ETNOASTRONOMIA DOS ÍNDIOS GUARANI NA REGIÃO DA GRANDE DOURADOS/MS Kássia Ribeiro Vera- [email protected] UEMS Acadêmica de Licenciatura em Física Paulo Souza da Silva- [email protected] UEMS Professor Orientador Dr. Germano Bruno Afonso- [email protected] - UEL Professor Visitante Resumo: O conhecimento da astronomia é milenar para todos os povos que já existiram. Cada grupo, cada civilização, tem sua própria interpretação em relação aos movimentos celestes. O que mais deixava os Guarani intrigados e perplexos ao mesmo tempo era a forte ligação entre o Céu e a Terra, e esses conhecimentos serviram de suporte para a realização da colheita, caça, pesca, rezas e festas. Esses saberes transmitia-se de uma geração à outra, que eram histórias contadas pelos nossos antepassados, era uma herança valiosíssima. Aos poucos, a sabedoria de nossos avós ficou no esquecimento, devido à influência externa, e já não se tem mais o mesmo interesse e curiosidade em ouvir deles sobre as constelações do povo indígena, o que elas significam, e como foi importante o conhecimento do céu para os antigos. Tivemos como objetivo reaproximar a última geração da comunidade indígena e o conhecimento sobre astronomia, e despertar em cada criança e jovem na comunidade o interesse sobre o seu passado, a sua própria história. Inicialmente, foram feitas visitas informais nas casas de pessoas que ainda guardam o saber etnoastronômico da tribo Guarani e Kaiowá; no começo eles são tímidos, mas aos poucos foram falando sobre o que sabem a respeito do céu e das estrelas. Após horas de conversa, em várias visitas, foram se desinibindo, falando mais sobre o assunto, e registramos todas as conversas em gravador de áudio. Quase todos com quem tivemos mais contato falam a língua materna, o Guarani e Kaiowá que são línguas semelhantes, portanto ouvimos novamente para traduzir as falas. Visitamos uma escola indígena, Tengatuí Marangatu. Logo em seguida, fizemos uma demonstração do que seria um observatório solar indígena, o nosso alvo foi construir um observatório solar indígena em duas escolas indígenas; Esperamos que essa reanimação e curiosidade pela sabedoria do próprio povo não voltem a cair no esquecimento; caso isso aconteça, não poderemos achar, e muito menos registrar o que aconteceu com seus antepassados, que faz parte da história de suas próprias vidas, e que essa geração possa repassar para gerações seguintes. Palavras-chave: Astronomia. Herança. Interesse. INTRODUÇÃO O Universo sempre esteve bem perto das civilizações antigas, cada um tem sua própria interpretação em relação aos movimentos celestes. Os guarani diziam que havia uma forte ligação entre o Céu e a Terra, e tudo que havia no céu há na Terra, e com esses princípios serviram de suporte para saber o momento certo das colheitas, caça, pesca, rezas e festas. Era sempre passadas de pais para filhos, crianças ouviam histórias doa mais velhos da comunidade. Aos poucos o legado de nossos avós ficou no esquecimento devido a influência externa, e já não se tem mais o mesmo interesse e curiosidade em ouvir dos mais velhos sobre a constelação indígena e o seu significado, qual foi o grau de importância do conhecimento do céu para os antigos. Tivemos o objetivo de reaproximar a última geração da comunidade indígena e o conhecimento perdido sobre astronomia de sua própria tribo através da construção do observatório solar indígena em duas escolas indígenas no município de Dourados. Esse projeto tem como ajudar a própria comunidade para resgatar e registrar as histórias os contos que foi fundamental para a sobrevivência de nosso povo. REVISÃO DE LITERATURA Os indígenas foram os primeiros astrônomos brasileiros (AFONSO, 2006), as tribos que aqui viviam viram a necessidade de conhecer a natureza onde vive para adaptar-se ao lugar, pois viviam como nômades, (MELLATI, 2007) mudavam de lugar em lugar e se submeteram a uma simples observação da natureza de tempos em tempos, e perceberam que o processo da natureza ocorre de modo cíclico, depois de muitos anos e anos de observações, cada povo formaram suas “teorias”, lendas que explicavam tais comportamentos do céu e seus movimentos que através delas se orientavam para qualquer ocasião festas, pescas, caças, etc. As histórias e mitos que eram contadas pelos pajés e pessoas mais respeitadas da comunidade, e era dito como reais, e as crianças naquela época o respeitavam muito essas pessoas, e através destas histórias é que previa o tempo, o momento certo da caça, em que fase da lua podiam caçar, pescar, e através da posição das estrelas se sabia a época certa de se ter filhos, e seu próprio calendário indígena que dividia como ano novo (ara pyahu) e ano velho (ara yma). Ano novo se começava em torno de Novembro/Dezembro, segundo o povo guarani e suas raízes era momento de ter filhos, se dava muitos frutos, tempo de fartura, alegria, realizavam festejos e danças. Ano Velho iniciava entre os meses de Junho/Julho, é a época de inverno, pouca comida não era tempo para ter filhos, os pais e os mais velhos era, bastante rígidos com os filhos, pois não podiam olhar para o céu quando a constelação da Ema aparece, segundo os mais velhos da comunidade as crianças ficam rebeldes e desobedientes, é por isso que se dizia ano velho, tempo ruim para os indígenas. A constelação da Ema A Ema tenta comer dois ovos de pássaro que ficam perto de seu bico, ela consegue engolir, diz a lenda que as crianças eram proibidos de comer os ovos da ema, e nem olhar para o céu quando aparece o desenho dela, que segundo os guarani, ao olhar para o céu, as crianças começam a ser desobedientes, rebeldes. A constelação da Ema aparece a partir da segunda quinzena de julho, é o que indica o início de inverno. Segundo os guarani e seus subgrupos diziam que essa época não era boa para se ter filhos, pois por estar na estação de inverno, a probabilidade da criança sobreviver seria menor do que a época da constelação do Homem Velho. Para tentarmos achar essa constelação basta acharmos o cruzeiro do Sul é onde fica a cabeça da Ema (ABBEVILLE, 1995). Figura 1: constelação da Ema que aparece em torno do mês de Julho A constelação do Homem Velho A constelação do Homem Velho aparece na segunda quinzena de dezembro, indica início do verão, a constelação indica o tempo novo, o tempo bom. Segundo o mito indígena conta que o homem velho tinha uma esposa que se interessou pelo seu irmão, e para ficar com o cunhado matou o marido cortando a perna, os deuses ficaram com pena desse homem então transformou em uma constelação (ABBEVILLE, 1995) . Figura 2: contelação do Homem Velho que aparece no mês de Dezembro OBJETIVOS GERAIS - Conhecer as histórias que ainda são guardadas sobre os movimentos celestes e o calendário indígena; - Comparar os conhecimentos astronômicos de outras tribos de outras regiões e o conhecimento astronômicos que se tem nas aldeias da região de Dourados; - Discutir etnoconhecimento sobre astronomia; OBJETIVOS ESPECÍFICOS - Fazer entrevistas com pessoas mais velhas da comunidade que conhecem a astronomia indígenas mitos e lendas a respeito; - Organizar palestras nas escolas indígenas falando sobre o projeto; - Traduzir as entrevistas feitas inicialmente; - Elaborar uma cartilha bilíngüe (português/kaiowá), tantos para alunos indígenas e nãoindígenas, HIPÓTESES Esse projeto temos a preocupação de que não se deixe vazar esses conhecimentos etnoastronômico da geração de agora, pois devido a influência externa,o direto relacionamento que os indígenas têm com a zona urbana e o excesso de informações que atualmente as crianças estão obtendo, é deixado de lado muitas vezes a língua, seus costumes que se tinha, e principalmente o que seus avós contavam que agora não contam mais, por falta de interesse dos próprios netos, a através de visualização noturnas, há possibilidade da nova geração despertar a curiosidade de saber mais sobre seu passado e como seus antepassados viviam, sabendo que faz parte de sua identidade. METODOLOGIA Primeiramente, queríamos saber mais sobre a astronomia indígena da região de Dourados, mas para isso nós fizemos visitas informais de pessoas que guardavam ainda constelações indígenas, para que nos familiarizássemos e ter ainda mais o conhecimento da cultura Guarani-Kaiowá, na aldeia Jaguapiru para então iniciar a etapa das entrevistas com pessoas sobre as constelações e como foi importante saber seus comportamentos, não desprezando essa etapa, começamos a visitar a escola Tengatuí conversamos com os coordenadores e professores para uma possível construção do observatório solar indígena na escola. Mostramos o planetário móvel na escola, para que os professores e alunos pudessem entender com o que exatamente estamos trabalhando. Depois de algumas reuniões iniciou-se a construção do observatório solar no pátio na frente da escola, e finalmente no dia 19 de Junho de 2009 inauguramos o primeiro observatório solar indígena feita no Brasil. E logo depois implantamos o segundo observatório solar indígena na aldeia vizinha (Panambizinho). Figura 01: Observatório Solar na escola Tengatuí Marangatu Figura 02: Durante a inauguração do observatório Solar. Figura 03: observatório solar indígena na escola Pa'i Chiquito Chiquito Observatório Solar Indígena O observatório solar é uma espécie de uma haste colocada no solo onde se orientava através da sombra refletida pelo sol sendo observada ao meio-dia, essa haste chamamos de gnômon que é chamado de Nhanderu ou Nhanderu ete pelos guarani e kaiowá da região de Dourados, os pontos cardeais na língua kaiowá são: Jakaira Pa’i (Norte), Karai Pa’i (Sul), Nhamandu voi (Leste), Oeste (Nhamandu ka’aru), segundos os indígenas guarani e kaiowá o Nhanderu é o deus maior, para cuidar da Terra mandou seus quatros auxiliares para cuidar da Terra que são os pontos cardeais, através do observatório solar podemos saber em que estação nos encontramos. Para construir um observatório solar é preciso saber o local específico, o melhor lugar para se construir é num terreno plano com pelo menos cinco metros de diâmetro (2,5 metros de raio) onde não possa pegar sombra durante o dia inteiro, a altura da haste é de 1,5 metros, o que é mais importante é observar o movimento das sombras durante o dia. Para os índios guarani mby’a as estações do ano se dividem em duas: ára pyahu (tempo novo), e ára ymã (tempo velho), ou como eles também falam, tempo bom e tempo ruim. Resultados alcançados e discussão Importância do Sol Por ser um assunto complexo sobre o mito dos astros na visão da cultura Kaiowá e Guarani e de outras tribos que os nossos ascedentes usavam para se orientarem, pois não possuíam relógio durante o dia, o sol era a bússola principal, tanto na posição do sol do dia que é dividida em cinco (05) partes, no período da chuva que não aparece o sol, se orienta pelo canto do galo, e ao meio-dia sempre pára de chover nem que seja por alguns minutos, cantiga de pássaro dando alerta, assim se orienta durante o dia. Durante os meses eles se orientavam durante o dia com a posição do sol, e as estações do ano com a reação climática, os grandes caciques ficam em alerta a partir do mês de outubro a fevereiro para ouvir grande trovoada, no período do tempo bom e sem nuvem no lado do sol nascente ou poente, e com isso se sabia no ano seguinte, será bom ou ruim tanto na produção da roça, (fartura, miséria, doença). Importância da Lua Durante a noite se orienta em questão da chuva é observada na posição da lua no crescente e também na lua cheia havendo reflexo claro circular na lua que significa sinal de chuva, o brilho de algumas estrelas indicam se é viável para caça e pesca. Conforme a posição da lua e o brilho de algumas estrelas se orientam quantos dias devem ficar na caça e na pesca. No período de nhanã rogwe kui (quedas das folhas) evitam a caça, pois neste período era normalmente para pesca e também é nesse período que as onças criam seus filhotes. Entrevistados (as): Cassiano de Souza Ribeiro (Etnia Kaiowá) e Gabriela de Souza Alvarenga (Etnia Kaiowá) Ambos foram entevistados nos meses de Setembro e Outubro de 2008 na aldeia de Amambai, e através de gravações numa câmera, podemos registrar o que ela falou, sobre o Sol e a Lua, a conversa foi durante a noite. Pontos cardeais: Zênite= Nhanderu Norte= Jakaira (deus da neblina, origem dos bons tempos) Leste= karai (deus do fogo e do ruído do estalar das chamas sagradas) Sul= Nhamandu (deus do sol e das palavras, representa a origem do tempo- espaço primordial) Oeste= Tupã (deus das águas, do mar e de suas extensões, das chuvas dos relâmpagos e trovões) O ano dividia em duas partes segundo os Guarani-Kaiowá por: Tempo novo= ara pyahu (primavera/verão) Tempo velho= ara ymã (outono/inverno) Assim como os karai (os não índios), os Ava (Guarani-Kaiowá), também possuem seu próprio calendário: Mês do ano Janeiro Fevereiro Mês do ano dos Kaiowá Seu significado NHEMONGUETA GWASU A grande reunião AVATI RANGA ARY A benção do milho verde Março JEROSY ARY Agradecimento pela produção Abril KUNUMI GWEROPU’ÃVA Levantamento do sexo másculo Maio KUNUMI MONHESYRY Junho MYMBAKA’AGWY IKYRAMA Período da caça (período da engorda da caça) Julho KO ÁHA ARY RO’Y Período do frio Agosto YVYTU HÁ TATATINA ARY Setembro OKY HÁ HENHÕIMBAMA ROY REMBIARE Outubro JE JATYMA AVATÍ MOROTI Novembro GWAVIRA AJU ARY Apresentação dos rapazes da tribo Período do vento com a fumaça Período de chuva (brotamento do que a geada matou) Período do plantio do milho branco Período do amadurecimento da guavira Dezembro AVATÍ MOROTI TUIXAMA Plantação de milho já pronto Figura 04 :meses do ano em Kaiowá na escola Pa'i Chiquito Chiquito Conclusão, com base no que foi desenvolvido: No início não foi possível de entrevistar bastante pessoas, pois não são mais procurados como antigamente, e que quando é procurado, eles têm uma certa desconfiança inicialmente, e antes a própria comunidade as procurava para ouvir histórias dos seus ascendentes, mas agora eles não estão sendo mais ouvidos, e ao entrevistar, normalmente se lembram de quando suas crenças que está sendo colocado neste projeto, e cada vez mais os líderes indígenas vêem a importância do jovem indígena ingressar na universidade e sendo a ponte entre o conhecimento tecnológico e conhecimento cultural, para que as pessoas de outra etnia tenham uma visão diferente do que estão acostumados a pensar, que existe conhecimento científico na comunidade, que muitas vezes não é reconhecido como ciência, ou seja, sendo como conjunto de conhecimentos na comunidade tecnológica. E esse projeto foi uma ótima experiência para minha formação, pois tenho aprendido como acadêmica e como indígena a importância de se valorizar o conhecimento científico dos povos que tem sido desde o começo para sobrevivência da comunidade, e como os nossos antepassados respeitavam as leis da natureza o sinal que eles davam no céu, e também usufruíram dos bens que a própria natureza dava. Mas agora sabemos que quando o Homem não a respeita, a natureza também tem sua reação negativa. REFERÊNCIAS – AFONSO, G.B Mitos e Estações no Céu Tupi-Guarani. Scientific American Brasil (Edição Especial), v. 14, p. 46-55, 2006. MELLATI, J. C., Índios do Brasil. Editora da universidade de São Paulo, 2007. AFONSO, G.B., Determinação dos Pontos cardeais com o Gnômon. Astronomy Brasil, 2007. AFONSO, G.B., Mitos e Estações no Céu Tupi-Guarani. Scientific American Brasil (Edição Especial). v. 14, p. 72-79, 2006. ABBEVILLE d’, C., Histoire de la mission des Pères Capucins en l’sle du Marignan et terres circonvoisines ou est traicté dês singularites admirables & des moeurs merveilleuses des indiens habitans de ce pais. gallica.bnf.fr. 1995.