Anais do 5º Encontro do Celsul, Curitiba-PR, 2003 (619-627)
HUMOR E ESCOLA: UMA CONCILIAÇÃO POSSÍVEL
Janaína Gabriel da Silva KAMI (G-UEL)
Lílian Nunes VIEIRA (G-UEL)
Luciana Cesar PEREZIN (G-UEL)
Martha GONÇALVES (UEL)
Mary Anne RUGERONI (G-UEL)
Rosana Gemima AMÂNCIO (G-UEL)
ABSTRACT: The objective of this work group is to activate discussions on relation between humor and
education. Our proposed theoretical support comes from authors who developed research about comicity
and humor. We will present practical activities which were carried out with Middle School students. The
methodology for these activities was developed within the Pontes para o texto: leitura e produção project.
Charges, jokes and parodies are used in class for reading and writing activities which are creative and
critical in spirit. Class writing projects culminate in an public presentation at a city Parody Festival.
KEYWORDS: humor; education; parody; writing.
0. Introdução
A relação humor e escola apresenta barreiras, revivendo uma atitude medieval que
incompatibilizava seriedade e riso. A partir desta atitude, relacionada a princípios morais e religiosos, o
cômico e o riso manifestaram-se e despertaram interesse de estudiosos. Filósofos como Aristóteles e
Platão são desencadeadores de inúmeros estudos, multiplicados através do tempo e de culturas
diversificadas, quando o riso começa a ser “levado a sério”, tornando-se objeto de investigação em muitas
áreas de pesquisa. Mais recentemente, Baeta Neves, um estudioso do humor, desenvolveu um instigante
artigo intitulado “A Seriedade e o Riso”, que, entre outros fatores, nos aponta o preconceito existente em
relação ao cômico:
“A ideologia que só quer permitir que riamos do que é cômico e que nos esqueçamos dele em
seguida exerce, de fato, uma repressão sobre formas mais ou menos veladas de análise e de
crítica social”. (Neves, 1974, p.36)
O riso é avaliado a partir de um sujeito observador, em uma cadeia que só se manifesta na
presença do humor. Tal processo envolve aspectos sociais, históricos e lingüísticos que despertam o
interesse dos pesquisadores em geral. Optou-se por discutir aqui alguns aspectos teóricos sobre o riso e o
humor, relacionando-os com a escola. O objetivo é estabelecer uma múltipla relação entre humor x
profissão = humor x escola = humor x professor = professor x alunos, chegando a um momento prático
em sala de aula: a motivação pelo riso em aulas de leitura e produção textual. A contextualização
acontece a partir do projeto de extensão “Pontes para o texto: leitura e produção”, cuja principal meta é
levar o humor para a sala de aula, através do texto paródico.
1 . Um pouco de teoria sobre o humor e o riso
Entre os poucos teóricos que se ocuparam do riso como objeto de pesquisa destaca-se o lingüista
russo Vladimir Propp. O autor analisa o riso sobre vários aspectos tendo como fonte de informação os
contistas da literatura e seu país. Nesse contexto, tornam-se importantes as considerações que faz sobre o
riso de zombaria, por exemplo, chegando a posições ontológicas, como a de ver o riso como manifestação
exclusivamente humana. Diz ele:
“...é possível rir do homem em quase todas as suas manifestações. Exceção feita ao domínio do
sofrimento, coisa que Aristóteles já havia notado. Podem ser ridículos o aspecto da pessoa, seu
rosto, sua silhueta, seus movimentos. (...) pode ser ridículo o que o homem diz, como manifestação
daquelas características que não eram notadas enquanto permanecia calado. Em poucas
palavras, tanto a vida física quanto a vida moral e intelectual do homem podem tornar-se objeto
de riso” (Propp, 1992, p. 29).
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Além de confirmar a posição de Aristóteles, Propp volta-se para o outro lado da questão, isto é, do
ser humano para si mesmo: o homem é o único animal que ri de si mesmo. Em relação a isto, o Autor
define ainda particularidades relacionadas a circunstâncias específicas e a reações individuais. Há
situações que podem provocar o riso em alguns indivíduos, enquanto outros podem permanecer sérios.
Além de haver uma causa para o riso, é necessário que se complete “um nexo entre o objeto cômico e a
pessoa que ri”, analisa ele, “que não é obrigatório e nem natural. Lá onde um ri, outro não ri”, conclui. (
p. 31). Na sua opinião, há diversidade nas manifestações de humor, considerando as origens sociais e
culturais daqueles que o expressam porque delineiam-se sentidos diferentes de humor, bem como meios
diversos para expressá-lo.
Portanto, a causa liga-se ao sujeito que ri, incluindo os aspectos naturais que o envolvem, ao lado
de um momento histórico. Charges, cartuns e caricaturas são espelho de tais circunstâncias na exploração
desse aspecto do riso que, por sua vez, implica um lado cultural e temporal e sua importância como
ferramenta de crítica e de contestação de um momento histórico.
Henri Bergson, outro grande pesquisador do riso e do cômico, define o riso usando a metáfora da
espuma do mar: “O riso nasce assim como essa espuma. Ele assinala, no exterior da vida social, as
revoltas da superfície. Ele desenvolve instantaneamente a forma movente desses abalos” (1980, p.101).
Implícita nesta definição poética, fica a presença da crítica social e ideológica através do riso. E confirmase uma relação possível com as posições de Propp sobre o tema.
Quando afirma que a causa do riso implica o sujeito desse rir, o lingüista russo atribui tal fato às
diversidades culturais, históricas e sociais. Para ele: “cada época e cada povo possui seu próprio e
específico sentido de humor e de cômico que, às vezes, é incompreensível e inacessível em outras
épocas” (p. 32). Classifica assim as várias nações por um tipo de riso, passando do riso amargo e
sarcástico do russo até o riso refinado do francês. Tal opinião fundamenta-se nas pesquisas em torno da
literatura desses países: seus exemplos remetem a autores consagrados de cada nacionalidade. Entretanto,
pode-se contestar tal classificação como parcial, considerando que alguns autores, igualmente importantes
mas não tão populares, são expressões de um grupo social. Portanto, é mais pertinente a avaliação
conduzida por Propp sobre as características individuais: há pessoas mais propensas ao riso enquanto
outras não o são. Tem-se, então, o que ele denominou de humorista nato, ou seja, aquele indivíduo dotado
de espírito ou de senso de humor, capaz de encarar a vida com otimismo, o que seria, na sua avaliação,
fruto de um talento nato:
“Eles ilustram a observação de que há pessoas nas quais a comicidade inerente à vida estimula
infalivelmente uma reação de riso. A capacidade para essa reação é no conjunto um fenômeno de
ordem positiva; é uma manifestação de amor à vida e de alegria de viver” (p. 33).
Quanto àqueles que não são capazes de rir, sua opinião é contundente; .”...são deficientes sob
todos os aspectos” (p.33). Sob esse prisma, analisa determinadas profissões, incluindo a de educador, os
pedagogos de sua época. E se dirige a eles com estas sábias palavras:
“Aos professores incapazes de compreender e de partilhar o riso sadio das crianças, àqueles que
não entendem as brincadeiras, que nunca sabem sorrir e dar uma risada, seria recomendável
mudar de profissão.” (p.33)
Cria-se um impasse porque, na avaliação do autor, os jovens e as crianças fazem parte do grupo
de indivíduos propensos ao riso. No entanto, seu espaço de convívio quase diário, ou seja, a escola,
apresenta-se-lhe com o empecilho para uma expansão tão natural do espírito humano.
Essas posições de Propp estão presentes em algumas das paródias que integram a acervo do
Festival da Paródia, sobretudo quanto ao tema comportamento. Bons exemplos podem ser encontrados
em textos que abordam a revelação de defeitos ocultos ou dissimulados ou o lado ridículo do ser humano.
O que produz o riso, entretanto, não são os defeitos em si, mas a maneira como são reveladas as
circunstâncias ou situações que desnudam os defeitos ou o ridículo: sempre acontecem de repente,
explorando o fator surpresa como causador do riso.
2. Dados em análise
O projeto de extensão “Pontes para o texto: leitura e produção” teve início em 1989, quando então
recebeu o título “Em busca do discurso: métodos e técnicas de produção de texto no 2º grau”.
Posteriormente, após reformulações chamou-se “Protexto: construção e reconstrução do texto na escola” e
até o ano de 2001, “PROLE: a redação como produto de leitura”.
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Mesmo com tantas alterações, a proposta inicial, elaborada pela equipe de professores do curso de
Letras da Universidade Estadual de Londrina, vem sendo mantida: desenvolver a leitura e a produção de
textos nas escolas estaduais de Ensino Médio de Londrina.
O funcionamento deste projeto se dá a partir de aulas ministradas pelos alunos de Letras
(estagiários) nas escolas selecionadas. Semanalmente, são aplicadas duas aulas de leitura e produção,
sempre sob a orientação do professor supervisor do projeto, que previamente norteia os alunos acerca do
conteúdo a ser desenvolvido e do referencial teórico que possa auxiliar na explanação do tema proposto.
Em geral, as atividades acontecem no decorrer de um ano letivo, período em que o estagiário se
torna regente das aulas que lhe são designadas. Entretanto, em virtude do calendário adotado pela
Universidade, os estagiários só começaram a atuar no segundo semestre de 2002. Mas isso não
comprometeu o desenrolar dos objetivos propostos, apenas direcionou os temas tendo em vista o Festival
da Paródia deste ano.
A metodologia inicial do projeto foi mantida. Os estagiários foram orientados pelo professorsupervisor em encontros semanais e recebem uma proposta de estrutura de aula constante de: texto
motivador, objetivos, motivação, desenvolvimento e produção textual. Esta sugestão pode ser adequada
pelo estagiário à sua realidade ou ao seu intuito, quanto ao que vem sendo exposto em sala de aula.
Em virtude da realização do Festival da Paródia, preocupou-se em priorizar o humor na elaboração
dos esquemas de aula. Foram utilizados como motivação charges, cartuns, piadas, textos cômicos,
músicas e filmes, procurando despertar nos alunos a percepção da crítica presente no riso.
No corrente ano, realizou-se o VIII Festival da Paródia. O evento foi organizado pelos estagiários
e professores participantes do projeto e consistiu em um concurso de textos parodiados do qual podem
participar todos os alunos do Ensino Médio da rede pública da cidade. É uma atividade muito estimulante
à produção textual dos alunos, pois é uma grande oportunidade de demonstrarem seus talentos e suas
críticas diante da realidade social.
No acervo do Festival da Paródia realizado pelo projeto, atual “Pontes para o texto: leitura e
produção”, notou-se que os alunos participantes se utilizam de todos os elementos presentes nos textos
originais e atualizam personagens, tempo e espaço, conforme os objetivos finais: criticar, questionar,
denunciar ou simplesmente provocar o riso, exercendo assim um papel de subverter o texto original,
questionando ideologias, padrões de comportamento e costumes.
Foi possível perceber uma predileção a temáticas específicas; dentro das três categorias do
concurso: história, poema e música; o que possibilitou um levantamento de tipos de abordagens
predominantes nas paródias do acervo, definiram-se quatro categorias: social, política, comportamental e
escolar. Foi criada também a categoria atemática para as produções que não se enquadrassem nas
temáticas anteriores.
Dos 137 textos analisados, somente 4 não se enquadraram em nenhuma das 4 categorias, sendo
considerados atemáticos, representando 3% do total analisado. Enquanto 49 abordaram temas de caráter
social, significando 36% e 48 trataram de temas comportamentais, representando 35% do total analisado.
Isto demonstra o quanto o aluno autor é consciente dos problemas sociais que afligem a sociedade na qual
está inserido.
As categorias foram estabelecidas através da análise dos aspectos predominantes em cada paródia.
A categoria social abrange temas como fome, guerra, violência, drogas, crises financeiras. Já os textos
classificados como políticos representam uma realidade imediata e facilmente perceptível para o leitor.
Assim como as charges, este tipo de texto é muito freqüente em períodos de eleição.
Enquadram-se na temática escolar os textos que representam o cotidiano dos estudantes, a relação
com os colegas e professores, os problemas com as provas e com as notas. A outra temática de grande
destaque é a comportamental, a que engloba temas como beleza, sexualidade, luxo, modismos, desilusão
e traição amorosa, relação empregado/patrão, religião e tédio em relação à vida.
Um aspecto de suma relevância é a ironia presente em boa parte das paródias do acervo do
Festival, sobretudo nos textos de abordagem comportamental. Esta ironia é muito bem trabalhada e tem
por objetivo questionar de forma velada os padrões e valores estabelecidos, utilizando-se da linguagem
para despertar a dúvida e a ambigüidade. Isto possibilita ao receptor do texto a oportunidade de participar
da construção do significado das paródias, o que gera o humor.
Exemplos de bons textos apresentados pelos participantes são os que serão apresentados a seguir.
Nestes trabalhos ficam evidentes os padrões comportamentais questionados, a maneira lúdica como são
contestados e as marcas do universo próprio da idade dos participantes.
3. Comportamento – observando com humor
3.1 “Drag’rela”: paródia do conto Cinderela
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Cinderela, ou a Gata Borralheira, é a história de uma jovem bondosa que é escravizada pela
madrasta e suas filhas. A humilhação se faz mais evidente quando a moça é proibida de participar do baile
que o príncipe está promovendo com o intuito de encontrar uma noiva. Cinderela, no entanto, tendo sido
generosa e piedosa por toda sua vida, recebe como recompensa a ajuda de uma fada que a veste e calça
com lindos sapatinhos de cristal, fazendo uma única ressalva: Cinderela teria que deixar o baile à meianoite. Ao chegar tão linda jovem na festa, a atenção de todos se volta para ela, inclusive a do príncipe,
com quem dança a noite toda. À meia-noite, porém, a moça sai correndo e, por descuido, deixa cair um de
seus sapatinhos. O príncipe, apaixonado e decidido a tê-la como esposa, busca por todo o reino um
pezinho no qual se encaixe tão delicado sapato. Quando, finalmente, chega à casa de Cinderela, comprova
que esta é a dama que procura e com ela se casa. Eles vivem, desde então, felizes para sempre.
Em contrapartida, a paródia deste conto, produzida por alunas do segundo ano do Ensino Médio de
uma escola estadual de Londrina, conta a história de Pafúncia, uma cambeense, filha de sitiante, que
recebe a ajuda de uma drag queen para conseguir um calçado que lhe caiba e, assim, poder participar da
festa de Maurício, um burguesinho da região. Às seis horas da manhã, a drag queen invade a festa e vai
logo retirando seus sapatos dos pés de Pafúncia, que havia dançado com Maurício desde que chegara à
festa. Maurício, entretanto, se apaixona por essa drag queen e sai correndo com ela. Mais tarde, sabe-se
que os dois “compraram uma boate gay e lutam pelo direito de se casarem legalmente”.
O foco da paródia, com se percebe, não está mais nas injustiças sofridas por uma ingênua mocinha,
mas sim no homossexualismo, que as autoras criticam através da presença de uma drag queen e de um
“burguesinho” que se apaixona por ela. A ideologia e os símbolos presentes no conto original são
subvertidos pelas alunas-autoras com a intenção de demonstrar intertextualidade, crítica, criatividade e
humor, que são critérios de avaliação para o Concurso de Paródias.
Os intertextos são produzidos de duas formas: primeiramente, com o conto Cinderela, no qual as
autoras se basearam, relação que fica clara já a partir do título, “Drag’rela”. Podemos perceber, ainda, que
várias seqüências narrativas da paródia se igualam ou, pelo menos, se assemelham com o texto original.
São alguns exemplos a festa, que é o elemento desencadeador da ação tanto em um texto quanto em
outro; a condição humilhante em que vivem as personagens Cinderela e Pafúncia, tendo em mente que a
protagonista do texto original era tratada com empregada pela madrasta, enquanto a da paródia trabalhava
no sítio do seu pai, um trabalho que julgamos não ser fácil, já que devido a ele seus pés ficaram “grandes
e achatados”; a ênfase nos pés e sapatos das personagens, sendo que no texto original os pés e sapatos
pequenos são usados para demonstrar beleza e virtude, ao passo que no texto paródico esse símbolo é
subvertido e representa o defeito maior de Pafúncia; há ainda a solução do empasse enfrentado pelas
personagens sendo resolvido por uma outra pessoa e não por elas mesmas. Em Cinderela, a dificuldade
apresentada é transposta com a ajuda de uma fada, ou de pombinhas, dependendo da versão lida, e em
“Drag”rela, Pafúncia é ajudada pela drag queen. Mas há também elementos que exigem o conhecimento
de mundo do leitor para serem decodificados. O nome do rapaz, Maurício, por exemplo, remete ao
diminutivo do termo, normalmente usado com sentido pejorativo, “mauricinho”, uso que se enfatiza pelo
adjetivo que o acompanha, “burguesinho”; outro exemplo é a utilização do nome da boate “Friends”,
relação que só será entendida se o receptor do texto souber que esta é um night club em Londrina,
freqüentado preferencialmente por gays, lésbicas e simpatizantes.
Percebemos, no decorrer do texto, a preocupação das autoras em fazer uma crítica social e de
costumes, enfatizando não só o comportamento da drag queen, mas também de Maurício e da população
de tal cidade, que foi à festa não por que aspirasse à posição de esposa deste, mas porque era “de graça”,
ou seja, deixaram os bares e lanchonetes vazios, pois na festa tinha o que chamamos de “boca livre”. Uma
outra crítica séria é percebida quando se analisa a visão dos homossexuais na paródia. A maneira
engraçada como eles são descritos no começo da história (referência ao sapatão e ao escândalo feito pela
drag queen na festa, etc.) é substituída pela preocupação presente na última linha do texto: “lutam pelo
direito de se casarem legalmente”.
O elemento criatividade é o que mais se evidencia no decorrer da paródia. As alunas-autoras
utilizaram-se de estruturas do conto original e subverteram-nas, fazendo com que o texto paródico não
fosse apenas uma versão do texto original, mas sim um outro texto, novo. Elementos importantes de
Cinderela foram trocados, o que favoreceu a intertextualidade e também a originalidade do texto, a saber:
no conto original o pai de Cinderela era um homem rico, na paródia ele é um sitiante, em cujo sítio
Pafúncia costuma andar descalça; no texto primeiro, Cinderela é conduzida à festa por uma carroagem, no
segundo, porém, Pafúncia vai à festa “montada num jumento”; no conto infantil, a moça deve sair da festa
à meia-noite, aqui, às seis da manhã (horário mais condizente com festas freqüentadas por drag queens), a
dona dos “sapatinhos” aparece na festa para tomá-los à força.
O humor, por sua vez, é explorado, na paródia analisada, em tons irônicos. Seguem-se exemplos
de como se comprovam essa ironia no texto analisado: no trecho “sapatinhos, tamanho 48”, percebemos
não só uma referência à opção sexual das lésbicas (conhecidas também como sapatões), mas, ainda, o
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contraste que se dá pelo uso de expressões ambíguas: “sapatinhos”, que remete à uma idéia de algo
delicado e pequeno, e “tamanho 48”, que lembra o pé grande e grosso de um homem; em “foi até o local,
montada num jumento, imaginando que fosse um mangalarga”, evidencia-se a imaginação da pobre
sitiante, que estava se sentindo uma princesa, ou seja, na linguagem que os jovens usariam “estava se
achando”; ainda, em “cada pisão no seu calo fazia-o se encantar mais, até aquele momento nem ele
próprio sabia que era masoquista”, está destacada a atração que Maurício sentiu – note-se bem – pelos pés
de Pafúncia e não por ela, bem como a possibilidade do jovem burguesinho gostar de ser pisado por pés
extremamente grandes, como eram os da sitiante, o que anteciparia sua predileção por características
másculas.
Em vista do que foi exposto, notamos que as autoras da paródia analisada trabalharam com
elementos pertencentes ao seu conhecimento de mundo, ou seja, utilizaram-se do que estava próximo
delas ou daquilo que, de alguma forma, as preocupavam e criaram um texto onde suas opiniões sobre
determinado assunto, no caso, o homossexualismo, pudessem ser expressas. Conclui-se, a partir da
pequena análise feita até aqui, que seus esforços foram bem sucedidos, pois, explorando suas próprias
idéias e ideologias, bem como as da sociedade de forma geral, apresentaram um texto que se conforma
com o que é esperado dos alunos-autores que participam do Festival da Paródia, donde se destaca,
principalmente a criatividade e o humor.
3.2 “Meus dezesseis anos”: paródia da poesia “Meus oito anos”
O poema de Casimiro de Abreu, “Meus oito anos”, fala da nostalgia que o eu-lírico sente em
relação à sua infância, fase pura de sua vida que ele idealiza através do uso de elementos da natureza. O
aluno-autor da paródia desmistifica e subverte essa idéia de pureza apresentada no texto original, ao
abordar a questão da sexualidade e do erotismo presentes na adolescência.
A ironia da paródia pode ser observada já em seu título “Meus dezesseis anos”. A idade dos 16,
exatamente o dobro de 8, apresentada no texto original, denota um certo crescimento e amadurecimento
pessoal. O eu-lírico aqui não remete mais à sua infância, portanto não enxerga mais a pureza e sim a
promiscuidade. Os elementos naturais, também, já não mais lhe interessam, somente a sensualidade será o
seu alvo.
É interessante notar como o aluno substitui a idéia de infância pela idéia de puberdade ao longo de
toda a paródia. Enquanto no poema original o eu-lírico fala coisas como “Oh que saudades que tenho/ da
aurora da minha vida/ da minha infância querida...”, “que amor, que sonhos, que flores/ naquelas tardes
fagueiras...”, “como são belos os dias do despontar da existência!/ - respira a alma inocência...”, o
estudante diz “Oh! que saudades que tenho/ das farras da minha vida/ da minha puberdade querida...”,
“que mulheres, que pernas, que seios/ naquelas noites vulcânicas...”, “como eram belas as noites/ do
clímax da minha existência/ o sussurrar da alma sem inocência...”. Ele modifica as palavras que no
original remetem à inocência da infância, como aurora, amor, sonhos, flores, dias e tardes fagueiras, por
palavras que exprimem o desejo sexual da juventude – farras, mulheres, pernas, seios, noites e noites
vulcânicas, respectivamente.
Dessa forma, ele critica o sexo juvenil, que é mais carnal do que puro, e ainda causa o riso, pois
quebra com a expectativa da beleza pueril apresentada no poema original ao falar de sexo, que é um
assunto ainda “proibido” para muitos.
Em relação ao ritmo do poema, podemos perceber que ele é praticamente o mesmo. O autor teve,
ainda, o cuidado de deixar na paródia as mesmas rimas encontradas no original. Na maioria das vezes;
utiliza-se das mesmas palavras para a formulação da rima. Quando as muda, escolhe outra que apresente a
mesma rima. Ex: “atrás dos canaviais” , no texto original e “debaixo dos laranjais”, na paródia.
A partir dos pontos levantados acima, podemos afirmar que a paródia de comportamento, “Meus
dezesseis anos” , foi muito bem construída, pois, a intertextualidade, o humor e a crítica são
desenvolvidos de forma criativa ao longo do texto.
3.3 “Passa o dinheirinho” : paródia da canção “Só no sapatinho”
No Festival da Paródia realizado em 1998, a música “Só no Sapatinho”, do grupo que leva o
mesmo nome da música, inspirou a paródia “Passa o dinheirinho”, de uma aluna do Ensino Médio
público de Londrina. O tema proposto pelo texto parodiado é a exploração feita por algumas seitas
religiosas, visto a partir de uma perspectiva mais individual, em relação ao comportamento das pessoas,
às situações ou aos fatos.
A música escolhida é da época em que os grupos de pagode estavam em seu auge, pois
desfrutavam de grande espaço na mídia. Portanto, esta pode ser a razão da opção feita pela aluna.
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A paródia é desenvolvida a partir da constatação de que a letra original trata das conquistas
amorosas que existem nos bailes de pagode e do retrato que se faz das dançarinas que freqüentam esses
lugares. É a partir desses fatos que ocorre a subversão do texto original, pois a letra da paródia aborda o
comportamento de alguns pastores de seitas religiosas na conquista de fiéis, e cria-se uma imagem
caricaturada desses líderes. Assim observamos toda a criatividade da autora, que além de envolver o
humor e a ironia, consegue questionar e criticar o comportamento e as ações de algumas pessoas
desonestas que fazem uso da religião para se promoverem financeiramente.
A autora descreve o pastor como “vaidoso e sorridente”, “que todos logo sentem que vai pregar,
falando de uma forma diferente”, para que os fiéis “passem o dinheirinho”. Apresenta ainda o “dom do
espiritismo”, pois exorciza as pessoas. Todas essas caracterizações revelam que, para muitas seitas
religiosas ser um pastor resume-se a uma profissão extremamente lucrativa, em que a fé traz poder e
dinheiro e parece ser um grande negócio.
Podemos inferir que a preparação para ser um pastor bem sucedido, pelas características dadas
pela aluna, é apresentar uma boa retórica, é “pregar e falar de uma forma diferente”, desenvolver o
discurso dos que seduzem pelas palavras, mostrando o comportamento dos que enganam e assim recebem
pomposas vantagens econômicas.
Essa idéia se confirma quando observamos, além da descrição do pastor, a maneira como as
pessoas que freqüentam essas igrejas são caracterizadas: “meu povão” e a “minha multidão”, mostrando
que esses fiéis se comportam como a clientela que “passa o dinheirinho”, como o próprio título da paródia
revela, e assim estão autorizados a freqüentar o “reino de amor e carinho” dos líderes religiosos.
A ironia no texto parodiado é revelada, principalmente, a partir da abordagem na disputa que
muitas seitas travam para conseguirem cada vez mais fiéis, fato que mais parece um duelo entre empresas
competindo por mais mercado consumidor para melhorarem suas vendas. Notamos isso no texto quando a
autora chama a atenção para o fato de o pastor “vender a sua multidão” a outros líderes, considerados
como “povo charlatão”. O pastor não se reconhece pelo seu comportamento e por seus atos praticados,
como um explorador da boa fé das pessoas que confiam em seu “dom de espiritismo”, como o texto
parodiado revela.
Notamos que a paródia também apresenta intertextualidade com a forma do texto original,
preservando muito do seu ritmo. A musicalidade permanece nesta nova letra e as rimas são conservadas,
como podemos notar numa comparação entre as duas primeiras estrofes dos dois textos:
Passa o dinheirinho
Ele chega vaidoso e sorridente
Todo mundo logo sente
Este também vai pregar
Ele fala de uma forma diferente
Sai demônio dessa gente
Vai saindo devagar
Só no sapatinho
Ela chega confiante e sorridente
Todo mundo logo sente
Seu perfume pelo ar
Ela dança com swing diferente
Vai pra trás e vai pra frente
Vai descendo devagar
O primeiro verso da primeira e da segunda estrofes da paródia rimam entre si. Na seqüência, há a
rima entre os dois segundos versos das estrofes e entre os dois terceiros versos, assim como observamos
no original. Desta forma, a autora mantém um diálogo entre os textos não só no aspecto do conteúdo, mas
também com a forma da letra inspiradora.
Partindo da intertextualidade com a música “Só no sapatinho”, o texto da aluna-autora aborda um
problema comportamental presente em nossa sociedade, onde há a ação desonesta de líderes religiosos
que exploram a boa-fé das pessoas. É importante perceber que à questão comportamental uniu-se o humor
e a ironia, demonstrando que é possível trabalhar com temas que abordam problemas nas ações humanas,
sem rechaçar estes dois aspectos. A autora estabelece um distanciamento dos fatos e consegue tornar-se
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insensível a eles, o que é fundamental para proporcionar o riso. A partir disto, o olhar crítico e
questionador alia-se ao humor e à ironia e assim constrói a sua paródia.
4. Considerações finais
A intenção dos Festivais da Paródia, que realizou no ano de 2002 sua oitava edição, é gerar
produções textuais criativas e associar o humor à seriedade convencional em sala de aula. Pode-se
perceber claramente que os objetivos vêm sendo cumpridos, visto que textos bem elaborados e
extremamente criativos chegam às mãos da comissão de seleção. Por vezes, a tarefa de escolher uns
poucos textos em cada categoria (história, música e poesia) torna-se difícil. Acreditando na criatividade e
no potencial dos alunos, o Projeto tem como um de seus objetivos, motivar as produções textuais com
textos de humor, como charges, piadas, cartuns, caricaturas, paródias. Os estagiários do Projeto, que estão
em contato direto com os professores das escolas, tentam, ao levar o humor e o riso para a sala de aula,
incentivá-los a passar a utilizar o humor como fonte de observação crítica da realidade.
RESUMO: O objetivo principal deste grupo de trabalho é promover discussões em torno das relações
humor e escola. Tendo como apoio teórico a leitura de autores que desenvolveram estudos sobre o
cômico, o humor e o riso, nossa proposta implica a apresentação de atividades práticas realizadas com
alunos do Ensino Médio, a partir de uma metodologia de trabalho desenvolvida pelo projeto Pontes para
o texto: leitura e produção. O humor é levado para a sala de aula através de textos motivadores como
charges, cartuns, piadas e paródias, possibilitando atividades criativas e críticas de leitura e de
produção textual. A paródia, por suas características, é um dos textos motivadores para tais atividades,
estendidas para a realização de um Festival, evento anual através do qual o texto produzido pelo aluno
torna-se público, ultrapassando as paredes da escola em busca de outros leitores.
PALAVRAS-CHAVE: humor; escola; paródia; produção textual.
ANEXOS:
PARÓDIA: “DRAG´RELA”
Numa cidade perto daqui, havia um burguesinho chamado Maurício. Como era muito tímido, não
queria se casar e sabia que as mulheres só estavam atrás de seu dinheiro, mas seus pais faziam questão de
que ele as casasse e que viesse logo um herdeiro para toda a fortuna.
Então decidiram fazer uma festa à fantasia com direito à máscara para não se identificarem e
também não reconhecerem o burguesinho.
A notícia da festa se espalhou por toda a região e, chegado o dia do grande acontecimento, todos
os bares e lanchonetes ficaram vazios, pois todos estavam na festa, já que era de graça.
Ficou apenas uma cambeense, chamada Pafúncia, que, por andar muito descalça na lida do sítio de
seu pai, tinha os pés muito grandes e achatados e, por isso, não encontrava calçado para comprar. Muito
magoada, começou a chorar em desespero e uma Drag Queen, que estava a caminho da Friends para
encontrar-se com suas “amigas”, ouviu os prantos e procurou ajudar. Depois de ouvir a história, a Drag
ficou comovida e acabou indo descalça pois emprestou seus sapatinhos, tamanho 48, para a jovem
sitiante, que toda contente, calçou-os e foi até o local montada num jumento, imaginando que fosse um
Mangalarga.
Chegando ao local, a festa já estava quase terminando. O Maurício não havia dançado com
nenhuma garota que lá estava, quando viu aqueles dois pés na porta, antes da dona, assustou-se, e, num
impacto apaixonante, logo tirou-a para dançar. A cada pisão no seu calo ele se encantava mais. Até aquele
momento, nem ele próprio sabia que era masoquista.
Dançando e dançando, Maurício não tirava os olhos dos pés de Pafúncia.
Tudo muito romântico até a chegada da Fada Drag, que foi buscar seus calçados às seis da manhã.
Fazendo escândalo, foi logo tirando os sapatos dos pés da cambeense e, mais espantado, Maurício
ficou encantado por aquele espetáculo fantasiado. Deixou Pafúncia de lado e saiu correndo com a Drag, e
nunca mais apareceram. Comenta-se hoje em dia que compraram uma boate gay e lutam pelo direito de se
casarem legalmente.
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HUMOR E ESCOLA: UMA CONCILIAÇÃO POSSÍVEL
PARÓDIA: “MEUS DEZESSEIS ANOS”
Oh!Que saudades que eu tenho
Das farras da minha vida
Da minha puberdade querida
Que os anos não trazem mais!
Que mulheres, que pernas, que seios
Naquelas noites vulcânicas
Atrás dos canaviais!
Como eram belas as noites
Do clímax da minha existência
O sussurrar da alma sem inocência
E os perfumes do prazer.
As pernas: doces e morenas
Os rostos: sempre afogueados
Os corpos: violões torneados
E eu: totalmente tarado.
Que mulheres, que pernas, que seios
Que noites de fantasias
Naquela doce alegria
Naquele contínuo gemer
O corpo queimando de prazer.
Oh! Noites da minha puberdade
Oh! Vida de promiscuidade!
Que festa a noite não era
em descontrolada orgia
em vez da AIDS de agora
eu tinha nessas delícias
de minhas amantes as carícias
e uma constante alegria
Oh! Que saudades eu tenho da minha puberdade querida!
PARÓDIA: “PASSA O DINHEIRINHO”
Ele chega vaidoso e sorridente
Todo mundo logo sente
Este também vai pregar
Ele fala de uma forma diferente
Sai demônio dessa gente
Vai saindo devagar
Esse cara tem o dom do espiritismo
É um pastor bem sucedido
E seu dinheiro vai roubar
Vagabundo ta na rua da amargura
Entra logo nessa turma
Porque eu vou te enganar
Passa o dinheirinho, ôô
Tão querendo disputar o meu espaço
Invadir o meu pedaço
E roubar o meu povão
Já andaram me ligando noite e dia
Para saber se eu queria
Vender a minha multidão
Mas eu sou um pastor bem exigente,
Janaína Gabriel da Silva KAMI, Lílian Nunes VIEIRA, Luciana Cesar PEREZIN, Martha GONÇALVES, Mary Anne RUGERONI
& Rosana Gemima AMÂNCIO 627
E não vendo a minha gente
Para esse povo charlatão
No meu reino tem amor e tem carinho
Mas se não der o dinheirinho
Vai levar um bofetão
Passa o dinheirinho, ôô
Aí, eu não falei
A grana é minha e não adianta
É eu quem vou levar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERGSON, Henri. O riso: ensaios sobre a significação do cômico. RJ: Zahar, 1980.
GONÇALVES, Martha. A paródia: o texto além da sala de aula. Londrina, 2002. (tese de doutorado)
NEVES, L. F. B. A ideologia da seriedade e o paradoxo do coringa. Revista de Cultura Vozes, a 68,
v. LXVIII, p.35-40, 1974.
PROPP, Vladimir. Comicidade e riso. Tradução Aurora Bernadini e Homero F. de Andrade. SP:
Ática, 1992.
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