Preto Michel: um jovem entre a literatura marginal e o hip hop em Belém do Pará Leila Cristina Leite Ferreira1 Carla Marinho Figueiredo Saldanha2 Resumo: O presente artigo tem por objetivo apresentar uma etnografia sobre a literatura marginal e o hip hop em Belém do Pará. Tendo como protagonista o jovem artista Preto Michel, poeta marginal e militante do Movimento Hip Hop de Belém. Participante de dois importantes grupos, o Núcleo de Resistência Periférica e o Coletivo Casa Preta, que mobilizam e organizam o hip hop na cidade de Belém. Enquanto método antropológico, a etnografia e a história oral foram às técnicas que possibilitaram os registros em campo, que foram analisados numa perspectiva sócio antropológica. A vivência em campo juntamente com os registros permitiram com que percebêssemos que um jovem, como Preto Michel consegue influenciar outros jovens a partir de seus textos e de sua militância tanto na literatura marginal quanto no hip hop. Palavras-chave: Preto Michel, Hip Hop, Literatura Marginal, Juventude. 1. Introdução O presente trabalho consiste num relato etnográfico sobre a literatura marginal e o hip hop em Belém do Pará, tendo como protagonista o jovem artista Preto Michel. Ele é poeta marginal e militante do Movimento Hip Hop de Belém, mais especificamente do Núcleo de Resistência Periférica e do Coletivo Casa Preta, dois importantes grupos que mobilizam e organizam o hip hop em Belém. A metodologia empregada foi o método etnográfico e a história oral. A conclusão obtida foi a de que um jovem como Preto Michel consegue 1 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia – PPGSA da Universidade Federal do Pará - UFPA. 2 Mestranda do Pro Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia – PPGSA da Universidade Federal do Pará - UFPA. 1 influenciar outros jovens a partir de seus textos e de sua militância tanto na literatura marginal quanto no hip hop. O Movimento Hip Hop teve inicio ainda na década de 1960, nos Estados Unidos, iniciado como uma manifestação musical que levava a juventude negra e hispânica, que morava no Bronx, em Nova Iorque para as festas nas ruas, mantendo-os distante da violência que fazia parte de seu cotidiano. Essas juventudes viviam “guetificadas” e sem nenhuma oportunidade para que pudessem fazer algo por si. Foi então, que Áfrika Bambaataa, um Dj que conseguiu chamar atenção para as músicas que tocava, levou música para as ruas e a partir dali inventou a palavra hip hop, é considerado um dos pais do Movimento Hip Hop (SOUSA, 2009; SOUZA, 2010; RECKZIEGEL, 2004; BORDA, 2008). E nesse cenário de manifestação musical ainda podemos destacar outros nomes como do Dj Kool Herc e Grandmaster Flash. Clive Campbell, mas conhecido como Herc era jamaicano, e foi o primeiro Dj que levou para os Estados Unidos as festas de rua tal qual ocorriam na Jamaica, ele é considerado o pai do hip hop. Já Granmaster Flash era um frequentador das festas que começou a ser colaborador e criou o scratch, que segundo Sousa (2009) era o “ato de fazer o disco rodar para frente e para trás criando um som, raspado ‟característico do rap” (p. 18). O aperfeiçoamento da forma de tocar e a visibilidade dada a este estilo musical só tornou-se conhecido dentro do hip hop como break, pois foi a partir das paradas que faziam nas músicas nas quais as pessoas dançavam de maneira diferente que conseguiram prestar atenção nesse momento e denominar de break boy e break girl os jovens que estavam ali dançando. Ou seja, o B’Boy e a B’Girl que conhecemos hoje dentro do movimento (SOUSA, 2009; RIBEIRO JÚNIOR, 2009; SOUZA, 2010; RECKIEGEL, 2004). O hip hop é uma manifestação cultural fruto de um contexto histórico que não favorecia em nada a juventude que morava nos guetos americanos. E que já contava com toda a trajetória histórica da escravidão negra nos Estados Unidos. Naquele país está à raiz da música negra de onde veio o rap, uma música quase falada onde estão presentes manifestações de protesto contra a condição de pobreza e violência que envolve o nascimento desse movimento (SOUZA, 2010; SOUSA, 2009; SANTOS, 2007; BORDA, 2008). O hip hop chega ao Brasil no inicio da década de 1980, tendo como primeiro elemento a ganhar visibilidade o break, que se espalhou pelo país através de revistas, jornais e da televisão. Segundo Santos (2007), foram os filmes, videoclipes e CD’s que traziam a mensagem do hip hop como a dança, e que a partir daí foi se espalhando pelo país. 2 A história do Movimento Hip Hop em Belém teve início na década de 1990, quando alguns jovens que já estavam envolvidos com os elementos desse movimento estavam agindo com suas respectivas artes dentro da cidade, porém, de maneira isolada. Foi então, que tomaram a iniciativa de se organizarem juntando todos os elementos num único movimento. Isso ocorreu dentro do bairro da Terra Firme, mais especificamente no Centro Comunitário Bom Jesus, localizado na Passagem Bom Jesus (Borda, 2008), (Dj Rg, 36 anos, entrevista em: 22/01/2012). Mas, para que se esclareça está história trabalhamos aqui com a história oral. E, portanto, utilizamos da memória dos jovens que estão envolvidos nesse processo de organização e de movimento dentro da cidade. Segundo Bosi (1998) trabalhar com a memória de jovens é diferente de trabalhar com a memória de velhos. Pois, para essas duas categorias, ela tem significados diferentes. Para os primeiros ela representa uma fuga, enquanto que para o segundo ela representa um resgate de coisas que já foram vivenciadas. É importante perceber que ao utilizar a memória como um recurso documental muita coisa corre o risco de ser perdido, uma vez que não se pode reconstituir os fatos exatamente da maneira como ocorreram. Pois, é necessário entender que a memória retém apenas aquilo que ela acha interessante, imprescindível. Bosi (1994) chama atenção para o fato de que cada indivíduo destaca em sua memória os detalhes que mais lhe marcaram podendo um mesmo período histórico ser contato de diferentes maneiras pelas pessoas que o vivenciaram. E Preto Michel construiu e ainda constrói essa história através de seus contos e poesias, seus livros trazem experiências que envolvem lendas amazônicas com o cotidiano urbano de Belém. Ele faz parte da Nação de Resistência Periférica (NRP) e do Coletivo Casa Preta além de ser um importante militante desse movimento dentro de Belém. 2. Nação de Resistência Periférica (NRP) Durante a pesquisa conversando com o Dj Morcegão e Dj Rg conseguimos descobrir um pouco sobre como se deu o processo de formação do Movimento Hip Hop em Belém. Eles contaram que antes de organizarem a Nação de Resistência periférica (NRP) o hip hop já estava presente em Belém através da dança e dos grupos de rap que já estavam se movimentando pela cidade. No entanto, os grupos de dança ainda não se denominavam de grupos de hip hop e por isso se denominavam de Rap Boys porque sabiam que estavam 3 fazendo algo que tinha a “pegada hip hop”. Porém não estavam organizados como um movimento nem mesmo os grupos de rap como no caso do MBGC (Manos da Baixada de Grosso Calibre) que foi o grupo do qual participavam o Rg e o Morcegão. MBGC foi um dos primeiros grupos de rap de dentro de Belém e teve uma importância fundamental na organização do hip hop enquanto um movimento. Pois, ele foi o grupo que tomou a frente dessa organização mobilizando as pessoas de outros grupos principalmente as que estavam dentro do bairro da Terra Firme para que se unissem e assim montassem um movimento onde todos os elementos do hip hop estivem presente e ali também tivesse algo além do cultural, mas que também envolvesse o social. Então a partir das mobilizações foi organizado o “Núcleo de Resistência Periférica”, que mais tarde veio a se chamar “Nação de Resistência Periférica”, a NRP. Suas reuniões ocorriam dentro do Centro Comunitário Bom Jesus, no bairro da Terra Firme, onde morava a maioria dos jovens que faziam parte de alguma maneira do hip hop, que na época tinha como presidente Fafá. Ela abria as portas do centro para essa juventude que se reunia todos os domingos e para outra também como os punks que também estavam no bairro e que se reuniam e faziam seus shows ali. Então, fui conversar com Fafá e ela disse que apenas abria as portas do centro e que não sabia o que estava acontecendo porque estava ocupada com outras atividades do centro. Mas, querendo ou não ela colaborou e muito com a história desses movimentos ao oferecer a oportunidade de ter um espaço para se reunirem e para discutirem suas ideias e suas perspectivas de futuro. Além do mais ali foi o espaço onde ocorriam também os shows tanto dos grupos de hip hop como dos grupos punks. Fafá lamenta que hoje o Centro Comunitário Bom Jesus esteja abandonado e por ser de madeira, uma construção de mais de trinta anos que está caindo e nenhum grupo de jovens ou qualquer outro está se reunindo lá ou ao mesmo se mobilizando para que seja reformada, essa é uma queixa dela que hoje não está mais a frente do centro. A formação da NRP foi apoiada também por outros movimentos como contaram Morcegão e Rg: A gente acabou formando primeiramente o “Núcleo de Resistência Periférica” um núcleo onde nós reuníamos no “Centro Comunitário Bom Jesus”, no bairro da Terra Firme. Nos reuníamos todos os domingos e fazíamos o convite para todos os caras que gostavam de escutar um rap, que se identifica com a cultura e até com as próprias roupas, que acabam sendo um diferencial também. Montamos o núcleo e depois acabamos montando a nação que se tornou a NRP. Então através disso, nós fomos conseguindo fazer várias atividades e chegamos a participar do “Conselho Municipal do Negro de Belém”, participamos do MOB (Movimento Hip Hop 4 Organizado Brasileiro). E foi essa organização que se tornou NRP. (Dj Morcegão, 39 anos, entrevista em: 25-10-2012) E ai a gente montou a “Nação de Resistência Periférica”, até hoje. Junto com outras pessoas que também estavam chegando, algumas meninas. E aí logo em seguida quando a gente começou a reunir a gente percebeu que chamou a atenção de outros grupos. O pessoal do Rock, o pessoal do Punk e o Reggae. Então, começaram a ir na nossa reuniões, para poder, né dá suas experiências e também contribuir com a nossa história e ver que jovem da periferia tão surgindo como com uma nova ideologia bem radical e forte. Então, surge o movimento organizado aqui em Belém. (Dj Rg, 36 anos, entrevista em: 22-01-2012) A mobilização para organizar o hip hop dentro de movimento em Belém foi realizada com sucesso e um grande número de jovens colaborou para que isso fosse possível. E os problemas sociais estavam nesse momento sendo discutidos pelos jovens a partir de seu ponto de vista, e assim conseguiram pensar a cultura e a sociedade em que estavam vivendo levando em conta as dificuldades que viam em seu bairro e a vontade que tinham de mudança e que continuam tendo até hoje. A NRP foi organizada na década de 1990, por Dj Morcegão, Dj Rg, Preto Michel e outros jovens que se juntaram para organizar o hip hop como um movimento. Essa organização ainda existe, porém com menos força do que tinha naquela época. Pois, muitas pessoas dispersaram o que fez com que ela fosse perdendo a sua visibilidade enquanto referência do Movimento Hip Hop. Porém, as pessoas as quais pesquisamos e que fazem parte da NRP continuam na militância desde a sua fundação e estão buscando retomar as atividades sociais que essa instituição realizava no seu início. Dj Morcegão e Dj Rg também fazem parte do “Coletivo Casa Preta” e estão dentro da rede de sociabilidade dos grafiteiros que organizam o “Mutirão de Grafite” e por isso também a sua história está relatada aqui. Pois, são fundadores do Movimento Hip Hop em Belém. E tomando suas histórias como ponto de partida buscamos levar ao conhecimento acadêmico de que maneira o hip hop foi pensado e principalmente, por quem ele foi pensado enquanto um movimento de juventude tomada pela juventude como algo que pode significar a sua maior expressão. 5 Foto 1: NRP ABR/2008. Na foto (imagem 1) acima alguns membros da NRP participando de um dos muitos encontros do Movimento Hip Hop onde discutem a sua organização e as suas ações. Essa organização também faz parte da rede de sociabilidade do grafite em Belém. E alguns de seus membros estão dentro da organização dos “Mutirões” como Dj’s e como poeta marginal. É o caso do Dj Rg e Dj Morcegão, além do poeta Preto Michel. 3. Coletivo Casa Preta O “Coletivo Casa Preta” é formado por diversos artistas que estão movimentando a cena artística marginal e dos movimentos sociais em Belém, são eles Dj’s, Mc’s, grafiteiros, construtores de tambor, trançadeiras. Todos envolvidos com a cultura negra como no caso de Don Perna que é um de seus fundadores. Segundo Don Perna esse coletivo tem uma ligação direta com o Movimento Negro a partir da “Casa de Cultura Tainã” e a “Rede Mocambos”. Esses espaços estão dispostos à discussão e a produção da cultura, principalmente da cultura negra dentro do país. A ligação da “Casa Preta” com eles se dá a partir de Don Perna, que está envolvido e que desenvolve dentro da “Casa Preta” atividades próximas ao que ocorre neles. São essas atividades, oficinas de construção de tambores, discussões em torno da cultura na cidade de Belém e região metropolitana assim como os “Mutirões de Grafite”. 6 Na “Casa Preta” são desenvolvidas algumas atividades, mas ela também serve como moradia para Don Perna, Negro Lamar e Guine. No entanto, isso não impede a circulação de pessoas no espaço diariamente, pelo contrário, facilita o contato com o coletivo assim como o funcionamento do espaço. Na narrativa de Don Perna ele afirma sobre o “Coletivo Casa Preta” o seguinte: Então, aqui o “[Coletivo] Casa Preta” acaba se tornando uma “perna” da “Rede Mocambos”. Formando uma “perna” física vamos dizer assim. Porque daí eu tô aqui, o Guine tá aqui. Lamartine tá sempre aqui. E a gente acabou dando oficinas ligadas a essa área da tecnologia ou ligadas a essas construções com quilombolas, tanto urbano quanto rural. Então, a gente tem esses projetos que estão andando no momento. Aí tem convites que são feitos pra gente que a gente vai participando de eventos, de palestras ou de oficinas mesmo. O Guinê sempre tá dando oficina de dança afro aí, esse ano acho que deve acontecer uma no IAP (Instituto de Artes do Pará. Então, acho que o “Casa Preta” tá meio que amadurecendo. Eu considero o “Casa Preta” ainda como um embrião assim como o bloco. A gente ainda tá criando uma estrutura pra deixar isso nítido pras pessoas que a gente tá aqui trabalhando nesse viés né. Que o fato da gente trabalhar com cultura negra não exclui que outras pessoas, de outras raças ou de outras etnias pertença a esse projeto. Até mesmo acho que a gente pensa como um quilombo. Um quilombo é um lugar onde vivia não só os negros, mas vivia os brancos, vivia os índios, vivia os caras que não concordavam com aquele sistema que regia aquelas regras. Então, o “Casa Preta”é isso e a gente tem uma metodologia, a gente tenta executar uma metodologia que seja afro, baseada no conhecimento ancestral , baseada na tradição oral, mas que ela permita também o convívio com outras pessoas e outros tipos de luta. A diferença é que a gente tem a nossa autoestima, que a gente luta por esse viés e que a gente tá aqui pra debater, dialogar, conversar, é mais ou menos por aí a história. (Don Perna, 33 anos, Dj, articulador cultural e fabricante de tambor, entrevista em: 21-01-2012) O “Coletivo Casa Preta” se configura assim, na atualidade, num importante coletivo da juventude e da cultura negra dentro de Belém, pois consegue militar e representar essas manifestações de maneira nacional mantendo relações com os movimentos de outros estados e que estão também desenvolvendo atividades dentro da mesma linha de ação que eles. É um espaço de encontro de jovens que estão atuando de diversas maneiras e que buscam dentro dessa relação à discussão de suas ações e a continuação de suas discussões. 7 4. Poetas marginais “Poetas marginais”, essa é a maneira como os poetas que fazem parte da rede de sociabilidade (Simmel, 2006) do Movimento Hip Hop e do grafite em Belém se denominam. Esses poetas são jovens que estão escrevendo suas poesias e publicando em diversos formatos para divulgação por conta própria. São essas formas os blogs, os livretos, os fanzines, os panfletos e a própria divulgação oral. Esses artistas fazem parte de um grupo bem grande de pessoas dentro da cidade que estão na mesma situação. Segundo Mattoso (1981) falar sobre poetas marginais implica em atentar para os conceitos aí apontados, pois é importante entender o que significa esse termo “marginal”. Então, ele questiona quem é marginal? A poesia ou o poeta? Ele afirma que os dois. Pois, ser marginal implica na maneira como as coisas são escritas, intencionadas e produzidas. Mattoso (1981) aponta o inicio da poesia marginal na década de 1960 sendo que o primeiro poeta marginal foi Torquato Neto, que morreu em 1972, mas que deixou sua obra e suas ideias. Essa movimentação do que ele chama de “geração mimeografo” enfrentou vários obstáculos como a ditadura militar e a falta de recursos para publicar seus materiais o que não impediu que o fizessem. Essa geração movimentou os artistas pelo país todo chegando ao Pará e ainda nos anos 2000 influenciou o “Coletivo Churume Literário” e o “Coletivo Marginalia”. E com a utilização de um mimeografo produziram seus livros e divulgaram suas ideias. Eles também produziram revistas diversas, algumas que tiveram alguma duração além do número um e outras que de maneira intencional ou não foram produzidas em apenas um número. Esses artistas mudaram completamente a maneira de fazer literatura. No entanto, Mattoso (1981) afirma que não se pode falar de um movimento daquela geração, pois se tinha uma coisa que regia toda aquela movimentação era a desordem. Pois, não eram teorias a respeito do conceito de poesia ou uma organização em grupo que fazia com que as coisas acontecessem, mas pelo contrário, foi à desordem que possibilitou, segundo o autor, tantos acontecimentos simultâneos. Nascimento (2006) discute também essa história e de que maneira esse termo “marginal” vem sendo utilizado pelos artistas dentro do Brasil. Segundo ela, são várias as suas significações. Pois, pode indicar uma maneira de se estar colocado dentro do mercado editorial, uma posição do próprio artista com relação a sua produção, ou mesmo indicar o local de onde é oriundo esse artista. Ela afirma que os artistas marginais das décadas de 1960/70 eram pessoas de classe média que conseguiam publicar graças ao apoio de amigos e 8 familiares. Porém, hoje, tomando como referência a publicação de uma coletânea denominada “literatura marginal” organizada por Ferréz3 (escritor de vários livros), esse termo é utilizado como sinônimo de periferia. Ou seja, poetas, artistas que moram em áreas periféricas. Segundo Nacimento (2006) Ferréz é um escritor que tomou para si o termo “marginal” tendo como referência a sua condição de morador de periferia e também de pessoa excluída socialmente. Assim ocorre também com os poetas com quem trabalhei, pois, eles tomam para si o termo “marginal” por serem moradores de periferia, no caso de Preto Michel do bairro do Tapanã e no caso de Augusto Poeta da periferia de Marituba. Preto Michel trabalha a sua literatura muito próximo do contexto de Ferréz, pois também é um integrante do Movimento Hip Hop e também já publicou um livro recentemente, “O assovio da Matinta Pereira”, uma publicação alternativa, que assim como a literatura dos marginais da década de 1960/70 não teve patrocínio além do seu próprio bolso. Augusto Poeta também se aproxima dessa realidade. No entanto, ele não faz parte do Movimento Hip Hop, mas sim de um coletivo denominado de “Churume Literário”, à frente explicaremos um pouco mais sobre esse coletivo. Esse coletivo na verdade é formado atualmente apenas por ele. Porém, é importante deixar claro que são muitos os poetas que em Belém estão produzindo e divulgando a sua literatura de maneira alternativa e que estão tomando como referência os marginais das décadas de 1960/70 a exemplo dos dois com quem conversei, Augusto Poeta com seus livretos, fanzines, blogs e a declamação nas ruas em eventos de suas poesias e Preto Michel com seus fanzines, blog, livretos e a recente publicação de seu livro “Assovio da Matintaperera” com seus próprios recursos. Esses dois poetas ainda têm em comum o fato de terem sido pichadores na adolescência e terem vivenciado o mundo das gangues. Isso os aproxima mais ainda dos grafiteiros e os faz ainda mais envolvidos de maneiras diferentes com os coletivos do Movimento Hip Hop e especificamente dos grafiteiros. 3 No blog intitulado “ferrez”, que é possível acessar no endereço: http://ferrez.blogspot.com.br/p/autor.html estão maiores informações sobre esse escritor que revisitou a literatura marginal e criou uma nova maneira de fazê-la. 9 5. Preto Michel Foto2: Leila Leite, out/2012. Preto Michel, é poeta, faz parte da NRP (Nação de Resistência Periférica), é militante do Movimento Hip Hop. Nasceu em 05 de janeiro de 1977, tem 38 anos, mora no bairro do Tapanã, em Belém. Produz fanzines com seus contos e de outros poetas da literatura marginal. Tem uma filha. Participa dos “Mutirões” com sua feirinha de livros, fanzines e Dvds de onde diz tirar seus recursos para a produção de mais materiais. Então, vamos a sua história. Nossa conversa ocorreu no dia 23 de setembro de 2012 no “VIII Mutirão de Grafite” logo após o almoço. Ah! A minha história de vida. Além de começar quando eu nasci numa cidade linda, maravilhosa, chamada Salinas em 1977, morei toda a minha vida num bairro periférico. Conheci o movimento social assim em 1997 através da “Pastoral da Juventude”. E aí em 1998 para 99 conheci uma organização do hip hop através da NRP, “Nação de Resistência Periférica” na época a gente se reunia aqui no bairro da Terra Firme numa escola chamada Mário Barbosa. E militei durante todos esses anos na cultura hip hop. Foi o que me sustentou pra eu ser o que sou hoje. Assim, a partir do Movimento Hip Hop eu comecei a militar em outros movimentos. Comecei a participar de uma ONG chamada APAC, a partir desse trabalho comecei a trabalhar na área da infância e 10 adolescência. E hoje quinze anos depois, dezessete anos depois, eu posso dizer que to me afastando do Movimento Hip Hop pra trabalhar na área que eu acho que é uma área que tá crescendo muito que é a “literatura marginal”. Assim, sempre fui um militante da cultura hip hop, não especificamente um elemento, mas assim, hoje eu também trabalho com oficina de grafite, oficina de “literatura marginal”. Mas, eu sempre quis no Movimento Hip Hop ser militante. Por exemplo, com a NRP existiam pessoas que faziam os elementos e pessoas que faziam a militância. Então eu percebi que a militância dentro da NRP, dentro do hip hop, era na época, década de 1990, era muito forte. E assim, ser militante era tu ter toda uma leitura do que é Movimento Hip Hop. Naquela época o Movimento Hip Hop era muito ligado a questão negra. Eu aprendi a ser preto na verdade, esse nome Preto Michel, dentro da NRP com o hip hop eu aprendi a ser preto, eu aprendi a ser negro. E estudei, me formei, as pessoas que na época, Morcegão, o Bruno, Rg, o Marcelo, o Pjó, o Madalena, o Aice, uma banca assim, falava que eu tinha que ler e eu tinha que identificar a minha cultura. A minha vida é essa, quinze anos de Movimento Hip Hop, hoje eu falo para as pessoas que „tô um pouco aposentado da cultura hip hop, do movimento. O que é isso? Para as pessoas entenderem. Na verdade hoje eu não tenho como participar de reunião, de articulação do Movimento Hip Hop. Hoje eu sou um acompanhante, vou nos eventos, mas sem compromisso nenhum nessa linha de reunião. Hoje na verdade eu trabalho com “literatura marginal”, trabalho com poesias, com contos. Na verdade eu tô mais dedicado ao conto. Em 2010 um conto meu “ O Assovio da Matintaperera” que é o titulo do meu livro, foi lançado pela coletânea chamada “Pelas periferias do Brasil”, lançada em São Paulo, mas que teve uma boa recepção no Brasil inteiro. Hoje eu trabalho produzindo oficina de “literatura marginal” nas escolas e em outros espaços e assim me dedicando a isso diretamente hoje. Eu hoje só escrevo produzindo contos, poesia. (Preto Michel, 36 anos, poeta marginal, entrevista em: 23-09-2012) Na foto acima Preto Michel estava tomando cerveja e em sua banquinha não havia nenhum material à venda apenas alguns livros em exposição. Esse foi o “Mutirão” onde ele apenas conversou e divulgou a campanha para prefeito de Edmilson Rodrigues e a sua militância no Movimento Hip Hop. Nossa conversa ocorreu no “Mutirão” anterior e foi dentro da biblioteca pública que serviu de sede para o evento no bairro do Guamá. Preto Michel deixa claro que mesmo fazendo parte do Movimento Hip Hop, mais especificamente da NRP nunca representou nenhum dos elementos do movimento, ele nunca se dedicou a ser Dj, Mc, B’boy, grafiteiro, mas isso nunca impediu que ele militasse e divulgasse o hip hop. Para Preto 11 Michel o hip hop significa uma busca de identidade já que foi lá que ele se descobriu negro, que ele conseguiu se ver assim e tomar para si essa identidade negra, foi aí que ele aprendeu a ser um negro, “Eu aprendi a ser preto” e foi assim que tomou para seu nome o “Preto”. E agora está se afastando para se dedicar a “literatura marginal”. Para ele a literatura é o mais importante hoje, é o trabalho ao qual está se dedicando com mais ênfase pesquisando, escrevendo, publicando e até mesmo dando oficinas em escolas e diversos espaços, mas ele deixa claro que não é qualquer tipo de literatura, mas sim a “Literatura Marginal” especificamente a que se dedica. Seus escritos são postos ao público em seu blog, através de seus fanzines4 que produz e distribui e agora também realizando o seu maior projeto publicando seu livro “Assovio da Matintaperera” que conseguiu publicar com seus próprios recursos e que em 2013 foi lançado na “XVII Feira Pan-Amazônica do Livro, que ocorreu de 26 de abril a 05 de maio no Hangar Centro de Convenções e Feiras da Amazônia” no estande do escritor paraense. E ao militar com a literatura ele se afastou um pouco do hip hop e mesmo participando dos eventos não está mais em suas reuniões e organizações. Como já foi dito anteriormente, recentemente ele publicou seu livro com seus próprios recursos e fez isso em uma gráfica, o que permitiu ao livro ter uma qualidade um pouco melhor do que a dos fanzines31. Seus escritos remetem geralmente a questões regionais como aponta o título de seu livro “O assovio da Matintaperera”, mas com algo da sua realidade inserido. Esse título também é o de um conto seu que foi premiado numa coletânea “Pelas Periferias do Brasil5”. Preto ainda destaca a sua militância dentro do movimento como algo que mudou a sua vida e fez com que ele se tornasse a pessoa que é hoje. Essa é uma relação que os grafiteiros fazem dentro do contexto do grafite e que é possível perceber aqui com ele enquanto um integrante do Movimento Hip Hop. E isso principalmente no que diz respeito à questão do negro. Pois, ele afirma que no início esse movimento tinha essa relação muito forte e isso fez com que seus integrantes procurassem conhecer ainda mais a esse respeito. 4 Fanzines são pequenas revistas produzidas por grupos ou indivíduos que pretendem divulgar alguma informação de maneira barata e em pouco número. Ele é construído a partir de colagens de imagens e textos, foi inicialmente muito utilizado pelos punks para divulgar suas bandas e sua ideologia. (Oliveira, 2006) 5 Essa coletânea é organizada por Alessandro Buzo, que se intitula curador da coletânea que segundo escreveu em seu blog já está na quinta edição. (em: http://buzo10.blogspot.com.br/2011/08/me-orgulho-de-ser-curador-dacoletanea.html) 12 Foto3: Leila Leite, set/2012. Na foto acima a banca que é organizada por Preto Michel durante os “Mutirões”, segundo ele os materiais que aí estão são produzidos com os seus recursos e são materiais vendidos na intenção de colaborar com a conscientização das pessoas a respeito do que é o Movimento Hip Hop. E também a literatura marginal através da distribuição e venda de fanzines com seus contos e de outros artistas marginais. Mas, ela também serviu para conseguir recursos para ajudar na publicação de seu livro com a venda de cd’s e dvd’s com músicas e filmes relacionados a questões do hip hop e negra para que fosse possível a realização da conscientização que para Preto Michel é tão importante além de ajudar na conquista de seu sonho, o livro. Não que os outros meios não sejam importantes para ele, mas como escritor ele desejava ver todos os seus escritos reunidos num único livro e isso custa caro para a realidade de um jovem de periferia que sobrevive do dinheiro que ganha com as oficinas de literatura que ministra em escolas. Então, isso levou alguns anos planejando, calculando para que fosse possível realizar. 13 6. Considerações finais Como podemos observar o “Movimento Hip Hop” teve início em Belém na década de 1990, quando elementos desse movimento já estavam presentes na arte da cidade já desenvolvida ainda que de forma isolada por alguns jovens. O movimento difundiu-se em resultou na criação de espaços de socialização e divulgação da produção artística desses artistas marginais. É nesse contexto que temos Preto Michel que deixa claro que mesmo fazendo parte do Movimento Hip Hop, mais especificamente da NRP nunca representou nenhum dos elementos do movimento, ele nunca se dedicou a ser Dj, Mc, B’boy, grafiteiro, mas isso nunca impediu que ele militasse e divulgasse o hip hop, mas a maneira como está envolvido no movimento mostra um protagonismo importante para que a arte marginal seja divulgada e propagada, assim como os marcadores como a questão racial que está atrelada a esse contexto de discussão. 7. Referências ALBERTI, Verena. Manual de história oral. Rio de Janeiro: FGV, 2004. BORDA, Bruno Guilherme dos Santos. Palavras sagradas, rimas e experiências: uma tentativa de compreensão sobre cristianismo pentecostal, rap e antropologia. Dissertação de mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. UFPA, 2008. BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. MATTOSO, Glauco. O que é poesia marginal. São Paulo: Brasiliense, 1981. NASCIMENTO, Érica Peçanha do. “Literatura Marginal”: Os escritores da periferia entram em cena. Dissertação de mestrado. Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humana. USP, 2006. SANTOS, Rosenverck Estrela. Hip Hop e educação popular em São Luís do Maranhão: Uma análise da organização “Quilombo Urbano”. Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Educação. São Luís: UFMA, 2007. Disponível em: http://www.tedebc.ufma.br//tde_busca/arquivo.php?codArquivo=174. Acessado em: 01-122013. SOUSA, Rafael Lopes de. O Movimento Hip Hop: A anti-cordialidade da “República dos Manos” e a estética da violência. Tese de doutorado. Programa de Pós-Graduação em história. Universidade Estadual de Campinas, 2009. 14 SOUZA, Flávia Monteiro de Castro Souza. Juventude e Movimento Hip Hop: A construção de identidade, luta por direitos. Dissertação de mestrado. Programa de PósGraduação em Serviço Social. PUC-Rio, 2010. SIMMEL, Georg. Questões fundamentais da sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. RECKZIEGEL, Ana Cecília de Carvalho. Dança de rua: lazer e cultura jovem na restinga. Dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Movimento Humano. Porto Alegre: UFRGS, 2004. Disponível em: < http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/8669/000585569.pdf?sequence=1>. Acessado em: 01-08-2012. RIBEIRO JR, Djalma. Criação audiovisual na convivência dialógica em um grupo de dança de rua como processo de educação humanizadora. Universidade Federal de São Carlos, 2009. 15