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APRESENTAÇÃO
Há pouco mais de 30 anos, tive a alegria de acolher no Senegal, por quinze dias, o meu próprio pai, e um primo,
cuja filha é missionária na região de Tambacounda. Era a sua primeira grande viagem ao estrangeiro; e eu pensava vêlos, um e outro, completamente desnorteados…Ou eles iam sentir-se “agredidos” e se punham à defesa, ou então ( mas
eu duvidava!) eles iam entusiasmar-se diante da novidade e da diferença cultural!...
Os primeiros dias decorreram agradavelmente em Dakar, Thies e na Petite-Côte, com dois sexagenários muito
descontraídos, felizes por estarem de férias, acentuando a maior parte das descobertas com um “É como na nossa
terra!” retumbante…o que significava mais ou menos: « Não te preocupes connosco, estamos à vontade! »…
Esta comparação quase sistemática com “a nossa terra” começava a incomodar-me quando, felizmente, o génio do
pequeno comboio “Dakar-Niger” me veio ajudar a “converter” meus dois “estrangeiros”. Houve primeiro
a interminável espera do comboio na estação de Kaffrine (mais de duas horas!); e finalmente a chegada a Tambacounda
em plena noite com 5 horas de atraso!... “Isto já não é como na nossa terra!” – acabou por dizer o meu pai que, além
destas coisas estranhas, estava admirado por ter sido beneficiado com uma “couchette” cedida espontaneamente por um
rapaz extremamente delicado. “Devo aceitar?” – perguntou-me o meu pai. « Certamente, já que ele te faz a
proposta!... »
Sinto-me feliz por poder comunicar esta lembrança pessoal como uma espécie de parábola, no momento em que,
pela tua parte, tu manifestas o desejo de entrar em comunicação com um mundo diferente do teu, aceitando embarcar
neste “método de aprendizagem da língua manjaca” como o meu pai e o seu companheiro tomavam o “DakarNiger”… Tenho vontade de te dizer com o salmista: « Esquece o teu povo e a casa de teu pai!... » (Ps.44). Do mesmo
modo que tu não compreenderás a cultura deste povo que te acolhe comparando-a sistematicamente à tua, de igual
modo tu deves sair das tuas categorias gramaticais para compreender e falar a língua manjaca.
Então, por favor, não comeces por aprender o alfabeto, depois as sílabas e seguidamente as listas de palavras!
Não aprendas, também a gramática, fazendo análises gramaticais ou lógicas com os instrumentos dos nossos manuais
europeus!... Mas, fala o manjaco com os manjacos, e se possível… como eles!... porque o manjaco é sobretudo uma
língua falada!... É a língua… dos manjacos!... Corrige-te a ti mesmo, escutando atentamente as respostas dos teus
“professores”, nas tabancas ou nos bairros…
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Anota cuidadosamente as tuas observações: é assim que tu “induzirás” pouco a pouco a gramática desta língua,
isto é « um conhecimento sistematizado da maneira como esta língua exprime as relações, ou seja uma formulação da
função e da forma de cada palavra em cada contexto1 »
O método que te proponho pretende simplesmente ajudar-te nesta descoberta progressiva da língua manjaca.
Ele é fruto da minha experiência pessoal durante 15 anos de presença no terreno… Tal como ele está concebido, vem
substituir a brochura editada pelo P. Gustave Bienvenu em Dakar no ano de 1978 que se intitula “Essai d’initiation au
parler manjako”; ele tem ainda por base o importante trabalho de um outro colega, o P. Pierre Buis, “Un essai sur la
langue manjako de la zone de Basserel” (I.N.E.P., Bissau,1990) que apresenta as estruturas da língua manjaca e propõe
um léxico manjaco-francês-português: trabalho minucioso de observações e de análise a partir do terreno que, no dizer
do próprio autor, tem em conta as investigações de vários linguistas: António Carreira e João Basso Marques, em “
Subsídios para o Estudo da Língua Manjaca” (Centro de Estudos da Guiné-Portuguesa, 1947); Jan Karlik, em “A
manjako grammar with special reference to the nominal group” (Londres, 1972); e J.L. Doneux, em “Lexique manjaku”
(C.L.A.D., caderno nº 63, Dakar 1975).
“M duka m te manjako” tira proveito de todos estes estudos, mas sem a eles fazer referência de uma maneira
sistemática, pois que se trata de um manual de ensino prático, e não de um estudo descritivo.
A grafia utilizada é a do C.L.A.D. (Centre de linguistique appliquée de Dakar) tal como é utilizada pelo
J.L. Doneux na obra supra citada, e adoptada depois por todos os “investigadores” ou missionários francófonos.
O Vocabulário, salva indicação contrária, é o de Basserel.
É preciso acrescentar que este trabalho não viria a luz do dia se eu não tivesse a colaboração de Odile Bardina,
professor de francês no Instituto Richelieu de Lausanne, que orientou, controlou e verificou, com uma competência
indiscutível e uma precisão que eu qualificava de helvética, a progressão na aquisição do vocabulário e das estruturas
gramaticais… Deve ainda agradecer, de uma maneira particular, ao Augusto Umuän Gomis, companheiro de todos os
momentos (12 anos de colaboração em numerosos trabalhos de tradução e de composição) pelas suas preciosas
achegas, particularmente nos “diálogos” iniciais de cada lição, que ninguém terá qualquer dificuldade em situar no seu
contexto geográfico e histórico… Finalmente um obrigado a Aristides Bassène de Ziguinchor, pelas suas magníficas
ilustrações que dão a este método de aprendizagem do manjaco um aspecto mais agradável.
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Ida WARD, in “Pratical suggestions for the learning of an african linguage in the field”, Oxford University Press, 1937 ; a partir
da tradução em francês de Jacques FEDRY, Chantilly, 1966.
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COMO UTILIZAR ESTE MÉTODO DE APRENDIZAGEM DA LÍNGUA MANJACA?
Cada lição se apresenta da seguinte maneira:
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 “Dialoguemos e retenhamos”
 “Compreendamos”
 “Para bem pronunciar”
 “Para praticar a gramática”
 “Expressões e palavras novas”
N.B:= Depois da lição 12, a rubrica «Para bem pronunciar»
cede o lugar a uma outra que contém observações e notas,
permitindo ao estudante penetrar pouco a pouco na cultura
manjaca.
Esta apresentação, que permite assimilar facilmente os diferentes elementos a tomar em consideração na
aprendizagem da língua, não indica, contudo, a ordem a seguir imperativamente no estudo de cada lição. O mais
frequente, será necessário fazer um vai-e-vem entre estes diferentes elementos… em particular entre as rubricas 1 e 2.
N.B.
1. Primeira Etapa: “escutar/compreender” – “repetir/memorizar”
É imperativo que o estudante tenha um “mestre” para o guiar nesta etapa, um mestre que pronuncie claramente, de
maneira a poder reparar e registar as diferenças entre os fonemas (particularmente no que se refere às vogais: abertas
ou fechadas, breves ou formando ditongos), o acento tónico de certas palavras; mas também para poder reproduzir,
desde o início da aprendizagem, a entoação geral da frase manjaca.
É necessário aprender de cor o diálogo inicial, antes de avançar; porque o vocabulário e as expressões estando sempre
situados num cenário verosímil, tornar-se-á mais fácil memorizá-los.... Lembre-se este conselho do professor Jespersen,
citado por I. Ward: « Duas palavras que se podem utilizar regularmente valem mais que cem (palavras) que nunca são
utilizadas; palavras sem ligação não têm interesse; não se pode dizer nada de razoável com simples listas de palavras.
E frases sem ligação não têm grande interesse. Um número limitado de palavras e de frases bem adquirido vale mais
que um grande número mal ––conhecido. »
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N.B. Deve-se saber que a rubrica “compreendamos” não dá a tradução literal do texto manjaco, mas antes uma
transposição (às vezes uma tradução livre), respeitosa das estruturas gramaticais da língua portuguesa e das suas
expressões idiomáticas.
Exemplo na 1ª lição:
- Bom dia!
- Bom dia!
- Como estas?
- Estou bem!
- A tua saúde?
- Está bem.
- E a família, como está?
- Está bem.
Uma tradução palavra por palavra
(juntando os artigos e proposições) daria isto:
- Manhã!
- Outra!
- Alguma coisa fez como?
- Não fez nada!
- O corpo?
- Está saudável.
- As pessoas da casa?
- Elas estão.
Observação: É evidente que é útil conhecer o sentido literal de cada palavra. Mas, este esforço de reflexão far-se-á num
segundo tempo, quando o diálogo inicial for compreendido e memorizado. Utilizar-se-á então à rubrica nº 5:
“Expressões e palavras novas”.
2. “Para bem pronunciar”
Trata-se de exercícios a efectuar para que o estudante pronuncie correctamente os sons da língua manjaca, e adquira
reflexos para as entoações em geral e os acentos tónicos, quando os houver. É preciso, pois, fazer-se acompanhar
e corrigir por amigos manjacos. “Quando o estudante, talvez com esforço, produzir um som difícil, com a satisfação
do seu professor e dele mesmo, ele deve aprender a utilizá-lo em combinação com outros sons; para isso, há
necessidade de o executar e tornar a executar ainda em todas as combinações em que ele se encontra, até que “ flua na
boca” e seja produzido sem esforço consciente. É apenas nesta situação que ele poderá dizer ter já domesticado
o som. Uma tal prática poderá parecer mecânica e sem interesse, mas sem ela, ou o estudante continuará a tropeçar na
pronúncia e construção, com o espírito repartido entre os dois ,ou então cairá em maus hábitos de articulação, de que
nunca mais se libertará…” – idem, I. Ward
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3. “Para praticar a gramática”
Esta rubrica compreende duas partes:
a) Identificação das regras de gramática utilizadas no diálogo inicial.
b) Exercícios vários para facilitar a aquisição.
O método de aprendizagem das estruturas gramaticais é, pois, indutivo.
É também progressivo; vai do mais simples ao mais complexo, seguindo um plano em três partes:
Lição 1 a 13
→ na frase simples: o grupo verbal
Lição 14 a 24
→ na frase simples: o grupo nominal
Lição 25 a 30
→ a frase complexa.
N.B. Será bom não queimar as etapas e adquirir as noções de gramática, à medida que os reflexos na prática da língua
manjaca se ganhem pelos os exercícios de memorização dos diálogos e de pronúncia. A melhor maneira de proceder
é de se limitar aos exercícios propostos que apenas utilizam as regras de gramática já adquiridas e o vocabulário já
memorizado. Encontrar-se-á uma correcção destes exercícios no fim do manual (anexo 5, p. 187 e seguintes).
CONCLUSÃO
Em 30 lições e em pouco mais de 1000 palavras diferentes, este método deveria permitir ao estudante estar
relativamente à vontade no meio manjaco tradicional.
Desconhecido permanece o tempo necessário para a assimilação… Contudo, o “percurso do combatente” foi balizado
tendo em conta ao máximo as dificuldades da língua… Cada um conhece o seu fôlego!... Há lições que podem ser
realizadas em apenas uma hora e outras que precisam de 4 ou 5 sessões. A única regra de ouro é de nunca avançar
na complexidade enquanto os elementos simples não forem assimilados.
Quanto ao vocabulário, è bom lembrar mas uma vez que só se retém bem o que é aprendido no “contexto”. Os diálogos
de cada lição situam cada palavra num conjunto bem preciso; a vida quotidiana fará ainda mais, dando a cada palavra a
cor da amizade ou do ódio, da alegria ou da angústia…
Raramente se retêm listas de nomes ou de verbos, salvo quando se tem uma memória de contabilista!
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Última Observação
A língua manjaca apresentada neste método é a do Sector de Basserel, como é falada em Bajob.
Mas é fácil fazer as adaptações necessárias, quando se quer aprender a maneira de falar de outros sectores:
Canchungo, Pelundo ou Caio…
- As diferenças de pronúncia, mesmo importantes, não põem em causa a grafia: porque toda a escrita é convencional!
- As diferenças de vocabulário são assinaladas à medida que o método avança.
- No plano gramatical, será bom destacar as vossas próprias observações, hipóteses ou conclusões…E eu vos estaria
intensamente reconhecido, se tivésseis o favo de mas comunicar para as integrar, caso isso aconteça, numa nova edição
desta obra2.
Ate lá, sede bem-vindos ao mundo manjaco!...
E boa viagem na aprendizagem metódica desta bela língua!...
Michel GERLIER
N.B. Terminou-se esta obra dois anos antes da realização em Dakar, dum Seminário para a Codificação da Língua
Manjaca, organizado pela Direcção da Promoção das Línguas Nacionais, em parceria com a Associação “Ka jiër
Manjaku”. Encontrar-se-á em anexo, na página 221, alguns elementos do relatório deste seminário.
No entanto, nesta segunda edição de “M duka m te manjako”, achamos que não era preciso seguir integralmente
as decisões tomadas em Dakar, uma vez que a maioria dos potenciais utilizadores deste método vive na Guiné-Bissau:
Decidimos somente de ligar, por um traço, os pronomes aos verbos e aos nomes que os completem, para facilitar, ao mesmo
tempo, a leitura e a compreensão.
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Direcção em Guiné Bissau : M. GERLIER, Comunidade espiritana de Bajob / Caió, C.P. 350 BISSAU
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APRESENTAÇÃO - P.Gianfranco Gottardi