Metodologia da pesquisa sobre programação Luiz Signates RESUMO Este trabalho propõe o desenvolvimento de uma metodologia crítica para o estudo integrado ou comparativo de programações de rádio e televisão, como alternativa às abordagens funcionalistas. A programação é teoricamente tratada como síntese discursiva de uma relação sócio-política, movimentada por agentes (atores sociais com interesses específicos) e mediada pelas instâncias profissionais e patrimoniais, que, desta forma, a tornam uma política privada de esfera pública. Dentro dessa postura teórica, ocorre a possibilidade da utilização de métodos taxionômicos, com objetivos amostrais, e, em seguida, de metodologias vinculadas à teoria do discurso e à pesquisa sociológica qualitativa para a coleta e a interpretação dos dados. Antes de abordar o tema deste trabalho, julgo oportuno tecer breves considerações a respeito de minha postura epistemológica frente ao método científico, como forma de abordagem do real. Não o considero definitivo, nem o estabeleço como princípio de uma visão de mundo. Metaforizando, métodos são como essas estacas utilizadas para a construção de andaimes, que só têm sentido enquanto a estrutura estiver sendo feita. Ou, como portas, através das quais se permite a entrada em espaços teoricamente definidos, que não precisam ser as mesmas para entrar e sair, nem resumem o edifício inteiro. As categorias de análise que utilizo, neste trabalho, como a de políticas de esfera pública, ou a de agentes sociais de programação, ou outras, devem ser vistas por essa perspectiva. São conceitos que não se fazem presentes como descrições da realidade, e sim como instrumentos teóricos imaginados para possibilitar a entrada nos “lugares” de pesquisa e sustentar provisoriamente a construção do pensamento que se pretende fazer. É indiscutível que sedimentam pressupostos e se alimentam de uma mundividência específica, entretanto, o que pretendo deixar explícito é o meu descompromisso com os modelos que instituem, desvencilhando-me de qualquer pretensão totalizante, embora me utilize deles, para uma abordagem sistemática. 1. Base teórica 1.1 O conceito político-discursivo de programação Minha construção teórica parte do princípio que a programação é uma síntese discursiva, isto é, o resultado sintético, expresso por via radiofônica ou televisiva, de uma relação de forças que interagem politicamente entre si, mediada pela instância programadora, e que se resolve mediante uma política 1 discursiva de esfera pública . Nesse sentido, a relação público-privado se acha em tal estado de imbricamento que pode ser conveniente falar de seu desaparecimento, em função de uma expressão política sintética, de natureza dialética, a qual denominamos, a partir de Habermas (1961), esfera pública. Não há, portanto, meros condicionamentos, vinculados a critérios administrativos ou financeiros, e sim um jogo de contradições e interesses político-midiáticos, cuja forma consensual se estabelece na programação. 1.2 As políticas de esfera pública Ocorre, ainda, uma ampliação do conceito de política pública, até hoje vista exclusivamente a partir do ente estatal. Ocorre, no entanto, que o Estado moderno vive uma crise profunda, que, conforme Sallum Jr. (1994, p. 153), evidencia-se como produto das mudanças econômicas transnacionais e da complexificação das relações sociais, gerando um deslocamento do lugar da vontade política para instâncias nãoestatais. Diz este autor que “em termos estruturais, a crise que atingiu o Estado de forma aguda na década de 80 tem duas fontes básicas já atuantes desde os anos 70 (...). O 1 Este modelo de estudo, portanto, rejeita uma apreensão instrumental do conceito de “programação” como sendo apenas um “mapa” ou a “grade” de previsão ou planejamento dos programas emitidos num determinado tempo em uma emissora de rádio ou tv, ou, conforme Faus Belau, “conjunto de espacios radiofónicos ordenados cronologicamente que responden a unas exigências planificadoras y que están condicionados por una serie de elementos — técnica, audiencia, política de la emissora, etc.” (Appud Martí, 1990). impulso mais importante decorreu das pressões que o sistema capitalista internacional, de várias formas, desencadeou sobre a economia nacional. A outra fonte de crise foi a complexidade cada vez maior da sociedade, que restringiu a capacidade do Estado de controlá-la”. No contexto de uma sociedade complexa e de um Estado em crise, desencadeiam-se processos de autonomização de forças integrantes da sociedade civil (campos sociais), entre as quais os meios de comunicação de massa ocupam um lugar fundamental no quadro sócio-político e cultural. A inserção dos mass media na sociedade é vista, neste trabalho, como relacionada ao conceito dos “campos dos media”, teorizado por Adriano Duarte Rodrigues (1990). Para este autor (p. 152), campo dos media é um conceito mais amplo do que meios de comunicação de massa, constituindo-se na “instituição de mediação que instaura na modernidade, abarcando, portanto, todos os dispositivos, formal ou informalmente organizados, que têm como função compor os valores legítimos divergentes das instituições que adquiriram nas sociedades modernas o direito a mobilizarem autonomamente o espaço público...”. A questão da autonomização do campo discursivo dos media é trabalhada por esse autor, a partir de Habermas, dentro da perspectiva da emergência da esfera pública burguesa, no final da Idade Média, que instituiu um processo amplo de autonomização dos campos sociais na modernidade. Afirma Adriano Rodrigues (p. 141) que “os processos comunicacionais estão intimamente relacionados com a constituição de uma esfera pública, esfera responsável pela criação e pela manutenção de regularidades que ditam as normas da conformidade e da conveniência da linguagem e das ações assim como definem o estatuto e os papéis dos agentes e dos atores sociais. (...) Por isso, a comunicação não é apenas um instrumento à disposição dos indivíduos, dos grupos informais ou dos grupos organizados para darem a conhecer fatos, acontecimentos, pensamentos, vontades ou afetos. É, sobretudo, o processo instituinte do espaço público... (..) Daí, a natureza paradoxal da comunicação, ao mesmo tempo instituinte e instituída, processo de elaboração de um espaço público e agenciamento das regras impostas pela conformidade social, pluralidade feita de múltiplas singularidades”. Muitos são os teóricos que superlativizam o papel dos mass media na sociedade contemporânea. Um exemplo característico é Regis Debray (1994), que considera o papel da mediatização hoje de tal forma determinante, a ponto de se poder afirmar a existência de uma “sociedade da videosfera”, cujo caráter performático submete o social e o político à sua lógica. Independente de se crer num poder infinito dos meios de comunicação de massa, modelo que sempre peca pela suspeição de, senão ignorar o receptor, no mínimo deixá-lo passivo, parece lícito dizer que os mass media, como elementos privilegiados do campo dos media, autonomizado, contribuem fortemente para a modificação das relações sociais e políticas. Daí, a percepção de não ser mais tão óbvia a separação entre público e privado, conforme atestaram O’Donnel & Oszlak (1976). Algumas das evidências dessa interpenetração entre público e privado podem, a meu ver, ser identificadas no vertiginoso crescimento das ONGs, até então consideradas uma espécie da “terceiro setor” (Fernandes, 1994); no processo de terceirização de políticas estatais (o governo brasileiro conta hoje com a iniciativa e a atuação francas da iniciativa privada, para desenvolver, por exemplo, significativa parte dos programas de Educação à Distância (EAD), que, no caso, vêm sendo implementados pela Fundação Roberto Marinho e pela FIESP); e no surgimento do conceito de “esfera pública não-estatal” (Genro, 1996). Há, pois, que se redimensionar o conceito de políticas públicas, destacando aquelas que poderíamos denominar “políticas de esfera pública”, para cuja formulação participam as diversas instâncias sociais, e em que estatal e particular buscam o consenso dialógico habermasiano para a instituição do público e a viabilização da esfera democrática. Esse caracterização tipológica: conceito obedeceria, essencialmente, à seguinte Política estatal de esfera pública: política de estado com participação pública: criação de fóruns de articulação política direta, superando as formas representativas tradicionais dos parlamentos (aqui, inclui-se o conceito formulado por Tarso Genro). Política privada de esfera pública: tratamento político às ações de empresas e instituições de direito privado, tanto quanto às dos cidadãos autonomamente, cuja atuação atinja a sociedade, garantindo a participação pública nos processos de decisão. Um exemplo desse tipo de política de esfera pública, e de interesse neste trabalho, são as decisões programáticas das emissoras de rádio e tv, articuladas como espaço político discursivo disputado por agentes sociais, e resolvido pelas instâncias profissionais. A inclusão das políticas de programação das emissoras de rádio e televisão não decorre apenas do fato de serem legalmente concessão estatal, mas, sobretudo, por gerarem influência às vezes determinante sobre o organismo social, isto é, por instituírem uma esfera pública. E, por fim, dar tratamento político a tais instâncias significa fundamentalmente retirar do âmbito exclusivo do “privado” as decisões de tais instituições, vinculandoas à obrigação da “publicidade” (no sentido de “discutir publicamente”), ou, talvez, de politicidade, definida esta como sendo a qualidade da discussão política das decisões de interesse público. Nosso interesse, nesse ponto, é o de estabelecer, para os meios eletrônicos de comunicação social (rádio e televisão), um conceito de política a partir do estudo do totum de sua veiculação periódica: a programação. O conjunto discursivo de uma emissora é, a nosso ver, o objeto material contenedor do discurso político não apenas da organização que a dirige ou que detém os direitos de transmissão, mas a síntese holística ou sistêmica das intencionalidades e sentidos dos agentes do rádio ou da tv. Não é possível, assim, considerando a abrangência do modelo, se fazer uma análise das programações sem realizar alguma sociologia do jogo políticocomunicativo que as determina, identificando e abordando as forças em luta que nelas se resolvem. 1.3 Agentes Tais forças, nesse ponto de vista, se constituiriam por atores sociais ou 2 agentes, conceito que procura superar a forma reducionista de ver a comunicação como uma relação dicotômica entre emissor e receptor, nascida da fórmula E-R (estímulo-resposta), do behaviorismo. O campo da comunicação passa a ser uma relação claramente sócio-política, sendo, portanto, relação de negociação e poder, e, nessa postura, assumo todas as conseqüências teóricas desse modo de ver. São, destarte, tais agentes o suporte sociológico de uma visão discursiva da programação de rádio/tv, os quais distingo, hipoteticamente e com fim metodológico, em seis categorias ou tipos: 1.3.1 Patrimoniais — Os proprietários das concessões, cuja interferência na grade programática e na inserção e limitação de conteúdos é variada, dependendo, inclusive, do formato institucional da emissora (estatal ou particular, conceitos que utilizo em condições teóricas diferentes de “público” e “privado”). 1.3.2 Profissionais — Os técnicos encarregados da produção e da manutenção programáticas. São, além de agentes ou agentes diretos, instâncias mediadoras ou sujeitos da resolução das contradições operadas pelos demais atores sociais, e sua atuação nesse sentido é dependente do peso político próprio (usualmente definido pela hierarquia organizacional da emissora) em relação à condição social e política da interferência. 1.3.3 Políticos — Abrangendo um conceito estrito de político, no sentido de “classe” ou “categoria” dos profissionais da política partidária ou governamental. Incluem-se, portanto, as esferas do governo e dos partidos e atuam por diversos meios, tornando a capacidade de interferência desses atores notória durante os períodos eleitorais, de forma explícita (horários de 2 Embora este desenvolvimento teórico seja de minha responsabilidade, devo a idéia deste conceito ao professor Venerando Ribeiro, do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Goiás. Sua formulação original é a de “usuário”, alterada para “agente”, devido à perspectiva político-comunicativa que assumi. propaganda eleitoral) ou implícita (via noticiários, comentários, etc.). 1.3.4 Publicitários — Os agentes de publicidade e os anunciantes em geral. Essa categoria é a que possui maior vinculação com a estrutura formal da programação, na medida em que suas inserções são demarcadas, na maior parte das vezes. Há, entretanto, o uso recente de artifícios que têm implicado no imbricamento da dimensão publicitária com as demais, seja pela introdução dos assim chamados “merchandising”, seja na apropriação do ordenamento discursivo da publicidade pelas categorias do jornalismo (reportagens sobre campanhas, produtos e empresas) e da música (“clips”). 1.3.5 Culturais — Numa visão abrangente da cultura, inserimos aqui os que buscam a programação com objetivos de divulgação de conteúdos e artes em geral. Músicos, poetas, promotores de eventos religiosos, culturais ou científicos, etc. Esta é, com certeza, a única via organizada não institucional de interferência na programação, sendo lícito aventar até que ponto não se constitui, ora um braço de outro agente, ora uma esfera de atuação da própria audiência. 1.3.6 Receptores — A audiência (ouvintes ou telespectadores), cuja atuação pode ser direta, porém eventual e autoritariamente controlada, na forma de telefonemas, cartas, concessão de entrevistas de rua, etc., ou indireta e objetivada de forma que sua responsividade é determinada por parâmetros ou categorias teóricas a priori (fundadas no raciocínio segmentador do marketing e da propaganda, que Cotrim (1988, p. 23) subdivide em seis: demográficos, culturais, econômicos, geográficos, sociais e psicológicos). É, sem a menor dúvida, o grupo de atores sociais que menos interfere na construção discursiva da programação, a qual, aliás, se instaura de forma retórica, exatamente porque funciona dentro da lógica da sedução. As possibilidades de audiência não-passiva, que constituem o desafio da pesquisa em comunicação na atualidade, deverão ser objeto privilegiado de minha tese de doutoramento. Torna-se importante considerar que esses grupos sociais constituem categorias teóricas de análise, cuja pretensão não é de modo algum totalizante e cuja presença neste trabalho objetiva tão somente propor uma base metodológica para a abordagem da programação como objeto discursivo. A interação dos agentes na constituição do discurso programático é difusa e complexa, e ocorre historicamente, sendo discutível, do ponto de vista epistemológico, as possibilidades da razão para construir o discurso do saber que dê conta da realidade em permanente mutação, na qual estão inseridos. Entretanto, nossa postura a respeito é a de que o debate sobre os limites da razão não invalida as possibilidades de construção frutífera do conhecimento, a partir dos instrumentos da racionalidade, o que significa, na prática, uma recusa à permanência passiva ante a perplexidade e a busca de uma razão crítica, porém humilde. 1.4 Contexto sócio-político Uma análise discursiva da programação radiofônica ou televisiva implica ainda em abranger o objeto de forma crítica, rompendo, assim, com a metodologia funcionalista que caracteriza a literatura especializada, conforme constatei em revisão bibliográfica (Signates, 1995). Nesse sentido, adoto o pressuposto teórico de que vivemos a transição pósmoderna (segundo a leitura de Boaventura Souza Santos), caracterizada pela crise dos paradigmas, e faço, em seguida, o que pretende ser uma espécie da verticalização metodológica, escorando tal análise em três referenciais fundamentais, de dimensão histórica: 1.4.1 Globalização — Assinalado por Milton Santos, citado por Maurel (1993), como sendo “a unificação do planeta, da Terra, num só e único mundo”, o que, de forma alguma, contempla as utopias da igualdade, sendo, ao contrário, um novo modo de reprodução da desigualdade do capitalismo. Em outro texto, Milton Santos (1993),considera que esse fenômeno significa um novo modo de uso do território, “da antiga comunhão individual dos lugares com o Universo à comunhão hoje global: a interdependência universal dos lugares é a nova realidade do território”, um conceito que supera as noções modernas da internacionalização (Lênin, 1912) para a noção pós-moderna da transnacionalização. Milton Santos trabalha com os conceitos de horizontalidades e verticalidades, as primeiras, como os domínios da contigüidade (lugares vizinhos reunidos), e, as segundas, como “formadas por pontos distantes uns dos outros, ligados por todas as formas e processos sociais” (1993, p. 16). Dentro desse prisma, a construção das verticalidades passa a ocorrer por meio das redes e das redes de redes, que dividem os espaços em lugares contíguos e lugares de rede, alterando, assim, suas funcionalizações e criando novas solidariedades. E, por fim, conclui Milton Santos: “Em todos os casos, a informação joga um papel parecido àquele que no passado remoto era destinado à energia. (...) ...para ser hoje o verdadeiro instrumento de união entre as diversas partes de um território” (1993, p. 17). Saber como se dá e quais são as especificidades do referencial da globalização na formação discursiva das programações é o nosso propósito, objetivando, ainda com este autor, “... um caminho que nos libere da maldição da globalização perversa que estamos vivendo e nos aproxime da possibilidade de construir uma outra globalização, capaz de restaurar o homem na sua dignidade” (1994, p. 20). 1.4.2 Segmentação — O conceito de segmentação surgiu pela primeira vez em 1956, com Wendell Smith, nos Estados Unidos, vinculado à noção de mercado consumidor. Seu surgimento se deu com a mudança da orientação do marketing profissional, que deixou de se voltar prioritariamente para o produto e passou a se orientar para o mercado, isto é, para os grupos de consumidores (Berrigan&Finkbeiner, 1992). Para os especialistas em marketing, segmentar mercado significa “reconhecer sua natureza essencialmente heterogênea” (Rocha&Christensen, 1987, p. 48) e, portanto, considerar “o mercado global como formado de muitas partes menores, cujos elementos têm características comuns e se parecem mais entre si do que o mercado total. A segmentação de mercado, então, divide o mercado heterogêneo maior em pequenos segmentos homogêneos. Os elementos de cada segmento menor são mais parecidos em termos de desejos, necessidades ou comportamentos do que o mercado total” (Schewe&Smith, 1980, p. 112). A segmentação, portanto, longe de ser contraditória, em relação à globalização, constitui um modo de instauração das tais verticalidades, de que fala Milton Santos. No âmbito do meu objeto de estudo, a hegemonia do referencial segmentador reduz a programação à dimensão de produto, negando seu caráter político e processual, e conduz à especialização das programações, submetendo a complexidade dos discursos dos meios ao interesse do consumo. Pretendo identificar como isso ocorre e que papel esse viés desempenha na mediação político-discursiva da programação. 1.4.3 Democratização — O tema está na ordem do dia das políticas de comunicação, especialmente no Brasil. E, no que tange aos meios e, em particular, às novas tecnologias, a senha constantemente reiterada é a da democratização do acesso. Minha leitura dessa categoria é a de que se trabalha com o pressuposto de que o agente receptor influi de modo insuficiente na formulação do discurso midiático, e os esforços do pensamento crítico se direcionam, por isso, para estabelecer novas formas de relação de poder, que resultem em emancipação do receptor, definido esse princípio como sendo a função social dos mass media. Por tais razões, e porque este projeto estuda os meios enquanto loci de relação de poder, torna-se evidente a importância da presença do referencial da democratização nessa formulação teórica. 2. Base metodológica 3 A exposição da base metodológica dessa pesquisa não pretende ser fundadora de novidades num terreno tão complexo. Sua pretensão é unicamente demonstrar, expondo à crítica dos pares, o desdobramento empírico dentro do qual temos pretendido trabalhar a formulação teórica que escolhemos, das políticas privadas de esfera pública nos meios eletrônicos de comunicação de massa. Este trabalho inclui dois pressupostos metodológicos, a saber: (a) o de que a relação política de forças, a caracterização dos agentes e os princípios gerais do resultado programático discursivo não são diferentes entre as emissoras de rádio e as de televisão (ao menos, não mais do que destas entre si, dadas as variações em suas características e peculiaridades); e (b) o de que é possível realizar uma análise comparativa entre políticas de programação incidentes numa mesma região geográfica ou populacional (que denominamos disponibilidades programáticas), embora nada impeça que os critérios adotados sirvam para estudos de caso, até porque são constituídos de técnicas comuns às pesquisas sociais em geral. Em nosso caso particular, tomamos a região do aglomerado urbano de Goiânia, Goiás. A aplicação da metodologia prevê um desenvolvimento em três fases: 2.1 Abordagem das programações — O estudo das programações das emissoras de rádio e televisão do aglomerado urbano de Goiânia é procedido por um corte metodológico e uma avaliação qualitativa. O corte metodológico se dá em dois níveis, a saber: 2.1.1 Escolha da amostra das emissoras — Este nível de corte metodológico utiliza o critério de reunir, dentro do menor número possível de casos, a maior quantidade possível das características consideradas importantes ou condicionadoras dos perfis programáticos, sem a pretensão de abrangê-los todos. Tais características são aqui divididas em dois tipos: 3 A pesquisa referida neste trabalho é a que desenvolvo em Goiânia, para a minha Dissertação de Mestrado, sobre Políticas de Programação em Rádio e TV, na Universidade de Brasília. Dentro desta discussão teórico-metodológica, menciono-a apenas como exemplificação. Características da emissora — Ou, parcialmente, 2.1.1.2 o que Martí (1990) denomina “condicionamentos internos”, isto é: (a) Titularidade ou natureza da propriedade da emissora, que pode ser estatal ou particular; (b) Banda de freqüência, subdividida em AM, FM e TV (em seus diversos tipos: Aberta, Cabo e por Assinatura); (c) Autonomia programática ou grau de capacidade interna de decisão quanto à instauração de políticas de programação, que, a grosso modo, supomos nos termos de alto, médio e baixo grau de autonomia; e (d) Natureza da origem dos recursos de sustentação ou existência ou não de interesse comercial como fator de da linha programática. Características da programação — Para cujas definições são utilizados dois critérios básicos: (a) Segmentação hipotética do público-alvo, que, com base na realidade observada “a priori” em Goiânia (mais definidora para o meio rádio do que para o televisão), tende para os tipos: Popular/sertanejo; jovem; classe “A”; evangélicos; segmentados por e não claramente segmentados horários; e (b) Especialização ou da programação, que tem haver com a unificação de formatos (como, por exemplo, as rádios “só notícias” ou “exclusivamente música”, e a maioria das programações de TV a cabo e por assinatura), o que de alguma forma implica em segmentação do público-alvo, embora a recíproca não seja verdadeira. Por fim, devo acrescentar que a tipologia acima mencionada não pretende traçar categorias universais ou estanques para uma classificação de emissoras e programações. E essa despretensão se baseia em duas razões fundamentais, de caráter epistemológico: primeiro, o fato de as taxonomias constituírem expressões de índole quantitativista e de validade duvidosa nas ciências humanas; e, segundo, porque a realidade prática das emissoras num mundo culturalmente globalizado e tecnologicamente vertiginoso deixa pouca possibilidade de acerto para as técnicas classificatórias. A tipologia referida limita sua funcionalidade à instauração de critérios mínimos, regional e relativamente válidos, para a determinação da amostra dos casos que servirão a esta pesquisa. 2.1.2 Escolha da amostra das programações — Escolhidas as emissoras, no âmbito possível dos critérios determinados, passamos ao segundo nível do corte metodológico, a fim de determinar as amostras do conteúdo programático a ser utilizado como base para a coleta de dados. Trabalhamos, para isso, com dois pressupostos, que se convertem em critérios metodológicos: As programações se desenvolvem por ciclos narrativos, conceito que, para Cebrián “continuidade”, Herreros dentre os (1992), que representa definem uma o elemento política de programação, a qual é estabelecida por esse autor como sendo “macrouniões” narrativas, a se repetirem por ciclos, nas quais se incluem critérios de relevância da mensagem, do ponto de vista do emissor e como parte da estratégia discursiva, e que funcionam como instruções para o receptor, sobre o modo de usar o texto e como princípio de ordem para se orientar dentro do conjunto de discursos (Signates, 1995, p. 20). Tais ciclos são determinados, prioritariamente, pelos hábitos horários sociais, o que lhes dá, conforme Mônica Nunes (1993, p. 27 e seg.), uma dimensão ritualística e política, isto é, atuando tanto como recriação simbólica e renovada no tempo dos ritos sociais (signos de renovação periódica), quanto como controle da organização social através do calendário (“Os que controlam o calendário controlam indiretamente o trabalho, o tempo livre e as festas” — Le Goff, citado por Nunes, p. 28). Para efeito da aplicação metodológica, generalizamos esses ciclos em quatro unidades diárias, de seis horas cada, a saber: Manhã (6-12 horas), Tarde (12-18 horas), Noite (1824 horas) e Madrugada (0-6 horas). Tais categorias não são arbitrárias e fazem parte do cotidiano da maioria das programações, da divisão do trabalho (turnos) dos agentes profissionais e, inclusive, da linguagem do meio, servindo, mesmo, para denominar 4 programas e blocos dentro da programação. Os ciclos narrativos usualmente diferem entre si conforme a emissão pelos dias da semana. Assim, as programações costumam permanecer semelhantes de segunda a sexta, diferindo no sábado e no domingo. Essa estratégia está igualmente ligada aos hábitos sócio-laborais dos ouvintes. Por tal característica, as gravações para a pesquisa podem ser feitas pela escolha aleatória de um dos dias de semana, e, obrigatoriamente, no sábado e no domingo, objetivando a percepção das alterações de fim de semana, dentro da mesma programação. Os programas, em sua maioria, se inserem nas programações orientados pela chamada “hora cheia”, razão pela qual a coleta de dados é procedida pela gravação de, no mínimo, uma hora, escolhida pelo método aleatório, dentro de cada ciclo horário (turno), em cada emissora selecionada para a pesquisa. Essa base quantitativa não constitui elemento definidor absoluto das audições a serem feitas objetivando a análise, pois, se consideradas insuficientes, novas gravações/audições podem ser feitas, até que se alcance o que Boaventura Santos (1989, p. 119) denomina “processo de autoconvencimento” do pesquisador. Isto é, minha postura epistemológica está 4 Uma alternativa metodológica a este critério homogeneizador pode ser desenvolvida a partir de consultas aos programadores (agente profissional), buscando neles as informações básicas sobre a relação horário-conteúdo dos diversos programas, a fim de determinar os ciclos narrativos com exatidão específica a cada emissora. Em Goiânia, há pelo menos uma emissora (de rádio), direcionada para ouvintes de zona suburbana e rural, que inicia o ciclo “manhã” às quatro horas e diferencia radicalmente a programação ao meio-dia, por uma hora, criando o que poderíamos denominar “ciclo almoço”. mais orientada para o “valor de uso dos resultados” (resultados convincentes para o cientista, ou autoconvencimento), do que para o “valor de troca dos resultados” (resultados convincentes para a comunidade científica, ou cumprimento de rituais técnico-metodológicos). 2.2 Abordagem qualitativa — O estudo comparativo de casos através da abordagem qualitativa constitui uma tradição rica das ciências sociais. Sua justificação está, segundo Haguette (1987, p. 17), na pressuposição de que a realidade social “é constituída de microprocessos que, em seu conjunto, configuram as estruturas maciças” da sociedade, as quais “existem e devem ser conhecidas, mas é a ação humana, a interação social, que constitui o motor da história”. Sem se colocarem como alternativas aos métodos quantitativos, os métodos qualitativos são, para a autora, superiores, por pressuporem a “maior relevância do aspecto subjetivo da ação social e a incapacidade da estatística de dar conta dos fenômenos complexos e dos fenômenos únicos (p. 55). Para Boaventura Santos, por sua vez, o próprio quantitativo é, também, um juízo qualitativo e, se essa qualidade implícita não puder ser pressuposta, o método colapsa (1989, p. 125). O estudo qualitativo é desenvolvido em duas partes distintas: 2.2.1 Análise dos conteúdos programáticos — As amostras colhidas, na condição de “textos”, são tratados como discursos (Orlandi, 1988; Fairclough, 1995), isto é, sua leitura se desenvolve em direção da apreensão dos aspectos sociais de sua construção. Assim, não apenas deverão ser abordados no sentido de se construir uma crítica das categorias da literatura publicada sobre rádio e televisão, mas, também e sobretudo, de identificar as vozes dos agentes no explícito e no implícito das programações, as regularidades e contradições de forma e conteúdo e de tipo interno (coesão e coerência) e comparativo (intertextualidade e interdiscursividade), e, finalmente, as possibilidades de interferência do sócio-político e do cultural no ordenamento programático. Com isso, pretende-se não apenas uma descrição, mas uma crítica teórica aos discursos programáticos das emissoras (Bourdieu, 19..). 2.2.2 Entrevistas com os agentes — A busca por relatos dos agentes é gravada (som ou vídeo) e pretende basicamente identificar, através da técnica de entrevistas despadronizadas ou não estruturadas, do tipo focalizadas (Marconi&Lakatos, 1985): (a) Que interesses e peculiaridades o identificam como agente de programação; (b) O modo como vêem e interferem na programação, inclusive, no caso dos agentes patrimoniais e profissionais, como providenciam a solução de contradições e irregularidades; (c) Quais e como se caracterizam as relações sociais e políticas com os demais agentes, na gestão de seus interesses em relação à programação. Essa espécie da “sociologia da programação” é trabalhada de modo excêntrico, começando pelos agentes patrimoniais e profissionais e, em seguida, percorrendo os demais atores sociais, das diversas emissoras pesquisadas. Não há uma quantidade fixa para as entrevistas, nem é necessário abordar todos os agentes vinculados às emissoras. Uma vez mais, o critério definidor do método é o do convencimento do pesquisador, durante o processo de investigação. Uma peculiaridade digna de nota, na metodologia deste trabalho, é a recusa da transcrição in extenso, ou, dito de outra forma, a opção pela transcrição relevante, o que significa que o trabalho de transferência dos ditos ao papel é estratificado tendo em vista a produção do relatório final de pesquisa. Essa opção abrange todo o trabalho de coleta e ordenamento de dados (gravações de programações e entrevistas) e seu procedimento se justifica por duas razões fundamentais: (a) por considerar que a transcrição para a linguagem escrita constitui uma redução que, para efeito da análise, acaba determinando juízos de valor passíveis de viés, na medida em que destaca os conteúdos falados eliminando a riqueza enfática com que são pronunciados, isto é, causando um “esfriamento” irreversível de conteúdos; além disso, há formatos nas programações, como a música de fundo (BG), no rádio, e a própria imagem, na televisão, que são impossíveis de se transcrever, embora absolutamente determinantes para a resolução discursiva das programações. E, (b) o trabalho de transcrição resultaria num esforço até certo ponto inútil e custoso, e, portanto, desnecessário. A análise pode ser feita diretamente sobre o material gravado, com o auxílio de repetições comentadas, anotações e transcrições do que for considerado relevante, em face dos objetivos da pesquisa. Referências Bibliográficas BERRIGAN, John; FINKBEINER, Carl. (1992) Marketing de segmentação. São Paulo: MAKRON BOOKS, 1994. BOURDIEU, Pierre (19..) Poder simbólico. CEBRIÁN HERREROS, Mariano. (1992) Generos informativos audiovisuales: rádio, televisión, periodismo, gráfico, cine, video. Madrid : Universidad Complutense. COTRIM, Sérgio P. de Q. (1988) Contato imediato com pesquisa de propaganda. São Paulo: GLOBAL. DEBRAY, Régis. O Estado Sedutor. As revoluções midiológicas do poder. Petrópolis: VOZES, 1994. FAIRCLOUGH, Norman (1995) Media Discourse. Londres : Edward Arnold. FERNANDES, Rubem C. (1994) Privado porém público: o terceiro setor na América Latina. Rio de Janeiro : Relume/Dumará. 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