Allan Scott Mills e Mauro José Ferreira Curry 1 PERCURSO: SOCIEDADE, NATUREZA E CULTURA ENTIDADE MANTENEDORA: ADMINISTRADORA EDUCACIONAL NOVO ATENEU ISSN 1678-569X Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura Curitiba a. 8 n. 9 2009 p. 1-274 Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 263-267, 2009. 2 EXPEDIENTE Publicação oficial do UNICURITIBA Endereço: Rua Chile, 1.678 – CEP 80220-181 – Curitiba, PR – Brasil Telefone: (41) 3213-8700 Site: www.unicuritiba.edu.br E-mail: [email protected] UNICURITIBA Reitor: Danilo Vianna Pró-Reitor Acadêmico: Alessandro Marco Rosini Pró-Reitor Administrativo: Renato Silva Comissão Editorial: Cristina Luiza C. Surek, Carlos Luiz Strapazzon, Marlus Vinicius Forigo, Gisela Maria Bester Benitez, Nilson Cesar Fraga, Olga Maria Coutinho Pépece, Benedito Costa Neto Filho. Revisão: Antonio Carlos Amaral Lincoln Diagramação: Tatiane Andrade Impressão: Administradora Educacional Novo Ateneu (AENA) Tiragem: 300 exemplares Data: 2009 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Biblioteca do UNICURITIBA Percurso: sociedade, natureza e cultura / UNICURITIBA – Centro Universitário Curitiba. – A. 1, n.1, (2002). – Curitiba: UNICURITIBA, 2002 - . 24 cm Semestral. A partir do n. 7 de 2008, houve alteração do título do periódico. ISSN 1678-569X. 1. Turismo – Periódicos. I. UNICURITIBA CDD (21.ed.) – 338.4791 3 CONSELHO EDITORIAL INTERNACIONAL Alicia B. Ledesma de Winger Universidad Nacional de Rosário – Rosário – Argentina Allan Scoth Mills Virgínia Commonwealth University – VCU Richmond –Virgínia – EUA Cristina Maria de Jesus Barroco Instituto Politécnico de Viseu – ESTV – Viseu – Portugal Eduardo A. Chaves Universidad Autónoma de Entre Rios – Paraná – Argentina Eduardo Salinas Chaves Universidad de La Habana – Habana – Cuba Emilce Cammarata Universidad Nacional de Misiones – Posadas – Argentina Hugo I. Romero Universidad de Chile – Santiago – Chile Noemi Wallingre Universidad Nacional de Quilmes – Buenos Aires – Argentina Saul Contreras Palmas Universidad de Santiago do Chile – Santiago – Chile Xosé Santos Solla Universidad de Santiago de Compostela – Santiago – Espanha CONSELHO EDITORIAL NACIONAL Adnilson de Almeida Silva – SEE – RO Anderson Pereira Portuguez – UES – ES Antonio Carlos Castrogiovanni – UFRGS/PUCRS – RS Antônio Carlos Vitte – UNICAMP – SP 4 Antônio Castelnou – UFPR – PR Celso Rogério Klammer – UP – PR Cicilian Luiza Lowen Sahr – UEPG – PR Claudete de Castro Silva Vitte – UNICAMP – SP Djanires Lageano de Jesus – UEMS – MS Elza Yasuko Passini – UEM – PR Erivan Cassiano Karvat – UTP – PR Francisco de Assis Mendonça – UFPR – PR Giovanni de Farias Seabra – UFPB – PB Hélio Silveira - UEM – PR Janaina Zito Losada – UFU – MG Jean Carlos Rodrigues – UFT – TO João Pedro Pezzato – UNESP – SP Júlio Cesar Suzuki – USP – SP Lucia Izabel Czerwonka Sermann – UP – PR Lucileyde Feitosa Sousa – UNIRON – RO Luiz Gonzaga Godoi Trigo – USP – SP Luzia Neide M. T. Coriolano – UEC – CE Marcos Aurélio T. da Silveira – UFPR – PR Maria Cleide Baldo – UTFPR – PR Maria da Salete Sachweh – FAMEPLAN – SC Maria Elisa Zanella – UFC – CE Mariane Alves Dal Santo – UDESC – SC Marcelo Rodrigues Mendonça – UFG – GO Marilia Gomes dos Reis Ansarah – EAESP – SP Mary Sandra Guerra Ashton – FEEVALE – RS Mauro José Ferreira Cury – UNIOESTE – PR Mauricio Aurélio dos Santos – UDESC – SC Miguel Bahl – UFPR – PR Milton Mariani – UFMS – MS Ricardo José Batista Nogueira – UFAM – AM Rogério Haesbaert – UFF – RJ Rosane Beyer – FAP – PR Rosselvelt José Santos – UFU – MG Saint-Clair Cordeiro da Trindade Júnior – UFPA – PA Wendel Henrique – UFBA – BA EDITOR E COORDENADOR EDITORIAL Prof. Dr. Nilson Cesar Fraga 5 APRESENTAÇÃO A Revista PerCurso vem caracterizada por um conteúdo multidisciplinar, atendendo às especificidades de sua área com conteúdos muito ricos e diversos. Traz nesta edição os seguintes trabalhos científicos: La valorización del espacio-lugar en el acontecer turístico: perspectivas teóricas – desafíos y controversias para su desarrollo, de Emilce Beatriz Cammarata; A questão socioambiental dos faxinais paranaenses: caminhos para se pensar numa pedagogia holística e integrativa, de Cicilian Luiza Löwen Sahr; O ambiental e o humano na construção da realidade: exemplo do aquecimento global, de Alex Sandro da Silva; O papel do poder público na territorialização do Turismo em Angra dos Reis-RJ, de Marcos Paulo Ferreira de Góis; Proposta metodológica para avaliação do risco de contaminação de águas superficiais e subsuperficiais por agroquímicos em bacias hidrográficas: estudo de caso do Ribeirão Lajeado-PR, de Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo; Territorialidade e o turismo dos parques nacionais: Iguaçu (Brasil e Argentina) e Great Smoky Mountains (EUA), de Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills; O imperativo ético de Hans Jonas como base para a responsabilidade social empresarial, de Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli; Incorporación de un espacio natural municipal al uso turístico sustentable y a la educación ambiental – Paraná - Entre Ríos (Argentina), de Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves; Territórios simbólicos: uma abordagem da geografia cultural, da religião e do turismo. estudo da festa de São João em Corumbá-MS, de Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e Debora Gonçalves Fittipaldi; Tempo e espaço na modernidade: algumas reflexões, de Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene Feitosa Sousa, Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa; Valoración de los habitantes sobre la gestión ambiental comunitaria en el barrio Jesús María en la Habana vieja, Cuba, de Vivian Oviedo Álvarez. A diversidade dos temas apresentados neste volume demonstra que a Revista PerCurso vem promovendo ampliação da linha multidisciplinar e publicando artigos de diversas áreas do conhecimento, sobretudo nas ciências humanas, com trabalhos vindos da Argentina (Missiones e Entre Ríos), Cuba (Havana) e do Brasil (Paraná, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Rondônia), além de um trabalho em conjunto entre brasileiro e estadunidense. 6 Dessa forma, a edição número 9 da Revista PerCurso é entregue à comunidade científica. Nilson Cesar Fraga EDITOR 7 SUMÁRIO LA VALORIZACIÓN DEL ESPACIO-LUGAR EN EL ACONTECER TURÍSTICO: PERSPECTIVAS TEÓRICAS – DESAFÍOS Y CONTROVERSIAS PARA SU DESARROLLO Dra. Emilce Beatriz Cammarata .............................................................. 9 A QUESTÃO SOCIOAMBIENTAL DOS FAXINAIS PARANAENSES: CAMINHOS PARA SE PENSAR NUMA PEDAGOGIA HOLÍSTICA E INTEGRATIVA Cicilian Luiza Löwen Sahr ...................................................................... 35 O AMBIENTAL E O HUMANO NA CONSTRUÇÃO DA REALIDADE: EXEMPLO DO AQUECIMENTO GLOBAL Alex Sandro da Silva .............................................................................. 55 O PAPEL DO PODER PÚBLICO NA TERRITORIALIZAÇÃO DO TURISMO EM ANGRA DOS REIS Marcos Paulo Ferreira de Góis .............................................................. 79 PROPOSTA METODOLÓGICA PARA AVALIAÇÃO DO RISCO DE CONTAMINAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS E SUBSUPERFICIAIS POR AGROQUÍMICOS EM BACIAS HIDROGRÁFICAS: ESTUDO DE CASO DO RIBEIRÃO LAJEADO – PR Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo ................ 97 TERRITORIALIDADE E TURISMO DOS PARQUES NACIONAIS: IGUAÇU (BRASIL E ARGENTINA) E GREAT SMOKY MOUNTAINS (EUA) Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills .......................................... 113 8 O IMPERATIVO ÉTICO DE HANS JONAS COMO BASE PARA A RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli ........................... 135 INCORPORACIÓN DE UN ESPACIO NATURAL MUNICIPAL AL USO TURÍSTICO SUSTENTABLE Y A LA EDUCACIÓN AMBIENTAL: PARANÁ, ENTRE RÍOS, ARGENTINA Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves .............................................. 161 TERRITÓRIOS SIMBÓLICOS: UMA ABORDAGEM DA GEOGRAFIA CULTURAL, DA RELIGIÃO E DO TURISMO – ESTUDO DA FESTA DE SÃO JOÃO, EM CORUMBÁ Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e Debora Gonçalves Fittipaldi ................................................................. 201 TEMPO E ESPAÇO NA MODERNIDADE: ALGUMAS REFLEXÕES Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene Feitosa Sousa, Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa ................................ 223 VALORACIÓN DE LOS HABITANTES SOBRE LA GESTIÓN AMBIENTAL COMUNITARIA EN EL BARRIO JESÚS MARÍA EN LA HABANA VIEJA, CUBA Vivian Oviedo Álvarez ........................................................................... 241 BOOK REVIEW: TOURISM IN LATIN AMERICA Allan Scott Mills e Mauro Jose Ferreira Cury ......................................... 261 NORMAS EDITORIAIS .......................................................................... 269 Dra. Emilce Beatriz Cammarata 9 LA VALORIZACIÓN DEL ESPACIO-LUGAR EN EL ACONTECER TURÍSTICO: PERSPECTIVAS TEÓRICAS – DESAFÍOS Y CONTROVERSIAS PARA SU DESARROLLO VALORIZAÇÃO DO ESPAÇO-LUGAR NO ACONTECER TURÍSTICO: PERSPECTIVAS TEÓRICAS – DESAFIOS E CONTROVÉRSIAS PARA SEU DESENVOLVIMENTO VALUATION OF SPACE-PLACE IN THE HAPPEN TOURIST: THEORETICAL PERSPECTIVES - CHALLENGES AND CONTROVERSY FOR ITS DEVELOPMENT DRA. EMILCE BEATRIZ CAMMARATA ___________________________________________________________ Facultad de Humanidades y Ciencias Sociales – Universidad Nacional de Misiones E-mail: [email protected] Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. 10 Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. Dra. Emilce Beatriz Cammarata 11 Si el turismo está en el territorio, forma parte de la geografía en movimiento y del espacio de comando, del uso competitivo de los lugares, de la revalorización de los lugares, de la racionalidad de los espacios, entonces, pertenece a la geografía. (MILTON SANTOS, 1986) RESUMO As reflexões sobre o texto se organizaram/organizarão em quatro partes: a primeira explica o contexto, no qual tem parte a valorização do espaçolugar; a segunda aborda a perspectiva teórica do espaço-território geográfico; a terceira apresenta algumas das controvérsias na planificação do espaço-lugar e as instâncias metodológicas no tratamento da evidência empírica; a quarta parte remete aos estudos e trabalhos de investigação em Turismo como produção científica de características desiguais e a necessidade de explicar desde quais lugares se explicam os marcos de interpretação. Palavras-chave: espaço-lugar, Turismo, teoria, desenvolvimento. ABSTRACT Reflections on the text is arranged/organize in four parts: the first explains the context in which, has part the VALUATION of space-place, the second deals with the theoretical perspective of geographic space-territory; the third presents some of the controversies in the planning of space-place and methodological instances to treat the empirical evidence, the fourth part refers to studies and research in tourism like scientific production of dissimilar characteristics and the need to explain from places wich are explained the marks of interpretation. Keywords: space-place, Tourism, theory, development. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. 12 Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ... RESUMO Las reflexiones sobre el texto se organizaron en cuatro partes: la primera explica el contexto en el que tiene parte la valorización del espacio-lugar; la segunda aborda la perspectiva teórica del espacio-territorio geográfico; la tercera puntea algunas de las controversias en la planificación del espaciolugar y las instancias metodológicas en el tratamiento de la evidencia empírica; la cuarta remite a los estudios y trabajos de investigación en Turismo como producción científica de disímiles características y la necesidad de explicar desde qué lugares se explican los marcos de interpretación. Palabras claves: Valorización, Espacio-Lugar, Acontecer Turístico, Perspectivas Teóricas, Desarrollo. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. Dra. Emilce Beatriz Cammarata 13 1 EL CONTEXTO La reflexión y caracterización del territorio amerita analizar el contexto en el que se llevan a cabo la docencia y las investigaciones, sus objetos de estudio, sus problemáticas y sus centros de interés. Conviene hacer una breve reseña sobre la situación de este fenómeno de globalización-mundialización para poder entender la dificultad que nos transfiere a propósito de la investigación del Turismo, del cuidado en la formación de grado y postgrado en las universidades públicas de nuestro país. Partimos de un contradicción o dilema “que el Turismo tiene un efecto multiplicador y trae desarrollo a un lugar”. Al respecto, parecen vigentes muchas de las recomendaciones realizadas hace más de dos décadas en el sentido de analizar con cuidado situaciones específicas en que la actividad turística se lleva a cabo para ver sus verdaderos alcances. Que es necesario realizar estudios concretos que sustenten las prácticas y las decisiones desde la lógica de la ciencia pero como dijo Bachelard, respecto al tema controvertido de la ciencia y la investigación, “[…] no hay más ciencia que la de lo oculto.” Parece oportuna la afirmación para explorar los fundamentos científicos y reconocer la importancia de los enfoques pluridisciplinares y metodologías que faciliten el descubrimiento al interrogar y examinar con miradas críticas, y al mismo tiempo plantear la cuestión ética científica. El fenómeno contemporáneo denominado globalizaciónmundialización viene alterando profundamente las estructuras productivas, las relaciones técnicas y sociales de producción y los patrones organizacionales y locacionales. Los aumentos de la productividad y el crecimiento, cuando ocurren, están más relacionados que nunca con el progreso tecnológico. El establecimiento de nuevas plantas productivas o de nuevos métodos de producción agrícola puede generar una mayor productividad y eficiencia, pero frecuentemente a expensas del empleo. Milton Santos lo describe como el período técnico-científico informacional: su proceso es resultado y condicionante de los acelerados y radicales cambios tecnológicos determinados por al competición capitalista sobre la tecnología de la información. Se trata de “un cambio en las relaciones de poder en la creación de las cadenas de valor basadas, en las nuevas formas de cooperación y competición” , y en la destrucción de las autonomías monetarias nacionales. Cambian las “relaciones de los Estados nacionales entre el Estado y las empresas privadas” en procesos simultáneos de homogenización y diferenciación. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. 14 Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ... Las configuraciones del territorio muchas veces son productos de la institucionalización del Estado, instrumento del poder político. Entonces es muy importante analizar el papel del Estado en las circunstancias actuales de mundialización-globalización. Responder a la cuestión en la que el Estado-nación se presenta como mediaciones necesarias en los contextos actuales. La problemática espacial en todas las escalas geográficas desde lo cotidiano del trabajo hasta la estructura más distante de la división internacional del trabajo en el sistema capitalista mundial, se confronta con el desarrollo desigual de las regiones socioeconómicas. Desde el punto de vista territorial sólo un limitado número de espacios parece estar sacando provecho de las nuevas oportunidades que brinda el proceso de mundialización-globalización. En general, las regiones más prósperas tienden a ser aquellas que tienen algo que ofrecer a mercados que se expanden más allá del tradicional ámbito local y regional. El papel del Estado y su articulación con esta problemática es crucial ya que a) inhibe el proceso de articulación (proteccionismo) y/o, b) interviene para controlar las consecuencias sociales (brindando subsidios en actividades que están des (localizadas) en forma permanente. El Estado controla e incentiva la nueva configuración interregional del trabajo, de modo que el “espacio proyectado” entra en conflicto más o menos violento con el “espacio heredado” (LIPIETZ, 1982). Las relaciones espacio-mundo universalizan los procesos y al mismo tiempo fragmenta y quiebra dichos espacios en una relación dialéctica en la cual se aumentan las desigualdades. Aparecen espacios diferenciados y fragmentados, aspecto que también se reproduce en el Turismo, dado que en la actualidad es la tercera actividad movilizadora de capitales, por tanto foco de atención de los centros de decisión económica y política del mundo globalizado, atención que se manifiesta en la búsqueda de oportunidades de inversión, de nichos de mercado, de singularidades socioculturales y/o paisajísticas en las que puedan basarse el diseño de nuevos productos turísticos, de espacios territoriales en los que haya zonas francas libres de impuestos, mayor flexibilidad laboral, promoción de políticas de privatización de los servicios de infraestructura, etc. La mundialización genera un desarrollo desigual que se arraiga en instituciones y condiciones históricas y culturales geográficamente determinadas. Mundialización y regionalización son dos caras de la misma moneda: se refuerzan las funciones del Estado (dimensión política) al fortalecer la masa de funcionarios especializados, cuando no son ministros actúan como directivos de las corporaciones. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. Dra. Emilce Beatriz Cammarata 15 La regionalización apunta a la complementariedad y coexistencia; el Mercosur como proyecto de megarregión (en la periferia) y aparente necesidad de la globalización. Su evolución ha estado marcada por el desarrollo de la crisis internacional y crisis nacionales de la región; en este nivel el ciclo económico brasileño ha sido determinante. 2 LA CONSTITUCIÓN DE LA ENTIDAD SUPRANACIONAL DEBE AÚN DEMOSTRARSE En síntesis, no se puede analizar a América Latina y Argentina al margen del sistema económico-político mundial y es esta integración sistémica y capitalista en su fase actual el punto de arranque para la comprensión de distintas problemáticas y de sus manifiestos aspectos de insustentabilidad. En estas condiciones hablar de crecimiento sostenido, de desarrollo sustentable y de algunas otras futilidades sólo indica desconocimiento cuando no encubrimiento. 2.1 LA DIMENSIÓN EPISTEMOLÓGICA DEL ESPACIO: LUGAR GEOGRÁFICO EN EL CONOCIMIENTO Y VALORIZACIÓN DEL ACONTECER TURÍSTICO El territorio tiene un continente y un contenido: la sociedad y su ambiente, cuyas relaciones mediadas por el trabajo conforman escenarios de articulaciones porque cada proceso adopta una espacialidad particular. Al mismo tiempo forma parte de la dinámica actual de la mundialización del capital que crea territorialidad como una forma de responder a las crisis de acumulación global que integran al mercado, al Estado y a la sociedad civil. El trastorno producido en las formas y diferenciaciones territoriales ha llevado a los geógrafos como a los estudiosos de otras ciencias sociales a redefinir componentes en el análisis del espacio, produciendo o revalorizando conceptos de “lugar” o “no lugar”, realzando la dimensión global de los procesos económicos y políticos, cuyas consecuencias espaciales lo llevan a considerar el espacio cibernético a raíz de las innovaciones tecnológicas más recientes. Al considerar al Turismo como una práctica social – cuyas experiencias son el resultado de construcciones históricas concretas en respuestas a situaciones socioeconómicas y culturales –, interesa bucear en las ciencias sociales, sobretodo en ciertos estudios realizados a través de miradas críticas. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. 16 Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ... La estructura del espacio geográfico resulta de la división territorial del trabajo como proceso por el cual se distribuyen los recursos naturales y artificiales mediante las acciones de tres órdenes: lo técnico1 y jurídico como fuerzas de la transformación y cambio; lo simbólico como el recurso del pasado tiene la fuerza de la afectividad en los modelos de significación y representación. Desde el interior, la naturaleza del espacio territorial implica identificar las nociones fundadoras de esa realidad visible que se registra en la realidad relacional. Técnica, tiempo e intencionalidad se materializan en los objetos y en las acciones conformando las relaciones entre naturalezaambiente y sociedad, a su vez, mediatizadas por el trabajo (técnica), fuente de valor, desde la praxis del materialismo histórico. De modo que el tipo de relaciones varía con la técnica, el tiempo (presente en cada momento histórico) y la intencionalidad como valor que caracteriza al espacio geográfico y turístico en permanente proceso de transformación. En el espacio, se observa una forma-contenido que permite descifrar la relación dialéctica del proceso de valorización – la apropiación de los recursos del espacio, la construcción de formas de organización socio espacial y la conservación o modificación de esos constructos que representan la creación de valor. Al identificar las relaciones o prácticas que se ejercen, se infiere la estructura espacial, las formas y funciones de la configuración territorial en las etapas de ocupación, uso y valorización de los recursos naturales, relictos o formas del pasado que coexisten junto a las nuevas formas de uso y técnica actuales. Desde esta perspectiva, el conjunto de medios instrumentales y sociales con los cuales el hombre realiza su vida, produce y al mismo tiempo crea espacio, lo transforma al cambiar la función de los viejos objetos. Por esta razón el recurso y o atractivo turístico es de carácter histórico y sociocultural. Las funciones son las tareas o actividades que se realizan y se reconocen a través de las formas espaciales. Ambas nociones se refieren a la disposición de los fenómenos que cambian y se alteran a lo largo del tiempo; en cada momento cambia el valor de la totalidad de los objetos 1 Técnicas: lo que construye y realiza el hombre e interviene en el funcionamiento del espacio. Normativas: aspectos jurídicos y legislativos, leyes que intervienen en la apropiación, uso y conservación de los recursos turísticos. Simbólicas: constituidas por las representaciones y percepciones, elementos intangibles del paisaje que constituyen la imagen que los hombres se forman del mismo. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. Dra. Emilce Beatriz Cammarata 17 (cantidad, calidad y funcionalidad): cambian los procesos, las funciones de las cosas, su valor específico. Pensar y asociar el desarrollo turístico con la noción de lugar-local, es contemplar la micro escala – no importa su dimensión – como instancia que se abre a la realidad. Implica analizar y evaluar el espacio turístico como parte del sector socioproductivo actual y potencial, dado que valoriza ciertos bienes del patrimonio ambiental natural y cultural que constituyen los atractivos y productos turísticos en diversos lugares del territorio. Los procesos de orden económico, institucional y cultural que inciden sobre un espacio dado constituyen niveles de decisión (intenciones) que tornan funcionales a las áreas correspondientes, con distintas formas o patrones en la disposición y ordenamiento de los objetos. El orden local se reterritorializa porque reúne en una misma lógica interna todos sus elementos: hombres, empresas, instituciones, formas sociales, jurídicas y formas geográficas. Paralelamente, la categoría territorio en perspectiva histórica tiende a ser menos nacional y simultáneamente más mundial por la selectividad espacial y socioeconómica de la apropiación social del espacio. El lugar en general y el turístico en especial es de carácter abierto y la intencionalidad varía de modo de producir o reproducir distintos sentidos sobre el mismo lugar, sea porque se vinculan a procesos más amplios del sistema capitalista y o entre el conjunto de actores involucrados en este sector; de aquí los cambios y o permanencias del uso territorial, que devienen de lo “estatal” a lo “transnacional”. Las relaciones del Estado con el territorio y la globalización han llevado a una interdependencia debido a las nuevas condiciones que en cierto modo exige el sistema capitalista, a partir de la revolución técnico-científica que muestra su debilitación al punto de vivir en tiempos de grandes redefiniciones. La Geografía estudia la dimensión territorial del Turismo, entendiendo territorio como espacio de relaciones y de poder (categoría geopolítica producido por las acciones políticas y socioeconómicas que remiten a las relaciones de poder como locus de conflicto que necesita de control social. Es el ámbito de control, de dominio, de apropiación (HAESBAERT, 2004). Importa considerar que los inversores transnacionales se motorizan por preferencias en torno a la política y a la diplomacia y no solo por las fuerzas del mercado. La metáfora del retorno al territorio (SANTOS, M. et al, 1994, p. 15) se fundamenta en la necesidad de darle sentido a la existencia individual y colectiva o entenderla como pérdida y riesgo de alienación en el futuro. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. 18 Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ... Los hombres viven al mismo tiempo el proceso y el producto territorial mediante un sistema de relaciones existenciales y/o productivas. De una u otra forma todas son relaciones de poder por las formas de relacionarse, de interacción entre los actores: relaciones con el territorio y con los hombres entre sí. No obstante, el retorno al territorio como espacio construido que carece de fronteras definidas hoy, a priori, adquiere un fuerte significado, al remarcar el papel de los recursos intangibles, la apertura del espacio dialógico en la proximidad, el capital de relaciones en especial, del saber-hacer y las diversas formas de cooperación y aprendizaje en las que las regiones y localidades encontrarían la capacidad para diseñar su propio desarrollo ante demandas sociales y o productivas. Al considerar la matriz de la globalización y modernización económicas y los nuevos determinismos del capitalismo internacional en la difusión de procesos altamente selectivos y asimétricos, se visualiza en el espacio territorial por una parte, la segmentación de un grupo de territorios privilegiados e hiperactivos y, por la otra, una mayoría en situación precaria y/o excluida. Los estados nacionales modifican el concepto de ley territorial y se observan en la creciente manipulación de los límites del territorio sobre la jurisdicción prescripta. Se crean territorialidades específicas con normas flexibles que modifican las regulaciones internas de cada país: zonas francas, especializadas en importación-exportación de mercaderías sin pago de derechos aduaneros, zonas de libre comercio y aeropuertos internacionales. Es en este sentido que la fragilidad de las relaciones y la pérdida del valor del espacio contribuyen con más fuerza a identificar nuevas formas de territorialización. El territorio exige definir las escalas de análisis e intervención, ya que su delimitación no puede realizarse solo por la dimensión física o política, sino que deben incorporarse las múltiples articulaciones en las que participa. También, interesa conocer el contexto histórico de las representaciones culturales, políticas e ideológicas en el caso de que existan aportes y propuestas de nuevas alternativas, a la par de hallar formas de pensar el lugar con una mayor articulación entre conocimiento y sociedad a partir de las necesidades del medio. 2.2 LA DIFERENCIA ENTRE PAISAJE Y ESPACIO GEOGRÁFICO La palabra paisaje se utiliza con frecuencia como expresión de la configuración territorial o conjunto de elementos naturales y artificiales que caracterizan físicamente a un área. Por una parte, la lectura del paisaje en Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. Dra. Emilce Beatriz Cammarata 19 el estudio del Turismo se focaliza en el sujeto, perspectiva clásica que se utiliza para observar la expresión fisionómica y estética del paisaje. Desde el observador-sujeto, el concepto se impregna de connotaciones culturales e ideológicas, con visión selectiva que refleja la experiencia; se lo explica desde lo perceptual, dado que cada sentido se especializa en captar una parte de la realidad. En la dinámica de relación espacial se distinguen los componentes momentáneos y los procesos. Esta perspectiva de análisis permite reconocer en la estructura espacial las relaciones de la sociedad con los objetos naturales y construidos en las etapas de cambio significativas. En este sentido, paisaje y espacio no son sinónimos, sí una pareja dialéctica, dado que se complementan y se oponen mutuamente. Para Milton Santos (1996, p. 83), el paisaje es la materia prima de los recursos turístico-recreativos, constituye el […] conjunto de formas que en un momento dado, denota las herencias que representan las sucesivas relaciones localizadas entre el hombre y la naturaleza. El espacio incluye esas formas y la vida que las anima. Es siempre un presente relativo, una construcción horizontal. Permite captar la dinámica del espacio turístico al analizar los procesos sociales que lo generan. También las categorías de análisis de forma, función, estructura y proceso constituyen estadios del método de interpretación del espacio geográfico que deviene en espacio turístico. El enfoque espacial del territorio constituye un marco de análisis de relación sincrónica y diacrónica. La visión diacrónica general (espacio geográfico) brinda la noción de movimiento histórico al interpretar las relaciones dialécticas en el proceso de valorización: apropiación de los recursos, organización, producción, conservación, con énfasis en los principales cambios y transformaciones. La visión sincrónica singular (paisaje) capta determinados aspectos de la realidad objetiva y perceptual para identificar las diferenciaciones y singularidades de los lugares geográficos, el valor simbólico del sitio y la refuncionalización de los nuevos objetos o recursos que puedan constituir la materia prima del Turismo y la recreación; ambas premisas constituyen un instrumento analítico y conceptual (SANTOS, 1996). ¿De qué manera las políticas del lugar facilitan el reconocer las identidades de los lugares? ¿Cuáles son los espacios de identidad? Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. 20 Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ... La palabra “espacio” integra tres términos – espacio, localización, lugar –, léxico que los geógrafos utilizan frecuentemente además de usarse en el lenguaje común por lo que lleva a cierta confusión. Espacio es un concepto más bien abstracto en su significado al compararse con el tercer término “lugar” que pareciera delimitarse a partir de una localización de sentido, es decir que tiene significados con la carga de ciertos valores. La localización se transforma en lugar, una vez que se reconoce un cierto contenido de información; a veces el contenido es un hecho físico, en otros casos la información contiene las prácticas del mundo empíricamente percibido como foco de vinculación emocional y fuente de identidad. Pero al mismo tiempo se conjugan otras prácticas sociales y económicas externas a esa porción acotada de la superficie terrestre, las de relaciones y acciones del sistema mundo. Es en este contexto complejo del lugar donde se descubren los atributos específicos que se pueden resignificar en atractivos turísticos. Las actividades del ocio y el Turismo se desarrollan en los lugares con atributos de base natural y/o cultural, componentes denominados recursos al realizar el inventario, instrumento operativo para transformar y desarrollar el lugar. La calificación “recurso”, palabra de origen latino, significa “recurrir”, o sea, se asocia al valor del uso y de cambio en el sistema de acciones (sociedad-grupos) e interacción con los objetos que se descubren, transforman, revalorizan, o refuncionalizan acorde a las necesidades cambiantes en el proceso socioeconómico del territorio. Por eso los recursos pertenecen a una categoría histórica cuyos cambios se suceden al interior del movimiento de la totalidad social; ya sea por el volumen de la demanda y materia prima de la actividad turística, sea por las necesidades propias en el lugar o creadas y activadas a partir de objetos nuevos, denominados atractivos. Importa destacar que el lugar tiene cierta identidad particular, no obstante, lo que le otorga mayor sentido es la dinámica del espacio relacional porque hoy el lugar tiene un número de mediaciones infinitas dado que los lugares son de todos, son lugares de conveniencia, de un aumento exponencial del intercambio, de cambios que repiten formas y contenidos. El lugar existe a partir de los “cortocircuitos” que están integrados a la experiencia horizontal de los encuentros y pujas en la espacialidad que se transforma en base a las condiciones materiales en la que surgió; también en la trayectoria vertical-temporal de la vida y las relaciones político-económicas al recibir determinantes externos que se combinan con las narrativas locales. El lugar tiene una conexión dialéctica Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. Dra. Emilce Beatriz Cammarata 21 que es necesaria considerar, porque en la contemporaneidad se pierden las funciones que se presuponía existían como identidades y valores compartidos, dado que la identidad se modifica en relación con el otro. Importa destacar que son los objetos los que cambian ante las nuevas determinaciones, intenciones y acciones, transformando algunas áreas y relegando otras, por ejemplo los cambios que suceden ante los procesos de patrimonialización del país, sean naturales y o culturales; instancias que se traslapan con los vectores de verticalidades – imposición de regulaciones externas – y horizontalidades – asociación y complementariedad de lo cotidiano – que preexisten en el lugar, locus devenido en el sistema de unidades territoriales (áreas, lugares, municipios, etc.). Problematizar el espacio geográfico implica, en primer lugar, considerar los contenidos simbólicos y materiales que definen a las prácticas sociales cotidianas, los lugares de participación, de movilización, espacios de la administración política pública y privada. En segundo lugar, analizar cómo se originan las desigualdades a partir de la articulación de diversas funciones y dimensiones del espacio social, a distintas escalas espaciales de relación. Al considerar estas cuestiones se deduce que la región y los lugares acumulan estructuras espaciales sujetas al movimiento de la historia y de las relaciones del hombre con su territorio. En síntesis, los lugares como destinos turístico-recreativos expresan el modo de existir de los objetos-recursos pero representan el significado de múltiples acciones y decisiones que generalmente se producen desde afuera en estos tiempos. Aparece como una instancia de factores hegemónicos en la realidad y se les da representación científica, dado que los determinantes políticos, económicos, sectoriales, culturales se hegemonizan en ciertos momentos históricos y las escalas de mediación varían. ¿Cómo se vincula la valorización del lugar como producción y consumo? ¿Qué se mercantiliza? David Harvey (1998, p. 200-207; en Osorio García, M., 2003) explica aspectos fundamentales del modo de producción capitalista, tal como la necesidad de tener un ritmo constante de crecimiento para acumular capital, no obstante, para que ese crecimiento acontezca, depende de la explotación de la fuerza de trabajo, así como el necesario dinamismo empresarial en los niveles tecnológicos y organizativos. De modo que para producir la reactivación se requiere: Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. 22 Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ... a) la devaluación de la mercancía, capacidad productiva del dinero; b) el control macroeconómico a través de la institucionalización de algún sistema de regulación (normas, leyes, etc.); c) la absorción de la hiperacumulación a través de un desplazamiento temporal y espacial. Este modelo teórico confirma la aceleración de la rotación comercial de los servicios de alojamiento ocurrido en Quintana Roo, México. Indagación que explica el mercado turístico internacional en relación con las inversiones realizadas a partir de las políticas federales de inversión, el financiamiento público de infraestructura, los servicios, el crédito inmobiliario otorgado. A la vez las fuentes de empleos se tercerizaron y al producirse gran migración ante este proceso de acumulación, se creó un mercado de mano de obra que permitió reducir los salarios paulatinamente elevando los niveles de plusvalía y obteniendo altos montos de capital dinero y una determinada rotación del capital. Situación que refleja el valor de cambio en el Turismo como aspecto importante sobre el desarrollo local del Turismo desde el enfoque crítico. De esta manera el valor de uso corresponde al valor del espacio geográfico, dados los atributos de su ambiente, las cualidades que marcan las formas que adquiere el proceso de valorización del mismo. En la concepción de la Geografía crítica el espacio es fruto de relaciones socioeconómicas y sociopolíticas que se articulan y producen el territorio. Milton Santos (1999) señala la existencia de una guerra económica entre los lugares que configura locus de resistencia, facilitado por diferentes capacidades, oportunidades y posibilidades, y no solo por la inserción de capital sino por los cambios que se producen en los grupos y sociedad del capitalismo industrial y financiero que dirige esta guerra de lugares, en términos fiscales en los planos global y local. Es la dinámica externa la que fuerza dialécticamente un mayor dinamismo interno en la perspectiva territorial: lo global crea lo regional y local como fragmentos de la globalización. Remy Knafou (1995) expresa que el territorio se turistifica cuando es meta objetivo o blanco de la interferencia de políticas públicas y privadas: invención, subversión y conquista modifican el valor de uso y de cambio. Esto abona ideas sobre la cuestión que el Turismo y los objetos que se seleccionan y valorizan se realizan con miradas desde el afuera, dado que se redefine en relación a las formas de comercializarlo para determinados segmentos de diferenciación de los bienes y servicios a ofrecer. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. Dra. Emilce Beatriz Cammarata 23 ¿Qué consume el Turismo en el lugar? • • • Propiedad, inmuebles según el valor de mercado. Inclusión de atributos del lugar como bienes y servicios comercializables en el mercado turístico. La política turística será la encargada de organizar los lugares para la producción y consumo (ejemplo: de las áreas protegidas y las contradicciones entre la preservación y la lógica económica – varios ejemplos a nivel país y latinoamericano). Estas dimensiones destacan que en una sociedad capitalista, el mecanismo más importante para el control hegemónico de ideas es la mercantilización, proceso por el cual los lugares, los productos, las personas, ideas e imágenes se interpretarán en primer lugar ya que los bienes de consumo se conforman con las directivas del mercado. [HEBDIGE, Dick. Subculture: the meaning of style, demonstrates how consumption of status-rich commodities reflects a desire to be affiliated with particular subcultures. 1979] ¿Es posible recuperar la escala local en el contexto global2? Actualmente la política turística nacional se lleva a cabo en dos vertientes, una relacionada con el desarrollo empresarial y la otra, hacia los esfuerzos de desarrollo local (¿es sinónimo de municipal?)3, a través de los cuales se intenta afanosamente dar un carácter más humano a los esfuerzos neoliberales de crecimiento que después de más de 20 años de aplicación, aún no muestran sus bondades a la gran mayoría de la población nacional. El desarrollo local y Turismo se ubica en la dialéctica mundial-global/local como un escenario nuevo, dinámico y con distintos grados de complejidad. Entre los aportes y visiones críticas, diversos au- 2 3 Los parágrafos que siguen refieren a cuestiones tratadas por dos investigadores de la Universidad Autónoma del Estado de México (Lilia Zizumbo y Neptalí Monterroso), reflexiones coincidentes respecto a la gestión pública en nuestro país. En general en los municipios se destacan formas tradicionales de gestión que devienen de la concepción taylorista burocrática de la administración pública como el clientelismo, el populismo y también el centralismo y la concepción jerárquica del Estado piramidal. Muchas veces la descentralización del Estado ha puesto a disposición de la organización local de los partidos una mayor cantidad de recursos que se han utilizado para favorecer su posición como elemento central de la política local-municipal. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. 24 Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ... tores plantean cierta controversia en los rasgos del recorte territorial de lo local y su desarrollo. El desarrollo local se ha venido abriendo campo en tres vertientes: a) la concepción metodológica de trabajo que impulsan las ONG; se origina en la comunidad y busca enfrentar retos planteados por la marginación y la pobreza de crecientes sectores de la población; b) toma en cuenta la transformación del estado central que comienza a democratizarse, descentralizándose para buscar mecanismos más eficaces y eficientes de combate a la pobreza; c) es el resultado de los requerimientos que plantea la influyente cooperación internacional, en cuanto a su financiamiento para combatir y compensar la pobreza a través de la reforma del Estado y la democracia de la sociedad. Esta perspectiva se inscribe dentro de un concepto nacional de desarrollo que involucra un conjunto de variables – crecimiento, sustentabilidad, equidad, marketing estratégico, calidad, participación, equilibrio espacial – de desarrollo multidimensional cuyo objetivo básico es la generación de riqueza a través del crecimiento económico, sin descuidar la protección de los recursos naturales y culturales “para que las generaciones futuras alcancen mayor bienestar, sin que disminuya las oportunidades de las futuras”. Comprende la concertación entre agentes, sectores y fuerzas que interactúan en distintas esferas de la política, lo social y cultural. Más aún implica la concertación de agentes regionales, nacionales e internacionales, cuya contribución enriquece y fortalece ese proceso que tiene lógica interna no mecánica ni lineal que realizan diferentes actores locales. En dichas escalas de participación se recuperarían todas las regiones y localidades en calidad de sujetos de desarrollo. También con el gobierno federal se intenta definir la política turística ligada al desarrollo local y regional. En virtud de estos fundamentos se amplía el concepto de Turismo, que pasa de ser una política de desarrollo social sin dejar de ser una de las principales políticas económicas. La dinámica interna de participación implica desarrollar proyectos turísticos “sustentables”, o sea, políticas que pueden asumir modalidades muy diversas: aventura, rurales, locales, ecológicos, regionales, religiosos, históricos, etc. Parecen alternativas para contrarrestar los efectos negativos, que el acelerado proceso de globalización y modernización ha ocasionado en la gran mayoría de la población rural y semiurbana del país; es como Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. Dra. Emilce Beatriz Cammarata 25 si se pudiera impulsar y fortalecer a las identidades locales y regionales con un mecanismo de defensa de lo interno inmediato, de su necesidad de pertenencia y permanencia. 2.3 PERO ¿POR QUÉ NO TODO LO QUE BRILLA ES ORO? A fin de contribuir desde nuestras posibilidades analíticas y experiencias adquiridas a la construcción del debate sobre el desarrollo del Turismo local, es necesario reflexionar acerca del contexto global-mundial, los procesos de reforma del Estado y su adecuación a dicho contexto mundial, qué implica gobernabilidad y democracia, qué organizaciones civiles están presentes y aprovechan los espacios que se generan, reflexionar sobre el vínculo entre desarrollo sustentable y la participación de la sociedad civil. Merece señalar a la modernización y globalización económica como los nuevos determinismos del capitalismo internacional. Ante la reforma del Estado importa cuestionar los cambios en la administración pública y en la economía; definir los significados de la democracia representativa y las formas de gobernabilidad plural, etc. En general, las reformas del Estado representan la emergencia del proyecto de reestructuración capitalista y los principios liberales sirven para fundamentar la construcción de la nueva hegemonía y nuevas alianzas. Por otra parte respecto a la gobernabilidad y democracia aparecen formas de tipo democrático y procedimientos impulsados por aquellos actores sociales y políticos a los que por naturaleza les corresponde conducirlas, como los partidos políticos, sindicatos, otros. Y la dimensión de la construcción de la sociedad civil se impulsa “desde arriba” a partir de la creación de organizaciones civiles, pero no han sido a partir de necesidades sentidas o iniciativas de la población. Paralelamente el gobierno sigue cooptando diversas instituciones tratando de resolver los movimientos de manera contradictorias. De manera que la participación en los programas de desarrollo es distinta, según se trate de organizaciones que apuestan al cambio democrático o que tratan de subir al carro que pretende hacer más humana la economía de mercado. En el marco de los distintos tipos de conflicto-disputa no hay duda que en general existen acuerdos cuando se realiza una mejor difusión – en el caso que exista en verdad una iniciativa democrática local bien organizada, aunque con distintas fronteras. Esta fuerza debería ser utilizada para impulsar la transformación de las prácticas a nivel local como Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. 26 Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ... contrafinalidad de la práctica global. Sobretodo, considerar que las experiencias son el resultado de construcciones históricas concretas en respuesta a situaciones socioeconómicas y culturales. La proclama del desarrollo sostenible y la sociedad civil implica reconocer que existen dos formas de luchar y participar, las que se impulsan desde arriba y las que se hacen desde abajo como proceso que se construye. Pero existe un tercer grupo intermedio entre los dos anteriores conformado por agrupaciones que se forman para aprovechar desde abajo los ofrecimientos que se hacen desde arriba. ¿Cómo poner en marcha mayores negociaciones? ¿Cómo construir puentes y no bloqueos para que los ciudadanos accedan a la información por canales alternativos y no fijar la permanencia? 3 CUESTIONES DEL ORDENAMIENTO TERRITORIAL Y LA PLANIFICACIÓN La planificación en Turismo implica lecturas ideológicas y políticas que definen en parte al papel del Estado, a los sectores involucrados y a las comunidades. En la etapa de ordenamiento, en general, se registra la urgencia de actuar racionalmente sobre la realidad en el sentido que antes de poner en valor cualquier lugar se debería planificar el desarrollo del sitio involucrando en ese proceso a los especialistas – OMT, ONG, otros que por lo general son externos al lugar – y principalmente a los locales. Entre las formas racionales, destacan analizar los impactos positivos y negativos de la actividad turística, desarrollar estrategias para evitar o minimizar los problemas del ambiente. Pero al mismo tiempo señalan que los planes fracasan porque omiten las tres etapas: ejecución, evaluación, ajuste. Se cuestiona el informe final porque pareciera que por arte de magia el ordenamiento se ejecutaría solo, de modo que es necesario considerar los quiénes deberían involucrarse en la ejecución. Sin embargo ante alguno de los fracasos se alude a que estamos frente a una crisis de valores, crisis de utopía porque hemos perdido la capacidad de soñar económica política, social y cultural. Empero en el proceso de planificación importa preguntarnos quiénes valorizan el lugar-atractivos, por qué y cómo lo hacen. Aspecto que conlleva a referirme a los sitios patrimoniales “locales y regionales” lugares y áreas que remiten a riesgos para preservar la identidad de la zona y o a someter las acciones en innumerables talleres Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. Dra. Emilce Beatriz Cammarata 27 para reflexionar sobre el proceso histórico del sitio o lugares de referencia patrimonial. Hasta aquí importa recordar lo señalado con anterioridad en relación a cómo se eligen las instancias de cambio y concluimos que es a través de las crisis sectoriales, de la ruptura de modelos económicos y políticos, de la intervención del Estado, del achicamiento aparente de sus funciones a través de las políticas de descentralización. Miguel Seguí Llinás, geógrafo mallorquín, caracteriza algunas realidades y potencialidades de Brasil en relación a los recursos y atractivos pero señala que de continuar las crisis sectoriales de la economía, el crecimiento turístico es y será espontáneo, fruto de iniciativas privadas y de turistas viajeros curiosos que buscan algo distinto. Amerita señalar la reflexión de Milton Santos (1995) respecto a que vivimos en una universalidad empírica de manera que es necesario analizar críticamente los textos de las instituciones del ordenamiento turístico. 3.1 LOS PROBLEMAS EN MATERIA DE PLANIFICACIÓN TURÍSTICA Y LA NECESIDAD DE UN PROGRAMA DE INVESTIGACIÓN Y DOCENCIA SOBRE LOS DETERMINANTES DEL DESARROLLO TURÍSTICO Ante diversos problemas en materia de planificación turística es necesario rever y repensar las formas en que el mundo académico se aproxima a los estudios sobre las relaciones entre Turismo y desarrollo. En general las políticas interesadas en el desarrollo local, endógeno, territorial y los estudios y análisis de esas políticas se mueven sobre la base de un manifiesto de intenciones (apoyado en ciertos valores) que da lugar a ideas ampliamente compartidas. Por ello para que lo posible sea viable, no basta con que las propuestas se acerquen a los territorios reales y pensados. Hay que trabajar, madurar, intervenir en los ámbitos donde se producen las decisiones de cambio como las instituciones, las organizaciones, los lugares de transformación donde hay personas con misiones, roles y funciones más o menos compatibles con la instancia operativa de los territorios posibles y los ambientes posibles. Pero en general estas concepciones tienen una base interpretativa pobre que no contempla las relaciones efectivas o reales que establecen los diferentes actores-agentes sociales involucrados y son acríticamente adoptadas, enmascarando aspectos que se intentan transformar. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. 28 Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ... ¿Como indagar sobre estas modalidades tradicionales de ordenar? ¿Por qué las palabras de los informes y los trabajos que se realizan no se traducen en hechos que las confirmen? El lugar es el ámbito geográfico específico que establece vínculos con procesos más amplios que afectan o inducen a transformaciones en otros lugares, de modo que el lugar es abierto a estas transformaciones y entonces la trama social excede los límites de la definición del destino turístico porque, como señalamos al principio de esta reflexión, el capitalismo industrial y financiero dirige esta guerra de lugares en términos fiscales en el plano global y local. Milton Santos afirma: “La geografía en movimiento y del espacio de comando, del uso competitivo de los lugares y la revalorización de los lugares.” Featherstone (1997) y otros científicos sociales rechazan los análisis tradicionales respecto al carácter fijo espacial de las culturas, por el contrario existe una mayor movilidad espacial y simbólica, aspecto que interesa al reflexionar sobre los fundamentos de la formación de las imágenes del mundo como una acción híbrida de nómadas deslocalizados, al considerar las imágenes de las localidades, como si las comunidades en las diferentes localidades estuvieran integradas y constituidas. Así que es necesario tener presente desde dónde se promueve el lugar turístico y qué imágenes se representan del lugar o destino. Ciertamente una vez que el turista o viajero llegó al lugar, la experiencia del espacio y tiempo que provoca el Turismo implica cambios entre el cotidiano y su opuesto, el viaje; existen distintos momentos en relación con las necesidades del servicio y la contemplación de los atractivos. Al mismo tiempo las experiencias de consumo en la contemporaneidad se transcriben en las guías y publicaciones que se encargan de “explicarle al turista lo que debe ver” y le desvían la atención de lo que no debiera ver; o sea que se traduce el objeto como algo normativo y regulado, lo simbólico que se decide desde afuera. También las formas de expresión de los medios, el cine, la televisión, revistas, periodistas, etc., que refuerzan la construcción de los atractivos y modelos de valorización. ¡Es que parece que no hay modos de escapar completamente de la racionalidad capitalista, del consumo de bienes y servicios alternativos, etc. ¿Se construye una identidad cotidiana en los lugares? Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. Dra. Emilce Beatriz Cammarata 29 La formación socioespacial se sustituye, no desaparece, sea para manipular acciones de la sociedad y/o regularlas. Las discusiones sobre identidad y espacio-lugar reconocen que no hay lugar o comunidad dadas por se, ya que son construcciones de discursos y de prácticas, a la vez siempre relacionadas con las nociones de poder y vinculadas en sistemas de inclusión y exclusión. Por tanto lo que importa es no trabajar con posiciones idealistas de visiones románticas que conllevan a considerar una comprensión parcial casi ingenua de su función y voluntaristas. Tratar de enfatizar aquello que está enmascarado o vedado de la estructura de poder. Las regiones y lugares se valorizan en sincronía funcional y es necesario estudiarlas en distintas escalas de observación al contener cada una de ellas distintas dimensiones, modos, subsistemas Es difícil descubrir sin investigación seria y responsable lo negativo que hay en las propuestas internacionales de apoyo y las formas en las que las contrapartes nacionales enmascaran sus verdaderos intereses. Por lo tanto los que se involucran en la empresa del desarrollo local deben conocer a fondo las intencionalidades de las propuestas que se hacen desde los organismos internacionales con respecto a que la sociedad participe en la dirección, coordinación y ejecución de los programas y acciones. El juego estructural del poder produce distintas formas espaciales, asegurando articulación-continuidad versus desarticulacióndiscontinuidad y creando nuevos límites. La reorganización del poder necesita manejar el juego geométrico de los límites éstos, no son inocentes, ni naturales o arbitrarios, constituyen parte del juego de la reproducción social: la producción, el intercambio y el consumo. 3.2 ENTONCES ¿CÓMO ORGANIZAR EL TRATAMIENTO DE LA EVIDENCIA EMPÍRICA? 3.2.1 Enunciar Conceptos que Sean Operativos Es imprescindible fijar previamente una serie de cuestiones teórico epistemológicas: a) el tratamiento del concepto; b) los criterios de definición; c) las relaciones entre los conceptos; d) los procesos que explican los temas problemas al combinar las fuentes primarias y secundarias; Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. 30 Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ... e) la ubicuidad teórico espacial y organicidad teórica en la necesaria articulación de las dimensiones socioeconómicas, políticas, culturales, entre otras. 3.2.2 ANALIZAR TIPO DE PROBLEMAS 1º La economía y el efecto multiplicador de puestos de trabajo y formas de salarios (lo informal es regla, en general), las ganancias en forma de impuesto y la evasión y las empresas transnacionales tienen exención de impuestos por X años. ¿Qué estudios permiten ver el efecto multiplicador? 2º El crecimiento espontáneo de la oferta turística para identificar qué otras relaciones políticas y económicas existen en el lugar-mundo; la necesidad de trabajar en distintas escalas de relación. 3º Atender la comunicación turística, insuficiente y en general realizada desde los que intervienen en la conformación de los circuitos, corredores, productos, discursos y prácticas. Los medios de comunicación en tiempos de globalización son centrales en la construcción de los sentidos sociales. Estos medios reproducen – en ocasiones sistemáticamente – el discurso hegemónico de los sectores dominantes de la sociedad. ¿Cuáles son los estereotipos o preconceptos que se ejerce sobre la construcción del otro, de la diferencia y diferenciación social? 4 CUESTIONES REFERIDAS A LOS ESTUDIOS Y TRABAJOS DE INVESTIGACIÓN Cabe indagar las tendencias teóricas que se consideran en los estudios del Turismo. Reflexionar sobre lo que se está produciendo y cómo se refieren a la dimensión de la estrategia general y de las técnicas de recolección y análisis de información empírica para visualizar el potencial turístico. Reconozco que en el medio turístico no es fácil una actitud de denuncia de los impactos negativos del fenómeno social, no obstante mis ideas y la de algunos otros autores opta por la naturaleza crítica – no destructiva sino constructiva – y provocadora en el análisis como inquietud y compromiso para desenmascarar los engaños de los discursos y del saber turístico, develar lo que no se dice y no se muestra del turismo, sea Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. Dra. Emilce Beatriz Cammarata 31 de manera intencional o inconscientemente. Instamos a un cambio en la manera de pensar y de investigar pues en gran medida, explica el atraso que tenemos en el conocimiento sobre el Turismo. Es necesario otorgar mayor cientificidad a la tarea investigativa dado que la ciencia es la mejor forma de comprender y transformar nuestra realidad. Creo que es el mejor antídoto contra los vendedores de fantasías. La bibliografía existente sobre el problema conceptual del Turismo intenta dar diferentes explicaciones sobre este fenómeno, no obstante surgen varias dudas respecto a las posibilidades de generar una explicación integral y a la vez científica del Turismo. A menudo aparece la visión superficial de los aspectos conceptuales del fenómeno turístico se limita a una vaga definición, fundamentalmente empírica, no se aborda el objeto de estudio con claridad, consistencia conceptual, metodológica y en su caso, teórica. Parto desde la Geografía y concibo el conjunto de las Ciencias Sociales como una perspectiva inter y multidisciplinaria que no busca mostrarse como una panacea sino como un prisma analítico profundo que vuelva inteligible el Turismo y sus prácticas, a la actividad turística y los procesos de desarrollo de los lugares, abiertos a la economía global y formas de producción que expresa relaciones de producción capitalistas. ¿Cómo repensar la investigación turística en los lugares y regiones? El Turismo como fenómeno a escala mundial constituye un importante y fundamental objeto de investigación al abordar un conjunto de prácticas sociales y tipo de relaciones socioeconómicas y culturales a partir de las actividades turísticas que se desarrollan y expresan en la dimensión territorial. Reconocer al Turismo como movimiento mundial del espacio, cuyas actividades están hegemónicamente priorizadas para los turistas y no para los residentes. Así la mayoría de las veces los espacios se valorizan, disputan, especulan, apropian y se utilizan. Comprender el fenómeno de las nuevas prácticas en relación con el desarrollo de las actividades turísticas y reflexionar sobre algunas cuestiones que – tal vez – puedan contribuir hacia la meta del desarrollo socio económico y cultural. Importa reconocer y hacer explícito desde qué bases teóricas se explican e interpretan los hechos de la realidad que se investiga. En esta instancia, el investigador tiene el desafío de actualizar los conceptos, algunos se repiten en las investigaciones del Turismo pero su tratamiento en general destaca perspectivas tradicionales, no críticas como corresponde al espacio de la academia y a la formación de grado y Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 9-33, 2009. 32 Valorização do Espaço-Lugar no Acontecer Turístico ... postgrado. O sea, que es necesario reinterpretar las nuevas estructuras espaciales e identificar la problemática espacial a escalas regional e internacional. En síntesis deducimos que en el proceso de investigación se debe admitir cierta política de intervención en la organización del espacio como modo de ubicar las relaciones sociales de poder, las acciones locales, las relaciones nacionales e internacionales. También amerita que reflexionemos BIBLIOGRAFÍA CONSULTADA BERTONCELLO, Rodolfo. Turismo y territorio. In: V JORNADA DE TURISMO NACIONAL. Mar del Plata: [S.n.], 2002. Mimeografado. CAMMARATA, Emilce Beatriz. El turismo en Misiones en el espacio transfronterizo con Paraguay y Brasil. Posadas-Misiones: [S.n.], 2001. Mimeografado. DREDGE, D. Planificación y diseño de destinos turísticos. Annals of Tourism Research, en español, v. 1, n. 2, p. 394-414, 1999. FEATHERSTONE Localismo, globalismo e identidade cultural. Sociedade e Estado. Brasilia: UnB-Relume Dumará, v. 11, n. 1, jan./jun. 1997. 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Cicilian Luiza Löwen Sahr 35 A QUESTÃO SOCIOAMBIENTAL DOS FAXINAIS PARANAENSES: CAMINHOS PARA SE PENSAR NUMA PEDAGOGIA HOLÍSTICA E INTEGRATIVA1 THE SOCIO-ENVIRONMENTAL QUESTION IN TRADITIONAL FAXINAL COMMUNITIES IN PARANÁ, BRAZIL: REFLECTIONS TOWARDS A HOLISTIC AND INTEGRATIVE PEDAGOGY CICILIAN LUIZA LÖWEN SAHR ___________________________________________________________ Doutora em Geografia Humana pela Universidade de Tübingen (Alemanha), Professora de Pós-Graduação em Geografia da UEPG e da UFPR, Coordenadora da Rede Faxinal Pesquisa E-mail: [email protected] Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. 36 A Questão Socioambiental dos Faxinas Paranaenses ... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. Cicilian Luiza Löwen Sahr 37 RESUMO A questão socioambiental vem sendo amplamente discutida na atualidade. Busca-se a superação da relação dicotômica entre sociedade e natureza. Novas idéias surgem a partir da concepção de uma sociedade humana integrada e não oposta, à natureza. Nesse contexto, assiste-se a uma revalorização de sociedades em que a “unidade do real” se torna mais evidente. Esse é o caso dos povos e comunidades tradicionais brasileiros, que apenas precariamente se integram ao capitalismo moderno. Como reflexo desse momento, torna-se necessário pensar numa transposição da concepção holística e integrativa da questão socioambiental para o ensino. Nesse sentido, este artigo apresenta uma reflexão sobre novos caminhos pedagógicos com base em uma investigação da formação socioambiental de comunidades tradicionais paranaenses: os faxinais. Acredita-se que essas comunidades podem representar mais do que apenas ambientes de ensino-vivencia para os próprios alunos-moradores. Os faxinais apresentam elementos de grande valor para se pensar numa pedagogia holística em função de sua grande diversidade e capacidade ecológica, suas formas sociais integradas, sua produção econômica não capitalista e seu enraizamento cultural. Palavras-chave: questão socioambiental, pedagogia holística, faxinais paranaenses. ABSTRACT Today, scientific discussions increasingly focus on socio-environmental questions based on an attempt to overcome social-natural dichotomies. In this context, new ideas arise for a conception of a human society that is integrated, and not opposed to nature. Therefore, societies where the “unity of the real” seems to be evident have been revalued, as it is the case of Brazilian traditional populations and communities that are only precariously integrated into the capitalist world system. In this moment, it becomes possible to reflect the situation of these communities based on a holistic and integrative approach and to use its result for educative processes. As such, this article proposes a reflection on new educational methods using the socio-environmental formation of a traditional social formation in Paraná: the Faxinais. We do believe that knowledge of these Faxinais is not only Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. 38 A Questão Socioambiental dos Faxinas Paranaenses ... relevant for the self-comprehension of the inhabitants of this life-world, but also for other students to understand diversity, the potential of ecology, social complexity, as well as non-capitalist production modes and its specific cultural contributions. Keywords: socio-environmental question, holistic education, Faxinais, Paraná. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. Cicilian Luiza Löwen Sahr 39 1 INTRODUÇÃO A questão socioambiental vem sendo amplamente discutida na atualidade. Não se aceita mais uma diferenciação clara e categórica entre natureza e sociedade. Busca-se a conjugação desses dois conceitos. A superação da relação dicotômica entre sociedade e natureza encontra argumentos, entre outros, na compreensão da “unidade do real” (CASSETI, 2004, p. 145). Assim, os fundamentos da questão socioambiental se afastam tanto de uma interpretação ligada diretamente à externalização da natureza quanto do antropocentrismo característico das abordagens críticas e marxistas, bem como das abordagens tecnicistas e positivistas (MENDONÇA, 2004, p. 126-128). Reaparecem, dessa maneira, compreensões do meio ambiente em seu sentido mais profundo. Desenvolvem-se novas idéias a partir da concepção de uma sociedade humana integrada, e não oposta, à natureza. Nesse contexto, assiste-se a uma revalorização de sociedades em que a “unidade do real” se torna mais evidente e que apenas precariamente se integram à racionalização do capitalismo moderno. Esse é o caso das comunidades e povos ditos tradicionais no Brasil. O fato de se vivenciar um processo de mudança de uma concepção estruturalista e mecanicista (tanto capitalista como analítico-crítica) para uma concepção holística (CAPRA, 1998) fundamenta o renovado interesse da academia para fatos/fenômenos sintéticos. Como reflexo desse momento, torna-se necessário se pensar numa transposição da concepção holística e integrativa da questão socioambiental para o ensino de forma geral. Nesse sentido, este artigo busca apontar de que forma uma investigação aprofundada e nítida da formação socioambiental dos faxinais paranaenses poderia contribuir para a abertura de caminhos pedagógicos. Acredita-se que os faxinais podem representar, nesse contexto, mais do que apenas ambientes de ensinovivencia para os próprios alunos-moradores. Os faxinais apresentam elementos de grande valor para se pensar numa pedagogia holística a um público mais abrangente. 2 FAXINAIS: UMA PRÁTICA SOCIOAMBIENTAL DO PASSADO? O termo “faxinal” tem sua origem etimológica na palavra latina “fasces”, que significa feixe de ramos. No Paraná, o termo é utilizado para indicar uma área de povoamento agrossilvopastoril caracterizada pela Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. A Questão Socioambiental dos Faxinas Paranaenses ... 40 existência de um criadouro comunitário em ambiente de floresta, separado das áreas de plantar por cercas, tradicionalmente constituídas por “fasces”. Os moradores dessas comunidades são denominados “faxinalenses” e se distinguem culturalmente em função da manutenção de fortes laços de solidariedade e compartilhamento. De acordo com levantamento oficial realizado pelo Instituto Ambiental do Paraná (MARQUES, 2004), foram identificadas 44 comunidades com essas características, no Estado. Sabe-se, todavia, que esse número é muito maior, dependendo dos critérios que se estabeleçam para sua definição. O faxinal tradicional apresenta-se, nessa perspectiva, como uma “unidade socioambiental” integrada que articula diferentes modalidades de uso e de relações sociais internas e externas. Tem sua base no ecossistema da Floresta com Araucária e estrutura-se sobre uma rede de elementos socioambientais (figuras 1 e 2), que formam um espaço de múltiplas categorias: a coleta e o extrativismo na floresta, a pecuária extensiva em criadouros coletivos, as plantações individuais separadas da área de criação e uma organização social comunitária (LÖWEN SAHR, 2007a; MARQUES, 2004; NERONE, 2000). FIGURA 1 - UNIDADE SOCIOAMBIENTAL TRADICIONAL DOS FAXINAIS FONTE: autora. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. Cicilian Luiza Löwen Sahr 41 FIGURA 2 - ESQUEMA DA ESPACIALIZAÇÃO TRADICIONAL DOS FAXINAIS FONTE: autora. O criadouro comunitário, delimitado por cercas e(ou) valos, encontra-se, geralmente, no centro do faxinal em vales de pequenos arroios. As estradas de terra que o cortam se utilizam de recursos como porteiras e mata-burros, geralmente de madeira, os quais têm a função de impedir a fuga de animais. Não muito distante das estradas que o cortam, encontram-se – dispersas nos espigões dos terraços mais altos – as residências, via de regra construídas em madeira (figura 3). Embora as terras do criadouro sejam propriedades/posses privadas justapostas, elas não são individualizadas por cercas, tendo uso comum no que se refere às atividades criatórias. O mesmo não ocorre para as atividades extrativas, que só podem ser exploradas pelo proprietário da terra/posse. Assim, o próprio espaço do criadouro extrapola sua função pecuária, integrando vegetação e construções, tendo plantas, animais e homens como moradores. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. A Questão Socioambiental dos Faxinas Paranaenses ... 42 FIGURA 3 - ESTRUTURA DE POVOAMENTO DE COMUNIDADES DE FAXINAL FONTE: autora. Freqüentemente, desenvolvem-se nos maiores faxinais pontos de referência em cruzamentos com casas de comércio, bares, capelas/igrejas, escolas ou barracões comunitários. Isoladamente, encontram-se tanques de peixe, moinhos de madeira para milho e mandioca (monjolos), fornos de pedra para produção de farinha, além de estufas e canchas para beneficiamento da erva-mate (barbaquás). Próximo às casas, é comum o cultivo de pequenos quintais com árvores frutíferas, verduras, ervas medicinais e temperos. Os quintais são delimitados por cercas densas para evitar a entrada de animais de pequeno porte, sobretudo os suínos e aves. Dessa maneira, o espaço do faxinal é altamente heterogêneo e complexo. Característico para o faxinal é a variedade genética dos animais. Como eles circulam livremente pela floresta, à procura de alimentos, não existe um controle de raças, apenas uma reprodução seminatural. Para os animais de grande porte, dominam até hoje, todavia, as raças ibéricas, como se pode observar pelos bovinos de chifres longos e nos cavalos crioulos. Também nos suínos percebe-se a origem ibérica de suas raças fortes e escuras. As aves (galinhas e patos) mostram, contrariamente, uma nítida relação com as raças centro-européias. A galinha-d’angola aparece como um elemento africano e o pato do mato como herança dos índios guaranis (LÖWEN SAHR, 2007a.; SAHR, 2006). Ao contrário da rigidez genética da pecuária moderna, essa mistura representa no faxinal um valor fundamental. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. Cicilian Luiza Löwen Sahr 43 Nas áreas abertas do faxinal, as quais, na maioria das vezes, encontram-se no centro do criadouro, expande-se uma vegetação rasteira, parcialmente de gramíneas e com outras plantas. Mais distante das estradas, aumenta o porte da vegetação, com árvores e arbustos. Aí se encontra a erva-mate sob a sombra das copas das araucárias. A vegetação de grande porte vai tornando-se mais densa e as gramíneas mais ausentes, à medida que se afastam das bordas. Nas áreas de floresta, tem-se a coleta de madeiras para uso como lenha e para a construção de casas e paióis. Do pinheiro (Araucária angustifolia) é retirado o pinhão, tanto para a subsistência quanto para a comercialização. Da erva-mate (Ilex paraguariensis) são extraídas as folhas para o chá e chimarrão. As áreas coletivas de criar coincidem com as áreas de floresta. Esta, entretanto, algumas vezes se expande formando uma tira de cerca de 15 metros em torno desse limite. Tal faixa tem a função de impedir que os animais – sobretudo os suínos – vejam livremente as áreas de cultivo do outro lado. Essa faixa denomina-se “restinga” pelos faxinalenses. Dessa forma, as formações vegetacionais são altamente dinâmicas e reproduzem uma teia de atividades e evoluções naturais e culturais. Nas roças, localizadas fora da cercamento do criadouro, há gerações são exploradas culturas como milho, feijão e mandioca. As áreas de cultivo são de responsabilidade individual de cada agricultor. Alguns utilizam ainda o sistema de rotação de terras com queimada, deixando espaços em pousio. Após a colheita, levam-se os animais para que se alimentem dos restos de palha e folhas e também para que fertilizem o terreno com seu adubo natural. Assim, o espaço da roça é provavelmente o menos “natural” de todo o sistema, absorvendo os primeiros elementos de uma agricultura moderna. Essa descrição de um faxinal tradicional com enorme variedade mostra o quão diversificada se apresenta a relação entre os conceitos natureza e sociedade, nessas comunidades. Observa-se com nitidez as interferências mútuas dos conceitos na “unidade do real”. A variabilidade nas formas de coleta, de extração e de uso extensivo da floresta proporciona para os faxinais certo equilíbrio, o que permite uma regeneração constante desse sistema ecológico. Isso é válido tanto para o pastoreio como para a exploração da erva-mate e pinhão. É válido ainda para o uso limitado de lenha e madeira para o próprio consumo. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. 44 A Questão Socioambiental dos Faxinas Paranaenses ... 2 CONVIVÊNCIA ENTRE PRÁTICAS TRADICIONAIS E MODERNAS NOS FAXINAIS Para A. Giddens (1989), o sistema social apresenta uma forma específica para cada momento e espaço, mostrando características diacrônicas e sincrônicas, simultaneamente. Desse modo, existe a tendência de sistemas funcionais manterem-se e recriarem-se autonomamente como sistemas coerentes, autossustentáveis e singularizados – o que o autor denomina “integração sistêmica”. Entretanto, esses são também objeto das interações dos indivíduos que o utilizam para desenvolver suas próprias relações – o que ele denomina “integração social”. Essa dualidade de processos pode ser observada na interpretação de comunidades tradicionais. Atualmente, o faxinal, como remanescente de uma prática tradicional, já mostra sinais de processos da modernidade. Tanto a individualização, racionalização e o sobreuso como a ruptura de algumas tradições comunitárias e das dependências ecológicas demonstram que a tradicional “unidade socioambiental” se apresenta embutida em lógicas econômicas, sociais, ecológicas e até espaciais contraditórias, que, de um lado, fogem da racionalidade moderna e, de outro, a incorporam. Procura-se, a seguir, evidenciar essa dualidade por meio da análise temporal de elementos de sua rede socioambiental: tradições comunitárias, pecuária extensiva, agricultura de subsistência e extrativismo vegetal. Busca-se, sobretudo, enfatizar as adaptações flexíveis vivenciadas pelos faxinais em sua trajetória. As práticas religiosas tradicionais são bastante presentes nos faxinais. Predomina um catolicismo popular com intensa veneração de São Sebastião, São Benedito, Nossa Senhora Aparecida, São Gonçalo, do Menino Jesus e do Divino Espírito Santo. São comuns atividades como a romaria de São Gonçalo, mesada de Anjos e rodízio de capelinhas. Forte é a crença no Monge João Maria. As casas mantêm altares em seu interior, dedicados a um santo específico ou a muitos deles. Outra manifestação são as festas religiosas caseiras (LÖWEN SAHR, 2005). Atualmente, essas práticas tradicionais convivem com as oficiais da moderna Igreja Católica. São comuns a presença de templos no interior do criadouro e a participação de padres em determinadas celebrações. Outras frentes religiosas modernas, com o nome de evangélicas, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Assembléia de Deus, ganham cada vez mais espaço entre os faxinalenses. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. Cicilian Luiza Löwen Sahr 45 Todavia, o fator mais importante dessa observação sociológica não é o tradicionalismo, mas o fato de que a liberdade de processos ecológicos e comunitários resulta da compreensão de que o faxinal é um produto de uma “criação” integrada de Deus e não apenas de uma produção humana. Mesmo assim, o faxinal absorve processos econômicos de grande alcance que o integra parcialmente, durante determinado tempo. Nesse sentido, a suinocultura parece ter sido a primeira estratégia de reprodução econômica nos faxinais. No passado, o que predominava eram grandes criadouros comunitários, com extensão muito superior às de hoje e sem delimitação nítida. Apenas em alguns casos, utilizavam-se acidentes geográficos – rios, serras – como elementos de delimitação (CHANG, 1988; NERONE, 2000). Uma rede de atores marcava a cadeia produtiva do porco. R. M. Souza (2001, p. 65) aponta a participação de dois: o produtor e o “safrista” (espécie de intermediário). Duas fases marcam o processo de criação: o crescimento e a engorda. Assim, duas formas de criação podiam ser observadas: a) em que ambas as fases eram assistidas pelo produtor; b) em que a primeira era assistida pelo produtor e a segunda pelo “safrista”. Esta segunda demonstra uma sofisticação modernista do processo. Mostra-se claramente o reflexo de uma época, iniciada já em 1890 e que teve seu ápice em 1940, quando a produção suína na economia paranaense teve grande importância. As tropas de porco, criadas nos “sertões” paranaenses eram conduzidas a pé até as indústrias de banha de Ponta Grossa, Curitiba e, principalmente, a indústria Matarazzo, localizada em Jaguariaíva (VOLTOLINI, 1966, p. 45 et seq.; KRÜGER, 2002, p. 122). O tropeirismo de porco constituiu-se, assim, numa forma de integração do faxinal à economia regional, já mostrando nesse momento sua flexibilidade de adaptação ao processo produtivo moderno. Atualmente, essa atividade ainda se mantém, apresentando-se como uma das características culturais mais facilmente visíveis, que permitem reconhecer uma comunidade de faxinal. As especificidades tradicionais da suinocultura faxinalense são: a) seu caráter extensivo, ou seja, o porco é criado “à solta”; b) seu caráter silvopastoril, ou seja, seu principal alimento provém do ambiente em que vive, ou seja, da Floresta com Araucária. Atualmente há, entretanto, uma nítida separação entre as “terras de criar” e as “terras de plantar”, ou seja, a criação se desenvolve em uma área florestal de uso coletivo delimitada por cercas e(ou) valos e recebe complemento alimentar (milho) cultivado nas áreas de lavoura. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. 46 A Questão Socioambiental dos Faxinas Paranaenses ... Outra característica da atualidade é que a suinocultura adquiriu basicamente um caráter de subsistência, não sendo mais comercializada. A delimitação das “terras de criar” e seu uso vinculado à subsistência mostram flexibilidade para poder manter uma atividade tradicional que fortalece laços comunitários, mesmo que isso não tenha resultados econômicos diretos. Um outro efeito transformador atinge as “terras de plantar”. No passado, a terra de lavoura, para consumo familiar, localizava-se próximo à moradia, em áreas pequenas, cercadas e no interior da área de criação animal (CHANG,1988; NERONE, 2000). Com a diminuição da importância econômica da suinocultura, as “terras de plantar” assumiram maiores dimensões e se separaram das “terras de criar”, desenvolvendo-se a “sociologia das cercas” (CARVALHO, 1984), com normas consuetudinárias para manutenção daquelas. Tal dinâmica pode ser vista como um processo de racionalização do espaço, característico da modernidade. As áreas escolhidas para os criadouros eram determinadas pela presença do pinheiro, da erva-mate, da pastagem natural e de água. No entorno desses locais, localizavam-se as “terras de plantar”. Com isso, os criadouros ocupam geralmente as várzeas dos vales e os platôs intermediários das encostas, enquanto as “terras de plantar” ocupam as áreas mais próximas aos espigões. Nas “terras de plantar” se cultivavam, sobretudo, o feijão e o milho. O feijão é utilizado para a alimentação humana e o milho para complementação alimentar dos animais. Outros produtos se encontravam presentes, entre eles a mandioca e a batata. Embora a produção se voltasse à subsistência, ela ia conquistando gradativamente um mercado regional, permitindo a comercialização dos excedentes e, com isso, garantindo a integração econômica dos faxinais. Essa mudança inverte a situação da primeira metade do século XX, quando o porco estava no centro da economia faxinalense. Atualmente a atenção se volta para a lavoura, estando a criação em segundo plano. Dessa maneira, a produção agrícola nas comunidades de faxinal apresenta-se hoje como a principal estratégia de reprodução econômica. Diversos faxinais, principalmente aqueles inseridos nas áreas de produção de fumo, encontram-se integrados à agroindústria fumageira (LEMES, 2005). Trata-se de mais um exemplo de adaptação dos faxinais a processos modernos. Assim, a agricultura adquire um caráter comercial com sobrecarga de trabalho familiar, além de ser altamente tóxica. Os produtos de subsistência agora são, via de regra, adquiridos pelos faxinalenses nos comércios locais e não mais cultivados. Em alguns faxinais, a presença de fumo se limita às “terras de plantar”, onde se Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. Cicilian Luiza Löwen Sahr 47 localizam as lavouras e as estufas de fumo; em outros, as estufas até “invadem” as “terras de criar”. A presença/ausência de energia elétrica nas “terras de plantar”, bem como a distância entre o local de moradia e as áreas de lavoura é fator que influencia nessa alocação. Alguns faxinais, contudo, resistem à integração das agroindústrias fumageiras e mantêm suas roças tradicionais ou buscam alternativas em culturas e práticas agroecológicas, sobretudo legumes e verduras (SCHUSTER, 2007). Hoje, os faxinais veem o período do fumo em declínio e já se preocupam em discutir possibilidades futuras para se manterem integrados a processos econômicos ditos modernos. Entre os temas de discussão, encontra-se a questão dos biocombustíveis. A disponibilidade da madeira mudou completamente ao longo do tempo. No final da década de 40 (século XX), surgiram no interior dos faxinais pequenas serrarias artesanais e destinadas inicialmente a resolver demandas próprias, como cercas, casas e paióis. A madeira encontrou rapidamente mercado na região. Inicialmente, as dificuldades de escoamento não permitiram grande integração; entretanto, vencidas essas dificuldades, assistiu-se – no final da década de 50 até início da década de 70 – à instalação de serrarias comerciais de maior porte, não só nos faxinais, mas também em toda a Região Centro-Sul do Paraná. R. M. Souza (2001, p. 63) esclarece que a exploração de árvores no faxinal ocorria por meio de três diferentes relações: a) compra da madeira em pé, cabendo à empresa a derrubada, o estaleiramento e o transporte; b) empresas arrendavam as terras dos proprietários dentro do criadouro e exploravam a madeira; c) empresas compravam as terras dentro do criadouro para exploração da madeira. Por isso, o faxinal se integrou à cadeia produtiva da madeira, disponibilizando, sobretudo, matéria-prima e mão-de-obra e alterando consideravelmente uma de suas características principais: a floresta. Na atualidade, o que se apresenta nos criadouros é uma realidade de esgotamento das madeiras nobres, entretanto os faxinais ainda constituem as áreas mais preservadas de Floresta com Araucária, no Paraná. Alguns deles até mesmo em processo de regeneração (FERREIRA, 2006). O setor madeireiro tem vivenciado, nas últimas décadas, uma nova fase baseada em outra estratégia, a de incentivos fiscais a reflorestamentos. Essa nova fase reproduz-se em alguns faxinais. Tem-se a pres- Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. 48 A Questão Socioambiental dos Faxinas Paranaenses ... são desse cultivo nas “terras de plantar”, que via de regra são adquiridas por empresas reflorestadoras, o que vem causando a desagregação do modo de vida em diversas comunidades rurais que não conseguem se manter apenas com as “terras de criar”. (LÖWEN SAHR; IEGELSKI, 2003). Paralelamente à exploração de madeira, tem-se, já desde 1920, a instalação de pequenos barbaquás nos faxinais, propiciando o beneficiamento da erva-mate presente na floresta remanescente do criadouro. Com relação à erva-mate, os faxinais mantiveram o beneficiamento primário do produto até por volta da década de 70. As empresas ervateiras, que ocupavam o litoral paranaense e que eram responsáveis pelo beneficiamento final, instalam-se no final do século XIX em Curitiba e arredores. Atualmente, a estratégia das empresas ervateiras se difere. Assiste-se nas últimas décadas à realocação de suas plantas fabris próximas da matéria-prima, ou seja, próximas dos faxinais. As fábricas adquirem dos faxinalenses não mais a erva-mate beneficiada de forma artesanal em suas comunidades, mas a folha verde para o beneficiamento total dentro do processo industrial. Até mesmo a coleta da folha passa a ser incorporada pela empresa (BARRETO, 2008, p. 65 et seq.). Assim, os faxinais, como os demais povos e comunidades tradicionais, só podem ser tidos como “tradicionais”, quando inseridos num contexto mais amplo. Eles são tradicionais não tanto por seus elementos tradicionais, mas por sua flexibilidade em combinar as tradições com um sistema capitalista moderno. Suas diferenciações significam uma rejeição ao aprisionamento a uma única racionalidade. Os faxinalenses mantêm, paralela e contraditoriamente, racionalidades diversas. Seu tradicionalismo, singularizante para o grupo, é também uma estrutura social adaptada ao contexto da sociedade moderna. Se para a manutenção e recriação dessas comunidades existe a tendência de reprodução de seu sistema autossustentável e singular, existe também a tendência de ampliarem suas relações com o mundo externo, algumas vezes até com grande ingenuidade (LÖWEN SAHR, 2007b). Os diferentes momentos vivenciados pelos faxinais permitiramlhes a manutenção econômica, em tempos diferenciados, por produtos animais, agrícolas e extrativos. A dinâmica empreendida em cada um desses momentos propiciou alterações substanciais tanto nas relações de produção como no desenvolvimento ambiental dos faxinais. Atualmente, a paisagem cultural dos faxinais ainda integra muitos dos elementos tradicionais constituintes dessa formação socioambiental. Todavia, elemen- Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. Cicilian Luiza Löwen Sahr 49 tos modernos vêm sendo incorporados. Essa convivência entre elementos tradicionais e modernos, em diferentes contextualizações, bem como a nítida “unidade do real”, que facilita a elaboração de interconexões e inter-relações, é elemento de grande valor e permite se pensar o faxinal como local privilegiado para experiências pedagógicas holísticas. 3 FAXINAIS E SUAS POTENCIALIDADES PARA UMA PEDAGOGIA HOLÍSTICA De acordo com o paradigma holístico, as questões sociais e ambientais não podem ser vistas de forma fragmentada. F. Capra (1983), ao iniciar suas pesquisas nesse sentido, construiu pontes entre o misticismo oriental e a física moderna, em sua obra O tao da física. Desse modo, demonstrou uma racionalidade complexa que buscou desenvolver-se por dois caminhos, um simbólico/metodológico/mágico e outro racional/lógico/empírico. C. M. A. Cardoso (1995), com base no artigo “Holismo and meaning”, de Ron Miller, considera que a nova consciência holística se desenvolve com a percepção da interdependência entre vários planos de totalidade: pessoal, comunitário, social, planetário e cósmico. O que ocorre em um dos planos repercurte nos demais. Esse paradigma tem na pesquisa transdisciplinar o caminho para sua concretização. A pedagogia holística tem seus alicerces em filósofos e pedagogos do século XVIII e XIX, como Rosseau e Pestalozzi, que teve apoio de influentes pedagogos do início do século XX, como Maria Montessori, Rudolf Steiner, etc. Contudo, apenas mais recentemente é que o holismo adquiriu um corpo mais consistente, a ponto de ser visto como um novo paradigma educacional. O ponto de partida dos educadores holísticos é a convicção da existência de uma fragmentação de todas as esferas da vida humana. Essa fragmentação está arraigada nas escolas, embora ultrapassem em muito seus muros. Para A. S. L. Santos (2008, p. 10), [...] as escolas transpiram fragmentação por todos os lados: organização (tempo, espaço) compartimentada e hierarquizada, profissionais especializados e desconectados, conhecimento fragmentado em disciplinas, unidades e lições isoladas, sem possibilidade de ver a relação dentre e entre elas, e entre estas, a realidade que os alunos vivem. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. 50 A Questão Socioambiental dos Faxinas Paranaenses ... Tudo isso prepara e educa para a fragmentação. O termo “educação holística” foi proposto por Ron Miller (1990), para designar o trabalho de um conjunto heterogêneo de liberais, humanistas e românticos que possuem em comum a convicção de que a personalidade de cada criança deve ser considerada na educação. São consideradas todas as facetas da experiência humana, não só o intelecto racional e as responsabilidades de vocação e cidadania, mas também os aspectos físicos, emocionais, sociais, estéticos, intuitivos e espirituais do ser humano. É nesse sentido que o faxinal se apresenta como uma potencialidade pedagógica holística. Uma aula vivencial em uma “unidade do real”, como é o faxinal, permite uma educação holística por poder proporcionar: a) o desenvolvimento da pessoa global, abrangendo o intelectual, o emocional, o social, o físico, o criativo, o estético e, até mesmo, o espiritual, já que o contato com a realidade, diferentemente do conteúdo presente na escola, não se apresenta fragmentado; b) uma relação igualitária entre os aprendizes, que são tanto o professor como o aluno, no contato e convivência com o real e com os respectivos sujeitos, envolvendo-os ativamente nos processos de ensino-aprendizagem; c) um envolvimento que permite crescimento e descoberta de uma vastidão de horizontes que se inter-relacionam por meio da experiência, despertando a curiosidade por aprender tudo o que se precisa saber em qualquer contexto novo; d) um confronto cultural do mundo do aluno-professor com o mundo do faxinalense, possibilitando uma aproximação de contextos diferenciados, o que permite ir além de um modo de pensar único e reducionista, comum na educação convencional. Temáticas fragmentadas na educação convencional podem ser conectadas na experiência no Faxinal. A tradicional fragmentação da Geografia em solo, relevo, hidrografia, vegetação e população aparece integrada no real, em que a comunidade ocupa determinada área com lógicas culturais/econômicas que interconectam esses elementos. A fragmentação temporal da História em fases e ciclos (erva-mate, madeira) apresenta elementos de permanência (antigas serrarias, barbaquás) que aparecem integrados no real. A vivência com uma modalidade de comunidade tradicional tipicamente regional soma-se aos relatos de vivência destes diferentes momentos. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. Cicilian Luiza Löwen Sahr 51 A flora e a fauna regionais que ilustram os livros de Ciências podem ser vistas e sentidas in loco, permitindo análise em escala real e de forma contextualizada. Roteiros com identificação de espécies vegetais podem auxiliar o aprendizado. Depoimentos de faxinalenses sobre seus usos medicinais podem permitir interconexões. Lendas, mitos, canções, bem como expressões locais/regionais trazem à tona autores muitas vezes invisíveis em Português/Literatura da educação convencional. Experiências vivenciais de cálculos mentais de faxinalenses que utilizam a Matemática no dia-a-dia das lidas com a agricultura trazem a oportunidade de avaliar a concretude dessa disciplina muitas vezes bastante abstrata na educação convencional. Enfim, a “unidade do real” permite conexões transdisciplinares entre Geografia, História, Ciências, Português e Matemática, impossíveis de ser estabelecidas na educação convencional. Verifica-se que o paradigma holístico permite uma visão integrada da realidade por apontar para a interdependência entre vários planos da totalidade e por considerar todas as facetas da experiência humana, não só a intelectual/racional. Nesse sentido, sugerem-se os faxinais como exemplo de ambiente vivencial preferencial para se pensar em uma prática pedagógica holística, em função das características da sua “unidade do real”. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Observa-se que a ampla discussão acerca da questão socioambiental na atualidade vem traçando caminhos a partir da concepção de uma sociedade humana integrada à natureza, e não mais oposta a esta. A transposição dessa questão para a educação suscita a necessidade de se pensar em uma pedagogia holística que possa ser integrada à educação convencional, sem se contrapor a esta. Em tal contexto, tornase fundamental a revalorização do conhecimento com base na “unidade do real” como complementação à fragmentação disciplinar que a educação convencional coloca. Demonstrou-se que os faxinais da floresta com araucária podem representar ambientes de ensino vivencial privilegiados por permitirem reflexões em torno de uma pedagogia holística, em função de sua grande diversidade e capacidade ecológica, suas formas sociais integradas, sua produção econômica não capitalista e seu enraizamento cultural. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 35-54, 2009. 52 A Questão Socioambiental dos Faxinas Paranaenses ... REFERÊNCIAS CASSETI, W. A natureza e o espaço geográfico. In: MENDONÇA, F.; KOZEL, S. Elementos de epistemologia da geografia contemporânea. Curitiba: Ed. da UFPR, 2002. CARDOSO, C. M. A Canção da inteireza: uma visão holística da educação. São Paulo: Summus, 1995. CARVALHO, H. M. de. Da aventura à esperança: a experiência autogestionária no uso comum da terra. Curitiba, 1984. Mimeografado. CAPRA, F. O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. 26. ed. São Paulo: Cultrix, 1989. CAPRA, F. 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Alex Sandro da Silva 55 O AMBIENTAL E O HUMANO NA CONSTRUÇÃO DA REALIDADE: EXEMPLO DO AQUECIMENTO GLOBAL THE CONTRIBUTION OF ENVIRONMENT AND HUMAN ACTIVITIES IN CONSTRUCTION OF REALITY: THE EXAMPLE OF GLOBAL WARMING ALEX SANDRO DA SILVA ___________________________________________________________ Mestrando em Geografia (UFPR) E-mail: [email protected] Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. 56 O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. Alex Sandro da Silva 57 RESUMO A atual crise ambiental clama por uma reflexão que tenha por ponto de partida a própria natureza humana. A cultura criada durante séculos de busca por proteção colocou o homem numa encruzilhada de escolhas difíceis. Não se sabe o melhor caminho a tomar. Antes de qualquer decisão, é melhor realizar uma profunda ponderação – uma ponderação que acabe por criar uma nova realidade. A concepção de natureza passa a ser revista. Os atos humanos são repensados. As técnicas e as ideias do ontem se tornam empecilhos às mudanças necessárias. A natureza mostra novamente que não pode ser dominada. O homem se vê impotente diante de um cenário que ele mesmo criou. Que realidade surgirá daqui para frente? Que ideia de natureza será criada? Quais serão as ações do homem em face dessa realidade criada e recriada constantemente pela mídia. Este trabalho visa discutir a questão homem-natureza como uma relação representação-ação. Palavras-chave: homem, natureza, cultura, representação, realidade. ABSTRACT The current environmental crisis claims for a reflection that should begin of nature human being. The culture created in centuries of search for protection placed the man in crossroads of difficult choices. But there is not optimum way to take. Before any decision, is better to carry through a deep balance – this balance could create a new reality. The conception of nature could be reviewed. The human acts must be rethought. The techniques and the ideas of yesterday become troubles in the necessary changes. The nature confirms again that it cannot be dominated. The man sees impotent in front of a scene that was created by him. What the new nature ideas will be created to resolve these problems? This paper aims to situate the question about man and nature as an association between representation and action. Keywords: human, nature, culture, representation, reality. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. 58 O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. Alex Sandro da Silva 59 1 INTRODUÇÃO Neste início de século XXI, a natureza parece instigar de forma mais contundente o pensamento humano. Depois de pouco mais de dois séculos “controlando” a natureza, o homem, com seus equipamentos, sua indústria, sua vaidade, seus modelos numéricos, sua ciência e suas palavras, “descobre” novamente sua impotência. Um curto período de progresso agora coloca o homem numa encruzilhada: a decisão não pode demorar. Introduzindo o fio condutor deste trabalho, pode-se, de antemão, observar que uma decisão rápida seria difícil. O homem reage de acordo com seu conhecimento, e uma mudança em sua forma de agir deve seguir um lento processo de mudança em sua forma de pensar. Sendo assim, uma ruptura conceptual na forma de o homem atuar sobre a natureza deve ser precedida por uma mudança em seu universo simbólico. A sociedade do século XX, portadora de um sistema industrial dependente de recursos naturais, serve de exemplo. Somando-se à sentença “recursos naturais”, utilizada na frase anterior, outras duas expressões “desenvolvimento socioeconômico” e “escassez”, têm-se verdadeiros axiomas de construção da realidade econômica do século passado. O agir humano sobre o mundo está ligado ao modo com que o mundo é representado. A que conclusão se poderia chegar ao refletir sobre as sentenças destacadas anteriormente? Se a natureza é provedora de recursos naturais e se há escassez de alguns produtos, por que desenvolvimento social não atinge todas as pessoas? Permanecendo nessas sentenças, seria difícil compreender a natureza de outra forma, a não ser pela produção de conhecimento, ou melhor, com o uso de outros axiomas e, mesmo com a mudança no campo conceitual, não seria fácil modificar um sistema secularmente construído com base na concepção de uma natureza provedora. A produção de conhecimento vem demonstrando que o uso descontrolado da natureza, como um recurso, possivelmente está causando debilidade na saúde biológica do homem. Esse indício vem há algumas décadas impulsionando uma reestruturação na forma de o homem conceber a natureza. Os resultados dessa mudança podem ser vistos na importância que o meio natural ganhou nas discussões da academia, da política, da mídia e de toda a sociedade. Igualmente, uma organização social sem conhecimento científico não teria condições de compreender os efeitos de suas ações no meio Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. 60 O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade... natural, por exemplo, se a forma de plantio de uma sociedade primitiva causasse problemas de fertilidade no solo. Possivelmente, só os efeitos de desabastecimento e fome seriam observados, porém seriam facilmente considerados como castigo dos deuses. Hoje, mesmo portando conhecimento sobre os problemas ambientais, o homem encontra muita dificuldade em minimizar os impactos causados por suas atividades produtivas na natureza. Nos últimos anos, as questões relacionadas às mudanças globais são recorrentes nos meios acadêmicos. O debate epistemológico abriu e continua a percorrer um novo caminho na conformação de uma visão de natureza que ofereça um suporte metodológico de aproximação na sociedade. Assim, o emprego de meio ambiente fortemente ligado a uma concepção naturalista vem cada vez mais abrangendo as atividades humanas, mas não se desprendendo de suas raízes, em face da necessidade de enfatizar o envolvimento do homem na problemática ambiental, e cedendo lugar a uma visão socioambiental (MENDONÇA, 2002, p.125-126). Todavia, para um trabalho efetivo diante dos problemas ambientais, é necessário um esforço conjunto da ciência, da política e de toda a sociedade. A produção científica deveria ser a base e a inspiração das decisões governamentais, atingindo a sociedade como um todo e promovendo mudanças significativas. No entanto, isso existe apenas de forma ideal, pois não há uma sintonia entre esses universos. A discussão da ciência não vem oferecendo as respostas esperadas pelas instituições políticas, principalmente pelas questões econômicas e sociais envolvidas. Consequentemente sua relação acaba sendo conflitante com as instituições governamentais e financeiras. É preciso corroborar a afirmação de F. Mendonça (2002, p. 142), ao lembrar que a crise ambiental contemporânea demanda uma reflexão da sociedade e, particularmente, da ciência em relação ao caminho a ser seguido. Logo, espera-se desse momento de discussão uma acomodação das camadas de interesses políticos e econômicos. Possivelmente ocorram temores sobre os abalos que isso pode causar no meio cientifico, político e social, mas é importante essa reflexão para a elaboração de novas propostas ou mesmo respostas para a resolução da crise. Contudo, enquanto correm as discussões nos meios “competentes”, as pessoas acompanham a distância o desenrolar da discussão, criando suas teorias e organizando suas vidas de acordo com as informações que possuem. É válido ressaltar que são essas pessoas que vão operar as mudanças mais significativas na forma de agir sobre a Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. Alex Sandro da Silva 61 natureza e, não é tarde para lembrar que antes da ação é necessário reflexão, atualmente nem a política, nem a ciência podem de imediato impor uma realidade às pessoas, pois o real é construído lentamente no dia a dia. Os próximos três tópicos visam oferecer fomento para a realização de uma reflexão acerca da natureza sob a ótica da representação. A pretensão seria mostrar um espaço construído, tendo por base a própria natureza humana, as próprias massas pensantes, um mundo construído de ideias, de palavras e de ações, as quais são sedimentadas a partir da linguagem nas construções que subsidiam a existência humana. 2 NATUREZA, HOMEM E CULTURA A natureza, objeto para qual o homem dirige seu olhar, é base de seu sustento material e mental, não por ser um ente provedor de recursos, mas por ser um estímulo essencial à construção do conhecimento humano. A natureza por sua austeridade é propulsora das ações humanas na busca pela sobrevivência, pelo conhecimento, pela segurança e pelo seu próprio sentido de ser. O próprio sentido de homem parte de uma relação dele com a natureza. Um caminho interessante a se tomar no intento de vislumbrar essa relação pode ser encontrado no trabalho Ensaio sobre o homem, de Ernest Cassirer. Ernest Cassirer (2001, p. 47) considera o homem como um animal simbólico. Para defender essa tese, o autor parte das considerações do biólogo Uexküll, que considera que, para sobreviverem e se manterem em equilíbrio, todos os animais são portadores de um sistema receptor e um sistema efetuador, em que o primeiro é responsável por receber os estímulos externos, e o segundo é responsável por reagir a eles. Ernest Cassirer, porém, expõe que no homem há um sistema a mais. Entre o receptor e o efetuador há um sistema simbólico (figura 2b). Este seria uma forma desenvolvida pelo homem para se adaptar ao ambiente. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. 62 O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade... FONTE: SILVA, A., com base em Ernest Cassirer. Os animais em geral (figura 1a), quando recebem um estímulo externo, reagem automaticamente a ele. Já no circulo funcional dos seres humanos (figura 2b) existe um sistema a mais: o sistema simbólico, que é responsável pelo retardo que sofrem as reações humanas aos estímulos do ambiente, já que, antes de reagir a um estímulo externo, existe no homem um lento e complicado processo de pensamento. Sobre o retardo das reações humanas aos estímulos do ambiente, Ernest Cassirer (2001, p. 48) pondera: O homem não pode mais confrontar-se com a realidade imediatamente; não pode vê-la, por assim dizer, frente a frente. A realidade física parece recuar em proporção ao avanço da atividade simbólica do homem. Em vez de lidar com as próprias coisas o homem está, de certo modo, conversando constantemente consigo mesmo. Envolveu-se de tal modo em formas linguísticas, imagens artísticas, símbolos míticos ou ritos religiosos que não consegue ver ou conhecer coisa alguma a não ser pela interposição desse meio artificial. Para Ernest Cassirer (2001, p. 58-65), um símbolo faz parte do universo humano do significado; possui um valor funcional de designação de coisas, porém não são as coisas em si. O simbolismo oferece ao homem “[...] acesso ao ‘mundo ideal’ que lhe é aberto em diferentes aspectos pela religião, pela arte, pela filosofia e pela ciência.” (Ibid., p. 72). Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. Alex Sandro da Silva 63 Os símbolos são construídos pela força do espírito humano tendo por finalidade designar, dar significado às coisas ao redor. Um universo de símbolos seria o universo das representações construídas pelo homem na busca por compreender e adaptar-se ao ambiente. Dessa forma, o símbolo é a chave mágica para um mundo especificamente humano: o mundo da cultura. (Cassirer, 2001, p. 63). Considerando-se o posicionamento de Cassirer, o homem passa a relacionar-se muito mais com a cultura do que com a natureza. Ao formar sistemas de pensamento, os símbolos possuem poder de organizar o comportamento humano e de influenciar ou mesmo determinar a visão de mundo. O universo simbólico é tão importante para o homem que este passa a viver muito mais em contato com esse universo do que com a realidade física propriamente dita. Numa outra perspectiva, Paul Claval (2007, p. 12), expõe que o homem nunca está em contato direto com a natureza, pois este vive num meio artificializado, construído por um conhecimento historicamente produzido que serve de mediador entre as duas partes. O meio aparece como o lócus da produção cultural. A natureza nunca é apreendida em sua manifestação concreta, uma vez que é a partir de seu sistema simbólico que o homem constrói para si o significado do que vem a ser a natureza. Dessa forma, na relação homem-meio natural não há uma alteridade real, já que ao ser conhecida, ou significada, a natureza se torna uma construção simbólica, não sendo distinta do próprio ato humano de compreendê-la, classificá-la e identificála, porém sua autonomia é resguardada, estando seu aspecto sensível continuamente presente nas atividades relacionadas à manutenção da existência material. A manifestação sensível dessa autonomia da natureza em relação ao universo propriamente humano age constantemente como estímulo à construção simbólica da realidade, sendo assim responsável pela evolução do conhecimento e aprimoramento das técnicas. Em função desse constante estímulo, o homem aplica ao meio um mecanismo de simbolização e de ação. O resultado seria a organização socioespacial que, permeada pela cultura, passa a ser mais um fator na construção simbólica de toda a realidade dentro do conjunto natureza, espaço e sociedade. Essas interações, uma vez montadas, se tornam cada vez mais complexas, pois outras questões são constantemente somadas. O homem é sempre instigado a encontrar respostas, as quais, ao nascer Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. 64 O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade... de um universo simbólico previamente criado, podem ser capazes de alterar os rumos da história. 3 NATUREZA, REPRESENTAÇÃO E COMUNICAÇÃO Considerando a realidade como uma representação, torna-se necessário compreender um pouco do processo que engendra sua construção. No tópico anterior foi apresentado como o universo simbólico surge de uma necessidade humana de adaptação à natureza. Pôde-se vislumbrar que a criação simbólica da realidade se dá pela apreensão de um universo material, o qual se torna por isso uma representação. Essa representação, para Gil Filho (2005, p. 52-53), surge num processo simbólico de modelização, alicerçado em cinco pilares: I) Na primeira base, a tendência à representação está implícita. Contudo, não atinge sua plena realização, pois a representação, neste caso, é parte da forma e não sua projeção exterior. II) Ainda sob o aspecto sensorial, os campos visuais proporcionam diferentes perspectivas externas da imagem e sua realização estética e funcional. III) O terceiro alicerce de manifestação da representação pertence a seu aspecto intelectual sob a capacidade de modificação do ser perante a forma. Sob este aspecto, aproximamo-nos do limiar entre o aspecto puramente fenomenal e o metafísico. IV) Agregado ao intelecto, mas além de suas funções lógicas, há também as determinações da memória, que quando transcende as determinações individuais e atinge o estatuto do pensamento social marcado pela prática social permanece viva na sociedade enquanto imagem e memória coletiva. Como lembra Halbwachs (1975), a ideia e a imagem não representam elementos distintos de nossa consciência, como uma social e outra individual, mas prismas diferentes em que a sociedade contextualiza os objetos no conjunto dos parâmetros de seu devir. V) O quinto suporte corresponde à dimensão simbólica da representação, quando esta transpõe os limites da individuação e expressa a realidade de sua própria natureza. Torna-se o meio pelo qual se pode representar o totalmente diferente. Ao compreender o mundo como representação, a linguagem com que cada indivíduo reapresenta seu mundo interior se torna portadora de um poder capaz de alterar outras realidades. As trocas das “realidades” individuais se dão por meio da comunicação. Esta, além de ser o meio pelo qual uma representação se torna pública, é um fator decisivo na sua formação. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. Alex Sandro da Silva 65 Paul Claval (2007, p. 13), na introdução de seu livro A geografia cultural, caracteriza a linguagem ação socioespacial: “Agimos de acordo com aqueles que nos olham, aqueles a quem contaremos o que fazemos ou aqueles que escutaremos falar.” Considerando que a linguagem influencia na forma de as pessoas pensarem e se comportarem, a comunicação seria portadora de um poder capaz de moldar a organização de uma sociedade. Uma contribuição muito importante sobre a influência das representações na organização social foi dada por Èmile Durkheim (1994, p. 9-54). Ao estudar sociedades tradicionais esse sociólogo criou o conceito de representações coletivas paralelas às representações individuais. Durkheim (1994, p.9-54) divide as duas formas de representações entre os campos da psicologia e da sociologia, para este autor a sociologia deveria ater-se ao estudo das representações coletivas enquanto a psicologia ficaria responsável pelas representações individuais. Para Durkheim, as representações coletivas formam um tipo consciência independente e acima da natureza do individuo. A organização da sociedade estaria atrelada a essa consciência. Com base em Durkheim, S. Moscovici (2001, p. 61-63) cunhou o conceito de representações sociais que, diferente das representações coletivas, considera o individuo como um construtor da realidade social. As representações sociais são construídas pelos indivíduos a partir da comunicação. Ao contrário das representações coletivas, as representações sociais possuem um caráter dinâmico e são pertinentes a um mundo em constante transformação. Denise Jodelet (2002, p. 22) caracteriza representações sociais como “[...] uma forma de conhecimento socialmente elaborado e partilhado com um objetivo prático, e que contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social.” Intimamente ligados à forma é que os integrantes de uma sociedade comunicam suas ideias. Ainda segundo esse autor (2002, p. 22-30), a comunicação social, entendida sob sua configuração interindividual, institucional e midiática, “[...] aparece como condição de possibilidade e de determinação das representações e dos pensamentos sociais.” Denise Jodelet (2002, p. 22) argumenta que as representações sociais [...] enquanto sistemas de interpretação que regem nossa relação com o mundo e com os outros – orientam e organizam as condutas e as comunicações sociais. Da mesma forma elas intervêm Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. 66 O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade... em processos variados, tais como a difusão e a assimilação dos conhecimentos, o desenvolvimento individual e coletivo, a definição das identidades pessoais e sociais, a expressão dos grupos e as transformações sociais. [...] Como fenômenos cognitivos, envolvem a pertença social dos indivíduos com as implicações afetivas e normativas, com interiorizações de experiências, práticas, modelos de condutas e pensamento, socialmente inculcados ou transmitidos pela comunicação social, que a ela estão ligadas. Nunca, como hoje, houve uma participação tão grande da informação e da comunicação de massa na vida das pessoas. Ao falar sobre a interação homem natureza, atualmente tão cara à atenção da humanidade, é de suma importância refletir, a respeito dos problemas ambientais, sobre a realidade que estaria sendo construída pela sociedade. A teoria das representações sociais oferece um método rico na análise do comportamento socioespacial, comportamento esse que é fruto da estruturação simbólica do mundo atual, e a realidade que surgiu pela influência das mídias e das instituições é uma forte característica na sociedade da informação. 4 NATUREZA, CIÊNCIA, POLÍTICA, MÍDIA E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS Vive-se numa sociedade de grupos pensantes, e é no cotidiano que as ideias são criadas. São os indivíduos que constroem suas realidades, são eles que decidem por suas vidas. As pessoas aceitam ou não uma ideia, o consenso é construído lentamente a partir da comunicação. Característica marcante do homem, a comunicação, configura-se como um fértil objeto de estudo nas análises realizadas sobre a organização espacial. Sobre a natureza, tema deste artigo, pode-se afirmar que está passando por um processo profundo de ressignificação, construído pelos homens graças à informação. Só não se sabe que natureza surgirá de toda essa discussão que ocorre dentro da ciência da política e da sociedade. Essa interação gesta a cada dia novos modos de pensar e de agir sobre o espaço e pode ser estudada, como propõe S. F. Gil Filho (2005, p. 57), no âmbito de uma Geografia do Conhecimento, tendo as representações sociais como base conceitual. O estudo das representações pode auxiliar na compreensão das ações humanas e na construção do espaço geográfico. No campo da Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. Alex Sandro da Silva 67 Psicologia Social, W. Wagner (2003, p. 178) argumenta que a representação auxilia na explicação dos comportamentos sociais, pois o próprio comportamento é parte e conteúdo da representação social. São as representações sociais bases do convívio social. As ações do homem em relação à natureza, os conflitos culturais, étnicos e sociais estão, por exemplo, relacionadas à forma por que uma sociedade pensa a respeito de si mesma, às crenças existentes em seu meio político e econômico. As representações estão ligadas à cultura, à organização social e política de cada ponto do espaço. Elas são partilhadas no dia-a-dia pela população em seu convívio social ou pelos meios de comunicação de massa que a serve. Um exemplo disso é a representação de natureza que, uma vez alterada, ao atingir o conjunto de uma sociedade serve de respaldo às ações institucionalmente orquestradas em relação ao meio ambiente. Para ilustrar toda essa exposição, foi realizada uma pequena análise das representações sociais de natureza presentes nos jornais e nos sítios da internet, entre os meses de fevereiro a abril de 2008. Primeiramente. foram pesquisadas frases que faziam menção à natureza. Também foram realizadas análises nas matérias de jornais, cujo enfoque principal fosse um problema ambiental, e foi escolhido o aquecimento global. Na sessão de opinião, foram colhidos pequenos textos escritos pelos leitores do jornal. Foram analisadas 28 notícias de jornal, 11 textos enviados por leitores e 30 sítios da internet. Foi utilizado um método qualitativo na análise do material. Pautando-se na teoria das representações sociais, foram analisadas as possíveis ancoragens e objetivações existentes nos textos de jornal e na opinião dos leitores. Baseando-se em S. Moscovici (2003, p. 62-71), ancoragem pode ser considerada como uma categoria de algo não classificável, em que um grupo qualifica um fenômeno novo como pertencendo ou sendo determinado por outro fator mais conhecido, porém não familiar, por exemplo, dizer que a crise ambiental é causada pelos “norte-americanos”, “árabes”, “países desenvolvidos”, “governantes”, etc. A objetivação é dar substância a uma ideia vazia, é transformar um conceito desprovido de imagem em uma imagem concreta: natureza, no senso comum, está relacionada ao entorno e ao verde sem uma especificação, pode ser objetivada por “catástrofe natural”, “beleza natural”, etc. Nos textos veiculados na internet, raramente as palavras “ambiente” e “natureza” aparecem só. Elas sempre estão objetivadas. As imagens construídas pelas objetivações possuem temáticas em comum. A natureza Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. 68 O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade... aparece sempre como vítima de uma agressão, necessita ser protegida e legislada e possui um valor afetivo e estético. Verifique o quadro a seguir. FIGURA 1 - OBJETIVAÇÕES DE NATUREZA VEICULADAS NA INTERNET Observa-se que a forma de ação civil mais divulgada na proteção do meio ambiente está ligada ao protesto. Se olharmos para o quadro e começarmos a ler as diferentes frases rapidamente e efetuarmos raciocínios comuns (O quê? Por quê? Como? Onde? Quando?) sobre os conteúdos, poderemos chegar a várias ideias com temáticas em comum, como, por exemplo: “A natureza é vitima de exploração e necessita de defesa, afinal ela é nossa mãe. Temos que proteger a natureza! É bom estar junto dela, mas de quem é a culpa pelos problemas ambientais? E o governo? As pessoas não estão respeitando as leis ambientais? Mas por quê? Como mudar? O que eu poderia fazer?” Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. Alex Sandro da Silva 69 Nas notícias analisadas, os problemas ambientais são, na maior parte, ancorados no falta de ação política; poucas vezes são associados às questões econômicas; o interesse privado aparece pouco nas ancoragens. O aquecimento global é tratado frequentemente de duas formas. Uma delas está associada à divulgação das descobertas cientificas, cujos temas preponderantes são a comprovação do aquecimento e as previsões de catástrofes. O problema mais veiculado está relacionado às reuniões internacionais, que são centradas na discussão dos governantes. Das 28 notícias analisadas, 17 ancoram a gravidade dos problemas ambientais na falta de vontade política dos governantes internacionais. Algumas delas apresentam as indústrias e o crescimento econômico como sérios fatores, porém não há um aprofundamento nas discussões e, quando os relacionam aos problemas de gerenciamento governamental, acabam por minimizá-los. Em menor escala são reportados os protestos de ambientalistas. A veiculação dessas notícias abre a possibilidade de as pessoas representarem os problemas ambientais como preponderantemente políticos. Consequentemente os problemas reais de não-sustentabilidade dos modelos econômicos acabam sendo esquecidos pela população. É interessante observar como a representação do aquecimento global fica atrelada à representação de poder. Nas noticias dos jornais parece haver implicitamente uma superestimação do poder dos governantes em relação aos problemas ambientais. Os políticos são investidos por um poder de decisão tal que o aquecimento global aparenta ser um problema de fácil resolução por meio do consenso entre as nações. No próximo quadro há uma síntese dos principais temas abordados pela mídia eletrônica sobre o aquecimento global. Nota-se que os temas estão relacionados à consequência do aquecimento sobre a sociedade e não às suas causas. Pode-se subentender que as causas não são tão divulgadas por já serem tidas como fatos comprovados cientificamente. A saída para o problema ambiental fica atrelada à diminuição das emissões de CO2 e proteção das florestas remanescentes, que só poderiam ser operacionalizadas pelos governos. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. 70 O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade... FIGURA 2 - AQUECIMENTO GLOBAL NA IMPRENSA ELETRÔNICA No imediatismo das noticias de jornal, está criando-se no cotidiano uma realidade de aquecimento global causado, sobretudo pela emissão de CO 2. Os governos poderiam reverter a situação com políticas ambientais, mas, da mesma forma que são levantadas as previsões de desastres ambientais futuros, não são mostrados os entraves econômicos e sociais que envolvem tais decisões, as ;consequências sociais e os interesses que estão em jogo não são abordados. Na página da seguinte notícia, disponível em Folha Online, http:// www1.folha.uol.com.br/folha/ambiente/ult10007u377161.shtml, em 29/2/ 2008, havia um fórum, em que os leitores poderiam escrever sobre o que eles pensavam a respeito da mudança climática. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. Alex Sandro da Silva 71 No intuito de fazermos uma breve verificação, montamos um quadro onde foram organizadas e classificadas as ideias dos leitores do Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. 72 O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade... jornal. Visamos analisar se a forma que os leitores representam o tema condiz com a forma que o jornal eletrônico o veicula. FIGURA 2 - OPINIÃO DOS LEITORES DE FOLHA ONLINE Na opinião A, o aquecimento global aparece como resultado do crescimento populacional. Nesse discurso há uma teorização a respeito das causas do aquecimento, e a possível solução, para esses leitores, a saída para o aquecimento fica atrelada a um controle de natalidade. Está implícito que para operacionalizar essa solução são necessárias ações políticas e governamentais, pois “controle de natalidade” e “educação” representam ações de responsabilidade do poder público. Na opinião B, o leitor age como um motivador. Ele argumenta que, se todas as pessoas se unissem, o problema ambiental seria amenizado. Aqui a causa é ancorada em parte na sociedade, por não apontar aos órgãos competentes os responsáveis pelos danos ambientais, por exemplo: “...denunciando o desmatamento predatório de nossas florestas...”; por outro lado, a solução definitiva também é relacionada a uma ação governamental. O descaso dos governantes e dos grandes industriais com a população mais pobre aparece na opinião C. O leitor ancora o problema ambiental na falta de ação dos políticos e empresários. Os interesses desses grupos são considerados os grandes vilões. A opinião D segue uma linha parecida, mas se difere ao considerar que a discussão sobre o aquecimento global é uma forma de desviar a atenção das pessoas dos problemas reais causados pelo sistema capitalista. O aquecimento global é uma farsa. A opinião E é a mais compartilhada. Ela demonstra de forma explicita o que está implícito nas outras opiniões. Os leitores ancoram o aquecimento global nas decisões políticas, ou melhor, na falta de interesse dos governantes. Os encontros internacionais são vistos com desconfiança: “será que os acordos sairão do papel?” Em todas as opiniões, o poder político é tido como o maior vilão do aquecimento global. Ao mesmo tempo é cobrado como o único com poder de ação para amenizar a crise. As questões de produção e de organização social e econômica ficam em segundo plano. Apenas uma das opiniões trata a economia como um fator importante. As representações sociais de aquecimento global, contidas nos textos de jornal e nas opiniões dos leitores, estão ligadas intimamente às Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. Alex Sandro da Silva 73 representações sociais de poder político. Ao cobrarem dos governos alguma solução, as pessoas dão legitimidade e credibilidade ao poder do Estado, depositam confiança na eficácia das ações perpetradas pelos políticos, pois fica implícito nas discussões que somente eles seriam capazes de resolver os problemas. Só não fica claro como isso seria feito, fato que pode ser vislumbrado nas teorizações ou na indignação dos leitores. Todavia, a representação social de legitimidade e autoridade do poder político continua intacta. O aquecimento global é divulgado como um fenômeno ameaçador à população, sendo causado pelo tipo de relacionamento que a sociedade mantém com o meio natural. Essa leitura do aquecimento global pode desdobrar-se numa ressignificação de natureza. Se antes era vista como um recurso a ser explorado, seria agora um organismo a ser preservado, a ser cuidado pela sociedade. No entanto, isso não ocorre por causa das estruturas construídas pela materialização das ideias de desenvolvimento socioeconômico, recursos naturais e escassez que ainda operam na organização econômica e social, havendo um descompasso entre essas novas ideias, essas novas necessidades em relação às estruturas construídas para satisfazer as necessidades de tempos anteriores. Isso vem reiterar a posição já defendida de que, ao se encontrar com a austeridade da natureza, o homem com sua inerente fragilidade é estimulado a buscar proteção. Para tanto, são necessárias respostas. O primeiro lugar de busca seria seu próprio universo simbólico, sua cultura, sua ciência. Uma vez encontradas respostas, numa sociedade como a atual, elas entram num jogo de comunicação e discussão visando a um consenso que, por sua vez, gera uma ação. Nem sempre se chega ao consenso de forma harmoniosa já que muitas vezes se apela para mecanismos coercitivos. O que se tenta destacar é que o homem envolvido num clima de insegurança é forçado a mudar suas atitudes em relação ao meio. Para isso, se torna necessária primeiro uma mudança em seu universo simbólico, porém tais mudanças não são rápidas, pois dependem de um processo de reflexão e de comunicação. É o que ocorre hoje em relação às mudanças globais. Essa exposição procurou apresentar, com base no estudo das representações, como está sendo criada a “nova natureza”, a nova forma de entender a natureza e principalmente de agir sobre ela. Os alarmismos sobre o aquecimento global podem auxiliar a construir uma visão de natureza que é incongruente com a visão de natureza, sob a qual foi Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. 74 O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade... embasado o sistema de organização econômica e social da sociedade do século XX. No entanto, ancorando a solução do aquecimento global nas decisões governamentais, parte da sociedade joga a responsabilidade em conter o aquecimento sobre o poder político, o que acaba por minimizar a ação das indústrias e da organização social, as quais seriam as principais responsáveis. A saída para o aquecimento global não fica atrelada a uma mudança nos padrões de produção, de consumo, da matriz energética ou numa reorganização da sociedade, pois no pensamento social e midiático, por mais que pareça estranho, o grande problema não é a destruição da natureza ou o gás do efeito estufa, mas o dissenso dos governantes a respeito dos problemas ambientais. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS No presente trabalho, procurou-se apresentar a interação homemnatureza como a propulsora da construção dos conceitos norteadores das sociedades, pois sustenta-se que, em face da hostil natureza circundante, a necessidade de manter a vida provoca no homem reações de simbolização e ação, ou melhor, da construção de representação. Aponta-se que a construção do espaço seria realizada pelo contato homem-natureza no universo de símbolos produzidos por essa interação. O espaço seria constantemente modificado e ressignificado nas mudanças do universo cultural. Assim a contínua construção da organização socioespacial seria engendrada num constante processo de retroalimentação entre a natureza, o homem e o universo simbólico, e a força motriz de toda a engrenagem seria a necessidade de o homem suprir suas necessidades existências, tanto materiais quanto simbólicas em busca de segurança. Na seqüência, procurou-se demonstrar como a construção da realidade influencia na organização socioespacial e como o ato de representar pode ser entendido por ato de criação e ressignificação da realidade. Buscou-se relacionar a exposição às questões ambientais que, enquanto são debatidas no âmbito científico, são alvos de discussões políticas e sociais mediadas pela comunicação de massa Procurou-se expor que a essas discussões pode sobrevir a criação de uma nova forma de a sociedade pensar/agir sobre a natureza. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. Alex Sandro da Silva 75 O aquecimento global é um dos assuntos mais debatidos nas mídias atuais. Escolheram-se as noticias de jornal pela representação de compromisso com a realidade que os leitores constroem a respeito desses veículos de comunicação. Realizou-se a análise das noticias baseadas na teoria das representações sociais. Às representações sociais de aquecimento global na mídia foram reunidas as opiniões dos leitores do jornal, pelas quais se objetivava exemplificar o processo de criação de uma realidade. As considerações são simpáticas à necessidade de um maior aprofundamento nessa análise para se vislumbrar um universo maior de possibilidades, porém já é possível considerar que a representação de aquecimento global está intimamente ligada à representação de poder. A natureza atualmente é objetivada como um ente em constante agressão. Todavia, ao representar problemas ambientais sob um foco político, as pessoas não parecem considerar suas ações como fato relevante, tanto na causa como na solução da crise ambiental. Uma solução definitiva foge da alçada das pessoas “comuns”, já que se ligam às decisões políticas e aos órgãos competentes. A sociedade institui os aparelhos políticos como o meio decisivo no combate aos danos que levam ao aquecimento global. Essa forma de representar superestima o poder das ações dos governos, desviando o foco do problema para as discussões políticas. A saída para o aquecimento fica atrelada ao consenso entre as nações, entretanto raramente é tratado como seria realizada uma ação eficaz para amenizar o problema. Não se pretende afirmar que os governantes não possuem poder para provocar mudanças, afinal são eles os representantes de toda a sociedade mundial. O que se tenta mostrar é como se está formando a ideia de que os políticos poderiam amenizar o aquecimento global rapidamente, como se em um passe de mágica pudessem mudar toda a relação de produção e consumo da sociedade. Não se entra no mérito da discussão teórica sobre as causas do aquecimento global. O fato é que, na construção dessa realidade, em que o aquecimento global está sendo causado pelas ações humanas, grande parte das notícias e da sociedade espera que os governos resolvam o problema, sem, contudo, compreender ao certo como isso seria realizado e o que isso implicaria para suas vidas. Ainda não há um cenário de previsão no que essas discussões vão resultar. O que poderia já ser refletido é a incompatibilidade desse novo modo de considerar a natureza. Com a forma da economia e da sociedade se organizar, poderíamos nos perguntar se a mudança nesse universo simbólico pode causar uma grande transformação na forma de Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 55-77, 2009. 76 O Ambiental e o Humano na Construção da Realidade... construção do espaço, pois, apesar de não haver certeza sobre as catástrofes naturais que o aquecimento global pode trazer, ao considerar as atividades humanas, sobretudo econômicas como o grande causador do problema, a necessidade humana de proteção poderia provocar grandes reviravoltas na organização da sociedade. Os grandes entraves para uma mudança, como já se observou, atualmente seriam as já cristalizadas formas de o homem organizar a sociedade e a economia, as quais viriam a ruir, se não já satisfizessem a necessidade humana de proteção, tanto material quanto simbólica. Apenas o desenrolar das discussões e os cenários futuros dirão o que vai acontecer, já que ainda não há certeza das reais causas do aquecimento global e de seus reais efeitos. O certo é que, em momentos de crise e em cenários ruins, o homem, se sentindo em perigo, procura proteção tanto material quanto psicológica. Para a ciência geográfica essa discussão é importante, pois abre a possibilidade de se saber como os problemas que envolvem toda a sociedade ganham novos significados em universos diferenciados. O problema da natureza, tão discutido na academia, também é discussão na sociedade, mas é representado de forma diferente. A construção social do conhecimento, que se abordou aqui, abre possibilidade para se entender melhor as mudanças que uma sociedade provoca no espaço, principalmente por serem, em última instancia os operacionalizadores de intervenções socioespaciais. REFERÊNCIAS BETTANINI. T. Espaço e ciências humanas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982 CASSIRER, E. 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Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009. 80 O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009. Marcos Paulo Ferreira de Góis 81 RESUMO Este artigo trata de alguns apontamentos acerca do conceito de território e sua relação com o processo de urbanização, promovido pela atividade turística. A título de demonstração, será apresentada a influência do poder público na territorialização do Turismo no município de Angra dos Reis, RJ. Palavras-chave: turismo, território, políticas públicas, urbanização. ABSTRACT This paper aims to present some reflections about the concept of territory and your relation with urban processes promoted by tourism. As a demonstration we would like to present the role of public administration in Tourism territorialization of Angra dos Reis-RJ. Keywords: tourism, territory, public policy, urbanization. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009. 82 O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009. Marcos Paulo Ferreira de Góis 83 1 INTRODUÇÃO As relações entre Turismo, território e política de Estado já são bem conhecidas e constam em uma farta bibliografia sobre Turismo nas ciências sociais. Seria prolixo apresentar tamanha discussão em tão breve espaço, o que fugiria até mesmo das pretensões deste singelo artigo. Mesmo no caso de Angra dos Reis, nossa área de estudo, já existem algumas reflexões acerca do papel do poder público na promoção do Turismo, mas nenhuma delas se detiveram a seu aspecto territorial. Dessa forma, o principal objetivo aspirado no presente ensaio é entender o processo de territorialização do Turismo, ou melhor, o processo de produção do espaço turístico no município de Angra dos Reis e a importância dos recursos territoriais (naturais e socialmente construídos) para o desenvolvimento do Turismo no município. Acredita-se que a maior contribuição deste artigo poderá ser a introdução de uma abordagem espacial para a compreensão do desenvolvimento do Turismo enquanto uma forma de territorializar o espaço. Nesse sentido, territorialização significa ocupação, organização, produção e consumo do espaço por uma atividade social que, nesse caso, seria o Turismo. Nota-se que o caso de Angra dos Reis é exemplar nesse sentido e pode muito bem expressar o modelo de territorialização que se pretende demonstrar. Angra dos Reis possui características turísticas clássicas que bem representam a imagem do Brasil: praias, sol, ilhas, montanhas, floresta, etc. Além disso, sua localização privilegiada “a meio caminho” das duas principais metrópoles brasileiras (Rio de Janeiro e São Paulo), facilitada pela construção da estrada Rio–Santos (BR-101), propiciou o acesso das classes média e alta das duas cidades. E, afinal, o Turismo em Angra dos Reis foi altamente incentivado por medidas estatais centralizadas e ligadas aos interesses nacionais durante as décadas de 70 e 80. Na expectativa de cumprir os objetivos auspiciados, procura-se estabelecer um arcabouço teórico-metodológico relativo aos conceitos de território e urbanização, tendo em conta o papel do poder público no processo de produção do espaço turístico e dos contrastes derivados de suas ações. O modelo de territorialização gerado forneceu os subsídios necessários para se pensar o caso de Angra dos Reis e identificar ações do poder público que, desde a década de 50, tenham afetado diretamente na produção do espaço turístico local. Desse modo, foi elaborada uma metodologia pautada no exame crítico de políticas de Turismo nos três níveis federativos que afetaram o município de Angra dos Reis. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009. 84 O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ... Posteriormente, foi estabelecida uma relação entre as políticas de Turismo e a política urbana desenvolvida na cidade, após a redemocratização do País e a eleição de um corpo administrativo local. 2 DIMENSÃO TERRITORIAL DO TURISMO Um dos temas que nos últimos anos tem despertado o interesse dos geógrafos é o Turismo. Sua prática se tornou global depois do fim da II Guerra Mundial e somente foi possível por meio do incremento tecnológico nas áreas de comunicação e de transportes. O interesse dos geógrafos sobre esse tema é bastante diversificado e se apoia em propostas teóricas, metodológicas, filosóficas e políticas distintas. Em relação ao território, os geógrafos estudiosos do Turismo se dedicaram, em geral, ao entendimento das políticas estatais de gestão e organização do espaço turístico. Essa preocupação se tornou inclusive uma tradição nos estudos do Turismo por geógrafos brasileiros, como Adyr Rodrigues e Rita de Cássia Cruz. Recentemente, o papel de outros atores no desenvolvimento do Turismo e na transformação do território pelo Turismo tem sido realçado. Esse movimento vai ao encontro do campo reflexivo instaurado acerca do conceito de território na contemporaneidade, o qual se apoia em uma visão mais abrangente do conceito, envolvendo uma pluralidade de agentes sociais em meio ao território, não visto mais como apenas um receptáculo ou substrato material estável. Apesar de tal constatação ser verdadeira, não se pode ignorar o papel central do Estado na vida social moderna e sua forte atuação sobre setores econômicos e atividades como o Turismo. Não se trata aqui de ignorar a atuação de outros atores sociais, mas de entender o Estado como um importante ator, talvez o mais relevante nas mudanças espaciais (RÜCKERT, 2005). Isso implica o direcionamento de nossas questões sobre o território e sua dimensão socioespacial, sua qualidade enquanto conceito explicativo. Nesse caso, concebe-se o território como um espaço delimitado por relações sociais e relações entre sociedade e recursos naturais, o que abrange as dimensões biológica, política, cultural e econômica da vida em sociedade (HAESBAERT, 2006). Essa visão integradora do conceito de território nos habilita a tentar explicar as facetas do processo de territorialização com base nas políticas territoriais do Estado. Políticas territoriais abrangem uma concepção do espaço, uma estratégia de intervenção na estrutura territorial e meios Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009. Marcos Paulo Ferreira de Góis 85 capazes de viabilizar essas políticas (COSTA, 1989). Assim, nossas preocupações recaem sobre os instrumentos de intervenção do Estado em seu território, seja na escala nacional, seja na escala local. No nosso caso, nos esforçaremos em entender as implicações de políticas territoriais locais e nacionais em um recorte territorial pequeno. Mas esse espaço adquire as qualidades impostas pelo jogo político de outras escalas. Políticas territoriais envolvem, assim, de um lado a manipulação dos recursos espacialmente dispersos no território e, por outro, as estratégias de seu uso para o beneficiamento das atividades humanas. Dessa maneira, o Estado se torna um gestor fundamental do espaço social e possui o poder de alterar características locais e regionais em prol do desenvolvimento de algumas áreas e setores da sociedade. Isso tem implicações socioespaciais evidentes que exprimem os conflitos de interesses entre os distintos atores sociais envolvidos, o que denota a forte dimensão política do território, um produto produzido por meio de relações de poder espacialmente delimitadas (SOUZA, 1995). No Turismo brasileiro, as políticas territoriais adquiriram a característica de uma modalidade industrial, sobretudo pela transposição do modelo empresarial-industrial em voga nas décadas de 50 e 60. O modelo desenvolvimentista adotado pelos países de economia atrasada, fortemente fundamentado no fordismo, tentava reproduzir as etapas de evolução econômica dos países desenvolvidos, mesmo que sem o sucesso alcançado por estes (sobre esse tema ver LIPIETZ, 1987). Em relação ao Turismo pode-se observar que houve uma estratégia de segmentação da oferta e a construção de um modelo aplicável a todo o País, no qual o Estado tentou dotar algumas localidades de infraestruturas que serviriam de sustentáculo ao modelo de Turismo urbano em hotéis. As políticas de Turismo podem, assim, ser entendidas como territoriais e estratégias de controle e de construção de um modelo de desenvolvimento turístico sobre porções do território nacional – uma outra forma de gestão do espaço nacional. Esse modelo de gestão do Turismo, entretanto, só foi mais bem elaborado depois de 1966, com a definição da primeira política nacional de Turismo, o que possibilitou o planejamento e a implementação de projetos em áreas dotadas de recursos territoriais (naturais e históricos) teoricamente atrativos (CRUZ, 2000). Os recursos territoriais fazem parte da configuração territorial, que foi conceituada por Milton Santos (2008, p. 83) como “[...] o território mais o conjunto de objetos existentes sobre ele; objetos naturais ou objetos Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009. 86 O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ... artificiais que a definem.” A configuração do território nacional foi um fator determinante para o planejamento do Turismo brasileiro concentrado nas áreas costeiras, porque algumas áreas do território brasileiro foram selecionadas e direcionadas para “públicos” distintos, ou seja, quanto mais valorizados fossem os atributos territoriais de uma determinada área mais seletivo seria o uso delas, o que expõe o caráter marcadamente funcional que o território adquire em alguns momentos na política estatal. De qualquer forma, a dimensão material do território só possui algum significado se unida às práticas sociais específicas desse território. Qualquer estudo que absorva apenas a dimensão material do território corre o risco de tomar a forma pelo conteúdo e dotá-la de uma autonomia que ela não possui (CORRÊA, 2002). Se compreendermos o território em uma visão integradora (HAESBAERT, 2006), podemos apontar que toda atividade socioeconômica possui uma dimensão territorial. Desse modo, a localização ainda é importante para toda e qualquer atividade humana, o que, obviamente, absorve o Turismo e suas políticas. Assim, devemos destacar dois princípios que norteiam as discussões sobre a dimensão territorial do Turismo e que estão diretamente ligadas à localização. O primeiro deles nos informa que o Turismo é uma atividade fortemente territorializada, uma vez que os recursos territorialmente localizados se tornam cruciais para o estabelecimento da atividade turística: os recursos naturais e históricos que cada localidade dispõe. Por se tratar de atividade fortemente territorializada, em função da dependência dos atributos territoriais (STORPER, 1994), o Turismo encontra-se profundamente vinculado às medidas de gestão do território, portanto é constantemente o objeto de interesse de projetos e programas estatais. Em um contexto mais amplo, esses atributos territoriais se tornam o próprio do Turismo – um fator de diferenciação em relação a outras localidades, dentro de um cenário contemporâneo de grande competitividade entre lugares (CRUZ, 2000; FONSECA, 2005). O segundo princípio que direciona nossas atenções à relação entre Turismo e território é o que nos informa que o Turismo é uma atividade territorializadora. Entende-se a territorialização como um processo, em que uma atividade promovida pela confluência de interesses de diferentes atores sociais constrói uma marca no espaço, seja materializada ou inscrita no imaginário social. O Turismo é uma atividade territorializadora, já que sua “natureza” exige o consumo e a criação de espaço, pois se estabelece com o crescimento espacial e com o desenvolvimento ou com o aproveitamento criativo de amenidades sociais e naturais. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009. Marcos Paulo Ferreira de Góis 87 A forma mais bem-acabada de territorialização do Turismo se fez por meio da urbanização, e o caso brasileiro é exemplar. De um lado, o estabelecimento do Turismo no Brasil em áreas costeiras se beneficiou de uma malha urbana desenvolvida durante séculos, o que facilitou, de certo modo, a polarização em certas áreas e o fluxo de turistas. Por outro lado, o Turismo propiciou o surgimento de cidades ou, como na maioria dos casos, o alargamento do espaço urbano para áreas adjacentes. Como muito bem aponta Rita de Cássia Cruz (2000), a relação entre Turismo e urbanização ocorre em três situações: quando o urbano antecede o Turismo, quando urbanização e turistificação ocorrem ao mesmo tempo e quando a urbanização ocorre posteriormente ao aparecimento do Turismo. Independentemente das situações comentadas, há uma centralidade na relação entre Turismo e urbanização, principalmente nos casos em que o Turismo é a atividade propulsora do crescimento urbano, a que daqui por diante daremos o nome de urbanização turística. A urbanização turística introduz uma marca diferenciada nas cidades, construindo amenidades e evidenciando características típicas da localidade. O poder público, nas diferentes escalas, introduz a cidade no mercado turístico – doméstico ou internacional – com atrações peculiares, ao passo que dota a cidade de um aparelho urbano moderno. Isso, segundo Maria Tereza Duarte Paes Luchiari (2001, p. 23), proporciona aos turistas “[...] a superação do estranhamento ao meio social e natural local, mas [introduzindo], muitas vezes, uma materialidade que não se comunica com o cotidiano do lugar.” De um lado, há a busca pela aventura, pelo inusitado, pelo autêntico; de outro, o desejo do conforto e da segurança que nutre os empreendimentos de hospedagem do tipo resort. Existem, concomitante e contraditoriamente, valorização estética das paisagens naturais e produção de paisagens urbanas (modernas ou patrimoniais). As duas em conjunto formam a imagem e o mito de um meio ambiente aprazível – uma forma-conteúdo atraente para as cidades e para os turistas (LUCHIARI, 2001). Acredita-se que a configuração territorial de uma cidade turística se deva em grande parte a essa nova realidade materializada mediante a urbanização turística. Novos fixos são construídos em razão da necessária aparelhagem do território de estruturas capazes de sustentar os fluxos de turistas. Além disso, há a criação de “benesses para o olhar”, frutos da preservação de atributos antigos ou da construção de atributos novos, fundamentais para a atração desses fluxos, e que compõem o escopo de Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009. 88 O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ... alguns dos projetos urbanísticos locais. Supõe-se que seja dessa forma que a territorialização do Turismo se faz mais presente, ao construir marcos territoriais, referenciais simbólicos e materiais da presença de uma atividade catalisadora dos investimentos sociais. Mas importa demonstrar que a territorialização do Turismo não preenche somente o espaço visível, as construções humanas, os marcos estabelecidos. O processo de territorialização absorve o imaginário social, criando uma nova lógica simbólica nos lugares, ao eleger valores e marcas de uma localidade em detrimento de outros valores e símbolos sociais que antecederam esse processo. Há na conquista simbólica uma outra faceta do processo de territorializar. Não se pretende afirmar com isso que o Estado tenha a capacidade de construir valores sociais. O que se enuncia é que toda sociedade tem a capacidade de se auto-organizar material e imaterialmente e que esse processo só é possível através do tempo. Os valores só se modificam quando há uma mudança nos elementos materiais que compõem a sociedade. Para que isso ocorra, deve haver uma mudança na forma de se pensar o ser e o fazer social, ou seja, é um processo dialético entre razão e técnica, o qual decorre no tempo e se inscreve no espaço. Em resumo, a territorialização só se torna possível pelo domínio e pelo controle social de um espaço e da criação de um imaginário sobre esse espaço social. Por mais clara que seja a concepção de que a sociedade é composta de diferentes grupos, acredita-se que sempre haverá uma forma mais ampla de domínio simbólico que cria uma unidade na diversidade. Esse domínio simbólico não é fruto do controle hegemônico do Estado ou de qualquer outro agente social. Na verdade, considera-se que tal unidade seja forjada nas relações entre os diversos atores sociais, nos conflitos políticos e ideológicos, bem como no desequilíbrio de forças entre as partes que constituem a totalidade socioterritorial. Acredita-se que esses princípios teórico-metodológicos sobre território e política, território e Turismo e território e urbanização foram suficientes para amparar o exame do papel do poder público na territorialização do Turismo na cidade de Angra dos Reis. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009. Marcos Paulo Ferreira de Góis 89 3 TERRITORIALIZAÇÃO DO TURISMO EM ANGRA DOS REIS Para fins de localização, Angra dos Reis é um município do Estado do Rio de Janeiro e está incrustado entre as elevações costeiras da Serra do Mar e o Oceano Atlântico. Sua paisagem é caracterizada pelo relevo recortado por dezenas de pequenas praias e um conjunto de ilhas, dentre as quais a Ilha Grande se destaca por sua história e monumentalidade. O município passou por diversos períodos de crescimento, estagnação e declínio econômico e social, sendo uma importante cidade portuária até meados do século XX e importante cidade industrial e turística na atualidade. Sobre o Turismo, tema de nosso estudo, pode-se considerar que suas características atuais foram desenvolvidas com o planejamento territorial do Estado-nação brasileiro e com a construção, por agentes privados do capital imobiliário-turístico, de áreas exclusivas para o Turismo. Ainda na década de 70, o Embratur promoveu em um de seus projetos (Projeto Turis) a classificação das localidades ao longo da recémaberta BR-101, estrada que ligava na época o Rio de Janeiro ao município de Santos. Nesse projeto, Angra dos Reis foi classificada como município de praias de qualidade A, voltado para o Turismo de alto nível (ALVES FILHO, 2004). As razões dessa classificação encontravam-se na seleção de alguns atributos da configuração territorial de Angra: praias, ilhas, mar calmo, mata atlântica, etc. As valorizadas características da paisagem angrense preenchiam os requisitos do Projeto Turis e forneciam os subsídios para a orientação da localidade para fins de Turismo náutico. Desde então, Angra dos Reis concentra um grande número de empreendimentos turísticos, como condomínios, hotéis, marinas, helipontos, etc. Cabe salientar, porém, que em boa medida o processo de territorialização do Turismo não se desenvolveu sem conflitos com territórios tradicionais que levaram anos para se formar em Angra dos Reis. Com a abertura da estrada BR-101, houve um intenso processo de especulação fundiária, na forma de um modelo de ocupação do solo que visava antecipar os lucros futuros com a reversão do uso rural do solo para o uso urbano. Esse processo foi corretamente analisado por Paul Singer (1979, p. 23) como um mecanismo de mercado no qual a “[...] valorização da gleba é antecipada em função de mudanças na estrutura urbana que ainda estão por acontecer [...]” Esse modelo foi amplamente ratificado por proprietários agrícolas da região que, com a abertura da BR-101 e as promessas de desenvolvimento econômico, mantiveram Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009. 90 O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ... grandes trechos de terra improdutiva às margens da nova estrada à espera de valorização. Essas terras foram progressivamente incorporadas ao uso urbano, seja por meio do loteamento realizado pelos antigos proprietários rurais, seja pela incorporação de terras por agentes imobiliários. Os trechos mais bem localizados à beira-mar foram adquiridos para fins de lazer e entretenimento turístico, enquanto para as áreas localizadas no interior do município os usos urbanos foram diversos. Na consecução da territorialização do Turismo, outro fator importante para a paulatina urbanização do município foi o processo de invasão-sucessão – conceito muito bem descrito por Roberto Lobato Corrêa em seu livro Trajetórias geográficas (2005) –, instaurado pela substituição das habitações da população tradicional caiçara por um conjunto de formas e funções urbanas ligadas ao Turismo exclusivo. Novos moradores permanentes ou temporários se instalaram nessas áreas e tal mudança na característica do local gerou efeitos sociais e ambientais importantes. Primeiramente, a introdução da atividade turística em Angra dos Reis gerou, como forma-conteúdo, a ocupação da estreita faixa litorânea, nas praias mais valorizadas e pouco habitadas. Talvez os melhores exemplos desse processo sejam condomínios (resorts), como Porto Frade e Portogalo, construídos ao longo da década de 70 e copiados nas décadas seguintes por outros empreendimentos similares. A segunda face do amplo processo de territorialização do Turismo foi a crescente ocupação das áreas pouco valorizadas na parte interior do município, como os morros do centro da cidade e as estreitas áreas de planícies aluvionais loteadas, principalmente nas localidades de Jacuecanga, Monsuaba, Mombucaba e Japuíba (MACHADO, 1995). Houve, dessa forma, um acelerado processo de urbanização, caracterizado pelo crescimento de habitações irregulares e pela precarização das condições de habitabilidade em Angra dos Reis, recobrindo as áreas próximas ao centro do município e as áreas anexas aos condomínios de luxo. Esse processo ocorre desde a década de 50, tendo como um outro fator importante a ocupação dessas áreas por pessoas que trabalharam na construção de diversos empreendimentos, como o estaleiro holandês Verolme (entre 1959 e 1969), a estrada Rio–Santos (BR-101, entre 1970 e 1974), o terminal petrolífero da Petrobras-TEBIG (1977) e as usinas nucleares de Angra I e II (FILHO, 2004). A construção desses empreendimentos altamente consumidores de espaço e a viabilização do Turismo desde a década de 70 proporcionaram um relevante incremento Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009. Marcos Paulo Ferreira de Góis 91 populacional ao município, o qual cresceu a partir dessa década a taxas superiores a outras áreas do Estado do Rio de Janeiro (gráfico I). Nesse período, Angra dos Reis era uma área de grande visibilidade nacional e também o objeto de várias intervenções estatais de importância estratégica para a nação brasileira. As medidas políticas locais tinham pouca relevância na constituição do território; pelo contrário, os munícipes encontraram até a década de 90 muitas dificuldades para estabelecer um marco regulatório que beneficiasse o município (BERTONCELLO, 1992). Desse modo, a territorialização do Turismo foi promovida por medidas centrais de gestão do território. A gestão do Turismo pelo Embratur criou um modo de ser do Turismo com áreas exclusivas direcionadas para as classes média e alta das principais metrópoles nacionais – Rio de Janeiro e São Paulo – e para o Turismo internacional. Ao mesmo tempo, a gestão centralizada do Turismo se apropriou dos recursos territoriais locais para criar uma marca para a localidade. Os recursos territoriais presentes em Angra dos Reis e muito valorizados na modernidade – natureza abundante com a presença de praias, ilhas, floresta, etc. – foram fartamente utilizados no intuito de gerar uma marca para a localidade e atrair os fluxos de turistas desejosos de uma localidade idílica e aprazível. O Turismo proporcionou a retomada do desenvolvimento econômico para o município, o que ficou claro no ritmo acelerado de investimentos ao longo das últimas quatro décadas. Além disso, a Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009. 92 O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ... expansão das áreas urbanas demonstrava uma mudança em relação ao padrão agrário anterior. O setor primário perdeu constantemente importância no cenário local e foi paulatinamente substituído por atividades industriais e do setor de serviços. Contudo, o desenvolvimento econômico não propiciou o desenvolvimento social. A rápida expansão da malha urbana na forma de um arquipélago (sítio caracterizado pelo relevo recortado com poucas áreas de baixada para a ocupação humana) implicou grandes dificuldades na consecução de ações estatais de provisão de condições dignas de habitabilidade (MACHADO, 1995). A responsabilidade de execução desse tipo de obra pública (abastecimento de água, saneamento básico, recolhimento de lixo, iluminação pública, etc.) encontrava-se sob a tutela do governo federal, o qual designava as ações do poder público municipal, ou seja, havia uma baixa capacidade de intervenção nos dilemas sociais e urbanos. Esse quadro socioespacial contrastante, caracterizado pelo rápido crescimento econômico e pelo acirramento dos problemas sociais e ambientais, só receberia maior atenção no início da década de 90, em um cenário de redemocratização do País e descentralização política. Desde então, os municípios brasileiros obtiveram novas atribuições e compartilharam algumas competências com a União e os Estados (provimento de saúde e educação, habitação, segurança, lazer, preservação do patrimônio, etc.). Assim como novas obrigações foram criadas, alguns benefícios aos municípios foram introduzidos com a Constituição de 1988. A descentralização do poder resultou em uma descentralização financeira, que proporcionou um significativo aumento no repasse dos recursos públicos. A consequência desse processo foi crescimento da arrecadação municipal e maior liberdade na gestão dos municípios. Uma das importantes mudanças criadas com a descentralização do poder foi a imposição, aos municípios com população superior a vinte mil habitantes, da criação de um plano diretor para disciplinar o uso do solo urbano e evitar a especulação imobiliária e a degradação ambiental. No caso de Angra dos Reis, o princípio fundamental de participação popular foi devidamente seguido, o que gerou uma disputa entre os interesses da elite local e os interesses dos movimentos populares. Dessa disputa surgiu o Plano Diretor de Angra dos Reis e os diversos instrumentos de execução de suas diretrizes: código de obras, código de posturas, código sanitário, código ambiental e plano diretor de Turismo (CAVACO, 1998). Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009. Marcos Paulo Ferreira de Góis 93 Infelizmente, o adequado Plano Diretor municipal teve uma implementação deficiente e realizou em partes seus objetivos. Isso se deveu em grande medida à desmobilização da sociedade e dos grupos de interesse social e à falta de capital para sua implementação. Além disso, os interesses do capital imobiliário-turístico se tornam mais presentes, restringindo as ações de ordenamento do solo por parte do Estado (CAVACO, 1998). A tudo isso se soma a dificuldade de realizar a reforma urbana planejada no Plano Diretor municipal. Sem a consecução de ações de intervenção no espaço, as ocupações irregulares continuam a crescer, assim como a quantidade de turistas e de áreas de lazer, o que revela o caráter dúbio da territorialização do Turismo por meio da urbanização: há uma expansão urbana fragmentada e um desenvolvimento social desigual amparado em modelo de modernidade adaptado. A Angra dos Reis moderna, composta em grande medida de associação entre preservação da natureza e urbanização turística, encontra-se fortemente fixada no imaginário local e principalmente no imaginário de seus visitantes. Sua imagem de paraíso terreal, berço de belezas naturais indescritíveis, está nos símbolos que marcam a cidade e que a representam. Tais símbolos auxiliam na territorialização do espaço e do imaginário social. O lugar torna-se, assim, uma marca. É um relicário de imagens que encantam e atraem o olhar. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Há ainda um grande trabalho pela frente. Os resultados enumerados neste breve ensaio não podem revelar a complexidade socioespacial que envolve política, economia e cultura na territorialização do Turismo em Angra dos Reis. Antes mesmo, são apenas reflexões sobre o amplo processo de crescimento urbano desigual averiguado quase que de imediato, quando circulamos por Angra dos Reis. Contudo, esse crescimento possui particularidades e é fruto de um processo histórico que reúne preocupações, imaginários e obras políticas que construíram a estrutura social e espacial do território angrense. O recorte político-administrativo deixa de ser apenas uma realidade nos papéis e é adquirido pelo imaginário popular, pelas obras de grande vulto, pela política urbana e turística, pelo cotidiano. As relações de poder demarcam o território e, assim, ele é apreendido, produzido, reproduzido e consumido. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 79-96, 2009. 94 O Papel do Poder Público na Territorialização do Turismo ... O Turismo traz a possibilidade da construção de “benesses para o olhar”, de tornar o território um lugar mais belo; mas traz em seu calço as mazelas de uma atividade seletiva, que atrai não somente visitantes, mas também uma grande população de trabalhadores empobrecidos que enxergam no Turismo um caminho para a prosperidade social e que, amiúde, investem suas esperanças em habitações irregulares às margens dos condomínios exclusivos. A ocupação irregular do solo urbano, tanto por parte dos empreendimentos turísticos quanto por parte das habitações populares, constitui-se atualmente no maior problema social de Angra dos Reis. A resolução envolve a capacidade do governo local em compatibilizar interesses sociais divergentes e ao mesmo tempo viabilizar o desenvolvimento econômico do município. Espera-se que este esboço possa ser considerado de relevante aplicação dos conhecimentos da Geografia em termos da imbricada relação entre poder, identidade e imaginário no Turismo. Em especial, acredita-se que a dimensão territorial do Turismo tenha sido, mesmo que de forma precária, enunciada nas páginas anteriores, de modo que possa gerar o interesse de alguns leitores em se aplicar em novos estudos sobre a temática aqui desenvolvida. REFERÊNCIAS ALVES FILHO, Deusdedith de Souza. Angra dos Reis: monumentos históricos entre a indústria e o paraíso. Dissertação (Mestrado em Planejamento Urbano e Regional) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004. BERTONCELLO, Rodolfo. Processo de modernização e espaço local: o caso do município de Angra dos Reis (RJ). Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1992. CAVACO, Adriana de Sá Barcelos. 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Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo 97 PROPOSTA METODOLÓGICA PARA AVALIAÇÃO DO RISCO DE CONTAMINAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS E SUBSUPERFICIAIS POR AGROQUÍMICOS EM BACIAS HIDROGRÁFICAS: ESTUDO DE CASO DO RIBEIRÃO LAJEADO- PR METHODOLOGICAL PROPOSAL FOR RISK ASSESSMENT OF SURFACE AND SUBSURFACE WATERCONTAMINATION BY AGRICULTURAL CHEMICALS IN RIVER BASINS: CASE STUDY OF THE LAJEADO - PR STREAM. HÉLIO SILVEIRA ___________________________________________________________ Doutor do Curso de Geografia Universidade Estadual de Maringá E-mail: [email protected] ERIVELTO ALVES PRUDENCIO ___________________________________________________________ Bacharel em Geografia Universidade Estadual de Maringá E-mail: [email protected] MARIA CLEIDE BALDO ___________________________________________________________ Doutora do Curso de Engenharia Ambiental Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Campo Mourão E-mail: [email protected] Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009. 98 Proposta Metodológica para Avaliação do Risco de Contaminação ... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009. Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo 99 RESUMO O presente trabalho tem como objetivo, apresentar uma proposta metodológica para avaliação do risco de contaminação de águas superficiais e subsuperficiais por agroquímicos em bacias hidrográficas, tomando como estudo de caso a bacia do ribeirão Lajeado, afluente do rio Pirapó. A área de estudo situa-se no Terceiro Planalto Paranaense, entre os paralelos de 23º20’ e 23º26’ de latitude Sul e os meridianos de 51º30’ e 51º36’ de longitude Oeste de Grenwich, abrangendo uma superfície aproximada de 48,84 km2. O método adotado nessa pesquisa refere-se a correlação das unidades de solo, classes de relevo, declividade, prédisposição à erosão, comprimento de vertente, amplitude altimétrica, profundidade das unidades de solo, condutividade hidráulica, textura do solo, litologia, drenabilidade do perfil, profundidade do lençol freático e uso do solo. A metodologia proposta mostrou resultados muito satisfatórios, sendo ainda necessário alguns ajustes. Palavras-chave: Carta de risco, contaminação, agroquímico, ribeirão Lajeado. ABSTRACT This paper aims to present a methodological proposal for assessing the risk of contamination of surface and subsurface waters by agrochemicals in river basins, taking as a case study the Lajeado stream basin, a tributary of the river Pirapó. The study area is located on the Third Planalto Paranaense, between the parallels 23º20’ and 23º26’ South latitude and the meridians 51º30’ and 51º36’ west longitude of Greenwich , covering an area of approximately 48,84 Km2 The adopted method in this study refers to the correlation of the soil properties, types of relief, slope, erosion prearrangement, length of slope, altimetric amplitude, depth of the soil properties, hydraulic conductivity, soil texture, lithology, profile draining, depth of water table and soil use. The proposed methodology showed very satisfactory results, but some adjustments are still necessary. Keywords: Letter of risk, pollution, agrochemicals, Lajeado stream. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009. 100 Proposta Metodológica para Avaliação do Risco de Contaminação ... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009. Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo 101 1 INTRODUÇÃO A bacia hidrográfica é reconhecida como unidade espacial, célula básica na análise ambiental, que permite conhecer e avaliar seus diversos componentes e os processos e interações que nela ocorrem. Portanto a visão sistêmica e integrada do ambiente está implícita na adoção desta unidade fundamental (Botelho e Silva, 2004). Ao analisar características como clima, cobertura vegetal, geologia, tipos de solo, topografia, uso atual do solo e drenagem, pode-se chegar a um zoneamento adequado de usos do solo na bacia. Dessa maneira, as informações sobre o potencial de infiltração e escoamento superficial são importantes para a implantação de vários tipos de atividades de engenharia, tais como estradas, pequenas barragens, ocupação de áreas urbanas e rurais, além de se determinar a qualidade da água utilizada para o consumo, dentre outros (NEVES et al., 1998). Segundo Lanna (1997), os recursos hídricos são bens de relevante valor para o bem estar de uma sociedade. A água é um bem de consumo fundamental em quase todas as atividades humanas. Com o aumento da intensidade e variedade desses usos, sem qualquer planejamento, são muitos os impactos gerados nas bacias hidrográficas. Neste sentido, a modernização da agricultura, ao exigir uso de grande quantidade de agroquímicos para o controle de pragas, ervas daninhas entre outros tipos de agentes nocivos ao crescimento e desenvolvimento de diversas culturas, contribui fortemente na dispersão de substâncias nocivas ao ambiente Spadotto e. al. (1998) e Pinheiro (2004). A agricultura moderna, voltada para a grande produtividade, é altamente tecnificada e dependente em insumos agrícolas. Dentre todos esses insumos utilizados nas lavouras, os agrotóxicos correspondem por uma grande parcela. O uso de agroquímicos nesses sistemas de produção gera impactos no ambiente principalmente nos mananciais e água subterrânea (VANDRESSEM, STIPP, 2004). Aliado a isso, esse modelo de produção agrícola estabelecido no Brasil a partir dos anos 1960, desenvolveu-se sem um prévio estudo de impacto em bacias hidrográficas, ou seja, sem questionar os níveis de compactação pelo uso de máquinas agrícolas, perda de solo por escoamento superficial e redução da proteção natural junto aos cursos d’água, Spadotto e Gomes (2004). Ao estudar a bacia do córrego do Espraiado, em Ribeirão Preto/ SP, Spadotto et al (2002), identificaram áreas de solos que apresentavam Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009. 102 Proposta Metodológica para Avaliação do Risco de Contaminação ... potencialidades de infiltração e escoamento de águas superficiais, que propiciaram informações quanto aos níveis de risco relacionado à contaminação do lençol freático e mesmo do Aquífero Guarani. Esses autores concluíram que o potencial de infiltração de águas pluviais no solo, classificados como alto, indica condição ambiental de vulnerabilidade do solo, ante a carga de agroquímicos utilizados na lavoura. Considerando-se que o ribeirão Lajeado constitui uma bacia hidrográfica de segunda ordem de ramificação e encontra-se a montante da bacia do rio Pirapó e do ponto de captação de água para a população urbana de Maringá-PR, com aproximadamente 300 mil habitantes, tornase de fundamental importância o conhecimento dos potenciais riscos de contaminação de águas superficiais e subsuperficiais por agroquímicos para a gestão desse corpo hídrico. Em razão deste fato, muitos trabalhos vêm sendo desenvolvidos no sentido de estabelecer a relação entre sistema de produção agrícola e a degradação do meio ambiente, visando detectar e monitorar os impactos negativos da moderna agricultura no ambiente. Portanto o objetivo deste trabalho consiste em apresentar uma proposta metodológica para avaliar o potencial de risco de contaminação de águas superficiais e subsuperficiais por agroquímicos na bacia do ribeirão Lajeado, afluente do rio Pirapó. 2 MÉTODO A área de estudo situa-se no Terceiro Planalto Paranaense, entre os paralelos de 23º20’ e 23º26’ de latitude Sul e os meridianos de 51º30’ e 51º36’ de longitude Oeste de Grenwich. Abrange uma superfície aproximada de 48,84 km2 e refere-se à bacia do ribeirão Lajeado, que serve de limite entre os municípios de Arapongas e Sabáudia, na alta bacia do Rio Pirapó (Figura 1). Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009. Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo 103 Figura 1 - Localização da área de estudo. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009. 104 Proposta Metodológica para Avaliação do Risco de Contaminação ... Os atributos básicos considerados para realização da carta de potencial de risco de contaminação por agroquímicos, foi a textura e a profundidade dos solos e a situação na paisagem, a classe dos solos, drenabilidade, declividade do terreno, o tipo de rocha, uso do solo, precipitação pluviométrica, condutividade hidráulica, densidade do solo, densidade de drenagem, amplitude altimétrica, comprimento médio de vertente, declividade média. A Figura 2 apresenta um fluxograma que sintetiza toda metodologia utilizada no desenvolvimento do trabalho. Através das cartas topográficas de base foram produzidas as cartas temáticas da rede de drenagem, declividade, infra-estrutura, hipsometria e os perfis transversais e longitudinais. A carta de declividade foi elaborada de acordo com De Biasi (1971), adotando as declividades preconizadas por Lemos e Santos (1996), onde permitiu classificar o relevo em plano (0 a 3%), suave ondulado (3 a 8%), ondulado (8 a 20%) e forte ondulado (20 a 45%). Essas mesmas declividades serviram de base para determinar classes de declividade e predisposição à erosão como foi demonstrado IBGE (1995) onde 0 a 3% representa áreas com declividade e predisposição à erosão muito fraca; 3 a 8% fraca; 8 a 20% média; 20 a 45% forte; 45 a 75% muito forte e maior que 75% extremamente forte. Para a determinação declividade média foram utilizadas amostras circulares (10Km2), por unidade de solo de acordo com Koffer (1982) onde Dm = E . N/636,6 onde, E = equidistância das curvas de nível em mm e N = número médio de curvas de nível. Através do programa surfer 8 foi possível produzir o modelo digital do terreno ou croqui da bacia através da digitalização das curvas de nível em AutoCAD 2002. A carta geológica foi baseada nas informações descritas nos levantamentos dos perfis de solos juntamente com as visitas a campo. Esse material cartográfico foi elaborado utilizando o programa AutoCAD 2000 e Spring 4.01. A carta com as classes de solos encontradas na área foi obtida no levantamento semidetalhado dos solos da bacia do ribeirão Lajeado, produzida pela Embrapa (1980) na escala 1:50.000. Essa carta original sofreu as devidas alterações dos nomes das unidades de acordo com a nova classificação estabelecida pela Embrapa (1999). Através da descrição morfológica, apresentada no memorial descritivo do levantamento semidetalhado dos solos realizados pela Embrapa (1980) foi possível obter as informações referentes às classes Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009. Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo 105 texturais de cada unidade de solo, drenabilidade e situação na paisagem. Os levantamentos de campo serviram para determinação da profundidade dos solos, os tipos de uso e coleta de amostras para determinação da condutividade hidráulica e densidade do solo. A classe de drenabilidade de cada solo adotado é aquela proposta por Lemos e Santos (1996), onde excessivamente drenado corresponde a classe onde a água é removida do solo muito rapidamente, seja por excessiva porosidade e permeabilidade do material, seja por declividade muito íngrime, seja por ambas. Acentuadamente drenado é quando a água é removida rapidamente no perfil, sendo o equivalente de umidade médio do perfil, de maneira geral, superior a 18g de água/100 g de solo, e a maioria dos perfis têm pequena diferenciação de horizontes, sendo normalmente de textura média a argilosa, porém sempre com muitos poros e bem permeáveis. Os solos classificados como bem drenados são aqueles onde a água é removida com facilidade, porém não rapidamente, e os solos dessa classe comumente apresentam texturas argilosas ou médias. De acordo com a Lemos e Santos (1996) as classes de solos mais favoráveis ao escoamento superficial são aquelas que apresentam profundidade menor ou igual a 50cm (raso), maior que 50cm e menor que 100cm (pouco profundo), maior que 100cm e menor que 200cm (profundo) e maior que 200cm de profundidade (muito profundo). A caracterização do regime pluviométrico foi realizada com dados da estação climatológica que apresentou características de altitude, topografia e latitude que mais se aproximaram com aquelas encontradas na área de estudo. A escala de análise utilizada foi a mensal, sazonal e anual, com dados precipitação de todo o período de análise disponível pela estação climatológica. Foi também realizado o balanço hídrico segundo Thorntwaite e Mather (1955) através do programa desenvolvido por Sentelhas et al. (1999). Esse balanço serviu para caracterizar o conteúdo de água no solo, identificando os períodos de maior déficit e excedente hídrico, fundamental para determinação dos períodos com maior potencial para infiltração e escoamento superficial. O levantamento do uso do solo foi também muito importante para definir o potencial de infiltração e escoamento superficial. Essas informações foram obtidas com imagem de satélite e checagem em campo, diferindo os usos com plantio direto, plantio convencional, pastagem, floresta nativa, eucalipto. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009. 106 Proposta Metodológica para Avaliação do Risco de Contaminação ... Figura 2 – Fluxograma da metodologia proposta. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009. Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo 107 Quanto à densidade de drenagem foi utilizado o parâmetro definido por Horton (1945), adaptado por Koffler (1982), expresso pela seguinte equação: Dd = Lt / A onde: Dt = densidade de drenagem; Lt = corresponde ao comprimento total dos rios da amostra circular; A = área de 10Km2. Portanto, a densidade de drenagem permite definir as áreas com maior ou menor escoamento superficial da água. As classes adotadas nesse trabalho foram adaptadas com base nas classes sugeridas por Beltrame (1994) onde os valores de densidade (Km / Km2 ) foi definida da seguinte forma: menor que 0,03 é baixa e de 0,03 até 0,5 mediana; acima de 0,5 alta. A amplitude altimétrica por unidade de solo foi obtida através da diferença entre a altitude máxima e mínima da topografia. O comprimento médio de vertente (m) consiste em medir, a distância entre os pontos de cotas mais elevados e o canal de drenagem procurando medir somente os comprimentos das linhas normais aos canais de drenagem. Portanto CVm = Li / n, onde Li = ∑ dos comprimentos de vertente e o número de medições efetuadas. Através da divisão do comprimento médio da vertente pela amplitude altimétrica pode-se perceber a variação de 1 metro de altura com relação ao comprimento do terreno. Sendo assim foi dividido em classes essas variações para melhor compreender a relação entre infiltração e escoamento superficial como segue: Queda de 1 metro de altura até 5 metros de distância – muito forte Queda de 1 metro de altura de 6 a 13 metros de distância – forte Queda de 1 metro de altura de 14 a 25 metros de distância – média Queda de 1 metro de altura de 26 a 100 metros de distância – fraca Queda de 1 metro de altura acima de 100 metros de distância – muito fraca A condutividade hidráulica está relacionada com a velocidade com que a água se movimenta através do solo e foi realizada de acordo com a Embrapa (1997), através da fórmula: Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009. 108 Proposta Metodológica para Avaliação do Risco de Contaminação ... Ko = Q x L onde: AxHxt Ko = condutividade hidráulica do solo saturado em cm/h ou mm/h; Q = volume em ml através da amostra, ou seja, o valor da última leitura, num total de 8, uma a cada hora; L = comprimento da amostra, em cm; H = é a altura do bloco de solo e da coluna de água; A = área do cilindro de solo em cm2; t = tempo em horas Nesta pesquisa foram coletadas várias amostras para cada classe de solo encontrada na bacia hidrográfica. Após a determinação da condutividade hidráulica (Ko) em laboratório os dados foram classificados de acordo com Gomes et. al. (2002) como segue abaixo: Alto.............................12,5 – 25 cm/h ou 125 – 250 mm/h Médio .........................2,5 – 12,5 cm/h ou 25 – 125 mm/h Baixo ......................... 0,25 – 2,5 cm/h ou 2,5 – 25 mm/h Através do cruzamento sistematizado e interpretação integrada dos principais atributos levantados por meio de mapa de correlação, chegou-se as principais classes do potencial de infiltração e escoamento superficial. As classes do potencial de potencial de risco de contaminação das águas superficiais e subsuperficiais foram divididas em quatro classes. Classe I – Baixo potencial de risco de contaminação das águas superficiais e alto potencial de risco de contaminação das águas subsuperficiais. Classe II – Médio a baixo potencial de risco de contaminação das águas superficiais e média a alto potencial de risco de contaminação das águas subsuperficiais. Classe III – Médio a alto potencial de risco de contaminação das águas superficiais e média a baixo potencial de risco de contaminação das águas subsuperficiais. Classe IV – Alto potencial de risco de contaminação das águas superficiais e baixo potencial de risco contaminação das águas subsuperficiais. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 97-111, 2009. Hélio Silveira, Erivelto Alves Prudencio e Maria Cleide Baldo 109 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Observou-se para a área de estudo que o maior potencial de risco de contaminação por agroquímicos são para as águas superficiais por não se encontrar locais específicos para recarga de aqüíferos, apenas para o lençol freático. Os períodos mais críticos, para a contaminação de águas superficiais e subsuperficiais correspondem a primavera e verão onde ocorre 68% do total de precipitação anual. Deve-se considerar também que as classes apresentadas não são estáticas, pois à medida que ocorre uma saturação do solo as classes vão se alterando, ou seja, a classe I pode passar para II e assim sucessivamente. O inverso pode ocorrer nos períodos secos onde a classe IV pode passar para a classe III. Através da metodologia proposta constatou-se que os resultados foram muito satisfatórios, sendo ainda necessário alguns ajustes. BIBLIOGRAFIA BOTELHO, R. G.M.; SILVA, A. S. Bacia hidrográfica e qualidade ambiental. In: VITTE, A.C.; GUERRA, A.J.T. Reflexões sobre a geografia física no Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, p.153-192, 2004. BELTRAME, A.V. Diagnóstico do meio físico de bacias hidrográficas: modelo de aplicação. Florianópolis: Editora da UFSC, 1994, 112p. DE BIASI, M. Carta de declividade de vertentes: confecção e utilização. São Paulo, Universidade, Instituto de Geografia, p. 8-13. (Geomorfologia, 21) EMBRAPA –Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. 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Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills 113 TERRITORIALIDADE E TURISMO DOS PARQUES NACIONAIS: IGUAÇU (BRASIL E ARGENTINA) E GREAT SMOKY MOUNTAINS (EUA)* TERRITORIAL AND TOURISM IN NATIONAL PARKS: IGUAÇU (BRAZIL AND ARGENTINA) AND GREAT SMOKY MOUNTAINS (USA) MAURO JOSÉ FERREIRA CURY ___________________________________________________________ Mestre em Geografia, Doutorando em Geografia (UFPR), Professor da UNIOESTE – Campus de Foz do Iguaçu E-mail: [email protected] ALLAN SCOTT MILLS ___________________________________________________________ Urban and Regional Studies Program, Box 842028 Virginia Commonwealth University Richmond, Virginia 23284-2028, USA E-mail: [email protected] Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. 114 Territorialidade e Tursimo dos Parques Nacionais ... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills 115 RESUMO O artigo tem o objetivo de analisar de forma comparada a territorialidade estabelecida pelos Parques Nacionais do Iguaçu (Brasil e Argentina) e Great Smoky Mountains (EUA). Observam-se de forma empírica as relações com o Turismo intrínseco na visitação e atividades estabelecidas, tais como a educação e a manutenção do entorno e das comunidades locais. A discussão apresentada nos remete a um olhar sobre os conceitos estabelecidos, em função das necessidades e anseios entre ambientalistas, comunidades científicas, políticas, educacionais e sociais. É destacável a função dos centros de visitantes para a conscientização qualificação da visita em parques nacionais. Palavras-chave: Territorialidades, Parque Nacional do Iguaçu, Great Somoky Mountains National Park, Turismo. ABSTRACT The objective of this paper is to analyze by comparison the territorialtiy established by the iguacu national parks of Brazil and Argentina, as compared to Great Smoky Mountains National Park in the United States of America. Similarities observed between the iguacu and Great Smoky Mountains parks include intrinsic tourism, an education function, level of maintenance, and relations with local communities. The discussion presents common concepts established as a function of the necessities and desires of environmentalists, the scientific community, and others. A principal function of visitor centers in both the iguacu and Great Smoky Mountains national parks is the raising of visitor awareness regarding appropriate behavior while visiting these parks. Keywords: territoriality, Parque Nacional do Iguaçu, Great Somoky Mountains National Park Tourism. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. 116 Territorialidade e Tursimo dos Parques Nacionais ... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills 117 1 INTRODUÇÃO O artigo faz uma análise reflexiva sobre a função dos parques nacionais e da atividade turística sob o modelo introduzido pelos Estados Unidos da América (EUA) e a difusão desse na maioria dos países em desenvolvimento, no caso do Brasil e da Argentina. É resultado de observações empíricas realizadas entre os anos de 2001 a 2008, nos parques nacionais de maior visitação do Brasil e Argentina (Iguaçu), e dos EUA (Great Smoky Mountains). Por se tratar de paisagens e culturas distintas, esses parques se fundem no objetivo de instalação, progresso científico, educação e visitação para as atividades de lazer, muitas vezes representadas como imagens do ecoturismo associadas ao desenvolvimento sustentável e até da soberania nacional de um país. Justifica-se este artigo pelas contribuições às comunidades locais do entorno e para a sustentabilidade social. 2 PENSAMENTO DA PRESERVAÇÃO E DA CONSERVAÇÃO AMBIENTAL Os paradigmas estabelecidos com o estabelecimento dos parques nacionais na modernidade estão intrínsecos na conceituação de preservação. A história da preservação de áreas naturais é registrada no ano de 252 a.C., quando o Imperador Ashoka, da Índia, ordenou a proibição da caça, pesca e o corte de árvores em uma extensa área de seu domínio. Posteriormente, em 684, na Ilha de Sumatra (Indonésia), o Rei de Srivijya demarcou a criação de uma área protegida (MILLER, 1997, p. 4). A iniciativa de formação de parques nacionais na modernidade surgiu nos EUA, com a criação do Parque Nacional de Yellowstone, estabelecido em 1872 entre os Estados de Montana, Wyoming e Idaho. Dentre as atrações, destacam-se o exuberante ecossistema temperado e os gêiseres que foram objetos de defesa da instalação e modelo dessas unidades de conservação (UCs). No ano de 1916, foi estruturado o National Park Service (NPS), que tem entre seus objetivos a organização e a visitação turística nos parques nacionais, monumentos nacionais, museus e outras categorias. Em 1998, a receita anual sobre a visitação, foi em torno de US$ 10 bilhões e gerou 200 mil empregos. A crescente visitação aos parques nacionais nos EUA, desde os anos de 1950, motivou o NPS, a direcionar o comportamento do visitante nessas UCs. Foram criados os centros de visitantes (CVs), estabelecen- Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. 118 Territorialidade e Tursimo dos Parques Nacionais ... do normas e parâmetros educacionais entre as estruturas construídas, aos interpretadores ambientais e o visitante. As presenças humanas em áreas naturais ambientalmente protegidas passaram a ser alvo de severas discussões e culminou, em 1948, no Congresso da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Até então deveriam ser removidas todas as populações locais das áreas protegidas, como garantia da preservação. Os problemas se agravaram, principalmente com o estabelecimento dos parques nacionais africanos de cujas áreas as populações foram removidas. Os problemas das dependências desses povos eram de alimentação e dos cultos religiosos relacionados aos recursos naturais (lagos, rios, animais, plantas) que passaram a ser protegidos, e não foi mais possível o acesso. Comunidades se separaram, outras reivindicaram a sua presença. “Conservação” passou a ser o termo mais apropriado para essas áreas, ou seja, com a presença humana atrelada aos cuidados ambientais. Nos anos 70, as novas políticas ambientais visavam à ampliação das áreas naturais. Estas foram vistas como alvo para a conservação, representando um meio de assegurar a continuidade das espécies que estavam sob o perigo da extinção, e vêm construindo-se os conceitos perante a realidade de cada local. A visitação em um parque nacional pode ser compreendida como um conjunto de atividades educacionais, recreativas e de interpretação ambiental, realizadas em contato com a natureza, obedecendo às diretrizes dos planos de manejo, nas quais o objetivo é propiciar ao visitante a oportunidade de conhecer, de forma lúdica, os atributos e valores ambientais protegidos por uma UC. 3 MATERIAL E MÉTODOS Trata-se de um estudo empírico, com fontes primárias e secundárias, do período de 2001 a 2008. A pesquisa de campo teve um caráter qualitativo, com entrevistas direcionadas aos administradores, funcionários e voluntários (público interno) do Great Smoky Mountains (EUA), que estiveram reunidos, de 3 a 9/9/2001, em um evento denominado “Outdoor Recreation And Rural Tourism Consortium”, promovido por Eastern Illinois University, Murray State University, University of Florida, Virginia Commonwealth University e Middle Tenesse State University. Essa atividade anual consiste em permanecer por uma semana no Great Smoky Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills 119 Mountains, com alunos, professores e coordenados pela ONG Great Smoky Mountains Institute at Tremont, os quais gerenciam as atividades educacionais e de pesquisa no parque nacional. Esse programa é validado pelas universidades participantes e equivale a créditos aos diferentes programas de graduação e de pós-graduação. No Iguaçu, as entrevistas foram realizadas com os administradores e funcionários dos parques nacionais (Argentina e Brasil), entre os meses de setembro de 2001 a maio de 2002, estendendo-se até 2008. As entrevistas tiveram caráter de acrescentar informações à pesquisa desenvolvida nesses parques nacionais, relativas à valorização e função dos CVs para a visitação. Com o objetivo de uma qualidade de exploração do tema proposto, foram realizadas entrevistas com os administradores, biólogos, educadores ambientais, rangers (guarda-parques) e funcionários dos CVs. R. J. Richardson (1999, p. 207) considera a entrevista um [...] instrumento que além de proporcionar a proximidade entre as pessoas tem a possibilidade de penetrar na mente, vida e definição dos indivíduos, sendo assim fundamental na pesquisa em Ciências Sociais. A técnica utilizada foi a entrevista não estruturada, apoiada nos estudos de J. Maisonneuve e J. Margot-Duclot (1964, p. 228), com os seguintes objetivos: a) obter informações do entrevistado seja de fato que ele conhece, seja de seu comportamento; b) conhecer a opinião do entrevistado, explorar suas atividades e motivações; c) tratar de um problema comum – discutir uma decisão a ser tomada conjuntamente, estabelecer um plano de trabalho ou resolver um problema pessoal pendente entre duas pessoas; d) avaliar as capacidades do entrevistado, visando à sua orientação ou seleção. A estruturação da entrevista foi realizada com o propósito de verificar a importância dos CVs, diagnosticar o papel da interpretação ambiental, analisar as estratégias para a administração da visitação em parques nacionais e possíveis problemas ambientais que as UCs enfrentam, contribuindo assim para uma melhor interpretação do tema. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. 120 Territorialidade e Tursimo dos Parques Nacionais ... 4 RECURSOS NATURAIS E PARQUES NACIONAIS O Turismo é um fenômeno ambiental, social e econômico – depende dos setores primário, secundário e terciário de produção e serviços –, e de difícil conceituação. Essa atividade consiste em uma gama complexa e numerosa de pessoas que modificam o lugar em que são turistas, provocando consequências de ordem positiva e negativa. A atividade turística requer um planejamento aplicado em áreas ambientalmente protegidas. D. V. M. Ruschmann (2000, p.165) afirma: É praticamente impossível estabelecer um modelo universal nos espaços naturais direcionados ao turismo, mas, não podemos omitir a necessidade de planejar esta atividade para não destruir o próprio turismo. Por essa afirmação, a diferença entre os espaços naturais provoca dificuldade em função dos recursos encontrados em cada UC, mas não impede estabelecer regras comportamentais ao visitante que chega até esses espaços. M. J. Dourojeanni e M. T. J. Pádua (2001, p. 119) apontam [...] o ecoturismo como uma das colunas de crescimento do turismo. O relatório de Blackwelder e Co. (1997) indica que a Organização Mundial do Turismo – OMT, estima que o turismo de aventuras captou 10% e que o setor cresce 30% ao ano. Em função da elevada oferta da biodiversidade em países tropicais, é notável que o desenvolvimento da atividade turística possa estar atrelado à economia desses países. De modo geral, a atividade turística vem crescendo a cada ano, seja no número de turistas, seja no número de pessoas empregadas no setor, e, notavelmente, se destacando como a economia de maior crescimento mundial. O. Tulik (1999, p. 27) observa que “[...] os recursos naturais básicos constituem elementos primários da oferta, e, embora presentes em todos os lugares, só podem ser considerados turísticos, quando explorados para tal fim.” Os recursos turísticos naturais, aliados às necessidades de proteção ambiental, são elementos da natureza com determinada atração. Com a difusão dos meios de comunicação em uma sociedade globalizada, muito se fala sobre um Turismo de moda, porém os grupos sociais vêm conscientizando-se da necessidade de proteção ambiental. Em função Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills 121 das grandes concentrações urbanas, essas áreas vêm apresentando um considerável aumento em visitação, motivada pela necessidade de o homem estar em contato com a natureza. A popularidade dos parques nacionais foi ampliada, principalmente nos EUA. Os parques representam elementos simbólicos da cultura e orgulho em conhecer o maior número de UCs. São símbolos distintivos para os municípios próximos, para que possam dinamizar suas receitas e melhorar a qualidade da oferta e infraestrutura. O Turismo de natureza faz uso dos recursos naturais e objetiva a preservação ou conservação de paisagens compostas de elementos como água (rios, lagos, mares, cachoeiras, corredeiras), vegetação, topografia e fauna. A atividade de canoagem, rafting, pesca esportiva, caminhadas em trilhas autoguiadas ou não, observação da vida selvagem e outras atividades de lazer estão relacionadas ao Turismo. Para S. Kinker (2002, p. 9): O ecoturismo é um segmento relativamente novo do turismo de natureza. O que o diferencia dos outros é que ele abrange em sua conceituação a experiência educacional interpretativa, a valorização das culturas tradicionais locais, a conservação da natureza e do desenvolvimento sustentável. A função do ecoturismo em áreas ambientalmente protegidas busca alternativas de sustentabilidade dos recursos naturais. Observa-se um aumento da demanda em núcleos receptores com vocação ao Turismo de natureza, portanto faz-se necessário o planejamento dessas áreas voltadas para o uso turístico. Os atrativos naturais para C. R. Goeldner, J. R. B. Ritchie, e R. W. McIntosh (2002, p. 151), “[...] são a ‘mola propulsora’ que leva as pessoas a viajar. Os grandes parques nacionais dos Estados Unidos, Canadá, Índia, Austrália e Japão são alguns exemplos.” As atividades de Turismo motivadas pela proximidade de um parque nacional nesses países atraem milhares de visitantes. São áreas de atrações turísticas muito importantes para alguns países ou Estados, e tanto empresas do setor privado quanto do setor público operam esses parques. S. Irving e J. Azevedo (2002, p. 51) consideram “[...] os parques nacionais a tipologia mais conhecida de áreas protegidas e também a mais importante para o ecoturismo entre as áreas de proteção integral, pelas possibilidades de uso para a recreação e lazer.” Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. 122 Territorialidade e Tursimo dos Parques Nacionais ... M. C. Beni (2000, p. 59) afirma que: As áreas de conservação ambiental no Brasil são verdadeiros polos potenciais de Turismo, devendo merecer maior atenção por parte dos governantes em divulgar e promover o Turismo nacional e internacional. Deve-se, portanto, buscar uma melhoria na qualidade de atendimento ao visitante, tanto nos serviços quanto nos equipamentos oferecidos, associados à proteção dos espaços naturais. A conservação passou a ter um significado em utilizar os recursos naturais, de forma racional, sem causar danos ao meio ambiente, garantindo esses espaços para as futuras gerações. Apoiadas nesse pensamento surgem às discussões sobre ecodesenvolvimento e desenvolvimento sustentável. Os parques nacionais, sendo a principal categoria de áreas protegidas em seus alicerces funcionais de conservação, educação e lazer, têm o Turismo como uma forma de sustentação econômica na atualidade, com foco para o futuro de um Turismo sustentável. 5 CRIAÇÃO DAS ÁREAS NATURAIS PROTEGIDAS: REFLEXO DA CONSERVAÇÃO DA NATUREZA E ESTABELECIMENTO DOS PARQUES NACIONAIS Quando se usa a denomiação “parques nacionais”, imagina-se uma área delimitada, preservada, com recursos naturais diferenciáveis (cobertura vegetal, aspectos geomorfológicos, caracterização geológica, hidrologia, vida animal, etc.), protegida de qualquer transformação provocada pela sociedade urbano-industrial. Essas áreas foram criadas em benefício das populações urbanas norte-americanas que poderiam, como visitantes, apreciar as belezas naturais. Esse modelo de conservação “moderna” espalhou-se pelo resto do mundo, justificando a criação de áreas que deveriam permanecer intactas (DIEGUES, 2001, p. 53). Para os ambientalistas, esses espaços deveriam ser intocáveis, precisando receber proteção total e sendo permitidas em seu interior apenas atividades de uso recreacional ou educativo. Aos princípios de formação dessas ideias vêm arraigados os princípios da “natureza-paraíso” e “beleza cênica”, com um valor religioso em sua fundamentação, trazido pelos europeus, imigrantes na América, na busca exacerbada pela identidade nacional (CURY, 2003). Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills 123 A maioria das populações que se encontrava nesses locais foi afastada das áreas demarcadas pelos parques nacionais. Foi o que ocorreu com os índios cherokee que habitavam o Great Smoky Mountains, nos Montes Apalaches. Hoje, a comunidade está numa cidade que leva o nome de sua tribo no entorno leste do parque nacional, e toda a cidade é tematizada com serviços de Turismo, como hospedagem, alimentação, museus e cassino. Na maioria, o gerenciamento das atividades de serviços é realizado pelos cherokee, o que lhes garante certa sustentabilidade econômica. Com a colonização em outros países americanos, cidadãos com espírito descortinado deram os primeiros passos para a criação dos Parques Nacionais de Banff (Canadá, em 1885), El Chico (México, em 1898), Nahuel Huapi (Argentina, em 1903), Vicente Perez Rosales (Chile, em 1926), Henri Pitier (Venezuela) e Itatiaia (Brasil, em 1937). Na Nova Zelândia, os parques foram criados a partir de 1894; na Austrália, em 1898. No Continente Africano, os governos coloniais criaram os Parques Nacionais Kruger, na África do Sul, em 1898, e Seregueti, em Tanganica, para impor controles à exploração excessiva da fauna silvestre (MILLER, 1997, p. 5). O vocabulário das indicações da evolução conceitual está composto de termos como “preservação ambiental”, “conservação” e até “sistema de unidades de conservação”. As tentativas de conceituação e manejo dessas UCs foram discutidas em eventos internacionais, mesmo com parques nacionais, que em uma esfera maior se inserem como UC. A concepção de natureza passa a, depois de 20 anos da Conferência de Estocolmo, que foi o marco do desenvolvimento ambientalista mundial e Conferência RIO-92, a tratar de novos paradigmas ambientais mundiais, principalmente no cuidado com a biodiversidade, poluição e esgotamento dos recursos naturais. Nessa época, o ecoturismo surgiu como alternativa, embasado no discurso do desenvolvimento sustentável. 6 UM OLHAR NAS TERRITORIALIDADES DOS PARQUES NACIONAIS GREAT SMOKY MOUNTAINS (EUA) E IGUAÇU (BRASIL E ARGENTINA) A análise sobre as territorialidades será realizada pela paisagem, instalação dos Parques Nacionais, problemas e infra-estrutura de visitação de forma comparativa. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. 124 Territorialidade e Tursimo dos Parques Nacionais ... 6.1 A PAISAGEM 6.1.1 Great Smoky Mountains Localiza-se ao sul dos Montes Apalaches na divisa dos Estados do Tennessee e da Carolina do Norte, o parque tem uma área de 800 milhas quadradas, com clima temperado e uma biodiversidade significante para um território tão explorado, onde existem mais de 10.000 espécies catalogadas. As altitudes variam de 875 a 6.643 pés, o que permite ao visitante observar as diferentes estruturas vegetais de campos, passando pelas florestas de abetos, pelas coníferas até o bálsamo. A paisagem passou por profundas transformações. As rochas são na maioria sedimentares, resultantes de acumulação de silte, areia e cascalho de um mar raso, que existiu por volta de 2 milhões de anos. Entre 200 e 300 milhões de anos com a movimentação das placas tectônicas, os dobramentos horizontais resultaram no enrugamento dos Montes Apalaches, que estão entre os mais velhos do mundo. É rica a hidrografia local com riachos e cachoeiras, que perfazem aproximadamente 2.100 milhas de rios e córregos. (HOUK,1993). 6.1.2 Parques Nacionais do Iguaçu (Brasil-Argentina) Os Parques Nacionais levam essa denominação por estarem localizados no baixo Rio Iguaçu. Têm como principal atrativo as Cataratas do Iguaçu. O Parque Nacional del Iguazú, na Argentina, localiza-se no nordeste da Província de Misiones, com uma altitude de 200 m na região ocidental, até 350 m no extremo sudeste (CRESPO, 1982). No Brasil, o Parque Nacional do Iguaçu está em uma área de domínio da União e sujeita à Lei de Segurança Nacional. A fronteira com a Argentina se faz ao sul pelo Rio Iguaçu, desde a foz do Rio Santo Antônio, no município de Capanema. Por esse divisor, encontram-se a Reserva Nacional e o Parque Nacional del Iguazú, totalizando uma área de 67.620 ha. Unindo-se com o lado brasileiro, existem 252.882,5 ha de área protegida. A Reserva Nacional está localizada na Região Sul, no extremo oeste do Estado do Paraná, na bacia do baixo Rio Iguaçu. Além da Argentina, o entorno do parque é feito pelos os municípios de Foz do Iguaçu, Santa Terezinha de Itaipu, São Miguel do Iguaçu, Serranópolis do Iguaçu, Matelândia, Céu Azul, Santa Tereza do Oeste, Lindoeste, Santa Lúcia, Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills 125 Capitão Leônidas Marques e Capanema (IBAMA, 2000 – Plano de Manejo, Resumo Executivo). O clima é do tipo subtropical mesotérmico úmido com verões quentes (médias máximas de 37ºC), influenciados pela massa polar atlântica, provocando invernos frios (médias mínimas de 12ºC), com ocorrência de geadas e a presença de chuvas em todos os meses e precipitação anual de 1.600 a 2.000 mm. (IBAMA, 1994; APN, 1998). O Rio Iguaçu abrange aproximadamente 57.329 km² em área brasileira, sem os afluentes da margem catarinense até União da Vitória, que adicionados aumentariam a bacia para 70.799 km². O rio tem suas origens na borda ocidental da Serra do Mar e apresenta um percurso de 910 km até a foz no Rio Paraná (IBAMA, 1994). Em seu curso, a largura é variável de 50 a 1.800 m, com a presença de corredeiras, pelos desníveis que aparecem em seu leito. As Cataratas do Iguaçu com a forma de ferradura estão localizadas nesse rio. A fenda tectônica que abre o canyon mede de 65 a 100 m de largura. Sua extensão é a maior do mundo com 1.200 m. Do lado brasileiro são 800 m e do lado argentino, 1.900 m, totalizando uma frente semicircular de 2.700 m. Com uma altura aproximada de 82 m, dependendo da vazão tem em média 31 grandes saltos, e 70% dos saltos estão em território argentino. Portanto, a visão panorâmica pode ser contemplada do lado brasileiro (CURY, 2003). 6.2 DOS ANTECEDENTES À INSTALAÇÃO 6.2.1 Great Smoky Mountains National Park O parque busca resgatar uma diversidade cultural de povos que habitaram a região. Há o registro de povos pré-históricos de aproximadamente 9.000 anos. Os colonizadores europeus, no século XVIII, encontraram os índios cherokee. A maioria destes foi afastada forçosamente para o Oklahoma, e hoje no entorno leste do parque uma cidade com alguns descendentes leva o nome da tribo. Antes da instalação desse parque, as comunidades viviam da exploração de madeira e de carvão mineral, caça e agricultura. No século XX, período dos avanços tecnológicos, a indústria madeireira era a principal atividade econômica. As serrarias estavam em expansão com os sítios urbanos, mas os recursos naturais estavam exaurindo-se. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. 126 Territorialidade e Tursimo dos Parques Nacionais ... Na década de 20, grupos de backpackers1, pescadores de trutas, motoristas que estavam interessados em construir estradas com belas paisagens participaram de movimentos dedicados à instalação desse parque. Em 1934, os Estados do Tennessee e Carolina do Norte doaram ao governo norte-americano 300 acres de terras para a criação do Parque Nacional. Em 1940, o Presidente Franklin D. Roosevelt inaugurou a Rodovia Newfoud Gap, que atravessa o parque, e do mirante entregou à população norte-americana uma área para ser desfrutada como lazer e “para a apreciação dos povos”. Somente 20% da vegetação de floresta temperada e coníferas estiveram preservadas nas partes mais altas. 1.200 propriedades rurais foram desapropriadas e algumas transformadas em prédios históricos. Poucas ainda construídas pelos colonos nas partes baixas, em Cades Cove, até 2001 foram propriedades particulares no Parque Nacional. (HOUK, 1993). 6.2.2 Parque Nacional do Iguaçu (Brasil e Argentina) Na Província de Misiones, Argentina, pela Lei Nacional 6.712, de 11/10/1909, a autorização do Poder Executivo, concedeu as reservas e terras em torno das Cataratas do Iguaçu para a criação de um parque nacional. O arquiteto Carlos Thays foi o responsável pelo primeiro planejamento direcionado a um parque nacional, com estudos iniciados em 1902. O ano de 1934 foi marcado por grandes feitos aos parques nacionais da Argentina. A Lei Nacional 12.103 criou a Dirección (hoje Administração) de Parques Nacionais e, simultaneamente, os grandes parques do sul: Nahuel Haupi, Lanín, Los Alerces, Perito Moreno e Los Glaciares. Também em Misiones foi criado o Parque Nacional del Iguazú. Portanto, iniciava-se a história da conservação natural em terras argentinas, com a finalidade de proteger as maiores belezas naturais do país, como os lagos, bosques e montanhas da Patagônia e as Cataratas do Iguaçu em Misiones. K. R. Miller (1997, p. 6) explica: “A Argentina seguiu o modelo norte-americano e canadense na forma de uma política e programa destinado a promover o hinterland inexplorado próximo.” A abertura de vias de acesso, por ferrovias ou rodovias, na maioria das vezes, foram subvencionadas pelo governo; novas acomodações foram construídas por empresas privadas para levar turistas a esses longínquos lugares de natureza diferenciada. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills 127 Estrategicamente, a política de criação de parques nacionais na Argentina esteve relacionada à ocupação de áreas de fronteira, onde eram pouco claras ou sujeitas a litígio, como a região andina na divisa com o Chile. O Turismo é visto como um meio de desenvolvimento entre a população, a conservação da natureza e a manutenção de fronteiras na Argentina. O governo desse país investiu em estradas, transportes e hotelaria, principalmente ao sul, onde Bariloche passou a ser um centro de Turismo. Novas vilas turísticas foram criadas: Llao-Llao, Catedral, La Angostura e Traful, no mesmo ano em que foi criado o Parque Nacional del Iguazú: 1934. Segundo dados da APN, entre os anos de 1940 e 1950, no governo Perón, além da função turística e de defesa da soberania, desenvolveu-se a preocupação pelas pesquisas ambientais nos parques nacionais. O objetivo inicial dos parques nacionais era a proteção do patrimônio público e dos valores cênicos excepcionais no mundo, para o desfrute da sociedade, sendo os maiores expoentes os lagos do sul e as Cataratas do Iguaçu. No Brasil imperial, as iniciativas de conservação ambiental partiram dos abolicionistas André Rebouças e José Bonifácio de Andrada e Silva, em 1876. Rebouças, ao escrever Excursão ao Salto de Guairá, deixou transparecer a imagem conservacionista (PÁDUA, 2002, p. 270). Esses foram os primeiros a criticar a exploração irracional da terra, a monocultura, o latifúndio e o trabalho escravo. Sobre a proposta de criação dos parques nacionais no Brasil, nesse sentido, deveriam trazer benefícios palpáveis para as sociedades locais, sendo um agente de promoção e diminuindo as barreiras para o desenvolvimento regional. Rebouças enfatizou a experiência dos parques nacionais norte-americanos, como a presença de turistas ricos da Europa e a apresentação de um país atraente, por suas belezas naturais. A contribuição do Turismo é mencionada para a modernização dos meios de transportes. As belezas naturais do Brasil poderiam “[...] atrair imigrantes, ousados naturalistas, entusiastas de florestas virgens e de cataratas assombrosas.” (REBOUÇAS apud PÁDUA, 2002). Rebouças, em 1876, recomendou os primeiros lugares do Brasil para essa iniciativa: o Salto do Iguaçu e as Sete Quedas do Guairá, no Paraná, e a Ilha do Bananal, no Rio Araguaia (PÁDUA, 2002, p. 271). No governo de Getúlio Vargas, em janeiro de 1939, foi criado o Parque Nacional do Iguaçu. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. 128 Territorialidade e Tursimo dos Parques Nacionais ... 6.3 PROBLEMAS 6.3.1 Great Smoky Mountains Foram analisados durante as entrevistas alguns problemas. O parque recebe o maior número de visitantes dos EUA, em função da Rodovia Newfoud Gap, que atravessa uma das paisagens mais belas dos Apalaches, no ponto de vista dos ambientalistas, biólogos. Rangers é o maior problema e deveria estar fechada para veículos pesados, embora a velocidade seja controlada em 30 milhas por hora. O parque tem 270 milhas de estradas, na maioria asfaltadas, que podem levar o visitante a observar os diferentes tipos de vegetação de montanha temperada até as florestas de coníferas, com uma altitude variável de 3.000 pés, e a vida selvagem: ursos negros, coiote, esquilo vermelho, cervos e salamandras. Em Cades Cove (planície), é possível ver nos fins de tarde um verdadeiro congestionamento de veículos com visitantes observando animais. No período de 2000 a 2003, o parque registrou de 9 a 13 milhões de visitantes. Problemas com animais exóticos, como o porco cateto, que foi introduzido pelos colonos, e com plantas, como o kudzu, trepadeira de origem asiática que mata as árvores por sufocamento, são controlados por programas desenvolvidos pelos biólogos e administradores do parque. 6.3.2 Parque Nacional do Iguaçu (Brasil e Argentina) O conjunto das cataratas une a paisagem, embora seja uma área divisora internacional, e por muitos anos as administrações dos parques agiram com autonomia. Agora, há um diálogo entre os administradores dos parques, principalmente após o processo de revitalização de visitação, iniciado em 2000. A região anterior à instalação era uma fazenda, portanto já havia uma interferência humana. A área de uso público, argentina e brasileira, é bastante alterada, notadamente do lado argentino, em que a exploração madeireira se fez de forma mais intensa. Do lado brasileiro, a urbanização e os serviços turísticos de Foz do Iguaçu avançaram em direção ao parque que tem o aspecto de ilha preservada, embora haja projetos de conservação e corredores da biodiversidade em diferentes áreas naturais da Bacia do Paraná. Na área de uso público, é presenciada uma variedade de espécies vegetais invasoras, e dentre elas se destaca a zebrina. Iniciativas louvá- Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills 129 veis, como a mudança dos jardins do Hotel das Cataratas para plantas nativas, foi uma recomendação do IBAMA, o que gerou sucesso. Quanto à fauna, problemas com a visitação são observados e monitorados. Os quatis são frequentemente alimentados pelos visitantes, embora sejam animais selvagens que transmitem a raiva. Os mais graves problemas são: o atropelamento de animais, a caça e a retirada do palmito no entorno do parque. 6.4 INFRA-ESTRUTURA DE VISITAÇÃO 6.4.1 Great Smoky Mountains National Park O parque tem três centros de visitantes – Sugarlands, Oconaluftee e Cades Cove –, providos de banheiros, bebedouros, estacionamento, loja de souvenirs, livraria, lanchonete, um centro de interpretação e uma sala de exibição (15 minutos) de filmes sobre o parque, exceto em Cades Cove. É destacável a função educacional da ONG Institute at Tremont com os programas de classes e de diferentes faixas etárias, para as comunidades do entorno e até para turistas internacionais que se interessam pelas atividades. Há programas educacionais previamente agendados e relacionados à Biologia, Geologia, Geografia, Turismo, lazer e artes. A maior procura de visitantes ocorre no verão e outono. As cidades do entorno, como Gattlinburg, Cosby/Newport, Pigeon Forge, Sevierville e Townsend, no Tennessee; Bryson City, Cherokee, Graham County, Haywood County e Maggie Valley, na Carolina do Norte, vivem exclusivamente do marketing que o parque proporciona, com um rigoroso calendário de eventos cuidadosamente planejado pelos conventions bureaux locais, mantendo o fluxo massivo de visitantes e assegurando a economia local. Essas cidades suportam de três a quatro vezes a população local. 6.4.2 Parque Nacional do Iguaçu (Brasil-Argentina) O número de visitantes tem alcançado nos últimos anos a marca de 1 milhão por ano, em cada UC. Na Argentina, a estrutura de visitação do parque é compreendida por uma ampla área destinada ao atendimento do turista. Muitas trilhas já existentes foram aproveitadas para não agredir a vegetação do parque. Foram centralizados, subterraneamente, serviços gerais de água, gás, Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. 130 Territorialidade e Tursimo dos Parques Nacionais ... energia elétrica e telefone, garantindo a beleza do local. O conjunto abrange serviços e lugares especiais para deficientes físicos e idosos, bem como instalação de um fraldário nos sanitários femininos. O estacionamento tem capacidade para 750 automóveis e 200 ônibus. Desse ponto até a Estação Central o visitante terá de caminhar. Para os visitantes que apresentam dificuldades de locomoção, o CV dispõe de veículos, sendo possível realizar o circuito superior e o circuito inferior até o Salto Bossetti e Garganta do Diabo. O complexo de visitação do parque argentino compreende os recursos a seguir discriminados. Portal Cataratas: o primeiro edifício do complexo de visitação, com uma área de 417 m². Nele há um balcão de informações, uma sala destinada aos guias turísticos credenciados pela APN, uma loja de souvenirs e sanitários. Centro de Interpretação – Yvyra Reta: com uma área de 1.150 m², o local é o mais importante de todo o conjunto, pelas funções que apresenta. São duas alas temáticas, com a natureza e a ocupação humana regional. Anfiteatro: localizado em frente do Centro de Interpretação, apresenta uma capacidade para 600 pessoas sentadas. Praça institucional: espaço para descanso, contemplação da natureza, eventos educativos, compondo uma área de 4.520 m². Área comercial: estão localizados, nesse espaço, um restaurante para 250 pessoas, duas áreas destinadas a lanchonetes, loja de souvenirs, artesanato, fotografia e espaço de exposições. Sistema de transportes: o meio de transporte é o ferroviário, fabricado na Inglaterra, sob as normas ambientais previstas pelos parques nacionais argentinos. A locomotiva K80, modelo Cataratas do Iguaçu, criada especialmente para esse fim, impulsiona o trem com 3 vagões e capacidade para 40 passageiros cada um. É movida a gás, em função de baixo impacto ambiental. Faz o transporte do visitante da Estação Central à Estação Circuitos (1.523 m) e Garganta do Diabo (3.983 m). Tem capacidade de transportar de 120 a 150 passageiros por viagem, e sua velocidade não supera 20 km/h. No Brasil, o CV localiza-se na parte externa do Parque Nacional do Iguaçu, na margem esquerda da BR-469, com 107.636,69 m² de terreno, sendo 4.110,04 m² de área construída coberta e cerca de 50.000 m² de estacionamento, com capacidade para 170 ônibus, 20 vans e 676 veículos de passeio. Apresenta duas plataformas (interna e externa) para embarque e desembarque dos visitantes. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills 131 Buscou-se um estilo arquitetônico que se harmonizasse com a área do entorno, projetada de forma a se integrar com a natureza utilizando materiais como madeira com certificado de origem e fitossanidade, vidro e telhas de barro. Além de uma ampla área coberta para abrigar os visitantes, estão dispostos: serviços de informações, sanitários, fraldário, ambulatório médico, posto bancário, caixa coleta de correios, telefones públicos, sala de Turismo (destinada ao atendimento de grupos de visitantes), loja, lanchonete, área de administração e centro de interpretação. Sistema de transporte: o objetivo do sistema de visitação do Parque Nacional do Iguaçu é permitir o aumento do número de visitantes e, ao mesmo tempo, reduzir o impacto ambiental, pelo aumento do número médio de passageiros por veículo no interior do parque. Segundo dados do IBAMA, em 1999, 128.077 veículos entraram no Parque Nacional. Com a instituição desse sistema, observou-se a diminuição do fluxo elevado de veículos. A frota é formada de oito ônibus panorâmicos, double-deck com capacidade para 72 passageiros sentados. A parte superior do veículo é toda aberta, permitindo maior interatividade do visitante com o meio ambiente durante todo o percurso até as cataratas. Os parques do Iguaçu agregam valores à oferta turística, como hotéis de luxo na área das cataratas, restaurantes de categoria internacional, passeios de barco à jusante e à montante das cataratas. Difere da Argentina nos seguintes aspectos: os guias de Turismo têm escolaridade maior que os guias brasileiros; para atuarem como profissionais no parque argentino devem ser credenciados pelos Cientro de Investigaciones Ecológicas Subtropicales (CIES), órgão educacional do Parque Nacional del Iguazú; são supervisionados pelos guardaparques, que são formados pela Escuela de Guardaparques Argentina, para atuarem especificamente em áreas naturais protegidas. No Brasil, é destaque o papel educacional desenvolvido pela Escola Parque com as comunidades do entorno, por meio de trabalhos ambientais de preservação do Parque do Iguaçu. 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS Todos os funcionários foram unânimes em dizer que os centros de visitantes são fundamentais no processo de educação do turista e que todos devem inicialmente passar por esse lugar. Em 7/7/2005, foi incorporado ao Centro de Interpretação, no Parque Nacional do Iguaçu (Brasil), Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. 132 Territorialidade e Tursimo dos Parques Nacionais ... uma exposição ambiental que cumpre parte do processo educacional ao visitante. No Great Smoky Mountains e no Parque Nacional del Iguazú (Argentina), o visitante entrará se quiser no Centro de Interpretação. Os funcionários admitiram que o valor maior da visita está em ver o atrativo principal e não na interpretação, o que prejudica a qualidade da visita. Pela ampla e complexa abordagem do espaço, das territorialidades e da função dos parques nacionais para o Turismo, deve-se repensar o papel da atividade marcante deste século. É hora de serem analisadas as funções das criações e recriações espaciais para a satisfação do ser humano. É claro que para a atividade turística se necessita de conforto e segurança. Será que o ecoturismo está cumprindo seu verdadeiro papel nos parques nacionais? E as comunidades locais? Como ficam com os conceitos de sustentabilidade? Percebe-se claramente no entorno do Great Smoky Montains que as comunidades participam de forma ativa com qualidade de uma vida digna, com lazer e felicidade de viver, embora não sejam diferentes as questões de exploração das áreas intocadas e preservadas pela lei. A conservação está cumprindo sua lição de casa? Às vezes, prefere-se a radicalidade verde ambientalista, quando se está na Rodovia Newfound Gap com o tráfego intenso ou na Estrada do Colono, hoje fechada no Iguaçu. Faz-se necessário um repensar de forma lúcida, criativa e participativa. Num exercício de cidadania, devem ser ouvidas as comunidades do entorno, os administradores e os governantes que dirigem essas UCs. É preciso replanejar, para as gerações futuras e no propósito do ecoturismo, a garantia da natureza, num tardio, mas quem sabe promissor, retorno do homem à natureza. REFERÊNCIAS ADMINISTRACIÓN DE PARQUES NACIONALES (UICN). Red Latinoamericana de Cooperación Técnica en Parques Nacionales: otras áreas protegidas, flora y fauna silvestres. In: Las áreas naturales protegidas de la Argentina. Buenos Aires: [S.n.], 1998. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 113-134, 2009. Mauro José Ferreira Cury e Allan Scott Mills 133 BENI, M. C. Análise estrutural do turismo. 3. ed. São Paulo: Senac, 2000. BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal. Parque Nacional do Iguaçu: plano de ação emergencial. Brasília: IBAMA, 1994. CRESPO, J. A. 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Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli 135 O IMPERATIVO ÉTICO DE HANS JONAS COMO BASE PARA A RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL THE ETHICAL IMPERATIVE AS BASIS ON SOCIAL CORPORATE RESPONSABILITY BY HANS JONAS EDUARDO AUGUSTO DREWECK MOTA ___________________________________________________________ Mestre em Organizações e Desenvolvimento pela UniFAE, Pós-graduado em Marketing pela UniFAE, Graduado em Comunicação Social pela PUCPR, Professor e coordenador de curso na Universidade do Contestado (Canoinhas) E-mail: [email protected] OSMAR PONCHIROLLI ___________________________________________________________ Mestre e doutor pela UFSC, Filósofo, teólogo, especialista em Didática, Professor do Programa de Mestrado da UniFAE E-mail: [email protected] Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. 136 O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli 137 RESUMO A sociedade contemporânea passa por um período de mudança em suas diretrizes econômicas, catalisada principalmente pelas situações de degradação ambiental e social do planeta. Com isso, as organizações empresariais, principais vetores do desenvolvimento capitalista, enfrentam a inevitável responsabilidade de desenvolver ações que contribuam para a melhoria efetiva das condições da existência digna da sociedade no mundo. As ações das empresas com esse mérito, denominadas Responsabilidade Social Empresarial (RSE), necessitam de uma base ética inicial, que aponte o foco da atuação para a preservação da espécie humana. O objetivo deste artigo é refletir sobre o pensamento de Hans Jonas, principalmente a partir dos elementos do imperativo ético para a civilização tecnológica, que o autor desenvolve em sua obra, entendendoo como um alicerce fundamental para a RSE. Palavras-chave: ética, responsabilidade, organizações. ABSTRACT The modern societies pass for a period of change in its economic objectives, catalyzed mainly for the situations of ambient and social degradation of the planet. In this way, the companies, main vectors of the capitalist development, face the inevitable responsibility to develop actions that contribute for the improvement of the conditions of the worthy existence of the society in the world. The actions of the companies with this merit, often called Social Responsibility, need an initial ethical base, which points the focus of the performance to the preservation of the human race. The objective of this article is to reflect on the thought of Hans Jonas, mainly from the elements of the ethical imperative for the technological civilization, which the author develops in its work, understands it as a basic foundation for the Social Responsibility. Keywords: ethics, responsibility, companies. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. 138 O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli 139 1 INTRODUÇÃO Durante boa parte dos séculos XIX e XX, as sociedades construíram diretrizes sob uma ótica capitalista. Nessa realidade, valorizava-se o consumo e o crescimento econômico, sem levar em consideração a qualidade de vida e a racionalidade do uso e da preservação dos recursos naturais. Esse pensamento mecanicista foi predominante por, pelo menos, 200 anos. Entretanto, na década de 70 (século XX), começaram a surgir movimentos ambientalistas em nível global, motivados principalmente pela constatação de que o planeta sofria impactos ambientais indesejados e preocupantes que, em curto e médio prazo, poderiam esgotar os recursos disponíveis e prejudicar toda a sociedade, de forma holística. Para Cleverson V. Andreoli (2002, p. 61), o modelo de desenvolvimento proporcionou uma dinâmica de degradação que alcançou uma escala planetária a partir de 1990. Para o autor, diversos fatores foram apontados como causas dessa situação, tais como [...] o incremento populacional, a moderna indústria de consumismo supérfluo, os sistemas de dominação hierárquica próprios da sociedade industrial e a distribuição desigual de riquezas entre países e populações. Diante das evidências de uma crise ambiental mundial, tem-se defendido uma ideia de desenvolvimento sustentável, objetivando justamente reduzir o antagonismo entre a atual condição global, com uma proeminente necessidade de crescimento para sustentar a população humana, e o futuro ambiental do planeta. Assim, para que o desenvolvimento sustentável ocorra, é necessária a compreensão das transformações da sociedade e de seus impactos futuros, com base nas inter-relações entre as dimensões econômica, social e ambiental. Nesse sentido, Christian Luiz da Silva (2005, p. 37) ressalta que se pode conceituar desenvolvimento sustentável como um processo de transformação que ocorre de forma harmoniosa nas dimensões espacial, social, ambiental, cultural e econômica, partindo do individual para o global. Essas dimensões são inter-relacionadas por meio de instituições que estabelecem as regras de interações e que influenciam no comportamento da sociedade local. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. 140 O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ... Nessa perspectiva, a incorporação do conceito de desenvolvimento sustentável passa a ser um instrumento essencial para um novo posicionamento estratégico nos agentes promotores atuantes na sociedade, especialmente nas organizações empresariais, visando responder às grandes tendências sociais e ambientais que, atualmente, estão remodelando o mundo de forma contínua. Para as organizações empresariais, a proposta de mudança de paradigma – saindo de um sistema econômico concentrado em resultados mercadológicos para um processo que significou o início da construção de uma agenda de inserção das questões sociais e ambientais no modelo vigente – trouxe a constatação de que a rentabilidade não poderia mais se fundamentar exclusivamente em consumismo industrial e competição. Para Peter Wright et al (2000), o propósito principal das organizações é criar riqueza para os proprietários (acionistas) da empresa por meio da satisfação das necessidades e expectativas de outros stakeholders. Segundo os autores, o motivo dessa mudança de foco é que se configura uma miopia estratégica maximizar a riqueza dos acionistas à custa de outros grupos de stakeholders. Assim, os ganhos financeiros dos acionistas em detrimento das necessidades monetárias dos recursos humanos, por exemplo, somente alienarão os empregados, eventualmente prejudicando futuros clientes financeiros. Dentro dessa perspectiva, é consenso que as empresas não podem mais ser instituições anônimas e que não fazem nada além de venderem produtos às pessoas. As empresas, seja pela pressão da sociedade em que geram impactos, seja pela necessidade de sua própria sustentabilidade, devem assumir posturas claras de responsabilidade em relação a seu meio de inserção, buscando uma compreensão de que apenas com governos, sociedade civil e organizações trabalhando em conjunto é possível construir comunidades sustentáveis. Essa responsabilidade abrange as dimensões econômica, social e ambiental, entendendoa como uma continuidade do conceito de desenvolvimento sustentável. A responsabilidade social refere-se à expectativa de que as empresas ajam de acordo com os interesses públicos. Conforme o pensamento de Peter Wright et al (2000, p. 117), sempre se esperou que as empresas oferecessem empregos para as pessoas e bens e serviços aos clientes e fornecedores, pagando impostos e obedecendo à legislação. Essa seria a essência da responsabilidade social empresarial, que se traduziria economicamente em maximização de lucros para os acionistas. Entretanto, para os autores, atualmente, a responsabilidade das Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli 141 empresas implica mais que isso. Hoje, a sociedade espera que as empresas ajudem a preservar o ambiente, vendam produtos seguros, tratem seus funcionários com igualdade, sejam verdadeiras com seus clientes e, em alguns casos, cheguem até mais longe, oferecendo treinamento aos desempregados, contribuindo para a educação e as artes e ajudando a revitalizar áreas urbanas onde há concentração de favelas. Os planos de RSE nas organizações empresariais, reflexos da construção da agenda social e ambiental nas diretrizes estratégicas, convergem para as grandes questões humanas da atualidade, como educação, saúde, preservação dos recursos naturais, manutenção da biodiversidade e diminuição da pobreza. O fenômeno de RSE pode ser entendido como um componente da urgente necessidade das organizações de responder aos anseios de um ambiente cada vez mais complexo. Mesmo que desempenhem ações desse tipo apenas para corresponder à nova realidade competitiva, os empreendimentos privados estruturaram condutas solidárias que modificam o impacto percebido pela sociedade, principalmente porque acabam alterando, ainda que não estritamente com esse objetivo, parte fundamental de seu espaço de produção e influência. Sob esse panorama, quais seriam as bases éticas fundamentais para a consolidação e execução das ações de responsabilidade social desenvolvidas pelas organizações empresariais? Que elementos devem ser considerados no momento de estruturação e decisão das ações de RSE? Como as considerações do imperativo ético do filósofo alemão Hans Jonas se encaixariam na raiz das ações de RSE? O objetivo deste artigo é entender quais seriam as bases éticas fundamentais propostas por Hans Jonas, principalmente sob o ponto de vista da responsabilidade, e como essas se aplicam na RSE. Trata-se de uma pesquisa teórico-empírica, baseada em literatura e em pesquisa de campo aplicada em uma organização empresarial, por meio de um estudo de caso. Na primeira seção, faz-se uma introdução ao artigo. Na segunda seção, são apresentados os procedimentos metodológicos da pesquisa realizada para este artigo. Na terceira seção, tem-se o desenvolvimento com a construção teórica, como ponto de partida para o entendimento da ética de Hans Jonas e o estabelecimento dos fundamentos para a atuação da RSE. Por fim, a quarta seção é dedicada às considerações finais. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. 142 O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ... 2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Pode-se classificar a pesquisa para a produção deste artigo como exploratória e qualitativa, uma vez que tem como base buscar respostas a indagações de nível particular e trabalha em uma esfera que não pode ser totalmente quantificada. Foi usado como procedimento o método de pesquisa bibliográfica, durante o período de setembro de 2008 ae janeiro de 2009. Segundo Antonio Carlos Gil (2002, p. 41), a pesquisa exploratória tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com intenção de torná-lo mais explícito ou de construir hipóteses. Tem como objetivo principal o aprimoramento de ideias ou a descoberta de intuições. Para o autor, “[...] embora o planejamento da pesquisa exploratória seja bastante flexível, na maioria dos casos assume a forma de pesquisa bibliográfica ou de estudo de caso.” O momento inicial da coleta de dados na pesquisa exploratória deuse em material bibliográfico, em fontes secundárias. Para Eva Maria Lakatos e Marina de Andrade Marconi (2001), as fontes secundárias tratam-se de bibliografias já publicadas sobre determinado assunto, de modo a colocar o pesquisador em contato com problemas, desafios e informações já conhecidas da área, bem como exploração de novas áreas em que os problemas eventualmente não se cristalizaram suficientemente. 3 DESENVOLVIMENTO No contexto em que se insere a RSE, como um elemento complexo da constituição humana nas atividades econômicas dentro de organizações empresariais, é importante entender qual é a base ética para sua atuação. Antes de discutir as bases, entretanto, é necessário estabelecer algumas considerações que estão na órbita, justamente, do evidente crescimento da importância da ética nos empreendimentos humanos, em um mundo cada vez mais consciente de uma perspectiva de esgotamento de seus recursos e atento à continuidade de sua existência. Podem ser listadas algumas constatações pragmáticas que apontam para o surgimento desse novo paradigma em questão. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli 143 A primeira constatação é a emergência de consumidores mais exigentes. O crescimento econômico e a alta competitividade de ordem capitalista que se disseminou pelo mundo cunharam consumidores acostumados a assistir a uma disputa por suas decisões de compra. Esse fato faz com que as estratégias de diferenciação das empresas, para chamar a atenção de seu público, estejam em evolução constante, principalmente nas ações de marketing e comunicação, que invadem o cotidiano das pessoas e procuram estar alinhadas com o pensamento do maior número possível de consumidores. Uma das principais consequências dessa realidade é que os assuntos que são discutidos por muitas pessoas, que estão em pauta na sociedade, tanto em esferas de debate políticas quanto nas não-governamentais, são adotados como fator de atração de consumidores. A responsabilidade social, muitas vezes, é construída nas organizações sob esse prisma, da necessidade de falar a língua dos consumidores ou das partes interessadas. Tome-se como exemplo a intensa exploração da causa ambiental, muito em foco nas discussões políticas e nas rodas informais, sendo usada por muitas empresas e pessoas para vinculação de uma imagem ética mais adequada com a perspectiva dos consumidores. Isso ocorre com outros grandes temas da sociedade, como a eliminação da pobreza, a melhor distribuição de renda, a diminuição das doenças e da mortalidade infantil, a preservação do patrimônio cultural e histórico, entre outros. É possível deduzir desse empirismo que as organizações do mercado formal, impulsionado por seus próprios consumidores, acabam por estimular o desenvolvimento de ações de responsabilidade social, buscando investir em programas e projetos sociais para obter retorno de imagem e de vendas. A segunda constatação de que a responsabilidade social está em evidência parte da premissa de que é uma verdade inquestionável que a globalização trouxe impactos sobre as culturas locais. Conforme Sarita Albagli (1999), por um lado, esse fato pode ser percebido como uma tentativa de hegemonia da visão ocidental, um declínio das identidades, uma descaracterização do local potencializada pelas redes de comunicação que atuam como uma cadeia de fluxos contínuos de informações e imagens, descolando o indivíduo de sua própria realidade. Por essa leitura, os locais estariam muito permeáveis às influências externas, perdendo muito de singularidade e autenticidade. Ainda há uma outra visão que trata dessa questão pelo entendimento de que cada sociedade é capaz de preservar e desenvolver sua cultura, vinculando-se a seu espaço. O local é Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. 144 O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ... visto como uma resistência à unificação, à massificação, simplesmente em função de uma prevalência de uma memória espacial, um local para referenciar. Nessa linha de pensamento, a globalização catalisa a diferenciação e a complexidade cultural, uma vez que as comunicações diminuem as barreiras espaciais e permitem maior consciência sobre a diversidade do mundo, que em outra situação estariam obscurecidas, fortalecendo o aspecto relacional existente. A consciência, a identidade e a necessidade de se referenciar a um local aumentam com os fluxos informacionais da globalização. Sob o ponto de vista da responsabilidade social, o fato de as sociedades modernas necessitarem cada vez mais de um referencial espacial, de um sítio determinado de memórias, significa uma ampliação na condição de zelo pela manutenção do bem-estar geral, na visão de que este é fundamental para a sobrevivência de sua diversidade, de suas características únicas. Assim, a ideia da busca por um desenvolvimento de estratégias em que predominem a preservação e melhoria da sociedade fica mais compreensível para os indivíduos. Ao mesmo tempo em que as informações globalizadas rapidamente formam uma espécie de consciência coletiva informatizada nas sociedades, criam um entendimento de que é preciso preservar suas individualidades. A terceira constatação dessa realidade que estimula o surgimento de ações de responsabilidade social é a evolução intensa da comunicação nos últimos anos. A intensificação das relações sociais em escala mundial, catalisadas principalmente pela tecnologia de informação e pelo processo econômico em macroescala, modificaram a maneira como as pessoas estabelecem processos de comunicação. Há uma tendência de eliminação dos limites internos, fazendo com que os locais estejam conectados de tal maneira que são influenciados e modificados por eventos ocorrendo em espaços distantes, e vice-versa. A responsabilidade social é especialmente impactada no limiar desse fenômeno, principalmente quando se observa que, até então, as sociedades possuíam uma dimensão irrestritamente estabelecida no espaço e no tempo, com um forte sentimento de localização, de pertencer a um local, de fazer parte de um cotidiano relativamente fechado e regular. No entanto, como defende Sarita Albagli (1999), as atuais sociedades da informação apresentam certo desencaixe no tempo e no espaço. Essa situação ocorre principalmente quando se percebe uma uniformização na medição do tempo. Em uma sociedade globalizada, “quando” importa muito mais que “onde”. Essa eliminação virtual do conceito de distância interfere Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli 145 intensamente na percepção do local, na concepção de coexistência. Atualmente, o fato de um empresário estar no Brasil, por exemplo, não interfere em suas negociações com o Japão, mesmo que aí exista um abismo no fuso horário e milhares de quilômetro entre um país e outro. Existe nas sociedades atuais uma forte transferência do sentimento de pertencer para o conceito de tempo e não mais para o de espaço. A consequência mais direta dessa realidade é uma disseminação dos problemas existentes em vários lugares pelo mundo. Um indivíduo residente em uma pequena cidade no interior do Paraná, por exemplo, pode interessar-se por auxiliar causas sociais inseridas na realidade de uma metrópole como São Paulo. A exposição que a comunicação trouxe para as mazelas sociais multiplicou de forma geométrica a sensibilização das pessoas pelo que ocorre no mundo. A quarta constatação pragmática de um incremento nas ações de responsabilidade social é o surgimento de uma nova ordem social. A economia capitalista mundial experimenta, talvez, uma de suas maiores movimentações, auxiliada sobremaneira pelo fortalecimento dos países orientais – como China e Japão. Essa nova ordem social, que vai além da participação do governo e do mercado, está inserindo na realidade das pessoas as organizações não-governamentais, as igrejas, as associações comunitárias, os movimentos sociais, as entidades sem fins lucrativos e outros enclaves. As propostas dessas entidades permeiam o auxílio mútuo, a inclusão social e a defesa de interesses que preservem o bemestar da humanidade. Nos últimos anos houve certo predomínio nas ações comunitárias inseridas nas agendas das empresas e dos governos, claramente influenciadas por uma pressão perpendicular exercida pela sociedade civil e suas manifestações organizadas. Mesmo que as políticas sociais tradicionais, assistencialistas e com distribuição deficiente, ainda possuem predominância, essa pressão conduz e legitima as ações de responsabilidade social, desenvolvidas por qualquer dos agentes da sociedade (estado, mercado ou sociedade civil), influenciando a um público cada vez mais abrangente. Por fim, pode-se perceber que essa realidade que se apresenta vem discutindo intensamente as questões éticas, constituindo-se em uma tendência de proporções inegáveis que afetam sobremaneira a atividade humana sobre o planeta. A responsabilidade social está presente nas realizações do ser humano e vêm construindo uma visão de longo prazo na sociedade. Essa visão é necessária para que exista a compreensão da Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. 146 O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ... responsabilidade que todos possuem para a conservação do ambiente em que a sociedade vive, bem como haja o legado que será passado para as gerações futuras e as diretrizes para a preservação da humanidade. 3.1 O PENSAMENTO DE HANS JONAS: BASES ÉTICAS PARA A RSE Com a constatação da necessidade da inserção de um conceito de responsabilidade nas ações da humanidade, torna-se imprescindível discutir uma visão de como esta deveria se consolidar. A visão teórica do filósofo alemão Jonas busca justamente o surgimento de um novo comportamento ético, pautado nos crescentes desafios trazidos pela revolução tecnológica e absorvidos de maneira frenética pela sociedade. O autor aborda um viés que pretende responsabilizar a todos pela própria existência e pela continuidade da humanidade no planeta, identificando os valores e os fins a serem buscados e utilizando os meios não como um fim em si mesmo, mas como aquilo que realmente são. Para Hans Jonas (2006), é preciso que o ser humano se abstraia da ética tradicional, voltada para os limites das ações humanas, e volte-se para uma ética das coisas extra-humanas, que considera a existência de uma natureza que é de sua responsabilidade e que é essencial para a manutenção de uma vida digna no planeta. O autor vai além do imperativo kantiano, considerado como uma referência importante – “Age de modo que tu também possas querer que tua máxima se torne lei geral”, ou seja, aja de modo que o princípio de sua ação se transforme numa lei universal –, e propõe um novo imperativo: “Age de tal maneira que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida humana autêntica.” Jonas propõe ainda o mesmo imperativo construído negativamente: “Não ponha em perigo as condições necessárias para a conservação indefinida da humanidade sobre a Terra.” Com isso, Jonas defende a criação de um princípio de responsabilidade, com base em torno das categorias de bem, de dever e de ser, tendo como modelo a relação de responsabilidade incondicional entre pais e filhos. Para o autor, embora a responsabilidade não seja um assunto novo para a moralidade, a humanidade nunca a tratou com atenção. Nas palavras de Hans Jonas (2006, p. 22): Em vez de ociosamente desvendar as consequências tardias no destino ignoto, a ética concentrou-se na qualidade moral do ato momentâneo em si, no qual o direito do contemporâneo mais próximo tinha de ser observado. Sob o signo da tecnologia, no entan- Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli 147 to, a ética tem a ver com as ações (não mais de sujeitos isolados) que têm uma projeção causal sem precedentes na direção do futuro [...] Ajunte-se a isso a magnitude bruta dos impactos de longo prazo e também, com frequência, a sua irreversibilidade. Isso desloca a responsabilidade para o centro da ética. Nessa perspectiva, um dos principais aspectos discutidos por Jonas nessa reconsideração da responsabilidade humana é a exposição da vulnerabilidade da natureza provocada pela intervenção técnica do homem. Segundo Hans Jonas (2006, p. 39), essa vulnerabilidade “[...] jamais fora pressentida antes que ela se desse a conhecer pelos danos já produzidos.” Essa descoberta modifica de maneira intensa o papel do ser humano como fato causal na natureza das coisas. Jonas deixa claro que a intervenção do homem na natureza sofreu um crescimento exponencial, impulsionada pela tecnologia e os benefícios advindos de sua aplicação que exige uma remodelação do conceito de ética, revelando que a responsabilidade do homem se estendeu nada menos do que para a biosfera inteira do planeta, uma vez que sobre ela a humanidade detém o poder. Nas palavras do próprio Hans Jonas (2006, p. 41): Ao menos deixou de ser absurdo indagar se a condição da natureza extra-humana, a biosfera no todo e em suas partes, hoje subjugadas ao nosso poder, exatamente por isso não se tornaram um bem a nós confiados, capaz de nos impor algo como uma exigência moral – não somente por nossa própria causa, mas também em sua própria e por seu próprio direito. Para Hans Jonas (2006), há ainda um outro aspecto que lança bases para uma modificação dos princípios éticos nesse contexto: o fato de que a tecnologia, como esforço essencialmente humano, tenha ultrapassado os objetivos pragmaticamente delimitados dos tempos antigos. Hoje, a tecnologia transformou-se em um perpétuo motor, um infinito impulso da espécie para adiante, seu empreendimento mais significativo. O autor afirma que a humanidade é levada constantemente a acreditar que a vocação dos homens se encontra no contínuo progresso, buscando uma superação permanente sobre si mesmo. Essa realidade atestaria o triunfo do homo faber – aquele que predomina sobre a natureza e continuamente a transforma em seu instrumento para o desenvolvimento – sobre o homo sapiens. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. 148 O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ... Em outras palavras, Hans Jonas (2006) chama a atenção para o significado ético que a tecnologia assume por conta da atenção e importância que vem ocupando na vida humana. Para o autor, o ser humano acaba eclipsando a totalidade de suas virtudes em função do poder da tecnologia, uma vez que as forças dos indivíduos são conclamadas em sua direção, diminuindo o conceito do homem sobre si próprio. O próprio mercado, e a economia atrelada a ele, é uma demonstração pragmática dessa constatação, pois um contingente considerável de seres humanos acaba transformando parte da plenitude de suas vidas em atos que levam à busca por uma evolução tecnológica, com fins de ganho financeiro. Essa crítica contida na obra de Jonas acaba aproximando-o Ramos (1989), que, de certa forma com o mesmo objetivo, explora a clara predominância do trabalho – representando pela conformidade com os desígnios da economia formalista (sobre a ocupação) – que se coloca em direção a um caráter de realização mais pessoal, de cada indivíduo. O fato mais cruel dessa realidade é que as pessoas que não trabalham com tal propósito aspiram, um dia, a participar desse jogo e acabam obliterando outros enclaves sociais. Com isso, Hans Jonas (2006) consolida uma nova proposição ética, a qual leva em consideração os dilemas morais trazidas pela tecnologia e suas consequências no ambiente humano. O autor propõe um imperativo de responsabilidade que inclua incondicionalmente a presença do homem no planeta Terra. Trata-se de um dever para com a conservação do mundo físico, de modo que as condições para essa presença permaneçam intactas. Isso significa uma mudança de posicionamento ético que auxilie na conservação não só do ser humano e de suas relações complexas, mas também para diminuir a vulnerabilidade da natureza diante de ameaças que possam frustrar as condições para a continuidade da humanidade no planeta. Mas como um axioma que pretende modificar de maneira relevante um comportamento social ético já estabelecido, Hans Jonas (2006, p. 48) afirma que é fácil infringir o imperativo de responsabilidade futura sem cometer nenhuma contradição. Conforme o autor, pode-se querer o bem presente ao preço do sacrifício do bem futuro. Ou ainda, querer o próprio fim e também o fim da humanidade, pois, sem nenhuma contradição, pode ser preferível uma completa autorrealização fugaz a uma continuação medíocre interminável. Contudo, para Jonas, o novo imperativo afirma que o indivíduo pode arriscar a própria vida, mas não a da humanidade. Nenhum ser humano tem o direito de escolher a não-existência de futuras gerações em função da existência da atual, ou mesmo colocá-las em risco. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli 149 Essa ética do futuro desenvolvida por Hans Jonas (2006) possui dois deveres essenciais delineados. O primeiro é a construção de uma visão de longo prazo sobre os possíveis efeitos das ações humanas. Segundo o autor, é necessário que a humanidade se oriente pelo medo de algo que pode não ter sido experimentado e que talvez não possua analogias na experiência do passado e do presente. Essa visão do que pode acontecer assume um papel de algo que já ocorreu. Para Hans Jonas (2006, p. 72): “O mal imaginado deve aqui assumir o papel de mal experimentado. Como esta representação não acontece automaticamente, ela deve ser produzida intencionalmente.” Tal projeção do futuro é, portanto, um dever da nova ética e se consolida como um pensamento essencial para a responsabilidade da humanidade. Esse primeiro dever corrobora o desenvolvimento de ações de responsabilidade social, pois pode-se inferir com isso que os planos de ação social levem em consideração um mal imaginado, em longo prazo, e não apenas as situações ocorridas no presente, em curto prazo. Esse novo ponto de vista auxilia na proposição de focos adequados para as ações de responsabilidade social desenvolvidas pela sociedade, com perspectiva de construção de um espaço social colaborativo que possua um componente de evolução. O segundo dever da ética do futuro está justamente em mobilizar na sociedade uma representação adequada para essa projeção, para o mal imaginado que deve assumir um status quo de realidade iminente. Hans Jonas (2006, p. 72) aborda a dificuldade de realizar essa representação: O destino imaginado dos homens futuros, para não falar daquele do planeta, que não afeta nem a mim nem a qualquer outro que ainda esteja ligado a mim pelos laços do amor ou do convívio direto, não exerce a mesma influência sobre o nosso ânimo; no entanto, ele o devia fazer, isto é, nós devíamos conceder-lhe essa influência. Dessa observação é possível inferir que o segundo dever da ética do futuro é consequência do primeiro: a adoção de uma atitude para se deixar sensibilizar pela salvação das gerações vindouras. É preciso um pensamento sólido de causa e consequência, em um exercício contínuo de elaboração de possibilidades e projeções. As ações são orientadas para relevar um “se” para um “então” (se tal coisa é realizada, então tal coisa pode acontecer). Ao aplicar essa condição nas ações da humanidade, a concepção de projeção futura transforma-se em um objeto factível de refle- Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. 150 O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ... xão. Por exemplo, ao colocar um “se” nas pesquisas com certos alimentos transgênicos, assunto em pauta na sociedade contemporânea, pode-se obter um “então” que se mostre amplamente desfavorável e que acabe de certa forma guiando o curso do empreendimento para outro caminho de desenvolvimento, gerando outras correlações entre “se” e “então”. A responsabilidade em longo prazo defendida por Jonas ainda traz reflexões para as ações da humanidade, principalmente quando se consideram os crescentes desafios sociais e humanísticos trazidos pela tecnologia. Quando colocadas sob a analogia de um jogo de azar ou das apostas contidas no agir humano, é possível imaginar, em termos éticos, os possíveis resultados e seus efeitos colaterais. Hans Jonas (2006, p. 83) faz quatro argumentações interdependentes com base nessa ideia. A primeira consideração é que não podem ser arriscados os interesses de outros em apostas pessoais. Segundo o raciocínio de Jonas, não se pode apostar nada que não se tenha. Entretanto, levando-se em consideração o entrelaçamento indissolúvel dos assuntos humanos, a interdependência da sociedade, bem como a teia causal de todas as coisas, não se pode evitar que o agir de uma pessoa afete o destino de outras. Logo, arriscar aquilo que é de um indivíduo, significa sempre arriscar também algo que pertence a outro e sobre o qual, a rigor, não existe nenhum direito. Para o autor, é preciso determinar até onde se pode ferir conscientemente ou mesmo pôr em risco interesses alheios. Em princípio, deve-se rejeitar apenas o capricho e a leviandade no risco da coisa alheia. A segunda argumentação é a existência de situações muito específicas em que é permissível apostar a totalidade dos interesses dos outros. Jonas explica essa elucubração apoiando-se na ideia de que certos objetivos altruístas, principalmente quando alinhados com os objetivos daqueles que ficam em risco por ação do apostador, podem justificar uma aposta entre ganhar e perder tudo. Somente a prevenção do mal maior, e não a obtenção do bem maior, justificaria que se arrisque a totalidade dos interesses alheios. Com base nas premissas anteriores, a terceira consideração de Hans Jonas (2006, p. 85) enfatiza que o melhorismo não justifica nenhum das apostas totais. Segundo o pensamento do autor, os grandes riscos da tecnologia não se enquadram no raciocínio anterior, pois Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli 151 [...] estes não são assumidos com a finalidade de salvar o que existe ou abolir o insuportável, mas para melhorar permanentemente o já alcançado, isto é, para o progresso, cuja versão mais pretensiosa pretende construir um paraíso terrestre. Como última argumentação, Hans Jonas (2006, p. 85) afirma categoricamente que a humanidade não tem o direito ao suicídio. Mas, alerta o autor, existem algumas obras da tecnologia que, por seus efeitos cumulativos, têm precisamente essa abrangência e penetração globais, ou seja, têm o poder de por em perigo quer a existência inteira ou a essência inteira dos homens no futuro. Segundo palavras do próprio Hans Jonas (2006, p. 86): Não seria possível supor que a humanidade que ainda está por vir possa concordar com sua própria inexistência ou desumanização; [...] existe uma obrigação incondicional de existir, por parte da humanidade, que não pode ser confundida com a obrigação condicional de existir, por parte de cada indivíduo. Com essas argumentações Hans Jonas (2006, p. 86) traça um princípio que proíbe certos experimentos de que a tecnologia se tornou capaz de realizar. Com apoio na premissa essencial de que no processo decisório se deve conceder preferência às previsões de desastre em face dos prognósticos de felicidade, o autor conceitua o princípio ético fundamental da responsabilidade de futuro: “[...] a existência ou a essência do homem, em sua totalidade, nunca podem ser transformadas em apostas do agir.” Edgar Morin (2005), em seu livro O método 6: ética, se aproxima de Jonas quando declara que o bem geral pode ser considerado pela humanidade como uma abstração, principalmente pelas apostas do agir em nome da emancipação do ser humano, quando muitas vezes escondiam uma determinação para sua submissão. Segundo palavras de Edgar Morin (2005, p. 50): O bem de nossos próximos é concreto, mas podemos nos enganar sobre o verdadeiro interesse deles e, sobretudo, corremos o risco e ficar encerrados em nossa pequena comunidade e indiferentes aos problemas fundamentais e globais da humanidade. [...] Reaparece aqui o antagonismo entre a audácia e a prudência: até onde se pode ir na audácia, arriscando pôr tudo a perder, assim como na prudência, arriscando nada ganhar? Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. 152 O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ... Por fim, opta-se por discutir alguns elementos da obra de Hans Jonas (2006), que advêm do princípio fundamental da responsabilidade futura e que auxiliam na compreensão do alcance desejado do termo responsabilidade nas atividades humanas, como proposto neste trabalho. Uma das principais ideias de Jonas é a extinção da reciprocidade do âmago da ética. A ética do futuro não pode ser obtida pela ideia de reciprocidade, que estabelece que o dever de um é a imagem refletida do dever de todos, de modo que uma vez estabelecidos certos direitos dos outros também se estabelece o dever de respeitá-los. A ética do futuro propõe uma quebra desse conceito, pois lida, como afirma Hans Jonas (2006, p. 89), exatamente com o que ainda não existe, e o princípio da responsabilidade tem de ser independente tanto da ideia de um direito quanto da ideia de uma reciprocidade. Ou seja, não se pode esperar algo em troca por respeitar e preservar o que ainda não existe. Essa eliminação da reciprocidade da ética de futuro, proposta por Jonas, reflete uma característica fundamental do conceito desejado para o termo responsabilidade, principalmente quando usado com a determinação de responsabilidade social. É necessário que as ações humanas, engendradas por qualquer dos agentes da sociedade, possuam um caráter mais voltado ao altruísmo, uma espécie de reivindicação antecipada, que proteja o princípio básico de existência do homem. Empiricamente, isso significa o estabelecimento de projetos, em que estão intrínsecos os componentes de responsabilidade, para preservar a qualidade de vida do ser humano e do ambiente; em outras palavras, ações que garantam a continuidade da espécie no planeta, que estimulem o cumprimento de um dever com o futuro da humanidade e que não solicitem nenhum tipo de retorno específico para tanto. Há, portanto, a consolidação de um dever nato do ser humano com a posteridade, com o que será deixado para a humanidade futura, para as próximas gerações, não sendo possível transferir a responsabilidade pela sua existência para ela própria. Peter Senge (1999, p. 134) explora esse tema, quando afirma que as pessoas de modo geral têm dificuldades em abordar problemas, seja porque se trata de uma dificuldade obscura ou porque isso exige um grande esforço. Assim, conforme o autor, as pessoas “[...] transferem a responsabilidade dos problemas para soluções bem intencionadas e fáceis que pareçam eficientes.” Desse modo, não há um compromisso com a resolução dos problemas, mas com o estabelecimento de medidas paliativas que aparentemente desaparecem com as dificuldades. Há uma clara vinculação com a reciprocidade dos atos, uma perspectiva de ganho. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli 153 Para exemplificar a questão, Hans Jonas (2006, p. 89) ilustra que já há na natureza um caso de responsabilidade e obrigação que não exige reciprocidade. Essa obrigação é elementar para a sociedade e é praticada espontaneamente: a responsabilidade com os filhos, que não resistiriam no mundo sem a assistência e a proteção de seus pais. Assim como não se pode esperar uma recompensa pelo amor e esforço dedicados pelos pais aos filhos, o que, aliás, é naturalmente incondicional, também não se pode esperar que existam compensações pela responsabilidade assumida para garantir a continuidade da espécie humana. Para Jonas, esse tipo de não reciprocidade entre pais e filhos é a origem genuína da responsabilidade buscada pela ética do futuro, com uma exigência contínua, legítima e inquestionável. Em outras palavras, o exemplo da responsabilidade parental pode ser aplicado como um modelo de atuação para a humanidade – a aceitação do encargo dessa responsabilidade para com a continuidade da espécie sobre o planeta. Nesse caso, considera-se que a responsabilidade não está somente no agir, mas também em evitar a omissão que é fatal para uma criança, em especial para um recém-nascido, e pode ser fatal ainda para outros elementos necessários à manutenção da vida digna do ser humano, como os recursos naturais ou o bem-estar social. Hans Jonas (2006) faz outra reflexão sobre o assunto, ao considerar a responsabilidade para com as crianças uma condição diretamente proporcional ao bem-estar dos indivíduos em geral, a mais fundamental de todas as responsabilidades que podem ser associadas ao homem. Para Hans Jonas (2006, p. 224): “Com cada criança que nasce recomeça a humanidade em face a mortalidade, e nesse sentido também está em jogo a sobrevivência da humanidade.” Ao colocar em risco esse aspecto, o ser humano coloca em risco sua própria continuidade, segundo o princípio da ética de futuro. Levando esse pensamento para as ações de responsabilidade social desenvolvidas pelos agentes da sociedade, permite-se aqui o entendimento de que o zelo pelas crianças assume uma proporção mais fundamental, de base, na busca pela sobrevivência da humanidade que, portanto, pode ser tratada com mais constância e consistência. Outro pensamento de Hans Jonas (2006) traz à tona uma evolução da tradicional vinculação entre o poder causal e a responsabilidade, em que qualquer agente deverá responder por seus atos, sendo responsável pelas consequências e respondendo por elas, se for o caso. Para o autor, existe uma noção de responsabilidade que não pode ser expressa Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. 154 O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ... em termos de cálculo, de causa e consequência, mas que está próxima de um sentimento de responsabilidade em relação a um objeto que reivindica tal ação. Esse tipo de responsabilidade leva em consideração o que se encontra no campo de ação do poder do ser humano, mesmo que não tenha sido objeto de sua escolha. Esse pensamento conduz a uma dimensão de solidariedade entre aqueles que detêm o poder e aqueles que, por qualquer razão, estejam no raio desse poder. O termo responsabilidade, neste ponto, assume essa característica e impetra uma espécie de dever para os detentores do poder. Ao levar tais considerações para uma experiência pragmática das ações humanas, pode-se exemplificar o dever que um indivíduo tem com seus entes queridos, na medida em que detém um poder em relação a eles, um sentimento de responsabilidade, e vice-versa, ou, da mesma forma, o dever de uma organização empresarial para com a comunidade em que está inserida, pois exerce um determinado poder sobre ela. Esse aspecto da teoria de Hans Jonas (2006) permite inferências que acabam auxiliando na concepção do alcance do significado do termo responsabilidade social. O autor deixa claro que, ao levar em consideração a relação de poder no comportamento das pessoas na sociedade, pode-se afirmar que existe um compromisso com o bem-estar dos outros, um sentido de coletividade que está inserido na responsabilidade de todos, devendo determinar a maneira de agir do ser humano. Essa ideia pode ser aplicada, de maneira pragmática, para responsabilizar a todos, inclusive moralmente, por exemplo, no caso de crimes contra o meio ambiente. Mesmo que não se tenha a intenção, o fato da responsabilidade ser gerada pelo poder em relação a esse meio ambiente, torna a todos responsáveis, mesmo em caso de omissão. Tal conceito torna as ações de responsabilidade social, principalmente àquelas vinculadas às organizações empresariais, uma obrigação moral para com a sociedade, uma vez que o poder causal nesse caso é ainda maior. Hans Jonas (2006) aborda ainda um tipo excepcional de responsabilidade, que é livremente escolhida e que não se encontra, a priori, na esfera do poder de ninguém: a responsabilidade assumida pelo homem político, que ambiciona o poder para assumir responsabilidades. Conforme Hans Jonas (2006, p. 172), [...] aqui temos um privilégio singular da espontaneidade humana: sem que lhe seja pedido, sem necessidade, sem missão e sem acordo, o aspirante busca o poder para assumir para si a responsabilidade. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli 155 O autor faz distinções entre a responsabilidade parental e essa responsabilidade do homem político, principalmente no sentido de que uma é incondicional e outra de livre escolha, mas afirma que existem proximidades relevantes. A principal delas é justamente o dever da continuidade. Hans Jonas (2006) afirma que a grande responsabilidade um homem público, uma vez que a assumiu espontaneamente, é garantir uma governabilidade futura, tratar os assuntos sob sua tutela como uma relação parental. Conforme o pensamento de Hans Jonas (2006, p. 201), “[...] toda responsabilidade integral, com seu conjunto de tarefas particulares, é responsável não apenas por cumprir-se, mas por garantir a possibilidade do agir responsável no futuro.” Colocada dessa forma, é possível aproximar a ideia do autor com o conceito de sustentabilidade, passando tanto pela esfera pública quanto pela privada, na busca por um desenvolvimento que permita a continuidade digna do ser humano no planeta. Hans Jonas (2006) ainda discute um elemento essencial e necessário para a consolidação das ações de responsabilidade social: a solidariedade com o meio ambiente, com a natureza. Para o autor o imperativo essencial de que deva existir uma espécie humana denota uma ideia de que o futuro da humanidade inclui, obviamente, o futuro da natureza. Segundo o raciocínio de Hans Jonas (2006, p. 229), “[...] quando a luta pela existência frequentemente impõe a escolha entre o homem e a natureza, o homem, de fato, vem em primeiro lugar.” Isso quer dizer que, como o homem acabou tomando a natureza para seu uso particular, e muitas vezes extensivo, principalmente com a superioridade do pensamento e com o poder da civilização técnica, deve incluí-la em sua responsabilidade essencial. Dessa constatação surge um novo dever da responsabilidade humana, um dever de preservação e de proteção da natureza, em contraposição a um dever de progresso e aperfeiçoamento. Esse novo dever torna-se necessário, tendo em vista que o homem não se tornou perigoso apenas para si, mas para toda a biosfera, incluindo todos os seres vivos e os sistemas que os mantêm. As ações irresponsáveis e mecanicistas diante da natureza, realizadas principalmente pela civilização industrial, cujos efeitos ainda permanecem, e intensificadas de forma exponencial nos últimos 100 anos, culminaram com o aparecimento de evidências de degradação muito plausíveis no fim do século XX e início do século XXI. Essas mazelas, como, por exemplo, o arrefecimento da camada de ozônio e o derretimento das calotas polares, nada mais são que demonstrações perversas de poder da humanidade sobre a natureza. Conforme Hans Jonas (2006, p. 231), Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. 156 O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ... [...] a união do poder com a razão traz consigo a responsabilidade, fato que sempre se compreendeu, quando se tratava da esfera das relações intersubjetivas. [...] O poder e o perigo revelam um dever, o qual, por meio da solidariedade imperativa com o resto do mundo animal, se estende do nosso Ser para o conjunto, independentemente do nosso consentimento. A relação homem-natureza necessita, de forma prioritária, de uma ética de emergência, voltada para um futuro que se apresenta ameaçado. Para Hans Jonas (2006), é imprescindível que a humanidade assuma sua responsabilidade em relação à natureza, ao conjunto de coisas, como um dever, como um imperativo para preservar sua própria continuidade e sua integridade existencial. Hans Jonas (2006) faz considerações importantes sobre o desenvolvimento em direção a um contínuo melhorismo, afirmando que essa evolução acaba tendo um preço que pode estar ameaçando os recursos naturais. Para cada ganho que a humanidade conquista com a evolução técnica, há uma perda. Mas, para o autor, a evolução é um dever pelo qual, mesmo se o preço for elevado, a humanidade pagará, pois o progresso real, com um caráter desejável, que assuma sua responsabilidade perante a continuidade da autêntica vida humana sobre a Terra, encontra-se apoiado por todos. A humanidade, antes de tudo, necessita retomar as rédeas de sua existência, a coragem para assumir suas responsabilidade perante o planeta. Para Hans Jonas (2006), isso será possível ao se recuperar o respeito e o medo, de modo a proteger o homem dos descaminhos de seu próprio poder. A responsabilidade pelo futuro da humanidade acaba enfrentando essa situação paradoxal, ao precisar confrontar sua continuidade diante do horror que ela poderia tornar-se e dando justamente as diretrizes para desviar desse caminho. É a busca pela prosperidade do homem, em sua humanidade íntegra; a proteção do patrimônio para permanecer semelhante ao que o ser humano já é; um pressuposto de conservação da integridade futura, da “imagem e semelhança” da fase de desenvolvimento atual. Segundo Hans Jonas (2006, p. 353): Guardar intacto tal patrimônio contra os perigos do tempo e contra a própria ação dos homens não é um fim utópico, mas tampouco se trata de um fim tão humilde. Trata-se de assumir a responsabilidade pelo futuro do homem. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli 157 4 CONCLUSÃO Com os princípios da responsabilidade humana traçados por Hans Jonas, pode-se inferir algumas reflexões sobre a responsabilidade social. Tem-se, portanto, uma ideia clara de algumas bases para a consolidação do termo responsabilidade social, conforme se demonstra resumidamente neste quadro. Bases éticas para consolidação da responsabilidade social empresarial FONTE: elaborado pelo autor com base nos fundamentos teóricos de Hans Jonas (2006). O termo “responsabilidade social” pode ser discutido a partir das premissas básicas desse quadro, entendendo-se os preceitos da ética de futuro de Hans Jonas como os elementos norteadores para a atuação da SER e colocando-se em prática ações que assumem uma condição de alinhamento com a continuidade da espécie humana. Do mesmo modo, as ações de RSE devem ser executadas sem esperar nenhum tipo de retorno e com vistas a atender aos agentes da sociedade que são influenciados pela presença econômica. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. 158 O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ... Segundo Antonio César Amaru Maximiano (2000, p. 440), o princípio da responsabilidade social aplicada às organizações baseia-se na premissa de que essas são instituições sociais, que existem com autorização da sociedade, utilizam os recursos da sociedade e afetam a qualidade de vida da sociedade. Para o autor, [...] não há discussão sobre o fato de que as organizações têm responsabilidades sociais, à medida que seu comportamento afeta outras pessoas e, querendo elas ou não, há pessoas e grupos dispostos a cobrar essas responsabilidades. Uma vez que o mercado valoriza as práticas solidárias, isso significa que nada mais se faz do que refletir um sentimento generalizado de solidariedade advindo da própria sociedade. Do mesmo modo, a sociedade que se reflete no mercado valoriza a atitude solidária das empresas. De acordo com Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl (2004, p. 181), [...] não resta dúvida de que se a responsabilidade social se converte num fator de marketing é porque, afinal, o público atribui alguma importância a essa atitude e está disposto a escolher as marcas relacionadas a ela; é um marketing do bem. Isso equivale a afirmar que o conceito de responsabilidade social empresarial confere um caráter essencialmente colaborativo ao capitalismo. Segundo Robert Henri Srour (1998, p. 48), tal situação implica parceria efetiva entre as organizações empresariais, representantes diretas do sistema econômico com base no capital, com clientes, fornecedores e governos. Na visão dos autores, [...] a nova revolução capitalista faculta a incorporação de uma dimensão de responsabilidade social. O capital não se cinge mais a obter retorno econômico, mas inclui também o que se poderia denominar retorno social. Em outras palavras, as ações de RSE influenciam políticas públicas e determinam ações engendradas pela opinião pública e sociedade civil organizada. Outro ponto levantado por Hans Jonas é a preservação da natureza. Segundo o raciocínio de Jared M. Diamond (2006, p. 577), parte da solução para os problemas ambientais enfrentados hoje seria uma análise, no mínimo cuidadosa, dos erros das civilizações do passado. Mas, para o autor, isso não é tudo. É preciso que as empresas, que muito re- Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. Eduardo Augusto Dreweck Mota e Osmar Ponchirolli 159 centemente eram vistas apenas como vetores de degradação ambiental, transformem-se em empreendedores ambientais, com ações de respeito e preservação do meio ambiente. Assim, a adoção dessas bases éticas pelas organizações é uma evidência de que, ao longo do tempo, as empresas acabam tendo que incorporar as mudanças advindas da sociedade, de modo a garantir sua sustentabilidade e sobrevivência. A RSE deve utilizar esses elementos éticos para dar uma resposta a tal contexto, a essa nova exigência da sociedade. As bases éticas defendidas por Hans Jonas, na verdade, traduzem instrumentos sociais, expressos pela RSE, que se diferenciam dos instrumentos comerciais, ou mercadológicos, com objetivos econômicos. Conforme Osmar Ponchirolli (2007, p. 66), dessa forma, a atuação da empresa agregaria uma nova faceta a seu papel de agente econômico, o de agente social, em que [...] passaria a disponibilizar, com as devidas aptidões, os mesmos recursos aplicados em seu negócio, em prol da transformação da sociedade e do desenvolvimento do bem comum. Como as organizações são sistemas sociais que predominam na atual sociedade capitalista e acabam ditando diretrizes de comportamento e desenvolvimento, é natural que a responsabilidade social se insira em suas determinações, processos e estratégias. REFERÊNCIAS ALBAGLI, Sarita. Globalização e espacialidade: o novo papel do local. In: CASSIOLATO, José Eduardo; LASTRES, Helena Maria Martins (Org.). Globalização e inovação localizada: experiências de sistemas locais no Mercosul. Brasília: IBICT/MCTm, 1999. ANDREOLI, Cleverson V. Gestão Ambiental. In: Gestão empresarial: Fae Business School. Curitiba: Associação Franciscana de Ensino Senhor Bom Jesus, 2002. BUCCI, Eugênio; KEHL, Maria Rita. Videologias: ensaios sobre televisão. São Paulo: Boitempo, 2004. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 135-160, 2009. 160 O Imperativo Ético de Hans Jonas como Base para a ... DIAMOND, Jared M. Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 2006. GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2002. JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006. LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Metodologia do trabalho científico: procedimentos básicos, pesquisa bibliográfica, projeto e relatório, publicações e trabalhos científicos. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2001. MAXIMIANO, Antonio César Amaru. Teoria geral da administração: da escola científica à competitividade na economia globalizada. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2000. MORIN, Edgar. O método 6: ética. Porto Alegre: Sulinas, 2005. PONCHIROLLI, Osmar. Ética e responsabilidade social empresarial. Curitiba: Juruá, 2007. SENGE, Peter M. A quinta disciplina: arte e prática da organização que aprende. 5. ed. São Paulo: Best Seller, 1999. SILVA, Christian Luiz da. Desenvolvimento sustentável: um conceito multidisciplinar. 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Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 161 INCORPORACIÓN DE UN ESPACIO NATURAL MUNICIPAL AL USO TURÍSTICO SUSTENTABLE Y A LA EDUCACIÓN AMBIENTAL: PARANÁ, ENTRE RÍOS, ARGENTINA INCORPORATION OF A MUNICIPAL NATURAL AREA FOR A SUSTAINABLE USE OF TOURISM FOR ENVIRONMENTAL EDUCATION: PARANA, ENTRE RÍOS, ARGENTINA INCORPORAÇÃO DE UMA ÁREA NATURAL MUNICIPAL PARA O USO SUSTENTÁVEL DO TURISMO E PARA A EDUCAÇÃO AMBIENTAL: PARANÁ, ENTRE RÍOS, ARGENTINA MAGDALENA PANDIANI ___________________________________________________________ Professora de Geografia - Licenciatura en Turismo – Facultad de Ciencias de la Gestión – Universidad Autónoma de Entre Ríos EDUARDO CHAVES ___________________________________________________________ Professor de Turismo - Licenciatura en Turismo Facultad de Ciencias de la Gestión – Universidad Autónoma de Entre Ríos E-mail: [email protected] Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 162 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 163 RESUMO O caso que temos diante de nós é uma ilhota de aproximadamente 16 ha, que não tinha aproveitamento turístico, salvo dos membros da ONG. “Añangarecó N’Derejhé” que consistia em receber os visitantes e proteger o lugar dos excessos. Nos anos 90, foi declarada “paisagem protegida” pela província e município do Paraná, o qual determina as restrições sobre sua utilização e aproveitamento. Desde a corrida do Turismo da UADER (Universidade Autônoma de Entre Rios) é proposto para a Secretaria de Políticas Universitárias do Ministério da Educação da Nação, no contexto do projeto “Implementação de elementos e serviços eco turísticos na Ilhota municipal de apoio à educação ambiental” o que contemplava o manejo sustentável dos recursos florestais nativos e fauna silvestre desse ambiente natural. O mesmo tende a realçar o patrimônio natural e cultural local, incorporando uma série de elementos (trilhas na altura, mirantes, cartazes educativos, “Centro de Interpretação”) para melhorar as condições das visitas, em um cenário agradável e seguro, que lhes permitam compreender e interpretar o ambiente da ilha e a cultura de seus habitantes. Desta forma se tenta unir esforços para o conhecimento, conservação e valorização de uma área perto da cidade do Paraná, que mantém todas as características da Eco-região “Delta e as ilhas do Paraná”. A isto se soma a possibilidade de cooperar com a conversão produtiva realizada pelos pescadores, que, ante ao enfraquecimento da sua atividade específica se uniram para formar “Baqueanos dos rios”. Grupos de guias, que em suas canoas fazem os turistas vivenciar a “cultura da ilha”, dando-lhe um valor especial para a área da ilha que conhecem e ocupam, porque dela depende a subsistência e a sustentabilidade da cultura da sua comunidade, que é muito pouco conhecida pelos habitantes da cidade. Considera-se que o aproveitamento turístico trará algum impacto sobre o ambiente natural, embora o projeto contemple mínima intervenção e modificação do meio natural. O município do Paraná é responsável por implantar os instrumentos legais que controlem seu uso e manejo para a conservação da paisagem e as condições para o desenvolvimento sustentável. Palavras-chave: Turismo Sustentável, Educação Ambiental, Cultura da ilha, ilhotas municipais, Paraná, Entre Rios. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 164 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... ABSTRACT The case before us is an island of approximately 16 ha, which was not used for tourism, except for members of NGOs. “Añangarecó N’Derejhé” which was to receive visitors and protect the place of excess. In the 90s, was declared “protected landscape” by the province and city of Paraná, which determines the restrictions on their use and exploitation. Since the race of Tourism of UADER (Autonomous University of Entre Rios) is proposed for the Secretariat of University Policies of the Ministry of Education of the Nation, in the context of the project “Implementation of elements and services in the island city eco tour in support of environmental education” which include the sustainable management of forest resources and native wildlife of the natural environment. It tends to highlight the local natural and cultural heritage, incorporating a number of elements (tracks at the time, viewpoints, educational posters, “Interpretation Center”) to improve conditions for visitors in a pleasant setting and safe, allowing them to understand and interpret the environment of the island and the culture of its inhabitants. Thus we try to join forces for the knowledge, conservation and recovery of an area near the city of Paraná, which maintains all the features of the Eco-region “Delta and the islands of the Paraná. To this is added the possibility to cooperate with the productive conversion performed by the fishermen who, before the weakening of its specific activity joined to form “baqueanos from rivers” .Groups of guides, in their canoes to make the tourists enjoy the island’s culture, “giving it a special value to the area of the island who occupy and they know, because from it depends on the livelihood and sustainability of the culture of their community, which is little known by the inhabitants of the city. It is estimated that the touristic use will some impact on the natural environment, although the project includes minimum intervention and modification of the natural environment. The municipality of Paraná is responsible for implementing the legal instruments to monitor their use and management for the conservation of landscape and the conditions for sustainable development. Keywords: Sustainable Tourism, Environmental Education,island Culture, municipal islets, Paraná, Entre Rios. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 165 RESUMEN El caso que nos ocupa es un islote de 16 hás aproximadamente, que no tenía ningún aprovechamiento turístico, salvo el realizado por los integrantes de la ONG “Añangarecó N’Derejhé”, que consistía en recibir a los visitantes y proteger de los desmanes este lugar. En la década del 90 el mismo fue declarado “Paisaje Protegido” por la Provincia y el municipio de Paraná lo que determina restricciones en el uso y aprovechamiento. Desde la carrera de Turismo de la Universidad Autónoma de Entre Ríos (UADER) se propone a la Secretaría de Políticas Universitarias del Ministerio de Educación de la Nación en el marco de una convocatoria el Proyecto “Implementación de elementos y servicios eco turísticos en el Islote Municipal como apoyo de la educación ambiental” el que contemplaba el manejo sustentable de los recursos forestales nativos y fauna silvestre de ese ambiente natural. El mismo tiende a poner en valor el patrimonio natural y cultural del lugar mediante la incorporación de una serie de elementos (senderos en altura, miradores, cartelería didáctica, “Centro de Interpretación”), para mejorar las condiciones de las visitas, en un escenario ameno y seguro que les permita comprender e interpretar el ambiente isleño y la cultura de sus pobladores. Se intenta de esta forma aunar esfuerzos para el conocimiento, conservación y valoración de un ámbito próximo a la ciudad de Paraná, que guarda todas las características de la ecorregión “Delta e islas del Paraná”. A ello se suma la posibilidad de cooperar con la reconversión productiva realizada por los pescadores, que, ante el debilitamiento de su actividad específica se han unido para conformar “baqueanos del ríos”. Grupos de guías, que en sus canoas hacen vivenciar a los turistas la “cultura isleña”, atribuyéndole un valor especial al espacio isleño que conocen y ocupan, por que de él depende su subsistencia y la perdurabilidad de la cultura de su comunidad, la que es muy poco conocida por los habitantes de la ciudad. Se tiene presente que el aprovechamiento turístico, determinará algún impacto en el ambiente natural, aunque el proyecto contempla la mínima intervención y modificación del medio natural. El municipio de Paraná es el responsable de implementar instrumentos legales que controlen su uso y manejo para conservar el paisaje y sus condiciones para el desarrollo sustentable. Palabras claves: turismo sustentable, educación ambiental, cultura isleña, Islote Municipal, Paraná, Entre Ríos. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 166 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 167 1 ASPECTOS METODOLÓGICOS Al conocer el Islote Municipal, no se comprende por qué hoy no presenta una actividad turística sostenida durante todo el año, ya que el mismo es el islote más cercano a la ciudad de Paraná (15 minutos aproximadamente y según el medio de transporte). El lugar tiene una ambiente ideal para contactarse con la naturaleza. Al tomar conocimiento del ritmo con que crece el ecoturismo en el mundo se pensó en esta posibilidad para su reactivación, dado que tiene condiciones especiales entre ellas, el hecho de ser un representante de la ecorregión “Delta e Islas del Paraná” con una vegetación hidrófila que cubre islas bajas e inundables lo que asegura el escenario natural con bosques, arbustales, pajonales pastizales y acuáticas. Ellos son sustentos de poblaciones de aves importantes por su cantidad y variedad de especies. Vale destacar la ictiofauna, siendo los más representativos: bagres, boga, surubí, sábalo, dorado aún cuando actualmente hay un descenso de su presencia. Sin embargo cuando se comenzó con la propuesta no se conocía si la riqueza biológica, paisajística e histórica y los servicios que brindaba el lugar eran los suficiente para sostener un proyecto ecoturístico y de educación ambiental y si el mismo se encuadraba dentro de los intereses del municipio y la ONG “Añangarecó N’derejé”. Consultados ambos aceptaron la propuesta, por lo que se comenzó a trabajar en la investigación aplicándose diversas técnicas tales como: revisión de fuentes bibliográficas secundarias y documentales, consulta a organismos oficiales (Dirección de Catastro provincial y municipal, Archivos, Ministerio de Obras Públicas) y privados; implementación de encuestas Se efectuaron entrevistas personales a profesionales y personas que por su edad y o forma de vida podían aportar datos relevantes sobre la experiencia de observar el surgimiento del banco y posterior conformación del islote. La información obtenida permitió conocer la historia, topografía, riqueza biológica y la cultura del pescador. Se procedió al relevamiento, análisis e interpretación de los datos de las dos encuestas implementadas. Las mismas se diseñaron para recabar datos necesarios para utilizarlos posteriormente en el trabajo, especialmente para determinar el potencial existente para el turismo en áreas naturales, así como también el conocimiento y aprovechamiento que hacían los habitantes de la ciudad, del Islote Municipal e indagar si consideraban posible o interesante actividades de ecoturismo y educación Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 168 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... ambiental, en ese lugar. En la general se buscó conocer la importancia de las áreas protegidas como destino turístico. En la local interesó saber cuales eran las expectativas de la gente del lugar sobre el aprovechamiento del Islote. Fue necesario relevar en el área próxima el equipamiento y servicios necesarios para sostener una actividad turística. Por último se redactó el cuerpo del trabajo sistematizando los contenidos relevados a través de las diferentes fuentes utilizadas. Los textos citados se remiten básicamente al repertorio de libros que constituyen parte de la historiografía de la zona o específicos que facilitan contextualizar el objeto de estudio. El criterio de selección y uso del material se realizó en función del núcleo de estudio: “El Islote Municipal y sus posibilidad de implementar ecoturismo y educación ambiental”, se tomó lo que se consideró pertinente y siempre se priorizó el rigor académico en cuanto a las citas de los textos. El informe escrito contempla los siguientes capítulos: descripción del Río Paraná; historia del islote; diversidad biológica y principales especies; grandes lineamientos de la cultura isleña, infraestructura y servicios del área próxima, proyecto propuesto. 2 DESARROLLO 2.1 EL ORIGEN DEL ISLOTE Muchas versiones se conocen acerca de la formación del islote, según diversos entrevistados la misma, se dio de manera natural por la forma geográfica que presenta el río en este lugar; contraponiéndose al relato de informantes que afirman que el banco comenzó a formarse por el hundimiento de un barco y chatarra en ese punto, tiempo después de la inauguración del Puerto Nuevo, lo que determinó que se acumularan los sedimentos que trasporta el río, si bien esta embarcación se encuentra “fondeada”, no fue la causa principal de este fenómeno. El objetivo de la presencia de esta embarcación chatarra era provocar la acumulación de sedimentos para conformar un banco, que modificara la corriente del río frente al puerto, facilitando la accesibilidad y los movimientos de los barcos que accedían al mismo Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 169 No coincide con esta opinión el ingeniero Leonardi, quien trabaja en la dirección de dragado de la ciudad y asegura que esa versión es refutable ya que el Río Paraná presenta distintas islas a lo largo de su recorrido y no todas responden a un hecho similar. Él asegura que otro factor que contribuyó en la formación del islote es la construcción del puerto, lo que determinó “refulado” de arena para su construcción. Los sedimentos fueron acumulándose y se fijó la arena como se realizó con las demás islas. Apenas aparece el banco se trató de fijar el mismo plantando “chilcas” (Baccharis). Esta actividad la realizó una persona comprometida con la protección de la naturaleza, por este motivo durante muchos años se vinculó la propiedad del islote a éste señor, pero ha sido imposible conseguir los documentos que acrediten esta versión. Por su parte, la señora Emma Bertolini de Rezzett afirma lo anteriormente expresado, sosteniendo que fue su padre quien hizo esta labor en el islote. Recuerda además que él siempre les decía “que había que fijarlo para que el río no se lo llevara.” El señor Edgar Wilson, de 67 años, ratificó que en el lugar que hoy se sitúa el islote, hay embarcaciones hundidas y para él, éste hecho junto con el refulado de arena son las causas principales de formación del banco. 2.2 ISLOTE MUNICIPAL: ACCIONES PARA SU PROTECCIÓN Al área analizada se le asignó la categoría de “Monumento Natural”, mediante Ordenanza nº 7.961, de adhesión a la Normativa Provincial nº 8.967. Atribuye esta denominación a “aquéllas áreas que contengan elementos naturales de notable importancia o especies vivas de animales o vegetales, formaciones geológicas, de valor histórico, científico, estético y educativo, cuya existencia podría estar amenazada.”1 En los monumentos naturales serán incompatibles todas aquellas actividades que directa o indirectamente pudieran afectar o modificar las características que motivaron su designación como tal. Sí, se admitirán todas aquellas tareas necesarias para el manejo y control del área. Anteriormente, el 21 de julio de 1995 entra en vigencia la Resolución nº 1.561, por la cual se declara Área Natural Protegida al Islote Municipal. Luego, la Resolución nº 195, de la Dirección Provincial de Recursos Naturales – fechada el 9 de agosto de 1995 -, la incorpora al Sistema Provincial de Áreas Naturales Protegidas. El 15 de octubre de 1997 se Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 170 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... promulga la Ordenanza Municipal nº 7.961, por la que se adhiere a la Ley Provincial sobre las Áreas Naturales Protegidas y se le asigna la categoría de manejo “Monumento Natural”. 2.3 SÍNTESIS CRONOLÓGICA 2.3.1 Cronología de la Construcción del Denominado “Puerto Nuevo” 1904: inicio de construcción del puerto. 1907: habilitación del puerto. 2.3.2 Cronologías de la Presencia y Evolución del Islote a través de la Observación de Planos y Fotos La Dirección de Dragado de la ciudad de Paraná facilito la obtención de cartografía de la zona donde se encuentra situado el Islote Municipal, lo cual permitió justificar el año que se ha enunciado como fecha de surgimiento del mismo. 1913: ausencia del islote. 1918: surgimiento de pequeño banco de arena, que supera el cero hidrométrico local. 1928: evolución del banco de arena en su diámetro. 1943: aparición del islote sobre la superficie, por que las aguas descendieron 1,26 m por debajo del cero del hidrómetro local, esto “brindó las condiciones favorables para el arraigamiento de la vegetación ‘pionera’ lo que facilitó la consolidación del banco.”2 1951: la cartografía incluye el islote, acercándose su superficie a la que posee actualmente. 2.3.3 Inventario y Descripción de los Recursos Naturales y Culturales del Islote Es conveniente que la planificación de un lugar, comience con el relevamiento y el registro de los recursos existentes en el mismo, contemplando en el análisis: el paisaje, los recursos naturales, la población humana y las actividades socioeconómicas de las comunidades que aprovechan o viven en el lugar. Este análisis permitirá tomar conocimiento de las condiciones existentes. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 171 Héctor Ceballos Lascurain3 clasifica a los atractivos turísticos de una zona determinada en tres categorías básicas: atractivos focales, complementarios y de apoyo. Los atractivos ecoturísticos focales son aquellos elementos distintivos del patrimonio natural y(o) cultural de un lugar. En el Islote Municipal el atractivo focal principal es su bosque hidrófilo, conformado por sauces criollos, aliso de río, curupí, seibo. En segundo lugar, se consideran las playas fluviales de arenas blancas en el ángulo noreste del mismo. Estos son los elementos que mejor caracterizan el área, especialmente se destaca el porte y disposición de la vegetación, donde los árboles forman un dosel y donde apenas una senda construida por el hombre permite el desplazamiento en el interior. Entre los atractivos ecoturísticos complementarios, se pueden mencionar el área de los humedales, con la presencia de la laguna cuyo caudal es intermitente y funcional al comportamiento del río. En tercer lugar, se analizan los atractivos ecoturísticos de apoyo, conformado por los elementos artificiales que facilitan la estadía de los visitantes en el lugar, en el caso de estudio, solamente existen un sendero y un área refulada donde la mayor altura la exime de las inundaciones permitiendo la instalación de la casa del cuidador, el museo y el molino proveedor de la energía y un quincho para protección de los visitantes. Siguiendo los lineamientos propuestos por este mismo autor, para realizar un relevamiento exhaustivo se realizó el inventario del área que dio los resultados. Nombre propio Se lo ha identificado bajo distintos topónimos: “Islote El Dique”, “Islote del Puerto”, “Islote Municipal” e “Islote Curupí”, pero el más aceptado es el de “Islote Municipal”. Categoría institucional: Islote Municipal. Categoría de manejo: Monumento Natural – área protegida con recursos manejados. Ecorregiones: delta e islas del Río Paraná. Jurisdicción: municipal. Ente administrador: Municipalidad de Paraná. ONG: “Añangarecó N’derejhé”. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 172 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... 2.3.4 Instrumentos Legales de Protección Resolución Provincial nº 1.561, 21/7/1995, se lo declara Área Natural Protegida. Resolución Provincial nº 195, 9/8/1995, se lo incorpora al Sistema Provincial de Áreas Naturales Protegidas. Ley Provincial nº 8967/95, declaración: Paisaje Protegido. Ordenanza Municipal nº 7.961/97, adhesión municipal a la Ley Provincial sobre Áreas Naturales Protegidas y se le asigna la categoría de “Monumento Natural”. Localización geográfica: Departamento Paraná, Provincia de Entre Ríos. Coordenadas geográficas: 31º 42´67´´S; 60º 31´20´´W. Ubicación a nivel provincial: centro oeste de la Provincia de Entre Ríos, se encuentra ubicado en el Río Paraná en su tramo medio y frente a la ciudad homónima. Localidades más cercanas: Paraná, Santa Fe. Área de influencia: noroeste de la Provincia de Entre Ríos y el área adyacente en la Provincia de Santa Fe. Localización turística: pertenece a la región turística del COLITUR (Consejo Litoral Turístico) o Litoral. Corredor turístico: costa del Paraná. Micro región: capital. Superficie del área y límites: 15 hectáreas; 29 As; 95 Cs. Límites: norte, sur, este y oeste – Río Paraná . Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 173 2.3.5 Medios de Acceso al Punto de Entrada Ruta fluvial: Río Paraná. Hasta el lugar del cruce fluvial: Avenida Laurencena, Antonio Crespo y Raúl Uranga al túnel subfluvial y por este a Santa Fe/resto del país. Avenida Laurencena, Antonio Crespo y Raúl Uranga al acceso Norte Ruta Nac. nº 12, norte de la Mesopotamia argentina y Brasil/Paraguay. Avenida Laurencena, Antonio Crespo y Raúl Uranga al acceso Norte, Nac. nº18, este de la Provincia y la República Oriental del Uruguay. Avenida Laurencena, Avenida Ramírez – Ruta Provincial nº 11, Puente Virgen del Rosario – Rosario/Santa Fe/Chile. Avenida Laurencena, Avenida Ramírez – Ruta Provincial nº 11, Ruta Nac. nº 12, Puente Unión Nacional – Buenos Aires. Circulación interna: senderos peatonales. Descripción de los recursos visuales globales: islote cuya vegetación forma una pared verde que se vuelca en forma de cascada al río. 2.3.6 Patrimonio Biológico Natural Atendiendo los objetivos de conservación y aprovechamiento sustentable del patrimonio natural del país, la Secretaría de Recursos Naturales y Desarrollo Sustentable junto a Administración de Parques Nacionales determinaron 18 ecorregiones, con su cartografía y descripción correspondiente, en la Argentina. Definieron a la ecorregión como […] un territorio geográficamente definido en el que dominan determinadas condiciones geomorfológicos y climáticas relativamente uniformes y recurrentes, caracterizado por una fisonomía vegetal de comunidades naturales y seminatural que comparten un grupo considerable de especies dominantes, una dinámica y condiciones ecológicas generales y cuyas interacciones son indispensables para su persistencia a largo plazo.3 El área en estudio corresponde a la denominada Deltas e Islas del Paraná, que comprende los valles de inundación de los trayectos medio e inferior de lo Río Paraná y su tributario Paraguay. Presenta como característica general un paisaje de islas bajas e inundables, delimitadas por los Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 174 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... brazos laterales y cauces principales de los ríos y presentan amplios bajíos ribereños. El accionar de los procesos fluviales son los modeladores de todo el ambiente determinando el arrastre y deposición de los sedimentos acarreados y originando diversas texturas y características de los suelos. Un proceso similar se ha desarrollado en el Islote Municipal, donde al decir de los autores Senkman, Rodríguez y Aceñolaza […] los procesos fluviales conforman su geomorfología y generan los suelos. Éstos poseen texturas areno-limosas a arenosas (de grano medio a fino), presentando escasa estructuración y desarrollo en sus perfiles. Si bien existe variación, ésta puede sintetizarse en dos gradientes principales: a) uno del tipo natural, geomorfológico, donde la diferencia de altura entre albardón y bajo establece las diferencias entre tipo de suelo sobre todo en la aparición de los suelos hidromorfos hacia la laguna, y b) uno antrópico vinculado a la deposición de arena y elevación de cota en la zona denominada “el refulado”. Considerando la textura del suelo, por lo general el albardón alto (oeste), mas cercanos al cauce principal (y el refulado) presentan suelos con arenas gruesas y medias. El albardón (Este), asociado al cauce cercano a la costa, presenta mayor preponderancia de limos y arenas finas. Ambos presentan una total ausencia de horizontes edáficos definidos: unímodales.4 La unidad de conservación analizada está altamente influenciada por el Río Paraná que baña todo su contorno y posee en la parte central una pequeña laguna. El patrón hidrológico se corresponde con un régimen pulsátil anual de inundación. La época de estiaje (bajante) se produce en agosto-septiembre, mientras que el puso de inundación suele darse sobre fines del verano, principio del otoño.5 La vegetación de las islas desde el punto de vista fitogeográfico, corresponde a la galería paranaense, formación arbórea que sigue a ambas orillas de la gran arteria fluvial, desde Misiones hasta la desembocadura en el Plata y logra aún introducirse en los dominios de éste […] Dada la constitución propia de las islas, en forma de cubeta, con un albardón costero y una parte central baja y fácilmente inundable, interrumpida por pequeños albardones de los arroyos o cursos de agua temporarios del interior isleño, se distinguen distintas poblaciones vegetales.6 Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 175 El bosque costero constituido predominantemente por sauce criollo (Salix humboldtiana. Wild), el aliso de río (Tessaria integrifolia. Ruiz & Pav), curupi (Sapium haemastospermun Muell. Arg.), sangre de drago (Croton urucurana. Baill), ceibo (Eritrina crista-galli L.) y timbó blanco (Cathornium polyanthum A Epreng.); siendo el sauce la especie más conspicua del ambiente isleño. Entre las primeras se destacan el guaco (Mekania periplocifolia) y Cissus sicyoides. La flora arbustiva ocupa los lugares bajos de los albardones, y esta constituida principalmente por chilcas (Baccharis salicifolia), salvia (Limpia alba) y ortiga (Urera aurantiaca). Según el relevamiento realizado por el equipo Senkman, Rodríguez y Aceñolaza, en la zona norte del islote se observa un área con importante presencia de un pastizal/cataizal (Polygonum spp.) integradas a las predominantes otras especies, tales como chilca (Baccharis sp.), paragüita, redondita del agua, o perejil de agua (Hydrocotyle bonairiensis), flor de sapo (Jaborosa integrifolia), Cissus spp., etc. La laguna interior tiene una superficie mucho más reducida después de realizado el refulado. Su comportamiento está íntimamente relacionado con el del río, mostrando un espejo de agua solamente en época de creciente y es en ese momento cuando aparecen las plantas acuáticas tanto flotantes como arraigadas. Entre ellas el repollito de agua (Pistia stratiotes), helechito del agua (Salvinia biloba Raddi emend. De la Sota.), Duraznillo de agua (Ludwigia peploides), Dama de noche (Ipomoea alba L.). El hombre con su accionar ha llevado a diversos puntos del mundo especies que por encontrarle un uso ornamental, medicinal o alimenticio ha cultivado y trasladado, realizando su dispersión ha otras zonas, adaptándose éstas, con gran fuerza, compartiendo con las autóctonas y formando parte de la masa vegetal. En el islote son fácilmente observables: ligustro (Ligustrum lucidum), morera blanca (Morus alba L.), paraíso (Melia azadarach L.), braquiquito (Brachychiton populneus) y otras. Los autores antes mencionados han conformado un listado final contabilizando 118 especies de plantas reunidas en 39 familias botánicas y 84 géneros. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 176 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... 2.3.7 Fauna El islote esta separado por un angosto brazo del Paraná de la ciudad homónima, esta proximidad con la capital entrerriana, puede incidir en la presencia selectiva de fauna por la presión antrópica que ello supone y que ha determinado un número muy pequeño de especies representativas Entre los mamíferos del ambiente de las islas del Río Paraná es posible avistar el coipo (Myocastor coypus) y referencias determinan que en períodos anteriores era posible observar carpincho (Hydrochoerus hydrochaeris), el lobito de río (Lontra longicaudis) cuyo estatus nacional lo considera en peligro de extinción, el gato montés común (Oncifelis geoffroyi), la comadreja colorada (Lutreolina crassicauda) y la overa o común ( Didelphis albiventris ), varios murciélagos de la familia Vespertilionidae y micromamíferos de la familia Cricetidae. Es muy difícil y casi imposible observar a la mayoría de las especies antes mencionadas solamente se detecta su presencia, por las huellas que dejan por la noche al desplazarse en busca del agua Entre la batracofauna, las especies más conspicuas son el sapo común (Bufo arenarum), el sapito de panza colorada (Melanophryniscus stelzneri) y las ranas del género Hyla. La yarará grande, crucera o víbora de la cruz (Bothrops alternatus) estaría presente, con integrantes de las subfamilia Culubridae, como la culebra verde ( Philodryas aestivus ), la denominada culebra verde (Chironius quadricarinatus), la culebra acuática (Helicops infraeniatus), culebra acuática overa (Helicops leopardinus), culebra parda común (Liophis miliaris), la culebra de bañado o una de las tantas que también llaman falsa yarará (Liophis poecilogyrus), el lagarto overo o iguana (Tupinambis teguixin) y lagartijas de la familia Teidae. Entre las tortugas está presente la tortuga de río (Hidromedusa tectifera) y la de laguna (Phrynops hilarii). Las aves presentaban 63 especies de acuerdo a los registros efectuados por Muzzachiodi (1997), pero el mismo autor en 2001 publica la existencia de 105 especies, tomando como base los censos anuales de aves acuáticas. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 177 Las aves acuáticas o las que usan el medio aéreo sobre el río Paraná aportaron 27 especies que constituyen el 51% del total comunicado, perteneciendo a las familias Rallidae (11%) Ardeidae (9%), laridae (5%) y el 26% por las familias Scolopacidae , Hirundinidae […]7 Gallinetas, pollos de agua, gallaretas, garzas, gaviotas, becasinas, golondrinas, teros y chorlitos, patos, martín pescador, bandurrias, aguateros y biguáes son posibles de observar en el Islote Municipal, así como también es interesante observar sus nidos y escuchar sus cantos. 2.3.8 Fauna Ictícola El Río Paraná con su característica zona de islas y anegadizos, los que conforman importantes “humedales” que funcionan como importantes reservas de agua dulce y se convierten en reservorios de una rica y variada riqueza ictícola que incluyen especies migratorias y de valor comercial, entre los que se destacan: sábalos (Prochilodus), dorados (Salminus ), bogas ( Leporinus), surubies ( Pseudoplatysto ), armados (Pterodoras ) y otros hasta totalizar aproximadamente 220 especies (LÓPEZ, 2003) en la red Paraná-Paraguay8, cinco de interés deportivo y turístico: dorado, surubí atigrado y pintado, pacú y manguruyú; otros de valor comercial, como el sábalo y las bogas, cuya demanda y sobreexplotación aumentó a partir de la apertura de mercados internacionales. Numerosas son las familias que viven en relación a la pesca (40 pescadores aproximadamente). Lo obtenido en parte lo consumen, o lo comercializan a través de los acopiadores, determinando la zona de Puerto Sánchez, próximo al Islote Municipal como el lugar de partida y llegada de los pescadores, dando origen a un pequeño barrio con sus viviendas en altura y negocios de ventas de pescados. La presencia de estas pescaderías artesanales da al paisaje elementos distintivos, como pequeñas canoas, redes y espineles extendidos en la costa y las jaulas a medio flotar en el río lo que les permite tener los peces vivos. En los últimos años, es reiterativa la queja de los pescadores que “el río se ha quedado sin peces”, esto se ha convertido en un problema económico social para los hombres que tenían en este recurso su medio de vida, y sobre ello se han ocupados investigadores como el Profesor Oldani9 quien reconoce que el recurso pesquero presenta serios inconvenientes por la excesiva presión comercial que ha sufrido el mismo y está Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 178 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... poniendo en peligro la principal actividad de los pescadores artesanales de este tramo del Paraná donde se dan diferente tipos de sobreexplotación: a) estético-deportiva por la pérdida de ingresos económicos provenientes de la fuente turística debido a la disminución de: abundancia de las especies objetivos, tallas trofeos y éxitos de captura; b) del crecimiento o de la biomasa, porque los peces se capturan antes de que optimicen la talla; c) la talla media de las capturas inferiores a la talla óptima; d) en general, la legislación de la Provincia de Entre Ríos fija las tallas de la primera captura inferiores a los de la provincia de Santa Fe, salvo para S. maxillosus que es superior y para P. albicans, L. obtusidens, P. fasciatum y P. coruscans son iguales; e) la talla de primera captura (fijada por ley) para P. clarias, P. granulosus; f) O. kneri y L. patí son inferiores a la talla de la primera madurez estimadas – es decir, por ley, se permitiría la captura antes de que los peces comiencen a reproducirse; g) las redes utilizadas no están permitidas por la legislación de las Provincias de Entre Ríos y Santa Fe; h) del reclutamiento – porque el número de reproductores que permanecen en el sistema no alcanzaría para regenerar el stock en las principales especies comerciales; i) además se registra – cambio en la estructura de la comunidad con un aumento de las especies de menor valor comercial; j) pérdida de espécies. Atento a que esta actividad es la base económico social de un importante grupo de personas que se identifican con el río, más aún ellos no quieren perder las actividades que de generación en generación han aprendido y realizado, teniendo como base el río, entre las que se encuentra la pesca artesanal como muy importante. Es imprescindible tener presente las recomendaciones que el autor antes mencionado expresa al respecto, para no perder una de las fuentes principales que sostiene la cultura isleña. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 179 3 PATRIMONIO CULTURAL 3.1 CULTURA ISLEÑA Para conocer sobre este grupo particular se analizó la forma de vida de los habitantes de Puerto Sánchez, casi todos ellos pescadores o ex pescadores quienes continúan con las tradiciones propias de la cultura del pescador Un primer aspecto que se hace necesario destacar es la forma de vida del “costero auténtico”, como ellos mismos acuerdan en reconocerse y llamarse; centrada en la pesca artesanal, esta se basa en salir día a día con la embarcación (canoa o lancha) a recorrer el río, realizando la pesca con distintos implementos, también de tipo artesanal. Si bien antes se podía vivir de la pesca, actualmente la venta del producto obtenido en el río, no alcanza para cubrir la demanda de la canasta familiar. Esto obliga a los pescadores a procurarse otras ocupaciones que le reditúen igual o mayor monto económico (como ejemplo, uno de los entrevistados es pescador y guía de excursiones – paseos en lanchas – y de noche trabaja como personal de Seguridad en un comedor, además algunos de ellos reciben ayudas económicas del Estado en forma de asistencias económicas o bolsones de alimentos. Otra entrevistada menciona que tiene un cargo público y, en su tiempo libre, continúa colaborando con las tareas de pesca. Además algunas personas mayores perciben alguna jubilación nacional o provincial. Muchas mujeres realizan servicios domésticos o venden empanadas y pan casero. Es importante destacar que “el isleño” no vive en una sociedad totalmente aislada, sino que constituye una “sociedad parcial” dentro de una sociedad más amplia. De las crecientes del Río Paraná, la más recordada es la del año 1982, por los perjuicios que trajo e hizo que algunos funcionarios políticos provinciales/municipales adjudicaran viviendas a algunas familias del barrio de Puerto Sánchez en otros sectores de la ciudad, situación que los llevó, a des-identificarse con el río y con su principal ocupación de pescadores. En otras oportunidades se los intentó trasladar con intenciones de hacer un paseo turístico en la zona pero quedó sin efecto atento a la resistencia ejercida. Actualmente, continúa el temor en muchos de ellos al estar viviendo en terrenos fiscales ante la posibilidad de que sean removidos del lugar, pero todos los intentos que se han comenzado en pos de ese objetivo han quedado truncos por oposición de los propios pobladores. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 180 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... 3.2 CARACTERIZACIÓN DEL GRUPO SOCIAL Nos gusta pescar de noche, remar aguas arriba, dormir al lado del fuego… Esto es parte de nuestra vida en las islas, en el río, la otra parte en la ciudad donde está nuestra familia, la compañera y los gurises.10 (BETO MARTINEZ). Cuando se inició la investigación de esta franja poblacional costera, se definió que la zona de influencia o cobertura de la misma se iba a remitir al islote, pero en éste únicamente habita en forma estable un solo poblador (Sr. Luis Roldán, pescador e hijo de pescadores) que se denomina a sí mismo puestero o baqueano, su función es prestar el servicio de cuidador del área natural municipal protegida y su relación contractual laboral depende de la municipalidad de la ciudad. También se delimitaron los posibles sectores geográficos en los que se fueron afincando los pobladores costeros (Puerto Sánchez, Bajada Grande, Toma Vieja, Bajada de Nuñez). Siendo el Islote un sitio sin otra población que la descripta, se decidió que se extendería el límite del área poblacional a investigar, anexando a los vecinos afincados en la franja próxima a la margen costera conocida como Puerto Sánchez y que son los que recorren el río en el área cercana al islote revisando el espinel u otras islas ubicando sus mallas. Puerto Sánchez A este lugar, cuando yo contaba pocos años, solía llegar a pescar mojarras y observaba todo el movimiento en torno a la venta de pescado. Llegaban los botes con los pescadores, remos en mano trayendo la “cosecha” de la pesca, a veces con muchas “piezas” o pocas. La venta se hacía a particulares y a revendedores o palanqueros (NANNI, D., 1998).11 Puerto Sánchez es un antiguo barrio de pescadores que dista unos 3 a 3,5 km del Centro Cívico y Casco Histórico de la capital entrerriana. Sobre su calle principal, se levantan viviendas de tipo palafitos, de cemento y materiales reemplazantes de las anteriores: sencillos ranchos a la vera del río. En Entre Ríos las familias de los pescadores se ubican generalmente sobre la barranca o en la orilla del Río Paraná. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 181 Se sube a la primera, por un sendero que se abre paso entre las matas de cañaverales silvestres, o bien, por la playa de limo que bordea el río. Sus ranchitos son de barro o ladrillo blanqueado a la cal, con techos de paja cubiertos con chapas de cartón alquitranado. Muchas de ellas fueron ubicándose en lo que hoy se denomina Puerto Sánchez, topónimo que hace alusión al primer poblador Don Pedro Alcántara Sánchez, oriundo de Alcaráz, que se afincó en la zona costera, a finales del siglo XIX, dedicándose a la pesca. La vivienda que construyó junto a las de otras familias que se arraigaron en el terreno por entonces fiscal, era un rudimentario rancho con techo a dos aguas de paja montado sobre tierra firme con paredes de paja o adobe y techo de madera de capipoti. Confeccionó a pala, con troncos y piedras un sendero escalonado hasta el río. Un molle le sirvió de amarre para su canoa. Edificó frente a su ranchada un puerto casero. A partir de entonces los puesteros y pescadores de las islas, o de los parajes próximos Celina o Villa Urquiza, que por algún motivo debían llegarse hasta Paraná, sabían que encontrarían protección y descanso en este lugar, posteriormente muchos de ellos, atraídos por el movimiento de la ciudad, se trasladaron y construyeron su vivienda para quedarse en el lugar. Después de la creciente de 1905, las viviendas se alzaron sobre postes de madera de timbó removibles, según el comportamiento y la bravura del río. Es en este momento que aparece un elemento que caracteriza e identifica al grupo, ya que al construir su rancho cuando el hombre era soltero, lo hacía con techo de “un agua”, cuando traía compañera cambiaba la orientación y lo realizaba con techo de “dos aguas”, reforzaba la estructura y cuando la familia aumentaba, ampliaba también el rancho. La principal limitación para el costero y su familia son las crecientes o “arribadas” con mayor o menor peligrosidad, ya que lo primero que ve amenazada es su vivienda, luego su ocupación y por último la obtención de alimentos. Las sucesivas crecientes anteriormente predecibles según el comportamiento conocido del río, hacían que los pobladores se prepararan y reforzaran especialmente los techos y los pilotes sobre los que se asentaban las primitivas construcciones. Cuando las “aguas bajaban” las familias evacuadas regresaban a su vida cotidiana, a “asolear” lo que se pueden conservar y desechar lo que esta inutilizado por el agua. Los gobiernos provinciales y municipales emprendieron planes de recuperación de la vivienda costera, construyendo una serie de viviendas tipo palafitos, de material asentadas sobre pilotes de hormigón las que fueron adjudicadas entre los años 1995 y 1999 a familias que reconocían Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 182 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... su pertenencia al lugar. También se ampliaron los terraplenes consolidándolos con gaviones, lo que soluciona el problema de las frecuentes inundaciones. Por el sector oeste, las continuas erosiones de la barranca están afectando a los pobladores establecidos bajo su amparo, lo que inició un éxodo de varias familias hacia otras zonas de la ciudad. Cabe mencionar que los entrevistados destacan la creciente del año 1982 en la que el río registró una marca de 6,77 m. Éstos fueron auxiliados por los efectivos de la Prefectura Naval Argentina de la ciudad, quiénes con bombas succionadoras intentaron desalojar el agua del interior de las viviendas. La Dirección de Defensa Civil se ocupo de trasladar las familias, en tanto los empleados municipales llenaban bolsas de arena para frenar el avance del agua y los vecinos “fijaban estacas de chorizos de chilca” a modo de contención natural. A partir de este impacto los vecinos del barrio comenzaron a prestar atención en las alturas del río en Iguazú, para intentar predecir el comportamiento del mismo, sus nuevas bajantes y de acuerdo a ello, relata un pescador son sus “estados de ánimo” por la inseguridad que le genera un nuevo repunte del agua. En 1992 hubo otra creciente la que estaba prevista a los 10 años de la anterior, con un registro de 6,88 m, superando a la anterior. Y en 1998 una nueva “riada” socavó los terraplenes artificiales de contención que el “costero auténtico” supo soportar disponiéndose a reconstruir su casa nuevamente y otros mudaron sus cosas al piso superior (en las nuevas construcciones se les construyó dos grandes habitaciones abajo y otras dos arriba). Por los años cuarenta, cuando Doña Dominga Ayala de Almada llegó a Puerto Sánchez, proveniente de Colón, junto a sus padres y siete hermanos, en una embarcación con la que tardaron dos meses y siete días recorriendo el río Uruguay y remontó el Paraná inferior y medio, no había conexión particular a la red de energía eléctrica, por lo que las familias se alumbraban con candiles (una mecha embebida en querosén que hacía arder la grasa de pescado y por combustión, producía luz). Tampoco había conexión domiciliaria de agua potable; por lo que bebían agua del río la que recolectaban y la dejaban “asentar”. Trasladando una línea imaginaria que desciende desde el anterior sitio donde se levantaba el monumento al pescador hasta la costa, las mujeres se agrupaban para lavar la ropa con agua de río, momento que aprovechaban para las relaciones sociales, intercambios de noticias y comentarios. Muy pocas eran las que “salían a trabajar”. Contrariamente a Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 183 lo que sucede en la actualidad, donde son numerosas las que salen a realizar trabajos fuera de sus casas, generalmente como empleadas domésticas. Cerca de este lugar se amarraban algunas embarcaciones tales como “El Salvador”, “Don Enrique”, “Chemembí”, nombres que aún subsisten en embarcaciones que se conservan como bienes familiares (han dado de baja a las primitivas, pero rebautizaron a las modernas con los mismos nombres). Se recuerda aún aquellas que se averiaban de tal manera que resultaban inutilizadas para la pesca quedando “encostadas” o paradas en la orilla, como símbolos vivos del trabajo del pescador, una de ellas “Santa Cándida” desapareció en un temporal. En los primeros años de democracia se inauguró un comedor infantil “Carpinchito”, para que los gurises costeros almorzaran y recibieran cuidados y objetos materiales, coincidentemente con el período en que las madres salieron a trabajar fuera de su residencia y también una sala de primeros auxilios “Dr. R. D’Agostino”. Actualmente Puerto Sánchez y sus barrios cercanos cuentan en general con red de servicio eléctrico, agua potable, telecomunicaciones, alcantarillado, eliminación de excretas y de basura. Esto último se garantiza por la tarea de la Dirección de Limpieza Municipal que procede a la recolección de residuos domiciliarios en dos turnos de trabajo (diurno y nocturno). […] el caserío barrancoso se denomina Puerto Sánchez, jornaleros, obreros de la costa, gente con problema de viviendas, jubilados, y gente que ama las aguas, han suspendido sus viviendas en la barranca. Si ustedes llegan de día la paz de la tarde costera les humedecerá el alma […] Si prefieren la noche, sentirán el río luminoso golpear la costa. Puerto Sánchez en la arboleda y en la ladera de la barranca, duerme y huele a pescado frito. Un olor difuso a sauce y a pesca apaciguará el corazón […] (DÍAZ, José María, 1992). 3.2 SITUACIÓN ECONÓMICA Según un estudio antropológico de R. Reina (1973): “Paraná; social boundaries in an Argentine City”, el pescador se ubicaría a sí mismo como miembro de la “clase humilde”, mientras que los de “clase alta” lo designarían como “negro” o “clase baja”. De acuerdo a la clasificación propuesta, la actividad pesquera puede ser considerada comercial y deportiva, el primero es generalmente un Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 184 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... poblador de escasos recursos económicos. Vive en ranchitos muy precarios en la costa del Paraná, barrio Bajada Grande, Puerto Sánchez y Puerto Viejo. Se desplaza con una lancha o canoa de madera hecha por algún carpintero local, accionada a remos o con un viejo motor. Sus herramientas son una o dos redes o mallas tejidas y tres o cuatro “espineles” (largo hilo del cual cuelgan varios cordones o “relingas” con anzuelos en los extremos). Para él la pesca cumple dos funciones importantes: alimenta a su familia con un recurso que obtiene gratuitamente del medio y además, cuando la pesca abunda, vende la producción obteniendo dinero para las provisiones en el almacén y alguna ropa. El pescador deportivo es un apasionado de este entretenimiento que lo practica cuando su trabajo habitual se lo permite, como una recreación y no una necesidad de subsistencia. En el barrio Puerto Sánchez la pesca que se practica es tipo “artesanal”. Consiste en una salida diaria del pescador al río en su embarcación (barcaza, canoa a remos, pala y botador o a motor) para la extracción del agua de las piezas; se efectúa mediante cañas, redes, o mallas (antes tejidas por los mismos pescadores con hilo de lino), mojarreros y mediomundos (este último es una caña de pescar con un aro en su extremo, al cual se inserta una red de tejido fino, que sirve para pescar piezas mas pequeñas. Las canoas en general son realizadas en madera de timbó colorado, actualmente son de fibra plástica con motor fuera de borda, se sigue efectuando la pesca con piolas de fibras de polietileno y del mismo material son las boyas; el modo de pesca era y es “con simbra” o carnada; para extraerlos del agua se lo “fija con la chuza” ya que podían atravesar el pez con una especie de uña de hierro. Los espineles son “alambres, con brazoladas de piola o ‘sirga’ de algodón en los veriles” portadores de anzuelos, se los usa en ríos profundos, fijándolos en el fondo del lecho con un elemento pesado, para que la correntada no lo arrastre y por lo general con una pequeña boya (tarro) atada en él para ubicarlo en la superficie del río. El pescador lo recorre varias veces en el día para controlar sus carnadas, reforzar o cambiar y recoger los ejemplares que quedaron capturados en sus anzuelos. Cuando se capturaban abundantes peces eran vendidos para consumo o los conservaban vivos en “jaulas” sumergidas en la orillas (jaulones) o se los entregaban a los “palanqueros”, quienes transportaban al hombro la “palanca”, de donde colgaban los peces los que eran vendidos en distintos puntos de la ciudad domiciliariamente. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 185 Así se los recuerda a los palanqueros: Generalmente a media mañana se oía el clásico pregón del pescador, el simpático Don Fehleisen, portando los pescados frescos colgados de una palanca cargada sobre sus hombros. “Pescadiiii…. Tos”, se le oía gritar. (NANNI, D., 1998). En la actualidad existen dos ‘pescaderías que son “centros de comercialización” del fruto fresco del río en el barrio “Puerto Sánchez” (MARY; LEMOS). Es importante mencionar que la fauna ictícola se ha empobrecido por la desaparición paulatina de numerosas especies (surubí, pacú, manguruyú) y también se observa un fenómeno altamente significativo cual es la mortandad inexplicable de ciertas variedades adultas de peces, la escasez de pique de variedades, tales como el pacú y el manguruyú, se aduce a que se debe por la pesca indiscriminada (ejemplares jóvenes y alevinos o cuyo tamaño es menor al reglamentario) lo que provoca un desequilibrio en el ciclo reproductivo de las especies. Algunos residentes refieren que con la construcción de mega-obras de infraestructura (Túnel Subfluvial Uranga- Silvestre Begni”, Represa Yacyretá, Puente Rosario–Victoria y otras) han determinados afectaciones, como, por ejemplo, sonoro, y(o) contaminaciones varias, las que son negativas para las especies. Otra justificación esgrimida, por profesionales de organismos del Estado provincial determina que el motivo son las abruptas bajantes del régimen estacional del Paraná, lo que obliga a algunas especies a emigrar a lugares con más caudal de agua, o quedan dentro del cauce primario y son depredadas por otras especies. En el CERIDE (Centro Regional de Investigación y Desarrollo, Santa Fe) se está investigando sobre el repoblamiento natural y las posibles causas de la mortandad de las larvas de sábalo, poniendo a resguardo de forma artificial el “hábitat” donde las hembras desovan y monitoreando el crecimiento de la larva. Los pescadores costeros se remiten a la “desaprensión” de algunos deportistas comerciantes que utilizan “trasmayos” o redes que limpian el fondo arrasando la fauna ictícola en cualquiera de sus estadios de crecimiento. La Subsecretaría de Medio Ambiente llevó a cabo “Talleres de Pesca”, con el objetivo de informar, instruir y concientizar a la población que real o potencialmente interacciona con el río y sus seres vivos. Otro obstáculo según los mismos pescadores son los camalotes y el canutillar, flora típica del río que se acumula en la base de las canoas y las va deteriorando. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 186 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... Entre otras ocupaciones y actividades anexas a la pesca que se continúa ejecutando aún hoy es la del “calafateador” – verdaderos constructores y restauradores ribereños artesanos de la madera, quienes pueden hacer una embarcación completa hasta sus remos, como restaurar las más deterioradas, especialmente en lo que respecta a la pintura que las recubre. Esta actividad se ha ido perdiendo porque […] algunos de estos artesanos de lo naval eran ya mayores, no salían diariamente de pesca y efectuaban una tarea más pasiva; a veces también se ocupaban de tejer y reacondicionar las redes. La segunda actividad consistía en lavarlas y secarlas a la sombra. Se ocupaban además de “religarlas” con cordeles de sisal, “embollandolas” con corchos pasados en parafina caliente, que cumplía la finalidad de que “no carguen tanta agua”. Diversas actividades permitían sumar dinero, como, por ejemplo, la venta de leña o de “cucharas del agua” (conchillas u ostras de río). Otra de las tareas remunerada era cruzar ganado a la isla por encargo del propietario, y la posterior ejecución de tareas del tipo rural (marcar, señalar, descornar y castrar vacunos). Cuando la gente vivía en la isla, cultivaba maíz zapallo, choclo, sandía porque la tierra de la isla es muy fértil. Otro ejemplo del cual se hacen eco es el caso en la Isla Puente donde una señora cultivaba flores que vendía en la ciudad. 3.3 REINSERCIÓN LABORAL DE LOS PESCADORES La disminución del recurso pesquero ha cambiado la vida de los pescadores teniendo que buscar rápidamente una reconversión laboral ya que esto, los afecto en lo más íntimo por pertenecer a la identidad de pescador. Solo desde este marco se comprende su vida y en algunos casos, sus temores. Cuando el poblador sale “a recorrer” además de trabajar, de poner en práctica sus saberes, sus capacidades y percepciones, está jugándose el alimento familiar de todo el día. En esta “salida”, que puede equipararse al trabajo “buscavidas” del vendedor urbano con la enorme salvedad de que el pescador debe proveerse la mercadería a comerciar, le resulta imprescindible saber qué sitios recorrer, allí ponen en juego su agudeza en la ubicación espacial sobre el oscuro río y las especies posible a extraer; si está en aguas abiertas, el surubí, o los que se hallan en el lecho fluvial, como las rayas ya que no es igual llevar a la mesa un surubí que una “vieja del agua” o bagre (por su tamaño, consistencia y calidad de su carne). Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 187 Las canoas vuelvan vacías cuando “[…] se sale a recoger la pieza de verano, que aun no se ha retirado por el calorcito, […] ya que la de invierno todavía no ha venido [...] pero ni la una ni la otra están presentes en el agua.” Una jornada de 10 o 12 horas de trabajo no llega a aportar 10 kg de pescado (para venta a los acopiadores). La falta de alimentos y dinero se va compensando con la búsqueda de changas o jornales que duran de dos a cinco días, no se toman trabajos de un tiempo mayor para “hacerse al río”. Estas tareas son un paliativo a la criticidad de lo económico, va determinando en los hombres el aprendizaje de otros oficios, tareas, ocupaciones temporales, como, por ejemplo, las relacionadas con la construcción, y las mujeres el servicio doméstico. Les resulta difícil insertarse ya que “vienen de la cultura del agua”, como ellos mismos lo expresan, hay “tres o cuatro generaciones familiares detrás de hacer lo mismo, vivir de y por el río”. Consideran que si acceden a otros trabajos o no los pueden aprender, porque tienen sus capacidades desarrolladas para otras tareas o se sienten “encerrados”, oprimidos. Peor es si este pescador tiene entre 40 y 50 años ya que por su edad no será contratado (una persona de 40/50 años es mas propensa a sufrir un accidente y, en caso de que lo sea, le es difícil incluirse en grupos laborales cuya trayectoria data de hace mas de 20 años). Los nuevos aprendizajes y normas de convivencia laboral hacen que el pescador abandone su nueva ocupación por sentirla excluyente. Fuera del rubro “construcción”, hay escasa oferta y variedad en cuanto al tipo de empleos. Para ser incluido en el sector industrial o administración, se exige la certificación de la Escuela Secundaria finalizada, manejo de PC, etc., niveles de instrucción a los que los pescadores no han accedido. Actualmente, por la intervención de la política partidaria, se les ofrecen subsidios y planes, netamente asistencialitas y paliativos, que producen un gran estrago en la transmisión familiar del valor “trabajo”. Otros modos de subsistencia registrados son el “cirujeo”, “pedigueñeo”, que son vividas como denigrantes. Uno de ellos expresaba que “el que fue pescador no sale a robar, por la cultura de trabajo con que se ha criado”. Además, señalan que el costero no vive en una sociedad totalmente aislada, sino que constituye una “sociedad parcial” dentro de una sociedad más amplia. Estos pobladores relatan que por la falta del recurso ictícola, del alimento, del trabajo, están aumentando fenómenos como el alcoholismo, desmembramiento familiar, deserciones escolares – la extinción del oficio. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 188 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... “El que fue pescador, va a morir pescador”, sin poder ver que sus hijos lo hereden en este tarea. Las reglamentaciones del Estado, provincial acerca del manejo y preservación de la vida silvestre, constituyen uno de los numerosos “procesos de articulación social” que vinculan a estos grupos aparentemente aislados con el resto de la sociedad. El modo de ganarse la vida, el sustento radica en la pesca, por lo que se consideró importante remitir esta actividad al reglamento para la protección de la pesca, vigente en la Provincia, cuya supervisión y vigilancia lo realiza personal de la Dirección de Flora y Fauna. Dentro de la macroestructura organizativa provincial, la Subsecretaría de Medio Ambiente y Ecología es la encargada del control y supervisión de esta actividad, pero la realidad es que no cuenta con medios ni personal suficiente con el fin de llevar adelante operativos para combatir la depredación de las especies. Los operativos se organizan conjuntamente con oficiales de Prefectura Naval y Policía de la Provincia, en los que se ha comenzado a incorporar el trabajo de los guardafaunas. Tanto la pesca comercial como la deportiva están reglamentadas por instrumentos legales dictados por los organismos antes señalados para conservar la flora y fauna silvestre, Entre sus limitaciones se propone veda total de pesca del manguruyú y pacú, la reglamentación exige que si la pieza posee una medida inferior a 65 cm para el dorado y 75 cm para el dorado. Fuera de estas medidas deben ser devueltas al río. Un número interesantes de pescadores logra seguir desarrollando tareas en o junto el río es llevando a cabo otras actividades, tales como: a) salidas río adentro para guiar grupos de aficionados a la pesca (dada la experiencia y condición de expertos en lo que se refiere a conocer lugares de pique); b) venta y asesoramiento de carnadas; c) acompañamiento a los grupos de excursionistas de pesca indicando o llevándolos a lugares apropiados para acampar, bajadas de lanchas, y(o) guarderías náuticas; d) otro grupo ha implementando desde el año 2000 acciones de asociativismo buscando “superar el individualismo y caminar juntos” (Raúl Roco, Luis Romero, Luis “Beto” Martínez y otros con el apoyo de la Fundación Eco Urbano, Avina y Fundación Proteger lograron conformaron una ONG bajo la denominación (ONG “Redepesca”, “Baqueanos del Río”), que tiene como principal objetivo el recupero y difusión de la “cultura costera”. Ellos Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 189 en sus embarcaciones tradicionales son los que trasladan actualmente a los turistas haciéndolos conocer el islote. A pesar de estos esfuerzos, al revisar los datos relevados por la Dirección de Estadística y Censos de la Provincia y de la EPH (Encuesta Permanente de Hogares) se toma conocimiento de que, un 40% de los pobladores de este barrio son beneficiarios de planes y programas nacionales y provinciales: (Bono P.A.F. – Plan Alimentario Familiar; Bono PRAF – Plan Refuerzo Alimentario Familiar; Plan Jefes y Jefas de Hogar Provincial; Plan Familias – nacional; Ley 4.035 – provincial; pensión nacional por madre de mas de 7 hijos y otro importante porcentaje se compone de trabajadores del sector servicios: estatales y municipales; servicio doméstico – pescadores y desocupado(as). Esto demuestra que el río ya no los provee de los recursos ictícolas que en su origen determinó la conformación de un barrio lo más cerca posible del río donde desarrollaban su principal actividad económica, la pesca. 4 JUSTIFICACIÓN DE LA POSIBILIDAD DE SER DESTINO TURÍSTICO: ANÁLISIS Con relación a los temas analizados anteriormente es importante realizar un examen completo mediante un cómputo de las fortalezas y debilidades del lugar. El reconocimiento de las primeras es esencial para el diseño de estrategias de desarrollo capaces de orientar hacia un mejor aprovechamiento del Islote Municipal, mientras que conocer la existencia de las debilidades permitirá evitar las estrategias demasiado optimista para enfrentar las restricciones existentes allí. Los estudios previos y especialmente el trabajo de campo permiten identificar las siguientes fortalezas y debilidades. 4.1 FORTALEZAS • Islote de propiedad del Municipio de Has, cubierto de bosque higrófilo conservado en las cercanías de dos ciudades capitales Paraná/Santa Fe. • Particular combinación de ambientes y múltiples oportunidades de armar safaris fotográficos. • Condiciones favorables a turistas no convencionales para práctica de turismo en la naturaleza. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... 190 • El islote esta ubicado en el Río Paraná a pocos minutos del puerto de la ciudad homónima y con características importantes para ser aprovechado mediante actividades enmarcadas dentro del ecoturismo. • Valor y calidad del patrimonio natural. • Disponibilidad de áreas de alto valor escénico y recreativo, caracterizadas por un bajo nivel de intervención en la naturaleza. • Humedales que pueden ser aprovechados como recurso de observación de flora y fauna, propia de esos ambientes. • El microclima local se presenta confortable y dada su ubicación geográfica al borde de un curso de agua, puede sentirse bienestar climático y realizar un aprovechamiento del islote durante todo el año • Presencia de diversidad de aves observables durante todo el año y de otros animales de mayor porte. • Diversidad de patrones vegetales (selva hidrófila, cataizal y humedal) con especies diversas y específicas en cada una de ellos. 4.2 DEBILIDADES • Ausencia de señalización y cartelería didáctica que permita conocer a la naturaleza. • Falta de Centro de Interpretación que se integre correctamente en el paisaje, utilizando técnicas en su construcción ambientalmente sostenible. • Carencia de previsión para afrontar el comportamiento variable del río. • Conductas desaprensivas de los usuarios del islote, con relación a la preservación de los recursos naturales y paisajísticos. • Insuficiente personal para atención de la educación ambiental y el desarrollo de actividades de recreación en la naturaleza. • Inexistencia de acción coordinada entre los diferentes niveles de tomas de decisión (municipio, Fundación “Baqueanos del Río” y ONGs) y para promoción de actividades ecoturísticas cumplimentando los principios que aseguren un turismo sustentable y sostenible. • Deficiencias funcionales y estructurales en el servicio de recolección de residuos. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 191 • Falta de adecuación de los senderos, demasiado anchos, y construcción de otros sobreelevados. • Necesidad de que la máxima autoridad o responsable sea un profesional especializado en conservación y manejo de los recursos naturales o medio ambiente. • Falta de personal de control y guías de ecoturismo, piezas claves, para el mantenimiento de la actividad en el lugar. 4.3 OPORTUNIDADES • Cercanía de ciudades capitales (Paraná/Santa Fe). • Ambiente propicio para safaris fotográficos, observación de flora y fauna, actividades de ecoturismo. • Resignificación del papel de la ONG y de los organismos específicos en el interior del islote. • Posicionamiento positivo como destino ecoturístico dentro de la oferta que ofrece Paraná. • Posibilidad de desarrollar proyectos en conjunto con otras organizaciones nacionales y extranjeras, públicas y privadas. Trabajo en red. • Fortalecer los objetivos propios de la gestión actual del islote. Ejemplo: incorporar los principales centros de investigación del país para el estudio y resolución de la problemática del islote; revalorizar el islote como ámbito de educación formal y no formal. • Coordinar proyectos conjuntos con las otras instituciones presentes en la zona, que pueden servir para combinar potencialidades (sinergia). Ejemplo: venta de productos regionales de los isleños (comida, artesanías, etc.). • Generación de fuente de trabajo; contratación de recursos humanos, de personal, perteneciente al ámbito isleño, especialmente para la reconversión laboral de los pescadores; integración del Proyecto Islote al Programa Cultural Puerto Sánchez del municipio. 4.4 AMENAZAS • Profundización de los impactos directos e indirectos desarrollados en el mismo, originando la degradación creciente del medio ambiente y aumento de la contaminación. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 192 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... • Pérdida de protagonismo del islote en la zona, por ausencia de estrategias adecuadas de mantenimiento y promoción. • Pérdida de celeridad en los trámites a través de los cuales los responsables del islote canalizan sus demandas y políticas presupuestarias. 4.5 PRODUCTO TURÍSTICO La estructuración del producto turístico que se obtendrá una vez concluidos los lineamientos presentados tendrá las siguientes características: Ofrece: bosque natural, playa, paisaje, biodiversidad, educación ambiental.Recreación en la naturaleza: safari fotográfico. excursiones acuáticas,observación de la ciudad desde el río, contacto con la cultura isleña.Dirigido a: población de diversos estratos de edades, sexo y con aptitud, especialmente afín con la naturaleza.Época a ofrecer: durante todo el año.Comercialización: agencias de viajes, hoteles, empresas turísticas,escuelas, internet, ferias y exposiciones, etc.Forma de comercializar: mediante paquetes individuales y grupal. 4.6 POSIBILIDADES Y ACCIONES A DESARROLLAR Por lo analizado, el Islote Municipal tiene las condiciones esenciales para desarrollar un proyecto de ecoturismo. La riqueza y diversidad biológica de las formaciones vegetales que cubren el lugar, con presencia de importante y diversa cantidad de árboles, arbustos, enredaderas, propias de la selva hidrófila que acompaña el Río Paraná desde su nacimiento; un ambiente de características acuáticas, cuyo espejo de agua es intermitente y sólo aparece en épocas de creciente del Río Paraná, determina la presencia de un humedal/pajonal que sirve de hábitat a numerosas aves acuáticas. Según el Lic. Muzachiodi alrededor de 105 especies de aves se pueden observar a lo que se suma la riqueza en peces, sostén de una actividad deportiva turística que atrae a numerosas personas. Esta unidad de conservación, el mayor impacto que ha sufrido es “el refulado”, en los años 90, y que abarca el centro-norte del islote; el resto muestra condiciones naturales similares a las restantes islas del Paraná. El deterioro que presenta se debe entre otros condicionamientos al manejo no controlado, ni bajo conceptos preservacionistas que se ha Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 193 realizado del lugar, no obstante mantiene en gran medida sus condiciones naturales. Para realizar un proyecto ecoturístico, según el arquitecto Roberto 12 Bullón , se requieren la siguiente condición: Un área natural protegida en cuyo ambiente haya biomas de interés turístico. Un sistema administrativo que condicione los tipos de visitas e instruya a los turistas sobre las características de lo que va a ver. Una experiencia satisfactoria del usuario en cuanto a la calidad del ecosistema visitado y el conocimiento de sus características distintivas. Un aprovechamiento turístico de los ecosistema que resultan interesantes, con la condición que no ponga en peligro las bases de su funcionamiento” El primer requisito se cumple, atento a la diversidad biológica que posee permite desarrollar turismo de la naturaleza: científico, observación de aves, safari fotográfico y la observación y educación ambiental para turistas en general. El segundo requisito requiere de una ordenanza municipal que apruebe un plan de manejo del mismo, el que contemplará las acciones permitidas y no permitidas en el lugar, en cuanto al tercero y cuarto requieren de la implementación de un programa integral que tenga como objetivos: reacondicionar el Islote Municipal para el desarrollo del ecoturismo y la educación ambiental; dar a conocer la presencia y posibilidades de visitar al mismo, para modificar el porcentaje de personas que no conocen el Islote. Estos objetivos fueron los pilares que llevaron a proponer el proyecto: implementación de elementos y servicios ecoturísticos en el Islote Municipal como apoyo de la educación ambiental; aprobado en el marco de la convocatoria: puente entre universidad y sociedad; programa promoción de la Universidad Argentina – Secretaría de Políticas Universitarias (SPU) – Ministerio de Educación, Ciencia y Tecnología (M.E.C. y T.). En el mismo se intenta potenciar las fortalezas, modificar las debilidades, así como aprovechar las oportunidades para ello. Se propusieron los programas y subprogramas a seguir. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 194 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... 4.7 PLAN INTEGRAL DE APROVECHAMIENTO ECOTURISTICO Y AMBIENTAL DEL ISLOTE 4.7.1 Posibilidad de Aprovechamiento del Islote en el Futuro Por su ubicación geográfica, el Islote Municipal permite advertir una posición de ventaja potencial para su desarrollo, ubicándose como una de las áreas protegidas que podría alcanzar un lugar importante en el futuro, dentro de sus pares. Entre las premisas que permiten realizar esta apreciación, se destaca su ubicación a muy pocos minutos de dos ciudades capitales de provincias y el patrimonio natural que le otorga características propias. Realizando un análisis de una cobertura espacial que abarque las localidades ubicadas a una distancia aproximada de 150 km: Por su ubicación geográfica, el Islote Municipal permite advertir una posición de ventaja potencial para su desarrollo, ubicándose como una de las áreas protegidas que podría alcanzar un lugar importante en el futuro, dentro de sus pares. Entre las premisas que permiten realizar esta apreciación, se destaca su ubicación a muy pocos minutos de dos ciudades capitales de Provincias y el patrimonio natural que le otorga características propias. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 195 Realizando un análisis de una cobertura espacial que abarque las localidades ubicadas a una distancia aproximada de 150 km (salvo el caso de Rosario que se encuentra a 182 km por el Puente Virgen del Rosario (con una demora promedio de 1 hora y 50 minutos, a una velocidad crucero de 80 km/h) posibilitaría que una población aproximada de 2.000.000 habitantes, según censo 2001, esté en condiciones de realizar excursiones al islote ya sea para recreación, como para recibir educación ambiental con ida y vuelta a su localidad de origen en el día. El aprovechamiento de este proyecto ecoturístico se podrá lograr a través de la promoción y divulgación de su presencia en la primera etapa en las poblaciones que se encuentren en un radio de 150 km. El Islote presenta aptitudes valiosas y aún sin desarrollar para actividades ecoturísticas y de educación ambiental con la posibilidad de incorporar una cadena interesante de otros atractivos que rodean al mismo como se demuestra en el plano donde se ha volcado la infraestructura y servicios así como también es notoria su revalorización a partir de la incorporación de elementos interpretativos debido a que esta porción de territorio como se ha demostrado mantiene una importante riqueza en su biodiversidad. El mismo necesita sumarse a la dinámica turística de la ciudad. Su papel a futuro es importante, pero actualmente es reticente. El rol que a desempeñado a través de los distintos períodos, en el contexto estatal muestra diversos esfuerzos en las distintas etapas, pero hasta ahora ninguno ha sido lo suficientemente atractivo como para incorporarlo con funcionalidad turística a la ciudad. Siempre esta la esperanza de integrarlo plenamente a la misma. Un punto de partida es hacer conocer y valorar su potencial natural, belleza y riqueza biológica para contribuir a partir del turismo de naturaleza en la diversificación de los productos turísticos de la zona. Dice Ceballo Lascuarain: “Aún con el mejor de los productos, si el público apropiado no sabe de él, no se venderá. Lo mismo se aplica para el ecoturismo.” Y en el caso que nos ocupa es evidente la falta de conocimiento de su presencia como lo demuestran las encuestas. Si bien es cierto que algunas autoridades de áreas protegidas prefieren pocos turistas, aquellas que están interesadas en realizar el ecoturismo merecen el apoyo mediante una difusión acorde a su importancia. Según el autor antes mencionado, toda actividad mercadotécnica en el campo del ecoturismo se compone de las siguientes etapas: Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 196 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... a) obtención de inventarios de atractivos o actividades existentes; b) identificación de los segmentos apropiados del mercado (tanto oferta como demanda) y orientación adecuada hacia estas; c) evaluación del grado de atractivo comparativo del producto; d) estrategias y actividades promocionales. El primero punto está analizado en el presente informe, demostrando que el lugar tiene suficientes atractivos para desarrollar turismo de naturaleza, con todas las precauciones que se debe tener para lograr la sustentabilidad del recurso Para dar respuesta al segundo, se analizó la demanda actual. Ésta está limitada a un pequeño grupo de usuarios que sólo lo visitan en época estival para el aprovechamiento de playa y durante el año lo hacen algunos turistas especialmente extranjeros interesados en la experiencia de conocer la cultura isleña de boca de los “Baqueanos del Rio”, escuela de canotaje o algunos de los integrantes de la ONG a la que se ha entregado el islote en comodato. En ese sentido y por él producto que ofrece el islote, la oferta se podría ampliar una vez implementados los programas y subprogramas señalados anteriormente. Estos revertirán las principales debilidades y permitirá ofrecer su aprovechamiento a los siguientes segmentos de población, una vez solucionado la instalación de un número mínimo de sanitarios químicos: a) turistas científicos de la naturaleza, conservacionistas nacionales y extranjeros; b) estudiantes (primarios, secundarios, terciarios y universitarios); c) familias; d) turistas en general; e) excursionistas. Los turistas científicos pueden ser o no residentes de la zona. Son los que tiene una alta motivación científica. Se ofrecerá el islote en su totalidad con su riqueza de flora, fauna y áreas intangibles. Será tarea de las autoridades municipales realizar una importante acción de difusión en el país y en el extranjero para captar demanda de este tipo de usuarios cuyos trabajos científicos pueden mejorar el conocimiento y proponer acciones para el manejo sin riesgo del islote. Además, posibilitaría la generación de contactos importantes para la captación de fondos a invertir en la mejora del mismo. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 197 Los estudiantes franja que hoy no visita con asiduidad este lugar, lo podrán hacer a partir de la posibilidad que brinda una embarcación con mayor cupo como el catamarán. Ésto les permitirá tener la experiencia de navegar un río como el Paraná e interpretar la naturaleza en una isla. Las familias son una franja muy importante de captar, por que generalmente los niños toman su primer contacto con áreas protegidas de la mano de sus padres o maestros. Tienen la posibilidad aprovechar el lugar para descanso y recreación de fin de semana. Estos grupos podrían aprovechar el islote y las actividades de educación ambiental. Se estima que en estos grupos, están los mayores niveles de demanda potencial, atendiendo además que las reformas curriculares han incorporado contenidos de biología y educación ambiental, posibles a desarrollar en el lugar. En el inicio lo podrán aprovechar grupos pequeños mediante excursionismo. Posteriormente para aquellos grupos que superen los 50 integrantes y que no sean residentes de la zona, se sugiere complementar el paquete con alojamientos comunitarios en la Toma Vieja, o el túnel además de integrar visitas a otros recursos turísticos históricos culturales de la ciudad, por lo que se propone la firma de convenios entre Instituciones. Los turistas en general pueden realizar la visita complementándola con algunos de los circuitos acuáticos acompañado por guías especializados, Es una demanda muy estacional, pero ha crecido en los últimos tiempos. Los excursionistas son residentes del Departamento Paraná y localidades vecinas. Se podrá interesar a empresas de viajes y turismo de la Provincia y del país en la inclusión de este producto dentro de sus ofertas. El relevamiento realizado en las empresas turísticas de la ciudad de Paraná demostró que no se incluye ningún tipo de programas que contengan la visita al Islote Municipal, como destino turístico, debiéndose destacar que ante la consulta o pedido se organiza en el momento. 4.7.2 Demanda Potencial Considerando la existencia de una tendencia positiva sostenida de crecimiento del sector turístico en la Provincia de Entre Ríos, con un 12% como incremento detectado en la temporada estival 2005 (comparada con la del 2004); sumado al impacto que tendrán las obras de infraestructura ejecutadas en el Islote y al esfuerzo de marketing y difusión para el Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 198 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... lanzamiento de la temporada 2009 del mismo, concluimos que se puede proyectar un escenario positivo, con un incremento en las cantidad de visitantes en todas las estaciones para el año 2009. 4.7.3 Recomendaciones • Hacer de la política turística para el Islote Municipal una cuestión importante para el municipio. • Fortificar la búsqueda de apoyo económico financiero, especialmente en organismos internacionales y otras instituciones. • Consolidar el Islote Municipal como lugar ecoturístico de importantes posibilidades, para potenciar el desarrollo económico cultural y social de las poblaciones isleñas. • Diferenciar el mismo de otras áreas protegidas, por el agregado de otros productos y servicios – ambiente y calidad. • Ampliar la base de demanda en los grandes mercados, especialmente para aprovechar los servicios de educación ambiental. • Aplicar estrategias de marketing para mejorar acciones de promoción y difusión. • Fortalecer acontecimientos programados ya existentes e incentivar para la realización de nuevos eventos en el islote. • Implementar los circuitos acuáticos, para el logro de una mayor estadía del visitante en Paraná. • Crear un banco de datos a través de las encuestas, que permita conocer el movimiento y monitorear el comportamiento del área, para atemperar impactos. • Incentivar la propuesta del plan integral para romper la marcada estacionalidad estival que presenta. • Implementar, con el Consejo General de Educación, un programa de actividades escolares en el islote, de reconocimiento de la flora y la fauna, como así también programas de concientización y reforestación de especies autóctonas. • Planificar y difundir programas de visitas guiadas en el islote, a cargo de guías especialmente capacitados. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Magdalena Pandiani e Eduardo Chaves 199 5 CONCLUSIÓN Los cambios curriculares en la educación de la Provincia, las acciones denodadas llevadas a cabo por las ONGs, el fuerte movimiento en las poblaciones del mundo, de volver su mirada hacia la naturaleza hacen necesario que al Islote Municipal se le otorgue el lugar importante que se merece como propuesta turística. Es una responsabilidad ineludible del gobierno municipal trabajar para que el mismo logre el respaldo económico para su recuperación y puesta en valor. Paraná debe beneficiarse con el fuerte crecimiento del turismo ecológico y aprovechar esta coyuntura para posicionar en el mercado del turismo al Islote Municipal como un nuevo destino turístico. La riqueza florística, faunística y cultural otorgan al lugar condiciones apropiadas para desarrollar ecoturismo. Su ubicación geográfica cercana a dos capitales de Provincia, en el Corredor Turístico del Paraná que conecta la zona con un recurso turístico de primer orden: las Cataratas del Iguazú – Patrimonio de la Humanidad (UNESCO) permiten asegurar la presencia de usuarios para aprovechar la propuesta. La misma está condicionada a la continuación de la realización de obras para que los turistas encuentren en el lugar aquello que distingue al ecoturismo: conocimiento, educación, además de recreación y satisfacción del visitante. REFERENCIAS 1 LEY PROVINCIAL 8.967 2 DRAGO, Edmundo. Caracterización de la llanura aluvial del Paraná medio y de sus cuerpos de agua. Boletín Paranaense de Geociencias, n. 31, 1973. 3 CEBALLO LACURAIN, Héctor. Ecoturismo: naturaleza y desarrollo sostenible. Ciudad de México: Diana, 1998. 4 SENKMAN, Eloísa; RODRÍGUEZ, Estela; ACEÑOLAZA, Pablo. Diversidad florística del islote municipal. Paraná-Entre Ríos, oct. 2005. 5 Ibídem. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. 200 Incorporação de uma Área Natural Municipal para o uso ... 6 MANZI, Rubén. Corografía de las islas del río Paraná. Santa Fe: [S.n.], 1959 7 MUZZACHIODI, Norberto. Nuevos registros de aves para el área natural protegida islote municipal: Paraná-Entre Ríos. Nótulas Faunísticas, n. 2, 2001. 8 OLDANI et al. Cambios en la estructura del stock de las pescaderías de Puerto Sánchez en el cauce principal del tramo medio del río Paraná-1976/2003. Disponible en: <www.proteger.org>. 9 Ibidem. 10 MUNICIPALIDAD DE PARANÁ. Museo de Sitio Santos Domínguez y Benguria. Cultura Costera. Org. por Beto Martínez. [S.l.]: [S.n.], Folleto. 11 NANNI, Domingo. Mi pequeño mundo. Santa Fe: [S.n.], 1998. 12 BULLON, Roberto. Ecoturismo, sistemas naturales y urbanos. Buenos Aires: [S.n.], 2000. COLUCCIO, Félix et al. Diccionario folklórico argentino. Buenos Aires: Plus Ultra, 1994. v. 1. DIAZ, José María. Paraná ciudad paisaje: Puerto Sánchez –puerto de trabajo y esperanza. Compras & Servicios, oct./nov. 1992. MINISTERIO DE EDUCACIÓN Y JUSTICIA. Secretaría de Cultura – Instituto Nacional de Antropología. Región comprendida entre puerto Alvear y arroyo Barrancoso, al sur de Entre Ríos, entre el 68 y el 73. Cultura Tradicional del Paraná Medio. MUNICIPALIDAD DE PARANÁ. Puerto Sánchez. Paraná en el Tiempo. MUNICIPALIDAD DE PARANÁ. Jorge Méndez. Paraná en el Tiempo, n. 73. PASSAFARI, Clara. Aspectos sociales de la cultura isleña. Rosario: Génesis, 1976. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 161-200, 2009. Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e Debora Gonçalves Fittipaldi 201 TERRITÓRIOS SIMBÓLICOS: UMA ABORDAGEM DA GEOGRAFIA CULTURAL, DA RELIGIÃO E DO TURISMO – ESTUDO DA FESTA DE SÃO JOÃO, EM CORUMBÁ SYMBOLIC TERRITORIES: An APPROACH OF CULTURAL GEOGRAPHY, RELIGION AND TOURISM STUDY OF THE SÃO JOÃO PARTY, IN CORUMBÁ DANIELA SOTTILI ___________________________________________________________ Bacharel em Turismo (UCDB, 2000), Especialista em Gestão de Turismo, Hotelaria e Eventos (UNIDERP, 2003), Mestre em Geografia (UFMS, 2005), Doutoranda em Geografia (UFPR), Bolsista Fundect e Professora Titular do Curso de Turismo da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul E-mail: [email protected] DJANIRES LAGEANO DE JESUS ___________________________________________________________ Doutorando em Geografia pela UFPR Professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul E-mail: [email protected] Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. 202 Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e Debora Gonçalves Fittipaldi 203 RESUMO O presente trabalho objetiva promover uma discussão teórico-prática sobre a importância da Geografia, do Turismo e da religião no estudo das representações culturais. Para contextualização do tema, optou-se apresentar a realidade da Festa de São João, em Corumbá, Estado de Mato Grosso do Sul. Para obtenção dos resultados, utilizou-se análise bibliográfica por meio de livros, de artigos, de dissertações, de teses e de consultas na internet. Além disso, foram realizadas duas entrevistas, sendo uma com moradora local e outra com uma turista. Pela percepção e análise dos depoimentos, constatou-se a dialética permeada no santuário tradicional da Festa de São João. Os resultados parciais sinalizam que o campo sagrado e profano potencializado pela realização da Festa é percebido pelas representações que são sumamente importantes para a constituição e difusão da cultura, pois encara essas como uma forma de enxergar o mundo e enxergar-se nele. A Festa de São João, tanto para o povo corumbaense como para os visitantes, continuará representando a cultura local, seja pelas características religiosas estimuladas pela Igreja Católica como pelo aspecto profano potencializado pelos devotos. Palavras-chave: Festa de São João, geografia cultural, turismo cultural, religião, representação, Corumbá. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. 204 Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ... ABSTRACT The present objective work to promote a theoretician-practical quarrel on the importance of geography, the tourism and the religion in the study of the cultural representations. For presentation of the subject, opted itself to present the reality of the São João Party in Corumbá - Mato Grosso of the South state. For attainment of the results it was used of bibliographical analysis by means of books, articles and consultations in the internet. Moreover, two interviews being one with local inhabitant had been carried through and another one with a tourist. Who by means of the perception and analysis of the depositions evidenced it dialectic promoted in the traditional sanctuary of the São João Party. The partial results signals that the sacred and profane field promoted by the accomplishment of the Party is perceived by the representations that are utmost important for the constitution and diffusion of the culture, therefore faces the same ones as a form of to see the world and to see themselves in it. The São João Party, as much for the corumbaense people as for the visitors, it will continue representing the local culture is for the religious characteristics stimulated by the church catholic as well as for the profane aspect promoted by the worshippers. Keywords: São João Party, cultural geography, cultural tourism, religion, representation, Corumbá. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e Debora Gonçalves Fittipaldi 205 1 INTRODUÇÃO O presente artigo foi estruturado com base na análise sobre definições e conceitos que permitem um aprofundamento da relação cultural entre a atividade turística e suas raízes histórico-geográficas, apresentando ainda elementos teóricos para tratar das metáforas: turismo religioso e religiosidade. Para fundamentar essa discussão, delimitou-se no estudo de caso da Festa de São João, em Corumbá, Estado de Mato Grosso do Sul, abordando análise bibliográfica por meio de livros, de artigos e de matérias obtidas pela internet, além de coleta de informações para apresentar a dialética do Santuário Tradicional com o depoimento de uma turista e uma moradora do local. Um exemplo que contextualiza a esfera do sagrado e do profano é a Festa de São João, realizada em Corumbá, localizada a 435 quilômetros de Campo Grande, capital do Estado de Mato Grosso do Sul. Também conhecida como “capital do Pantanal”, Corumbá foi fundada em 1778 e faz limite como os municípios de Ladário, Porto Murtinho, Aquidauana, Miranda, Sonora, Coxim, Rio Verde de Mato Grosso. Faz ainda divisa com o Estado de Mato Grosso e fronteira com Bolívia e Paraguai. Tem uma área de 64.960,863 km² e população, segundo o IBGE (2007), de 96.373 habitantes (http://www.duplipensar.net/, 2008). Até 1914, para chegar a qualquer parte do Brasil, o corumbaense não tinha outra opção a não ser passar antes pelas capitais do Prata, seja por Assunção, Buenos Aires ou Montevidéu. Com isso, acarretou a absorção de tendências, costumes e linguagem desses povos. A convivência com os países vizinhos de língua espanhola era acentuada em função da relação comercial por meio do transporte fluvial entre eles. Corumbá mantinha com Buenos Aires e Montevidéu um elevado comercio de compras e ideias, o que criou na cidade hábitos e costumes com base no folclore portenho. Nessa época, era comum que empresários bem-sucedidos passassem por Montevidéu utilizando o Rio Paraguai e depois chegassem a Porto Alegre ou Rio de Janeiro para assistir a grandes peças teatrais. Eles viajavam no luxuoso “Fernando Vieira”, um navio que possuía 100 camarotes de primeira classe e que trazia as principais companhias teatrais do Rio de Janeiro e outras cidades para se apresentarem no Bijou Theatro, a maior casa de espetáculo que Corumbá já teve. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. 206 Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ... Pelo isolamento por causas naturais e tendo no Rio Paraguai o único meio de comunicação, era aceitável que se sofresse a influência desses países vizinhos. Tal influência se fez sentir na música, na linguagem e nos costumes em geral. Quanto à música, até hoje podemos ouvir os sons românticos da guarania, dos rasqueados e da polca paraguaia. Houve época em que o tango era a dança preferida nos clubes sociais (http://www.corumba.com.br/, 2008). A Festa de São João, de origem portuguesa, nasceu da grande devoção do povo luso. Conta-se que o costume de levar o Santo ao “batismo” é realizado em algumas aldeias de Portugal, onde, na falta de um rio, os devotos, em procissão, com o andor enfeitado com rosas e fitas nas cores vermelhas e brancas, levam o Santo a uma fonte ou chafariz, geralmente localizado em uma praça central e o “batizam”. A Festa em Corumbá se tornou ao longo do tempo uma referência cultural não só para seu povo como também para os visitantes/turistas que chegam à cidade para prestigiá-la. São diversos devotos que se deslocam para acompanhar as manifestações que referenciam o santo. A população em geral acredita nos “milagres” que São João proporciona aos seus seguidores. Dessa forma, o campo sagrado e profano, que é criado pelos devotos do Santo, torna-se o espaço de representação da cultura local. Para S. F. Gil Filho (2002, p. 68), o espaço de representação é “[...] o momento em que o atributo de ser uma coisa se torna típica da realidade objetiva.” Ainda o mesmo autor comenta que, no campo das representações sociais, há uma definição de territórios e que a noção de território está presente em qualquer representação social “[...] cuja intenção seja definir as fronteiras de controle e apropriação de determinada realidade social.” (ibid., 69). Nesse sentido, M. Almeida (2003, p.72) afirma que “[...] é através de um conhecimento das representações das pessoas que é possível captar toda a riqueza de valores que dão sentido aos lugares.” Além disso, a autora diz que “[...] pelas representações também é possível entender a maneira pela qual as pessoas modelam as paisagens e nelas afirmam suas convicções e esperanças.” As representações têm uma estreita ligação para a compreensão e uso do espaço e da própria sociedade que o ocupa. As pessoas de certa forma são estimuladas a agir, não apenas por informações cognitivas, racionais, mas também por razões míticas, religiosas, afetivas, simbólicas e culturais. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e Debora Gonçalves Fittipaldi 207 2 DESENVOLVIMENTO Não existe referência mais detalhada quanto ao início do “Banho de São João”, em Corumbá, mas é possível que essa comemoração tenha sido trazida pelos colonizadores portugueses, quando adentraram em toda a região Centro-Oeste em busca de riquezas. O objetivo da festa é a louvação a São João, e o ponto alto é o banho do Santo nas águas do Rio Paraguai, o que simboliza o “batismo”. Em Corumbá, o acompanhamento musical da procissão sustenta a perspectiva, relacionando religião e religiosidade com um cenário bastante original, ao invés de apenas músicas sacras em louvor ao Santo. No final de cada ladainha ou refrão, a Banda acelera a marcha e os acompanhantes dançam e clamam num misto de sacro, profano e carnavalesco. Segundo Régis Debray (1996), apud C. V. M. Oliveira (2001, p.148): Isso funciona esquematicamente bem, até que as bases profanas do universo sagrado sejam radicalmente abaladas. Como é possível delimitar com precisão o comportamento religioso mais adequado numa romaria, diante de uma sociedade urbano-industrial incentivada ao consumismo pós-industrial? Em termos pragmáticos, a resposta está nos limites do simplório que povoa a concepção de mundo pós-moderno: entende-se que é sempre necessário resgatar os bons e velhos valores perdidos. Essa prática de levar a imagem de São João em procissão para “batizá-lo” no rio, existe apenas em Corumbá, Cuiabá e Cáceres (MT), das quais Corumbá conserva, até hoje, essa peculiar maneira de festejos joaninos, especialmente, no que tange ao sentido “carnavalesco” da tradicional festa. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. 208 Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ... FIGURA 1 – DEVOTOS PASSANDO DEBAIXO DOS ANDORES FONTE: <http://corumbaonline.com.br/noticias>. Acesso em: 16 set. 2008. Desse cortejo, participam homens, mulheres e crianças, carregando faroletes coloridos e luminosos, ou velas acesas. A orquestra de violão, pandeiro, sanfona, cavaquinho e cornetim dá ênfase aos que vão acompanhando e entoando o consagrado Hino de São João. Cada procissão do Santo é composta de 30 até 120 pessoas, que acompanham o andor desde a casa do festeiro até a beira do rio. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e Debora Gonçalves Fittipaldi 209 FIGURAS 2 – ALTAR ENFEITADO PELOS DEVOTOS FONTE: <http://corumbaonline.com.br/noticias>. Acesso em: 16 set. 2008. A Festa de São João por muito tempo foi considerada um evento cultural de abrangência local e regional, porém, com o passar do tempo, vem caracterizando-se com uma abrangência nacional e, porque não dizer, internacional, uma vez que é estimulada pelos turistas brasileiros, da Bolívia (país com que a cidade de Corumbá faz fronteira) e do Paraguai, pela proximidade geográfica. A atividade turística deve ser considerada, na atualidade, como um dos fatores mais importantes para se associar o mundo ao lugar, o global ao local, porque as peculiaridades locais emergiram desse global. A globalização econômica passou a valorizar as diferenças de cada lugar, tornando essa diferenciação um atrativo para o capital. O lugar entendese como o resultado de várias relações que vêm somar as particularidades (políticas, econômicas, sociais, culturais, ambientais) às demandas do global que o atravessa. Isso só vem confirmar que os lugares conduzidos pela urbanização turística entram rapidamente para o fluxo de informações, bens e pessoas, e se insere no movimento global (SERRANO, 2000). Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. 210 Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ... Turismo é uma atividade que não depende mais exclusivamente da vocação natural, podendo ser construído artificialmente pelo poder econômico e político (LEMOS, 2001). Há diferentes motivações para se desenvolver o turismo urbano. Elas são variadas, de acordo com a necessidade da população como um todo e na escolha dos objetivos a serem atingidos. Para a sociedade, é necessária uma avaliação subjetiva que venha detectar o que realmente é bom para o futuro dessa cidade e também para as várias partes e grupos de interesse implicados. Essas influências são inevitáveis, mas, quando bem administradas, podem formar áreas de interesse comum, possibilitando acordos colaborativos. Segundo C. F. Magalhães (2002, p. 80): Pode-se englobar dois tipos de espaço: aqueles que já foram apropriados pela atividade turística e por isso apresentam características particulares, resultantes dessa apropriação; e aqueles que, em virtude de sua vocação, serão organizados para a exploração. Sob essa ótica, defini-se a Festa de São João como um espaço urbano que já foi apropriado pela atividade turística. É a festa mais tradicional de Corumbá e faz parte do calendário turístico do Brasil. O espaço desenvolve uma diversidade enorme de tipos de turismo; no caso dessa festa, caracteriza-se como turismo religioso. Todos os povos, culturas, sociedades ou espaços geográficos apresentam uma variedade de mitos. No entanto, são raras as comunidades que reconhecem, numa expectativa racionalista, as explicações presentes nos mitos, uma vez que o mito pode ser entendido como um sonho coletivo. Nessa expectativa, cada individuo deve encontrar um aspecto do mito que se relacione com a própria vida do devoto. Os mitos abrem o mundo para a dimensão do mistério (OLIVEIRA, 2001). O sentido da sacralização do solo é um capitulo importante da historia da urbanização brasileira e demonstra estar presente na Festa de São João (GARDIM, 1999). Para entender a relação decorrente da mistificação popular, Sousa Alves e S. F. Gil Filho (2005 p.73) defendem: A religiosidade popular é a maneira que o povo vivencia suas crenças, devoções, sonhos, esperanças e paixões, nela não encontramos a preocupação com a pureza do conhecimento teológico que está presente no credo religioso, o povo é pragmático e procura na sua relação com o sagrado a solução dos problemas imediatos da vida [...] Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e Debora Gonçalves Fittipaldi 211 Essa afirmação traz à tona a realidade percebida e vivida pela população corumbaense e pelos demais visitantes que prestigiam o evento. De acordo com a entrevista da jornalista Mariana Conte, do site corumbaonline (19/6/2008), Carlos Porto, secretário-executivo de Turismo de Corumbá, observa: [...] a Festa recebe ajuda financeira da Prefeitura Municipal de Corumbá, da Secretaria Executiva de Turismo e da Fundação de Cultura do Pantanal. A Festa busca resgatar uma tradição secular que inclui a decida do andor para banhar a imagem do Santo nas águas do Rio Paraguai. As alegres festas juninas, brasileiríssimas em suas motivações e indumentárias, contudo, atualmente, sem o fervor do passado, são bastante estimadas pelo povo, e alguns estabelecimentos de ensino têm procurado por meio delas despertar na criança o amor e o culto pela tradição. Todavia, em tempos passados, não se pode negar, havia muito mais animação e entusiasmo, sobretudo quanto aos espetáculos pirotécnicos, em que os artesãos de foguetório entravam em acirradas disputas de prestígio e esplendor noturno. Entre as festas de todo o País, pode-se dizer, sem qualquer exagero, pelo menos com relação ao passado, que o São João de Corumbá é (ou era?) coisa muito fora de sério, tal a alegria contagiante que dele se irradia. O povo acredita que comemorar é uma forma de mostrar o respeito dos valores considerados universais em cada cultura e dar um sentido verdadeiro às datas que são criadas para marcar a passagem do tempo. Nas homenagens programadas para a comemoração do aniversário do santo católico, os morados de Corumbá não ficam indiferentes aos acontecimentos da noite de 23 para 24 de junho. Muitas casas de família mantêm a tradição de fazer sua própria festa para louvar São João, quando os festeiros não poupam despesas na contratação de músicos que formam a orquestra, na criação de galpões rústicos, nas fogueiras enormes, nas vestimentas a caráter, na decoração das principais dependências da casa, na beleza do andor para o santo, nos banquetes gastronômicos fartos que se distribuem democraticamente antes, durante e depois de se levar o Santo pela Ladeira Cunha e Cruz em direção as águas do Rio Paraguai. Há sempre acompanhamento de muitas evoluções da charanga (pequena banda de música) e dos participantes, muitos fogos pipocantes e a cantoria de todos os anos: Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. 212 Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ... Reza de São João Letra de domínio público Música de Edson Duarte Deus te salve João Batista sagrado O teu nascimento Nos tem alegrado Se São João soubesse Que hoje era o seu dia Descia do céu à terra Com prazer e alegria João batiza Cristo Cristo batiza João Todos foram batizados Lá no rio Jordão FIGURA 3 – PORTO GERAL DE CORUMBÁ FONTE: <http://commons.wikimedia.org/wiki/Corumb%C3%A1>. Acesso em: 23 jul. 2008. Para tratar da dialética identificada pelo discurso da própria caracterização da Festa de São João, em Corumbá, foram entrevistadas duas pessoas, sendo uma natural de Corumbá, confirmando a preservação da essência das tradições culturais, e uma turista que apresenta um depoimento contraditório ao da nativa, citando dados sobre a descaracterização do evento de que participou há dois anos. Para preservar a identidade das entrevistadas, optou-se por identificá-las por nomes de aves da fauna pantaneira. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e Debora Gonçalves Fittipaldi 213 Segundo Arara (ave de grande porte, de longa cauda e bico muito Essa festa começou há mais de 100 anos, incentivada pela família Gualberto e seguida pelas demais famílias católicas devotas de São João que organizam até hoje a festa com bastante antecedência, para que tudo ocorra bem. A imagem do Santo é colocada num andor todo colorido, com muitas flores artificiais e fica num lugar de destaque na sala das casas, enfeitadas com bandeirinhas e balões. Na frente da residência ou no quintal, é feita uma ou mais fogueiras e seu tamanho está relacionado com a devoção ao Santo. A fogueira é acesa às 18 horas e fica queimando a noite toda. Em seguida, as pessoas rezam o terço, soltam fogos, bombinhas, pulam a fogueira e a festa se prolonga até o amanhecer do dia. A tradição da fogueira provém do fato de São Zacarias acender uma fogueira na montanha para anunciar o nascimento de seu filho São João Batista. Antes da meia-noite, quatro componentes da família carregam o andor e vão se revezando com os demais, sendo que no retorno deverão estar carregando o andor as mesmas pessoas que iniciaram o trajeto. Saem em procissão de todos os cantos da cidade em direção à Ladeira Cunha e Cruz, mais conhecida como Ladeira da Candelária. A procissão é acompanhada com bandas composta de violão, acordeão, trombone entre outros instrumentos. As pessoas cantam primeiro em ritmo lento e, no decorrer do trajeto, o ritmo se acelera, passando ao carnavalesco. Enquanto uns descem outros sobem a ladeira, e toda vez que as imagens de São João se encontram, se dá o cumprimento entre as procissões. As pessoas que carregam o andor devem abaixar três vezes, fazendo uma reverencia ao Santo e as demais passam debaixo do andor sete vezes, fazendo os pedidos ao Santo. Para que estes sejam realizados, os devotos devem passar embaixo de sete andores. A procissão retorna à casa, onde a festa continua. É servido um churrasco, o famoso saravullo (feito de miúdos de boi, vinho, azeitona, batatinha e tempero verde), além de doces caseiros, como pé-de-moleque, cocada, doce de abóbora e laranja. Na cidade, todos dizem que os fiéis têm alcançado seus pedidos. Por isso cada ano que passa é maior. A nativa contextualiza a festa sobre uma abordagem simplificada. Em seu depoimento não fica enfatizado o papel da Igreja Católica sobre os fiéis. A principal abordagem fica em torno do profano por meio do ritual de que a população participa com os visitantes do local. No depoimento de Garça (ave pernalta e de bico longo, que se alimenta de peixes), 38 anos, natural de Campo Grande, acadêmica de Pedagogia, demonstra-se a descaracterização do evento sobre um olhar do turista, como afirma: Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. 214 Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ... Quando conheci a cidade de Corumbá, no ano de 1997, a população estava toda envolvida com a Festa de São João, que se distribuía em várias festas juninas pelos bairros da cidade. A festa principal era realizada em uma praça da cidade, onde várias pessoas trabalhavam nas barracas com diversas apresentações de grupos culturais. A imagem de São João ficava em destaque em um altar, onde os devotos depositavam seus pedidos. Quando chegava a meia-noite do dia 23 de junho, os devotos levavam a imagem do Santo com velas e lanternas para iluminar a descida da ladeira e banhá-la nas águas do Rio Paraguai. Com a imagem eram levados os pedidos dos devotos para ser lançados ao rio. No ritual da “Descida da Ladeira”, os devotos cantavam músicas sacras e profanas. Após o banho do Santo, os participantes da procissão passavam sete vezes embaixo de sete andores, para que seus pedidos fossem atendidos pelo Santo. Após o ritual, os devotos voltavam para as festas juninas de onde partiram em procissão, e permaneciam até o raiar do dia. Retornando à cidade, no ano de 2003, para prestigiar a Festa de São João, não senti o mesmo entusiasmo de outrora. Não havia barracas na praça central. No dia 23 de junho, havia poucas pessoas na praça. Fiquei surpresa, pois esperava que a festa tivesse um vulto maior do que no ano que estive lá. As pessoas estavam desanimadas. Dessa vez, observei que as imagens de São João estavam postas nas residências, aguardando o ritual da “Descida da Ladeira”. Estive na Casa da Cultura Corumbaense participando de uma festa junina, em que havia uma imagem do Santo em um altar todo decorado. Quando se aproximava da meia-noite, saímos em procissão levando a imagem para o “banho” no Rio Paraguai. Observei que havia pessoas de várias religiões, tais como católicos, espíritas, religiões afro-brasileiras, entre outras. Depois do ritual, retornamos à Casa de Cultura para dar continuidade à festa. Após a festa, nos dirigimos ao Porto Geral de Corumbá para participar de uma festa junina bastante diferente. Em vez de músicas tradicionais, pudemos ouvir ritmos de axé, pagode e músicas latinas, acompanhados por um trio elétrico. No dia 24 de junho, fui a uma missa na Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, e após houve uma procissão com uma imagem de São João ao Porto Geral. No local, o padre entrou no Rio Paraguai e deu a bênção aos devotos presentes e “banhou” o Santo. Diferente o ritual do dia anterior, as músicas, em vez de profanas, foram substituídas pelas sacras, mas os devotos ainda passavam debaixo do andor. Após aquela cerimônia, os fiéis voltaram à igreja, onde foram abençoados novamente pelo sacerdote. O depoimento apresenta algumas contradições. As questões estão relacionadas sobre a circulação de pessoas presentes à festa, constatando a diminuição do fluxo de pessoas. Além disso, podem ser constatadas as diversas crenças e culturas sobre o meio profano durante o ritual Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e Debora Gonçalves Fittipaldi 215 realizado à meia-noite, entre os dias 23 de 24 de junho. As músicas apresentadas depois da procissão da “lavagem” do Santo estavam descaracterizadas com a apresentação de ritmos baianos e latinos em uma festa junina, acompanhados por um trio elétrico. A Prefeitura, com o objetivo de potencializar o número de visitantes na cidade durante a festa, colocou à disposição mais um atrativo não só para os nativos, mas também para os turistas, como é confirmada pela reportagem de Marinez Benjamin (2002): Além de todas essas manifestações culturais típicas dessa época do ano, o evento contará com uma novidade. Será montada uma arena de rodeio no local da festa para a disputa de competições de pega do garrote, laço pialo, doma do potro pantaneiro (encilhar e montar), pega do porco monteiro, laço do cabrito e futboi. Considerando as divergências da própria essência religiosa e profana entre nativos e turistas e considerando os depoimentos com diversos olhares, Ficam estas indagações. Como calcular as mudanças que o Turismo pode provocar na sociedade nativa? Os nativos devem atender aos desejos dos hábitos de consumo e comportamento dos turistas? O que aconteceria se, de repente, os nativos atendessem a todos os desejos dos turistas, esquecendo-se dos referenciais culturais e religiosos, e os turistas não aparecessem mais? Todas as questões suscitadas estão relacionadas ao próprio processo de interferência cultural entre a sociedade envolvida pela atividade turística. A realidade encontrada in loco sinaliza a necessidade de aplicação dos princípios de planejamento, para fomentar a discussão entre a comunidade local, o poder público, a iniciativa privada, os profissionais e os estudiosos para avaliarem os impactos culturais negativos e positivos gerados pela atividade turística, conservando-se os hábitos, os costumes e as tradições da localidade e não os transformando em “produtos” que são formatados pelos desejos dos turistas, mas não são caracterizados pela própria identidade cultural sagrada e profana que caracterizam a essência do povo corumbaense. Para avançar sobre o entendimento da dialética que envolve o sagrado e o profano, principalmente relacionando aos conflitos sobre o fundamentalismo que os sustentam, torna-se necessário discutir os vieses que mantêm a estrutura como os campos da fé, espaço e tempo. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. 216 Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ... O homem religioso sente necessidade de viver numa atmosfera impregnada do sagrado. É por essa razão que se elaboram técnicas de construção do sagrado. Esse trabalho humano de consagrar um espaço – essa necessidade de construir ritualmente o espaço sagrado – revela-nos que o mundo é, para o homem religioso, um mundo sagrado. Daí uma contínua sacralização do mundo, uma religião cósmica, uma santificação na vida: espaço sagrado, qualitativamente forte, demarcado e diferenciado. De acordo com a experiência religiosa, há uma oposição entre o espaço sagrado e todo o resto que a cerca, como afirma Z. Rosendahl (1996, p.30): O espaço sagrado é um campo de forças e de valores que elevam o homem religioso acima de si mesmo, que o transporta para o meio distinto daquele no qual transcorre sua existência. É por meio dos símbolos, dos mitos e dos ritos que o sagrado exerce sua função de mediação entre o homem e a divindade. E é o espaço sagrado, enquanto expressão do sagrado, que possibilita ao homem entrar em contanto com a realidade transcendente chamada deuses nas religiões politeístas, e Deus, nas monoteístas. Com base nas reflexões apresentadas, confirma-se a necessidade de o homem religioso se movimentar no mundo sagrado. Daí surge o desejo de participar do ritual de construção do espaço sagrado. Na realidade, o ritual pelo qual o homem constrói um espaço sagrado é eficiente na medida em que ele reproduz a obra dos deuses. O espaço sagrado e o espaço profano estão sempre vinculados a um espaço social. A ordenação do espaço requer sua distribuição entre sagrado e profano. É o sagrado que delimita e possibilita o profano (ROSENDAHL, 1996). Para Mircea Eliade (1992), o sagrado e o profano se percebem um em confronto com o outro, e se classifica o fenômeno religioso como sagrado e profano. O primeiro se refere ao transcendente, àquele que é muito elevado; o profano, a tudo que é corriqueiro, normal, algo do dia a dia, com isso invalidando outras leituras relativas a este termo. Eliade (1992, p. 64) expõe: Toda festa religiosa, todo tempo litúrgico, representa, a reatualização de um evento sagrado que teve lugar num passado mítico, “nos primórdios”. Participar religiosamente de uma festa implica a saída temporal “ordinária” e reintegração no tempo mítico reatualizado pela própria festa. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e Debora Gonçalves Fittipaldi 217 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Diversas questões são relevantes para refletir sobre a problemática existente, principalmente quando relacionada à venda de um “produto” intangível, como o da religião, sustentado pelo sistema econômico, como no caso, explorado pela atividade turística, um setor que gera milhões de divisas, empregos diretos e indiretos e também a massificação dos espaços religiosos e, na maioria das vezes, dependência econômica potencializada pelo espaço profano. A problemática ocorre pela própria essência do Turismo que se remete a uma atividade que comercializa serviços – entretenimento, lazer, negócios, cultura –, além de uma multiplicidade de motivações como o da própria saúde mental proporcionada pelos complexos de lazer e pela religião. Para entender a dinâmica do lazer sagrado para a religiosidade turística reconhecendo como característica produtiva, C. V. M. Oliveira (2001, p. 161), afirma: A questão é tendenciosa e consente a ideia de que não só o tempo livre é relativo (considerando o ócio mais produtivo que o trabalho) como a própria liberdade de viagem define-se de acordo com uma mínima viabilidade econômica. Reconhece-se no turismo uma sistematização, muitas vezes sagrada, do exercício contínuo de lazer. De um lado, as peregrinações (do sagrado ao profano) definem roteiros que evoluem materialmente e “perdem” o simbolismo religioso; de outro, os próprios espaços profanos sustentam os lugares sagrados como defende a própria geografia cultural. Dessa forma, o substrato religioso que permeia as relações estabelecidas no cotidiano dos povos integra as culturas e auxilia na tessitura que organiza e sustenta a vida de um grupo social. Assim ocorre com o Arraial do Banho de São João, onde para muitos é maneira de trazer o sagrado para sua festividade, pois o homem necessita viver impregnado de tempo sagrado. Então, o ser humano tece em sua vida e em seus momentos de lazer um pouco mais de sagrado (ELIADE, 1993). O sagrado integra o cerne das culturas. Segundo W. Piazza (1976, p. 82), [...] pode-se pensar o que quiser a respeito do sagrado, mas não se pode liquidá-lo, pois a sua presença e a sua importância no estudo do fenômeno religioso é indispensável e irredutível. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. 218 Territórios Simbólicos: Uma Abordagem da Geografia ... No campo do Turismo, discutem-se estas questões: Como peregrinar sem crença nem sacrifício? Como participar do profano (atos e festas) sem devoção coletiva? Como lidar com o tempo de ócio num lugar de obrigações? Já na esfera religiosa apresentam-se estas questões: Abrir os santuários a todos os visitantes? Tornar sagrado o que é profano ou externo ao campo religioso? Ampliar incoerências, confundindo dogmas? Segundo C. Pastro (1993, p. 41): Quando o sagrado se manifesta, não só há rotura na homogeneidade, mas também há uma revelação que não só se opõe aquilo que não é realizada de absoluta, mas convida, agora, a um senso de orientação e unidade. A manifestação revela um ponto fixo absoluto, um centro. A manifestação do Sagrado funda ontologicamente o mundo. Para o homem religioso e primitivo (como se vê em múltiplos exemplos bíblicos), um fenômeno orgânico não é um ato simplesmente fisiológico, mas pode tornar-se um “Sacramento”, quer dizer, uma comunhão com o Sagrado. O Sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no mundo, duas situações existenciais assumidas ao longo da história. Nesses termos, pode-se perceber que o campo sagrado e o profano são percebidos pelas representações que são sumamente importantes para a constituição e difusão da cultura, pois as encara como uma forma de enxergar o mundo e enxergar-se nele. A Festa de São João, tanto para o povo corumbaense como para os visitantes, continuará representando a cultura local, seja pelas características religiosas estimuladas pela Igreja Católica, seja pelo aspecto profano potencializado pelos devotos. Desde sua criação até a atualidade, observou-se a confirmação da devoção ao Santo, mesmo com a inclusão de outras festividades simultâneas ao período de comemoração (shows artísticos). A cada ano o povo vai recriando o espaço sagrado e profano da festa, atendendo às transformações contemporâneas para dar sentido ao lugar. É preponderante nesse processo de redefinição dos traçados espaciais o conceito de campo religioso e também de uso turístico, para dar sentido de reinterpretar esses traçados do que apenas conceituá-los propriamente, mediante os usos do espaço e as relações de afeto que podem a ele ser legado pelas representações da cultura, as quais conservam sempre a marca da realidade social autóctone. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 201-221, 2009. Daniela Sottili, Djanires Lageano de Jesus e Debora Gonçalves Fittipaldi 219 Portanto, identifica-se, por meio dos resultados alcançados, que a Festa de São João, em Corumbá, continuará crescendo no aspecto religioso e contribuindo para a fé e a crença do povo nativo. Já no enfoque mercadológico, uma vez que o evento se tornou um produto turístico, se projeta como uma alternativa viável de desenvolvimento socioeconômico, além de se tornar um patrimônio imaterial, pela tradição e relevância cultural local. REFERÊNCIAS ALMEIDA, M. Em busca do poético do sertão: um estudo de representações. In: ALMEIDA, M.; RATTS, A. (Org.). Geografia: leituras culturais. Goiânia: Alternativa, 2003. ALVES, L. A.; GIL FILHO, S. F. O sagrado como foco do fenômeno religioso. In: JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo; OLIVEIRA, Lilian Blanck de. (Org.). Ensino religioso: memória e perspectivas. Curitiba: Champagnat, 2005. ELIADE, M. 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Sousa, Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa 223 TEMPO E ESPAÇO NA MODERNIDADE: ALGUMAS REFLEXÕES TIME AND SPACE IN MODERNITY: SOME REFLECTIONS TIEMPO Y ESPACIO EN MODERNIDAD: ALGUNAS REFLEXIONES Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. 224 Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões ADNILSON DE ALMEIDA SILVA ___________________________________________________________ Mestre em Geografia pela UNIR, Doutorando em Geografia (UFPR), Pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas Modos de Vida e Culturas Amazônicas (GEPCULTURA/UNIR), Colaborador do Núcleo de Estudos em Espaço e Representações (NEER), Bolsista do PROCAD-Amazônia/CAPES E-mail: [email protected] DOMINGAS LUCIENE FEITOSA SOUSA ___________________________________________________________ Professora na UNIRON, Mestranda em Geografia (UNIR) E-mail: [email protected] JOSUÉ DA COSTA SILVA ___________________________________________________________ Professor-doutor do Departamento de Geografia da UNIR, Coordenador do GEPCULTURA/UNIR E-mail: [email protected] LUCILEYDE FEITOSA SOUSA ___________________________________________________________ Mestra em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente pela UNIR, Doutoranda do Programa em Geografia (UFPR), Pesquisadora do GEPCULTURA/UNIR, Colaboradora do NEER, Bolsista do PROCAD-Amazônia-CAPES E-mail: [email protected] Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa, Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa 225 RESUMO O artigo discute, com base na atualidade em que vivemos, algumas ideias fundadoras da modernidade, que é vista por grandes autores como época das contradições, incertezas, fragmentações e analisa os conceitos de espaço e tempo, bem como os pressupostos do conhecimento geográfico. Nesse sentido, citam-se autores como Giddens, Harvey e Santos, que abordam as mudanças ocorridas no mundo, concordando que a descontinuidade, a ruptura e o deslocamento são características do momento histórico de início de século XXI. É essa a grande preocupação epistemológica que permeia a Geografia quanto à produção do espaço e às múltiplas relações decorrentes dessa nova etapa de um processo que fascina e assombra ao mesmo tempo. Palavras-chave: espaço, Geografia, modernidade, tempo. ABSTRACT The article argues, based on the present time where we live some founding ideas of the Modernity, which is seen by great authors as time of the contradictions, uncertainties, spellings and to analyze the concepts of space and time as well as the estimated ones of the geographic knowledge. In this direction, we cite authors as Giddens, Harvey and Santos who approach the occurred changes in the world agreeing that the discontinuity, the rupture and the displacement are characteristic of this historical moment of beginning of century XXI. The great epistemological concern is this that it inserts Geography how much to the production of the space and the multiple decurrently relations of this new stage of a process that fascinates and haunts at the same time. Keywords: space, Geography, modernity, time. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. 226 Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões RESUMEN El artículo discute, en base del actual tiempo donde vivimos algunas ideas de fundación de la modernidad, que es considerada por los grandes autores como época de las contradicciones, incertidumbres, spallings (fragmentaciones) y también analizar los conceptos del espacio y medir el tiempo así como estimados del conocimiento geográfico. En esta dirección, citamos a autores como Giddens, Harvey y Santos que acercan a los cambios ocurridos en el mundo que conviene que la discontinuidad, la ruptura y la dislocación son características de este momento histórico del principio del siglo XXI. La gran preocupación epistemológica que la Geografía camina cuánto a la producción del espacio y a las relaciones decurrent múltiples de esta nueva etapa de un proceso que fascina y frecuenta al mismo tiempo. Palabras claves: espacio, Geografía, modernidad, tiempo. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa, Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa 227 1 INTRODUÇÃO Ao abordarmos os conceitos de espaço e tempo na modernidade, percebemos uma grande complexidade em função do significado teóricoprático que adquiriram no decorrer do desenvolvimento do homem. Contudo, referir-se aos conceitos de espaço e tempo enfocando a modernidade é uma tarefa bastante criteriosa. Dessa forma, buscamos apresentar os resultados desse desafio discutindo os conceitos de espaço e tempo na modernidade e partindo do pressuposto de que devemos primeiramente situar o que são esses conceitos que permeiam áreas do conhecimento como a Geografia, por meio da teoria, epistemologia e evolução do pensamento geográfico. Com isso, poderemos então analisar a importância dessas noções no desenvolvimento da modernidade pelas abordagens apresentadas por teóricos como Anthony Giddens, David Harvey, Milton Santos, entre outros. Um aspecto central para explicação da modernidade é o conceito dado por A. Giddens (1991, p. 18) como “compressão do espaço-tempo”, que explica a aceleração dos processos globais, de forma que o mundo se torna menor e as distâncias ficam mais reduzidas, ou seja, os eventos em um determinado lugar têm um impacto imediato sobre as pessoas e lugares situados a uma grande distância. Já que todas as identidades estão localizadas no espaço e no tempo, elas sofrem o efeito dessa compressão espaço-tempo. Tal ideia reforça o caráter da modernidade que, ao mesmo instante em que separa cada vez mais o espaço do lugar, e contraditoriamente reforça relações entre outros locais distantes, permitindo variadas e distintas interações em razão de sua dinâmica apresentada. 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA A discussão teórica a respeito do tempo e espaço está conectada à ideia de concepção epistêmica do que vem a ser e o que representa o moderno. Diante disso, é necessário analisar o período conhecido por modernidade, procurando apontar características específicas, bem como consequências de seu desenvolvimento. Isso compete à tarefa inicial de conceituá-la, o que para A. Giddens (1991, p. 11) constitui um “[...] estilo de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência.” Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. 228 Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões Esse autor identifica três características existentes na modernidade, com marcas bem especificas e que se encontram ausentes nas civilizações tradicionais. Assim, elas se expressam da seguinte forma: a) relacionam-se ao ritmo acelerado das mudanças que na condição moderna ocorrem de uma maneira rápida provocando ideias e discursos que movem esse período e à velocidade e comunicação que geram mudanças nas esferas globais; b) constituem-se na mudança das transformações sociais em todo o planeta; c) possuem ligação e relação com a natureza das instituições modernas até então inexistentes, tais como sistema político do Estado, nação, com a completa transformação de produtos e serviços em mercadorias e com a dependência da produção de fontes de energia. A modernidade também é um termo muito utilizado para exemplificar a evolução dos últimos séculos nas sociedades e hoje invade paulatinamente o mundo inteiro, mesmo em locais considerados isolados ou afastados da civilização. É, portanto, a situação própria de nossas sociedades nos dias atuais. No conceito de modernidade estão contidos processos, entre eles o da modernização que consiste num processo de diferenciação provocado pela própria racionalização da vida concreta dos homens, ou seja, liberação do potencial crítico, como, por exemplo, a linguagem do homem. Esse desdobramento epistemológico produz efeitos enormes em sua existência, com a fragmentação dos sentidos, tornando possível que certas situações da vida humana deixem de se reger por normas e passem a ser coordenadas por mecanismos funcionais independentes da consciência e da vontade dos homens. A modernidade gerou diversos mecanismos para coordenar as ações humanas – o dinheiro e o poder –, criando, assim, duas normas morais, mas por uma lógica própria, isto é, a economia e a administração estatal. Esse aspecto caracteriza a passagem das sociedades tradicionais para a sociedade moderna, correspondendo ao desligamento de tais esferas do mundo simbólico dessa natureza ética religiosa e, consequentemente, à mudança básica do quadro principal de toda a vida social e conduzindo a compressão do tempo-espaço, o que para D. Harvey (1993, p. 217) significa: Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa, Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa 229 A experiência da compreensão do tempo-espaço e um desafio, um estímulo, uma tensão e às vezes uma profunda perturbação capaz de provocar por isso mesmo uma diversidade de reações sociais, culturais e políticas. Deve-se compreender compreensão como um termo que se aplica a todo estado de coisas precedente. A sociedade da modernidade é assim a sociedade da especialização, da fragmentação da vida e, por isso mesmo, da eficiência na execução das variadas tarefas do cotidiano. Por outro lado, o preço dessa eficiência é traduzido por processos de exclusão da participação das pessoas na determinação dos rumos do processo e de produção. Dessa forma, sua eficiência se limita a uma lógica automática que jamais será objeto de discussão dos interessados, expressando que quanto menor a interferência das pessoas, menores são os riscos de ineficiência, ou seja, contraditoriamente, esses sistemas instrumentais, ao invés de estarem funcionando a serviço das pessoas, constituem-se mecanismos de manipulação. Em As consequências da modernidade, A. Giddens (1991) afirma que a modernização e a modernidade são baseadas e ligadas em um processo, segundo o qual tem uma ideia fixa de que “lugar” e “espaço”, prevalecendo nos tempos modernos e sendo gradualmente destruídos por um conceito de “tempo universal”. Essa argumentação é a base conceitual para o entendimento do que o autor convenciona como processo de desencaixe, cuja fundamentação se utiliza da dialética para explicar o dinamismo histórico e as contradições das sociedades modernas. A compreensão dialética está centrada no conceito de “desencaixe do espaço-tempo”, constitui-se na principal argumentação e conceito que A. Giddens (1991) utiliza para explicar tanto o movimento histórico de sociedades tradicionais quanto das sociedades modernas e o papel desempenhado pela globalização. 3 CONCEITO DE MODERNIDADE E SEUS DESDOBRAMENTOS Na obra Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural , o geógrafo D. Harvey (1993) entende que a modernidade se inicia em meados do século XVII e prossegue até o início de 1970, quando se aprimora e assume outra dimensão caracterizada como a pós-modernidade, sendo esta uma etapa da modernidade. Para construir sua argumentação e sustentação teórica, D. Harvey apoia-se no discurso de Charles-Pierre Baudelaire (1821–1867), poeta e teórico da Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. 230 Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões arte francesa, de que “[...] a modernidade é o transitório, o fugaz, o contingente, é a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e imutável.” Diferentemente das classificações históricas que dividem a existência humana na face da Terra em períodos pelas mudanças naturais sociais ou fatos políticos relevantes, a modernidade recebe essa denominação por mostrar uma modificação no modo de compreensão do mundo que se observa desde meados do século XVII e que se desenvolve até hoje. E quais são de fato as principais particularidades desse modo de compreensão do mundo e sobre o que é a modernidade? Pode-se afirmar que o modo de compreensão moderna do mundo apresenta em si a valorização do elemento da subjetividade e da razão como indefinição dos parâmetros sociais, políticos culturais e cognitivos, conforme contextualizado Carlos Santos (2003, p. 20): Dos fenômenos que atuam no espaço terrestre os processos humanos ganharam uma relevância absoluta. E de tal forma, que toda superfície terrestre se encontra atualmente sob o domínio da ação humana. Assim sendo, a organização do espaço terrestre obedece aos mecanismos dos processos humanos. Outra característica da compreensão moderna do mundo é a secularização, em que o próprio sujeito atribui significado e significância ao tempo e ao lugar, onde se encontra inserido, porque é aí que ele constrói sua história de vida com suas desventuras, sonhos, devaneios e realidades. É nesse espaço que a vida ganha uma dimensão de responsabilidade para com a condução de seu destino, bem com uma relação ao uso e domínio da natureza em suas várias formas de manifestação. O ser humano constrói instituições a partir das quais possa gerenciar em sociedade, e elas assumem uma identidade de legitimação de sua atuação amparada em argumentos e motivos racionalmente válidos. A compreensão moderna do mundo, entretanto, apresenta uma peculiaridade estruturada em diferentes modos de racionalidade que existem e se completam. Isso nem sempre se dá de maneira tranquila, ao contrário, muitas vezes o que se observa na modernidade é a presença de modelos de racionalidade em conflito que se expressa nos choques interculturais e diferentes concepções econômicas, políticas e jurídicas presentes na sociedade. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa, Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa 231 Em que pesem esses conflitos de modelo, o de racionalidade e a compreensão do mundo possuem uma coerência interna que garante uma abrangência no sentido de explicação do que jamais ocorria em outra época ou contida em outro modo de compreensão do mundo. Essa é, ao menos, a interpretação que se pode atribuir a esse processo. Essa compreensão da modernidade invariavelmente passa pela discussão acerca do espaço, e, na atualidade, prescinde de uma importante tarefa dada ao geógrafo, visto que na etapa da humanidade verificada a partir do século XVII tem sofrido as influências do sistema capitalista. As diversas questões colocadas nos dias atuais estão condicionadas, conforme contextualiza D. Harvey (2004, p. 24) aos “[...] limites de linguagem; a impossibilidade de uma ‘verdadeira’ comunicação; a sensação de que algo se perdeu; a incapacidade de representar para si os eventos em toda a sua plenitude.” A pós-modernidade como uma fase da modernidade converge para o conceito concebido como globalização, e esse evento constituise na impossibilidade de construir um só mundo. Todos os esforços e tentativas redundam em conflitos, pois nesse processo o que se pretende é unificar e não unir, conforme argumenta Milton Santos (1998, p. 36) ao contextualizar que: Hoje, o que é federativo no nível mundial não é uma vontade de liberdade, mas de dominação, não é o desejo de cooperação, mas de competição, tudo isso exigindo um rígido esquema de organização que atravessa todos os rincões da vida humana. Por essa leitura da realidade, o que se constata é a perda da identidade humana por meio de transformações, cuja tendência é tornar o sujeito um ser alienado ao máximo, em razão de seu aprisionamento diante de tecnologias, culturas pausterizadas, entre outras situações. Nesse quadro de incertezas em que contraditoriamente se encontra, esse homem busca espaços para territorializar suas conquistas, em contrapartida a uma incessante busca, e quem sabe mais ainda o reencontro, de sua própria identidade. O processo de modernização “distanciou” os indivíduos das comunidades e sociedades tradicionais das noções de tempo, espaço e status. A modernização “desencaixou” o indivíduo feudal de sua identidade fixa no tempo e no espaço, conforme relata Carlos Santos (2003, p. 20-21): Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. 232 Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões As intencionalidades das ações humanas mediadas pelas relações sociais imprimem funções no espaço. Essas funções expressam fielmente aquela intencionalidade que, ao condicionarem as relações sociais, realizam no espaço seu sentido, ou seja a organização espacial espelha fielmente qualidade das relações sociais. Com a modernidade, a ciência se isolou de qualquer referência à espiritualidade, decretando o exílio e o fim do sagrado em muitos casos, como se a única resposta para o homem se condicionasse ao discurso científico. A ciência moderna está empenhada em transformar o mundo com novas tecnologias, mas, para que mudar o mundo, se a ciência ignora o homem com as crenças e valores deste? De que servem todas as conquistas científicas, se não resultam em benefício ao homem? E onde está o encontro da ciência com os valores humanos? Dessa maneira, vive-se na atualidade um período de mudança de época em que os aspectos das crenças, os valores e os sentimentos espirituais perdem espaço para as ciências, que conforme sua área de atuação se torna importante. Em outras palavras, o que no período medieval se sustentava pela fé, na contemplação das verdades reveladas, com a modernidade busca-se a compreensão e transformação mecânica desse mundo, prevalecendo assim a lógica da razão, mesmo que esta não tenha o sentido de vida.1 As reflexões contidas na obra de A. Giddens (1991) apresentamse bastante otimistas, encontrando aporte na vida cotidiana, na alta modernidade, como um complexo ativo de reações aos sistemas abstratos que envolvem tanto apropriações como perdas. Confiança e risco, oportunidade e perigo são algumas das características da modernidade, as quais permeiam todos os aspectos da vida cotidiana, em que ninguém pode estar completamente fora, diante das exigências impostas. Essas condições podem produzir ativismo em vez de privatismo, em muitas circunstâncias, porque há muitas oportunidades para a organização coletiva no interior de sistemas cada vez mais complexos, em que a modernização reflexiva contraditoriamente possibilita processos ativos 1 O sentido de vida não se resume apenas aos aspectos biológicos, mas aos modos de vida, o viver em comunidade e a relação perseguida desde os primórdios da Geografia, compreendida entre o homem e o meio, naquilo que Y. Tuan (1980) qualifica como topofilia, ou seja, a relação intrínseca de afetividade do ser humano com o lugar em que vive. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa, Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa 233 de autoidentidade, em função de possibilidades e necessidades de engajamento político coordenado, tanto em nível global como local. Sabe-se que não existem respostas prontas para tamanha ansiedade, mas com o questionamento cria-se a possibilidade do entendimento, com base nas necessidades de se disseminar interpretações que acompanhem as descontinuidades da modernidade produzidas pela grande celeridade no ritmo de mudança da vida atual, configurando o que A. Giddens (1991, p. 74-75) afirma como: Poucas pessoas no mundo podem continuar sem consciência do fato de que suas atividades locais são influenciadas, e às vezes até determinadas por acontecimentos ou organismos distantes [...] As ações cotidianas de um indivíduo produzem consequências globais [...] Esta extraordinária – e acelerada – relação entre as decisões do dia-a-dia e os resultados globais, juntamente com o seu reverso, a influência das ordens globais sobre a vida individual, compõem o principal tema da nova agenda. As conexões envolvidas são frequentemente muito próximas. Coletividades e agrupamentos intermediários de todos os tipos, incluindo o Estado, não desaparecem em consequência disso, mas realmente tendem a ser reorganizados ou reformulados. Na perspectiva giddeniana, a modernização reflexiva, além da compulsividade, possibilita a oportunidade de se desenvolverem formas autênticas de vida humana, gerando uma análise crítica, mesmo que para tanto a humanidade tenha embarcado e insurgido contra o poderoso e “indestrutível” carro de Jagrená, conforme U. Beck, A. Giddens e S. Lash (1997, p. 80) afirmam: [...] em outras palavras, a tradição é uma orientação para o passado, de tal forma que o passado tem uma pesada influência ou, mais precisamente, é constituído para ter uma pesada influência para o presente [...] A tradição é impensável sem guardiães, porque estes têm um acesso privilegiado à verdade; a verdade não pode ser demonstrada, salvo na medida em que se manifesta nas interpretações e práticas dos guardiões. O sacerdote, ou xamã, pode reivindicar ser não mais que o porta-voz dos deuses, mas suas ações de facto definem o que as tradições realmente são. As tradições seculares consideram seus guardiões como aquelas pessoas relacionadas ao sagrado; os líderes políticos falam a linguagem da tradição quando reivindicam o mesmo tipo de acesso à verdade formular [...] Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. 234 Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões Nesse contexto, a modernidade é vista como um mundo hostil, sem controle, com incertezas e inseguranças, mas inexorável pode sair dele, pois suas transformações são planetárias e interdependentes, influenciando coletividades e instituições e levando a repensar papéis, organização e formulação em seu espaço de atuação. 4 IMPORTÂNCIA DOS CONCEITOS DE ESPAÇO E TEMPO Na construção do conceito de “tempo”2, é necessário estabelecer uma relação entre os tempos cronológico, social e o histórico. Conhecer esse conceito demarcado em sequência linear, dia, meses e anos é fundamental para o entendimento das questões que envolvem a sociedade, pois é a dinâmica desta que confere qualidade ao espaço por meio das ações humanas. Sob tais circunstâncias, sua apreensão é fornecida epistemologicamente por diferentes conceitos que propiciam a modificação, medição simbólica entre as pessoas e o mundo ao redor, tornandose a passagem por meio de que o indivíduo compreende os acontecimentos e pode então agir sobre eles, principalmente na história social contemporânea. Nesse aspecto, A. Novaes (1992, p. 14) evidencia que “[...] vivemos um momento prodigioso da técnica com transformações profundas das noções de espaço e tempo.” A cada momento se estabelecem sistemas do acontecer social que caracterizam e distinguem tempos diferentes, permitindo falar de ontem e de hoje e confirmando a premissa baudeliarana de que, principalmente na atualidade o tempo é fugaz e acompanha a transitoriedade da modernidade. Apesar dessa volatilidade temporal, é forçoso dominar a divisão do tempo em períodos na construção desse conceito, com base nas ações humanas no espaço, conforme é qualificado por Milton Santos (1998, p. 83), ao esclarecer que 2 Na categorização de tempos aparecem em: a) da Natureza ou geológico, que aqui não serão analisados; b) humano que se referem aos aspectos sociais, políticos, econômicos, cronológicos e históricos, sendo objeto da discussão proposta neste artigo. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa, Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa 235 [...] o tempo se dá pelos homens. O tempo concreto dos homens é a temporização prática, movimento do mundo dentro de cada qual e, por isso, interpretação particular do tempo por cada grupo. Compreender a organização do espaço pressupõe uma referência do “olhar geográfico” contíguo ao processo de análise das marcas que se inscrevem, cristalizam e sobrepõe nele, sejam elas concretas ou simbolicamente representativas. Sob tais evidências, Milton Santos (1988, p. 61-62), conceitua eficazmente que: Tudo aquilo que nós vemos, o que nossa visão alcança é a paisagem [...] a paisagem é uma escrita sobre a outra, um conjunto de objetos que tem idades diferentes, é uma herança de muitos diferentes momentos. [...] susceptível a mudanças irregulares ao longo do tempo, a paisagem é um conjunto de formas heterogêneas, de idades diferentes, pedaços de tempos históricos representativos das diversas maneiras de produzir coisas, de construir o espaço. [...] Esta pode ser definida como o domínio do visível, aquilo que a vista abarca. Não é formada apenas de volumes, mas também de cores, movimentos, odores, sons, etc. A percepção é sempre um processo seletivo de apreensão [...] Espaço e tempo sempre tiveram conceitos importantes para a compreensão da fundamentação do pensamento ligado a fatos ocorridos no decorrer da história direta ou indiretamente naquilo em que o ser humano pautou como sua trajetória de vida, seja atuando em socialmente ou em sua relação teleológica com o meio ambiente. Nessa perspectiva de análise de compreensão conceitual, Adnilson de Almeida Silva (2007, p. 13) argumenta que: É necessário compreender que tanto a territorialidade quanto a temporalidade são hierarquias concebidas pela própria condição humana, e como tal seguem a lógica igualmente humana de apropriação e uso daquilo que fazemos e construímos. Tais enunciados conceituais apresentam importância tanto sob o aspecto teórico quanto o prático, no que refere à maneira de interpretamos o mundo e as ações que se desdobram em sua construção concreta e também de significados e representações. As informações são hoje processadas numa velocidade muito mais intensa do que em outras épocas e fatos vividos num lugar que chegam a todos os lugares em questão de milésimos de segundo até nós, via satélite. Com isso já não parece haver mais distancias capazes de deter o Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. 236 Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões conhecimento humano. Esse processo é qualificado por D. Harvey (1993) como compressão do espaço-tempo, constituindo-se numa das facetas da modernidade, o que para outros autores seria simplesmente a globalização, como uma das etapas mais dinâmicas do capitalismo, capaz de produzir transformações profundas e engendra um “admirável mundo novo”, porém muito perturbador como na perspectiva descrita por Aldous Huxley (2000). E tudo isso mexe com nossa percepção de espaço e tempo. Vivemos com a pressa em que o tempo se apresenta pelo instante, revestido de fugacidade diante das metas e prazos a cumprir, em espaços cada vez mais exíguos em salas e gabinetes, em ambientes fisicamente próximos. Entretanto, isso não significa uma interação social maior com o próximo. Cada momento ocasiona um volume maior de informações e fatos que atingem nosso cotidiano e desafiam os sentidos pela necessidade de absorção de referências e conceitos, como verdadeiros bombardeios, descaracterizando as identidades, forjando uma homogeneização cultural e dando a falsa ideia de unificação de um mundo perfeito, conforme tenta caracterizar a mass media. O tempo-espaço na vida social demonstra que “[...] nossos registros mentais não correspondam às realidades correntes”, como defende D. Harvey (1993, p. 275), peremptoriamente levando a nos guiar por novas imagens, sons e significados que tomaram o lugar do tempo aniquilado do século XX, porém esse novo apresenta-se de forma transitória, constituindo-se em uma obsolescência temporal. Contudo, mais rapidamente do que em outros tempos sepultos pela história humana, os eventos do século passado e até mesmo os ocorridos no alvorecer do dia se vão distanciando e perdendo o brilho pelas mudanças, transformações e pela inovação em decorrência do tempo, simbólica e concretamente cada vez mais resumido. Essas questões engendram novas e sofisticadas técnicas que impulsionam a sociedade humana para novas configurações de tempo-espaço a serem vencidas e desafiadas no futuro3, conforme menciona Carlos Santos (2003, p. 21): 3 A título de ilustração, obras cinematográficas, como Blade Runner – o caçador de androides, a trilogia Matrix e Mad Max, entre outras, representam essas novas configurações de temporalidade e espacialidade, como campos de batalha e conquista de poder. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa, Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa 237 O espaço é o único veículo, a princípio, viabilizador das intenções humanas, pois qualquer carência humana só se realiza havendo espaço, em função disso o espaço é alvo de disputa. Essa assertiva permite-nos considerar que, independentemente dos desdobramentos da modernidade e de aprofundamento teórico ou empírico, o espaço tem como objeto ser o centro das discussões epistêmicas, pois nele encontram-se contidas as contradições sociais, quer tenham nossa aceitação ou não. Nessa lógica analítica, a teoria do espaço afirma-se então como uma teoria do lugar, e como tal é importante considerar os sujeitos participantes dos processos coletivos e de ação. O espaço-tempo é, portanto, uma mistura de complexa de processos em que a globalização, como uma etapa da modernidade, ocupa lugar de destaque 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS As mudanças em nosso mundo, no tempo e no espaço decorrentes da modernidade, em que tudo é novo e dialético, não podem constituirse em elemento reducionista no sentido de renunciarmos nossa capacidade de buscar a compreensão, enquanto processo de análise. É possível observar, analisar, teorizar e, a partir de seus enunciados conceituais, vislumbrar alternativas que levem a reflexões de construção de um mundo plausível. As respostas para esse desafio não se encontram prontas, por causa do grau de complexidade provocada pelas descontinuidades da modernidade e da dinamicidade dos processos de transformações em curso na vida atual. Diante dessa constatação, o indivíduo procura desalienar-se de um racionalismo, surgindo assim uma emergência da espiritualidade, o que não significa que as pessoas estejam mais religiosas, mas saturadas de tanto pensamento racional. Uma das mais tristes consequências da modernidade observadas por nós, durante as pesquisas, leituras e até mesmo nas observações no cotidiano, é, sem dúvida, o desencantamento do mundo e o estabelecimento de prisões subjetivas dentro de um mundo supostamente libertário e de liberdade infinita. O afastamento dos seres humanos da natureza, a destruição dos mitos mais significativos da cultura, a perda do sentimento de pertencimento, a ansiedade pelo consumo, a visão materialista, a razão Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. 238 Tempo e Espaço na Modernidade: Algumas Reflexões enlouquecida, o empobrecimento dos laços afetivos corrompidos pelo individualismo, a mercantilização da arte a derrota da ética pelo pragmatismo irresponsável e a perda irreparável dos sonhos revelam o atual momento deste mundo desencantado. Um sentido para a vida nos leva a repensar sobre esse processo caótico interposto pela modernidade e pela necessidade de se resgatar a espiritualidade e a reacender a subjetividade humana, bem como seus valores. REFERÊNCIAS ALMEIDA SILVA, Adnilson. Impactos socioculturais em populações indígenas de Rondônia: estudo da nação jupaú. Dissertação (Mestrado em Geografia) – UNIR, Porto Velho, 2007. BECK, U., GIDDENS, A.; LASH, S. Modernidade reflexiva: trabalho e estética na ordem social moderna. São Paulo: Ed. da UNESP, 1997. GIDDENS, A. As consequências da modernidade. São Paulo: Ed. da UNESP, 1991. HARVEY, D. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1993. ______. Espaços de esperança. São Paulo: Loyola, 2004. HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. São Paulo: Globo, 2000. NOVAES, A. Tempo e história. São Paulo: Companhia das Letras-Secretaria Municipal da Cultura, 1992 SANTOS, C. Percursos geográficos: rumo à toposofia. Porto Velho: Fundação Rio Madeira, 2003. SANTOS, M. Metamorfoses do espaço habitado. São Paulo: Hucitec, 1988. ______.Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico informacional. In: Espaço e globalização. 4. ed. São Paulo: Hucitec, 1998. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. Adnilson de Almeida Silva, Domingas Luciene F. Sousa, Josué da Costa Silva e Lucileyde Feitosa Sousa 239 ______. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed. São Paulo: Ed. da USP, 2006. TUAN, Y. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo: Difel, 1980. Artigo recebido em 19/2/2009. Aprovado para publicação em 14/4/2009. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 223-239, 2009. Vivian Oviedo Álvarez 241 VALORACIÓN DE LOS HABITANTES SOBRE LA GESTIÓN AMBIENTAL COMUNITARIA EN EL BARRIO JESÚS MARÍA EN LA HABANA VIEJA, CUBA AVALIAÇÃO DOS HABITANTES SOBRE A GESTÃO AMBIENTAL COMUNITÁRIA NO BAIRRO JESUS MARIA NA HAVANA ANTIGA, CUBA ASSESSMENT OF THE PEOPLE ON THE ENVIRONMENTAL MANAGEMENT IN THE COMMUNITY FROM THE DISTRICT JESÚS MARÍA IN OLD HAVANA, CUBA VIVIAN OVIEDO ÁLVAREZ ___________________________________________________________ Maestra en Geografía, Medio Ambiente y Ordenamiento Territorial por la Universidad de La Habana, Profesora asistente de la Universidad de La Habana Correo: [email protected] Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. 242 Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. Vivian Oviedo Álvarez 243 RESUMEN En Cuba, en los últimos años se ha venido potenciando el desarrollo de muchos barrios, sobre todo los que se caracterizan por deficiencias en los planos físicos y sociales. Los Talleres de Transformación Integral del Barrio son espacios creados con estos propósitos, para así incentivar proyectos que logren la transformación barrial, la reanimación cultural y económica y la educación ambiental de los ciudadanos. El barrio Jesús María es uno donde se desarrolla esta experiencia, teniendo sus habitantes diferentes opiniones sobre el quehacer comunitario que se ha acumulado desde su creación. En el presente trabajo se expone la valoración que tienen los pobladores de Jesús María sobre la gestión ambiental comunitaria que se produce en su territorio. Para ello se identificaron los problemas ambientales, las soluciones que están recibiendo, así como la forma en que los habitantes se involucran y comprometen en estas tareas, puesto que la participación ciudadana es un aspecto fundamental en el desarrollo comunitario. Palabras claves: gestión ambiental comunitaria, percepciones ambientales, participación comunitaria. RESUMO Em Cuba, nos últimos anos tem sido promovido o desenvolvimento de muitos bairros, sobre tudo aqueles que são caracterizados por deficiências nas áreas físicas e sociais. As Oficinas de Transformação Integral do Bairro são espaços criados com esses propósitos, para assim incentivar projetos que atinjam a transformação do bairro, o renascimento cultural e econômico, e a educação ambiental dos cidadãos. O bairro Jesus Maria é um exemplo de onde se desenvolve esse projeto, tendo habitantes com diferentes pontos de vista sobre o trabalho comunitário que se tem acumulado desde seu início. O presente trabalho aborda a avaliação que os habitantes de Jesus Maria têm sobre a gestão ambiental comunitária produzida em seu território. Para isto foram identificados os problemas ambientais, as soluções que estão recebendo, assim como a forma com a qual os habitantes se envolvem e se comprometem nestas tarefas, uma vez que a participação dos cidadãos é um fator fundamental no desenvolvimento da comunidade. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. 244 Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ... Palavras-chave: gestão ambiental comunitária, percepções ambientais, participação comunitária. ABSTRACT The development of many neighborhoods in Cuba has got much power in the recent years, especially in the ones characterized by deficiencies in the physical and social aspects. The Workshops for Integral Transformation of a Neighborhood have been specifically established with such purposes, encouraging, at the same time, the creation of projects that might lead to the neighborhood transformation, the cultural and economical reanimation, as well as to the citizens’ environmental education. The “Jesús María” is one of the neighborhoods where there is a Workshop of this kind; having its inhabitants different opinions about the community work developed since the creation of such Workshop. An evaluation of the opinions of the “Jesús María” inhabitants about the environmental community management is given in the present work. For this, the main problems of the neighborhood were identified as well as the solutions that have been given and the way the inhabitants are involved and engaged with their community work, since their participation is a fundamental aspect for the community development. Keywords: environmental community management, environmental perceptions, community participation. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. Vivian Oviedo Álvarez 245 1 INTRODUCCIÓN La temática de los asentamientos poblacionales se está abordando con mucha fuerza desde la Cumbre del Medio Humano, celebrada en Estocolmo, en 1972. Han pasado los años y los problemas en muchos de estos espacios se han agravado considerablemente por diferentes causas: pobreza, exclusión social, inequidades, crecimiento explosivo de las ciudades, crecimientos poblacionales, desequilibrios entre el campo y la ciudad y entre ciudades que concentran servicios y actividades de avanzada, entre otras cuestiones. El nivel de conciencia frente a éstos ha ido aumentando en distintos sectores sociales, y se toman medidas para su enfrentamiento. Todo lo que se haga para ayudar al mejoramiento ambiental de las comunidades es una tarea de primera importancia para muchos gobiernos. En la Cumbre de la Tierra de Río de Janeiro, en 1992, se sentaron nuevas pautas para el tratamiento de estos temas mediante la aplicación de las Agendas Locales 21, para ofrecer espacios más humanos, más viables, más evolucionados y ambientalmente sostenibles a nuestros hijos y al futuro en general. Imbricar a la población en lo concerniente a la transformación positiva de su entorno y la elevación de la calidad de vida, es la estrategia que se ha puesto en marcha en muchos lugares para el cuidado y conservación de nuestro medio para el presente y futuro. En los últimos años, se ha contado con la participación de la población en los proyectos comunitarios y de reactivación de la vida barrial. La relación de los pobladores con su entorno inmediato se ha revitalizado y se cuenta con más herramientas para enfrentarse a su cuidado. En este trabajo se presenta un estudio en el barrio Jesús María del municipio La Habana Vieja de la Provincia Ciudad de La Habana. A través del contacto con sus habitantes mediante un cuestionario aplicado se conocen los principales problemas ambientales que afectan a esta comunidad y cómo participan en las soluciones de los mismos. Los logros que se obtienen cotidianamente les permiten valorar cómo se está implementando el proceso de gestión ambiental comunitaria. La importancia de este tipo de estudio es que se convierten en herramientas de trabajo para las diferentes instituciones y representantes que operan en los barrios. Es un resultado que complementa las estrategias trazadas en la comunidad; aporta la visión de los pobladores, quiénes se constituyen en contraparte de los decisores dentro de un sistema político cuya máxima prioridad es el bienestar social; enriquece y actualiza la Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. 246 Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ... información; presenta acciones implementadas; en general, permite reevaluar y reordenar lo pautado. En los tiempos actuales, que se aboga a la necesidad y la toma de conciencia del ahorro de recursos y acciones, trabajos de este tipo se convierten en elementos imprescindibles, que tracen el camino para responder ante la población, al mismo tiempo de involucrarla en el proceso de transformación social, propician elevar la cultura comunitaria, que implica el reforzamiento del sentido de pertenencia, aumentan los niveles de educación ambiental y contribuyen a potenciar acciones de desarrollo sostenible, basadas en el aprovechamiento de las posibilidades y coyunturas que ofrece la propia comunidad. Los resultados se enmarcan en el desarrollo de la geografía de la percepción y el comportamiento. Este enfoque geográfico estudia la interacción del hombre y el medio, pero mediante el conocimiento de los procesos psicológicos, a través de los cuales éste aprehende del medio en el que vive, examinando el modo en que estos procesos influyen en el comportamiento resultante (RINCONDELVAGO). Este campo será el iniciador de las posiciones de la geografía radical y la Geografía Humanista o Humanística, en contraposición con las tendencias neopositivistas o la Geografía Cuantitativa que alcanzan su esplendor en las ciencias sociales después de la Segunda Guerra Mundial. Se basan en el método filosófico de la fenomenología. Según Aurora García (1998): En líneas generales, y en un sentido amplio la fenomenología, quiere entender los hechos sociales desde la propia perspectiva de los actores, ya que la realidad que importa es la que las personas perciben como importante (TAYLOR; BOGDAN, 1992). Así pues, la fenomenología, al otorgar la primacía a la experiencia subjetiva inmediata, al estudio de los hechos desde la perspectiva de los sujetos y al conocimiento de cómo las personas experimentan e interpretan el mundo social que construyen en interacción, se convierte en la base teórica necesaria para una geografía preocupada entre otros temas por los lugares y la vida cotidiana. La Geografía se conecta con otras ciencias sociales para dilucidar, al mismo tiempo que multiplicar criterios, sobre las relaciones socioespaciales, el comportamiento humano, la importancia de la significación simbólica de lugares, objetos y fenómenos y las construcciones sociales de sus espacios de vida. Su aporte se recrea en el análisis de los territorios, a partir de las formas de distribución de los Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. Vivian Oviedo Álvarez 247 fenómenos estudiados, la interconexión con otros objetos y procesos de los lugares y el conocimiento que provoca para la toma de decisiones y la planificación del territorio tener en cuenta las experiencias sentidas y vidas de los pobladores. Los barrios, en ese devenir de participación, trabajo y desarrollo comunitarios, acaecidos en muchas ocasiones a través de la gestión comunitaria para darle soluciones a problemas concretos de los habitantes de un lugar, son unos espacios ideales para poner en práctica estudios cualitativos en la Geografía que clarifiquen motivaciones, valores y significados del proceder de las personas y cómo éstos se reinterpretan nuevamente en los territorios o espacios. Para Lilia Núñez, 2006): Las percepciones ambientales, a la vez que se forman en las experiencias cotidianas, también condicionan una determinada relación de comportamiento futuro entre el hombre y su medio ambiente en general. Las percepciones ambientales son moldeadas por las particularidades del entorno natural y socioeconómico, e imponen determinada adecuación de las prácticas de gestión ambiental para cada territorio. Su estudio también tiene la facultad de explicitar conflictos subyacentes entre comunidades, calidad de vida, políticas organizativas y legislativas, disposiciones económicas y de gobiernos locales que contribuyen o no al desarrollo sostenible. La complejización de las relaciones sociales, la heterogeneización de vivencias, interpretaciones y puntos de vista de los sujetos sociales influyen en las diferentes maneras en que los diversos actores se apropian y asumen las transformaciones del medio que los rodea. 2 BREVE CARACTERIZACIÓN DEL BARRIO El barrio Jesús María es uno de los más antiguos de la ciudad. Su primer núcleo poblacional se asentó en la zona en las primeras décadas del siglo XVIII. Desde un inicio se caracterizó por acoger a personas de bajo recursos, pues sus primeros habitantes fueron negros curros que llegaron de España. Eran libres y no trabajaban en su gran mayoría, vivían del hurto y el pillaje, prestos siempre a las peleas de cuchillos y machetes. El barrio se fue conformando y modificando con el paso de los años, y también fue recibiendo población de bien. A lo largo de la historia han vivido en él personas de renombre, como José Martí (siendo niño), Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. 248 Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ... Máximo Gómez, Quintín Banderas, Domingo Brindis de Salas, Ramón Fonst, Esther Borja. Ha sido protagonista de hechos históricos y del surgimiento de sitios importantes. La extensión del barrio coincide con el Consejo Popular, la menor división de la estructura territorial cubana. Se delimita por las calles Egido, Monte hasta Carmen y la línea del ferrocarril por la Avenida del Puerto, con una extensión de 1 km2. Está compuesto de 23 circunscripciones y tiene la particularidad de contar con un Taller de Transformación Integral del Barrio (TTIB), creado desde finales del año 1999, pero realmente comenzó a trabajar a tiempo completo para el Consejo Popular desde marzo del año 2004. FUENTE: elaboración de la autora. El territorio está completamente urbanizado, con construcciones de muchas décadas atrás. Los tipos de viviendas existentes actualmente son edificios múltiples, ciudadelas y viviendas individuales, en un gran por ciento en mal o regular estado técnico – constructivo. Su población sobrepasa los 25.000 habitantes. Cuenta con una buena red de servicios de diversos tipos, resaltando los gastronómicos, comerciales, educacionales y de salud; también con varias instituciones culturales. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. Vivian Oviedo Álvarez 249 3 TALLER DE TRANFORMACIÓN INTEGRAL DEL BARRIO Los Talleres de Transformación Integral del Barrio surgieron a finales de la década de los 80 del pasado siglo en barrios deteriorados de la ciudad, que necesitaban urgentemente de una remodelación en sus aspectos físicos y socioeconómicos. Han pasado a ser proyectos de gran significación sociocultural, con el fortalecimiento de la vida material y espiritual de sus espacios. Sus propuestas han logrado incentivar y comprometer a distintas personas que han devenido en activistas y colaboradores, ganando en capacidad de diálogo y demostrando sus potencialidades de contribución a la transformación de su medio con alternativas propias (LINARES; MORA, 2004). Han sido instrumentos que facilitan la gestión comunitaria, es decir atender a los problemas surgidos en los barrios, contando en primer lugar con los recursos humanos, técnicos y materiales propios, con ayuda de financiamiento externo y otras facilidades que puedan ser gestionadas, y vinculándose y asesorando al equipo de trabajo del consejo popular. Esta atención parte de la discusión con los miembros de la comunidad, los cuales deben ser la voz principal en todo el proceso, tomando parte en la toma de decisiones y controlando y modificando las alternativas de soluciones. Esto ha sido fundamental en la concepción del Taller de Jesús María, pues sus objetivos se basan en el desarrollo, transformación y rescate de las tradiciones del barrio, a través de la transformación social y física del mismo, a corto, mediano y largo plazos, mediante un proceso educativo con la participación activa de la población residente como sujeto activo, actuando como catalizador (PÉREZ, 2005). Los logros alcanzados en estos años han sido: tener el reconocimiento en el municipio y en el consejo popular, como un centro para la asesoría técnica en temas de trabajo comunitario, participación ciudadana, investigaciones, capacitación, entre otros; formar parte del grupo de trabajo local del municipio para la colaboración; la terminación de diferentes proyectos en el barrio; el desarrollo de programas para los diferentes grupos poblacionales; haber integrado el trabajo del consejo popular con el de las instituciones que existen en el territorio. Se interactúa con la comunidad a través de los delegados de las 23 circunscripciones del consejo, los cuales están entre los principales líderes comunitarios, además de otros factores de las propias circunscripciones. También hay mediación, a través de la comisión de Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. 250 Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ... prevención, de un grupo de mujeres de la tercera edad, que son promotoras del programa del adulto mayor, entre otros agentes. No obstante, se conoce que no se llega a todos los habitantes, por lo que entre las metas que se proponen está la de expandirse a las zonas más alejadas de la sede del Taller y trabajar con la población de forma más ardua y personalizada. 4 RESULTADOS DEL ESTUDIO APLICADO Con la técnica del cuestionario se supo la percepción que tienen los habitantes de Jesús María sobre sus problemas ambientales y cuáles son los prioritarios, las soluciones que reciben, cómo participan de las mismas y la valoración general del proceso de gestión ambiental. Se aplicaron 112 encuestas, a 72 mujeres (64,3%) y 40 hombres (35,7%). Las edades abarcan entre los 13 y 86 años, existiendo una mayor representación entre las edades de 30 a 60 años. El 68,8% nació en la capital del país. El nivel de escolaridad más típico es el medio superior (34,8%), seguido del nivel medio (24,1%). El 60,7% hace más de 20 años que vive en el barrio y el 32,1% entre 10 y 20 años. El 46,4% tiene algún oficio o profesión, 14 son estudiantes, 22 son amas de casa y 16 están jubilados. Al 64,3% le gusta el barrio; a algunos les resulta agradable su ambiente, su vivacidad, la zona donde está enclavado y los servicios que presenta, y a otros precisamente esto les parece negativo, alegando que es un barrio marginal, con muchos conflictos, poco tranquilo, etc. 4.1 PROBLEMAS AMBIENTALES IDENTIFICADOS POR LOS HABITANTES DEL BARRIO Los principales problemas ambientales identificados por los habitantes de Jesús María, que superaron el 70%, fueron: a) viviendas en regular o mal estado técnico – constructivo (100%); b) falta de opciones culturales y recreativas y presencia de polvo (92%); c) problemas de transporte y alcoholismo (88,4%); d) población mal educada y poca accesibilidad a los servicios (86,6%); e) hacinamiento (85,7%); Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. Vivian Oviedo Álvarez 251 f) ruido (82,1%); g) escasez de áreas verdes e indisciplina social (81,2%); h) población flotante y presencia de vectores (77,7%); i) calles en mal estado, animales callejeros, falta de parques y delincuencia (76,8%); j) enfermedades respiratorias (75%) y familias disfuncionales (71,4%). No obstante, teniendo en cuenta todos los problemas mencionados, la figura que se presenta a continuación muestra cómo se distribuye el nivel de identificación en las circunscripciones del consejo popular. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. 252 Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ... Las circunscripciones 38, 83, 67 y 47 son donde los pobladores mencionaron más cantidad de problemáticas, mientras que los que menos aportaron proceden de la 86, 43 y 40. El grueso de estos subterritorios se encuentran entre y 60 y 70% de identificación, pero el aspecto que sí tuvo una opinión unánime fue en el mal estado técnico – constructivo de las viviendas –, por lo que se considera su principal problema ambiental, que al mismo tiempo fue la prioridad para su solución por parte de los encuestados del barrio. Este problema ya es conocido por los representantes locales, pues ha sido una afectación mantenida en los últimos años, siendo no sólo importante en este consejo popular, sino también en todo el municipio de La Habana Vieja. El deterioro acumulado por décadas, por la falta de mantenimiento, la escasez de recursos y cuestiones económicas ha devenido en urgencia comunitaria para buscar alternativas de solución a tan demanda necesidad de los residentes en Jesús María. A este indicador también se asoció el hacinamiento y los problemas de convivencia, donde los propios encuestados reflexionaban sobre la incidencia de uno en los otros. Igual sucede con la población, manifestando que es mal educada y la existencia en el barrio de familias disfuncionales. Pudieron identificar población flotante, al ser un espacio muy céntrico y estar cerca de la terminal de trenes y contar con la Calle Monte que es una de las principales arterias comerciales de la ciudad. Precisamente esto no fue un parámetro a tener en cuenta para la percepción que se tiene de las opciones culturales y recreativas, a pesar de que cuentan con una casa de cultura y otras instalaciones que brindan diversas actividades. Además se destaca la poca accesibilidad a los servicios, argumentando en algunas ocasiones lejanía y en otras, altos precios de los productos, otro descontento se refiere a los problemas de transporte. La variable condiciones de urbanidad fue la que sumó la mayor cantidad de problemáticas individuales entre las principales del barrio. En ella lo que más resalta es la presencia de polvo, obteniendo valores por encima de 60% en todas las circunscripciones y en una mayoría de 100. Esta situación dejada a libre opción quizá sea poco mencionada, pero una vez que se sugiere, sí es reconocida por las personas como un problema ambiental, se pudiera decir que silencioso, pues afecta, además de la higiene del hogar, la condición de salud de la población. El ruido obtuvo, de manera general 82,1%, pero se elevó a 100 en las circunscripciones cercanas a la Termoeléctrica Otto Parellada, a las avenidas principales de Monte y Agramonte y a la terminal de ferrocarriles. La escasez de áreas Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. Vivian Oviedo Álvarez 253 verdes sobresalió por ser un territorio totalmente urbanizado y el área verde se concentra en los parques del municipio. En las redes técnicas, la mayor insatisfacción es con el estado vial. Los problemas sociales han sido característicos en este barrio a lo largo del tiempo. Lo más relevante es la indisciplina social y la delincuencia. En el primero, lo más señalado es que la gente tira basura, también se habla de gritería, discusiones, música alta, destrucción de plantas y no cuidado de los parques, etc. En el segundo, el robo y los asaltos son los más reiterados. En los problemas de salud sobresalió la cuestión del alcoholismo. Para la mayoría de los encuestados este es un problema serio del barrio, que no son sólo los que ahí residen, sino que, como tiene tanto tránsito, es propicio para este tipo de vicio perjudicial a la salud. La presencia de vectores también alcanzó valores altos, refiriéndose fundamentalmente a mosquitos, cucarachas y ratones; algunos explican que, por la gran cantidad de casas viejas, se nota mayor incidencia de estos animales indeseables. El 75% acotó sobre afectaciones por enfermedades respiratorias donde la humedad y el polvo implican mayor riesgo. 4.2 SOLUCIONES A LOS PROBLEMAS AMBIENTALES IDENTIFICADOS POR LOS HABITANTES DEL BARRIO Los encuestados fueron muy expresivos en la detección de los problemas de sus barrios, pero al mismo tiempo mencionaron las diferentes soluciones que se están dando en algunos de ellos para irlos minimizando en la medida de lo posible, según las condiciones del país en general y del barrio en particular. Teniendo en cuenta la totalidad de todo el universo muestreado los mejores resultados se tienen en el arreglo de la red vial con un 48,2%. Que se trabaje en la remodelación de las viviendas, su principal problemática y prioridad, sólo es percibido por el 18,8% dicho así por 21 entrevistados. Otras soluciones se dan, además, en el enfrentamiento a la delincuencia, eliminación de vectores, puesta del alumbrado público y la recogida de la basura. Problemas que también resultaron prioritarios para que se les encuentre solución son que haya más opciones culturales y recreativas en el barrio, mejora del transporte público, la disminución del alcoholismo y de la delincuencia, que mejoren los servicios básicos en particular el consultorio médico y el arreglo de la red vial. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. 254 Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ... De alguna manera se trabaja para darle respuestas a estas prioridades y la población lo percibe, sólo que la acumulación y los problemas materiales y económicos retrasan los avances que se pudieran tener de forma más acelerada en estas cuestiones vitales para la vida de los pobladores. A continuación se muestra en imágenes diferentes soluciones. Apodaca y Cárdenas Vives desde Águila Fotos tomadas por la autora 4.3 PARTICIPACIÓN COMUNITARIA EN LAS SOLUCIONES DE LOS PROBLEMAS La participación comunitaria implica diferentes niveles dentro del proceso. El cuestionario indaga sobre el acceso o compromiso de los habitantes en este devenir de poder popular. Se va desde el nivel primario de estar presente, asistir, ser testigo de hasta los debates que se generan y el protagonismo de la población en ellos, así como en la ejecución de las decisiones acordadas, ya sea en conjunto o tomadas por un individuo o grupo élite. ¿Conocen sus habitantes que cuentan con un Taller? ¿Saben de las actividades que allí se programan y qué objetivos cumplen dentro del barrio? Entre los encuestados, conocían la presencia del TTIB 32 personas, que equivale a un 28,6%, es decir, menos de un tercio está al corriente de este importante espacio de desarrollo, participación y actividades barriales. Fundamentalmente, éstos son los que viven en las inmediaciones de don- Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. Vivian Oviedo Álvarez 255 de está situado el inmueble y algunos otros inmersos en organizaciones locales y(o) en el dinamismo comunitario. De esta tercera parte que sí sabe del TTIB, el 68,8% conoce las actividades que en él se desarrollan, pero si se lleva a la totalidad de la muestra se corresponde solamente con el 19,6%. Así, se considera deficiente la divulgación de este espacio que ya lleva varios años de creado y trabajando a favor del desarrollo comunitario en Jesús María y que cuenta con resultados concretos. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. 256 Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ... Precisamente por contar con el TTIB, este barrio tiene experiencia en la realización de diferentes tipos de reuniones como se indaga en la encuesta, pero la totalidad (90,2%) indicó el tipo de Asambleas de Rendición de Cuentas; sólo hubo una encuestada que además de asistir a ésta, va a los talleres comunitarios que prepara el TTIB junto a la directiva del Consejo Popular. Once, por diferentes motivos, no hacen acto de presencia en dichas reuniones. De los que sí dijeron ir a las reuniones de la comunidad, el 37,5% expresó que sólo hace acto presencia. Un poco más de la mitad (51,8%) opina y debate sobre lo abordado en el encuentro y el 0,9% afirmó participar de la toma de decisiones, que se corresponde con una encuestada que es presidenta de un Comité de Defensa de la Revolución (CDR). Según la percepción de los encuestados, las soluciones a las problemáticas son casi inexistentes, pues entre las opciones ninguna y casi ninguna se acumula un 70%, mientras a casi 20% se eleva la sumatoria de unas pocas y algunas. Las respuestas positivas no fueron marcadas, por lo que hay que seguir trabajando para aumentar las soluciones de las demandas de la población, pero ésta tiene que ser partícipe de las mismas, para que sea el verdadero trabajo comunitario por el que se aboga y la realidad indica que esta participación ciudadana dista mucho de ser la que se quiere. A la pregunta de si los miembros de la comunidad se involucran en las soluciones de las situaciones que afectan al barrio, el 90,2% dijo que no, con mejores resultados en la circunscripción 66. Sin embargo, el 47,3% afirma que los miembros de la comunidad se involucrarían si contaran con los recursos necesarios, con una representación bastante amplia en todo el consejo popular. Esto sólo no fue dicho en la 86 que recayó toda la acción en las instancias superiores del gobierno, que alcanzó una opinión general del 41,1%. Mientras que el 27,7% lo deja en manos de las autoridades locales. Tres personas de circunscripciones diferentes piensan que se implican a las instituciones del barrio para darle respuesta a los problemas. En las circunscripciones 39, 75 y 50 coinciden relativamente altos porcentajes de soluciones con opiniones de que las personas son las que participan de ellas. Al decir de los encuestados, las acciones concretas implementadas están centradas fundamentalmente en el arreglo de las calles. En las viviendas se acometen varias obras como arreglo de solares, portales, edificios, escaleras y reconstrucción de fachadas. Se dan actividades en la Casa de la Cultura; se mejora el alumbrado público; se reparan escuelas, se abren talleres de oficios; mejoran algunos servicios como la farmacia, Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. Vivian Oviedo Álvarez 257 la panadería y la electricidad y el agua en los hogares; se arreglan policlínicos, consultorios médicos, parques. Algunas de éstas y otras soluciones son dichas por una persona, pero al menos una vez, ya son pasos de avances en el accionar de todos para mejorar el barrio. Desalentadoramente el 46,4% dice que nada cuando en realidad sí se ven cambios en el barrio. 4.4 GESTIÓN AMBIENTAL COMUNITARIA La gestión comunitaria es la administración y manejo de los recursos para la mitigación o solución de cualquier tipo de afectación que ocurra en la comunidad; además del control y la evaluación por todos sus miembros, así como sus dirigentes e instituciones y entidades relacionadas con la misma, de las acciones puestas en prácticas para la mejora de las condiciones ambientales y de vida de ese espacio y sus habitantes. Se deriva en muchas ocasiones en la gestión de proyectos comunitarios, buscando la transformación de las realidades locales mediante soluciones a problemas puntuales. Para los habitantes de Jesús María, la gestión ambiental comunitaria es 17,9% buena, 41,1% regular y 39,3% mala, como se muestra en la siguiente figura. FUENTE: elaboracóin de la autora. Las argumentaciones fueron diversas, resaltando en los criterios positivos que se hacen varias gestiones, esfuerzos por mejorar y poco a poco se van dando soluciones. Un 7% opina que los logros no se perciben independientemente de lo que se trate de hacer. Los porcentajes más al- Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. 258 Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ... tos se concentran en las respuestas negativas, desafortunadamente. Diecisiete personas afirman que no se hace nada y no se ha resuelto nada, con porcentajes acumulados de 15,2. Pero se incrementa más el por ciento con los criterios de que la gestión comunitaria no funciona, no dan respuestas, no hay mejoría o cambios, etc. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. Vivian Oviedo Álvarez 259 En Jesús María, la distribución del proceso de gestión comunitaria es irregular en todo el consejo popular, aunque se manifiesta más cantidad de respuestas que la clasifican como buena del centro hacia el oeste y hacia el norte del territorio, donde se han identificado más soluciones. Se destacan las circunscripciones 41 y 47 con respuestas de no identificación hacia el trabajo comunitario y las escalas de la gestión se concentran en mal y regular. Lo que en la 47 es algo contradictorio porque fue una de las que más soluciones identificó en los problemas abordados, pero fue la única con unanimidad de criterio en la peor calificación de este proceso. Sólo la 45 tuvo 100% de identificación con el trabajo comunitario, siendo la parte noreste la que mejores resultados presenta al respecto. En las circunscripciones que predominan las respuestas donde la participación de los habitantes es poca porque las soluciones se las dejan al delegado o dependen de instancias superiores de gobierno. También hay predominio de evaluación de la gestión ambiental comunitaria de regular y mala, fundamentalmente en la 41, 42, 47, 45, 50, 75 y 82. 5 CONSIDERACIONES FINALES En sentido general se tiene que no se explotan a cabalidad todas las posibilidades y el protagonismo popular que brinda el proceso de participación comunitaria. Falta el conocimiento de cómo proceder ya sea por desinterés o explicaciones de los que pueden ayudar a actuar, tampoco se concretan las dinámicas de trabajos en grupos o sectores poblacionales, el propio compromiso poblacional es deficiente, pues no siempre se ven reflejados en las acciones que se acometen a gran escala. A favor se puede decir la preocupación constante de las autoridades por tener avances en los frentes más comprometidos del barrio – algunos encuestados lo manifestaron en sus respuestas – y en ocasiones el apoyo popular en cuestiones acuciantes y cuando se sienten bien representados por sus delegados y dirigentes. Es importante la identificación de los diferentes problemas que se tienen, pues alertan sobre las condiciones en que se desarrolla la vida del barrio y prepara a la población para la ejecución de diversas acciones que conlleven al mejoramiento ambiental de la comunidad. Estas soluciones se llevan a cabo en la medida que se cuente con las posibilidades. Pero en la vivienda, prioridad del barrio Jesús María, los resultados no son los que realmente se necesitan para el reconocimiento de la minimización del pro- Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. 260 Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ... blema. Las entidades implicadas no se encuentran de brazos cruzados y están dispuestas a recibir todas las vicisitudes de la población y darle respuestas cuando y como se pueda. La población tiene que inmiscuirse más aún en todo el proceso, todavía se percibe, en sentido general, en el plano de criticar pero no hacer mucho; por supuesto que siempre hay personas muy comprometidas que les duelen las dificultades y sí se preocupan por el mejoramiento ambiental. Se debe aumentar la información a la población por diferentes medios, que no tienen que quedarse en el marco de las Asambleas de Rendición de Cuentas, aprovechando entonces las actividades comunitarias de diversas índoles, medios masivos de comunicación – ideal que pudieran establecer alguno de manera local: radio, prensa escrita, prensa digital – incluyendo las vallas y carteles, explotando y promoviendo el quehacer de los especialistas y de los proyectos comunitarios que se tengan, las escuelas, los centros recreativos y culturales, etc. En materia de la Geografía, es muy útil la vinculación de estudios a las nuevas tecnologías de la información como pueden ser el uso de los ¿SIGs?, como herramientas que contribuyen a potenciar, en los análisis territoriales y espaciales, la utilización del espacio, la distribución de las problemáticas ambientales comunitarias y los elementos o entidades con que se pueden contar para trabajar en su eliminación, además de la apropiación y transformación sociales del medio. Se debe lograr que la población no se sienta ajena al nivel de toma de decisiones, al mismo tiempo de que se responsabilice con compromisos y acciones del cuidado de su entorno. Para ello se debe estimular la participación y maximizar los resultados de la misma. Trabajar en grupos o sectores es ampliamente utilizado, principalmente con los niños y jóvenes con el apoyo de escuelas y talleres. De manera general hay que aprovechar la diversidad poblacional en cuanto a oficios, profesiones, niveles de conocimientos, habilidades, motivaciones e intereses propios o colectivos y crear comisiones o grupos de trabajo que respondan según estas características a las soluciones de los problemas puntuales de la comunidad, sin esperar siempre la asignación de recursos – que no indica que no se cuente con ellos, porque no todas las respuestas se pueden alcanzar sin los mismos – y promover entre todos la imaginería popular para enfrentar esta escasez de recursos. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. Vivian Oviedo Álvarez 261 BIBLIOGRAFÍA ANDRADE, Bodil; Benjamín Ortiz. (2006). Semiótica ambiental y gestión comunitaria. In: Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, año 12, n. 25, p. 257-269, jan./jun. 2006. Disponible en: <http://www.scielo.br/pdf/ha/ v12n25/a13v1225.pdf>. Acceso en: oct. 2006. ARENAS, Patricia. Mapa para comprender la participación. In: Participación social en Cuba. Ciudad de La Habana: Centro de Investigaciones Psicológicas y Sociológicas, 2004. p. 17-48. BRAVO, Orlando. Jesús María: un barrio de cultura y tradición. La Habana: Grupo para el Desarrollo Integral de la Capital, 2006. 40 p. CINARA – UNIVERSIDAD DEL VALLE. (2001). Gestión comunitaria. Disponible en: <http://www.hidrolara.com.ve/index.asp?spg_id=12>. Acceso en: feb. 2007. GARCÍA, Aurora; GARCÍA BALLESTEROS, Aurora. (Coord.). Métodos y técnicas cualitativas en la geografía social. 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Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. 262 Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ... OLIVERA, Yaritza. Proyecto sociocultural Sueños Plaza: otra mirada a favor de la comunidad. In: Hacia lo comunitario: debates y reflexiones. Publicación electrónica del Taller Internacional Comunidades: historia y desarrollo. Centro de Estudios Comunitarios de la Universidad Central Marta Abreu de Las Villas (Cuba), 2005. PÉREZ, Kleich. Valoración del trabajo comunitario en el Consejo Popular Jesús María desde la creación del Taller de Transformación Integral del Barrio. Trabajo de Diploma, Facultad de Geografía, Universidad de La Habana, 2007. Inédito. 54 p. RINCONDELVAGO. Geografía radical. Disponible en: <http:// rincondelvago/geografia.radical.htlm>. Acceso en: set. 2005. Artigo recebido em 19/7/2009. Aprovado para publicação em 30/7/2009. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. Allan Scott Mills e Mauro José Ferreira Curry 263 BOOK REVIEW: Tourism in Latin America ALLAN SCOTT MILLS ___________________________________________________________ Urban and Regional Studies Program, Box 842028 Virginia Commonwealth University Richmond, Virginia 23284-2028, USA Phone: (804) 827-9346 FAX: (804) 828-1946 [email protected] MAURO JOSE FERREIRA CURY ___________________________________________________________ Docente dos Cursos de Turismo e Hotelaria UNIOESTE – Campus de Foz do Iguaçu Foz do Iguaçu, Paraná – Brasil. Cel 45-9919-0527 Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 263-267, 2009. 264 Book Review: Tourism In Latin America Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 263-267, 2009. Allan Scott Mills e Mauro José Ferreira Curry 265 By Les Lumsdon and Jonathan Swift The Continuum International Publishing Group Ltd. (2001) The Tower Building, 11 York Road, London SE1 7NX, UK www.continuumbooks.com 245 roman numeral pages, and ten arabic numeral pages ISBN # 0-8264-5147-0 (hb) £ 65.00 ISBN # 0-8264-5148-9 (pb) £ 25.00 Although this book was published nearly eight years ago, this is apparently the first time that it has been reviewed for a Latin American journal. Because it deals with tourism in Latin America, this belated review should be of high interest to Latin American readers. The book is introduced as comprising “...a study of tourism (in Latin America) from the point of view of business…” The authors define Latin America, for purposes of their book, as including those countries in the Caribbean, Central America, and South America having historical or cultural links to either Spain or Portugal. The book has ten chapters grouped into three major “parts.” Part I is entitled Latin America: An Overview and includes a first chapter introducing Latin America to the reader and a second chapter which explains both the meanings and the economic importance of tourism in general. The first chapter gives a good geographic and historical-political overview of Latin America. However, one factual error is the description of the beach town of Vina del Mar in Central as Chile as a “port,” whereas it is actually the neighboring city of Valparaiso that is the seaport in that region of the country. Part II of the book is entitled The Tourism Offering and includes five chapters, the first of which is chapter three, presenting an overview of The Supply of Tourism (in Latin America). The other four chapters describe following four types of Latin American tourism offerings: Beach Tourism and Integrated Resorts, Nature-Based Tourism, Cultural Tourism, and Urban Tourism. Chapter three, on tourism supply, includes a discussion of the different modes of Latin American transportation in the context of an overview of the different elements of tourism supply. In so doing, the authors give Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 263-267, 2009. 266 Book Review: Tourism In Latin America short shrift to motor coach transportation by describing it as involving long hours of travel and lacking in personal safety. No mention is made of the high quality on-board food and/or beverage service, fine coach equipment (e.g. sleepers), and competitive pricing found among the inter-city motor coach carriers in most Latin American countries. The best chapters in this part of the book are those describing nature tourism, cultural tourism, and urban tourism. Each of these three chapters is presented in great detail and provides a wealth of information specific to Latin America. The nature tourism chapter does a particularly good job of accurately distinguishing the different types of Latin American nature tourism offerings from oneanother. An especially useful section on nature tourism offerings, by country, is provided in the final pages of this chapter. However, one error here is the following statement: “Paraguay, like Brazil and Argentina, possesses the Iguazu Falls.” Although Paraguay does market the Falls as a nearby attraction, Paraguay does not possess any part of this natural attraction. Only Brazil and Argentina border the two respective sides of Iguazu Falls. Part III is entitled Major Issues in Tourism Development and is composed of thee chapters addressing the following three topics: Tourism Image, Impacts of Tourism, and The Future of Tourism in Latin America. The authors begin the first chapter in this section, chapter eight, by informing the reader that “…image enhancement (and by extension visitor perception) should be key components of any tourism marketing strategy.” Their background in marketing is revealed here with an excellent review of literature on the role of image in marketing strategy. This is followed by a section of the chapter entitled Images of Latin America, in which they indicate that the rest of chapter eight focuses on negative images of Latin America, because these images “…. have the potential to exert an unduly powerful influence on destination choice.” Chapter nine takes a similarly negative tack by discussing the negative impacts of tourism in Latin America, and referring the reader back to chapter two for a discussion of the positive (mainly economic) impacts of tourism. Chapter ten discusses the Future of Tourism in Latin America by citing several forecasts for tourism in general, and relating the forecast factors taken from these other sources to how they might apply to the tourism future of Latin America. The last half of the chapter is Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 263-267, 2009. Allan Scott Mills e Mauro José Ferreira Curry 267 used to discuss projected changes in Latin American tourism which could result from the global forces affecting tourism, as presented in McIntosh, Goeldner, and Ritchie’s (1995) text, Tourism Principles, Practices, and Philosophies, and referenced there to a 1991 tourism policy forum. The last pages of this final chapter of the book would have had more impact with a briefer discussion of this material. The book is generally well written, with one exception being an overuse of the term whilst, which some readers may find annoying. Also, most of the authors’ conclusions are presented in summary sections at the ends of the individual chapters. These conclusions may have had more impact on the reader if they had been brought together in one section at the end of the book. The authors’ claim on the back cover is accurate - saying that this book meets the needs of students studying tourism and hospitality; as well as of students in the geography of tourism, international business, and Latin American studies. In addition, international tour operators looking for a detailed reference on Latin American tourism, and Latin American attractions in particular, will find this book useful. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 263-267, 2009. 268 Avaliação dos Habitantes Sobre a Gestão Ambiental ... Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 241-262, 2009. Conselho Editorial 269 NORMAS EDITORIAIS Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 269-274, 2009. 270 Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 269-274, 2009. Normas Editoriais Conselho Editorial 271 NORMAS EDITORIAIS A revista PerCurso: Sociedade, Natureza e Cultura, publicação oficial do UNICURITIBA, de circulação nacional e internacional, com periodicidade anual, destina-se à veiculação de artigos científicos e resenhas, frutos das atividades de pesquisas, do diálogo interdisciplinar entre as Ciências Humanas. Sua principal vocação é agregar valor científico ao debate que ocorre nas diferentes áreas das Ciências Humanas trazendo a contribuição de trabalhos escritos em vários idiomas e vinculados a programas de graduação e pós-graduação do Brasil e do exterior. Visando à qualificação dos debates e tendo em vista o projeto de inserção da Revista no sistema Qualis, da CAPES (órgão oficial do Ministério da Educação brasileiro), rege-se a publicação pelas normas editoriais a seguir, para a elaboração, a apresentação e a análise de textos, propostas pela Editoria da Revista e aprovadas pela Comissão Editorial do UNICURITIBA. 1 Só veicula artigos inéditos, os quais deverão contribuir para a compreensão das diversas áreas das Ciências Humanas. Deverão ser enviados à Editoria da Revista, em meio eletrônico (arquivos para o seguinte endereço: [email protected]), conforme datas a serem estipuladas anualmente nas chamadas de artigos para a Revista. 2 Todos os artigos devem apresentar a seguinte estrutura: a) como elementos pré-textuais – título (em fonte tamanho 14, em negrito e centralizado, com versões em inglês e em algum outro idioma de caráter internacional) seguido, à direita, da identificação da autoria e das credenciais desta (nomes completos de autores e co-autores, titulações, vínculos institucionais e atividades profissionais atuais), menção às subvenções recebidas, apoios e financiamentos, sumário (contendo os tópicos em que se divide o artigo, logo abaixo do título e dos nomes dos articulistas), resumo e palavras-chave em língua vernácula, resumo e palavras-chave em inglês e resumo e palavras-chave em outra língua estrangeira; b) como elementos textuais – introdução, desenvolvimento e conclusão; c) como elementos pós-textuais – lista de referências (somente as obras efetivamente citadas no texto deverão aparecer nas referências). Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 269-274, 2009. 272 Normas Editoriais 3 Os trabalhos para a seção “Artigos Científicos” deverão ter entre 10 e 25 páginas e ser digitados em Word 7.0 ou versão mais atualizada, formato do papel A4, fonte arial tamanho 12 e com espacejamento 1,5 entre as linhas, para o texto normal; para as citações diretas de mais de três linhas, notas de rodapé, paginação e legendas de ilustrações e tabelas, o tamanho da fonte passa a ser o 10, e o espacejamento, simples. 4 As páginas devem apresentar margem esquerda e superior de 3 cm, direita e inferior de 2 cm, e as citações diretas de mais de três linhas devem ser destacadas em parágrafo próprio com recuo de 4 cm da margem esquerda e sem aspas. 5 No texto, as citações devem ser indicadas pelo sistema de chamada autor-data (exemplo: WARAT, 1985, p. 30), o qual admite somente notas de rodapé explicativas. 6 As referências bibliográficas devem vir em lista única ao final do trabalho, ordenadas pelo sistema alfabético, digitadas em espaço simples, separadas entre si por espaço 1,5. 7 As locuções em língua estrangeira e destaques deverão ser redigidos em itálico. 8 Todos os textos devem seguir as demais normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) sobre citações e notas de rodapé, referências em documentos e outras especificidades (ver, notadamente a NBR 14724, a NBR 10520 e a NBR 6023, todas de agosto de 2002). 9 Os artigos (de ambas as seções) deverão ter suas introduções antecedidas por resumos em português e correspondentes em inglês (abstract) e em mais um idioma de divulgação internacional que não o do próprio texto (résumé, resumen, riassunto, resumo etc.) de até 10 linhas, bem como de 3 a 6 palavras-chave também com as correspondentes em inglês (keywords) e em mais um idioma de caráter internacional que não o do próprio texto (mots clés, palabras clave, parole-chiave, palavras-chave etc.), para fins de adequada indexação. 10 As colaborações para a seção “Resenha” deverão conter de 2 a 5 páginas, enquadrar-se na temática do número da Revista e versar sobre obra clássica, ainda não publicada no Brasil ou muito recente, desde que tenha impacto na temática da Revista, nada obstando que a obra reúna mais de uma dessas características Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 269-274, 2009. Conselho Editorial 273 11 Artigos científicos e resenhas não poderão ser assinados por meio de pseudônimos. A identificação da autoria das resenhas segue os mesmos requisitos da dos artigos. 12 Tanto no caso de artigos quanto no de resenhas, os autores ou co-autores deverão encaminhar seus trabalhos com ofício datado, contendo a declaração de ineditismo do texto, além dos seguintes dados: título do trabalho, nomes completos, endereços completos (inclusive os eletrônicos) e telefones. Deverão ainda veicular a autorização para a publicação e a cedência formal dos direitos de publicação, pelo preenchimento e anexação da Ficha de Autorização de Publicação de Obra Intelectual, disponível em www.unicuritiba.edu.br, link Núcleo de Pesquisa e Extensão Acadêmica ! Publicações ! Revista PerCurso: Curitiba em turismo. 13 A permissão para o uso de ilustrações, imagens, tabelas, etc., extraídas de outras publicações, bem como quaisquer outras licenças ou aprovações perante entidades detentoras de direitos autorais, é de plena responsabilidade dos autores dos artigos e das resenhas. 14 Os artigos ou resenhas internacionais redigidos em espanhol deverão ser encaminhados e serão publicados em seu idioma original, caso em que, além dos resúmenes e palabras clave traduzidos em inglês, poderão também ter esses correspondentes em língua portuguesa. 14.1 Artigos ou resenhas internacionais redigidos em outros idiomas, que não o espanhol, deverão ser encaminhados nos idiomas originais e terão tradução para o vernáculo (publicação bilíngüe). 14.2 Artigos ou resenhas escritos por acadêmicos somente serão recebidos para análise se apresentados em co-autoria com professores orientadores de projetos de pesquisa, de extensão, de trabalhos de conclusão de cursos de graduação ou de pós-graduação (especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado). 15 A publicação das colaborações recebidas estará condicionada à avaliação do Conselho Científico da Revista e de eventuais avaliadores ad hoc, que poderão aprová-las na íntegra, sugerir alterações ou recusá-las definitivamente. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 269-274, 2009. 274 Normas Editoriais 16 A Editoria da Revista enviará correspondência eletrônica confirmando o recebimento dos trabalhos, bem como a lista daqueles que forem selecionados para a respectiva publicação. 17 A Editoria da Revista poderá executar, com ou sem recomendação do Conselho Científico e dos avaliadores ad hoc, pequenas alterações de caráter meramente formal nos textos recebidos, de modo a adequá-los aos padrões da ABNT, não sendo admitidas modificações de estrutura, conteúdo ou estilo, sem o prévio consentimento dos autores. 18 Os autores de artigos e resenhas aprovados para publicação com sugestões de alterações (correções de linguagem, adequações à ABNT etc.) por parte dos avaliadores ou da Editoria da Revista serão contatados pela Instituição para realizá-las e, depois disso, emitir nova autorização de publicação. A Editoria pode recusar a publicação dos artigos ou das resenhas em relação aos quais foram feitas ressalvas pelos avaliadores, caso essas não tenham sido consideradas pelos respectivos autores. 19 O Conselho Editorial, integrado por membros dotados de maturidade científica e senioridade em pesquisa, representantes de mais de um Estado da Federação brasileira e futuramente de alguns países, que auxilia a Editoria na definição do projeto editorial (temática) de cada número da Revista e na resolução de dúvidas a ele pertinentes. 20 O Conselho Científico, composto pelos professores do UNICURITIBA e de alguns convidados externos, auxilia a Editoria da Revista tanto na revisão dos artigos recebidos (Ficha de Avaliação de Artigos) quanto na indicação de avaliadores ad hoc (internos ou externos à Instituição), quando necessário, como na captação de artigos conforme as temáticas da Revista. Na avaliação dos artigos serão mantidas em sigilo suas autorias. 21 A Revista adota uma política de combate à endogenia, seguindo as diretrizes da CAPES, no sentido de que seja o menor possível o número de artigos publicados de autoria de professores da própria Instituição. 22 A publicação não implica nenhuma espécie de remuneração, somente cabendo aos autores de artigos e resenhas o encaminhamento, gratuito, de 3 (três) exemplares do número da Revista em que tiver sido veiculada sua colaboração, havendo também o encaminhamento de 1 (um) exemplar para cada membro dos conselhos e aos revisores ad hoc. Percurso: Sociedade, Natureza e Cultura, n. 9, p. 269-274, 2009.