Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.2, p.145-154, 2003 ISSN 1517-8595 145 CRIOCONSERVAÇÃO DE SEMENTES DE AROEIRA (Astronium urundeuva Engl.), E BARAÚNA (Schinopsis brasiliensis Engl.) Taciana Walesca Cruz Gonzaga1, Mario Eduardo R.M. Cavalcanti Mata2, Humberto Silva3, Maria Elita Martins Duarte2 RESUMO O presente trabalho teve como objetivo estudar a crioconservação das espécies florestais ameaçadas de extinção, aroeira (Astronium urundeuva Engl.) e baraúna (Schinopsis brasiliensis Engl.), em nitrogênio liquido, a temperatura de -196 oC e no vapor do nitrogênio a -170 oC, por um período de tempo de 25 dias. Diante dos resultados obtidos, conclui-se que: a) as sementes de aroeira e baraúna podem ser crioconservadas tanto por nitrogênio liquido a -196 oC quanto no vapor do nitrogênio a temperaturas de -170 oC; b) a semente de baraúna quando crioconservada as temperaturas de -196 e -170 oC por um período de tempo de 25 dias apresentam percentuais de germinação mais elevados do que os iniciais indicando que durante este processo existe uma quebra de dormência pelo frio dessas sementes . Palavras-chave: criogenia, espécies florestais, ameaçadas de extinção CRYOCONSERVATION OF AROEIRA (Astronium urundeuva Engl.) AND BARAUNA (Schinopsis brasiliensis Engl.) SEEDS ABSTRACT The present work had as objective to study the cryoconservation of the threatened of extinction forest species, aroeira (Astronium urundeuva Engl.) and barauna (Schinopsis brasiliensis Engl.), in liquid nitrogen, at the temperature of -196 oC and in the vapor of the nitrogen at -170 oC, for a period of 25 days. Before the obtained results, it is ended that: a) the aroeira and barauna seeds can be so much cryoconservated liquid nitrogen at -196 oC as in the nitrogen vapor at temperatures of -170 oC; b) the barauna seed when cryoconservated at the temperatures of -196 and -170 oC for a period of 25 days, present higher germination percentage than the initial ones, indicating that, during this process, a dormancy break exists because of the cold of these seeds. Keyword: cryogenic, forest species, threatened of extinction ______________ Protocolo 131 de 7/10/2003 1 Mestranda em Engenharia Agrícola 2 Prof. Dr. Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal da Campina Grande, Campina Grande, PB, Brasil, [email protected] e [email protected] 3 Prof.Dr. Departamento de Biologia da Universidade Estadual da Paraíba 146 Crioconservação de sementes de aroeira e baraúna INTRODUÇÃO A biodiversidade constitui uma propriedade dos ecossistemas vivos, sendo uma característica básica do funcionamento da natureza. O conceito denota a variedade e a variabilidade de seres vivos presentes na biosfera, incluindo-se a totalidade dos vegetais, animais e microorganismos. A diversidade dos seres vivos é o resultado do longo processo de evolução e constitui uma das mais importantes condições para a estabilidade da biosfera. O empobrecimento de qualquer ecossistema por diminuição do número de espécies compromete seriamente sua estabilidade. Portanto, em decorrência da evolução das espécies, muitas características genéticas foram perdidas e outras continuam surgindo na natureza devido `as mutações genéticas, compatibilidade genética entre espécie, dando origem a novas espécies, ou, também, pela ação do homem, utilizando a engenharia genética e, inserindo, em determinadas variedades, genes de outras espécies ou de outras variedades. Em que pese à evolução da biotecnologia, torna-se necessário conservar todas essas espécies, tanto as antigas, como as novas, uma vez que o gene de determinadas espécies que não é interessantes para a ciência no momento, poderá, no entanto, ser uma preciosidade, no futuro, para resoluções de problemas, ora existentes, ou mesmo os que hoje inexistem. Assim, a conservação dos recursos genéticos tem sido feita in situ ou, preservando determinadas áreas da natureza, ou por meio de coleções, na forma de jardins de coleta, depósitos de sementes, plântulas, pólen, células em cultivo ou genes (Chandhury & Chandel, 1997; Almeida et al. 2000).. Segundo Querol (1993), a forma mais correta de conservar os recursos genéticos é preservá-los no meio no qual se encontra em estado de equilíbrio cuja probabilidade de rompimento seja pequena. No entanto, de acordo com Bachiller (1997), isso nem sempre é possível e relata que a semente é a forma pela qual a planta sobrevive o máximo de tempo com o mínimo de atividade fisiológica, por isso, a forma mais fácil de se armazenarem recursos genéticos é a conservação de suas sementes. Nesta linha de raciocínio, surgiram os bancos de germoplasma, em todo o mundo, onde, basicamente são constituídos de sementes armazenadas a baixas temperaturas e baixas umidades relativas, de modo que as sementes Gonzaga et al. tenham sua atividade biológica minimizadas. Nesse processo de conservação das sementes, alguns fatores negativos devem ser levados em consideração, como a necessidade de recomposição periódica do banco, necessidade de reservas elevadas, custo de manutenção elevado e erosão genética das espécies (Diniz, 1999). Nesses últimos anos, outras técnicas de conservação tem sido desenvolvidas para preservar os recursos fitogenéticos e dentre essas se pode citar a crioconservação ou crioarmazenagem que consiste em conservar sementes em temperaturas criogênicas a 196°C, por imersão dessas sementes, em nitrogênio líquido ou a 170°C, utilizando o vapor do nitrogênio (Stanwood, 1984). A palavra criogenia deriva do grego crios que significa frio e genia que significa nascimento. Na prática, a criogenia, de acordo com Vicente (1994), define-se como a ciência dedicada à produção de baixas temperaturas, sendo que o adjetivo criogênico é utilizado para denominar gases como nitrogênio onde, em estado líquido, a sua temperatura é muito baixa (- 196°C). Medeiros e Cavallari (1992) definem crioconservação em nitrogênio líquido como sendo a preservação de materiais biológicos a baixas temperaturas, onde, sob essa temperatura, todos os processos metabólicos são paralisados e mantidos em estado latente, proporcionando uma preservação indefinida. A crioconservação tem sido utilizada como um método alternativo ao banco de germoplasma tradicional, uma vez que a conservação das sementes abaixo de 130°C permite que seu metabolismo seja paralisado, impedindo a sua deterioração. De acordo com a Internacional Board for Plant Genetic Resources IBPGR (1982), a crioconservação é uma tecnologia especialmente indicada para as espécies de difícil propagação vegetativa, espécies com sementes recalcitrantes, germoplasma raros ou mesmo espécies ameaçadas de extinção. Na afirmação de Villamil (1997), a crioconservação tem se mostrado como um método eficiente, prático e de baixo custo na preservação de recursos fitogenéticos, além de manter a semente viável por tempo considerado indefinido. Este método é o que melhor se adapta para o armazenamento de sementes ameaçadas de extinção por permitir que o metabolismo das sementes seja paralisado, podendo recuperá-las posteriormente. De acordo com Ashwood e Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.2, p.145-154, 2003 Crioconservação de sementes de aroeira e baraúna Smith (1995), na crioconservação a 196°C, o material biológico fica armazenado de maneira estável, pois todos os processos metabólicos como respiração e atividade enzimática são inativados. Assim sendo, supõe-se que, no material armazenado por crioconservação, não ocorrem mudanças significativas em função do tempo. O ecossistema caatinga localizado no Semi-árido do Nordeste brasileiro, apesar de apresentar alta diversidade biológica, vem sofrendo contínua devastação, perdendo-se com isto várias espécies características da região. Neste sentido, muitas espécies foram consideradas ameaçadas de extinção na região semi-árida e em virtude do número reduzido dessas plantas, tem sido difícil à obtenção de sementes, dificultando a propagação da espécie. Uma das espécies que está sendo ameaçada de extinção na nossa região é a aroeira (Astronium urundeuva Engl.), da família das Anacardiáceas, pois seu tronco é muito empregado, na indústria da construção civil e possui grande importância medicinal, pois suas cascas são usadas contra doenças das vias respiratórias e do aparelho urinário, sua resina é aplicada, como tônico, pelos sertanejos. A aroeira está na lista oficial de espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção, na categoria vulnerável. As sementes da Aroeira são esféricas, castanho-amareladas, aladas, de maturação rápida e muito pequena, o que dificulta a coleta. A semente apresenta pequena dormência atribuída ao embrião, perdendo poder germinativo, em pouco tempo, em condições naturais. Testes feitos com as sementes de Aroeira armazenadas à temperatura ambiente por mais de um ano comprovaram que elas após esse período, não mais germinavam. Para Carvalho (1994), a crioconservação dessas sementes é um método de armazenamento promissor para a Aroeira. Outra planta ameaçada de extinção no semi-árido é a baraúna (Schinopsis brasiliensis Engl.), que é da também família das Anacardiáceas, pois a madeira dessa árvore é muito empregada no fabrico de moveis e na construção civil, pois é considerada madeira de lei por muitos autores. Essa árvore, também, tem lugar de destaque na nossa flora, tanto pela sua exuberância e beleza, quanto pelas suas inúmeras aplicações, pois possui propriedades anti-histéricas e nevrostêmicas. Seus frutos são vagens de natureza lenhosa, grossa e em forma de foices, arredondadas e cobertas de pêlos finos Gonzaga et al. 147 As experiências com a crioconservação de diferentes tipos de sementes, têm sido relatadas por diversos autores, sendo constatados sucessos e insucessos na crioconservação de sementes. Alguns trabalhos bem sucedidos em crioconservação de sementes foram relatados por Pence (1991), onde o autor realizou 527 testes de crioconservação em plantas ameaçadas de extinção na região de Ohio, sendo testadas a viabilidade de 237 espécies, quanto a sua exposição em nitrogênio líquido a -196 oC. O autor verificou que, em 79% dos testes, a germinação das sementes não diferiu, significativamente, dos valores iniciais e que, pelo menos 25% das espécies analisadas, poderiam ser crioconservadas sem necessidade de procedimentos adicionais. Sementes de 14 vegetais foram colocadas dentro de envelopes de papel especial e expostas ao nitrogênio líquido, durante o período de 180 dias. Stanwood e Ross (1979) avaliaram que os testes de germinação não indicaram redução nos percentuais, após a exposição em nitrogênio líquido. Segundo os mesmos autores, as sementes de feijão (Phaseolus vulgaris L.), alface (Lacterca sativa L.) e ervilha (Pisum sativum L.) também não indicaram redução nos testes de germinação e vigor após a exposição em nitrogênio líquido. Stanwood e Sowa (1995) armazenaram 14 variedades de cebola em nitrogênio líquido (-196°C) pelo período de dez anos, durante esse período não foram observadas reduções significativas do poder germinativo médio de 32%, demonstrando o sucesso que se pode obter com a crioconservação de sementes. Gonzales-Benito et al. (1995), estudaram a germinação de sete cultivares de Aipo (Apium graveolens L.) armazenados em nitrogênio líquido no período de 1 a 3 dias. A crioconservação, também, foi aplicada em sementes sem casca e de primeira qualidade, e em nenhum dos tratamentos foram reduzidas as percentagens de germinação. Iriondo (1992), estudou a preservação em nitrogênio líquido de várias espécies selvagens e cultiváveis, com diferentes teores de umidade e período de exposição. Na maioria das espécies, nenhuma diferença significativa foi detectada na percentagem de germinação das sementes dos diferentes teores de umidade. Sementes de Bambu (Bambusa arundinacea) foram armazenadas por Brahamachary (1994), após serem colocadas em bolsas plásticas herméticas e transparentes a uma temperatura de 70°C. Os resultados Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.2, p.145-154, 2003 148 Crioconservação de sementes de aroeira e baraúna indicaram que cerca de 65% das sementes germinaram, após um ano. Ao armazenarem em nitrogênio líquido espécies de sementes nativas australianas, onde 40% dessas espécies são raras e ameaçadas de extinção, Touchell e Dixon (1994) verificaram que, após a crioconservação, as propriedades físicas e químicas das sementes foram preservadas. Weisner et al. (1993) crioconservaram sementes de Alfafa (Medicago sativa L.) em nitrogênio líquido e no vapor de nitrogênio por 24 horas e constataram que houve quebra de cotilédones, quando expostas ao nitrogênio em forma de vapor. A quebra de cotilédones foi reduzida, quando a semente foi escarificada antes da exposição ao nitrogênio liquido. A técnica de crioconservação, além de armazenar sementes por tempo indeterminado sem perda da viabilidade, é de grande potencial no armazenamento de sementes ortodoxas e sementes recalcitrantes (Stanwood, 1985). Roberts (1973), introduziu o termo ortodoxas para espécies cujas sementes podem ser submetidas à secagem e, em seguida, armazenadas a baixas temperaturas, permanecendo viáveis por longo período de tempo. De acordo com Ashwood-Smith (1985), apesar das vantagens da crioconservação, existem problemas decorrentes da complexidade técnica e biológica do processo de congelamento e descongelamento, tornandose necessário desenvolver procedimentos específicos para cada tipo de cultura agrícola Villamil (1997) relata que, não só o processo de crioconservação deve ser levado em consideração, como também o método de descongelamento, pois, teoricamente, quanto mais rápido ocorrer o descongelamento das sementes, melhor a preservação de suas características fisiológicas. Portanto, diante do exposto, este trabalho teve como objetivo estudar o efeito da crioconservação das espécies florestais ameaçadas de extinção, aroeira (Astronium urundeuva Engl.) e baraúna (Schinopsis brasiliensis Engl.), em nitrogênio liquido, a temperatura de -196 oC e no vapor do nitrogênio a -170 oC, por um período de tempo de 25 dias. Gonzaga et al. Universidade Federal de Campina Grande UFCG. Foram utilizadas sementes de espécies vegetais, consideradas ameaçadas de extinção no cariri paraibano e destacadas pela sua importância econômica e/ou medicinal, sendo as selecionadas a Aroeira (Astronium urundeuva Engl.) e a Baraúna (Schinopsis brasiliensis Engl.). As sementes foram coletadas de plantas previamente selecionadas na Zona da Caatinga Paraibana. Conteúdo de água das sementes As determinações do conteúdo de água das sementes de aroeira e baraúna foram feitas por meio do método padrão, utilizando-se a estufa a 105°C ± 3°C, por 24 horas, seguindo-se as Regras para Análise de Sementes (Brasil, 1992). As amostras foram pesadas em balança eletrônica com precisão de 0,001g, para obtenção do peso inicial da amostra (Pi). Após o tempo de exposição na estufa, as amostras foram resfriadas em um dessecador por um período de 30 minutos e, em seguida, pesadas, obtendo-se o peso final (Pf). O conteúdo de água foi calculado por meio da seguinte expressão: %CA ( Pi Pf ) Pi x100 (Eq. 1) em que, % CA = Conteúdo de água, base úmida; Pi = peso inicial da amostra (gramas); Pf = peso final da amostra (gramas) Crioconservação das Sementes Após a determinação do conteúdo de água das sementes, essas foram colocadas dentro de um canister e crioconservadas em botijões criogênicos por imersão direta em nitrogênio líquido a -196 °C e no vapor de nitrogênio líquido a -170 °C, durante os períodos de 0, 5, 15 e 25 dias. Descongelamento das Sementes MATERIAL E MÉTODOS Os ensaios foram conduzidos no setor de Criogenia do Laboratório de Armazenamento e Processamento de Produtos Agrícolas do Departamento de Engenharia Agrícola da Depois de cada período de crioconservação pré-estabelecido, as sementes eram submetidas a um descongelamento à temperatura ambiente de 25 °C ± 3 °C por 3 horas, considerado um descongelamento lento. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.2, p.145-154, 2003 Crioconservação de sementes de aroeira e baraúna Gonzaga et al. foram obtidas, utilizando-se computacional Origin 6.0. Teste de Germinação Após serem crioconservadas e descongeladas, as sementes foram submetidas ao teste de germinação. Para essa determinação foram utilizadas bandejas plásticas, que continham como substrato areia previamente peneirada e esterilizada em estufa a 105°C por 8 horas. A areia era umedecida com água destilada, sendo reposta, à medida que o substrato era ressecado pelo ar ambiente. Para cada determinação, foram utilizadas 3 bandejas (repetições) que continham cada uma 100 sementes. A percentagem de germinação foi obtida pela contagem das plântulas normais emersas, seguindo-se as Regras para Análises de Sementes (Brasil, 1992). 149 o programa RESULTADOS E DISCUSSÃO Os valores de conteúdo de água das sementes de aroeira e baraúna submetidas à crioconservação foram de respectivamente 9,0 e 7,4% base úmida. Na Tabela 1, encontram-se os dados experimentais obtidos de germinação das sementes de aroeira e de baraúna em função do período de armazenagem para os dois tipos de crioconservação (imersão no nitrogênio líquido a -196 oC e no vapor do nitrogênio a -170 oC). Na Tabela 2, está a analise de variância da germinação da semente de aroeira, seguindose o delineamento experimental inteiramente casualizado disposto em fatorial. Observa-se, nessa tabela, que não existem diferenças significativas entre submeter as sementes a crioconservação em nitrogênio liquido a -196ºC ou crioconserva-las no vapor do nitrogênio a -170 oC, no entanto, constatam-se diferenças significativas da germinação das sementes com o período de armazenamento e a interação entre os fatores tipo de crioconservação versus período de armazenagem das sementes. Essas comparações, entre medias, encontram-se, respectivamente, nas Tabelas 3 e 4. Análises Estatísticas O delineamento experimental neste trabalho foi inteiramente casualizado, com arranjo fatorial 2 x 4 ( 2 tipos ou temperaturas de congelamento x 4 períodos de armazenagem, com três repetições. As análises estatísticas foram realizadas, utilizando o programa computacional Assistat (Silva, 2002) e as médias dos fatores foram comparados pelo teste de Tukey em nível de 5% de probabilidade. As curvas de regressão não linear da germinação das sementes de aroeira e de baraúna em função do período de armazenagem Tabela 1 Valores médios da germinação das sementes de aroeira e baraúna para diferentes temperaturas de crioconservação e de diferentes períodos de tempo de armazenagem Período de Armazenagem (dias) Germinação (%) Imersão em N2L (-196 oC) Vapor de N2L (-170 oC) Aroeira 0 5 15 25 61 56 57 66 61 54 63 61 Baraúna 0 5 15 25 60 68 68 74 60 60 62 70 Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.2, p.145-154, 2003 Crioconservação de sementes de aroeira e baraúna 150 Gonzaga et al. Tabela 2 Análise de variância da germinação da semente de aroeira para diferentes temperaturas de congelamento e períodos de armazenagem Fonte de Variação GL Tipo de Congelamento (TC) Período de Armazenagem (PA) TC x PA Resíduo 1 3 3 16 Total 23 Quadrado Médio 0,375 76,375 32,375 9,375 ns ** * ns não significativo (*) significativo ao nível de 5% de probabilidade (**) significativo ao nível de 1% de probabilidade Embora se observem diferenças significativas nas Tabelas 3 e 4, constata-se que a germinação da semente de aroeira não difere, significativamente entre si, no inicio e no final do período analisado, de onde se pode dizer que essa semente pode ser crioconservada sem que sua viabilidade seja afetada. Na Figura 1, encontra-se a equação de evolução da germinação da semente de aroeira com o período de armazenagem para os dois tipos de crioconservação, sendo que, nessa figura, se pode melhor visualizar que, quando a semente de aroeira é submetida ao vapor do nitrogênio a -170oC, praticamente, a equação exponencial tende a uma reta de inclinação nula, o que indica a inalteracao do poder germinativo da semente. No entanto, quando a semente é crioconservada no nitrogênio liquido a -196 oC, ela tende, no final do período de armazenamento, a ser superior, indicando que existe uma pequena quebra de dormência da semente, embora, segundo a analise estatística de comparação entre medias, essas diferenças de 61% e 66% não sejam significativas em nível de 5% de probabilidade pelo teste de Tukey. Tabela 3 Comparação entre medias dos valores médios de germinação das sementes de aroeira, quando submetidas ao período de armazenamento de 25 dias Período de armazenagem (dias) Germinação (%) 0 5 15 25 Desvio Mínimo Significativo (DMS) = 61,0 a 55,0 b 60,0 ab 63,5 a 5.06250 Tabela 4 Comparação entre medias dos valores médios de germinação das sementes de aroeira. para a Interação: Tipo de congelamento x Período de armazenamento Periodo de Tipo de Congelamento (TC) armazenamento Imersão em N L Vapor do nitrogênio 2 (dias) a -196 oC a -170 oC 0 5 15 25 DMS para colunas = MG = 59,88 61,0 aAB 56,0 aB 57,0 bB 66,.0 aA 5.3 DMS para linhas = CV% = 5,11 61,0 aAB 54,0 aB 63,0 aA 61,0 aAB 7.16 Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.2, p.145-154, 2003 Crioconservação de sementes de aroeira e baraúna Gonzaga et al. 151 Crioconservação de sementes de aroeira 100 90 80 Germinação (%) 70 60 50 40 o Vapor do nitrogênio líquido (-170 C) 30 2 G = 53,715 + 4,558.exp(d/44,537) X = 39.53 o Imersão em nitrogenio líquido (-196 C) 20 G = 57,24 + 0,236.exp(d/7,028) 2 X = 20.608 10 0 0 5 10 15 20 25 Período de armazenamento (dias) Figura 1 Curva de germinação da semente de aroeira em função do período de armazenagem para dois tipos de crioconservacao Na Tabela 5, encontra-se a analise de variância da germinação das sementes de baraúna referente ao delineamento experimental proposto, onde se pode constatar que existem diferenças significativas entre os dois tipos de crioconservação e o período de armazenagem a que as sementes foram submetidas. Na Tabela 6, verifica-se que a semente de baraúna se crioconserva melhor no nitrogênio liquido a -196 oC do que no vapor do nitrogênio a -170 oC, embora se observe que, em ambos os métodos de crioconservação, a germinação das sementes sejam superiores as iniciais. Este fato pode ser melhor observado na Tabela 8 , onde se constata que as sementes de baraúna, após 25 dias tem uma germinação, significativamente, superior à inicial. Na Figura 2, encontra-se a curva que representa o aumento da germinação das . Tabela 5 Análise de variância da germinação da de congelamento e períodos de armazenagem Fonte de Variação Tipo de Congelamento (TC) Período de Armazenagem (PA) TC x PA Resíduo Total GL 1 3 3 16 23 sementes de baraúna com o período de armazenamento. Como é sabido, as sementes não aumentam sua viabilidade, durante a sua armazenagem, pois segundo Popinigis (1977), as sementes, ao atingirem sua maturidade fisiológica, atingem, também, o maximo de sua viabilidade e, a partir deste ponto, a semente, para se manter viva, consome suas reservas e, conseqüentemente, com o decorrer do tempo, diminui sua viabilidade. Portanto, um aumento da viabilidade da semente de baraúna, com o período de armazenagem, só poderia se dar pela quebra de dormência da semente, quando submetida aos dois métodos de crioconservação. Esta constatação pode ser embasada nos escritos de Toledo e Marcos Filho (1977) que indicam a submissão das sementes ao frio como um dos métodos para superar a dormência das sementes. semente de baraúna para diferentes temperaturas Quadrado Médio 121,50 ** 149,50 ** 17,50 ns 10,75 ns não significativo (*) significativo ao nível de 5% de probabilidade (**) significativo ao nível de 1% de probabilidade Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.2, p.145-154, 2003 Crioconservação de sementes de aroeira e baraúna 152 Gonzaga et al. Tabela 6 Comparação entre medias dos valores médios de germinação das sementes de baraúna quando submetidas a dois tipos de congelamento Tipo de Congelamento (TC) Germinação (%) Imersão em N2L a -196 oC Vapor do nitrogênio a -170 oC 67,50 a 63,00 b Desvio mínimo significativo (DMS) = 2,.84 Tabela 7 Comparação entre medias dos valores médios de germinação das sementes de baraúna quando submetidas ao período de armazenamento de 25 dias Período de armazenagem (dias) Germinação (%) 0 5 15 25 60,00 b 64,00 b 65,00 b 72,00 a Desvio Mínimo Significativo (DMS) = 5,42 Crioconservação de sementes de baraúna 100 90 Germinação (%) 80 70 60 50 o Imersão em nitrogenio líquido (- 196 C 40 2 G = -180,16 + 242,406.exp(d/553,128) 30 Vapor do nitrogenio líquido (- 170 C) 20 G = 59,63 + 0,2486.exp(d/6,701) X = 18.79 o 2 X = 0.04 10 0 0 5 10 15 20 25 Período de tempo (dias) Figura 2 Curva de germinação da semente de baraúna em função do período de armazenagem para dois tipos de crioconservação . CONCLUSÕES Diante dos resultados obtidos, conclui-se que: 1. as sementes de aroeira e baraúna podem ser crioconservadas, tanto por nitrogênio liquido a -196 oC, quanto no vapor do nitrogênio a temperaturas de -170 oC; 2. a semente de baraúna, quando crioconservada às temperaturas de -196 e -170 oC por um período de tempo de 25 dias apresentam percentuais de germinação mais elevados do que os iniciais, indicando que durante este processo, existe uma quebra de dormência pelo frio dessas sementes Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.2, p.145-154, 2003 Crioconservação de sementes de aroeira e baraúna REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Almeida, F. de A.C.; Villamil, J.M.P.; Gouveia, J.P.G.. Efecto de la crioconservación sobre la germinación de semillas de leguminosas. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.2, n.1, p. 67-71, 2000. Ashwood-Smith, M. 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