Preto Michel: um jovem entre a literatura marginal e o hip hop em Belém
do Pará
Leila Cristina Leite Ferreira1
Carla Marinho Figueiredo Saldanha2
Resumo: O presente artigo tem por objetivo apresentar uma etnografia sobre a literatura
marginal e o hip hop em Belém do Pará. Tendo como protagonista o jovem artista Preto
Michel, poeta marginal e militante do Movimento Hip Hop de Belém. Participante de dois
importantes grupos, o Núcleo de Resistência Periférica e o Coletivo Casa Preta, que
mobilizam e organizam o hip hop na cidade de Belém. Enquanto método antropológico, a
etnografia e a história oral foram às técnicas que possibilitaram os registros em campo, que
foram analisados numa perspectiva sócio antropológica. A vivência em campo juntamente
com os registros permitiram com que percebêssemos que um jovem, como Preto Michel
consegue influenciar outros jovens a partir de seus textos e de sua militância tanto na
literatura
marginal
quanto
no
hip
hop.
Palavras-chave: Preto Michel, Hip Hop, Literatura Marginal, Juventude.
1. Introdução
O presente trabalho consiste num relato etnográfico sobre a literatura marginal e o hip
hop em Belém do Pará, tendo como protagonista o jovem artista Preto Michel. Ele é poeta
marginal e militante do Movimento Hip Hop de Belém, mais especificamente do Núcleo de
Resistência Periférica e do Coletivo Casa Preta, dois importantes grupos que mobilizam e
organizam o hip hop em Belém. A metodologia empregada foi o método etnográfico e a
história oral. A conclusão obtida foi a de que um jovem como Preto Michel consegue
1
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia – PPGSA da Universidade Federal
do Pará - UFPA.
2
Mestranda do Pro Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia – PPGSA da Universidade
Federal do Pará - UFPA.
1
influenciar outros jovens a partir de seus textos e de sua militância tanto na literatura marginal
quanto no hip hop.
O Movimento Hip Hop teve inicio ainda na década de 1960, nos Estados Unidos, iniciado
como uma manifestação musical que levava a juventude negra e hispânica, que morava no Bronx,
em Nova Iorque para as festas nas ruas, mantendo-os distante da violência que fazia parte de seu
cotidiano. Essas juventudes viviam “guetificadas” e sem nenhuma oportunidade para que
pudessem fazer algo por si. Foi então, que Áfrika Bambaataa, um Dj que conseguiu chamar
atenção para as músicas que tocava, levou música para as ruas e a partir dali inventou a palavra
hip hop, é considerado um dos pais do Movimento Hip Hop (SOUSA, 2009; SOUZA, 2010;
RECKZIEGEL, 2004; BORDA, 2008).
E nesse cenário de manifestação musical ainda podemos destacar outros nomes como
do Dj Kool Herc e Grandmaster Flash. Clive Campbell, mas conhecido como Herc era
jamaicano, e foi o primeiro Dj que levou para os Estados Unidos as festas de rua tal qual
ocorriam na Jamaica, ele é considerado o pai do hip hop. Já Granmaster Flash era um
frequentador das festas que começou a ser colaborador e criou o scratch, que segundo Sousa
(2009) era o “ato de fazer o disco rodar para frente e para trás criando um som, raspado
‟característico do rap” (p. 18). O aperfeiçoamento da forma de tocar e a visibilidade dada a
este estilo musical só tornou-se conhecido dentro do hip hop como break, pois foi a partir das
paradas que faziam nas músicas nas quais as pessoas dançavam de maneira diferente que
conseguiram prestar atenção nesse momento e denominar de break boy e break girl os jovens
que estavam ali dançando. Ou seja, o B’Boy e a B’Girl que conhecemos hoje dentro do
movimento (SOUSA, 2009; RIBEIRO JÚNIOR, 2009; SOUZA, 2010; RECKIEGEL, 2004).
O hip hop é uma manifestação cultural fruto de um contexto histórico que não
favorecia em nada a juventude que morava nos guetos americanos. E que já contava com toda
a trajetória histórica da escravidão negra nos Estados Unidos. Naquele país está à raiz da
música negra de onde veio o rap, uma música quase falada onde estão presentes
manifestações de protesto contra a condição de pobreza e violência que envolve o nascimento
desse movimento (SOUZA, 2010; SOUSA, 2009; SANTOS, 2007; BORDA, 2008).
O hip hop chega ao Brasil no inicio da década de 1980, tendo como primeiro elemento
a ganhar visibilidade o break, que se espalhou pelo país através de revistas, jornais e da
televisão. Segundo Santos (2007), foram os filmes, videoclipes e CD’s que traziam a
mensagem do hip hop como a dança, e que a partir daí foi se espalhando pelo país.
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A história do Movimento Hip Hop em Belém teve início na década de 1990, quando
alguns jovens que já estavam envolvidos com os elementos desse movimento estavam agindo
com suas respectivas artes dentro da cidade, porém, de maneira isolada. Foi então, que
tomaram a iniciativa de se organizarem juntando todos os elementos num único movimento.
Isso ocorreu dentro do bairro da Terra Firme, mais especificamente no Centro Comunitário
Bom Jesus, localizado na Passagem Bom Jesus (Borda, 2008), (Dj Rg, 36 anos, entrevista em:
22/01/2012).
Mas, para que se esclareça está história trabalhamos aqui com a história oral. E,
portanto, utilizamos da memória dos jovens que estão envolvidos nesse processo de
organização e de movimento dentro da cidade. Segundo Bosi (1998) trabalhar com a memória
de jovens é diferente de trabalhar com a memória de velhos. Pois, para essas duas categorias,
ela tem significados diferentes. Para os primeiros ela representa uma fuga, enquanto que para
o segundo ela representa um resgate de coisas que já foram vivenciadas.
É importante perceber que ao utilizar a memória como um recurso documental muita
coisa corre o risco de ser perdido, uma vez que não se pode reconstituir os fatos exatamente
da maneira como ocorreram. Pois, é necessário entender que a memória retém apenas aquilo
que ela acha interessante, imprescindível. Bosi (1994) chama atenção para o fato de que cada
indivíduo destaca em sua memória os detalhes que mais lhe marcaram podendo um mesmo
período histórico ser contato de diferentes maneiras pelas pessoas que o vivenciaram.
E Preto Michel construiu e ainda constrói essa história através de seus contos e
poesias, seus livros trazem experiências que envolvem lendas amazônicas com o cotidiano
urbano de Belém. Ele faz parte da Nação de Resistência Periférica (NRP) e do Coletivo Casa
Preta além de ser um importante militante desse movimento dentro de Belém.
2. Nação de Resistência Periférica (NRP)
Durante a pesquisa conversando com o Dj Morcegão e Dj Rg conseguimos descobrir
um pouco sobre como se deu o processo de formação do Movimento Hip Hop em Belém. Eles
contaram que antes de organizarem a Nação de Resistência periférica (NRP) o hip hop já
estava presente em Belém através da dança e dos grupos de rap que já estavam se
movimentando pela cidade. No entanto, os grupos de dança ainda não se denominavam de
grupos de hip hop e por isso se denominavam de Rap Boys porque sabiam que estavam
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fazendo algo que tinha a “pegada hip hop”. Porém não estavam organizados como um
movimento nem mesmo os grupos de rap como no caso do MBGC (Manos da Baixada de
Grosso Calibre) que foi o grupo do qual participavam o Rg e o Morcegão.
MBGC foi um dos primeiros grupos de rap de dentro de Belém e teve uma
importância fundamental na organização do hip hop enquanto um movimento. Pois, ele foi o
grupo que tomou a frente dessa organização mobilizando as pessoas de outros grupos
principalmente as que estavam dentro do bairro da Terra Firme para que se unissem e assim
montassem um movimento onde todos os elementos do hip hop estivem presente e ali também
tivesse algo além do cultural, mas que também envolvesse o social. Então a partir das
mobilizações foi organizado o “Núcleo de Resistência Periférica”, que mais tarde veio a se
chamar “Nação de Resistência Periférica”, a NRP.
Suas reuniões ocorriam dentro do Centro Comunitário Bom Jesus, no bairro da Terra
Firme, onde morava a maioria dos jovens que faziam parte de alguma maneira do hip hop,
que na época tinha como presidente Fafá. Ela abria as portas do centro para essa juventude
que se reunia todos os domingos e para outra também como os punks que também estavam no
bairro e que se reuniam e faziam seus shows ali. Então, fui conversar com Fafá e ela disse que
apenas abria as portas do centro e que não sabia o que estava acontecendo porque estava
ocupada com outras atividades do centro.
Mas, querendo ou não ela colaborou e muito com a história desses movimentos ao
oferecer a oportunidade de ter um espaço para se reunirem e para discutirem suas ideias e suas
perspectivas de futuro. Além do mais ali foi o espaço onde ocorriam também os shows tanto
dos grupos de hip hop como dos grupos punks. Fafá lamenta que hoje o Centro Comunitário
Bom Jesus esteja abandonado e por ser de madeira, uma construção de mais de trinta anos que
está caindo e nenhum grupo de jovens ou qualquer outro está se reunindo lá ou ao mesmo se
mobilizando para que seja reformada, essa é uma queixa dela que hoje não está mais a frente
do centro.
A formação da NRP foi apoiada também por outros movimentos como contaram
Morcegão e Rg:
A gente acabou formando primeiramente o “Núcleo de Resistência Periférica” um
núcleo onde nós reuníamos no “Centro Comunitário Bom Jesus”, no bairro da Terra
Firme. Nos reuníamos todos os domingos e fazíamos o convite para todos os caras
que gostavam de escutar um rap, que se identifica com a cultura e até com as
próprias roupas, que acabam sendo um diferencial também. Montamos o núcleo e
depois acabamos montando a nação que se tornou a NRP. Então através disso, nós
fomos conseguindo fazer várias atividades e chegamos a participar do “Conselho
Municipal do Negro de Belém”, participamos do MOB (Movimento Hip Hop
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Organizado Brasileiro). E foi essa organização que se tornou NRP. (Dj Morcegão,
39 anos, entrevista em: 25-10-2012)
E ai a gente montou a “Nação de Resistência Periférica”, até hoje. Junto com outras
pessoas que também estavam chegando, algumas meninas. E aí logo em seguida
quando a gente começou a reunir a gente percebeu que chamou a atenção de outros
grupos. O pessoal do Rock, o pessoal do Punk e o Reggae. Então, começaram a ir na
nossa reuniões, para poder, né dá suas experiências e também contribuir com a nossa
história e ver que jovem da periferia tão surgindo como com uma nova ideologia
bem radical e forte. Então, surge o movimento organizado aqui em Belém. (Dj Rg,
36 anos, entrevista em: 22-01-2012)
A mobilização para organizar o hip hop dentro de movimento em Belém foi realizada
com sucesso e um grande número de jovens colaborou para que isso fosse possível. E os
problemas sociais estavam nesse momento sendo discutidos pelos jovens a partir de seu ponto
de vista, e assim conseguiram pensar a cultura e a sociedade em que estavam vivendo levando
em conta as dificuldades que viam em seu bairro e a vontade que tinham de mudança e que
continuam tendo até hoje.
A NRP foi organizada na década de 1990, por Dj Morcegão, Dj Rg, Preto Michel e
outros jovens que se juntaram para organizar o hip hop como um movimento. Essa
organização ainda existe, porém com menos força do que tinha naquela época. Pois, muitas
pessoas dispersaram o que fez com que ela fosse perdendo a sua visibilidade enquanto
referência do Movimento Hip Hop. Porém, as pessoas as quais pesquisamos e que fazem parte
da NRP continuam na militância desde a sua fundação e estão buscando retomar as atividades
sociais que essa instituição realizava no seu início.
Dj Morcegão e Dj Rg também fazem parte do “Coletivo Casa Preta” e estão dentro da
rede de sociabilidade dos grafiteiros que organizam o “Mutirão de Grafite” e por isso também
a sua história está relatada aqui. Pois, são fundadores do Movimento Hip Hop em Belém. E
tomando suas histórias como ponto de partida buscamos levar ao conhecimento acadêmico de
que maneira o hip hop foi pensado e principalmente, por quem ele foi pensado enquanto um
movimento de juventude tomada pela juventude como algo que pode significar a sua maior
expressão.
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Foto 1: NRP ABR/2008.
Na foto (imagem 1) acima alguns membros da NRP participando de um dos muitos
encontros do Movimento Hip Hop onde discutem a sua organização e as suas ações. Essa
organização também faz parte da rede de sociabilidade do grafite em Belém. E alguns de seus
membros estão dentro da organização dos “Mutirões” como Dj’s e como poeta marginal. É o
caso do Dj Rg e Dj Morcegão, além do poeta Preto Michel.
3. Coletivo Casa Preta
O “Coletivo Casa Preta” é formado por diversos artistas que estão movimentando a cena
artística marginal e dos movimentos sociais em Belém, são eles Dj’s, Mc’s, grafiteiros,
construtores de tambor, trançadeiras. Todos envolvidos com a cultura negra como no caso de Don
Perna que é um de seus fundadores. Segundo Don Perna esse coletivo tem uma ligação direta
com o Movimento Negro a partir da “Casa de Cultura Tainã” e a “Rede Mocambos”.
Esses espaços estão dispostos à discussão e a produção da cultura, principalmente da
cultura negra dentro do país. A ligação da “Casa Preta” com eles se dá a partir de Don Perna, que
está envolvido e que desenvolve dentro da “Casa Preta” atividades próximas ao que ocorre neles.
São essas atividades, oficinas de construção de tambores, discussões em torno da cultura na
cidade de Belém e região metropolitana assim como os “Mutirões de Grafite”.
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Na “Casa Preta” são desenvolvidas algumas atividades, mas ela também serve como
moradia para Don Perna, Negro Lamar e Guine. No entanto, isso não impede a circulação de
pessoas no espaço diariamente, pelo contrário, facilita o contato com o coletivo assim como o
funcionamento do espaço.
Na narrativa de Don Perna ele afirma sobre o “Coletivo Casa Preta” o seguinte:
Então, aqui o “[Coletivo] Casa Preta” acaba se tornando uma “perna” da “Rede
Mocambos”. Formando uma “perna” física vamos dizer assim. Porque daí eu tô
aqui, o Guine tá aqui. Lamartine tá sempre aqui. E a gente acabou dando oficinas
ligadas a essa área da tecnologia ou ligadas a essas construções com quilombolas,
tanto urbano quanto rural.
Então, a gente tem esses projetos que estão andando no momento. Aí tem convites
que são feitos pra gente que a gente vai participando de eventos, de palestras ou de
oficinas mesmo. O Guinê sempre tá dando oficina de dança afro aí, esse ano acho
que deve acontecer uma no IAP (Instituto de Artes do Pará. Então, acho que o “Casa
Preta” tá meio que amadurecendo. Eu considero o “Casa Preta” ainda como um
embrião assim como o bloco. A gente ainda tá criando uma estrutura pra deixar isso
nítido pras pessoas que a gente tá aqui trabalhando nesse viés né. Que o fato da
gente trabalhar com cultura negra não exclui que outras pessoas, de outras raças ou
de outras etnias pertença a esse projeto. Até mesmo acho que a gente pensa como
um quilombo. Um quilombo é um lugar onde vivia não só os negros, mas vivia os
brancos, vivia os índios, vivia os caras que não concordavam com aquele sistema
que regia aquelas regras.
Então, o “Casa Preta”é isso e a gente tem uma metodologia, a gente tenta executar
uma metodologia que seja afro, baseada no conhecimento ancestral , baseada na
tradição oral, mas que ela permita também o convívio com outras pessoas e outros
tipos de luta. A diferença é que a gente tem a nossa autoestima, que a gente luta por
esse viés e que a gente tá aqui pra debater, dialogar, conversar, é mais ou menos por
aí a história. (Don Perna, 33 anos, Dj, articulador cultural e fabricante de tambor,
entrevista em: 21-01-2012)
O “Coletivo Casa Preta” se configura assim, na atualidade, num importante coletivo
da juventude e da cultura negra dentro de Belém, pois consegue militar e representar essas
manifestações de maneira nacional mantendo relações com os movimentos de outros estados
e que estão também desenvolvendo atividades dentro da mesma linha de ação que eles. É um
espaço de encontro de jovens que estão atuando de diversas maneiras e que buscam dentro
dessa relação à discussão de suas ações e a continuação de suas discussões.
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4. Poetas marginais
“Poetas marginais”, essa é a maneira como os poetas que fazem parte da rede de sociabilidade
(Simmel, 2006) do Movimento Hip Hop e do grafite em Belém se denominam. Esses poetas
são jovens que estão escrevendo suas poesias e publicando em diversos formatos para
divulgação por conta própria. São essas formas os blogs, os livretos, os fanzines, os panfletos
e a própria divulgação oral. Esses artistas fazem parte de um grupo bem grande de pessoas
dentro da cidade que estão na mesma situação.
Segundo Mattoso (1981) falar sobre poetas marginais implica em atentar para os
conceitos aí apontados, pois é importante entender o que significa esse termo “marginal”.
Então, ele questiona quem é marginal? A poesia ou o poeta? Ele afirma que os dois. Pois, ser
marginal implica na maneira como as coisas são escritas, intencionadas e produzidas.
Mattoso (1981) aponta o inicio da poesia marginal na década de 1960 sendo que o
primeiro poeta marginal foi Torquato Neto, que morreu em 1972, mas que deixou sua obra e
suas ideias. Essa movimentação do que ele chama de “geração mimeografo” enfrentou vários
obstáculos como a ditadura militar e a falta de recursos para publicar seus materiais o que não
impediu que o fizessem. Essa geração movimentou os artistas pelo país todo chegando ao
Pará e ainda nos anos 2000 influenciou o “Coletivo Churume Literário” e o “Coletivo
Marginalia”. E com a utilização de um mimeografo produziram seus livros e divulgaram suas
ideias. Eles também produziram revistas diversas, algumas que tiveram alguma duração além
do número um e outras que de maneira intencional ou não foram produzidas em apenas um
número. Esses artistas mudaram completamente a maneira de fazer literatura.
No entanto, Mattoso (1981) afirma que não se pode falar de um movimento daquela
geração, pois se tinha uma coisa que regia toda aquela movimentação era a desordem. Pois,
não eram teorias a respeito do conceito de poesia ou uma organização em grupo que fazia
com que as coisas acontecessem, mas pelo contrário, foi à desordem que possibilitou, segundo
o autor, tantos acontecimentos simultâneos.
Nascimento (2006) discute também essa história e de que maneira esse termo
“marginal” vem sendo utilizado pelos artistas dentro do Brasil. Segundo ela, são várias as
suas significações. Pois, pode indicar uma maneira de se estar colocado dentro do mercado
editorial, uma posição do próprio artista com relação a sua produção, ou mesmo indicar o
local de onde é oriundo esse artista. Ela afirma que os artistas marginais das décadas de
1960/70 eram pessoas de classe média que conseguiam publicar graças ao apoio de amigos e
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familiares. Porém, hoje, tomando como referência a publicação de uma coletânea denominada
“literatura marginal” organizada por Ferréz3 (escritor de vários livros), esse termo é utilizado
como sinônimo de periferia. Ou seja, poetas, artistas que moram em áreas periféricas.
Segundo Nacimento (2006) Ferréz é um escritor que tomou para si o termo
“marginal” tendo como referência a sua condição de morador de periferia e também de
pessoa excluída socialmente. Assim ocorre também com os poetas com quem trabalhei, pois,
eles tomam para si o termo “marginal” por serem moradores de periferia, no caso de Preto
Michel do bairro do Tapanã e no caso de Augusto Poeta da periferia de Marituba.
Preto Michel trabalha a sua literatura muito próximo do contexto de Ferréz, pois
também é um integrante do Movimento Hip Hop e também já publicou um livro
recentemente, “O assovio da Matinta Pereira”, uma publicação alternativa, que assim como a
literatura dos marginais da década de 1960/70 não teve patrocínio além do seu próprio bolso.
Augusto Poeta também se aproxima dessa realidade. No entanto, ele não faz parte do
Movimento Hip Hop, mas sim de um coletivo denominado de “Churume Literário”, à frente
explicaremos um pouco mais sobre esse coletivo. Esse coletivo na verdade é formado
atualmente apenas por ele. Porém, é importante deixar claro que são muitos os poetas que em
Belém estão produzindo e divulgando a sua literatura de maneira alternativa e que estão
tomando como referência os marginais das décadas de 1960/70 a exemplo dos dois com quem
conversei, Augusto Poeta com seus livretos, fanzines, blogs e a declamação nas ruas em
eventos de suas poesias e Preto Michel com seus fanzines, blog, livretos e a recente
publicação de seu livro “Assovio da Matintaperera” com seus próprios recursos.
Esses dois poetas ainda têm em comum o fato de terem sido pichadores na
adolescência e terem vivenciado o mundo das gangues. Isso os aproxima mais ainda dos
grafiteiros e os faz ainda mais envolvidos de maneiras diferentes com os coletivos do
Movimento Hip Hop e especificamente dos grafiteiros.
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No blog intitulado “ferrez”, que é possível acessar no endereço: http://ferrez.blogspot.com.br/p/autor.html estão
maiores informações sobre esse escritor que revisitou a literatura marginal e criou uma nova maneira de fazê-la.
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5. Preto Michel
Foto2: Leila Leite, out/2012.
Preto Michel, é poeta, faz parte da NRP (Nação de Resistência Periférica), é militante
do Movimento Hip Hop. Nasceu em 05 de janeiro de 1977, tem 38 anos, mora no bairro do
Tapanã, em Belém. Produz fanzines com seus contos e de outros poetas da literatura marginal.
Tem uma filha. Participa dos “Mutirões” com sua feirinha de livros, fanzines e Dvds de onde
diz tirar seus recursos para a produção de mais materiais. Então, vamos a sua história. Nossa
conversa ocorreu no dia 23 de setembro de 2012 no “VIII Mutirão de Grafite” logo após o
almoço.
Ah! A minha história de vida. Além de começar quando eu nasci numa cidade linda,
maravilhosa, chamada Salinas em 1977, morei toda a minha vida num bairro
periférico. Conheci o movimento social assim em 1997 através da “Pastoral da
Juventude”. E aí em 1998 para 99 conheci uma organização do hip hop através da
NRP, “Nação de Resistência Periférica” na época a gente se reunia aqui no bairro da
Terra Firme numa escola chamada Mário Barbosa. E militei durante todos esses
anos na cultura hip hop.
Foi o que me sustentou pra eu ser o que sou hoje. Assim, a partir do Movimento Hip
Hop eu comecei a militar em outros movimentos. Comecei a participar de uma ONG
chamada APAC, a partir desse trabalho comecei a trabalhar na área da infância e
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adolescência. E hoje quinze anos depois, dezessete anos depois, eu posso dizer que
to me afastando do Movimento Hip Hop pra trabalhar na área que eu acho que é uma
área que tá crescendo muito que é a “literatura marginal”.
Assim, sempre fui um militante da cultura hip hop, não especificamente um
elemento, mas assim, hoje eu também trabalho com oficina de grafite, oficina de
“literatura marginal”. Mas, eu sempre quis no Movimento Hip Hop ser militante. Por
exemplo, com a NRP existiam pessoas que faziam os elementos e pessoas que
faziam a militância. Então eu percebi que a militância dentro da NRP, dentro do hip
hop, era na época, década de 1990, era muito forte. E assim, ser militante era tu ter
toda uma leitura do que é Movimento Hip Hop.
Naquela época o Movimento Hip Hop era muito ligado a questão negra. Eu aprendi a
ser preto na verdade, esse nome Preto Michel, dentro da NRP com o hip hop eu
aprendi a ser preto, eu aprendi a ser negro. E estudei, me formei, as pessoas que na
época, Morcegão, o Bruno, Rg, o Marcelo, o Pjó, o Madalena, o Aice, uma banca
assim, falava que eu tinha que ler e eu tinha que identificar a minha cultura. A minha
vida é essa, quinze anos de Movimento Hip Hop, hoje eu falo para as pessoas que „tô
um pouco aposentado da cultura hip hop, do movimento. O que é isso? Para as
pessoas entenderem. Na verdade hoje eu não tenho como participar de reunião, de
articulação do Movimento Hip Hop.
Hoje eu sou um acompanhante, vou nos eventos, mas sem compromisso nenhum
nessa linha de reunião. Hoje na verdade eu trabalho com “literatura marginal”,
trabalho com poesias, com contos. Na verdade eu tô mais dedicado ao conto. Em
2010 um conto meu “ O Assovio da Matintaperera” que é o titulo do meu livro, foi
lançado pela coletânea chamada “Pelas periferias do Brasil”, lançada em São Paulo,
mas que teve uma boa recepção no Brasil inteiro. Hoje eu trabalho produzindo
oficina de “literatura marginal” nas escolas e em outros espaços e assim me
dedicando a isso diretamente hoje. Eu hoje só escrevo produzindo contos, poesia.
(Preto Michel, 36 anos, poeta marginal, entrevista em: 23-09-2012)
Na foto acima Preto Michel estava tomando cerveja e em sua banquinha não havia
nenhum material à venda apenas alguns livros em exposição. Esse foi o “Mutirão” onde ele
apenas conversou e divulgou a campanha para prefeito de Edmilson Rodrigues e a sua
militância no Movimento Hip Hop. Nossa conversa ocorreu no “Mutirão” anterior e foi dentro
da biblioteca pública que serviu de sede para o evento no bairro do Guamá. Preto Michel
deixa claro que mesmo fazendo parte do Movimento Hip Hop, mais especificamente da NRP
nunca representou nenhum dos elementos do movimento, ele nunca se dedicou a ser Dj, Mc,
B’boy, grafiteiro, mas isso nunca impediu que ele militasse e divulgasse o hip hop. Para Preto
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Michel o hip hop significa uma busca de identidade já que foi lá que ele se descobriu negro,
que ele conseguiu se ver assim e tomar para si essa identidade negra, foi aí que ele aprendeu a
ser um negro, “Eu aprendi a ser preto” e foi assim que tomou para seu nome o “Preto”.
E agora está se afastando para se dedicar a “literatura marginal”. Para ele a literatura é
o mais importante hoje, é o trabalho ao qual está se dedicando com mais ênfase pesquisando,
escrevendo, publicando e até mesmo dando oficinas em escolas e diversos espaços, mas ele
deixa claro que não é qualquer tipo de literatura, mas sim a “Literatura Marginal”
especificamente a que se dedica. Seus escritos são postos ao público em seu blog, através de
seus fanzines4 que produz e distribui e agora também realizando o seu maior projeto
publicando seu livro “Assovio da Matintaperera” que conseguiu publicar com seus próprios
recursos e que em 2013 foi lançado na “XVII Feira Pan-Amazônica do Livro, que ocorreu de
26 de abril a 05 de maio no Hangar Centro de Convenções e Feiras da Amazônia” no estande
do escritor paraense. E ao militar com a literatura ele se afastou um pouco do hip hop e
mesmo participando dos eventos não está mais em suas reuniões e organizações.
Como já foi dito anteriormente, recentemente ele publicou seu livro com seus próprios
recursos e fez isso em uma gráfica, o que permitiu ao livro ter uma qualidade um pouco
melhor do que a dos fanzines31. Seus escritos remetem geralmente a questões regionais como
aponta o título de seu livro “O assovio da Matintaperera”, mas com algo da sua realidade
inserido. Esse título também é o de um conto seu que foi premiado numa coletânea “Pelas
Periferias do Brasil5”.
Preto ainda destaca a sua militância dentro do movimento como algo que mudou a sua
vida e fez com que ele se tornasse a pessoa que é hoje. Essa é uma relação que os grafiteiros
fazem dentro do contexto do grafite e que é possível perceber aqui com ele enquanto um
integrante do Movimento Hip Hop. E isso principalmente no que diz respeito à questão do
negro. Pois, ele afirma que no início esse movimento tinha essa relação muito forte e isso fez
com que seus integrantes procurassem conhecer ainda mais a esse respeito.
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Fanzines são pequenas revistas produzidas por grupos ou indivíduos que pretendem divulgar alguma
informação de maneira barata e em pouco número. Ele é construído a partir de colagens de imagens e textos, foi
inicialmente muito utilizado pelos punks para divulgar suas bandas e sua ideologia. (Oliveira, 2006)
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Essa coletânea é organizada por Alessandro Buzo, que se intitula curador da coletânea que segundo escreveu
em seu blog já está na quinta edição. (em: http://buzo10.blogspot.com.br/2011/08/me-orgulho-de-ser-curador-dacoletanea.html)
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Foto3: Leila Leite, set/2012.
Na foto acima a banca que é organizada por Preto Michel durante os “Mutirões”,
segundo ele os materiais que aí estão são produzidos com os seus recursos e são materiais
vendidos na intenção de colaborar com a conscientização das pessoas a respeito do que é o
Movimento Hip Hop. E também a literatura marginal através da distribuição e venda de
fanzines com seus contos e de outros artistas marginais. Mas, ela também serviu para
conseguir recursos para ajudar na publicação de seu livro com a venda de cd’s e dvd’s com
músicas e filmes relacionados a questões do hip hop e negra para que fosse possível a
realização da conscientização que para Preto Michel é tão importante além de ajudar na
conquista de seu sonho, o livro.
Não que os outros meios não sejam importantes para ele, mas como escritor ele
desejava ver todos os seus escritos reunidos num único livro e isso custa caro para a realidade
de um jovem de periferia que sobrevive do dinheiro que ganha com as oficinas de literatura
que ministra em escolas. Então, isso levou alguns anos planejando, calculando para que fosse
possível realizar.
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6. Considerações finais
Como podemos observar o “Movimento Hip Hop” teve início em Belém na década de
1990, quando elementos desse movimento já estavam presentes na arte da cidade já
desenvolvida ainda que de forma isolada por alguns jovens. O movimento difundiu-se em
resultou na criação de espaços de socialização e divulgação da produção artística desses
artistas marginais.
É nesse contexto que temos Preto Michel que deixa claro que mesmo fazendo parte do
Movimento Hip Hop, mais especificamente da NRP nunca representou nenhum dos elementos
do movimento, ele nunca se dedicou a ser Dj, Mc, B’boy, grafiteiro, mas isso nunca impediu
que ele militasse e divulgasse o hip hop, mas a maneira como está envolvido no movimento
mostra um protagonismo importante para que a arte marginal seja divulgada e propagada,
assim como os marcadores como a questão racial que está atrelada a esse contexto de
discussão.
7. Referências
ALBERTI, Verena. Manual de história oral. Rio de Janeiro: FGV, 2004.
BORDA, Bruno Guilherme dos Santos. Palavras sagradas, rimas e experiências: uma
tentativa de compreensão sobre cristianismo pentecostal, rap e antropologia. Dissertação
de mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. UFPA, 2008.
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das
Letras, 1994.
MATTOSO, Glauco. O que é poesia marginal. São Paulo: Brasiliense, 1981.
NASCIMENTO, Érica Peçanha do. “Literatura Marginal”: Os escritores da periferia
entram em cena. Dissertação de mestrado. Programa de Pós-Graduação da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humana. USP, 2006.
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Preto Michel: um jovem entre a literatura marginal e o hip hop em