POLÍTICA, EDUCAÇÃO E AFRO-BRASILIDADE: movimento negro em Nova Iguaçu1 o Cláudia Regina de Paula2 A história é uma aventura que nos mobiliza no sentido de construir um conhecimento que não aparte a imaginação do rigor. É o desafio que faz crescer a nossa vigilância epistemológica e os empurra para o discernimento de nuances explicativas capazes de resgatar (sempre parcialmente) a pluralidade de um universo que escapa às investidas de nossas ferramentas teóricas e confunde a nossa pretensão mais escondida de “ressuscitar” os mortos. Clarice Nunes Introdução Os Movimentos Sociais operam práticas formativas, singulares, de modo informal, no plano cultural, político ou social, a ação ativista intencional e organizada escapa às categorizações e proclama múltiplas interpretações. Nessa perspectiva, ao me aproximar do debate do Movimento Negro3 em particular, busquei refazer o percurso no desenvolvimento de redes de conhecimento e formação. A cidade de Nova Iguaçu4 foi escolhida especialmente por ser âmbito de A presente pesquisa integra meus estudos de doutoramento, realizado com orientação do professor Dr. Roberto Conduru no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 2 Cláudia Regina de Paula é doutoranda em Educação pela UERJ, Mestre em Política Social pela Universidade Federal Fluminense/UFF. Licenciada em Pedagogia/UERJ, especializou-se em Relações Raciais e Educação pelo PENESB/UFF. Egressa do II Concurso Negro e Educação promovido pela ANPEd/Ação Educativa/Fundação Ford, atua como Técnica em Assuntos Educacionais na UFRuralRJ. 3 A expressão “Movimento Negro” (MN), embora bastante vaga, pois congrega diversos grupos, associações, movimentos e entidades, será utilizada na compreensão de que, mesmo em diferentes contextos e a partir de especificidades, o MN e seus atores atuam como sociedade civil organizada e, nessa organização, fomentam novas políticas. Santos (1994, p.157) ao enumerar diversas ações empreendidas e fundadas por negros (culturais, religiosas, recreativas e/ou políticas) considera que [...] toda essa complexa dinâmica, ostensiva ou encoberta, extemporânea ou cotidiana, constitui movimento negro. Ver SANTOS, Joel Rufino dos. “Movimento negro e crise brasileira”. In: SANTOS, Joel Rufino dos, BARBOSA, Wilson do Nascimento. Atrás do muro da noite; dinâmica das culturas afro-brasileiras. Brasília: Ministério da Cultura/Fundação Cultural Palmares, 1994. 1 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 181 trabalho e ação política da pesquisadora, além de reunir especificidades pronunciadas no contexto e realidade social da Baixada Fluminense, região metropolitana do Rio de Janeiro, que, até meados do século vinte era basicamente agrária. Gomes (1996) pesquisou os quilombos da baixada iguaçuana no século XIX e identificou comunidades que viviam nas margens dos Iguaçu e Sarapuí, nas freguesias de Nossa Senhora do Pilar e Santo Antônio da Jacutinga. Além da facilidade de escoamento fluvial, a região também contava com estradas que ligavam à Corte (da Polícia e do Comercio) e, em meados do século XIX com o transporte ferroviário e a estação da Maxambomba. Embora dotada de condições favoráveis para o desenvolvimento econômico, a região foi abalada pela expansão da cana-de-açúcar do norte fluminense e pela produção cafeeira do Vale do Paraíba, agregadas as epidemias, como a cólera entre 1855-56, que provocou altos índices de mortalidade entre os escravizados. Segundo o autor, havia ainda intensa e complexa rede de trocas entre aquilombados, taberneiros e mascates desde a “lenha do mangue” aos produtos pirateados dos barcos que por ali navegavam e dos roubos às fazendas. O contato dos quilombolas com as senzalas, as revoltas e fugas, ataques e saques ameaçavam a elite escravista e fortaleciam a resistência negra. Na região de Iguaçu, a presença e atuação dos quilombolas, por quase um século pelo menos, possibilitavam a criação de uma economia local em que os quilombolas acabaram se tornando comunidades quase legitimadas localmente, ao mesmo tempo dentro da escravidão e alternativa à ela. (GOMES, 1996, p.282) Esse território operou uma significativa transformação em suas características no processo de ocupação urbana quando as grandes fazendas foram subdivididas em chácaras e estas, em momentos e por meio de proprietários variados, foram parceladas e originaram diferentes loteamentos. Atualmente, 67% do território iguaçuano é composto de áreas de preservação ambiental, como a Reserva Biológica do Tinguá5. Entretanto, as características descritas, contrastam com a precariedade estrutural e socioeconômica da maioria de seus habitantes, como a falta de saneamento ambiental, o alto déficit habitacional e a elevada taxa de mortalidade por homicídio6. 182 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE Passos iniciais Meu primeiro movimento nessa pesquisa foi entrar em contato com a COPPIR de Nova Iguaçu e solicitar uma entrevista com seu atual coordenador, sem sucesso. Agendei uma visita quando tive acesso a uma síntese das ações da coordenadoria nos últimos cinco anos, que serão publicadas em uma cartilha. Na Conferência Municipal e Intermunicipal de Educação – CONAE, ambas realizadas em Nova Iguaçu em 2009, entrei em contato com militantes do movimento social e pude verificar que atualmente algumas de suas lideranças participam em diferentes áreas da gestão do prefeito Lindemberg Farias, no segundo mandato pelo Partido dos Trabalhadores. Entrevistei também dois militantes do Movimento Negro e, em respeito ao sigilo de pesquisa, optei por nomeá-los a partir de referenciais culturais africanos: uma líder do movimento de mulheres negras, aqui denominada Jamile e com um militante do Movimento Negro na cidade, sob alcunha Malik. Essas entrevistas sinalizaram uma imbricação entre as ações e atuações desses entrevistados na dinâmica política da cidade. Ambos, além da militância social também integram a gestão local em diferentes esferas. Em seus relatos também indicaram outros homens e mulheres que consideravam importantes na construção do movimento social na cidade, em especial do Movimento Negro. Nos depoimentos os entrevistados se reportaram às influências da Igreja Católica e das Pastorais na formação de lideranças do movimento social, optei em buscar as fontes de pesquisa nos arquivos da Cúria7 de Nova Iguaçu. De acordo com o censo de 2000, Nova Iguaçu tinha uma população de 754.519 habitantes, correspondentes a 7,0% do contingente da Região Metropolitana, com uma proporção de 93,8 homens para cada 100 mulheres. Sua população estimada em 2005 é de 830.902 pessoas, sendo 55,3% afros descendentes (42,6% pardos, 12,7% pretos), 43,2% de brancos, 0,2% amarelo, 0,3% indígena e 1,1% sem declaração. O número de católicos é de 43%; 29% evangélicos; 22% sem religião e 6% de outras religiões. 5 Declarada pela UNESCO como Reserva da Biosfera (Decreto Federal nº 97.780 de 13 de maio de 1987), a Reserva Biológica do Tinguá possui ainda hoje uma rica biodiversidade e abriga parte importante da Mata Atlântica do Estado, além de contar com a presença de rios, corredeiras, cachoeiras, piscinas naturais e ruínas dos séculos XVII e XIX. 6 Para informações detalhadas, consultar: Projeto Localização dos Objetivos do Milênio - Cidade de Nova Iguaçu/RJ/Brasil, realizado pelo Observatório das Metrópoles (IPPUR/UFRJ) em julho de 2006. 7 Pude contar com o valioso apoio do pesquisador e diretor do Arquivo Antonio de Lacerda nessa tarefa e expresso meus agradecimentos. 4 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 183 Mobilizações, tensões e influências no jogo político A partir dos anos 60 e 70 do século XX, opera-se uma luta de grande dimensão travada por vários países africanos contra a opressão colonial. Resistência e mobilização foram observadas em Angola, Cabo Verde, Moçambique, GuinéBissau e São Tomé e Príncipe, para citar alguns países. Concomitantemente na América, movimentos pacifistas pelos Direitos Civis, assim como outros movimentos radicais (Panteras Negras, Mulçumanos Negros) lutavam contra o apartheid. Essa enorme mobilização projetou para o mundo lideranças como Luther King, Malcom X, Steve Biko e Nelson Mandela. A conjuntura internacional acirrou os movimentos de massa e revelou profundas desigualdades raciais que vitimavam afro-descendentes em todo o mundo. Enquanto isso, o Brasil imerso na ditadura militar, sufocado em suas demandas sociais assistiu a uma manobra política que reavivou o mito da democracia racial. Suspensão dos direitos políticos, cassações, perseguições, prisões e torturas foram alguns dos sofrimentos imputados aos militantes de esquerda, lideranças, estudantes, intelectuais e sindicalistas, que, alguns deles sob intensa pressão buscaram o exílio. Esse período, marcado pelo ostracismo na cena política brasileira, afeta substancialmente o debate racial, conforme salienta Hasenbalg (1995, p. 360): O período que vai aproximadamente de 1965 até o final da década de 1970 não foi dos mais estimulados para pesquisar e escrever sobre as relações raciais no Brasil: o tema racial passou a ser definido como questão de ‘segurança nacional’. Em 1969, as aposentadorias compulsórias atingiram os mais destacados representantes da escola paulista de relações raciais. Além disso, houve falta de dados: por ‘motivos técnicos’ a pergunta sobre a cor foi eliminada do Censo Demográfico de 1970. Barreira (2006), que investiga o processo de formação dos trabalhadores (1888-1925) a partir de práticas sociais não-institucionalizadas, em especial a imprensa operaria, também registra naquele contexto, na cidade de Sorocaba, São Paulo, as influências que os novos trabalhadores urbanos trazem com eles: tradições, hábitos e costumes de outras regiões do país, e de europeus recém chegados, principalmente da Espanha, Itália, Portugal e Alemanha. Novos modos de viver e pensar vão sendo incorporados, a circulação de saberes e ideias delegam a imprensa alternativa um decisivo papel. 7 184 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE Em Nova Iguaçu destaca-se a trajetória de Dom Adriano Mandarino Hypólito, Bispo da cidade entre 1966 e 1995, dedicado as causas sociais e à luta contra a ditadura. Pertencente à ala mais progressista da Igreja Católica Dom Adriano entrevia na mobilização popular das Comunidades Eclesiais de Base, Pastorais e Associações de Moradores (reunidas em Federações como o MAB8 – Movimento de Amigos de Bairro em Nova Iguaçu), o fortalecimento do movimento social organizado. De fato, esse movimento operou expressou transformações nas comunidades mais pobres e significou instrumento de ação e formação política. Os relatos dos entrevistados nessa pesquisa, bem como as fontes consultadas confirmam a importância do movimento popular na Baixada Fluminense, como declara Maria José de Souza, ex-presidente do MAB: Ajudei a criar a Associação de Moradores do Bairro Guandu. Foi em 1968. Na época lutávamos pelo saneamento. Fui presa, fiquei dois dias no quartel da Marinha acusada de subversão. Mobilizamos a população para uma reivindicação justa pela água. O MAB representou para a sociedade uma grande força política, mostrou a força dos movimentos populares que todos nos ajudamos a formar (SERRA et all, 2007, p.14). Dom Adriano promovia um trabalho pastoral que buscasse soluções aos diversos problemas enfrentados pelo povo da Baixada Fluminense, muitos deles descritos por Alves (1998) em sua pesquisa “Baixada Fluminense: a violência na construção do poder”: coronelismo, grupos de extermínio, desova de cadáver, são algumas características da violência política e social praticada na região, acrescida dos problemas de saneamento básico, transporte, moradia. Era uma arriscada tarefa para Dom Adriano e seus fiéis. Sua defesa incansável dos Direitos Humanos em tempos de ditadura militar resultou em sequestro, na noite de 22 de Setembro de 1976. Após ter sido seguido em seu trajeto habitual, teve seu carro interceptado: encapuzado, algemado e espancado, Dom Adriano foi abandonado nu em Jacarepaguá, enquanto seu carro explodia em frente à sede da CNBB no Rio de Janeiro. As retaliações, no entanto, não se esgotaram nesse episodio, mas o Bispo A Federação das Associações de Moradores de Bairro da Cidade de Nova Iguaçu foi fundada em 06 de dezembro de 1981 e é filiada à Federação Estadual das Associações de Moradores do Estado do Rio de Janeiro e à Confederação Nacional das Associações de Moradores (SERRA et all.,2007). 8 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 185 não se intimidou. O trabalho social e pedagógico desenvolvido pelas Pastorais prosseguiu e a Diocese ainda investiu na construção do Centro de Formação de Líderes – CENFOR, inaugurado em 1978. A Diocese de Nova Iguaçu, criada em 26 de março de 1960, pela Bula Quandoquidem Verbis do papa João XXIII publicava os periódicos: A Folha litúrgico, Caminhando – informativo, que, ao final da década de 1980 registram diversos artigos que refletem as desigualdades raciais no país. Em 1988, ano do centenário da Abolição, a Campanha da Fraternidade9 “A fraternidade e o negro” tinha como lema “Ouvi o clamor desse povo” foi amplamente noticiada nesses periódicos. No jornal “A folha” (Ano 16, nº. 839 de 31/01/88) o artigo sob o título “Preta e pobre, como nosso povo” Carlos Mesters, holandês, frade carmelita, teólogo, doutor e biblista, compara a figura de Maria, a Nossa Senhora Aparecida, ao povo brasileiro. O mesmo autor assina outros textos: “A população negra no Brasil, (A folha, ano 17, nº841), “O negro brasileiro no mercado de trabalho” (14/02/88 – ano 17, nº842), “Negro, educação e desigualdade ( 21/02/88, ano 17, nº843); Observa-se que do nº854 até o nº 887 na publicação litúrgica “A folha” predominam as questões sociais e o papel da igreja latino americana nesse contexto. O Informativo “Caminhando” (Ano I, nº12, 1987), destaca a ordenação sacerdotal de um negro, na primeira página: “A ordenação do negro Ailton”: O Ailton pobre e negro agora glorificado em sua ordenação para o serviço do Povo de Deus, confirma profundas intenções. Não é o grande que liberta o pequeno. Não é a burocracia eclesiástica que vai libertar o Povo de Deus” O tom crítico da primeira página se torna um pouco mais moderado na página 3: A ordenação sacerdotal de Ailton Izaías da Silva, negro, 33 anos e pertencente à Congregação dos Missionários do Sagrado Coração. O acontecimento realizado na Catedral de Santo Antonio, Nova Iguaçu, no dia 20 de Novembro – Dia Nacional da Consciência Negra - atraiu cerca de duas mil A Campanha da Fraternidade busca vincular a Igreja às questões sociais, como demonstram os temas que antecederam ao de 1988 – A fraternidade e o negro: 1978 – Trabalho e justiça para todos, 1979 – Preserve o que é de todos, 1980 – Para onde vais?, 1981 – Saúde para todos, 1982 – A verdade vos libertará, 1983 – Fraternidade sim, violência não, 1984 – Para que todos tenham vida, 1985 – Para quem tem fome, 1986 – Terra de Deus, terra de irmãos, - 1987 – Quem acolhe o menor a Mim acolhe. (CNBB, 1988) 9 186 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE pessoas que se emocionaram com o desenrolar da festa que teve vários destaques: dezenas de grupos de cultura afrobrasileiras, padres de várias regiões do país, o bispo diocesano Dom Adriano Hipólito e o bispo ordenante Dom José Maria Pires, antes conhecido por “Dom Pelé” e agora carinhosamente apelidado “Dom Zumbi” numa alusão ao fato de dedicar sua vida a luta dos negros, como ele. A ordenação do padre negro em 20/11/1987 transformou-se num ato político emblemático. A crítica a burocracia eclesiástica também é descrita por Certeau (apud VIDAL, 2005, p.263), sacerdote jesuíta que questionava a lógica das instituições, inclusive da Igreja que, na sua concepção vinha perdendo fiéis enquanto a comunidade de fé se transformava em simples administradora de bens. Em visita ao Brasil Certeau (ibidem) se impressiona com o contraste e as condições de vida dos pobres nas favelas cariocas “banida da cidade resplandecente e, ao que tudo indica, da luz que a envolve, à noite, o Cristo tão longe do Corcovado”. Para o autor, era preciso mudar radicalmente a posição da Igreja Católica no combate à pobreza. Esse redirecionamento, que se traduz na opção pelos excluídos, se realiza através da Teologia da Libertação do qual fazem parte Dom Adriano e outros sacerdotes na Baixada Fluminense naquele momento. Em sua entrevista, Malik se refere a esse movimento religioso como um marco em sua vida: Toda a minha concepção ideológica ela tem base e sustentação, as raízes na Teologia da Libertação. Mesmo que hoje eu não tenha a pratica institucional da religião, foi ali que foi alicerçada toda a minha concepção filosófica, ideológica, política., todas as minhas raízes. (...) eu tinha 14 anos de idade e a partir daí começou minha militância no movimento social e não parou mais. (...)A Teologia da Libertação significava construir o reino de Deus aqui na terra. Para nós a questão racial era muito emblemática. Como haveria um reino de Deus aqui na terra com o racismo? A exploração, não combinava ... O machismo não combinava, o menor abandonado não combinava... Pra gente eram temas muito sensíveis que iam de encontro, entravam em choque com o nosso projeto. EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 187 Rocha (1998), formado na Teologia da Libertação ou Teologia LatinoAmericana, publicou pesquisa sobre os APNs – Agentes de Pastoral Negros em que relata o crescimento do debate e da consciência da negritude no mundo eclesial. As reflexões desse segmento indicaram a necessidade de realização de cursos de formação em nível nacional, estadual e regional. O Primeiro Encontro dos Agentes de Pastoral Negros ocorreu em São Paulo em 1983 e, até o ano de 1996, o autor registra a realização de 14 encontros nacionais e de vários cursos de formação acerca da teologia negra, um deles em Nova Iguaçu, assessorado pelo Frei Carlos Mesters no de 1988, sob o título “Negro e Bíblia” (ROCHA, 1998, p.149). O autor também se refere à realização da Primeira Semana de Teologia Afro-Latino-Americana em Nova Iguaçu no ano de 1992 que reuniu representantes do Brasil, Equador, Panamá, República Dominicana e Peru. O estudo de Rocha (1998) discorre sobre a trajetória dos Agentes de Pastoral Negros e dimensiona a ação da Diocese de Nova Iguaçu, naquele contexto. Na participação nas Comunidades Eclesiais de Base onde foi se desenvolvendo um longo processo de formação da consciência crítica diante da realidade, muitos negros aprenderam a lutar e a defender coletivamente os direitos dos empobrecidos, pequenos e marginalizados. Nelas, os negros, como os demais empobrecidos latino-americanos, tomam consciência do desvirtuamento da proposta do Reino, oferecida por Jesus. Além do que, descobrem caminhos novos de atuação e novas formas de lutas que possibilitam a intervenção no processo histórico, saindo da situação de objeto para se constituir em sujeito da historia (ibidem, p.124). Nos arquivos da Cúria de Nova Iguaçu localizei cartazes dos Agentes de Pastoral Negros, alguns manuscritos que demonstram articulação com outros movimentos, assim como descreveu MALIK. A seguir, extraído do cartaz original, descrevo uma convocação para um ato público: Lei Áurea – 99 anos Ato público Agentes de Pastoral Negros – Nova Iguaçu e Caxias 188 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE União e Consciência Negra (Chatuba) Cáritas/Comissao de Justiça e Paz Afro-Cultural 20 de Novembro Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra Comissão Pastoral da Terra Pastoral Operária 13/05/87 – 18:20 Concentração Catedral Caminhando para Praça da Liberdade No ano seguinte, os APNs de Nova Iguaçu assinaram um novo cartaz conclamando para o ato em repúdio ao dia 13 de maio de 1988. Nota-se maior ousadia no texto, embora não haja referências a outros apoios ao evento: 12/05/88 – 19 horas Agentes de Pastoral Negros de Nova Iguaçu Ato público em Repúdio ao 13 de Maio Cem anos depois da dita - que foi uma Mentira Nacional, queremos denunciar a escravidão em que nós negros ainda vivemos, acreditando assim, viver o Sonho dos Quilombos. Para Certeau (2008), o cotidiano, suas relações, ações e gestos produzidos pelos sujeitos sociais, suas “artes de fazer” e “táticas de resistência” inventam o cotidiano com mil maneiras de “caça não autorizada”. Na invenção do cotidiano os sujeitos se (re) apropriam, (re) significam os objetos e códigos. Nesse sentido, apontamos o período que sucedeu a abertura política no Brasil, marcado pela reorganização de movimentos silenciados, entre os quais o Movimento Negro, como um momento fecundo de práticas pedagógicas, formativas dos movimentos populares. Denunciando os efeitos perversos da ideologia do branqueamento, influenciados pela luta e conquistas dos negros na América e pelos processos de emancipação colonial na África, o MN buscou ainda criar uma comunidade de interesses em torno da origem africana, ressignificando os símbolos da cultura afrobrasileira (como sinaliza um dos slogans da época: “Negro é lindo!”). 0 povo negro tem um projeto coletivo: a edificação de uma EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 189 sociedade fundada sobre a justiça, a igualdade e o respeito por todos os seres humanos; uma sociedade cuja natureza intrínseca torne impossível a exploração econômica ou racial. Uma democracia autêntica, fundada pelos destituídos e deserdados da terra. Não temos interesse na simples restauração de tipos e formas obsoletas de instituições econômicas, políticas e sociais; isto serviria apenas para procrastinar o advento de nossa emancipação total e definitiva, a qual virá apenas com a transformação radical das estruturas socioeconômicas e políticas existentes. Não temos interesse em propor uma adaptação ou reforma dos modelos da sociedade capitalista (NASCIMENTO,10 1980, apud GUIMARÃES, 2002, p.103). Ao retornar do exílio em 1981, Abdias Nascimento, que participou ativamente do movimento pan-africanista internacional, elegeu-se Deputado Federal (19831987) e dedicou seu mandato à luta contra o racismo11. Destaco em seu projeto legislativo um sistema de valores que buscava eliminar referenciais racistas dos currículos ao mesmo tempo em que pretendia incorporar estudos relativos à história e cultura africana e afro-brasileira. Analogias (grifo meu) entre o que viria se conformar no texto da Lei nº 10. 639 em 2003: Projeto de Lei nº 1.332 de 1983. Dispõe sobre ação compensatória visando à implementação do principio da isonomia social do negro, em relação aos demais segmentos étnicos da população brasileira, conforme direito assegurado pelo art. 153, § 1º da Constituição da República. Art. 8º. O Ministério da Educação e Cultura, bem como as Secretarias Estaduais e Municipais de Educação, conjuntamente com representantes das entidades negras e com intelectuais negros comprovadamente engajados na matéria, estudarão NASCIMENTO, Abdias. Quilombismo: an Afro Brazilian political alternative. Journal of black studies, 11(2): 141-178, Afro Brasilian Experience and Proposals for Social Change, december, 1980. 11 Abdias Nascimento amplia sua atuação no parlamento ao eleger-se senador (1991-1999) pelo PDT e apresenta projetos definindo o racismo crime e mecanismos de ação compensatória, para construir a igualdade racial no país. NASCIMENTO, 2004. 10 190 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE e implementarão modificações nos currículos escolares e acadêmicos, em todos os níveis (primário, secundário, superior e de pós-graduação), no sentido de: I – Incorporar ao conteúdo dos cursos de História brasileira o ensino das contribuições positivas dos africanos e seus descendentes à civilização brasileira, sua resistência contra a escravidão, sua organização e ação (a nível social, econômica e política) através dos quilombos, sua luta contra o racismo no período pós-abolição; II – Incorporar ao conteúdo dos cursos sobre História Geral e ensino das contribuições positivas das civilizações africanas, particularmente sues avanços tecnológicos e culturais antes da invasão europeia do continente africano; III – Incorporar ao conteúdo dos cursos optativos de estudos religiosos o ensino dos conceitos espirituais, filosóficos e epistemológicos das religiões de origem africana (candomblé, umbanda, macumba, xangô, tambor de minas, batuque, etc.); IV – Eliminar de todos os currículos referências ao africano como “um povo apto para a escravidão”, “submisso” e outras qualificações pejorativas; V – Eliminar a utilização de cartilhas ou livros escolares que apresentem o negro de forma preconceituosa ou estereotipada; VI – Incorporar ao material de ensino primário e secundário a apresentação gráfica da família negra de maneira que a criança negra venha a se ver, a si mesma e a sua família, retratadas de maneira igualmente positiva àquela que se vê retratada a criança branca; VII - Agregar ao ensino das línguas estrangeiras europeias, em todos os níveis em que é ensinado, o ensino de línguas africanas (yorubá ou kiswahili) em regime opcional; VIII – Incentivar e apoiar a criação de Departamentos, Centros ou Institutos de Estudos e/ou Pesquisas Africanos e Afro/Brasileiros, como parte integral e normal da estrutura universitária, particularmente nas universidades federais e estaduais (Projeto de Lei nº 1.332 de 1983 de autoria de Abdias EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 191 Nascimento12) Nos anos 80 do século XX o país estava imerso num projeto de redemocratização e um de seus ícones foi a Assembleia Nacional Constituinte, que reuniu lideranças com a missão de escrever uma Constituição Cidadã que legitimasse a democracia. A mobilização popular e a pressão da opinião pública contribuíram para que parlamentares reconhecessem a diversidade étnica, racial e cultural brasileira. Também ganhou visibilidade a luta dos remanescentes de quilombos pelo direito a terra. Os representantes das Entidades do Movimento Negro do país, na Constituinte, apresentaram uma agenda de reivindicações vinculadas à educação: • Contra a discriminação racial e a veiculação de ideias racistas nas escolas. • Por melhores condições de acesso ao ensino à comunidade negra. • Reformulação dos currículos escolares visando à valorização do papel do negro na História do Brasil e a introdução de matérias como História da África e línguas africanas. • Pela participação dos negros na elaboração dos currículos em todos os níveis e órgãos escolares (HASENBALG, 1987 13 apud Santos 2005, p. 24). Ao ser promulgada a Constituição Brasileira, após duro período de direitos restringidos e interditados pela ditadura, a nova carta tornou-se um marco no processo democrático. No que tange ao debate racial, a nova carta tornou os “preconceitos de raça ou de cor” crime inafiançável e imprescritível. No plano da cultura, ressalva-se a valorização e difusão das manifestações culturais dos grupos indígenas e afro-brasileiros. E, no direito a educação, a garantia da igualdade de condições para o acesso e permanência na escola indicavam uma universalização do ensino, apesar das desvantagens educacionais entre brancos e não brancos permanecerem nas estatísticas educacionais. No plano político, o voto do analfabeto permitiu incorporar milhões de negros aos processos decisórios e democráticos. HASENBALG, Carlos A. O Negro nas Vésperas do Centenário. Estudos Afro-Asiáticos. (13): 79-86, 1987. 13 192 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE O Movimento Negro retoma o debate pela inclusão da temática afro-brasileira e africana na sala de aula, uma vez que essa reivindicação não foi contemplada. Mesmo com os avanços promovidos pela nova Carta, nosso modelo educativo permanecia excludente e reprodutor de desigualdades. A década de 90 do século vinte também registra o início de um movimento de educação popular que viria a se desenvolver e se consolidar na Baixada Fluminense com o apoio da Igreja Católica e do movimento social: o Pré-Vestibular para Negros e Carentes – PVNC, A oportunidade das camadas populares, pobres e negros, ingressarem nas universidades públicas fortaleceu a luta, a consciência racial e política desses grupos, além de ampliar o debate com a sociedade. Ressalta-se o apoio da PUC – Pontifícia Universidade Católica a esse movimento, oferecendo bolsas aos candidatos egressos do PVNC, atualmente o movimento está articulado em redes organizadas com vínculos e concepções distintas: a Educafro, com vínculo católico e o PVNC, laico. (...) já havia naquele momento uma discussão racial, que vinha dos pré-vestibulares e de alguns grupos, alguns núcleos que se juntavam pela cidade para fazer discussões especificas, como o movimento de mulheres negras, pessoas que lutavam nesse período foi criado um comitê muito importante pra cidade, que foi o Comitê Manuel Congo que acumulava várias forças, vários segmentos da sociedade organizada em Nova Iguaçu, tinha pessoas ligadas aos partidos políticos, às varias pastorais, pessoas ligadas as associações de moradores (...) são várias as etapas, mas eu acho que só ganha força e uma certa efervescência com essa discussão advinda dos prévestibulares para negros e carentes e um pouco da ação das pastorais em relação as comunidades (Jamila). Os mesmos anos 90, ao mesmo tempo, registram uma crise na esfera política e nos movimentos sociais. A nova geopolítica mundial, a globalização e o crescente neoliberalismo conjugados expressam uma descrença nas instituições políticas Abdias Nascimento amplia sua atuação no parlamento ao eleger-se senador (1991-1999) pelo PDT e apresenta projetos definindo o racismo crime e mecanismos de ação compensatória para construir a igualdade racial no país (NASCIMENTO, 2004). 11 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 193 e um arrefecimento nos movimentos de massa. Nesse contexto surgem diversas organizações que se agrupam em torno de temas e interesses específicos, (VIDAL, 2005) e essa formação identitária caracteriza muitas instituições/entidades que passam a lutar por questões pontuais, dentre elas a igualdade racial e a equidade de gênero. A agenda contemporânea Muitos caminhos foram trilhados até 09 de janeiro de 2003, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em seu primeiro mandato sancionou a Lei 10.63914. Decorridos alguns anos desse marco, permeado de conflitos, resistências e negociações para instituir o Artigo 26 A da Lei n° 9394/96, e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana15 o Movimento Negro reafirmou uma reivindicação anunciada anos antes. A omissão curricular da história e cultura afro-brasileira, e a proposta de mudanças curriculares que revertessem a constante depreciação e/ou ausência dos saberes e manifestações culturais dos afro-brasileiros e dos africanos, são focos permanentes do MN. Seguindo exemplo de outros municípios e estados brasileiros16, Nova Iguaçu se antecipou ao indicativo da Lei nº10. 639, ao promulgar a Lei 12.716 de 20 de Novembro de 1995, que versava sobre a “introdução nas escolas do município das atividades e estudos direcionados ao resgate da história dos elementos da cultura afro-brasileira”, de autoria do então Vereador Artur Messias do Partido dos Trabalhadores17 A Lei nº 10.639 de 09 de Janeiro de 2003, altera a Lei nº 9. 394, de 20 de Dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. 15 As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileiras e Africanas, foram aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação como parecer CNE/CP3/2004, em 10 de março de 2004. A partir dessas Diretrizes, o CNE aprovou a Resolução nº1, de 17 de junho de 2004, regulamentando a temática nas diversas ações dos sistemas de ensino. 16 Ver o estudo realizado por SILVA JUNIOR, Hédio. Anti-Racismo : Coletânea de Leis Brasileiras – Federais, Estaduais e Municipais. São Paulo: Editora Oliveira Mendes, 1998. Vários municípios contemplam a legislação anti-racismo como Aracaju, Belém, Porto Alegre, São Paulo e o Distrito Federal. 17 O Partido dos Trabalhadores confirmou e ampliou, nas últimas eleições municipais de 2008, suas bancadas de vereadores e prefeitos na Baixada Fluminense: Belford Roxo, Mesquita, Nova Iguaçu e Paracambi são administradas pelo PT. 14 194 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE (de 1991 a 1996). Malik relatou que o Coletivo Manuel Congo18 após intenso debate, apresentou, através dele, que atuava na assessoria do Vereador, o referido projeto de lei, sancionado pela Câmara de Vereadores de Nova Iguaçu. O dialogo entre a sociedade civil, através do movimento social organizado e o poder público, pode ser compreendido na perspectiva de Scherer-Warren (2006, p.116-7): As redes, por serem multiformes, aproximam atores sociais diversificados – dos níveis locais aos mais globais, de diferentes tipos de organizações –, e possibilitam o diálogo da diversidade de interesses e valores. Ainda que esse diálogo não seja isento de conflitos, o encontro e o confronto das reivindicações e lutas referentes a diversos aspectos da cidadania vêm permitindo aos movimentos sociais passarem da defesa de um sujeito identitário único à defesa de um sujeito plural. Em geral, a parceria entre poder público e sociedade civil através de canais de representação, conselhos, fóruns e outras formas de participação democráticas, são bem vindas, no entanto, tais imbricações também despertam reflexões assim como Jamila: [...] Eu sinto assim: está num momento em que as pessoas precisam se juntar para pensar a questão independente da estrutura governamental, como agia exatamente o comitê Manuel Congo naquela formação. Não circunscrito à Nova Iguaçu, mas disseminado nos diversos escalões da gestão pública, muitos militantes partidários e do movimento social passaram a ocupar cargos na esfera publica e a constituir e consolidar projetos que atendessem ao grupo de interesse, como descreve Lobato (1996, p.40): O processo político é tanto mais amplo, quanto mais atores sociais dele fizerem parte, sejam institucionalizados ou não, estejam ou não representados em grupos formais de interesse. Mesmo sob as mais variadas formas organizacionais, com interesses os mais diversos e, portanto, com diferentes graus de O entrevistado se refere ao Coletivo, Fórum e Comitê Manuel Congo, que segundo ele agregava diferentes forças políticas e culturais da cidade de Nova Iguaçu . Participavam dos debates integrantes do MAB, os Agentes de Pastoral Negros, Agentes Culturais, em especial o Polo Macunaíma, o MNU, UNEGRO, Sindicato das Domésticas, Pastoral Operária (...) 18 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 195 poder, o processo político engloba tanto atores sociais quantos dele quiserem fazer parte, ao menos onde existirem canais democráticos de manifestação de demandas. Das relações estabelecidas entre esses atores resultará a política em si, sendo esta apenas uma das etapas de todo o processo. Se o campo político é o lugar de concorrência pelo poder (BOURDIEU, 1989), esse tem sido arena de disputas do Movimento Negro em suas diferentes organizações que passaram a pleitear centralidade política e/ou se institucionalizaram. A Coordenadoria de políticas de promoção da igualdade racial da cidade de Nova Iguaçu – COPPIR pode ser um bom exemplo político-institucional: criada pelo Prefeito Lindberg Farias em 28 de Julho de 2005, pelo decreto lei nº 7186/2005. Segundo a Cartilha Aberta (2009), a COPPIR foi o primeiro organismo criado pelo poder executivo na Baixada Fluminense, vinculada ao gabinete do Prefeito, com a finalidade de implementar políticas públicas pertinentes às diversidades étnicas, transversalizando suas ações. Acerca da criação da COPPIR, relata JAMILA que essa ação foi fruto de reivindicações do Movimento Negro que emergiu por ocasião da Conferência Municipal de Igualdade Racial, realizada na cidade no ano de 2005. [...] Na verdade a COPPIR foi criada por uma demanda do próprio movimento. Em 2005, o movimento criou a discussão na conferência. Foi uma conferência do movimento, não foi uma conferência de governo. Não foi uma conferência com apoio efetivo do governo, mas fruto da discussão que a Seppir fazia de ampliar para os municípios a discussão da questão racial. [...] Eu sinto que o movimento se sentiu meio responsável por esse filho, que foi a criação da COPPIR. Eu tenho visto que todos os passos da COPPIR, desde então, foram amparados pelo movimento, seja organizado ou não. A indicação do nome de Geraldo Magela para coordenador da COPPIR, parecia consensual à época, assim como relata Malik: (...) Teve uma luta muito interna, muito desgastante para nomear Geraldo Magela. (...) quando esse debate começou, nós 196 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE queríamos alguém que conhecesse a nossa história. (...) Nós queríamos através da nossa experiência para elaborar uma política racial para a cidade, porque não queríamos uma coisa pronta. (...) Ele foi nomeado muito tempo depois da criação da COPPIR e, quando foi nomeado ganhou uma cadeira e uma mesa de estrutura... Por mais de um ano ele foi mantido assim (...) A institucionalização de um projeto político alçou seus atores a co-responsáveis por sua causa e efeito. A dimensão subjetiva da ação política sugeriu uma atenção especial às consequências desta: não bastava criar a COPPIR, mas era necessário fortalecê-la, ampará-la, formando uma espécie de rede de proteção. Lutamos pela criação da COPPIR, então não podíamos deixar ele sozinho (...) MALIK. Na perspectiva de atuação em rede, Scherer-Warren (2006) classifica em três níveis as formas que os grupos de interesse atuam em prol da promoção de políticas publicas. A autora considera o primeiro nível o associativismo local, ( associações civis, movimentos comunitários e sujeitos sociais envolvidos com causas sociais ou culturais do cotidiano, ou voltados a essas bases, como são algumas Organizações Não-Governamentais – Ongs. A autora não descarta a busca pela organização em rede desses grupos, em âmbito nacional ou transnacional. O segundo nível compreende as formas de articulação inter-organizacionais, os (fóruns da sociedade civil, associações nacionais de ONGs e as redes de redes) A Lei nº 10.639 de 09 de Janeiro de 2003, altera a Lei nº 9. 394, de 20 de Dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileiras e Africanas, foram aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação através parecer CNE/CP3/2004, em 10 de março de 2004. A partir dessas Diretrizes, o CNE aprovou a Resolução nº1, de 17 de junho de 2004, regulamentando a temática nas diversas ações dos sistemas de ensino. 15 Ver o estudo realizado por Silva Junior (1998), em que o autor relata que vários municípios contemplaram legislações anti-racistas como Aracaju, Belém, Porto Alegre, São Paulo e o Distrito Federal. 16 O Partido dos Trabalhadores confirmou e ampliou nas últimas eleições municipais de 2008 suas bancadas de vereadores e prefeitos na Baixada Fluminense: Belford Roxo, Mesquita, Nova Iguaçu e Paracambi são administradas pelo PT. 17 O entrevistado se refere à Manuel Congo como Coletivo, Fórum e Comitê, que segundo ele agregava diferentes forças políticas e culturais da cidade de Nova Iguaçu . Participavam dos debates integrantes do MAB, os Agentes de Pastoral Negros, Agentes Culturais, em especial o Pólo Macunaíma, o MNU, UNEGRO, Sindicato das Domésticas, Pastoral Operária (...) 14 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 197 que buscam se relacionar entre si, para o empoderamento da sociedade civil. Embora esses dois níveis estejam assentados sobre o paradigma institucional, baseados em normas e procedimentos, registros e certificações em outros casos. Scherer-warren (2006) chama a atenção para outras formas de protesto que qualifica como o terceiro nível organizacional: a mobilização na esfera pública. Os atores sociais empreendem um esforço de visibilidade que produz também efeitos simbólicos, como exemplificam as marchas, caminhadas e outros protestos. Nesse processo articulatório, atribuem, portanto, legitimidade às esferas de mediação (fóruns e redes) entre os movimentos localizados e o Estado, por um lado, e buscam construir redes de movimento com relativa autonomia, por outro. Originase, a partir desse fato, uma tensão permanente no seio do movimento social entre participar com e através do Estado para a formulação e a implementação de políticas públicas ou em ser um agente de pressão autônoma da sociedade civil (SCHERER-WARREN , 2006, p. 113-4). As tensões de que nos fala Scherer-Warren (2006), produzidas no movimento social e em seus agentes, se assemelham ao que vivenciam os militantes do Movimento Negro em Nova Iguaçu. Embora a COPPIR tenha promovido maior visibilidade às suas ações, a institucionalização e os entrelaçamentos com o setor público, não significaram maior poder de ação, estrutura ou financiamento. Indicou ainda uma reorientação política, em que o Movimento Negro já não exercia a mesma pressão, na cidade, como podemos conferir na entrevista do atual Coordenador da COPPIR, Paulo Santana19 concedida ao Grupo Enraízados, em Agosto de 2009, em que relata sua chegada à COPPIR: Cheguei a esse cargo por indicação do Ministro Edson Santos da Secretaria Especial da República de Promoção de Política de Igualdade Racial (SEPPIR). Eu fui Secretário Adjunto de Saúde e desenvolvi com o ex-coordenador algumas parcerias A pesquisadora tentou agendar uma entrevista com o atual coordenador da COPPIR em Nova Iguaçu, sem sucesso. Em contato telefônico, este sugeriu que aproveitasse a entrevista concedida ao grupo Enraízados, publicada na Internet. 19 198 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE institucionais, e, portanto, já tinha conhecimento da área de atuação, abrangência e importância da COPPIR. Disponível em http://www.enraízados.com.br/Conteudo/Entrevistas.asp (consulta realizada em 16/09/09). Na mesma entrevista, ao ser perguntado: Já teve algum envolvimento com o movimento negro antes da COPPIR? Assim respondeu o atual Coordenador, o cardiologista Paulo Santana: Nunca fui filiado a alguma entidade do movimento negro, porém desde pequeno a questão racial sempre esteve presente na minha vida e na minha adolescência estive próximo das pessoas do movimento e de suas organizações, discutindo, apoiando essa questão e também participando das suas várias atividades como as do MNU, Agbara Dudu, as atividades do Frei Davi, entre outras. Na avaliação de MALIK, a COPPIR alcança visibilidade e importância política na medida em que acontecem, na cidade, várias discussões envolvendo as questões raciais. Segundo ele, quando a Seppir começa a realizar convênios com os municípios que tinham coordenadorias de promoção de políticas de igualdade racial, eleva-se a importância. E, na sua avaliação, embora reconheça a competência do atual coordenador, sua gestão está marcada pela questão da saúde, enquanto que Geraldo Magela ampliava o debate em diferentes campos. Eu particularmente, não vi como positiva essa troca, porque ela não foi discutida com o movimento social. Para Malik, o amadurecimento, a caminhada e o acúmulo de experiências de Magela à frente da COPPIR em Nova Iguaçu, que mesmo sem a estrutura mínima de assessoria, foi apoiado pelo Movimento Social e com isso realizou muitas ações importantes para consolidação do debate racial. Em busca dessas ações, em especial daquelas voltadas para a aplicação da Lei nº 10.639 na cidade, entrei em contato com a Secretaria Municipal de Educação e comparei aos dados apresentados pela COPPIR. Nota-se que essas ações são pontuais e carecem de planejamento, recursos e articulação. No que tange à formação docente da rede municipal de ensino na temática étnico-racial, registram-se três projetos: Em 2006, “A cor da cultura” (com recursos dos diversos parceiros); Curso à distancia Gênero e Diversidade na Escola (diversos EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE 199 parceiros e recursos próprios) e I Formação Continuada em Historia e Cultura Afro-Brasileira (com recursos do FNDE) parceria da SEMED com a COPPIR na organização. O universo de docentes atendidos pelos projetos em relação à rede de ensino é simbólico, cerca de dez por cento: A cor da cultura – 70 professores; I Formação Continuada e Gênero e Diversidade – 200 professores cada. Ou seja, os projetos não demandaram recursos próprios dos cofres de Novo Iguaçu, mas, sobretudo do governo federal, parceiro e/ou provedor dos projetos. A propósito, com a instalação do campus avançado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro em Nova Iguaçu, a cidade também passou a usufruir de diversas atividades oferecidas pela Universidade, além dos cursos de extensão, graduação e pósgraduação. Com a criação do LEAFRO (Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros) a rede de ensino passou a ter mais uma oportunidade de formação inicial e continuada, mais uma vez com esforço e recursos federais. Nessa perspectiva, embora algumas iniciativas sejam louváveis, ainda falta vontade política na gestão local para atender às demandas sociais. Algumas Considerações A luta por reparação, valorização e reconhecimento da identidade e da cultura da população negra no Brasil é um processo de longa duração. A atuação dos movimentos sociais tornou-se mais efetiva a partir da formação de grupos de interesses na formulação e implementação das políticas, como vimos ao longo desse artigo. Os Movimentos Sociais e seus agentes perceberam a lacuna de formação política necessária para a continuidade da luta. A Educação Popular, que parte da centralidade dos sujeitos, suas experiências, saberes e interesses contribui com o processo de humanização e consciência. Através dela, pretende-se favorecer o acesso aos direitos em sua plenitude. Forjada no e para o coletivo é conquistada na lógica do direito afirmativo. São experiências de luta, de solidariedade, de aprendizagens e conquistas. São experiências pedagógicas e políticas, plenas de significado. Percebemos nas ações pastorais, nas reuniões, encontros e atividades políticas, uma dimensão formativa que despertou muitos homens e mulheres, para o engajamento na luta pela afirmação e ampliação de direitos. Tratamos em particular do Movimento Negro em Nova Iguaçu, mas através dele podemos dimensionar avanços e recuos, construção de significados e práticas, que manifestam diferentes modos de fazer política. Embora os processos 200 EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE sejam sempre singulares, creio que, em certa medida, os militantes atuam como mediadores para a construção de um projeto alternativo de sociedade. REFERÊNCIAS A FOLHA. Boletim litúrgico da Diocese de Nova Iguaçu. Ano 16 – 1988. ALVES, José Cláudio Souza. Baixada Fluminense: a violência na construção do poder. Te de Doutorado. São Paulo: USP, 1998. CAMINHANDO. Informativo da Diocese de Nova Iguaçu. Ano I – nº12 – Dez.1987. CARTILHA ABERTA. COPPIR, Nova Iguaçu, RJ: 2009. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de Fazer. 14.ed., Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. BOURDIEU, Pierre. A representação política: elementos para uma teoria do campo político. In: O poder simbólico. Bertrand do Brasil, 1989. (p.163-207) GOMES, Flávio dos Santos. Quilombos do Rio de Janeiro no Século XIX. In: Liberdade por um fio, historia dos quilombos no Brasil. São Paulo: Cia das Letras:1996. p.263-290 GUIMARÃES, Antonio Sérgio A. 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