O ENSINO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO COM FILMES
Jocyléia Santana dos Santos
UFT
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Palavras-chave: Ensino, História e História da Educação.
Relação História-Imagem
A relação história-imagem existe desde o momento em que os homens começaram a
utilizar desenhos para preservar e contar sua trajetória. Essa realidade não se modificou até
hoje. Sempre que desejamos nos lembrar de algo, quando lemos um livro ou ouvimos uma
estória, as imagens mentais são formadas. Nós estamos acostumados a encarar o mundo através das imagens, e a cada dia o mundo se torna mais visual, algo nunca antes imaginado.
No entanto, apesar desse costume, a utilização das imagens como forma de se enxergar a História é muito recente. Isso por que desde a aceitação da mesma como ciência, no século XIX, época auge do cientificismo, para que algo fosse considerado como verdade deveria estar baseado em fontes confiáveis e imparciais como só os documentos escritos poderiam
ser. Desse momento em diante, até mais ou menos o fim segunda grande guerra, deu-se privilégio a história dos grandes líderes (ou seja, história política), com uma visão linear e um papel deificado das fontes escritas.
Com o surgimento da Escola dos Annales, esse panorama começa a ser modificado.
São abertos novos campos para estudos historiográficos como a economia, a cultura e outros,
mas ainda com base no material escrito. A inclusão de novas visões sobre esses materiais provocaram uma mudança na concepção dos mesmos que deixaram o estatuto deificado e passaram a ser vistos como falíveis, com uma visão limitada do processo o qual representam, sendo
escritos apenas por uma das partes presentes no conflito e tendo, por isso, um excessivo grau
de parcialidade. A Nova História vem fundamentar o uso do filme como fonte documental.
Segundo Jacques Le Goff:
Ampliou o campo do documento histórico; substituiu a história fundada essencialmente nos textos, no documento escrito, por uma história baseada
numa multiplicidade de documentos: escritos de todos os tipos, documentos
figurados, produtos de escavações arqueológicas, documentos orais, uma estatística, uma curva de preços, uma fotografia, um filme, uma ferramenta,
um ex-voto são para a história nova, documentos de primeira ordem (1990,
p.28)
Nesse campo das relações entre o cinema e a história destaca-se o historiador francês
Marc Ferro, um dos principais estudiosos nessa área. O historiador propõe duas formas de se
ler o cinema: “leitura histórica do filme e leitura cinematográfica da história: esses são dois
eixos a serem seguidos para quem se interroga sobre a relação entre cinema e história” (1992,
p.19).
Marc Ferro situa o cinema no território de análise do historiador. Onde cabe o cinema
quando tratado à luz da História, pergunta Ferro? Para ele, o cinema é a contra-análise da sociedade, mas também é História, escreve e se inscreve na História, deixando sua marca na
sociedade e, dialogando com ela, criando hábitos e costumes que ele próprio produziu. O filme dá a possibilidade de enxergarmos a História livre de sua vinculação com documentos
oficiais, livre da escrita. Ele se insere no imaginário do homem.
Os historiadores já recolocaram em seu legítimo lugar as fontes de origem popular,
primeiro as escritas, depois as não escritas: o folclore, as artes e as tradições populares. Resta agora estudar o filme, associá-lo com o mundo que o produz. Qual é a hipótese? Que o filme, imagem ou não da realidade, documento ou ficção, intriga autêntica ou pura invenção, é História. E qual o postulado? Que aquilo que não aconteceu (e por que não aquilo que aconteceu?), as crenças, as intenções, o imaginário do
homem, são tão História quanto a História (FERRO, 2010, p.32).
Ferro começa a pensar as imagens, mais especificamente o cinema, como fonte possível para estudos historiográficos, já que, por se tratar de uma produção do homem e que freqüentemente se utilizou a história como fonte de inspiração, merece ser analisado pela ciência
que tem como ponto principal as ações humanas em um processo de desenvolvimento contínuo: a História. Além disso, desde o surgimento dessa arte, como já se afirmou, não são poucas as películas que se apossaram de fatos históricos para contar suas estórias. Desde então a
discussão sobre a possibilidade ou não da utilização dos filmes como fonte para o trabalho do
historiador vem crescendo e, apesar de alguns ainda não aceitarem essa técnica, vem aumentando o número de pesquisadores que têm em seus trabalhos fontes e natureza fílmica.
Mas é necessário se fazer algumas ressalvas sobre essa nova fonte histórica. No cinema, torna-se impossível tratar todos os aspectos dos acontecimentos históricos. Se assim fosse
feito, além de tornar as películas imensas, faria com que o espectador se perdesse, já que não
haveria linearidade no filme, sem atingir com isso sua questão fundamental, a de entretenimento do espectador. No entanto esse não é um ponto que impede a utilização do mesmo na
sala de aula, é apenas uma limitação com a qual o historiador terá de lidar.
Cinema e o ensino de História
As transformações da sociedade contemporânea, bem como as novas perspectivas historiográficas, como as relações entre história e memória, têm estimulado o debate sobre a necessidade de novos métodos de ensino de História.
Esse desafio é interessante na construção de uma prática de ensino reflexivo e dinâmico, podendo- se afirmar que ensinar História é levar o aluno compreender e explicar, historicamente, a realidade em que vive. É importante destacar que, do ponto de vista didáticopedagógico, só é relevante a aprendizagem que seja significativa para o próprio aluno, que se
identifique como sujeito da história e da produção do conhecimento histórico. Conforme Schmidt (2004, p. 57) “Ensinar História passa a ser, então, dar condições para que o aluno possa participar do processo de fazer, do construir a História”. Portando, o espaço escolar não é
onde apenas se transmitem informações, mas o espaço onde se estabelecem relações entre
interlocutores que constroem significados e sentidos.
Diante dessas considerações, configuram-se as necessidades da utilização de diversas
metodologias, fontes e linguagens para a construção de um ensino de História que ganhe vida
em nossas escolas e em nossos alunos, dando-lhes a oportunidade de construir conhecimento
histórico e apropriar-se de problemáticas de forma significativa. O filme constitui uma linguagem, entre outras que podem ser aplicadas no estudo da História.
Convêm lembrar que no Brasil o uso do cinema como recurso didático não é nada recente. Na década de 1930, já se percebia o cinema como ferramenta indispensável na educação de jovens e crianças. O Governo Vargas tornou a educação um dos seus principais alvos e
via o cinema como instrumento de divulgação da cultura do Estado. Dessa maneira percebemos que não havia preocupações teórico - metodológicas, mas sim uma forma de fazer do
cinema um veículo de massa difusor da ideologia do Estado seguindo os modelos dos regimes
autoritários da Alemanha, da Itália e da Antiga URSS.
Não podemos ignorar que vivemos uma era da imagem e o cinema é um dos grandes
representantes dessa era. Dessa forma é inegável o peso da imagem sobre os alunos. O cinema, percebido como recurso didático, possibilita a construção do conhecimento histórico, pois
“o cinema possui mensagens fílmicas individuais e múltiplas, mensagens que trazem valores
culturais, sociais e ideológicos de uma sociedade”. O filme torna-se um documento a partir do
momento em ele apresenta vestígios do passado.
O filme representa uma ótima oportunidade para trabalhar o senso crítico do aluno,
pois o uso do filme em sala de aula não cabe apenas no visualizar, mas no questionar a obra
cabendo ao professor o papel de guiar tal processo, pois trabalhar com o cinema na sala de
aula requer muita atenção de quem vai utilizá-lo.
O cinema, ao tratar de temas históricos, apresenta uma versão de um fato, onde geralmente as liberdades artísticas permeiam toda a obra. O professor deve lembrar ao seu aluno
que o filme não representa uma verdade histórica, mas sim uma interpretação dos fatos. Na
nossa situação descrita no inicio do texto o que pode acontecer é que o aluno ao assistir ao
filme 1492 – A Conquista do Paraíso vai assimilar aquela imagem como sendo “aquilo que
de fato aconteceu” sem levar em consideração de que se trata de um trabalho artístico e que
carece de uma analise.
Um dos cuidados principais ao se analisar um filme é evitar o anacronismo ao julgar
valores e condutas de uma determinada época pelos critérios do presente.
Outro ponto relevante no uso do cinema como material didático é que o filme não deve ser usado como o único material de análise. O filme não substitui o material didático.
Sempre que for possível, o professor deve relacionar o filme com outra fonte podendo apresentar outros textos relacionados ao filme como artigos, críticas, letras de música, fotografias.
Dessa forma o professor facilita ainda mais o entendimento do filme e o processo de produção
do conhecimento.
O uso do filme não funciona se ele não for analisado. O professor deve trabalhar o
filme em atividades que estimulem o senso crítico do aluno, pois cabe a ele conduzir junto
com o aluno o processo de ensino-aprendizagem.
Nos Parâmetros Curriculares Nacionais o computador, a televisão, o videocassete, as
filmadoras, além de gravadores, além do próprio livro didático como tendo ―um papel importante no processo de ensino e aprendizagem, desde que se tenha clareza das possibilidades
e dos limites que cada um deles apresenta e de como eles podem ser inseridos numa proposta
global de trabalho.
É em meio a todas essas propostas educacionais trazidas pela reforma educacional do
Governo Fernando Henrique Cardoso que surge o livro Como usar o cinema em sala de aula,
de Marcos Napolitano. Não podemos afirmar que a publicação foi motivada pela reforma,
mas ela surge nesse contexto e responde de alguma forma às necessidades educacionais presentes na época.
Em sua apresentação, Napolitano comenta a dificuldade que tanto a escola tradicional
como a escola renovada têm em usar o cinema como recurso didático, afirmando que ―o
cinema não tem sido utilizado com a frequência e o enfoque desejáveis. (NAPOLITANO,
2006, p. 7).
Os PCN de História indicam a possibilidade de se trabalhar com filmes, considerados
como documentos no sentido mais amplo, que os historiadores passaram a adotar no século
XX, como indícios de realidades históricas.
As mais diversas obras humanas produzidas nos mais diferentes contextos sociais e com objetivos variados podem ser chamadas de documentos
históricos. É o caso, por exemplo, de obras de arte, textos de jornais, utensílios, ferramentas de trabalho, textos literários, diários, relatos de viagem,
leis, mapas, depoimentos e lembranças, programas de televisão, filmes, vestimentas, edificações etc. (BRASIL, 1998c, p. 83).
A metodologia e o roteiro
O uso de filme na aula de história é uma importante ferramenta metodológica que pode ser utilizada pelo professor. É uma maneira de transformar uma aula excessivamente palestrante em uma aula voltada para a interação e socialização do conteúdo em sala de aula. Assim, ao propor a exibição de um filme como discussão do conteúdo perante os alunos, o professor abrirá possibilidades para que eles se insiram na construção do conhecimento, contribuindo assim para o enriquecimento do cotidiano escolar.
O professor, ao propor o uso do filme, deverá desenvolver uma minuciosa preparação
de sua aula, para que os alunos não vejam essa atividade somente como um momento de diversão. Dessa forma, o primeiro passo é escolher um filme que se encaixa dentro do que está
sendo discutido em sala de aula; depois, analisar a narrativa do filme para ver se a linguagem
e o roteiro são adequados para a faixa etária da turma. Além do mais, é necessário fazer uma
breve introdução do que será retratado no filme, tornando evidente, por exemplo, o ano que a
produção foi elaborada e o nome dos diretores que o produziram.
Para mostrar que o filme tem importância na análise do conteúdo é importante elaborar uma atividade avaliativa sobre o tema em questão. Um círculo de debate para compreender
o que foi retratado de mais pertinente no filme servirá de baliza para avaliação. Pode-se, por
exemplo, solicitar que os alunos façam perguntas uns para os outros para estimular a socialização do conteúdo apresentado, pois nem sempre uma sala em silêncio é uma sala em aprendizado. Isso permite, portanto, fazer com que os alunos sejam protagonistas na produção do
conhecimento, dando a eles responsabilidade perante o conteúdo.
O propósito de levar um filme para sala de aula varia de acordo com o entendimento
de História do próprio professor. De acordo com a História Cultural, as preocupações teóricas,
e o processo de produção do cinema propõe-se a utilização do filme em sala de aula acompanhado de análise da produção fílmica e das temáticas envolvidas. A divulgação e a leitura
atenta da ficha técnica com os alunos num primeiro momento demonstra a época e o local de
produção, a equipe envolvida na elaboração do filme, além dos atores e atrizes, que podem até
ser conhecidos dos discentes. Essa apresentação aproxima a época de produção do filme dos
alunos e, junto com uma discussão de “olhar o passado” através da visão de uma equipe de
profissionais, direciona o pensamento à pluralidade.
Segundo SCHMIDT (2004) a seleção de alguns elementos pode levar a uma quebra de
paradigma com o ensino tradicional. Levando a aula de História do ensino médio numa direção de eixos temáticos, considerando a realidade social dos educandos e do meio onde vivem
superando limites locais e regionais. Os elementos são os seguintes:
• A história vista como processo, superando a linearidade e a evolução positiva;
• A análise dialética da história, rompendo com o entendimento de fatos separados
sem análise da totalidade;
• A história sempre partindo do presente contrapondo-se à idéia de estudos imparciais;
• A interpretação da história com base na realidade social (micro e macro) do aluno,
dando condições ao mesmo de entender e interferir.
O planejamento é fundamental para utilizar o filme em sala de aula. A escolha do filme deve seguir um propósito, seja na análise de um conteúdo ou de um fato histórico ocorrido
numa época passada, ou na discussão da sociedade atual. Para cada um destes objetivos/propósitos é interessante utilizar o filme de maneira diferente. O uso de determinadas
cenas tende a ser uma opção adequada para a sala de aula. A apresentação de todo o filme é
indicada sempre que for possível. Recomenda-se sua visualização por completa, tanto para
um trabalho específico, como uma investigação ao longo da trama, quanto para analisar a sociedade atual. Enfatiza-se que, neste último caso, as nuanças envolvendo ações dos personagens, cenários e interpretações são melhores observadas dentro do contexto de produção da
obra como um todo. Para que isso seja melhor aplicado, uma pesquisa mais aprofundada sobre o diretor, patrocinadores, entre outros, devem ser realizadas.
Observa-se que o uso das cenas dos filmes em geral devem vir acompanhadas de algumas instruções: antecedendo a cena, cabe apresentar uma introdução do contexto a ser trabalhado, ligando a cena ao propósito da aula e, após a exibição, é interessante oferecer uma
proposta de atividade aos discentes. Essas instruções possibilitam trabalhar com uma ou várias cenas, ficando estas independentes dos filmes de onde foram retiradas. A composição de
um roteiro, a seleção e a montagem das cenas e o direcionamento das propostas de atividades
fazem surgir um vídeo original, com um novo contexto e intenção, voltados para um determinado público e assinado pelo professor de História. Este, por sua vez, torna-se produtor, diretor e autor de um material didático a ser utilizado em sala de aula.
Considerações Finais
Ao fazer uso do recurso audiovisual nas aulas de História, tornando-a mais dinâmica, a
indicação é iniciar com questionamentos, provocações, desafios... apoiando - se nas cenas de
um ou mais filmes, organizando as discussões para partir do hoje/momento contemporâneo
(com a produção da película e suas questões mais teóricas, envolvendo a História e o Cinema)
e atingir o período histórico a ser estudado, representado nas cenas (conteúdo da História).
Essa ferramenta didática fará o link com outros materiais, de escolha do professor, para tratar com conceitos históricos importantes. Os alunos devem estar cientes que o filme é
uma representação de um local, de uma sociedade, de um modo de vida, de uma época… e o
estudo que eles irão fazer, servirá para compreender uma sociedade diferente, reconhecendo
que esse outro não pensava igual e nem agia do mesmo modo que os deles. As aprendizagens
significativas alcançadas pelos discentes serão possíveis com os entendimentos dos processos
históricos, resultando nas relações com o mundo de hoje. Muitos destes são fundamentais
para dar ao aluno um conhecimento das explicações das possíveis situações enfrentadas no
seu tempo. Temas e conceitos associados com a questão do tempo e de sua construção e organização, das fontes históricas e de sua seleção e perduração, da representação das sociedades e
dos acontecimentos do passado e do presente... são fatores que devem estar presentes em
qualquer utilização dos recurso didático.
Outro fator que propicia aprendizagens significativas é o trabalho mais dinâmico obtido com o recurso audiovisual. Este é um material de grande proximidade dos discentes. Vídeos e cenas são gravadas, executadas, editadas e repassadas com o auxílio de um computador
e de um celular, com uma câmera e a tecnologia bluetooth, sendo colocados em sites de vídeos específicos para este fim, com grande facilidade. O professor atento a isso deve propor
atividades ligadas à criação, pelos alunos, de cenas que representem acontecimentos de períodos históricos.
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SCHMIDT, Maria Auxiliadora. Formação do professor de História e o Cotidiano. In: BITTENCOURT, Circe (org.). O saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto,
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