A APRENDIZAGENS DO CINEMA DE ANIMAÇÃO COMO RECURSO PEDAGÓGICO PARA O LICENCIANDO DO CURSO DE HISTÓRIA Bruno Ferreira UFTM Email: [email protected] Suzane Brochine UFTM Email: [email protected] Váldina Gonçalves da Costa UFTM Email: [email protected] GT: 06 Agência Financiadora: FAPEMIG / MEC/FNDE Resumo Frente ao atual contexto tecnológico, com grande número de informações dispostas na Web, apropriar-se desse meio de comunicação e informação no contexto escolar e na formação de professores faz-se necessário. Dentre os conteúdos disponíveis na Web, os vídeos são utilizados com muita frequência, inclusive no espaço da escola. Nesse sentido, buscou-se investigar as possíveis aprendizagens desenvolvidas na produção de vídeos a partir de oficinas sobre cinema de animação como recurso pedagógico para a sala de aula. Os referenciais teóricos utilizados sobre cinema Pereira para discussão da estética do cinema; Cruz que aborda conceitos de fotografia aplicados à cinematografia, Napolitano que apresenta questões relacionadas ao cinema na educação, entre outros. A metodologia utilizada na produção dos filmes seguiu as etapas descritas por Kindem e Musburger (préprodução, produção e pós-produção) com uma etapa anterior à pré-produção para contextualizar a linguagem cinematográfica de cenário, iluminação, movimento de câmera, sonoplastia, quantidade de fotos e outros aspectos relevantes. Os resultados expressaram-se na forma de três filmes produzidos por licenciandos do curso de História da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. A pesquisa revelou que as aprendizagens desenvolvidas na produção dos vídeos dizem respeito ao nível da estética, técnica, representação e comunicação. Destaca-se também a imaginação como ferramenta para a produção dos vídeos buscando dar vida a fatos históricos. Palavras-chave: Cinema de Animação. Aprendizagens. Recurso Pedagógico. Introdução Os recursos audiovisuais, em especial na era tecnológica a qual estamos submetidos, têm recebido destaque crescente na educação. Tal destaque, porém, não é exagerado, uma vez compreendida a necessidade de mudança na educação e o potencial papel destes recursos nesta transformação. Como afirma Ribeiro Júnior (2011, p. 5), “[...], fica evidente que a cultura audiovisual possui um potencial de transformação quando aplicada ao processo de educação escolar”. Entretanto, é preciso dizer que estes recursos não podem ser tomados como exclusivos, no sentido de que, sozinhos não são capazes de modificar o processo de ensino aprendizagem. É óbvia a necessidade de que outras mudanças se operem na educação, ainda que, aqui, tratemos de uma única unidade potencial. Retomando, então, a mudança do processo educacional, concordamos com Candau (2005) quando afirma a efetiva necessidade de que a escola se transforme e seja reinventada, passando a ser concebida como um [...] espaço de busca, construção, diálogo e confronto, prazer, desafio, conquista de espaço, descoberta de diferentes possibilidades de expressão e linguagem, aventura, organização cidadã, afirmação da dimensão ética e política de todo processo educativo. (CANDAU, 2005, p. 15). Entre os maiores desafios que impedem a concretude desta visão da escola afirma a autora que há pouca comunicação real entre educador e educando, entre o conhecimento e a curiosidade epistemológica do aluno. Deste modo, é preciso propor novas maneiras, viáveis, de se estabelecer uma comunicação efetiva com os educandos, de modo que o processo de ensino aprendizagem seja alçado a um nível de reflexão abstrata do conhecimento, capaz de levar ao aluno à construção do saber. Como propõe Freire (1996, p. 47), “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”, ou seja, a Educação, enquanto processo, deve incluir o educando numa aprendizagem não apenas expositiva/receptiva, mas sim possibilitar sua construção, sua reflexão. Em relação às tecnologias Saad (2011, p.9) afirma que [...]a resistência de alguns professores às tecnologias é ainda um agravante no processo ensino-aprendizagem. O professor com resistência está sendo compelido a se modificar pelas pressões que os alunos, a sociedade e a direção fazem. Os alunos excluem o professor que não brilha em suas aulas utilizando tecnologias disponíveis. Para o autor, essa resistência por parte dos professores muitas vezes deve-se ao medo de que as novas tecnologias possam substituir seu posto, não a vendo como aliada para executar sua aula. Há também o fato de os professores estarem em uma zona de conforto que os impede de ver a mudança constante no perfil de seus alunos, que cada vez mais estão diante de novas tecnologias, que são atrativas para eles. Nesse cenário, incentivar a verem a real intenção dos novos recursos, e suas possibilidades para melhorar a interação professor-aluno, bem como se adequar às tecnologias que estão presentes em nosso cotidiano, se faz necessário e o mais importante: entender que são recursos para auxiliar sua aula, e não substituir seu trabalho como docente. Assim, os recursos audiovisuais, como os demais recursos didático-pedagógicos, são ferramentas potenciais, embora não exclusivas, na busca de se preencher as falhas da educação tradicionalista, ou seja, [...] com a utilização de recursos didático-pedagógicos, pensa-se em preencher as lacunas que o ensino tradicional geralmente deixa, e com isso, além de expor o conteúdo de uma forma diferenciada, fazer dos alunos participantes do processo de aprendizagem. (CASTOLDI; POLINARSKI, 2009, p. 68). Cabe lembrar que o recurso por si só não gera conhecimento, é preciso saber propor atividades que provoquem a investigação. É nesse contexto que pensamos em mídias de grande alcance, como o cinema. Assim propusemos o uso do stop motion para os licenciandos do Programa de Educação Tutorial (PET) História e Conexões de Saberes para o ensino, destacando a importância da cinematografia nos filmes de animação aliados a diversas aprendizagens, intrínsecas ao processo de criação. Mas o que é stop motion? A técnica de animação denominada stop motion “(...) consiste em tirar uma série de fotografias e depois reproduzi-las em sequência criando a ilusão de movimento com a ajuda de um programa do computador.” (BOSSLER; LOPES; NASCIMENTO, 2010, p.4). Ou seja, a ilusão do movimento é criada a partir de imagens fixas vistas rapidamente. Por meio do uso da técnica de stop motion, [...] aliamos a arte, ao uso criativo, e muitas vezes crítico, das tecnologias de informação e comunicação. Atualmente as tecnologias de informação e comunicação, a imaginação e a criação são elementos essenciais para os desafios que muitas vezes parecem mais problemas insolúveis do que oportunidades. (BOSSLER; LINHARES; CALDEIRA, 2013, p. 2). Esse recurso, aliado ao potencial tecnológico atual, pode apresentar uma perspectiva renovadora para o ensino, contribuindo para uma visão mais efetiva do processo educativo, uma vez que possibilita uma interação mais significativa entre o educando e o saber, onde o que parece ser brincadeira pode contribuir muito para o ensino. Além dessa perspectiva promotora da construção do conhecimento, o stop motion também proporciona, à prática educativa, uma quebra da mesmice catastrófica a qual se reduziu o exercício de ensinar e aprender nos dias atuais. Isso porque, o stop motion, enquanto prática que exige o fazer propriamente dito, exige também a interação, a troca de conhecimentos, o diálogo, o que eleva a prática a uma condição de ludicidade fundamental. Dessa forma este estudo investigou as possíveis aprendizagens desenvolvidas pelos estudantes do PET História na produção de vídeos a partir de oficinas sobre cinema de animação a ser utilizado como recurso pedagógico. Referencial Teórico Incluir novas técnicas e métodos na formação de professores, buscando em um segundo momento, também evidenciá-las durante a formação do aluno é pertinente na atualidade e deve ser tratado com a devida importância. Diante de análises sobre a atuação da escola frente as mudanças e atualizações da sociedade, detecta-se um ensino previsível, muitas vezes tradicional, contrário ao caminhar da sociedade. As práticas vigentes nas escolas, por vezes demonstram sua incompatibilidade com o contexto histórico-social, possuidor de rápidas transformações em diversos aspectos, tornando evidente a necessidade de utilizar novas linguagens e procedimentos, incluindo aqui ferramentas de natureza tecnológica, nesse estudo as mídias. As mídias se apresentam em diversos formatos (desde jornais, folhetos informativos, fotografias, imagens na internet, filmes e uma infinidade) grande parte possui um ponto em comum, utilizam estímulos visuais, imagens, que dialogam conosco o tempo todo, informando, trocando ideias, conectando culturas. Porém para compreender as mensagens que as mídias veiculam através das imagens necessitamos interpretar o que são estas imagens e o que são estas mídias, já que ambas foram criadas dentro de determinadas concepções, dentro de uma ideologia, de forma não neutra (PEREIRA, 2011). Desta forma, acreditamos que o corpo constituinte da escola poderia pensar num trabalho com mídias, visto sua capacidade de desencadear diferentes reflexões, auxiliar no processo de criação, e por esta característica, ampliar a visão do indivíduo, tornando possível diversas leituras do mundo, atravessando o campo da crítica, sensibilidade e imaginação. Assim, enxergar as mídias como recursos pedagógicos e apropriar-se de seus benefícios, traria a possibilidade de manter a escola a sociedade no mesmo tempo e espaço, compartilhando as mesmas ferramentas e linguagens. Pensando no contexto da escola, as mídias auxiliam na contextualização do ensino, bem como no desenvolvimento do pensamento crítico e também na autonomia, o que contribui para melhorar a aprendizagem e a construção do conhecimento. Não é possível para um professor trabalhar com todas as mídias, mas é possível escolher a que atinja grande parte do seu público. Visto dessa forma a produção cinematográfica é uma ótima escolha, que contempla diferentes aspectos: a) trabalha diretamente e como principal componente a imagem, muito difundida e por vezes pouco compreendida; b) é uma linguagem universal, já estamos familiarizados com seus truques, já fomos “alfabetizados” por esta linguagem sem perceber (RAMOS, 2009), consequência da sua superexposição durante muitos anos. O autor nos dá um exemplo claro de como entendemos estes truques muitas vezes sem perceber: [...] um homem e uma mulher estão se casando, há um corte para a próxima cena e vemos o mesmo casal alguns anos mais velho e com três crianças brincando ao redor em um quintal meio apertado. Nada é preciso que seja dito para que saibamos que o tempo passou entre uma cena e outra. (RAMOS, 2009, p.78) Por estes motivos o cinema já apresenta um vasto campo para se trabalhar, um campo já experimentado pelo sujeito, que já reconhece alguns aspectos ou precisa de orientações sutis para percebê-los. Algumas aprendizagens contidas na produção de um filme passam pelas dimensões da estética, técnica, comunicação, representação, além de contribuir para o desenvolvimento da autonomia contida na produção. Esta autonomia possibilita ao sujeito produzir conhecimento sobre ‘o que cria enquanto cria’, estabelecendo um diálogo com a arte, agregando valores e dando significados para o que foi proposto, procurando corresponder ao que foi pedido, e para além disso, deixando sua marca pessoal na produção (PEREIRA, 2011). São estas aprendizagens que buscamos diagnosticar nas produções concebidas na oficina realizada. Napolitano (2009), importante pesquisador desta área, contextualiza o cinema como uma das experiências sociais mais fortes da sociedade, desde as primeiras décadas do século XX, contando com a contribuição da TV no final dos anos 40, ambos construídos em espaços de lutas sociais, culturais e políticas, objetos de disputas econômicas, veículos de inculcação ideológica e de projeções de utopias e sentimentos, ou seja, possuem força para transmitir informações, criar discussões e gerar posicionamentos. Outra característica do cinema é sua capacidade de dialogar e incluir outras linguagens (teatro, livros, quadros, quadrinhos), de uma forma própria, que se apoia em características inerentes: o movimento das imagens; o fracionamento das cenas produzidas, chamado decupagem; e a montagem, ato de ordenar as cenas decupadas. A interação destes recursos tem o poder de direcionar o olhar e entendimento do espectador, na ordem das cenas escolhidas, sem que o indivíduo se perca na história, expressando o que Ramos (2009) denomina a alma do cinema. De acordo com o surgimento destes recursos o cinema passou a possuir linguagem própria, marcada pela manipulação da imagem captada, de acordo com a ideologia, cultura, sentimentos e o que mais estiver envolvido em sua produção. Logo, se for desejo do professor criar um filme para trabalhar com a sala, ele possui a capacidade de incluir no roteiro pontos que deseja discutir, na ordem que deseja, dialogando com o que achar relevante, tomando cuidado para não cometer exageros ou equívocos. Dentre os gêneros do cinema, destacamos o cinema de animação, que possui todas as características assumidas pelo cinema descritas até o momento e conta ainda com outras possibilidades. Dentre estas possibilidades destacam-se a capacidade de usar o lúdico, associado com desenhos animados e/ou tratar assuntos com olhares críticos e seriedade. Nada impede que estes aspectos sejam trabalhados juntos, na mesma produção, o que dependerá das intenções de quem dirige a produção, ou seja, é versátil, com ele podemos representar mundos de fantasias ou fatos históricos, ou qualquer assunto que seja possível ser representado por meio de imagens. Atualmente o cinema de animação pode ser produzido no formato de ComputerGenerated Imagery (CGI), por meio de computação gráfica e no formato de stop motion ou pela interação de ambos dentro de uma mesma produção. Porém trabalhar com stop motion na sala de aula é mais simples que com CGI que requer conhecimentos mais específicos na área da computação gráfica e recursos refinados. Conseguir os recursos necessários para o stop motion não é difícil, esses podem ser câmera, tripé, computador com editor e qualquer material que possa atuar nas cenas, tais como sucata, massinha, entre outros. Para a produção é imprescindível um editor de vídeo, a câmera pode ser substituída por um celular com câmera e o tripé, por exemplo, um cabo de vassoura improvisado. A imaginação já começa a ser trabalhada a partir destas escolhas e improvisações, caso sejam necessárias. Vale dizer que para além destas facilidades o stop motion traz consigo uma beleza própria: a maior parte de sua produção é feito pelas mãos de quem o cria, literalmente, conforme nos mostra Priebe (2011, p. xvii) citado por Traldi e Zuanon (2012, p. 3): “A animação stop motion está nas mãos das pessoas.” Metodologia Apresentamos o cinema de animação procurando expor para o licenciando do curso de História conceitos que tornariam possível desenvolver as aprendizagens nas dimensões da técnica, estética, representação e comunicação, ou seja que possibilitassem ao licenciando saber como produzir os movimentos e editá-los; como construir a cena, definindo padrões e proporções; como evidenciar e representar de forma artística o que é almejado; e quais as linguagens utilizadas para atingir o que se espera. Dar importância a estas dimensões e procurar desenvolvê-las é ensinar ao sujeito não apenas a ver, e sim enxergar e ser capaz de discutir o que o filme tem a dizer. Dar esta consciência é permitir que o aluno se aproprie desta linguagem e possua autonomia para transmitir suas próprias mensagens, criando seus filmes, cenários, personagens, dialogando com palavras ou imagens, controlando e viajando no tempo. A sensibilidade para compreender outros meios de comunicação vem como consequência, diante da capacidade, já comentada, do cinema em dialogar e incluir outras mídias durante sua construção. A produção de filmes foi realizada com os alunos do PET História da UFTM, por meio de oficinas organizadas em três encontros. A metodologia utilizada nas oficinas seguiu as etapas descritas por Kindem e Musburger (1997): pré-produção, produção e pós-produção. Antes destas etapas foi feita uma introdução a linguagem cinematográfica na qual foram discutidos os conceitos de: cenário, iluminação, movimento de câmera, sonoplastia e enquadramento. A pré-produção consiste na preparação, planejamento e projeto do vídeo a ser produzido, ou seja, desde a concepção da ideia inicial até a filmagem. Divididos em três grupos, os estudantes escolheram um tema do campo da História, produziram o roteiro e criaram os cenários e seus personagens. A produção é a etapa em que são feitas as cenas que irão compor o vídeo, feitas em tomadas, ou seja, com intervalos de tempo entre o início e o término de cada gravação. Essas tomadas vão compor uma cena e as várias cenas no seu conjunto formarão o filme. Nessa etapa os estudantes, com auxílio da câmera fotográfica e o tripé, tiraram fotos do cenário construindo suas histórias. A pós-produção é a etapa na qual é feita a edição e a organização das tomadas gravadas para a composição das cenas e do vídeo como um todo. Nesse momento cada grupo editou seu filme utilizando software Movie Maker e apresentou aos demais. Resultados Após todo o desenvolvimento da pré-produção, produção e pós-produção os produtos finais da oficina expressaram-se na forma de três curtas, intitulados “Holocausto”, “Cultura Afro-brasileira” e “O imaginário da travessia” todos abordando fatos históricos de diferentes períodos. Analisamos todos os filmes procurando pontuar quais as dimensões presentes buscando exemplificar, também procuramos mostrar a forma como eles interagem e interferem na produção e a importância desta interação para a desenvoltura do filme, mostrando como estão diretamente relacionados. No vídeo “Holocausto” destacam-se as dimensões da estética e da representação. A escolha do cenário monocromático, na cor preta, representou a ideia de um clima pesado, que juntamente com os diversos ângulos utilizados no momento da fotografia e os efeitos adicionados na hora da edição, deixaram expresso o ar de loucura. Além disso, o contraste das roupas dos personagens - judeus e Adolf Hitler, ajudou a evidenciar a personalidade dos sujeitos reforçando a dimensão da representação, pois utilizaram nos judeus roupas claras (azul e branco) e em Hitler, uma farda negra. Uma integrante do grupo mostrou destreza para confeccionar os bonecos, os judeus foram feitos sem rostos (figura 01), representando a totalidade deste grupo. Hitler foi representado no filme com suas famosas características (figura 04), dando a certeza de quem se tratava. Os bonecos também ajudaram a retratar a ideia do Holocausto sem as imagens violentas trazidas pelos documentários. A técnica que o grupo usou para a movimentação dos bonecos foi uma haste longa de metal (figura 03), presa ao corpo dos bonecos. Porém, estas hastes apareciam todo o tempo, o que atrapalhou a estética e tirou um pouco da “vida” dos personagens, já que eles não se movimentavam sozinhos, claramente alguém os movimentava. A representação reforçou a comunicação, pois utilizou elementos presentes em desenhos animados (figura 02) e histórias em quadrinhos (figura 04)acentuando condição e impressão – a condição de morte ao colocarem um X no lugar dos olhos dos judeus e a impressão de multidão ao usarem diversos balões expressando a fala: Heil Hitler!. Também utilizaram a imagem de uma suástica e uma caveira que trazem, por si só, muitos significados, e no vídeo tiveram a função de ancorar as legendas. Figura 01 – cena do filme Figura 03 – cena do filme Figura 02 – cena do filme Figura 04 – cena do filme O curta “Cultura Afro-Brasileira” revela que erros e limitações da técnica podem produzir novas decisões e mudar o inicialmente pensado. Neste caso a intenção do grupo era reproduzir uma roda de capoeira, porém durante o desenvolvimento perceberam a complexidade em produzir os movimentos propostos. Destacam-se nesse cenário a fragilidade dos bonecos construídos, o que resultou na simplificação dos movimentos e na adaptação do roteiro: de uma roda de capoeira para um afro brasileiro tocando atabaque (figura 05). O cenário criado foi rico, possuía profundidade e muitos detalhes que representavam ou sugeriam o cotidiano dos personagens (panelas, ferramentas, plantações...) mas não foi explorado nas filmagens. Cabe destacar também que o grupo deixou a câmera parada por muito tempo na mesma cena modificando apenas em dois breves momentos (figura 06 e 07). Figura 05 – cena do filme Figura 06 – cena do filme Figura 07 – cena do filme O vídeo sobre “O imaginário da travessia” trouxe um caminho que não foi explorado pelos outros grupos e deu vida a seus barcos feitos de papel. A escolha dos objetos que iriam movimentar fez diferença, suas caravelas feitas por meio de origami deslizavam facilmente pelo cenário, produzindo um efeito real de movimento (figura 08). Além disso, o grupo dividi a história em duas partes, a primeira utilizando a narrativa de uma carta de conteúdo original escrita ao rei (figura 09) , narrando o desaparecimento de uma de suas embarcações e, em seguida, as imagens representavam o que as cartas diziam. Na segunda parte representaram o imaginário, do que supostamente aconteceu com a caravela (figura 10). Neste momento, os movimentos atingiram níveis diferentes dos outros grupos, como a expressão facial de um dos tripulantes, que antes de ser devorado por um monstro do mar faz uma face de espanto, controlada pela abertura da boca e o recurso sonoro de um grito (figura 11). No âmbito da dimensão estética há problemas no cenário, com elementos que não respeitaram as devidas proporções, tais como o tamanho da ilha e dos barcos (figura 08). Figura 08 – cena do filme Figura 09 – cena do filme Figura 10 – cena do filme Figura 11 – cena do filme Conclusão Compreender as linguagens envolvidas em uma produção cinematográfica significa aprender a escrever em outra língua, não apenas palavras, mas utilizando imagens e sons, por meio de um instrumento multimídia. Essas outras maneiras de escrever são bem difundidas atualmente e chamam a atenção dos estudantes, motivo pelo qual deveriam ser mais utilizadas. Muitas competências estão envolvidas neste processo, os grupos por vezes precisaram mudar o rumo do que haviam pensado a princípio, buscaram soluções pensando em conjunto e tomaram novas decisões. Souberam explorar muito bem as capacidades individuais de cada um e dividir o trabalho, na produção de bonecos, desenhos e na edição dos filmes. Todos precisaram ser práticos e rápidos para concluir o trabalho dentro do prazo da oficina. Apropriar-se da estética, técnica, comunicação, representação, significa olhar de outra forma para as expressões que nos rodeiam, sejam elas artísticas, culturais, sociais, publicitárias e, ter condições de criar argumentos e se posicionar diante delas. Fato que não aconteceu com os grupos. No momento que abrimos para a discussão das produções e indagamos as escolhas do cenário, das cores e ângulos muitos justificaram como coincidência, que não tiveram exatamente a intenção, e num segundo momento concordaram que os resultados expressaram mais do que eles tinham em mente. Isso pode ser fruto da grande exposição ao cinema e a pouca reflexão sobre o mesmo, tornando tudo muito automático. Neste caso os alunos fizeram escolhas automáticas, que deram mais sentido ao filme, mas não tiveram esta consciência. Isso reforça o quanto o cinema está difundido no cotidiano das pessoas. O cinema é apenas um dos instrumentos que pode ser utilizado no contexto da sala de aula, existem muitos outros. Entretanto, por possuir capacidade de incluir diversas mídias, quando manipulado com consciência pode atingir grandes públicos e construir vários conhecimentos, razão pela qual deveria ser mais utilizado na Educação. Aplicar oficinas com esse tema na formação de professores é importante para desenvolver esta linguagem e fazer com que os professores passem pelo processo e o compreenda, para poder desenvolver trabalhos conscientes e efetivos com esta ferramenta. Referências BOSSLER, A. P.; LOPES, G.; NASCIMENTO, S. S. Territórios de Interlocução: Animações. 1.ed. Belo Horizonte: Editora FaE/UFMG – CECIMIG, 2010. v. 2. 24 p. BOSSLER, A.P.; LINHARES, M.M.P.; CALDEIRA, P.Z. Criação de animações em massa de modelar na formação de professores: evidências e possibilidades de aprendizagens. In: Anais do Seminário de formação de professores. Uberaba: UFTM, 2013. Disponível em: http://www.uftm.edu.br/seforprof/images/comunicacao/4.4_Cria%C3%A7%C3%A3o_ de_anima%C3%A7%C3%B5es__em_massa_de_modelar_na_forma%C3%A7%C3%A 3o_de_professores_evid%C3%AAncias_e_possibilidades_de_aprendizagens.pdf. Acesso em: 4 de outubro de 2014 CANDAU, V. M.. Reinventar a escola. 4. ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2005. CASTOLDI, R.; POLINARSKI, C. A.. A Utilização de Recursos Didático-Pedagógicos na Motivação da Aprendizagem. In: Anais do Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia. Ponta Grossa: UTFPR, 2009. p. 684 - 692. KINDEM, G.; MUSBURGER, R. B. Introduction to Media Production: from analog to digital. Focal Press, Bostom, 1997. NAPOLITANO, Marcos. Cinema: experiência cultural e escolar. _____. Caderno de Cinema do Professor. São Paulo: Governo do estado de São Paulo, 2009, p. 10-30. PEREIRA, Katia Helena. Como usar as artes visuais na sala de aula. Editora Contexto, 2011. RAMOS, E. A linguagem cinematográfica. NAPOLITANO, Marcos. Caderno de Cinema do Professor. São Paulo: Governo do estado de São Paulo, 2009, p.72-92. RIBEIRO JUNIOR, D. O Audiovisual na Escola: dominação ou transformação. In: Revista Universitária do Audiovisual. São Carlos, p.1-7, 15 mar. 2011. SAAD, E. F. Formação de docentes em tecnologias aplicada à educação: problemas e soluções. Revista Triângulo. Uberaba-MG: UFTM, v.4, n.1, p. 1-21, jul/dez 2011. TRALDI, Rebeca; ZUANON, Rachel. Stop Motion-do artesanal ao digital. Anagrama: Revista Científica Interdisciplinar da Graduação, v. 6, n. 2, 2012.