OS ELEMENTOS DA NARRATIVA NA ESCRITA DE TEXTO POR CRIANÇAS Lorena Bischoff Trescastro Universidade Federal do Pará – UFPA Pará – Brasil E-mail: [email protected] Eixo temático: Alfabetização e infância. RESUMO: Este artigo apresenta um estudo sobre os elementos da narrativa em textos escritos por crianças do 3º ano do Ensino Fundamental. O corpus consiste em cinco textos de crianças de oito anos de idade sobre a fábula O Leão e o Rato. A análise foi feita a partir da questão: que elementos da narrativa a criança apresenta em seu texto? Na análise, observou-se que as crianças apresentaram personagens e fatos do enredo, com narrador em 3ª pessoa, porém nem sempre tempo e espaço da narrativa. Palavras-chave: Narrativa. Escrita. Fábula. ABSTRACT: This paper presents a study of the narrative elements in texts written by children in the 3rd year of elementary school. The corpus consists of five texts of children eight years of age on the fable The Lion and the Mouse. The analysis was made from the question: what narrative elements of the child presents in his text? In the analysis, it was observed that children presented characters and events of the plot, with narrator in 3rd person, but not always time and space of the narrative. Keywords: Narrative. Writing. Fable. 1 Introdução Meu primeiro contato com o mundo mágico das histórias aconteceu quando eu era muito pequenina, ouvindo minha mãe contar algo bonito todas as noites, antes de eu adormecer, como se fosse um ritual... (ABRAMOVICH, 1989, s/p) O trecho dessa epígrafe coloca-nos diante de duas questões instigadoras. Uma delas é que muitas crianças, assim como Abramovich (1989), chegam à escola com um repertório de histórias em sua memória a partir das vivências de atos de leitura e contação de histórias que aqueles que lhe são próximos, como seus familiares e amigos, lhes proporcionaram. A outra é que também há em nossas salas de aula crianças que pouco ou nada vivenciaram da escuta de narrativas infantis. As primeiras, pela intimidade que tem com as histórias, provavelmente, quando solicitadas a escrever, lidarão com a escrita de textos com maior desenvoltura do que as segundas, devido a pouca vivência com as histórias infantis. Apesar dessas diferenças, é função da escola criar condições para que ambas aprendam a ler e a escrever textos, inclusive narrativos, e para isso que seja a leitura pela professora e pela criança na escola também “um ritual”, assim como sugere o depoimento de Abramovich (1989). Para Amarilha (2013, p.37), “a história da escolarização da criança em convívio com a literatura promove, antecipa e consolida seu crescimento. Principalmente, no aprendizado da oralidade significativa e na potencialização do ouvido como estrutura pensante”. Isso porque, segundo Amarilha (2013), a leitura de histórias em voz alta proporciona às crianças as experiências simbólica, social e educativa. Na experiência simbólica a criança, pela leitura do texto literário, aprende a lidar com a linguagem escrita que é uma forma de representação. Na experiência social, além da leitura de narrativas modificar a rotina escolar, melhorando o ambiente de aprendizagem pela escuta da palavra do outro, a voz da professora, que oraliza o texto do livro, proporciona acesso à cultura escrita, ao texto do outro, que é o autor. Na experiência educativa, a interação com o texto, mediada pela leitura do professor e pela fala dos colegas em sala de aula, contribui para a aprendizagem. Como se vê uma das práticas escolares para que se ensinar as crianças a escrever textos no início da alfabetização é a leitura em voz alta pela professora de uma história, para que as crianças depois a escrevam de memória do jeito que sabem escrever (TRESCASTRO, 2014). Neste caso, entendemos a leitura em voz alta pela professora como uma ajuda dada ao aluno para que possa aprender a escrever textos próprios com autonomia. O texto lido funciona como um andaime, metáfora utilizada por Bruner e colaboradores, conforme Solé (1998, p. 76), “para explicar o papel do ensino com relação à aprendizagem do aluno”. Andaimes são utilizados na construção de edifícios, para apoiar e facilitar o acesso aos andares mais elevados de um prédio durante a obra, ao término da construção, os andaimes são retirados e o edifício, já pronto, permanece em pé. Do mesmo modo, textos “andaimes” são lidos para favorecer a aprendizagem pela criança da linguagem que se usa para escrever, do vocabulário, da estrutura da narrativa, por exemplo, depois que as crianças aprenderem como é que se escreve um texto, de modo autônomo, a leitura da história pela professora não será mais necessária à escrita de textos narrativos. Os textos escritos por crianças analisados neste trabalho foram elaborados a partir de uma história ouvida, mais precisamente, a leitura feita pela professora à turma da fábula O Leão e o Rato, de Esopo. O gênero fábula tem “sua origem na oralidade” (OLIVEIRA, 2008, p. 107) e pode ser conceituado como “curta narrativa que contém uma lição moral” (HOUAISS, 2010, p.347). Dentre outras aprendizagens, o procedimento de leitura em voz alta pela professora em sala de aula proporciona o acesso ao aluno, que recepciona o texto, a uma história completa, na qual estão presentes os elementos da narrativa: personagens, enredo, tempo, espaço e narrador (GANCHO, 1998). No ato de escrever, a criança recupera elementos da história lida pela professora e outros conhecimentos que detém acerca da cultura escrita e os apresenta no texto que escreve, como discurso próprio (TRESCASTRO e SILVA, 2014). Este trabalho tem por objetivo apresentar um estudo sobre os elementos da narrativa em textos escritos por crianças do 3º ano do Ensino Fundamental. Para tanto, o artigo foi organizado em quatro seções. A primeira seção apresenta os aportes metodológicos, descrevendo os procedimentos utilizados na pesquisa. A segunda seção trata sobre os aportes teóricos acerca da estrutura da narrativa. A terceira traz a análise dos dados da pesquisa, enfatizando os elementos da estrutura da narrativa utilizados pelas crianças em seus textos. Por fim, na última seção, são feitas considerações finais acerca do estudo realizado. 2 Aportes metodológicos: os procedimentos da pesquisa O corpus é composto por cinco textos produzidos por crianças de oito anos de idade, sendo dois meninos e três meninas, em sala de aula, na condição de alunos do 3º ano do Ensino Fundamental de uma escola pública municipal de Belém, com base na leitura em voz alta pela professora da fábula O Leão e o Rato, de Esopo. Na história, o leão, por se considerar mais forte, desdenha a oferta de amizade do rato, que considera mais fraco, porém quando foi preso por caçadores em uma armadilha, foi o rato que roeu a corda da rede que o prendia e o libertou, de modo que ao final da história ficaram amigos. Esta fábula tem por tema a amizade e a solidariedade apesar das diferenças. A moral da história é que “não podemos julgar a importância de um favor, pelo tamanho do benfeitor”. Partindo do pressuposto de que a leitura em voz alta proporciona à criança uma experiência educativa (AMARILHA, 2013), essa atividade escolar, ao criar uma condição na qual a criança interage com um texto da cultura escrita, pode funcionar como um andaime para que a criança aprenda a escrever narrativas, diante disso, para fins de análise, neste estudo, a questão que nos colocamos foi: ao escrever a história que foi lida pela professora, que elementos da narrativa a criança apresenta em seu texto? Na análise, os elementos da narrativa, descritos por Gancho (1998), foram tomados como categorias a serem observadas, a saber: personagens, enredo, tempo, espaço e narrador, buscando-se evidenciar os elementos da narrativa que estão presentes e ausentes nos textos infantis. Na transcrição dos textos das crianças, foram utilizados procedimentos similares aos utilizados por Massini-Cagliari (2001). 3 Aportes teóricos: os elementos da narrativa A criação literária infantil pode ser estimulada e direcionada externamente e deve ser avaliada do ponto de vista do significado objetivo que tem para o desenvolvimento e a educação da criança. (VIGOSTSKI, 2009, p. 91) Ouvir e contar histórias são atividades realizadas pelas crianças mesmo antes de aprenderem a ler e a escrever. De modo que ao chegarem à sala de aula, são as crianças portadoras de um repertório de histórias ouvidas ou inventadas em situações de brincadeira. As experiências com os textos narrativos, decorrentes das práticas de oralidade, sejam lendas, contos, fábulas, parábolas, histórias reais ou fictícias proporcionam à criança a compreensão dos elementos da narrativa. Quando são solicitadas a escrever uma história, tais elementos aparecem em seus textos, portanto a prática escolar de ler histórias para que as crianças depois a escrevam, ou seja, uma atividade de oralidade para mediar uma atividade de escrita, pode favorecer a aprendizagem da escrita de textos narrativos por crianças em processo de alfabetização, assim como propõe Vigotski (2009, p. 91), no trecho da epígrafe desta seção, de que “a criação literária infantil deve ser estimulada e direcionada externamente”. De acordo com Bruner (1998, p. 17), “a narrativa trata das vicissitudes das intenções humanas”. Em sua estrutura, a narrativa apresenta elementos estáveis, tais elementos podem ser identificados, como personagens, enredo, tempo, espaço e narrador. São os personagens que vivenciam os acontecimentos do enredo, em um determinado tempo e espaço, cuja história é contada por um narrador. É o narrador que, ao dar voz à história, organiza os outros elementos da narrativa, atuando como se fosse um “intermediário entre o narrado (a história) e o autor, entre o narrado e o leitor” (GANCHO, 1998, p. 9). Ao se analisar o ponto de vista da narrativa, observa-se a posição do narrador diante dos acontecimentos narrados, evidenciados pelo pronome pessoal empregado na narrativa, que pode ser escrita em primeira ou em terceira pessoa. O narrador é uma criação do autor, para estruturar e dar voz à narrativa. Quando a história é narrada em primeira pessoa, o narrador, chamado narrador personagem, participa do enredo como personagem, neste caso sua visão sobre os fatos fica limitada ao envolvimento do personagem no enredo. Neste caso, temos o narrador protagonista, que é também o personagem principal da narrativa, e o testemunha, que “narra acontecimentos dos quais participou, ainda que sem grande destaque” (GANCHO, 1998, p. 29), porque não se trata do personagem principal. Já quando a história é narrada em terceira pessoa, o narrador atua como se fosse um observador dos fatos. Pode o observador ter uma visão completa da história, demonstrando tudo saber sobre os acontecimentos, daí estamos diante de um narrador onisciente, e pode o narrador estar presente em todos os lugares onde ocorrem os fatos, então temos um narrador onipresente. Quando o narrador dirige a palavra ao leitor ou tece algum comentário acerca do comportamento do personagem, podemos chamá-lo intruso. E quando o narrador, ao se identificar com o personagem, permite que um personagem tenha mais espaço, colocando-o em destaque na história, podemos chamá-lo narrador parcial (GANCHO, 1998). Para Bakhtin (2009, p.157), “o contexto narrativo começa a ser percebido – e mesmo a reconhecer-se – como subjetivo, como fala de ‘outra pessoa’”. Segundo o autor, em obras literárias, “isso é composicionalmente expresso pelo aparecimento de um narrador que substitui o autor propriamente dito” (BAKHTIN, 2009, p.157), porém convém salientar que o narrador não é o autor, mas uma criação sua, criado o narrador e definido seus ponto de vista diante dos acontecimentos da narrativa, este que dará voz e conduzirá a história de modo que o autor permanecerá imperceptível ao leitor ou ouvinte. Em relação ao ato de criação do autor, conforme Bakhtin (2009, p.157), “o discurso do narrador é tão individualizado, tão ‘colorido’ e tão desprovido de autoritarismo ideológico como o discurso das personagens. A posição do narrador é fluida, e na maioria dos casos ele usa a linguagem das personagens representadas na obra”. Isso se manifesta, principalmente, no discurso indireto, no qual o narrador incorpora ao seu discurso a fala dos personagens apresentando-a de modo não marcado, com ausência de pontuação e verbos dicendi1. De acordo com Gancho (1998), os personagens são seres criados pelo autor que participam diretamente, com ações ou falas, nos acontecimentos que compõem o enredo. Em relação ao papel que desempenha no enredo, o personagem pode ser classificado como protagonista, quanto atua como personagem principal, e antagonista, quando a ação que desempenha se opõe ao protagonista. Enquanto o protagonista pode ser herói, ao apresentar características superiores em relação aos demais pertencentes a seu grupo, e anti-herói, quando apresenta características inferiores às de seu grupo, o antagonista se apresenta como o vilão da história. Em fábulas, os personagens são animais com características, comportamentos e sentimentos humanos. O enredo é constituído pelo conjunto dos acontecimentos de uma história, que pode ser “conhecido por muitos nomes: fábula, intriga, ação, trama, história” (GANCHO, 1998, p. 8). É a organização lógica dos fatos ocorridos na história, na qual cada fato (causa) tem uma motivação da qual decorrem novos fatos (consequências), que dá credibilidade ao enredo. Para Gancho (1998, p. 10), “a verossimilhança é verificável na relação causal do enredo, isto 1 Verbos dicendi, tais como disse, respondeu, perguntou, retrucou ou sinônimos, são usados na composição de diálogos no discurso direto, por exemplo (BECHARA, 2002). é, cada fato tem uma causa e desencadeia uma consequência”. No entanto, convém destacar que é o conflito o elemento que estrutura o enredo, pois possibilita ao leitor e ao ouvinte criar expectativas diante dos fatos narrados. Ao tratar sobre isso, Gancho (1998, p. 11) esclarece que “o conflito é qualquer componente da história (personagens, fatos, ambiente, ideias, emoções) que se opõe a outro, criando uma tensão que organiza os fatos da história e prende a atenção do leitor”. Para Bruner (1998, p.22), o tema subjacente a uma fábula “contém uma situação desfavorável na qual os personagens caíram como resultados de intenções que não deram certo ou devido a circunstâncias, do ‘caráter dos personagens’, ou mais provavelmente da interação entre os dois”. Dentre as partes do enredo, Gancho (1998) destaca a exposição ou introdução, complicação ou desenvolvimento, complicação ou desenvolvimento, clímax e desfecho ou conclusão. Na exposição ou introdução, que se refere ao início da história, são apresentados personagens, acontecimentos introdutórios, tempo e espaço da narrativa. Na complicação ou desenvolvimento, que corresponde à segunda parte do enredo, se desenvolve um ou mais conflito(s). O clímax, que é a terceira parte do enredo, compreende o momento culminante da história, em que o conflito é mostrado de maneira explícita. No desfecho ou conclusão, que corresponde ao final da história, é apresentada a solução para o conflito, podendo ser surpreendente ou esperado, cômico ou trágico, feliz ou não. Conforme Bruner (1998, p.22), “o que confere à história sua unidade é a maneira na qual a situação desfavorável, os personagens e a consciência interagem para formar uma estrutura que tem um começo, um desenvolvimento e um ‘sentido finalizador’”. Em relação ao tempo, a época em que ocorre a história pode ser dar em um período curto, como um dia ou semana, ou longo, quando se passa ao longo dos anos. Dentre os gêneros narrativos, o conto e a fábula apresentam uma duração curta e o romance apresenta uma duração maior. O tempo da narrativa pode ser cronológico, quando transcorre do início ao fim na ordem natural de um enredo linear que transcorre em horas, dias, meses ou anos, ou psicológico, quando o tempo transcorre em uma ordem definida pela imaginação do personagem ou narrador, na qual a ordem cronológica dos fatos é alterada (GANCHO, 1998). Quanto ao espaço, o lugar onde ocorrem as ações em uma narrativa tem por função principal “situar as ações dos personagens e estabelecer com eles uma interação, quer influenciando suas atitudes, pensamentos ou emoções, quer sofrendo eventuais transformações provocadas pelos personagens” (GANCHO, 1998, p.23). As referências espaciais podem aparecer integradas aos fatos narrados ou serem descritos de modo detalhado, se constituindo na descrição do cenário da narrativa. O espaço do enredo, que é o lugar físico dos acontecimentos, pode ser aberto ou fechado, urbano ou rural, na floresta ou na rua de uma cidade, dentro de uma casa ou ao ar livre. Quanto aos elementos da narrativa, no que diz respeito à presença de personagens e acontecimentos do enredo, seja ao produzir textos orais ou ao escrever textos narrativos, de acordo com Colomer (2007), crianças a partir de seis anos são capazes de controlar esses dois aspectos da estrutura da narrativa. Segundo a autora (2007, p. 54) “o progresso gradual do conhecimento sobre as características formais da história inclui dois pontos essenciais: o que acontece e de quem falamos”. No entanto, para escrever, primeiramente devem as crianças conhecer histórias, tal conhecimento pode se dar por meio da leitura de histórias a elas. Em segundo lugar, devem as crianças ser provocadas a narrar e a escrever histórias conhecidas, enquanto atividade de fruição, pois ao escrever podem as crianças imaginar novas histórias e modificá-las, tal qual sugere Barthes (2004, p. 11), ao afirmar que “o texto que o senhor escreve tem de me dar prova de que ele me deseja. Essa prova existe: é a escritura. A escritura é isto: a ciência das fruições da linguagem”. Referindo-se às crianças, Colomer (2007, p. 61) diz que “as ‘vozes dos livros’ vão levá-las pela mão ao longo de suas leituras, fazendo-as adotar distintas – e frequentemente simultâneas – perspectivas sobre o mundo (....) e acostumando-as ao uso de registros e formas linguísticas muito variadas”. Como se vê, a mediação proporcionada pelas práticas de ensino da escrita de textos narrativos pode se efetivar com a leitura, escuta e interação com as múltiplas vozes que estão presentes nos livros. Assim sendo, a estrutura da narrativa já lhe é conhecida na modalidade oral, ficando mais fácil ser transposta e registrada na modalidade escrita, conforme apontam estudos de Teberosky (1994). 4 Análise dos dados: que elementos da narrativa as crianças apresentam em seus textos? Narrar acontecimentos já ocorridos implica ancorar o discurso em algum momento do passado, anterior ao da enunciação. Constantemente efetuada pelo falante, esta atividade é complexa do ponto de vista cognitivo, pois, para realizá-la, o locutor necessita rememorar fatos, apresentar personagens, localizar no tempo e no espaço pessoas, animais e objetos. (BRUM-DE-PAULA et al, 2013, p. 259) Para escrever o texto, quanto ao o que escrever a criança apoiou-se na temática tratada na história ouvida da fábula O Leão e o Rato, recorrendo ao que registrou em sua memória, durante a leitura feita pela professora, e quanto ao como escrever recorreu ao conhecimento que vem construindo acerca da língua escrita, obviamente com incompletudes, tal atividade é complexa, conforme mencionado por Brum-de-Paula et al (2013) no trecho que inicia esta seção. Para fins de apresentação, os textos das crianças foram organizados do menor ao maior, tratando, na seguinte ordem, sobre o título, os personagens, enredo, espaço e tempo. O título original da fábula foi apresentado como o título dos cinco textos analisados. Nele constam os personagens, o leão e o rato, apenas no texto (3) o artigo definido masculino “o”, que antecede “rato”, foi omitido, e no texto (4) “leão” aparece com a letra inicial maiúscula, os demais foram escritos com a letra inicial minúscula. Os personagens principais, que são os protagonistas, também foram mencionados nos cinco textos, apenas o personagem secundário, no caso o antagonista, que é o caçador ou caçadores, não foi citado em um dos cinco textos. (1) O leão e o rato O leão estava durmindo e o rato pulo em sima deli e comeso a faze coscinha e o leão piduro o rato na Arvóre poque o leão tiro eli e o leão foi pacia e caiu numa armadilha e o rato foi e salvo o leão fico muito alegr ficaro como amigo pra sempre. (Aluno 1, 8 anos) O menor texto, dentre os cinco analisados, foi escrito em 7 linhas, em terceira pessoa, pois tem o narrador um papel de observador. Em relação aos personagens, no texto (1), os protagonistas – leão e rato – foram citados e o antagonista – caçador(es) – não. O personagem leão foi citado seis vezes e o rato três vezes. O personagem caçador não foi mencionado no texto (1). Quanto às partes do enredo, a exposição ou introdução foi escrita nas três primeiras linhas; a complicação ou desenvolvimento da terceira até a quinta linha; o clímax ou conflito está na quinta linha e o desfecho ou conclusão nas duas últimas linhas. O espaço onde ocorreu a narrativa, no caso a floresta, não foi mencionado. As referências espaciais foram descritas em dois momentos: “na árvore” e “numa armadilha”, como detalhes dos fatos, diluídos no texto. Além dos verbos no pretérito que expressam a sequência de acontecimentos do enredo, não há no texto outras palavras indicativas de tempo. (2) O leão e o rato Era uma vez u leão estava Dormindo Ai veiu o rato fez cosquinha na costa do leão ai o leão acordo sigurou u rato ai o leão segurou no rabo do rato ai o rato falou se você me larga eu protejo você e não deixo a contece nada com você ai largou ou rato ai o rato foi embora ai u leão ficou passiando na floresta ai veiu o caçador prendeu o leão ficou preso na árvore ai o ratinho salvo o leão ai o leão falou muito obrigado. (Aluna 1, 8 anos) O texto, escrito em terceira pessoa, apresenta 9 linhas. Em relação aos personagens, no texto (2), os protagonistas – leão e rato – foram citados e o antagonista – caçador(es) – também. O personagem leão foi citado nove vezes e o rato sete vezes. O personagem caçador foi mencionado no texto (2) uma vez. Em relação às partes do enredo, a exposição ou introdução foi escrita nas duas primeiras linhas; a complicação ou desenvolvimento da terceira até a sétima linha; o clímax ou conflito está nas sétima e oitava linhas e o desfecho ou conclusão nas duas últimas linhas. O espaço onde ocorreu a narrativa, a floresta, foi mencionado na sétima linha. Outra referência espacial citada foi “na árvore” na penúltima linha do texto. Além dos verbos no pretérito que expressam a sequência de acontecimentos do enredo, a aluna faz uso recorrente da expressão “aí”, por dez vezes, como marcador na mudança dos acontecimentos, tal qual aparece frequentemente no discurso oral. (3) O leão e rato era uma vez um leão grande e poderoso que um dia ele estava domindo derepente um rato apareceu e ficou fazendo coscinha o leão acordou furioso e o deseperado fez uma promessa e o leão rio e disse você e muito pequeno para mi ajudar e um dia o leão estava passeando e derrepente ele caio numa rede dos casados que amararão a rede numa árvore quando o rato saiu correl como um fogete rapidamente roeu a corda soltando o leão e eles viverãom felizes para senpre. (Aluno 2 – 8 anos) O texto, escrito em terceira pessoa, apresenta 12 linhas. No que se refere aos personagens, no texto (3), os protagonistas – leão e rato – foram citados e o antagonista – caçador(es) – também. O personagem leão foi citado seis vezes e o rato três vezes. O personagem caçador foi mencionado no texto (3) uma vez no plural – caçadores – como proprietários da rede: “numa rede dos caçadores”. No que se refere ao enredo, a exposição ou introdução foi escrita nas três primeiras linhas; a complicação ou desenvolvimento da quarta até a sétima linha; o clímax ou conflito está nas oitava e nona linhas e o desfecho ou conclusão nas três últimas linhas. O espaço onde ocorreu a história não foi mencionado explicitamente. As referências espaciais foram descritas em dois momentos: “numa rede dos caçadores” e “numa árvore”, como detalhes dos acontecimentos da narrativa. Além dos verbos no pretérito que denotam o tempo da sequência dos acontecimentos no enredo, o aluno fez uso no texto da locução adverbial temporal “de repente” em dois momentos do enredo, na introdução (segunda linha) e no clímax (oitava linha). (4) O Leão e o rato era uma vez um leão dormindo quando um rato subiu nas costas dele e começou a fazer cosquinhas quam do o leão acordou furioso e abriu a boca para emgolir o ratinho so que o rathinho falo calma seu leão eu posso ajudar quando você esteve em perigo a seu ratinho eu sou o rei da selva e você e muito pequeno quando ele estava passeando sem perceber ficou preso numa rede que os casadores tinham colocado e foram pegar o carro para levar o leão e nesse momento o ratinho subio na arvore e roeu a rede e o leão e o ratinho foram melhores amigo. (Aluna 2, 8 anos) O texto (4) foi organizado em 13 linhas e escrito em terceira pessoa. Em relação aos personagens, no texto (4), os protagonistas – leão e rato – foram citados e o antagonista – caçador(es) – também. O personagem leão foi citado seis vezes e o rato também foi citado seis vezes, sendo que cinco vezes na forma diminutiva, ratinho, e uma vez na forma normal, rato. O personagem caçador foi mencionado no texto (4) uma vez na forma plural - caçadores. Quanto ao enredo, a exposição ou introdução foi escrita nas três primeiras linhas; a complicação ou desenvolvimento da terceira até a nona linha; o clímax ou conflito está da nona a décima primeira linha e o desfecho ou conclusão nas duas últimas linhas. A floresta, como o espaço da narrativa, não foi mencionada. As referências espaciais constam no texto em dois momentos: “numa rede” e “na árvore”. Além dos verbos no pretérito que expressam o tempo dos acontecimentos do enredo, a aluna faz uso de outras palavras indicativas de tempo, quando, conectivo temporal que aparece quatro vezes no texto, e “nesse momento”, ao final do texto, para introduzir o desfecho da narrativa. (5) O leão e o rato Era uma vez um leão forte e grande um dia dormindo de baicho da sombra de uma arvore derepente um rato apareceu e come sou a fazer cosquinha no leão o leão acordou furioso abrio a boca para engolir o ratinho o rato disse o leão solteme senpre que precisar e so me chamar. O leão disse Ha Ha Ha eu sou grande e você pequeno rindo do que o ratinho disse soltoele pode ir ratinho e um dia passeando pela floresta sem ver e ficou preso numa rede de casador os casadores foram pega o carro para levar o leão o rato veio coremdo e vio o leão preso e roeu a corda e soltou o leão O leão e o rato pensaram que a força não e Pelo tamanho sim pela coragem e foram grandes amigos. (Aluna 3, 8 anos) O maior texto, dentre os cinco analisados, foi escrito em 14 linhas e em terceira pessoa. Quanto aos personagens, no texto (5), os protagonistas – leão e rato – foram citados e o antagonista – caçador(es) – também. O personagem leão foi citado dez vezes e o rato oito vezes, destas três vezes foi com a variação ratinho, em que o uso do substantivo no diminutivo reforça a ideia de pequenez do rato em relação ao leão e sua suposta fragilidade. O personagem caçador foi mencionado no texto (5) duas vezes, sendo que uma vez para informar a propriedade da rede “rede de casador” e outra, na forma plural, para a descrição dos acontecimentos do enredo, em “os casadores foram pega o carro”. Quanto ao enredo, a exposição ou introdução foi escrita nas quatro primeiras linhas; a complicação ou desenvolvimento da quarta até a décima linha; o clímax ou conflito está na décima linha até a décima segunda linha e o desfecho ou conclusão na décima segunda linha, na sequência as duas últimas linhas comentam a moral da história. A floresta, espaço onde ocorreu a narrativa, foi mencionada explicitamente no texto. Além disso, há mais duas referências espaciais, uma no início da história: “de baixo da sombra de uma árvore” e “numa rede de caçador”. Além dos verbos no pretérito que expressam o tempo das ações da narrativa, a aluna utilizou outras palavras indicativas de tempo: “um dia”, duas vezes; “de repente” e “sempre”, uma vez. De modo geral, dos cinco textos analisados, quatro iniciaram com a expressão típica do início das histórias infantis “era uma vez”, com exceção de (1) que iniciou expondo: “O leão estava dormindo”; e dois terminaram com a expressão canônica dos finais dos contos de fadas “para sempre”, em (1) e (3). O texto (2) terminou com “o leão falou muito obrigado”, expressando sua gratidão ao ratinho e atribuindo ao leão uma atitude humana, cortês e educada; o texto (4) teve como fim “o leão e o ratinho foram melhores amigos”, enfatizando a amizade entre eles; e, diferente dos demais, no texto (5), a aluna incorporou a moral da história ao final do texto, escrevendo: “O leão e o rato pensaram que a força não é pelo tamanho sim pela coragem e foram grandes amigos”. Ainda que para Oliveira (2008, p. 107), a escolha do gênero fábula para ser trabalhado na escola, por apresentar uma lição moral explícita, “aponta para conteúdos explicitamente didático-moralistas”, os quais a autora denomina “literatura de dominação”, a maioria das crianças parecem ignorar a moral da fábula, pois dos cinco textos analisados apenas um incorporou a moral ao final do texto, nos demais não houve referência a este aspecto da fábula, de modo geral, ao escrever o texto, os alunos se detiveram nos personagens protagonistas e nos acontecimentos, observando a ordem linear e cronológica dos fatos do enredo. 5 Considerações finais A capacidade imaginativa da criança, capaz de dar vida aos objetos por meio da fantasia, é legitimada na literatura contemporânea. (OLIVEIRA, 2008, p. 135) O trabalho com textos literários, tal como a fábula focalizada neste trabalho, parece profícuo para o ensino e aprendizagem da escrita a crianças em processo de alfabetização, em contexto escolar. Quanto aos elementos da narrativa que as crianças apresentam em seus textos, questão central deste artigo, da análise pode-se inferir que os personagens e os acontecimentos se encontram no centro da observação da criança, pois os cinco textos analisados apresentaram os protagonistas da fábula e os principais acontecimentos do enredo, sem alterar a ordem em que foram apresentados no texto que motivou a produção. No entanto, foi o leão o personagem mais mencionado, o que nos remete a uma questão ideológica, por ser o leão o personagem supostamente mais forte, por ser maior, em sua estatura, enquanto traço marcante do personagem, o que poderia motivar a criança a fazer uso de um narrador parcial e assim manifestar sua preferência e identificação com o personagem. De acordo com Bakhtin (2009, p.47) “os temas e as formas da criação ideológica crescem juntos e constituem no fundo as duas facetas de uma só e mesma coisa”. Quanto à quantidade de linhas, o texto de menor quantidade foi escrito em sete linhas e o de maior em catorze linhas. Em relação à extensão do texto, a criança, por ainda se encontrar em processo de alfabetização e aprendizagem da língua escrita, “pode não ter a sua disposição os elementos linguísticos necessários para a expressão das informações que deseja veicular” (BRUM-DE-PAULA et al, 2013, p.266), o que justificaria a predominância de textos curtos. Independentemente de sua extensão, personagens e os elementos do enredo apareceram em todos eles: exposição ou introdução, complicação ou desenvolvimento, clímax ou conflito, desfecho ou conclusão, com variação nos detalhes da história apresentados em cada parte. No entanto, o tempo e o espaço da narrativa nem sempre apareceram nos textos das crianças de modo explícito. Neste caso, para que produzam textos cada vez mais completos os aspectos não observados devem ser trabalhados, tais como o tempo e o espaço da narrativa. Por fim pode-se reiterar o pressuposto de que é a leitura em voz alta de textos narrativos, tal como a fábula, pelo professor a uma turma de alunos, uma metodologia de andaimagem suscetível de criar condições para que as crianças aprendam a escrever textos, uma vez que quando escrevem seu texto próprio a partir do texto ouvido apresentam um texto com sentido completo em sua forma e temática, no qual constam, principalmente, personagens e enredo. Em relação aos elementos ausentes, tempo e espaço, há de se considerar o processo de aprendizagem no qual a criança se encontra e continuar, no contexto da sala de aula, proporcionando as condições didáticas favoráveis para que escrevam textos cada vez mais elaborados. Referências ABRAMOVICH, F. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1989. ALVES, M. Como escrever teses e monografias: um roteiro passo a passo. 2.ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007. AMARILHA, M. Alice que não foi ao país das maravilhas: educar para ler ficção na escola. São Paulo: L F Editorial, 2013. BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 15.ed. São Paulo: Hucitec, 2009. BARTHES, R. O prazer do texto. 4.ed. São Paulo: Perspectiva, 2004. BECHARA, E. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. BRUM-DE-PAULA, M. R.; CASERO, K. T. B.; DIAS-CAVALHEIRO, B. S. A referência ao tempo em textos narrativos de crianças e adolescentes aprendizes do português brasileiro. Revista Prolíngua. v. 8, n. 2, jul/dez 2013.p. 258-270. BRUNER, J. Realidade mental, mundos possíveis. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. COLOMER, T. Andar entre livros: a leitura literária na escola. São Paulo: Global, 2007. GANCHO, C. V. Como analisar narrativas. 5. ed. São Paulo: Ática, 1998. HOUAISS, A. Minidicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010. MASSINI-CAGLIARI, G. O texto na alfabetização: coesão e coerência. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2001. OLIVEIRA, M. A. A literatura para crianças e jovens no Brasil de ontem e de hoje: caminhos do ensino. São Paulo: Paulinas, 2008. SOLÉ, I. Estratégias de leitura. 6. Ed. Porto Alegre: Artmed, 1998. TEBEROSKY, A. Aprendendo a escrever: perspectivas psicológicas e implicações educacionais. São Paulo: Ática, 1994. TRESCASTRO, L. B. Da leitura para a escrita: um procedimento metodológico para a escrita de texto na alfabetização. Entrepalavras, v.4, n.2, jul/dez 2014. p. 147-165. TRESCASTRO, L. B.; SILVA, C. V. Narrativas infantis: a interlocução entre a recepção oral e a produção escrita no 3º ano do ensino fundamental de 9 anos. Linha Mestra, n.24, jan/jul 2014. p. 2066-2070. VIGOTSKI, L. S. Imaginação e criação na infância. São Paulo: Ática, 2009.