da igreja. 6 Termo de origem tupi: “água branca”. 7 Missa celebrada por abades; neste caso, os beneditinos. 8 Igreja de São Francisco/ Convento de Sto Antônio e Igreja e Hospício de Nossa Senhora da Guia. 9 New Advent Catholic Encyclopædia. 10 Fig. 3 - Parte interna da Igreja de N. Sra. de Nazaré do Almagre, com o arco cruzeiro ainda de pé. Foto de Walfredo Rodriguez, cerca de 1921/ 192210. JULHO DE 2002 49 O verso da foto de Rodriguez traz a seguinte legenda: “Ruínas da Igreja de Nossa Senhora de Nazareth. Photo tirada da nave da igreja para a capela mor, mostrando a outra face do arco. Não existindo mais o trono, a photo apanhou a fonte ou lavatório da sacristia que fica no fundo da igreja. Vê-se [sic] as duas portas laterais, entradas para a nave; as duas tribunas por cima das portas, os dois altares laterais e num dos lados a base do púlpito. Photo Walfredo Rodriguez. Legenda J.D. Santos” (Mello Neto & Mello, 2000). EM TORNO DO USO TURÍSTICO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO Quanto à Igreja de N. Sra. de Nazaré do Almagre, sua fachada original, que hoje está irreconhecível, mas que pode ser visualizada ainda em fotos do início do século passado, remete-nos à sobriedade dos primeiros projetos do Barroco italiano. Fig. 4 - Foto do conjunto documental existente no Processo de Tombamento Federal das ruínas do Almagre, IPHAN, 1938. Note-se a sobriedade das linhas da portada e a vieira no centro da trave superior. Ao fundo, uma janela que se abria para a face oeste do prédio. Fig. 4 a - Detalhe da mesma portada, em foto de 1999. Essa característica de Nossa Senhora de Nazaré contrapõese à virtuosidade criativa presente nas igrejas de Nossa Senhora da Guia, em Lucena, e de São Francisco, em João Pessoa, e, mais ainda, pode representar até mesmo a idéia de que a catequese do gentio devia se dar por outros meios e não preferencialmente através do apelo visual. A posição privilegiada de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre, numa praia da qual se podia perceber qualquer aproximação marítima a partir do litoral sul e, mais ainda, resguardada de um eventual desembarque inimigo em suas proximidades, por ser protegida pelos arrecifes avermelhados que acompanham a linha costeira, só reforça o entendimento de que havia uma ligação intrínseca entre a “máquina” de conquista lusitana e o poderio eclesiástico. 50 VEREDAS - REVISTA CIENTÍFICA DE TURISMO ANO I N° 1 CARLA MARY S. OLIVEIRA Fig. 5 - Fachada principal da Igreja de N. Sra. de Nazaré do Almagre. Foto de Walfredo Rodriguez, 1927. Pode-se argumentar que o cuidado em construir os complexos arquitetônicos convento/ igreja 11 ou hospício/ igreja12 em locais estratégicos tinha como justificativa a defesa dos próprios religiosos, é possível crer que esse entendimento não responde à complexidade de relações de poder que se estabeleciam entre o espaço religioso - o das igrejas, conventos e outros prédios ligados à Igreja Católica - e o próprio Estado português e, num âmbito maior, à própria conquista. Fig. 6 - Fachada principal da Igreja de N. Sra. de Nazaré do Almagre. Foto de Carla Mary S. Oliveira, 1999. JULHO DE 2002 51 11 Nossa Senhora de Nazaré do Almagre, São Bento e Santo Antônio/ São Francisco. 12 Nossa Senhora da Guia. EM TORNO DO USO TURÍSTICO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO Fig. 7 - Desenho esquemático da fachada da Igreja de N. Sra. de Nazaré do Almagre, baseado em fotos do início do século XX. 13 Trato mais acuradamente desta hipótese no terceiro capítulo de minha Dissertação de Mestrado, intitulada Arte, religião e conquista: os sistemas simbólicos do poder e o Barroco na Paraíba, defendida perante o Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (Campus I - João Pessoa) em 06 de agosto de 1999, sob orientação do Prof. Dr. Ariosvaldo da Silva Diniz. As ruínas de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre poderiam ser consideradas - apesar das diferenças estilísticas que mantém em relação às outras igrejas barrocas paraibanas como um sinal de que havia, na Capitania Real da Parahyba, um certo imbricamento entre o poder temporal e a estrutura eclesiástica dedicada à conversão e catequese dos índios e à assistência espiritual dos colonos13. Fig. 8 - Planta da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre. Todas suas paredes, exceto as que cercavam o altar-mór, estavam de pé em 1921. Hoje, estão eretas apenas as que aparecem hachuradas no croqui acima (baseado em Mello Neto & Mello, 2000). LEGENDA: 1 - púlpito; 2 - altares laterais; 3 - altar-mór; 4 - sacristia; 5 - corredores laterais; 6 - nave; 7 - câmaras (acesso ao coro no andar superior). 52 VEREDAS - REVISTA CIENTÍFICA DE TURISMO ANO I N° 1 CARLA MARY S. OLIVEIRA Uma Ruína e Seu Valor Como Monumento Hoje, em pleno mundo globalizado, certos prédios e locais históricos costumam ser valorizados muito mais por terem um “potencial” econômico a ser explorado do que por sua representatividade na construção de uma visão mais abrangente da História local, deixando-se de lado detalhes que, a longo prazo, podem mesmo levar ao desvirtuamento e à descaracterização de conjuntos extremamente significativos do ponto de vista cultural. Por exemplo: o que representa realmente o quase nada se saber, concretamente, sobre a história da Igreja e do Convento de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre? Se hoje, já em ruínas, aquele templo causa um maravilhamento único a quem o vislumbra a partir da autopista que liga as praias de Intermares e Poço, na cidade de Cabedelo, próximo à divisa com o município de João Pessoa, que dizer do efeito que devia produzir sobre os índios que habitavam aquela localidade? Ao nos aproximarmos de suas paredes que mal se mantém de pé e observarmos, de modo mais acurado, os detalhes de cantaria que ainda resistem à ação da chuva e do vento, podemos identificar, por entre as pedras e portais caídos e naqueles que ainda repousam eretos, a cristalização de um universo imagético totalmente alheio aos trópicos e, por conseguinte, muito mais próximo aos jesuítas, franciscanos e beneditinos do que aos indígenas que eles pretendiam converter. Esta imagem de arruinamento se torna ainda mais impactante quando se toma conhecimento de que a Igreja de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre é tombada pelo Governo Federal desde 1938, época em que cerca de 90% de suas paredes ainda se erguiam sobre o areal da Praia do Poço e dividiam a paisagem com os coqueiros e os cajueiros. Sendo o registro material de uma das primeiras ocupações sistemáticas da localidade em que hoje está o município de Cabedelo, as ruínas da Praia do Poço têm uma importância enorme para a construção de uma identidade histórica para os cabedelenses, resgatando sua memória e possibilitando uma tentativa de vislumbre de parte do cotidiano daqueles que construíram aquele monumento. Se essa memória e essa identidade podem vir a ser aproveitadas para o estabelecimento de um roteiro turístico histórico, com implicações econômicas positivas para a cidade e geração de empregos, trata-se de uma fase posterior. Antes disto, é preciso que se desenvolvam outras etapas, não menos importantes do ponto de vista turístico: restaurar ou consolidar o monumento tombado, estudá-lo, comparar versões sobre sua história, discutir opiniões, planejar seu aproveitamento, conscientizar a população do entorno, sinalizar o local, JULHO DE 2002 53 EM TORNO DO USO TURÍSTICO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO revitalizá-lo e fornecer qualificação profissional àqueles que vierem, de fato, trabalhar no local como guias ou monitores dos visitantes. Recentemente, tem-se constatado que o turismo motivado pela busca de atrativos culturais e históricos representa mais de 80% das viagens (Barretto, 2000: 21), daí a crescente valorização econômica de sítios, conjuntos, monumentos ou lugares históricos. Nesse sentido, o planejamento turístico baseado no aproveitamento do patrimônio cultural deve se preocupar com três aspectos fundamentais: preservação da originalidade aliada ao restauro; adoção de políticas de preservação que passem pela esfera pública e pela sociedade civil; e planejamento quanto à capacidade de carga que o bem patrimonial pode receber, de modo que sua conservação e reinserção na vida cultural local se tornem possíveis (Barretto, 2000: 78). Fig. 9 - Altar lateral esquerdo, nave da Igreja de N. Sra. de nazaré do Almagre, em foto de 1999. O Aproveitamento Turístico de Bens Patrimoniais: Uma Meta a Alcançar Nos últimos anos, muitos cientistas sociais que se dedicam ao estudo do fenômeno turístico tem atentado para o fato de que ele pode ser um motivador para “a existência e reabilitação de sítios e monumentos históricos, construções e monumentos” (Barretto, 2000: 32), ao se transformar o espaço ocupado pelo bem patrimonial num espaço também recreacional e de vivência cultural não só para os turistas mas, especialmente, para os habitantes locais, pois assim todo o possível processo de 54 VEREDAS - REVISTA CIENTÍFICA DE TURISMO ANO I N° 1 CARLA MARY S. OLIVEIRA restauração e revitalização não teria apenas o objetivo de “vender” o patrimônio. Pelo contrário, ao revitalizar um monumento o que se deve pretender, justamente, é fortalecer a memória local e a identidade dos indivíduos que convivem com aquele bem patrimonial no dia-a-dia, de modo que ele seja reinserido na vivência cultural local. Nesse sentido, torna-se necessária uma atitude diferenciada em relação às ruínas do Almagre. Tendo se tornado um monumento histórico literalmente “tombado”, o conjunto da Praia do Poço merece atenção redobrada, exatamente por tratar-se de uma construção que se arruinou principalmente no decorrer do século XX. Há, inclusive, registros de que durante a segunda metade do século XIX suas paredes teriam dado abrigo, como morada, a uma família de proprietários rurais da região, perdendo totalmente suas atribuições eclesiásticas (Mello Neto & Mello, 2000: 14). Segundo Françoise Choay (1996, 2001), um monumento só adquire o status de “histórico” quando a própria população que convive com o monumento lhe atribuiu esta qualidade. Talvez seja possível considerar que a Igreja do Almagre só tenha chegado a sua situação atual justamente por ter tido seu uso laicizado, ou seja, por ter perdido seu uso religioso e, por conseguinte, seu interesse histórico para os habitantes locais. O que se perdeu nas ruínas do Almagre? O que deve ser resgatado antes mesmo que se pense em aproveitar tal bem patrimonial como um atrativo turístico? Numa visão benjaminiana, poderíamos mesmo afirmar que aquele monumento perdeu sua aura, sua sacralidade, ao tornar-se apenas uma moradia. Qual seria, então, a atitude diferenciada necessária, no caso específico deste monumento? Alguns estudos apontam no sentido de que não basta o investimento de vultosas quantias,por parte do poder público ou da iniciativa privada, somente no restauro arquitetônico do bem patrimonial. É preciso haver, principalmente, o investimento no aspecto social e histórico, ou seja, no restabelecimento de uma identidade local que tenha laços ligando-a àquele monumento: “Primeiramente, há que se promover um trabalho de promoção interna, almejando o resgate do orgulho pelo lugar. Não se pode pensar em potencializar o turismo em local que é descrente de si mesmo, que não tem orgulho pelo que tem e o que é. Mobilizar todos os atores da cidade e fazer por acontecer ações imediatas, catalisadoras da opinião pública são estratégias que vêm demonstrando eficácia em alguns locais.” (Simão, 2001: 69) JULHO DE 2002 55 EM TORNO DO USO TURÍSTICO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO Fig. 10 - Pia da sacristia, Igreja de Nossa Senhora de Nazaré do Almagre. Hoje esta peça e também a parede que a sustentava estão caídas sobre o terreno, sendo possível sua remontagem. Foto de Walfredo Rodriguez, 1921. Considerações Finais 14 A esse respeito, ver Beni (1998: 87), Simão (2001: 68), Barretto (2000: 76), e Rodrigues (2001: 15-24). 15 Ver Swarbrooke (2000). Vários autores destacam a subutilização turística dos atrativos culturais no Brasil14, ao contrário do que, usualmente, ocorre em países europeus ou na América do Norte15. Cabe aqui destacar que a implantação da atividade econômica do turismo, por menor que seja a localidade, não deve implicar na expulsão dos moradores e, tampouco, numa descaracterização acelerada de elementos que, a princípio, constituíam o próprio atrativo cultural: “o turismo se incorpora para agregar valores e não para subtraí-los” (Simão, 2001: 69). Em se tratando de uma atividade que se deseja sustentável, o turismo baseado em atrativos culturais não pode prescindir de uma ampla articulação entre as políticas de gestão pública e os interesses da iniciativa privada, bem como do estabelecimento de parcerias com a população, potencializando significativamente a qualidade de vida local. Por fim, não basta intuir ou vislumbrar as capacidades de aproveitamento turístico de uma determinada localidade. Tornase necessário, primordialmente, o desenvolvimento de estratégias coerentes no sítio receptor, abrangendo tanto o conhecimento aprofundado da oferta como da demanda por produtos turísticos, ou seja, dos atrativos em potencial que porventura existam naquele local e, também, do perfil do turista que pode vir a freqüentá-los. Deste modo, o turismo cultural pode ser visto tanto como “um possibilitador da preservação dos valores culturais e da qualidade de vida local” (Simão, 2001: 75), assim como um agente potencializador da reapropriação de bens patrimoniais de uma determinada localidade por seus habitantes. E parece ser esta a principal qualidade turística que pode vir a consolidar56 VEREDAS - REVISTA CIENTÍFICA DE TURISMO ANO I N° 1 CARLA MARY S. OLIVEIRA se em Cabedelo, no que se refere às ruínas do Almagre: fomentar não apenas a economia local mas, especialmente, a redescoberta de uma identidade latente, que talvez repouse fundeada à beira dos arrecifes avermelhados do quebra-mar natural da Praia do Poço, contemplando as poucas paredes que restam da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré. Bibliografia BARBOSA, Cônego Florentino. Monumentos históricos e artísticos da Paraíba. 2ª ed. (facsimilar). João Pessoa: Conselho Estadual de Cultura/ SEC/ A União, 1994 [1953] (Col. “Biblioteca Paraibana”, vol. II). BARRETTO, Margarita. Turismo e legado cultural. Campinas: Papirus, 2000 (Col. “Turismo”). BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Trad. de Sérgio Paulo Rouanet. 7ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. BENI, Mário Carlos. Análise estrutural do turismo. São Paulo: SENAC, 1998. CHOAY, Françoise. L’allégorie du patrimoine. 2éme ed. Paris: Seuil, 1996. ______________. A alegoria do patrimônio. Trad. de Luciano Vieira Machado. 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RESUMO ABSTRACT EM TORNO DO USO TURÍSTICO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO: O CASO DA IGREJA DE NOSSA SENHORA DE NAZARÉ DO ALMAGRE (CABEDELO - PB) A Igreja de N. Sra. de Nazaré do Almagre, construção do século XVII localizada na Praia do Poço, Município de Cabedelo, Paraíba, é um monumento tombado pelo IPHAN desde 1938, e hoje se encontra em ruínas. Neste trabalho discutimos a validade do turismo para o resgate de bens patrimoniais semelhantes, bem como para a reconstrução da identidade local a partir deste resgate. Por ser uma atividade que pode interferir diretamente na qualidade de vida dos habitantes locais, o turismo deve ser fruto de um amplo planejamento, que considere especialmente as implicações sociais e culturais desta alternativa econômica para a comunidade envolvida. O resgate turístico, portanto, pode ser também um meio de se reencontrar a aura benjaminiana deste monumento, perdida quando o prédio original desvinculou-se de atividades eclesiásticas, ainda no século XIX. AROUND THE TOURISTIC USE OF HISTORICAL HERITAGE: THE CASE OF THE CHURCH OF OUR LADY OF NAZARETH OF ALMAGRE (CABEDELO - PB) Palavras-Chave: Patrimônio Histórico; Cultura; Turismo; Paraíba; Aura. 58 The Church of Our Lady of Nazareth of Almagre, a building of the 17th century located at the Poço Beach, in Cabedelo City, Paraíba State, Brazil, is a monument protected by IPHAN since 1938, and today it’s in ruins. In this work we discussed the validity of the tourism for the ransom of similar cultural heritage, as well as for the reconstruction of the local identity starting from this ransom. For being an activity that can interfere directly in the quality of the local inhabitants’ life, the tourism should be fruit of a wide planning, which especially considers the social and cultural implications of this economic alternative for the involved community. The tourist ransom, therefore, it can also be a middle to re-find the Walter Benjamin’s aura of this monument, lost when the original building has leaved its ecclesiastical activities, still in the 19th century. Keywords: Historical Heritage; Culture; Tourism; Paraíba; Aura. VEREDAS - REVISTA CIENTÍFICA DE TURISMO ANO I N° 1