Metodologia da pesquisa sobre programação
Luiz Signates

RESUMO
Este trabalho propõe o desenvolvimento de uma metodologia crítica para o
estudo integrado ou comparativo de programações de rádio e televisão, como
alternativa às abordagens funcionalistas. A programação é teoricamente tratada
como síntese discursiva de uma relação sócio-política, movimentada por agentes
(atores sociais com interesses específicos) e mediada pelas instâncias profissionais e
patrimoniais, que, desta forma, a tornam uma política privada de esfera pública.
Dentro dessa postura teórica, ocorre a possibilidade da utilização de métodos
taxionômicos, com objetivos amostrais, e, em seguida, de metodologias vinculadas à
teoria do discurso e à pesquisa sociológica qualitativa para a coleta e a
interpretação dos dados.
Antes de abordar o tema deste trabalho, julgo oportuno tecer breves
considerações a respeito de minha postura epistemológica frente ao método científico,
como forma de abordagem do real. Não o considero definitivo, nem o estabeleço
como princípio de uma visão de mundo. Metaforizando, métodos são como essas
estacas utilizadas para a construção de andaimes, que só têm sentido enquanto a
estrutura estiver sendo feita. Ou, como portas, através das quais se permite a entrada
em espaços teoricamente definidos, que não precisam ser as mesmas para entrar e sair,
nem resumem o edifício inteiro. As categorias de análise que utilizo, neste trabalho,
como a de políticas de esfera pública, ou a de agentes sociais de programação, ou
outras, devem ser vistas por essa perspectiva. São conceitos que não se fazem
presentes como descrições da realidade, e sim como instrumentos teóricos imaginados
para possibilitar a entrada nos “lugares” de pesquisa e sustentar provisoriamente a
construção do pensamento que se pretende fazer. É indiscutível que sedimentam
pressupostos e se alimentam de uma mundividência específica, entretanto, o que
pretendo deixar explícito é o meu descompromisso com os modelos que instituem,
desvencilhando-me de qualquer pretensão totalizante, embora me utilize deles, para
uma abordagem sistemática.
1. Base teórica
1.1 O conceito político-discursivo de programação
Minha construção teórica parte do princípio que a programação é uma síntese
discursiva, isto é, o resultado sintético, expresso por via radiofônica ou
televisiva, de uma relação de forças que interagem politicamente entre si,
mediada pela instância programadora, e que se resolve mediante uma política
1
discursiva de esfera pública .
Nesse sentido, a relação público-privado se acha em tal estado de
imbricamento que pode ser conveniente falar de seu desaparecimento, em função de
uma expressão política sintética, de natureza dialética, a qual denominamos, a partir
de Habermas (1961), esfera pública. Não há, portanto, meros condicionamentos,
vinculados a critérios administrativos ou financeiros, e sim um jogo de contradições e
interesses político-midiáticos, cuja forma consensual se estabelece na programação.
1.2 As políticas de esfera pública
Ocorre, ainda, uma ampliação do conceito de política pública, até hoje vista
exclusivamente a partir do ente estatal. Ocorre, no entanto, que o Estado moderno
vive uma crise profunda, que, conforme Sallum Jr. (1994, p. 153), evidencia-se como
produto das mudanças econômicas transnacionais e da complexificação das relações
sociais, gerando um deslocamento do lugar da vontade política para instâncias nãoestatais. Diz este autor que
“em termos estruturais, a crise que atingiu o Estado de forma aguda na
década de 80 tem duas fontes básicas já atuantes desde os anos 70 (...). O
1
Este modelo de estudo, portanto, rejeita uma apreensão instrumental do conceito de
“programação” como sendo apenas um “mapa” ou a “grade” de previsão ou planejamento dos
programas emitidos num determinado tempo em uma emissora de rádio ou tv, ou, conforme Faus Belau,
“conjunto de espacios radiofónicos ordenados cronologicamente que responden a unas exigências
planificadoras y que están condicionados por una serie de elementos — técnica, audiencia, política de
la emissora, etc.” (Appud Martí, 1990).
impulso mais importante decorreu das pressões que o sistema capitalista
internacional, de várias formas, desencadeou sobre a economia nacional.
A outra fonte de crise foi a complexidade cada vez maior da sociedade,
que restringiu a capacidade do Estado de controlá-la”.
No contexto de uma sociedade complexa e de um Estado em crise,
desencadeiam-se processos de autonomização de forças integrantes da sociedade civil
(campos sociais), entre as quais os meios de comunicação de massa ocupam um lugar
fundamental no quadro sócio-político e cultural. A inserção dos mass media na
sociedade é vista, neste trabalho, como relacionada ao conceito dos “campos dos
media”, teorizado por Adriano Duarte Rodrigues (1990). Para este autor (p. 152),
campo dos media é um conceito mais amplo do que meios de comunicação de massa,
constituindo-se na
“instituição de mediação que instaura na modernidade, abarcando,
portanto, todos os dispositivos, formal ou informalmente organizados, que
têm como função compor os valores legítimos divergentes das instituições
que adquiriram nas sociedades modernas o direito a mobilizarem
autonomamente o espaço público...”.
A questão da autonomização do campo discursivo dos media é trabalhada por
esse autor, a partir de Habermas, dentro da perspectiva da emergência da esfera
pública burguesa, no final da Idade Média, que instituiu um processo amplo de
autonomização dos campos sociais na modernidade. Afirma Adriano Rodrigues (p.
141) que
“os processos comunicacionais estão intimamente relacionados com a
constituição de uma esfera pública, esfera responsável pela criação e pela
manutenção de regularidades que ditam as normas da conformidade e da
conveniência da linguagem e das ações assim como definem o estatuto e
os papéis dos agentes e dos atores sociais. (...) Por isso, a comunicação
não é apenas um instrumento à disposição dos indivíduos, dos grupos
informais ou dos grupos organizados para darem a conhecer fatos,
acontecimentos, pensamentos, vontades ou afetos. É, sobretudo, o
processo instituinte do espaço público... (..) Daí, a natureza paradoxal da
comunicação, ao mesmo tempo instituinte e instituída, processo de
elaboração de um espaço público e agenciamento das regras impostas
pela conformidade social, pluralidade feita de múltiplas singularidades”.
Muitos são os teóricos que superlativizam o papel dos mass media na
sociedade contemporânea. Um exemplo característico é Regis Debray (1994), que
considera o papel da mediatização hoje de tal forma determinante, a ponto de se poder
afirmar a existência de uma “sociedade da videosfera”, cujo caráter performático
submete o social e o político à sua lógica. Independente de se crer num poder infinito
dos meios de comunicação de massa, modelo que sempre peca pela suspeição de,
senão ignorar o receptor, no mínimo deixá-lo passivo, parece lícito dizer que os mass
media, como elementos privilegiados do campo dos media, autonomizado, contribuem
fortemente para a modificação das relações sociais e políticas. Daí, a percepção de não
ser mais tão óbvia a separação entre público e privado, conforme atestaram O’Donnel
& Oszlak (1976).
Algumas das evidências dessa interpenetração entre público e privado podem,
a meu ver, ser identificadas no vertiginoso crescimento das ONGs, até então
consideradas uma espécie da “terceiro setor” (Fernandes, 1994); no processo de
terceirização de políticas estatais (o governo brasileiro conta hoje com a iniciativa e a
atuação francas da iniciativa privada, para desenvolver, por exemplo, significativa
parte dos programas de Educação à Distância (EAD), que, no caso, vêm sendo
implementados pela Fundação Roberto Marinho e pela FIESP); e no surgimento do
conceito de “esfera pública não-estatal” (Genro, 1996).
Há, pois, que se redimensionar o conceito de políticas públicas, destacando
aquelas que poderíamos denominar “políticas de esfera pública”, para cuja formulação
participam as diversas instâncias sociais, e em que estatal e particular buscam o
consenso dialógico habermasiano para a instituição do público e a viabilização da
esfera
democrática.
Esse
caracterização tipológica:
conceito
obedeceria,
essencialmente,
à
seguinte
Política estatal de esfera pública: política de estado com participação
pública: criação de fóruns de articulação política direta, superando as formas
representativas tradicionais dos parlamentos (aqui, inclui-se o conceito formulado por
Tarso Genro).
Política privada de esfera pública: tratamento político às ações de empresas
e instituições de direito privado, tanto quanto às dos cidadãos autonomamente, cuja
atuação atinja a sociedade, garantindo a participação pública nos processos de decisão.
Um exemplo desse tipo de política de esfera pública, e de interesse neste trabalho, são
as decisões programáticas das emissoras de rádio e tv, articuladas como espaço
político discursivo disputado por agentes sociais, e resolvido pelas instâncias
profissionais. A inclusão das políticas de programação das emissoras de rádio e
televisão não decorre apenas do fato de serem legalmente concessão estatal, mas,
sobretudo, por gerarem influência às vezes determinante sobre o organismo social,
isto é, por instituírem uma esfera pública.
E, por fim, dar tratamento político a tais instâncias significa fundamentalmente
retirar do âmbito exclusivo do “privado” as decisões de tais instituições, vinculandoas à obrigação da “publicidade” (no sentido de “discutir publicamente”), ou, talvez, de
politicidade, definida esta como sendo a qualidade da discussão política das decisões
de interesse público.
Nosso interesse, nesse ponto, é o de estabelecer, para os meios eletrônicos de
comunicação social (rádio e televisão), um conceito de política a partir do estudo do
totum de sua veiculação periódica: a programação. O conjunto discursivo de uma
emissora é, a nosso ver, o objeto material contenedor do discurso político não apenas
da organização que a dirige ou que detém os direitos de transmissão, mas a síntese
holística ou sistêmica das intencionalidades e sentidos dos agentes do rádio ou da tv.
Não é possível, assim, considerando a abrangência do modelo, se fazer uma
análise das programações sem realizar alguma sociologia do jogo políticocomunicativo que as determina, identificando e abordando as forças em luta que nelas
se resolvem.
1.3 Agentes
Tais forças, nesse ponto de vista, se constituiriam por atores sociais ou
2
agentes, conceito que procura superar a forma reducionista de ver a comunicação
como uma relação dicotômica entre emissor e receptor, nascida da fórmula E-R
(estímulo-resposta), do behaviorismo. O campo da comunicação passa a ser uma
relação claramente sócio-política, sendo, portanto, relação de negociação e poder, e,
nessa postura, assumo todas as conseqüências teóricas desse modo de ver. São,
destarte, tais agentes o suporte sociológico de uma visão discursiva da programação
de rádio/tv, os quais distingo, hipoteticamente e com fim metodológico, em seis
categorias ou tipos:
1.3.1 Patrimoniais — Os proprietários das concessões, cuja interferência na
grade programática e na inserção e limitação de conteúdos é variada,
dependendo, inclusive, do formato institucional da emissora (estatal ou
particular, conceitos que utilizo em condições teóricas diferentes de
“público” e “privado”).
1.3.2 Profissionais — Os técnicos encarregados da produção e da
manutenção programáticas. São, além de agentes ou agentes diretos,
instâncias mediadoras ou sujeitos da resolução das contradições operadas
pelos demais atores sociais, e sua atuação nesse sentido é dependente do
peso político próprio (usualmente definido pela hierarquia organizacional
da emissora) em relação à condição social e política da interferência.
1.3.3 Políticos — Abrangendo um conceito estrito de político, no sentido de
“classe” ou “categoria” dos profissionais da política partidária ou
governamental. Incluem-se, portanto, as esferas do governo e dos partidos e
atuam por diversos meios, tornando a capacidade de interferência desses
atores notória durante os períodos eleitorais, de forma explícita (horários de
2
Embora este desenvolvimento teórico seja de minha responsabilidade, devo a idéia
deste conceito ao professor Venerando Ribeiro, do Departamento de Comunicação Social da
Universidade Federal de Goiás. Sua formulação original é a de “usuário”, alterada para “agente”,
devido à perspectiva político-comunicativa que assumi.
propaganda eleitoral) ou implícita (via noticiários, comentários, etc.).
1.3.4 Publicitários — Os agentes de publicidade e os anunciantes em geral.
Essa categoria é a que possui maior vinculação com a estrutura formal da
programação, na medida em que suas inserções são demarcadas, na maior
parte das vezes. Há, entretanto, o uso recente de artifícios que têm
implicado no imbricamento da dimensão publicitária com as demais, seja
pela introdução dos assim chamados “merchandising”, seja na apropriação
do ordenamento discursivo da publicidade pelas categorias do jornalismo
(reportagens sobre campanhas, produtos e empresas) e da música (“clips”).
1.3.5 Culturais — Numa visão abrangente da cultura, inserimos aqui os que
buscam a programação com objetivos de divulgação de conteúdos e artes
em geral. Músicos, poetas, promotores de eventos religiosos, culturais ou
científicos, etc. Esta é, com certeza, a única via organizada não institucional
de interferência na programação, sendo lícito aventar até que ponto não se
constitui, ora um braço de outro agente, ora uma esfera de atuação da
própria audiência.
1.3.6 Receptores — A audiência (ouvintes ou telespectadores), cuja atuação
pode ser direta, porém eventual e autoritariamente controlada, na forma de
telefonemas, cartas, concessão de entrevistas de rua, etc., ou indireta e
objetivada de forma que sua responsividade é determinada por parâmetros
ou categorias teóricas a priori (fundadas no raciocínio segmentador do
marketing e da propaganda, que Cotrim (1988, p. 23) subdivide em seis:
demográficos, culturais, econômicos, geográficos, sociais e psicológicos).
É, sem a menor dúvida, o grupo de atores sociais que menos interfere na
construção discursiva da programação, a qual, aliás, se instaura de forma
retórica, exatamente porque funciona dentro da lógica da sedução. As
possibilidades de audiência não-passiva, que constituem o desafio da
pesquisa em comunicação na atualidade, deverão ser objeto privilegiado de
minha tese de doutoramento.
Torna-se importante considerar que esses grupos sociais constituem categorias
teóricas de análise, cuja pretensão não é de modo algum totalizante e cuja
presença neste trabalho objetiva tão somente propor uma base metodológica
para a abordagem da programação como objeto discursivo. A interação dos
agentes na constituição do discurso programático é difusa e complexa, e ocorre
historicamente, sendo discutível, do ponto de vista epistemológico, as
possibilidades da razão para construir o discurso do saber que dê conta da
realidade em permanente mutação, na qual estão inseridos. Entretanto, nossa
postura a respeito é a de que o debate sobre os limites da razão não invalida as
possibilidades de construção frutífera do conhecimento, a partir dos
instrumentos da racionalidade, o que significa, na prática, uma recusa à
permanência passiva ante a perplexidade e a busca de uma razão crítica, porém
humilde.
1.4 Contexto sócio-político
Uma análise discursiva da programação radiofônica ou televisiva implica
ainda em abranger o objeto de forma crítica, rompendo, assim, com a
metodologia funcionalista que caracteriza a literatura especializada, conforme
constatei em revisão bibliográfica (Signates, 1995).
Nesse sentido, adoto o pressuposto teórico de que vivemos a transição pósmoderna (segundo a leitura de Boaventura Souza Santos), caracterizada pela crise dos
paradigmas, e faço, em seguida, o que pretende ser uma espécie da verticalização
metodológica, escorando tal análise em três referenciais fundamentais, de dimensão
histórica:
1.4.1 Globalização — Assinalado por Milton Santos, citado por Maurel
(1993), como sendo “a unificação do planeta, da Terra, num só e único
mundo”, o que, de forma alguma, contempla as utopias da igualdade, sendo,
ao contrário, um novo modo de reprodução da desigualdade do capitalismo.
Em outro texto, Milton Santos (1993),considera que esse fenômeno
significa um novo modo de uso do território, “da antiga comunhão
individual dos lugares com o Universo à comunhão hoje global: a
interdependência universal dos lugares é a nova realidade do território”, um
conceito que supera as noções modernas da internacionalização (Lênin,
1912) para a noção pós-moderna da transnacionalização. Milton Santos
trabalha com os conceitos de horizontalidades e verticalidades, as
primeiras, como os domínios da contigüidade (lugares vizinhos reunidos),
e, as segundas, como “formadas por pontos distantes uns dos outros, ligados
por todas as formas e processos sociais” (1993, p. 16). Dentro desse prisma,
a construção das verticalidades passa a ocorrer por meio das redes e das
redes de redes, que dividem os espaços em lugares contíguos e lugares de
rede,
alterando,
assim,
suas
funcionalizações
e
criando
novas
solidariedades. E, por fim, conclui Milton Santos:
“Em todos os casos, a informação joga um papel parecido àquele que
no passado remoto era destinado à energia. (...) ...para ser hoje o
verdadeiro instrumento de união entre as diversas partes de um
território” (1993, p. 17).
Saber como se dá e quais são as especificidades do referencial da globalização na
formação discursiva das programações é o nosso propósito, objetivando, ainda
com este autor,
“... um caminho que nos libere da maldição da globalização perversa
que estamos vivendo e nos aproxime da possibilidade de construir uma
outra globalização, capaz de restaurar o homem na sua dignidade”
(1994, p. 20).
1.4.2 Segmentação — O conceito de segmentação surgiu pela primeira
vez em 1956, com Wendell Smith, nos Estados Unidos, vinculado à noção de
mercado consumidor. Seu surgimento se deu com a mudança da orientação do
marketing profissional, que deixou de se voltar prioritariamente para o produto
e passou a se orientar para o mercado, isto é, para os grupos de consumidores
(Berrigan&Finkbeiner, 1992). Para os especialistas em marketing, segmentar
mercado significa “reconhecer sua natureza essencialmente heterogênea”
(Rocha&Christensen, 1987, p. 48) e, portanto, considerar
“o mercado global como formado de muitas partes menores, cujos
elementos têm características comuns e se parecem mais entre si do que o
mercado total. A segmentação de mercado, então, divide o mercado
heterogêneo maior em pequenos segmentos homogêneos. Os elementos de
cada segmento menor são mais parecidos em termos de desejos, necessidades
ou comportamentos do que o mercado total” (Schewe&Smith, 1980, p. 112).
A segmentação, portanto, longe de ser contraditória, em relação à
globalização, constitui um modo de instauração das tais verticalidades, de que
fala Milton Santos. No âmbito do meu objeto de estudo, a hegemonia do
referencial segmentador reduz a programação à dimensão de produto, negando
seu caráter político e processual, e conduz à especialização das programações,
submetendo a complexidade dos discursos dos meios ao interesse do consumo.
Pretendo identificar como isso ocorre e que papel esse viés desempenha na
mediação político-discursiva da programação.
1.4.3 Democratização — O tema está na ordem do dia das
políticas de comunicação, especialmente no Brasil. E, no que tange aos meios
e, em particular, às novas tecnologias, a senha constantemente reiterada é a da
democratização do acesso. Minha leitura dessa categoria é a de que se trabalha
com o pressuposto de que o agente receptor influi de modo insuficiente na
formulação do discurso midiático, e os esforços do pensamento crítico se
direcionam, por isso, para estabelecer novas formas de relação de poder, que
resultem em emancipação do receptor, definido esse princípio como sendo a
função social dos mass media. Por tais razões, e porque este projeto estuda os
meios enquanto loci de relação de poder, torna-se evidente a importância da
presença do referencial da democratização nessa formulação teórica.
2. Base metodológica
3
A exposição da base metodológica dessa pesquisa não pretende ser fundadora
de novidades num terreno tão complexo. Sua pretensão é unicamente
demonstrar, expondo à crítica dos pares, o desdobramento empírico dentro
do qual temos pretendido trabalhar a formulação teórica que escolhemos,
das políticas privadas de esfera pública nos meios eletrônicos de
comunicação de massa.
Este trabalho inclui dois pressupostos metodológicos, a saber: (a) o de que a
relação política de forças, a caracterização dos agentes e os princípios gerais do
resultado programático discursivo não são diferentes entre as emissoras de rádio e as
de televisão (ao menos, não mais do que destas entre si, dadas as variações em suas
características e peculiaridades); e (b) o de que é possível realizar uma análise
comparativa entre políticas de programação incidentes numa mesma região geográfica
ou populacional (que denominamos disponibilidades programáticas), embora nada
impeça que os critérios adotados sirvam para estudos de caso, até porque são
constituídos de técnicas comuns às pesquisas sociais em geral. Em nosso caso
particular, tomamos a região do aglomerado urbano de Goiânia, Goiás.
A aplicação da metodologia prevê um desenvolvimento em três fases:
2.1 Abordagem das programações — O estudo das programações das
emissoras de rádio e televisão do aglomerado urbano de Goiânia é procedido
por um corte metodológico e uma avaliação qualitativa. O corte metodológico
se dá em dois níveis, a saber:
2.1.1 Escolha da amostra das emissoras — Este nível de corte
metodológico utiliza o critério de reunir, dentro do menor número
possível de casos, a maior quantidade possível das características
consideradas
importantes
ou
condicionadoras
dos
perfis
programáticos, sem a pretensão de abrangê-los todos. Tais
características são aqui divididas em dois tipos:
3
A pesquisa referida neste trabalho é a que desenvolvo em Goiânia, para a minha
Dissertação de Mestrado, sobre Políticas de Programação em Rádio e TV, na Universidade de Brasília.
Dentro desta discussão teórico-metodológica, menciono-a apenas como exemplificação.
Características da emissora — Ou, parcialmente,
2.1.1.2
o que Martí (1990) denomina “condicionamentos internos”,
isto é: (a) Titularidade ou natureza da propriedade da
emissora, que pode ser estatal ou particular; (b) Banda de
freqüência, subdividida em AM, FM e TV (em seus diversos
tipos: Aberta, Cabo e por Assinatura); (c) Autonomia
programática ou grau de capacidade interna de decisão
quanto à instauração de políticas de programação, que, a
grosso modo, supomos nos termos de alto, médio e baixo
grau de autonomia; e (d) Natureza da origem dos recursos
de sustentação ou existência ou não de interesse comercial
como fator de da linha programática.
Características da programação — Para cujas definições são
utilizados dois critérios básicos: (a) Segmentação hipotética do
público-alvo, que, com base na realidade observada “a priori”
em Goiânia (mais definidora para o meio rádio do que para o
televisão), tende para os tipos: Popular/sertanejo; jovem; classe
“A”;
evangélicos;
segmentados
por
e
não
claramente segmentados
horários;
e
(b)
Especialização
ou
da
programação, que tem haver com a unificação de formatos
(como,
por
exemplo,
as
rádios
“só
notícias”
ou
“exclusivamente música”, e a maioria das programações de TV
a cabo e por assinatura), o que de alguma forma implica em
segmentação do público-alvo, embora a recíproca não seja
verdadeira.
Por fim, devo acrescentar que a tipologia acima mencionada
não pretende traçar categorias universais ou estanques para uma
classificação de emissoras e programações. E essa despretensão
se
baseia
em
duas
razões
fundamentais,
de
caráter
epistemológico: primeiro, o fato de as taxonomias constituírem
expressões de índole quantitativista e de validade duvidosa nas
ciências humanas; e, segundo, porque a realidade prática das
emissoras
num
mundo
culturalmente
globalizado
e
tecnologicamente vertiginoso deixa pouca possibilidade de
acerto para as técnicas classificatórias. A tipologia referida
limita sua funcionalidade à instauração de critérios mínimos,
regional e relativamente válidos, para a determinação da
amostra dos casos que servirão a esta pesquisa.
2.1.2 Escolha da amostra das programações — Escolhidas as
emissoras, no âmbito possível dos critérios determinados, passamos
ao segundo nível do corte metodológico, a fim de determinar as
amostras do conteúdo programático a ser utilizado como base para a
coleta de dados. Trabalhamos, para isso, com dois pressupostos, que
se convertem em critérios metodológicos:
As programações se desenvolvem por ciclos narrativos, conceito que,
para
Cebrián
“continuidade”,
Herreros
dentre
os
(1992),
que
representa
definem
uma
o
elemento
política
de
programação, a qual é estabelecida por esse autor como sendo
“macrouniões” narrativas, a se repetirem por ciclos, nas quais se
incluem critérios de relevância da mensagem, do ponto de vista do
emissor e como parte da estratégia discursiva, e que funcionam
como instruções para o receptor, sobre o modo de usar o texto e
como princípio de ordem para se orientar dentro do conjunto de
discursos (Signates, 1995, p. 20). Tais ciclos são determinados,
prioritariamente, pelos hábitos horários sociais, o que lhes dá,
conforme Mônica Nunes (1993, p. 27 e seg.), uma dimensão
ritualística e política, isto é, atuando tanto como recriação simbólica
e renovada no tempo dos ritos sociais (signos de renovação
periódica), quanto como controle da organização social através do
calendário
(“Os
que
controlam
o
calendário
controlam
indiretamente o trabalho, o tempo livre e as festas” — Le Goff,
citado por Nunes, p. 28). Para efeito da aplicação metodológica,
generalizamos esses ciclos em quatro unidades diárias, de seis horas
cada, a saber: Manhã (6-12 horas), Tarde (12-18 horas), Noite (1824 horas) e Madrugada (0-6 horas). Tais categorias não são
arbitrárias e fazem parte do cotidiano da maioria das programações,
da divisão do trabalho (turnos) dos agentes profissionais e,
inclusive, da linguagem do meio, servindo, mesmo, para denominar
4
programas e blocos dentro da programação. Os ciclos narrativos
usualmente diferem entre si conforme a emissão pelos dias da
semana.
Assim,
as
programações
costumam
permanecer
semelhantes de segunda a sexta, diferindo no sábado e no domingo.
Essa estratégia está igualmente ligada aos hábitos sócio-laborais dos
ouvintes. Por tal característica, as gravações para a pesquisa podem
ser feitas pela escolha aleatória de um dos dias de semana, e,
obrigatoriamente, no sábado e no domingo, objetivando a percepção
das alterações de fim de semana, dentro da mesma programação.
Os programas, em sua maioria, se inserem nas programações orientados pela
chamada “hora cheia”, razão pela qual a coleta de dados é procedida pela gravação de,
no mínimo, uma hora, escolhida pelo método aleatório, dentro de cada ciclo horário
(turno), em cada emissora selecionada para a pesquisa. Essa base quantitativa não
constitui elemento definidor absoluto das audições a serem feitas objetivando a
análise, pois, se consideradas insuficientes, novas gravações/audições podem ser
feitas, até que se alcance o que Boaventura Santos (1989, p. 119) denomina “processo
de autoconvencimento” do pesquisador. Isto é, minha postura epistemológica está
4
Uma alternativa metodológica a este critério homogeneizador pode ser desenvolvida a
partir de consultas aos programadores (agente profissional), buscando neles as informações básicas
sobre a relação horário-conteúdo dos diversos programas, a fim de determinar os ciclos narrativos com
exatidão específica a cada emissora. Em Goiânia, há pelo menos uma emissora (de rádio), direcionada
para ouvintes de zona suburbana e rural, que inicia o ciclo “manhã” às quatro horas e diferencia
radicalmente a programação ao meio-dia, por uma hora, criando o que poderíamos denominar “ciclo
almoço”.
mais orientada para o “valor de uso dos resultados” (resultados convincentes para o
cientista, ou autoconvencimento), do que para o “valor de troca dos resultados”
(resultados convincentes para a comunidade científica, ou cumprimento de rituais
técnico-metodológicos).
2.2
Abordagem qualitativa — O estudo comparativo de casos através da
abordagem qualitativa constitui uma tradição rica das ciências sociais. Sua
justificação está, segundo Haguette (1987, p. 17), na pressuposição de que a
realidade social “é constituída de microprocessos que, em seu conjunto,
configuram as estruturas maciças” da sociedade, as quais “existem e devem ser
conhecidas, mas é a ação humana, a interação social, que constitui o motor da
história”. Sem se colocarem como alternativas aos métodos quantitativos, os
métodos qualitativos são, para a autora, superiores, por pressuporem a “maior
relevância do aspecto subjetivo da ação social e a incapacidade da estatística
de dar conta dos fenômenos complexos e dos fenômenos únicos (p. 55). Para
Boaventura Santos, por sua vez, o próprio quantitativo é, também, um juízo
qualitativo e, se essa qualidade implícita não puder ser pressuposta, o método
colapsa (1989, p. 125).
O estudo qualitativo é desenvolvido em duas partes distintas:
2.2.1 Análise dos conteúdos programáticos — As amostras colhidas,
na condição de “textos”, são tratados como discursos (Orlandi,
1988; Fairclough, 1995), isto é, sua leitura se desenvolve em direção
da apreensão dos aspectos sociais de sua construção. Assim, não
apenas deverão ser abordados no sentido de se construir uma crítica
das categorias da literatura publicada sobre rádio e televisão, mas,
também e sobretudo, de identificar as vozes dos agentes no explícito
e no implícito das programações, as regularidades e contradições de
forma e conteúdo e de tipo interno (coesão e coerência) e
comparativo (intertextualidade e interdiscursividade), e, finalmente,
as possibilidades de interferência do sócio-político e do cultural no
ordenamento programático. Com isso, pretende-se não apenas uma
descrição, mas uma crítica teórica aos discursos programáticos das
emissoras (Bourdieu, 19..).
2.2.2 Entrevistas com os agentes — A busca por relatos dos agentes
é gravada (som ou vídeo) e pretende basicamente identificar, através
da técnica de entrevistas despadronizadas ou não estruturadas, do
tipo focalizadas (Marconi&Lakatos, 1985): (a) Que interesses e
peculiaridades o identificam como agente de programação; (b) O
modo como vêem e interferem na programação, inclusive, no caso
dos agentes patrimoniais e profissionais, como providenciam a
solução de contradições e irregularidades; (c) Quais e como se
caracterizam as relações sociais e políticas com os demais agentes,
na gestão de seus interesses em relação à programação. Essa espécie
da “sociologia da programação” é trabalhada de modo excêntrico,
começando pelos agentes patrimoniais e profissionais e, em seguida,
percorrendo os demais atores sociais, das diversas emissoras
pesquisadas. Não há uma quantidade fixa para as entrevistas, nem é
necessário abordar todos os agentes vinculados às emissoras. Uma
vez mais, o critério definidor do método é o do convencimento do
pesquisador, durante o processo de investigação.
Uma peculiaridade digna de nota, na metodologia deste trabalho, é a
recusa da transcrição in extenso, ou, dito de outra forma, a opção pela
transcrição relevante, o que significa que o trabalho de transferência
dos ditos ao papel é estratificado tendo em vista a produção do
relatório final de pesquisa. Essa opção abrange todo o trabalho de
coleta e ordenamento de dados (gravações de programações e
entrevistas) e seu procedimento se justifica por duas razões
fundamentais: (a) por considerar que a transcrição para a linguagem
escrita constitui uma redução que, para efeito da análise, acaba
determinando juízos de valor passíveis de viés, na medida em que
destaca os conteúdos falados eliminando a riqueza enfática com que
são pronunciados, isto é, causando um “esfriamento” irreversível de
conteúdos; além disso, há formatos nas programações, como a música
de fundo (BG), no rádio, e a própria imagem, na televisão, que são
impossíveis de se transcrever, embora absolutamente determinantes
para a resolução discursiva das programações. E, (b) o trabalho de
transcrição resultaria num esforço até certo ponto inútil e custoso, e,
portanto, desnecessário. A análise pode ser feita diretamente sobre o
material gravado, com o auxílio de repetições comentadas, anotações e
transcrições do que for considerado relevante, em face dos objetivos da
pesquisa.
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