Allan Scott Mills e Mauro José Ferreira Curry
1
PERCURSO:
SOCIEDADE, NATUREZA E
CULTURA
ENTIDADE MANTENEDORA:
ADMINISTRADORA EDUCACIONAL NOVO ATENEU
ISSN 1678-569X
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura
Curitiba
a. 8
n. 9
2009
p. 1-274
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 263-267, 2009.
2
EXPEDIENTE
Publicação oficial do UNICURITIBA
Endereço: Rua Chile, 1.678 – CEP 80220-181 – Curitiba, PR – Brasil
Telefone: (41) 3213-8700
Site: www.unicuritiba.edu.br
E-mail: [email protected]
UNICURITIBA
Reitor: Danilo Vianna
Pró-Reitor Acadêmico: Alessandro Marco Rosini
Pró-Reitor Administrativo: Renato Silva
Comissão Editorial: Cristina Luiza C. Surek, Carlos Luiz Strapazzon, Marlus Vinicius
Forigo, Gisela Maria Bester Benitez, Nilson Cesar Fraga, Olga Maria Coutinho
Pépece, Benedito Costa Neto Filho.
Revisão: Antonio Carlos Amaral Lincoln
Diagramação: Tatiane Andrade
Impressão: Administradora Educacional Novo Ateneu (AENA)
Tiragem: 300 exemplares
Data: 2009
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Biblioteca do UNICURITIBA
Percurso: sociedade, natureza e cultura / UNICURITIBA – Centro
Universitário Curitiba. – A. 1, n.1, (2002). – Curitiba:
UNICURITIBA, 2002 - .
24 cm
Semestral.
A partir do n. 7 de 2008, houve alteração do título do periódico.
ISSN 1678-569X.
1. Turismo – Periódicos. I. UNICURITIBA
CDD (21.ed.) – 338.4791
3
CONSELHO EDITORIAL INTERNACIONAL
Alicia B. Ledesma de Winger
Universidad Nacional de Rosário – Rosário – Argentina
Allan Scoth Mills
Virgínia Commonwealth University – VCU Richmond –Virgínia – EUA
Cristina Maria de Jesus Barroco
Instituto Politécnico de Viseu – ESTV – Viseu – Portugal
Eduardo A. Chaves
Universidad Autónoma de Entre Rios – Paraná – Argentina
Eduardo Salinas Chaves
Universidad de La Habana – Habana – Cuba
Emilce Cammarata
Universidad Nacional de Misiones – Posadas – Argentina
Hugo I. Romero
Universidad de Chile – Santiago – Chile
Noemi Wallingre
Universidad Nacional de Quilmes – Buenos Aires – Argentina
Saul Contreras Palmas
Universidad de Santiago do Chile – Santiago – Chile
Xosé Santos Solla
Universidad de Santiago de Compostela – Santiago – Espanha
CONSELHO EDITORIAL NACIONAL
Adnilson de Almeida Silva – SEE – RO
Anderson Pereira Portuguez – UES – ES
Antonio Carlos Castrogiovanni – UFRGS/PUCRS – RS
Antônio Carlos Vitte – UNICAMP – SP
4
Antônio Castelnou – UFPR – PR
Celso Rogério Klammer – UP – PR
Cicilian Luiza Lowen Sahr – UEPG – PR
Claudete de Castro Silva Vitte – UNICAMP – SP
Djanires Lageano de Jesus – UEMS – MS
Elza Yasuko Passini – UEM – PR
Erivan Cassiano Karvat – UTP – PR
Francisco de Assis Mendonça – UFPR – PR
Giovanni de Farias Seabra – UFPB – PB
Hélio Silveira - UEM – PR
Janaina Zito Losada – UFU – MG
Jean Carlos Rodrigues – UFT – TO
João Pedro Pezzato – UNESP – SP
Júlio Cesar Suzuki – USP – SP
Lucia Izabel Czerwonka Sermann – UP – PR
Lucileyde Feitosa Sousa – UNIRON – RO
Luiz Gonzaga Godoi Trigo – USP – SP
Luzia Neide M. T. Coriolano – UEC – CE
Marcos Aurélio T. da Silveira – UFPR – PR
Maria Cleide Baldo – UTFPR – PR
Maria da Salete Sachweh – FAMEPLAN – SC
Maria Elisa Zanella – UFC – CE
Mariane Alves Dal Santo – UDESC – SC
Marcelo Rodrigues Mendonça – UFG – GO
Marilia Gomes dos Reis Ansarah – EAESP – SP
Mary Sandra Guerra Ashton – FEEVALE – RS
Mauro José Ferreira Cury – UNIOESTE – PR
Mauricio Aurélio dos Santos – UDESC – SC
Miguel Bahl – UFPR – PR
Milton Mariani – UFMS – MS
Ricardo José Batista Nogueira – UFAM – AM
Rogério Haesbaert – UFF – RJ
Rosane Beyer – FAP – PR
Rosselvelt José Santos – UFU – MG
Saint-Clair Cordeiro da Trindade Júnior – UFPA – PA
Wendel Henrique – UFBA – BA
EDITOR E COORDENADOR EDITORIAL
Prof. Dr. Nilson Cesar Fraga
5
APRESENTAÇÃO
A Revista PerCurso vem caracterizada por um conteúdo
multidisciplinar, atendendo às especificidades de sua área com conteúdos muito ricos e diversos. Traz nesta edição os seguintes trabalhos científicos: La valorización del espacio-lugar en el acontecer turístico: perspectivas teóricas – desafíos y controversias para su desarrollo, de Emilce
Beatriz Cammarata; A questão socioambiental dos faxinais paranaenses:
caminhos para se pensar numa pedagogia holística e integrativa, de Cicilian
Luiza Löwen Sahr; O ambiental e o humano na construção da realidade:
exemplo do aquecimento global, de Alex Sandro da Silva; O papel do poder público na territorialização do Turismo em Angra dos Reis-RJ, de Marcos Paulo Ferreira de Góis; Proposta metodológica para avaliação do risco de contaminação de águas superficiais e subsuperficiais por
agroquímicos em bacias hidrográficas: estudo de caso do Ribeirão Lajeado-PR, de Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo;
Territorialidade e o turismo dos parques nacionais: Iguaçu (Brasil e Argentina) e Great Smoky Mountains (EUA), de Mauro José Ferreira Cury e Allan
Scott Mills; O imperativo ético de Hans Jonas como base para a responsabilidade social empresarial, de Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar
Ponchirolli; Incorporación de un espacio natural municipal al uso turístico
sustentable y a la educación ambiental – Paraná - Entre Ríos (Argentina),
de Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves; Territórios simbólicos: uma
abordagem da geografia cultural, da religião e do turismo. estudo da festa
de São João em Corumbá-MS, de Daniela Sottili, Djanires Lageano de
Jesus e Debora Gonçalves Fittipaldi; Tempo e espaço na modernidade:
algumas reflexões, de Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene Feitosa
Sousa, Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa; Valoración de los
habitantes sobre la gestión ambiental comunitaria en el barrio Jesús María
en la Habana vieja, Cuba, de Vivian Oviedo Álvarez.
A diversidade dos temas apresentados neste volume demonstra
que a Revista PerCurso vem promovendo ampliação da linha
multidisciplinar e publicando artigos de diversas áreas do conhecimento,
sobretudo nas ciências humanas, com trabalhos vindos da Argentina
(Missiones e Entre Ríos), Cuba (Havana) e do Brasil (Paraná, Mato Grosso
do Sul, Rio de Janeiro e Rondônia), além de um trabalho em conjunto
entre brasileiro e estadunidense.
6
Dessa forma, a edição número 9 da Revista PerCurso é entregue
à comunidade científica.
Nilson Cesar Fraga
EDITOR
7
SUMÁRIO
LA VALORIZACIÓN DEL ESPACIO-LUGAR EN EL
ACONTECER TURÍSTICO: PERSPECTIVAS
TEÓRICAS – DESAFÍOS Y CONTROVERSIAS
PARA SU DESARROLLO
Dra. Emilce Beatriz Cammarata .............................................................. 9
A QUESTÃO SOCIOAMBIENTAL DOS FAXINAIS
PARANAENSES: CAMINHOS PARA SE PENSAR
NUMA PEDAGOGIA HOLÍSTICA E INTEGRATIVA
Cicilian Luiza Löwen Sahr ...................................................................... 35
O AMBIENTAL E O HUMANO NA CONSTRUÇÃO DA
REALIDADE: EXEMPLO DO AQUECIMENTO GLOBAL
Alex Sandro da Silva .............................................................................. 55
O PAPEL DO PODER PÚBLICO NA TERRITORIALIZAÇÃO
DO TURISMO EM ANGRA DOS REIS
Marcos Paulo Ferreira de Góis .............................................................. 79
PROPOSTA METODOLÓGICA PARA AVALIAÇÃO DO
RISCO DE CONTAMINAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS
E SUBSUPERFICIAIS POR AGROQUÍMICOS EM
BACIAS HIDROGRÁFICAS: ESTUDO DE CASO
DO RIBEIRÃO LAJEADO – PR
Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo ................ 97
TERRITORIALIDADE E TURISMO DOS PARQUES
NACIONAIS: IGUAÇU (BRASIL E ARGENTINA)
E GREAT SMOKY MOUNTAINS (EUA)
Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills .......................................... 113
8
O IMPERATIVO ÉTICO DE HANS JONAS COMO BASE
PARA A RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL
Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli ........................... 135
INCORPORACIÓN DE UN ESPACIO NATURAL MUNICIPAL
AL USO TURÍSTICO SUSTENTABLE Y A LA EDUCACIÓN
AMBIENTAL: PARANÁ, ENTRE RÍOS, ARGENTINA
Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves .............................................. 161
TERRITÓRIOS SIMBÓLICOS: UMA ABORDAGEM DA GEOGRAFIA
CULTURAL, DA RELIGIÃO E DO TURISMO – ESTUDO DA FESTA
DE SÃO JOÃO, EM CORUMBÁ
Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e
Debora Gonçalves Fittipaldi ................................................................. 201
TEMPO E ESPAÇO NA MODERNIDADE:
ALGUMAS REFLEXÕES
Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene Feitosa Sousa,
Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa ................................ 223
VALORACIÓN DE LOS HABITANTES SOBRE LA
GESTIÓN AMBIENTAL COMUNITARIA EN EL BARRIO
JESÚS MARÍA EN LA HABANA VIEJA, CUBA
Vivian Oviedo Álvarez ........................................................................... 241
BOOK REVIEW: TOURISM IN LATIN AMERICA
Allan Scott Mills e Mauro Jose Ferreira Cury ......................................... 261
NORMAS EDITORIAIS .......................................................................... 269
Dra. Emilce Beatriz Cammarata
9
LA VALORIZACIÓN DEL ESPACIO-LUGAR
EN EL ACONTECER TURÍSTICO:
PERSPECTIVAS TEÓRICAS – DESAFÍOS
Y CONTROVERSIAS PARA SU
DESARROLLO
VALORIZAÇÃO DO ESPAÇO-LUGAR NO
ACONTECER TURÍSTICO:
PERSPECTIVAS TEÓRICAS – DESAFIOS
E CONTROVÉRSIAS PARA SEU
DESENVOLVIMENTO
VALUATION OF SPACE-PLACE IN THE
HAPPEN TOURIST: THEORETICAL
PERSPECTIVES - CHALLENGES AND
CONTROVERSY FOR ITS DEVELOPMENT
DRA. EMILCE BEATRIZ CAMMARATA
___________________________________________________________
Facultad de Humanidades y Ciencias Sociales –
Universidad Nacional de Misiones
E-mail: [email protected]
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
10
Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ...
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
Dra. Emilce Beatriz Cammarata
11
Si el turismo está en el territorio, forma
parte de la geografía en movimiento y del
espacio de comando, del uso competitivo
de los lugares, de la revalorización de los
lugares, de la racionalidad de los espacios,
entonces, pertenece a la geografía.
(MILTON SANTOS, 1986)
RESUMO
As reflexões sobre o texto se organizaram/organizarão em quatro partes:
a primeira explica o contexto, no qual tem parte a valorização do espaçolugar; a segunda aborda a perspectiva teórica do espaço-território geográfico; a terceira apresenta algumas das controvérsias na planificação do
espaço-lugar e as instâncias metodológicas no tratamento da evidência
empírica; a quarta parte remete aos estudos e trabalhos de investigação
em Turismo como produção científica de características desiguais e a
necessidade de explicar desde quais lugares se explicam os marcos de
interpretação.
Palavras-chave: espaço-lugar, Turismo, teoria, desenvolvimento.
ABSTRACT
Reflections on the text is arranged/organize in four parts: the first explains
the context in which, has part the VALUATION of space-place, the second
deals with the theoretical perspective of geographic space-territory; the
third presents some of the controversies in the planning of space-place
and methodological instances to treat the empirical evidence, the fourth
part refers to studies and research in tourism like scientific production of
dissimilar characteristics and the need to explain from places wich are
explained the marks of interpretation.
Keywords: space-place, Tourism, theory, development.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
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Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ...
RESUMO
Las reflexiones sobre el texto se organizaron en cuatro partes: la primera
explica el contexto en el que tiene parte la valorización del espacio-lugar; la
segunda aborda la perspectiva teórica del espacio-territorio geográfico; la
tercera puntea algunas de las controversias en la planificación del espaciolugar y las instancias metodológicas en el tratamiento de la evidencia
empírica; la cuarta remite a los estudios y trabajos de investigación en
Turismo como producción científica de disímiles características y la
necesidad de explicar desde qué lugares se explican los marcos de
interpretación.
Palabras claves: Valorización, Espacio-Lugar, Acontecer Turístico, Perspectivas Teóricas, Desarrollo.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
Dra. Emilce Beatriz Cammarata
13
1 EL CONTEXTO
La reflexión y caracterización del territorio amerita analizar el contexto en el que se llevan a cabo la docencia y las investigaciones, sus
objetos de estudio, sus problemáticas y sus centros de interés. Conviene
hacer una breve reseña sobre la situación de este fenómeno de
globalización-mundialización para poder entender la dificultad que nos
transfiere a propósito de la investigación del Turismo, del cuidado en la
formación de grado y postgrado en las universidades públicas de nuestro
país.
Partimos de un contradicción o dilema “que el Turismo tiene un
efecto multiplicador y trae desarrollo a un lugar”. Al respecto, parecen vigentes muchas de las recomendaciones realizadas hace más de dos
décadas en el sentido de analizar con cuidado situaciones específicas en
que la actividad turística se lleva a cabo para ver sus verdaderos alcances. Que es necesario realizar estudios concretos que sustenten las
prácticas y las decisiones desde la lógica de la ciencia pero como dijo
Bachelard, respecto al tema controvertido de la ciencia y la investigación,
“[…] no hay más ciencia que la de lo oculto.” Parece oportuna la afirmación
para explorar los fundamentos científicos y reconocer la importancia de
los enfoques pluridisciplinares y metodologías que faciliten el descubrimiento
al interrogar y examinar con miradas críticas, y al mismo tiempo plantear
la cuestión ética científica.
El fenómeno contemporáneo denominado globalizaciónmundialización viene alterando profundamente las estructuras productivas,
las relaciones técnicas y sociales de producción y los patrones
organizacionales y locacionales. Los aumentos de la productividad y el
crecimiento, cuando ocurren, están más relacionados que nunca con el
progreso tecnológico. El establecimiento de nuevas plantas productivas o
de nuevos métodos de producción agrícola puede generar una mayor
productividad y eficiencia, pero frecuentemente a expensas del empleo.
Milton Santos lo describe como el período técnico-científico informacional:
su proceso es resultado y condicionante de los acelerados y radicales
cambios tecnológicos determinados por al competición capitalista sobre
la tecnología de la información. Se trata de “un cambio en las relaciones
de poder en la creación de las cadenas de valor basadas, en las nuevas
formas de cooperación y competición” , y en la destrucción de las
autonomías monetarias nacionales. Cambian las “relaciones de los Estados nacionales entre el Estado y las empresas privadas” en procesos
simultáneos de homogenización y diferenciación.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
14
Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ...
Las configuraciones del territorio muchas veces son productos de
la institucionalización del Estado, instrumento del poder político. Entonces
es muy importante analizar el papel del Estado en las circunstancias
actuales de mundialización-globalización. Responder a la cuestión en la
que el Estado-nación se presenta como mediaciones necesarias en los
contextos actuales. La problemática espacial en todas las escalas geográficas desde lo cotidiano del trabajo hasta la estructura más distante de
la división internacional del trabajo en el sistema capitalista mundial, se
confronta con el desarrollo desigual de las regiones socioeconómicas.
Desde el punto de vista territorial sólo un limitado número de espacios
parece estar sacando provecho de las nuevas oportunidades que brinda
el proceso de mundialización-globalización. En general, las regiones más
prósperas tienden a ser aquellas que tienen algo que ofrecer a mercados
que se expanden más allá del tradicional ámbito local y regional.
El papel del Estado y su articulación con esta problemática es
crucial ya que a) inhibe el proceso de articulación (proteccionismo) y/o, b)
interviene para controlar las consecuencias sociales (brindando subsidios
en actividades que están des (localizadas) en forma permanente.
El Estado controla e incentiva la nueva configuración interregional
del trabajo, de modo que el “espacio proyectado” entra en conflicto más o
menos violento con el “espacio heredado” (LIPIETZ, 1982).
Las relaciones espacio-mundo universalizan los procesos y al
mismo tiempo fragmenta y quiebra dichos espacios en una relación
dialéctica en la cual se aumentan las desigualdades. Aparecen espacios
diferenciados y fragmentados, aspecto que también se reproduce en el
Turismo, dado que en la actualidad es la tercera actividad movilizadora de
capitales, por tanto foco de atención de los centros de decisión económica
y política del mundo globalizado, atención que se manifiesta en la búsqueda
de oportunidades de inversión, de nichos de mercado, de singularidades
socioculturales y/o paisajísticas en las que puedan basarse el diseño de
nuevos productos turísticos, de espacios territoriales en los que haya zonas francas libres de impuestos, mayor flexibilidad laboral, promoción de
políticas de privatización de los servicios de infraestructura, etc.
La mundialización genera un desarrollo desigual que se arraiga en
instituciones y condiciones históricas y culturales geográficamente determinadas. Mundialización y regionalización son dos caras de la misma
moneda: se refuerzan las funciones del Estado (dimensión política) al fortalecer la masa de funcionarios especializados, cuando no son ministros
actúan como directivos de las corporaciones.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
Dra. Emilce Beatriz Cammarata
15
La regionalización apunta a la complementariedad y coexistencia;
el Mercosur como proyecto de megarregión (en la periferia) y aparente
necesidad de la globalización. Su evolución ha estado marcada por el
desarrollo de la crisis internacional y crisis nacionales de la región; en este
nivel el ciclo económico brasileño ha sido determinante.
2 LA CONSTITUCIÓN DE LA ENTIDAD SUPRANACIONAL
DEBE AÚN DEMOSTRARSE
En síntesis, no se puede analizar a América Latina y Argentina al
margen del sistema económico-político mundial y es esta integración
sistémica y capitalista en su fase actual el punto de arranque para la
comprensión de distintas problemáticas y de sus manifiestos aspectos de
insustentabilidad. En estas condiciones hablar de crecimiento sostenido,
de desarrollo sustentable y de algunas otras futilidades sólo indica
desconocimiento cuando no encubrimiento.
2.1 LA DIMENSIÓN EPISTEMOLÓGICA DEL ESPACIO:
LUGAR GEOGRÁFICO EN EL CONOCIMIENTO Y
VALORIZACIÓN DEL ACONTECER TURÍSTICO
El territorio tiene un continente y un contenido: la sociedad y su
ambiente, cuyas relaciones mediadas por el trabajo conforman escenarios
de articulaciones porque cada proceso adopta una espacialidad particular.
Al mismo tiempo forma parte de la dinámica actual de la mundialización
del capital que crea territorialidad como una forma de responder a las crisis
de acumulación global que integran al mercado, al Estado y a la sociedad
civil.
El trastorno producido en las formas y diferenciaciones territoriales
ha llevado a los geógrafos como a los estudiosos de otras ciencias sociales
a redefinir componentes en el análisis del espacio, produciendo o
revalorizando conceptos de “lugar” o “no lugar”, realzando la dimensión
global de los procesos económicos y políticos, cuyas consecuencias
espaciales lo llevan a considerar el espacio cibernético a raíz de las
innovaciones tecnológicas más recientes. Al considerar al Turismo como
una práctica social – cuyas experiencias son el resultado de construcciones
históricas concretas en respuestas a situaciones socioeconómicas y
culturales –, interesa bucear en las ciencias sociales, sobretodo en ciertos
estudios realizados a través de miradas críticas.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
16
Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ...
La estructura del espacio geográfico resulta de la división territorial
del trabajo como proceso por el cual se distribuyen los recursos naturales
y artificiales mediante las acciones de tres órdenes: lo técnico1 y jurídico
como fuerzas de la transformación y cambio; lo simbólico como el recurso del pasado tiene la fuerza de la afectividad en los modelos de
significación y representación.
Desde el interior, la naturaleza del espacio territorial implica identificar las nociones fundadoras de esa realidad visible que se registra en la
realidad relacional. Técnica, tiempo e intencionalidad se materializan en
los objetos y en las acciones conformando las relaciones entre naturalezaambiente y sociedad, a su vez, mediatizadas por el trabajo (técnica), fuente
de valor, desde la praxis del materialismo histórico.
De modo que el tipo de relaciones varía con la técnica, el tiempo
(presente en cada momento histórico) y la intencionalidad como valor que
caracteriza al espacio geográfico y turístico en permanente proceso de
transformación. En el espacio, se observa una forma-contenido que permite descifrar la relación dialéctica del proceso de valorización – la
apropiación de los recursos del espacio, la construcción de formas de
organización socio espacial y la conservación o modificación de esos
constructos que representan la creación de valor.
Al identificar las relaciones o prácticas que se ejercen, se infiere la
estructura espacial, las formas y funciones de la configuración territorial
en las etapas de ocupación, uso y valorización de los recursos naturales,
relictos o formas del pasado que coexisten junto a las nuevas formas de
uso y técnica actuales. Desde esta perspectiva, el conjunto de medios
instrumentales y sociales con los cuales el hombre realiza su vida, produce
y al mismo tiempo crea espacio, lo transforma al cambiar la función de los
viejos objetos. Por esta razón el recurso y o atractivo turístico es de carácter
histórico y sociocultural.
Las funciones son las tareas o actividades que se realizan y se
reconocen a través de las formas espaciales. Ambas nociones se refieren
a la disposición de los fenómenos que cambian y se alteran a lo largo del
tiempo; en cada momento cambia el valor de la totalidad de los objetos
1
Técnicas: lo que construye y realiza el hombre e interviene en el funcionamiento del
espacio. Normativas: aspectos jurídicos y legislativos, leyes que intervienen en la
apropiación, uso y conservación de los recursos turísticos. Simbólicas: constituidas
por las representaciones y percepciones, elementos intangibles del paisaje que
constituyen la imagen que los hombres se forman del mismo.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
Dra. Emilce Beatriz Cammarata
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(cantidad, calidad y funcionalidad): cambian los procesos, las funciones
de las cosas, su valor específico. Pensar y asociar el desarrollo turístico
con la noción de lugar-local, es contemplar la micro escala – no importa
su dimensión – como instancia que se abre a la realidad. Implica analizar
y evaluar el espacio turístico como parte del sector socioproductivo actual
y potencial, dado que valoriza ciertos bienes del patrimonio ambiental
natural y cultural que constituyen los atractivos y productos turísticos en
diversos lugares del territorio. Los procesos de orden económico,
institucional y cultural que inciden sobre un espacio dado constituyen
niveles de decisión (intenciones) que tornan funcionales a las áreas
correspondientes, con distintas formas o patrones en la disposición y
ordenamiento de los objetos.
El orden local se reterritorializa porque reúne en una misma lógica
interna todos sus elementos: hombres, empresas, instituciones, formas
sociales, jurídicas y formas geográficas. Paralelamente, la categoría
territorio en perspectiva histórica tiende a ser menos nacional y
simultáneamente más mundial por la selectividad espacial y
socioeconómica de la apropiación social del espacio. El lugar en general y
el turístico en especial es de carácter abierto y la intencionalidad varía de
modo de producir o reproducir distintos sentidos sobre el mismo lugar,
sea porque se vinculan a procesos más amplios del sistema capitalista y
o entre el conjunto de actores involucrados en este sector; de aquí los
cambios y o permanencias del uso territorial, que devienen de lo “estatal”
a lo “transnacional”. Las relaciones del Estado con el territorio y la
globalización han llevado a una interdependencia debido a las nuevas
condiciones que en cierto modo exige el sistema capitalista, a partir de la
revolución técnico-científica que muestra su debilitación al punto de vivir
en tiempos de grandes redefiniciones.
La Geografía estudia la dimensión territorial del Turismo, entendiendo
territorio como espacio de relaciones y de poder (categoría geopolítica
producido por las acciones políticas y socioeconómicas que remiten a las
relaciones de poder como locus de conflicto que necesita de control social. Es el ámbito de control, de dominio, de apropiación (HAESBAERT, 2004).
Importa considerar que los inversores transnacionales se motorizan por
preferencias en torno a la política y a la diplomacia y no solo por las fuerzas
del mercado.
La metáfora del retorno al territorio (SANTOS, M. et al, 1994, p. 15)
se fundamenta en la necesidad de darle sentido a la existencia individual y
colectiva o entenderla como pérdida y riesgo de alienación en el futuro.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
18
Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ...
Los hombres viven al mismo tiempo el proceso y el producto territorial
mediante un sistema de relaciones existenciales y/o productivas. De una
u otra forma todas son relaciones de poder por las formas de relacionarse,
de interacción entre los actores: relaciones con el territorio y con los
hombres entre sí. No obstante, el retorno al territorio como espacio construido que carece de fronteras definidas hoy, a priori, adquiere un fuerte
significado, al remarcar el papel de los recursos intangibles, la apertura
del espacio dialógico en la proximidad, el capital de relaciones en especial,
del saber-hacer y las diversas formas de cooperación y aprendizaje en las
que las regiones y localidades encontrarían la capacidad para diseñar su
propio desarrollo ante demandas sociales y o productivas.
Al considerar la matriz de la globalización y modernización
económicas y los nuevos determinismos del capitalismo internacional en
la difusión de procesos altamente selectivos y asimétricos, se visualiza en
el espacio territorial por una parte, la segmentación de un grupo de territorios
privilegiados e hiperactivos y, por la otra, una mayoría en situación precaria
y/o excluida. Los estados nacionales modifican el concepto de ley territorial
y se observan en la creciente manipulación de los límites del territorio sobre la jurisdicción prescripta. Se crean territorialidades específicas con
normas flexibles que modifican las regulaciones internas de cada país:
zonas francas, especializadas en importación-exportación de mercaderías
sin pago de derechos aduaneros, zonas de libre comercio y aeropuertos
internacionales.
Es en este sentido que la fragilidad de las relaciones y la pérdida
del valor del espacio contribuyen con más fuerza a identificar nuevas formas de territorialización. El territorio exige definir las escalas de análisis e
intervención, ya que su delimitación no puede realizarse solo por la
dimensión física o política, sino que deben incorporarse las múltiples
articulaciones en las que participa. También, interesa conocer el contexto
histórico de las representaciones culturales, políticas e ideológicas en el
caso de que existan aportes y propuestas de nuevas alternativas, a la par
de hallar formas de pensar el lugar con una mayor articulación entre
conocimiento y sociedad a partir de las necesidades del medio.
2.2 LA DIFERENCIA ENTRE PAISAJE Y ESPACIO GEOGRÁFICO
La palabra paisaje se utiliza con frecuencia como expresión de la
configuración territorial o conjunto de elementos naturales y artificiales que
caracterizan físicamente a un área. Por una parte, la lectura del paisaje en
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
Dra. Emilce Beatriz Cammarata
19
el estudio del Turismo se focaliza en el sujeto, perspectiva clásica que se
utiliza para observar la expresión fisionómica y estética del paisaje. Desde
el observador-sujeto, el concepto se impregna de connotaciones culturales
e ideológicas, con visión selectiva que refleja la experiencia; se lo explica
desde lo perceptual, dado que cada sentido se especializa en captar una
parte de la realidad.
En la dinámica de relación espacial se distinguen los componentes momentáneos y los procesos. Esta perspectiva de análisis permite
reconocer en la estructura espacial las relaciones de la sociedad con los
objetos naturales y construidos en las etapas de cambio significativas. En
este sentido, paisaje y espacio no son sinónimos, sí una pareja dialéctica,
dado que se complementan y se oponen mutuamente.
Para Milton Santos (1996, p. 83), el paisaje es la materia prima de los
recursos turístico-recreativos, constituye el
[…] conjunto de formas que en un momento dado, denota las
herencias que representan las sucesivas relaciones localizadas
entre el hombre y la naturaleza. El espacio incluye esas formas y la
vida que las anima.
Es siempre un presente relativo, una construcción horizontal. Permite captar la dinámica del espacio turístico al analizar los procesos
sociales que lo generan. También las categorías de análisis de forma,
función, estructura y proceso constituyen estadios del método de
interpretación del espacio geográfico que deviene en espacio turístico.
El enfoque espacial del territorio constituye un marco de análisis de
relación sincrónica y diacrónica. La visión diacrónica general (espacio geográfico) brinda la noción de movimiento histórico al interpretar las relaciones
dialécticas en el proceso de valorización: apropiación de los recursos,
organización, producción, conservación, con énfasis en los principales
cambios y transformaciones. La visión sincrónica singular (paisaje) capta
determinados aspectos de la realidad objetiva y perceptual para identificar
las diferenciaciones y singularidades de los lugares geográficos, el valor
simbólico del sitio y la refuncionalización de los nuevos objetos o recursos
que puedan constituir la materia prima del Turismo y la recreación; ambas
premisas constituyen un instrumento analítico y conceptual (SANTOS, 1996).
¿De qué manera las políticas del lugar facilitan el reconocer las
identidades de los lugares? ¿Cuáles son los espacios de identidad?
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
20
Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ...
La palabra “espacio” integra tres términos – espacio, localización,
lugar –, léxico que los geógrafos utilizan frecuentemente además de usarse
en el lenguaje común por lo que lleva a cierta confusión.
Espacio es un concepto más bien abstracto en su significado al
compararse con el tercer término “lugar” que pareciera delimitarse a partir
de una localización de sentido, es decir que tiene significados con la carga
de ciertos valores.
La localización se transforma en lugar, una vez que se reconoce
un cierto contenido de información; a veces el contenido es un hecho físico, en otros casos la información contiene las prácticas del mundo
empíricamente percibido como foco de vinculación emocional y fuente de
identidad. Pero al mismo tiempo se conjugan otras prácticas sociales y
económicas externas a esa porción acotada de la superficie terrestre, las
de relaciones y acciones del sistema mundo. Es en este contexto complejo
del lugar donde se descubren los atributos específicos que se pueden
resignificar en atractivos turísticos.
Las actividades del ocio y el Turismo se desarrollan en los lugares
con atributos de base natural y/o cultural, componentes denominados recursos al realizar el inventario, instrumento operativo para transformar y
desarrollar el lugar. La calificación “recurso”, palabra de origen latino, significa “recurrir”, o sea, se asocia al valor del uso y de cambio en el sistema
de acciones (sociedad-grupos) e interacción con los objetos que se
descubren, transforman, revalorizan, o refuncionalizan acorde a las
necesidades cambiantes en el proceso socioeconómico del territorio. Por
eso los recursos pertenecen a una categoría histórica cuyos cambios se
suceden al interior del movimiento de la totalidad social; ya sea por el
volumen de la demanda y materia prima de la actividad turística, sea por
las necesidades propias en el lugar o creadas y activadas a partir de objetos nuevos, denominados atractivos.
Importa destacar que el lugar tiene cierta identidad particular, no
obstante, lo que le otorga mayor sentido es la dinámica del espacio
relacional porque hoy el lugar tiene un número de mediaciones infinitas
dado que los lugares son de todos, son lugares de conveniencia, de un
aumento exponencial del intercambio, de cambios que repiten formas y
contenidos. El lugar existe a partir de los “cortocircuitos” que están integrados a la experiencia horizontal de los encuentros y pujas en la
espacialidad que se transforma en base a las condiciones materiales en
la que surgió; también en la trayectoria vertical-temporal de la vida y las
relaciones político-económicas al recibir determinantes externos que se
combinan con las narrativas locales. El lugar tiene una conexión dialéctica
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
Dra. Emilce Beatriz Cammarata
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que es necesaria considerar, porque en la contemporaneidad se pierden
las funciones que se presuponía existían como identidades y valores compartidos, dado que la identidad se modifica en relación con el otro.
Importa destacar que son los objetos los que cambian ante las
nuevas determinaciones, intenciones y acciones, transformando algunas
áreas y relegando otras, por ejemplo los cambios que suceden ante los
procesos de patrimonialización del país, sean naturales y o culturales;
instancias que se traslapan con los vectores de verticalidades – imposición
de regulaciones externas – y horizontalidades – asociación y
complementariedad de lo cotidiano – que preexisten en el lugar, locus devenido
en el sistema de unidades territoriales (áreas, lugares, municipios, etc.).
Problematizar el espacio geográfico implica, en primer lugar, considerar los contenidos simbólicos y materiales que definen a las prácticas
sociales cotidianas, los lugares de participación, de movilización, espacios
de la administración política pública y privada. En segundo lugar, analizar
cómo se originan las desigualdades a partir de la articulación de diversas
funciones y dimensiones del espacio social, a distintas escalas espaciales
de relación. Al considerar estas cuestiones se deduce que la región y los
lugares acumulan estructuras espaciales sujetas al movimiento de la
historia y de las relaciones del hombre con su territorio.
En síntesis, los lugares como destinos turístico-recreativos
expresan el modo de existir de los objetos-recursos pero representan el
significado de múltiples acciones y decisiones que generalmente se
producen desde afuera en estos tiempos. Aparece como una instancia de
factores hegemónicos en la realidad y se les da representación científica,
dado que los determinantes políticos, económicos, sectoriales, culturales
se hegemonizan en ciertos momentos históricos y las escalas de
mediación varían.
¿Cómo se vincula la valorización del lugar como producción y consumo? ¿Qué se mercantiliza?
David Harvey (1998, p. 200-207; en Osorio García, M., 2003) explica aspectos fundamentales del modo de producción capitalista, tal como
la necesidad de tener un ritmo constante de crecimiento para acumular
capital, no obstante, para que ese crecimiento acontezca, depende de la
explotación de la fuerza de trabajo, así como el necesario dinamismo
empresarial en los niveles tecnológicos y organizativos. De modo que para
producir la reactivación se requiere:
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
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Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ...
a) la devaluación de la mercancía, capacidad productiva del dinero;
b) el control macroeconómico a través de la institucionalización de
algún sistema de regulación (normas, leyes, etc.);
c) la absorción de la hiperacumulación a través de un desplazamiento
temporal y espacial.
Este modelo teórico confirma la aceleración de la rotación comercial de los servicios de alojamiento ocurrido en Quintana Roo, México.
Indagación que explica el mercado turístico internacional en relación con
las inversiones realizadas a partir de las políticas federales de inversión, el
financiamiento público de infraestructura, los servicios, el crédito
inmobiliario otorgado. A la vez las fuentes de empleos se tercerizaron y al
producirse gran migración ante este proceso de acumulación, se creó un
mercado de mano de obra que permitió reducir los salarios paulatinamente elevando los niveles de plusvalía y obteniendo altos montos de capital
dinero y una determinada rotación del capital. Situación que refleja el valor
de cambio en el Turismo como aspecto importante sobre el desarrollo
local del Turismo desde el enfoque crítico. De esta manera el valor de uso
corresponde al valor del espacio geográfico, dados los atributos de su
ambiente, las cualidades que marcan las formas que adquiere el proceso
de valorización del mismo.
En la concepción de la Geografía crítica el espacio es fruto de relaciones socioeconómicas y sociopolíticas que se articulan y producen el
territorio. Milton Santos (1999) señala la existencia de una guerra económica
entre los lugares que configura locus de resistencia, facilitado por diferentes capacidades, oportunidades y posibilidades, y no solo por la inserción
de capital sino por los cambios que se producen en los grupos y sociedad
del capitalismo industrial y financiero que dirige esta guerra de lugares, en
términos fiscales en los planos global y local. Es la dinámica externa la
que fuerza dialécticamente un mayor dinamismo interno en la perspectiva
territorial: lo global crea lo regional y local como fragmentos de la
globalización. Remy Knafou (1995) expresa que el territorio se turistifica
cuando es meta objetivo o blanco de la interferencia de políticas públicas y
privadas: invención, subversión y conquista modifican el valor de uso y de
cambio. Esto abona ideas sobre la cuestión que el Turismo y los objetos
que se seleccionan y valorizan se realizan con miradas desde el afuera,
dado que se redefine en relación a las formas de comercializarlo para
determinados segmentos de diferenciación de los bienes y servicios a
ofrecer.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
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¿Qué consume el Turismo en el lugar?
•
•
•
Propiedad, inmuebles según el valor de mercado.
Inclusión de atributos del lugar como bienes y servicios
comercializables en el mercado turístico.
La política turística será la encargada de organizar los lugares
para la producción y consumo (ejemplo: de las áreas protegidas y las contradicciones entre la preservación y la lógica
económica – varios ejemplos a nivel país y latinoamericano).
Estas dimensiones destacan que en una sociedad capitalista, el
mecanismo más importante para el control hegemónico de ideas es la
mercantilización, proceso por el cual los lugares, los productos, las
personas, ideas e imágenes se interpretarán en primer lugar ya que los
bienes de consumo se conforman con las directivas del mercado.
[HEBDIGE, Dick. Subculture: the meaning of style, demonstrates how
consumption of status-rich commodities reflects a desire to be affiliated
with particular subcultures. 1979]
¿Es posible recuperar la escala local en el contexto global2?
Actualmente la política turística nacional se lleva a cabo en dos
vertientes, una relacionada con el desarrollo empresarial y la otra, hacia
los esfuerzos de desarrollo local (¿es sinónimo de municipal?)3, a través
de los cuales se intenta afanosamente dar un carácter más humano a los
esfuerzos neoliberales de crecimiento que después de más de 20 años
de aplicación, aún no muestran sus bondades a la gran mayoría de la
población nacional. El desarrollo local y Turismo se ubica en la dialéctica
mundial-global/local como un escenario nuevo, dinámico y con distintos
grados de complejidad. Entre los aportes y visiones críticas, diversos au-
2
3
Los parágrafos que siguen refieren a cuestiones tratadas por dos investigadores
de la Universidad Autónoma del Estado de México (Lilia Zizumbo y Neptalí Monterroso),
reflexiones coincidentes respecto a la gestión pública en nuestro país.
En general en los municipios se destacan formas tradicionales de gestión que
devienen de la concepción taylorista burocrática de la administración pública como
el clientelismo, el populismo y también el centralismo y la concepción jerárquica del
Estado piramidal. Muchas veces la descentralización del Estado ha puesto a
disposición de la organización local de los partidos una mayor cantidad de recursos
que se han utilizado para favorecer su posición como elemento central de la política
local-municipal.
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Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ...
tores plantean cierta controversia en los rasgos del recorte territorial de lo
local y su desarrollo. El desarrollo local se ha venido abriendo campo en
tres vertientes:
a) la concepción metodológica de trabajo que impulsan las ONG;
se origina en la comunidad y busca enfrentar retos planteados
por la marginación y la pobreza de crecientes sectores de la
población;
b) toma en cuenta la transformación del estado central que comienza
a democratizarse, descentralizándose para buscar mecanismos
más eficaces y eficientes de combate a la pobreza;
c) es el resultado de los requerimientos que plantea la influyente
cooperación internacional, en cuanto a su financiamiento para
combatir y compensar la pobreza a través de la reforma del Estado
y la democracia de la sociedad.
Esta perspectiva se inscribe dentro de un concepto nacional de
desarrollo que involucra un conjunto de variables – crecimiento,
sustentabilidad, equidad, marketing estratégico, calidad, participación,
equilibrio espacial – de desarrollo multidimensional cuyo objetivo básico
es la generación de riqueza a través del crecimiento económico, sin descuidar la protección de los recursos naturales y culturales “para que las
generaciones futuras alcancen mayor bienestar, sin que disminuya las
oportunidades de las futuras”. Comprende la concertación entre agentes,
sectores y fuerzas que interactúan en distintas esferas de la política, lo
social y cultural. Más aún implica la concertación de agentes regionales,
nacionales e internacionales, cuya contribución enriquece y fortalece ese
proceso que tiene lógica interna no mecánica ni lineal que realizan diferentes actores locales. En dichas escalas de participación se recuperarían
todas las regiones y localidades en calidad de sujetos de desarrollo.
También con el gobierno federal se intenta definir la política turística
ligada al desarrollo local y regional. En virtud de estos fundamentos se
amplía el concepto de Turismo, que pasa de ser una política de desarrollo
social sin dejar de ser una de las principales políticas económicas. La
dinámica interna de participación implica desarrollar proyectos turísticos
“sustentables”, o sea, políticas que pueden asumir modalidades muy diversas: aventura, rurales, locales, ecológicos, regionales, religiosos, históricos, etc. Parecen alternativas para contrarrestar los efectos negativos,
que el acelerado proceso de globalización y modernización ha ocasionado en la gran mayoría de la población rural y semiurbana del país; es como
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si se pudiera impulsar y fortalecer a las identidades locales y regionales
con un mecanismo de defensa de lo interno inmediato, de su necesidad
de pertenencia y permanencia.
2.3 PERO ¿POR QUÉ NO TODO LO QUE BRILLA ES ORO?
A fin de contribuir desde nuestras posibilidades analíticas y
experiencias adquiridas a la construcción del debate sobre el desarrollo
del Turismo local, es necesario reflexionar acerca del contexto global-mundial, los procesos de reforma del Estado y su adecuación a dicho contexto
mundial, qué implica gobernabilidad y democracia, qué organizaciones
civiles están presentes y aprovechan los espacios que se generan,
reflexionar sobre el vínculo entre desarrollo sustentable y la participación
de la sociedad civil.
Merece señalar a la modernización y globalización económica como
los nuevos determinismos del capitalismo internacional. Ante la reforma
del Estado importa cuestionar los cambios en la administración pública y
en la economía; definir los significados de la democracia representativa y
las formas de gobernabilidad plural, etc. En general, las reformas del Estado representan la emergencia del proyecto de reestructuración capitalista y los principios liberales sirven para fundamentar la construcción de
la nueva hegemonía y nuevas alianzas.
Por otra parte respecto a la gobernabilidad y democracia aparecen
formas de tipo democrático y procedimientos impulsados por aquellos
actores sociales y políticos a los que por naturaleza les corresponde
conducirlas, como los partidos políticos, sindicatos, otros. Y la dimensión
de la construcción de la sociedad civil se impulsa “desde arriba” a partir de
la creación de organizaciones civiles, pero no han sido a partir de
necesidades sentidas o iniciativas de la población. Paralelamente el
gobierno sigue cooptando diversas instituciones tratando de resolver los
movimientos de manera contradictorias. De manera que la participación
en los programas de desarrollo es distinta, según se trate de organizaciones
que apuestan al cambio democrático o que tratan de subir al carro que
pretende hacer más humana la economía de mercado.
En el marco de los distintos tipos de conflicto-disputa no hay duda
que en general existen acuerdos cuando se realiza una mejor difusión –
en el caso que exista en verdad una iniciativa democrática local bien organizada, aunque con distintas fronteras. Esta fuerza debería ser utilizada
para impulsar la transformación de las prácticas a nivel local como
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
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Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ...
contrafinalidad de la práctica global. Sobretodo, considerar que las
experiencias son el resultado de construcciones históricas concretas en
respuesta a situaciones socioeconómicas y culturales. La proclama del
desarrollo sostenible y la sociedad civil implica reconocer que existen dos
formas de luchar y participar, las que se impulsan desde arriba y las que
se hacen desde abajo como proceso que se construye. Pero existe un
tercer grupo intermedio entre los dos anteriores conformado por
agrupaciones que se forman para aprovechar desde abajo los ofrecimientos
que se hacen desde arriba.
¿Cómo poner en marcha mayores negociaciones? ¿Cómo construir puentes y no bloqueos para que los ciudadanos accedan a la
información por canales alternativos y no fijar la permanencia?
3 CUESTIONES DEL ORDENAMIENTO TERRITORIAL
Y LA PLANIFICACIÓN
La planificación en Turismo implica lecturas ideológicas y políticas
que definen en parte al papel del Estado, a los sectores involucrados y a
las comunidades.
En la etapa de ordenamiento, en general, se registra la urgencia de
actuar racionalmente sobre la realidad en el sentido que antes de poner en
valor cualquier lugar se debería planificar el desarrollo del sitio involucrando
en ese proceso a los especialistas – OMT, ONG, otros que por lo general
son externos al lugar – y principalmente a los locales. Entre las formas
racionales, destacan analizar los impactos positivos y negativos de la
actividad turística, desarrollar estrategias para evitar o minimizar los problemas del ambiente. Pero al mismo tiempo señalan que los planes
fracasan porque omiten las tres etapas: ejecución, evaluación, ajuste. Se
cuestiona el informe final porque pareciera que por arte de magia el
ordenamiento se ejecutaría solo, de modo que es necesario considerar
los quiénes deberían involucrarse en la ejecución. Sin embargo ante alguno
de los fracasos se alude a que estamos frente a una crisis de valores,
crisis de utopía porque hemos perdido la capacidad de soñar económica
política, social y cultural. Empero en el proceso de planificación importa
preguntarnos quiénes valorizan el lugar-atractivos, por qué y cómo lo hacen.
Aspecto que conlleva a referirme a los sitios patrimoniales “locales y
regionales” lugares y áreas que remiten a riesgos para preservar la
identidad de la zona y o a someter las acciones en innumerables talleres
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
Dra. Emilce Beatriz Cammarata
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para reflexionar sobre el proceso histórico del sitio o lugares de referencia
patrimonial.
Hasta aquí importa recordar lo señalado con anterioridad en relación
a cómo se eligen las instancias de cambio y concluimos que es a través
de las crisis sectoriales, de la ruptura de modelos económicos y políticos,
de la intervención del Estado, del achicamiento aparente de sus funciones
a través de las políticas de descentralización.
Miguel Seguí Llinás, geógrafo mallorquín, caracteriza algunas realidades y potencialidades de Brasil en relación a los recursos y atractivos
pero señala que de continuar las crisis sectoriales de la economía, el
crecimiento turístico es y será espontáneo, fruto de iniciativas privadas y
de turistas viajeros curiosos que buscan algo distinto.
Amerita señalar la reflexión de Milton Santos (1995) respecto a que
vivimos en una universalidad empírica de manera que es necesario analizar
críticamente los textos de las instituciones del ordenamiento turístico.
3.1 LOS PROBLEMAS EN MATERIA DE PLANIFICACIÓN
TURÍSTICA Y LA NECESIDAD DE UN PROGRAMA DE
INVESTIGACIÓN Y DOCENCIA SOBRE LOS
DETERMINANTES DEL DESARROLLO TURÍSTICO
Ante diversos problemas en materia de planificación turística es
necesario rever y repensar las formas en que el mundo académico se
aproxima a los estudios sobre las relaciones entre Turismo y desarrollo.
En general las políticas interesadas en el desarrollo local, endógeno,
territorial y los estudios y análisis de esas políticas se mueven sobre la
base de un manifiesto de intenciones (apoyado en ciertos valores) que da
lugar a ideas ampliamente compartidas. Por ello para que lo posible sea
viable, no basta con que las propuestas se acerquen a los territorios reales
y pensados.
Hay que trabajar, madurar, intervenir en los ámbitos donde se
producen las decisiones de cambio como las instituciones, las
organizaciones, los lugares de transformación donde hay personas con
misiones, roles y funciones más o menos compatibles con la instancia
operativa de los territorios posibles y los ambientes posibles. Pero en general estas concepciones tienen una base interpretativa pobre que no contempla las relaciones efectivas o reales que establecen los diferentes
actores-agentes sociales involucrados y son acríticamente adoptadas,
enmascarando aspectos que se intentan transformar.
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¿Como indagar sobre estas modalidades tradicionales de ordenar? ¿Por qué las palabras de los informes y los trabajos que se realizan
no se traducen en hechos que las confirmen?
El lugar es el ámbito geográfico específico que establece vínculos
con procesos más amplios que afectan o inducen a transformaciones en
otros lugares, de modo que el lugar es abierto a estas transformaciones y
entonces la trama social excede los límites de la definición del destino
turístico porque, como señalamos al principio de esta reflexión, el capitalismo industrial y financiero dirige esta guerra de lugares en términos fiscales
en el plano global y local. Milton Santos afirma: “La geografía en movimiento
y del espacio de comando, del uso competitivo de los lugares y la
revalorización de los lugares.”
Featherstone (1997) y otros científicos sociales rechazan los
análisis tradicionales respecto al carácter fijo espacial de las culturas, por
el contrario existe una mayor movilidad espacial y simbólica, aspecto que
interesa al reflexionar sobre los fundamentos de la formación de las
imágenes del mundo como una acción híbrida de nómadas deslocalizados,
al considerar las imágenes de las localidades, como si las comunidades
en las diferentes localidades estuvieran integradas y constituidas.
Así que es necesario tener presente desde dónde se promueve el
lugar turístico y qué imágenes se representan del lugar o destino.
Ciertamente una vez que el turista o viajero llegó al lugar, la experiencia del
espacio y tiempo que provoca el Turismo implica cambios entre el cotidiano y su opuesto, el viaje; existen distintos momentos en relación con las
necesidades del servicio y la contemplación de los atractivos. Al mismo
tiempo las experiencias de consumo en la contemporaneidad se
transcriben en las guías y publicaciones que se encargan de “explicarle al
turista lo que debe ver” y le desvían la atención de lo que no debiera ver; o
sea que se traduce el objeto como algo normativo y regulado, lo simbólico
que se decide desde afuera. También las formas de expresión de los
medios, el cine, la televisión, revistas, periodistas, etc., que refuerzan la
construcción de los atractivos y modelos de valorización. ¡Es que parece
que no hay modos de escapar completamente de la racionalidad capitalista, del consumo de bienes y servicios alternativos, etc.
¿Se construye una identidad cotidiana en los lugares?
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
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La formación socioespacial se sustituye, no desaparece, sea para
manipular acciones de la sociedad y/o regularlas. Las discusiones sobre
identidad y espacio-lugar reconocen que no hay lugar o comunidad dadas
por se, ya que son construcciones de discursos y de prácticas, a la vez
siempre relacionadas con las nociones de poder y vinculadas en sistemas de inclusión y exclusión. Por tanto lo que importa es no trabajar con
posiciones idealistas de visiones románticas que conllevan a considerar
una comprensión parcial casi ingenua de su función y voluntaristas. Tratar
de enfatizar aquello que está enmascarado o vedado de la estructura de
poder. Las regiones y lugares se valorizan en sincronía funcional y es
necesario estudiarlas en distintas escalas de observación al contener cada
una de ellas distintas dimensiones, modos, subsistemas
Es difícil descubrir sin investigación seria y responsable lo negativo
que hay en las propuestas internacionales de apoyo y las formas en las
que las contrapartes nacionales enmascaran sus verdaderos intereses.
Por lo tanto los que se involucran en la empresa del desarrollo local deben
conocer a fondo las intencionalidades de las propuestas que se hacen
desde los organismos internacionales con respecto a que la sociedad
participe en la dirección, coordinación y ejecución de los programas y
acciones. El juego estructural del poder produce distintas formas
espaciales, asegurando articulación-continuidad versus desarticulacióndiscontinuidad y creando nuevos límites. La reorganización del poder
necesita manejar el juego geométrico de los límites éstos, no son inocentes, ni naturales o arbitrarios, constituyen parte del juego de la reproducción
social: la producción, el intercambio y el consumo.
3.2 ENTONCES ¿CÓMO ORGANIZAR EL TRATAMIENTO
DE LA EVIDENCIA EMPÍRICA?
3.2.1 Enunciar Conceptos que Sean Operativos
Es imprescindible fijar previamente una serie de cuestiones teórico epistemológicas:
a) el tratamiento del concepto;
b) los criterios de definición;
c) las relaciones entre los conceptos;
d) los procesos que explican los temas problemas al combinar las
fuentes primarias y secundarias;
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e) la ubicuidad teórico espacial y organicidad teórica en la
necesaria articulación de las dimensiones socioeconómicas,
políticas, culturales, entre otras.
3.2.2 ANALIZAR TIPO DE PROBLEMAS
1º La economía y el efecto multiplicador de puestos de trabajo y
formas de salarios (lo informal es regla, en general), las ganancias en
forma de impuesto y la evasión y las empresas transnacionales tienen
exención de impuestos por X años. ¿Qué estudios permiten ver el efecto
multiplicador?
2º El crecimiento espontáneo de la oferta turística para identificar
qué otras relaciones políticas y económicas existen en el lugar-mundo; la
necesidad de trabajar en distintas escalas de relación.
3º Atender la comunicación turística, insuficiente y en general realizada desde los que intervienen en la conformación de los circuitos, corredores, productos, discursos y prácticas. Los medios de comunicación en
tiempos de globalización son centrales en la construcción de los sentidos
sociales. Estos medios reproducen – en ocasiones sistemáticamente – el
discurso hegemónico de los sectores dominantes de la sociedad.
¿Cuáles son los estereotipos o preconceptos que se ejerce sobre
la construcción del otro, de la diferencia y diferenciación social?
4 CUESTIONES REFERIDAS A LOS ESTUDIOS Y
TRABAJOS DE INVESTIGACIÓN
Cabe indagar las tendencias teóricas que se consideran en los
estudios del Turismo. Reflexionar sobre lo que se está produciendo y cómo
se refieren a la dimensión de la estrategia general y de las técnicas de
recolección y análisis de información empírica para visualizar el potencial
turístico.
Reconozco que en el medio turístico no es fácil una actitud de denuncia de los impactos negativos del fenómeno social, no obstante mis
ideas y la de algunos otros autores opta por la naturaleza crítica – no
destructiva sino constructiva – y provocadora en el análisis como inquietud
y compromiso para desenmascarar los engaños de los discursos y del
saber turístico, develar lo que no se dice y no se muestra del turismo, sea
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
Dra. Emilce Beatriz Cammarata
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de manera intencional o inconscientemente. Instamos a un cambio en la
manera de pensar y de investigar pues en gran medida, explica el atraso
que tenemos en el conocimiento sobre el Turismo. Es necesario otorgar
mayor cientificidad a la tarea investigativa dado que la ciencia es la mejor
forma de comprender y transformar nuestra realidad. Creo que es el mejor
antídoto contra los vendedores de fantasías.
La bibliografía existente sobre el problema conceptual del Turismo
intenta dar diferentes explicaciones sobre este fenómeno, no obstante
surgen varias dudas respecto a las posibilidades de generar una explicación
integral y a la vez científica del Turismo. A menudo aparece la visión superficial de los aspectos conceptuales del fenómeno turístico se limita a una
vaga definición, fundamentalmente empírica, no se aborda el objeto de
estudio con claridad, consistencia conceptual, metodológica y en su caso,
teórica. Parto desde la Geografía y concibo el conjunto de las Ciencias
Sociales como una perspectiva inter y multidisciplinaria que no busca
mostrarse como una panacea sino como un prisma analítico profundo
que vuelva inteligible el Turismo y sus prácticas, a la actividad turística y
los procesos de desarrollo de los lugares, abiertos a la economía global y
formas de producción que expresa relaciones de producción capitalistas.
¿Cómo repensar la investigación turística en los lugares y regiones?
El Turismo como fenómeno a escala mundial constituye un importante y fundamental objeto de investigación al abordar un conjunto de
prácticas sociales y tipo de relaciones socioeconómicas y culturales a
partir de las actividades turísticas que se desarrollan y expresan en la
dimensión territorial. Reconocer al Turismo como movimiento mundial del
espacio, cuyas actividades están hegemónicamente priorizadas para los
turistas y no para los residentes. Así la mayoría de las veces los espacios
se valorizan, disputan, especulan, apropian y se utilizan. Comprender el
fenómeno de las nuevas prácticas en relación con el desarrollo de las
actividades turísticas y reflexionar sobre algunas cuestiones que – tal vez
– puedan contribuir hacia la meta del desarrollo socio económico y cultural. Importa reconocer y hacer explícito desde qué bases teóricas se
explican e interpretan los hechos de la realidad que se investiga. En esta
instancia, el investigador tiene el desafío de actualizar los conceptos,
algunos se repiten en las investigaciones del Turismo pero su tratamiento
en general destaca perspectivas tradicionales, no críticas como
corresponde al espacio de la academia y a la formación de grado y
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
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postgrado. O sea, que es necesario reinterpretar las nuevas estructuras
espaciales e identificar la problemática espacial a escalas regional e internacional.
En síntesis deducimos que en el proceso de investigación se debe
admitir cierta política de intervención en la organización del espacio como
modo de ubicar las relaciones sociales de poder, las acciones locales, las
relaciones nacionales e internacionales. También amerita que reflexionemos
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Artigo recebido em 31/3/2009.
Aprovado para publicação em 22/4/2009.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
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Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ...
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009.
Cicilian Luiza Löwen Sahr
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A QUESTÃO SOCIOAMBIENTAL
DOS FAXINAIS PARANAENSES:
CAMINHOS PARA SE PENSAR NUMA
PEDAGOGIA HOLÍSTICA E
INTEGRATIVA1
THE SOCIO-ENVIRONMENTAL
QUESTION IN TRADITIONAL
FAXINAL COMMUNITIES IN
PARANÁ, BRAZIL: REFLECTIONS
TOWARDS A HOLISTIC AND
INTEGRATIVE PEDAGOGY
CICILIAN LUIZA LÖWEN SAHR
___________________________________________________________
Doutora em Geografia Humana pela
Universidade de Tübingen (Alemanha),
Professora de Pós-Graduação em Geografia
da UEPG e da UFPR,
Coordenadora da Rede Faxinal Pesquisa
E-mail: [email protected]
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009.
36
A Questão Socioambiental dos Faxinas Paranaenses ...
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009.
Cicilian Luiza Löwen Sahr
37
RESUMO
A questão socioambiental vem sendo amplamente discutida na atualidade. Busca-se a superação da relação dicotômica entre sociedade e natureza. Novas idéias surgem a partir da concepção de uma sociedade humana integrada e não oposta, à natureza. Nesse contexto, assiste-se a
uma revalorização de sociedades em que a “unidade do real” se torna
mais evidente. Esse é o caso dos povos e comunidades tradicionais brasileiros, que apenas precariamente se integram ao capitalismo moderno.
Como reflexo desse momento, torna-se necessário pensar numa transposição da concepção holística e integrativa da questão socioambiental
para o ensino. Nesse sentido, este artigo apresenta uma reflexão sobre
novos caminhos pedagógicos com base em uma investigação da formação socioambiental de comunidades tradicionais paranaenses: os faxinais.
Acredita-se que essas comunidades podem representar mais do que
apenas ambientes de ensino-vivencia para os próprios alunos-moradores. Os faxinais apresentam elementos de grande valor para se pensar
numa pedagogia holística em função de sua grande diversidade e capacidade ecológica, suas formas sociais integradas, sua produção econômica não capitalista e seu enraizamento cultural.
Palavras-chave: questão socioambiental, pedagogia holística, faxinais
paranaenses.
ABSTRACT
Today, scientific discussions increasingly focus on socio-environmental
questions based on an attempt to overcome social-natural dichotomies. In
this context, new ideas arise for a conception of a human society that is
integrated, and not opposed to nature. Therefore, societies where the “unity
of the real” seems to be evident have been revalued, as it is the case of
Brazilian traditional populations and communities that are only precariously
integrated into the capitalist world system. In this moment, it becomes
possible to reflect the situation of these communities based on a holistic
and integrative approach and to use its result for educative processes. As
such, this article proposes a reflection on new educational methods using
the socio-environmental formation of a traditional social formation in Paraná:
the Faxinais. We do believe that knowledge of these Faxinais is not only
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009.
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relevant for the self-comprehension of the inhabitants of this life-world, but
also for other students to understand diversity, the potential of ecology,
social complexity, as well as non-capitalist production modes and its specific
cultural contributions.
Keywords: socio-environmental question, holistic education, Faxinais,
Paraná.
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Cicilian Luiza Löwen Sahr
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1 INTRODUÇÃO
A questão socioambiental vem sendo amplamente discutida na
atualidade. Não se aceita mais uma diferenciação clara e categórica entre natureza e sociedade. Busca-se a conjugação desses dois conceitos.
A superação da relação dicotômica entre sociedade e natureza encontra
argumentos, entre outros, na compreensão da “unidade do real” (CASSETI,
2004, p. 145). Assim, os fundamentos da questão socioambiental se afastam tanto de uma interpretação ligada diretamente à externalização da
natureza quanto do antropocentrismo característico das abordagens críticas e marxistas, bem como das abordagens tecnicistas e positivistas
(MENDONÇA, 2004, p. 126-128).
Reaparecem, dessa maneira, compreensões do meio ambiente
em seu sentido mais profundo. Desenvolvem-se novas idéias a partir da
concepção de uma sociedade humana integrada, e não oposta, à natureza. Nesse contexto, assiste-se a uma revalorização de sociedades em
que a “unidade do real” se torna mais evidente e que apenas precariamente se integram à racionalização do capitalismo moderno. Esse é o
caso das comunidades e povos ditos tradicionais no Brasil. O fato de se
vivenciar um processo de mudança de uma concepção estruturalista e
mecanicista (tanto capitalista como analítico-crítica) para uma concepção holística (CAPRA, 1998) fundamenta o renovado interesse da academia para fatos/fenômenos sintéticos.
Como reflexo desse momento, torna-se necessário se pensar
numa transposição da concepção holística e integrativa da questão
socioambiental para o ensino de forma geral. Nesse sentido, este artigo
busca apontar de que forma uma investigação aprofundada e nítida da
formação socioambiental dos faxinais paranaenses poderia contribuir para
a abertura de caminhos pedagógicos. Acredita-se que os faxinais podem
representar, nesse contexto, mais do que apenas ambientes de ensinovivencia para os próprios alunos-moradores. Os faxinais apresentam elementos de grande valor para se pensar numa pedagogia holística a um
público mais abrangente.
2 FAXINAIS: UMA PRÁTICA SOCIOAMBIENTAL DO PASSADO?
O termo “faxinal” tem sua origem etimológica na palavra latina
“fasces”, que significa feixe de ramos. No Paraná, o termo é utilizado para
indicar uma área de povoamento agrossilvopastoril caracterizada pela
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existência de um criadouro comunitário em ambiente de floresta, separado das áreas de plantar por cercas, tradicionalmente constituídas por
“fasces”. Os moradores dessas comunidades são denominados
“faxinalenses” e se distinguem culturalmente em função da manutenção
de fortes laços de solidariedade e compartilhamento. De acordo com levantamento oficial realizado pelo Instituto Ambiental do Paraná (MARQUES,
2004), foram identificadas 44 comunidades com essas características,
no Estado. Sabe-se, todavia, que esse número é muito maior, dependendo dos critérios que se estabeleçam para sua definição.
O faxinal tradicional apresenta-se, nessa perspectiva, como uma
“unidade socioambiental” integrada que articula diferentes modalidades
de uso e de relações sociais internas e externas. Tem sua base no
ecossistema da Floresta com Araucária e estrutura-se sobre uma rede
de elementos socioambientais (figuras 1 e 2), que formam um espaço de
múltiplas categorias: a coleta e o extrativismo na floresta, a pecuária extensiva em criadouros coletivos, as plantações individuais separadas da
área de criação e uma organização social comunitária (LÖWEN SAHR,
2007a; MARQUES, 2004; NERONE, 2000).
FIGURA 1 - UNIDADE SOCIOAMBIENTAL TRADICIONAL DOS FAXINAIS
FONTE: autora.
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FIGURA 2 - ESQUEMA DA ESPACIALIZAÇÃO TRADICIONAL DOS
FAXINAIS
FONTE: autora.
O criadouro comunitário, delimitado por cercas e(ou) valos, encontra-se, geralmente, no centro do faxinal em vales de pequenos arroios. As estradas de terra que o cortam se utilizam de recursos como
porteiras e mata-burros, geralmente de madeira, os quais têm a função
de impedir a fuga de animais. Não muito distante das estradas que o
cortam, encontram-se – dispersas nos espigões dos terraços mais altos – as residências, via de regra construídas em madeira (figura 3).
Embora as terras do criadouro sejam propriedades/posses privadas justapostas, elas não são individualizadas por cercas, tendo uso comum
no que se refere às atividades criatórias. O mesmo não ocorre para as
atividades extrativas, que só podem ser exploradas pelo proprietário da
terra/posse. Assim, o próprio espaço do criadouro extrapola sua função
pecuária, integrando vegetação e construções, tendo plantas, animais e
homens como moradores.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009.
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FIGURA 3 - ESTRUTURA DE POVOAMENTO DE COMUNIDADES DE
FAXINAL
FONTE: autora.
Freqüentemente, desenvolvem-se nos maiores faxinais pontos de
referência em cruzamentos com casas de comércio, bares, capelas/igrejas, escolas ou barracões comunitários. Isoladamente, encontram-se tanques de peixe, moinhos de madeira para milho e mandioca (monjolos),
fornos de pedra para produção de farinha, além de estufas e canchas
para beneficiamento da erva-mate (barbaquás). Próximo às casas, é comum o cultivo de pequenos quintais com árvores frutíferas, verduras, ervas medicinais e temperos. Os quintais são delimitados por cercas densas para evitar a entrada de animais de pequeno porte, sobretudo os suínos e aves. Dessa maneira, o espaço do faxinal é altamente heterogêneo
e complexo.
Característico para o faxinal é a variedade genética dos animais.
Como eles circulam livremente pela floresta, à procura de alimentos, não
existe um controle de raças, apenas uma reprodução seminatural. Para
os animais de grande porte, dominam até hoje, todavia, as raças ibéricas,
como se pode observar pelos bovinos de chifres longos e nos cavalos
crioulos. Também nos suínos percebe-se a origem ibérica de suas raças
fortes e escuras. As aves (galinhas e patos) mostram, contrariamente,
uma nítida relação com as raças centro-européias. A galinha-d’angola
aparece como um elemento africano e o pato do mato como herança dos
índios guaranis (LÖWEN SAHR, 2007a.; SAHR, 2006). Ao contrário da
rigidez genética da pecuária moderna, essa mistura representa no faxinal
um valor fundamental.
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Nas áreas abertas do faxinal, as quais, na maioria das vezes, encontram-se no centro do criadouro, expande-se uma vegetação rasteira,
parcialmente de gramíneas e com outras plantas. Mais distante das estradas, aumenta o porte da vegetação, com árvores e arbustos. Aí se
encontra a erva-mate sob a sombra das copas das araucárias. A vegetação de grande porte vai tornando-se mais densa e as gramíneas mais
ausentes, à medida que se afastam das bordas. Nas áreas de floresta,
tem-se a coleta de madeiras para uso como lenha e para a construção de
casas e paióis. Do pinheiro (Araucária angustifolia) é retirado o pinhão,
tanto para a subsistência quanto para a comercialização. Da erva-mate
(Ilex paraguariensis) são extraídas as folhas para o chá e chimarrão. As
áreas coletivas de criar coincidem com as áreas de floresta. Esta, entretanto, algumas vezes se expande formando uma tira de cerca de 15 metros
em torno desse limite. Tal faixa tem a função de impedir que os animais –
sobretudo os suínos – vejam livremente as áreas de cultivo do outro lado.
Essa faixa denomina-se “restinga” pelos faxinalenses. Dessa forma, as
formações vegetacionais são altamente dinâmicas e reproduzem uma
teia de atividades e evoluções naturais e culturais.
Nas roças, localizadas fora da cercamento do criadouro, há gerações são exploradas culturas como milho, feijão e mandioca. As áreas de
cultivo são de responsabilidade individual de cada agricultor. Alguns utilizam ainda o sistema de rotação de terras com queimada, deixando espaços em pousio. Após a colheita, levam-se os animais para que se alimentem dos restos de palha e folhas e também para que fertilizem o terreno
com seu adubo natural. Assim, o espaço da roça é provavelmente o menos “natural” de todo o sistema, absorvendo os primeiros elementos de
uma agricultura moderna.
Essa descrição de um faxinal tradicional com enorme variedade
mostra o quão diversificada se apresenta a relação entre os conceitos
natureza e sociedade, nessas comunidades. Observa-se com nitidez as
interferências mútuas dos conceitos na “unidade do real”. A variabilidade
nas formas de coleta, de extração e de uso extensivo da floresta proporciona para os faxinais certo equilíbrio, o que permite uma regeneração constante desse sistema ecológico. Isso é válido tanto para o pastoreio como
para a exploração da erva-mate e pinhão. É válido ainda para o uso limitado de lenha e madeira para o próprio consumo.
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2 CONVIVÊNCIA ENTRE PRÁTICAS TRADICIONAIS E
MODERNAS NOS FAXINAIS
Para A. Giddens (1989), o sistema social apresenta uma forma
específica para cada momento e espaço, mostrando características
diacrônicas e sincrônicas, simultaneamente. Desse modo, existe a tendência de sistemas funcionais manterem-se e recriarem-se autonomamente como sistemas coerentes, autossustentáveis e singularizados – o
que o autor denomina “integração sistêmica”. Entretanto, esses são também objeto das interações dos indivíduos que o utilizam para desenvolver
suas próprias relações – o que ele denomina “integração social”. Essa
dualidade de processos pode ser observada na interpretação de comunidades tradicionais.
Atualmente, o faxinal, como remanescente de uma prática tradicional, já mostra sinais de processos da modernidade. Tanto a
individualização, racionalização e o sobreuso como a ruptura de algumas
tradições comunitárias e das dependências ecológicas demonstram que
a tradicional “unidade socioambiental” se apresenta embutida em lógicas
econômicas, sociais, ecológicas e até espaciais contraditórias, que, de
um lado, fogem da racionalidade moderna e, de outro, a incorporam.
Procura-se, a seguir, evidenciar essa dualidade por meio da análise temporal de elementos de sua rede socioambiental: tradições comunitárias, pecuária extensiva, agricultura de subsistência e extrativismo vegetal. Busca-se, sobretudo, enfatizar as adaptações flexíveis vivenciadas
pelos faxinais em sua trajetória.
As práticas religiosas tradicionais são bastante presentes nos
faxinais. Predomina um catolicismo popular com intensa veneração de
São Sebastião, São Benedito, Nossa Senhora Aparecida, São Gonçalo,
do Menino Jesus e do Divino Espírito Santo. São comuns atividades como
a romaria de São Gonçalo, mesada de Anjos e rodízio de capelinhas. Forte é a crença no Monge João Maria. As casas mantêm altares em seu
interior, dedicados a um santo específico ou a muitos deles. Outra manifestação são as festas religiosas caseiras (LÖWEN SAHR, 2005). Atualmente, essas práticas tradicionais convivem com as oficiais da moderna
Igreja Católica. São comuns a presença de templos no interior do criadouro
e a participação de padres em determinadas celebrações. Outras frentes
religiosas modernas, com o nome de evangélicas, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Assembléia de Deus, ganham cada vez mais
espaço entre os faxinalenses.
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Todavia, o fator mais importante dessa observação sociológica não
é o tradicionalismo, mas o fato de que a liberdade de processos ecológicos e comunitários resulta da compreensão de que o faxinal é um produto
de uma “criação” integrada de Deus e não apenas de uma produção humana. Mesmo assim, o faxinal absorve processos econômicos de grande alcance que o integra parcialmente, durante determinado tempo. Nesse sentido, a suinocultura parece ter sido a primeira estratégia de reprodução econômica nos faxinais. No passado, o que predominava eram
grandes criadouros comunitários, com extensão muito superior às de hoje
e sem delimitação nítida. Apenas em alguns casos, utilizavam-se acidentes geográficos – rios, serras – como elementos de delimitação (CHANG,
1988; NERONE, 2000).
Uma rede de atores marcava a cadeia produtiva do porco. R. M.
Souza (2001, p. 65) aponta a participação de dois: o produtor e o “safrista”
(espécie de intermediário). Duas fases marcam o processo de criação: o
crescimento e a engorda. Assim, duas formas de criação podiam ser observadas: a) em que ambas as fases eram assistidas pelo produtor; b)
em que a primeira era assistida pelo produtor e a segunda pelo “safrista”.
Esta segunda demonstra uma sofisticação modernista do processo. Mostra-se claramente o reflexo de uma época, iniciada já em 1890 e que teve
seu ápice em 1940, quando a produção suína na economia paranaense
teve grande importância. As tropas de porco, criadas nos “sertões”
paranaenses eram conduzidas a pé até as indústrias de banha de Ponta
Grossa, Curitiba e, principalmente, a indústria Matarazzo, localizada em
Jaguariaíva (VOLTOLINI, 1966, p. 45 et seq.; KRÜGER, 2002, p. 122). O
tropeirismo de porco constituiu-se, assim, numa forma de integração do
faxinal à economia regional, já mostrando nesse momento sua flexibilidade de adaptação ao processo produtivo moderno.
Atualmente, essa atividade ainda se mantém, apresentando-se
como uma das características culturais mais facilmente visíveis, que permitem reconhecer uma comunidade de faxinal. As especificidades tradicionais da suinocultura faxinalense são: a) seu caráter extensivo, ou seja,
o porco é criado “à solta”; b) seu caráter silvopastoril, ou seja, seu principal alimento provém do ambiente em que vive, ou seja, da Floresta com
Araucária.
Atualmente há, entretanto, uma nítida separação entre as “terras
de criar” e as “terras de plantar”, ou seja, a criação se desenvolve em
uma área florestal de uso coletivo delimitada por cercas e(ou) valos e
recebe complemento alimentar (milho) cultivado nas áreas de lavoura.
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Outra característica da atualidade é que a suinocultura adquiriu basicamente um caráter de subsistência, não sendo mais comercializada. A
delimitação das “terras de criar” e seu uso vinculado à subsistência mostram flexibilidade para poder manter uma atividade tradicional que fortalece laços comunitários, mesmo que isso não tenha resultados econômicos diretos.
Um outro efeito transformador atinge as “terras de plantar”. No
passado, a terra de lavoura, para consumo familiar, localizava-se próximo
à moradia, em áreas pequenas, cercadas e no interior da área de criação
animal (CHANG,1988; NERONE, 2000). Com a diminuição da importância econômica da suinocultura, as “terras de plantar” assumiram maiores
dimensões e se separaram das “terras de criar”, desenvolvendo-se a “sociologia das cercas” (CARVALHO, 1984), com normas consuetudinárias
para manutenção daquelas. Tal dinâmica pode ser vista como um processo de racionalização do espaço, característico da modernidade. As
áreas escolhidas para os criadouros eram determinadas pela presença
do pinheiro, da erva-mate, da pastagem natural e de água.
No entorno desses locais, localizavam-se as “terras de plantar”.
Com isso, os criadouros ocupam geralmente as várzeas dos vales e os
platôs intermediários das encostas, enquanto as “terras de plantar” ocupam as áreas mais próximas aos espigões. Nas “terras de plantar” se
cultivavam, sobretudo, o feijão e o milho. O feijão é utilizado para a alimentação humana e o milho para complementação alimentar dos animais. Outros produtos se encontravam presentes, entre eles a mandioca
e a batata. Embora a produção se voltasse à subsistência, ela ia conquistando gradativamente um mercado regional, permitindo a comercialização
dos excedentes e, com isso, garantindo a integração econômica dos
faxinais. Essa mudança inverte a situação da primeira metade do século
XX, quando o porco estava no centro da economia faxinalense. Atualmente a atenção se volta para a lavoura, estando a criação em segundo plano.
Dessa maneira, a produção agrícola nas comunidades de faxinal
apresenta-se hoje como a principal estratégia de reprodução econômica.
Diversos faxinais, principalmente aqueles inseridos nas áreas de produção de fumo, encontram-se integrados à agroindústria fumageira (LEMES,
2005). Trata-se de mais um exemplo de adaptação dos faxinais a processos modernos. Assim, a agricultura adquire um caráter comercial com
sobrecarga de trabalho familiar, além de ser altamente tóxica.
Os produtos de subsistência agora são, via de regra, adquiridos
pelos faxinalenses nos comércios locais e não mais cultivados. Em alguns faxinais, a presença de fumo se limita às “terras de plantar”, onde se
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localizam as lavouras e as estufas de fumo; em outros, as estufas até
“invadem” as “terras de criar”. A presença/ausência de energia elétrica
nas “terras de plantar”, bem como a distância entre o local de moradia e
as áreas de lavoura é fator que influencia nessa alocação.
Alguns faxinais, contudo, resistem à integração das agroindústrias
fumageiras e mantêm suas roças tradicionais ou buscam alternativas em
culturas e práticas agroecológicas, sobretudo legumes e verduras
(SCHUSTER, 2007). Hoje, os faxinais veem o período do fumo em declínio
e já se preocupam em discutir possibilidades futuras para se manterem
integrados a processos econômicos ditos modernos. Entre os temas de
discussão, encontra-se a questão dos biocombustíveis.
A disponibilidade da madeira mudou completamente ao longo do
tempo. No final da década de 40 (século XX), surgiram no interior dos
faxinais pequenas serrarias artesanais e destinadas inicialmente a resolver demandas próprias, como cercas, casas e paióis. A madeira encontrou rapidamente mercado na região. Inicialmente, as dificuldades de escoamento não permitiram grande integração; entretanto, vencidas essas
dificuldades, assistiu-se – no final da década de 50 até início da década
de 70 – à instalação de serrarias comerciais de maior porte, não só nos
faxinais, mas também em toda a Região Centro-Sul do Paraná. R. M.
Souza (2001, p. 63) esclarece que a exploração de árvores no faxinal
ocorria por meio de três diferentes relações:
a) compra da madeira em pé, cabendo à empresa a derrubada, o
estaleiramento e o transporte;
b) empresas arrendavam as terras dos proprietários dentro do
criadouro e exploravam a madeira;
c) empresas compravam as terras dentro do criadouro para exploração da madeira.
Por isso, o faxinal se integrou à cadeia produtiva da madeira,
disponibilizando, sobretudo, matéria-prima e mão-de-obra e alterando
consideravelmente uma de suas características principais: a floresta.
Na atualidade, o que se apresenta nos criadouros é uma realidade
de esgotamento das madeiras nobres, entretanto os faxinais ainda constituem as áreas mais preservadas de Floresta com Araucária, no Paraná.
Alguns deles até mesmo em processo de regeneração (FERREIRA,
2006). O setor madeireiro tem vivenciado, nas últimas décadas, uma nova
fase baseada em outra estratégia, a de incentivos fiscais a reflorestamentos. Essa nova fase reproduz-se em alguns faxinais. Tem-se a pres-
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A Questão Socioambiental dos Faxinas Paranaenses ...
são desse cultivo nas “terras de plantar”, que via de regra são adquiridas
por empresas reflorestadoras, o que vem causando a desagregação do
modo de vida em diversas comunidades rurais que não conseguem se
manter apenas com as “terras de criar”. (LÖWEN SAHR; IEGELSKI, 2003).
Paralelamente à exploração de madeira, tem-se, já desde 1920, a
instalação de pequenos barbaquás nos faxinais, propiciando o
beneficiamento da erva-mate presente na floresta remanescente do
criadouro. Com relação à erva-mate, os faxinais mantiveram o
beneficiamento primário do produto até por volta da década de 70. As
empresas ervateiras, que ocupavam o litoral paranaense e que eram responsáveis pelo beneficiamento final, instalam-se no final do século XIX
em Curitiba e arredores. Atualmente, a estratégia das empresas ervateiras
se difere. Assiste-se nas últimas décadas à realocação de suas plantas
fabris próximas da matéria-prima, ou seja, próximas dos faxinais. As fábricas adquirem dos faxinalenses não mais a erva-mate beneficiada de
forma artesanal em suas comunidades, mas a folha verde para o
beneficiamento total dentro do processo industrial. Até mesmo a coleta da
folha passa a ser incorporada pela empresa (BARRETO, 2008, p. 65 et
seq.).
Assim, os faxinais, como os demais povos e comunidades tradicionais, só podem ser tidos como “tradicionais”, quando inseridos num contexto mais amplo. Eles são tradicionais não tanto por seus elementos
tradicionais, mas por sua flexibilidade em combinar as tradições com um
sistema capitalista moderno. Suas diferenciações significam uma rejeição ao aprisionamento a uma única racionalidade. Os faxinalenses mantêm, paralela e contraditoriamente, racionalidades diversas. Seu
tradicionalismo, singularizante para o grupo, é também uma estrutura social
adaptada ao contexto da sociedade moderna. Se para a manutenção e
recriação dessas comunidades existe a tendência de reprodução de seu
sistema autossustentável e singular, existe também a tendência de ampliarem suas relações com o mundo externo, algumas vezes até com
grande ingenuidade (LÖWEN SAHR, 2007b).
Os diferentes momentos vivenciados pelos faxinais permitiramlhes a manutenção econômica, em tempos diferenciados, por produtos
animais, agrícolas e extrativos. A dinâmica empreendida em cada um desses momentos propiciou alterações substanciais tanto nas relações de
produção como no desenvolvimento ambiental dos faxinais. Atualmente,
a paisagem cultural dos faxinais ainda integra muitos dos elementos tradicionais constituintes dessa formação socioambiental. Todavia, elemen-
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tos modernos vêm sendo incorporados. Essa convivência entre elementos tradicionais e modernos, em diferentes contextualizações, bem como
a nítida “unidade do real”, que facilita a elaboração de interconexões e
inter-relações, é elemento de grande valor e permite se pensar o faxinal
como local privilegiado para experiências pedagógicas holísticas.
3 FAXINAIS E SUAS POTENCIALIDADES PARA
UMA PEDAGOGIA HOLÍSTICA
De acordo com o paradigma holístico, as questões sociais e
ambientais não podem ser vistas de forma fragmentada. F. Capra (1983),
ao iniciar suas pesquisas nesse sentido, construiu pontes entre o misticismo oriental e a física moderna, em sua obra O tao da física. Desse
modo, demonstrou uma racionalidade complexa que buscou desenvolver-se por dois caminhos, um simbólico/metodológico/mágico e outro racional/lógico/empírico.
C. M. A. Cardoso (1995), com base no artigo “Holismo and meaning”,
de Ron Miller, considera que a nova consciência holística se desenvolve
com a percepção da interdependência entre vários planos de totalidade:
pessoal, comunitário, social, planetário e cósmico. O que ocorre em um
dos planos repercurte nos demais. Esse paradigma tem na pesquisa
transdisciplinar o caminho para sua concretização.
A pedagogia holística tem seus alicerces em filósofos e pedagogos
do século XVIII e XIX, como Rosseau e Pestalozzi, que teve apoio de influentes pedagogos do início do século XX, como Maria Montessori, Rudolf
Steiner, etc. Contudo, apenas mais recentemente é que o holismo adquiriu um corpo mais consistente, a ponto de ser visto como um novo
paradigma educacional. O ponto de partida dos educadores holísticos é a
convicção da existência de uma fragmentação de todas as esferas da
vida humana. Essa fragmentação está arraigada nas escolas, embora
ultrapassem em muito seus muros.
Para A. S. L. Santos (2008, p. 10),
[...] as escolas transpiram fragmentação por todos os lados: organização (tempo, espaço) compartimentada e hierarquizada, profissionais especializados e desconectados, conhecimento fragmentado em disciplinas, unidades e lições isoladas, sem possibilidade de ver a relação dentre e entre elas, e entre estas, a realidade
que os alunos vivem.
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A Questão Socioambiental dos Faxinas Paranaenses ...
Tudo isso prepara e educa para a fragmentação.
O termo “educação holística” foi proposto por Ron Miller (1990),
para designar o trabalho de um conjunto heterogêneo de liberais,
humanistas e românticos que possuem em comum a convicção de que a
personalidade de cada criança deve ser considerada na educação. São
consideradas todas as facetas da experiência humana, não só o intelecto
racional e as responsabilidades de vocação e cidadania, mas também os
aspectos físicos, emocionais, sociais, estéticos, intuitivos e espirituais do
ser humano. É nesse sentido que o faxinal se apresenta como uma
potencialidade pedagógica holística.
Uma aula vivencial em uma “unidade do real”, como é o faxinal,
permite uma educação holística por poder proporcionar:
a) o desenvolvimento da pessoa global, abrangendo o intelectual, o
emocional, o social, o físico, o criativo, o estético e, até mesmo,
o espiritual, já que o contato com a realidade, diferentemente do
conteúdo presente na escola, não se apresenta fragmentado;
b) uma relação igualitária entre os aprendizes, que são tanto o professor como o aluno, no contato e convivência com o real e com
os respectivos sujeitos, envolvendo-os ativamente nos processos de ensino-aprendizagem;
c) um envolvimento que permite crescimento e descoberta de uma
vastidão de horizontes que se inter-relacionam por meio da experiência, despertando a curiosidade por aprender tudo o que
se precisa saber em qualquer contexto novo;
d) um confronto cultural do mundo do aluno-professor com o mundo do faxinalense, possibilitando uma aproximação de contextos diferenciados, o que permite ir além de um modo de pensar
único e reducionista, comum na educação convencional.
Temáticas fragmentadas na educação convencional podem ser
conectadas na experiência no Faxinal. A tradicional fragmentação da Geografia em solo, relevo, hidrografia, vegetação e população aparece integrada no real, em que a comunidade ocupa determinada área com lógicas culturais/econômicas que interconectam esses elementos. A fragmentação temporal da História em fases e ciclos (erva-mate, madeira)
apresenta elementos de permanência (antigas serrarias, barbaquás) que
aparecem integrados no real. A vivência com uma modalidade de comunidade tradicional tipicamente regional soma-se aos relatos de vivência
destes diferentes momentos.
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A flora e a fauna regionais que ilustram os livros de Ciências podem ser vistas e sentidas in loco, permitindo análise em escala real e de
forma contextualizada. Roteiros com identificação de espécies vegetais
podem auxiliar o aprendizado. Depoimentos de faxinalenses sobre seus
usos medicinais podem permitir interconexões. Lendas, mitos, canções,
bem como expressões locais/regionais trazem à tona autores muitas vezes invisíveis em Português/Literatura da educação convencional. Experiências vivenciais de cálculos mentais de faxinalenses que utilizam a
Matemática no dia-a-dia das lidas com a agricultura trazem a oportunidade de avaliar a concretude dessa disciplina muitas vezes bastante abstrata na educação convencional.
Enfim, a “unidade do real” permite conexões transdisciplinares entre
Geografia, História, Ciências, Português e Matemática, impossíveis de
ser estabelecidas na educação convencional. Verifica-se que o paradigma
holístico permite uma visão integrada da realidade por apontar para a
interdependência entre vários planos da totalidade e por considerar todas
as facetas da experiência humana, não só a intelectual/racional. Nesse
sentido, sugerem-se os faxinais como exemplo de ambiente vivencial preferencial para se pensar em uma prática pedagógica holística, em função
das características da sua “unidade do real”.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Observa-se que a ampla discussão acerca da questão
socioambiental na atualidade vem traçando caminhos a partir da concepção de uma sociedade humana integrada à natureza, e não mais oposta
a esta. A transposição dessa questão para a educação suscita a necessidade de se pensar em uma pedagogia holística que possa ser integrada à
educação convencional, sem se contrapor a esta. Em tal contexto, tornase fundamental a revalorização do conhecimento com base na “unidade
do real” como complementação à fragmentação disciplinar que a educação convencional coloca. Demonstrou-se que os faxinais da floresta com
araucária podem representar ambientes de ensino vivencial privilegiados
por permitirem reflexões em torno de uma pedagogia holística, em função
de sua grande diversidade e capacidade ecológica, suas formas sociais
integradas, sua produção econômica não capitalista e seu enraizamento
cultural.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009.
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A Questão Socioambiental dos Faxinas Paranaenses ...
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Artigo recebido em 31/3/2009.
Aprovado para publicação em 21/4/2009.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009.
Alex Sandro da Silva
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O AMBIENTAL E O HUMANO NA
CONSTRUÇÃO DA REALIDADE:
EXEMPLO DO AQUECIMENTO
GLOBAL
THE CONTRIBUTION OF
ENVIRONMENT AND HUMAN
ACTIVITIES IN CONSTRUCTION
OF REALITY: THE EXAMPLE
OF GLOBAL WARMING
ALEX SANDRO DA SILVA
___________________________________________________________
Mestrando em Geografia (UFPR)
E-mail: [email protected]
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
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O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade...
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
Alex Sandro da Silva
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RESUMO
A atual crise ambiental clama por uma reflexão que tenha por ponto de
partida a própria natureza humana. A cultura criada durante séculos de
busca por proteção colocou o homem numa encruzilhada de escolhas
difíceis. Não se sabe o melhor caminho a tomar. Antes de qualquer decisão,
é melhor realizar uma profunda ponderação – uma ponderação que acabe
por criar uma nova realidade. A concepção de natureza passa a ser revista.
Os atos humanos são repensados. As técnicas e as ideias do ontem se
tornam empecilhos às mudanças necessárias. A natureza mostra
novamente que não pode ser dominada. O homem se vê impotente diante
de um cenário que ele mesmo criou. Que realidade surgirá daqui para
frente? Que ideia de natureza será criada? Quais serão as ações do
homem em face dessa realidade criada e recriada constantemente pela
mídia. Este trabalho visa discutir a questão homem-natureza como uma
relação representação-ação.
Palavras-chave: homem, natureza, cultura, representação, realidade.
ABSTRACT
The current environmental crisis claims for a reflection that should begin
of nature human being. The culture created in centuries of search for
protection placed the man in crossroads of difficult choices. But there is
not optimum way to take. Before any decision, is better to carry through a
deep balance – this balance could create a new reality. The conception of
nature could be reviewed. The human acts must be rethought. The
techniques and the ideas of yesterday become troubles in the necessary
changes. The nature confirms again that it cannot be dominated. The man
sees impotent in front of a scene that was created by him. What the new
nature ideas will be created to resolve these problems? This paper aims
to situate the question about man and nature as an association between
representation and action.
Keywords: human, nature, culture, representation, reality.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
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O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade...
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
Alex Sandro da Silva
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1 INTRODUÇÃO
Neste início de século XXI, a natureza parece instigar de forma
mais contundente o pensamento humano. Depois de pouco mais de dois
séculos “controlando” a natureza, o homem, com seus equipamentos,
sua indústria, sua vaidade, seus modelos numéricos, sua ciência e suas
palavras, “descobre” novamente sua impotência. Um curto período de
progresso agora coloca o homem numa encruzilhada: a decisão não pode
demorar.
Introduzindo o fio condutor deste trabalho, pode-se, de antemão,
observar que uma decisão rápida seria difícil. O homem reage de acordo
com seu conhecimento, e uma mudança em sua forma de agir deve seguir
um lento processo de mudança em sua forma de pensar. Sendo assim,
uma ruptura conceptual na forma de o homem atuar sobre a natureza
deve ser precedida por uma mudança em seu universo simbólico.
A sociedade do século XX, portadora de um sistema industrial
dependente de recursos naturais, serve de exemplo. Somando-se à
sentença “recursos naturais”, utilizada na frase anterior, outras duas
expressões “desenvolvimento socioeconômico” e “escassez”, têm-se
verdadeiros axiomas de construção da realidade econômica do século
passado. O agir humano sobre o mundo está ligado ao modo com que o
mundo é representado. A que conclusão se poderia chegar ao refletir sobre
as sentenças destacadas anteriormente? Se a natureza é provedora de
recursos naturais e se há escassez de alguns produtos, por que
desenvolvimento social não atinge todas as pessoas?
Permanecendo nessas sentenças, seria difícil compreender a
natureza de outra forma, a não ser pela produção de conhecimento, ou
melhor, com o uso de outros axiomas e, mesmo com a mudança no campo
conceitual, não seria fácil modificar um sistema secularmente construído
com base na concepção de uma natureza provedora.
A produção de conhecimento vem demonstrando que o uso
descontrolado da natureza, como um recurso, possivelmente está
causando debilidade na saúde biológica do homem. Esse indício vem há
algumas décadas impulsionando uma reestruturação na forma de o
homem conceber a natureza. Os resultados dessa mudança podem ser
vistos na importância que o meio natural ganhou nas discussões da
academia, da política, da mídia e de toda a sociedade.
Igualmente, uma organização social sem conhecimento científico
não teria condições de compreender os efeitos de suas ações no meio
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
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O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade...
natural, por exemplo, se a forma de plantio de uma sociedade primitiva
causasse problemas de fertilidade no solo. Possivelmente, só os efeitos
de desabastecimento e fome seriam observados, porém seriam facilmente
considerados como castigo dos deuses.
Hoje, mesmo portando conhecimento sobre os problemas
ambientais, o homem encontra muita dificuldade em minimizar os impactos
causados por suas atividades produtivas na natureza. Nos últimos anos,
as questões relacionadas às mudanças globais são recorrentes nos meios
acadêmicos. O debate epistemológico abriu e continua a percorrer um
novo caminho na conformação de uma visão de natureza que ofereça um
suporte metodológico de aproximação na sociedade. Assim, o emprego
de meio ambiente fortemente ligado a uma concepção naturalista vem
cada vez mais abrangendo as atividades humanas, mas não se
desprendendo de suas raízes, em face da necessidade de enfatizar o
envolvimento do homem na problemática ambiental, e cedendo lugar a
uma visão socioambiental (MENDONÇA, 2002, p.125-126).
Todavia, para um trabalho efetivo diante dos problemas ambientais,
é necessário um esforço conjunto da ciência, da política e de toda a
sociedade. A produção científica deveria ser a base e a inspiração das
decisões governamentais, atingindo a sociedade como um todo e
promovendo mudanças significativas. No entanto, isso existe apenas de
forma ideal, pois não há uma sintonia entre esses universos. A discussão
da ciência não vem oferecendo as respostas esperadas pelas instituições
políticas, principalmente pelas questões econômicas e sociais envolvidas.
Consequentemente sua relação acaba sendo conflitante com as
instituições governamentais e financeiras.
É preciso corroborar a afirmação de F. Mendonça (2002, p. 142),
ao lembrar que a crise ambiental contemporânea demanda uma reflexão
da sociedade e, particularmente, da ciência em relação ao caminho a ser
seguido. Logo, espera-se desse momento de discussão uma acomodação
das camadas de interesses políticos e econômicos. Possivelmente
ocorram temores sobre os abalos que isso pode causar no meio cientifico,
político e social, mas é importante essa reflexão para a elaboração de
novas propostas ou mesmo respostas para a resolução da crise.
Contudo, enquanto correm as discussões nos meios
“competentes”, as pessoas acompanham a distância o desenrolar da
discussão, criando suas teorias e organizando suas vidas de acordo com
as informações que possuem. É válido ressaltar que são essas pessoas
que vão operar as mudanças mais significativas na forma de agir sobre a
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
Alex Sandro da Silva
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natureza e, não é tarde para lembrar que antes da ação é necessário
reflexão, atualmente nem a política, nem a ciência podem de imediato
impor uma realidade às pessoas, pois o real é construído lentamente no
dia a dia.
Os próximos três tópicos visam oferecer fomento para a realização
de uma reflexão acerca da natureza sob a ótica da representação. A
pretensão seria mostrar um espaço construído, tendo por base a própria
natureza humana, as próprias massas pensantes, um mundo construído
de ideias, de palavras e de ações, as quais são sedimentadas a partir da
linguagem nas construções que subsidiam a existência humana.
2 NATUREZA, HOMEM E CULTURA
A natureza, objeto para qual o homem dirige seu olhar, é base de
seu sustento material e mental, não por ser um ente provedor de recursos,
mas por ser um estímulo essencial à construção do conhecimento
humano. A natureza por sua austeridade é propulsora das ações humanas
na busca pela sobrevivência, pelo conhecimento, pela segurança e pelo
seu próprio sentido de ser.
O próprio sentido de homem parte de uma relação dele com a
natureza. Um caminho interessante a se tomar no intento de vislumbrar
essa relação pode ser encontrado no trabalho Ensaio sobre o homem, de
Ernest Cassirer.
Ernest Cassirer (2001, p. 47) considera o homem como um animal
simbólico. Para defender essa tese, o autor parte das considerações do
biólogo Uexküll, que considera que, para sobreviverem e se manterem
em equilíbrio, todos os animais são portadores de um sistema receptor e
um sistema efetuador, em que o primeiro é responsável por receber os
estímulos externos, e o segundo é responsável por reagir a eles. Ernest
Cassirer, porém, expõe que no homem há um sistema a mais. Entre o
receptor e o efetuador há um sistema simbólico (figura 2b). Este seria
uma forma desenvolvida pelo homem para se adaptar ao ambiente.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
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O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade...
FONTE: SILVA, A., com base em Ernest Cassirer.
Os animais em geral (figura 1a), quando recebem um estímulo
externo, reagem automaticamente a ele. Já no circulo funcional dos seres
humanos (figura 2b) existe um sistema a mais: o sistema simbólico, que
é responsável pelo retardo que sofrem as reações humanas aos estímulos
do ambiente, já que, antes de reagir a um estímulo externo, existe no
homem um lento e complicado processo de pensamento.
Sobre o retardo das reações humanas aos estímulos do ambiente, Ernest
Cassirer (2001, p. 48) pondera:
O homem não pode mais confrontar-se com a
realidade imediatamente; não pode vê-la, por assim
dizer, frente a frente. A realidade física parece recuar
em proporção ao avanço da atividade simbólica do
homem. Em vez de lidar com as próprias coisas o
homem está, de certo modo, conversando
constantemente consigo mesmo. Envolveu-se de tal
modo em formas linguísticas, imagens artísticas,
símbolos míticos ou ritos religiosos que não consegue
ver ou conhecer coisa alguma a não ser pela
interposição desse meio artificial.
Para Ernest Cassirer (2001, p. 58-65), um símbolo faz parte do
universo humano do significado; possui um valor funcional de designação
de coisas, porém não são as coisas em si. O simbolismo oferece ao
homem “[...] acesso ao ‘mundo ideal’ que lhe é aberto em diferentes
aspectos pela religião, pela arte, pela filosofia e pela ciência.” (Ibid., p. 72).
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
Alex Sandro da Silva
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Os símbolos são construídos pela força do espírito humano tendo
por finalidade designar, dar significado às coisas ao redor. Um universo
de símbolos seria o universo das representações construídas pelo homem
na busca por compreender e adaptar-se ao ambiente. Dessa forma, o
símbolo é a chave mágica para um mundo especificamente humano: o
mundo da cultura. (Cassirer, 2001, p. 63). Considerando-se o
posicionamento de Cassirer, o homem passa a relacionar-se muito mais
com a cultura do que com a natureza.
Ao formar sistemas de pensamento, os símbolos possuem poder
de organizar o comportamento humano e de influenciar ou mesmo
determinar a visão de mundo. O universo simbólico é tão importante para
o homem que este passa a viver muito mais em contato com esse universo
do que com a realidade física propriamente dita.
Numa outra perspectiva, Paul Claval (2007, p. 12), expõe que o
homem nunca está em contato direto com a natureza, pois este vive num
meio artificializado, construído por um conhecimento historicamente
produzido que serve de mediador entre as duas partes. O meio aparece
como o lócus da produção cultural.
A natureza nunca é apreendida em sua manifestação concreta,
uma vez que é a partir de seu sistema simbólico que o homem constrói
para si o significado do que vem a ser a natureza. Dessa forma, na relação
homem-meio natural não há uma alteridade real, já que ao ser conhecida,
ou significada, a natureza se torna uma construção simbólica, não sendo
distinta do próprio ato humano de compreendê-la, classificá-la e identificála, porém sua autonomia é resguardada, estando seu aspecto sensível
continuamente presente nas atividades relacionadas à manutenção da
existência material.
A manifestação sensível dessa autonomia da natureza em relação
ao universo propriamente humano age constantemente como estímulo à
construção simbólica da realidade, sendo assim responsável pela evolução
do conhecimento e aprimoramento das técnicas. Em função desse
constante estímulo, o homem aplica ao meio um mecanismo de
simbolização e de ação. O resultado seria a organização socioespacial
que, permeada pela cultura, passa a ser mais um fator na construção
simbólica de toda a realidade dentro do conjunto natureza, espaço e
sociedade.
Essas interações, uma vez montadas, se tornam cada vez mais
complexas, pois outras questões são constantemente somadas. O
homem é sempre instigado a encontrar respostas, as quais, ao nascer
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
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O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade...
de um universo simbólico previamente criado, podem ser capazes de
alterar os rumos da história.
3 NATUREZA, REPRESENTAÇÃO E COMUNICAÇÃO
Considerando a realidade como uma representação, torna-se
necessário compreender um pouco do processo que engendra sua
construção. No tópico anterior foi apresentado como o universo simbólico
surge de uma necessidade humana de adaptação à natureza. Pôde-se
vislumbrar que a criação simbólica da realidade se dá pela apreensão de
um universo material, o qual se torna por isso uma representação. Essa
representação, para Gil Filho (2005, p. 52-53), surge num processo
simbólico de modelização, alicerçado em cinco pilares:
I) Na primeira base, a tendência à representação está implícita.
Contudo, não atinge sua plena realização, pois a representação,
neste caso, é parte da forma e não sua projeção exterior.
II) Ainda sob o aspecto sensorial, os campos visuais proporcionam diferentes perspectivas externas da imagem e sua realização
estética e funcional.
III) O terceiro alicerce de manifestação da representação pertence
a seu aspecto intelectual sob a capacidade de modificação do ser
perante a forma. Sob este aspecto, aproximamo-nos do limiar entre o aspecto puramente fenomenal e o metafísico.
IV) Agregado ao intelecto, mas além de suas funções lógicas, há
também as determinações da memória, que quando transcende
as determinações individuais e atinge o estatuto do pensamento
social marcado pela prática social permanece viva na sociedade
enquanto imagem e memória coletiva. Como lembra Halbwachs
(1975), a ideia e a imagem não representam elementos distintos
de nossa consciência, como uma social e outra individual, mas
prismas diferentes em que a sociedade contextualiza os objetos
no conjunto dos parâmetros de seu devir.
V) O quinto suporte corresponde à dimensão simbólica da representação, quando esta transpõe os limites da individuação e expressa a realidade de sua própria natureza. Torna-se o meio pelo
qual se pode representar o totalmente diferente.
Ao compreender o mundo como representação, a linguagem com
que cada indivíduo reapresenta seu mundo interior se torna portadora de um
poder capaz de alterar outras realidades. As trocas das “realidades” individuais
se dão por meio da comunicação. Esta, além de ser o meio pelo qual uma
representação se torna pública, é um fator decisivo na sua formação.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
Alex Sandro da Silva
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Paul Claval (2007, p. 13), na introdução de seu livro A geografia
cultural, caracteriza a linguagem ação socioespacial: “Agimos de acordo
com aqueles que nos olham, aqueles a quem contaremos o que fazemos
ou aqueles que escutaremos falar.” Considerando que a linguagem
influencia na forma de as pessoas pensarem e se comportarem, a
comunicação seria portadora de um poder capaz de moldar a organização
de uma sociedade.
Uma contribuição muito importante sobre a influência das
representações na organização social foi dada por Èmile Durkheim (1994,
p. 9-54). Ao estudar sociedades tradicionais esse sociólogo criou o
conceito de representações coletivas paralelas às representações
individuais. Durkheim (1994, p.9-54) divide as duas formas de
representações entre os campos da psicologia e da sociologia, para este
autor a sociologia deveria ater-se ao estudo das representações coletivas
enquanto a psicologia ficaria responsável pelas representações individuais.
Para Durkheim, as representações coletivas formam um tipo consciência
independente e acima da natureza do individuo. A organização da sociedade
estaria atrelada a essa consciência.
Com base em Durkheim, S. Moscovici (2001, p. 61-63) cunhou o
conceito de representações sociais que, diferente das representações
coletivas, considera o individuo como um construtor da realidade social.
As representações sociais são construídas pelos indivíduos a partir da
comunicação. Ao contrário das representações coletivas, as
representações sociais possuem um caráter dinâmico e são pertinentes
a um mundo em constante transformação.
Denise Jodelet (2002, p. 22) caracteriza representações sociais
como “[...] uma forma de conhecimento socialmente elaborado e partilhado
com um objetivo prático, e que contribui para a construção de uma realidade
comum a um conjunto social.” Intimamente ligados à forma é que os
integrantes de uma sociedade comunicam suas ideias. Ainda segundo
esse autor (2002, p. 22-30), a comunicação social, entendida sob sua
configuração interindividual, institucional e midiática, “[...] aparece como
condição de possibilidade e de determinação das representações e dos
pensamentos sociais.”
Denise Jodelet (2002, p. 22) argumenta que as representações
sociais
[...] enquanto sistemas de interpretação que regem nossa relação
com o mundo e com os outros – orientam e organizam as condutas e as comunicações sociais. Da mesma forma elas intervêm
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
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O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade...
em processos variados, tais como a difusão e a assimilação dos
conhecimentos, o desenvolvimento individual e coletivo, a definição das identidades pessoais e sociais, a expressão dos grupos
e as transformações sociais. [...] Como fenômenos cognitivos, envolvem a pertença social dos indivíduos com as implicações afetivas
e normativas, com interiorizações de experiências, práticas, modelos de condutas e pensamento, socialmente inculcados ou transmitidos pela comunicação social, que a ela estão ligadas.
Nunca, como hoje, houve uma participação tão grande da
informação e da comunicação de massa na vida das pessoas. Ao falar
sobre a interação homem natureza, atualmente tão cara à atenção da
humanidade, é de suma importância refletir, a respeito dos problemas
ambientais, sobre a realidade que estaria sendo construída pela sociedade.
A teoria das representações sociais oferece um método rico na
análise do comportamento socioespacial, comportamento esse que é fruto
da estruturação simbólica do mundo atual, e a realidade que surgiu pela
influência das mídias e das instituições é uma forte característica na
sociedade da informação.
4 NATUREZA, CIÊNCIA, POLÍTICA, MÍDIA E REPRESENTAÇÕES
SOCIAIS
Vive-se numa sociedade de grupos pensantes, e é no cotidiano
que as ideias são criadas. São os indivíduos que constroem suas
realidades, são eles que decidem por suas vidas. As pessoas aceitam ou
não uma ideia, o consenso é construído lentamente a partir da
comunicação.
Característica marcante do homem, a comunicação, configura-se
como um fértil objeto de estudo nas análises realizadas sobre a
organização espacial. Sobre a natureza, tema deste artigo, pode-se afirmar
que está passando por um processo profundo de ressignificação,
construído pelos homens graças à informação. Só não se sabe que
natureza surgirá de toda essa discussão que ocorre dentro da ciência da
política e da sociedade. Essa interação gesta a cada dia novos modos de
pensar e de agir sobre o espaço e pode ser estudada, como propõe S. F.
Gil Filho (2005, p. 57), no âmbito de uma Geografia do Conhecimento,
tendo as representações sociais como base conceitual.
O estudo das representações pode auxiliar na compreensão das
ações humanas e na construção do espaço geográfico. No campo da
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
Alex Sandro da Silva
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Psicologia Social, W. Wagner (2003, p. 178) argumenta que a representação
auxilia na explicação dos comportamentos sociais, pois o próprio
comportamento é parte e conteúdo da representação social.
São as representações sociais bases do convívio social. As ações
do homem em relação à natureza, os conflitos culturais, étnicos e sociais
estão, por exemplo, relacionadas à forma por que uma sociedade pensa
a respeito de si mesma, às crenças existentes em seu meio político e
econômico. As representações estão ligadas à cultura, à organização social
e política de cada ponto do espaço. Elas são partilhadas no dia-a-dia pela
população em seu convívio social ou pelos meios de comunicação de
massa que a serve. Um exemplo disso é a representação de natureza
que, uma vez alterada, ao atingir o conjunto de uma sociedade serve de
respaldo às ações institucionalmente orquestradas em relação ao meio
ambiente.
Para ilustrar toda essa exposição, foi realizada uma pequena análise
das representações sociais de natureza presentes nos jornais e nos sítios
da internet, entre os meses de fevereiro a abril de 2008. Primeiramente.
foram pesquisadas frases que faziam menção à natureza. Também foram
realizadas análises nas matérias de jornais, cujo enfoque principal fosse
um problema ambiental, e foi escolhido o aquecimento global. Na sessão
de opinião, foram colhidos pequenos textos escritos pelos leitores do jornal.
Foram analisadas 28 notícias de jornal, 11 textos enviados por leitores e
30 sítios da internet. Foi utilizado um método qualitativo na análise do
material. Pautando-se na teoria das representações sociais, foram
analisadas as possíveis ancoragens e objetivações existentes nos textos
de jornal e na opinião dos leitores.
Baseando-se em S. Moscovici (2003, p. 62-71), ancoragem pode
ser considerada como uma categoria de algo não classificável, em que
um grupo qualifica um fenômeno novo como pertencendo ou sendo
determinado por outro fator mais conhecido, porém não familiar, por
exemplo, dizer que a crise ambiental é causada pelos “norte-americanos”,
“árabes”, “países desenvolvidos”, “governantes”, etc. A objetivação é dar
substância a uma ideia vazia, é transformar um conceito desprovido de
imagem em uma imagem concreta: natureza, no senso comum, está
relacionada ao entorno e ao verde sem uma especificação, pode ser
objetivada por “catástrofe natural”, “beleza natural”, etc.
Nos textos veiculados na internet, raramente as palavras “ambiente”
e “natureza” aparecem só. Elas sempre estão objetivadas. As imagens
construídas pelas objetivações possuem temáticas em comum. A natureza
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
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O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade...
aparece sempre como vítima de uma agressão, necessita ser protegida
e legislada e possui um valor afetivo e estético. Verifique o quadro a seguir.
FIGURA 1 - OBJETIVAÇÕES DE NATUREZA VEICULADAS NA
INTERNET
Observa-se que a forma de ação civil mais divulgada na proteção
do meio ambiente está ligada ao protesto. Se olharmos para o quadro e
começarmos a ler as diferentes frases rapidamente e efetuarmos
raciocínios comuns (O quê? Por quê? Como? Onde? Quando?) sobre os
conteúdos, poderemos chegar a várias ideias com temáticas em comum,
como, por exemplo: “A natureza é vitima de exploração e necessita de
defesa, afinal ela é nossa mãe. Temos que proteger a natureza! É bom
estar junto dela, mas de quem é a culpa pelos problemas ambientais? E o
governo? As pessoas não estão respeitando as leis ambientais? Mas por
quê? Como mudar? O que eu poderia fazer?”
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Alex Sandro da Silva
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Nas notícias analisadas, os problemas ambientais são, na maior
parte, ancorados no falta de ação política; poucas vezes são associados
às questões econômicas; o interesse privado aparece pouco nas
ancoragens. O aquecimento global é tratado frequentemente de duas
formas. Uma delas está associada à divulgação das descobertas
cientificas, cujos temas preponderantes são a comprovação do
aquecimento e as previsões de catástrofes. O problema mais veiculado
está relacionado às reuniões internacionais, que são centradas na
discussão dos governantes. Das 28 notícias analisadas, 17 ancoram a
gravidade dos problemas ambientais na falta de vontade política dos
governantes internacionais. Algumas delas apresentam as indústrias e o
crescimento econômico como sérios fatores, porém não há um
aprofundamento nas discussões e, quando os relacionam aos problemas
de gerenciamento governamental, acabam por minimizá-los. Em menor
escala são reportados os protestos de ambientalistas.
A veiculação dessas notícias abre a possibilidade de as pessoas
representarem os problemas ambientais como preponderantemente
políticos. Consequentemente os problemas reais de não-sustentabilidade
dos modelos econômicos acabam sendo esquecidos pela população.
É interessante observar como a representação do aquecimento
global fica atrelada à representação de poder. Nas noticias dos jornais
parece haver implicitamente uma superestimação do poder dos
governantes em relação aos problemas ambientais. Os políticos são
investidos por um poder de decisão tal que o aquecimento global aparenta
ser um problema de fácil resolução por meio do consenso entre as nações.
No próximo quadro há uma síntese dos principais temas abordados
pela mídia eletrônica sobre o aquecimento global. Nota-se que os temas
estão relacionados à consequência do aquecimento sobre a sociedade e
não às suas causas. Pode-se subentender que as causas não são tão
divulgadas por já serem tidas como fatos comprovados cientificamente. A
saída para o problema ambiental fica atrelada à diminuição das emissões
de CO2 e proteção das florestas remanescentes, que só poderiam ser
operacionalizadas pelos governos.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
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O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade...
FIGURA 2 - AQUECIMENTO GLOBAL NA IMPRENSA ELETRÔNICA
No imediatismo das noticias de jornal, está criando-se no cotidiano
uma realidade de aquecimento global causado, sobretudo pela emissão
de CO 2. Os governos poderiam reverter a situação com políticas
ambientais, mas, da mesma forma que são levantadas as previsões de
desastres ambientais futuros, não são mostrados os entraves econômicos
e sociais que envolvem tais decisões, as ;consequências sociais e os
interesses que estão em jogo não são abordados.
Na página da seguinte notícia, disponível em Folha Online, http://
www1.folha.uol.com.br/folha/ambiente/ult10007u377161.shtml, em 29/2/
2008, havia um fórum, em que os leitores poderiam escrever sobre o que
eles pensavam a respeito da mudança climática.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
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No intuito de fazermos uma breve verificação, montamos um
quadro onde foram organizadas e classificadas as ideias dos leitores do
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
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O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade...
jornal. Visamos analisar se a forma que os leitores representam o tema
condiz com a forma que o jornal eletrônico o veicula.
FIGURA 2 - OPINIÃO DOS LEITORES DE FOLHA ONLINE
Na opinião A, o aquecimento global aparece como resultado do
crescimento populacional. Nesse discurso há uma teorização a respeito
das causas do aquecimento, e a possível solução, para esses leitores, a
saída para o aquecimento fica atrelada a um controle de natalidade. Está
implícito que para operacionalizar essa solução são necessárias ações
políticas e governamentais, pois “controle de natalidade” e “educação”
representam ações de responsabilidade do poder público.
Na opinião B, o leitor age como um motivador. Ele argumenta que,
se todas as pessoas se unissem, o problema ambiental seria amenizado.
Aqui a causa é ancorada em parte na sociedade, por não apontar aos
órgãos competentes os responsáveis pelos danos ambientais, por
exemplo: “...denunciando o desmatamento predatório de nossas
florestas...”; por outro lado, a solução definitiva também é relacionada a
uma ação governamental.
O descaso dos governantes e dos grandes industriais com a
população mais pobre aparece na opinião C. O leitor ancora o problema
ambiental na falta de ação dos políticos e empresários. Os interesses
desses grupos são considerados os grandes vilões.
A opinião D segue uma linha parecida, mas se difere ao considerar
que a discussão sobre o aquecimento global é uma forma de desviar a
atenção das pessoas dos problemas reais causados pelo sistema capitalista. O aquecimento global é uma farsa.
A opinião E é a mais compartilhada. Ela demonstra de forma
explicita o que está implícito nas outras opiniões. Os leitores ancoram o
aquecimento global nas decisões políticas, ou melhor, na falta de interesse
dos governantes. Os encontros internacionais são vistos com
desconfiança: “será que os acordos sairão do papel?”
Em todas as opiniões, o poder político é tido como o maior vilão do
aquecimento global. Ao mesmo tempo é cobrado como o único com poder
de ação para amenizar a crise. As questões de produção e de organização
social e econômica ficam em segundo plano. Apenas uma das opiniões
trata a economia como um fator importante.
As representações sociais de aquecimento global, contidas nos
textos de jornal e nas opiniões dos leitores, estão ligadas intimamente às
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
Alex Sandro da Silva
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representações sociais de poder político. Ao cobrarem dos governos
alguma solução, as pessoas dão legitimidade e credibilidade ao poder do
Estado, depositam confiança na eficácia das ações perpetradas pelos
políticos, pois fica implícito nas discussões que somente eles seriam
capazes de resolver os problemas. Só não fica claro como isso seria
feito, fato que pode ser vislumbrado nas teorizações ou na indignação
dos leitores. Todavia, a representação social de legitimidade e autoridade
do poder político continua intacta.
O aquecimento global é divulgado como um fenômeno ameaçador
à população, sendo causado pelo tipo de relacionamento que a sociedade
mantém com o meio natural. Essa leitura do aquecimento global pode
desdobrar-se numa ressignificação de natureza. Se antes era vista como
um recurso a ser explorado, seria agora um organismo a ser preservado,
a ser cuidado pela sociedade. No entanto, isso não ocorre por causa das
estruturas construídas pela materialização das ideias de desenvolvimento
socioeconômico, recursos naturais e escassez que ainda operam na
organização econômica e social, havendo um descompasso entre essas
novas ideias, essas novas necessidades em relação às estruturas
construídas para satisfazer as necessidades de tempos anteriores.
Isso vem reiterar a posição já defendida de que, ao se encontrar
com a austeridade da natureza, o homem com sua inerente fragilidade é
estimulado a buscar proteção. Para tanto, são necessárias respostas. O
primeiro lugar de busca seria seu próprio universo simbólico, sua cultura,
sua ciência. Uma vez encontradas respostas, numa sociedade como a
atual, elas entram num jogo de comunicação e discussão visando a um
consenso que, por sua vez, gera uma ação. Nem sempre se chega ao
consenso de forma harmoniosa já que muitas vezes se apela para
mecanismos coercitivos.
O que se tenta destacar é que o homem envolvido num clima de
insegurança é forçado a mudar suas atitudes em relação ao meio. Para
isso, se torna necessária primeiro uma mudança em seu universo
simbólico, porém tais mudanças não são rápidas, pois dependem de um
processo de reflexão e de comunicação. É o que ocorre hoje em relação
às mudanças globais.
Essa exposição procurou apresentar, com base no estudo das
representações, como está sendo criada a “nova natureza”, a nova forma
de entender a natureza e principalmente de agir sobre ela. Os alarmismos
sobre o aquecimento global podem auxiliar a construir uma visão de
natureza que é incongruente com a visão de natureza, sob a qual foi
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
74
O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade...
embasado o sistema de organização econômica e social da sociedade
do século XX.
No entanto, ancorando a solução do aquecimento global nas
decisões governamentais, parte da sociedade joga a responsabilidade
em conter o aquecimento sobre o poder político, o que acaba por minimizar
a ação das indústrias e da organização social, as quais seriam as principais
responsáveis. A saída para o aquecimento global não fica atrelada a uma
mudança nos padrões de produção, de consumo, da matriz energética
ou numa reorganização da sociedade, pois no pensamento social e
midiático, por mais que pareça estranho, o grande problema não é a
destruição da natureza ou o gás do efeito estufa, mas o dissenso dos
governantes a respeito dos problemas ambientais.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
No presente trabalho, procurou-se apresentar a interação homemnatureza como a propulsora da construção dos conceitos norteadores
das sociedades, pois sustenta-se que, em face da hostil natureza
circundante, a necessidade de manter a vida provoca no homem reações
de simbolização e ação, ou melhor, da construção de representação.
Aponta-se que a construção do espaço seria realizada pelo contato
homem-natureza no universo de símbolos produzidos por essa interação.
O espaço seria constantemente modificado e ressignificado nas
mudanças do universo cultural. Assim a contínua construção da
organização socioespacial seria engendrada num constante processo de
retroalimentação entre a natureza, o homem e o universo simbólico, e a
força motriz de toda a engrenagem seria a necessidade de o homem
suprir suas necessidades existências, tanto materiais quanto simbólicas
em busca de segurança.
Na seqüência, procurou-se demonstrar como a construção da
realidade influencia na organização socioespacial e como o ato de
representar pode ser entendido por ato de criação e ressignificação da
realidade.
Buscou-se relacionar a exposição às questões ambientais que,
enquanto são debatidas no âmbito científico, são alvos de discussões
políticas e sociais mediadas pela comunicação de massa Procurou-se
expor que a essas discussões pode sobrevir a criação de uma nova forma
de a sociedade pensar/agir sobre a natureza.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
Alex Sandro da Silva
75
O aquecimento global é um dos assuntos mais debatidos nas
mídias atuais. Escolheram-se as noticias de jornal pela representação de
compromisso com a realidade que os leitores constroem a respeito desses
veículos de comunicação. Realizou-se a análise das noticias baseadas
na teoria das representações sociais.
Às representações sociais de aquecimento global na mídia foram
reunidas as opiniões dos leitores do jornal, pelas quais se objetivava
exemplificar o processo de criação de uma realidade. As considerações
são simpáticas à necessidade de um maior aprofundamento nessa análise
para se vislumbrar um universo maior de possibilidades, porém já é possível
considerar que a representação de aquecimento global está intimamente
ligada à representação de poder. A natureza atualmente é objetivada como
um ente em constante agressão. Todavia, ao representar problemas
ambientais sob um foco político, as pessoas não parecem considerar suas
ações como fato relevante, tanto na causa como na solução da crise
ambiental. Uma solução definitiva foge da alçada das pessoas “comuns”, já
que se ligam às decisões políticas e aos órgãos competentes.
A sociedade institui os aparelhos políticos como o meio decisivo
no combate aos danos que levam ao aquecimento global. Essa forma de
representar superestima o poder das ações dos governos, desviando o
foco do problema para as discussões políticas. A saída para o aquecimento
fica atrelada ao consenso entre as nações, entretanto raramente é tratado
como seria realizada uma ação eficaz para amenizar o problema.
Não se pretende afirmar que os governantes não possuem poder
para provocar mudanças, afinal são eles os representantes de toda a
sociedade mundial. O que se tenta mostrar é como se está formando a
ideia de que os políticos poderiam amenizar o aquecimento global
rapidamente, como se em um passe de mágica pudessem mudar toda a
relação de produção e consumo da sociedade.
Não se entra no mérito da discussão teórica sobre as causas do
aquecimento global. O fato é que, na construção dessa realidade, em que
o aquecimento global está sendo causado pelas ações humanas, grande
parte das notícias e da sociedade espera que os governos resolvam o
problema, sem, contudo, compreender ao certo como isso seria realizado
e o que isso implicaria para suas vidas.
Ainda não há um cenário de previsão no que essas discussões
vão resultar. O que poderia já ser refletido é a incompatibilidade desse
novo modo de considerar a natureza. Com a forma da economia e da
sociedade se organizar, poderíamos nos perguntar se a mudança nesse
universo simbólico pode causar uma grande transformação na forma de
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
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O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade...
construção do espaço, pois, apesar de não haver certeza sobre as
catástrofes naturais que o aquecimento global pode trazer, ao considerar
as atividades humanas, sobretudo econômicas como o grande causador
do problema, a necessidade humana de proteção poderia provocar
grandes reviravoltas na organização da sociedade. Os grandes entraves
para uma mudança, como já se observou, atualmente seriam as já
cristalizadas formas de o homem organizar a sociedade e a economia,
as quais viriam a ruir, se não já satisfizessem a necessidade humana de
proteção, tanto material quanto simbólica.
Apenas o desenrolar das discussões e os cenários futuros dirão o
que vai acontecer, já que ainda não há certeza das reais causas do aquecimento global e de seus reais efeitos. O certo é que, em momentos de
crise e em cenários ruins, o homem, se sentindo em perigo, procura proteção tanto material quanto psicológica.
Para a ciência geográfica essa discussão é importante, pois abre
a possibilidade de se saber como os problemas que envolvem toda a sociedade ganham novos significados em universos diferenciados. O problema da natureza, tão discutido na academia, também é discussão na
sociedade, mas é representado de forma diferente.
A construção social do conhecimento, que se abordou aqui, abre
possibilidade para se entender melhor as mudanças que uma sociedade
provoca no espaço, principalmente por serem, em última instancia os
operacionalizadores de intervenções socioespaciais.
REFERÊNCIAS
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1982
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Petrópolis: Vozes, 2003.
Artigo recebido em 8/2/2009.
Aprovado para publicação em 26/3/2009.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
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Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009.
Marcos Paulo Ferreira de Góis
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O PAPEL DO PODER PÚBLICO
NA TERRITORIALIZAÇÃO
DO TURISMO EM
ANGRA DOS REIS
THE ROLE OF PUBLIC
ADMINISTRATION IN THE
TOURISM TERRITORIALIZATION
OF ANGRA DOS REIS
MARCOS PAULO FERREIRA DE GÓIS1
___________________________________________________________
Mestrando em Geografia (UFRJ)
E-mail: [email protected]
1
O autor agradece à CAPES o financiamento desta pesquisa e à Simone Lisboa pela
revisão e críticas ao texto final.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
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O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ...
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
Marcos Paulo Ferreira de Góis
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RESUMO
Este artigo trata de alguns apontamentos acerca do conceito de
território e sua relação com o processo de urbanização, promovido
pela atividade turística. A título de demonstração, será apresentada a
influência do poder público na territorialização do Turismo no município
de Angra dos Reis, RJ.
Palavras-chave: turismo, território, políticas públicas, urbanização.
ABSTRACT
This paper aims to present some reflections about the concept of territory
and your relation with urban processes promoted by tourism. As a
demonstration we would like to present the role of public administration in
Tourism territorialization of Angra dos Reis-RJ.
Keywords: tourism, territory, public policy, urbanization.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
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O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ...
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
Marcos Paulo Ferreira de Góis
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1 INTRODUÇÃO
As relações entre Turismo, território e política de Estado já são
bem conhecidas e constam em uma farta bibliografia sobre Turismo nas
ciências sociais. Seria prolixo apresentar tamanha discussão em tão breve
espaço, o que fugiria até mesmo das pretensões deste singelo artigo.
Mesmo no caso de Angra dos Reis, nossa área de estudo, já existem
algumas reflexões acerca do papel do poder público na promoção do
Turismo, mas nenhuma delas se detiveram a seu aspecto territorial. Dessa
forma, o principal objetivo aspirado no presente ensaio é entender o
processo de territorialização do Turismo, ou melhor, o processo de
produção do espaço turístico no município de Angra dos Reis e a
importância dos recursos territoriais (naturais e socialmente construídos)
para o desenvolvimento do Turismo no município.
Acredita-se que a maior contribuição deste artigo poderá ser a
introdução de uma abordagem espacial para a compreensão do
desenvolvimento do Turismo enquanto uma forma de territorializar o
espaço. Nesse sentido, territorialização significa ocupação, organização,
produção e consumo do espaço por uma atividade social que, nesse caso,
seria o Turismo. Nota-se que o caso de Angra dos Reis é exemplar nesse
sentido e pode muito bem expressar o modelo de territorialização que se
pretende demonstrar. Angra dos Reis possui características turísticas
clássicas que bem representam a imagem do Brasil: praias, sol, ilhas,
montanhas, floresta, etc. Além disso, sua localização privilegiada “a meio
caminho” das duas principais metrópoles brasileiras (Rio de Janeiro e
São Paulo), facilitada pela construção da estrada Rio–Santos (BR-101),
propiciou o acesso das classes média e alta das duas cidades. E, afinal,
o Turismo em Angra dos Reis foi altamente incentivado por medidas
estatais centralizadas e ligadas aos interesses nacionais durante as
décadas de 70 e 80.
Na expectativa de cumprir os objetivos auspiciados, procura-se
estabelecer um arcabouço teórico-metodológico relativo aos conceitos
de território e urbanização, tendo em conta o papel do poder público no
processo de produção do espaço turístico e dos contrastes derivados de
suas ações. O modelo de territorialização gerado forneceu os subsídios
necessários para se pensar o caso de Angra dos Reis e identificar ações
do poder público que, desde a década de 50, tenham afetado diretamente
na produção do espaço turístico local. Desse modo, foi elaborada uma
metodologia pautada no exame crítico de políticas de Turismo nos três
níveis federativos que afetaram o município de Angra dos Reis.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
84
O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ...
Posteriormente, foi estabelecida uma relação entre as políticas de Turismo
e a política urbana desenvolvida na cidade, após a redemocratização do
País e a eleição de um corpo administrativo local.
2 DIMENSÃO TERRITORIAL DO TURISMO
Um dos temas que nos últimos anos tem despertado o interesse
dos geógrafos é o Turismo. Sua prática se tornou global depois do fim da
II Guerra Mundial e somente foi possível por meio do incremento
tecnológico nas áreas de comunicação e de transportes. O interesse dos
geógrafos sobre esse tema é bastante diversificado e se apoia em
propostas teóricas, metodológicas, filosóficas e políticas distintas. Em
relação ao território, os geógrafos estudiosos do Turismo se dedicaram,
em geral, ao entendimento das políticas estatais de gestão e organização
do espaço turístico. Essa preocupação se tornou inclusive uma tradição
nos estudos do Turismo por geógrafos brasileiros, como Adyr Rodrigues
e Rita de Cássia Cruz. Recentemente, o papel de outros atores no
desenvolvimento do Turismo e na transformação do território pelo Turismo
tem sido realçado. Esse movimento vai ao encontro do campo reflexivo
instaurado acerca do conceito de território na contemporaneidade, o qual
se apoia em uma visão mais abrangente do conceito, envolvendo uma
pluralidade de agentes sociais em meio ao território, não visto mais como
apenas um receptáculo ou substrato material estável.
Apesar de tal constatação ser verdadeira, não se pode ignorar o
papel central do Estado na vida social moderna e sua forte atuação sobre
setores econômicos e atividades como o Turismo. Não se trata aqui de
ignorar a atuação de outros atores sociais, mas de entender o Estado
como um importante ator, talvez o mais relevante nas mudanças espaciais
(RÜCKERT, 2005). Isso implica o direcionamento de nossas questões
sobre o território e sua dimensão socioespacial, sua qualidade enquanto
conceito explicativo. Nesse caso, concebe-se o território como um espaço
delimitado por relações sociais e relações entre sociedade e recursos
naturais, o que abrange as dimensões biológica, política, cultural e
econômica da vida em sociedade (HAESBAERT, 2006).
Essa visão integradora do conceito de território nos habilita a tentar
explicar as facetas do processo de territorialização com base nas políticas
territoriais do Estado. Políticas territoriais abrangem uma concepção do
espaço, uma estratégia de intervenção na estrutura territorial e meios
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
Marcos Paulo Ferreira de Góis
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capazes de viabilizar essas políticas (COSTA, 1989). Assim, nossas
preocupações recaem sobre os instrumentos de intervenção do Estado
em seu território, seja na escala nacional, seja na escala local. No nosso
caso, nos esforçaremos em entender as implicações de políticas
territoriais locais e nacionais em um recorte territorial pequeno. Mas esse
espaço adquire as qualidades impostas pelo jogo político de outras
escalas.
Políticas territoriais envolvem, assim, de um lado a manipulação
dos recursos espacialmente dispersos no território e, por outro, as
estratégias de seu uso para o beneficiamento das atividades humanas.
Dessa maneira, o Estado se torna um gestor fundamental do espaço social
e possui o poder de alterar características locais e regionais em prol do
desenvolvimento de algumas áreas e setores da sociedade. Isso tem
implicações socioespaciais evidentes que exprimem os conflitos de
interesses entre os distintos atores sociais envolvidos, o que denota a
forte dimensão política do território, um produto produzido por meio de
relações de poder espacialmente delimitadas (SOUZA, 1995).
No Turismo brasileiro, as políticas territoriais adquiriram a
característica de uma modalidade industrial, sobretudo pela transposição
do modelo empresarial-industrial em voga nas décadas de 50 e 60. O
modelo desenvolvimentista adotado pelos países de economia atrasada,
fortemente fundamentado no fordismo, tentava reproduzir as etapas de
evolução econômica dos países desenvolvidos, mesmo que sem o
sucesso alcançado por estes (sobre esse tema ver LIPIETZ, 1987). Em
relação ao Turismo pode-se observar que houve uma estratégia de
segmentação da oferta e a construção de um modelo aplicável a todo o
País, no qual o Estado tentou dotar algumas localidades de infraestruturas
que serviriam de sustentáculo ao modelo de Turismo urbano em hotéis.
As políticas de Turismo podem, assim, ser entendidas como territoriais e
estratégias de controle e de construção de um modelo de desenvolvimento
turístico sobre porções do território nacional – uma outra forma de gestão
do espaço nacional. Esse modelo de gestão do Turismo, entretanto, só
foi mais bem elaborado depois de 1966, com a definição da primeira política
nacional de Turismo, o que possibilitou o planejamento e a implementação
de projetos em áreas dotadas de recursos territoriais (naturais e históricos)
teoricamente atrativos (CRUZ, 2000).
Os recursos territoriais fazem parte da configuração territorial, que
foi conceituada por Milton Santos (2008, p. 83) como “[...] o território mais
o conjunto de objetos existentes sobre ele; objetos naturais ou objetos
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
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O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ...
artificiais que a definem.” A configuração do território nacional foi um fator
determinante para o planejamento do Turismo brasileiro concentrado nas
áreas costeiras, porque algumas áreas do território brasileiro foram
selecionadas e direcionadas para “públicos” distintos, ou seja, quanto mais
valorizados fossem os atributos territoriais de uma determinada área mais
seletivo seria o uso delas, o que expõe o caráter marcadamente funcional
que o território adquire em alguns momentos na política estatal. De qualquer
forma, a dimensão material do território só possui algum significado se
unida às práticas sociais específicas desse território. Qualquer estudo
que absorva apenas a dimensão material do território corre o risco de
tomar a forma pelo conteúdo e dotá-la de uma autonomia que ela não
possui (CORRÊA, 2002).
Se compreendermos o território em uma visão integradora
(HAESBAERT, 2006), podemos apontar que toda atividade socioeconômica
possui uma dimensão territorial. Desse modo, a localização ainda é
importante para toda e qualquer atividade humana, o que, obviamente,
absorve o Turismo e suas políticas. Assim, devemos destacar dois
princípios que norteiam as discussões sobre a dimensão territorial do
Turismo e que estão diretamente ligadas à localização.
O primeiro deles nos informa que o Turismo é uma atividade
fortemente territorializada, uma vez que os recursos territorialmente
localizados se tornam cruciais para o estabelecimento da atividade
turística: os recursos naturais e históricos que cada localidade dispõe.
Por se tratar de atividade fortemente territorializada, em função da
dependência dos atributos territoriais (STORPER, 1994), o Turismo
encontra-se profundamente vinculado às medidas de gestão do território,
portanto é constantemente o objeto de interesse de projetos e programas
estatais. Em um contexto mais amplo, esses atributos territoriais se tornam
o próprio do Turismo – um fator de diferenciação em relação a outras
localidades, dentro de um cenário contemporâneo de grande
competitividade entre lugares (CRUZ, 2000; FONSECA, 2005).
O segundo princípio que direciona nossas atenções à relação entre
Turismo e território é o que nos informa que o Turismo é uma atividade
territorializadora. Entende-se a territorialização como um processo, em
que uma atividade promovida pela confluência de interesses de diferentes
atores sociais constrói uma marca no espaço, seja materializada ou inscrita
no imaginário social. O Turismo é uma atividade territorializadora, já que
sua “natureza” exige o consumo e a criação de espaço, pois se estabelece
com o crescimento espacial e com o desenvolvimento ou com o
aproveitamento criativo de amenidades sociais e naturais.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
Marcos Paulo Ferreira de Góis
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A forma mais bem-acabada de territorialização do Turismo se fez
por meio da urbanização, e o caso brasileiro é exemplar. De um lado, o
estabelecimento do Turismo no Brasil em áreas costeiras se beneficiou
de uma malha urbana desenvolvida durante séculos, o que facilitou, de
certo modo, a polarização em certas áreas e o fluxo de turistas. Por outro
lado, o Turismo propiciou o surgimento de cidades ou, como na maioria
dos casos, o alargamento do espaço urbano para áreas adjacentes. Como
muito bem aponta Rita de Cássia Cruz (2000), a relação entre Turismo e
urbanização ocorre em três situações: quando o urbano antecede o
Turismo, quando urbanização e turistificação ocorrem ao mesmo tempo
e quando a urbanização ocorre posteriormente ao aparecimento do
Turismo.
Independentemente das situações comentadas, há uma
centralidade na relação entre Turismo e urbanização, principalmente nos
casos em que o Turismo é a atividade propulsora do crescimento urbano,
a que daqui por diante daremos o nome de urbanização turística.
A urbanização turística introduz uma marca diferenciada nas
cidades, construindo amenidades e evidenciando características típicas
da localidade. O poder público, nas diferentes escalas, introduz a cidade
no mercado turístico – doméstico ou internacional – com atrações
peculiares, ao passo que dota a cidade de um aparelho urbano moderno.
Isso, segundo Maria Tereza Duarte Paes Luchiari (2001, p. 23), proporciona
aos turistas “[...] a superação do estranhamento ao meio social e natural
local, mas [introduzindo], muitas vezes, uma materialidade que não se
comunica com o cotidiano do lugar.” De um lado, há a busca pela aventura,
pelo inusitado, pelo autêntico; de outro, o desejo do conforto e da segurança
que nutre os empreendimentos de hospedagem do tipo resort. Existem,
concomitante e contraditoriamente, valorização estética das paisagens
naturais e produção de paisagens urbanas (modernas ou patrimoniais).
As duas em conjunto formam a imagem e o mito de um meio ambiente
aprazível – uma forma-conteúdo atraente para as cidades e para os turistas
(LUCHIARI, 2001).
Acredita-se que a configuração territorial de uma cidade turística
se deva em grande parte a essa nova realidade materializada mediante a
urbanização turística. Novos fixos são construídos em razão da necessária
aparelhagem do território de estruturas capazes de sustentar os fluxos de
turistas. Além disso, há a criação de “benesses para o olhar”, frutos da
preservação de atributos antigos ou da construção de atributos novos,
fundamentais para a atração desses fluxos, e que compõem o escopo de
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
88
O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ...
alguns dos projetos urbanísticos locais. Supõe-se que seja dessa forma
que a territorialização do Turismo se faz mais presente, ao construir marcos
territoriais, referenciais simbólicos e materiais da presença de uma
atividade catalisadora dos investimentos sociais.
Mas importa demonstrar que a territorialização do Turismo não
preenche somente o espaço visível, as construções humanas, os marcos
estabelecidos. O processo de territorialização absorve o imaginário social,
criando uma nova lógica simbólica nos lugares, ao eleger valores e marcas
de uma localidade em detrimento de outros valores e símbolos sociais
que antecederam esse processo. Há na conquista simbólica uma outra
faceta do processo de territorializar. Não se pretende afirmar com isso
que o Estado tenha a capacidade de construir valores sociais. O que se
enuncia é que toda sociedade tem a capacidade de se auto-organizar
material e imaterialmente e que esse processo só é possível através do
tempo. Os valores só se modificam quando há uma mudança nos
elementos materiais que compõem a sociedade. Para que isso ocorra,
deve haver uma mudança na forma de se pensar o ser e o fazer social, ou
seja, é um processo dialético entre razão e técnica, o qual decorre no
tempo e se inscreve no espaço.
Em resumo, a territorialização só se torna possível pelo domínio e
pelo controle social de um espaço e da criação de um imaginário sobre
esse espaço social. Por mais clara que seja a concepção de que a
sociedade é composta de diferentes grupos, acredita-se que sempre
haverá uma forma mais ampla de domínio simbólico que cria uma unidade
na diversidade. Esse domínio simbólico não é fruto do controle hegemônico
do Estado ou de qualquer outro agente social. Na verdade, considera-se
que tal unidade seja forjada nas relações entre os diversos atores sociais,
nos conflitos políticos e ideológicos, bem como no desequilíbrio de forças
entre as partes que constituem a totalidade socioterritorial.
Acredita-se que esses princípios teórico-metodológicos sobre
território e política, território e Turismo e território e urbanização foram
suficientes para amparar o exame do papel do poder público na
territorialização do Turismo na cidade de Angra dos Reis.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
Marcos Paulo Ferreira de Góis
89
3 TERRITORIALIZAÇÃO DO TURISMO EM ANGRA DOS REIS
Para fins de localização, Angra dos Reis é um município do Estado
do Rio de Janeiro e está incrustado entre as elevações costeiras da Serra
do Mar e o Oceano Atlântico. Sua paisagem é caracterizada pelo relevo
recortado por dezenas de pequenas praias e um conjunto de ilhas, dentre
as quais a Ilha Grande se destaca por sua história e monumentalidade. O
município passou por diversos períodos de crescimento, estagnação e
declínio econômico e social, sendo uma importante cidade portuária até
meados do século XX e importante cidade industrial e turística na atualidade.
Sobre o Turismo, tema de nosso estudo, pode-se considerar que
suas características atuais foram desenvolvidas com o planejamento
territorial do Estado-nação brasileiro e com a construção, por agentes
privados do capital imobiliário-turístico, de áreas exclusivas para o Turismo.
Ainda na década de 70, o Embratur promoveu em um de seus
projetos (Projeto Turis) a classificação das localidades ao longo da recémaberta BR-101, estrada que ligava na época o Rio de Janeiro ao município
de Santos. Nesse projeto, Angra dos Reis foi classificada como município
de praias de qualidade A, voltado para o Turismo de alto nível (ALVES
FILHO, 2004). As razões dessa classificação encontravam-se na seleção
de alguns atributos da configuração territorial de Angra: praias, ilhas, mar
calmo, mata atlântica, etc. As valorizadas características da paisagem
angrense preenchiam os requisitos do Projeto Turis e forneciam os
subsídios para a orientação da localidade para fins de Turismo náutico.
Desde então, Angra dos Reis concentra um grande número de
empreendimentos turísticos, como condomínios, hotéis, marinas,
helipontos, etc.
Cabe salientar, porém, que em boa medida o processo de
territorialização do Turismo não se desenvolveu sem conflitos com
territórios tradicionais que levaram anos para se formar em Angra dos
Reis. Com a abertura da estrada BR-101, houve um intenso processo de
especulação fundiária, na forma de um modelo de ocupação do solo que
visava antecipar os lucros futuros com a reversão do uso rural do solo
para o uso urbano. Esse processo foi corretamente analisado por Paul
Singer (1979, p. 23) como um mecanismo de mercado no qual a “[...]
valorização da gleba é antecipada em função de mudanças na estrutura
urbana que ainda estão por acontecer [...]” Esse modelo foi amplamente
ratificado por proprietários agrícolas da região que, com a abertura da
BR-101 e as promessas de desenvolvimento econômico, mantiveram
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
90
O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ...
grandes trechos de terra improdutiva às margens da nova estrada à espera
de valorização. Essas terras foram progressivamente incorporadas ao
uso urbano, seja por meio do loteamento realizado pelos antigos
proprietários rurais, seja pela incorporação de terras por agentes
imobiliários. Os trechos mais bem localizados à beira-mar foram adquiridos
para fins de lazer e entretenimento turístico, enquanto para as áreas
localizadas no interior do município os usos urbanos foram diversos.
Na consecução da territorialização do Turismo, outro fator
importante para a paulatina urbanização do município foi o processo de
invasão-sucessão – conceito muito bem descrito por Roberto Lobato
Corrêa em seu livro Trajetórias geográficas (2005) –, instaurado pela
substituição das habitações da população tradicional caiçara por um
conjunto de formas e funções urbanas ligadas ao Turismo exclusivo. Novos
moradores permanentes ou temporários se instalaram nessas áreas e
tal mudança na característica do local gerou efeitos sociais e ambientais
importantes.
Primeiramente, a introdução da atividade turística em Angra dos
Reis gerou, como forma-conteúdo, a ocupação da estreita faixa litorânea,
nas praias mais valorizadas e pouco habitadas. Talvez os melhores
exemplos desse processo sejam condomínios (resorts), como Porto Frade
e Portogalo, construídos ao longo da década de 70 e copiados nas décadas
seguintes por outros empreendimentos similares.
A segunda face do amplo processo de territorialização do Turismo
foi a crescente ocupação das áreas pouco valorizadas na parte interior do
município, como os morros do centro da cidade e as estreitas áreas de
planícies aluvionais loteadas, principalmente nas localidades de
Jacuecanga, Monsuaba, Mombucaba e Japuíba (MACHADO, 1995). Houve,
dessa forma, um acelerado processo de urbanização, caracterizado pelo
crescimento de habitações irregulares e pela precarização das condições
de habitabilidade em Angra dos Reis, recobrindo as áreas próximas ao
centro do município e as áreas anexas aos condomínios de luxo. Esse
processo ocorre desde a década de 50, tendo como um outro fator
importante a ocupação dessas áreas por pessoas que trabalharam na
construção de diversos empreendimentos, como o estaleiro holandês
Verolme (entre 1959 e 1969), a estrada Rio–Santos (BR-101, entre 1970
e 1974), o terminal petrolífero da Petrobras-TEBIG (1977) e as usinas
nucleares de Angra I e II (FILHO, 2004). A construção desses
empreendimentos altamente consumidores de espaço e a viabilização
do Turismo desde a década de 70 proporcionaram um relevante incremento
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
Marcos Paulo Ferreira de Góis
91
populacional ao município, o qual cresceu a partir dessa década a taxas
superiores a outras áreas do Estado do Rio de Janeiro (gráfico I).
Nesse período, Angra dos Reis era uma área de grande visibilidade
nacional e também o objeto de várias intervenções estatais de importância
estratégica para a nação brasileira. As medidas políticas locais tinham
pouca relevância na constituição do território; pelo contrário, os munícipes
encontraram até a década de 90 muitas dificuldades para estabelecer um
marco regulatório que beneficiasse o município (BERTONCELLO, 1992).
Desse modo, a territorialização do Turismo foi promovida por medidas
centrais de gestão do território. A gestão do Turismo pelo Embratur criou
um modo de ser do Turismo com áreas exclusivas direcionadas para as
classes média e alta das principais metrópoles nacionais – Rio de Janeiro
e São Paulo – e para o Turismo internacional. Ao mesmo tempo, a gestão
centralizada do Turismo se apropriou dos recursos territoriais locais para
criar uma marca para a localidade.
Os recursos territoriais presentes em Angra dos Reis e muito
valorizados na modernidade – natureza abundante com a presença de
praias, ilhas, floresta, etc. – foram fartamente utilizados no intuito de gerar
uma marca para a localidade e atrair os fluxos de turistas desejosos de
uma localidade idílica e aprazível.
O Turismo proporcionou a retomada do desenvolvimento
econômico para o município, o que ficou claro no ritmo acelerado de
investimentos ao longo das últimas quatro décadas. Além disso, a
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
92
O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ...
expansão das áreas urbanas demonstrava uma mudança em relação ao
padrão agrário anterior. O setor primário perdeu constantemente
importância no cenário local e foi paulatinamente substituído por atividades
industriais e do setor de serviços. Contudo, o desenvolvimento econômico
não propiciou o desenvolvimento social. A rápida expansão da malha urbana
na forma de um arquipélago (sítio caracterizado pelo relevo recortado com
poucas áreas de baixada para a ocupação humana) implicou grandes
dificuldades na consecução de ações estatais de provisão de condições
dignas de habitabilidade (MACHADO, 1995). A responsabilidade de
execução desse tipo de obra pública (abastecimento de água, saneamento
básico, recolhimento de lixo, iluminação pública, etc.) encontrava-se sob
a tutela do governo federal, o qual designava as ações do poder público
municipal, ou seja, havia uma baixa capacidade de intervenção nos dilemas
sociais e urbanos.
Esse quadro socioespacial contrastante, caracterizado pelo rápido
crescimento econômico e pelo acirramento dos problemas sociais e
ambientais, só receberia maior atenção no início da década de 90, em um
cenário de redemocratização do País e descentralização política. Desde
então, os municípios brasileiros obtiveram novas atribuições e
compartilharam algumas competências com a União e os Estados
(provimento de saúde e educação, habitação, segurança, lazer,
preservação do patrimônio, etc.). Assim como novas obrigações foram
criadas, alguns benefícios aos municípios foram introduzidos com a
Constituição de 1988. A descentralização do poder resultou em uma
descentralização financeira, que proporcionou um significativo aumento
no repasse dos recursos públicos. A consequência desse processo foi
crescimento da arrecadação municipal e maior liberdade na gestão dos
municípios.
Uma das importantes mudanças criadas com a descentralização
do poder foi a imposição, aos municípios com população superior a vinte
mil habitantes, da criação de um plano diretor para disciplinar o uso do
solo urbano e evitar a especulação imobiliária e a degradação ambiental.
No caso de Angra dos Reis, o princípio fundamental de participação popular
foi devidamente seguido, o que gerou uma disputa entre os interesses da
elite local e os interesses dos movimentos populares. Dessa disputa surgiu
o Plano Diretor de Angra dos Reis e os diversos instrumentos de execução
de suas diretrizes: código de obras, código de posturas, código sanitário,
código ambiental e plano diretor de Turismo (CAVACO, 1998).
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
Marcos Paulo Ferreira de Góis
93
Infelizmente, o adequado Plano Diretor municipal teve uma
implementação deficiente e realizou em partes seus objetivos. Isso se
deveu em grande medida à desmobilização da sociedade e dos grupos
de interesse social e à falta de capital para sua implementação. Além
disso, os interesses do capital imobiliário-turístico se tornam mais
presentes, restringindo as ações de ordenamento do solo por parte do
Estado (CAVACO, 1998). A tudo isso se soma a dificuldade de realizar a
reforma urbana planejada no Plano Diretor municipal. Sem a consecução
de ações de intervenção no espaço, as ocupações irregulares continuam
a crescer, assim como a quantidade de turistas e de áreas de lazer, o que
revela o caráter dúbio da territorialização do Turismo por meio da
urbanização: há uma expansão urbana fragmentada e um desenvolvimento
social desigual amparado em modelo de modernidade adaptado.
A Angra dos Reis moderna, composta em grande medida de
associação entre preservação da natureza e urbanização turística,
encontra-se fortemente fixada no imaginário local e principalmente no
imaginário de seus visitantes. Sua imagem de paraíso terreal, berço de
belezas naturais indescritíveis, está nos símbolos que marcam a cidade
e que a representam. Tais símbolos auxiliam na territorialização do espaço
e do imaginário social. O lugar torna-se, assim, uma marca. É um relicário
de imagens que encantam e atraem o olhar.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Há ainda um grande trabalho pela frente. Os resultados
enumerados neste breve ensaio não podem revelar a complexidade
socioespacial que envolve política, economia e cultura na territorialização
do Turismo em Angra dos Reis. Antes mesmo, são apenas reflexões sobre
o amplo processo de crescimento urbano desigual averiguado quase que
de imediato, quando circulamos por Angra dos Reis. Contudo, esse
crescimento possui particularidades e é fruto de um processo histórico
que reúne preocupações, imaginários e obras políticas que construíram a
estrutura social e espacial do território angrense.
O recorte político-administrativo deixa de ser apenas uma realidade
nos papéis e é adquirido pelo imaginário popular, pelas obras de grande
vulto, pela política urbana e turística, pelo cotidiano. As relações de poder
demarcam o território e, assim, ele é apreendido, produzido, reproduzido
e consumido.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
94
O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ...
O Turismo traz a possibilidade da construção de “benesses para
o olhar”, de tornar o território um lugar mais belo; mas traz em seu calço
as mazelas de uma atividade seletiva, que atrai não somente visitantes,
mas também uma grande população de trabalhadores empobrecidos que
enxergam no Turismo um caminho para a prosperidade social e que,
amiúde, investem suas esperanças em habitações irregulares às margens
dos condomínios exclusivos.
A ocupação irregular do solo urbano, tanto por parte dos
empreendimentos turísticos quanto por parte das habitações populares,
constitui-se atualmente no maior problema social de Angra dos Reis. A
resolução envolve a capacidade do governo local em compatibilizar
interesses sociais divergentes e ao mesmo tempo viabilizar o
desenvolvimento econômico do município.
Espera-se que este esboço possa ser considerado de relevante
aplicação dos conhecimentos da Geografia em termos da imbricada
relação entre poder, identidade e imaginário no Turismo. Em especial,
acredita-se que a dimensão territorial do Turismo tenha sido, mesmo que
de forma precária, enunciada nas páginas anteriores, de modo que possa
gerar o interesse de alguns leitores em se aplicar em novos estudos sobre
a temática aqui desenvolvida.
REFERÊNCIAS
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históricos entre a indústria e o paraíso. Dissertação (Mestrado em
Planejamento Urbano e Regional) – Universidade Federal do Rio de Janeiro,
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Geografia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1992.
CAVACO, Adriana de Sá Barcelos. Limitações e perspectivas da
viabilização da reforma urbana no Brasil através dos “novos planos
diretores”: reflexões com base nos casos do Rio de Janeiro e de Angra
dos Reis. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Federal
do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1998.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
Marcos Paulo Ferreira de Góis
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Artigo recebido em 16/4/2009.
Aprovado para publicação em 19/6/2009.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009.
Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo
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PROPOSTA METODOLÓGICA PARA AVALIAÇÃO
DO RISCO DE CONTAMINAÇÃO DE ÁGUAS
SUPERFICIAIS E SUBSUPERFICIAIS POR
AGROQUÍMICOS EM BACIAS HIDROGRÁFICAS:
ESTUDO DE CASO DO RIBEIRÃO LAJEADO- PR
METHODOLOGICAL PROPOSAL FOR RISK
ASSESSMENT OF SURFACE AND SUBSURFACE
WATERCONTAMINATION BY AGRICULTURAL
CHEMICALS IN RIVER BASINS: CASE STUDY
OF THE LAJEADO - PR STREAM.
HÉLIO SILVEIRA
___________________________________________________________
Doutor do Curso de Geografia
Universidade Estadual de Maringá
E-mail: [email protected]
ERIVELTO ALVES PRUDENCIO
___________________________________________________________
Bacharel em Geografia
Universidade Estadual de Maringá
E-mail: [email protected]
MARIA CLEIDE BALDO
___________________________________________________________
Doutora do Curso de Engenharia Ambiental
Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Campo Mourão
E-mail: [email protected]
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009.
98
Proposta Metodológica para Avaliação do Risco de Contaminação ...
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009.
Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo
99
RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo, apresentar uma proposta
metodológica para avaliação do risco de contaminação de águas
superficiais e subsuperficiais por agroquímicos em bacias hidrográficas,
tomando como estudo de caso a bacia do ribeirão Lajeado, afluente do rio
Pirapó. A área de estudo situa-se no Terceiro Planalto Paranaense, entre
os paralelos de 23º20’ e 23º26’ de latitude Sul e os meridianos de 51º30’ e
51º36’ de longitude Oeste de Grenwich, abrangendo uma superfície
aproximada de 48,84 km2. O método adotado nessa pesquisa refere-se a
correlação das unidades de solo, classes de relevo, declividade, prédisposição à erosão, comprimento de vertente, amplitude altimétrica,
profundidade das unidades de solo, condutividade hidráulica, textura do
solo, litologia, drenabilidade do perfil, profundidade do lençol freático e uso
do solo. A metodologia proposta mostrou resultados muito satisfatórios,
sendo ainda necessário alguns ajustes.
Palavras-chave: Carta de risco, contaminação, agroquímico, ribeirão
Lajeado.
ABSTRACT
This paper aims to present a methodological proposal for assessing the
risk of contamination of surface and subsurface waters by agrochemicals
in river basins, taking as a case study the Lajeado stream basin, a tributary
of the river Pirapó. The study area is located on the Third Planalto
Paranaense, between the parallels 23º20’ and 23º26’ South latitude and
the meridians 51º30’ and 51º36’ west longitude of Greenwich , covering an
area of approximately 48,84 Km2 The adopted method in this study refers
to the correlation of the soil properties, types of relief, slope, erosion prearrangement, length of slope, altimetric amplitude, depth of the soil
properties, hydraulic conductivity, soil texture, lithology, profile draining, depth
of water table and soil use. The proposed methodology showed very
satisfactory results, but some adjustments are still necessary.
Keywords: Letter of risk, pollution, agrochemicals, Lajeado stream.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009.
100
Proposta Metodológica para Avaliação do Risco de Contaminação ...
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009.
Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo
101
1 INTRODUÇÃO
A bacia hidrográfica é reconhecida como unidade espacial, célula
básica na análise ambiental, que permite conhecer e avaliar seus diversos
componentes e os processos e interações que nela ocorrem. Portanto a
visão sistêmica e integrada do ambiente está implícita na adoção desta
unidade fundamental (Botelho e Silva, 2004).
Ao analisar características como clima, cobertura vegetal, geologia,
tipos de solo, topografia, uso atual do solo e drenagem, pode-se chegar a
um zoneamento adequado de usos do solo na bacia. Dessa maneira, as
informações sobre o potencial de infiltração e escoamento superficial são
importantes para a implantação de vários tipos de atividades de engenharia,
tais como estradas, pequenas barragens, ocupação de áreas urbanas e
rurais, além de se determinar a qualidade da água utilizada para o
consumo, dentre outros (NEVES et al., 1998).
Segundo Lanna (1997), os recursos hídricos são bens de relevante
valor para o bem estar de uma sociedade. A água é um bem de consumo
fundamental em quase todas as atividades humanas. Com o aumento da
intensidade e variedade desses usos, sem qualquer planejamento, são
muitos os impactos gerados nas bacias hidrográficas. Neste sentido, a
modernização da agricultura, ao exigir uso de grande quantidade de
agroquímicos para o controle de pragas, ervas daninhas entre outros tipos
de agentes nocivos ao crescimento e desenvolvimento de diversas culturas,
contribui fortemente na dispersão de substâncias nocivas ao ambiente
Spadotto e. al. (1998) e Pinheiro (2004).
A agricultura moderna, voltada para a grande produtividade, é
altamente tecnificada e dependente em insumos agrícolas. Dentre todos
esses insumos utilizados nas lavouras, os agrotóxicos correspondem por
uma grande parcela. O uso de agroquímicos nesses sistemas de produção
gera impactos no ambiente principalmente nos mananciais e água
subterrânea (VANDRESSEM, STIPP, 2004).
Aliado a isso, esse modelo de produção agrícola estabelecido no
Brasil a partir dos anos 1960, desenvolveu-se sem um prévio estudo de
impacto em bacias hidrográficas, ou seja, sem questionar os níveis de
compactação pelo uso de máquinas agrícolas, perda de solo por
escoamento superficial e redução da proteção natural junto aos cursos
d’água, Spadotto e Gomes (2004).
Ao estudar a bacia do córrego do Espraiado, em Ribeirão Preto/
SP, Spadotto et al (2002), identificaram áreas de solos que apresentavam
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009.
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Proposta Metodológica para Avaliação do Risco de Contaminação ...
potencialidades de infiltração e escoamento de águas superficiais, que
propiciaram informações quanto aos níveis de risco relacionado à
contaminação do lençol freático e mesmo do Aquífero Guarani. Esses
autores concluíram que o potencial de infiltração de águas pluviais no solo,
classificados como alto, indica condição ambiental de vulnerabilidade do
solo, ante a carga de agroquímicos utilizados na lavoura.
Considerando-se que o ribeirão Lajeado constitui uma bacia
hidrográfica de segunda ordem de ramificação e encontra-se a montante
da bacia do rio Pirapó e do ponto de captação de água para a população
urbana de Maringá-PR, com aproximadamente 300 mil habitantes, tornase de fundamental importância o conhecimento dos potenciais riscos de
contaminação de águas superficiais e subsuperficiais por agroquímicos
para a gestão desse corpo hídrico. Em razão deste fato, muitos trabalhos
vêm sendo desenvolvidos no sentido de estabelecer a relação entre
sistema de produção agrícola e a degradação do meio ambiente, visando
detectar e monitorar os impactos negativos da moderna agricultura no
ambiente.
Portanto o objetivo deste trabalho consiste em apresentar uma
proposta metodológica para avaliar o potencial de risco de contaminação
de águas superficiais e subsuperficiais por agroquímicos na bacia do
ribeirão Lajeado, afluente do rio Pirapó.
2 MÉTODO
A área de estudo situa-se no Terceiro Planalto Paranaense, entre
os paralelos de 23º20’ e 23º26’ de latitude Sul e os meridianos de 51º30’ e
51º36’ de longitude Oeste de Grenwich. Abrange uma superfície aproximada
de 48,84 km2 e refere-se à bacia do ribeirão Lajeado, que serve de limite
entre os municípios de Arapongas e Sabáudia, na alta bacia do Rio Pirapó
(Figura 1).
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009.
Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo
103
Figura 1 - Localização da área de estudo.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009.
104
Proposta Metodológica para Avaliação do Risco de Contaminação ...
Os atributos básicos considerados para realização da carta de
potencial de risco de contaminação por agroquímicos, foi a textura e a
profundidade dos solos e a situação na paisagem, a classe dos solos,
drenabilidade, declividade do terreno, o tipo de rocha, uso do solo,
precipitação pluviométrica, condutividade hidráulica, densidade do solo,
densidade de drenagem, amplitude altimétrica, comprimento médio de
vertente, declividade média. A Figura 2 apresenta um fluxograma que
sintetiza toda metodologia utilizada no desenvolvimento do trabalho.
Através das cartas topográficas de base foram produzidas as cartas
temáticas da rede de drenagem, declividade, infra-estrutura, hipsometria
e os perfis transversais e longitudinais.
A carta de declividade foi elaborada de acordo com De Biasi (1971),
adotando as declividades preconizadas por Lemos e Santos (1996), onde
permitiu classificar o relevo em plano (0 a 3%), suave ondulado (3 a 8%),
ondulado (8 a 20%) e forte ondulado (20 a 45%). Essas mesmas
declividades serviram de base para determinar classes de declividade e
predisposição à erosão como foi demonstrado IBGE (1995) onde 0 a 3%
representa áreas com declividade e predisposição à erosão muito fraca;
3 a 8% fraca; 8 a 20% média; 20 a 45% forte; 45 a 75% muito forte e maior
que 75% extremamente forte.
Para a determinação declividade média foram utilizadas amostras
circulares (10Km2), por unidade de solo de acordo com Koffer (1982) onde
Dm = E . N/636,6 onde, E = equidistância das curvas de nível em mm e N
= número médio de curvas de nível.
Através do programa surfer 8 foi possível produzir o modelo digital
do terreno ou croqui da bacia através da digitalização das curvas de nível
em AutoCAD 2002.
A carta geológica foi baseada nas informações descritas nos
levantamentos dos perfis de solos juntamente com as visitas a campo.
Esse material cartográfico foi elaborado utilizando o programa AutoCAD
2000 e Spring 4.01.
A carta com as classes de solos encontradas na área foi obtida no
levantamento semidetalhado dos solos da bacia do ribeirão Lajeado,
produzida pela Embrapa (1980) na escala 1:50.000. Essa carta original
sofreu as devidas alterações dos nomes das unidades de acordo com a
nova classificação estabelecida pela Embrapa (1999).
Através da descrição morfológica, apresentada no memorial
descritivo do levantamento semidetalhado dos solos realizados pela
Embrapa (1980) foi possível obter as informações referentes às classes
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009.
Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo
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texturais de cada unidade de solo, drenabilidade e situação na paisagem.
Os levantamentos de campo serviram para determinação da profundidade
dos solos, os tipos de uso e coleta de amostras para determinação da
condutividade hidráulica e densidade do solo.
A classe de drenabilidade de cada solo adotado é aquela proposta
por Lemos e Santos (1996), onde excessivamente drenado corresponde
a classe onde a água é removida do solo muito rapidamente, seja por
excessiva porosidade e permeabilidade do material, seja por declividade
muito íngrime, seja por ambas.
Acentuadamente drenado é quando a água é removida rapidamente
no perfil, sendo o equivalente de umidade médio do perfil, de maneira
geral, superior a 18g de água/100 g de solo, e a maioria dos perfis têm
pequena diferenciação de horizontes, sendo normalmente de textura
média a argilosa, porém sempre com muitos poros e bem permeáveis.
Os solos classificados como bem drenados são aqueles onde a
água é removida com facilidade, porém não rapidamente, e os solos dessa
classe comumente apresentam texturas argilosas ou médias.
De acordo com a Lemos e Santos (1996) as classes de solos mais
favoráveis ao escoamento superficial são aquelas que apresentam
profundidade menor ou igual a 50cm (raso), maior que 50cm e menor que
100cm (pouco profundo), maior que 100cm e menor que 200cm (profundo)
e maior que 200cm de profundidade (muito profundo).
A caracterização do regime pluviométrico foi realizada com dados
da estação climatológica que apresentou características de altitude,
topografia e latitude que mais se aproximaram com aquelas encontradas
na área de estudo. A escala de análise utilizada foi a mensal, sazonal e
anual, com dados precipitação de todo o período de análise disponível
pela estação climatológica. Foi também realizado o balanço hídrico
segundo Thorntwaite e Mather (1955) através do programa desenvolvido
por Sentelhas et al. (1999). Esse balanço serviu para caracterizar o conteúdo
de água no solo, identificando os períodos de maior déficit e excedente
hídrico, fundamental para determinação dos períodos com maior potencial
para infiltração e escoamento superficial.
O levantamento do uso do solo foi também muito importante para
definir o potencial de infiltração e escoamento superficial. Essas
informações foram obtidas com imagem de satélite e checagem em
campo, diferindo os usos com plantio direto, plantio convencional,
pastagem, floresta nativa, eucalipto.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009.
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Proposta Metodológica para Avaliação do Risco de Contaminação ...
Figura 2 – Fluxograma da metodologia proposta.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009.
Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo
107
Quanto à densidade de drenagem foi utilizado o parâmetro definido
por Horton (1945), adaptado por Koffler (1982), expresso pela seguinte
equação:
Dd = Lt / A onde:
Dt = densidade de drenagem;
Lt = corresponde ao comprimento total dos rios da amostra circular;
A = área de 10Km2.
Portanto, a densidade de drenagem permite definir as áreas com
maior ou menor escoamento superficial da água. As classes adotadas
nesse trabalho foram adaptadas com base nas classes sugeridas por
Beltrame (1994) onde os valores de densidade (Km / Km2 ) foi definida da
seguinte forma: menor que 0,03 é baixa e de 0,03 até 0,5 mediana; acima
de 0,5 alta.
A amplitude altimétrica por unidade de solo foi obtida através da
diferença entre a altitude máxima e mínima da topografia.
O comprimento médio de vertente (m) consiste em medir, a
distância entre os pontos de cotas mais elevados e o canal de drenagem
procurando medir somente os comprimentos das linhas normais aos
canais de drenagem. Portanto CVm = Li / n, onde Li = ∑ dos
comprimentos de vertente e o número de medições efetuadas. Através
da divisão do comprimento médio da vertente pela amplitude altimétrica
pode-se perceber a variação de 1 metro de altura com relação ao
comprimento do terreno. Sendo assim foi dividido em classes essas
variações para melhor compreender a relação entre infiltração e
escoamento superficial como segue:
Queda de 1 metro de altura até 5 metros de distância – muito forte
Queda de 1 metro de altura de 6 a 13 metros de distância – forte
Queda de 1 metro de altura de 14 a 25 metros de distância – média
Queda de 1 metro de altura de 26 a 100 metros de distância –
fraca
Queda de 1 metro de altura acima de 100 metros de distância –
muito fraca
A condutividade hidráulica está relacionada com a velocidade com
que a água se movimenta através do solo e foi realizada de acordo com a
Embrapa (1997), através da fórmula:
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009.
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Proposta Metodológica para Avaliação do Risco de Contaminação ...
Ko = Q x L
onde:
AxHxt
Ko = condutividade hidráulica do solo saturado em cm/h ou mm/h;
Q = volume em ml através da amostra, ou seja, o valor da última
leitura, num total de 8, uma a cada hora;
L = comprimento da amostra, em cm;
H = é a altura do bloco de solo e da coluna de água;
A = área do cilindro de solo em cm2;
t = tempo em horas
Nesta pesquisa foram coletadas várias amostras para cada classe
de solo encontrada na bacia hidrográfica. Após a determinação da
condutividade hidráulica (Ko) em laboratório os dados foram classificados
de acordo com Gomes et. al. (2002) como segue abaixo:
Alto.............................12,5 – 25 cm/h ou 125 – 250 mm/h
Médio .........................2,5 – 12,5 cm/h ou 25 – 125 mm/h
Baixo ......................... 0,25 – 2,5 cm/h ou 2,5 – 25 mm/h
Através do cruzamento sistematizado e interpretação integrada
dos principais atributos levantados por meio de mapa de correlação,
chegou-se as principais classes do potencial de infiltração e escoamento superficial.
As classes do potencial de potencial de risco de contaminação das
águas superficiais e subsuperficiais foram divididas em quatro classes.
Classe I – Baixo potencial de risco de contaminação das águas
superficiais e alto potencial de risco de contaminação das águas
subsuperficiais.
Classe II – Médio a baixo potencial de risco de contaminação das
águas superficiais e média a alto potencial de risco de contaminação das águas subsuperficiais.
Classe III – Médio a alto potencial de risco de contaminação das
águas superficiais e média a baixo potencial de risco de contaminação das águas subsuperficiais.
Classe IV – Alto potencial de risco de contaminação das águas superficiais e baixo potencial de risco contaminação das águas
subsuperficiais.
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3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Observou-se para a área de estudo que o maior potencial de risco
de contaminação por agroquímicos são para as águas superficiais por
não se encontrar locais específicos para recarga de aqüíferos, apenas
para o lençol freático.
Os períodos mais críticos, para a contaminação de águas superficiais e subsuperficiais correspondem a primavera e verão onde ocorre
68% do total de precipitação anual.
Deve-se considerar também que as classes apresentadas não são
estáticas, pois à medida que ocorre uma saturação do solo as classes
vão se alterando, ou seja, a classe I pode passar para II e assim sucessivamente. O inverso pode ocorrer nos períodos secos onde a classe IV
pode passar para a classe III.
Através da metodologia proposta constatou-se que os resultados
foram muito satisfatórios, sendo ainda necessário alguns ajustes.
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Artigo recebido em 3/4/2009.
Aprovado para publicação em 30/5/2009.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009.
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TERRITORIALIDADE E TURISMO
DOS PARQUES NACIONAIS:
IGUAÇU (BRASIL E ARGENTINA) E
GREAT SMOKY MOUNTAINS (EUA)*
TERRITORIAL AND TOURISM
IN NATIONAL PARKS:
IGUAÇU (BRAZIL AND
ARGENTINA) AND GREAT
SMOKY MOUNTAINS (USA)
MAURO JOSÉ FERREIRA CURY
___________________________________________________________
Mestre em Geografia,
Doutorando em Geografia (UFPR),
Professor da UNIOESTE –
Campus de Foz do Iguaçu
E-mail: [email protected]
ALLAN SCOTT MILLS
___________________________________________________________
Urban and Regional Studies Program, Box 842028
Virginia Commonwealth University
Richmond, Virginia 23284-2028, USA
E-mail: [email protected]
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009.
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115
RESUMO
O artigo tem o objetivo de analisar de forma comparada a territorialidade
estabelecida pelos Parques Nacionais do Iguaçu (Brasil e Argentina) e
Great Smoky Mountains (EUA). Observam-se de forma empírica as
relações com o Turismo intrínseco na visitação e atividades estabelecidas,
tais como a educação e a manutenção do entorno e das comunidades
locais. A discussão apresentada nos remete a um olhar sobre os conceitos
estabelecidos, em função das necessidades e anseios entre
ambientalistas, comunidades científicas, políticas, educacionais e sociais.
É destacável a função dos centros de visitantes para a conscientização
qualificação da visita em parques nacionais.
Palavras-chave: Territorialidades, Parque Nacional do Iguaçu, Great
Somoky Mountains National Park, Turismo.
ABSTRACT
The objective of this paper is to analyze by comparison the territorialtiy
established by the iguacu national parks of Brazil and Argentina, as
compared to Great Smoky Mountains National Park in the United States of
America. Similarities observed between the iguacu and Great Smoky
Mountains parks include intrinsic tourism, an education function, level of
maintenance, and relations with local communities. The discussion
presents common concepts established as a function of the necessities
and desires of environmentalists, the scientific community, and others. A
principal function of visitor centers in both the iguacu and Great Smoky
Mountains national parks is the raising of visitor awareness regarding
appropriate behavior while visiting these parks.
Keywords: territoriality, Parque Nacional do Iguaçu, Great Somoky
Mountains National Park Tourism.
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1 INTRODUÇÃO
O artigo faz uma análise reflexiva sobre a função dos parques nacionais e da atividade turística sob o modelo introduzido pelos Estados
Unidos da América (EUA) e a difusão desse na maioria dos países em
desenvolvimento, no caso do Brasil e da Argentina. É resultado de observações empíricas realizadas entre os anos de 2001 a 2008, nos parques
nacionais de maior visitação do Brasil e Argentina (Iguaçu), e dos EUA
(Great Smoky Mountains). Por se tratar de paisagens e culturas distintas,
esses parques se fundem no objetivo de instalação, progresso científico,
educação e visitação para as atividades de lazer, muitas vezes representadas como imagens do ecoturismo associadas ao desenvolvimento sustentável e até da soberania nacional de um país. Justifica-se este artigo
pelas contribuições às comunidades locais do entorno e para a
sustentabilidade social.
2 PENSAMENTO DA PRESERVAÇÃO E DA CONSERVAÇÃO AMBIENTAL
Os paradigmas estabelecidos com o estabelecimento dos parques
nacionais na modernidade estão intrínsecos na conceituação de preservação. A história da preservação de áreas naturais é registrada no ano de
252 a.C., quando o Imperador Ashoka, da Índia, ordenou a proibição da
caça, pesca e o corte de árvores em uma extensa área de seu domínio.
Posteriormente, em 684, na Ilha de Sumatra (Indonésia), o Rei de Srivijya
demarcou a criação de uma área protegida (MILLER, 1997, p. 4).
A iniciativa de formação de parques nacionais na modernidade surgiu nos EUA, com a criação do Parque Nacional de Yellowstone, estabelecido em 1872 entre os Estados de Montana, Wyoming e Idaho. Dentre as
atrações, destacam-se o exuberante ecossistema temperado e os gêiseres
que foram objetos de defesa da instalação e modelo dessas unidades de
conservação (UCs). No ano de 1916, foi estruturado o National Park Service
(NPS), que tem entre seus objetivos a organização e a visitação turística
nos parques nacionais, monumentos nacionais, museus e outras categorias. Em 1998, a receita anual sobre a visitação, foi em torno de US$ 10
bilhões e gerou 200 mil empregos.
A crescente visitação aos parques nacionais nos EUA, desde os
anos de 1950, motivou o NPS, a direcionar o comportamento do visitante
nessas UCs. Foram criados os centros de visitantes (CVs), estabelecen-
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do normas e parâmetros educacionais entre as estruturas construídas,
aos interpretadores ambientais e o visitante.
As presenças humanas em áreas naturais ambientalmente protegidas passaram a ser alvo de severas discussões e culminou, em 1948,
no Congresso da Organização das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultura (UNESCO). Até então deveriam ser removidas todas
as populações locais das áreas protegidas, como garantia da preservação. Os problemas se agravaram, principalmente com o estabelecimento
dos parques nacionais africanos de cujas áreas as populações foram removidas. Os problemas das dependências desses povos eram de alimentação e dos cultos religiosos relacionados aos recursos naturais (lagos, rios, animais, plantas) que passaram a ser protegidos, e não foi mais
possível o acesso. Comunidades se separaram, outras reivindicaram a
sua presença.
“Conservação” passou a ser o termo mais apropriado para essas
áreas, ou seja, com a presença humana atrelada aos cuidados ambientais.
Nos anos 70, as novas políticas ambientais visavam à ampliação das áreas naturais. Estas foram vistas como alvo para a conservação, representando um meio de assegurar a continuidade das espécies que estavam
sob o perigo da extinção, e vêm construindo-se os conceitos perante a
realidade de cada local.
A visitação em um parque nacional pode ser compreendida como
um conjunto de atividades educacionais, recreativas e de interpretação
ambiental, realizadas em contato com a natureza, obedecendo às diretrizes dos planos de manejo, nas quais o objetivo é propiciar ao visitante a
oportunidade de conhecer, de forma lúdica, os atributos e valores
ambientais protegidos por uma UC.
3 MATERIAL E MÉTODOS
Trata-se de um estudo empírico, com fontes primárias e secundárias, do período de 2001 a 2008. A pesquisa de campo teve um caráter
qualitativo, com entrevistas direcionadas aos administradores, funcionários e voluntários (público interno) do Great Smoky Mountains (EUA), que
estiveram reunidos, de 3 a 9/9/2001, em um evento denominado “Outdoor
Recreation And Rural Tourism Consortium”, promovido por Eastern Illinois
University, Murray State University, University of Florida, Virginia
Commonwealth University e Middle Tenesse State University. Essa atividade anual consiste em permanecer por uma semana no Great Smoky
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Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills
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Mountains, com alunos, professores e coordenados pela ONG Great Smoky
Mountains Institute at Tremont, os quais gerenciam as atividades educacionais e de pesquisa no parque nacional. Esse programa é validado pelas
universidades participantes e equivale a créditos aos diferentes programas de graduação e de pós-graduação.
No Iguaçu, as entrevistas foram realizadas com os administradores e funcionários dos parques nacionais (Argentina e Brasil), entre os
meses de setembro de 2001 a maio de 2002, estendendo-se até 2008. As
entrevistas tiveram caráter de acrescentar informações à pesquisa desenvolvida nesses parques nacionais, relativas à valorização e função dos
CVs para a visitação.
Com o objetivo de uma qualidade de exploração do tema proposto,
foram realizadas entrevistas com os administradores, biólogos, educadores ambientais, rangers (guarda-parques) e funcionários dos CVs. R. J.
Richardson (1999, p. 207) considera a entrevista um
[...] instrumento que além de proporcionar a proximidade entre as
pessoas tem a possibilidade de penetrar na mente, vida e definição dos indivíduos, sendo assim fundamental na pesquisa em
Ciências Sociais.
A técnica utilizada foi a entrevista não estruturada, apoiada nos
estudos de J. Maisonneuve e J. Margot-Duclot (1964, p. 228), com os seguintes objetivos:
a) obter informações do entrevistado seja de fato que ele conhece,
seja de seu comportamento;
b) conhecer a opinião do entrevistado, explorar suas atividades e
motivações;
c) tratar de um problema comum – discutir uma decisão a ser tomada conjuntamente, estabelecer um plano de trabalho ou resolver um problema pessoal pendente entre duas pessoas;
d) avaliar as capacidades do entrevistado, visando à sua orientação ou seleção.
A estruturação da entrevista foi realizada com o propósito de verificar a importância dos CVs, diagnosticar o papel da interpretação ambiental,
analisar as estratégias para a administração da visitação em parques nacionais e possíveis problemas ambientais que as UCs enfrentam, contribuindo assim para uma melhor interpretação do tema.
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4 RECURSOS NATURAIS E PARQUES NACIONAIS
O Turismo é um fenômeno ambiental, social e econômico – depende dos setores primário, secundário e terciário de produção e serviços
–, e de difícil conceituação. Essa atividade consiste em uma gama complexa e numerosa de pessoas que modificam o lugar em que são turistas,
provocando consequências de ordem positiva e negativa.
A atividade turística requer um planejamento aplicado em áreas
ambientalmente protegidas. D. V. M. Ruschmann (2000, p.165) afirma:
É praticamente impossível estabelecer um modelo universal nos
espaços naturais direcionados ao turismo, mas, não podemos
omitir a necessidade de planejar esta atividade para não destruir o
próprio turismo.
Por essa afirmação, a diferença entre os espaços naturais provoca dificuldade em função dos recursos encontrados em cada UC, mas
não impede estabelecer regras comportamentais ao visitante que chega
até esses espaços.
M. J. Dourojeanni e M. T. J. Pádua (2001, p. 119) apontam
[...] o ecoturismo como uma das colunas de crescimento do turismo. O relatório de Blackwelder e Co. (1997) indica que a Organização Mundial do Turismo – OMT, estima que o turismo de aventuras
captou 10% e que o setor cresce 30% ao ano.
Em função da elevada oferta da biodiversidade em países tropicais, é notável que o desenvolvimento da atividade turística possa estar
atrelado à economia desses países. De modo geral, a atividade turística
vem crescendo a cada ano, seja no número de turistas, seja no número
de pessoas empregadas no setor, e, notavelmente, se destacando como
a economia de maior crescimento mundial.
O. Tulik (1999, p. 27) observa que “[...] os recursos naturais básicos constituem elementos primários da oferta, e, embora presentes em
todos os lugares, só podem ser considerados turísticos, quando explorados para tal fim.”
Os recursos turísticos naturais, aliados às necessidades de proteção ambiental, são elementos da natureza com determinada atração. Com
a difusão dos meios de comunicação em uma sociedade globalizada, muito
se fala sobre um Turismo de moda, porém os grupos sociais vêm
conscientizando-se da necessidade de proteção ambiental. Em função
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das grandes concentrações urbanas, essas áreas vêm apresentando um
considerável aumento em visitação, motivada pela necessidade de o homem estar em contato com a natureza.
A popularidade dos parques nacionais foi ampliada, principalmente
nos EUA. Os parques representam elementos simbólicos da cultura e
orgulho em conhecer o maior número de UCs. São símbolos distintivos
para os municípios próximos, para que possam dinamizar suas receitas e
melhorar a qualidade da oferta e infraestrutura.
O Turismo de natureza faz uso dos recursos naturais e objetiva a
preservação ou conservação de paisagens compostas de elementos como
água (rios, lagos, mares, cachoeiras, corredeiras), vegetação, topografia
e fauna. A atividade de canoagem, rafting, pesca esportiva, caminhadas
em trilhas autoguiadas ou não, observação da vida selvagem e outras
atividades de lazer estão relacionadas ao Turismo.
Para S. Kinker (2002, p. 9):
O ecoturismo é um segmento relativamente novo do turismo de
natureza. O que o diferencia dos outros é que ele abrange em sua
conceituação a experiência educacional interpretativa, a valorização das culturas tradicionais locais, a conservação da natureza e
do desenvolvimento sustentável.
A função do ecoturismo em áreas ambientalmente protegidas busca alternativas de sustentabilidade dos recursos naturais. Observa-se um
aumento da demanda em núcleos receptores com vocação ao Turismo
de natureza, portanto faz-se necessário o planejamento dessas áreas
voltadas para o uso turístico.
Os atrativos naturais para C. R. Goeldner, J. R. B. Ritchie, e R. W.
McIntosh (2002, p. 151), “[...] são a ‘mola propulsora’ que leva as pessoas
a viajar. Os grandes parques nacionais dos Estados Unidos, Canadá, Índia, Austrália e Japão são alguns exemplos.” As atividades de Turismo
motivadas pela proximidade de um parque nacional nesses países atraem milhares de visitantes. São áreas de atrações turísticas muito importantes para alguns países ou Estados, e tanto empresas do setor privado
quanto do setor público operam esses parques.
S. Irving e J. Azevedo (2002, p. 51) consideram “[...] os parques nacionais
a tipologia mais conhecida de áreas protegidas e também a mais importante para o ecoturismo entre as áreas de proteção integral, pelas possibilidades de uso para a recreação e lazer.”
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M. C. Beni (2000, p. 59) afirma que:
As áreas de conservação ambiental no Brasil são verdadeiros polos
potenciais de Turismo, devendo merecer maior atenção por parte
dos governantes em divulgar e promover o Turismo nacional e
internacional.
Deve-se, portanto, buscar uma melhoria na qualidade de atendimento ao visitante, tanto nos serviços quanto nos equipamentos oferecidos, associados à proteção dos espaços naturais.
A conservação passou a ter um significado em utilizar os recursos
naturais, de forma racional, sem causar danos ao meio ambiente, garantindo esses espaços para as futuras gerações. Apoiadas nesse pensamento surgem às discussões sobre ecodesenvolvimento e desenvolvimento sustentável. Os parques nacionais, sendo a principal categoria de
áreas protegidas em seus alicerces funcionais de conservação, educação e lazer, têm o Turismo como uma forma de sustentação econômica
na atualidade, com foco para o futuro de um Turismo sustentável.
5 CRIAÇÃO DAS ÁREAS NATURAIS PROTEGIDAS:
REFLEXO DA CONSERVAÇÃO DA NATUREZA E
ESTABELECIMENTO DOS PARQUES NACIONAIS
Quando se usa a denomiação “parques nacionais”, imagina-se uma
área delimitada, preservada, com recursos naturais diferenciáveis (cobertura vegetal, aspectos geomorfológicos, caracterização geológica,
hidrologia, vida animal, etc.), protegida de qualquer transformação
provocada pela sociedade urbano-industrial.
Essas áreas foram criadas em benefício das populações urbanas
norte-americanas que poderiam, como visitantes, apreciar as belezas
naturais. Esse modelo de conservação “moderna” espalhou-se pelo resto
do mundo, justificando a criação de áreas que deveriam permanecer
intactas (DIEGUES, 2001, p. 53).
Para os ambientalistas, esses espaços deveriam ser intocáveis,
precisando receber proteção total e sendo permitidas em seu interior apenas atividades de uso recreacional ou educativo. Aos princípios de formação dessas ideias vêm arraigados os princípios da “natureza-paraíso” e
“beleza cênica”, com um valor religioso em sua fundamentação, trazido
pelos europeus, imigrantes na América, na busca exacerbada pela identidade nacional (CURY, 2003).
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009.
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A maioria das populações que se encontrava nesses locais foi afastada das áreas demarcadas pelos parques nacionais. Foi o que ocorreu
com os índios cherokee que habitavam o Great Smoky Mountains, nos
Montes Apalaches. Hoje, a comunidade está numa cidade que leva o nome
de sua tribo no entorno leste do parque nacional, e toda a cidade é
tematizada com serviços de Turismo, como hospedagem, alimentação,
museus e cassino. Na maioria, o gerenciamento das atividades de serviços é realizado pelos cherokee, o que lhes garante certa sustentabilidade
econômica.
Com a colonização em outros países americanos, cidadãos com
espírito descortinado deram os primeiros passos para a criação dos Parques Nacionais de Banff (Canadá, em 1885), El Chico (México, em 1898),
Nahuel Huapi (Argentina, em 1903), Vicente Perez Rosales (Chile, em
1926), Henri Pitier (Venezuela) e Itatiaia (Brasil, em 1937). Na Nova Zelândia,
os parques foram criados a partir de 1894; na Austrália, em 1898. No Continente Africano, os governos coloniais criaram os Parques Nacionais
Kruger, na África do Sul, em 1898, e Seregueti, em Tanganica, para impor
controles à exploração excessiva da fauna silvestre (MILLER, 1997, p. 5).
O vocabulário das indicações da evolução conceitual está composto de termos como “preservação ambiental”, “conservação” e até “sistema de unidades de conservação”. As tentativas de conceituação e manejo dessas UCs foram discutidas em eventos internacionais, mesmo com
parques nacionais, que em uma esfera maior se inserem como UC.
A concepção de natureza passa a, depois de 20 anos da Conferência de Estocolmo, que foi o marco do desenvolvimento ambientalista
mundial e Conferência RIO-92, a tratar de novos paradigmas ambientais
mundiais, principalmente no cuidado com a biodiversidade, poluição e
esgotamento dos recursos naturais. Nessa época, o ecoturismo surgiu
como alternativa, embasado no discurso do desenvolvimento sustentável.
6 UM OLHAR NAS TERRITORIALIDADES DOS PARQUES
NACIONAIS GREAT SMOKY MOUNTAINS (EUA) E
IGUAÇU (BRASIL E ARGENTINA)
A análise sobre as territorialidades será realizada pela paisagem,
instalação dos Parques Nacionais, problemas e infra-estrutura de visitação
de forma comparativa.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009.
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Territorialidade e Tursimo dos Parques Nacionais ...
6.1 A PAISAGEM
6.1.1 Great Smoky Mountains
Localiza-se ao sul dos Montes Apalaches na divisa dos Estados do
Tennessee e da Carolina do Norte, o parque tem uma área de 800 milhas
quadradas, com clima temperado e uma biodiversidade significante para
um território tão explorado, onde existem mais de 10.000 espécies catalogadas. As altitudes variam de 875 a 6.643 pés, o que permite ao visitante
observar as diferentes estruturas vegetais de campos, passando pelas
florestas de abetos, pelas coníferas até o bálsamo. A paisagem passou
por profundas transformações. As rochas são na maioria sedimentares,
resultantes de acumulação de silte, areia e cascalho de um mar raso, que
existiu por volta de 2 milhões de anos. Entre 200 e 300 milhões de anos
com a movimentação das placas tectônicas, os dobramentos horizontais
resultaram no enrugamento dos Montes Apalaches, que estão entre os
mais velhos do mundo. É rica a hidrografia local com riachos e cachoeiras, que perfazem aproximadamente 2.100 milhas de rios e córregos.
(HOUK,1993).
6.1.2 Parques Nacionais do Iguaçu (Brasil-Argentina)
Os Parques Nacionais levam essa denominação por estarem localizados no baixo Rio Iguaçu. Têm como principal atrativo as Cataratas
do Iguaçu.
O Parque Nacional del Iguazú, na Argentina, localiza-se no nordeste da Província de Misiones, com uma altitude de 200 m na região ocidental, até 350 m no extremo sudeste (CRESPO, 1982).
No Brasil, o Parque Nacional do Iguaçu está em uma área de domínio da União e sujeita à Lei de Segurança Nacional. A fronteira com a Argentina se faz ao sul pelo Rio Iguaçu, desde a foz do Rio Santo Antônio, no
município de Capanema. Por esse divisor, encontram-se a Reserva Nacional e o Parque Nacional del Iguazú, totalizando uma área de 67.620 ha.
Unindo-se com o lado brasileiro, existem 252.882,5 ha de área protegida.
A Reserva Nacional está localizada na Região Sul, no extremo oeste
do Estado do Paraná, na bacia do baixo Rio Iguaçu. Além da Argentina, o
entorno do parque é feito pelos os municípios de Foz do Iguaçu, Santa
Terezinha de Itaipu, São Miguel do Iguaçu, Serranópolis do Iguaçu,
Matelândia, Céu Azul, Santa Tereza do Oeste, Lindoeste, Santa Lúcia,
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009.
Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills
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Capitão Leônidas Marques e Capanema (IBAMA, 2000 – Plano de Manejo,
Resumo Executivo).
O clima é do tipo subtropical mesotérmico úmido com verões quentes (médias máximas de 37ºC), influenciados pela massa polar atlântica,
provocando invernos frios (médias mínimas de 12ºC), com ocorrência de
geadas e a presença de chuvas em todos os meses e precipitação anual
de 1.600 a 2.000 mm. (IBAMA, 1994; APN, 1998).
O Rio Iguaçu abrange aproximadamente 57.329 km² em área brasileira, sem os afluentes da margem catarinense até União da Vitória, que
adicionados aumentariam a bacia para 70.799 km². O rio tem suas origens na borda ocidental da Serra do Mar e apresenta um percurso de 910
km até a foz no Rio Paraná (IBAMA, 1994).
Em seu curso, a largura é variável de 50 a 1.800 m, com a presença de corredeiras, pelos desníveis que aparecem em seu leito. As Cataratas do Iguaçu com a forma de ferradura estão localizadas nesse rio.
A fenda tectônica que abre o canyon mede de 65 a 100 m de largura. Sua extensão é a maior do mundo com 1.200 m. Do lado brasileiro são
800 m e do lado argentino, 1.900 m, totalizando uma frente semicircular
de 2.700 m. Com uma altura aproximada de 82 m, dependendo da vazão
tem em média 31 grandes saltos, e 70% dos saltos estão em território
argentino. Portanto, a visão panorâmica pode ser contemplada do lado
brasileiro (CURY, 2003).
6.2 DOS ANTECEDENTES À INSTALAÇÃO
6.2.1 Great Smoky Mountains National Park
O parque busca resgatar uma diversidade cultural de povos que
habitaram a região. Há o registro de povos pré-históricos de aproximadamente 9.000 anos.
Os colonizadores europeus, no século XVIII, encontraram os índios cherokee. A maioria destes foi afastada forçosamente para o Oklahoma,
e hoje no entorno leste do parque uma cidade com alguns descendentes
leva o nome da tribo. Antes da instalação desse parque, as comunidades
viviam da exploração de madeira e de carvão mineral, caça e agricultura.
No século XX, período dos avanços tecnológicos, a indústria madeireira era a principal atividade econômica. As serrarias estavam em expansão com os sítios urbanos, mas os recursos naturais estavam exaurindo-se.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009.
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Territorialidade e Tursimo dos Parques Nacionais ...
Na década de 20, grupos de backpackers1, pescadores de trutas,
motoristas que estavam interessados em construir estradas com belas
paisagens participaram de movimentos dedicados à instalação desse
parque. Em 1934, os Estados do Tennessee e Carolina do Norte doaram
ao governo norte-americano 300 acres de terras para a criação do Parque
Nacional.
Em 1940, o Presidente Franklin D. Roosevelt inaugurou a Rodovia
Newfoud Gap, que atravessa o parque, e do mirante entregou à população
norte-americana uma área para ser desfrutada como lazer e “para a apreciação dos povos”. Somente 20% da vegetação de floresta temperada e
coníferas estiveram preservadas nas partes mais altas. 1.200 propriedades rurais foram desapropriadas e algumas transformadas em prédios
históricos. Poucas ainda construídas pelos colonos nas partes baixas,
em Cades Cove, até 2001 foram propriedades particulares no Parque
Nacional. (HOUK, 1993).
6.2.2 Parque Nacional do Iguaçu (Brasil e Argentina)
Na Província de Misiones, Argentina, pela Lei Nacional 6.712, de
11/10/1909, a autorização do Poder Executivo, concedeu as reservas e
terras em torno das Cataratas do Iguaçu para a criação de um parque
nacional. O arquiteto Carlos Thays foi o responsável pelo primeiro planejamento direcionado a um parque nacional, com estudos iniciados em 1902.
O ano de 1934 foi marcado por grandes feitos aos parques nacionais da
Argentina. A Lei Nacional 12.103 criou a Dirección (hoje Administração) de
Parques Nacionais e, simultaneamente, os grandes parques do sul: Nahuel
Haupi, Lanín, Los Alerces, Perito Moreno e Los Glaciares. Também em
Misiones foi criado o Parque Nacional del Iguazú. Portanto, iniciava-se a
história da conservação natural em terras argentinas, com a finalidade de
proteger as maiores belezas naturais do país, como os lagos, bosques e
montanhas da Patagônia e as Cataratas do Iguaçu em Misiones.
K. R. Miller (1997, p. 6) explica: “A Argentina seguiu o modelo norte-americano e canadense na forma de uma política e programa destinado a promover o hinterland inexplorado próximo.” A abertura de vias de
acesso, por ferrovias ou rodovias, na maioria das vezes, foram subvencionadas pelo governo; novas acomodações foram construídas por empresas privadas para levar turistas a esses longínquos lugares de natureza diferenciada.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009.
Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills
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Estrategicamente, a política de criação de parques nacionais na
Argentina esteve relacionada à ocupação de áreas de fronteira, onde eram
pouco claras ou sujeitas a litígio, como a região andina na divisa com o
Chile.
O Turismo é visto como um meio de desenvolvimento entre a
população, a conservação da natureza e a manutenção de fronteiras na
Argentina. O governo desse país investiu em estradas, transportes e
hotelaria, principalmente ao sul, onde Bariloche passou a ser um centro
de Turismo. Novas vilas turísticas foram criadas: Llao-Llao, Catedral, La
Angostura e Traful, no mesmo ano em que foi criado o Parque Nacional
del Iguazú: 1934.
Segundo dados da APN, entre os anos de 1940 e 1950, no governo
Perón, além da função turística e de defesa da soberania, desenvolveu-se
a preocupação pelas pesquisas ambientais nos parques nacionais. O
objetivo inicial dos parques nacionais era a proteção do patrimônio público
e dos valores cênicos excepcionais no mundo, para o desfrute da sociedade, sendo os maiores expoentes os lagos do sul e as Cataratas do
Iguaçu.
No Brasil imperial, as iniciativas de conservação ambiental partiram dos abolicionistas André Rebouças e José Bonifácio de Andrada e
Silva, em 1876. Rebouças, ao escrever Excursão ao Salto de Guairá, deixou transparecer a imagem conservacionista (PÁDUA, 2002, p. 270). Esses foram os primeiros a criticar a exploração irracional da terra, a
monocultura, o latifúndio e o trabalho escravo.
Sobre a proposta de criação dos parques nacionais no Brasil, nesse sentido, deveriam trazer benefícios palpáveis para as sociedades locais, sendo um agente de promoção e diminuindo as barreiras para o
desenvolvimento regional. Rebouças enfatizou a experiência dos parques
nacionais norte-americanos, como a presença de turistas ricos da Europa e a apresentação de um país atraente, por suas belezas naturais.
A contribuição do Turismo é mencionada para a modernização dos
meios de transportes. As belezas naturais do Brasil poderiam “[...] atrair
imigrantes, ousados naturalistas, entusiastas de florestas virgens e de
cataratas assombrosas.” (REBOUÇAS apud PÁDUA, 2002). Rebouças,
em 1876, recomendou os primeiros lugares do Brasil para essa iniciativa:
o Salto do Iguaçu e as Sete Quedas do Guairá, no Paraná, e a Ilha do
Bananal, no Rio Araguaia (PÁDUA, 2002, p. 271). No governo de Getúlio
Vargas, em janeiro de 1939, foi criado o Parque Nacional do Iguaçu.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009.
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Territorialidade e Tursimo dos Parques Nacionais ...
6.3 PROBLEMAS
6.3.1 Great Smoky Mountains
Foram analisados durante as entrevistas alguns problemas. O parque recebe o maior número de visitantes dos EUA, em função da Rodovia
Newfoud Gap, que atravessa uma das paisagens mais belas dos
Apalaches, no ponto de vista dos ambientalistas, biólogos. Rangers é o
maior problema e deveria estar fechada para veículos pesados, embora a
velocidade seja controlada em 30 milhas por hora. O parque tem 270 milhas de estradas, na maioria asfaltadas, que podem levar o visitante a
observar os diferentes tipos de vegetação de montanha temperada até as
florestas de coníferas, com uma altitude variável de 3.000 pés, e a vida
selvagem: ursos negros, coiote, esquilo vermelho, cervos e salamandras.
Em Cades Cove (planície), é possível ver nos fins de tarde um verdadeiro
congestionamento de veículos com visitantes observando animais. No
período de 2000 a 2003, o parque registrou de 9 a 13 milhões de visitantes.
Problemas com animais exóticos, como o porco cateto, que foi
introduzido pelos colonos, e com plantas, como o kudzu, trepadeira de
origem asiática que mata as árvores por sufocamento, são controlados por programas desenvolvidos pelos biólogos e administradores do
parque.
6.3.2 Parque Nacional do Iguaçu (Brasil e Argentina)
O conjunto das cataratas une a paisagem, embora seja uma área
divisora internacional, e por muitos anos as administrações dos parques
agiram com autonomia. Agora, há um diálogo entre os administradores
dos parques, principalmente após o processo de revitalização de visitação,
iniciado em 2000. A região anterior à instalação era uma fazenda, portanto
já havia uma interferência humana.
A área de uso público, argentina e brasileira, é bastante alterada,
notadamente do lado argentino, em que a exploração madeireira se fez de
forma mais intensa. Do lado brasileiro, a urbanização e os serviços turísticos de Foz do Iguaçu avançaram em direção ao parque que tem o aspecto de ilha preservada, embora haja projetos de conservação e corredores da biodiversidade em diferentes áreas naturais da Bacia do Paraná.
Na área de uso público, é presenciada uma variedade de espécies
vegetais invasoras, e dentre elas se destaca a zebrina. Iniciativas louvá-
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009.
Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills
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veis, como a mudança dos jardins do Hotel das Cataratas para plantas
nativas, foi uma recomendação do IBAMA, o que gerou sucesso.
Quanto à fauna, problemas com a visitação são observados e
monitorados. Os quatis são frequentemente alimentados pelos visitantes,
embora sejam animais selvagens que transmitem a raiva. Os mais graves problemas são: o atropelamento de animais, a caça e a retirada do
palmito no entorno do parque.
6.4
INFRA-ESTRUTURA DE VISITAÇÃO
6.4.1 Great Smoky Mountains National Park
O parque tem três centros de visitantes – Sugarlands, Oconaluftee
e Cades Cove –, providos de banheiros, bebedouros, estacionamento,
loja de souvenirs, livraria, lanchonete, um centro de interpretação e uma
sala de exibição (15 minutos) de filmes sobre o parque, exceto em Cades
Cove.
É destacável a função educacional da ONG Institute at Tremont
com os programas de classes e de diferentes faixas etárias, para as comunidades do entorno e até para turistas internacionais que se interessam pelas atividades. Há programas educacionais previamente agendados
e relacionados à Biologia, Geologia, Geografia, Turismo, lazer e artes.
A maior procura de visitantes ocorre no verão e outono. As cidades
do entorno, como Gattlinburg, Cosby/Newport, Pigeon Forge, Sevierville e
Townsend, no Tennessee; Bryson City, Cherokee, Graham County,
Haywood County e Maggie Valley, na Carolina do Norte, vivem exclusivamente do marketing que o parque proporciona, com um rigoroso calendário de eventos cuidadosamente planejado pelos conventions bureaux locais, mantendo o fluxo massivo de visitantes e assegurando a economia
local. Essas cidades suportam de três a quatro vezes a população local.
6.4.2 Parque Nacional do Iguaçu (Brasil-Argentina)
O número de visitantes tem alcançado nos últimos anos a marca
de 1 milhão por ano, em cada UC.
Na Argentina, a estrutura de visitação do parque é compreendida
por uma ampla área destinada ao atendimento do turista. Muitas trilhas já
existentes foram aproveitadas para não agredir a vegetação do parque.
Foram centralizados, subterraneamente, serviços gerais de água, gás,
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009.
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Territorialidade e Tursimo dos Parques Nacionais ...
energia elétrica e telefone, garantindo a beleza do local. O conjunto abrange serviços e lugares especiais para deficientes físicos e idosos, bem
como instalação de um fraldário nos sanitários femininos.
O estacionamento tem capacidade para 750 automóveis e 200
ônibus. Desse ponto até a Estação Central o visitante terá de caminhar.
Para os visitantes que apresentam dificuldades de locomoção, o CV dispõe de veículos, sendo possível realizar o circuito superior e o circuito
inferior até o Salto Bossetti e Garganta do Diabo. O complexo de visitação
do parque argentino compreende os recursos a seguir discriminados.
Portal Cataratas: o primeiro edifício do complexo de visitação, com
uma área de 417 m². Nele há um balcão de informações, uma sala destinada aos guias turísticos credenciados pela APN, uma loja de souvenirs e
sanitários.
Centro de Interpretação – Yvyra Reta: com uma área de 1.150 m²,
o local é o mais importante de todo o conjunto, pelas funções que apresenta. São duas alas temáticas, com a natureza e a ocupação humana
regional.
Anfiteatro: localizado em frente do Centro de Interpretação, apresenta uma capacidade para 600 pessoas sentadas.
Praça institucional: espaço para descanso, contemplação da natureza, eventos educativos, compondo uma área de 4.520 m².
Área comercial: estão localizados, nesse espaço, um restaurante
para 250 pessoas, duas áreas destinadas a lanchonetes, loja de souvenirs,
artesanato, fotografia e espaço de exposições.
Sistema de transportes: o meio de transporte é o ferroviário, fabricado na Inglaterra, sob as normas ambientais previstas pelos parques
nacionais argentinos. A locomotiva K80, modelo Cataratas do Iguaçu, criada especialmente para esse fim, impulsiona o trem com 3 vagões e capacidade para 40 passageiros cada um. É movida a gás, em função de
baixo impacto ambiental. Faz o transporte do visitante da Estação Central
à Estação Circuitos (1.523 m) e Garganta do Diabo (3.983 m). Tem capacidade de transportar de 120 a 150 passageiros por viagem, e sua velocidade não supera 20 km/h.
No Brasil, o CV localiza-se na parte externa do Parque Nacional do
Iguaçu, na margem esquerda da BR-469, com 107.636,69 m² de terreno,
sendo 4.110,04 m² de área construída coberta e cerca de 50.000 m² de
estacionamento, com capacidade para 170 ônibus, 20 vans e 676 veículos de passeio. Apresenta duas plataformas (interna e externa) para embarque e desembarque dos visitantes.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009.
Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills
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Buscou-se um estilo arquitetônico que se harmonizasse com a
área do entorno, projetada de forma a se integrar com a natureza utilizando materiais como madeira com certificado de origem e fitossanidade,
vidro e telhas de barro. Além de uma ampla área coberta para abrigar os
visitantes, estão dispostos: serviços de informações, sanitários, fraldário,
ambulatório médico, posto bancário, caixa coleta de correios, telefones
públicos, sala de Turismo (destinada ao atendimento de grupos de visitantes), loja, lanchonete, área de administração e centro de interpretação.
Sistema de transporte: o objetivo do sistema de visitação do Parque Nacional do Iguaçu é permitir o aumento do número de visitantes e, ao
mesmo tempo, reduzir o impacto ambiental, pelo aumento do número
médio de passageiros por veículo no interior do parque. Segundo dados
do IBAMA, em 1999, 128.077 veículos entraram no Parque Nacional. Com
a instituição desse sistema, observou-se a diminuição do fluxo elevado de
veículos. A frota é formada de oito ônibus panorâmicos, double-deck com
capacidade para 72 passageiros sentados. A parte superior do veículo é
toda aberta, permitindo maior interatividade do visitante com o meio ambiente durante todo o percurso até as cataratas.
Os parques do Iguaçu agregam valores à oferta turística, como
hotéis de luxo na área das cataratas, restaurantes de categoria internacional, passeios de barco à jusante e à montante das cataratas.
Difere da Argentina nos seguintes aspectos: os guias de Turismo
têm escolaridade maior que os guias brasileiros; para atuarem como profissionais no parque argentino devem ser credenciados pelos Cientro de
Investigaciones Ecológicas Subtropicales (CIES), órgão educacional do
Parque Nacional del Iguazú; são supervisionados pelos guardaparques,
que são formados pela Escuela de Guardaparques Argentina, para atuarem especificamente em áreas naturais protegidas.
No Brasil, é destaque o papel educacional desenvolvido pela Escola Parque com as comunidades do entorno, por meio de trabalhos
ambientais de preservação do Parque do Iguaçu.
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Todos os funcionários foram unânimes em dizer que os centros de
visitantes são fundamentais no processo de educação do turista e que
todos devem inicialmente passar por esse lugar. Em 7/7/2005, foi incorporado ao Centro de Interpretação, no Parque Nacional do Iguaçu (Brasil),
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009.
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Territorialidade e Tursimo dos Parques Nacionais ...
uma exposição ambiental que cumpre parte do processo educacional ao
visitante.
No Great Smoky Mountains e no Parque Nacional del Iguazú (Argentina), o visitante entrará se quiser no Centro de Interpretação. Os funcionários admitiram que o valor maior da visita está em ver o atrativo principal e não na interpretação, o que prejudica a qualidade da visita.
Pela ampla e complexa abordagem do espaço, das territorialidades
e da função dos parques nacionais para o Turismo, deve-se repensar o
papel da atividade marcante deste século. É hora de serem analisadas as
funções das criações e recriações espaciais para a satisfação do ser humano. É claro que para a atividade turística se necessita de conforto e
segurança.
Será que o ecoturismo está cumprindo seu verdadeiro papel nos
parques nacionais?
E as comunidades locais? Como ficam com os conceitos de
sustentabilidade?
Percebe-se claramente no entorno do Great Smoky Montains que
as comunidades participam de forma ativa com qualidade de uma vida
digna, com lazer e felicidade de viver, embora não sejam diferentes as
questões de exploração das áreas intocadas e preservadas pela lei.
A conservação está cumprindo sua lição de casa?
Às vezes, prefere-se a radicalidade verde ambientalista, quando
se está na Rodovia Newfound Gap com o tráfego intenso ou na Estrada do
Colono, hoje fechada no Iguaçu.
Faz-se necessário um repensar de forma lúcida, criativa e
participativa. Num exercício de cidadania, devem ser ouvidas as comunidades do entorno, os administradores e os governantes que dirigem essas UCs. É preciso replanejar, para as gerações futuras e no propósito do
ecoturismo, a garantia da natureza, num tardio, mas quem sabe promissor, retorno do homem à natureza.
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Artigo recebido em 8/12/2008.
Aprovado para publicação em 24/4/2009.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009.
Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli
135
O IMPERATIVO ÉTICO DE HANS
JONAS COMO BASE PARA A
RESPONSABILIDADE SOCIAL
EMPRESARIAL
THE ETHICAL IMPERATIVE AS
BASIS ON SOCIAL CORPORATE
RESPONSABILITY BY HANS JONAS
EDUARDO AUGUSTO DREWECK MOTA
___________________________________________________________
Mestre em Organizações e Desenvolvimento pela UniFAE,
Pós-graduado em Marketing pela UniFAE,
Graduado em Comunicação Social pela PUCPR,
Professor e coordenador de curso na
Universidade do Contestado (Canoinhas)
E-mail: [email protected]
OSMAR PONCHIROLLI
___________________________________________________________
Mestre e doutor pela UFSC,
Filósofo, teólogo, especialista em Didática,
Professor do Programa de Mestrado da UniFAE
E-mail: [email protected]
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009.
136
O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ...
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009.
Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli
137
RESUMO
A sociedade contemporânea passa por um período de mudança em suas
diretrizes econômicas, catalisada principalmente pelas situações de
degradação ambiental e social do planeta. Com isso, as organizações
empresariais, principais vetores do desenvolvimento capitalista, enfrentam
a inevitável responsabilidade de desenvolver ações que contribuam para
a melhoria efetiva das condições da existência digna da sociedade no
mundo. As ações das empresas com esse mérito, denominadas
Responsabilidade Social Empresarial (RSE), necessitam de uma base
ética inicial, que aponte o foco da atuação para a preservação da espécie
humana. O objetivo deste artigo é refletir sobre o pensamento de Hans
Jonas, principalmente a partir dos elementos do imperativo ético para a
civilização tecnológica, que o autor desenvolve em sua obra, entendendoo como um alicerce fundamental para a RSE.
Palavras-chave: ética, responsabilidade, organizações.
ABSTRACT
The modern societies pass for a period of change in its economic objectives,
catalyzed mainly for the situations of ambient and social degradation of
the planet. In this way, the companies, main vectors of the capitalist
development, face the inevitable responsibility to develop actions that
contribute for the improvement of the conditions of the worthy existence of
the society in the world. The actions of the companies with this merit, often
called Social Responsibility, need an initial ethical base, which points the
focus of the performance to the preservation of the human race. The
objective of this article is to reflect on the thought of Hans Jonas, mainly
from the elements of the ethical imperative for the technological civilization,
which the author develops in its work, understands it as a basic foundation
for the Social Responsibility.
Keywords: ethics, responsibility, companies.
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1 INTRODUÇÃO
Durante boa parte dos séculos XIX e XX, as sociedades construíram diretrizes sob uma ótica capitalista. Nessa realidade, valorizava-se o
consumo e o crescimento econômico, sem levar em consideração a qualidade de vida e a racionalidade do uso e da preservação dos recursos
naturais. Esse pensamento mecanicista foi predominante por, pelo menos, 200 anos. Entretanto, na década de 70 (século XX), começaram a
surgir movimentos ambientalistas em nível global, motivados principalmente pela constatação de que o planeta sofria impactos ambientais
indesejados e preocupantes que, em curto e médio prazo, poderiam esgotar os recursos disponíveis e prejudicar toda a sociedade, de forma
holística.
Para Cleverson V. Andreoli (2002, p. 61), o modelo de desenvolvimento proporcionou uma dinâmica de degradação que alcançou uma escala planetária a partir de 1990. Para o autor, diversos fatores foram apontados como causas dessa situação, tais como
[...] o incremento populacional, a moderna indústria de consumismo
supérfluo, os sistemas de dominação hierárquica próprios da sociedade industrial e a distribuição desigual de riquezas entre países e populações.
Diante das evidências de uma crise ambiental mundial, tem-se
defendido uma ideia de desenvolvimento sustentável, objetivando justamente reduzir o antagonismo entre a atual condição global, com uma proeminente necessidade de crescimento para sustentar a população humana, e o futuro ambiental do planeta. Assim, para que o desenvolvimento
sustentável ocorra, é necessária a compreensão das transformações da
sociedade e de seus impactos futuros, com base nas inter-relações entre
as dimensões econômica, social e ambiental. Nesse sentido, Christian
Luiz da Silva (2005, p. 37) ressalta que se pode conceituar desenvolvimento sustentável como um processo de transformação que ocorre de
forma harmoniosa nas dimensões espacial, social, ambiental, cultural e
econômica, partindo do individual para o global. Essas dimensões são
inter-relacionadas por meio de instituições que estabelecem as regras de
interações e que influenciam no comportamento da sociedade local.
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Nessa perspectiva, a incorporação do conceito de desenvolvimento sustentável passa a ser um instrumento essencial para um novo
posicionamento estratégico nos agentes promotores atuantes na sociedade, especialmente nas organizações empresariais, visando responder
às grandes tendências sociais e ambientais que, atualmente, estão remodelando o mundo de forma contínua. Para as organizações empresariais,
a proposta de mudança de paradigma – saindo de um sistema econômico
concentrado em resultados mercadológicos para um processo que significou o início da construção de uma agenda de inserção das questões
sociais e ambientais no modelo vigente – trouxe a constatação de que a
rentabilidade não poderia mais se fundamentar exclusivamente em
consumismo industrial e competição.
Para Peter Wright et al (2000), o propósito principal das organizações é criar riqueza para os proprietários (acionistas) da empresa por
meio da satisfação das necessidades e expectativas de outros
stakeholders. Segundo os autores, o motivo dessa mudança de foco é
que se configura uma miopia estratégica maximizar a riqueza dos acionistas à custa de outros grupos de stakeholders. Assim, os ganhos financeiros dos acionistas em detrimento das necessidades monetárias dos
recursos humanos, por exemplo, somente alienarão os empregados, eventualmente prejudicando futuros clientes financeiros.
Dentro dessa perspectiva, é consenso que as empresas não podem mais ser instituições anônimas e que não fazem nada além de venderem produtos às pessoas. As empresas, seja pela pressão da sociedade em que geram impactos, seja pela necessidade de sua própria
sustentabilidade, devem assumir posturas claras de responsabilidade em
relação a seu meio de inserção, buscando uma compreensão de que apenas com governos, sociedade civil e organizações trabalhando em conjunto é possível construir comunidades sustentáveis. Essa responsabilidade abrange as dimensões econômica, social e ambiental, entendendoa como uma continuidade do conceito de desenvolvimento sustentável.
A responsabilidade social refere-se à expectativa de que as empresas ajam de acordo com os interesses públicos. Conforme o pensamento de Peter Wright et al (2000, p. 117), sempre se esperou que as
empresas oferecessem empregos para as pessoas e bens e serviços
aos clientes e fornecedores, pagando impostos e obedecendo à legislação. Essa seria a essência da responsabilidade social empresarial, que
se traduziria economicamente em maximização de lucros para os acionistas. Entretanto, para os autores, atualmente, a responsabilidade das
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empresas implica mais que isso. Hoje, a sociedade espera que as empresas ajudem a preservar o ambiente, vendam produtos seguros, tratem
seus funcionários com igualdade, sejam verdadeiras com seus clientes e,
em alguns casos, cheguem até mais longe, oferecendo treinamento aos
desempregados, contribuindo para a educação e as artes e ajudando a
revitalizar áreas urbanas onde há concentração de favelas.
Os planos de RSE nas organizações empresariais, reflexos da
construção da agenda social e ambiental nas diretrizes estratégicas, convergem para as grandes questões humanas da atualidade, como educação, saúde, preservação dos recursos naturais, manutenção da
biodiversidade e diminuição da pobreza.
O fenômeno de RSE pode ser entendido como um componente da
urgente necessidade das organizações de responder aos anseios de um
ambiente cada vez mais complexo. Mesmo que desempenhem ações
desse tipo apenas para corresponder à nova realidade competitiva, os
empreendimentos privados estruturaram condutas solidárias que modificam o impacto percebido pela sociedade, principalmente porque acabam
alterando, ainda que não estritamente com esse objetivo, parte fundamental de seu espaço de produção e influência.
Sob esse panorama, quais seriam as bases éticas fundamentais
para a consolidação e execução das ações de responsabilidade social
desenvolvidas pelas organizações empresariais? Que elementos devem
ser considerados no momento de estruturação e decisão das ações de
RSE? Como as considerações do imperativo ético do filósofo alemão Hans
Jonas se encaixariam na raiz das ações de RSE?
O objetivo deste artigo é entender quais seriam as bases éticas
fundamentais propostas por Hans Jonas, principalmente sob o ponto de
vista da responsabilidade, e como essas se aplicam na RSE. Trata-se de
uma pesquisa teórico-empírica, baseada em literatura e em pesquisa de
campo aplicada em uma organização empresarial, por meio de um estudo
de caso. Na primeira seção, faz-se uma introdução ao artigo. Na segunda
seção, são apresentados os procedimentos metodológicos da pesquisa
realizada para este artigo. Na terceira seção, tem-se o desenvolvimento
com a construção teórica, como ponto de partida para o entendimento da
ética de Hans Jonas e o estabelecimento dos fundamentos para a atuação
da RSE. Por fim, a quarta seção é dedicada às considerações finais.
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2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Pode-se classificar a pesquisa para a produção deste artigo como
exploratória e qualitativa, uma vez que tem como base buscar respostas a
indagações de nível particular e trabalha em uma esfera que não pode ser
totalmente quantificada. Foi usado como procedimento o método de pesquisa bibliográfica, durante o período de setembro de 2008 ae janeiro de
2009.
Segundo Antonio Carlos Gil (2002, p. 41), a pesquisa exploratória
tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com
intenção de torná-lo mais explícito ou de construir hipóteses. Tem como
objetivo principal o aprimoramento de ideias ou a descoberta de intuições.
Para o autor, “[...] embora o planejamento da pesquisa exploratória seja
bastante flexível, na maioria dos casos assume a forma de pesquisa bibliográfica ou de estudo de caso.”
O momento inicial da coleta de dados na pesquisa exploratória deuse em material bibliográfico, em fontes secundárias. Para Eva Maria
Lakatos e Marina de Andrade Marconi (2001), as fontes secundárias tratam-se de bibliografias já publicadas sobre determinado assunto, de modo
a colocar o pesquisador em contato com problemas, desafios e informações já conhecidas da área, bem como exploração de novas áreas em
que os problemas eventualmente não se cristalizaram suficientemente.
3 DESENVOLVIMENTO
No contexto em que se insere a RSE, como um elemento complexo da constituição humana nas atividades econômicas dentro de organizações empresariais, é importante entender qual é a base ética para sua
atuação.
Antes de discutir as bases, entretanto, é necessário estabelecer
algumas considerações que estão na órbita, justamente, do evidente crescimento da importância da ética nos empreendimentos humanos, em um
mundo cada vez mais consciente de uma perspectiva de esgotamento de
seus recursos e atento à continuidade de sua existência. Podem ser
listadas algumas constatações pragmáticas que apontam para o
surgimento desse novo paradigma em questão.
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A primeira constatação é a emergência de consumidores mais
exigentes. O crescimento econômico e a alta competitividade de ordem
capitalista que se disseminou pelo mundo cunharam consumidores acostumados a assistir a uma disputa por suas decisões de compra. Esse fato
faz com que as estratégias de diferenciação das empresas, para chamar
a atenção de seu público, estejam em evolução constante, principalmente
nas ações de marketing e comunicação, que invadem o cotidiano das
pessoas e procuram estar alinhadas com o pensamento do maior número possível de consumidores.
Uma das principais consequências dessa realidade é que os assuntos que são discutidos por muitas pessoas, que estão em pauta na
sociedade, tanto em esferas de debate políticas quanto nas não-governamentais, são adotados como fator de atração de consumidores. A responsabilidade social, muitas vezes, é construída nas organizações sob esse
prisma, da necessidade de falar a língua dos consumidores ou das partes
interessadas. Tome-se como exemplo a intensa exploração da causa
ambiental, muito em foco nas discussões políticas e nas rodas informais,
sendo usada por muitas empresas e pessoas para vinculação de uma
imagem ética mais adequada com a perspectiva dos consumidores. Isso
ocorre com outros grandes temas da sociedade, como a eliminação da
pobreza, a melhor distribuição de renda, a diminuição das doenças e da
mortalidade infantil, a preservação do patrimônio cultural e histórico, entre
outros. É possível deduzir desse empirismo que as organizações do mercado formal, impulsionado por seus próprios consumidores, acabam por
estimular o desenvolvimento de ações de responsabilidade social, buscando investir em programas e projetos sociais para obter retorno de imagem e de vendas.
A segunda constatação de que a responsabilidade social está em
evidência parte da premissa de que é uma verdade inquestionável que a
globalização trouxe impactos sobre as culturas locais. Conforme Sarita
Albagli (1999), por um lado, esse fato pode ser percebido como uma tentativa de hegemonia da visão ocidental, um declínio das identidades, uma
descaracterização do local potencializada pelas redes de comunicação
que atuam como uma cadeia de fluxos contínuos de informações e imagens, descolando o indivíduo de sua própria realidade. Por essa leitura, os
locais estariam muito permeáveis às influências externas, perdendo muito de singularidade e autenticidade. Ainda há uma outra visão que trata
dessa questão pelo entendimento de que cada sociedade é capaz de preservar e desenvolver sua cultura, vinculando-se a seu espaço. O local é
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visto como uma resistência à unificação, à massificação, simplesmente
em função de uma prevalência de uma memória espacial, um local para
referenciar. Nessa linha de pensamento, a globalização catalisa a diferenciação e a complexidade cultural, uma vez que as comunicações diminuem as barreiras espaciais e permitem maior consciência sobre a diversidade do mundo, que em outra situação estariam obscurecidas, fortalecendo o aspecto relacional existente. A consciência, a identidade e a necessidade de se referenciar a um local aumentam com os fluxos
informacionais da globalização.
Sob o ponto de vista da responsabilidade social, o fato de as sociedades modernas necessitarem cada vez mais de um referencial espacial, de um sítio determinado de memórias, significa uma ampliação na condição de zelo pela manutenção do bem-estar geral, na visão de que este é
fundamental para a sobrevivência de sua diversidade, de suas características únicas. Assim, a ideia da busca por um desenvolvimento de estratégias em que predominem a preservação e melhoria da sociedade fica
mais compreensível para os indivíduos. Ao mesmo tempo em que as informações globalizadas rapidamente formam uma espécie de consciência coletiva informatizada nas sociedades, criam um entendimento de que
é preciso preservar suas individualidades.
A terceira constatação dessa realidade que estimula o surgimento
de ações de responsabilidade social é a evolução intensa da comunicação nos últimos anos. A intensificação das relações sociais em escala
mundial, catalisadas principalmente pela tecnologia de informação e pelo
processo econômico em macroescala, modificaram a maneira como as
pessoas estabelecem processos de comunicação. Há uma tendência de
eliminação dos limites internos, fazendo com que os locais estejam
conectados de tal maneira que são influenciados e modificados por eventos ocorrendo em espaços distantes, e vice-versa.
A responsabilidade social é especialmente impactada no limiar
desse fenômeno, principalmente quando se observa que, até então, as
sociedades possuíam uma dimensão irrestritamente estabelecida no espaço e no tempo, com um forte sentimento de localização, de pertencer a
um local, de fazer parte de um cotidiano relativamente fechado e regular.
No entanto, como defende Sarita Albagli (1999), as atuais sociedades da
informação apresentam certo desencaixe no tempo e no espaço. Essa
situação ocorre principalmente quando se percebe uma uniformização na
medição do tempo. Em uma sociedade globalizada, “quando” importa muito
mais que “onde”. Essa eliminação virtual do conceito de distância interfere
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intensamente na percepção do local, na concepção de coexistência. Atualmente, o fato de um empresário estar no Brasil, por exemplo, não interfere em suas negociações com o Japão, mesmo que aí exista um abismo
no fuso horário e milhares de quilômetro entre um país e outro.
Existe nas sociedades atuais uma forte transferência do sentimento de
pertencer para o conceito de tempo e não mais para o de espaço. A
consequência mais direta dessa realidade é uma disseminação dos problemas existentes em vários lugares pelo mundo. Um indivíduo residente
em uma pequena cidade no interior do Paraná, por exemplo, pode interessar-se por auxiliar causas sociais inseridas na realidade de uma metrópole como São Paulo. A exposição que a comunicação trouxe para as mazelas sociais multiplicou de forma geométrica a sensibilização das pessoas
pelo que ocorre no mundo.
A quarta constatação pragmática de um incremento nas ações de
responsabilidade social é o surgimento de uma nova ordem social. A economia capitalista mundial experimenta, talvez, uma de suas maiores movimentações, auxiliada sobremaneira pelo fortalecimento dos países orientais – como China e Japão. Essa nova ordem social, que vai além da
participação do governo e do mercado, está inserindo na realidade das
pessoas as organizações não-governamentais, as igrejas, as associações comunitárias, os movimentos sociais, as entidades sem fins lucrativos e outros enclaves. As propostas dessas entidades permeiam o auxílio
mútuo, a inclusão social e a defesa de interesses que preservem o bemestar da humanidade.
Nos últimos anos houve certo predomínio nas ações comunitárias
inseridas nas agendas das empresas e dos governos, claramente influenciadas por uma pressão perpendicular exercida pela sociedade civil e suas
manifestações organizadas. Mesmo que as políticas sociais tradicionais,
assistencialistas e com distribuição deficiente, ainda possuem predominância, essa pressão conduz e legitima as ações de responsabilidade
social, desenvolvidas por qualquer dos agentes da sociedade (estado,
mercado ou sociedade civil), influenciando a um público cada vez mais
abrangente.
Por fim, pode-se perceber que essa realidade que se apresenta
vem discutindo intensamente as questões éticas, constituindo-se em uma
tendência de proporções inegáveis que afetam sobremaneira a atividade
humana sobre o planeta. A responsabilidade social está presente nas realizações do ser humano e vêm construindo uma visão de longo prazo na
sociedade. Essa visão é necessária para que exista a compreensão da
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responsabilidade que todos possuem para a conservação do ambiente
em que a sociedade vive, bem como haja o legado que será passado para
as gerações futuras e as diretrizes para a preservação da humanidade.
3.1 O PENSAMENTO DE HANS JONAS: BASES ÉTICAS PARA A RSE
Com a constatação da necessidade da inserção de um conceito
de responsabilidade nas ações da humanidade, torna-se imprescindível
discutir uma visão de como esta deveria se consolidar. A visão teórica do
filósofo alemão Jonas busca justamente o surgimento de um novo comportamento ético, pautado nos crescentes desafios trazidos pela revolução tecnológica e absorvidos de maneira frenética pela sociedade. O autor aborda um viés que pretende responsabilizar a todos pela própria existência e pela continuidade da humanidade no planeta, identificando os valores e os fins a serem buscados e utilizando os meios não como um fim
em si mesmo, mas como aquilo que realmente são.
Para Hans Jonas (2006), é preciso que o ser humano se abstraia
da ética tradicional, voltada para os limites das ações humanas, e volte-se
para uma ética das coisas extra-humanas, que considera a existência de
uma natureza que é de sua responsabilidade e que é essencial para a
manutenção de uma vida digna no planeta. O autor vai além do imperativo
kantiano, considerado como uma referência importante – “Age de modo
que tu também possas querer que tua máxima se torne lei geral”, ou seja,
aja de modo que o princípio de sua ação se transforme numa lei universal
–, e propõe um novo imperativo: “Age de tal maneira que os efeitos de tua
ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida humana autêntica.” Jonas propõe ainda o mesmo imperativo construído negativamente:
“Não ponha em perigo as condições necessárias para a conservação indefinida da humanidade sobre a Terra.”
Com isso, Jonas defende a criação de um princípio de responsabilidade, com base em torno das categorias de bem, de dever e de ser,
tendo como modelo a relação de responsabilidade incondicional entre pais
e filhos. Para o autor, embora a responsabilidade não seja um assunto
novo para a moralidade, a humanidade nunca a tratou com atenção. Nas
palavras de Hans Jonas (2006, p. 22):
Em vez de ociosamente desvendar as consequências tardias no
destino ignoto, a ética concentrou-se na qualidade moral do ato
momentâneo em si, no qual o direito do contemporâneo mais próximo tinha de ser observado. Sob o signo da tecnologia, no entan-
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to, a ética tem a ver com as ações (não mais de sujeitos isolados)
que têm uma projeção causal sem precedentes na direção do
futuro [...] Ajunte-se a isso a magnitude bruta dos impactos de longo prazo e também, com frequência, a sua irreversibilidade. Isso
desloca a responsabilidade para o centro da ética.
Nessa perspectiva, um dos principais aspectos discutidos por Jonas
nessa reconsideração da responsabilidade humana é a exposição da
vulnerabilidade da natureza provocada pela intervenção técnica do homem.
Segundo Hans Jonas (2006, p. 39), essa vulnerabilidade “[...] jamais fora
pressentida antes que ela se desse a conhecer pelos danos já produzidos.”
Essa descoberta modifica de maneira intensa o papel do ser humano como fato causal na natureza das coisas. Jonas deixa claro que a
intervenção do homem na natureza sofreu um crescimento exponencial,
impulsionada pela tecnologia e os benefícios advindos de sua aplicação
que exige uma remodelação do conceito de ética, revelando que a responsabilidade do homem se estendeu nada menos do que para a biosfera
inteira do planeta, uma vez que sobre ela a humanidade detém o poder.
Nas palavras do próprio Hans Jonas (2006, p. 41):
Ao menos deixou de ser absurdo indagar se a condição da natureza extra-humana, a biosfera no todo e em suas partes, hoje
subjugadas ao nosso poder, exatamente por isso não se tornaram
um bem a nós confiados, capaz de nos impor algo como uma
exigência moral – não somente por nossa própria causa, mas
também em sua própria e por seu próprio direito.
Para Hans Jonas (2006), há ainda um outro aspecto que lança
bases para uma modificação dos princípios éticos nesse contexto: o fato
de que a tecnologia, como esforço essencialmente humano, tenha ultrapassado os objetivos pragmaticamente delimitados dos tempos antigos.
Hoje, a tecnologia transformou-se em um perpétuo motor, um infinito impulso da espécie para adiante, seu empreendimento mais significativo. O
autor afirma que a humanidade é levada constantemente a acreditar que a
vocação dos homens se encontra no contínuo progresso, buscando uma
superação permanente sobre si mesmo. Essa realidade atestaria o triunfo do homo faber – aquele que predomina sobre a natureza e continuamente a transforma em seu instrumento para o desenvolvimento – sobre
o homo sapiens.
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Em outras palavras, Hans Jonas (2006) chama a atenção para o
significado ético que a tecnologia assume por conta da atenção e importância que vem ocupando na vida humana. Para o autor, o ser humano
acaba eclipsando a totalidade de suas virtudes em função do poder da
tecnologia, uma vez que as forças dos indivíduos são conclamadas em
sua direção, diminuindo o conceito do homem sobre si próprio.
O próprio mercado, e a economia atrelada a ele, é uma demonstração
pragmática dessa constatação, pois um contingente considerável de seres humanos acaba transformando parte da plenitude de suas vidas em
atos que levam à busca por uma evolução tecnológica, com fins de ganho
financeiro. Essa crítica contida na obra de Jonas acaba aproximando-o
Ramos (1989), que, de certa forma com o mesmo objetivo, explora a clara
predominância do trabalho – representando pela conformidade com os
desígnios da economia formalista (sobre a ocupação) – que se coloca em
direção a um caráter de realização mais pessoal, de cada indivíduo. O
fato mais cruel dessa realidade é que as pessoas que não trabalham com
tal propósito aspiram, um dia, a participar desse jogo e acabam obliterando
outros enclaves sociais.
Com isso, Hans Jonas (2006) consolida uma nova proposição ética, a qual leva em consideração os dilemas morais trazidas pela tecnologia
e suas consequências no ambiente humano. O autor propõe um imperativo de responsabilidade que inclua incondicionalmente a presença do homem no planeta Terra. Trata-se de um dever para com a conservação do
mundo físico, de modo que as condições para essa presença permaneçam intactas. Isso significa uma mudança de posicionamento ético que
auxilie na conservação não só do ser humano e de suas relações complexas, mas também para diminuir a vulnerabilidade da natureza diante de
ameaças que possam frustrar as condições para a continuidade da humanidade no planeta.
Mas como um axioma que pretende modificar de maneira relevante
um comportamento social ético já estabelecido, Hans Jonas (2006, p. 48)
afirma que é fácil infringir o imperativo de responsabilidade futura sem cometer nenhuma contradição. Conforme o autor, pode-se querer o bem presente ao preço do sacrifício do bem futuro. Ou ainda, querer o próprio fim e
também o fim da humanidade, pois, sem nenhuma contradição, pode ser
preferível uma completa autorrealização fugaz a uma continuação medíocre interminável. Contudo, para Jonas, o novo imperativo afirma que o indivíduo pode arriscar a própria vida, mas não a da humanidade. Nenhum ser
humano tem o direito de escolher a não-existência de futuras gerações em
função da existência da atual, ou mesmo colocá-las em risco.
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Essa ética do futuro desenvolvida por Hans Jonas (2006) possui
dois deveres essenciais delineados. O primeiro é a construção de uma
visão de longo prazo sobre os possíveis efeitos das ações humanas. Segundo o autor, é necessário que a humanidade se oriente pelo medo de
algo que pode não ter sido experimentado e que talvez não possua analogias na experiência do passado e do presente. Essa visão do que pode
acontecer assume um papel de algo que já ocorreu. Para Hans Jonas
(2006, p. 72): “O mal imaginado deve aqui assumir o papel de mal experimentado. Como esta representação não acontece automaticamente, ela
deve ser produzida intencionalmente.” Tal projeção do futuro é, portanto,
um dever da nova ética e se consolida como um pensamento essencial
para a responsabilidade da humanidade.
Esse primeiro dever corrobora o desenvolvimento de ações de responsabilidade social, pois pode-se inferir com isso que os planos de ação
social levem em consideração um mal imaginado, em longo prazo, e não
apenas as situações ocorridas no presente, em curto prazo. Esse novo
ponto de vista auxilia na proposição de focos adequados para as ações de
responsabilidade social desenvolvidas pela sociedade, com perspectiva
de construção de um espaço social colaborativo que possua um componente de evolução.
O segundo dever da ética do futuro está justamente em mobilizar na sociedade uma representação adequada para essa projeção,
para o mal imaginado que deve assumir um status quo de realidade
iminente. Hans Jonas (2006, p. 72) aborda a dificuldade de realizar essa
representação:
O destino imaginado dos homens futuros, para não falar daquele
do planeta, que não afeta nem a mim nem a qualquer outro que
ainda esteja ligado a mim pelos laços do amor ou do convívio
direto, não exerce a mesma influência sobre o nosso ânimo; no
entanto, ele o devia fazer, isto é, nós devíamos conceder-lhe essa
influência.
Dessa observação é possível inferir que o segundo dever da ética
do futuro é consequência do primeiro: a adoção de uma atitude para se
deixar sensibilizar pela salvação das gerações vindouras. É preciso um pensamento sólido de causa e consequência, em um exercício contínuo de
elaboração de possibilidades e projeções. As ações são orientadas para
relevar um “se” para um “então” (se tal coisa é realizada, então tal coisa
pode acontecer). Ao aplicar essa condição nas ações da humanidade, a
concepção de projeção futura transforma-se em um objeto factível de refle-
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xão. Por exemplo, ao colocar um “se” nas pesquisas com certos alimentos
transgênicos, assunto em pauta na sociedade contemporânea, pode-se obter
um “então” que se mostre amplamente desfavorável e que acabe de certa
forma guiando o curso do empreendimento para outro caminho de desenvolvimento, gerando outras correlações entre “se” e “então”.
A responsabilidade em longo prazo defendida por Jonas ainda traz
reflexões para as ações da humanidade, principalmente quando se consideram os crescentes desafios sociais e humanísticos trazidos pela
tecnologia. Quando colocadas sob a analogia de um jogo de azar ou das
apostas contidas no agir humano, é possível imaginar, em termos éticos,
os possíveis resultados e seus efeitos colaterais. Hans Jonas (2006, p.
83) faz quatro argumentações interdependentes com base nessa ideia.
A primeira consideração é que não podem ser arriscados os interesses de outros em apostas pessoais. Segundo o raciocínio de Jonas,
não se pode apostar nada que não se tenha. Entretanto, levando-se em
consideração o entrelaçamento indissolúvel dos assuntos humanos, a
interdependência da sociedade, bem como a teia causal de todas as coisas, não se pode evitar que o agir de uma pessoa afete o destino de outras. Logo, arriscar aquilo que é de um indivíduo, significa sempre arriscar
também algo que pertence a outro e sobre o qual, a rigor, não existe nenhum direito. Para o autor, é preciso determinar até onde se pode ferir
conscientemente ou mesmo pôr em risco interesses alheios. Em princípio, deve-se rejeitar apenas o capricho e a leviandade no risco da coisa
alheia.
A segunda argumentação é a existência de situações muito específicas em que é permissível apostar a totalidade dos interesses dos outros. Jonas explica essa elucubração apoiando-se na ideia de que certos
objetivos altruístas, principalmente quando alinhados com os objetivos
daqueles que ficam em risco por ação do apostador, podem justificar uma
aposta entre ganhar e perder tudo. Somente a prevenção do mal maior, e
não a obtenção do bem maior, justificaria que se arrisque a totalidade dos
interesses alheios.
Com base nas premissas anteriores, a terceira consideração de
Hans Jonas (2006, p. 85) enfatiza que o melhorismo não justifica nenhum
das apostas totais. Segundo o pensamento do autor, os grandes riscos da
tecnologia não se enquadram no raciocínio anterior, pois
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[...] estes não são assumidos com a finalidade de salvar o que
existe ou abolir o insuportável, mas para melhorar permanentemente o já alcançado, isto é, para o progresso, cuja versão mais
pretensiosa pretende construir um paraíso terrestre.
Como última argumentação, Hans Jonas (2006, p. 85) afirma categoricamente que a humanidade não tem o direito ao suicídio. Mas, alerta
o autor, existem algumas obras da tecnologia que, por seus efeitos cumulativos, têm precisamente essa abrangência e penetração globais,
ou seja, têm o poder de por em perigo quer a existência inteira ou a
essência inteira dos homens no futuro. Segundo palavras do próprio Hans
Jonas (2006, p. 86):
Não seria possível supor que a humanidade que ainda está por vir
possa concordar com sua própria inexistência ou desumanização;
[...] existe uma obrigação incondicional de existir, por parte da humanidade, que não pode ser confundida com a obrigação condicional de existir, por parte de cada indivíduo.
Com essas argumentações Hans Jonas (2006, p. 86) traça um
princípio que proíbe certos experimentos de que a tecnologia se tornou
capaz de realizar. Com apoio na premissa essencial de que no processo
decisório se deve conceder preferência às previsões de desastre em face
dos prognósticos de felicidade, o autor conceitua o princípio ético fundamental da responsabilidade de futuro: “[...] a existência ou a essência do
homem, em sua totalidade, nunca podem ser transformadas em apostas
do agir.”
Edgar Morin (2005), em seu livro O método 6: ética, se aproxima
de Jonas quando declara que o bem geral pode ser considerado pela humanidade como uma abstração, principalmente pelas apostas do agir em
nome da emancipação do ser humano, quando muitas vezes escondiam
uma determinação para sua submissão. Segundo palavras de Edgar Morin
(2005, p. 50):
O bem de nossos próximos é concreto, mas podemos nos enganar sobre o verdadeiro interesse deles e, sobretudo, corremos o
risco e ficar encerrados em nossa pequena comunidade e indiferentes aos problemas fundamentais e globais da humanidade. [...]
Reaparece aqui o antagonismo entre a audácia e a prudência: até
onde se pode ir na audácia, arriscando pôr tudo a perder, assim
como na prudência, arriscando nada ganhar?
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009.
152
O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ...
Por fim, opta-se por discutir alguns elementos da obra de Hans
Jonas (2006), que advêm do princípio fundamental da responsabilidade
futura e que auxiliam na compreensão do alcance desejado do termo responsabilidade nas atividades humanas, como proposto neste trabalho.
Uma das principais ideias de Jonas é a extinção da reciprocidade do âmago da ética. A ética do futuro não pode ser obtida pela ideia de reciprocidade, que estabelece que o dever de um é a imagem refletida do dever de
todos, de modo que uma vez estabelecidos certos direitos dos outros também se estabelece o dever de respeitá-los. A ética do futuro propõe uma
quebra desse conceito, pois lida, como afirma Hans Jonas (2006, p. 89),
exatamente com o que ainda não existe, e o princípio da responsabilidade
tem de ser independente tanto da ideia de um direito quanto da ideia de
uma reciprocidade. Ou seja, não se pode esperar algo em troca por respeitar e preservar o que ainda não existe.
Essa eliminação da reciprocidade da ética de futuro, proposta por
Jonas, reflete uma característica fundamental do conceito desejado para
o termo responsabilidade, principalmente quando usado com a determinação de responsabilidade social. É necessário que as ações humanas,
engendradas por qualquer dos agentes da sociedade, possuam um caráter mais voltado ao altruísmo, uma espécie de reivindicação antecipada,
que proteja o princípio básico de existência do homem. Empiricamente,
isso significa o estabelecimento de projetos, em que estão intrínsecos os
componentes de responsabilidade, para preservar a qualidade de vida do
ser humano e do ambiente; em outras palavras, ações que garantam a
continuidade da espécie no planeta, que estimulem o cumprimento de um
dever com o futuro da humanidade e que não solicitem nenhum tipo de
retorno específico para tanto. Há, portanto, a consolidação de um dever
nato do ser humano com a posteridade, com o que será deixado para a
humanidade futura, para as próximas gerações, não sendo possível transferir a responsabilidade pela sua existência para ela própria.
Peter Senge (1999, p. 134) explora esse tema, quando afirma que
as pessoas de modo geral têm dificuldades em abordar problemas, seja
porque se trata de uma dificuldade obscura ou porque isso exige um grande esforço. Assim, conforme o autor, as pessoas “[...] transferem a responsabilidade dos problemas para soluções bem intencionadas e fáceis
que pareçam eficientes.” Desse modo, não há um compromisso com a
resolução dos problemas, mas com o estabelecimento de medidas paliativas que aparentemente desaparecem com as dificuldades. Há uma clara vinculação com a reciprocidade dos atos, uma perspectiva de ganho.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009.
Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli
153
Para exemplificar a questão, Hans Jonas (2006, p. 89) ilustra que
já há na natureza um caso de responsabilidade e obrigação que não exige
reciprocidade. Essa obrigação é elementar para a sociedade e é praticada espontaneamente: a responsabilidade com os filhos, que não resistiriam no mundo sem a assistência e a proteção de seus pais. Assim como
não se pode esperar uma recompensa pelo amor e esforço dedicados
pelos pais aos filhos, o que, aliás, é naturalmente incondicional, também
não se pode esperar que existam compensações pela responsabilidade
assumida para garantir a continuidade da espécie humana. Para Jonas,
esse tipo de não reciprocidade entre pais e filhos é a origem genuína da
responsabilidade buscada pela ética do futuro, com uma exigência contínua, legítima e inquestionável.
Em outras palavras, o exemplo da responsabilidade parental pode
ser aplicado como um modelo de atuação para a humanidade – a aceitação do encargo dessa responsabilidade para com a continuidade da espécie sobre o planeta. Nesse caso, considera-se que a responsabilidade
não está somente no agir, mas também em evitar a omissão que é fatal
para uma criança, em especial para um recém-nascido, e pode ser fatal
ainda para outros elementos necessários à manutenção da vida digna do
ser humano, como os recursos naturais ou o bem-estar social.
Hans Jonas (2006) faz outra reflexão sobre o assunto, ao considerar a responsabilidade para com as crianças uma condição diretamente
proporcional ao bem-estar dos indivíduos em geral, a mais fundamental
de todas as responsabilidades que podem ser associadas ao homem.
Para Hans Jonas (2006, p. 224): “Com cada criança que nasce recomeça
a humanidade em face a mortalidade, e nesse sentido também está em
jogo a sobrevivência da humanidade.” Ao colocar em risco esse aspecto,
o ser humano coloca em risco sua própria continuidade, segundo o princípio da ética de futuro.
Levando esse pensamento para as ações de responsabilidade
social desenvolvidas pelos agentes da sociedade, permite-se aqui o entendimento de que o zelo pelas crianças assume uma proporção mais
fundamental, de base, na busca pela sobrevivência da humanidade que,
portanto, pode ser tratada com mais constância e consistência.
Outro pensamento de Hans Jonas (2006) traz à tona uma evolução da tradicional vinculação entre o poder causal e a responsabilidade,
em que qualquer agente deverá responder por seus atos, sendo responsável pelas consequências e respondendo por elas, se for o caso. Para o
autor, existe uma noção de responsabilidade que não pode ser expressa
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009.
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O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ...
em termos de cálculo, de causa e consequência, mas que está próxima
de um sentimento de responsabilidade em relação a um objeto que reivindica tal ação. Esse tipo de responsabilidade leva em consideração o que
se encontra no campo de ação do poder do ser humano, mesmo que não
tenha sido objeto de sua escolha. Esse pensamento conduz a uma dimensão de solidariedade entre aqueles que detêm o poder e aqueles que,
por qualquer razão, estejam no raio desse poder. O termo responsabilidade, neste ponto, assume essa característica e impetra uma espécie de
dever para os detentores do poder.
Ao levar tais considerações para uma experiência pragmática das
ações humanas, pode-se exemplificar o dever que um indivíduo tem com
seus entes queridos, na medida em que detém um poder em relação a
eles, um sentimento de responsabilidade, e vice-versa, ou, da mesma
forma, o dever de uma organização empresarial para com a comunidade
em que está inserida, pois exerce um determinado poder sobre ela.
Esse aspecto da teoria de Hans Jonas (2006) permite inferências
que acabam auxiliando na concepção do alcance do significado do termo
responsabilidade social. O autor deixa claro que, ao levar em consideração a relação de poder no comportamento das pessoas na sociedade,
pode-se afirmar que existe um compromisso com o bem-estar dos outros, um sentido de coletividade que está inserido na responsabilidade de
todos, devendo determinar a maneira de agir do ser humano.
Essa ideia pode ser aplicada, de maneira pragmática, para responsabilizar a todos, inclusive moralmente, por exemplo, no caso de crimes contra o meio ambiente. Mesmo que não se tenha a intenção, o fato
da responsabilidade ser gerada pelo poder em relação a esse meio ambiente, torna a todos responsáveis, mesmo em caso de omissão. Tal conceito torna as ações de responsabilidade social, principalmente àquelas
vinculadas às organizações empresariais, uma obrigação moral para com
a sociedade, uma vez que o poder causal nesse caso é ainda maior.
Hans Jonas (2006) aborda ainda um tipo excepcional de responsabilidade, que é livremente escolhida e que não se encontra, a priori, na
esfera do poder de ninguém: a responsabilidade assumida pelo homem
político, que ambiciona o poder para assumir responsabilidades. Conforme Hans Jonas (2006, p. 172),
[...] aqui temos um privilégio singular da espontaneidade humana:
sem que lhe seja pedido, sem necessidade, sem missão e sem
acordo, o aspirante busca o poder para assumir para si a responsabilidade.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009.
Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli
155
O autor faz distinções entre a responsabilidade parental e essa
responsabilidade do homem político, principalmente no sentido de que uma
é incondicional e outra de livre escolha, mas afirma que existem proximidades relevantes. A principal delas é justamente o dever da continuidade.
Hans Jonas (2006) afirma que a grande responsabilidade um homem público, uma vez que a assumiu espontaneamente, é garantir uma
governabilidade futura, tratar os assuntos sob sua tutela como uma relação parental.
Conforme o pensamento de Hans Jonas (2006, p. 201), “[...] toda
responsabilidade integral, com seu conjunto de tarefas particulares, é responsável não apenas por cumprir-se, mas por garantir a possibilidade do
agir responsável no futuro.” Colocada dessa forma, é possível aproximar
a ideia do autor com o conceito de sustentabilidade, passando tanto pela
esfera pública quanto pela privada, na busca por um desenvolvimento que
permita a continuidade digna do ser humano no planeta.
Hans Jonas (2006) ainda discute um elemento essencial e necessário para a consolidação das ações de responsabilidade social: a solidariedade com o meio ambiente, com a natureza. Para o autor o imperativo
essencial de que deva existir uma espécie humana denota uma ideia de
que o futuro da humanidade inclui, obviamente, o futuro da natureza.
Segundo o raciocínio de Hans Jonas (2006, p. 229), “[...] quando a
luta pela existência frequentemente impõe a escolha entre o homem e a
natureza, o homem, de fato, vem em primeiro lugar.” Isso quer dizer que,
como o homem acabou tomando a natureza para seu uso particular, e
muitas vezes extensivo, principalmente com a superioridade do pensamento e com o poder da civilização técnica, deve incluí-la em sua responsabilidade essencial. Dessa constatação surge um novo dever da responsabilidade humana, um dever de preservação e de proteção da natureza,
em contraposição a um dever de progresso e aperfeiçoamento.
Esse novo dever torna-se necessário, tendo em vista que o homem não se tornou perigoso apenas para si, mas para toda a biosfera,
incluindo todos os seres vivos e os sistemas que os mantêm. As ações
irresponsáveis e mecanicistas diante da natureza, realizadas principalmente pela civilização industrial, cujos efeitos ainda permanecem, e intensificadas de forma exponencial nos últimos 100 anos, culminaram com o
aparecimento de evidências de degradação muito plausíveis no fim do
século XX e início do século XXI. Essas mazelas, como, por exemplo, o
arrefecimento da camada de ozônio e o derretimento das calotas polares,
nada mais são que demonstrações perversas de poder da humanidade
sobre a natureza. Conforme Hans Jonas (2006, p. 231),
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009.
156
O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ...
[...] a união do poder com a razão traz consigo a responsabilidade,
fato que sempre se compreendeu, quando se tratava da esfera
das relações intersubjetivas. [...] O poder e o perigo revelam um
dever, o qual, por meio da solidariedade imperativa com o resto do
mundo animal, se estende do nosso Ser para o conjunto, independentemente do nosso consentimento.
A relação homem-natureza necessita, de forma prioritária, de uma
ética de emergência, voltada para um futuro que se apresenta ameaçado.
Para Hans Jonas (2006), é imprescindível que a humanidade assuma sua
responsabilidade em relação à natureza, ao conjunto de coisas, como um
dever, como um imperativo para preservar sua própria continuidade e sua
integridade existencial.
Hans Jonas (2006) faz considerações importantes sobre o desenvolvimento em direção a um contínuo melhorismo, afirmando que essa
evolução acaba tendo um preço que pode estar ameaçando os recursos
naturais. Para cada ganho que a humanidade conquista com a evolução
técnica, há uma perda. Mas, para o autor, a evolução é um dever pelo qual,
mesmo se o preço for elevado, a humanidade pagará, pois o progresso
real, com um caráter desejável, que assuma sua responsabilidade perante a continuidade da autêntica vida humana sobre a Terra, encontra-se
apoiado por todos.
A humanidade, antes de tudo, necessita retomar as rédeas de sua
existência, a coragem para assumir suas responsabilidade perante o planeta. Para Hans Jonas (2006), isso será possível ao se recuperar o respeito e o medo, de modo a proteger o homem dos descaminhos de seu
próprio poder. A responsabilidade pelo futuro da humanidade acaba enfrentando essa situação paradoxal, ao precisar confrontar sua continuidade diante do horror que ela poderia tornar-se e dando justamente as diretrizes para desviar desse caminho. É a busca pela prosperidade do homem, em sua humanidade íntegra; a proteção do patrimônio para permanecer semelhante ao que o ser humano já é; um pressuposto de conservação da integridade futura, da “imagem e semelhança” da fase de desenvolvimento atual.
Segundo Hans Jonas (2006, p. 353):
Guardar intacto tal patrimônio contra os perigos do tempo e contra
a própria ação dos homens não é um fim utópico, mas tampouco
se trata de um fim tão humilde. Trata-se de assumir a responsabilidade pelo futuro do homem.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009.
Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli
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4 CONCLUSÃO
Com os princípios da responsabilidade humana traçados por Hans
Jonas, pode-se inferir algumas reflexões sobre a responsabilidade social.
Tem-se, portanto, uma ideia clara de algumas bases para a consolidação
do termo responsabilidade social, conforme se demonstra resumidamente neste quadro.
Bases éticas para consolidação da
responsabilidade social empresarial
FONTE: elaborado pelo autor com base nos fundamentos teóricos de Hans Jonas
(2006).
O termo “responsabilidade social” pode ser discutido a partir das
premissas básicas desse quadro, entendendo-se os preceitos da ética de
futuro de Hans Jonas como os elementos norteadores para a atuação da
SER e colocando-se em prática ações que assumem uma condição de
alinhamento com a continuidade da espécie humana. Do mesmo modo,
as ações de RSE devem ser executadas sem esperar nenhum tipo de
retorno e com vistas a atender aos agentes da sociedade que são influenciados pela presença econômica.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009.
158
O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ...
Segundo Antonio César Amaru Maximiano (2000, p. 440), o princípio da responsabilidade social aplicada às organizações baseia-se na premissa de que essas são instituições sociais, que existem com autorização da sociedade, utilizam os recursos da sociedade e afetam a qualidade de vida da sociedade. Para o autor,
[...] não há discussão sobre o fato de que as organizações têm
responsabilidades sociais, à medida que seu comportamento afeta
outras pessoas e, querendo elas ou não, há pessoas e grupos
dispostos a cobrar essas responsabilidades.
Uma vez que o mercado valoriza as práticas solidárias, isso significa que nada mais se faz do que refletir um sentimento generalizado de
solidariedade advindo da própria sociedade. Do mesmo modo, a sociedade que se reflete no mercado valoriza a atitude solidária das empresas.
De acordo com Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl (2004, p. 181),
[...] não resta dúvida de que se a responsabilidade social se converte num fator de marketing é porque, afinal, o público atribui alguma importância a essa atitude e está disposto a escolher as marcas relacionadas a ela; é um marketing do bem.
Isso equivale a afirmar que o conceito de responsabilidade social
empresarial confere um caráter essencialmente colaborativo ao capitalismo. Segundo Robert Henri Srour (1998, p. 48), tal situação implica parceria efetiva entre as organizações empresariais, representantes diretas do
sistema econômico com base no capital, com clientes, fornecedores e
governos. Na visão dos autores,
[...] a nova revolução capitalista faculta a incorporação de uma dimensão de responsabilidade social. O capital não se cinge mais a
obter retorno econômico, mas inclui também o que se poderia
denominar retorno social.
Em outras palavras, as ações de RSE influenciam políticas públicas e determinam ações engendradas pela opinião pública e sociedade
civil organizada.
Outro ponto levantado por Hans Jonas é a preservação da natureza. Segundo o raciocínio de Jared M. Diamond (2006, p. 577), parte da
solução para os problemas ambientais enfrentados hoje seria uma análise, no mínimo cuidadosa, dos erros das civilizações do passado. Mas,
para o autor, isso não é tudo. É preciso que as empresas, que muito re-
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009.
Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli
159
centemente eram vistas apenas como vetores de degradação ambiental,
transformem-se em empreendedores ambientais, com ações de respeito
e preservação do meio ambiente.
Assim, a adoção dessas bases éticas pelas organizações é uma
evidência de que, ao longo do tempo, as empresas acabam tendo que
incorporar as mudanças advindas da sociedade, de modo a garantir sua
sustentabilidade e sobrevivência. A RSE deve utilizar esses elementos
éticos para dar uma resposta a tal contexto, a essa nova exigência da
sociedade.
As bases éticas defendidas por Hans Jonas, na verdade, traduzem instrumentos sociais, expressos pela RSE, que se diferenciam dos
instrumentos comerciais, ou mercadológicos, com objetivos econômicos.
Conforme Osmar Ponchirolli (2007, p. 66), dessa forma, a atuação da
empresa agregaria uma nova faceta a seu papel de agente econômico, o
de agente social, em que
[...] passaria a disponibilizar, com as devidas aptidões, os mesmos recursos aplicados em seu negócio, em prol da transformação da sociedade e do desenvolvimento do bem comum.
Como as organizações são sistemas sociais que predominam na
atual sociedade capitalista e acabam ditando diretrizes de comportamento e desenvolvimento, é natural que a responsabilidade social se insira em
suas determinações, processos e estratégias.
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Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009.
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SROUR, Robert Henry. Poder, cultura e ética nas organizações. 9. ed.
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WRIGHT, Peter; KROLL, Mark J.; PARNELL, John. Administração estratégica: conceitos. São Paulo: Atlas, 2000.
Artigo recebido em 11/3/2009.
Aprovado para publicação em 24/4/2009.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009.
Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves
161
INCORPORACIÓN DE UN ESPACIO NATURAL
MUNICIPAL AL USO TURÍSTICO SUSTENTABLE
Y A LA EDUCACIÓN AMBIENTAL:
PARANÁ, ENTRE RÍOS, ARGENTINA
INCORPORATION OF A MUNICIPAL NATURAL
AREA FOR A SUSTAINABLE USE OF TOURISM
FOR ENVIRONMENTAL EDUCATION: PARANA,
ENTRE RÍOS, ARGENTINA
INCORPORAÇÃO DE UMA ÁREA NATURAL
MUNICIPAL PARA O USO SUSTENTÁVEL DO
TURISMO E PARA A EDUCAÇÃO AMBIENTAL:
PARANÁ, ENTRE RÍOS, ARGENTINA
MAGDALENA PANDIANI
___________________________________________________________
Professora de Geografia - Licenciatura en Turismo –
Facultad de Ciencias de la Gestión –
Universidad Autónoma de Entre Ríos
EDUARDO CHAVES
___________________________________________________________
Professor de Turismo - Licenciatura en Turismo
Facultad de Ciencias de la Gestión –
Universidad Autónoma de Entre Ríos
E-mail: [email protected]
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
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Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ...
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves
163
RESUMO
O caso que temos diante de nós é uma ilhota de aproximadamente 16 ha,
que não tinha aproveitamento turístico, salvo dos membros da ONG.
“Añangarecó N’Derejhé” que consistia em receber os visitantes e proteger
o lugar dos excessos. Nos anos 90, foi declarada “paisagem protegida”
pela província e município do Paraná, o qual determina as restrições sobre sua utilização e aproveitamento. Desde a corrida do Turismo da UADER
(Universidade Autônoma de Entre Rios) é proposto para a Secretaria de
Políticas Universitárias do Ministério da Educação da Nação, no contexto
do projeto “Implementação de elementos e serviços eco turísticos na Ilhota
municipal de apoio à educação ambiental” o que contemplava o manejo
sustentável dos recursos florestais nativos e fauna silvestre desse ambiente natural. O mesmo tende a realçar o patrimônio natural e cultural local,
incorporando uma série de elementos (trilhas na altura, mirantes, cartazes educativos, “Centro de Interpretação”) para melhorar as condições
das visitas, em um cenário agradável e seguro, que lhes permitam compreender e interpretar o ambiente da ilha e a cultura de seus habitantes.
Desta forma se tenta unir esforços para o conhecimento, conservação e
valorização de uma área perto da cidade do Paraná, que mantém todas
as características da Eco-região “Delta e as ilhas do Paraná”. A isto se
soma a possibilidade de cooperar com a conversão produtiva realizada
pelos pescadores, que, ante ao enfraquecimento da sua atividade específica se uniram para formar “Baqueanos dos rios”. Grupos de guias, que
em suas canoas fazem os turistas vivenciar a “cultura da ilha”, dando-lhe
um valor especial para a área da ilha que conhecem e ocupam, porque
dela depende a subsistência e a sustentabilidade da cultura da sua comunidade, que é muito pouco conhecida pelos habitantes da cidade. Considera-se que o aproveitamento turístico trará algum impacto sobre o ambiente natural, embora o projeto contemple mínima intervenção e modificação do meio natural. O município do Paraná é responsável por implantar
os instrumentos legais que controlem seu uso e manejo para a conservação da paisagem e as condições para o desenvolvimento sustentável.
Palavras-chave: Turismo Sustentável, Educação Ambiental, Cultura da
ilha, ilhotas municipais, Paraná, Entre Rios.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
164
Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ...
ABSTRACT
The case before us is an island of approximately 16 ha, which was not
used for tourism, except for members of NGOs. “Añangarecó N’Derejhé”
which was to receive visitors and protect the place of excess. In the 90s,
was declared “protected landscape” by the province and city of Paraná,
which determines the restrictions on their use and exploitation. Since the
race of Tourism of UADER (Autonomous University of Entre Rios) is
proposed for the Secretariat of University Policies of the Ministry of Education
of the Nation, in the context of the project “Implementation of elements and
services in the island city eco tour in support of environmental education”
which include the sustainable management of forest resources and native
wildlife of the natural environment. It tends to highlight the local natural and
cultural heritage, incorporating a number of elements (tracks at the time,
viewpoints, educational posters, “Interpretation Center”) to improve
conditions for visitors in a pleasant setting and safe, allowing them to
understand and interpret the environment of the island and the culture of its
inhabitants. Thus we try to join forces for the knowledge, conservation and
recovery of an area near the city of Paraná, which maintains all the features
of the Eco-region “Delta and the islands of the Paraná. To this is added the
possibility to cooperate with the productive conversion performed by the
fishermen who, before the weakening of its specific activity joined to form
“baqueanos from rivers” .Groups of guides, in their canoes to make the
tourists enjoy the island’s culture, “giving it a special value to the area of the
island who occupy and they know, because from it depends on the livelihood
and sustainability of the culture of their community, which is little known by
the inhabitants of the city. It is estimated that the touristic use will some
impact on the natural environment, although the project includes minimum
intervention and modification of the natural environment. The municipality
of Paraná is responsible for implementing the legal instruments to monitor
their use and management for the conservation of landscape and the
conditions for sustainable development.
Keywords: Sustainable Tourism, Environmental Education,island Culture,
municipal islets, Paraná, Entre Rios.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves
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RESUMEN
El caso que nos ocupa es un islote de 16 hás aproximadamente, que no
tenía ningún aprovechamiento turístico, salvo el realizado por los integrantes de la ONG “Añangarecó N’Derejhé”, que consistía en recibir a los visitantes y proteger de los desmanes este lugar. En la década del 90 el mismo
fue declarado “Paisaje Protegido” por la Provincia y el municipio de Paraná
lo que determina restricciones en el uso y aprovechamiento. Desde la
carrera de Turismo de la Universidad Autónoma de Entre Ríos (UADER)
se propone a la Secretaría de Políticas Universitarias del Ministerio de
Educación de la Nación en el marco de una convocatoria el Proyecto
“Implementación de elementos y servicios eco turísticos en el Islote Municipal como apoyo de la educación ambiental” el que contemplaba el manejo sustentable de los recursos forestales nativos y fauna silvestre de
ese ambiente natural. El mismo tiende a poner en valor el patrimonio natural y cultural del lugar mediante la incorporación de una serie de elementos
(senderos en altura, miradores, cartelería didáctica, “Centro de
Interpretación”), para mejorar las condiciones de las visitas, en un escenario
ameno y seguro que les permita comprender e interpretar el ambiente
isleño y la cultura de sus pobladores. Se intenta de esta forma aunar
esfuerzos para el conocimiento, conservación y valoración de un ámbito
próximo a la ciudad de Paraná, que guarda todas las características de la
ecorregión “Delta e islas del Paraná”. A ello se suma la posibilidad de cooperar con la reconversión productiva realizada por los pescadores, que,
ante el debilitamiento de su actividad específica se han unido para conformar “baqueanos del ríos”. Grupos de guías, que en sus canoas hacen
vivenciar a los turistas la “cultura isleña”, atribuyéndole un valor especial al
espacio isleño que conocen y ocupan, por que de él depende su
subsistencia y la perdurabilidad de la cultura de su comunidad, la que es
muy poco conocida por los habitantes de la ciudad. Se tiene presente que
el aprovechamiento turístico, determinará algún impacto en el ambiente
natural, aunque el proyecto contempla la mínima intervención y modificación
del medio natural. El municipio de Paraná es el responsable de implementar
instrumentos legales que controlen su uso y manejo para conservar el
paisaje y sus condiciones para el desarrollo sustentable.
Palabras claves: turismo sustentable, educación ambiental, cultura isleña,
Islote Municipal, Paraná, Entre Ríos.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
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Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ...
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves
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1 ASPECTOS METODOLÓGICOS
Al conocer el Islote Municipal, no se comprende por qué hoy no
presenta una actividad turística sostenida durante todo el año, ya que el
mismo es el islote más cercano a la ciudad de Paraná (15 minutos aproximadamente y según el medio de transporte). El lugar tiene una ambiente
ideal para contactarse con la naturaleza.
Al tomar conocimiento del ritmo con que crece el ecoturismo en el
mundo se pensó en esta posibilidad para su reactivación, dado que tiene
condiciones especiales entre ellas, el hecho de ser un representante de la
ecorregión “Delta e Islas del Paraná” con una vegetación hidrófila que cubre
islas bajas e inundables lo que asegura el escenario natural con bosques,
arbustales, pajonales pastizales y acuáticas. Ellos son sustentos de
poblaciones de aves importantes por su cantidad y variedad de especies.
Vale destacar la ictiofauna, siendo los más representativos: bagres, boga,
surubí, sábalo, dorado aún cuando actualmente hay un descenso de su
presencia.
Sin embargo cuando se comenzó con la propuesta no se conocía
si la riqueza biológica, paisajística e histórica y los servicios que brindaba
el lugar eran los suficiente para sostener un proyecto ecoturístico y de
educación ambiental y si el mismo se encuadraba dentro de los intereses
del municipio y la ONG “Añangarecó N’derejé”.
Consultados ambos aceptaron la propuesta, por lo que se comenzó
a trabajar en la investigación aplicándose diversas técnicas tales como:
revisión de fuentes bibliográficas secundarias y documentales, consulta a
organismos oficiales (Dirección de Catastro provincial y municipal, Archivos,
Ministerio de Obras Públicas) y privados; implementación de encuestas
Se efectuaron entrevistas personales a profesionales y personas que por
su edad y o forma de vida podían aportar datos relevantes sobre la
experiencia de observar el surgimiento del banco y posterior conformación
del islote. La información obtenida permitió conocer la historia, topografía,
riqueza biológica y la cultura del pescador.
Se procedió al relevamiento, análisis e interpretación de los datos
de las dos encuestas implementadas. Las mismas se diseñaron para
recabar datos necesarios para utilizarlos posteriormente en el trabajo, especialmente para determinar el potencial existente para el turismo en áreas naturales, así como también el conocimiento y aprovechamiento que
hacían los habitantes de la ciudad, del Islote Municipal e indagar si
consideraban posible o interesante actividades de ecoturismo y educación
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
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Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ...
ambiental, en ese lugar. En la general se buscó conocer la importancia de
las áreas protegidas como destino turístico.
En la local interesó saber cuales eran las expectativas de la gente
del lugar sobre el aprovechamiento del Islote. Fue necesario relevar en el
área próxima el equipamiento y servicios necesarios para sostener una
actividad turística.
Por último se redactó el cuerpo del trabajo sistematizando los
contenidos relevados a través de las diferentes fuentes utilizadas.
Los textos citados se remiten básicamente al repertorio de libros que
constituyen parte de la historiografía de la zona o específicos que facilitan
contextualizar el objeto de estudio.
El criterio de selección y uso del material se realizó en función del
núcleo de estudio: “El Islote Municipal y sus posibilidad de implementar
ecoturismo y educación ambiental”, se tomó lo que se consideró pertinente y siempre se priorizó el rigor académico en cuanto a las citas de los
textos.
El informe escrito contempla los siguientes capítulos: descripción
del Río Paraná; historia del islote; diversidad biológica y principales
especies; grandes lineamientos de la cultura isleña, infraestructura y
servicios del área próxima, proyecto propuesto.
2 DESARROLLO
2.1 EL ORIGEN DEL ISLOTE
Muchas versiones se conocen acerca de la formación del islote,
según diversos entrevistados la misma, se dio de manera natural por la
forma geográfica que presenta el río en este lugar; contraponiéndose al
relato de informantes que afirman que el banco comenzó a formarse por
el hundimiento de un barco y chatarra en ese punto, tiempo después de la
inauguración del Puerto Nuevo, lo que determinó que se acumularan los
sedimentos que trasporta el río, si bien esta embarcación se encuentra
“fondeada”, no fue la causa principal de este fenómeno.
El objetivo de la presencia de esta embarcación chatarra era provocar la acumulación de sedimentos para conformar un banco, que modificara la corriente del río frente al puerto, facilitando la accesibilidad y los
movimientos de los barcos que accedían al mismo
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
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No coincide con esta opinión el ingeniero Leonardi, quien trabaja en
la dirección de dragado de la ciudad y asegura que esa versión es refutable
ya que el Río Paraná presenta distintas islas a lo largo de su recorrido y no
todas responden a un hecho similar. Él asegura que otro factor que
contribuyó en la formación del islote es la construcción del puerto, lo que
determinó “refulado” de arena para su construcción. Los sedimentos fueron
acumulándose y se fijó la arena como se realizó con las demás islas.
Apenas aparece el banco se trató de fijar el mismo plantando
“chilcas” (Baccharis). Esta actividad la realizó una persona comprometida
con la protección de la naturaleza, por este motivo durante muchos años
se vinculó la propiedad del islote a éste señor, pero ha sido imposible conseguir los documentos que acrediten esta versión.
Por su parte, la señora Emma Bertolini de Rezzett afirma lo anteriormente expresado, sosteniendo que fue su padre quien hizo esta labor
en el islote. Recuerda además que él siempre les decía “que había que
fijarlo para que el río no se lo llevara.”
El señor Edgar Wilson, de 67 años, ratificó que en el lugar que
hoy se sitúa el islote, hay embarcaciones hundidas y para él, éste hecho
junto con el refulado de arena son las causas principales de formación
del banco.
2.2 ISLOTE MUNICIPAL:
ACCIONES PARA SU PROTECCIÓN
Al área analizada se le asignó la categoría de “Monumento Natural”, mediante Ordenanza nº 7.961, de adhesión a la Normativa Provincial
nº 8.967. Atribuye esta denominación a “aquéllas áreas que contengan
elementos naturales de notable importancia o especies vivas de animales
o vegetales, formaciones geológicas, de valor histórico, científico, estético
y educativo, cuya existencia podría estar amenazada.”1
En los monumentos naturales serán incompatibles todas aquellas
actividades que directa o indirectamente pudieran afectar o modificar las
características que motivaron su designación como tal. Sí, se admitirán
todas aquellas tareas necesarias para el manejo y control del área.
Anteriormente, el 21 de julio de 1995 entra en vigencia la Resolución
nº 1.561, por la cual se declara Área Natural Protegida al Islote Municipal.
Luego, la Resolución nº 195, de la Dirección Provincial de Recursos
Naturales – fechada el 9 de agosto de 1995 -, la incorpora al Sistema
Provincial de Áreas Naturales Protegidas. El 15 de octubre de 1997 se
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Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ...
promulga la Ordenanza Municipal nº 7.961, por la que se adhiere a la Ley
Provincial sobre las Áreas Naturales Protegidas y se le asigna la categoría
de manejo “Monumento Natural”.
2.3 SÍNTESIS CRONOLÓGICA
2.3.1 Cronología de la Construcción del Denominado “Puerto Nuevo”
1904: inicio de construcción del puerto.
1907: habilitación del puerto.
2.3.2 Cronologías de la Presencia y Evolución del Islote a través
de la Observación de Planos y Fotos
La Dirección de Dragado de la ciudad de Paraná facilito la obtención
de cartografía de la zona donde se encuentra situado el Islote Municipal, lo
cual permitió justificar el año que se ha enunciado como fecha de
surgimiento del mismo.
1913: ausencia del islote.
1918: surgimiento de pequeño banco de arena, que supera el cero
hidrométrico local.
1928: evolución del banco de arena en su diámetro.
1943: aparición del islote sobre la superficie, por que las aguas
descendieron 1,26 m por debajo del cero del hidrómetro local, esto “brindó
las condiciones favorables para el arraigamiento de la vegetación ‘pionera’
lo que facilitó la consolidación del banco.”2
1951: la cartografía incluye el islote, acercándose su superficie a
la que posee actualmente.
2.3.3 Inventario y Descripción de los Recursos Naturales
y Culturales del Islote
Es conveniente que la planificación de un lugar, comience con el
relevamiento y el registro de los recursos existentes en el mismo, contemplando en el análisis: el paisaje, los recursos naturales, la población humana y las actividades socioeconómicas de las comunidades que
aprovechan o viven en el lugar. Este análisis permitirá tomar conocimiento
de las condiciones existentes.
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Héctor Ceballos Lascurain3 clasifica a los atractivos turísticos de
una zona determinada en tres categorías básicas: atractivos focales,
complementarios y de apoyo.
Los atractivos ecoturísticos focales son aquellos elementos distintivos del patrimonio natural y(o) cultural de un lugar.
En el Islote Municipal el atractivo focal principal es su bosque hidrófilo, conformado por sauces criollos, aliso de río, curupí, seibo. En segundo lugar, se consideran las playas fluviales de arenas blancas en el ángulo
noreste del mismo. Estos son los elementos que mejor caracterizan el
área, especialmente se destaca el porte y disposición de la vegetación,
donde los árboles forman un dosel y donde apenas una senda construida
por el hombre permite el desplazamiento en el interior.
Entre los atractivos ecoturísticos complementarios, se pueden
mencionar el área de los humedales, con la presencia de la laguna cuyo
caudal es intermitente y funcional al comportamiento del río.
En tercer lugar, se analizan los atractivos ecoturísticos de apoyo,
conformado por los elementos artificiales que facilitan la estadía de los
visitantes en el lugar, en el caso de estudio, solamente existen un sendero
y un área refulada donde la mayor altura la exime de las inundaciones
permitiendo la instalación de la casa del cuidador, el museo y el molino
proveedor de la energía y un quincho para protección de los visitantes.
Siguiendo los lineamientos propuestos por este mismo autor, para
realizar un relevamiento exhaustivo se realizó el inventario del área que dio
los resultados.
Nombre propio
Se lo ha identificado bajo distintos topónimos: “Islote El Dique”, “Islote
del Puerto”, “Islote Municipal” e “Islote Curupí”, pero el más aceptado es el
de “Islote Municipal”.
Categoría institucional: Islote Municipal.
Categoría de manejo: Monumento Natural – área protegida con
recursos manejados.
Ecorregiones: delta e islas del Río Paraná.
Jurisdicción: municipal.
Ente administrador: Municipalidad de Paraná.
ONG: “Añangarecó N’derejhé”.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
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Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ...
2.3.4 Instrumentos Legales de Protección
Resolución Provincial nº 1.561, 21/7/1995, se lo declara Área Natural Protegida.
Resolución Provincial nº 195, 9/8/1995, se lo incorpora al Sistema
Provincial de Áreas Naturales Protegidas.
Ley Provincial nº 8967/95, declaración: Paisaje Protegido.
Ordenanza Municipal nº 7.961/97, adhesión municipal a la Ley Provincial sobre Áreas Naturales Protegidas y se le asigna la categoría de
“Monumento Natural”.
Localización geográfica: Departamento Paraná, Provincia de
Entre Ríos.
Coordenadas geográficas: 31º 42´67´´S; 60º 31´20´´W.
Ubicación a nivel provincial: centro oeste de la Provincia de Entre Ríos, se encuentra ubicado en el Río Paraná en su tramo medio y
frente a la ciudad homónima.
Localidades más cercanas: Paraná, Santa Fe.
Área de influencia: noroeste de la Provincia de Entre Ríos y el
área adyacente en la Provincia de Santa Fe.
Localización turística: pertenece a la región turística del COLITUR
(Consejo Litoral Turístico) o Litoral.
Corredor turístico: costa del Paraná.
Micro región: capital.
Superficie del área y límites: 15 hectáreas; 29 As; 95 Cs.
Límites: norte, sur, este y oeste – Río Paraná .
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2.3.5 Medios de Acceso al Punto de Entrada
Ruta fluvial: Río Paraná.
Hasta el lugar del cruce fluvial: Avenida Laurencena, Antonio Crespo y Raúl Uranga al túnel subfluvial y por este a Santa Fe/resto del país.
Avenida Laurencena, Antonio Crespo y Raúl Uranga al acceso Norte Ruta Nac. nº 12, norte de la Mesopotamia argentina y Brasil/Paraguay.
Avenida Laurencena, Antonio Crespo y Raúl Uranga al acceso Norte, Nac.
nº18, este de la Provincia y la República Oriental del Uruguay.
Avenida Laurencena, Avenida Ramírez – Ruta Provincial nº 11,
Puente Virgen del Rosario – Rosario/Santa Fe/Chile.
Avenida Laurencena, Avenida Ramírez – Ruta Provincial nº 11, Ruta
Nac. nº 12, Puente Unión Nacional – Buenos Aires.
Circulación interna: senderos peatonales.
Descripción de los recursos visuales globales: islote cuya
vegetación forma una pared verde que se vuelca en forma de cascada al
río.
2.3.6 Patrimonio Biológico Natural
Atendiendo los objetivos de conservación y aprovechamiento
sustentable del patrimonio natural del país, la Secretaría de Recursos
Naturales y Desarrollo Sustentable junto a Administración de Parques
Nacionales determinaron 18 ecorregiones, con su cartografía y descripción
correspondiente, en la Argentina.
Definieron a la ecorregión como
[…] un territorio geográficamente definido en el que dominan determinadas condiciones geomorfológicos y climáticas relativamente
uniformes y recurrentes, caracterizado por una fisonomía vegetal
de comunidades naturales y seminatural que comparten un grupo
considerable de especies dominantes, una dinámica y condiciones
ecológicas generales y cuyas interacciones son indispensables
para su persistencia a largo plazo.3
El área en estudio corresponde a la denominada Deltas e Islas del
Paraná, que comprende los valles de inundación de los trayectos medio e
inferior de lo Río Paraná y su tributario Paraguay. Presenta como característica general un paisaje de islas bajas e inundables, delimitadas por los
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
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Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ...
brazos laterales y cauces principales de los ríos y presentan amplios bajíos
ribereños.
El accionar de los procesos fluviales son los modeladores de todo
el ambiente determinando el arrastre y deposición de los sedimentos
acarreados y originando diversas texturas y características de los suelos.
Un proceso similar se ha desarrollado en el Islote Municipal, donde al decir
de los autores Senkman, Rodríguez y Aceñolaza
[…] los procesos fluviales conforman su geomorfología y generan
los suelos. Éstos poseen texturas areno-limosas a arenosas (de
grano medio a fino), presentando escasa estructuración y desarrollo
en sus perfiles. Si bien existe variación, ésta puede sintetizarse en
dos gradientes principales: a) uno del tipo natural, geomorfológico,
donde la diferencia de altura entre albardón y bajo establece las
diferencias entre tipo de suelo sobre todo en la aparición de los
suelos hidromorfos hacia la laguna, y b) uno antrópico vinculado a
la deposición de arena y elevación de cota en la zona denominada
“el refulado”.
Considerando la textura del suelo, por lo general el albardón alto
(oeste), mas cercanos al cauce principal (y el refulado) presentan
suelos con arenas gruesas y medias. El albardón (Este), asociado
al cauce cercano a la costa, presenta mayor preponderancia de
limos y arenas finas. Ambos presentan una total ausencia de horizontes edáficos definidos: unímodales.4
La unidad de conservación analizada está altamente influenciada
por el Río Paraná que baña todo su contorno y posee en la parte central
una pequeña laguna.
El patrón hidrológico se corresponde con un régimen pulsátil anual de inundación. La época de estiaje (bajante) se produce en agosto-septiembre, mientras que el puso de inundación suele darse
sobre fines del verano, principio del otoño.5
La vegetación de las islas desde el punto de vista fitogeográfico,
corresponde a la galería paranaense, formación arbórea que sigue
a ambas orillas de la gran arteria fluvial, desde Misiones hasta la
desembocadura en el Plata y logra aún introducirse en los dominios
de éste […] Dada la constitución propia de las islas, en forma de
cubeta, con un albardón costero y una parte central baja y fácilmente
inundable, interrumpida por pequeños albardones de los arroyos
o cursos de agua temporarios del interior isleño, se distinguen
distintas poblaciones vegetales.6
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El bosque costero constituido predominantemente por sauce criollo
(Salix humboldtiana. Wild), el aliso de río (Tessaria integrifolia. Ruiz & Pav),
curupi (Sapium haemastospermun Muell. Arg.), sangre de drago (Croton
urucurana. Baill), ceibo (Eritrina crista-galli L.) y timbó blanco (Cathornium
polyanthum A Epreng.); siendo el sauce la especie más conspicua del
ambiente isleño. Entre las primeras se destacan el guaco (Mekania
periplocifolia) y Cissus sicyoides.
La flora arbustiva ocupa los lugares bajos de los albardones, y esta
constituida principalmente por chilcas (Baccharis salicifolia), salvia (Limpia
alba) y ortiga (Urera aurantiaca).
Según el relevamiento realizado por el equipo Senkman, Rodríguez
y Aceñolaza, en la zona norte del islote se observa un área con importante
presencia de un pastizal/cataizal (Polygonum spp.) integradas a las predominantes otras especies, tales como chilca (Baccharis sp.), paragüita,
redondita del agua, o perejil de agua (Hydrocotyle bonairiensis), flor de
sapo (Jaborosa integrifolia), Cissus spp., etc.
La laguna interior tiene una superficie mucho más reducida después
de realizado el refulado. Su comportamiento está íntimamente relacionado
con el del río, mostrando un espejo de agua solamente en época de creciente
y es en ese momento cuando aparecen las plantas acuáticas tanto flotantes
como arraigadas. Entre ellas el repollito de agua (Pistia stratiotes), helechito
del agua (Salvinia biloba Raddi emend. De la Sota.), Duraznillo de agua
(Ludwigia peploides), Dama de noche (Ipomoea alba L.).
El hombre con su accionar ha llevado a diversos puntos del mundo
especies que por encontrarle un uso ornamental, medicinal o alimenticio
ha cultivado y trasladado, realizando su dispersión ha otras zonas,
adaptándose éstas, con gran fuerza, compartiendo con las autóctonas y
formando parte de la masa vegetal. En el islote son fácilmente observables:
ligustro (Ligustrum lucidum), morera blanca (Morus alba L.), paraíso (Melia
azadarach L.), braquiquito (Brachychiton populneus) y otras.
Los autores antes mencionados han conformado un listado final
contabilizando 118 especies de plantas reunidas en 39 familias botánicas
y 84 géneros.
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2.3.7 Fauna
El islote esta separado por un angosto brazo del Paraná de la ciudad
homónima, esta proximidad con la capital entrerriana, puede incidir en la
presencia selectiva de fauna por la presión antrópica que ello supone y
que ha determinado un número muy pequeño de especies representativas
Entre los mamíferos del ambiente de las islas del Río Paraná es
posible avistar el coipo (Myocastor coypus) y referencias determinan que
en períodos anteriores era posible observar carpincho (Hydrochoerus
hydrochaeris), el lobito de río (Lontra longicaudis) cuyo estatus nacional lo
considera en peligro de extinción, el gato montés común (Oncifelis
geoffroyi), la comadreja colorada (Lutreolina crassicauda) y la overa o
común ( Didelphis albiventris ), varios murciélagos de la familia
Vespertilionidae y micromamíferos de la familia Cricetidae. Es muy difícil y
casi imposible observar a la mayoría de las especies antes mencionadas
solamente se detecta su presencia, por las huellas que dejan por la noche
al desplazarse en busca del agua
Entre la batracofauna, las especies más conspicuas son el sapo
común (Bufo arenarum), el sapito de panza colorada (Melanophryniscus
stelzneri) y las ranas del género Hyla.
La yarará grande, crucera o víbora de la cruz (Bothrops alternatus)
estaría presente, con integrantes de las subfamilia Culubridae, como la
culebra verde ( Philodryas aestivus ), la denominada culebra verde
(Chironius quadricarinatus), la culebra acuática (Helicops infraeniatus),
culebra acuática overa (Helicops leopardinus), culebra parda común
(Liophis miliaris), la culebra de bañado o una de las tantas que también
llaman falsa yarará (Liophis poecilogyrus), el lagarto overo o iguana
(Tupinambis teguixin) y lagartijas de la familia Teidae. Entre las tortugas
está presente la tortuga de río (Hidromedusa tectifera) y la de laguna
(Phrynops hilarii).
Las aves presentaban 63 especies de acuerdo a los registros
efectuados por Muzzachiodi (1997), pero el mismo autor en 2001 publica
la existencia de 105 especies, tomando como base los censos anuales de
aves acuáticas.
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Las aves acuáticas o las que usan el medio aéreo sobre el río
Paraná aportaron 27 especies que constituyen el 51% del total
comunicado, perteneciendo a las familias Rallidae (11%) Ardeidae
(9%), laridae (5%) y el 26% por las familias Scolopacidae ,
Hirundinidae […]7
Gallinetas, pollos de agua, gallaretas, garzas, gaviotas, becasinas,
golondrinas, teros y chorlitos, patos, martín pescador, bandurrias, aguateros
y biguáes son posibles de observar en el Islote Municipal, así como también
es interesante observar sus nidos y escuchar sus cantos.
2.3.8 Fauna Ictícola
El Río Paraná con su característica zona de islas y anegadizos,
los que conforman importantes “humedales” que funcionan como importantes reservas de agua dulce y se convierten en reservorios de una rica y
variada riqueza ictícola que incluyen especies migratorias y de valor comercial, entre los que se destacan: sábalos (Prochilodus), dorados
(Salminus ), bogas ( Leporinus), surubies ( Pseudoplatysto ), armados
(Pterodoras ) y otros hasta totalizar aproximadamente 220 especies
(LÓPEZ, 2003) en la red Paraná-Paraguay8, cinco de interés deportivo y
turístico: dorado, surubí atigrado y pintado, pacú y manguruyú; otros de
valor comercial, como el sábalo y las bogas, cuya demanda y
sobreexplotación aumentó a partir de la apertura de mercados
internacionales.
Numerosas son las familias que viven en relación a la pesca (40
pescadores aproximadamente). Lo obtenido en parte lo consumen, o lo
comercializan a través de los acopiadores, determinando la zona de Puerto
Sánchez, próximo al Islote Municipal como el lugar de partida y llegada de
los pescadores, dando origen a un pequeño barrio con sus viviendas en
altura y negocios de ventas de pescados. La presencia de estas
pescaderías artesanales da al paisaje elementos distintivos, como
pequeñas canoas, redes y espineles extendidos en la costa y las jaulas a
medio flotar en el río lo que les permite tener los peces vivos.
En los últimos años, es reiterativa la queja de los pescadores que
“el río se ha quedado sin peces”, esto se ha convertido en un problema
económico social para los hombres que tenían en este recurso su medio
de vida, y sobre ello se han ocupados investigadores como el Profesor
Oldani9 quien reconoce que el recurso pesquero presenta serios inconvenientes por la excesiva presión comercial que ha sufrido el mismo y está
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poniendo en peligro la principal actividad de los pescadores artesanales
de este tramo del Paraná donde se dan diferente tipos de sobreexplotación:
a) estético-deportiva por la pérdida de ingresos económicos provenientes de la fuente turística debido a la disminución de:
abundancia de las especies objetivos, tallas trofeos y éxitos de
captura;
b) del crecimiento o de la biomasa, porque los peces se capturan
antes de que optimicen la talla;
c) la talla media de las capturas inferiores a la talla óptima;
d) en general, la legislación de la Provincia de Entre Ríos fija las
tallas de la primera captura inferiores a los de la provincia de
Santa Fe, salvo para S. maxillosus que es superior y para P.
albicans, L. obtusidens, P. fasciatum y P. coruscans son iguales;
e) la talla de primera captura (fijada por ley) para P. clarias, P.
granulosus;
f) O. kneri y L. patí son inferiores a la talla de la primera madurez
estimadas – es decir, por ley, se permitiría la captura antes de
que los peces comiencen a reproducirse;
g) las redes utilizadas no están permitidas por la legislación de las
Provincias de Entre Ríos y Santa Fe;
h) del reclutamiento – porque el número de reproductores que
permanecen en el sistema no alcanzaría para regenerar el stock
en las principales especies comerciales;
i) además se registra – cambio en la estructura de la comunidad
con un aumento de las especies de menor valor comercial;
j) pérdida de espécies.
Atento a que esta actividad es la base económico social de un importante grupo de personas que se identifican con el río, más aún ellos no
quieren perder las actividades que de generación en generación han aprendido y realizado, teniendo como base el río, entre las que se encuentra la
pesca artesanal como muy importante. Es imprescindible tener presente
las recomendaciones que el autor antes mencionado expresa al respecto,
para no perder una de las fuentes principales que sostiene la cultura isleña.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
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3 PATRIMONIO CULTURAL
3.1 CULTURA ISLEÑA
Para conocer sobre este grupo particular se analizó la forma de
vida de los habitantes de Puerto Sánchez, casi todos ellos pescadores o
ex pescadores quienes continúan con las tradiciones propias de la cultura
del pescador
Un primer aspecto que se hace necesario destacar es la forma de
vida del “costero auténtico”, como ellos mismos acuerdan en reconocerse
y llamarse; centrada en la pesca artesanal, esta se basa en salir día a día
con la embarcación (canoa o lancha) a recorrer el río, realizando la pesca
con distintos implementos, también de tipo artesanal.
Si bien antes se podía vivir de la pesca, actualmente la venta del
producto obtenido en el río, no alcanza para cubrir la demanda de la canasta
familiar. Esto obliga a los pescadores a procurarse otras ocupaciones que
le reditúen igual o mayor monto económico (como ejemplo, uno de los
entrevistados es pescador y guía de excursiones – paseos en lanchas – y
de noche trabaja como personal de Seguridad en un comedor, además
algunos de ellos reciben ayudas económicas del Estado en forma de
asistencias económicas o bolsones de alimentos. Otra entrevistada menciona que tiene un cargo público y, en su tiempo libre, continúa colaborando con las tareas de pesca. Además algunas personas mayores perciben
alguna jubilación nacional o provincial. Muchas mujeres realizan servicios
domésticos o venden empanadas y pan casero. Es importante destacar
que “el isleño” no vive en una sociedad totalmente aislada, sino que
constituye una “sociedad parcial” dentro de una sociedad más amplia.
De las crecientes del Río Paraná, la más recordada es la del año
1982, por los perjuicios que trajo e hizo que algunos funcionarios políticos
provinciales/municipales adjudicaran viviendas a algunas familias del barrio
de Puerto Sánchez en otros sectores de la ciudad, situación que los llevó,
a des-identificarse con el río y con su principal ocupación de pescadores.
En otras oportunidades se los intentó trasladar con intenciones de
hacer un paseo turístico en la zona pero quedó sin efecto atento a la
resistencia ejercida. Actualmente, continúa el temor en muchos de ellos al
estar viviendo en terrenos fiscales ante la posibilidad de que sean removidos del lugar, pero todos los intentos que se han comenzado en pos de
ese objetivo han quedado truncos por oposición de los propios pobladores.
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3.2 CARACTERIZACIÓN DEL GRUPO SOCIAL
Nos gusta pescar de noche, remar aguas arriba, dormir al lado del
fuego… Esto es parte de nuestra vida en las islas, en el río, la otra
parte en la ciudad donde está nuestra familia, la compañera y los
gurises.10 (BETO MARTINEZ).
Cuando se inició la investigación de esta franja poblacional costera,
se definió que la zona de influencia o cobertura de la misma se iba a remitir
al islote, pero en éste únicamente habita en forma estable un solo poblador
(Sr. Luis Roldán, pescador e hijo de pescadores) que se denomina a sí
mismo puestero o baqueano, su función es prestar el servicio de cuidador
del área natural municipal protegida y su relación contractual laboral depende de la municipalidad de la ciudad.
También se delimitaron los posibles sectores geográficos en los
que se fueron afincando los pobladores costeros (Puerto Sánchez, Bajada
Grande, Toma Vieja, Bajada de Nuñez).
Siendo el Islote un sitio sin otra población que la descripta, se decidió
que se extendería el límite del área poblacional a investigar, anexando a los
vecinos afincados en la franja próxima a la margen costera conocida como
Puerto Sánchez y que son los que recorren el río en el área cercana al
islote revisando el espinel u otras islas ubicando sus mallas.
Puerto Sánchez
A este lugar, cuando yo contaba pocos años, solía
llegar a pescar mojarras y
observaba todo el movimiento en torno a la venta de
pescado.
Llegaban los botes con los pescadores, remos en mano trayendo
la “cosecha” de la pesca, a veces con
muchas “piezas” o pocas.
La venta se hacía a particulares y a revendedores o
palanqueros
(NANNI, D., 1998).11
Puerto Sánchez es un antiguo barrio de pescadores que dista unos
3 a 3,5 km del Centro Cívico y Casco Histórico de la capital entrerriana.
Sobre su calle principal, se levantan viviendas de tipo palafitos, de cemento
y materiales reemplazantes de las anteriores: sencillos ranchos a la vera
del río. En Entre Ríos las familias de los pescadores se ubican
generalmente sobre la barranca o en la orilla del Río Paraná.
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Se sube a la primera, por un sendero que se abre paso entre las
matas de cañaverales silvestres, o bien, por la playa de limo que bordea el
río. Sus ranchitos son de barro o ladrillo blanqueado a la cal, con techos de
paja cubiertos con chapas de cartón alquitranado.
Muchas de ellas fueron ubicándose en lo que hoy se denomina
Puerto Sánchez, topónimo que hace alusión al primer poblador Don Pedro
Alcántara Sánchez, oriundo de Alcaráz, que se afincó en la zona costera,
a finales del siglo XIX, dedicándose a la pesca. La vivienda que construyó
junto a las de otras familias que se arraigaron en el terreno por entonces
fiscal, era un rudimentario rancho con techo a dos aguas de paja montado
sobre tierra firme con paredes de paja o adobe y techo de madera de
capipoti.
Confeccionó a pala, con troncos y piedras un sendero escalonado
hasta el río. Un molle le sirvió de amarre para su canoa. Edificó frente a su
ranchada un puerto casero. A partir de entonces los puesteros y pescadores de las islas, o de los parajes próximos Celina o Villa Urquiza, que por
algún motivo debían llegarse hasta Paraná, sabían que encontrarían
protección y descanso en este lugar, posteriormente muchos de ellos,
atraídos por el movimiento de la ciudad, se trasladaron y construyeron su
vivienda para quedarse en el lugar.
Después de la creciente de 1905, las viviendas se alzaron sobre
postes de madera de timbó removibles, según el comportamiento y la bravura del río. Es en este momento que aparece un elemento que caracteriza e identifica al grupo, ya que al construir su rancho cuando el hombre
era soltero, lo hacía con techo de “un agua”, cuando traía compañera
cambiaba la orientación y lo realizaba con techo de “dos aguas”, reforzaba
la estructura y cuando la familia aumentaba, ampliaba también el rancho.
La principal limitación para el costero y su familia son las crecientes
o “arribadas” con mayor o menor peligrosidad, ya que lo primero que ve
amenazada es su vivienda, luego su ocupación y por último la obtención
de alimentos. Las sucesivas crecientes anteriormente predecibles según
el comportamiento conocido del río, hacían que los pobladores se
prepararan y reforzaran especialmente los techos y los pilotes sobre los
que se asentaban las primitivas construcciones. Cuando las “aguas
bajaban” las familias evacuadas regresaban a su vida cotidiana, a “asolear”
lo que se pueden conservar y desechar lo que esta inutilizado por el agua.
Los gobiernos provinciales y municipales emprendieron planes de
recuperación de la vivienda costera, construyendo una serie de viviendas
tipo palafitos, de material asentadas sobre pilotes de hormigón las que
fueron adjudicadas entre los años 1995 y 1999 a familias que reconocían
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
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su pertenencia al lugar. También se ampliaron los terraplenes
consolidándolos con gaviones, lo que soluciona el problema de las
frecuentes inundaciones.
Por el sector oeste, las continuas erosiones de la barranca están
afectando a los pobladores establecidos bajo su amparo, lo que inició un
éxodo de varias familias hacia otras zonas de la ciudad.
Cabe mencionar que los entrevistados destacan la creciente del
año 1982 en la que el río registró una marca de 6,77 m. Éstos fueron
auxiliados por los efectivos de la Prefectura Naval Argentina de la ciudad,
quiénes con bombas succionadoras intentaron desalojar el agua del interior de las viviendas. La Dirección de Defensa Civil se ocupo de trasladar
las familias, en tanto los empleados municipales llenaban bolsas de arena
para frenar el avance del agua y los vecinos “fijaban estacas de chorizos
de chilca” a modo de contención natural.
A partir de este impacto los vecinos del barrio comenzaron a prestar atención en las alturas del río en Iguazú, para intentar predecir el
comportamiento del mismo, sus nuevas bajantes y de acuerdo a ello, relata un pescador son sus “estados de ánimo” por la inseguridad que le genera
un nuevo repunte del agua.
En 1992 hubo otra creciente la que estaba prevista a los 10 años
de la anterior, con un registro de 6,88 m, superando a la anterior. Y en 1998
una nueva “riada” socavó los terraplenes artificiales de contención que el
“costero auténtico” supo soportar disponiéndose a reconstruir su casa
nuevamente y otros mudaron sus cosas al piso superior (en las nuevas
construcciones se les construyó dos grandes habitaciones abajo y otras
dos arriba).
Por los años cuarenta, cuando Doña Dominga Ayala de Almada
llegó a Puerto Sánchez, proveniente de Colón, junto a sus padres y siete
hermanos, en una embarcación con la que tardaron dos meses y siete
días recorriendo el río Uruguay y remontó el Paraná inferior y medio, no
había conexión particular a la red de energía eléctrica, por lo que las familias
se alumbraban con candiles (una mecha embebida en querosén que hacía
arder la grasa de pescado y por combustión, producía luz). Tampoco había
conexión domiciliaria de agua potable; por lo que bebían agua del río la que
recolectaban y la dejaban “asentar”.
Trasladando una línea imaginaria que desciende desde el anterior
sitio donde se levantaba el monumento al pescador hasta la costa, las
mujeres se agrupaban para lavar la ropa con agua de río, momento que
aprovechaban para las relaciones sociales, intercambios de noticias y
comentarios. Muy pocas eran las que “salían a trabajar”. Contrariamente a
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
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lo que sucede en la actualidad, donde son numerosas las que salen a
realizar trabajos fuera de sus casas, generalmente como empleadas domésticas.
Cerca de este lugar se amarraban algunas embarcaciones tales
como “El Salvador”, “Don Enrique”, “Chemembí”, nombres que aún
subsisten en embarcaciones que se conservan como bienes familiares
(han dado de baja a las primitivas, pero rebautizaron a las modernas con
los mismos nombres). Se recuerda aún aquellas que se averiaban de tal
manera que resultaban inutilizadas para la pesca quedando “encostadas”
o paradas en la orilla, como símbolos vivos del trabajo del pescador, una
de ellas “Santa Cándida” desapareció en un temporal.
En los primeros años de democracia se inauguró un comedor infantil “Carpinchito”, para que los gurises costeros almorzaran y recibieran
cuidados y objetos materiales, coincidentemente con el período en que las
madres salieron a trabajar fuera de su residencia y también una sala de
primeros auxilios “Dr. R. D’Agostino”.
Actualmente Puerto Sánchez y sus barrios cercanos cuentan en
general con red de servicio eléctrico, agua potable, telecomunicaciones,
alcantarillado, eliminación de excretas y de basura. Esto último se garantiza
por la tarea de la Dirección de Limpieza Municipal que procede a la
recolección de residuos domiciliarios en dos turnos de trabajo (diurno y
nocturno).
[…] el caserío barrancoso se denomina Puerto Sánchez, jornaleros,
obreros de la costa, gente con problema de viviendas, jubilados, y
gente que ama las aguas, han suspendido sus viviendas en la
barranca. Si ustedes llegan de día la paz de la tarde costera les
humedecerá el alma […] Si prefieren la noche, sentirán el río luminoso golpear la costa. Puerto Sánchez en la arboleda y en la ladera
de la barranca, duerme y huele a pescado frito. Un olor difuso a
sauce y a pesca apaciguará el corazón […] (DÍAZ, José María, 1992).
3.2 SITUACIÓN ECONÓMICA
Según un estudio antropológico de R. Reina (1973):
“Paraná; social boundaries in an Argentine City”, el pescador se
ubicaría a sí mismo como miembro de la “clase humilde”, mientras
que los de “clase alta” lo designarían como “negro” o “clase baja”.
De acuerdo a la clasificación propuesta, la actividad pesquera puede
ser considerada comercial y deportiva, el primero es generalmente un
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poblador de escasos recursos económicos. Vive en ranchitos muy precarios
en la costa del Paraná, barrio Bajada Grande, Puerto Sánchez y Puerto
Viejo. Se desplaza con una lancha o canoa de madera hecha por algún
carpintero local, accionada a remos o con un viejo motor.
Sus herramientas son una o dos redes o mallas tejidas y tres o
cuatro “espineles” (largo hilo del cual cuelgan varios cordones o “relingas”
con anzuelos en los extremos). Para él la pesca cumple dos funciones
importantes: alimenta a su familia con un recurso que obtiene gratuitamente del medio y además, cuando la pesca abunda, vende la producción
obteniendo dinero para las provisiones en el almacén y alguna ropa. El
pescador deportivo es un apasionado de este entretenimiento que lo practica
cuando su trabajo habitual se lo permite, como una recreación y no una
necesidad de subsistencia.
En el barrio Puerto Sánchez la pesca que se practica es tipo
“artesanal”. Consiste en una salida diaria del pescador al río en su
embarcación (barcaza, canoa a remos, pala y botador o a motor) para la
extracción del agua de las piezas; se efectúa mediante cañas, redes, o
mallas (antes tejidas por los mismos pescadores con hilo de lino),
mojarreros y mediomundos (este último es una caña de pescar con un
aro en su extremo, al cual se inserta una red de tejido fino, que sirve para
pescar piezas mas pequeñas.
Las canoas en general son realizadas en madera de timbó colorado,
actualmente son de fibra plástica con motor fuera de borda, se sigue
efectuando la pesca con piolas de fibras de polietileno y del mismo material son las boyas; el modo de pesca era y es “con simbra” o carnada;
para extraerlos del agua se lo “fija con la chuza” ya que podían atravesar
el pez con una especie de uña de hierro.
Los espineles son “alambres, con brazoladas de piola o ‘sirga’ de
algodón en los veriles” portadores de anzuelos, se los usa en ríos profundos, fijándolos en el fondo del lecho con un elemento pesado, para que la
correntada no lo arrastre y por lo general con una pequeña boya (tarro)
atada en él para ubicarlo en la superficie del río. El pescador lo recorre
varias veces en el día para controlar sus carnadas, reforzar o cambiar y
recoger los ejemplares que quedaron capturados en sus anzuelos.
Cuando se capturaban abundantes peces eran vendidos para consumo o los conservaban vivos en “jaulas” sumergidas en la orillas (jaulones)
o se los entregaban a los “palanqueros”, quienes transportaban al hombro
la “palanca”, de donde colgaban los peces los que eran vendidos en distintos puntos de la ciudad domiciliariamente.
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Así se los recuerda a los palanqueros:
Generalmente a media mañana se oía el clásico pregón del pescador, el simpático Don Fehleisen, portando los pescados frescos
colgados de una palanca cargada sobre sus hombros. “Pescadiiii….
Tos”, se le oía gritar. (NANNI, D., 1998).
En la actualidad existen dos ‘pescaderías que son “centros de
comercialización” del fruto fresco del río en el barrio “Puerto Sánchez”
(MARY; LEMOS).
Es importante mencionar que la fauna ictícola se ha empobrecido
por la desaparición paulatina de numerosas especies (surubí, pacú,
manguruyú) y también se observa un fenómeno altamente significativo
cual es la mortandad inexplicable de ciertas variedades adultas de peces,
la escasez de pique de variedades, tales como el pacú y el manguruyú, se
aduce a que se debe por la pesca indiscriminada (ejemplares jóvenes y
alevinos o cuyo tamaño es menor al reglamentario) lo que provoca un
desequilibrio en el ciclo reproductivo de las especies.
Algunos residentes refieren que con la construcción de mega-obras
de infraestructura (Túnel Subfluvial Uranga- Silvestre Begni”, Represa
Yacyretá, Puente Rosario–Victoria y otras) han determinados afectaciones,
como, por ejemplo, sonoro, y(o) contaminaciones varias, las que son negativas para las especies. Otra justificación esgrimida, por profesionales
de organismos del Estado provincial determina que el motivo son las abruptas bajantes del régimen estacional del Paraná, lo que obliga a algunas
especies a emigrar a lugares con más caudal de agua, o quedan dentro
del cauce primario y son depredadas por otras especies.
En el CERIDE (Centro Regional de Investigación y Desarrollo, Santa
Fe) se está investigando sobre el repoblamiento natural y las posibles causas de la mortandad de las larvas de sábalo, poniendo a resguardo de
forma artificial el “hábitat” donde las hembras desovan y monitoreando el
crecimiento de la larva. Los pescadores costeros se remiten a la
“desaprensión” de algunos deportistas comerciantes que utilizan
“trasmayos” o redes que limpian el fondo arrasando la fauna ictícola en
cualquiera de sus estadios de crecimiento.
La Subsecretaría de Medio Ambiente llevó a cabo “Talleres de Pesca”, con el objetivo de informar, instruir y concientizar a la población que real
o potencialmente interacciona con el río y sus seres vivos. Otro obstáculo
según los mismos pescadores son los camalotes y el canutillar, flora típica
del río que se acumula en la base de las canoas y las va deteriorando.
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Entre otras ocupaciones y actividades anexas a la pesca que se
continúa ejecutando aún hoy es la del “calafateador” – verdaderos
constructores y restauradores ribereños artesanos de la madera, quienes
pueden hacer una embarcación completa hasta sus remos, como restaurar las más deterioradas, especialmente en lo que respecta a la pintura
que las recubre. Esta actividad se ha ido perdiendo porque
[…] algunos de estos artesanos de lo naval eran ya mayores, no
salían diariamente de pesca y efectuaban una tarea más pasiva; a
veces también se ocupaban de tejer y reacondicionar las redes. La
segunda actividad consistía en lavarlas y secarlas a la sombra.
Se ocupaban además de “religarlas” con cordeles de sisal,
“embollandolas” con corchos pasados en parafina caliente, que cumplía la
finalidad de que “no carguen tanta agua”.
Diversas actividades permitían sumar dinero, como, por ejemplo,
la venta de leña o de “cucharas del agua” (conchillas u ostras de río). Otra
de las tareas remunerada era cruzar ganado a la isla por encargo del
propietario, y la posterior ejecución de tareas del tipo rural (marcar, señalar,
descornar y castrar vacunos). Cuando la gente vivía en la isla, cultivaba
maíz zapallo, choclo, sandía porque la tierra de la isla es muy fértil. Otro
ejemplo del cual se hacen eco es el caso en la Isla Puente donde una
señora cultivaba flores que vendía en la ciudad.
3.3 REINSERCIÓN LABORAL DE LOS PESCADORES
La disminución del recurso pesquero ha cambiado la vida de los
pescadores teniendo que buscar rápidamente una reconversión laboral
ya que esto, los afecto en lo más íntimo por pertenecer a la identidad de
pescador. Solo desde este marco se comprende su vida y en algunos
casos, sus temores.
Cuando el poblador sale “a recorrer” además de trabajar, de poner
en práctica sus saberes, sus capacidades y percepciones, está jugándose
el alimento familiar de todo el día. En esta “salida”, que puede equipararse al
trabajo “buscavidas” del vendedor urbano con la enorme salvedad de que el
pescador debe proveerse la mercadería a comerciar, le resulta imprescindible
saber qué sitios recorrer, allí ponen en juego su agudeza en la ubicación
espacial sobre el oscuro río y las especies posible a extraer; si está en
aguas abiertas, el surubí, o los que se hallan en el lecho fluvial, como las
rayas ya que no es igual llevar a la mesa un surubí que una “vieja del agua”
o bagre (por su tamaño, consistencia y calidad de su carne).
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
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Las canoas vuelvan vacías cuando “[…] se sale a recoger la pieza
de verano, que aun no se ha retirado por el calorcito, […] ya que la de
invierno todavía no ha venido [...] pero ni la una ni la otra están presentes
en el agua.”
Una jornada de 10 o 12 horas de trabajo no llega a aportar 10 kg de
pescado (para venta a los acopiadores). La falta de alimentos y dinero se
va compensando con la búsqueda de changas o jornales que duran de
dos a cinco días, no se toman trabajos de un tiempo mayor para “hacerse
al río”. Estas tareas son un paliativo a la criticidad de lo económico, va
determinando en los hombres el aprendizaje de otros oficios, tareas,
ocupaciones temporales, como, por ejemplo, las relacionadas con la
construcción, y las mujeres el servicio doméstico.
Les resulta difícil insertarse ya que “vienen de la cultura del agua”,
como ellos mismos lo expresan, hay “tres o cuatro generaciones familiares detrás de hacer lo mismo, vivir de y por el río”. Consideran que si
acceden a otros trabajos o no los pueden aprender, porque tienen sus
capacidades desarrolladas para otras tareas o se sienten “encerrados”,
oprimidos. Peor es si este pescador tiene entre 40 y 50 años ya que por su
edad no será contratado (una persona de 40/50 años es mas propensa a
sufrir un accidente y, en caso de que lo sea, le es difícil incluirse en grupos
laborales cuya trayectoria data de hace mas de 20 años).
Los nuevos aprendizajes y normas de convivencia laboral hacen
que el pescador abandone su nueva ocupación por sentirla excluyente.
Fuera del rubro “construcción”, hay escasa oferta y variedad en cuanto al
tipo de empleos. Para ser incluido en el sector industrial o administración,
se exige la certificación de la Escuela Secundaria finalizada, manejo de
PC, etc., niveles de instrucción a los que los pescadores no han accedido.
Actualmente, por la intervención de la política partidaria, se les ofrecen
subsidios y planes, netamente asistencialitas y paliativos, que producen
un gran estrago en la transmisión familiar del valor “trabajo”.
Otros modos de subsistencia registrados son el “cirujeo”,
“pedigueñeo”, que son vividas como denigrantes. Uno de ellos expresaba
que “el que fue pescador no sale a robar, por la cultura de trabajo con que
se ha criado”. Además, señalan que el costero no vive en una sociedad
totalmente aislada, sino que constituye una “sociedad parcial” dentro de
una sociedad más amplia. Estos pobladores relatan que por la falta del
recurso ictícola, del alimento, del trabajo, están aumentando fenómenos
como el alcoholismo, desmembramiento familiar, deserciones escolares
– la extinción del oficio.
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“El que fue pescador, va a morir pescador”, sin poder ver que sus
hijos lo hereden en este tarea. Las reglamentaciones del Estado, provincial acerca del manejo y preservación de la vida silvestre, constituyen uno
de los numerosos “procesos de articulación social” que vinculan a estos
grupos aparentemente aislados con el resto de la sociedad. El modo de
ganarse la vida, el sustento radica en la pesca, por lo que se consideró
importante remitir esta actividad al reglamento para la protección de la
pesca, vigente en la Provincia, cuya supervisión y vigilancia lo realiza
personal de la Dirección de Flora y Fauna.
Dentro de la macroestructura organizativa provincial, la
Subsecretaría de Medio Ambiente y Ecología es la encargada del control y
supervisión de esta actividad, pero la realidad es que no cuenta con medios
ni personal suficiente con el fin de llevar adelante operativos para combatir
la depredación de las especies. Los operativos se organizan conjuntamente con oficiales de Prefectura Naval y Policía de la Provincia, en los
que se ha comenzado a incorporar el trabajo de los guardafaunas.
Tanto la pesca comercial como la deportiva están reglamentadas
por instrumentos legales dictados por los organismos antes señalados
para conservar la flora y fauna silvestre, Entre sus limitaciones se propone
veda total de pesca del manguruyú y pacú, la reglamentación exige que si
la pieza posee una medida inferior a 65 cm para el dorado y 75 cm para el
dorado. Fuera de estas medidas deben ser devueltas al río.
Un número interesantes de pescadores logra seguir desarrollando
tareas en o junto el río es llevando a cabo otras actividades, tales como:
a) salidas río adentro para guiar grupos de aficionados a la pesca
(dada la experiencia y condición de expertos en lo que se refiere
a conocer lugares de pique);
b) venta y asesoramiento de carnadas;
c) acompañamiento a los grupos de excursionistas de pesca indicando o llevándolos a lugares apropiados para acampar, bajadas
de lanchas, y(o) guarderías náuticas;
d) otro grupo ha implementando desde el año 2000 acciones de
asociativismo buscando “superar el individualismo y caminar
juntos” (Raúl Roco, Luis Romero, Luis “Beto” Martínez y otros
con el apoyo de la Fundación Eco Urbano, Avina y Fundación
Proteger lograron conformaron una ONG bajo la denominación
(ONG “Redepesca”, “Baqueanos del Río”), que tiene como principal objetivo el recupero y difusión de la “cultura costera”. Ellos
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en sus embarcaciones tradicionales son los que trasladan
actualmente a los turistas haciéndolos conocer el islote.
A pesar de estos esfuerzos, al revisar los datos relevados por la
Dirección de Estadística y Censos de la Provincia y de la EPH (Encuesta
Permanente de Hogares) se toma conocimiento de que, un 40% de los
pobladores de este barrio son beneficiarios de planes y programas
nacionales y provinciales: (Bono P.A.F. – Plan Alimentario Familiar; Bono
PRAF – Plan Refuerzo Alimentario Familiar; Plan Jefes y Jefas de Hogar
Provincial; Plan Familias – nacional; Ley 4.035 – provincial; pensión nacional por madre de mas de 7 hijos y otro importante porcentaje se compone
de trabajadores del sector servicios: estatales y municipales; servicio doméstico – pescadores y desocupado(as). Esto demuestra que el río ya no
los provee de los recursos ictícolas que en su origen determinó la
conformación de un barrio lo más cerca posible del río donde desarrollaban
su principal actividad económica, la pesca.
4 JUSTIFICACIÓN DE LA POSIBILIDAD DE SER
DESTINO TURÍSTICO: ANÁLISIS
Con relación a los temas analizados anteriormente es importante
realizar un examen completo mediante un cómputo de las fortalezas y
debilidades del lugar. El reconocimiento de las primeras es esencial para
el diseño de estrategias de desarrollo capaces de orientar hacia un mejor
aprovechamiento del Islote Municipal, mientras que conocer la existencia
de las debilidades permitirá evitar las estrategias demasiado optimista para
enfrentar las restricciones existentes allí. Los estudios previos y especialmente el trabajo de campo permiten identificar las siguientes fortalezas y
debilidades.
4.1 FORTALEZAS
• Islote de propiedad del Municipio de Has, cubierto de bosque
higrófilo conservado en las cercanías de dos ciudades capitales
Paraná/Santa Fe.
• Particular combinación de ambientes y múltiples oportunidades
de armar safaris fotográficos.
• Condiciones favorables a turistas no convencionales para práctica
de turismo en la naturaleza.
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• El islote esta ubicado en el Río Paraná a pocos minutos del puerto
de la ciudad homónima y con características importantes para
ser aprovechado mediante actividades enmarcadas dentro del
ecoturismo.
• Valor y calidad del patrimonio natural.
• Disponibilidad de áreas de alto valor escénico y recreativo, caracterizadas por un bajo nivel de intervención en la naturaleza.
• Humedales que pueden ser aprovechados como recurso de
observación de flora y fauna, propia de esos ambientes.
• El microclima local se presenta confortable y dada su ubicación
geográfica al borde de un curso de agua, puede sentirse bienestar
climático y realizar un aprovechamiento del islote durante todo el
año
• Presencia de diversidad de aves observables durante todo el año
y de otros animales de mayor porte.
• Diversidad de patrones vegetales (selva hidrófila, cataizal y
humedal) con especies diversas y específicas en cada una de
ellos.
4.2 DEBILIDADES
• Ausencia de señalización y cartelería didáctica que permita
conocer a la naturaleza.
• Falta de Centro de Interpretación que se integre correctamente
en el paisaje, utilizando técnicas en su construcción
ambientalmente sostenible.
• Carencia de previsión para afrontar el comportamiento variable
del río.
• Conductas desaprensivas de los usuarios del islote, con relación
a la preservación de los recursos naturales y paisajísticos.
• Insuficiente personal para atención de la educación ambiental y el
desarrollo de actividades de recreación en la naturaleza.
• Inexistencia de acción coordinada entre los diferentes niveles de
tomas de decisión (municipio, Fundación “Baqueanos del Río” y
ONGs) y para promoción de actividades ecoturísticas
cumplimentando los principios que aseguren un turismo
sustentable y sostenible.
• Deficiencias funcionales y estructurales en el servicio de
recolección de residuos.
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• Falta de adecuación de los senderos, demasiado anchos, y
construcción de otros sobreelevados.
• Necesidad de que la máxima autoridad o responsable sea un
profesional especializado en conservación y manejo de los recursos naturales o medio ambiente.
• Falta de personal de control y guías de ecoturismo, piezas claves, para el mantenimiento de la actividad en el lugar.
4.3 OPORTUNIDADES
• Cercanía de ciudades capitales (Paraná/Santa Fe).
• Ambiente propicio para safaris fotográficos, observación de flora
y fauna, actividades de ecoturismo.
• Resignificación del papel de la ONG y de los organismos específicos en el interior del islote.
• Posicionamiento positivo como destino ecoturístico dentro de la
oferta que ofrece Paraná.
• Posibilidad de desarrollar proyectos en conjunto con otras
organizaciones nacionales y extranjeras, públicas y privadas.
Trabajo en red.
• Fortalecer los objetivos propios de la gestión actual del islote.
Ejemplo: incorporar los principales centros de investigación del
país para el estudio y resolución de la problemática del islote;
revalorizar el islote como ámbito de educación formal y no formal.
• Coordinar proyectos conjuntos con las otras instituciones presentes en la zona, que pueden servir para combinar
potencialidades (sinergia). Ejemplo: venta de productos
regionales de los isleños (comida, artesanías, etc.).
• Generación de fuente de trabajo; contratación de recursos humanos, de personal, perteneciente al ámbito isleño, especialmente
para la reconversión laboral de los pescadores; integración del
Proyecto Islote al Programa Cultural Puerto Sánchez del
municipio.
4.4 AMENAZAS
• Profundización de los impactos directos e indirectos desarrollados
en el mismo, originando la degradación creciente del medio ambiente y aumento de la contaminación.
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• Pérdida de protagonismo del islote en la zona, por ausencia de
estrategias adecuadas de mantenimiento y promoción.
• Pérdida de celeridad en los trámites a través de los cuales los
responsables del islote canalizan sus demandas y políticas
presupuestarias.
4.5 PRODUCTO TURÍSTICO
La estructuración del producto turístico que se obtendrá una vez concluidos
los lineamientos presentados tendrá las siguientes características:
Ofrece: bosque natural, playa, paisaje, biodiversidad, educación
ambiental.Recreación en la naturaleza: safari fotográfico. excursiones
acuáticas,observación de la ciudad desde el río, contacto con la cultura
isleña.Dirigido a: población de diversos estratos de edades, sexo y con
aptitud, especialmente afín con la naturaleza.Época a ofrecer: durante todo
el año.Comercialización: agencias de viajes, hoteles, empresas
turísticas,escuelas, internet, ferias y exposiciones, etc.Forma de
comercializar: mediante paquetes individuales y grupal.
4.6 POSIBILIDADES Y ACCIONES A DESARROLLAR
Por lo analizado, el Islote Municipal tiene las condiciones esenciales
para desarrollar un proyecto de ecoturismo. La riqueza y diversidad biológica de las formaciones vegetales que cubren el lugar, con presencia de
importante y diversa cantidad de árboles, arbustos, enredaderas, propias
de la selva hidrófila que acompaña el Río Paraná desde su nacimiento; un
ambiente de características acuáticas, cuyo espejo de agua es intermitente y sólo aparece en épocas de creciente del Río Paraná, determina la
presencia de un humedal/pajonal que sirve de hábitat a numerosas aves
acuáticas. Según el Lic. Muzachiodi alrededor de 105 especies de aves se
pueden observar a lo que se suma la riqueza en peces, sostén de una
actividad deportiva turística que atrae a numerosas personas.
Esta unidad de conservación, el mayor impacto que ha sufrido es
“el refulado”, en los años 90, y que abarca el centro-norte del islote; el
resto muestra condiciones naturales similares a las restantes islas del
Paraná. El deterioro que presenta se debe entre otros condicionamientos
al manejo no controlado, ni bajo conceptos preservacionistas que se ha
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
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realizado del lugar, no obstante mantiene en gran medida sus condiciones
naturales.
Para realizar un proyecto ecoturístico, según el arquitecto Roberto
12
Bullón , se requieren la siguiente condición:
Un área natural protegida en cuyo ambiente haya biomas de interés
turístico.
Un sistema administrativo que condicione los tipos de visitas e
instruya a los turistas sobre las características de lo que va a ver.
Una experiencia satisfactoria del usuario en cuanto a la calidad del
ecosistema visitado y el conocimiento de sus características distintivas.
Un aprovechamiento turístico de los ecosistema que resultan
interesantes, con la condición que no ponga en peligro las bases
de su funcionamiento”
El primer requisito se cumple, atento a la diversidad biológica que
posee permite desarrollar turismo de la naturaleza: científico, observación
de aves, safari fotográfico y la observación y educación ambiental para
turistas en general.
El segundo requisito requiere de una ordenanza municipal que
apruebe un plan de manejo del mismo, el que contemplará las acciones
permitidas y no permitidas en el lugar, en cuanto al tercero y cuarto
requieren de la implementación de un programa integral que tenga como
objetivos: reacondicionar el Islote Municipal para el desarrollo del ecoturismo
y la educación ambiental; dar a conocer la presencia y posibilidades de
visitar al mismo, para modificar el porcentaje de personas que no conocen
el Islote.
Estos objetivos fueron los pilares que llevaron a proponer el proyecto:
implementación de elementos y servicios ecoturísticos en el Islote Municipal como apoyo de la educación ambiental; aprobado en el marco de la
convocatoria: puente entre universidad y sociedad; programa promoción
de la Universidad Argentina – Secretaría de Políticas Universitarias (SPU)
– Ministerio de Educación, Ciencia y Tecnología (M.E.C. y T.). En el mismo
se intenta potenciar las fortalezas, modificar las debilidades, así como
aprovechar las oportunidades para ello. Se propusieron los programas y
subprogramas a seguir.
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4.7 PLAN INTEGRAL DE APROVECHAMIENTO
ECOTURISTICO Y AMBIENTAL DEL ISLOTE
4.7.1 Posibilidad de Aprovechamiento del Islote en el Futuro
Por su ubicación geográfica, el Islote Municipal permite advertir una
posición de ventaja potencial para su desarrollo, ubicándose como una de
las áreas protegidas que podría alcanzar un lugar importante en el futuro,
dentro de sus pares. Entre las premisas que permiten realizar esta
apreciación, se destaca su ubicación a muy pocos minutos de dos ciudades
capitales de provincias y el patrimonio natural que le otorga características
propias.
Realizando un análisis de una cobertura espacial que abarque las
localidades ubicadas a una distancia aproximada de 150 km:
Por su ubicación geográfica, el Islote Municipal permite advertir
una posición de ventaja potencial para su desarrollo, ubicándose como
una de las áreas protegidas que podría alcanzar un lugar importante en el
futuro, dentro de sus pares. Entre las premisas que permiten realizar esta
apreciación, se destaca su ubicación a muy pocos minutos de dos ciudades
capitales de Provincias y el patrimonio natural que le otorga características propias.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves
195
Realizando un análisis de una cobertura espacial que abarque las
localidades ubicadas a una distancia aproximada de 150 km (salvo el caso
de Rosario que se encuentra a 182 km por el Puente Virgen del Rosario
(con una demora promedio de 1 hora y 50 minutos, a una velocidad crucero
de 80 km/h) posibilitaría que una población aproximada de 2.000.000 habitantes, según censo 2001, esté en condiciones de realizar excursiones al
islote ya sea para recreación, como para recibir educación ambiental con
ida y vuelta a su localidad de origen en el día.
El aprovechamiento de este proyecto ecoturístico se podrá lograr a
través de la promoción y divulgación de su presencia en la primera etapa
en las poblaciones que se encuentren en un radio de 150 km.
El Islote presenta aptitudes valiosas y aún sin desarrollar para
actividades ecoturísticas y de educación ambiental con la posibilidad de
incorporar una cadena interesante de otros atractivos que rodean al mismo
como se demuestra en el plano donde se ha volcado la infraestructura y
servicios así como también es notoria su revalorización a partir de la
incorporación de elementos interpretativos debido a que esta porción de
territorio como se ha demostrado mantiene una importante riqueza en su
biodiversidad. El mismo necesita sumarse a la dinámica turística de la
ciudad. Su papel a futuro es importante, pero actualmente es reticente.
El rol que a desempeñado a través de los distintos períodos, en el
contexto estatal muestra diversos esfuerzos en las distintas etapas, pero
hasta ahora ninguno ha sido lo suficientemente atractivo como para
incorporarlo con funcionalidad turística a la ciudad. Siempre esta la
esperanza de integrarlo plenamente a la misma.
Un punto de partida es hacer conocer y valorar su potencial natural, belleza y riqueza biológica para contribuir a partir del turismo de
naturaleza en la diversificación de los productos turísticos de la zona.
Dice Ceballo Lascuarain: “Aún con el mejor de los productos, si el
público apropiado no sabe de él, no se venderá. Lo mismo se aplica para
el ecoturismo.” Y en el caso que nos ocupa es evidente la falta de
conocimiento de su presencia como lo demuestran las encuestas.
Si bien es cierto que algunas autoridades de áreas protegidas
prefieren pocos turistas, aquellas que están interesadas en realizar el
ecoturismo merecen el apoyo mediante una difusión acorde a su
importancia.
Según el autor antes mencionado, toda actividad mercadotécnica
en el campo del ecoturismo se compone de las siguientes etapas:
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
196
Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ...
a) obtención de inventarios de atractivos o actividades existentes;
b) identificación de los segmentos apropiados del mercado (tanto
oferta como demanda) y orientación adecuada hacia estas;
c) evaluación del grado de atractivo comparativo del producto;
d) estrategias y actividades promocionales.
El primero punto está analizado en el presente informe,
demostrando que el lugar tiene suficientes atractivos para desarrollar turismo de naturaleza, con todas las precauciones que se debe tener para
lograr la sustentabilidad del recurso
Para dar respuesta al segundo, se analizó la demanda actual. Ésta
está limitada a un pequeño grupo de usuarios que sólo lo visitan en época
estival para el aprovechamiento de playa y durante el año lo hacen algunos
turistas especialmente extranjeros interesados en la experiencia de conocer
la cultura isleña de boca de los “Baqueanos del Rio”, escuela de canotaje
o algunos de los integrantes de la ONG a la que se ha entregado el islote
en comodato.
En ese sentido y por él producto que ofrece el islote, la oferta se
podría ampliar una vez implementados los programas y subprogramas
señalados anteriormente. Estos revertirán las principales debilidades y
permitirá ofrecer su aprovechamiento a los siguientes segmentos de
población, una vez solucionado la instalación de un número mínimo de
sanitarios químicos:
a) turistas científicos de la naturaleza, conservacionistas nacionales
y extranjeros;
b) estudiantes (primarios, secundarios, terciarios y universitarios);
c) familias;
d) turistas en general;
e) excursionistas.
Los turistas científicos pueden ser o no residentes de la zona. Son
los que tiene una alta motivación científica. Se ofrecerá el islote en su
totalidad con su riqueza de flora, fauna y áreas intangibles.
Será tarea de las autoridades municipales realizar una importante
acción de difusión en el país y en el extranjero para captar demanda de
este tipo de usuarios cuyos trabajos científicos pueden mejorar el
conocimiento y proponer acciones para el manejo sin riesgo del islote.
Además, posibilitaría la generación de contactos importantes para la
captación de fondos a invertir en la mejora del mismo.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves
197
Los estudiantes franja que hoy no visita con asiduidad este lugar, lo
podrán hacer a partir de la posibilidad que brinda una embarcación con
mayor cupo como el catamarán. Ésto les permitirá tener la experiencia de
navegar un río como el Paraná e interpretar la naturaleza en una isla.
Las familias son una franja muy importante de captar, por que
generalmente los niños toman su primer contacto con áreas protegidas
de la mano de sus padres o maestros. Tienen la posibilidad aprovechar el
lugar para descanso y recreación de fin de semana. Estos grupos podrían
aprovechar el islote y las actividades de educación ambiental.
Se estima que en estos grupos, están los mayores niveles de demanda potencial, atendiendo además que las reformas curriculares han
incorporado contenidos de biología y educación ambiental, posibles a
desarrollar en el lugar. En el inicio lo podrán aprovechar grupos pequeños
mediante excursionismo. Posteriormente para aquellos grupos que superen
los 50 integrantes y que no sean residentes de la zona, se sugiere complementar el paquete con alojamientos comunitarios en la Toma Vieja, o el
túnel además de integrar visitas a otros recursos turísticos históricos
culturales de la ciudad, por lo que se propone la firma de convenios entre
Instituciones.
Los turistas en general pueden realizar la visita complementándola
con algunos de los circuitos acuáticos acompañado por guías
especializados, Es una demanda muy estacional, pero ha crecido en los
últimos tiempos.
Los excursionistas son residentes del Departamento Paraná y localidades vecinas.
Se podrá interesar a empresas de viajes y turismo de la Provincia
y del país en la inclusión de este producto dentro de sus ofertas.
El relevamiento realizado en las empresas turísticas de la ciudad
de Paraná demostró que no se incluye ningún tipo de programas que
contengan la visita al Islote Municipal, como destino turístico, debiéndose
destacar que ante la consulta o pedido se organiza en el momento.
4.7.2 Demanda Potencial
Considerando la existencia de una tendencia positiva sostenida de
crecimiento del sector turístico en la Provincia de Entre Ríos, con un 12%
como incremento detectado en la temporada estival 2005 (comparada con
la del 2004); sumado al impacto que tendrán las obras de infraestructura
ejecutadas en el Islote y al esfuerzo de marketing y difusión para el
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
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Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ...
lanzamiento de la temporada 2009 del mismo, concluimos que se puede
proyectar un escenario positivo, con un incremento en las cantidad de
visitantes en todas las estaciones para el año 2009.
4.7.3 Recomendaciones
• Hacer de la política turística para el Islote Municipal una cuestión
importante para el municipio.
• Fortificar la búsqueda de apoyo económico financiero, especialmente en organismos internacionales y otras instituciones.
• Consolidar el Islote Municipal como lugar ecoturístico de importantes posibilidades, para potenciar el desarrollo económico cultural y social de las poblaciones isleñas.
• Diferenciar el mismo de otras áreas protegidas, por el agregado
de otros productos y servicios – ambiente y calidad.
• Ampliar la base de demanda en los grandes mercados, especialmente para aprovechar los servicios de educación ambiental.
• Aplicar estrategias de marketing para mejorar acciones de
promoción y difusión.
• Fortalecer acontecimientos programados ya existentes e incentivar para la realización de nuevos eventos en el islote.
• Implementar los circuitos acuáticos, para el logro de una mayor
estadía del visitante en Paraná.
• Crear un banco de datos a través de las encuestas, que permita
conocer el movimiento y monitorear el comportamiento del área,
para atemperar impactos.
• Incentivar la propuesta del plan integral para romper la marcada
estacionalidad estival que presenta.
• Implementar, con el Consejo General de Educación, un programa de actividades escolares en el islote, de reconocimiento de la
flora y la fauna, como así también programas de concientización
y reforestación de especies autóctonas.
• Planificar y difundir programas de visitas guiadas en el islote, a
cargo de guías especialmente capacitados.
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5 CONCLUSIÓN
Los cambios curriculares en la educación de la Provincia, las
acciones denodadas llevadas a cabo por las ONGs, el fuerte movimiento
en las poblaciones del mundo, de volver su mirada hacia la naturaleza
hacen necesario que al Islote Municipal se le otorgue el lugar importante
que se merece como propuesta turística. Es una responsabilidad ineludible
del gobierno municipal trabajar para que el mismo logre el respaldo
económico para su recuperación y puesta en valor.
Paraná debe beneficiarse con el fuerte crecimiento del turismo
ecológico y aprovechar esta coyuntura para posicionar en el mercado del
turismo al Islote Municipal como un nuevo destino turístico. La riqueza
florística, faunística y cultural otorgan al lugar condiciones apropiadas para
desarrollar ecoturismo.
Su ubicación geográfica cercana a dos capitales de Provincia, en
el Corredor Turístico del Paraná que conecta la zona con un recurso turístico de primer orden: las Cataratas del Iguazú – Patrimonio de la Humanidad
(UNESCO) permiten asegurar la presencia de usuarios para aprovechar
la propuesta. La misma está condicionada a la continuación de la
realización de obras para que los turistas encuentren en el lugar aquello
que distingue al ecoturismo: conocimiento, educación, además de
recreación y satisfacción del visitante.
REFERENCIAS
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2 DRAGO, Edmundo. Caracterización de la llanura aluvial del Paraná medio
y de sus cuerpos de agua. Boletín Paranaense de Geociencias, n. 31,
1973.
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sostenible. Ciudad de México: Diana, 1998.
4 SENKMAN, Eloísa; RODRÍGUEZ, Estela; ACEÑOLAZA, Pablo.
Diversidad florística del islote municipal. Paraná-Entre Ríos, oct. 2005.
5 Ibídem.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009.
200
Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ...
6 MANZI, Rubén. Corografía de las islas del río Paraná. Santa Fe: [S.n.],
1959
7 MUZZACHIODI, Norberto. Nuevos registros de aves para el área natural
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2001.
8 OLDANI et al. Cambios en la estructura del stock de las pescaderías
de Puerto Sánchez en el cauce principal del tramo medio del río
Paraná-1976/2003. Disponible en: <www.proteger.org>.
9 Ibidem.
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Benguria. Cultura Costera. Org. por Beto Martínez. [S.l.]: [S.n.], Folleto.
11 NANNI, Domingo. Mi pequeño mundo. Santa Fe: [S.n.], 1998.
12 BULLON, Roberto. Ecoturismo, sistemas naturales y urbanos. Buenos
Aires: [S.n.], 2000.
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Plus Ultra, 1994. v. 1.
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PASSAFARI, Clara. Aspectos sociales de la cultura isleña. Rosario:
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Debora Gonçalves Fittipaldi
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TERRITÓRIOS SIMBÓLICOS:
UMA ABORDAGEM DA GEOGRAFIA
CULTURAL, DA RELIGIÃO E DO
TURISMO – ESTUDO DA FESTA DE
SÃO JOÃO, EM CORUMBÁ
SYMBOLIC TERRITORIES: An APPROACH
OF CULTURAL GEOGRAPHY, RELIGION
AND TOURISM STUDY OF THE SÃO
JOÃO PARTY, IN CORUMBÁ
DANIELA SOTTILI
___________________________________________________________
Bacharel em Turismo (UCDB, 2000), Especialista em Gestão de
Turismo, Hotelaria e Eventos (UNIDERP, 2003), Mestre em Geografia
(UFMS, 2005), Doutoranda em Geografia (UFPR), Bolsista Fundect e
Professora Titular do Curso de Turismo da Universidade Estadual de
Mato Grosso do Sul
E-mail: [email protected]
DJANIRES LAGEANO DE JESUS
___________________________________________________________
Doutorando em Geografia pela UFPR
Professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
E-mail: [email protected]
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009.
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Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009.
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Debora Gonçalves Fittipaldi
203
RESUMO
O presente trabalho objetiva promover uma discussão teórico-prática sobre a importância da Geografia, do Turismo e da religião no estudo das
representações culturais. Para contextualização do tema, optou-se apresentar a realidade da Festa de São João, em Corumbá, Estado de Mato
Grosso do Sul. Para obtenção dos resultados, utilizou-se análise bibliográfica por meio de livros, de artigos, de dissertações, de teses e de consultas na internet. Além disso, foram realizadas duas entrevistas, sendo
uma com moradora local e outra com uma turista. Pela percepção e análise dos depoimentos, constatou-se a dialética permeada no santuário tradicional da Festa de São João. Os resultados parciais sinalizam que o
campo sagrado e profano potencializado pela realização da Festa é percebido pelas representações que são sumamente importantes para a
constituição e difusão da cultura, pois encara essas como uma forma de
enxergar o mundo e enxergar-se nele. A Festa de São João, tanto para o
povo corumbaense como para os visitantes, continuará representando a
cultura local, seja pelas características religiosas estimuladas pela Igreja
Católica como pelo aspecto profano potencializado pelos devotos.
Palavras-chave: Festa de São João, geografia cultural, turismo cultural,
religião, representação, Corumbá.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009.
204
Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ...
ABSTRACT
The present objective work to promote a theoretician-practical quarrel on
the importance of geography, the tourism and the religion in the study of the
cultural representations. For presentation of the subject, opted itself to
present the reality of the São João Party in Corumbá - Mato Grosso of the
South state. For attainment of the results it was used of bibliographical
analysis by means of books, articles and consultations in the internet.
Moreover, two interviews being one with local inhabitant had been carried
through and another one with a tourist. Who by means of the perception
and analysis of the depositions evidenced it dialectic promoted in the
traditional sanctuary of the São João Party. The partial results signals that
the sacred and profane field promoted by the accomplishment of the Party
is perceived by the representations that are utmost important for the
constitution and diffusion of the culture, therefore faces the same ones as
a form of to see the world and to see themselves in it. The São João Party,
as much for the corumbaense people as for the visitors, it will continue
representing the local culture is for the religious characteristics stimulated
by the church catholic as well as for the profane aspect promoted by the
worshippers.
Keywords: São João Party, cultural geography, cultural tourism, religion,
representation, Corumbá.
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Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e
Debora Gonçalves Fittipaldi
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1 INTRODUÇÃO
O presente artigo foi estruturado com base na análise sobre definições e conceitos que permitem um aprofundamento da relação cultural
entre a atividade turística e suas raízes histórico-geográficas, apresentando ainda elementos teóricos para tratar das metáforas: turismo religioso e
religiosidade.
Para fundamentar essa discussão, delimitou-se no estudo de caso
da Festa de São João, em Corumbá, Estado de Mato Grosso do Sul, abordando análise bibliográfica por meio de livros, de artigos e de matérias
obtidas pela internet, além de coleta de informações para apresentar a
dialética do Santuário Tradicional com o depoimento de uma turista e uma
moradora do local.
Um exemplo que contextualiza a esfera do sagrado e do profano é
a Festa de São João, realizada em Corumbá, localizada a 435 quilômetros de Campo Grande, capital do Estado de Mato Grosso do Sul. Também conhecida como “capital do Pantanal”, Corumbá foi fundada em 1778
e faz limite como os municípios de Ladário, Porto Murtinho, Aquidauana,
Miranda, Sonora, Coxim, Rio Verde de Mato Grosso. Faz ainda divisa com
o Estado de Mato Grosso e fronteira com Bolívia e Paraguai. Tem uma
área de 64.960,863 km² e população, segundo o IBGE (2007), de 96.373
habitantes (http://www.duplipensar.net/, 2008).
Até 1914, para chegar a qualquer parte do Brasil, o corumbaense
não tinha outra opção a não ser passar antes pelas capitais do Prata, seja
por Assunção, Buenos Aires ou Montevidéu. Com isso, acarretou a absorção de tendências, costumes e linguagem desses povos. A convivência
com os países vizinhos de língua espanhola era acentuada em função da
relação comercial por meio do transporte fluvial entre eles. Corumbá mantinha com Buenos Aires e Montevidéu um elevado comercio de compras e
ideias, o que criou na cidade hábitos e costumes com base no folclore
portenho. Nessa época, era comum que empresários bem-sucedidos
passassem por Montevidéu utilizando o Rio Paraguai e depois chegassem a Porto Alegre ou Rio de Janeiro para assistir a grandes peças teatrais. Eles viajavam no luxuoso “Fernando Vieira”, um navio que possuía
100 camarotes de primeira classe e que trazia as principais companhias
teatrais do Rio de Janeiro e outras cidades para se apresentarem no Bijou
Theatro, a maior casa de espetáculo que Corumbá já teve.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009.
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Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ...
Pelo isolamento por causas naturais e tendo no Rio Paraguai o
único meio de comunicação, era aceitável que se sofresse a influência
desses países vizinhos. Tal influência se fez sentir na música, na linguagem e nos costumes em geral. Quanto à música, até hoje podemos ouvir
os sons românticos da guarania, dos rasqueados e da polca paraguaia.
Houve época em que o tango era a dança preferida nos clubes sociais
(http://www.corumba.com.br/, 2008).
A Festa de São João, de origem portuguesa, nasceu da grande
devoção do povo luso. Conta-se que o costume de levar o Santo ao “batismo” é realizado em algumas aldeias de Portugal, onde, na falta de um rio,
os devotos, em procissão, com o andor enfeitado com rosas e fitas nas
cores vermelhas e brancas, levam o Santo a uma fonte ou chafariz, geralmente localizado em uma praça central e o “batizam”.
A Festa em Corumbá se tornou ao longo do tempo uma referência
cultural não só para seu povo como também para os visitantes/turistas
que chegam à cidade para prestigiá-la. São diversos devotos que se deslocam para acompanhar as manifestações que referenciam o santo. A
população em geral acredita nos “milagres” que São João proporciona
aos seus seguidores. Dessa forma, o campo sagrado e profano, que é
criado pelos devotos do Santo, torna-se o espaço de representação da
cultura local.
Para S. F. Gil Filho (2002, p. 68), o espaço de representação é “[...]
o momento em que o atributo de ser uma coisa se torna típica da realidade
objetiva.” Ainda o mesmo autor comenta que, no campo das representações sociais, há uma definição de territórios e que a noção de território
está presente em qualquer representação social “[...] cuja intenção seja
definir as fronteiras de controle e apropriação de determinada realidade
social.” (ibid., 69).
Nesse sentido, M. Almeida (2003, p.72) afirma que “[...] é através
de um conhecimento das representações das pessoas que é possível
captar toda a riqueza de valores que dão sentido aos lugares.” Além disso,
a autora diz que “[...] pelas representações também é possível entender a
maneira pela qual as pessoas modelam as paisagens e nelas afirmam
suas convicções e esperanças.” As representações têm uma estreita ligação para a compreensão e uso do espaço e da própria sociedade que o
ocupa. As pessoas de certa forma são estimuladas a agir, não apenas por
informações cognitivas, racionais, mas também por razões míticas, religiosas, afetivas, simbólicas e culturais.
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2 DESENVOLVIMENTO
Não existe referência mais detalhada quanto ao início do “Banho
de São João”, em Corumbá, mas é possível que essa comemoração tenha sido trazida pelos colonizadores portugueses, quando adentraram em
toda a região Centro-Oeste em busca de riquezas. O objetivo da festa é a
louvação a São João, e o ponto alto é o banho do Santo nas águas do Rio
Paraguai, o que simboliza o “batismo”.
Em Corumbá, o acompanhamento musical da procissão sustenta
a perspectiva, relacionando religião e religiosidade com um cenário bastante original, ao invés de apenas músicas sacras em louvor ao Santo. No
final de cada ladainha ou refrão, a Banda acelera a marcha e os acompanhantes dançam e clamam num misto de sacro, profano e carnavalesco.
Segundo Régis Debray (1996), apud C. V. M. Oliveira (2001, p.148):
Isso funciona esquematicamente bem, até que as bases profanas
do universo sagrado sejam radicalmente abaladas. Como é possível delimitar com precisão o comportamento religioso mais adequado numa romaria, diante de uma sociedade urbano-industrial
incentivada ao consumismo pós-industrial? Em termos pragmáticos, a resposta está nos limites do simplório que povoa a concepção de mundo pós-moderno: entende-se que é sempre necessário resgatar os bons e velhos valores perdidos.
Essa prática de levar a imagem de São João em procissão para
“batizá-lo” no rio, existe apenas em Corumbá, Cuiabá e Cáceres (MT),
das quais Corumbá conserva, até hoje, essa peculiar maneira de festejos
joaninos, especialmente, no que tange ao sentido “carnavalesco” da tradicional festa.
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Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ...
FIGURA 1 – DEVOTOS PASSANDO DEBAIXO DOS ANDORES
FONTE: <http://corumbaonline.com.br/noticias>.
Acesso em: 16 set. 2008.
Desse cortejo, participam homens, mulheres e crianças, carregando faroletes coloridos e luminosos, ou velas acesas. A orquestra de violão, pandeiro, sanfona, cavaquinho e cornetim dá ênfase aos que vão acompanhando e entoando o consagrado Hino de São João. Cada procissão do
Santo é composta de 30 até 120 pessoas, que acompanham o andor desde a casa do festeiro até a beira do rio.
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FIGURAS 2 – ALTAR ENFEITADO PELOS DEVOTOS
FONTE: <http://corumbaonline.com.br/noticias>.
Acesso em: 16 set. 2008.
A Festa de São João por muito tempo foi considerada um evento
cultural de abrangência local e regional, porém, com o passar do tempo,
vem caracterizando-se com uma abrangência nacional e, porque não dizer, internacional, uma vez que é estimulada pelos turistas brasileiros, da
Bolívia (país com que a cidade de Corumbá faz fronteira) e do Paraguai,
pela proximidade geográfica.
A atividade turística deve ser considerada, na atualidade, como um
dos fatores mais importantes para se associar o mundo ao lugar, o global
ao local, porque as peculiaridades locais emergiram desse global. A
globalização econômica passou a valorizar as diferenças de cada lugar,
tornando essa diferenciação um atrativo para o capital. O lugar entendese como o resultado de várias relações que vêm somar as particularidades (políticas, econômicas, sociais, culturais, ambientais) às demandas
do global que o atravessa. Isso só vem confirmar que os lugares conduzidos pela urbanização turística entram rapidamente para o fluxo de informações, bens e pessoas, e se insere no movimento global (SERRANO,
2000).
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Turismo é uma atividade que não depende mais exclusivamente
da vocação natural, podendo ser construído artificialmente pelo poder econômico e político (LEMOS, 2001).
Há diferentes motivações para se desenvolver o turismo urbano.
Elas são variadas, de acordo com a necessidade da população como um
todo e na escolha dos objetivos a serem atingidos. Para a sociedade, é
necessária uma avaliação subjetiva que venha detectar o que realmente é
bom para o futuro dessa cidade e também para as várias partes e grupos
de interesse implicados. Essas influências são inevitáveis, mas, quando
bem administradas, podem formar áreas de interesse comum, possibilitando acordos colaborativos. Segundo C. F. Magalhães (2002, p. 80):
Pode-se englobar dois tipos de espaço: aqueles que já foram apropriados pela atividade turística e por isso apresentam características particulares, resultantes dessa apropriação; e aqueles que,
em virtude de sua vocação, serão organizados para a exploração.
Sob essa ótica, defini-se a Festa de São João como um espaço
urbano que já foi apropriado pela atividade turística. É a festa mais tradicional de Corumbá e faz parte do calendário turístico do Brasil. O espaço
desenvolve uma diversidade enorme de tipos de turismo; no caso dessa
festa, caracteriza-se como turismo religioso.
Todos os povos, culturas, sociedades ou espaços geográficos apresentam uma variedade de mitos. No entanto, são raras as comunidades
que reconhecem, numa expectativa racionalista, as explicações presentes nos mitos, uma vez que o mito pode ser entendido como um sonho
coletivo. Nessa expectativa, cada individuo deve encontrar um aspecto do
mito que se relacione com a própria vida do devoto. Os mitos abrem o
mundo para a dimensão do mistério (OLIVEIRA, 2001).
O sentido da sacralização do solo é um capitulo importante da
historia da urbanização brasileira e demonstra estar presente na Festa de
São João (GARDIM, 1999). Para entender a relação decorrente da mistificação popular, Sousa Alves e S. F. Gil Filho (2005 p.73) defendem:
A religiosidade popular é a maneira que o povo vivencia suas crenças, devoções, sonhos, esperanças e paixões, nela não encontramos a preocupação com a pureza do conhecimento teológico que
está presente no credo religioso, o povo é pragmático e procura na
sua relação com o sagrado a solução dos problemas imediatos
da vida [...]
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009.
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211
Essa afirmação traz à tona a realidade percebida e vivida pela população corumbaense e pelos demais visitantes que prestigiam o evento.
De acordo com a entrevista da jornalista Mariana Conte, do site
corumbaonline (19/6/2008), Carlos Porto, secretário-executivo de Turismo de Corumbá, observa:
[...] a Festa recebe ajuda financeira da Prefeitura Municipal de
Corumbá, da Secretaria Executiva de Turismo e da Fundação de
Cultura do Pantanal. A Festa busca resgatar uma tradição secular
que inclui a decida do andor para banhar a imagem do Santo nas
águas do Rio Paraguai.
As alegres festas juninas, brasileiríssimas em suas motivações e
indumentárias, contudo, atualmente, sem o fervor do passado, são bastante estimadas pelo povo, e alguns estabelecimentos de ensino têm procurado por meio delas despertar na criança o amor e o culto pela tradição.
Todavia, em tempos passados, não se pode negar, havia muito mais animação e entusiasmo, sobretudo quanto aos espetáculos pirotécnicos, em
que os artesãos de foguetório entravam em acirradas disputas de prestígio e esplendor noturno.
Entre as festas de todo o País, pode-se dizer, sem qualquer exagero, pelo menos com relação ao passado, que o São João de Corumbá é
(ou era?) coisa muito fora de sério, tal a alegria contagiante que dele se
irradia. O povo acredita que comemorar é uma forma de mostrar o respeito dos valores considerados universais em cada cultura e dar um sentido
verdadeiro às datas que são criadas para marcar a passagem do tempo.
Nas homenagens programadas para a comemoração do aniversário do santo católico, os morados de Corumbá não ficam indiferentes
aos acontecimentos da noite de 23 para 24 de junho. Muitas casas de
família mantêm a tradição de fazer sua própria festa para louvar São João,
quando os festeiros não poupam despesas na contratação de músicos
que formam a orquestra, na criação de galpões rústicos, nas fogueiras
enormes, nas vestimentas a caráter, na decoração das principais dependências da casa, na beleza do andor para o santo, nos banquetes
gastronômicos fartos que se distribuem democraticamente antes, durante e depois de se levar o Santo pela Ladeira Cunha e Cruz em direção as
águas do Rio Paraguai. Há sempre acompanhamento de muitas evoluções da charanga (pequena banda de música) e dos participantes, muitos
fogos pipocantes e a cantoria de todos os anos:
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009.
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Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ...
Reza de São João
Letra de domínio público
Música de Edson Duarte
Deus te salve João
Batista sagrado
O teu nascimento
Nos tem alegrado
Se São João soubesse
Que hoje era o seu dia
Descia do céu à terra
Com prazer e alegria
João batiza Cristo
Cristo batiza João
Todos foram batizados
Lá no rio Jordão
FIGURA 3 – PORTO GERAL DE CORUMBÁ
FONTE: <http://commons.wikimedia.org/wiki/Corumb%C3%A1>.
Acesso em: 23 jul. 2008.
Para tratar da dialética identificada pelo discurso da própria caracterização da Festa de São João, em Corumbá, foram entrevistadas duas
pessoas, sendo uma natural de Corumbá, confirmando a preservação da
essência das tradições culturais, e uma turista que apresenta um depoimento contraditório ao da nativa, citando dados sobre a descaracterização
do evento de que participou há dois anos. Para preservar a identidade das
entrevistadas, optou-se por identificá-las por nomes de aves da fauna
pantaneira.
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Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e
Debora Gonçalves Fittipaldi
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Segundo Arara (ave de grande porte, de longa cauda e bico muito
Essa festa começou há mais de 100 anos, incentivada pela família Gualberto
e seguida pelas demais famílias católicas devotas de São João que organizam até hoje a festa com bastante antecedência, para que tudo ocorra
bem. A imagem do Santo é colocada num andor todo colorido, com muitas
flores artificiais e fica num lugar de destaque na sala das casas, enfeitadas com bandeirinhas e balões. Na frente da residência ou no quintal, é
feita uma ou mais fogueiras e seu tamanho está relacionado com a devoção ao Santo. A fogueira é acesa às 18 horas e fica queimando a noite
toda. Em seguida, as pessoas rezam o terço, soltam fogos, bombinhas,
pulam a fogueira e a festa se prolonga até o amanhecer do dia. A tradição
da fogueira provém do fato de São Zacarias acender uma fogueira na
montanha para anunciar o nascimento de seu filho São João Batista. Antes da meia-noite, quatro componentes da família carregam o andor e vão
se revezando com os demais, sendo que no retorno deverão estar carregando o andor as mesmas pessoas que iniciaram o trajeto. Saem em
procissão de todos os cantos da cidade em direção à Ladeira Cunha e
Cruz, mais conhecida como Ladeira da Candelária. A procissão é acompanhada com bandas composta de violão, acordeão, trombone entre outros instrumentos. As pessoas cantam primeiro em ritmo lento e, no decorrer do trajeto, o ritmo se acelera, passando ao carnavalesco. Enquanto
uns descem outros sobem a ladeira, e toda vez que as imagens de São
João se encontram, se dá o cumprimento entre as procissões. As pessoas que carregam o andor devem abaixar três vezes, fazendo uma reverencia ao Santo e as demais passam debaixo do andor sete vezes, fazendo os pedidos ao Santo. Para que estes sejam realizados, os devotos
devem passar embaixo de sete andores. A procissão retorna à casa, onde
a festa continua. É servido um churrasco, o famoso saravullo (feito de
miúdos de boi, vinho, azeitona, batatinha e tempero verde), além de doces
caseiros, como pé-de-moleque, cocada, doce de abóbora e laranja. Na
cidade, todos dizem que os fiéis têm alcançado seus pedidos. Por isso
cada ano que passa é maior.
A nativa contextualiza a festa sobre uma abordagem simplificada.
Em seu depoimento não fica enfatizado o papel da Igreja Católica sobre
os fiéis. A principal abordagem fica em torno do profano por meio do ritual
de que a população participa com os visitantes do local.
No depoimento de Garça (ave pernalta e de bico longo, que se
alimenta de peixes), 38 anos, natural de Campo Grande, acadêmica de
Pedagogia, demonstra-se a descaracterização do evento sobre um olhar
do turista, como afirma:
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009.
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Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ...
Quando conheci a cidade de Corumbá, no ano de 1997, a população estava toda envolvida com a Festa de São João, que se distribuía em várias festas juninas pelos bairros da cidade. A festa principal era realizada em uma praça da cidade, onde várias pessoas
trabalhavam nas barracas com diversas apresentações de grupos
culturais. A imagem de São João ficava em destaque em um altar,
onde os devotos depositavam seus pedidos. Quando chegava a
meia-noite do dia 23 de junho, os devotos levavam a imagem do
Santo com velas e lanternas para iluminar a descida da ladeira e
banhá-la nas águas do Rio Paraguai. Com a imagem eram levados os pedidos dos devotos para ser lançados ao rio. No ritual da
“Descida da Ladeira”, os devotos cantavam músicas sacras e profanas. Após o banho do Santo, os participantes da procissão passavam sete vezes embaixo de sete andores, para que seus pedidos fossem atendidos pelo Santo. Após o ritual, os devotos voltavam para as festas juninas de onde partiram em procissão, e permaneciam até o raiar do dia. Retornando à cidade, no ano de 2003,
para prestigiar a Festa de São João, não senti o mesmo entusiasmo de outrora. Não havia barracas na praça central. No dia 23 de
junho, havia poucas pessoas na praça. Fiquei surpresa, pois esperava que a festa tivesse um vulto maior do que no ano que estive
lá. As pessoas estavam desanimadas. Dessa vez, observei que as
imagens de São João estavam postas nas residências, aguardando o ritual da “Descida da Ladeira”. Estive na Casa da Cultura
Corumbaense participando de uma festa junina, em que havia uma
imagem do Santo em um altar todo decorado. Quando se aproximava da meia-noite, saímos em procissão levando a imagem para
o “banho” no Rio Paraguai. Observei que havia pessoas de várias
religiões, tais como católicos, espíritas, religiões afro-brasileiras,
entre outras. Depois do ritual, retornamos à Casa de Cultura para
dar continuidade à festa. Após a festa, nos dirigimos ao Porto Geral
de Corumbá para participar de uma festa junina bastante diferente.
Em vez de músicas tradicionais, pudemos ouvir ritmos de axé,
pagode e músicas latinas, acompanhados por um trio elétrico. No
dia 24 de junho, fui a uma missa na Igreja Nossa Senhora
Auxiliadora, e após houve uma procissão com uma imagem de
São João ao Porto Geral. No local, o padre entrou no Rio Paraguai
e deu a bênção aos devotos presentes e “banhou” o Santo. Diferente o ritual do dia anterior, as músicas, em vez de profanas, foram
substituídas pelas sacras, mas os devotos ainda passavam debaixo do andor. Após aquela cerimônia, os fiéis voltaram à igreja,
onde foram abençoados novamente pelo sacerdote.
O depoimento apresenta algumas contradições. As questões estão relacionadas sobre a circulação de pessoas presentes à festa, constatando a diminuição do fluxo de pessoas. Além disso, podem ser constatadas as diversas crenças e culturas sobre o meio profano durante o ritual
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Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e
Debora Gonçalves Fittipaldi
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realizado à meia-noite, entre os dias 23 de 24 de junho. As músicas apresentadas depois da procissão da “lavagem” do Santo estavam
descaracterizadas com a apresentação de ritmos baianos e latinos em
uma festa junina, acompanhados por um trio elétrico.
A Prefeitura, com o objetivo de potencializar o número de visitantes
na cidade durante a festa, colocou à disposição mais um atrativo não só
para os nativos, mas também para os turistas, como é confirmada pela
reportagem de Marinez Benjamin (2002):
Além de todas essas manifestações culturais típicas dessa época
do ano, o evento contará com uma novidade. Será montada uma
arena de rodeio no local da festa para a disputa de competições
de pega do garrote, laço pialo, doma do potro pantaneiro (encilhar
e montar), pega do porco monteiro, laço do cabrito e futboi.
Considerando as divergências da própria essência religiosa e profana entre nativos e turistas e considerando os depoimentos com diversos olhares, Ficam estas indagações.
Como calcular as mudanças que o Turismo pode provocar na sociedade nativa?
Os nativos devem atender aos desejos dos hábitos de consumo e
comportamento dos turistas?
O que aconteceria se, de repente, os nativos atendessem a todos
os desejos dos turistas, esquecendo-se dos referenciais culturais e religiosos, e os turistas não aparecessem mais?
Todas as questões suscitadas estão relacionadas ao próprio processo de interferência cultural entre a sociedade envolvida pela atividade
turística. A realidade encontrada in loco sinaliza a necessidade de aplicação dos princípios de planejamento, para fomentar a discussão entre a
comunidade local, o poder público, a iniciativa privada, os profissionais e
os estudiosos para avaliarem os impactos culturais negativos e positivos
gerados pela atividade turística, conservando-se os hábitos, os costumes
e as tradições da localidade e não os transformando em “produtos” que
são formatados pelos desejos dos turistas, mas não são caracterizados
pela própria identidade cultural sagrada e profana que caracterizam a essência do povo corumbaense.
Para avançar sobre o entendimento da dialética que envolve o sagrado e o profano, principalmente relacionando aos conflitos sobre o
fundamentalismo que os sustentam, torna-se necessário discutir os vieses que mantêm a estrutura como os campos da fé, espaço e tempo.
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Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ...
O homem religioso sente necessidade de viver numa atmosfera impregnada do sagrado. É por essa razão que se elaboram técnicas de construção do sagrado. Esse trabalho humano de consagrar um espaço – essa
necessidade de construir ritualmente o espaço sagrado – revela-nos que o
mundo é, para o homem religioso, um mundo sagrado. Daí uma contínua
sacralização do mundo, uma religião cósmica, uma santificação na vida:
espaço sagrado, qualitativamente forte, demarcado e diferenciado. De acordo
com a experiência religiosa, há uma oposição entre o espaço sagrado e
todo o resto que a cerca, como afirma Z. Rosendahl (1996, p.30):
O espaço sagrado é um campo de forças e de valores que elevam
o homem religioso acima de si mesmo, que o transporta para o
meio distinto daquele no qual transcorre sua existência. É por meio
dos símbolos, dos mitos e dos ritos que o sagrado exerce sua
função de mediação entre o homem e a divindade. E é o espaço
sagrado, enquanto expressão do sagrado, que possibilita ao homem entrar em contanto com a realidade transcendente chamada
deuses nas religiões politeístas, e Deus, nas monoteístas.
Com base nas reflexões apresentadas, confirma-se a necessidade de o homem religioso se movimentar no mundo sagrado. Daí surge o
desejo de participar do ritual de construção do espaço sagrado. Na realidade, o ritual pelo qual o homem constrói um espaço sagrado é eficiente
na medida em que ele reproduz a obra dos deuses. O espaço sagrado e o
espaço profano estão sempre vinculados a um espaço social. A ordenação do espaço requer sua distribuição entre sagrado e profano. É o sagrado que delimita e possibilita o profano (ROSENDAHL, 1996).
Para Mircea Eliade (1992), o sagrado e o profano se percebem um
em confronto com o outro, e se classifica o fenômeno religioso como sagrado e profano. O primeiro se refere ao transcendente, àquele que é muito elevado; o profano, a tudo que é corriqueiro, normal, algo do dia a dia, com isso
invalidando outras leituras relativas a este termo. Eliade (1992, p. 64) expõe:
Toda festa religiosa, todo tempo litúrgico, representa, a reatualização
de um evento sagrado que teve lugar num passado mítico, “nos
primórdios”. Participar religiosamente de uma festa implica a saída temporal “ordinária” e reintegração no tempo mítico reatualizado
pela própria festa.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009.
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Debora Gonçalves Fittipaldi
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3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diversas questões são relevantes para refletir sobre a problemática existente, principalmente quando relacionada à venda de um “produto”
intangível, como o da religião, sustentado pelo sistema econômico, como
no caso, explorado pela atividade turística, um setor que gera milhões de
divisas, empregos diretos e indiretos e também a massificação dos espaços religiosos e, na maioria das vezes, dependência econômica
potencializada pelo espaço profano.
A problemática ocorre pela própria essência do Turismo que se remete a uma atividade que comercializa serviços – entretenimento, lazer, negócios, cultura –, além de uma multiplicidade de motivações como o da própria
saúde mental proporcionada pelos complexos de lazer e pela religião.
Para entender a dinâmica do lazer sagrado para a religiosidade
turística reconhecendo como característica produtiva, C. V. M. Oliveira
(2001, p. 161), afirma:
A questão é tendenciosa e consente a ideia de que não só o tempo
livre é relativo (considerando o ócio mais produtivo que o trabalho)
como a própria liberdade de viagem define-se de acordo com uma
mínima viabilidade econômica. Reconhece-se no turismo uma sistematização, muitas vezes sagrada, do exercício contínuo de lazer.
De um lado, as peregrinações (do sagrado ao profano) definem
roteiros que evoluem materialmente e “perdem” o simbolismo religioso;
de outro, os próprios espaços profanos sustentam os lugares sagrados
como defende a própria geografia cultural.
Dessa forma, o substrato religioso que permeia as relações
estabelecidas no cotidiano dos povos integra as culturas e auxilia na
tessitura que organiza e sustenta a vida de um grupo social. Assim ocorre
com o Arraial do Banho de São João, onde para muitos é maneira de trazer o sagrado para sua festividade, pois o homem necessita viver impregnado de tempo sagrado. Então, o ser humano tece em sua vida e em seus
momentos de lazer um pouco mais de sagrado (ELIADE, 1993).
O sagrado integra o cerne das culturas. Segundo W. Piazza (1976,
p. 82),
[...] pode-se pensar o que quiser a respeito do sagrado, mas não
se pode liquidá-lo, pois a sua presença e a sua importância no
estudo do fenômeno religioso é indispensável e irredutível.
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Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ...
No campo do Turismo, discutem-se estas questões:
Como peregrinar sem crença nem sacrifício?
Como participar do profano (atos e festas) sem devoção coletiva?
Como lidar com o tempo de ócio num lugar de obrigações?
Já na esfera religiosa apresentam-se estas questões:
Abrir os santuários a todos os visitantes?
Tornar sagrado o que é profano ou externo ao campo religioso?
Ampliar incoerências, confundindo dogmas?
Segundo C. Pastro (1993, p. 41):
Quando o sagrado se manifesta, não só há rotura na
homogeneidade, mas também há uma revelação que não só se
opõe aquilo que não é realizada de absoluta, mas convida, agora,
a um senso de orientação e unidade. A manifestação revela um
ponto fixo absoluto, um centro. A manifestação do Sagrado funda
ontologicamente o mundo. Para o homem religioso e primitivo
(como se vê em múltiplos exemplos bíblicos), um fenômeno orgânico não é um ato simplesmente fisiológico, mas pode tornar-se
um “Sacramento”, quer dizer, uma comunhão com o Sagrado. O
Sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no mundo, duas situações existenciais assumidas ao longo da história.
Nesses termos, pode-se perceber que o campo sagrado e o profano são percebidos pelas representações que são sumamente importantes para a constituição e difusão da cultura, pois as encara como uma
forma de enxergar o mundo e enxergar-se nele.
A Festa de São João, tanto para o povo corumbaense como para
os visitantes, continuará representando a cultura local, seja pelas características religiosas estimuladas pela Igreja Católica, seja pelo aspecto profano potencializado pelos devotos.
Desde sua criação até a atualidade, observou-se a confirmação
da devoção ao Santo, mesmo com a inclusão de outras festividades simultâneas ao período de comemoração (shows artísticos). A cada ano o
povo vai recriando o espaço sagrado e profano da festa, atendendo às
transformações contemporâneas para dar sentido ao lugar.
É preponderante nesse processo de redefinição dos traçados espaciais o conceito de campo religioso e também de uso turístico, para dar
sentido de reinterpretar esses traçados do que apenas conceituá-los propriamente, mediante os usos do espaço e as relações de afeto que podem a ele ser legado pelas representações da cultura, as quais conservam sempre a marca da realidade social autóctone.
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Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e
Debora Gonçalves Fittipaldi
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Portanto, identifica-se, por meio dos resultados alcançados, que a
Festa de São João, em Corumbá, continuará crescendo no aspecto religioso e contribuindo para a fé e a crença do povo nativo. Já no enfoque
mercadológico, uma vez que o evento se tornou um produto turístico, se
projeta como uma alternativa viável de desenvolvimento socioeconômico,
além de se tornar um patrimônio imaterial, pela tradição e relevância cultural local.
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PIAZZA, W. O. Introdução a fenomenologia religiosa. Petrópolis: Vozes, 1976.
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Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009.
Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e
Debora Gonçalves Fittipaldi
221
http://www.duplipensar.net/, 2008. Acesso em: 23 jul. 2008.
http://www.corumba.ms.gov.br/modules, 2008. Acesso em: 16 set. 2008.
Artigo recebido em 14/4/2009.
Aprovado para publicação em 2/7/2009.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009.
Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa,
Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa
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TEMPO E ESPAÇO
NA MODERNIDADE:
ALGUMAS REFLEXÕES
TIME AND SPACE
IN MODERNITY:
SOME REFLECTIONS
TIEMPO Y ESPACIO
EN MODERNIDAD:
ALGUNAS REFLEXIONES
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009.
224
Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões
ADNILSON DE ALMEIDA SILVA
___________________________________________________________
Mestre em Geografia pela UNIR,
Doutorando em Geografia (UFPR),
Pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas Modos de Vida e
Culturas Amazônicas (GEPCULTURA/UNIR),
Colaborador do Núcleo de Estudos em Espaço e
Representações (NEER),
Bolsista do PROCAD-Amazônia/CAPES
E-mail: [email protected]
DOMINGAS LUCIENE FEITOSA SOUSA
___________________________________________________________
Professora na UNIRON,
Mestranda em Geografia (UNIR)
E-mail: [email protected]
JOSUÉ DA COSTA SILVA
___________________________________________________________
Professor-doutor do Departamento de Geografia da UNIR,
Coordenador do GEPCULTURA/UNIR
E-mail: [email protected]
LUCILEYDE FEITOSA SOUSA
___________________________________________________________
Mestra em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente pela UNIR,
Doutoranda do Programa em Geografia (UFPR),
Pesquisadora do GEPCULTURA/UNIR,
Colaboradora do NEER,
Bolsista do PROCAD-Amazônia-CAPES
E-mail: [email protected]
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009.
Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa,
Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa
225
RESUMO
O artigo discute, com base na atualidade em que vivemos, algumas ideias
fundadoras da modernidade, que é vista por grandes autores como época
das contradições, incertezas, fragmentações e analisa os conceitos de
espaço e tempo, bem como os pressupostos do conhecimento geográfico. Nesse sentido, citam-se autores como Giddens, Harvey e Santos, que
abordam as mudanças ocorridas no mundo, concordando que a
descontinuidade, a ruptura e o deslocamento são características do momento histórico de início de século XXI. É essa a grande preocupação
epistemológica que permeia a Geografia quanto à produção do espaço e
às múltiplas relações decorrentes dessa nova etapa de um processo que
fascina e assombra ao mesmo tempo.
Palavras-chave: espaço, Geografia, modernidade, tempo.
ABSTRACT
The article argues, based on the present time where we live some founding
ideas of the Modernity, which is seen by great authors as time of the
contradictions, uncertainties, spellings and to analyze the concepts of space
and time as well as the estimated ones of the geographic knowledge. In
this direction, we cite authors as Giddens, Harvey and Santos who approach
the occurred changes in the world agreeing that the discontinuity, the rupture
and the displacement are characteristic of this historical moment of
beginning of century XXI. The great epistemological concern is this that it
inserts Geography how much to the production of the space and the multiple
decurrently relations of this new stage of a process that fascinates and
haunts at the same time.
Keywords: space, Geography, modernity, time.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009.
226
Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões
RESUMEN
El artículo discute, en base del actual tiempo donde vivimos algunas ideas
de fundación de la modernidad, que es considerada por los grandes autores como época de las contradicciones, incertidumbres, spallings
(fragmentaciones) y también analizar los conceptos del espacio y medir el
tiempo así como estimados del conocimiento geográfico. En esta dirección,
citamos a autores como Giddens, Harvey y Santos que acercan a los
cambios ocurridos en el mundo que conviene que la discontinuidad, la
ruptura y la dislocación son características de este momento histórico del
principio del siglo XXI. La gran preocupación epistemológica que la
Geografía camina cuánto a la producción del espacio y a las relaciones
decurrent múltiples de esta nueva etapa de un proceso que fascina y
frecuenta al mismo tiempo.
Palabras claves: espacio, Geografía, modernidad, tiempo.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009.
Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa,
Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa
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1 INTRODUÇÃO
Ao abordarmos os conceitos de espaço e tempo na modernidade,
percebemos uma grande complexidade em função do significado teóricoprático que adquiriram no decorrer do desenvolvimento do homem. Contudo, referir-se aos conceitos de espaço e tempo enfocando a modernidade
é uma tarefa bastante criteriosa.
Dessa forma, buscamos apresentar os resultados desse desafio
discutindo os conceitos de espaço e tempo na modernidade e partindo do
pressuposto de que devemos primeiramente situar o que são esses conceitos que permeiam áreas do conhecimento como a Geografia, por meio
da teoria, epistemologia e evolução do pensamento geográfico. Com isso,
poderemos então analisar a importância dessas noções no desenvolvimento da modernidade pelas abordagens apresentadas por teóricos como
Anthony Giddens, David Harvey, Milton Santos, entre outros.
Um aspecto central para explicação da modernidade é o conceito
dado por A. Giddens (1991, p. 18) como “compressão do espaço-tempo”,
que explica a aceleração dos processos globais, de forma que o mundo se
torna menor e as distâncias ficam mais reduzidas, ou seja, os eventos em
um determinado lugar têm um impacto imediato sobre as pessoas e lugares situados a uma grande distância. Já que todas as identidades estão
localizadas no espaço e no tempo, elas sofrem o efeito dessa compressão
espaço-tempo. Tal ideia reforça o caráter da modernidade que, ao mesmo
instante em que separa cada vez mais o espaço do lugar, e contraditoriamente reforça relações entre outros locais distantes, permitindo variadas e
distintas interações em razão de sua dinâmica apresentada.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A discussão teórica a respeito do tempo e espaço está conectada
à ideia de concepção epistêmica do que vem a ser e o que representa o
moderno. Diante disso, é necessário analisar o período conhecido por
modernidade, procurando apontar características específicas, bem como
consequências de seu desenvolvimento. Isso compete à tarefa inicial de
conceituá-la, o que para A. Giddens (1991, p. 11) constitui um “[...] estilo de
vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século
XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua
influência.”
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009.
228
Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões
Esse autor identifica três características existentes na modernidade,
com marcas bem especificas e que se encontram ausentes nas civilizações tradicionais. Assim, elas se expressam da seguinte forma:
a) relacionam-se ao ritmo acelerado das mudanças que na condição moderna ocorrem de uma maneira rápida provocando ideias
e discursos que movem esse período e à velocidade e comunicação que geram mudanças nas esferas globais;
b) constituem-se na mudança das transformações sociais em todo
o planeta;
c) possuem ligação e relação com a natureza das instituições
modernas até então inexistentes, tais como sistema político do
Estado, nação, com a completa transformação de produtos e
serviços em mercadorias e com a dependência da produção de
fontes de energia.
A modernidade também é um termo muito utilizado para
exemplificar a evolução dos últimos séculos nas sociedades e hoje invade
paulatinamente o mundo inteiro, mesmo em locais considerados isolados
ou afastados da civilização. É, portanto, a situação própria de nossas sociedades nos dias atuais.
No conceito de modernidade estão contidos processos, entre eles
o da modernização que consiste num processo de diferenciação provocado pela própria racionalização da vida concreta dos homens, ou seja,
liberação do potencial crítico, como, por exemplo, a linguagem do homem.
Esse desdobramento epistemológico produz efeitos enormes em sua existência, com a fragmentação dos sentidos, tornando possível que certas
situações da vida humana deixem de se reger por normas e passem a ser
coordenadas por mecanismos funcionais independentes da consciência
e da vontade dos homens.
A modernidade gerou diversos mecanismos para coordenar as
ações humanas – o dinheiro e o poder –, criando, assim, duas normas
morais, mas por uma lógica própria, isto é, a economia e a administração
estatal. Esse aspecto caracteriza a passagem das sociedades tradicionais para a sociedade moderna, correspondendo ao desligamento de tais
esferas do mundo simbólico dessa natureza ética religiosa e,
consequentemente, à mudança básica do quadro principal de toda a vida
social e conduzindo a compressão do tempo-espaço, o que para D. Harvey
(1993, p. 217) significa:
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009.
Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa,
Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa
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A experiência da compreensão do tempo-espaço e um desafio, um
estímulo, uma tensão e às vezes uma profunda perturbação capaz
de provocar por isso mesmo uma diversidade de reações sociais,
culturais e políticas. Deve-se compreender compreensão como
um termo que se aplica a todo estado de coisas precedente.
A sociedade da modernidade é assim a sociedade da especialização, da fragmentação da vida e, por isso mesmo, da eficiência na execução
das variadas tarefas do cotidiano. Por outro lado, o preço dessa eficiência é
traduzido por processos de exclusão da participação das pessoas na determinação dos rumos do processo e de produção. Dessa forma, sua eficiência se limita a uma lógica automática que jamais será objeto de discussão
dos interessados, expressando que quanto menor a interferência das pessoas, menores são os riscos de ineficiência, ou seja, contraditoriamente,
esses sistemas instrumentais, ao invés de estarem funcionando a serviço
das pessoas, constituem-se mecanismos de manipulação.
Em As consequências da modernidade, A. Giddens (1991) afirma
que a modernização e a modernidade são baseadas e ligadas em um
processo, segundo o qual tem uma ideia fixa de que “lugar” e “espaço”,
prevalecendo nos tempos modernos e sendo gradualmente destruídos
por um conceito de “tempo universal”. Essa argumentação é a base
conceitual para o entendimento do que o autor convenciona como processo de desencaixe, cuja fundamentação se utiliza da dialética para explicar
o dinamismo histórico e as contradições das sociedades modernas.
A compreensão dialética está centrada no conceito de “desencaixe do espaço-tempo”, constitui-se na principal argumentação e conceito
que A. Giddens (1991) utiliza para explicar tanto o movimento histórico de
sociedades tradicionais quanto das sociedades modernas e o papel desempenhado pela globalização.
3 CONCEITO DE MODERNIDADE E SEUS DESDOBRAMENTOS
Na obra Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens
da mudança cultural , o geógrafo D. Harvey (1993) entende que a
modernidade se inicia em meados do século XVII e prossegue até o início
de 1970, quando se aprimora e assume outra dimensão caracterizada
como a pós-modernidade, sendo esta uma etapa da modernidade. Para
construir sua argumentação e sustentação teórica, D. Harvey apoia-se no
discurso de Charles-Pierre Baudelaire (1821–1867), poeta e teórico da
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009.
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Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões
arte francesa, de que “[...] a modernidade é o transitório, o fugaz, o contingente, é a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e imutável.”
Diferentemente das classificações históricas que dividem a existência humana na face da Terra em períodos pelas mudanças naturais
sociais ou fatos políticos relevantes, a modernidade recebe essa denominação por mostrar uma modificação no modo de compreensão do
mundo que se observa desde meados do século XVII e que se desenvolve até hoje.
E quais são de fato as principais particularidades desse modo de
compreensão do mundo e sobre o que é a modernidade? Pode-se afirmar
que o modo de compreensão moderna do mundo apresenta em si a valorização do elemento da subjetividade e da razão como indefinição dos
parâmetros sociais, políticos culturais e cognitivos, conforme
contextualizado Carlos Santos (2003, p. 20):
Dos fenômenos que atuam no espaço terrestre os processos humanos ganharam uma relevância absoluta. E de tal forma, que
toda superfície terrestre se encontra atualmente sob o domínio da
ação humana. Assim sendo, a organização do espaço terrestre
obedece aos mecanismos dos processos humanos.
Outra característica da compreensão moderna do mundo é a secularização, em que o próprio sujeito atribui significado e significância ao
tempo e ao lugar, onde se encontra inserido, porque é aí que ele constrói
sua história de vida com suas desventuras, sonhos, devaneios e realidades. É nesse espaço que a vida ganha uma dimensão de responsabilidade para com a condução de seu destino, bem com uma relação ao uso e
domínio da natureza em suas várias formas de manifestação. O ser humano constrói instituições a partir das quais possa gerenciar em sociedade, e elas assumem uma identidade de legitimação de sua atuação amparada em argumentos e motivos racionalmente válidos.
A compreensão moderna do mundo, entretanto, apresenta uma
peculiaridade estruturada em diferentes modos de racionalidade que existem e se completam. Isso nem sempre se dá de maneira tranquila, ao
contrário, muitas vezes o que se observa na modernidade é a presença
de modelos de racionalidade em conflito que se expressa nos choques
interculturais e diferentes concepções econômicas, políticas e jurídicas
presentes na sociedade.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009.
Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa,
Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa
231
Em que pesem esses conflitos de modelo, o de racionalidade e a
compreensão do mundo possuem uma coerência interna que garante uma
abrangência no sentido de explicação do que jamais ocorria em outra época ou contida em outro modo de compreensão do mundo. Essa é, ao
menos, a interpretação que se pode atribuir a esse processo.
Essa compreensão da modernidade invariavelmente passa pela
discussão acerca do espaço, e, na atualidade, prescinde de uma importante tarefa dada ao geógrafo, visto que na etapa da humanidade verificada
a partir do século XVII tem sofrido as influências do sistema capitalista. As
diversas questões colocadas nos dias atuais estão condicionadas, conforme contextualiza D. Harvey (2004, p. 24) aos “[...] limites de linguagem;
a impossibilidade de uma ‘verdadeira’ comunicação; a sensação de que
algo se perdeu; a incapacidade de representar para si os eventos em toda
a sua plenitude.”
A pós-modernidade como uma fase da modernidade converge
para o conceito concebido como globalização, e esse evento constituise na impossibilidade de construir um só mundo. Todos os esforços e
tentativas redundam em conflitos, pois nesse processo o que se pretende é unificar e não unir, conforme argumenta Milton Santos (1998, p. 36)
ao contextualizar que:
Hoje, o que é federativo no nível mundial não é uma vontade de
liberdade, mas de dominação, não é o desejo de cooperação, mas
de competição, tudo isso exigindo um rígido esquema de organização que atravessa todos os rincões da vida humana.
Por essa leitura da realidade, o que se constata é a perda da identidade humana por meio de transformações, cuja tendência é tornar o sujeito um ser alienado ao máximo, em razão de seu aprisionamento diante
de tecnologias, culturas pausterizadas, entre outras situações. Nesse quadro de incertezas em que contraditoriamente se encontra, esse homem
busca espaços para territorializar suas conquistas, em contrapartida a
uma incessante busca, e quem sabe mais ainda o reencontro, de sua
própria identidade.
O processo de modernização “distanciou” os indivíduos das comunidades e sociedades tradicionais das noções de tempo, espaço e status. A
modernização “desencaixou” o indivíduo feudal de sua identidade fixa no
tempo e no espaço, conforme relata Carlos Santos (2003, p. 20-21):
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009.
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Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões
As intencionalidades das ações humanas mediadas pelas relações sociais imprimem funções no espaço. Essas funções expressam fielmente aquela intencionalidade que, ao condicionarem
as relações sociais, realizam no espaço seu sentido, ou seja a
organização espacial espelha fielmente qualidade das relações
sociais.
Com a modernidade, a ciência se isolou de qualquer referência à
espiritualidade, decretando o exílio e o fim do sagrado em muitos casos,
como se a única resposta para o homem se condicionasse ao discurso
científico. A ciência moderna está empenhada em transformar o mundo
com novas tecnologias, mas, para que mudar o mundo, se a ciência ignora o homem com as crenças e valores deste? De que servem todas as
conquistas científicas, se não resultam em benefício ao homem? E onde
está o encontro da ciência com os valores humanos?
Dessa maneira, vive-se na atualidade um período de mudança de
época em que os aspectos das crenças, os valores e os sentimentos
espirituais perdem espaço para as ciências, que conforme sua área de
atuação se torna importante. Em outras palavras, o que no período medieval se sustentava pela fé, na contemplação das verdades reveladas, com
a modernidade busca-se a compreensão e transformação mecânica desse mundo, prevalecendo assim a lógica da razão, mesmo que esta não
tenha o sentido de vida.1
As reflexões contidas na obra de A. Giddens (1991) apresentamse bastante otimistas, encontrando aporte na vida cotidiana, na alta
modernidade, como um complexo ativo de reações aos sistemas abstratos que envolvem tanto apropriações como perdas. Confiança e risco,
oportunidade e perigo são algumas das características da modernidade,
as quais permeiam todos os aspectos da vida cotidiana, em que ninguém
pode estar completamente fora, diante das exigências impostas.
Essas condições podem produzir ativismo em vez de privatismo,
em muitas circunstâncias, porque há muitas oportunidades para a organização coletiva no interior de sistemas cada vez mais complexos, em que
a modernização reflexiva contraditoriamente possibilita processos ativos
1
O sentido de vida não se resume apenas aos aspectos biológicos, mas aos modos
de vida, o viver em comunidade e a relação perseguida desde os primórdios da Geografia, compreendida entre o homem e o meio, naquilo que Y. Tuan (1980) qualifica
como topofilia, ou seja, a relação intrínseca de afetividade do ser humano com o lugar
em que vive.
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Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa,
Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa
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de autoidentidade, em função de possibilidades e necessidades de
engajamento político coordenado, tanto em nível global como local.
Sabe-se que não existem respostas prontas para tamanha ansiedade, mas com o questionamento cria-se a possibilidade do entendimento, com base nas necessidades de se disseminar interpretações que
acompanhem as descontinuidades da modernidade produzidas pela grande
celeridade no ritmo de mudança da vida atual, configurando o que A. Giddens
(1991, p. 74-75) afirma como:
Poucas pessoas no mundo podem continuar sem consciência do
fato de que suas atividades locais são influenciadas, e às vezes
até determinadas por acontecimentos ou organismos distantes
[...] As ações cotidianas de um indivíduo produzem consequências
globais [...] Esta extraordinária – e acelerada – relação entre as
decisões do dia-a-dia e os resultados globais, juntamente com o
seu reverso, a influência das ordens globais sobre a vida individual, compõem o principal tema da nova agenda. As conexões envolvidas são frequentemente muito próximas. Coletividades e agrupamentos intermediários de todos os tipos, incluindo o Estado,
não desaparecem em consequência disso, mas realmente tendem a ser reorganizados ou reformulados.
Na perspectiva giddeniana, a modernização reflexiva, além da
compulsividade, possibilita a oportunidade de se desenvolverem formas
autênticas de vida humana, gerando uma análise crítica, mesmo que para
tanto a humanidade tenha embarcado e insurgido contra o poderoso e
“indestrutível” carro de Jagrená, conforme U. Beck, A. Giddens e S. Lash
(1997, p. 80) afirmam:
[...] em outras palavras, a tradição é uma orientação para o passado, de tal forma que o passado tem uma pesada influência ou,
mais precisamente, é constituído para ter uma pesada influência
para o presente [...] A tradição é impensável sem guardiães, porque
estes têm um acesso privilegiado à verdade; a verdade não pode
ser demonstrada, salvo na medida em que se manifesta nas interpretações e práticas dos guardiões. O sacerdote, ou xamã, pode
reivindicar ser não mais que o porta-voz dos deuses, mas suas
ações de facto definem o que as tradições realmente são. As tradições seculares consideram seus guardiões como aquelas pessoas relacionadas ao sagrado; os líderes políticos falam a linguagem da tradição quando reivindicam o mesmo tipo de acesso à
verdade formular [...]
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Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões
Nesse contexto, a modernidade é vista como um mundo hostil,
sem controle, com incertezas e inseguranças, mas inexorável pode sair
dele, pois suas transformações são planetárias e interdependentes, influenciando coletividades e instituições e levando a repensar papéis, organização e formulação em seu espaço de atuação.
4 IMPORTÂNCIA DOS CONCEITOS DE ESPAÇO E TEMPO
Na construção do conceito de “tempo”2, é necessário estabelecer
uma relação entre os tempos cronológico, social e o histórico. Conhecer
esse conceito demarcado em sequência linear, dia, meses e anos é fundamental para o entendimento das questões que envolvem a sociedade,
pois é a dinâmica desta que confere qualidade ao espaço por meio das
ações humanas.
Sob tais circunstâncias, sua apreensão é fornecida
epistemologicamente por diferentes conceitos que propiciam a modificação, medição simbólica entre as pessoas e o mundo ao redor, tornandose a passagem por meio de que o indivíduo compreende os acontecimentos e pode então agir sobre eles, principalmente na história social contemporânea. Nesse aspecto, A. Novaes (1992, p. 14) evidencia que “[...] vivemos um momento prodigioso da técnica com transformações profundas
das noções de espaço e tempo.”
A cada momento se estabelecem sistemas do acontecer social
que caracterizam e distinguem tempos diferentes, permitindo falar de ontem e de hoje e confirmando a premissa baudeliarana de que, principalmente na atualidade o tempo é fugaz e acompanha a transitoriedade da
modernidade.
Apesar dessa volatilidade temporal, é forçoso dominar a divisão do
tempo em períodos na construção desse conceito, com base nas ações
humanas no espaço, conforme é qualificado por Milton Santos (1998, p.
83), ao esclarecer que
2
Na categorização de tempos aparecem em: a) da Natureza ou geológico, que aqui não
serão analisados; b) humano que se referem aos aspectos sociais, políticos, econômicos, cronológicos e históricos, sendo objeto da discussão proposta neste artigo.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009.
Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa,
Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa
235
[...] o tempo se dá pelos homens. O tempo concreto dos homens é
a temporização prática, movimento do mundo dentro de cada qual
e, por isso, interpretação particular do tempo por cada grupo.
Compreender a organização do espaço pressupõe uma referência do “olhar geográfico” contíguo ao processo de análise das marcas que
se inscrevem, cristalizam e sobrepõe nele, sejam elas concretas ou simbolicamente representativas. Sob tais evidências, Milton Santos (1988, p.
61-62), conceitua eficazmente que:
Tudo aquilo que nós vemos, o que nossa visão alcança é a paisagem [...] a paisagem é uma escrita sobre a outra, um conjunto de
objetos que tem idades diferentes, é uma herança de muitos diferentes momentos. [...] susceptível a mudanças irregulares ao longo do tempo, a paisagem é um conjunto de formas heterogêneas,
de idades diferentes, pedaços de tempos históricos representativos das diversas maneiras de produzir coisas, de construir o espaço. [...] Esta pode ser definida como o domínio do visível, aquilo que
a vista abarca. Não é formada apenas de volumes, mas também
de cores, movimentos, odores, sons, etc. A percepção é sempre
um processo seletivo de apreensão [...]
Espaço e tempo sempre tiveram conceitos importantes para a compreensão da fundamentação do pensamento ligado a fatos ocorridos no
decorrer da história direta ou indiretamente naquilo em que o ser humano
pautou como sua trajetória de vida, seja atuando em socialmente ou em
sua relação teleológica com o meio ambiente.
Nessa perspectiva de análise de compreensão conceitual, Adnilson
de Almeida Silva (2007, p. 13) argumenta que:
É necessário compreender que tanto a territorialidade quanto a
temporalidade são hierarquias concebidas pela própria condição
humana, e como tal seguem a lógica igualmente humana de apropriação e uso daquilo que fazemos e construímos.
Tais enunciados conceituais apresentam importância tanto sob o
aspecto teórico quanto o prático, no que refere à maneira de interpretamos o mundo e as ações que se desdobram em sua construção concreta
e também de significados e representações.
As informações são hoje processadas numa velocidade muito mais
intensa do que em outras épocas e fatos vividos num lugar que chegam a
todos os lugares em questão de milésimos de segundo até nós, via satélite. Com isso já não parece haver mais distancias capazes de deter o
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009.
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Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões
conhecimento humano. Esse processo é qualificado por D. Harvey (1993)
como compressão do espaço-tempo, constituindo-se numa das facetas
da modernidade, o que para outros autores seria simplesmente a
globalização, como uma das etapas mais dinâmicas do capitalismo, capaz de produzir transformações profundas e engendra um “admirável
mundo novo”, porém muito perturbador como na perspectiva descrita por
Aldous Huxley (2000).
E tudo isso mexe com nossa percepção de espaço e tempo. Vivemos com a pressa em que o tempo se apresenta pelo instante, revestido de fugacidade diante das metas e prazos a cumprir, em espaços
cada vez mais exíguos em salas e gabinetes, em ambientes fisicamente
próximos. Entretanto, isso não significa uma interação social maior com
o próximo.
Cada momento ocasiona um volume maior de informações e fatos
que atingem nosso cotidiano e desafiam os sentidos pela necessidade de
absorção de referências e conceitos, como verdadeiros bombardeios,
descaracterizando as identidades, forjando uma homogeneização cultural e dando a falsa ideia de unificação de um mundo perfeito, conforme
tenta caracterizar a mass media.
O tempo-espaço na vida social demonstra que “[...] nossos registros mentais não correspondam às realidades correntes”, como defende
D. Harvey (1993, p. 275), peremptoriamente levando a nos guiar por novas
imagens, sons e significados que tomaram o lugar do tempo aniquilado do
século XX, porém esse novo apresenta-se de forma transitória, constituindo-se em uma obsolescência temporal.
Contudo, mais rapidamente do que em outros tempos sepultos
pela história humana, os eventos do século passado e até mesmo os
ocorridos no alvorecer do dia se vão distanciando e perdendo o brilho pelas mudanças, transformações e pela inovação em decorrência do tempo, simbólica e concretamente cada vez mais resumido.
Essas questões engendram novas e sofisticadas técnicas que impulsionam a sociedade humana para novas configurações de tempo-espaço a serem vencidas e desafiadas no futuro3, conforme menciona Carlos
Santos (2003, p. 21):
3
A título de ilustração, obras cinematográficas, como Blade Runner – o caçador de
androides, a trilogia Matrix e Mad Max, entre outras, representam essas novas configurações de temporalidade e espacialidade, como campos de batalha e conquista de
poder.
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Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa
237
O espaço é o único veículo, a princípio, viabilizador das intenções
humanas, pois qualquer carência humana só se realiza havendo
espaço, em função disso o espaço é alvo de disputa.
Essa assertiva permite-nos considerar que, independentemente
dos desdobramentos da modernidade e de aprofundamento teórico ou
empírico, o espaço tem como objeto ser o centro das discussões
epistêmicas, pois nele encontram-se contidas as contradições sociais,
quer tenham nossa aceitação ou não.
Nessa lógica analítica, a teoria do espaço afirma-se então como
uma teoria do lugar, e como tal é importante considerar os sujeitos participantes dos processos coletivos e de ação. O espaço-tempo é, portanto,
uma mistura de complexa de processos em que a globalização, como
uma etapa da modernidade, ocupa lugar de destaque
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
As mudanças em nosso mundo, no tempo e no espaço decorrentes da modernidade, em que tudo é novo e dialético, não podem constituirse em elemento reducionista no sentido de renunciarmos nossa capacidade de buscar a compreensão, enquanto processo de análise. É possível observar, analisar, teorizar e, a partir de seus enunciados conceituais,
vislumbrar alternativas que levem a reflexões de construção de um mundo plausível.
As respostas para esse desafio não se encontram prontas, por
causa do grau de complexidade provocada pelas descontinuidades da
modernidade e da dinamicidade dos processos de transformações em
curso na vida atual. Diante dessa constatação, o indivíduo procura
desalienar-se de um racionalismo, surgindo assim uma emergência da
espiritualidade, o que não significa que as pessoas estejam mais religiosas, mas saturadas de tanto pensamento racional.
Uma das mais tristes consequências da modernidade observadas
por nós, durante as pesquisas, leituras e até mesmo nas observações no
cotidiano, é, sem dúvida, o desencantamento do mundo e o estabelecimento de prisões subjetivas dentro de um mundo supostamente libertário
e de liberdade infinita.
O afastamento dos seres humanos da natureza, a destruição dos
mitos mais significativos da cultura, a perda do sentimento de
pertencimento, a ansiedade pelo consumo, a visão materialista, a razão
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Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões
enlouquecida, o empobrecimento dos laços afetivos corrompidos pelo individualismo, a mercantilização da arte a derrota da ética pelo pragmatismo
irresponsável e a perda irreparável dos sonhos revelam o atual momento
deste mundo desencantado. Um sentido para a vida nos leva a repensar
sobre esse processo caótico interposto pela modernidade e pela necessidade de se resgatar a espiritualidade e a reacender a subjetividade humana, bem como seus valores.
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em Geografia) – UNIR, Porto Velho, 2007.
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estética na ordem social moderna. São Paulo: Ed. da UNESP, 1997.
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UNESP, 1991.
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mudança cultural. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1993.
______. Espaços de esperança. São Paulo: Loyola, 2004.
HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. São Paulo: Globo, 2000.
NOVAES, A. Tempo e história. São Paulo: Companhia das Letras-Secretaria Municipal da Cultura, 1992
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1988.
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informacional. In: Espaço e globalização. 4. ed. São Paulo: Hucitec, 1998.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009.
Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa,
Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa
239
______. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed.
São Paulo: Ed. da USP, 2006.
TUAN, Y. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio
ambiente. São Paulo: Difel, 1980.
Artigo recebido em 19/2/2009.
Aprovado para publicação em 14/4/2009.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009.
Vivian Oviedo Álvarez
241
VALORACIÓN DE LOS
HABITANTES SOBRE LA GESTIÓN
AMBIENTAL COMUNITARIA EN
EL BARRIO JESÚS MARÍA EN
LA HABANA VIEJA, CUBA
AVALIAÇÃO DOS HABITANTES SOBRE A
GESTÃO AMBIENTAL COMUNITÁRIA
NO BAIRRO JESUS MARIA
NA HAVANA ANTIGA, CUBA
ASSESSMENT OF THE PEOPLE
ON THE ENVIRONMENTAL
MANAGEMENT IN THE
COMMUNITY FROM THE
DISTRICT JESÚS MARÍA
IN OLD HAVANA, CUBA
VIVIAN OVIEDO ÁLVAREZ
___________________________________________________________
Maestra en Geografía, Medio Ambiente y Ordenamiento Territorial
por la Universidad de La Habana,
Profesora asistente de la Universidad de La Habana
Correo: [email protected]
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009.
242
Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ...
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009.
Vivian Oviedo Álvarez
243
RESUMEN
En Cuba, en los últimos años se ha venido potenciando el desarrollo de
muchos barrios, sobre todo los que se caracterizan por deficiencias en
los planos físicos y sociales. Los Talleres de Transformación Integral del
Barrio son espacios creados con estos propósitos, para así incentivar
proyectos que logren la transformación barrial, la reanimación cultural y
económica y la educación ambiental de los ciudadanos. El barrio Jesús
María es uno donde se desarrolla esta experiencia, teniendo sus habitantes diferentes opiniones sobre el quehacer comunitario que se ha acumulado desde su creación. En el presente trabajo se expone la valoración
que tienen los pobladores de Jesús María sobre la gestión ambiental
comunitaria que se produce en su territorio. Para ello se identificaron los
problemas ambientales, las soluciones que están recibiendo, así como la
forma en que los habitantes se involucran y comprometen en estas tareas,
puesto que la participación ciudadana es un aspecto fundamental en el
desarrollo comunitario.
Palabras claves: gestión ambiental comunitaria, percepciones
ambientales, participación comunitaria.
RESUMO
Em Cuba, nos últimos anos tem sido promovido o desenvolvimento de
muitos bairros, sobre tudo aqueles que são caracterizados por deficiências nas áreas físicas e sociais. As Oficinas de Transformação Integral do
Bairro são espaços criados com esses propósitos, para assim incentivar
projetos que atinjam a transformação do bairro, o renascimento cultural e
econômico, e a educação ambiental dos cidadãos. O bairro Jesus Maria é
um exemplo de onde se desenvolve esse projeto, tendo habitantes com
diferentes pontos de vista sobre o trabalho comunitário que se tem acumulado desde seu início. O presente trabalho aborda a avaliação que os
habitantes de Jesus Maria têm sobre a gestão ambiental comunitária produzida em seu território. Para isto foram identificados os problemas
ambientais, as soluções que estão recebendo, assim como a forma com
a qual os habitantes se envolvem e se comprometem nestas tarefas, uma
vez que a participação dos cidadãos é um fator fundamental no desenvolvimento da comunidade.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009.
244
Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ...
Palavras-chave: gestão ambiental comunitária, percepções ambientais,
participação comunitária.
ABSTRACT
The development of many neighborhoods in Cuba has got much power in
the recent years, especially in the ones characterized by deficiencies in
the physical and social aspects. The Workshops for Integral Transformation
of a Neighborhood have been specifically established with such purposes,
encouraging, at the same time, the creation of projects that might lead to
the neighborhood transformation, the cultural and economical reanimation,
as well as to the citizens’ environmental education. The “Jesús María” is
one of the neighborhoods where there is a Workshop of this kind; having its
inhabitants different opinions about the community work developed since
the creation of such Workshop. An evaluation of the opinions of the “Jesús
María” inhabitants about the environmental community management is given
in the present work. For this, the main problems of the neighborhood were
identified as well as the solutions that have been given and the way the
inhabitants are involved and engaged with their community work, since
their participation is a fundamental aspect for the community development.
Keywords: environmental community management, environmental
perceptions, community participation.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009.
Vivian Oviedo Álvarez
245
1 INTRODUCCIÓN
La temática de los asentamientos poblacionales se está abordando con mucha fuerza desde la Cumbre del Medio Humano, celebrada en
Estocolmo, en 1972. Han pasado los años y los problemas en muchos de
estos espacios se han agravado considerablemente por diferentes causas: pobreza, exclusión social, inequidades, crecimiento explosivo de las
ciudades, crecimientos poblacionales, desequilibrios entre el campo y la
ciudad y entre ciudades que concentran servicios y actividades de
avanzada, entre otras cuestiones. El nivel de conciencia frente a éstos ha
ido aumentando en distintos sectores sociales, y se toman medidas para
su enfrentamiento.
Todo lo que se haga para ayudar al mejoramiento ambiental de las
comunidades es una tarea de primera importancia para muchos gobiernos.
En la Cumbre de la Tierra de Río de Janeiro, en 1992, se sentaron nuevas
pautas para el tratamiento de estos temas mediante la aplicación de las
Agendas Locales 21, para ofrecer espacios más humanos, más viables,
más evolucionados y ambientalmente sostenibles a nuestros hijos y al
futuro en general. Imbricar a la población en lo concerniente a la
transformación positiva de su entorno y la elevación de la calidad de vida,
es la estrategia que se ha puesto en marcha en muchos lugares para el
cuidado y conservación de nuestro medio para el presente y futuro.
En los últimos años, se ha contado con la participación de la
población en los proyectos comunitarios y de reactivación de la vida barrial.
La relación de los pobladores con su entorno inmediato se ha revitalizado
y se cuenta con más herramientas para enfrentarse a su cuidado. En este
trabajo se presenta un estudio en el barrio Jesús María del municipio La
Habana Vieja de la Provincia Ciudad de La Habana. A través del contacto
con sus habitantes mediante un cuestionario aplicado se conocen los
principales problemas ambientales que afectan a esta comunidad y cómo
participan en las soluciones de los mismos. Los logros que se obtienen
cotidianamente les permiten valorar cómo se está implementando el
proceso de gestión ambiental comunitaria.
La importancia de este tipo de estudio es que se convierten en
herramientas de trabajo para las diferentes instituciones y representantes
que operan en los barrios. Es un resultado que complementa las estrategias
trazadas en la comunidad; aporta la visión de los pobladores, quiénes se
constituyen en contraparte de los decisores dentro de un sistema político
cuya máxima prioridad es el bienestar social; enriquece y actualiza la
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009.
246
Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ...
información; presenta acciones implementadas; en general, permite
reevaluar y reordenar lo pautado.
En los tiempos actuales, que se aboga a la necesidad y la toma de
conciencia del ahorro de recursos y acciones, trabajos de este tipo se
convierten en elementos imprescindibles, que tracen el camino para responder ante la población, al mismo tiempo de involucrarla en el proceso de
transformación social, propician elevar la cultura comunitaria, que implica
el reforzamiento del sentido de pertenencia, aumentan los niveles de
educación ambiental y contribuyen a potenciar acciones de desarrollo
sostenible, basadas en el aprovechamiento de las posibilidades y
coyunturas que ofrece la propia comunidad.
Los resultados se enmarcan en el desarrollo de la geografía de la
percepción y el comportamiento. Este enfoque geográfico estudia la
interacción del hombre y el medio, pero mediante el conocimiento de los
procesos psicológicos, a través de los cuales éste aprehende del medio
en el que vive, examinando el modo en que estos procesos influyen en el
comportamiento resultante (RINCONDELVAGO).
Este campo será el iniciador de las posiciones de la geografía radical y la Geografía Humanista o Humanística, en contraposición con las
tendencias neopositivistas o la Geografía Cuantitativa que alcanzan su
esplendor en las ciencias sociales después de la Segunda Guerra Mundial. Se basan en el método filosófico de la fenomenología.
Según Aurora García (1998):
En líneas generales, y en un sentido amplio la fenomenología,
quiere entender los hechos sociales desde la propia perspectiva
de los actores, ya que la realidad que importa es la que las personas
perciben como importante (TAYLOR; BOGDAN, 1992). Así pues, la
fenomenología, al otorgar la primacía a la experiencia subjetiva
inmediata, al estudio de los hechos desde la perspectiva de los
sujetos y al conocimiento de cómo las personas experimentan e
interpretan el mundo social que construyen en interacción, se
convierte en la base teórica necesaria para una geografía preocupada entre otros temas por los lugares y la vida cotidiana.
La Geografía se conecta con otras ciencias sociales para dilucidar,
al mismo tiempo que multiplicar criterios, sobre las relaciones
socioespaciales, el comportamiento humano, la importancia de la
significación simbólica de lugares, objetos y fenómenos y las
construcciones sociales de sus espacios de vida. Su aporte se recrea en
el análisis de los territorios, a partir de las formas de distribución de los
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fenómenos estudiados, la interconexión con otros objetos y procesos de
los lugares y el conocimiento que provoca para la toma de decisiones y la
planificación del territorio tener en cuenta las experiencias sentidas y vidas
de los pobladores.
Los barrios, en ese devenir de participación, trabajo y desarrollo
comunitarios, acaecidos en muchas ocasiones a través de la gestión
comunitaria para darle soluciones a problemas concretos de los habitantes de un lugar, son unos espacios ideales para poner en práctica estudios
cualitativos en la Geografía que clarifiquen motivaciones, valores y significados del proceder de las personas y cómo éstos se reinterpretan
nuevamente en los territorios o espacios.
Para Lilia Núñez, 2006):
Las percepciones ambientales, a la vez que se forman en las
experiencias cotidianas, también condicionan una determinada
relación de comportamiento futuro entre el hombre y su medio
ambiente en general. Las percepciones ambientales son
moldeadas por las particularidades del entorno natural y
socioeconómico, e imponen determinada adecuación de las
prácticas de gestión ambiental para cada territorio. Su estudio
también tiene la facultad de explicitar conflictos subyacentes entre
comunidades, calidad de vida, políticas organizativas y legislativas,
disposiciones económicas y de gobiernos locales que contribuyen
o no al desarrollo sostenible. La complejización de las relaciones
sociales, la heterogeneización de vivencias, interpretaciones y
puntos de vista de los sujetos sociales influyen en las diferentes
maneras en que los diversos actores se apropian y asumen las
transformaciones del medio que los rodea.
2 BREVE CARACTERIZACIÓN DEL BARRIO
El barrio Jesús María es uno de los más antiguos de la ciudad. Su
primer núcleo poblacional se asentó en la zona en las primeras décadas
del siglo XVIII. Desde un inicio se caracterizó por acoger a personas de
bajo recursos, pues sus primeros habitantes fueron negros curros que
llegaron de España. Eran libres y no trabajaban en su gran mayoría, vivían
del hurto y el pillaje, prestos siempre a las peleas de cuchillos y machetes.
El barrio se fue conformando y modificando con el paso de los
años, y también fue recibiendo población de bien. A lo largo de la historia
han vivido en él personas de renombre, como José Martí (siendo niño),
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Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ...
Máximo Gómez, Quintín Banderas, Domingo Brindis de Salas, Ramón
Fonst, Esther Borja. Ha sido protagonista de hechos históricos y del
surgimiento de sitios importantes.
La extensión del barrio coincide con el Consejo Popular, la menor
división de la estructura territorial cubana. Se delimita por las calles Egido,
Monte hasta Carmen y la línea del ferrocarril por la Avenida del Puerto, con
una extensión de 1 km2. Está compuesto de 23 circunscripciones y tiene
la particularidad de contar con un Taller de Transformación Integral del
Barrio (TTIB), creado desde finales del año 1999, pero realmente comenzó
a trabajar a tiempo completo para el Consejo Popular desde marzo del
año 2004.
FUENTE: elaboración de la autora.
El territorio está completamente urbanizado, con construcciones
de muchas décadas atrás. Los tipos de viviendas existentes actualmente
son edificios múltiples, ciudadelas y viviendas individuales, en un gran por
ciento en mal o regular estado técnico – constructivo. Su población
sobrepasa los 25.000 habitantes. Cuenta con una buena red de servicios
de diversos tipos, resaltando los gastronómicos, comerciales,
educacionales y de salud; también con varias instituciones culturales.
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3 TALLER DE TRANFORMACIÓN INTEGRAL DEL BARRIO
Los Talleres de Transformación Integral del Barrio surgieron a finales
de la década de los 80 del pasado siglo en barrios deteriorados de la ciudad,
que necesitaban urgentemente de una remodelación en sus aspectos físicos y socioeconómicos.
Han pasado a ser proyectos de gran significación sociocultural, con
el fortalecimiento de la vida material y espiritual de sus espacios. Sus
propuestas han logrado incentivar y comprometer a distintas personas que
han devenido en activistas y colaboradores, ganando en capacidad de diálogo y demostrando sus potencialidades de contribución a la transformación
de su medio con alternativas propias (LINARES; MORA, 2004).
Han sido instrumentos que facilitan la gestión comunitaria, es decir
atender a los problemas surgidos en los barrios, contando en primer lugar
con los recursos humanos, técnicos y materiales propios, con ayuda de
financiamiento externo y otras facilidades que puedan ser gestionadas, y
vinculándose y asesorando al equipo de trabajo del consejo popular. Esta
atención parte de la discusión con los miembros de la comunidad, los
cuales deben ser la voz principal en todo el proceso, tomando parte en la
toma de decisiones y controlando y modificando las alternativas de soluciones.
Esto ha sido fundamental en la concepción del Taller de Jesús María,
pues sus objetivos se basan en el desarrollo, transformación y rescate de
las tradiciones del barrio, a través de la transformación social y física del
mismo, a corto, mediano y largo plazos, mediante un proceso educativo
con la participación activa de la población residente como sujeto activo,
actuando como catalizador (PÉREZ, 2005).
Los logros alcanzados en estos años han sido: tener el
reconocimiento en el municipio y en el consejo popular, como un centro
para la asesoría técnica en temas de trabajo comunitario, participación
ciudadana, investigaciones, capacitación, entre otros; formar parte del grupo de trabajo local del municipio para la colaboración; la terminación de
diferentes proyectos en el barrio; el desarrollo de programas para los diferentes grupos poblacionales; haber integrado el trabajo del consejo popular con el de las instituciones que existen en el territorio.
Se interactúa con la comunidad a través de los delegados de las
23 circunscripciones del consejo, los cuales están entre los principales
líderes comunitarios, además de otros factores de las propias
circunscripciones. También hay mediación, a través de la comisión de
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Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ...
prevención, de un grupo de mujeres de la tercera edad, que son promotoras del programa del adulto mayor, entre otros agentes. No obstante, se
conoce que no se llega a todos los habitantes, por lo que entre las metas
que se proponen está la de expandirse a las zonas más alejadas de la
sede del Taller y trabajar con la población de forma más ardua y personalizada.
4 RESULTADOS DEL ESTUDIO APLICADO
Con la técnica del cuestionario se supo la percepción que tienen
los habitantes de Jesús María sobre sus problemas ambientales y cuáles
son los prioritarios, las soluciones que reciben, cómo participan de las
mismas y la valoración general del proceso de gestión ambiental. Se
aplicaron 112 encuestas, a 72 mujeres (64,3%) y 40 hombres (35,7%).
Las edades abarcan entre los 13 y 86 años, existiendo una mayor
representación entre las edades de 30 a 60 años. El 68,8% nació en la
capital del país. El nivel de escolaridad más típico es el medio superior
(34,8%), seguido del nivel medio (24,1%). El 60,7% hace más de 20 años
que vive en el barrio y el 32,1% entre 10 y 20 años. El 46,4% tiene algún
oficio o profesión, 14 son estudiantes, 22 son amas de casa y 16 están
jubilados.
Al 64,3% le gusta el barrio; a algunos les resulta agradable su ambiente, su vivacidad, la zona donde está enclavado y los servicios que
presenta, y a otros precisamente esto les parece negativo, alegando que
es un barrio marginal, con muchos conflictos, poco tranquilo, etc.
4.1 PROBLEMAS AMBIENTALES IDENTIFICADOS POR
LOS HABITANTES DEL BARRIO
Los principales problemas ambientales identificados por los habitantes de Jesús María, que superaron el 70%, fueron:
a) viviendas en regular o mal estado técnico – constructivo (100%);
b) falta de opciones culturales y recreativas y presencia de polvo
(92%);
c) problemas de transporte y alcoholismo (88,4%);
d) población mal educada y poca accesibilidad a los servicios
(86,6%);
e) hacinamiento (85,7%);
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f) ruido (82,1%);
g) escasez de áreas verdes e indisciplina social (81,2%);
h) población flotante y presencia de vectores (77,7%);
i) calles en mal estado, animales callejeros, falta de parques y
delincuencia (76,8%);
j) enfermedades respiratorias (75%) y familias disfuncionales
(71,4%).
No obstante, teniendo en cuenta todos los problemas mencionados, la figura que se presenta a continuación muestra cómo se distribuye
el nivel de identificación en las circunscripciones del consejo popular.
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Las circunscripciones 38, 83, 67 y 47 son donde los pobladores
mencionaron más cantidad de problemáticas, mientras que los que menos aportaron proceden de la 86, 43 y 40. El grueso de estos subterritorios
se encuentran entre y 60 y 70% de identificación, pero el aspecto que sí
tuvo una opinión unánime fue en el mal estado técnico – constructivo de
las viviendas –, por lo que se considera su principal problema ambiental,
que al mismo tiempo fue la prioridad para su solución por parte de los
encuestados del barrio.
Este problema ya es conocido por los representantes locales, pues
ha sido una afectación mantenida en los últimos años, siendo no sólo importante en este consejo popular, sino también en todo el municipio de La
Habana Vieja. El deterioro acumulado por décadas, por la falta de
mantenimiento, la escasez de recursos y cuestiones económicas ha
devenido en urgencia comunitaria para buscar alternativas de solución a
tan demanda necesidad de los residentes en Jesús María.
A este indicador también se asoció el hacinamiento y los problemas de convivencia, donde los propios encuestados reflexionaban sobre
la incidencia de uno en los otros. Igual sucede con la población, manifestando que es mal educada y la existencia en el barrio de familias
disfuncionales. Pudieron identificar población flotante, al ser un espacio
muy céntrico y estar cerca de la terminal de trenes y contar con la Calle
Monte que es una de las principales arterias comerciales de la ciudad.
Precisamente esto no fue un parámetro a tener en cuenta para la
percepción que se tiene de las opciones culturales y recreativas, a pesar
de que cuentan con una casa de cultura y otras instalaciones que brindan
diversas actividades. Además se destaca la poca accesibilidad a los
servicios, argumentando en algunas ocasiones lejanía y en otras, altos
precios de los productos, otro descontento se refiere a los problemas de
transporte.
La variable condiciones de urbanidad fue la que sumó la mayor
cantidad de problemáticas individuales entre las principales del barrio. En
ella lo que más resalta es la presencia de polvo, obteniendo valores por
encima de 60% en todas las circunscripciones y en una mayoría de 100.
Esta situación dejada a libre opción quizá sea poco mencionada, pero una
vez que se sugiere, sí es reconocida por las personas como un problema
ambiental, se pudiera decir que silencioso, pues afecta, además de la higiene del hogar, la condición de salud de la población. El ruido obtuvo, de
manera general 82,1%, pero se elevó a 100 en las circunscripciones
cercanas a la Termoeléctrica Otto Parellada, a las avenidas principales de
Monte y Agramonte y a la terminal de ferrocarriles. La escasez de áreas
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verdes sobresalió por ser un territorio totalmente urbanizado y el área verde se concentra en los parques del municipio.
En las redes técnicas, la mayor insatisfacción es con el estado
vial. Los problemas sociales han sido característicos en este barrio a lo
largo del tiempo. Lo más relevante es la indisciplina social y la delincuencia.
En el primero, lo más señalado es que la gente tira basura, también se
habla de gritería, discusiones, música alta, destrucción de plantas y no
cuidado de los parques, etc. En el segundo, el robo y los asaltos son los
más reiterados.
En los problemas de salud sobresalió la cuestión del alcoholismo.
Para la mayoría de los encuestados este es un problema serio del barrio,
que no son sólo los que ahí residen, sino que, como tiene tanto tránsito, es
propicio para este tipo de vicio perjudicial a la salud. La presencia de vectores
también alcanzó valores altos, refiriéndose fundamentalmente a mosquitos, cucarachas y ratones; algunos explican que, por la gran cantidad de
casas viejas, se nota mayor incidencia de estos animales indeseables. El
75% acotó sobre afectaciones por enfermedades respiratorias donde la
humedad y el polvo implican mayor riesgo.
4.2 SOLUCIONES A LOS PROBLEMAS AMBIENTALES
IDENTIFICADOS POR LOS HABITANTES DEL BARRIO
Los encuestados fueron muy expresivos en la detección de los
problemas de sus barrios, pero al mismo tiempo mencionaron las diferentes soluciones que se están dando en algunos de ellos para irlos
minimizando en la medida de lo posible, según las condiciones del país en
general y del barrio en particular.
Teniendo en cuenta la totalidad de todo el universo muestreado los
mejores resultados se tienen en el arreglo de la red vial con un 48,2%. Que
se trabaje en la remodelación de las viviendas, su principal problemática y
prioridad, sólo es percibido por el 18,8% dicho así por 21 entrevistados.
Otras soluciones se dan, además, en el enfrentamiento a la delincuencia,
eliminación de vectores, puesta del alumbrado público y la recogida de la
basura.
Problemas que también resultaron prioritarios para que se les
encuentre solución son que haya más opciones culturales y recreativas
en el barrio, mejora del transporte público, la disminución del alcoholismo
y de la delincuencia, que mejoren los servicios básicos en particular el
consultorio médico y el arreglo de la red vial.
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De alguna manera se trabaja para darle respuestas a estas prioridades y la población lo percibe, sólo que la acumulación y los problemas
materiales y económicos retrasan los avances que se pudieran tener de
forma más acelerada en estas cuestiones vitales para la vida de los
pobladores. A continuación se muestra en imágenes diferentes soluciones.
Apodaca y Cárdenas
Vives desde Águila
Fotos tomadas por la autora
4.3 PARTICIPACIÓN COMUNITARIA EN LAS
SOLUCIONES DE LOS PROBLEMAS
La participación comunitaria implica diferentes niveles dentro del
proceso. El cuestionario indaga sobre el acceso o compromiso de los
habitantes en este devenir de poder popular. Se va desde el nivel primario
de estar presente, asistir, ser testigo de hasta los debates que se generan
y el protagonismo de la población en ellos, así como en la ejecución de las
decisiones acordadas, ya sea en conjunto o tomadas por un individuo o
grupo élite.
¿Conocen sus habitantes que cuentan con un Taller? ¿Saben de
las actividades que allí se programan y qué objetivos cumplen dentro del
barrio?
Entre los encuestados, conocían la presencia del TTIB 32 personas,
que equivale a un 28,6%, es decir, menos de un tercio está al corriente de
este importante espacio de desarrollo, participación y actividades barriales.
Fundamentalmente, éstos son los que viven en las inmediaciones de don-
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de está situado el inmueble y algunos otros inmersos en organizaciones
locales y(o) en el dinamismo comunitario. De esta tercera parte que sí
sabe del TTIB, el 68,8% conoce las actividades que en él se desarrollan,
pero si se lleva a la totalidad de la muestra se corresponde solamente con
el 19,6%. Así, se considera deficiente la divulgación de este espacio que
ya lleva varios años de creado y trabajando a favor del desarrollo comunitario
en Jesús María y que cuenta con resultados concretos.
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Precisamente por contar con el TTIB, este barrio tiene experiencia
en la realización de diferentes tipos de reuniones como se indaga en la
encuesta, pero la totalidad (90,2%) indicó el tipo de Asambleas de Rendición
de Cuentas; sólo hubo una encuestada que además de asistir a ésta, va a
los talleres comunitarios que prepara el TTIB junto a la directiva del Consejo
Popular. Once, por diferentes motivos, no hacen acto de presencia en
dichas reuniones.
De los que sí dijeron ir a las reuniones de la comunidad, el 37,5%
expresó que sólo hace acto presencia. Un poco más de la mitad (51,8%)
opina y debate sobre lo abordado en el encuentro y el 0,9% afirmó participar de la toma de decisiones, que se corresponde con una encuestada
que es presidenta de un Comité de Defensa de la Revolución (CDR).
Según la percepción de los encuestados, las soluciones a las problemáticas son casi inexistentes, pues entre las opciones ninguna y casi
ninguna se acumula un 70%, mientras a casi 20% se eleva la sumatoria
de unas pocas y algunas. Las respuestas positivas no fueron marcadas,
por lo que hay que seguir trabajando para aumentar las soluciones de las
demandas de la población, pero ésta tiene que ser partícipe de las mismas,
para que sea el verdadero trabajo comunitario por el que se aboga y la
realidad indica que esta participación ciudadana dista mucho de ser la que
se quiere.
A la pregunta de si los miembros de la comunidad se involucran en
las soluciones de las situaciones que afectan al barrio, el 90,2% dijo que
no, con mejores resultados en la circunscripción 66. Sin embargo, el 47,3%
afirma que los miembros de la comunidad se involucrarían si contaran con
los recursos necesarios, con una representación bastante amplia en todo
el consejo popular. Esto sólo no fue dicho en la 86 que recayó toda la
acción en las instancias superiores del gobierno, que alcanzó una opinión
general del 41,1%. Mientras que el 27,7% lo deja en manos de las autoridades locales. Tres personas de circunscripciones diferentes piensan que
se implican a las instituciones del barrio para darle respuesta a los problemas. En las circunscripciones 39, 75 y 50 coinciden relativamente altos
porcentajes de soluciones con opiniones de que las personas son las que
participan de ellas.
Al decir de los encuestados, las acciones concretas implementadas
están centradas fundamentalmente en el arreglo de las calles. En las
viviendas se acometen varias obras como arreglo de solares, portales,
edificios, escaleras y reconstrucción de fachadas. Se dan actividades en
la Casa de la Cultura; se mejora el alumbrado público; se reparan escuelas,
se abren talleres de oficios; mejoran algunos servicios como la farmacia,
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la panadería y la electricidad y el agua en los hogares; se arreglan
policlínicos, consultorios médicos, parques. Algunas de éstas y otras soluciones son dichas por una persona, pero al menos una vez, ya son pasos
de avances en el accionar de todos para mejorar el barrio.
Desalentadoramente el 46,4% dice que nada cuando en realidad sí se ven
cambios en el barrio.
4.4 GESTIÓN AMBIENTAL COMUNITARIA
La gestión comunitaria es la administración y manejo de los recursos para la mitigación o solución de cualquier tipo de afectación que ocurra
en la comunidad; además del control y la evaluación por todos sus
miembros, así como sus dirigentes e instituciones y entidades relacionadas con la misma, de las acciones puestas en prácticas para la mejora de
las condiciones ambientales y de vida de ese espacio y sus habitantes. Se
deriva en muchas ocasiones en la gestión de proyectos comunitarios,
buscando la transformación de las realidades locales mediante soluciones a problemas puntuales.
Para los habitantes de Jesús María, la gestión ambiental comunitaria
es 17,9% buena, 41,1% regular y 39,3% mala, como se muestra en la
siguiente figura.
FUENTE: elaboracóin de la autora.
Las argumentaciones fueron diversas, resaltando en los criterios
positivos que se hacen varias gestiones, esfuerzos por mejorar y poco a
poco se van dando soluciones. Un 7% opina que los logros no se perciben
independientemente de lo que se trate de hacer. Los porcentajes más al-
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009.
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tos se concentran en las respuestas negativas, desafortunadamente.
Diecisiete personas afirman que no se hace nada y no se ha resuelto
nada, con porcentajes acumulados de 15,2. Pero se incrementa más el
por ciento con los criterios de que la gestión comunitaria no funciona, no
dan respuestas, no hay mejoría o cambios, etc.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009.
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En Jesús María, la distribución del proceso de gestión comunitaria
es irregular en todo el consejo popular, aunque se manifiesta más cantidad
de respuestas que la clasifican como buena del centro hacia el oeste y
hacia el norte del territorio, donde se han identificado más soluciones. Se
destacan las circunscripciones 41 y 47 con respuestas de no identificación
hacia el trabajo comunitario y las escalas de la gestión se concentran en
mal y regular. Lo que en la 47 es algo contradictorio porque fue una de las
que más soluciones identificó en los problemas abordados, pero fue la
única con unanimidad de criterio en la peor calificación de este proceso.
Sólo la 45 tuvo 100% de identificación con el trabajo comunitario, siendo la
parte noreste la que mejores resultados presenta al respecto. En las
circunscripciones que predominan las respuestas donde la participación
de los habitantes es poca porque las soluciones se las dejan al delegado o
dependen de instancias superiores de gobierno. También hay predominio
de evaluación de la gestión ambiental comunitaria de regular y mala, fundamentalmente en la 41, 42, 47, 45, 50, 75 y 82.
5 CONSIDERACIONES FINALES
En sentido general se tiene que no se explotan a cabalidad todas
las posibilidades y el protagonismo popular que brinda el proceso de
participación comunitaria. Falta el conocimiento de cómo proceder ya sea
por desinterés o explicaciones de los que pueden ayudar a actuar, tampoco
se concretan las dinámicas de trabajos en grupos o sectores poblacionales,
el propio compromiso poblacional es deficiente, pues no siempre se ven
reflejados en las acciones que se acometen a gran escala. A favor se
puede decir la preocupación constante de las autoridades por tener avances en los frentes más comprometidos del barrio – algunos encuestados
lo manifestaron en sus respuestas – y en ocasiones el apoyo popular en
cuestiones acuciantes y cuando se sienten bien representados por sus
delegados y dirigentes.
Es importante la identificación de los diferentes problemas que se
tienen, pues alertan sobre las condiciones en que se desarrolla la vida del
barrio y prepara a la población para la ejecución de diversas acciones que
conlleven al mejoramiento ambiental de la comunidad. Estas soluciones
se llevan a cabo en la medida que se cuente con las posibilidades. Pero en
la vivienda, prioridad del barrio Jesús María, los resultados no son los que
realmente se necesitan para el reconocimiento de la minimización del pro-
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blema. Las entidades implicadas no se encuentran de brazos cruzados y
están dispuestas a recibir todas las vicisitudes de la población y darle
respuestas cuando y como se pueda. La población tiene que inmiscuirse
más aún en todo el proceso, todavía se percibe, en sentido general, en el
plano de criticar pero no hacer mucho; por supuesto que siempre hay
personas muy comprometidas que les duelen las dificultades y sí se
preocupan por el mejoramiento ambiental.
Se debe aumentar la información a la población por diferentes
medios, que no tienen que quedarse en el marco de las Asambleas de
Rendición de Cuentas, aprovechando entonces las actividades
comunitarias de diversas índoles, medios masivos de comunicación – ideal
que pudieran establecer alguno de manera local: radio, prensa escrita,
prensa digital – incluyendo las vallas y carteles, explotando y promoviendo
el quehacer de los especialistas y de los proyectos comunitarios que se
tengan, las escuelas, los centros recreativos y culturales, etc.
En materia de la Geografía, es muy útil la vinculación de estudios a
las nuevas tecnologías de la información como pueden ser el uso de los
¿SIGs?, como herramientas que contribuyen a potenciar, en los análisis
territoriales y espaciales, la utilización del espacio, la distribución de las
problemáticas ambientales comunitarias y los elementos o entidades con
que se pueden contar para trabajar en su eliminación, además de la
apropiación y transformación sociales del medio.
Se debe lograr que la población no se sienta ajena al nivel de toma
de decisiones, al mismo tiempo de que se responsabilice con compromisos
y acciones del cuidado de su entorno. Para ello se debe estimular la
participación y maximizar los resultados de la misma. Trabajar en grupos
o sectores es ampliamente utilizado, principalmente con los niños y jóvenes
con el apoyo de escuelas y talleres. De manera general hay que aprovechar
la diversidad poblacional en cuanto a oficios, profesiones, niveles de
conocimientos, habilidades, motivaciones e intereses propios o colectivos
y crear comisiones o grupos de trabajo que respondan según estas características a las soluciones de los problemas puntuales de la comunidad,
sin esperar siempre la asignación de recursos – que no indica que no se
cuente con ellos, porque no todas las respuestas se pueden alcanzar sin
los mismos – y promover entre todos la imaginería popular para enfrentar
esta escasez de recursos.
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rincondelvago/geografia.radical.htlm>. Acceso en: set. 2005.
Artigo recebido em 19/7/2009.
Aprovado para publicação em 30/7/2009.
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009.
Allan Scott Mills e Mauro José Ferreira Curry
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BOOK REVIEW:
Tourism in Latin America
ALLAN SCOTT MILLS
___________________________________________________________
Urban and Regional Studies Program, Box 842028
Virginia Commonwealth University
Richmond, Virginia 23284-2028, USA
Phone: (804) 827-9346
FAX: (804) 828-1946
[email protected]
MAURO JOSE FERREIRA CURY
___________________________________________________________
Docente dos Cursos de Turismo e Hotelaria
UNIOESTE – Campus de Foz do Iguaçu
Foz do Iguaçu, Paraná – Brasil.
Cel 45-9919-0527
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 263-267, 2009.
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Book Review: Tourism In Latin America
Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 263-267, 2009.
Allan Scott Mills e Mauro José Ferreira Curry
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By Les Lumsdon and Jonathan Swift
The Continuum International Publishing Group Ltd. (2001)
The Tower Building, 11 York Road, London SE1 7NX, UK
www.continuumbooks.com
245 roman numeral pages, and ten arabic numeral pages
ISBN # 0-8264-5147-0 (hb) £ 65.00
ISBN # 0-8264-5148-9 (pb) £ 25.00
Although this book was published nearly eight years ago, this is
apparently the first time that it has been reviewed for a Latin American
journal. Because it deals with tourism in Latin America, this belated review
should be of high interest to Latin American readers. The book is introduced
as comprising “...a study of tourism (in Latin America) from the point of
view of business…” The authors define Latin America, for purposes of
their book, as including those countries in the Caribbean, Central America,
and South America having historical or cultural links to either Spain or Portugal. The book has ten chapters grouped into three major “parts.” Part I
is entitled Latin America: An Overview and includes a first chapter
introducing Latin America to the reader and a second chapter which explains
both the meanings and the economic importance of tourism in general.
The first chapter gives a good geographic and historical-political overview
of Latin America. However, one factual error is the description of the beach
town of Vina del Mar in Central as Chile as a “port,” whereas it is actually
the neighboring city of Valparaiso that is the seaport in that region of the
country.
Part II of the book is entitled The Tourism Offering and includes five
chapters, the first of which is chapter three, presenting an overview of The
Supply of Tourism (in Latin America). The other four chapters describe
following four types of Latin American tourism offerings: Beach Tourism
and Integrated Resorts, Nature-Based Tourism, Cultural Tourism, and Urban
Tourism. Chapter three, on tourism supply, includes a discussion of the
different modes of Latin American transportation in the context of an overview
of the different elements of tourism supply. In so doing, the authors give
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Book Review: Tourism In Latin America
short shrift to motor coach transportation by describing it as involving long
hours of travel and lacking in personal safety. No mention is made of the
high quality on-board food and/or beverage service, fine coach equipment
(e.g. sleepers), and competitive pricing found among the inter-city motor
coach carriers in most Latin American countries. The best chapters in this
part of the book are those describing nature tourism, cultural tourism, and
urban tourism. Each of these three chapters is presented in great detail
and provides a wealth of information specific to Latin America. The nature
tourism chapter does a particularly good job of accurately distinguishing
the different types of Latin American nature tourism offerings from oneanother. An especially useful section on nature tourism offerings, by country,
is provided in the final pages of this chapter. However, one error here is the
following statement: “Paraguay, like Brazil and Argentina, possesses the
Iguazu Falls.” Although Paraguay does market the Falls as a nearby
attraction, Paraguay does not possess any part of this natural attraction.
Only Brazil and Argentina border the two respective sides of Iguazu Falls.
Part III is entitled Major Issues in Tourism Development and is
composed of thee chapters addressing the following three topics: Tourism
Image, Impacts of Tourism, and The Future of Tourism in Latin America.
The authors begin the first chapter in this section, chapter eight, by informing
the reader that “…image enhancement (and by extension visitor perception)
should be key components of any tourism marketing strategy.” Their
background in marketing is revealed here with an excellent review of literature
on the role of image in marketing strategy. This is followed by a section of
the chapter entitled Images of Latin America, in which they indicate that the
rest of chapter eight focuses on negative images of Latin America, because
these images “…. have the potential to exert an unduly powerful influence
on destination choice.” Chapter nine takes a similarly negative tack by
discussing the negative impacts of tourism in Latin America, and referring
the reader back to chapter two for a discussion of the positive (mainly
economic) impacts of tourism. Chapter ten discusses the Future of Tourism
in Latin America by citing several forecasts for tourism in general, and relating
the forecast factors taken from these other sources to how they might
apply to the tourism future of Latin America. The last half of the chapter is
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used to discuss projected changes in Latin American tourism which could
result from the global forces affecting tourism, as presented in McIntosh,
Goeldner, and Ritchie’s (1995) text, Tourism Principles, Practices, and
Philosophies, and referenced there to a 1991 tourism policy forum. The
last pages of this final chapter of the book would have had more impact
with a briefer discussion of this material.
The book is generally well written, with one exception being an
overuse of the term whilst, which some readers may find annoying. Also,
most of the authors’ conclusions are presented in summary sections at
the ends of the individual chapters. These conclusions may have had more
impact on the reader if they had been brought together in one section at the
end of the book. The authors’ claim on the back cover is accurate - saying
that this book meets the needs of students studying tourism and hospitality;
as well as of students in the geography of tourism, international business,
and Latin American studies. In addition, international tour operators looking
for a detailed reference on Latin American tourism, and Latin American
attractions in particular, will find this book useful.
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Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ...
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NORMAS EDITORIAIS
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Normas Editoriais
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NORMAS EDITORIAIS
A revista PerCurso: Sociedade, Natureza e Cultura, publicação oficial
do UNICURITIBA, de circulação nacional e internacional, com periodicidade anual,
destina-se à veiculação de artigos científicos e resenhas, frutos das atividades
de pesquisas, do diálogo interdisciplinar entre as Ciências Humanas.
Sua principal vocação é agregar valor científico ao debate que ocorre
nas diferentes áreas das Ciências Humanas trazendo a contribuição de trabalhos escritos em vários idiomas e vinculados a programas de graduação e
pós-graduação do Brasil e do exterior.
Visando à qualificação dos debates e tendo em vista o projeto de
inserção da Revista no sistema Qualis, da CAPES (órgão oficial do Ministério da Educação brasileiro), rege-se a publicação pelas normas editoriais
a seguir, para a elaboração, a apresentação e a análise de textos, propostas pela Editoria da Revista e aprovadas pela Comissão Editorial do
UNICURITIBA.
1 Só veicula artigos inéditos, os quais deverão contribuir para a
compreensão das diversas áreas das Ciências Humanas. Deverão ser enviados à Editoria da Revista, em meio eletrônico (arquivos para o seguinte
endereço: [email protected]), conforme datas a serem estipuladas
anualmente nas chamadas de artigos para a Revista.
2 Todos os artigos devem apresentar a seguinte estrutura:
a) como elementos pré-textuais – título (em fonte tamanho 14, em
negrito e centralizado, com versões em inglês e em algum outro
idioma de caráter internacional) seguido, à direita, da identificação
da autoria e das credenciais desta (nomes completos de autores e
co-autores, titulações, vínculos institucionais e atividades profissionais atuais), menção às subvenções recebidas, apoios e financiamentos, sumário (contendo os tópicos em que se divide o artigo,
logo abaixo do título e dos nomes dos articulistas), resumo e palavras-chave em língua vernácula, resumo e palavras-chave em inglês e resumo e palavras-chave em outra língua estrangeira;
b) como elementos textuais – introdução, desenvolvimento e conclusão;
c) como elementos pós-textuais – lista de referências (somente
as obras efetivamente citadas no texto deverão aparecer nas referências).
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Normas Editoriais
3 Os trabalhos para a seção “Artigos Científicos” deverão ter entre
10 e 25 páginas e ser digitados em Word 7.0 ou versão mais atualizada,
formato do papel A4, fonte arial tamanho 12 e com espacejamento 1,5 entre
as linhas, para o texto normal; para as citações diretas de mais de três
linhas, notas de rodapé, paginação e legendas de ilustrações e tabelas, o
tamanho da fonte passa a ser o 10, e o espacejamento, simples.
4 As páginas devem apresentar margem esquerda e superior de 3
cm, direita e inferior de 2 cm, e as citações diretas de mais de três linhas
devem ser destacadas em parágrafo próprio com recuo de 4 cm da margem
esquerda e sem aspas.
5 No texto, as citações devem ser indicadas pelo sistema de chamada autor-data (exemplo: WARAT, 1985, p. 30), o qual admite somente notas
de rodapé explicativas.
6 As referências bibliográficas devem vir em lista única ao final do
trabalho, ordenadas pelo sistema alfabético, digitadas em espaço simples,
separadas entre si por espaço 1,5.
7 As locuções em língua estrangeira e destaques deverão ser redigidos em itálico.
8 Todos os textos devem seguir as demais normas da Associação
Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) sobre citações e notas de rodapé,
referências em documentos e outras especificidades (ver, notadamente a NBR
14724, a NBR 10520 e a NBR 6023, todas de agosto de 2002).
9 Os artigos (de ambas as seções) deverão ter suas introduções
antecedidas por resumos em português e correspondentes em inglês
(abstract) e em mais um idioma de divulgação internacional que não o do
próprio texto (résumé, resumen, riassunto, resumo etc.) de até 10 linhas,
bem como de 3 a 6 palavras-chave também com as correspondentes em
inglês (keywords) e em mais um idioma de caráter internacional que não o
do próprio texto (mots clés, palabras clave, parole-chiave, palavras-chave
etc.), para fins de adequada indexação.
10 As colaborações para a seção “Resenha” deverão conter de 2 a
5 páginas, enquadrar-se na temática do número da Revista e versar sobre
obra clássica, ainda não publicada no Brasil ou muito recente, desde que
tenha impacto na temática da Revista, nada obstando que a obra reúna
mais de uma dessas características
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11 Artigos científicos e resenhas não poderão ser assinados por
meio de pseudônimos. A identificação da autoria das resenhas segue os
mesmos requisitos da dos artigos.
12 Tanto no caso de artigos quanto no de resenhas, os autores ou
co-autores deverão encaminhar seus trabalhos com ofício datado, contendo a declaração de ineditismo do texto, além dos seguintes dados: título do
trabalho, nomes completos, endereços completos (inclusive os eletrônicos)
e telefones. Deverão ainda veicular a autorização para a publicação e a
cedência formal dos direitos de publicação, pelo preenchimento e anexação da Ficha de Autorização de Publicação de Obra Intelectual, disponível
em www.unicuritiba.edu.br, link Núcleo de Pesquisa e Extensão Acadêmica
! Publicações ! Revista PerCurso: Curitiba em turismo.
13 A permissão para o uso de ilustrações, imagens, tabelas, etc.,
extraídas de outras publicações, bem como quaisquer outras licenças ou
aprovações perante entidades detentoras de direitos autorais, é de plena
responsabilidade dos autores dos artigos e das resenhas.
14 Os artigos ou resenhas internacionais redigidos em espanhol
deverão ser encaminhados e serão publicados em seu idioma original, caso
em que, além dos resúmenes e palabras clave traduzidos em inglês, poderão também ter esses correspondentes em língua portuguesa.
14.1 Artigos ou resenhas internacionais redigidos em outros idiomas, que não o espanhol, deverão ser encaminhados nos idiomas originais
e terão tradução para o vernáculo (publicação bilíngüe).
14.2 Artigos ou resenhas escritos por acadêmicos somente serão
recebidos para análise se apresentados em co-autoria com professores
orientadores de projetos de pesquisa, de extensão, de trabalhos de conclusão de cursos de graduação ou de pós-graduação (especialização, mestrado,
doutorado e pós-doutorado).
15 A publicação das colaborações recebidas estará condicionada à
avaliação do Conselho Científico da Revista e de eventuais avaliadores ad
hoc, que poderão aprová-las na íntegra, sugerir alterações ou recusá-las
definitivamente.
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Normas Editoriais
16 A Editoria da Revista enviará correspondência eletrônica confirmando o recebimento dos trabalhos, bem como a lista daqueles que forem
selecionados para a respectiva publicação.
17 A Editoria da Revista poderá executar, com ou sem recomendação do Conselho Científico e dos avaliadores ad hoc, pequenas alterações
de caráter meramente formal nos textos recebidos, de modo a adequá-los
aos padrões da ABNT, não sendo admitidas modificações de estrutura, conteúdo ou estilo, sem o prévio consentimento dos autores.
18 Os autores de artigos e resenhas aprovados para publicação
com sugestões de alterações (correções de linguagem, adequações à ABNT
etc.) por parte dos avaliadores ou da Editoria da Revista serão contatados
pela Instituição para realizá-las e, depois disso, emitir nova autorização de
publicação. A Editoria pode recusar a publicação dos artigos ou das resenhas em relação aos quais foram feitas ressalvas pelos avaliadores, caso
essas não tenham sido consideradas pelos respectivos autores.
19 O Conselho Editorial, integrado por membros dotados de maturidade científica e senioridade em pesquisa, representantes de mais de um
Estado da Federação brasileira e futuramente de alguns países, que auxilia
a Editoria na definição do projeto editorial (temática) de cada número da
Revista e na resolução de dúvidas a ele pertinentes.
20 O Conselho Científico, composto pelos professores do
UNICURITIBA e de alguns convidados externos, auxilia a Editoria da Revista
tanto na revisão dos artigos recebidos (Ficha de Avaliação de Artigos) quanto
na indicação de avaliadores ad hoc (internos ou externos à Instituição),
quando necessário, como na captação de artigos conforme as temáticas da
Revista. Na avaliação dos artigos serão mantidas em sigilo suas autorias.
21 A Revista adota uma política de combate à endogenia, seguindo
as diretrizes da CAPES, no sentido de que seja o menor possível o número
de artigos publicados de autoria de professores da própria Instituição.
22 A publicação não implica nenhuma espécie de remuneração, somente cabendo aos autores de artigos e resenhas o encaminhamento, gratuito, de 3 (três) exemplares do número da Revista em que tiver sido veiculada sua colaboração, havendo também o encaminhamento de 1 (um) exemplar para cada membro dos conselhos e aos revisores ad hoc.
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