ISSN: 1984 - 2864
ESTÁCIO DE SÁ
CIÊNCIAS HUMANAS
Revista da Faculdade Estácio de Sá de Goiânia
SESES - GO
VOL. 01, Nº 04. Set. 2010/Dez. 2010
Ficha Catalográfica da Revista
LOPES, Edmar Aparecido de Barra e.
Revista de Ciências Humanas da Faculdade Estácio de Sá de
Goiás- FESGO. Goiânia, GO, v.01, nº04, Set.2010/Set. 2010.
Nota: Revista da Faculdade Estácio de Sá de Goiás – FESGO.
I. Ciências Humanas. II- Título: Revista de Ciências
Humanas. III. Publicações Científicas.
CDD 300
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação ( CPI)
Faculdade de Goiás
Catalogação na Fonte / Biblioteca FAGO
Jacqueline R.Yoshida – Bibliotecária – CRB 1901
ESTÁCIO DE SÁ
CIÊNCIAS HUMANAS
FACULDADE ESTÁCIO DE SÁ DE GOIÁS – FESGO
VOLUME 1-1, N. 04, Set. 2010/Dez. 2010.
PERIODICIDADE: SEMESTRAL.
ISSN: 1984 - 2864
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SUMÁRIO
Artigos
08 - 33
34 - 48
49 - 61
62 - 75
76 - 90
91 - 104
105 - 121
122 - 133
134 - 157
158 - 159
Turismo e patrimônio cultural em Pirenópolis: a estruturação do campo
Juliana de Pina Mendonça
O camundongo no país das maravilhas: o poder na revolução cubana a partir
da visão do exilado cubano Carlos Franqui
Rafael Saddi Teixeira
Contradições do modo capitalista de produção de alimentos
Nildo Viana
Regime de acumulação integral e criminalização do lumpemproletariado
Lisandro Braga
História da juventude: aspectos teórico-metodológicos
Renato Dias de Souza
A formação de trabalhadores rurais pela comissão pastoral da terra – CPT
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Os rebeldes sem causa: problemas sociológicos nas primeiras pesquisas sobre
a juventude
Denise Gisele de Britto Damasco
Fausta Porto Couto
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A percepção geográfica da paisagem em Morte E Vida Severina de João
Cabral de Melo Neto
José Elias Pinheiro Neto
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O acidente de Goiânia com o césio 137: um olhar sobre o impacto social e
sobre o meio ambiente
Ieda Rubens Costa
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ARTIGOS
Estácio de Sá – Ciências Humanas
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 04, 08-33, Set. 2010/Dez. 2010.
TURISMO E PATRIMÔNIO CULTURAL EM PIRENÓPOLIS:
A ESTRUTURAÇÃO DO CAMPO
Juliana de Pina Mendonça
Resumo:
Abstract:
Esse artigo se propõe a analisar as mudanças
causadas pelo turismo sobre a vida social em
Pirenópolis, uma vez que essas transformações vêm
atingindo os aspectos material e simbólico da vida
cotidiana. Isso ocorre porque o turismo proporciona
novas práticas, que surgiram a partir de uma
estrutura preexistente, isto é, das tradições locais
mantidas pelos moradores nativos. O turismo tende a
se tornar, então, uma atividade economicamente
organizada na cidade, já que esta vem sendo
planejada através das políticas públicas tanto federais
e estaduais como municipais. No entanto, a
indefinição, ou ao contrário, a diversidade de
conceitos, a falta de consenso e equívocos a respeito
do que venham a ser certos termos como
desenvolvimento
sustentável,
preservação
e
conservação prejudicam uma formulação mais
consistente do conceito do turismo sustentável
gerando ambiguidades, contradições e confusões de
significados, pois tais conceitos deveriam incluir,
além do aspecto econômico, não só o meio ambiente
e as demandas sociais, como também a cultura das
localidades turísticas receptoras. Desse modo, tornase necessário compreender como o fenômeno do
turismo, uma vez instituído em Pirenópolis,
configura novos agentes, inclusive heterônomos,
que, através de sua ação, estruturam novas práticas e
geram a mudança tanto no aspecto material como no
simbólico.
This article is proposed to analyse the changes
caused by the tourism on the social life in
Pirenópolis, as soon as these transformations are
reaching the material and symbolic aspects of the
daily life. That takes place because the tourism
provides new practices, which appeared from a
structure préexistente, i.e. of the local traditions
maintained by the native residents. The tourism
has a tendency to become an activity
economically organized in the city, as soon as
this one is planned through the public politics so
much federal and state and municipal. However,
the vagueness, or on the contrary, the diversity of
concepts, the lack of consensus and mistakes as
to what they become certain terms like
sustainable development, preservation and
conservation damage a formulation more solid of
the concept of the sustainable tourism producing
ambiguities, contradictions and confusions of
meanings, since such a concept should include,
besides the economical aspect, not alone the
environment and the society, but also the culture
of the tourist towns receivers. In this way, one
makes necessary to understand how the
phenomenon of the tourism, once set up in
Pirenópolis, shapes new agents, including
heterônomos, what, through his action, structure
new practices and produce the change both in the
material aspect and in the symbolic one.
Palavras-chave:
Key-words:
Sociologia. Turismo. Sociologia
Patrimônio Cultural. Pirenópolis.
do
Turismo.
Sociology. Tourism. Sociology of the Tourism.
Cultural Heritage. Pirenópolis.
DESCRIÇÃO DE PIRENÓPOLIS
Pirenópolis é uma cidade histórica que surgiu no início do século XVIII, por conta
da mineração em Goiás. Sua área territorial é de 2.227,793 km² (SEPIN/GO, [2007]).
Atualmente, o município é formado pela sede urbana e também pela zona rural que, por sua
vez, é composta pelo distrito de Lagolândia (1920), pelos povoados de Caxambú (1948) e

Graduada em Ciências Sociais/UFG (2005). Licenciatura em Sociologia/UFG (2008). Mestre em Sociologia/UFG
(2008).
9
MENDONÇA, Juliana de Pina. Turismo e patrimônio cultural em Pirenópolis: a estruturação do campo
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Jaranápolis (1965) e pelos aglomerados de Santo Antônio (1734), Capela de Sant‟Ana do Rio
do Peixe (século XVIII), Índio (1935), Placa (1951), Radiolândia (1952), Bom Jesus (anos
60) e Goianópolis (antiga Malhador, em 1963) (CURADO, 1978; SEPIN/GO, [2007]).
Pirenópolis possui aproximadamente de 21.245 habitantes, sendo 12.475 morando
na zona urbana e 8.770 na zona rural, com 11.049 o número de homens e 10.196 o número de
mulheres (Censo IBGE, 2000 apud SEPIN/GO, [2007]). Sua principal atividade econômica é
a indústria do tipo extrativista-mineral (“Pedras de Pirenópolis”), seguida pela pecuária –
criação de gado para corte, equino e suinocultura; produção leiteira – e o cultivo na
agricultura – milho, banana, mandioca, tomate e abacaxi, maracujá, limão, arroz, cana de
açúcar. Já o extrativismo da borracha é uma atividade recente na cidade (SIQUEIRA, 2004;
PIRENÓPOLIS, [2007]).
Pirenópolis é, hoje, também um município turístico, devido à beleza da cidade,
rica em prédios históricos, tradições, paisagem natural, manifestações culturais, destacando-se
as festas religiosas (Festa do Divino e as Cavalhadas, dentre outras), a gastronomia, as
comunidades alternativas, as jóias em prata, etc.
Com tudo isso, o turismo – dos tipos: ecológico, histórico, esportivo, de eventos,
cultural, pedagógico – já representa a terceira atividade econômica de maior importância para
a cidade, que possui boa infra-estrutura (hotéis, restaurantes, serviços) para atender à demanda
turística. Além disso, Pirenópolis conta com a indústria alimentícia (queijo, cachaça,
frigorífico, panificadoras, produtos caseiros: doces, licores, biscoitos e vinhos com frutos do
cerrado), fábrica de móveis, vestuário, tecelagem, confecção, olarias e construção civil. Outra
atividade forte diz respeito ao rico artesanato pirenopolino e também ao seu comércio interno
de bens e serviços. (CURADO, 1978; PIRENÓPOLIS, [2007]).
POLÍTICAS DE TURISMO: TRADE, MEIO AMBIENTE, SOCIEDADE E CULTURA
Com a industrialização do Brasil nos anos 1930, a sociedade se tornou mais
urbana do que rural segundo Rocha Neto (1998). Desse modo, o Estado começou a atuar no
planejamento das cidades por causa de seu acelerado crescimento populacional, processo que
resultou na segregação espacial entre ricos e pobres, principalmente nas cidades litorâneas.
Assim, os bairros nobres localizados próximos às belas paisagens naturais passam a receber
uma maior atenção por parte das políticas do governo, uma vez que o turismo se instala e
desenvolve. Surge, portanto, um turismo financiado pelo Estado, pois este fornece infraestrutura e serviços aos empresários do turismo. Daí, o imposto pago pela coletividade é
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MENDONÇA, Juliana de Pina. Turismo e patrimônio cultural em Pirenópolis: a estruturação do campo
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investido em áreas com potencialidades turísticas com o intuito de valorizá-las, sendo que a
população local não tem acesso a esses lugares. Com isso, megaprojetos hoteleiros como os
resorts começaram a se instalar primeiramente nas grandes e, em seguida, nas pequenas
cidades. Com relação a essas últimas, esses resorts, além de ser incompatível com a realidade
local, não se integram a ela, pois as excluem através do processo especulativo que é gerado.
Para se desenvolver, o turismo precisa se apropriar da natureza e da cultura de
uma localidade, pois esses funcionam como insumos para a atividade turística explorar,
investir e vender através do marketing (BINFARÉ, [2005]). Desse modo, o turismo surgiu em
Pirenópolis explorando primeiramente a cultura imaterial, e isso se deve exclusivamente à
apresentação das cavalhadas (BARBOSA, 1992, p.71), como foi analisado anteriormente.
De acordo com Batista (2002) e Silva (2001), as primeiras políticas públicas de
turismo de Pirenópolis foram criadas na época da ditadura em meados dos anos 1960. Desse
modo, tais políticas eram centralizadoras e com ausência de representatividade, visando
apenas a ampliação e a melhoria da infra-estrutura hoteleira. Em 1972, surge a EMBRATUR
(Empresa Brasileira de Turismo), um instituto responsável em planejar o turismo. No entanto,
os Planos Urbanístico/Turísticos dessa época revelam, segundo Rocha Neto (1998), que as
políticas de turismo, além de isoladas e descoordenadas, não tinham conhecimento cientifico
sobre a realidade das localidades turísticas, se preocupando apenas em explorar e organizar
comercialmente os espaços destinados ao lazer, o que exigia a produção de equipamentos e
serviços coletivos. Nesse mesmo ano foi criada a GOIASTUR (Superintendência de Turismo
de Goiás), uma empresa de turismo para o estado de Goiás, que desde então, se envolveu na
organização da Festa do Divino e das cavalhadas patrocinando-as (SILVA, 2001 p.155).
De acordo com Silva (2001), a prefeitura local começou a investir no turismo da
cidade naquela época com o intuito de aumentar a renda municipal e atrair indústrias para a
região. Assim, investia em infra-estrutura, oferecia isenções aos empresários e até aprovou a
aquisição de um terreno para a construção de um hotel municipal em 1968. Observa-se, aqui,
a preocupação da prefeitura local em promover o turismo cultural já que a imagem externa de
Pirenópolis estava cada vez mais associada às cavalhadas. Na década de 1970, os
investimentos públicos da prefeitura se tornaram mais explícitos, pois passou a investir
também na parte folclórica da Festa do Divino. Assim, a verba destinada aos serviços urbanos
era revertida para a promoção do turismo na cidade (ibid.). Ainda nessa década, é criada a
PIRETUR pela prefeitura.
Já a GOIASTUR passou a investir nas cavalhadas a partir de 1973. Essa empresa
do Governo de Goiás tinha como metas, de acordo com seu estatuto, substituir ou
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complementar a iniciativa privada. Havia, portanto, a preocupação em articular o patrimônio
cultural, isto é, o histórico (monumentos) e o folclore aos atrativos naturais para o turismo. Ou
melhor, patrimônio natural e patrimônio cultural (material e imaterial) com o mercado.
Nota-se nesse período o processo de consagração das cavalhadas pelo poder
público local como símbolo da identidade pirenopolina e base da propaganda para o turismo
cultural, e também, pela GOIASTUR. Essa foi a tendência das políticas públicas municipal e
estadual até a atual década.
Nos anos 1990, ocorreram algumas mudanças na política internacional do turismo
que refletiram na esfera nacional (MENDONÇA, 2003). Por um lado, surgiu a ideia de
desenvolvimento sustentável, conceito que passa a ser aplicado ao planejamento do turismo
enquanto atividade econômica e, por outro, houve a descentralização das políticas que
propiciaram a transferência de decisões e responsabilidades para a esfera municipal.
O desenvolvimento sustentável tem sua origem na Agenda 21 Global, trata-se de
um plano de ação para ser adotado global, nacional e localmente, por organizações do sistema
da ONU (Organização das Nações Unidas), por governos (200 países) e pela sociedade civil,
em todas as áreas em que a ação humana impacta o meio ambiente. Assim, um acordo foi
firmado durante a realização a CNUMAD (Conferência das Nações Unidas sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento), no Rio de Janeiro, em 1992, também conhecida como ECO92, cujo intuito era propor um novo paradigma de desenvolvimento, combinando
sustentabilidade ambiental, social e econômica (PELLEGRINI FILHO, 1993). Ou seja, o
desenvolvimento sustentável se limitava ao uso responsável da natureza para promover o
crescimento econômico e o desenvolvimento social, conceito esse que foi incorporado ao
turismo pela OMT/ONU (Organização Mundial de Turismo/Organização das Nações Unidas),
o que gerou o turismo sustentável, que se aplica ao ecoturismo e ao turismo de natureza
(ecológico), uma vez que são realizados em áreas verdes (montanha, trekking, rafting,
aventura) (PELLEGRINI; TULIK apud BARRETTO, 1997 p.119). A OMT passa, então, a
adotar o conceito de turismo sustentável em seu “Código Mundial de Ética do Turismo”
(OMT, 1999) a partir de 1999. Isso fica claro, por exemplo, no primeiro artigo do item 3 desse
código, cujo titulo é “O turismo, fator de desenvolvimento sustentável”:
É dever de todos os agentes envolvidos no desenvolvimento turístico, salvaguardar o
ambiente e os recursos naturais, na perspectiva de um crescimento econômico sadio,
contínuo e sustentável, capaz de satisfazer equitativamente as necessidades e as
aspirações das gerações presentes e futuras.
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MENDONÇA, Juliana de Pina. Turismo e patrimônio cultural em Pirenópolis: a estruturação do campo
Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01,
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Ainda em 1996, dois programas foram criados no âmbito nacional
(MENDONÇA, 2003), o “Programa de Municipalização do Turismo” e as “Diretrizes para a
Política Nacional de Ecoturismo”. O primeiro propunha conscientizar a população de que o
turismo pode gerar benefícios econômicos, sociais e ambientais à localidade se houver
planejamento e gerenciamento da atividade através da articulação das esferas regional,
nacional e internacional. Já o outro programa, elaborado pela EMBRATUR com a
participação do MMA, tinha por objetivos promover a educação ambiental e também propor o
uso sustentável do meio ambiente pelo turismo, buscando atingir o equilíbrio entre a
exploração e a manutenção do meio ambiente, numa perspectiva conservacionista21. Para isso
seriam necessárias tanto a cooperação interinstitucional, como a participação dos segmentos
atuantes do turismo. Com o surgimento do CBTS (Conselho Brasileiro de Turismo
Sustentável), em 2002, a sustentabilidade passa a ser aplicada também ao patrimônio cultural
e não só ao meio ambiente como anteriormente. Essa definição contempla o significado
utilizado pelo IPHAN ([2007]) que diz:
O patrimônio cultural não se restringe apenas a imóveis oficiais isolados, igrejas ou
palácios, mas na sua concepção contemporânea se estende a imóveis particulares,
trechos urbanos e até ambientes naturais de importância paisagística, passando por
imagens, mobiliário, utensílios e outros bens móveis. O patrimônio.
O patrimônio material protegido pelo IPHAN é composto por um conjunto de bens
culturais classificados segundo sua natureza nos quatro Livros do Tombo:
arqueológico, paisagístico e etnográfico; histórico; belas artes; e dasartes aplicadas.
Eles estão divididos em bens imóveis como os núcleos urbanos, sítios arqueológicos
e paisagísticos e bens individuais; e móveis como coleções arqueológicas, acervos
museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos
e cinematográficos.
A Unesco define como Patrimônio Cultural Imaterial as práticas, representações,
expressões, conhecimentos e técnicas e também os instrumentos, objetos, artefatos e
lugares que lhes são associados e as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os
indivíduos que se reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural. O
Patrimônio Imaterial é transmitido de geração em geração e constantemente recriado
pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a
natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade,
contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade
humana.
Em 2000, a GOIASTUR foi substituída pela AGETUR, mas o conceito de turismo
sustentável só foi adotado em 2002, época em que foi lançado, em parceria com o
SEBRAE/GO, o “Programa Caminhos de Goiás” que dividia o estado de Goiás em quatro
regiões turísticas de acordo com seus atrativos. Assim surgiram as regiões do Caminho do
Sol, do Caminho das Águas, do Caminho do Ouro e do Caminho da Biosfera (ECONOMIA
& DESENVOLVIMENTO, 2006). E dois anos depois, em 2004, o MTur (Ministério do
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Turismo) lança o Programa de Regionalização do Turismo-Roteiros do Brasil que serviu para
redefinir as regiões turísticas de Goiás que de quatro passaram para nove, segundo a aplicação
do conceito de regionalização que se baseia na divisão do espaço geográfico com
características e potencialidades similares e complementares capazes de serem articuladas e
trabalhadas de forma integrada.
Dessas nove regiões, cinco foram identificadas como regiões turísticas
prioritárias, pois já possuíam produtos turísticos estruturados, necessitando desse modo
apenas de promoção e apoio à comercialização. Assim, fazem parte dessa categoria as
regiões: das Águas, dos Negócios, do Ouro, da Reserva da Biosfera Goyaz e do Vale do
Araguaia. Daí surgiram termos de cooperação técnica com as instituições de ensino superior
para apoiar ações de gestão coordenada, planejamento participativo e promoção e
comercialização para tais regiões.
Pirenópolis está inserida na “Região do Ouro” junto com outros municípios
goianos, como Abadiânia, Alexânia, Cidade de Goiás, Cocalzinho de Goiás, Corumbá de
Goiás, Jaraguá, Olhos D‟Água e Vila Propício, e possui, como atrativos, o patrimônio
histórico, as manifestações religiosas, o folclore, o ecoturismo, etc (AGETUR [2007]). Desde
então, a AGETUR vem atuando ativamente em Pirenópolis, seja apoiando (o Canto da
Primavera, em 2000; o desfile da Escola de Samba Caprichosos de Pilares, em 2001, no Rio
de Janeiro, cujo tema foi o Estado de Goiás; a novela “Estrela Guia” da Rede Globo que teve
locações no município também em 2001; as cavalhadas), criando projetos (Festival
Gastronômico de Pirenópolis, em 2003), realizando pesquisas (sobre o comportamento do
turista em Goiás), participando de feiras internacionais (levou as Cavalhadas para se
apresentar na França, em 2005 no evento “Ano do Brasil na França”), realizando o carnaval,
divulgando os destinos turísticos, promovendo uma maior regularização do setor turístico
(com o aumento dos cadastramentos das agências de viagem, meios de hospedagem,
transportadoras
turísticas
e
organizadoras
de
eventos),
etc
(ECONOMIA
&
DESENVOLVIMENTO, 2006). A AGETUR também faz parcerias Turismo, o CAT (Centro
de Atendimento ao Turista) e o posto do IPHAN, dentre outros, foram criados em Pirenópolis.
No âmbito municipal, houve a criação do COMTUR (Conselho Municipal de
Turismo) em 1997, propondo-se a “orientar, promover e emitir suas gestões para o
desenvolvimento do turismo no município de Pirenópolis”, sendo que tal conselho seria
composto, de acordo com o artigo 2, “por 11 (onze) membros, nomeados pelo Prefeito após
indicação dos representantes das entidades constituídas”. Esse artigo foi alterado em 2004.
Assim, o COMTUR passa a ser “composto por 5 (cinco) representantes de órgãos públicos e
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06 (seis), todos com suplentes, de entidades afins, representativas da sociedade”. Mas o
COMTUR só passou a atuar em abril 2006, quando foi homologado, dando validade ao artigo
2. Desse modo, as vagas do conselho destinadas a representantes de órgão públicos são
preenchidas pela AGEPEL, IPHAN, Secretaria Municipal de Turismo, Secretaria Municipal
de Agricultura e a UEG. Já as demais vagas são distribuídas para representantes de
organizações não-governamentais, tais como a AGERP (Associação de Geração de Emprego
e Renda de Pirenópolis), COEPI (Comunidade Educacional de Pirenópolis), Grupo Renascer,
ACVP (Associação dos Condutores de Visitantes de Pirenópolis) e Associação Rádio Jornal
Meia-Ponte (PIRENÓPOLIS [2007]).
Ainda em 2006, houve outra alteração do artigo 2 que, por sua vez, definia que “o
conselho terá 11 (onze) membros, 5 (cinco) do Governo Municipal e 6 (seis) do setor
turístico, pessoas físicas ou jurídicas”. Desse modo, a Secretaria de Cultura e Turismo,
Secretaria de Agricultura e Proteção ao Meio Ambiente, UEG, AGEPEL e IPHAN compõem
as vagas do governo, sendo que as demais foram distribuídas entre os representantes do trade
turístico, ou seja, setor de hotéis, pousadas e similares, ACVP, proprietários de restaurantes,
bares, lanchonetes e similares, proprietários de atrativos turísticos, proprietários de agências
de turismo e receptivos e, por último, os artesãos e lojistas. Em junho de 2007 houve então a
aprovação da “Lei de Alteração do COMTUR” pela prefeitura que permite uma “maior
participação do setor turístico”. Atualmente as “Ações do COMTUR” estão sendo realizadas
com a coordenação da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo e com as parcerias da:
ACISAP (Associação Comercial, Industrial, Serviços e Agropecuária de Pirenópolis), ACVP,
AGETUR, ONGs, SEBRAE/GO, CNTur (Confederação Nacional de Turismo), SENAC
(Serviço Nacional do Comércio), Trade (setor turístico local), UDEP (Unidade
Descentralizada de Ensino Profissionalizante) (ibid.).
Com a nova política nacional de turismo, os Convention Bureau terão uma
prioridade no repasse de verbas federais (PIRENÓPOLIS, [2007]). Na composição da
estrutura de tal associação estão presentes os maiores e mais importantes empresários do ramo
turístico, da hotelaria, da alimentação, do comércio, atrativos, artesanato e do segmento de
pedra. Assim, tem-se a Diretoria Provisória composta por um presidente e quatro vicepresidentes (administrativo e financeiro, captação e projetos, comunicação e marketing,
eventos e feiras, e o institucional); e o Conselho Deliberativo que é composto por três
representantes dos meios de hospedagem, três dos bares, restaurantes e similares, três do
comércio e indústria, dois dos atrativos, um das agências de viagens, um do transporte em
turismo, um do governo municipal e um do poder legislativo municipal.
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MENDONÇA, Juliana de Pina. Turismo e patrimônio cultural em Pirenópolis: a estruturação do campo
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Uma pesquisa do SEBRAE (2005) revela que está havendo o estabelecimento de
parcerias entre os empresários do turismo de Pirenópolis, ainda que seja uma minoria de 20%.
Nota-se, portanto, que os empresários do turismo estão se organizando para estruturar o trade
em Pirenópolis, contando ainda com o interesse e parcerias de outros setores da economia
(agricultura, indústria, comércio e serviço), já que supermercados, postos de gasolina,
farmácias, lanhouses, dentre outros estabelecimentos comerciais, que não são voltados
exclusivamente para os turistas, tendem a desfrutar dos benefícios do turismo indiretamente.
Nesse sentido, ações governamentais no âmbito nacional, estadual e, recentemente, municipal
vêm criando e desenvolvendo políticas públicas de turismo. Assim, o turismo praticado em
Pirenópolis está se organizando para deixar de ser amador, espontâneo e aleatório devido a
importância que a atividade vem assumindo na cidade.
PATRIMÔNIO HISTÓRICO
A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário (1728) foi o primeiro bem material
de Pirenópolis a ser tombado pelo IPHAN, de acordo com Silva (2001). Os primeiros reparos,
reformas e restauros na igreja eram feitos pelos próprios padres e pela Irmandade do
Santíssimo Sacramento, criada em 1734, tarefa assumida pelo IPHAN, a partir de 1941,
através de intervenções de políticas públicas de preservação do patrimônio cultural, durante o
mandato do presidente Getúlio. Com sua ideologia nacionalista este governo tinha uma
ideologia nacionalista, aspecto esse que refletiu diretamente nas políticas culturais, pois
Vargas pretendia inventar uma identidade para o Brasil (TAMASO, 2002).
Assim, 1937 se torna a data oficial do surgimento das primeiras políticas de
preservação do patrimônio em nível nacional, cuja tarefa era reunir passado, tradição e
história para construir uma nacionalidade para o país. Nesse sentido, o SPHAN (Serviço de
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) procurou fazer um levantamento de bens históricos
e artísticos que seriam escolhidos como representantes da cultura nacional e, a partir daí,
passariam a ser preservados pelas políticas públicas nacionais (SILVA, 2001).
O governo varguista (TAMASO, 2002) pretendia também “disciplinar” o povo
brasileiro no sentido de impor regras, já que políticas de preservação do patrimônio envolvem
o exercício da cidadania na proteção dos bens históricos e artísticos. A partir daí vários
prédios, lugares e cidades com valores históricos, artísticos ou culturais passaram a ser
tombados, isto é, passaram a ser apropriados e reconhecidos pelo governo federal como
patrimônio da coletividade. Assim, se um bem particular possui algum valor que sirva para
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MENDONÇA, Juliana de Pina. Turismo e patrimônio cultural em Pirenópolis: a estruturação do campo
Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01,
Nº 04, 08-33. Set.2010/Dez. 2010.
identificar a nação ele é transformado em patrimônio público pelo governo, sendo que a
propriedade privada é defendida e protegida pelas leis do Estado moderno.
De acordo com Tamaso (2002), a questão do direito envolve também a cultura,
pois o patrimônio passou a adquirir um valor cultural, além dos valores histórico e artístico.
Isso se deve, segundo a autora, ao desenvolvimento da antropologia no final do século XIX,
que, por sua vez, passou a reconhecer outros valores culturais através do relativismo, o que
resultou na inclusão da cultura nas políticas públicas preservacionistas. Assim, os direitos
culturais que também são direitos humanos se tornam os fundamentos de uma nova forma de
legitimar as políticas de preservação que acabam revelando antagonismos sociais no que diz
respeito, por exemplo, ao direito que protege a propriedade privada ou então a luta entre
diferentes esferas pelo reconhecimento e consagração de bens culturais a serem preservados.
Segundo Silva (2001), o processo de patrimonialização em Pirenópolis começou
nos anos 1940 e foi até o fim da década 1980. Em 1941 (MATRIZ DE PIRENÓPOLIS,
[2007]) a cidade foi considerada monumento nacional através do tombamento da Igreja
Matriz de Nossa Senhora do Rosário, que serviu para incluí-la no patrimônio histórico e
artístico nacional. Com isso, a Matriz deixa de ser patrimônio da Igreja para se tornar um
patrimônio público e, portanto, ficar sob o domínio do Estado. Em 1941, a Matriz foi tombada
e alguns anos depois, em 1947, recebeu o título de monumento nacional por ser o mais antigo
templo católico do estado de Goiás em funcionamento desde a época do ouro (IPHAN, 2007;
SILVA, 2001 p. 135).
O patrimônio passou, então, a ser uma questão importante já que a reforma da
Matriz envolvia questões como a renda e os bens da própria Igreja. Logo, o processo de
romanização22 da Igreja foi um dos fatores que influenciaram o tombamento da Matriz. Em
1947, a Matriz foi reformada pelo SPHAN, mas recebeu inúmeras criticas dos padres que
consideravam a política de tombamento contraditória, pois a reforma na realidade se tratava
apenas de alguns reparos para que o patrimônio pudesse continuar existindo, já que o
investimento não era suficiente. Segundo essas, em poucos anos, o prédio já se encontrava em
estado deplorável. Esse episódio representa a primeira manifestação de conflito entre o poder
político e o poder religioso, já que a Matriz não era mais patrimônio privado e sim público, e
os padres sentiram isso como uma ameaça ao seu poder. Nessa época, os padres reclamavam
da falta de conhecimento das tradições dos técnicos do SPHAN ao se referirem à mudança de
lugar das imagens antigas e novas (SILVA, 2001).
Nos anos 1960 muitos foram os conflitos envolvendo o patrimônio da Igreja e as
políticas de preservação. Um fato de tensão diz respeito ao largo da Matriz que foi e ainda é
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alvo de disputas entre o poder religioso por um lado, e o poder político em seus vários níveis,
por outro. O largo da Matriz é um espaço que fica atrás da igreja e que durante muito tempo
serviu como espaço de interação para os pirenopolinos, uma vez que era ali que os moradores
se reuniam por ocasião das quermesses e leilões e onde eram montadas as barraquinhas de
festas religiosas.
Fora ali também que tinha acontecido, por muitos anos, a apresentação das
cavalhadas, a montagem dos camarotes das famílias, além da apresentação de peças de teatro
por ocasião da Festa do Divino. As cavalhadas se apresentaram no local até 1958. Assim, o
ritual voltou a ser apresentado na cidade apenas em 1966, quando foi transferido para um
campo de futebol (ibid.).
Como o largo da Matriz estava sendo pouco aproveitado, o padre viu a
possibilidade de construir uma casa paroquial e um edifício para o conjunto em um A Igreja
Matriz de Nossa Senhora do Rosário (1728) foi o primeiro bem material de Pirenópolis a ser
tombado pelo IPHAN, de acordo com Silva (2001). Os primeiros reparos, reformas e
restauros na igreja eram feitos pelos próprios padres e pela Irmandade do Santíssimo
Sacramento, criada em 1734, tarefa assumida pelo IPHAN, a partir de 1941, através de
intervenções de políticas públicas de preservação do patrimônio cultural, durante o mandato
do presidente Getúlio. Com sua ideologia nacionalista este governo tinha uma ideologia
nacionalista, aspecto esse que refletiu diretamente nas políticas culturais, pois Vargas
pretendia inventar uma identidade para o Brasil (TAMASO, 2002).
Assim, 1937 se torna a data oficial do surgimento das primeiras políticas de
preservação do patrimônio em nível nacional, cuja tarefa era reunir passado, tradição e
história para construir uma nacionalidade para o país. Nesse sentido, o SPHAN (Serviço de
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) procurou fazer um levantamento de bens históricos
e artísticos que seriam escolhidos como representantes da cultura nacional e, a partir daí,
passariam a ser preservados pelas políticas públicas nacionais (SILVA, 2001).
O governo varguista (TAMASO, 2002) pretendia também “disciplinar” o povo
brasileiro no sentido de impor regras, já que políticas de preservação do patrimônio envolvem
o exercício da cidadania na proteção dos bens históricos e artísticos. A partir daí vários
prédios, lugares e cidades com valores históricos, artísticos ou culturais passaram a ser
tombados, isto é, passaram a ser apropriados e reconhecidos pelo governo federal como
patrimônio da coletividade. Assim, se um bem particular possui algum valor que sirva para
identificar a nação ele é transformado em patrimônio público pelo governo, sendo que a
propriedade privada é defendida e protegida pelas leis do Estado moderno.
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MENDONÇA, Juliana de Pina. Turismo e patrimônio cultural em Pirenópolis: a estruturação do campo
Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01,
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De acordo com Tamaso (2002), a questão do direito envolve também a cultura,
pois o patrimônio passou a adquirir um valor cultural, além dos valores histórico e artístico.
Isso se deve, segundo a autora, ao desenvolvimento da antropologia no final do século XIX,
que, por sua vez, passou a reconhecer outros valores culturais através do relativismo, o que
resultou na inclusão da cultura nas políticas públicas preservacionistas. Assim, os direitos
culturais que também são direitos humanos se tornam os fundamentos de uma nova forma de
legitimar as políticas de preservação que acabam revelando antagonismos sociais no que diz
respeito, por exemplo, ao direito que protege a propriedade privada ou então a luta entre
diferentes esferas pelo reconhecimento e consagração de bens culturais a serem preservados.
Segundo Silva (2001), o processo de patrimonialização em Pirenópolis começou
nos anos 1940 e foi até o fim da década 1980. Em 1941 (MATRIZ DE PIRENÓPOLIS,
[2007]) a cidade foi considerada monumento nacional através do tombamento da Igreja
Matriz de Nossa Senhora do Rosário, que serviu para incluí-la no patrimônio histórico e
artístico nacional. Com isso, a Matriz deixa de ser patrimônio da Igreja para se tornar um
patrimônio público e, portanto, ficar sob o domínio do Estado. Em 1941, a Matriz foi tombada
e alguns anos depois, em 1947, recebeu o título de monumento nacional por ser o mais antigo
templo católico do estado de Goiás em funcionamento desde a época do ouro (IPHAN, 2007;
SILVA, 2001 p. 135).
O patrimônio passou, então, a ser uma questão importante já que a reforma da
Matriz envolvia questões como a renda e os bens da própria Igreja. Logo, o processo de
romanização da Igreja foi um dos fatores que influenciaram o tombamento da Matriz. Em
1947, a Matriz foi reformada pelo SPHAN, mas recebeu inúmeras criticas dos padres que
consideravam a política de tombamento contraditória, pois a reforma na realidade se tratava
apenas de alguns reparos para que o patrimônio pudesse continuar existindo, já que o
investimento não era suficiente. Segundo essas, em poucos anos, o prédio já se encontrava em
estado deplorável. Esse episódio representa a primeira manifestação de conflito entre o poder
político e o poder religioso, já que a Matriz não era mais patrimônio privado e sim público, e
os padres sentiram isso como uma ameaça ao seu poder. Nessa época, os padres reclamavam
da falta de conhecimento das tradições dos técnicos do SPHAN ao se referirem à mudança de
lugar das imagens antigas e novas (SILVA, 2001).
Nos anos 1960 muitos foram os conflitos envolvendo o patrimônio da Igreja e as
políticas de preservação. Um fato de tensão diz respeito ao largo da Matriz que foi e ainda é
alvo de disputas entre o poder religioso por um lado, e o poder político em seus vários níveis,
por outro. O largo da Matriz é um espaço que fica atrás da igreja e que durante muito tempo
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MENDONÇA, Juliana de Pina. Turismo e patrimônio cultural em Pirenópolis: a estruturação do campo
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serviu como espaço de interação para os pirenopolinos, uma vez que era ali que os moradores
se reuniam por ocasião das quermesses e leilões e onde eram montadas as barraquinhas de
festas religiosas.
Fora ali também que tinha acontecido, por muitos anos, a apresentação das
cavalhadas, a montagem dos camarotes das famílias, além da apresentação de peças de teatro
por ocasião da Festa do Divino. As cavalhadas se apresentaram no local até 1958. Assim, o
ritual voltou a ser apresentado na cidade apenas em 1966, quando foi transferido para um
campo de futebol (ibid.).
Como o largo da Matriz estava sendo pouco aproveitado, o padre viu a
possibilidade de construir uma casa paroquial e um edifício para o conjunto em um terreno
anexo a Matriz. Em 1960, porém, aparecem os primeiros conflitos envolvendo o largo, uma
vez que foi neste ano, se deu a construção da sede do correio em um terreno que sempre fora
de direito da Igreja até seu tombamento em 1941, mas que foi doado pela prefeitura a União.
Havia também, nessa época, a pretensão da prefeitura em construir sua sede e o fórum em tal
espaço, já que o prefeito considerava o tal largo um bem público. Nesse sentido, se instaura o
conflito entre a Igreja, que se sentia lesada em seus direitos, a Prefeitura, pois considerava o
espaço público, e o IPHAN, que tinha o intuito de preservar as características originais do
largo (ibid.).
A Prefeitura, numa demonstração de poder, chegou a fazer uma doação em 1962
para a Igreja de uma parte do largo para que esta pudesse construir o salão paroquial, sendo
que o terreno sempre pertenceu a igreja Matriz. Esse episódio gerou protestos e reclamações
por parte dos moradores católicos contra os políticos. O apoio dos pirenopolinos católicos a
Igreja foi fundamental, pois, durante uma reunião com o padre, muitos deles (comerciantes,
vereadores, fazendeiros) fizeram doações grandes em dinheiro para dar início as obras da
construção do conjunto paroquial. A construção também recebeu reclamações do SPHAN na
época, exigindo que a Igreja paralisasse as obras sob pena de processo, fato esse ignorado
pelos padres. Alguns anos mais tarde a Prefeitura e a Igreja entram em acordo a respeito do
largo, isto é, ambos teriam que dividir o espaço meio a meio. A Igreja chegou a querer cercar
seu espaço para garantir e protegê-lo, mas como isso não foi possível começou a construir as
paredes do salão paroquial. Somente em 1967 é feita a mudança para a nova casa paroquial
(ibid.).
Em 2005, a Igreja entra em acordo com o MP (Ministério Público), Prefeitura e
IPHAN a respeito do largo da Matriz. Ficou estabelecido que o largo, onde se encontra
atualmente uma praça (desde 1965) será reconstruído pelo IPHAN para voltar a ser o que era
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MENDONÇA, Juliana de Pina. Turismo e patrimônio cultural em Pirenópolis: a estruturação do campo
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antigamente, sendo que o salão paroquial será refeito, conservando a parte antiga do prédio
para que os moradores católicos não fiquem privados de um local para a realização das missas
(REVISTA PEOPLE, [2007).
O terreno onde ficava a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída
pelos escravos em 1757 e destruída em 1940 pela prefeitura local, também pertencia a Igreja
Matriz. Em 1964, grupos particulares pretendiam construir no local um clube dançante, cujo
terreno fora doado pela prefeitura para tal empreendimento. Mas a construção do clube não
aconteceu devido a inúmeros protestos e conflitos entre os moradores, pois a Igreja estava
sendo novamente lesada em seu patrimônio e em seus direitos de posse sobre a propriedade
privada.
Em 1974, foi construída uma praça no local onde havia a antiga igreja, assim o
poder público mais uma vez vence a disputa com a Igreja. Hoje, a praça abriga uma feira de
artesanato que acontece aos sábados na cidade (SILVA, 2001).
Em 1976, a política de preservação do patrimônio atinge a esfera municipal com a
criação da Lei de Preservação do Patrimônio Histórico da cidade de Pirenópolis, que serviu
para definir o roteiro histórico a ser protegido pela prefeitura que mais tarde, em 1988, seria
tombado como monumento nacional pelo IPHAN e com outros códigos específicos. A partir
daí outros monumentos foram tombados, com exceção da Fazenda Babilônia que foi tombada
em 1965 pelo IPHAN. Já na década de 1990, o patrimônio histórico de Pirenópolis iniciou o
processo de revitalização através da parceria SOAP (1993) e IPHAN, adequando a cidade
para o turismo (BATISTA, 2002). Dentre os monumentos estão a Igreja de Nossa Senhora do
Carmo (tombada em 1988 e restaurada em 1998), Igreja de Nosso Senhor do Bonfim
(tombada em 1988 e restaurada em 1997), Theatro de Pirenópolis (tombado em 1988 e
reformado em 1999), Cine-Pireneus (tombado em 1985, foi reconstruído em 1999), ponte do
Rio das Almas reformada em 2000 e Casa de Câmara e Cadeia (tombada em 1988 e
restaurada entre 2006-2007). Houve, ainda, a implantação da fiação elétrica subterrânea no
centro histórico 2002 (ALMEIDA, 2006; PIRENÓPOLISTUR, [2007]; PIRENÓPOLIS,
[2007]; SILVA, 2001). Atualmente, o IPHAN participa também do planejamento e gestão da
política urbana do Plano Diretor de Pirenópolis (RESTARQ, [2008]; PLANO DIRETOR DE
PIRENÓPOLIS, [2008]). Este último aplica o conceito de sustentabilidade ao planejamento
da cidade, levando em conta não só o patrimônio cultural, mas também o meio ambiente.
Assim, busca-se um ideal de “cidade sustentável” (PLANO DIRETOR DE PIRENÓPOLIS,
[2008], p. 4). E, para se tornar uma cidade ecológica, é necessário implantar a Agenda 21
local em Pirenópolis (ibid. p. 20).
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MENDONÇA, Juliana de Pina. Turismo e patrimônio cultural em Pirenópolis: a estruturação do campo
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Desde que foi construída, a Matriz de Pirenópolis tem servido às práticas de cultos
católicos como missas, novenas, festas, casamentos, batizados, etc. Porém, nos últimos sete
anos, o prédio da igreja tem sido utilizado também para eventos não-religiosos e para
finalidades diversas. Em 1996, a igreja, segundo o Jornal Nova Era (1996), foi restaurada
pelas empresas Terra Engenharia, Construtora Biapó e Loba Arquitetos. Um projeto
elaborado pela SOAP e aprovado pelo IPHAN captou 210 mil reais para a obra que foi
patrocinada pela TELEBRÁS (Empresa Brasileira de Telecomunicações). Após a restauração
de 1996–1999 que contemplou a parte arquitetônica e elementos artísticos, a igreja serviu
como espaço para apresentações culturais, como aconteceu, por exemplo, durante a realização
do primeiro Festival de Inverno em Pirenópolis, em julho de 2002 (FOLHA ONLINE,
[2007]).
No dia cinco de setembro de 2002, um incêndio, inexplicável até hoje, destruiu a
Igreja Matriz. Assim, novamente a SOAP junto ao IPHAN fez um projeto para conseguir
verbas para a reconstrução da igreja que foi patrocinada pela CELG, BNDES (Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), CEF, PETROBRÁS (Petróleo Brasileiro
S.A.), e custou 5,5 milhões de reais e cujas obras foram realizadas, outra vez, pela empresa
Biapó (MATRIZ DE PIRENÓPOLIS, [2007]). Durante o período de sua reconstrução pósincêndio, entre 2003 e 2006, o IPHAN fez uma pesquisa entre os moradores da cidade para
saber como esses gostariam que ficasse a parte interna da Matriz, já que o fogo havia
consumido toda parte artística de seu interior.
Segundo a pesquisa, os pirenopolinos desejavam que a igreja se aproximasse ao
máximo do jeito que era anteriormente (GAZETA MATUTINA, 2005), mas como isso não
era possível, segundo os arquitetos do IPHAN, foi feito um “preenchimento de lacunas”, ou
seja, construir um novo acervo que fizesse lembrar o que era antes, sendo que algumas peças
teriam desenhos novos e outras se assemelhariam ao barroco. Assim, não foram feitas réplicas
a partir dos originais altares, adornos e imagens de santo (AGÊNCIA BRASIL, apud
GOIASNET, [2007]). Destaca-se apenas para o altar original da extinta Igreja de Nossa
Senhora do Rosário dos Pretos que serviu para substituir o altar-mor destruído pelo incêndio.
Com outra pesquisa o IPHAN procurou saber que uso social deveria ser feito com
o patrimônio reconstruído, ou seja, se o prédio continuaria a servir às práticas religiosas, ou se
seria transformado em espaço cultural ou em museu (REVISTA PEOPLE, [2007]). Embora
não se saiba qual tenha sido o resultado, os prédios tanto da Igreja Matriz de Nossa Senhora
do Rosário como também das Igrejas de Nosso Senhor do Bonfim e de Nossa Senhora do
Carmo passariam a ter dupla função, isto é, além de espaço para a prática dos cultos religiosos
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MENDONÇA, Juliana de Pina. Turismo e patrimônio cultural em Pirenópolis: a estruturação do campo
Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01,
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a igreja seria também lugar para educação, cultura e lazer que são proporcionados pelos
museus (BARRETTO, 2000, p. 66). Essa iniciativa resultou das negociações do atual
secretário regional de cultura de Pirenópolis com a Fundação São Miguel Arcanjo, da Diocese
de Anápolis (REVISTA PEOPLE, [2007]), cujo acordo visa transformar tais igrejas em
museus sacros, onde todo acervo documental religioso e artístico seria exposto em cada uma
delas. Assim, o culto religioso passaria a dividir seu espaço com as visitações públicas em que
os turistas têm que pagar um real. Essa iniciativa contempla, portanto, o item 4 do “Código
Mundial de Ética” da OMT (1999), “O Turismo, fator de “aproveitamento e enriquecimento
do Patrimônio Cultural da Humanidade”, que diz que:
4.3 As políticas e atividades turísticas serão desenvolvidas respeitando o patrimônio
artístico, arqueológico e cultural, que devem ser preservados e transmitidos às
gerações futuras. Uma atenção especial deve ser concedida à preservação e
restauração dos monumentos, santuários e museus, bem como de locais históricos e
arqueológicos, que devem estar abertos à frequência turística. Deve ser encorajado o
acesso do público aos bens e monumentos culturais privados, respeitando-se os
direitos dos seus proprietários, bem como aos templos religiosos, sem prejudicar as
necessidades de culto.
4.4 A atividade turística deve ser concebida de forma a permitir a sobrevivência e o
desenvolvimento de produções culturais e artesanais tradicionais, bem como do
folclore, e que não provoque a sua padronização e empobrecimento (ibid.).
Desde o incêndio, as missas da Matriz têm sido realizadas no salão paroquial,
prédio que fica atrás dessa igreja, porque os bancos haviam sido consumidos pelo incêndio de
2002. Ainda, assim, casamentos e as novenas da Festa do Divino voltaram a ser realizadas
dentro da Matriz após a sua reinauguração, em 2006 e, também, em 2007. Em março de 2008,
a Matriz recebeu bancos novos que foram doados por um pirenopolino. Assim, as missas
continuam a ser realizada no salão paroquial, mas algumas voltaram a ser celebradas na
Matriz, às quartas-feiras.
TURISMO
O turismo surgiu da separação entre trabalho e lazer, ou melhor, da relação entre
tempo ocupado e tempo-livre (URRY, 1996). No entanto, é preciso descrever qual o tipo de
trabalho, de tempo-livre e de lazer que são utilizados para caracterizar o fenômeno turístico e,
assim, poder justificá-lo como fenômeno moderno.
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MENDONÇA, Juliana de Pina. Turismo e patrimônio cultural em Pirenópolis: a estruturação do campo
Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01,
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Segundo Dumazedier (1999), sociólogo que estuda o lazer, o trabalho se
estruturou com a Revolução Industrial. Desse modo, esse tipo de trabalho passou a se autoregular independentemente da natureza (seca/chuva) e da religião (época de trabalhar/época
de recolher por causa dos feriados religiosos) e isso ocorreu também com o tempo-livre que
dele deriva. Logo, tempo-livre pressupõe a existência do tempo de trabalho e se relaciona a
ele. Já o lazer é praticado pela sociedade moderna durante o tempo-livre e, para tal, é preciso
levar em conta a livre escolha da pessoa.
No entanto, a existência do tempo-livre não é garantia de que a pessoa irá praticar
o lazer e o turismo, porque sua decisão poderá ser a de utilizar tal tempo disponível para fazer
outras coisas, como estudar, se ocupar com atividades políticas, compromissos familiares ou
sociais e, inclusive, trabalhar (URRY, 1996, BARRETTO, 1997).
Na sociedade industrial, a necessidade do lazer aparece como um meio de
descanso para repor as energias físicas e mentais através da diversão e de atividades
recreativas. Já o turismo surgiu da necessidade de evasão, ou seja, de fugir da vida cotidiana
organizada e regulada, da rotina, de ir para um lugar que se opõe ao trabalho (URRY, 1996).
Daí o turismo é caracterizado como uma atividade de lazer que foi praticada primeiramente
pela classe trabalhadora para fugir da alienação do trabalho das fábricas (ibid.). Assim, surge
na Inglaterra do século XIX o turismo como atividade economicamente estruturada com o
turismo de massa que, por sua vez é coletivo e de pacote (BARRETTO, 1997).
O turismo é um fenômeno socialmente determinado, assim, trata-se de uma
prática cultural (BARRETTO, 2007). Com a globalização, as culturas se tornaram turísticas.
Surge, assim, uma cultura do turismo no mundo ao mesmo tempo em que cada local possui
sua maneira própria de receber os turistas, incluindo, também, a forma como os turistas
praticam o turismo, ou seja, como preparam suas viagens, a maneira que se comportam nos
locais visitados, etc. A cultura do turismo envolve, ainda, as empresas, pois o turismo é
também um negócio. Desse modo, a indústria turística é bastante influenciada pelo gosto dos
turistas e muda à medida que suas preferências mudam (ibid.). Nesse sentido, o turismo, como
prática cultural, contempla o significado utilizado por Rojek e Urry (1997, p. 5), o que será
utilizado nessa pesquisa.
O turismo é separado da cultura, mas com a culturalização da sociedade houve
uma desdiferenciação das classes e das esferas sociais e culturais que eram previamente
distintas. Daí, turismo e cultura, apesar de diferentes, coincidem em parte, sendo que seus
limites não estão claramente definidos (ibid).
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MENDONÇA, Juliana de Pina. Turismo e patrimônio cultural em Pirenópolis: a estruturação do campo
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TURISMO CULTURAL E ECOTURISMO
O turismo cultural diz respeito à comercialização da cultura (TALAVERA, 2003).
E o turismo ecológico e ecoturismo, à mercantilização da natureza (BINFARÉ, [2005]).
Em Pirenópolis são oferecidos o turismo cultural, cujo principal atrativo é algum
aspecto da cultura humana (história, cotidiano, etc) e não a natureza (BARRETTO, 2000). O
turismo ecológico é o praticado em áreas verdes, assim como o ecoturismo, pois ambos têm
como atrativo principal a paisagem natural. Este último, no entanto, é utilizado muitas vezes
como sinônimo do primeiro (ibid.). O ecoturismo é, segundo Pires (2002), um turismo que
surgiu como alternativa ao turismo de massa, ou seja, trata-se de um turismo mais seletivo.
Desse modo, busca uma interferência mínima da ação humana sobre o meio-ambiente,
causando-lhe poucas alterações. Assim, está relacionado mais à contemplação da natureza e a
educação ambiental. Porém, alguns turismos praticados em áreas verdes não são considerados
ecológicos ou ecoturismo, como, por exemplo, o de montanha, trekking, aventura, uma vez
que tais práticas danificam o meio ambiente.
Exemplos de turismo cultural em Pirenópolis são: o patrimônio histórico, a Festa
do Divino e as Cavalhadas, a culinária local, o Festival Nacional de Música Canto da
Primavera, Festival Cultural e Gastronômico, o artesanato, etc. E de ecoturismo são as
cachoeiras, Cidade de Pedra e as Unidades de Conservação, como, por exemplo, o Parque
Estadual dos Pireneus (pública) e as RPPNs (Reservas Particulares do Patrimônio Natural).
O ecoturismo é um turismo de minorias, praticado em áreas verdes com algumas
ressalvas como foi dito anteriormente, e envolve a consciência ecológica, atributo esse que
falta muitas vezes no turista de massa (BARRETTO, 1997, MENDONÇA, 2003). Assim,
para analisar os efeitos desse tipo de turismo sobre a natureza e a sociedade é preciso ressaltar
algumas características existentes no turismo de minorias e de massa, pois ambos têm a ver
com a demanda por algum tipo de serviço e não com o número de pessoas que atrai (ibib).
Logo, se um grupo de 30 pessoas praticam o ecoturismo estão fazendo um turismo seletivo e
se 3 vão ao Canto da Primavera estão fazendo turismo de massa.
Eventos maiores como o Canto da Primavera, por ser mais popular, gratuito e
abrangente (nacional), é inclusivo e atrai multidões (massa) a Pirenópolis, cuja concentração
de turista em 2005, por exemplo, gerou o alerta da SANEAGO de que poderia faltar água na
cidade, pois a tal aglomeração, por um lado, e a falta de chuvas por causa da estiagem e o
baixo nível dos rios, por outro, poderiam gerar um colapso no sistema de abastecimento de
água da cidade (DIÁRIO DA MANHÃ [2005]).
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MENDONÇA, Juliana de Pina. Turismo e patrimônio cultural em Pirenópolis: a estruturação do campo
Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01,
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Como a prática turística predominante e regular na cidade é o ecoturismo,
verifica-se que apesar de seletivo o ecoturismo na cidade pode se tornar predatório
(MATTEUCCI apud ALMEIDA, 2003), pois os ecoturistas coincidem de escolher apenas o
fim de semana para tal prática, gerando assim uma concentração maior de pessoas nesses dias.
Daí é preciso avaliar a capacidade de carga do local para poder limitar o numero de visitantes,
já que a exploração se dá de forma sustentável ou conservacionista, ou seja, a capacidade que
o meio ambiente tem para suportar atividades recreacionais até o ponto em que não afete sua
qualidade (BARRETTO, 1997).
O turismo seletivo tende às vezes a ser elitizado e isso causa inflação e exclusão
social tanto do turista como do nativo de baixa renda. E, nesse sentido, é preciso fazer uma
reflexão sociológica sobre o conceito de sustentabilidade que, por sua vez, está embutida na
prática do ecoturismo. Como visto anteriormente, o ecoturismo teve seu significado alargado,
abrangendo também os aspectos humano, social e cultural. Mas na prática, a sustentabilidade
pode se tornar um discurso para legitimar ações do Estado sobre determinadas áreas
ambientais, por serem raras ou valiosas, e, até mesmo, certas práticas culturais.
Em Pirenópolis está sendo finalizada a implantação o Parque Estadual dos
Pireneus. Assiim, a Agência Ambiental de Goiás (AMA/GO) elaborou um “material para
análise” chamado Plano de Manejo do Parque Estadual dos Pireneus que, embora não tenha
sido aprovado ainda, busca normatizar o uso sustentável do parque que estará aberto para os
turistas. Um de seus objetivos é incentivar atividades ligadas ao turismo, como o ecoturismo,
por exemplo.
A Serra dos Pireneus não é apenas uma paisagem natural para Pirenópolis, pois
faz parte também de sua história e sua cultura. Exemplo disso é a Romaria da Santíssima
Trindade, conhecida também como Festa do Morro, que acontece anualmente no plenilúnio
de julho, desde 1927 (JAYME, 1971 p. 547). Para Siqueira (2004, p. 42) “Esta romaria,
diferentemente de muitas outras existentes no Brasil, caracteriza-se pelo tríplice encontro
entre a sociedade local, a natureza criada e o teológico-trinitário glorificado. A integração
entre o social, o ecológico e o religioso faz desta festa uma referência ambiental e teológica”.
O item “Sub-Proagrama de Monitoramento Ambiental” (AMA/GO, [2008]) do material de
análise propõe “monitorar a interferência causada na área da Romaria da Santíssima Trindade
e da área de Camping delimitada para a Festa do Morro”.
Assim, caso seja aprovado, os visitantes do PEP terão que pagar uma taxa de
entrada no valor de cinco reais. Além disso, um conjunto de normas foram estabelecidas no
item “Subprograma de Compatibilização da Romaria da Santíssima Trindade com a
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preservação ambiental”, dentre elas a proibição de soltura de fogos de artifício, a utilização de
bebida alcoólica dentro do parque, restrição ao acesso da área do Pico dos Pireneus,
determinação de lugares para a realização de fogueiras, delimitar a área para o acampamento,
etc.
Acampamento, fogueira, mastro, bandeira, fogos, missas, procissões, jantar,
bebidas, quitandas, música, etc, fazem parte da programação da festa que é composta por uma
parte sagrada e outra profana. No entanto, alguns itens propostos pelo material de análise são
incompatíveis com a programação da festa e isso tem gerado uma insatisfação por parte de
muitos moradores de Pirenópolis, como demonstra o depoimento de um nativo.
Um outro caso, semelhante a esse e que serve como exemplo, é o da Romaria do
Bom Jesus da Lapa, tradicional festa religiosa que ocorre na gruta de Terra Ronca desde 1929,
no município goiano de São Domingos, onde se encontra o Parque Estadual de Terra Ronca
(PETeR). Estudos de Matteucci (apud ALMEIDA, 2003) revelam que essa romaria estava
ameaçada, porque uma rodovia foi construída no lugar da antiga estrada por onde passavam
os romeiros e por causa da criação do parque. A criação do PETeR foi mais nociva à romaria,
segundo a autora, porque uma série de proibições foram estabelecidas, o que fez diminuir
drasticamente o número de romeiros. O parque impôs regras sobre a maneira de como o povo
deve manifestar sua fé. Por se tratar de uma região de cavernas, o PETeR proibiu os romeiros
de soltar foguetes, dentre outras coisas.
Para Cohen (2002) o conceito de sustentabilidade é um instrumento de poder
utilizado pelas políticas de desenvolvimento sustentável e pelos empresários do turismo. Isso
ocorre, porque sustentabilidade é, sem desmerecer sua relevância, um conceito vago e incerto,
daí seu significado está sujeito à diversas interpretações. Assim, a sustentabilidade se torna
um discurso do poder que, por sua vez, não é neutro. Daí é utilizado no conceito de turismo
sustentável, como o ecoturismo, e aplicado de cima para baixo sobre determinada localidade.
Agentes externos (empresários ou políticos) à localidade turística, que
desenvolvem o turismo sustentável, reivindicam a autoridade para si sobre a definição dos
critérios da sustentabilidade que, por sua vez, serão aplicados principalmente sobre áreas
naturais valorizadas turisticamente, a fim de obter o controle sobre elas ou sobre práticas
culturais atraentes. Daí tendem a deslegitimar as práticas populares de conservação dos
recursos naturais, afirmando que elas são prejudiciais ao meio ambiente, em nome do seu
conceito de turismo sustentável.
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Desse modo, esse conceito tende a limitar e controlar o acesso dos nativos em
nome dos turistas elitizados, em áreas naturais que foram transformadas em patrimônio da
humanidade (ibid.).
OS AGENTES DO CAMPO
Os agentes podem ser divididos em pirenopolinos tradicionais, alternativos e
hippies, empresários e moradores recentes e os turistas. Para Bourdieu (1997, p. 160-161), o
espaço habitado funciona como uma espécie de simbolização espontânea do espaço social que
é onde a estrutura se manifesta. O espaço social reificado se apresenta como a distribuição no
espaço físico de diferentes espécies de bens ou de serviços e também de agentes individuais e
de grupos fisicamente localizados e dotados de oportunidades de apropriação desses bens e
desses serviços mais ou menos importantes. Essa distribuição é que define, portanto, o valor
das diferentes regiões do espaço social revivificado.
Nesse sentido, o centro histórico se torna um espaço bastante visado pelos agentes
devido às vantagens e às oportunidades existentes, pois é onde se encontram os prédios dos
órgãos públicos (prefeitura, correios, escolas, etc), os estabelecimentos comerciais e de
prestação de serviço, entre os quais se destacam o cinema, o teatro, hotéis, restaurantes, lojas
de artesanato e a rodoviária. Fora do centro histórico, localizam-se os bairros residenciais
periféricos com diferentes níveis de expansão urbana, onde casas de alto poder aquisitivo
convivem com moradias mais simples (SIQUEIRA, 2004). Assim, o centro histórico se torna
a principal área residencial da cidade, tendo como moradores a população tradicional,
incluindo também os alternativo/hippies e moradores recentes, que são do mais alto poder
aquisitivo (MMA [2005]).
Para analisar a mudança sobre a vida social em Pirenópolis é preciso
primeiramente entender como o turismo uma vez instalado na cidade produziu relações
objetivas que por sua vez estruturaram as práticas e as representações das práticas
(BOURDIEU, 1998). Ou seja, como turismo vem se estruturando como prática na cidade a
partir dos anos 1990.
Isso se deve ao ecoturismo, ao apropriar-se da natureza, transforma o turismo em
Pirenópolis em atividade regular e estruturada. Somando-se a isso temos, por um lado, a
criação de RPPNs (1991) e de parques (2007) e, de outro, o tombamento (1988), a
revitalização (1998) e a consequente preservação do centro histórico, isto é, a apropriação da
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cultura material pelo turismo. Há, também, o surgimento de outros eventos culturais tanto
populares como elitizados. Nesse sentido, surge a necessidade de analisar as ações dos
agentes, pois é através deles que as mudanças foram se configurando sobre a vida social em
Pirenópolis.
Segundo Bourdieu (1998), os agentes são aqueles que realizam as práticas ou
atitudes que, por sua vez, irão gerar ou atualizar o habitus, disposições essas que
(re)estruturarm as práticas que formam diversos campos autônomos (ou relativamente
autônomos) de acordo com um tipo específico de capital social, cuja apropriação desigual
gera uma hierarquia que define a posição social dos sujeitos dentro de um grupo e, também,
os gostos, preferências, consumo, estilo de vida, etc (BOURDIEU, 1990). Mas o habitus não
é determinante uma vez que a pessoa pode estar privada dele ou simplesmente não reconhecêlo.
Nos anos 1990, muitas associações se formaram, em Pirenópolis, relacionadas ao
turismo e a cultura. Mas algumas, em especial, se destacam, pois são responsáveis por
consideráveis transformações no cotidiano do pirenopolino, ou seja, a SOAP, APLAM
(Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música), ACVP, Instituto Pireneus, Associação
Meya-Ponte, Associação das Cavalhadas (AC), o Grupo Renascer e a COEPI que, por sua vez
vêm estabelecendo parcerias com instituições políticas, tais como o IPHAN, a AGEPEL,
AGETUR. Assim, os agentes atuam tanto no âmbito na sociedade civil como na esfera da
política e em parceria com esta.
Desse modo, observa-se que novas práticas geram regularidades estatísticas que
formam um habitus, que, por sua vez, estrutura o campo do turismo dotado de hierarquia e de
posições objetivas onde se localizam os agentes que estão distribuídos no espaço social
segundo a apropriação desigual do capital cultural e do capital econômico. Porém, o campo
do turismo possui uma autonomia relativa, já que a atividade está se atrelando às políticas do
Estado de Goiás e, mais recentemente, às do município (BOURDIEU, 1999; ORTIZ, 2003).
Assim sendo, os agentes que atuam em Pirenópolis compõem dois campos, isto é,
o da cultura (tradição, festejos) e o do turismo, sendo que o segundo derivou do primeiro,
tendo como consequência o surgimento do trade do turismo que, aos poucos, foi impondo sua
estrutura administrativa sobre o patrimônio natural e sobre o patrimônio cultural a fim de
utilizar racionalmente os atrativos de ambos. A partir daí, ocorre a diferenciação do campo
gerando subcampos compostos em seu interior tanto por moradores nativos, como por
moradores recentes. Apesar de distintos, existe entre esses eles pontos de intersecção que os
unem, já que muitas parcerias (entre associações ou entre essas e a instituições
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governamentais) vêm sendo realizadas e cuja tendência é a formação de redes entre os vários
segmentos do turismo.
A partir daí, esses diversos subcampos do turismo vêm formando, ultimamente,
agrupamentos institucionalizados atrelados à política (COMTUR, Pirenopolis Convention
Visitors Bureau), envolvendo representantes do trade, dos atrativos do turismo e de entidades
do governo, e ainda, dos empresários do turismo com outros segmentos econômicos (pedras,
comércio) que não se relacionam com a atividade do turismo (Pirenopolis Convention
Visitors Bureau). Como se observa, houve uma complexificação das relações, cujo fenômeno
é explicado pela natureza do turismo, pois se trata de um fato social total no sentido de que
está organicamente ligado às estruturas políticas, econômicas e ideológicas (BARRETTO,
2003, ROCHA NETO, 1998).
Para dar conta de tal complexidade é necessário analisar a relação do campo do
turismo com o campo da cultura local (tradições) e a partir daí identificar tanto os agentes
comprometidos com a essência do campo quanto à formação de agentes heterônomos
(BOURDIEU, 1998). Os agentes do campo do turismo são aqueles que se relacionam com a
atividade (os donos dos atrativos natural e cultural, o trade, os prestadores de serviço).
Já os agentes comprometidos com a essência do campo da tradição estão
relacionados com a arte, a música, museus, valores, costumes, atividades não-turísticas, etc, e
são representados pela Igreja Católica e pelos pirenopolinos que não atuam no campo do
turismo em si, mas que são atingidos direta e indiretamente pelos seus efeitos. Assim, há uma
sobreposição do turismo sobre a cultura local (ROJEK; URRY, 1997), envolvendo tanto
nativos que praticam o turismo como aqueles que não atuam em tal atividade. Antes, porém é
necessário levantar alguns aspectos do turismo e do turista, já que é este último quem define
os tipos de turismo e serviços nas localidades receptoras, pois seus gostos, preferências e
estilos de vida estão determinados não só pela cultura, contexto e localidade em que vive, mas
também influenciados pela cultura global. Do outro lado, a cultura visitada se torna matériaprima do turismo para ser vendida ao mercado. Logo, os empresários do turismo,
influenciados pelos gostos dos visitantes, definem os tipos de turismo e serviços segundo as
preferências do turista, adaptando os atrativos segundo as exigências e padrões de consumo
que, por sua vez, vieram da cidade grande. Daí, mudanças são geradas no espaço que também
afetam a vida cotidiana dos nativos, já que esses passam a conviver com padrões de vida
diferentes do seu.
Mas, tais adaptações são realizadas por agentes relacionados à atividade turística
que formam um campo distinto ao campo da cultura local, mas que se sobrepõe a ele (ibid,
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1997). Logo, surgem agentes heterônomos que são pessoas pouco consagradas dentro do
campo com relação a seus valores específicos, ou seja, um determinado tipo de capital. Logo,
buscam fora consagrações efêmeras já que estas não foram obtidas no interior de seu campo
(BOURDIEU, 1997, p.90). E isso se deve a heteronomia, fenômeno esse que propicia a
introdução das leis do mercado e da economia no interior do campo, assim é necessário que os
agentes comprometidos com a autonomia do grupo combata esses atores heterônomos.
Existem agentes heterônomos, pois são pessoas originárias de campos diferentes
que também atuam em outros campos que foram surgindo com o turismo, como é o caso de
alguns moradores nativos que aderiram à atividade do turismo, ou então, aqueles que são de
fora que atuam tanto para a organização e expansão do turismo como para a revitalização do
centro histórico e preservação do patrimônio cultural de Pirenópolis. Houve, então, por um
lado a criação e internalização de um novo habitus representado pelo turismo, mas que apesar
de generalizado não atinge a cidade como um todo. E, por outro, existe o efeito multiplicador
do turismo que atinge até mesmo quem não o pratica (BARRETTO, 2007).
A partir daí se torna necessário, segundo o modelo teórico de Bourdieu (1998,
2003), distinguir a estrutura das disposições para melhor compreender as relações dialéticas
entre essas estruturas e as disposições estruturadas, onde as primeiras tendem a se atualizar
através das segundas que, por sua vez, irão reproduzi-las, isto é, o duplo processo de
interiorização da exterioridade e a exteriorização da interioridade (BOURDIEU, 2003). A esse
respeito se torna imprescindível conhecer como o pirenopolino vem recebendo, incorporando
e reagindo às mudanças causadas pelo turismo na vida social.
Desse modo, o habitus é uma estrutura estruturada estruturante, pois se trata de
uma disposição que fornece regras prontas para as práticas presentes, daí o habitus serve para
definir a ação do agente que, ao agir, reproduz as estruturas sociais (memória). Aqui o
comportamento do agente pode causar pequenas modificações no habitus seja através da
criatividade, ou então, por meio de um comportamento heterodoxo que pode provocar uma
mudança radical nos campos em termos de poder e capital (DOMINGUES, 2001). Daí é
preciso levar em conta as características psicológicas, o contexto, a situação para analisar
como as práticasproduzem um habitus que estruturam as práticas e que serve para definir
gostos, afinidades, preferências, consumo em determinada época mediante as trocas sociais. O
habitus, no entanto, não é determinante, pois certas práticas, gostos, consumo e estilos de vida
não são inerentes a uma classe social em específico, uma vez que uma prática considerada de
elite em determinada época pode se tornar popular em outra e vice-versa. Assim, é preciso
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levar em conta o tempo, a disponibilidade dos recursos e o processo de trocas para não cair
numa leitura substancializada (reificada) da sociedade (BOURDIEU 1990).
A partir disso, se torna possível conhecer como o turismo se constituiu em
Pirenópolis como um campo de produção, pois se trata de um espaço social de relações
objetivas, ou melhor, um espaço social estruturado (regularidades estatísticas), por práticas
que geraram um habitus onde a apropriação desigual de um capital específico produziu uma
hierarquia que opõe agentes, definidos de acordo com suas posições ocupadas no espaço, que
estão dispostos ou a entrarem em conflito para disputarem a apropriação do capital, ou a se
unirem contra intervenções externas (Estado, Igreja, mercado) que ameaçam a autonomia do
campo. A autonomia é adquirida pelo campo quando este se transforma em uma instituição ou
entidade separada da Igreja e do Estado, composta de uma instância de legitimação e
discursos próprios e de um código específico, ou seja, regras próprias de funcionamento
(MICELI, 1998).
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O CAMUNDONGO NO PAÍS DAS MARAVILHAS:
O PODER NA REVOLUÇÃO CUBANA A PARTIR DA VISÃO DO EXILADO
CUBANO CARLOS FRANQUI
Rafael Saddi Teixeira
Resumo:
Abstract:
O presente trabalho busca um percurso partindo da
ideia de que toda a história da humanidade é, além de
tudo, a história da migração. Abandonar o certo e
conhecer o outro: lugar, tempo, modo de vida. Ser
outro além daquilo que você ainda é. Ser múltiplo.
Não ser nunca. A migração forçada pela perseguição
política é o exílio. Qual sentimento humano é mais
comum na história dos exílios: o medo ou a
impotência? Naqueles momentos sensacionais em
que nos percebemos como incrivelmente pequenos
só nos resta as duas ações de quem sente a derrota
inevitável: fugir ou nos esconder. Eis o que faz o
rato. Se esconde, se sentindo como Lezama Lima,
metido dentro do forno em seu exílio interior.
Ridiculamente destinado a não sair da toca, pois a
aparição é uma desaparição. “Cuba é frustrada em
sua essência política”. Lezama se voltou para a
poesia. Ou então, parte em direção ao outro. Aparece
rapidamente, e desaparece para sempre. Em todos os
casos, sair da toca apressadamente com olhos
desesperados ou se trancar até que a última reserva
de queijo se esgote são atitudes de ratos. O sentir-se
camundongo em um mundo ameaçador é a atitude
necessária de todo exilado.
The whole history of mankind is, above all, the
history of migration. Leave it right and know the
other: place, time, way of life. Be other than what
you still are. Be multiple. Never to be. Forced
migration is political persecution by the exile.
Human feeling which is more common in the
history of exiles: fear or impotence? Those
sensational moments when we realize how
incredibly tiny we can only the two actions of
those who feel the inevitable defeat: to flee or
hide. This is what makes the mouse. Hiding,
feeling like Lezama Lima, stuck in the oven in
his internal exile. Ridiculously designed to not
leave the nest, because the appearance is a
disappearance. "Cuba is frustrated in its essence
political." Lezama turned to poetry. Or, part
towards each other. Briefly appears and
disappears forever. In all cases, out of the
woodwork with haste or desperation eyes shut
until the last reserve of cheese runs out are the
attitudes of rats. Feeling mouse in a threatening
world is the attitude required of all expatriates.
Palavras-chave:
Key-words:
Revolução Cubana, exílio, Carlos Franqui.
Revolution Cuban, exile, Carlos Franqui.
INTRODUÇÃO
Toda a história da humanidade é, além de tudo, a história da migração. Abandonar
o certo e conhecer o outro: lugar, tempo, modo de vida. Ser outro além daquilo que você
ainda é. Ser múltiplo. Não ser nunca. A migração forçada pela perseguição política é o exílio.
Qual sentimento humano é mais comum na história dos exílios: o medo ou a
impotência? Naqueles momentos sensacionais em que nos percebemos como incrivelmente
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Doutor em História, professor adjunto da UFG – Universidade Federal de Goiás.
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TEIXEIRA, Rafael Saddi. O camundongo no país das maravilhas: o poder na revolução cubana a partir da
visão do exilado cubano Carlos Franqui. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de
Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 34-48. Set.2010/Dez. 2010.
pequenos só nos resta as duas ações de quem sente a derrota inevitável: fugir ou nos esconder.
Eis o que faz o rato. Se esconde, se sentindo como Lezama Lima, metido dentro do forno em
seu exílio interior. Ridiculamente destinado a não sair da toca, pois a aparição é uma
desaparição.1 “Cuba é frustrada em sua essência política”. Lezama se voltou para a poesia. Ou
então, parte em direção ao outro. Aparece rapidamente, e desaparece para sempre. Em todos
os casos, sair da toca apressadamente com olhos desesperados ou se trancar até que a última
reserva de queijo se esgote são atitudes de ratos. O sentir-se camundongo em um mundo
ameaçador é a atitude necessária de todo exilado.
“„(...) podia acontecer sabe‟, disse Alice para si mesma, „que eu sumisse
completamente, como uma vela. E o que seria eu então? ‟”. (CAROL, 1998, p. 20). Ela se
preocupava por estar diminuindo de tamanho. E talvez seja esta a sensação que acompanha
aquele que se sente cada vez menor: a angústia de estar ligeiramente desaparecendo. É o que
sentiu o poeta. “Às vezes penso que sou invisível” (CABRERA INFANTE, 1996, p. 477),
disse Cabrera Infante. O exilado cubano, diferente de todos os exilados, não tem existência.
Só existem gusanos2. Vermes. O exilado olha no espelho e, após tirar toda a sua roupa, não vê
nada. Ele, Guillermo Cabrera Infante, um escritor cubano exilado, não existe. Em sua casa, há
um estranho, um tal “lacaio do imperialismo”. Afinal, é ele quem nos lembra, “É fácil
eliminar um homem quando ele não é mais um homem, e sim uma besta, um verme, mas
sempre há sangue, cadáveres: uma sujeira. É mais limpo torná-lo invisível.” (idem, p. 478).
A alma do exilado cubano parece insistentemente perguntar como Alice: “Agora
não posso fazer mais nada, aconteça o que acontecer. O que vai ser de mim?” (CAROL, 1998,
p. 49). A impotência frente a um mundo que desaba sobre sua cabeça. A incerteza frente ao
futuro mais imediato. Eis os sentimentos que carregam o exilado quando sua última,
necessariamente a última, ação resolve ser efetivada: sair.
Em um mundo de Deuses potentes e agressivos, nem sempre se é Ulisses para
enfrentar Ciclopes. Nem sempre encontramos mulher e filhos esperando quando voltamos
para casa. Nem sempre voltamos. Os exilados cubanos de Fidel Castro nunca voltam. Saem
como um kamikase em sua última missão: adeus. Deixam, muitas vezes, parte da família,
parte da história e toda a geografia.
“‟Não gosto de gatos‟, gritou o camundongo com uma voz aguda e apaixonada.
„Você gostaria de gatos, se fosse eu?‟.” (idem, p. 32). É no exílio que, invisíveis e sempre
1
„Quando finalmente tirou os óculos, todos os presentes ficaram atônitos: o forasteiro era invisível‟. Essa
apariação era uma desaparição. (CABRERA INFANTE, 1996, p. 481).
2
Gusano significa verme. Termo usado pelos castristas para definir aqueles que abandonam o país.
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TEIXEIRA, Rafael Saddi. O camundongo no país das maravilhas: o poder na revolução cubana a partir da
visão do exilado cubano Carlos Franqui. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de
Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 34-48. Set.2010/Dez. 2010.
diminutos, carregam na memória, nos sentimentos e no corpo, o mundo para trás e, como
pacientes operários de construção que sempre constróem uma casa que não é sua, reconstróem
o mundo deixado. Fornecem sentido ao seu exílio. Falam, pensam, escrevem sobre a terra que
não é mais a sua terra. Disse o camundongo para Alice: “Vamos para a margem que eu vou
lhe contar a minha história, e você vai compreender por que é que eu odeio gatos e
cachorros.” (idem, p. 33). Mas, Alice gostava demais de gatos para experimentar o ponto de
vista do rato. Quando o pobre camundongo se pôs a contar a sua história de como a Fúria
condenou o rato sem júri, sem juiz, sem nada, Alice simplesmente o ignorou. O rato, naquele
momento, era invisível.
Mas, somente os ingênuos (Alice tinha quatro anos) podem ignorar a experiência
dos ratos. Os gatos não fazem isto de modo algum, apenas fingem fazê-lo para abocanhar a
presa desprevenida. Aqueles que querem compreender a Revolução Cubana devem ouvir os
ratos, mas não para abocanhá-los. Nas bocas, não há sensatez, somente gritos e sangue. No
exílio, a história da Revolução Cubana tem sido feita. Talvez uma história marcada pela
culpa. Palavra que marca a vida de todo exilado. Culpa “(...) por ter deixado minha terra para
ser um desterrado e também por ter deixado para trás os que estavam no mesmo barco, que eu
ajudei a lançar ao mar sem saber que era mal.” (CABRERA INFANTE, 1996, p. 20). Mas,
uma história que também pode identificar as outras partes deste nosso mesmo crime. Pois,
afinal, “Cuba os abandonou.” (idem, ibidem).
De toda forma, a “Mea Cuba”3 do exilado é retribuída pelo ato de dar sentido ao
seu exílio. Fornecer uma linha compreensiva para o abandono de seu país implica em dar
sentido à Revolução Cubana. É principalmente nestas histórias do exílio que surgem os
discursos sobre o poder. Afinal, de dentro da ilha do comandante se destacam os elogios e o
silêncio. Do lado de fora, pode-se ver por dentro. Tendo os discursos do exílio como fonte,
podemos analisar e comparar diferentes visões sobre os processos do poder, que são
fundamentais para um estudo da Revolução Cubana. Neste artigo, nos centraremos na
percepção de um revolucionário exilado. Queremos entender o modo como ele reconstrói a
questão do poder em Cuba no seu livro “Retrato de Família com Fidel”.
3
Nome do livro de Guillermo Cabrera Infante, do qual ele reuniu os seus escritos políticos e cujo nome faz um
trocadilho entre Mea Culpa e Cuba, isto é, trata-se da sua Mea Culpa em relação à Revolução Cubana.
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TEIXEIRA, Rafael Saddi. O camundongo no país das maravilhas: o poder na revolução cubana a partir da
visão do exilado cubano Carlos Franqui. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de
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O FILHO DO TITÃ
“Recordei a Fidel suas próprias palavras: „Esta revolução não vai devorar os seus
próprios filhos. ‟” (FRANQUI, 1981, p. 67), disse Carlos Franqui em uma reunião do novo
governo buscando defender Huber Matos, um revolucionário acusado de traição. Por ironia ou
tragédia, mais tarde, Carlos Franqui seria mais um filho a ser devorado. A história da
Revolução Cubana é também o mito da origem dos deuses gregos. Franqui é filho de Cronos,
o titã que para não ser destituído do trono, começou a devorar os seus filhos.
O revolucionário é, provavelmente, um artista, que projeta na mente uma
escultura, mas que nunca é realizada tal como foi projetada. O artista ou adequa as suas
intenções ao possível e se satisfaz com a escultura de um quase César, ou se propõe a refazêla constantemente. Talvez o mais bem sucedido dos revolucionários opta pela primeira opção,
mas, muitas das vezes, faz as duas coisas ao mesmo tempo. Aceita o possível à medida que o
retoca sempre. Os revolucionários sinceros, que não se vêem na escultura que esculpiu,
geralmente se pegam na angústia de Franqui: “o que eu deveria fazer? Me recuperar e partir?
Tinha lutado apenas para perder?”. (idem, p. 28). Os personagens mal sucedidos, que estão
sempre destinados a desaparecerem dos livros da história oficial, nem sempre se decidem a
talhar novamente a pedra dura. Franqui se decidiu: “Merda . Eu era um rebelde e ponto final”.
(idem, ibidem).
Revolucionário cubano, ele lutou contra o regime político de Batista. Foi chefe de
propaganda do Movimento 26 de Julho, fundou o jornal clandestino Revolución, foi preso e
torturado pela polícia política de Batista, libertado e exilado, foi para a Sierra Maestra,
montou ali a Rádio Rebelde como rádio oficial do Exército Rebelde, enfim, contribuiu
efetivamente para a tomada de poder pelos revolucionários cubanos. Insatisfeito com a
dominação castrista se propôs a combatê-la estimulando uma revolução cultural. Perseguido,
deixou Cuba.
Franqui representa aqueles intrigantes personagens que ordinariamente estão
presentes na história das tomadas de poder. É ele um Danton na Revolução Francesa ou um
Trótski na Revolução Russa, sempre fadados a dizerem como Prometeu, acorrentado por
Júpiter: “vê que tratamento eu suporto, eu, o amigo de Júpiter, que o ajudei, sozinho, a subir
ao trono”. Sempre obstinados a lutar por uma revolução que os devora. Sempre destinados a
criar um monstro. Sempre, como disse Cabrera Infante, fadados a cavar a própria tumba.
Somem. São apagados da história (que, acredite, participaram) pelas mãos de um tantos
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TEIXEIRA, Rafael Saddi. O camundongo no país das maravilhas: o poder na revolução cubana a partir da
visão do exilado cubano Carlos Franqui. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de
Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 34-48. Set.2010/Dez. 2010.
Winstons que trabalham no departamento de Registros no Ministério da Verdade cuja única
função é essa que se segue: alterar a história da humanidade.
„Quem controla o passado‟, dizia o lema do Partido, „controla o futuro; quem
controla o presente, controla o passado‟. E, no entanto, o passado, conquanto de
natureza alterável, nunca fora alterado. O que agora era verdade era verdade do
sempre ao sempre. Era bem simples. Bastava apenas uma série infinda de vitórias
sobre a memória. „Controle da realidade‟, chamava-se. (ORWELL, 1984, p. 36).
O revolucionário mal sucedido não existe e nunca existiu.4 A análise de Franqui é
fundamental para compreendermos a dominação política no processo revolucionário em
Cuba. Sua crítica é a de um revolucionário cubano, isto é, a crítica de alguém que conhece de
forma familiar os seus próprios carrascos e que acredita na revolução, embora discorde da
forma como ela foi conduzida. É isto que faz Franqui apontar a dominação política a partir de
uma ótica interessante. Não representa a tradicional visão liberal norte-americana e nem
mesmo a tradicional visão oficial sobre a Revolução Cubana. Sua visão da Revolução é a
partir do que ela não foi, ou melhor, do que ela poderia ter sido.
Analisar o pensamento de Carlos Franqui nos possibilita perceber sua busca de
compreensão do momento de destruição da Revolução Cubana, o momento em que ela perdeu
o seu brilho e se pôs no longo caminho pelo Hades grego. Compreender esse momento
significa perguntar a si mesmo: por que fracassamos? Por que a Revolução Cubana
estabeleceu uma outra dominação do homem pelo homem? A partir de suas respostas a estas
perguntas podemos encontrar também em Franqui uma teoria da transformação social, que
não só explica a dominação cubana, como também aponta os caminhos que poderiam ter sido
trilhados para evitar que Winston, de forma quase inconsciente, se pusesse a rabiscar com o
dedo na poeira da mesa: 2+2 = 5. (idem, 1984, p. 271). O rebelde se submeteu à verdade do
Partido. A dominação venceu a revolução.
A análise de Franqui pode ser dividida em dois momentos fundamentais: o
momento da luta revolucionária, no qual, para ele, o humanitarismo conduziu a ação e cuja
premissa de revolução prometia um mundo verdadeiramente mais justo e humanitário; e o
momento da tomada do poder, em que a frieza, o calculismo, o totalitarismo e a burocracia se
estabeleceram. Esta história da Revolução Cubana não deixa de ser a história da Revolução
dos Bichos, narrada nem pelo cavalo, que acreditava demais nos porcos, nem pelo burro, que
4
Mesmo nas fotos em que Carlos Franqui aparecia ao lado de Fidel, os burocratas do governo fizeram questão
de apagá-lo. Carlos Franqui nunca existiu. A capa de seu livro “Retrato de Família com Fidel” traz a foto
original e a adulterada, publicadas em dois momentos distintos: a primeira, antes de exilar-se e, a segunda,
depois de se tornar um opositor.
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TEIXEIRA, Rafael Saddi. O camundongo no país das maravilhas: o poder na revolução cubana a partir da
visão do exilado cubano Carlos Franqui. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de
Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 34-48. Set.2010/Dez. 2010.
não acreditava nem mesmo na revolução. Provavelmente seria a história narrada por um porco
menos importante que Napoleão e Bola-de-Neve. Um porco que não aparece na narrativa é
claro, pois foi banido. Um porco que lutou pela revolução, mas que viu os seus amigos porcos
se transformarem em homens um tempo antes do cavalo ter visto, porém, um tempo depois do
burro. “(...) os animais subiram ao topo e olharam em volta, à luz clara da manhã. Sim, era
deles – tudo quanto enxergavam era deles.”. (Orwell, s/d, p. 08). A euforia da tomada do
poder marcava o início da sua própria destruição.
HUMANITARISMO E A LUTA REVOLUCIONÁRIA
Carlos Franqui é, antes de tudo, um humanista, para o qual o homem, seja
qualquer homem, lute em qualquer lado da trincheira, deve ser respeitado. Seu humanismo
aproxima-se por um lado, do humanismo cristão, cuja premissa diz: “Amai os vossos
inimigos”. O sol raia sobre os bons e os maus, e a chuva cai sobre os justos e os injustos. O
inimigo, para Franqui, merece a piedade.
O humanitarismo do rebelde cubano se distingue do cristão em dois aspectos
essenciais: quanto aos fins e quanto aos meios. Dos fins, falaremos mais à frente. Dos meios,
nos interessa saber que amar o inimigo não é aceitá-lo tal como ele é. Amar o inimigo é,
também, combatê-lo. O que diferencia quanto aos meios, o humanismo cristão do humanismo
cubano está justamente na forma de combate.
Todo aquele que segue a ética do sermão da montanha, não poderá deixar de ouvir
o que foi dito por seu mestre: “... não resistai ao malvado. A quem te bater na face direita,
apresenta também a outra.” (MATEUS 5, 39). A violência não é atitude de quem segue a ética
cristã. O seu único e lustrado fuzil é o bem. Suas mãos caminham limpas. Afinal, “todo
aquele que der de beber a um destes pequenos, ainda que seja um copo de água fresca, por ser
meu discípulo, eu vos declaro esta verdade: ele não ficará sem recompensa.” (MATEUS 10,
42). Todo homem recebe aquilo que ele fornece e colhe aquilo que ele planta. Ferir com a
espada é ser ferido por ela.
De forma contrária, o humanismo de Franqui levanta a espada e fere. Porém,
cuida da ferida. Retira o inimigo da luta, mas não da vida. Nesta briga de irmãos, se deve
bater até que um se renda, porém, sem golpes baixos. A guerra pode ter o seu lado humano.
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TEIXEIRA, Rafael Saddi. O camundongo no país das maravilhas: o poder na revolução cubana a partir da
visão do exilado cubano Carlos Franqui. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de
Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 34-48. Set.2010/Dez. 2010.
Franqui faz um elogio do processo da luta revolucionária em Cuba, destacando o
humanitarismo como guia da ação dos revolucionários cubanos. Isto se mostrava, por
exemplo, no tratamento dado aos inimigos pelo Exército Rebelde.
Uma das coisas que me surpreendeu quando cheguei à Sierra foi o lado humano da
guerra. O exército rebelde parecia quixotesco, com Fidel representando o papel do
nobre espanhol. Ordenou que déssemos tratamento médico ao inimigo ferido como
se fosse nosso próprio camarada de armas. Não iríamos matar ninguém Não iríamos
matar, torturar ou ofender prisioneiros de forma alguma. Iríamos explicar o que lhes
estávamos fazendo e por quê, no sentido de educá-los para nossa causa. (FRANQUI,
1981, p. 160).
Combater o inimigo. Porém, cuidar dele como se fosse o nosso próprio camarada.
O inimigo só é camarada depois de prisioneiro. Enquanto está em condição de resistir, deve
ser combatido. Quando perde o posto e está em condição de ser destruído, será poupado e
bem tratado. É desta ética que se deduz todos os outros mandamentos: não torturarás. Não
matarás. Os inimigos presos são os nossos companheiros. A ele falta a educação à nossa
causa, e esta é a nossa função: educá-los.
O humanitarismo é não só amar os nossos inimigos, mas, também, amar ao
próximo tal como ele se apresenta a ele mesmo. Os camponeses eram respeitados
simplesmente porque deveriam ser e o respeito se daria em todos os sentidos, às suas
tradições, às suas mulheres e aos seus produtos. (idem, ibidem).
Por último, no humanismo de Franqui se insere a igualdade. Se para o cristão,
todos os filhos são iguais perante o pai, para o rebelde cubano todos os guerrilheiros são
iguais. E a igualdade que havia no interior do Exército Rebelde era uma das essências de um
processo de luta revolucionário em que a dominação não existia. O respeito era, segundo
Franqui, o que movia a ação e não a obediência. O exército era uma família, onde os irmãos
cooperavam voluntariamente. “Éramos uma família e trabalhávamos juntos por respeito, em
vez de simples obediência.” (idem, ibidem).
Franqui parece concordar com Che Guevara quanto a este aspecto. A ação do
Exército Rebelde é orientada não pela obediência, não pela repressão, não pelo autoritarismo
de cima para baixo. Mas, pelo respeito e pelo autocontrole. Algo que partia do convencimento
profundo do indivíduo. Como disse Che:
(...) el ejército de liberación fue un ejército puro donde ni las más comunes
tentaciones del hombre tuvieron cabida; y no había aparato represivo, no había
servicio de inteligencia que controlara al individuo frente a la tentación. Era su
autocontrol el que actuaba. Era su rígida conciencia del deber y de la disciplina.
(GUEVARA, 1959).
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TEIXEIRA, Rafael Saddi. O camundongo no país das maravilhas: o poder na revolução cubana a partir da
visão do exilado cubano Carlos Franqui. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de
Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 34-48. Set.2010/Dez. 2010.
A igualdade para Franqui se apresentava, também, na não existência de
privilégios de postos, pois, para ele, não havia uma classe privilegiada. Os comandantes sendo
poucos não a constituíam. “Havia poucos comandantes, portanto não constituíam uma classe
[...]. Esse humanitarismo não era de fachada; era verdadeiro.” (FRANQUI, 1981, p. 160).
Destes três aspectos, o tratamento ao inimigo, o respeito aos camponeses e a
igualdade entre comandantes e soldados, Franqui faz o seu elogio do processo de luta
revolucionária, atribuindo a ele um caráter humanitário. O fracasso da Revolução deve ser
buscado, assim, em alguns anos mais tardes, de forma alguma na luta dos rebeldes, mas, pelo
lado oposto, na tomada do poder. Ela é que terá um forte significado para a efetivação de uma
dominação política em Cuba.
A TOMADA DO PODER E O TOTALITARISMO
Todo processo revolucionário passa por uma luta pelo direito de dizer a
revolução. Nenhuma força política faz uma revolução sozinha. Ela geralmente precisa se
relacionar com outros tantos que também lutam e que também exigem o direito de dizer a
revolução. É uma luta pelo poder. Não necessariamente a apropriação do Estado, embora ele
seja um dos instrumentos deste poder. Mas, uma luta pelo crédito. Pelo estar em posição de
dizer o que fazer.
A gata Dinah em Alice no País das Maravilhas possui diferentes posições em
diferentes lugares. Disse Alice: “Ninguém gosta dela por aqui, mas tenho certeza que é a
melhor gata do mundo!”. (CAROL, 1998, p. 45). Dinah é uma simples gata submissa na casa
de Alice e uma ameaça temível no País das Maravilhas faz tremer o rato, o cachorro e os
pássaros. O poder é o ato de estar em posição de ordenar e isto não implica uma relação
monolítica. O coelho gritou para Alice, que havia diminuído de tamanho, num tom zangado: “
„Ora, Mary Ann, o que você está fazendo aqui fora? Corra para casa imediatamente e me
traga um par de luvas e um leque! Rápido!‟. E Alice estava tão assustada que saiu correndo
imediatamente na direção que ele apontava” (idem, p. 47). Pequena e assustada, Alice não
estava em posição de não obedecer. “ „Que estranho‟, disse Alice para si mesma, „servir de
garota de recados para um coelho! Imagino que Dinah também vai começar a me dar tarefas
para fazer!”. (idem, ibidem). Mas, Alice, que havia crescido e diminuído de tamanho tantas
vezes, bebeu algo que estava dentro de uma garrafinha. Ela cresceu tanto de tamanho que não
conseguia mais passar pela porta da casa do coelho, “(...) estava agora umas mil vezes maior
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TEIXEIRA, Rafael Saddi. O camundongo no país das maravilhas: o poder na revolução cubana a partir da
visão do exilado cubano Carlos Franqui. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de
Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 34-48. Set.2010/Dez. 2010.
que o Coelho e não tinha razão para temê-lo.” (idem, p. 51). O poder é uma questão de
tamanho. Tamanho no sentido de posição. O alto e o baixo. Aquele que está em posição de
ordenar e aquele que está em posição de obedecer. “(...) não acho (...) que eles deixariam
Dinah ficar na casa se ela começasse a dar ordens desse jeito”. (idem, p. 48). Dinah não está
em posição de ordenar.
Para Franqui, a centralização do poder nas mãos de Fidel foi possível pela vitória
política que Fidel teve sobre o Diretorio Revolucionário e sobre o clandestino Movimento 26
de Julho. Esta vitória está vinculada à relação entre a Sierra e as cidades, isto é, entre os
revolucionários da Sierra Maestra e os revolucionários urbanos. Frank percebe a
especificidade de cada um dos ambientes. A Sierra e as cidades são duas realidades distintas.
Para a primeira, em relação às cidades, a tranquilidade, a sensação de liberdade e vitória. Para
as cidades, em relação à Sierra, o mundo de crime e horror.
Em Santiago, milhares de jovens haviam sido torturados e assassinados. Os rebeldes
clandestinos combateram Batista quase sem armas, arriscando suas vidas todos os
dias. Eles haviam perdido muito mais combatentes do que nós, na Sierra. Lá
possuíamos armas e também tínhamos a proteção da natureza. Aqueles anos de
clandestinidade na cidade constituíram um mundo de crime e horror, uma luta
anônima que arrebatou os cubanos à resistência contra Batista. A Sierra nos dava
uma sensação de liberdade e vitória, que ninguém poderia sentir lá embaixo, na
cidade. Lá em cima era como férias revolucionárias. (FRANQUI, 1981, p. 24).
Duas realidades distintas, a Sierra e as cidades deixaram diferentes cicatrizes. A
Sierra conheceu a vitória, enquanto às cidades sobrou a derrota. “O rebelde da Sierra conhecia
apenas a vitória da sua luta, enquanto que o rebelde urbano conhecia apenas a derrota. A
guerra na cidade era como uma luta de boxe, na qual cada round é feito de perdas e ganhos.”
(idem, p. 40).
A guerra clandestina travada nas cidades arrasou as possibilidades reais de
neutralização do poder de Fidel Castro e possibilitou a centralização unipessoal do Estado. O
Diretório, a segunda maior força política revolucionária, estava impossibilitado de fazer frente
a Fidel. Isto, devido à morte de líderes importantes, à desestruturação do movimento e ao
anulamento de sua importância simbólica, que foi capitalizada por outros homens ou pelo
próprio Movimento 26 de Julho.
(...) a terrível guerra clandestina nos havia arrasado. O Diretório havia perdido suas
melhores cadres e seu líder, José Antonio Echevarría, no ataque ao Palácio Nacional,
e ainda estava em processo de reestruturação quando Batista fugiu. A lendária
chegada de Che e seu ataque-relâmpago a Las Villas haviam anulado a importância
do grupo da Frente Escambray (um prolongamento do Diretório) e a ordem de Fidel
– que proibia o Diretório de compartilhar da vitória em Havana após ter lutado em
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TEIXEIRA, Rafael Saddi. O camundongo no país das maravilhas: o poder na revolução cubana a partir da
visão do exilado cubano Carlos Franqui. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de
Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 34-48. Set.2010/Dez. 2010.
Placetas e Santa Clara – isolou as forças leais a Chomón e Cubelas. Em seu primeiro
discurso, Fidel acusou estas forças do roubo de armas, liquidando assim o Diretório
como poder político. (idem, p. 39).
O clandestino Movimento 26 de Julho também foi impossibilitado de agir
enquanto força coletiva e fazer frente à centralização do poder por Fidel. A morte de
importantes membros, algumas ações fracassadas, e a capacidade de apropriação do controle
por Fidel Castro, foram fundamentais para a desarticulação do Movimento.
(...) Mortos Frank País e Daniel (René Ramos Latour), seus melhores militares,
Santiago e Havana deixaram de ser centros de ação militar. O fracasso da greve
geral de abril, convocada pelo Diretório e pelo Movimento 26 de Julho, permitiu que
Fidel assumisse o controle de todas as forças clandestinas através do comandante
Delio Gómez Ochoa. O objetivo de Fidel: marginalizar o movimento e fazê-lo
desaparecer. (idem, p. 39).
O controle político da Revolução se centrou, assim, na Sierra Maestra. O Exército
Rebelde, dotado de armas, maior segurança e capacidade de apropriação simbólica, tornou-se
a força capaz de dirigir o processo revolucionário. Seu comandante máximo, seria,
obviamente, o comandante máximo da Revolução.
O rebelde urbano foi a vítima da história cubana. Lutando boxe a cada ring, foi
enfim nocauteado por um terceiro que invadiu a lona. Estando o poder concentrado em Fidel,
a história da revolução cubana se tornou a história da luta coordenada por Fidel. “O ataque a
Moncada, o desembarque do Granma e a Sierra fundiram-se em uma só coisa: Fidel Castro,
sozinho.” (idem, p. 39).
“„Quem controla o passado‟, dizia o lema do Partido, „controla o futuro; quem
controla o presente, controla o passado‟.” (ORWELL, 1984, p. 36). E o rebelde urbano foi
deixado de lado da história da revolução cubana.
O PODER
Para Franqui, a luta real pelo direito de dizer a Revolução Cubana não seria entre
socialismo e capitalismo. Seria, pelo contrário, entre o socialismo russo e o socialismo
humanista. (FRANQUI, 1981, p. 63). O conflito maior não se daria entre Cuba e os Estados
Unidos, mas no interior dos próprios revolucionários. Uma luta tão fraterna quanto a de Abel
e Caim. Algo tão comum no interior das revoluções sociais, quanto já imaginava Maquiavel.
Quem sobe ao poder deve se preocupar mais com os próprios amigos do que com os inimigos.
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TEIXEIRA, Rafael Saddi. O camundongo no país das maravilhas: o poder na revolução cubana a partir da
visão do exilado cubano Carlos Franqui. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de
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Os que se eram denominados comunistas, que longe do comunismo eram
partidários do capitalismo de Estado da União Soviética, eram os que contavam com maior
poder, maior inserção no Estado e no Exército, maior força de repressão. Os socialistas
humanistas eram os mais numerosos. “O que dividia esses grupos não eram suas tendências
radicais, a intensidade de seu sentimento antiimperialista ou as suas crenças anticapitalistas;
era comunismo puro e simples.” (idem, p. 40)
O grupo dos socialistas humanistas, dos quais Franqui era um dos representantes,
possuía força em toda a Cuba,
“ (...) era composto das pessoas da C.T.C., do Revolución e do Movimento 26 de
Julho: David Salvador, Faustino Pérez, Marcelo Fernández e eu. (idem, ibidem), e
também“(...) incluía trabalho organizado, algo por volta de um milhão de pessoas,
na cidade e no campo, assim como a juventude da nação, radicalizada pela guerra
contra Batista e pelos problemas econômicos do país.” (idem, p. 41).
O grupo dos pró-soviéticos era um grupo pequeno, embora forte. “(...) era
formado por Raúl Castro, Che Guevara, uns poucos comandantes, os velhos comunistas e
alguns companheiros viajantes.” (idem, ibidem).
O conflito entre estas duas correntes remontam o debate histórico entre os
anarquistas e os marxistas iniciado no séc. XIX por Bakunin e Marx sobre a questão do poder
de Estado5. A crítica de Carlos Franqui aos comunistas se assemelha à crítica de Bakunin aos
marxistas. Para este, a “... revolução sanguinária baseada na construção de um Estado
revolucionário, fortemente centralizado, teria como resultado inevitável (...) a ditadura militar
com um novo senhor.” (BAKUNIN, 1999, 136).
O Estado é conservador por natureza. Toda revolução que opta pelo
fortalecimento do Estado tende a fortalecer uma nova opressão. Disse Bakunin:
Não concebemos também que se possa falar da liberdade do proletariado ou da
libertação real das massas no Estado e pelo Estado. Estado quer dizer dominação, e
toda dominação supõe a submissão das massas e, consequentemente, sua espoliação
em proveito de uma maioria governamental qualquer. (idem, p. 147).
O poder de Estado é confrontado com o povo, o verdadeiro protagonista de uma
revolução social. Toda revolução deve ser feita pelo povo e sua suprema direção deve ficar
5
Aqui precisamos esclarecer que, apesar das críticas de Bakunin, Marx nunca defendeu o modelo que as
revoluções ditas comunistas estabeleceram no século XX. E ainda que possa ter defendido a tomada do poder de
Estado burguês pelo proletariado, rompeu com esta tese em 1871, ao analisar a experiência libertária e antiestatista da Comuna de Paris.
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TEIXEIRA, Rafael Saddi. O camundongo no país das maravilhas: o poder na revolução cubana a partir da
visão do exilado cubano Carlos Franqui. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de
Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 34-48. Set.2010/Dez. 2010.
sempre “... no povo organizado em federação livre de associações agrícolas e industriais, o
Estado revolucionário e novo...” (idem, p. 140).
Em Cuba, este debate teórico está centrado na especificidade histórica da ilha: o
que fazer com a indústria açucareira? É nas respostas para esta questão que encontramos as
premissas da luta entre libertários e centralistas.
Tanto os pró-soviéticos quanto os socialistas humanistas concordavam com o fato
de que o açúcar mantinha a dependência econômica e, consequentemente, a sujeição política
de Cuba. Concentrados na imposição colonial do açúcar, Cuba precisava buscar todos os
demais produtos a partir de sua relação com os Impérios. O açúcar era uma prisão e “havia
chegado o momento da nação se libertar da sua velha prisão.” Para os conservadores, sem
açúcar não existiria Cuba, para os revolucionários, com o açúcar não haveria país, liberdade
ou independência. (FRANQUI, 1981, p. 86).
Porém, enfrentar a indústria açucareira e todas as transformações estruturais que
os revolucionários estavam dispostos a levar à cabo, necessitava da resolução de um novo
questionamento: Seria nossa pequena ilha, dependente como era dos Estados Unidos, capaz
de se tornar auto-suficiente e independente? (idem, ibidem).
Para os pró-soviéticos, a ação se resumia em duas: estatizar a indústria do açúcar e
optar pelo auxílio da União Soviética. Franqui acredita que as posições destes ditos
comunistas estavam marcadas por duas premissas: a de que o fortalecimento do Estado devia
ser um dos caminhos para a Revolução e a de que era impossível fazer de Cuba um país
autônomo, devendo os revolucionários buscar o apoio da URSS, o que seria o mesmo que
submeter-se a um novo império.
A sua crítica à posição dos pró-soviéticos coloca em evidencia um debate sobre o
poder. Para Franqui, poder e povo são categorias opostas. O primeiro visa conservar e
dominar, o segundo, revolucionar e libertar. O poder tende a ser conservador, e novamente
devemos notar a diferença entre o poder nesses moldes e a revolução, que era o povo. O
problema era que Fidel era o poder. (idem, ibidem).
A proposta de estatização ocupa um local central no palco de debate sobre o
poder. Para Franqui, a estatização aparece como um dos instrumentos do poder. Estatizar não
é socializar. A primeira ação se vincula a uma necessária centralização política. “(...) a
estatização nada faz além de criar e apoiar um gigantesco, improdutivo e repressor
superestado burocrático, um partido que é o Estado, que é o pai, que é o dono.” (idem, p. 85).
O vínculo com a União Soviética seria também seguir a cartilha stalinista.
Obedecer. Se submeter ao Império. A industrialização, opção do leste europeu, seria
46
TEIXEIRA, Rafael Saddi. O camundongo no país das maravilhas: o poder na revolução cubana a partir da
visão do exilado cubano Carlos Franqui. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de
Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 34-48. Set.2010/Dez. 2010.
obrigatoriamente a ordem para Cuba. “Para os soviéticos e seus satélites, a industrialização é
a resposta a qualquer problema.” Para os cubanos, queria Franqui, nada de ordens. Mas, a
opção pelo povo, que havia feito uma revolução nova, autônoma. (idem, p. 86). Franqui
defende a ideia de que o povo cubano poderia impor resistência econômica e militar sem os
Estados Unidos e a União Soviética. Cuba como país tropical, precisaria aumentar a produção
de níquel, reorintar sua agricultura visando a autosuficiência com relação a comidas, e
incrementar o turismo, fazendo do açúcar apenas um produto intermediário na economia
cubana. (idem, ibidem). A resistência militar já foi provada pelo povo cubano, que suportou o
conflito com os Estados Unidos. “Éramos um povo unido, pronto para morrer, e com a
opinião mundial ao nosso lado”. (idem, p. 87).
A partir de duas premissas, o vínculo necessário entre poder e dominação e a
percepção da importância de ser o povo o protagonista da revolução social, Franqui acreditava
que “era o momento para se confiar no povo e criar novos modos de vida.” (idem, ibidem). O
povo estava se organizando por conta própria, pois tinha, com a Revolução, recuperado a sua
dignidade. A socialização e não a estatização era a proposta de Franqui. “Só precisávamos dar
poder ao povo – não a um ditador militar.” (idem, ibidem), disse o socialista humanista como
tantos libertários disseram na história das revoluções do séc. XX. Partindo de premissas
opostas a de Franqui, disposto à centralização do poder e com uma desconfiança da
capacidade de organização do povo, Fidel “preferia militarização à organização” (idem, p. 88)
e apresentava sua “tendência ao monopólio estatal em vez do socialismo verdadeiro (...)
fazendas estatais em vez de cooperativas auto-reguladoras.” (idem, ibidem).
Assim, o fracasso da revolução está intimamente ligado à tomada do poder estatal.
A concepção de poder de Franqui se torna essencial para a sua história da Revolução Cubana.
O poder para Franqui está centrado ainda na metáfora da propriedade. Ele é algo do qual o
homem se apropria. Tomar o poder, se apropriar do poder, conquistar o poder, pressupõe a
existência de algo que possui um dono. Em segundo lugar, o poder trás consequências para o
caráter do homem. Ele é corruptor. Foi a centralização do poder nas mãos de um homem que
tornou possível a corrupção da revolução. O poder exerce uma força sobre o homem.
Transforma o homem e o regime na ditadura plena. É por isso que pergunta Franqui: “As
pessoas se transformam quando alcançam o poder? (...) Qual é a diferença entre um homem
quando faz parte de um grupo de oposição e quando tem o poder absoluto?” (idem, p. 162).
Tudo foi pelos ares quando o poder foi tomado e centralizado nas mãos de um só. “O
socialismo tornou-se ditadura...”. O Estado ao invés de se destruir gradualmente, tende a se
fortalecer. Afirmou Franqui:
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TEIXEIRA, Rafael Saddi. O camundongo no país das maravilhas: o poder na revolução cubana a partir da
visão do exilado cubano Carlos Franqui. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de
Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 34-48. Set.2010/Dez. 2010.
Marx achava que o Estado desapareceria eventualmente, mas como pode isso
acontecer, quando fica mais e mais forte a cada dia? O Estado torna-se um
monopólio colossal que devora tudo, que se torna totalitário em sua inabilidade de
tolerar desvios de qualquer espécie. (idem, p. 167).6
Como dizia Bakunin aos marxistas: “nenhuma ditadura pode ter outra finalidade
senão a de durar o máximo possível.” (BAKUNIN, 1999, p. 158).
Outra consequência da centralização é a formação de uma nova classe dominante
na sociedade cubana: a burocracia estatal. Sua dominação política é também econômica. A
burguesia cedeu lugar à burocracia. Os homens saem de cena, mas os porcos estão à cada dia
que passa, se tornando homens.
Efetivamente, a revolução mudou alguma coisa? Sim, tudo nos mais altos escalões
de Cuba mudou: o Partido Estado era a nova classe dominante. Mas nada mudou
mais para baixo (...) Os que estão no topo desfrutam de privilégios. Então não existe
mais a velha burguesia, e daí? Existem burocratas que administram, controlam e
estão ricos. (FRANQUI, 1981, p. 170).
Enquanto o povo cubano está afundado em uma mesma realidade de miséria e
exploração, os burocratas, aqueles que pretendiam a socialização, estão ricos. A apropriação
do poder político possibilita a apropriação do poder econômico. “De certa maneira, parecia
como se a granja se houvesse tornado rica sem que nenhum animal tivesse enriquecido –
exceto, é claro, os porcos e os cachorros.” (ORWELL, s/d, p. 46) “Nesta estrutura social, o
papel do povo era o de trabalhar e de obedecer inquestionavelmente” (FRANQUI, 1981, p.
88).
E assim, todos os bichos observavam da janela, homens e porcos jogando cartas.
Assustadas, “olhavam de um porco para um homem e de um homem para um porco outra vez,
mas se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco”. (ORWELL, s/d, p.
50).
Entretanto, o fracasso da Revolução Cubana e a dominação política que recaiu
sobre os homens não foram resultados somente da centralização do poder nas mãos de Fidel
Castro. O fracasso se iniciou, segundo Franqui, também, com as execuções políticas após a
tomada do poder. Afirma sobre as execuções que ele mesmo apoiou no início da Revolução:
Hoje, discordo e assumo total responsabilidade pelo que acontece então. Não por
compaixão, não porque ache que os esquadrões terroristas de Batista, ou seja lá
6
Aqui Franqui comete o mesmo erro que muitos libertários, o de tomar as idéias leninistas como sendo as idéias
de Marx.
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TEIXEIRA, Rafael Saddi. O camundongo no país das maravilhas: o poder na revolução cubana a partir da
visão do exilado cubano Carlos Franqui. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de
Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 34-48. Set.2010/Dez. 2010.
quem for, estejam inocentes ou mereçam viver. O problema não é quem recebe o
disparo, é quem o faz. Quando você executa alguém a sangue frio, está aprendendo a
matar. É assim que seres humanos se tornam máquinas de matar e essas máquinas
são impossíveis de deter. Elas precisam de combustível e, quando não tem, saem à
sua procura. Então, da nossa decisão de poupar sangue matando apenas criminosos,
surgiu um novo poder repressor, que seria implacável. (FRANQUI, 1981, p. 36).
O problema não é quem recebe o disparo, mas quem o faz. O ato de matar a
sangue frio fez com que os estadistas revolucionários se transformassem em máquinas de
matar desejosas de cada vez mais sangue. A violência revolucionária é colocada em cheque.
Matar gera frieza. A alma revolucionária disposta a mudanças se torna malévola e não mais
vê valor no homem. O humanitarismo do momento da luta revolucionária é desmantelado.
Constrói-se um estado totalitário e opressor. O homem é Macbeth após matar o rei: “Tenho
medo de pensar no que fiz. Olhar a cena uma vez mais? Não me atrevo”. Mas, matar a sangue
frio faz do homem um homem frio e Macbeth se aproxima de Lady Macbeth a cada dia, para
quem: “os que dormem, e os que já estão mortos, não passam de pinturas. É tão-somente o
olhar de uma criança que se amedronta diante de um diabo desenhado.” Olhar o morto que
você matou com os olhos não de uma criança, mas de um adulto indiferente. Eis o problema
ou, seria melhor dizer, a sina de quem faz o disparo. Para Franqui, a revolução morre quando
os revolucionários se esquecem de que o inimigo é um homem, um ser humano. Fidel Castro
se esquece, ele é Lady Macbeth, “tinha que matar, e o fazia friamente, sem emoções.”
(FRANQUI, 1981, p. 162).
REFERÊNCIAS
BAKUNIN, Michel Alexandrovich. Textos Anarquistas. Seleção e notas de Daniel Guérin; trad. Zilá
Bernd. Porto Alegre: L&PM, 1999.
CABRERA INFANTE, Guillermo. Mea Cuba. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
CAROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. Porto Alegre: L&PM, 1998.
FRANQUI, Carlos. Retrato de Família com Fidel: Fidel Castro visto por um Ex-íntimo. Rio de
janeiro: Record, 1981.
GUEVARA, Che. Que és un Guerrillero. La Habana, 19 de Fevereiro de 1959. Disponível em:
http://www.marxists.org/espanol/guevara/59-quees.htm. Acesso em: 02 de Janeiro de 2006.
ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. São Paulo: s.d. Disponível em:
<www.mundocultural.com.br. Acesso em: 14 de abril de 2002.
______. 1984. São Paulo: Ed. Nacional, 1984.
Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 04, 49 – 61. Set. 2010/Dez. 2010.
CONTRADIÇÕES DO MODO CAPITALISTA DE PRODUÇÃO DE ALIMENTOS
Nildo Viana*
Resumo:
Abstract:
O artigo aborda a mercantilização da produção
alimentar no capitalismo, analisando suas
consequências e contradições. A produção capitalista
de alimentos é perpassada por contradições e a
principal delas é a produção da fome convivendo
com a produção da opulência. A análise demonstra
que o problema da fome e da opulência é derivado
do processo de produção capitalista de alimentos e
outras determinações correlatas. A atual fase do
desenvolvimento
capitalista
promove
um
crescimento drástico da fome no mundo e,
simultaneamente, de excesso alimentar, atingindo
populações diferenciadas. A explicação para isso
reside no modo de produção capitalista e seu atual
regime de acumulação, o integral.
The article approaches the mercantilização of the
alimentary production in the capitalism,
analyzing its consequences and contradictions.
The capitalist food production is marked by
contradictions and the main one of them is the
production of the hunger coexisting the
production of the opulence. The analysis
demonstrates that the problem of the hunger and
the opulence is derived from the process of
capitalist
food
production
and
other
corresponding determinations. The current phase
of the capitalist development promotes a drastic
growth of the hunger in the world and,
simultaneously, of alimentary excess, reaching
differentiated populations. The explanation for
this inhabits in the way of capitalist production
and its current regimen of accumulation, the
integral.
Palavras-chave:
Key-words:
Fome,
Opulência,
acumulação
alimentação,
capitalismo,
Hunger,
Opulence,
accumulation.
feeding,
capitalism,
A questão da produção de alimentos apresenta um conjunto de problemas e
interpretações analíticas que envolvem várias questões. Disto deriva sua extrema
complexidade. A produção de alimentos é de importância vital para qualquer sociedade, o
que, no fundo, é dizer um truísmo, mas muitas vezes esquecido. Sem produção de alimentos,
não existe sociedade humana, a não ser num estágio primitivo de caçadores e coletores.
Porém, devido ao impacto da ação humana sobre o meio ambiente, é praticamente impossível
um retorno a este estágio nos dias de hoje, pois muitos animais foram minguados ou extintos,
bem como a devastação da flora e das florestas, e não haveria possibilidade de reprodução
natural suficiente para o tamanho da população humana atual.
Nesse sentido, não há como pregar o “retorno às florestas” como fazia o socialista
utópico Dom Deschamps e nem considerar o anarco-primitivismo atual uma solução
*
Professor da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília.
50
VIANA, Nildo. Contradições do modo capitalista de produção de alimentos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 49-61. Set.2010/Dez.
2010.
exequível, não passando de uma utopia abstrata, para usar conceito de Ernst Bloch (BICCA,
1987). Precisamos analisar o processo de relação entre produção de alimentos e sociedade e a
partir daí elaborar uma utopia concreta, ou seja, realizável. O objetivo do presente artigo é
analisar o processo de produção capitalista de alimentos e assim compreender como, numa
mesma sociedade, milhões passam fome enquanto outros consomem alimentos em excesso.
CAPITALISMO E PRODUÇÃO DE ALIMENTOS
O modo de produção de alimentos muda historicamente. A cada época, o modo de
produção de alimentos está intimamente ligado ao processo geral de produção e reprodução
da vida material da sociedade humana. Desde que o ser humano passou a dominar o processo
de produção de alimentos e abandonou a dependência dos alimentos disponíveis no meio
ambiente, e passou a domesticar os animais e plantas e aprender a produzir os alimentos, isto
proporcionou avanços que permitiu a humanidade lutar contra a fome e superá-la. Isto,
infelizmente, não ocorreu, pois juntamente com este processo, o surgimento da propriedade
privada e, na sociedade moderna, a generalização do processo de produção de mercadorias,
inviabilizou a abolição total e definitiva da fome.
O modo de produção feudal, dominante durante a chamada “Idade Média”, era um
modo de produção fundado principalmente na produção de valores de uso (SWEEZY, 1978),
no qual o objetivo era a auto-subsistência. As relações de classes, através da exploração do
servo pelo senhor feudal, e os problemas ambientais e estágio rudimentar das técnicas de
produção, não produziram uma sociedade de abundância alimentar, mas também não produziu
milhões de esfomeados impossibilitados de realizar uma das mais básicas necessidades dos
seres humanos.
O modo capitalista de produção de alimentos altera toda a estrutura da forma
feudal de produção de alimentos. O modo de produção capitalista é um modo de produção de
mercadorias fundado na extração do mais-valor, ou seja, no processo de exploração do
trabalhador (MARX, 1988; VIANA, 2009a). A mercadoria é um valor de uso e, ao mesmo
tempo, um valor de troca, que é produto do trabalho humano, cujo processo de produção é
marcado pela exploração e o objetivo em sua produção é o lucro. Assim, mercadoria
capitalista e exploração são duas faces da mesma moeda. A mercadoria, como valor de troca,
51
VIANA, Nildo. Contradições do modo capitalista de produção de alimentos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 49-61. Set.2010/Dez.
2010.
não é produzida para o próprio consumo e sim para a venda e esta só se realiza objetivando o
lucro, que é a realização da exploração do trabalhador1.
Se na sociedade feudal, a unidade doméstica era simultaneamente unidade de
produção e unidade de consumo, na sociedade capitalista há uma separação e a unidade
doméstica se transforma em tão-somente unidade de consumo (VIANA, 2000). Desta forma, a
produção de alimentos, tal como a produção de bens de consumo em geral, é realizada fora da
unidade doméstica e assim é necessário não somente sair dela para produzir, mas também
para consumir. Com o processo de divisão social do trabalho, a produção de alimentos se
tornou um setor especializado e assim, aqueles que não produzem alimentos, devem usar a
mercadoria-dinheiro para conseguir a mercadoria-alimento. Isto terá muitas consequências,
como veremos adiante, mas o que fica explícito aqui é que o modo de produção capitalista
transformou os alimentos em mercadorias e assim a colocou sob a lógica da produção
mercantil capitalista.
Porém, a produção capitalista não é apenas transformação de tudo em mercadoria,
mas fundamentalmente exploração via extração de mais-valor. A produção de mercadorias
capitalistas é apenas um meio para realizar a produção de mais-valor, ou seja, se produz
mercadorias para realizar o processo de exploração para com isso adquirir lucro. Os
proprietários das empresas capitalistas retiram uma pequena parte do lucro adquirido para
gastar com o seu consumo pessoal (de mercadorias em geral e luxuosas em particular) e a
maior parte é reinvestida na produção, aumentando assim a quantidade de mercadorias
produzidas e principalmente o lucro, que, novamente, será reinvestido, e assim
sucessivamente, provocando a reprodução ampliada do capital, a concentração e centralização
do mesmo, o que gera o processo de formação de oligopólios, que hoje se tornaram grandes
empresas oligopolistas transnacionais (VIANA, 2009a).
O modo de produção capitalista de alimentos funciona da mesma forma. Apesar
de existir (em alguns países praticamente foi extinto, em outros é reduzido e apenas em alguns
países ainda tem relativa importância) o modo de produção camponês, que é um modo de
produção subordinado ao capitalismo, ele não é uma saída viável, pois mantém problemas
análogos ao da produção capitalista, apesar de ser produção mercantil simples e sua lógica
não ser a do lucro, mas não tem, justamente por isso, recursos e condições de produzir
alimentos suficientes para atender as necessidades da população mundial. Os camponeses
1
E isso, custe o que custar. O que interessa é produzir e vender: “há alguns anos, um produto de aparência
inofensiva, utilizado como calmante e chamado talidomida, revelou-se, ao ser experimentado, teratogênico,
provocando o nascimento de focomelos, em diversos países (crianças com braços atrofiados ou inexistentes)”
(SAUVY, 1977, p. 44).
52
VIANA, Nildo. Contradições do modo capitalista de produção de alimentos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 49-61. Set.2010/Dez.
2010.
produzem de forma complementar e também submetidos ao processo de exploração efetuado
pelo grande capital comercial e bancário (VIANA, 2009b).
É por isso que emergiu um poderoso capital oligopolista agroindustrial e
internacionalização da produção. A Quaker e a Unilever são algumas das maiores empresas
oligopolistas transnacionais da produção alimentar, juntamente com a Nestlé e várias outras.
A Quaker, que surgiu nos Estados Unidos no século 19, vai se expandindo mundialmente e
ampliando seus negócios, sendo que na década de 1920 implantou subsidiárias em quatro
países europeus, na América do Sul, África e Oriente. Amplia suas fábricas em vários países
após a Segunda Guerra Mundial e hoje se encontra presente no mundo inteiro através da
exportação de seus produtos, investimentos diretos e parcerias com licenciados. A Unilever
realiza investimentos diretos em mais de 80 países em todos os continentes e vem crescendo
cada vez mais através de inúmeras aquisições, fusões, parcerias e vendas de empresas em
escala planetária. Ao lado dessas, outras também atuam e expressam o poder do capital
oligopolista transnacional e agroindustrial2.
MUITOS “CONSUMIDORES” PARA POUCOS ALIMENTOS: A FOME
Neste contexto, há uma subordinação das necessidades vitais da humanidade ao
processo de reprodução do capitalismo e sua busca incessante de lucro. Isto produz duas
consequências fundamentais convivendo juntas: a opulência e a escassez. O dilema da
produção capitalista de alimentos reproduz o processo de desigualdade e exploração de
classes e também, outra face desse mesmo processo, exploração e desigualdade de países. A
opulência se concentra nas classes privilegiadas de todos os países e de forma mais extensa
nos países imperialistas e a escassez se concentra nas classes mais empobrecidas e em maior
grau nos países de capitalismo subordinado3.
Contemporaneamente, há um aumento progressivo da escassez. A instauração de
um novo regime de acumulação capitalista, a acumulação integral (VIANA, 2009a; VIANA,
2003), cujo objetivo maior é combater a tendência declinante da taxa de lucro e aumentar o
processo geral de exploração, é o principal responsável por este aumento progressivo. A partir
da emergência do neoliberalismo (um dos aspectos constituintes do novo regime de
acumulação), que tem como um de seus objetivos fundamentais a diminuição dos gastos
2
O capitalismo domina a produção, transformação e distribuição dos alimentos (POULAIN, 2004).
É essa desigualdade que permite fazer afirmações como esta: “de modo durável, instala-se um sentimento de
abundância, e logo de superambundância” (POULAIN, 2004, p. 25).
3
53
VIANA, Nildo. Contradições do modo capitalista de produção de alimentos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 49-61. Set.2010/Dez.
2010.
estatais, reduziu seus investimentos pela metade entre 1980 e 2004, visando assim colaborar
mais intensivamente com o grande capital oligopolista transnacional, o que tem efeitos graves
no processo de satisfação da necessidade alimentar por parte da população, aumentando
drasticamente a pobreza mundial. O neo-imperialismo atua com força para aumentar a
exploração internacional (VIANA, 2009) e isto se reproduz no processo de liberalização do
comércio que reforça um processo comum na história do capitalismo, a divisão internacional
do trabalho e a exploração efetivada nesse contexto que atinge os países cuja produção é
menos industrializada. O comércio internacional tem “provocado fome e até inanição”
(MADELEY, 2003).
“Por exemplo, durante a fome aguda na Irlanda que matou quase um milhão de
pessoas em 1846-47, „grandes proprietários de terras exportavam alimento para a
Grã-Bretanha enquanto camponeses pobres sucumbiam em seu redor‟. Troquemos a
Irlanda pelos países subdesenvolvidos, os grandes proprietários pelos
conglomerados transnacionais e a Grã-Bretanha pelo mundo ocidental e veremos
que pouca coisa mudou. Ainda se exporta alimento de países onde a fome mata
muita gente” (MADELEY, 2003, p. 66).
O Acordo sobre a Agricultura de 1993, no contexto da hegemonia absoluta do
neoliberalismo e de acordo com os interesses neo-imperialistas, estabeleceu que “os países
não poderão aumentar a sua proteção ao setor agrícola acima do nível que já existia antes de
1993” (MADELEY, 2003, p. 69). Isto poderia ser interpretado ingenuamente como apenas a
manifestação da doutrina neoliberal que prega o livre-comércio, deixando de lado a diferença
entre o caráter do neoliberalismo nos países imperialistas (protecionista) e nos países
capitalistas subordinadas (livrecambista) (VIANA, 2009a). Quando se entende isso, também
fica fácil entender o Acordo e como ele privilegia os países imperialistas: “os países
industrializados que já arcavam com altos níveis de proteção podem mantê-los, mas os países
em desenvolvimento não podem elevar seus níveis” (MADELEY, 2003, p. 69). A análise de
Chossudovsky (1999) das causas reais da fome na Somália mostra o mesmo processo, que
ocorreu através da intervenção do FMI – Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial,
que pressionou o governo local para ceder aos ditames do neoliberalismo na década de 1990.
Além disso, determinações conjunturais derivadas do novo regime de acumulação
e da dilapidação do meio ambiente e recursos naturais promovem o aumento da escassez de
alimentos para a população mundial, tal como a expansão da produção de agrocombustíveis
por fornecerem maior lucratividade, juntamente com o aumento do preço do petróleo, que
proporcionam o aumento do preço dos alimentos, já que num caso se troca a produção
alimentar pela de agrocombustíveis e no outro se torna mais caro o transporte da mercadoria-
54
VIANA, Nildo. Contradições do modo capitalista de produção de alimentos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 49-61. Set.2010/Dez.
2010.
alimento. A liberalização do comércio, tal como já colocamos, promovida em nome da
“globalização”, na verdade, um eufemismo para esconder outra face do novo regime de
acumulação, o aumento da exploração internacional, também atinge diretamente a produção
alimentar e o preço dos alimentos. Neste contexto e complementarmente, a crise financeira, e
o crescimento das exportações, encerram este quadro de aumento dos preços e dificuldades na
produção de alimentos. A escassez se torna cada vez mais assustadora, pois se na década de
1960 havia 80 milhões de pessoas passando fome, em 1998 esse número chegou a 860
milhões e em 2008 a 950 milhões.
É claro que é preciso destacar que o problema não é apenas a fome. A fome é o
pior estado que um ser humano pode atingir, pois significa que não pode satisfazer uma
necessidade básica e de sobrevivência. Porém, o simples acesso aos alimentos não significa
muita coisa, pois isso também depende da constituição da alimentação:
Para começar, a palavra fome já não basta. É que o termo evoca simplesmente a
insuficiência da quantidade de alimentos, provocando a subnutrição e a morte pela
fome. Trata-se agora de outra coisa. Viemos a saber que não é apenas quando nossa
alimentação é insuficiente que estamos ameaçados. Também o estaremos se ela for
mal constituída. Nesse último caso, surge uma série de estados de subnutrição.
Quando esta subnutrição é grave, pode tornar-se rapidamente mortal: traduz-se por
doenças de há muito conhecidas, mas cujas causas permaneciam ignoradas
(MAYER, 1963, p. 4).
A fome continua sendo um tema tabu, como já dizia Josué de Castro (1963).
Enquanto muitos estudam e pesquisam sobre “comidas típicas” e coisas parecidas, poucos se
aventuram a tratar desta questão que é a mais degradante para um ser humano. Porém, além
de observar a quantidade de pessoas esfomeadas no mundo (e outras formas de subnutrição),
há menos abordagens ainda que explicam as suas determinações, o que gera a fome coletiva
que atinge milhões de pessoas. Os poucos que se dedicam ao assunto ou responsabilizam os
indivíduos, ou então a falta de uma reforma agrária, falta de educação ou fornecem outras
explicações que nada explicam4.
4
Algumas teses são tão superficiais que não compreendem que, metodologicamente, é impossível explicar a
ocorrência de um fenômeno pela não ocorrência de outro fenômeno, tal como explicar a ocorrência da fome pela
não ocorrência de uma reforma agrária ou educação, pois, estes fenômenos que não ocorreram, não podem gerar
nada, já que o nada não pode gerar algo. Aliás, este tipo de raciocínio é muito utilizado para explicar a violência
também. Estes aspectos (reforma agrária e educação), no máximo, poderiam minimizar ou atingir alguns casos
típicos de fome, ou seja, atuam sobre algo já constituído. Jonsson (1986) apresenta um quadro interessante sobre
explicações de vários especialistas de várias áreas para o fenômeno da fome, mostrando não só os limites da
divisão do trabalho intelectual como também como isso constitui determinadas predisposições mentais. Porém,
infelizmente, o seu pouco domínio do método dialético e da compreensão do capitalismo o impediu de avançar
na explicação da fome.
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VIANA, Nildo. Contradições do modo capitalista de produção de alimentos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 49-61. Set.2010/Dez.
2010.
Assim, é possível pensar que o problema está na falta de produção ou de
capacidade produtiva, o que é um equívoco5. A produção é elevada, mas nem todo mundo tem
acesso, pois os alimentos são mercadorias e só possuindo a mercadoria-dinheiro é que se pode
comprá-la e consumi-la. A questão é que a produção alimentar poderia facilmente ser
quadruplicada e resolver o problema da fome mundial em questão de alguns meses.
Porém, ninguém vai produzir alimentos para vender barato ou doar de graça. O
aumento excessivo da produção alimentar faria cair os preços e acabar com o lucro e sem este
ninguém produz e se produzisse a preços baixíssimos, significaria a falência. Por isso, doar
alimentos de graça é algo sem o menor sentido no capitalismo. A única solução seria o Estado
comprar os alimentos e doar gratuitamente ou, em certos contextos, vender a preços baixos,
mas isso é algo impossível, pois o neoliberalismo surge justamente para diminuir os gastos
estatais e resolver seus problemas financeiros e do grande capital. Apenas em casos de
governos neopopulistas ocorre um tipo de ação semelhante, mas de forma extremamente
precária, insuficiente, marcado por contradições e com objetivos eleitoreiros e de manutenção
de determinados partidos e alianças no governo. Assim, fica evidente a contradição entre
capitalismo e necessidades humanas vitais.
MUITO ALIMENTO PARA POUCOS CONSUMIDORES: A OPULÊNCIA
Esta contradição entre necessidades humanas vitais e capitalismo, no entanto, se
manifesta sob outra forma: o do crescimento da opulência em convivência com o crescimento
da escassez. A escassez é para determinadas classes sociais e não para todos, e, da mesma
forma, a opulência é apenas para as classes privilegiadas6. Enquanto milhões de pessoas
morrem de fome ou estão abaixo do mínimo calórico necessário, outros se alimentam em
demasia, até gerando problema de saúde pública. Em 2006 calcula-se que havia cerca de 300
5
“Apesar de todas as crises de produção agrícola, o volume total da produção tem acompanhado o crescimento
do consumo; ainda assim, grande parte da população continua a sofrer as conseqüências da fome, mesmo
havendo recursos e tecnologia compatíveis para a solução do problema, que, logicamente, é muito mais de
ordem política que de ordem técnica. A persistência desta situação de fome beneficia com altíssimos lucros os
grupos econômicos que usufruem da condição de oligopólio/oligopsônio na comercialização e distribuição de
gêneros alimentícios. Esses grupos tudo fazem e tudo farão a fim de evitar que termine o seu privilégio, pois
detém razoável parcela de poder econômico e político” (MIRANDA NETO, 1988, p. 13).
6
“Contudo, a colocação em evidencia dos efeitos da superabundância alimentar não deve ocultar a emergência
de novas formas de precariedade, pois nem todos se beneficiam dela da mesma maneira. O aparecimento de uma
nova pobreza no âmago das sociedades de pletora é o sinal mais forte disso e o mais visível” (Poulain, 2004, p.
90). O autor também cita estudos que abordam a “persistência das classes sociais” em contradição com os
ideólogos do fim das classes sociais. Claro que existem os ideólogos como Malthus (1996), que irão
responsabilizar o crescimento populacional, o que já foi suficientemente refutado por Marx (1985; 1983), apesar
de ter outros ideólogos com as mesmas afirmações (SAUVY, 1977).
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Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 49-61. Set.2010/Dez.
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milhões de pessoas obesas no mundo e 65% da população norte-americana era composta por
obesos em 19997 (BIANCO, 2008).
O processo que alguns denominam “mcdonaldização” ocorre a nível mundial. A
expansão dos fast food, é reproduzida através das estratégias capitalistas de reprodução
ampliada do mercado consumidor, tal como a propaganda. A produção capitalista de
alimentos segue a lógica do aumento da produção visando aumentar a massa de lucro e isto
produz a necessidade de aumentar o mercado consumidor. Assim, a propaganda e outras
estratégias são utilizadas para aumentar o consumo de alimentos, criando novos nichos de
mercado (de alimentos para jovens, tal como o “irreverente” chiclete, por exemplo, na década
de 1960, até mercadorias tecnológicas para juventude, cultura mercantil descartável para
determinados setores, etc.), inclusive aqueles das pessoas preocupadas com a obesidade, pois
o capitalismo cria a miséria e ainda vende e lucra com a suposta solução miserável e lucrativa
que apresenta. É neste contexto que surgem novas mercadorias alimentares para gerar novos
nichos de mercados, como diversos tipos de mercadorias alimentares: vegetarianas, orgânicas,
funcionais.
Neste contexto, há um processo crescente de racionalização e especialização
voltado para o consumo alimentar, incluindo o processo de medicalização (POULAIN, 2004)
e estigmatização dos obesos, que é mais material para produção e consumo de mercadorias,
desde remédios, profissionais especializados, publicações, programas de TV (dos
“medicinais” aos “humorísticos”) e milhões de outras mercadorias. Uma vez produzida a
obesidade, sua estigmatização e medicalização, também se produz problemas psíquicos
derivados disso (e, em muitos casos, a compensação psíquica em consumo alimentar, ou seja,
um círculo vicioso). E assim temos, para a área de medicina, psicologia e afins, mais um
“prato cheio”, se me permitem o trocadilho, de consumidores de serviços-mercadorias8.
O processo de racionalização é crescente na sociedade moderna. Os estudos de
Max Weber (WEBER, 1987; FREUND, 1987) mostram o processo da expansão capitalista e
do processo de racionalização que lhe acompanha. Desta forma, o desenvolvimento de
7
“O relatório do Worldwatch Institute sobre fastfood, publicado em 2006, revela que „mais de 300 milhões de
pessoas são obesas em todo o mundo e a obesidade atingiu nos últimos anos „níveis epidêmicos‟‟. De acordo
com esse estudo, o aumento do consumo de alimentos com grande densidade energética e calórica, como carnes,
açúcares e frituras, é um fator que explica o crescimento da obesidade. Deve-se destacar a proliferação dos
restaurantes fast-food, que, desde 1980, mais do que triplicaram em todo o mundo. Em muitos desses
restaurantes, uma única refeição contém uma quantidade desproporcional – às vezes mais de 100 % – da gordura
diária recomendável, com colesterol, sal e açúcar” (BIANCO, 2008, p. 14).
8
A relação entre ansiedade e consumo alimentar excessivo já foi trabalhada por alguns autores, inclusive
identificando seu maior índice nas mulheres (POULAIN, 2004).
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pesquisa, acompanhadas, desenvolvidas e financiadas pelo grande capital do ramo de
alimentação (BIANCO, 2008), visando criar novas mercadorias vendáveis.
Max Weber diagnosticava, no início do século 20, o processo de racionalização no
âmago da modernidade. George Ritzer procurou reforçar a tese weberiana em seu
livro The McDonaldization of Society (1993): enquanto para Weber a burocracia era
a representante da racionalização, para Ritzer, os restaurantes fast-food se tornaram
emblemáticos de nossa época e seus conceitos tendem a se expandir para outras
esferas da sociedade. Aproximando-nos da chamada administração científica, a
descrição de Ritzer identifica-se com uma espécie de fordismo alimentar, mais
flexível e adaptado às novas condições. As características essenciais apontadas por
Ritzer são: eficiência, calculabilidade, previsibilidade (predictability) e controle. Ele
reconhece a “filosofia fastfood” como um novo impulso do processo de
racionalização que vinha se desenvolvendo pelo menos desde as fábricas e linhas de
montagem fordistas e burocratização weberiana (BIANCO, 2008, p.26).
Aliás, não deixa de ser revelador que os EUA são o país de maior “cultura
nutricional” e também o de maior obesidade no mundo. Para as mulheres, que vivem sob a
ditadura do padrão dominante de beleza e do papel sexual que a sociedade moderna lhe
atribui, a ansiedade, bulimia, anorexia, são alguns dos efeitos. Ao lado disso, os alimentos
funcionais, tal como os produtos diet, light, zero, etc., aumentam suas vendas e não se
questiona os produtos químicos que os compõem e seus efeitos sobre a saúde (e seus supostos
resultados ou “benefícios”, nos casos dos alimentos funcionais)9, conseguindo um novo nicho
de mercado composto pelos incautos, principalmente oriundos dos setores intelectualizados da
sociedade.
A criação de nichos de mercado provoca uma segmentação e variedade muito
maior do que a anteriormente existente:
Argumentamos que a indústria de alimentos finais foi capaz de se adaptar (e mesmo
promover) a diferenciação de produto, segmentação de mercado e inovação de
produtos de ciclo curto. Ao mesmo tempo, ela assumiu a globalização e enfrentou o
setor de varejo com um portfólio de marcas cada vez mais especializadas e de alto
nível. Teve, contudo, maior dificuldade em lidar com visões normativas em relação
à qualidade dos alimentos, que surgiram da comunidade científica nutricional, de
forma cada vez mais autônoma, e que convergiram com as preocupações crescentes
acerca da saúde pública. Esses dois corpos de opinião criaram uma forte
identificação do alimento com a nutrição e a saúde, o que inicialmente enfrentou a
resistência dos médicos e da indústria de alimentos finais. No que concerne à
indústria alimentar, esse consenso crescente pode ser resumido na necessidade de
9
“Em pesquisa divulgada por Science Daily, em maio de 2007, são apresentados novos indícios dos efeitos
saudáveis contraditórios dos bioflavonóides (componentes naturais de frutas e vegetais). Os bioflavonóides são
tidos como a fonte natural mais abundante de antioxidantes na dieta e são ordinariamente considerados bastante
benéficos na proteção contra doenças do coração, câncer e outros problemas de saúde. Este estudo mostra,
porém, que três classes principais de bioflavonóides interferem nas células de modo a prejudicar o DNA, com
potenciais efeitos adversos à saúde. A ingestão em altos níveis entre mulheres grávidas está ligada a formas raras
de leucemia infantil” (BIANCO, 2008, p. 71). Vários outros casos podem ser conferidos nesta mesma obra.
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VIANA, Nildo. Contradições do modo capitalista de produção de alimentos. Estácio de Sá – Ciências
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menos açúcar, gorduras saturadas, carboidratos e sal, e mais fibras. A oposição
inicial, no estilo da indústria de tabaco, foi gradualmente transformada em
conformação, assim que se reconheceu que a adoção de menos açúcar, gorduras e sal
não ameaçava o perfil de produto industrial existente e, de fato, poderia ser
incorporada na estratégia dominante de segmentação de mercado (produtos diet e
light). As tecnologias que asseguraram esses objetivos rapidamente se difundiram
por toda a indústria, eliminando as vantagens do primeiro inovador. Um processo
semelhante ocorreu com a importância atribuída aos suplementos vitamínicos e sua
incorporação no modelo nutricional dominante. Leite e outros produtos passaram a
ser oferecidos com diferentes níveis de gordura e um leque de aditivos fortificantes.
Os alimentos funcionais entram na estratégia de criação de nicho de mercado, os
setores mais intelectualizados da sociedade. Para isso é preciso legitimar e possuir
ideologias que reforcem, justifiquem e legitimem o consumo de alimentos
funcionais:Uma nova estratégia surgiu nos anos 1980, com base na inversão do
argumento anterior de que nenhum produto individualmente é um produto mau,
envolvendo o desenvolvimento de produtos que reivindicavam o status de
qualidades especiais para a saúde. De fato, o impacto de adotar produtos de baixo
teor de gordura em parte colocou em questão a noção do valor “natural” do produto
original, preparando o consumidor para essa mudança radical na estratégia da
indústria alimentar. Alimentos funcionais ou nutricêuticos aproximam o alimento da
medicina e estabelecem uma ruptura com a revolução nutricional já descrita [...]. A
adição de novas qualidades aos alimentos, oferecendo características específicas
relacionadas com a saúde, implica um conceito mais radical de inovação de produto
baseado em P&D, experimentos clínicos, aprovação regulatória e proteção de
patentes. A reivindicação agora é a que certos atributos específicos dos produtos
contribuem para diminuir o nível de colesterol, melhorar a função do sistema
digestivo, fornecer picos de energia rapidamente, fortalecer os ossos e diminuir o
risco de câncer, ataques de coração e outras doenças (WILKINSON, 2002).
Nesse caso, a propaganda é a alma do negócio. No caso dos alimentos funcionais
isto não é diferente e como seu público é o mais intelectualizado, então é necessária uma
propaganda diferenciada. É por isso que podemos ver numa caixa de leite algo semelhante a
uma bula de remédio (BIANCO, 2008) e é isso que faz com que as propagandas de alimentos
(e creme dental e milhares de outras mercadorias) sejam apresentadas não apenas por pessoas
famosas e “bem sucedidas”, de acordo com os valores dominantes da competição e luta pelo
sucesso, poder e riqueza (VIANA, 2008), mas também por cientistas, médicos, odontólogos,
que seriam autoridades científicas que provariam a cientificidade das afirmações. Isso
reproduz a ideologia do status superior do saber científico (ALVES, 1981), que, como coloca
a ideologia dominante seria “neutra”, ao invés de ser, como verdadeiramente é, um saber tão
determinado, interessado e marcado por valores quanto qualquer outro (VIANA, 2007)10. A
propaganda é geralmente realizada via meios oligopolistas de comunicação, mas também
pode ocorrer por outras formas:
10
A propaganda também é realizada via internet. Quem pesquisar no Google os termos “alimentos funcionais”
(ou semelhantes), irá ver não somente as respostas dos sites que usam estas palavras, mas também, na coluna
direita, nos links patrocinados, um que remete para o site da Beneo e essa breve descrição: “Alimentos que
levam o selo BENEO™ estimulam as bactérias boas”.
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O sucesso dos alimentos funcionais depende do estabelecimento de uma relação
discursiva mais interativa com o consumidor. Altus, a joint-venture da Quaker e da
Novartis, afirma que apenas lança produtos depois que grupos-alvo e sessões de
teste os declararem iguais ou superiores a quaisquer outros no mercado. Neste caso,
o exemplo clássico seria a estratégia de venda da Yakult da sua bebida láctea
probiótica fermentada. Sessões de degustação, vendas diretas e a sua promoção
pelos próprios consumidores, sem o uso de nenhum meio de comunicação de massa,
tornaram esse produto um líder de mercado na Europa, criando um novo segmento
de mercado e forçando os líderes mundiais, Nestlé e Danone, a uma estratégia de
“eu também”. Recentemente, a Nestlé retirou seu LC1, concorrente do Yakult, do
mercado inglês, argumentando que a sua estratégia tradicional de publicidade
orientada à televisão e aos meios de comunicação não era apropriada para aquele
tipo de produto. Essas tradicionais empresas líderes, além de serem
tecnologicamente vulneráveis, têm ainda que lidar com mercados que não são
criados através de suas estratégias tradicionais de marketing.
Além dos alimentos funcionais, outros também são problemáticos, mas não seria
possível tratá-los aqui. A produção de “comida ruim” (malbouffe) promoveu a emergência de
protestos e organizações contra a mcdonaldização da alimentação (BOVÉ e DUFOUR, 2001).
Sem dúvida, há muitas implicações no consumo alimentar deste tipo, mas que são geradas
pelo processo de produção capitalista de alimentos e seus interesses. O alimento-mercadoria,
com os transgênicos, agora podem ser patenteados (BOVÉ e DUFOUR, 2001) e a produção
capitalista é cada vez mais dominante no processo de produção, transformação e distribuição
de alimentos, e o processo de mercantilização promove problemas alimentares que atingem a
população, seja pela falta, pela má qualidade, pelo excesso, pelos seus componentes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS ÓBVIAS: SE O PROBLEMA É A PRODUÇÃO
CAPITALISTA DE ALIMENTOS...
As saídas apresentadas por alguns setores da sociedade, tal como agricultura
tradicional e “ecológica” (Via Campesina, ONGs), ou novas políticas estatais, são
completamente irrealistas. O que temos aqui é apenas reprodução do dilema básico aludido
anteriormente. A ilusão de mudar a agricultura sem mudar a totalidade social, ou seja, no
interior do capitalismo, é uma forma de demonstrar desconhecimento do real problema que se
encontra no modo capitalista de produção de alimentos, que não pode ser alterado sem haver
mudança no conjunto das relações sociais.
Da mesma forma, esperar que políticas estatais possam resolver estes problemas
significa esquecer que o Estado é parte e o principal reprodutor deles. Já demonstramos as
ligações entre as políticas neoliberais e a atual situação alimentar mundial. Além disso, o
Estado é o grande responsável e incentivador, no Brasil, da produção canavieira e de etanol no
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VIANA, Nildo. Contradições do modo capitalista de produção de alimentos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 49-61. Set.2010/Dez.
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cerrado, com todos os custos ambientais e sociais derivados daí, inclusive no processo de
produção alimentar, para citar apenas um exemplo. Caberia a ele regularizar a produção de
alimentos, inclusive no sentido de impedir que os interesses do grande capital oligopolista
transnacional dos alimentos manipulassem a população para vender produtos e deteriorar o
padrão alimentar, mas faz justamente o contrário, incentiva e protege esta produção nociva.
A solução é a transformação radical e completa do conjunto das relações sociais,
produzindo uma nova forma de produção de bens materiais e alimentos. Isto geraria uma
situação na qual a coletividade conseguiria produzir e distribuir os meios de sobrevivência de
forma igualitária e sem interesses capitalistas em seu processo. Em outras palavras, somente
uma sociedade fundada na autogestão social poderá resolver os graves problemas alimentares
existentes e impedir que a humanidade entre em bancarrota.
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25/05/2010.
Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 04, 62 – 75. Set. 2010/Dez. 2010.
REGIME DE ACUMULAÇÃO INTEGRAL E CRIMINALIZAÇÃO DO
LUMPEMPROLETARIADO
Lisandro Braga▪
Resumo:
Abstract:
A mais-violência das relações de trabalho na
contemporaneidade e a prática do aprisionamento em
massa de determinados grupos sociais é uma
totalidade formada por diversas partes, tais como a
sociedade capitalista contemporânea, o regime de
acumulação integral, o Estado neoliberal, o modo de
produção capitalista, etc. Esse último, marcado
essencialmente pela luta de classes entre burguesia e
proletariado, é sua determinação fundamental. Com
o intuito de esclarecer essa realidade específica esse
artigo pretende discutir o que são os regimes de
acumulação, caracterizar o regime de acumulação
integral,
suas
especificidades
na
forma
organizacional do trabalho, a mais-violência
derivada daí e a expansão da criminalização do
lumpemproletariado na contemporaneidade.
The more-violence of the relations of work in the
contemporaneity and the practical one of the
capture in mass of determined social groups is a
totality formed for diverse parts, such as the
capitalist society contemporary, the regimen of
integral accumulation, the neoliberal State, the way
of capitalist production and so on. This last one,
essentially marked for the fight of classrooms
between bourgeoisie and proletariat, is its basic
determination. With intention to clarify this
specific reality this article intends to argue what
they are regimes of accumulation, to characterize
the regimen of integral accumulation, its specificity
in the organizational form of the work, the moreviolence derived from there and the expansion
from the criminalization of the lumpemproletariat
one in the contemporaneity.
Palavras-chave:
Key-words:
Acumulação
Integral,
Lumpemproletariado, Violência.
Criminalização,
Integral
accumulation,
Criminalization,
Lumpemproletariat, More-Violence.
INTRODUÇÃO
O propósito desse artigo é discutir o regime de acumulação integral (Viana, 2009),
e a expansão da “criminalização da pobreza” (WACQUANT, 2001; 2008) via encarceramento
dos setores mais oprimidos da sociedade moderna: o lumpemproletariado. No entanto, tornase necessário discutir as transformações na organização do trabalho, seu caráter gerador de
mais-violência para a vida (tanto física quanto psíquica) da classe operária visto que o
processo de lumpemproletarização encontra-se intimamente ligado a essas transformações nas
relações de trabalho.
Todas essas questões serão analisadas a partir do conceito acumulação integral
(VIANA, 2009) e do método dialético. Isso significa que as relações de trabalho, a mais▪
Professor de Sociologia e História dos Marginais na Universidade Estadual de Goiás e mestrando do programa
de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Goiás.
63
BRAGA, Lisandro. Regime de Acumulação Integral e Criminalização do Lumpemproletariado. Estácio de
Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 62-75.
Set.2010/Dez. 2010.
violência
e
o
aprisionamento
do
lumpemproletariado
pelo
Estado
(Penal)
na
contemporaneidade serão explicados a partir de suas determinações e pela forma como elas se
inserem na totalidade das relações sociais visando encontrar sua determinação fundamental e
sua dinâmica na contemporaneidade.
O que é um regime de acumulação e qual é a importância desse conceito para a
compreensão
desses
fenômenos,
mencionados
acima,
na
sociedade
capitalista
contemporânea? A tentativa de responder essa questão consistirá no “ponta-pé” inicial para o
desenvolvimento de todo o nosso raciocínio nesse artigo.
O termo “regime de acumulação” não é um termo antigo e nem tão pouco
consensual entre os diversos teóricos que o utilizaram em suas análises sobre o
desenvolvimento do capitalismo. Nosso objetivo aqui não é realizar uma profunda discussão
teórica acerca dos regimes de acumulação, mas apenas resgatar algumas delas com intuito de
encontrar a melhor definição que nos sirva para o propósito deste artigo. Nas inúmeras
análises sobre o desenvolvimento do capitalismo podemos encontrar diversas periodizações
desse modo de produção desde as mais conservadoras (Rostow) às limitadas e fetichistas
(Frank). Contentaremos-nos a discutir com apenas dois autores: Rabah Benakouche e Nildo
Viana.
Iniciaremos com uma discussão acerca das categorias totalidade e determinação
fundamental. De acordo com o materialismo histórico dialético, a totalidade é o que abarca o
todo e esse é a sociedade, porém a sociedade é formada por diversas partes que,
necessariamente, estão ligadas umas às outras exercendo múltiplas determinações sobre elas,
mas uma dessas exerce uma “determinação fundamental”, sobre as demais, ou seja, sobre o
todo (a sociedade) 1.
Ocorre, porém, que em todas as sociedades o modo de produção exerce uma
determinação fundamental visto que os seres humanos são, para continuarem a existir,
coagidos a produzirem e reproduzirem suas condições materiais de existência e esse é o
segundo pressuposto da história humana, visto que o primeiro pressuposto é a própria
existência de seres humanos vivos (Marx e Engels, 2002). Assim sendo, o modo de produção
condiciona as demais esferas da vida social uma vez que exerce uma determinação
fundamental.
1
O método dialético recebe várias abordagens, sobre perspectivas diferentes. Sobre o conceito de totalidade
pode-se consultar as contribuições de Karl Marx, Karl Korsch, Lukács, Kosik etc. Sobre o conceito determinação
fundamental, o mesmo foi desenvolvido por Hegel e em Marx aparece como essência.
64
BRAGA, Lisandro. Regime de Acumulação Integral e Criminalização do Lumpemproletariado. Estácio de
Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 62-75.
Set.2010/Dez. 2010.
O que pretendemos demonstrar adiante é que as relações de trabalho na
contemporaneidade e a prática do aprisionamento em massa de determinados grupos sociais é
uma totalidade formada por diversas partes, tais como a sociedade capitalista contemporânea,
o regime de acumulação integral, o Estado neoliberal, o modo de produção capitalista, etc.
Esse último, marcado essencialmente pela luta de classes entre burguesia e proletariado, é sua
determinação fundamental. Com o intuito de esclarecer essa realidade específica, iremos, a
seguir, discutir o que são os regimes de acumulação, caracterizar o regime de acumulação
integral, suas especificidades na forma organizacional do trabalho, a mais-violência derivada
daí e a expansão do cárcere na contemporaneidade.
REGIMES DE ACUMULAÇÃO E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO
Karl Marx ao analisar a história humana com o intuito de compreender o
capitalismo constatou que a história da humanidade é a história da sucessão dos modos de
produção. A superação de um modo de produção significa uma ruptura histórica profunda e o
surgimento
de
sociedades
radicalmente
diferenciadas,
oriundas
de
um
processo
revolucionário. Essa constatação e sua teorização foram realizadas por Marx e está contida no
“Prefácio à Crítica da Economia Política”, que assim afirma:
(...) Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da
sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que
nada mais é que a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das
quais aquelas até então tinham se movido. De formas de desenvolvimento das forças
produtivas essas relações se transformam em seus grilhões. Sobrevém então uma
época de revolução social. Com a transformação da base econômica, toda a enorme
superestrutura se transforma com maior ou menor rapidez (...) (1983, 24-25).
Ao contrário do que ocorre em um contexto de revolução social, a mudança de um
regime de acumulação para outro não representa uma transformação, mas tão somente
mudanças no interior de um mesmo modo de produção, portanto o que ocorre é
uma mudança no interior de uma permanência, o que significa que, em sentido
amplo, não há ruptura e nem radicalidade no processo de mudança. A sucessão de
regimes de acumulação explicita a manutenção do modo de produção capitalista e de
seus elementos característicos fundamentais, e a substituição de um regime por outro
é marcada, no fundo, pela realização do objetivo de manter as relações de produção
capitalistas e pelo aprofundamento de tendências já existentes no regime anterior,
seguindo a dinâmica da acumulação de capital (Viana, 2009, 15).
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BRAGA, Lisandro. Regime de Acumulação Integral e Criminalização do Lumpemproletariado. Estácio de
Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 62-75.
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Benakouche contribui com uma análise do desenvolvimento capitalista ao afirmar
que as formas de expansão do modo de produção capitalista estão em constantes mudanças e
que tais mudanças é uma das principais características desse modo de produção. Segundo esse
autor,
os modos e as formas de acumulação do capital, e, portanto, os modos de extração
da mais-valia e as formas que assumem as relações sociais (inclusive as relações
salariais) mudam em função da evolução do capitalismo. E se os modos e as formas
de acumulação do capital mudam o tempo todo, seus elementos de articulação, tais
como os modos de extração de mais-valia, as formas das relações sociais, as formas
da estrutura de produção ou hierarquização do sistema produtivo nacional, os modos
e as formas de organização do processo de trabalho, o nível e o tipo de
desenvolvimento das forças produtivas, as formas do Estado, a estrutura social ou os
modos e as formas da luta de classes, os tipos e as formas de dominação nas relações
econômicas internacionais ... evoluem ou mudam em função do grau atingido pelo
desenvolvimento do capitalismo (BENAKOUCHE, 1980, 23-24 ).
Apesar da interessante análise realizada por Benakouche a mesma possui alguns
limites. Um deles é o de apresentar de forma metafísica o desenvolvimento do capitalismo,
visto que seu motor, a luta de classes, é apenas mencionado, mas em momento algum sua
dinâmica e contribuição para a transformação é explicitada. Dessa forma sua análise acaba
por possuir um caráter fetichista. Logo,
ao tomar o desenvolvimento capitalista como algo autônomo e independente,
Benakouche focaliza o desenvolvimento tendencial espontâneo do capitalismo e
deixa de lado o papel da luta de classes neste processo, modificando a dinâmica de
tal desenvolvimento (VIANA, 2009, 27).
De acordo com Viana, “um regime de acumulação é um determinado estágio do
desenvolvimento capitalista, marcado por determinada forma de organização do trabalho
(processo de valorização), determinada forma estatal e determinada forma de exploração
internacional” (2009, p. 30). Segundo esse autor o que é fundamental na compreensão de um
regime de acumulação é a existência da luta de classes nos três casos (organização do
trabalho, forma estatal e forma de exploração internacional). Para ele a luta de classes
permanece “relativamente estável”, pois, apesar da vitória parcial da burguesia, a luta
histórica do proletariado, nos diversos regimes de acumulação, “não tem permitido a
intensificação da exploração e mantêm avanços e recuos dentro de uma relação relativamente
estável e estabelecida (...) Se não houvesse a resistência operária e de outras classes sociais, a
exploração seria intensificada continuamente” (Idem, 30). A resistência operária, portanto,
impossibilita que a exploração adquira um caráter mais bárbaro do que o já existente, pois, do
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BRAGA, Lisandro. Regime de Acumulação Integral e Criminalização do Lumpemproletariado. Estácio de
Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 62-75.
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contrário, a intensificação e precarização do trabalho atingiria níveis ainda mais insuportáveis
para a integridade física e psíquica do proletariado.
Nesse sentido, o regime de acumulação é a forma que o capitalismo adquire, em
momentos históricos específicos, para promover sua meta essencial: a produção de maisvalor. A maior parte do mais-valor convertido em capital é utilizado pela burguesia para
expansão ampliada dos seus lucros e isso desdobra-se em acumulação, concentração e
centralização de capital. Nesse desdobramento os capitalistas são coagidos a expandir
mundialmente seus capitais e isso os leva a programarem uma forma de exploração
internacional. Nesse processo o estado age visando a garantir a satisfação de tais necessidades
a partir de sua regularização. Aqui se encontra os três elementos constituintes de um regime
de acumulação.
É importante destacar que além dos desdobramentos acima citados, o processo de
acumulação gera outros desdobramentos importantes e essenciais para a sua compreensão. A
acumulação capitalista é realizada através de uma relação entre burguesia e proletariado e essa
relação é fundamentalmente marcada pelo conflito de classes.
A burguesia devido aos seus interesses de classe deve, necessariamente,
desenvolver formas cada vez mais eficazes para a extração de mais-valor, ou seja, para a
exploração do trabalho. Por outro lado, o proletariado se vê coagido a lutar contra o capital
por ser quem ele é nessa sociedade2. Nesse processo de luta de classes o proletariado acaba
por criar dificuldades para a acumulação de capital e em determinados momentos sua luta
radicaliza apontando para a superação da sociedade capitalista. Por mais desacreditada que
esteja a tendência proletária essa é uma tendência histórica na sociedade capitalista que
inevitavelmente agrava a crise do capitalismo levando a burguesia a encontrar formas
reprodutoras do capital. Nesses períodos de enfraquecimento é que um novo regime de
acumulação tende a aparecer em substituição ao velho e moribundo, porém, isso não é uma lei
natural e o que se pode perceber é que a dificuldade em acumular capitais a cada novo regime
é crescente.
É certo que a tese aqui defendida aponta para a constatação de que a “história do
capitalismo é a história da sucessão dos regimes de acumulação”, porém tal tese não coisifica
o capitalismo e sua capacidade de se recuperar das crises, pelo contrário, ela contribui para
pensar na existência de “limites humanos e naturais que tornam o capitalismo um período
2
O ser do proletariado, como já dizia Marx, é essencialmente aquele que quanto mais eficaz torna seu trabalho,
quanto mais riqueza é capaz de produzir mais miserável se encontra e, por conta disso, se vê obrigado a
desenvolver formas de lutas que se afirmem na busca pela destruição do capitalismo (MARX, 2004).
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BRAGA, Lisandro. Regime de Acumulação Integral e Criminalização do Lumpemproletariado. Estácio de
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transitório na história da humanidade. A própria dinâmica do capitalismo, revelada na
produção de mais-valor, expressa sua finitude” (Idem, 32).
A sucessão dos regimes de acumulação e a análise do regime de acumulação
integral que iremos apresentar neste texto é extraída da obra O capitalismo na era da
acumulação integral do sociólogo Nildo Viana, que se propõe a contribuir com uma análise
teórico-explicativa do desenvolvimento capitalista, especialmente na contemporaneidade.
Todas as definições dos regimes de acumulação aqui contidas são extraídas dessa obra.
De acordo com Viana, a sucessão dos regimes de acumulação e suas
características centrais existentes na Europa ocidental e nos demais países imperialistas (após
o regime de acumulação primitiva de capital) são: regime de acumulação extensivo – da
revolução industrial até o final do século XIX -, marcado pela extração de mais-valor
absoluto, pelo domínio do Estado liberal e do neocolonialismo; regime de acumulação
intensivo – do final do século XIX até a segunda guerra mundial -, caracterizava-se pela busca
de aumento da extração de mais-valor relativo, através do taylorismo, pelo Estado liberaldemocrático e pelo imperialismo financeiro; regime de acumulação intensivo-extensivo - do
pós- segunda guerra mundial até o final do século XX -, através da organização fordista do
trabalho procurou ampliar a extração de mais-valor nos países imperialistas e a extração de
mais-valor absoluto dos países subordinados, sendo complementado pelo Estado do BemEstar Social e pela expansão oligopolista transnacional e o regime de acumulação integral do final do século XX até os dias atuais – que busca ampliar concomitantemente a extração de
mais-valor relativo e mais-valor absoluto, tendo como agente garantidor desse processo o
Estado Neoliberal e o Neoimperialismo.
Como vimos, a determinação fundamental da organização do trabalho na
sociedade capitalista é a luta de classes entre a burguesia e o proletariado, porém é necessário
compreender, de forma pormenorizada, como se relaciona burguesia e proletariado no
processo de produção, como se dá a luta de classes e como a mesma interfere na organização
do trabalho e na alteração dos regimes de acumulação.
O homem se faz homem através do próprio trabalho, ou seja, através da relação
que ele vem mantendo com a natureza e com os demais homens, buscando transformar a
natureza e a si mesmo no intuito de reproduzir suas condições reais de existência. Essa é a
essência do trabalho autônomo, ou seja, a garantia da reprodução do próprio homem e sua
auto-realização total. O homem se humaniza ao realizar tarefas essenciais à vida humana e
essencialmente humanas. Já o trabalho alienado é a negação da essência humana existente no
trabalho, pois, com a divisão social do trabalho e a instauração do controle do processo de
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BRAGA, Lisandro. Regime de Acumulação Integral e Criminalização do Lumpemproletariado. Estácio de
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produção pelo não-trabalhador, se institui a total separação entre o produtor e o produto e com
isso o homem não produz mais as garantias das necessidades humanas, mas sim mercadorias
que não lhe pertence (MARX, 2004).
Na sociedade capitalista ocorre uma ruptura entre o trabalhador e o produto do seu
trabalho. Portanto, se o trabalhador encontra-se separado do produto do seu trabalho é porque
outro homem está se apropriando dele, e isso nos permite entender que o trabalho alienado é
uma das bases da dominação que o sistema capitalista executa para extrair mais-valor. A
separação do produtor de seu produto e a transformação do mesmo em mercadoria é o que
caracteriza a ruptura do fluxo social do trabalho e consequentemente, provoca um processo de
desumanização, já que a mercadoria é produzida pelos homens, mas que existe fora deles,
pois trata-se de um objeto externo aos homens (JÚNIOR & BRAGA, 2005). Assim sendo,
podemos afirmar que todo trabalho executado pelo proletariado na produção de mercadorias é
essencialmente violento, uma vez que se afirma na negação ontológica do “ser” proletário.
O processo de trabalho na sociedade capitalista é marcado por duas características
centrais que consistem no fato do proletariado trabalhar sobre o controle da burguesia
(trabalho heterogerido) que comprou sua força de trabalho e o fato do produto do trabalho ser
apropriado pela burguesia, via extração de mais-valor. Percebe-se então que o trabalho é
processo de valorização (MARX, 1988).
No processo de produção de mercadorias o capitalista utiliza força de trabalho e
meios de produção, porém somente a força de trabalho pode acrescentar valor à mercadoria,
pois os meios de produção apenas repassam o seu valor às mercadorias. O valor adicionado à
mercadoria pela força de trabalho é superior ao valor gasto pelo capitalista na compra de tal
força e é desta forma que se apropria do mais-valor gerado pelo proletariado.
O fundamento da luta de classes no capitalismo, conforme já dizia Marx, gira em
torno do tempo de trabalho, pois se de um lado a burguesia visa ampliar a extração de maisvalor sobre o tempo de trabalho do proletariado, esse visa diminuí-lo e devido aos interesses
antagônicos dessas classes, o processo de valorização acaba por ser marcado pelo conflito.
Por conta do caráter alienado do trabalho, o proletariado desenvolve várias formas de
resistência na produção que vão desde as mais “passivas” (absenteísmo, operação tartaruga,
tempo morto etc.) às mais radicais (greve geral, ocupação da fábrica, autogestão da produção
etc.). Nesse sentido é que se pode compreender a necessidade que a burguesia tem de
controlar de forma cada vez mais minuciosa o tempo de trabalho no processo de produção.
É justamente com esse intuito que Friedrich Taylor sistematiza esse controle na
sua obra Princípios de Administração Científica. Essa obra representou uma resposta
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BRAGA, Lisandro. Regime de Acumulação Integral e Criminalização do Lumpemproletariado. Estácio de
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“científica” da burguesia às dificuldades que as conquistas das lutas operárias geraram, no
final do século XIX, a partir da redução da taxa de mais-valor com a diminuição da jornada de
trabalho para 10 horas e posteriormente 08 horas, para o processo de acumulação de capital.
Com o objetivo de compensar a queda na extração de mais-valor absoluto é que Taylor propôs
o aumento da extração de mais-valor relativo via organização científica do trabalho
(racionalização do processo de trabalho e constante vigilância do trabalhador na produção).
REGIME DE ACUMULAÇÃO INTEGRAL E MAIS-VIOLÊNCIA NO TRABALHO
Como foi dito no início do artigo, não é nosso objetivo discutir as demais formas
organizacionais do trabalho vigentes nos regimes de acumulação anteriores ao regime de
acumulação integral, mas tão somente discutir a especificidade da acumulação integral e suas
consequências negativas de mais-trabalho para o proletariado. Para o propósito deste texto é
suficiente apenas mencionar que compartilhamos da tese que afirma que o taylorismo
forneceu a base de todas as outras formas de organização do trabalho posteriores, tal como o
fordismo, não havendo nenhuma mudança fundamental entre taylorismo e formas posteriores
de organização do trabalho (NETO, 1989).
O regime de acumulação integral é fruto da resposta capitalista à crise do final da
década de 60 e início da década de 70 provocada pela tendência declinante da taxa de lucro e
marcada pela radicalização das lutas estudantis e operárias na França, Alemanha e Itália, bem
como pelo movimento de contracultura e pelo movimento pacifista nos EUA que foram
responsáveis por promover a primeira rachadura no regime de acumulação intensivoextensivo que, já no início da década de 80, entra em colapso (HARVEY, 2008 & VIANA,
2003).
Com a contínua queda na taxa de lucro entre as décadas de 60 e 70, o capitalismo
precisou encontrar soluções para a crise e isso levou ao engendramento de um novo regime de
acumulação marcado tanto pelo aumento da exploração nos países imperialistas quanto nos
países subordinados, quanto no aumento da extração de mais-valor relativo quanto na
extração de mais-valor absoluto, ou seja, tal regime se afirmará em um processo de
acumulação de capital integral. Essa busca pelo aumento da taxa de exploração ficará
conhecida como “reestruturação produtiva” e terá no toyotismo a forma como o capitalismo
se organizará para extrair mais-valor na contemporaneidade.
Todo trabalho alienado é ontologicamente violento uma vez que nega a essência
humana no processo de produção de mercadorias, ou seja, o caráter heterogerido do trabalho
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BRAGA, Lisandro. Regime de Acumulação Integral e Criminalização do Lumpemproletariado. Estácio de
Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 62-75.
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na sociedade capitalista não possibilita ao trabalhador se realizar enquanto ser genérico, uma
vez que toda a sua potencialidade física e intelectual é utilizada para promover o acúmulo de
riqueza alheia enquanto o trabalhador se encontra cada vez mais afundado no “pântano do
pauperismo”.
O operário de uma fábrica toyotista se vê obrigado a trabalhar de forma
pluriespecializada, dedicando-se a várias funções no interior da fábrica, manobrando,
simultaneamente, várias máquinas em ritmo alucinante. Funções que antes eram executadas
por mais de dois ou três operários, hoje é exercida intensamente por apenas um operário. O
resultado mais drástico dessa mais-violência no trabalho foi denominado no Japão de Karoshi,
ou seja, morte por overdose de trabalho. Nesse país, fundador do modelo Toyota de
organização do trabalho, milhares de operários morrem ao ano vitimados pelo excesso de
trabalho, por jornadas que vão de 15 a 16 horas diárias, pela ausência de férias, pelas
moradias minúsculas etc. Essa realidade nasce no Japão, se expande para outros países
imperialistas e chega ao Brasil, principalmente, nas montadoras de automóveis.
A acumulação integral objetivada pelo modelo toyotista busca extrair mais-valor
de forma intensiva e extensiva e para isso promove uma intensificação do processo de
trabalho e um controle rigoroso sobre todo o tempo de trabalho, gerando mais-violência para
o trabalhador. No entanto, resta explicar o que se entende por mais-violência no trabalho.
O caráter central do trabalho na contemporaneidade é a superexploração marcada
pela intensificação do trabalho, pelo assédio moral, pela pressão psicológica, pelo
desenvolvimento da síndrome da culpa, síndrome do pânico, pelo estresse, depressão, medo e
várias outras formas de mais-violência derivadas do trabalho que atingem a classe
trabalhadora (BERNARDO, 2009). Nesse sentido, o que denominamos aqui de maisviolência caracteriza-se por uma sobre-violência intensificada no trabalho e que atinge o
operário tanto fisicamente quanto psiquicamente, podendo levá-lo à morte. Segundo o
psiquiatra e psicanalista especialista em medicina do trabalho Christophe Dejours,
Ao lado do medo dos ritmos de trabalho, os trabalhadores falam sem disfarces dos
riscos à sua integridade física que estão implicados nas condições físicas, químicas e
biológicas de seu trabalho. Sabem que apresentam um nível de morbidade superior
ao resto da população (...) A grande maioria tem a impressão de ser consumida
interiormente, desmanchada, degradada, corroída, usada ou intoxicada. Este medo
patente é expresso desta maneira direta pela maioria dos trabalhadores das indústrias
(1992, p. 74).
De acordo com alguns dicionários, o medo pode ser entendido como uma
perturbação resultante da ideia de um perigo real ou aparente e no caso concreto dos operários
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BRAGA, Lisandro. Regime de Acumulação Integral e Criminalização do Lumpemproletariado. Estácio de
Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 62-75.
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de indústrias que funcionam segundo o modelo japonês (Toyota) ele apresenta-se como uma
constante no cotidiano tanto interno quanto externo à fábrica. Os trabalhadores, devido ao
acúmulo de funções e ao ritmo exorbitante da produção, temem errar no processo de trabalho
e serem constrangidos publicamente pelos seus gerentes (espécies de agentes carcerários na
produção), temem adoecer e serem humilhados por executarem, mesmo doentes, trabalhos
mal-vistos tal como promover a coleta do lixo da fábrica, temem as ameaças de desemprego e
o próprio desemprego, temem falir fisicamente e não mais conseguirem executar todo o
trabalho que sobre-pesa seus músculos e cérebro. Nesse sentido é que podemos afirmar que o
processo de acumulação integral é também um processo de destruição integral da classe
trabalhadora uma vez que promove uma intensa mais-violência nas relações de trabalho na
contemporaneidade.
CRIMINALIZAÇÃO DO LUMPEMPROLETARIADO
Respeitando as particularidades dos diversos países capitalistas (imperialistas e
subordinados),
é
possível
perceber
a
ocorrência
de
um
intenso
processo
de
lumpemproletarização a que estão submetidos milhares de trabalhadores no mundo todo. Esse
processo resulta da dinâmica do regime de acumulação integral que encontra na chamada
“reestruturação produtiva” a forma para ampliar a extração de mais-valor e no Estado
Neoliberal como seu complemento regularizador. Para melhor compreender esse processo é
necessário esclarecer o que é o lumpemproletariado, as razões da sua intensificação no regime
de acumulação integral, o Estado Neoliberal e sua relação com a expansão do cárcere na
contemporaneidade.
O termo lumpemproletariado tem origem nos escritos de Karl Marx, porém esse
autor não chegou a desenvolvê-lo de forma sistematizada e em várias obras (O Manifesto
Comunista, A luta de classes na França, O 18 Brumário e O capital) o termo é mencionado e,
em alguns casos, com diferenças de significado. No entanto acreditamos ser possível trabalhar
com o termo lumpemproletariado como equivalente ao conceito marxista de “exército
industrial de reserva”, conforme sugerido por Viana na sua obra O capitalismo na era da
acumulação integral.
Dessa forma o lumpemproletariado é formado pelos indivíduos que mesmo
estando interessados em venderem sua força de trabalho se encontram alijado do mercado de
trabalho e, consequentemente, do mercado de consumo, formando um grupo que oscila entre
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BRAGA, Lisandro. Regime de Acumulação Integral e Criminalização do Lumpemproletariado. Estácio de
Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 62-75.
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o subemprego, o emprego (precário, temporário, informal) e o desemprego, dependendo do
contexto social. Não há homogeneidade na caracterização do lumpemproletariado visto que a
forma como ele se encontra na sociedade é variada dependendo do período, do país e da
região no interior de uma mesma nação. No entanto, na contemporaneidade há uma tendência
da ampliação do lumpemproletariado nos países capitalistas imperialistas e nos países de
capitalismo subordinado que dependendo do caso já nasce com um alto índice de
lumpemproletários como é o caso do Brasil.
A constituição do regime de acumulação integral visando combater a tendência
declinante da taxa de lucro entre a década de 60 e 70 vem acompanhada pela substituição do
Estado do Bem-Estar Social pelo Estado Neoliberal que terá a função de criar as condições
institucionais necessárias para ampliar a acumulação de capital via reestruturação produtiva e
o neoimperialismo. Para que a reestruturação produtiva (toyotismo) seja efetivada é preciso
que um amplo processo de mudanças seja colocado em prática no campo das relações de
trabalho, marcado pela corrosão dos direitos trabalhistas, pela (in)flexibilidade no sistema
produtivo que veio a provocar uma imensa precarização e intensificação do trabalho e um
processo de lumpemproletarização via aumento do desemprego e, consequentemente, da
pobreza em escala mundial. De acordo com Ricardo Antunes,
(...) para a efetiva flexibilização do aparato produtivo, é também imprescindível a
flexibilização dos trabalhadores. Direitos flexíveis, de modo a dispor desta força de
trabalho em função direta das necessidades do mercado consumidor. O toyotismo
estrutura-se a partir de um número mínimo de trabalhadores, ampliando-os, através
de horas extras, trabalhadores temporários ou subcontratados, dependendo das
condições de mercado. O ponto de partida básico é um número reduzido de
trabalhadores e a realização de horas extras (1994, p. 28).
O Estado neoliberal acaba por se apresentar como um complemento de toda essa
mudança estrutural atuando no campo da regularização das novas relações sociais necessárias
à efetivação da acumulação integral de capital. Nesse sentido ele é marcado por uma enorme
contenção dos gastos públicos em políticas sociais em geral. É válido ressaltar que não há
homogeneidade na implementação do Estado Neoliberal no mundo, visto que o mesmo é
moldado de acordo com as realidades específicas de cada país, possuindo diversas
determinações diferenciadas.
Uma das consequências sociais diretas e inevitáveis da promoção do Estado
neoliberal é, sem sombra de dúvidas, o aumento das tensões sociais e da criminalidade
derivadas dos constantes cortes nas políticas de assistência sociais, da diminuição drástica da
oferta de empregos, da miséria, da fome e da opressão em geral, tanto nos países
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BRAGA, Lisandro. Regime de Acumulação Integral e Criminalização do Lumpemproletariado. Estácio de
Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 62-75.
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subordinados, quanto nos países imperialistas. Por conta desse quadro é que esse Estado será
caracterizado por uns como sendo “mínimo e forte” (BOBBIO, 1998) e por outro como sendo
uma espécie de “Estado Penal” (WACQUANT, 2001), uma vez que o mesmo se vê coagido a
dar uma resposta positiva (para os interesses das classes dominantes) ao espetáculo da
insegurança social e da criminalidade crescente, através da expansão das práticas repressivas e
do encarceramento dos miseráveis lumpemproletários (os setores mais desfavorecidos de
desempregados, mendigos, sem-teto, delinquentes, toxicômanos, subempregados etc.).
Nesse sentido, é possível afirmar que o Estado Penal apresenta-se como um
complemento nas mudanças das relações de trabalho contemporâneas ao substituir as políticas
sociais por medidas de criminalização dos empobrecidos com o intuito de atender as
necessidades do capital geradas pelas ameaças oriundas da expansão das ações das “novas”
classes perigosas. Porém, ele deve fazer isto contendo seus próprios gastos para diminuir a
dívida pública e poder atender as necessidades do capital oligopolista ao poupar recursos e,
por outro lado, como aumenta a miséria, o desemprego, a criminalidade, então deve aumentar
o aparato repressivo ou os gastos sociais, mas faz opção pelo primeiro por ser menos
dispendioso, ou seja, mesmo investindo em aumento da repressão – que não é tanto assim, já
que em parte apenas aumenta o uso do aparato repressivo já existente, ao invés de políticas de
assistência social e, ainda permite a ampliação do lumpemproletariado que barateia a força de
trabalho em certos setores, diminuindo os gastos do capital.
É nesse contexto que surge em Nova York, e tende a se tornar uma prática
mundial via importação, a política da “tolerância zero” e, juntamente com ela,
a retórica militar da „guerra‟ e da „reconquista‟ do espaço público, que assimila os
delinquentes (reais ou imaginários), sem-teto, mendigos e outros marginais a
invasores estrangeiros – o que facilita o amálgama com a imigração, sempre rendoso
eleitoralmente (WACQUANT, 2001, p. 30).
Loic Wacquant apresenta em diversas obras a absurda escalada global do Estado
Penal e sua prática de encarceramento em massa dos setores mais pobres das sociedades
capitalistas mundiais, demonstrando uma íntima relação entre o neoliberalismo, a ampliação
da pobreza e a expansão da criminalização do lumpemproletariado, ou do subproletariado
como prefere Wacquant, em todo o mundo3.
3
Sobre o Estado Penal e a criminalização da pobreza ver: WACQUANT, Loic. As prisões da Miséria (2001);
Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos (2003) & As duas faces do gueto (2008).
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BRAGA, Lisandro. Regime de Acumulação Integral e Criminalização do Lumpemproletariado. Estácio de
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Contudo, é possível discordar da solução apresentada por esse autor para essa
realidade, uma vez que Wacquant defende como medida capaz de modificar esse quadro a
construção de um novo Estado social responsável por gerar condições de vida satisfatória para
a maioria a partir de uma maior redistribuição da riqueza e da divisão dos riscos coletivos
sem, no entanto, se preocupar em definir quais são as determinações do Estado neoliberal e
sua determinação fundamental, ou seja, porque razões emergem o Estado neoliberal e visando
atender quais interesses. Sem essa compreensão Wacquant acaba por prender-se àquilo que
Marx denominou como sendo os “limites intransponíveis da consciência burguesa”, pois
apresenta uma visão fetichista do Estado, uma vez que o mesmo passa a ser encarado como
único agente político capaz de promover a melhoria da condição de vida. É impossível
retroceder a “roda da história” e reconstruir uma espécie de Estado do bem-estar social.
A história quando analisada sobre a perspectiva do proletariado revela que o
caminho para a emancipação das classes oprimidas (incluindo o proletariado e o
lumpemproletariado) passa pela autogestão de suas próprias lutas visando encontrar formas
alternativas de organização social. O proletariado enquanto existir e, consequentemente, for a
força geradora de mais-valor no processo de produção de mercadorias, continuará sendo a
classe social detentora de pontencialidade revolucionária na sociedade capitalista.
Uma luta concreta contra toda essa realidade passa necessariamente pela
destruição do modo de produção capitalista que é a determinação fundamental de toda maisviolência no trabalho e da intensa prática de encarceramento do lumpemproletariado na
contemporaneidade. Nessa luta o lumpemproletariado tende a se aliar de forma revolucionária
ao proletariado, porém, isso só será determinado pelas forças sociais em luta no transcurso do
desenvolvimento contraditório do modo de produção capitalista e pelo que tudo indica não
possuirá fôlego para se manter no próximo século.
REFERÊNCIAS
ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? São Paulo: Cortêz, 1994.
BENAKOUCHE, Rabah. Acumulação mundial e dependência. Petrópolis: Vozes, 1980.
BERNARDO, Marcia Hespanhol. Trabalho duro, discurso flexível: Uma análise das contradições do
toyotismo a partir da vivência de trabalhadores. São Paulo: Expressão popular, 2009.
DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho – Estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo:
Cortez, 1992.
HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 2008.
75
BRAGA, Lisandro. Regime de Acumulação Integral e Criminalização do Lumpemproletariado. Estácio de
Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 62-75.
Set.2010/Dez. 2010.
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Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 04, 76 – 90. Set. 2010/Dez. 2010.
HISTÓRIA DA JUVENTUDE: ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS
Renato Dias de Souza
Resumo:
Abstract:
. Nosso objetivo é discutir aspectos teóricometodológicos que contribuam na reconstituição da
história da juventude. Tanto na produção teórica
como nas nossas ações junto a esse grupo etário é
necessário pensarmos de modo problematizador as
condições sociais que implicaram na sua formação.
Discutimos o conceito de juventude como ponto de
partida para a proposição de uma metodologia de
construção da sua história social.
Our aim is to discuss theoretical and
methodological aspects that contribute in
reconstructing the history of youth. Both in
theoretical work and in our actions with this age
group think is necessary so problematical social
conditions that resulted in their formation. We
discussed the concept of youth as a starting point
for proposing a methodology for construction of
its social history.
Palavras-chave:
Key-words:
Juventude, história e sociedade.
Youth, history and society.
1. O CONCEITO DE JUVENTUDE
Numa perspectiva historicizante a apreensão dos conceitos se dá na totalidade das
relações sociais e não é redutível a um único aspecto da realidade. A compreensão da
juventude em termos conceituais exigirá problematizarmos a sua existência na história. Visto
que se trata de um termo polissêmico que traduz diversos usos cotidianos, inclusive,
remontando a interesses díspares e contraditórios. Daí a necessidade de apresentarmos a nossa
definição de juventude, a partir de várias contribuições, para que possamos chegar aos
motivos da sua existência na história e às questões contemporâneas acerca desse grupo etário.
Nas reflexões de Walter Benjamin, sobre a criança, o brinquedo e a educação, a
infância não é caracterizada como lugar idílico e sentimental de um mundo a parte. Os
brinquedos documentam a relação destas com os adultos e situa-os no tempo. A partir disso
podemos compreender que as definições de criança, adolescentes, jovens, adultos e idosos são
produtos das relações sociais concretas. Então, se tardiamente nos demos conta de que a

Graduado em História pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), especialista em juventude pela Faculdade
Jesuíta de Teologia e Filosofia (FAJE) e mestre em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG).
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SOUZA, Renato Dias de. História da juventude: aspectos teórico-metodológicos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 76-90. Set.2010/Dez.
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criança não é um adulto em miniatura (BENJAMIN, 1984), não podemos recriar uma essência
absoluta na existência desses grupos etários e devemos explicar sua formação social a partir
da sua condição histórica.
Trata-se de uma compreensão do mundo, portanto também da juventude,
enquanto produto cognoscível através da práxis dos seres sociais. O que requer a superação do
relativismo em que os conceitos “jovem” e “velho” são esvaziados do seu conteúdo concreto
e rearticulados em uma definição imprecisa em que “quando digo jovens/velhos, tomo a
relação em sua forma vazia. Somos sempre o jovem ou o velho de alguém” (Bourdieu, s/d).
Quando falamos em juventude nos referimos a um grupo etário especifico
constituído socialmente que têm sua identidade construída por adultos e também elabora sua
auto-imagem (VIANA, 2004). O que ocorreu inicialmente no momento da história que
costumamos caracterizar genericamente como modernidade. Em um processo situado entre o
final do século XIX e a década de 1950. Em estreita relação com a complexificação da divisão
social do trabalho e intensificação das lutas sociais onde passamos à condenação do trabalho
de crianças e jovens e ao processo de escolarização para a formação da força de trabalho
(VIANA, 2004, 29).
A juventude é caracterizada como período das decisões profissionais e preparação
para imputação de responsabilidades sociais (VIANA, 2004). No processo de socialização
iniciado na família e através da ressocialização feita por instituições como a escola terá
atribuídas funções na conservação da sociedade existente. O que não impedirá manifestações
de resistência juvenil caracterizadas pela ambiguidade, que em alguns casos, negam a
dependência do mundo adulto e reivindica inserir-se nesse e no trabalho alienado (VIANA,
2009a).
Um exemplo de Pierre Bourdieu (s/d) nos apresenta o filho de um mineiro que
deseja se inserir o mais rápido possível no trabalho de mineração para ter acesso ao que está
disponível aos adultos. Nesse contexto a escolaridade prolongada passará a agir como
geradora de um mal estar nos filhos das “classes populares”. Uma espécie de obstáculo em
uma suposta trajetória de direitos que seriam alcançados através da ruptura quanto aos adultos
e sua inserção no processo de trabalho. Enquanto uma geração já havia visto na escola o
espaço para a ascensão social dentro dos parâmetros da sociedade capitalista. O que se tornará
uma desilusão e levará às reivindicações para que se apropriem do trabalho de jovens cada
vez mais cedo ou a manifestações de “recusa coletiva” ao trabalho na mina.
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SOUZA, Renato Dias de. História da juventude: aspectos teórico-metodológicos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 76-90. Set.2010/Dez.
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No entanto, não haveria interesses comuns nessa condição que podemos
classificar como juvenil? Segundo Bourdieu (s/d);
É certo que para além de todas as diferenças de classe, os jovens têm interesses
coletivos de geração, porque independente do efeito da discriminação 'anti-jovens', o
simples fato de se relacionarem com diferentes estados do sistema escolar, faz com
que sempre venham a obter menos de seus títulos do que a geração precedente. Há
uma desqualificação estrutural da geração. Sem dúvida isto é importante para
compreender esta espécie de desencantamento que é relativamente comum à toda
geração.
Estariam esses “diferentes estados do sistema escolar” que levam a esta
“desqualificação estrutural da geração” isolados das questões relacionadas a totalidade da
sociedade, inclusive à classe social dos indivíduos? Não. Portanto, seria inviável falarmos em
uma condição juvenil comum, a não ser que tomássemos a realidade de modo fragmentário,
isolando a juventude das relações sociais concretas.
Diante dessas questões compreendemos o quanto é conflituosa nas sociedades a
constituição de um grupo etário como a juventude, a complexidade da sua formação histórica
e a relação direta com o processo de modernização. Explicando muitos dos motivos da
incompreensão relacionada à sua imagem nos meios de comunicação, por exemplo. Sua
relação com a sociedade requer ser problematizada com todas as ambiguidades em que
constituí sua rebeldia. As disputas entre jovens e adultos, estão relacionadas a parcelas de
poder, pois segundo a sociedade o adolescente é adulto para umas coisas e criança para outras
(BOURDIEU, s/d).
Entre a psicologia e a sociologia há uma disputa acerca das categorias
“adolescente”, preferida pela primeira com seu caráter marcadamente biológico, e
“juventude”, preferida pela segunda, por sua condição de constituição social. Como podemos
ver, a ideia de juventude, como aqui nos referimos, nasce da problematização da adolescência,
entre os séculos XIX e XX. Sendo uma crítica a suposta transição “natural” da criança para o
adulto defendida em uma perspectiva biologicista que mascara os conflitos existentes
(VIANA, 2009a).
Existem definições que procuram diferenciar adolescência e juventude, inclusive
enunciando considerar aspectos sociais e culturais, mas essas são limitadas e geralmente
incorrem em reducionismos biologicistas ou na ênfase de aspectos psicologicistas ao invés
das determinações sociais. Um exemplo é o texto “conceituação de adolescentes e jovens”,
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SOUZA, Renato Dias de. História da juventude: aspectos teórico-metodológicos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 76-90. Set.2010/Dez.
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utilizado na Escola de Educadores realizada pela Casa da Juventude Pe. Burnier, e datado de
maio de 20031. Nesse as características atribuídas à adolescência podem ser facilmente
transpostas a juventude. O que demonstra a ausência de fronteiras entre esses dois conceitos.
Na psicologia, biologia, medicina e demais ciências encontramos respostas
ideológicas para o que seria a adolescência e a juventude. Os princípios dos quais essas
partem não incluem a necessidade de explicações a partir das relações sociais concretas. Já
que estão vinculadas a ideologia da classe dominante na sociedade capitalista e fundada em
uma perspectiva classificatória e empiricista.
Diante dessas questões e na contraposição a ideologia dominante definimos a
juventude como um grupo etário produzido socialmente e sob as determinações fundamentais
do capitalismo. Tomado pelas ciências sociais e humanas como um momento especifico,
intermediário, e utilizado como categoria analítica. Sua origem histórica está intimamente
ligada ao desenvolvimento do capitalismo e às lutas sociais das classes fundamentais desse
modo de produção; a burguesia e o operariado. Levando a sociedade que produziu a juventude
a atribuir a esse grupo etário características específicas definidas por alguns como “cultura
juvenil”. No entanto, essas manifestações culturais ou o processo social de produção da
juventude não está desvinculado da divisão social do trabalho.
Essa há muito tempo estabelece tarefas especificas a jovens e velhos que eram
justificadas pelas condições físicas relacionadas a esses grupos etários. O que não possibilita
considerarmos existir juventude nas sociedades anteriores ao surgimento do capitalismo. Já
que não há outros elementos que possam caracterizar os indivíduos “mais novos” como um
1
“O que é adolescência? Etapa da vida humana que marca a passagem da fase de criança para a adolescência. É o
momento das transformações biológicas e psicológicas. Vive-se a aceitação ou rejeição do novo corpo com
novas características. Estas mudanças são marcadas pelos contextos e pela cultura em que vivem. Pode-se dizer
que começa com a puberdade. Algumas de suas características: vivem constantes dramas e dúvidas sobre e com
o seu corpo; descoberta de si mesmo e da realidade que o cerca; enfrenta conscientes os conflitos e crises; a
estrutura do pensamento não depende somente do concreto dá-se lugar a abstração; busca vivência em grupo
como local de segurança; busca de novas experiências de namoro, família, igreja, amigos/as; tem necessidade de
auto-afirmação; fase de confronto e rebeldia; a vivência intensa da paixão, da transgressão, do riso e da
provocação; desperta para um maior exercício da criatividade; tem necessidade da liberdade e novidade; tem
facilidade de imitar ou copiar modelos; Quando inicia e quando termina: alguns organismos e pesquisadores (as)
apontam entre 12 e 14 anos e termina entre 15 e 18 anos. O que é juventude? Etapa da vida humana que desperta
as potencialidades práticas, intelectuais, psicológicas, afetivas, espirituais e morais da pessoa. Nesta faixa etária
favorece um maior questionamento da realidade, na busca de horizontes, da afirmação da identidade pessoal e na
definição do seu projeto e das opções de vida. Algumas características: estrutura corporal mais definida;
definição das formas de se expressar e se comportar de acordo com suas crenças; fala de suas convicções e
opiniões de maneira mais clara e firme; desenvolvimento da capacidade de auto-aceitação; as lutas, a alegria, a
independência, a responsabilidade e sonhos estão mais vivos nesta etapa da vida; define com maior clareza sua
orientação afetiva sexual; tempo de escolha ou encaminhamento dos desejos e projetos profissionais. Quando
inicia e quando termina: alguns organismos e estudiosos (as) apontam que inicia entre os 15 a 17 anos e termina
entre 24 e 25 anos. Hoje, há uma tendência de considerar como jovem adulto aquele que têm de 25 a 29 anos ”
(Casa da Juventude, 2003).
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SOUZA, Renato Dias de. História da juventude: aspectos teórico-metodológicos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 76-90. Set.2010/Dez.
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grupo etário especifico comparado aos “mais velhos”. No caso, como os que tivemos
posteriormente
com
o
desenvolvimento
do
capitalismo;
escolarização,
etapa
de
ressocialização e preparação para o trabalho disciplinador, mercado consumidor característico
etc.
Sem dúvida, a juventude é uma criação da sociedade moderna, em um processo de
escolarização e preparação para o trabalho disciplinado (AVANZINI apud VIANA, 2004).
Trata-se de um período de ressocialização, no qual, esse grupo etário é preparado para tornarse adulto (LAPASSADE apud VIANA, 2004). Não sendo definido por sua homogeneidade,
mas pela diversidade e diferenças no interior da juventude (CORTI; SOUZA, 2004). Segundo
Ana Paula Corti e Raquel Souza, autoras citadas, a moderna concepção de juventude2 como
etapa preparatória, escolarização e hora do serviço militar teria se fundamentado em uma
perspectiva burguesa de juventude e ignorado a juventude das “classes populares3” (CORTI;
SOUZA, 2004).
Em muitas definições de juventude encontramos uma visão de mundo
extremamente institucional. Basta citarmos como exemplos àquelas que fundamentam sua
caracterização da juventude nos pressupostos da ONU ou nas legislações especificas, como o
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Trata-se de definições restritas a faixas etárias,
aspectos biológicos e uma concepção estreita das implicações das relações sociais concretas
na vida de milhões de jovens. Ignorando, também, o papel desempenhado por essas
instituições formuladoras de leis e políticas públicas na manutenção do capitalismo, adotando
a-criticamente suas conceituações.
A juventude é constituída socialmente e vive um intenso processo de
ressocialização. No entanto, não passa por esse momento de modo passivo, mas oferece
resistência aos valores que escolas, lutas e organizações desejam impor-lhes (VIANA, 2009b,
pp. 4-5). Somente na sociedade capitalista surge esse grupo etário intermediário entre a
infância e a idade adulta. O termo juventude é anterior a esse processo, mas tinha significado
profundamente distinto do atual (VIANA, 2009b, p. 4). O que nos leva a considerar a
novidade representada pela juventude, na sociedade moderna, e seu vínculo histórico com o
avanço do capitalismo e suas transformações.
2
Ana Paula Corti e Raquel Souza utilizam o termo “a moderna concepção de juventude” por pressupor que todas
as sociedades teriam estabelecido para si sua própria juventude em vários momentos históricos. Porém,
discordamos dessas autoras e consideramos essa uma concepção a-histórica da história da juventude, pois,
baseada em aspectos parciais das sociedades estudadas e não na totalidade das suas relações sociais concretas.
3
Esse argumento desconsidera que só podemos falar em serviço militar a partir do momento em que se
consolidou o Estado moderno e os que eram recrutados para o militarismo já eram das classes dominadas.
Portanto, ao falarmos em juventude como etapa para o serviço militar já estão incluídas as “classes populares”.
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SOUZA, Renato Dias de. História da juventude: aspectos teórico-metodológicos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 76-90. Set.2010/Dez.
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2. METODOLOGIA PARA O ESTUDO E CONSTRUÇÃO DA HISTÓRIA SOCIAL
DA JUVENTUDE
A juventude é compreendida a partir da realidade que lhe dá origem, inclusive,
levando a constituição e (des)valorização desse grupo etário. A realidade, a qual nos
referimos, é o concreto, não é o fato isolado ou empiricamente dado, como querem os
positivistas, mas aquilo que constituiu-se socialmente. Trata-se de um processo que pode ter
se materializado na história ou se tornado uma representação na consciência. Neste sentido, a
definição do marxismo de concreto é fundamental a história social da juventude, pois, “o
concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso”
(MARX, 1982, p. 14).
Deve-se partir da aparência (empírico/dado), ultrapassá-lo ao mostrar a
impossibilidade de explicar as relações sociais se desistoricizadas ou negligenciando a
multiplicidade de mediações que levaram à sua constituição, e posteriormente chegar à
explicação do que teria levado ao surgimento daquele acontecimento em questão. Uma
história social da juventude que tenha como pretensão compreender a existência desse grupo
etário necessariamente terá que considerar esses aspectos. Trata-se da exigência de se
reconstruir na sua totalidade o processo, ou seja, chegar ao “concreto-pensado”. A juventude
não pode ser explicada se metodologicamente isolada das demais relações sociais.
No entanto, qual teoria nos levaria a explicar a juventude na sua totalidade? Quais
recursos metodológicos poderiam contribuir para a construção desse tipo de história social?
Será a teoria que expressa a classe social a quem interessa o fim das condições sociais de
exploração vigentes no capitalismo, o operariado, que assim como a juventude se formou a
partir das determinações sociais do modo de produção capitalista: o marxismo. Não se trata
simplesmente de restringir os estudos sobre juventude a uma postura metodológica, mas de
estabelecer um compromisso dessas análises com o projeto revolucionário que precisa
conhecer a realidade na sua profundidade e com isso levar à ruptura com a sociedade
existente.
A história da juventude só tem sentido se compreendida no interior da história da
sociedade. Essa tem como determinação fundamental e indispensável na explicação das suas
relações a luta de classes e seus desdobramentos. Sendo perpassada por divisões, conflitos,
interesses etc. Tomando como fontes principais obras literárias, por exemplo, é possível
evidenciarmos o processo social de formação da juventude. Em um primeiro momento, com
uma tênue aparição no final do século XIX, com o desenvolvimento do capitalismo. No
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SOUZA, Renato Dias de. História da juventude: aspectos teórico-metodológicos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 76-90. Set.2010/Dez.
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segundo momento, logo após a Primeira Guerra Mundial, já de forma mais evidente.
Finalmente, sua definição enquanto grupo etário específico após a Segunda Guerra4.
Os estilos literários, gêneros e conteúdos deverão ser considerados na sua
historicidade, portanto, resultado da ação de homens e mulheres concretos que têm
necessidades naturais e históricas a satisfazer. Na literatura, nessa escrita ficcional podemos
identificar vestígios que confirmam ou negam a organização, mentalidade e juventude de uma
época. Enquanto “Deus”, a “razão universal”, a “razão impessoal” da humanidade ou a
“natureza humana”, quando são explicações a-históricas não possibilitam a compreensão dos
acontecimentos históricos5.
A história social da juventude deve se constituir em contraposição aos conceitos
biologicistas/positivistas que sustentam a manutenção do status quo, nos quais, a questão da
juventude enquanto grupo etário formado socialmente e as determinações do capitalismo na
relação com essa é secundarizado. Um exemplo é o conceito de “moratória vital”, que,
segundo Hilário Dick (2003, p. 27);
Trata-se de pensar a juventude como um período da vida em que alguém está de
posse de um excedente temporal e de um crédito, como se se tratasse de algo que se
teria poupado, de algo que se tem a mais e do qual se pode dispor, de algo que, nos
não-jovens, é mais reduzido, se vai gastando e vai terminando, irreversivelmente,
por mais esforços que se faça para evitá-lo. Ser jovem é ter um capital temporal,
carregando consigo, de forma muito particular, a promessa, a esperança e um
espectro de opções. É o que se chama de “moratória vital”, um fato inegável.
Segundo o autor, Hilário Dick, esse conceito seria fundamental para distinguir os
jovens dos não-jovens. O problema desse tipo de conceituação em uma perspectiva
historicizante, reconhecedora da transitoriedade do modo de produção capitalista, assim como
de qualquer grupo etário, é situar a juventude em uma condição a-histórica. Na qual, essa
seria uma generalidade onde cada sociedade teria tido sua própria juventude em todos os
momentos da história. O que só encontra correspondência com a realidade se a análise oscilar
entre aspectos culturais desistoricizados ou biológicos. Sendo as análises baseadas em
dualismos como “novos” versus “velhos”, um campo vasto para esse tipo de dialética de
conceitos em que não se encontram relações sociais concretas, mas seu espectro.
4
Entre as possíveis obras literárias nas quais observamos esse processo histórico de surgimento da juventude
temos Germinal (1885) de Émile Zola e O Apanhador no Campo de Centeio (1951) de Jerome David Salinger.
5
A carta de Marx a Annekov que em algumas edições de a Miséria da Filosofia aparece em anexo é
esclarecedora acerca das relações sociais serem estabelecidas pelos seres humanos na vida em sociedade e do
quanto esta é uma possibilidade em aberto para as lutas sociais do nosso tempo que procuram realizar a crítica a
sociedade existente (MARX, 2001, pp. 175-186)
83
SOUZA, Renato Dias de. História da juventude: aspectos teórico-metodológicos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 76-90. Set.2010/Dez.
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Assim, entre os hebreus teríamos o jovem Moisés, na Grécia Antiga os jovens
aprendizes (eròmenos), na Roma da antiguidade os jovens gêmeos Rômulo e Remo em um
mito fundador, e todos seriam jovens que antecederam à juventude moderna6. Estabelecendo
um suposto mínimo de semelhança que na realidade não deve nos levar a paralelos com a
situação da juventude moderna. Desse modo, falaríamos da existência desta em termos
biológicos, na qual, teríamos a virilidade representada pelo “novo” e a decadência
representada pelo “velho”. Dando continuidade a uma historiografia idealista onde o que
interessa são os construtos, inclusive os adaptando a qualquer realidade, ao invés da
investigação das relações concretas de determinada sociedade em algum momento da história.
Quando perguntadas acerca de uma suposta juventude em todas as sociedades e
em toda a história as análises culturalistas costumam atribuir esse aspecto a existência de um
grupo etário, os jovens, que se diferenciariam dos “velhos” em cada uma dessas. Essa antítese
entre o “novo” e o “velho”, só pode ser tomada como definidora da existência da juventude,
se limitada a aspectos biológicos ou culturais que atribuam a essas características
naturalizantes. O que não é suficiente para que comecemos a pensar que se trate do que
entendemos como juventude na modernidade, que, com o desenvolvimento do capitalismo
nada terá em comum com o que as análises aqui criticadas identificam como juventude.
Marx atribui ao livro Filosofia da Miséria, de Proudhon, a incompreensão do
autor quanto à realidade devido à separação que esse fazia entre desenvolvimento social e
desenvolvimento individual (MARX, 2001, pp. 175-186). Essa preocupação deve também ser
considerada pela história social da juventude. Esclarecedora quanto a constituição de uma
análise dialética, na qual, a juventude seja compreendida na totalidade das relações sociais, os
fatos explicados na sua constituição histórica e contrária a essas análises em que o “novo” e o
“velho” demarcam o que se entende como a existência a-histórica da juventude. Não
compreenderemos os grupos etários se estivermos restritos às análises dualistas em que o
indivíduo é apresentado como separado da sociedade ou a economia pode ser dividida em
macro e micro política econômica, por exemplo.
Já sabemos que a sociedade é o produto da ação humana que escolhe sua forma
social (MARX, 2001, pp. 175-186). A juventude é parte desse processo, inclusive
manifestando-se, inúmeras vezes, contra o papel que a classe dominante gostaria de impor6
No livro Gritos silenciados, mas evidentes, de autoria de Hilário Dick (2003), temos um exemplar dessa
estrutura linear em que se situam acontecimentos históricos, nas características das análises positivistas na
historiografia. O que em síntese retoma uma perspectiva evolucionista das relações sociais e apropriando-se de
um tema novo na historiografia leva à aparência de ser uma análise inovadora, porém a estrutura básica é da
historiografia tradicional.
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SOUZA, Renato Dias de. História da juventude: aspectos teórico-metodológicos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 76-90. Set.2010/Dez.
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lhe. Tratando-se de mais um sujeito histórico que sendo vitimizado pela opressão pode aderir
a projetos contestatórios do existente. Na história social da juventude, que aqui reivindicamos,
afastamos a possibilidade de explicação da realidade a partir da vinculação a uma política de
reconhecimento da juventude como “protagonista”.
Nestes termos, o tal “protagonismo juvenil”, é um resultado dessa novílingua
que negligencia que o protagonista executa um papel que já está previamente determinado 7.
Trata-se de uma perspectiva que só vislumbra manifestações juvenis dentro de marcos
pragmáticos e institucionais instaurados no capitalismo. Uma juventude de atuação política
restrita ao roteiro previamente escrito pelo roteirista. O que é o mesmo que ignorar a história
das lutas sociais que propõe a ruptura com a sociedade existente. Portanto, não acredita em
sujeitos capazes de agir em seu próprio nome na busca por emancipação, mas em uma atuação
pré determinada por outro, circunscrita a elementos previamente colocados sobre o palco:
democracia representativa, políticas públicas, desenvolvimento sustentável, economia
solidária, pós-modernidade, partidos etc.
Walter Benjamin tem uma consideração acerca da mudança que o protagonista
no teatro teria sofrido, nos permitindo uma analogia, ao chamarmos a atenção para essa
perspectiva reformista da atuação política da juventude sintetizada na expressão
“protagonista”. Termo que predomina no campo linguístico quando falamos em literatura,
teatro, cinema, sobre o principal personagem ou ator. Tem implicações políticas na sua
utilização que nos remetem às mudanças ocorridas na história do capitalismo e seus
desdobramentos. No teatro, o ator que antes do desenvolvimento do capitalismo apresentavase direto ao público, com o surgimento do cinema, assistiu interpôr-se entre ele e o público
uma série de mediações. Com isso, teria perdido na condição criativa que anteriormente
permitia que adaptasse sua atuação ao público participante (BENJAMIN, 1975). Dessa forma
as novas condições técnicas de apropriação da arte assumiriam mais importância do que o
público (BENJAMIN, 1975).
Então, o ator teatral a quem antes era possibilitado entrar na “pele do
personagem”, com o cinema viu isso se tornar impossível devido a série de tomadas isoladas
que passou a gravar (BENJAMIN, 1975).
7
O surgimento de uma “estranha” novilíngua [termo de George Orwell] que inclui os termos “identidade”,
“globalização”, “multiculturalismo”, “pós-modernos” em uma “nova vulgata planetária” que excluí termos como
capitalismo, classe, exploração, dominação, desigualdade etc. é produto de um imperialismo simbólico. O
imperialismo cultural que universaliza “particularismos vinculados a uma experiência histórica singular”. No
caso, da sociedade e universidade norte-americana (BOURDIEU e WACQUANT, 2004).
85
SOUZA, Renato Dias de. História da juventude: aspectos teórico-metodológicos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 76-90. Set.2010/Dez.
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Nesse mercado dentro do qual não vende apenas sua força de trabalho, mas também
a sua pele e seus cabelos, seu coração e seus rins, quando encerra um determinado
trabalho ele fica nas mesmas condições de qualquer produto fabricado (BENJAMIN,
1975, 23).
Nos estudos sobre juventude, essa ideologia da afirmação desta como
protagonista, pressupõe uma realidade na qual é impossível ultrapassar o roteiro previamente
escrito, conservando a sociedade de classes existente. O que se deve a uma visão fragmentária
do mundo resultante da alienação no processo produtivo e expandida pela intelectualidade
atual. Desse modo, assim como o protagonista já não se reconhece mais como um produtor,
os defensores da juventude como tal ignoram a necessidade de um projeto revolucionário que
os identifique às classes exploradas.
Cada forma de organizar a produção, o comércio e o consumo tem uma
constituição social, o que também ocorre com a família, as classes sociais, a juventude etc.
Essa última é resultado de uma determinada forma com que se organizou a sociedade após a
Segunda Guerra Mundial. Tratando-se de um processo contínuo de formação que é resultado
das transformações ocorridas entre o final do século XIX e XX, paulatinamente, a partir de
relações sociais cotidianas e apreensíveis na literatura desse período. Assim, como
posteriormente poderá ser considerada em demais expressões artísticas, como o cinema, por
exemplo.
Esse tipo de história social da juventude é a recusa em não pensá-la enquanto
grupo etário inserido na totalidade das relações sociais. Ao contrário dos estudos que
fragmentam
os
aspectos
da
vida
social,
muito
comuns
aos
realizados
na
“contemporaneidade”, essa perspectiva deverá relacionar os aspectos culturais às demais
relações sociais, entre elas à luta de classes, fundamental na compreensão dos movimentos
juvenis;
[...] cada forma de produção cria suas próprias relações de direito, formas de
governo etc. A grosseria e a incompreensão consistem em não relacionar, senão
fortuitamente, uns aos outros, em não enlaçar, senão como mera reflexão, elementos
que se acham unidos organicamente (MARX, 1982, p. 6).
Essa perspectiva nos possibilita explicar que a juventude, grupo etário situado
entre a infância e os adultos a quem a sociedade atribui características específicas, faz a
história apesar de não fazê-la nas condições em que poderia se emancipada dos obstáculos
que encontra nas instituições e em um conjunto de relações que realizam a sua coerção e se
interpõe a sua rebeldia. Entre esses, o discurso ideológico da “subjetividade”, que separa
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Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 76-90. Set.2010/Dez.
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aspectos culturais e econômicos, não explicando as manifestações juvenis. Fragmentando a
realidade ignora a centralidade que com o capitalismo toma as relações sociais de produção,
universalizando-se para as demais relações sociais, inclusive na compreensão do papel de
instituições como a família, a escola, a igreja etc. Entre essas, algumas são instituições que
conhecemos na sua configuração moderna e que somente assim nos interessa para a
compreensão da juventude, considerando que no atual momento histórico “a organização
moderna é aquela instituição onde se realiza a relação de produção que constitui a
característica de todo o sistema social, é o mecanismo de exploração, se rege pela coerção e
manipulação” (TRAGTENBERG, 1982, p. 35).
Não há representações ou manifestações culturais que sejam absolutamente
autônomas das relações sociais de produção. O que há nesse sentido são análises que
negligenciam essas condições ou subtraiam sua historicidade8. Entre essas estão aquelas que
ao falar em “sociedade do conhecimento”, ignoram os interesses de classes na sua
constituição, ou enfatizam a existência de uma “sociedade de mercado”. Nessa só existiria a a
esfera da circulação de produtos, do consumo, e ignoraria-se a esfera da produção onde se dá
a exploração do operariado9.
Na realidade a história social da juventude não deve restringir-se a análises que
priorizem um único aspecto da realidade. Assim como as categorias econômicas são apenas
abstrações das relações reais (MARX, 2001). Também a juventude deverá ser explicada a
partir das suas relações concretas. Proudhon já havia entendido que são os seres humanos que
produzem tecidos de algodão, linho e seda. Porém, ignorou que são eles também que
produzem suas relações sociais (MARX, 2001). A juventude não é uma categoria abstrata, a
qual podemos atribuir características a-históricas, mas é expressão das relações sociais de seu
tempo.
Na história social os produtos da sociedade burguesa não são tomados como
eternos e espontâneos, assim como a juventude, é produto de um momento especifico da
história. Uma criação intimamente ligada ao modo de produção capitalista, uma determinada
8
Essa historicidade não se limita a reconhecer os aspectos materiais fundamentais para que os seres humanos
mantenham sua existência e façam história. É necessário o reconhecimento das expressões culturais, entre elas,
representações, ideologias etc. Porém, essas são expressões das relações sociais estabelecidas/criadas por seres
humanos na sua relação com a natureza e na busca de satisfação de necessidades naturais e históricas.
9
Proudhon, em Filosofia da Miséria , segundo Marx (2001) fala da divisão social do trabalho mas ignora as
relações referentes ao mercado mundial. O que impossibilita a compreensão da totalidade em que se insere a
divisão social do trabalho e conseqüentemente os motivos da sua existência. Do mesmo modo, inúmeros artigos
que relacionam juventude e consumo, ignoram os aspectos da esfera da produção na constituição do
“consumismo” e do seu papel na sociedade atual. Assim como a idéia eufemística de que vivemos em uma
“aldeia global” esquece-se dos que não tem acesso à internet, por exemplo.
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SOUZA, Renato Dias de. História da juventude: aspectos teórico-metodológicos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 76-90. Set.2010/Dez.
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e histórica forma de articulação entre as forças produtivas e as relações sociais de produção,
que não dispensa formas apropriadas e especificas para a regularização das demais relações,
sendo a principal, o Estado.
Na atualidade a valorização dada ao discurso ideológico subjetivista e seus
ideólogos, faz parecer que são as ideias, as categorias, os conceitos, que produzem a história,
como acreditava Proudhon (MARX, 2001). O que impossibilita encontrarmos os seres
humanos concretos nas suas necessidades naturais e históricas que na realidade são aqueles
que fazem a história. Levando alguns a atribuir naturalizações ao grupo etário juvenil. Entre
os exemplos, temos as afirmações, de que nas mãos da juventude estariam as condições
necessárias para a revolução ou explicar manifestações como a violência enquanto
características inatas a esse grupo etário.
Enquanto o caráter contestatório da juventude, aos papéis que a sociedade
pretende atribuir a ela, não se deve a características biológicas. Mas, ao processo de
socialização, que em muitos casos, não consegue inculcar os valores dominantes da sociedade
capitalista nesse grupo etário. A juventude não é portadora dos caracteres messiânicos que
lhes são atribuídos e sua rebeldia se deve a relações sociais concretas onde não se sustentam
explicações metafísicas.
Na época de Marx o método da economia política consistia em se partir do real e
do concreto que era a “pressuposição prévia e efetiva”, o dado em si, portanto, da população
como “a base e o sujeito do ato social de produção como um todo”.
No entanto, graças a uma observação mais atenta, tomamos conhecimento de que
isso é falso. A população é uma abstração, se desprezarmos, por exemplo, as classes
que a compõem. Por seu lado, essas classes são uma palavra vazia de sentido se
ignorarmos os elementos em que repousam, por exemplo: o trabalho assalariado, o
capital etc. Estes supõem a troca, a divisão do trabalho, os preços etc. O capital, por
exemplo, sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem o preço etc.,
não é nada. Assim, se começássemos pela população, teríamos uma representação
caótica do todo, e através de uma determinação mais precisa, através de uma análise,
chegaríamos a conceitos cada vez mais simples; do concreto idealizado passaríamos
a abstrações cada vez mais tênues até atingirmos determinações as mais simples.
Chegados a esse ponto, teríamos que voltar a fazer a viagem de modo inverso, até
dar de novo com a população, mas desta vez não com uma representação caótica de
um todo, porém com uma rica totalidade de determinações e relações diversas... No
primeiro método, a representação plena volatiza-se em determinações abstratas, no
segundo, as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto por meio
do pensamento (MARX, 1982, p. 14).
Dar continuidade a perspectiva da economia política, criticada acima por Marx,
nos levaria a encarar a juventude, essa categoria sociológica, como uma abstração a qual
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SOUZA, Renato Dias de. História da juventude: aspectos teórico-metodológicos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 76-90. Set.2010/Dez.
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poderíamos atribuir valores a-históricos. O que quer essa história social da juventude é
impedir que isso ocorra. De modo que, não seja desprezada ou secundarizada a importância
da condição de classe em que os jovens estão inseridos. Encontrando na juventude, não uma
palavra vazia de sentido, mas buscando as determinações fundamentais da sua existência.
O que nos levará a deixar de vê-la como uma representação caótica do todo e a
explica-la como “uma rica totalidade de determinações e relações diversas”. Nisso consiste
uma mudança do concreto-dado, da imediates empírica, para o concreto-pensado, que é o
dado (a juventude) explicado a partir do conjunto de relações sociais que o constituíram. Não
mais a partir da ideia que se tem de algo, mas das suas relações concretas ou daquilo que
levou a determinada ideia ou representação.
Voltar no caminho, após reconhecer a totalidade e diversidade em que se constitui
a juventude, pressupõe retirarmos a névoa que nos leva a vê-la como um todo caótico. Esse
procedimento possibilita compreendermos que a juventude é apenas uma abstração se não
considerarmos a sua classe social, lugar na produção onde produz os meios para manutenção
da sua vida, relacionando esta aos motivos que levaram a sua constituição; o processo de
escolarização e as mudanças ocorridas na história do capitalismo após a Segunda Guerra
Mundial.
A historiografia sobre a juventude, inspirada pela Escola dos Annales, não tem a
preocupação metodológica de chegar à reprodução do concreto por meio do pensamento. Esse
procedimento levaria as pesquisas à superação da descrição, do empiricismo e de uma suposta
neutralidade. Tornando-se uma história social da juventude que não restringiria esse grupo
etário a compreensão a partir de supostas características inerentes, mas das suas múltiplas
determinantes, concretas. Sendo fundamental a condição de classe em que esse grupo etário
reproduz a sua existência.
Ao invés de partir da juventude como um todo caótico podemos partir dos grupos
e instituições com as quais se relaciona. Compreendendo sua ação e os limites que lhes são
impostos pela realidade. Portanto, se a historiografia sobre juventude será necessariamente um
exercício de análise da história moderna, deveremos considerar que sobre o cotidiano da
juventude incide, assim como no de demais grupos, o imperativo do atendimento das suas
necessidades materiais que nas sociedades de classes será mediada por relações oriundas da
luta de classes.
No entanto, o concreto pensado não é o processo de gênese do próprio concreto. O
que quer dizer que não é o que se pensa sobre a juventude, por exemplo, que faz com que ela
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SOUZA, Renato Dias de. História da juventude: aspectos teórico-metodológicos. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 76-90. Set.2010/Dez.
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exista concretamente. Na literatura, assim como no cinema e demais expressões artísticas,
podemos encontrar diversas representações da juventude. Essas não são em si a expressão da
juventude de um tempo e espaço específico. Como nos faz acreditar uma perspectiva
historiográfica descritiva e empiricista. Entretanto é a visão de um indivíduo ou grupo social
acerca da juventude, ou seja, está relacionada a luta de classes na sociedade capitalista.
Essa totalidade concreta a que nos referimos é um produto do pensar, mas não é
de modo nenhum produto do conceito, que se possa imaginar como existindo separado e
acima da realidade. Essa totalidade é um produto do cérebro pensante que se apropria do seu
modo ao mundo em que se situa (MARX, 1982). Portanto, o curso do pensamento abstrato
que se eleva do mais simples ao complexo corresponde ao processo histórico efetivo (MARX,
1982, p. 18). Daí decorre a necessidade de ao avistarmos a juventude na literatura ou em
diversas manifestações culturais, procurarmos explicações para aquela representação
especifica. Nesse caso, parte-se do mais simples (a obra de autores que retratem o surgimento
da juventude, por exemplo) ao complexo (os motivos que teriam levado àquela
representação).
Tanto na historiografia como na sociologia, o sujeito, está dado tanto na realidade
efetiva como no cérebro (MARX, 1982). Categorias sociológicas como a juventude só foram
formuladas devido a exprimirem formas objetivas. Sendo indispensável relacionar essas as
lutas sociais da sociedade em que foram formuladas e aos interesses de classes que
representariam. Já que há uma relação recíproca entre o sujeito caracterizado como
participante do grupo etário juvenil e as crianças, os adultos, os idosos etc. No entanto, ambos
possuem relações imediatas com a sociedade em que vivem, portanto, com o seu modo de
produção.
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Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 04, 91 – 104. Set. 2010/Dez. 2010.
A FORMAÇÃO DE TRABALHADORES RURAIS PELA COMISSÃO PASTORAL
DA TERRA – CPT
Amone Inacia Alves
Resumo:
Abstract:
O presente estudo fez parte da pesquisa de
doutoramento em Educação, linha Movimentos
Sociais, e teve como propósito compreender como
têm sido formados os trabalhadores rurais em Goiás,
principalmente por intermédio de agentes coletivos
organizados, que passaram a pensar em diferentes
estratégias, de modo a gerar práticas formativas para
este fim. Para tanto, escolhemos um desses agentes
específicos – A Comissão Pastoral da Terra – e
mostramos, através da observação direta de um
assentamento rural, como se desenvolveu o trabalho
de formação direcionada pela pastoral para aqueles
trabalhadores rurais.
This study was part of doctoral research in
Education, Social Movements line, and aimed to
understand how they have been trained workers
in rural Goias, primarily through organized
collective actors, who came to think of different
strategies in order to generate training practices
for this purpose. To do so, choose one of these
specific agents - The Pastoral Land Commission and show by direct observation of a rural
community, how it developed the job training for
those targeted by the pastoral rural workers.
Palavras-chave:
Key-words:
Mediação, representação, formação.
Mediation, representation, training.
INTRODUÇÃO
De fato, o trabalho dos mediadores impulsionou movimentos de contestação da
década de 1970, criando ações que de uma maneira ou outra, mudaram o cenário agrário em
Goiás. A partir de sua inserção e trabalho conjunto desenvolvido no campo, desdobraram
ações com os trabalhadores rurais, fazendo com que surgissem ocupações e assentamentos
rurais que desafiaram o poder constituído e as situações de mando que aconteciam
arbitrariamente. Essas ações coletivas conjuntas alteraram o mapa rural no Estado, com o
êxodo de pessoas.
A observação em assentamentos rurais com base na religiosidade popular nos
despertou o olhar. Vale assinalar que sempre tivemos interesse em compreender os processos
formativos, principalmente voltados aos trabalhadores rurais.
Percebemos que, mesmo
exercendo a militância e adotando um discurso reivindicativo, o trabalhador rural não perdia

Doutora em Educação pela UFG, professora da Universidade Estácio de Sá de Goiás.
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ALVES, Amone Inacia. A formação de trabalhadores rurais pela Comissão Pastoral da Terra – CPT.
Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº
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as suas expectativas em relação ao que considerava sagrado. Segurava com uma mão uma
foice e com a outra, a Bíblia que, segundo o seu relato, o orientava no tipo de ação a ser
praticada. Relatava que, mesmo em um dia de enfrentamentos, ao final da lida, ao fazer a
leitura bíblica, encontrava ali as respostas necessárias para a condução do dia seguinte.
O fato que nos chamava a atenção ao iniciar esse trabalho era a fé religiosa que
alimentava os discursos, as práticas e os entendimentos de conceitos chave para os
enfrentamentos. Observamos que o trabalhador rural a vivencia intimamente nos atos
cotidianos e por meio dela, constrói novos significados para a sua vida.
Passou a nos interessar a compreensão de como os atores, ao reivindicarem
demandas consideradas significativas para a sua mudança de vida, se organizavam em
diferentes movimentos sociais e como, mesmo empenhados em alterar a sua situação social,
não abandonavam a fé e a crença religiosa, atribuindo um novo significado àquela ação.
Daí o interesse em estudar a ação da Igreja Católica no campo, por meio do seu
trabalho pastoral. Percebemos que esse agente coletivo constituía um elo entre esses saberes
religiosos e os de militante. Foi por intermédio de suas ações que outros agentes entraram em
cena, como por exemplo, o Movimento dos Sem Terra, MST. Através de uma liturgia mais
combativa, voltada aos problemas sociais, a Igreja, ou uma ala específica, pois sabe-se que
não havia consenso em relação às suas ações, passou a interagir voltada a uma opção pelos
pobres.
1. A FORMAÇÃO PARA A CPT
Alguns aspectos, a nosso ver, fizeram com que a CPT se destacasse diante de
outros agentes que estão interessados na formação. Por exemplo, o MST investe em formação
política, seja na capacitação, ou no estímulo às lideranças que emergem do movimento. A
CPT também tem investimentos nesse tipo de formação, formando líderes em diversos
movimentos em que atua. A Fetaeg disponibiliza capital simbólico na perspectiva produtiva,
criando quadros de assessorias para o fomento da agricultura familiar, criando espaços de
debates e fóruns com essa finalidade. O trabalho da Pastoral vai nesse sentido, quando põe à
disposição dos agricultores, agrônomos liberados como agentes.
Em suma, a CPT exercita o que o MST e a Fetaeg fazem, no entanto, agregando
outro valor, que para o trabalhador rural tem um grande sentido, que é a fé religiosa. Nenhum
dos outros agentes coletivos organizados insere a questão da religiosidade nas suas práticas,
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que é um elemento a mais. A CPT propõe um quadro de referenciais formativos mais
abrangente.
Percebemos, no entanto, que não houve linearidade no desenrolar de suas práticas
no que diz respeito à área rural. Em alguns momentos, agiu intimamente com os
trabalhadores. Em outros, enfrentou resistências na própria ala hierárquica e buscou redefinir
conceitos e ações, como por exemplo, no que dizia respeito ao que chamavam de
protagonismo dos trabalhadores. A partir dos anos 1990 tem-se vivenciado uma crise, tanto
de quadros, pois há falta de renovação de agentes pastorais, como de perspectivas, tornando
incertos os rumos quanto ao trabalho pastoral.
É importante lembrar que, no momento histórico que marca o início do embate na
Fazenda São João do Bugre, localizada no município de Goiás, meados dos anos 80, eram
depositados todos os anseios sociais prol cidadania nos movimentos sociais, questionando não
apenas melhorias na qualidade de vida, mas também a mudança da ordem fundiária até então
vigente, o que significaria, em longo prazo, na mudança estrutural na sociedade. Daí as
esperanças creditadas nos movimentos sociais1 pelos mediadores2.
É importante lembrar que não apenas a CPT atuou com o propósito de formar
trabalhadores. Houve por parte dos diferentes mediadores uma construção teórico-empírica
sobre o conceito de formação, ocorrendo disputas pela sua autoridade discursiva. Tanto
agentes partidários, representados pelos partidos políticos, Partido Comunista, PC,
posteriormente, Partido dos Trabalhadores, PT, Central Única dos Trabalhadores, CUT,
agentes sindicais, compostos pela Federação dos Trabalhadores da Agricultura de Goiás,
Fetaeg, Sindicato dos Trabalhadores Rurais, STRs, agentes da sociedade civil, Movimento
dos Sem Terra, MST, agentes de Assessoria, como o Instituto Brasil Central, Ibrace, e
Instituto de Formação e Assessoria, Ifas, tiveram, ao longo dos anos, vários interesses nessa
formação.
A formação empreendida e o apoio dispensado por esses diferentes agentes foram
extremamente significativos, pois conseguiram influenciar diversas manifestações de
trabalhadores rurais em defesa da ampliação de seus direitos. Ademais, foram além de uma
instrumentalização apenas política, tornando-se responsáveis pela alteração do modo de vida
desses trabalhadores, mudando-lhes o habitus. Daí a necessidade de dedicação a esse estudo.
1
Esse momento coincide também com o início das atividades desenvolvidas pela Comissão Pastoral da Terra.
Lembrando que a Fazenda São João do Bugre configura o primeiro movimento que teve apoio ostensivo da
Igreja.
2
Mediação pensada como interlocução, como um direcionamento a uma determinada causa.
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ALVES, Amone Inacia. A formação de trabalhadores rurais pela Comissão Pastoral da Terra – CPT.
Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº
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Cabia identificar o agente que investiu capital social 3 significativo nesse intento.
Após a descrição das regras imanentes, da participação dos agentes e formas de
funcionamento, percebemos que o campo religioso muito tem feito para atingir esse objetivo.
Como esse campo possui diversos agentes, como a própria estrutura eclesiástica, alas
conservadoras, dentre outros, buscamos destacar a ação da Comissão Pastoral da Terra, CPT,
por acreditarmos que a instituição está empenhada para trabalhar essa formação.
A CPT surgiu em Goiás em 1975 com a clara finalidade de “estimular maior
participação popular dentro da igreja, conquistando o direito de decidir democraticamente os
conteúdos e métodos da ação pastoral”. Apesar de possuir na sua estrutura elementos que
conduzem a certa secularização das práticas religiosas, advém do campo religioso a base
metodológica de transmissão de capital social, que envolve uma mística em torno de sua
missão em acompanhar os trabalhadores rumo à Terra Prometida.
Esse discurso metafórico faz com que ela atraia novos membros, sobretudo
trabalhadores rurais que, alijados do processo histórico, veem nessa busca uma saída, uma
proposta concreta e principalmente, a conquista da terra almejada.
Ainda que a CPT não tenha um projeto estruturado de formação, ela busca
participar no campo agrário. Então nos cabe inquirir: O que se espera que seja esse
trabalhador rural? Esse projeto formativo confronta-se com o que entendemos que ele seja?
Qual o resultado dessas práticas de formação? Que conflitos os mediadores enfrentam diante
de outros agentes que também desenvolvem ações formativas?
2. O USO DOS CONCEITOS
Sob o impulso de entender o que é a formação, constatamos a discrepância entre
trabalhadores e mediadores, recorrendo à categoria de espaço social, entendido como um
campo de forças, como um “conjunto de relações de força objectivas impostas a todos os que
entrem nesse campo e irredutíveis às intenções dos agentes individuais ou mesmo às
interações diretas entre os agentes”. (BOURDIEU, 2007, p. 134)
Isso significa dizer que tanto agentes como grupos de agentes encontram-se
definidos nos espaços sociais de acordo com as posições relativas nesses espaços, e ficam
agrupados de acordo com sua posição ou classe, precisando de posições vizinhas:
3
O capital social é, para Bourdieu, “o conjunto de recursos (atuais ou potenciais) que estão ligados à posse de
uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas, em que os agentes se reconhecem como pares
ou vinculados a determinados grupos” (CATANI, 2004, p. 9).
95
ALVES, Amone Inacia. A formação de trabalhadores rurais pela Comissão Pastoral da Terra – CPT.
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A posição de um determinado agente no espaço social pode assim ser definida pela
posição que ele ocupa nos diferentes campos, quer dizer, na distribuição dos poderes
que actuam em cada um deles, seja, sobretudo, o capital econômico – e nas suas
diferentes espécies −, o capital cultural e o capital social e também o capital
simbólico, geralmente chamado prestígio, reputação, fama, etc, que é a forma
percebida e reconhecida como legítima das diferentes espécies de capital.
(BOURDIEU, 2007, p. 134)
Entender o espaço social permite compreender a localização dos agentes nos
diferentes campos sociais, de acordo com a quantidade de capital, social e cultural,
disponibilizada para esse fim. Cabe ressaltar que as mudanças de posição nesse espaço, só
serão possíveis graças à mobilização de diferentes formas capital.4 Então, a compreensão do
espaço, permite entender à própria história do campo, principalmente no que diz respeito ao
tempo e lugar5.
De posse desse conceito, passemos a outro campo, definindo-o como o local onde
os mediadores buscam disputas6, no qual os agentes se movimentam de acordo com as
posições previamente estabelecidas. A partir desta compreensão, pode-se pensar que esses
agentes em questão passam a possuir interesses específicos no espaço social, que em
determinado momento, passam a ser objeto de luta concorrencial em torno de um propósito
comum. Esse “local” ou “situação” possui uma estrutura própria, relativamente autônoma em
relação a outros campos sociais. Contudo, no seu interior encontraremos conflitos, objetivos
específicos e objetos de disputa peculiares que serão responsáveis por sua estruturação e
funcionamento.
Em um processo de interiorização e apossamento, encontraremos indivíduos
ajustados que chegam a se apropriar da noção de inconsciente cultural (PINTO, 2000, p. 6970). No que se refere à estrutura e funcionamento, cabe a esses agentes a conquista da
4
Assim como a probabilidade de reunir um conjunto de agentes é proporcional à proximidade do espaço social.
Bourdieu exemplifica: “se há mais probabilidade de mobilizar no mesmo grupo real o conjunto dos operários do
que o conjunto dos patrões e operários, pode-se, graças a uma crise internacional [...] conseguir um agrupamento
baseado em liames de identidade nacional, isto em parte porque, pela história que lhe é própria – por exemplo
em matéria de desvios hierárquicos no campo econômico.”
5
A exemplo do campo econômico, que na sua constituição histórica teve diferentes espaços sociais, do processo
de acumulação primitiva até a acumulação flexível, que define bem a sua história atual.
6
Pinto (2000) diz que a estrutura do campo permite explicar, ao mesmo tempo, os princípios de divisão internos
em função dos quais se organizam os conflitos, as controvérsias, as competições e os limites historicamente
determinados, inclusive daqueles que já não se encontram aptos a participarem dele.
96
ALVES, Amone Inacia. A formação de trabalhadores rurais pela Comissão Pastoral da Terra – CPT.
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legitimidade, que lhes permita situá-los de acordo com o grau de reconhecimento obtido,
segundo os princípios de classificação próprios do campo7.
E nem sempre as relações entre os agentes vão se estabelecer no nível do conflito.
Em alguns momentos, os agentes se unem e formam alianças, para em outros, distenderem a
ponto de se revelarem antagônicos.
A compreensão da lógica de cada campo só é inerente àqueles que participam do
jogo. Bourdieu afirma que:
Um campo se define, entre outras coisas, estabelecendo disputas e os interesses
específicos que estão em jogo, que são irredutíveis às disputas e aos interesses dos
outros campos. Estas disputas não são percebidas a não ser por aqueles que foram
produzidos para participar de um campo onde se realizavam essas disputas. Cada
categoria de investimentos implica numa certa indiferença em relação a outros
interesses, a outros investimentos específicos de um outro campo. Para que um
campo funcione é preciso que haja lutas, ou seja, indivíduos que estejam motivados
a jogar o jogo, dotados de habitus implicando o conhecimento e o reconhecimento
das leis imanentes do jogo (BOURDIEU, 1988).
É importante dizer que no interior do campo existe uma forma específica de
interesse, objeto de disputa entre os agentes do jogo. Os julgamentos sobre a capacidade de
mobilizar recursos por aquele que se julga no direito de reivindicar o domínio no campo,
estão sempre contaminados pelo conhecimento da posição que ele ocupa nas hierarquias
instituídas. O que passa a particularizá-lo é a manifestação de relações de poder, o que
Bourdieu designa de capital social.
Bourdieu (2002, p.69) relata que a teoria geral sobre os campos permite descrever
e definir a forma específica constituinte destes, bem como os mecanismos e os conceitos
pertinentes. Em cada campo apresentam-se conceitos gerais como: capital, investimento dos
participantes e ganho, bem como a ação dos sujeitos coletivos – os agentes, no alcance de
seus objetivos. Para ele, compreender a gênese social de um campo significa:
Apreender aquilo que faz a necessidade específica da crença que o sustenta, do jogo
de linguagem que nele se joga, das coisas materiais e simbólicas em jogo que nele se
geram; É explicar, tornar necessário, subtrair ao absurdo do arbitrário e do não
motivado os actos dos produtores e as obras por ele produzidas e não, como
geralmente se julga, reduzir ou destruir. (p. 70)
7
Isso permite distinguir os dominantes dotados de excelência e os dominados relegados a condições inferiores
dentro da lógica de análise dos campos. Vale ressaltar que o campo não é o resultado de ações individuais, mas
de ações coletivas desses agentes.
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O que interessa, então, na descrição do campo é a capacidade dos agentes em se
assumirem no jogo, identificando de antemão a moeda em disputa e os interesses
gerais que os motivam a atuarem no seu interior.
Outro aspecto inerente ao campo diz respeito à autonomia. Por esse conceito
Bourdieu designa um processo de depuração em que cada gênero se orienta para aquilo que o
distingue e o define de modo exclusivo para além mesmo dos sinais exteriores, socialmente
conhecidos e reconhecidos por sua identidade. Seguindo essa linha de raciocínio, para que
exista um campo é necessário que um determinado espaço social possua características que
lhe são próprias, e que ele exista e se movimente independente de outros fatores, fora dele.
Essa autonomia relativa permite ao campo a construção da sua própria história.
Referindo-se ao campo artístico, Bourdieu afirma que se existe uma história propriamente
artística é porque:
Os artistas e seus produtos se acham objetivamente situados, pela sua pertença ao
campo artístico, em relação aos outros artistas e aos seus produtos e porque as
rupturas mais propriamente estéticas com a tradição artística têm sempre algo que
ver com a posição relativa, naquele campo, dos que defendem esta tradição e dos
que se esforçam por quebrá-la. (BOURDIEU, 2002, p. 71)
Essa autonomia se dá mediante a ação dos agentes no interior do campo de modo
declarado ou não. Isso significa que não há neutralidade dos agentes. O campo é por sua
natureza constitutiva produtor e produto dessas ações. Ao optarmos por descobrir o porquê de
uma determinada ação, convém compreender a sua estrutura e seu funcionamento.
Pelo fato de haver formas distintas de interesses, os campos encontram-se
múltiplos, e o que lhes confere o status de campo é a relativa autonomia que possam
apresentar. Dessa forma, é oportuno localizar diferentes campos como: econômico, político,
universitário, dentre outros8.
Outro conceito importante no entendimento do campo refere-se ao capital9. Por
esse conceito, compreende-se o conjunto de recursos (atuais ou potenciais) que estão ligados à
posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas, em que os agentes
8
Não é interesse de esse estudo debruçar sobre esses campos, mas mostrar que em diferentes momentos, suas
ações interferem no campo agrário.
9
É importante frisar que a ideia de capital exclui a teoria dos dons, amplamente criticada na teoria bourdieniana.
A quantidade de capital que um indivíduo possui, não advém de uma natureza ou herança cultural, mas da
própria constituição social de variadas formas de desigualdade.
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se reconhecem como pares ou vinculados a determinados grupos. Esses agentes, uma vez
dotados de características comuns, formarão redes de ligações duradouras. Assim, a
quantidade de capital social que um agente individual possui é determinada pela quantidade
de rede de relações que há, ou que consegue mobilizar.
Assim, é na mediação entre o capital e as estratégias de reprodução que
determinados grupos serão responsáveis pela reprodução dos sistemas dominantes na
estrutura social. Os detentores de capital não podem manter sua posição na estrutura social
“[...] senão ao preço das reconversões das espécies de capital que detêm, em outras espécies
mais rentáveis e/ ou mais legítimas no estado considerado dos instrumentos de reprodução”
(BOURDIEU, 1979).
Ortiz (1983, p. 21-22) afirma que a disputa por diferentes formas de capital
refere-se à aquisição de legitimidade, no caso da ciência, significa autoridade científica.
Utilizando esse exemplo, os pesquisadores que desfrutam de posições hierarquicamente
reconhecidas como dominantes dispõem de maior capital científico, e figuram como
celebridades detentoras de prestígio. Em outros campos visualizaremos formas distintas dessa
disputa.
Os agentes, em detrimento da posição que ocupam no interior do campo, passam a
agir sempre no sentido da acumulação de capital, de forma a alcançá-lo cada vez em maior
quantidade. Esse investimento depende de sua posição atual, pois quanto maior ela for maior
será o seu lucro.
Bourdieu alerta para o fato de que não há neutralidade de ações. Cada agente atua
de acordo com os interesses que tem em acumular capital, e, portanto, de se posicionar no
interior do campo. Essa capacidade de acumulação de capital permite filtrar aqueles que
devem ou não ascender na hierarquia cultural.
A ação das estruturas sociais sobre o comportamento individual se dá de dentro
para fora e não o inverso. Desde o momento em que possuímos uma formação inicial em um
determinado ambiente, acabamos incorporando um conjunto de disposições duráveis ou não
que passam a nos conduzir em variados momentos de ação. Deste modo, a ação não é mais
considerada como simples execução, mas sim, como significação do mundo. A sociedade não
existe como algo globalizante, mas como intersubjetividade que tem origem na ação primeira
do sujeito (ORTIZ, 1983).
Outro conceito que facilita essa compreensão é o habitus. Com essa categoria
Bourdieu descreve a problemática da mediação entre o agente social e a sociedade. Faz isso
descrevendo a noção de habitus como:
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Sistema de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionarem
como estruturas estruturantes, isto é, como princípio que gera e estrutura as práticas
e as representações que podem ser objetivamente regulamentadas e reguladas sem
que por isso sejam o produto de obediência de regras, objetivamente adaptadas a um
fim, sem que se tenha a necessidade da projeção consciente deste fim ou do domínio
das operações para atingi-lo, mas sendo, ao mesmo tempo, coletivamente
orquestradas sem serem o produto da ação organizadora de um maestro.
(BOURDIEU, 2004)
A partir da observação acima podemos perceber que o ator (agente) não é um
indivíduo neutro, mas o produto de condições socialmente estabelecidas, ou herdadas. No
bojo da sua formação encontra-se inserida a bagagem que carrega, que constitui o capital
social, ao mesmo tempo em que se torna produtor das condições sociais (estruturas
estruturantes).
O habitus, entendido como produto de esquemas gerativos que determinam as
escolhas e como tributário de determinadas classes, torna-se o principal responsável pela
geração de capitais sociais, que por sua vez, serão determinantes no que, nas palavras de
Bourdieu, podem ser chamadas de “futuro de classe e causalidade do provável”. (CATANI,
2002)
Esses três conceitos – campo, habitus e capital – são base explicativa para
entender o alcance da obra de Bourdieu ao expor a relação entre agente e sociedade. Martins
(1987) observa que “[...] se o habitus orienta a prática dos agentes, esta somente se realiza
mediante as disposições duráveis dos atores ao entrarem em uma situação e um habitus”. Isso
quer dizer que na teoria da prática faz-se necessário, além de identificar os três conceitos,
destacar o objeto de disputa que os agentes buscam a forma de capital que acumulam para
consegui-lo, bem como identificar maneiras que utilizarão para isto.
Partimos então do princípio de que os diferentes agentes coletivos engendraram
ações e investiram capitais simbólicos a fim de participarem do campo agrário e para isso,
resolvemos destacar a ação de um desses agentes em particular, a Comissão Pastoral da
Terra− CPT− conforme citado anteriormente, com a finalidade de reconhecer a sua atuação. O
capital é um investimento e uma forma de dizer que se acredita no jogo.
3. OS PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ADOTADOS
Os procedimentos metodológicos que adotamos neste trabalho referem-se aos
pressupostos da chamada pesquisa qualitativa, que segundo Minayo (1996, p. 105-106)
requerem “interação entre o pesquisador e os sujeitos pesquisados”. Acreditamos que essa
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postura metodológica é a mais adequada aos propósitos dessa pesquisa, vez que nos permite
adentrar nos “mundos” da CPT e dos trabalhadores rurais.
Para tanto, usamos dois tipos de trabalhos empíricos de investigação: entrevistas
semi-estruturadas e etnografia, sendo que em diversos momentos fizemos as duas coisas.
Partimos do princípio de que os entrevistados não são sujeitos passivos, determinados por
questões sociais e políticas agindo sobre eles, mas portadores de historicidade e de
experiência. Por isso, buscamos dar-lhes voz a fim de elaborarem o seu conhecimento.
Foram entrevistadas 20 pessoas, somando um total de 30 horas de gravações. A
escolha dessas pessoas para entrevista não foi aleatória10. Buscamos entrevistar agentes e exagentes pastorais, que tiveram contato com o trabalho pastoral há mais de dez anos e que de
alguma maneira, participaram dos cursos de formação, seja como formadores ou mesmo
como partícipes. Com esse público, tentamos entender como se forjaram as concepções de
formação, quais foram os modelos propostos e como se estruturaram as práticas formativas.
Objetivamos com esse trabalho captar as visões de mundo desses agentes a
respeito dos aspectos das questões de estudo. Na primeira fase, que ocorreu em meados de
2009, as entrevistas foram informais, visando uma busca de caráter exploratório, a fim de
colher informações sobre militantes e participações na Comissão Pastoral. Já na segunda fase,
que ocorreu no final do mesmo ano, as entrevistas foram realizadas com temas, de caráter
semi-estruturado, possibilitando aos entrevistados discorrerem sobre as suas trajetórias de
vida e de participação nos movimentos.
O fio condutor dessa proposta era fazer uma clivagem entre os diversos momentos
da formação, mostrando como os agentes conceberam os cursos e vislumbraram a
possibilidade de uso de metodologias para o trabalho formativo com os trabalhadores rurais.
Por isso, quando perguntamos: “O que você entende por formação”, deixávamos que os
entrevistados falassem livremente sobre isso. Alguns dados eram omitidos, ou mesmo
esquecidos. No entanto, levamos as informações de um entrevistado como início de conversa
para uma outra entrevista.
Outra ajuda significativa foi a análise documental a que tivemos acesso, com
diversos materiais fornecidos pela própria CPT, como propostas de cursos, atas, relatórios,
folders e outros documentos. Esse suporte também foi de grande valia para o confronto com
as falas dos entrevistados.
10
A pesquisa contou com aprovação do Comitê de Ética da UFG, que autorizou a coleta e uso de dados e de
entrevistas.
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Procuramos entender como se deu a efetividade do trabalho de formação com os
trabalhadores e para isso, queríamos encontrar um assentamento rural que fosse fruto desse
trabalho. A posse dos documentos e das leituras nos levou a um assentamento rural que foi
alvo desse investimento formativo da CPT, que foi o pioneiro nesse tipo de ação: a Fazenda
São João do Bugre, a 20 quilômetros da Cidade de Goiás (GO).
Então realizamos o trabalho etnográfico em São João do Bugre, antiga Fazenda
Estiva. Estivemos lá em dois momentos. No primeiro, em meados de 2009, fizemos uma
observação sobre o lugar, conversamos com o mais antigo morador, Antônio Baiano e seus
familiares. No segundo momento, no final de 2009 e começo de 2010, procuramos os
assentados que permaneceram nos lotes, inquirindo sobre a sua participação no movimento de
conquista da terra e de sua atuação no presente em outros movimentos e organizações sociais.
Perguntamos-lhes como se dava o contato com a CPT na atualidade e com que
tipo de apoio contavam no processo formativo. Essa questão apresentou novos delineamentos
da pesquisa e redirecionou o foco para entender a própria crise que a Pastoral atravessa.
Sobre o ato investigativo do pesquisador, assim diz Bourdieu: (2007, pp. 64-65)
[...] para saber construir o objeto e conhecer o objeto construído, é necessário ter
consciência de que todo objeto propriamente construído é consciente e
metodicamente construído, e é necessário conhecer tudo isso para nos interrogarmos
sobre as técnicas de construção das perguntas formuladas ao objeto.
Essa fala de Bourdieu é reveladora à medida que nos ensina que é a partir do
apossamento do objeto que a metodologia é construída. Observamos isso no decorrer do
trabalho, quando avançávamos em direção às entrevistas novas questões se revelavam,
sugerindo novos posicionamentos metodológicos. Então, após o trabalho etnográfico, tivemos
que voltar aos documentos e aos agentes coletivos, com o objetivo de desvelamento desse
real.
O conjunto das entrevistas, o registro etnográfico, os diversos documentos,
periódicos e textos serviram como fonte inspiradora para a análise sobre o objeto de estudo
em questão, a formação da CPT: concepções, métodos e práticas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Houve um interesse de diferentes agentes em emancipar o trabalhador da relação
de excluído dos direitos. Neste sentido é que operou a formação, funcionando como
102
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transmissão de capitais necessários para que ele altere o estado de coisas, organizando-se em
movimentos populares com esta finalidade. O trabalho formativo funcionou também como
uma estratégia de investimento social, com a finalidade de delimitar as ações no campo.
Destacamos a importância do aprendizado social dos trabalhadores rurais, a partir
da mediação exercida pela CPT. Essa constatação foi fruto do trabalho de campo – com o uso
da etnografia - realizado na Fazenda Estiva/São João do Bugre, apurado nas entrevistas com
parceleiros que experienciaram a luta pela terra e participaram da formação empreendida pela
Comissão Pastoral. O trabalho etnográfico no Assentamento Rural Estiva11 ou São João do
Bugre foi de grande valia para esse entendimento, pois serviu de suporte da CPT para a
organização do futuro assentamento. As entrevistas selecionadas com agentes e ex-agentes
pastorais apontaram para o fato de que inexistiam movimentos sociais anteriores a esse
movimento no campo, em Goiás12.
Notamos que o capital adquirido por aqueles assentados tem possibilitado outras
mediações, o que pode ser observado como habitus de mudança na vida desses trabalhadores.
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11
Segundo Pessoa (1999a, p. 91), a Fazenda Estiva é citada como a primeira „Posse‟ do Estado de Goiás.
Percebemos que existe sempre um embate entre os parceleiros da Estiva/São João do Bugre e do Mosquito,
pois ambos reivindicam a condição de ser o primeiro movimento rural da região, caracterizado por sua
resistência e seu enfrentamento. Vez ou outra essa questão vem à tona, os dois lados pretendendo assumir a
autoria, como se isso fosse de suma importância para o reavivamento da memória do grupo.
12
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ALVES, Amone Inacia. A formação de trabalhadores rurais pela Comissão Pastoral da Terra – CPT.
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Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 04, 105 – 121. Set. 2010/Dez. 2010.
OS REBELDES SEM CAUSA:
PROBLEMAS SOCIOLÓGICOS NAS PRIMEIRAS PESQUISAS SOBRE A
JUVENTUDE
Denise Gisele de Britto Damasco
Fausta Porto Couto
Halline Mariana S. Silva
Resumo:
Abstract:
O presente artigo resgata principais teorias, conceitos e
concepções sobre a juventude até os anos sessenta do
século XX. Para tanto, é feita uma incursão no
pensamento de autores como: Flitner, Lapassade,
Matza e Mannheim,. Nesse contexto histórico as
instituições buscavam estudos de ordem psicológica e
sociológica para explicar a “crise da juventude”.
Inadaptação ou problema de rebeldia? O objetivo é a
sistematização da produção das interpretações do
conhecimento e dos estudos realizados sobre a
juventude, a partir de um recorte temporal,
identificando temáticas e abordagens dominantes. Esse
artigo discute quatro textos: a) o texto de Andreas
Flitner, “Os problemas sociológicos nas primeiras
pesquisas sobre a juventude”; b) o texto de Georges
Lapassade, “Os rebeldes sem causa”; c) o texto de
David Matza, “As tradições ocultas da juventude”; e o
texto de Karl Mannheim, “O problema da juventude na
sociologia moderna”. A produção científica no Brasil
cujo enfoque é a Juventude tem se delineado de
maneira diferente no país e a partir de Estados da Arte
sobre esse tema observamos a evolução desta nas
pesquisas no país.
This article captures the main theories, concepts
and ideas about youth until the sixties of the
twentieth century. For that, we made a foray into
the thinking of authors such as Flitner, Mannheim,
Lapassade and Matza. In this historical context
institutions sought studies of psychological and
sociological research to explain the "crisis of
youth.” Is it an inadequacy or a problem of
rebellion? The goal is to systematize the production
of knowledge interpretations and of studies on
youth, from a time frame, identifying dominant
themes and approaches. This article discusses four
texts: a) the text of Flitner Andreas, "The
sociological problems in the early research on
youth", b) the text of Georges Lapassade, "Rebels
without a cause", c) the text of David Matza, "The
occult traditions of youth" and the text of Karl
Mannheim, "The youth problem in modern
sociology." The scientific production in Brazil
whose focus is the youth has been delineated
differently and from States of the Art on the subject
the evolution of the scientific production in the
country can be observed.
Palavras-chave:
Key-words:
Juventude. Pesquisa em Educação; Karl Mannheim.

Youth; Education research; Karl Mannheim.
Doutoranda em Educação da Universidade de Brasília, pesquisadora do Grupo de Estudos em Educação,
Políticas Públicas: Gênero, Raça e Juventude – www.fe.unb.br/geraju - Professora da Secretaria de Estado de
Educação do Distrito Federal – SEDF atuando no Convênio SEDF/Aliança Francesa de Brasília,
[email protected]

Mestranda em Educação da Universidade de Brasília. Pesquisadora do Grupo de Pesquisas Interdisciplinares
sobre o computador na Educação – ABACO; Linha de Pesquisa: Mídia, Inclusão Digital e Juventude. http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional/detalhegrupo.jsp?grupo=02407088KT1AMW- Pesquisadora do Grupo de
Estudos em Educação, Políticas Públicas: Gênero, Raça e Juventude - www.fe.unb.br/geraju Professora no Curso
de Pedagogia da Universidade do Estado da Bahia – UNEB-BA [email protected]

Doutoranda em Educação da Universidade de Brasília, pesquisadora do Grupo de Estudos em Educação,
Políticas Públicas: Gênero, Raça e Juventude - www.fe.unb.br/geraju - Professora no Curso de Pedagogia da
Universidade Federal de Goiás – UFG/CAJ [email protected]
106
DAMASCO, Denise Gisele de Britto; COUTO, Fausta Porto e SILVA, Halline Mariana S. Os rebeldes
sem causa: problemas sociológicos nas primeiras pesquisas sobre a juventude. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 105-121.
Set.2010/Dez. 2010.
INTRODUÇÃO
Flitner (1968) ao estudar a juventude e as ocorrências de pesquisa de juventude
reconhece a existência de dois limites relacionados à juventude: a juventude como um
elemento sócio-economicamente condicionado à sociedade global e a juventude como
promessa de uma sociedade nova e utópica. Esse campo de pesquisas e de análise surge dessa
contradição nos países de língua alemã desde as intenções revolucionárias de Pestalozzi, que
toma consciência dos problemas sociais surgidos Suíça com a migração dos jovens para a
cidade e o desenvolvimento de uma criminalidade juvenil. O artigo de Flitner (1968) cobre a
existência ou não de pesquisa relacionada à juventude também no período do nascimento das
primeiras indústrias, até a constituição das mesmas.
O interesse pela idade juvenil e algumas investigações sociológicas datam do
século XVIII, segundo Flitner (1968). Esse interesse pelo ser humano, por sua essência, sua
posição e suas maneiras de ser, como criança e jovem foi observado inclusive em algumas
disciplinas tais como a Psicologia e Filosofia, criando inclusive a Biologia comparativa.
O artigo de Flitner está dividido em três partes. Em um primeiro momento esse
autor apresenta os primórdios, as premissas, a descoberta da idade juvenil, o início da
pesquisa juvenil, os problemas sociais da juventude e os princípios de uma pesquisa sociojuvenil em Pestalozzi, a legislação e infanticídio, bem como dissertações sobre o camponês.
No início do século XVIII as investigações empíricas sobre juventude eram
realizadas por meio de observações e diários de observações infantis. Essa pesquisa empírica
referiu-se basicamente ao período da infância e aos primeiros períodos de vida. Não havia
referência ao período juvenil na literatura, nem mesmo referência clara aos jovens, mesmo
quando os mesmos eram o centro de interesse. Encontra-se diversas referências à idade
juvenil a partir da obra de Locke, “Quelques pensées sur l‟éducation”, que surgiu ainda no
século XVII, em 1693.
John Locke, educador, aconselha Edward Clarke e sua esposa na Holanda, a
educar seu filho, como um gentleman1. A primeira carta de Locke é de 19 de julho de 1684 e
a mesma contém as primeiras instruções sobre o tema. Em seguida, diversas correspondências
são escritas por Locke, até seu falecimento em 1704. Locke encaminha uma séria de
recomendações, agrupadas em 65 sessões e dá seus conselhos baseados no bom senso e na
1
Gentleman não é uma palavra feminina, mesmo que se tenha mulheres cultas. Nessa época as mulheres eram
mais apresentadas em sua função materna.
107
DAMASCO, Denise Gisele de Britto; COUTO, Fausta Porto e SILVA, Halline Mariana S. Os rebeldes
sem causa: problemas sociológicos nas primeiras pesquisas sobre a juventude. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 105-121.
Set.2010/Dez. 2010.
experiência, sempre utilizando o modo imperativo. Assim, essa obra é antes de tudo um
conjunto de instruções pedagógicas e não uma obra filosófica.
Outras pesquisas empíricas sobre juventude surgiram no último terço do século
XVIII e no período rousseauniano. Aloys Fischer (apud FLITNER, 1968) entende que a obra
Emile teve sua importância na pesquisa sobre juventude, entretanto não deveria se tornar o
evangelho natural sobre educação juvenil. O avanço aqui está no fato de o jovem começar a
ser retratado por meio de sua realidade social, por mais que se tenha ainda grande imprecisão
dos termos juventude, rapazes e moças e jovens. Diversos estudos e investigações empíricas
baseados em documentos jurídicos foram realizados ainda por Pestalozzi e Schleiermacher,
dialéticos entre a tarefa social e o dever humanitário da educação. Houve estudos sobre o
jovem operário do campo e uma ausência de descrição do operário urbano. Porém, segundo
Flitner (1968) o material de pesquisa é reduzido para permitir conclusões mais amplas,
sobretudo na tentativa de relacionar os crimes e suas causas originárias nas condições
precárias de vida na infância.
A segunda parte do artigo de Flitner (1968) refere-se à renovação ocorrida no
século XIX, com apresentação de Stanley Hall, com a pedagogia experimental, programas e
exigências e as relações isoladas do período anterior à Guerra. Encontra-se o caráter
especulativo da pesquisa e pouca produção sobre juventude. Destaca-se Lorenz Von Stein,
seu sucessor Paul Barth que visou em suas pesquisas às ideias educacionais e não à juventude
em si. Nesse período a psicologia se libertou da Filosofia especulativa e a Antropologia, não
incluiu a infância em seus estudos segundo Flitner (1968). A monografia de Stanley Hall,
Adolescence, no final do século XIX, já publicada no início do século XX resume a situação
da pesquisa referente à juventude, fato esse que determinou de maneira categórica o quadro
científico da juventude. Não obstante, a vida do jovem americano distinguia-se da vida do
jovem alemão.
A pedagogia experimental é apresentada por Flitner (1968) por August Lay e
ainda por Ernst Meumann com suas pesquisas próprias, as chamadas pesquisas de fato. Essas
pesquisas estabeleceram uma base de conhecimentos empíricos entre a psicologia e a
pedagogia. Tais pesquisas, segundo Flitner, não souberam separar os fatos sociais dos fatos
psicológicos.
No início do século XX houve pesquisas no campo da psicologia comparativa
com Wilhem Wundt e no campo da psicologia de observações exatas com as escolas de
Wuerzburg e Viena, lideradas por Karl Buehier. Surgem às enquetes, estudos empíricos e
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analíticos com diversos métodos e níveis, observações individuais e casuísticas que originam
estudos programáticos. Flitner (1968) relaciona como temas propostos de pesquisa juvenil
desse período: os jovens da cidade e do campo; os operários e estudantes de ginásios técnicos;
a juventude empregada no campo e a juventude doméstica e urbana; a juventude da cidade e
no serviço militar. O movimento juvenil e a cultura juvenil foram temas considerados
diferentes e excêntricos, segundo Flitner.
Ainda nesse período, pesquisas realizadas por Aloys Fisher, que não dispunha de
colaboradores para investigações maiores, tiveram temas de natureza sociológico-educacional
como: a estatística juvenil e escolar, baseadas no planejamento escolar; investigações
referentes ao comportamento na escola e fora dela; e pesquisas que discutiam o centro de
interesse, iniciativas dos alunos, tipologias da ductilidade e o problema do controle de efeito
de medidas escolares e político-culturais. Flitner (1968) destaca que a ductilidade começou a
permear as discussões sobre juventude, sendo que se compreende esse termo como a
capacidade de dobrar-se sem se quebrar, a capacidade de flexibilidade e plástica de algo.
A terceira parte do artigo de Flitner (1968) compreende pesquisas entre as guerras
mundiais com a) o estudo do desenvolvimento espiritual da juventude e b) o estudo do meio e
do comportamento sociais. Quando o autor trata do estudo do desenvolvimento espiritual da
juventude, o mesmo apresenta testemunhas próprias, declarações provocadas, interpretações
gerais sobre a maturação, a psicologia da juventude de Eduard Spranger e algumas
informações sociológicas. O segundo estudo sobre o meio e do comportamento sociais
engloba a juventude operária, campesina, as formas sociais da vida juvenil, a transformação
histórica dos fenômenos, a forma epocal da juventude e o término do movimento juvenil.
Nesse período surgiu a disciplina intitulada “psicologia histórica” ou “epocal”
para se ocupar dos jovens egressos de guerra e aqueles que viveram sua juventude nos anos de
fome. A pesquisa sobre juventude assume então seu caráter psicológico com coletas e
avaliação de documentos contendo testemunhos pessoais de jovens. Para Flitner (1968), a
obra de Spranger é clássica, pois procura compreender a juventude e os problemas dessa
juventude ameaçada. Os procedimentos de Spranger foram desenvolvidos a partir da
hermenêutica, visando compreender a psique do jovem e seus mecanismos para conceber
relacionamentos psíquicos de maneira sensata.
No período entre guerras há outras pesquisas e investigações destacadas por
Flitner. Os estudos e descrições de Charlotte Beuhler buscaram comparar os diários de três
gerações de mulheres. Hoffmann considerou a maturação social e sexual dos jovens. Houve
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ainda diversas composições escolares que foram a base, segundo Flitner (1968), de
autocontemplações,
auto-declarações,
auto-depoimentos,
autocaracterizações
e
autoconsciência juvenis.
A partir dos anos pós-guerra surgiram, segundo esse autor, as bases e as premissas
para uma pesquisa social mais ampla sobre a juventude, com a colocação sociológica do
problema juvenil. A juventude a partir de então, não será considerada apenas o reflexo da
situação histórico-social, mas será cuidadosamente, segundo Flitner (1968) caracterizada por
sua ductilidade.
OS REBELDES SEM CAUSA
Lapassade (1968) analisa o problema da marginalidade juvenil a partir de uma
nova análise do conceito de “crise”. Distingue a crise da puberdade (fisiológica) da crise da
adolescência (psicológica e individual). Chega ao conceito sociológico de crise da juventude
como quem vê um exemplo na “rebelião sem causa” dos jovens na Suécia. Sublinha que essa
revolta era um fato de multidão silenciosa e não de uma minoria. Isso não se poderia explicar
nem pela crise da puberdade, nem pela crise da adolescência. Essa multidão silenciosa assume
características destruidoras. Não havia um programa ou expressão ideológica e não havia
intenção de mudança, por isso não era revolucionária.
Para Lapassade (1968), essa foi uma reação radical e total a um sistema social,
que, nesse gesto coletivo, era marginalizado. E justamente esse niilismo refletiu-se o mal-estar
de uma juventude, inserida em uma sociedade que mantém um sistema conformista, que se
baseia em valores por vezes ilusórios, sociedade que prepara adultos capazes de humanizar tal
sistema e de se integrar nele passivamente.
Para recolocar a discussão sobre a temática juventude no contexto em que vivia,
Lapassade apresenta o jovem na perspectiva da inadaptação à vida coletiva e às condições de
existência na vida adulta ampliando o sentido e significado da ação dos jovens na sociedade.
Para pautar este olhar, até então diagnosticado apenas por estudos e relatórios como “rebeldes
sem causa” que apresentam sintomas de grupos informais a margem da sociedade, condutas
agressivas que chamam atenção do público e que estão literalmente fora da ordem social
estabelecida, o autor debruça-se sobre: a) relatórios produzidos pelo BIT (Bureau
International Du Travail) que se reportam à delinquência juvenil em todas as classes sociais,
as influências das condições de trabalho e atitude diante do trabalho; b) descrição do
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diagnóstico de psicólogos que apontam ser esses sintomas o “mal da juventude” que acontece
na fase de crescimento estando intimamente relacionado à dificuldade de entrar na vida
adulta; c) diagnóstico encontrado pelos sociólogos da juventude para os sintomas de revolta
do jovem operário que ocorre contra a autoridade patronal.
Segundo o diretor Dr. Morse (BIT) tanto na sociedade industrializada, quanto na
sociedade não desenvolvida há uma minoria de jovens com sintomas de ruptura com a
sociedade instituída, porque em ambas é possível identificar grupos informais marginalizados
que querem romper com a relação juventude e sociedade:
“Como acontece, por exemplo, que se verifique num país altamente desenvolvido,
cujos cidadãos em sua totalidade tem um nível de vida relativamente elevado,...
onde a população é homogênea, cheia de tradições e de estruturas sociais estáveis e
hostil à violência – como acontece que se encontre, em tal país, os mesmos
sintomas de ruptura entre a juventude e a sociedade, que se conhece num país de
condições diametralmente opostas e onde se poderia esperar ver a manifestação
desses sintomas?” (LAPASSADE, 1968, p.114)
Os sintomas de ruptura de grupos juvenis com a sociedade podem ser observados
pelas condutas agressivas e pela existência de grupos à margem da sociedade. Esses sintomas
acontecem em sociedades desenvolvidas, industrializadas ou não. As sociedades
industrializadas, segundo Dr. Morse em seu relatório ao BIT, são aquelas em que há uma
homogeneidade, com tradições, estruturas sociais estáveis, atitudes hostis à violência e um
nível de vida elevado. As sociedades não-industrializadas seriam então heterogêneas, com
frágeis tradições ou sem as mesmas estruturas sociais instáveis, permissivas à violência e sem
um nível de vida adequado.
O relatório produzido pelo BIT diagnostica que não há uma relação direta entre
pobreza e delinquência e que uma das possíveis causas desta delinquência poderia ser as
perturbações que o progresso traz ao jovem, já que os jovens em pleno emprego e instrução
também são suscetíveis a tais perturbações:
não é possível atribuir pura e simplesmente a delinquência juvenil à pobreza... certos
progressos materiais recentes parecem acompanhar-se de perturbações sociais que
afetam a juventude mais que qualquer outro setor da sociedade”... a atitude dos
jovens reflete a dos adultos...certa indiferença dos jovens diante do trabalho não é
senão o reflexo da nossa própria atitude do trabalho (LAPASSADE, 1968, p.114)
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Mas esse relatório fica apenas nas inferências, sem pautar um estudo de fato sobre
o fenômeno ou escuta ao jovem sobre as possibilidades de contribuir para a sociedade. Tal
relatório parte do princípio de que na classe abastada com toda uma tradição cultural e bem
estar não deveria haver grupos à margem, que discordam da ordem instituída, ou seja, o
problema não é a subversão da juventude. Há jovens que supostamente, não poderia estar
marginalizados, revoltados, como forma de recusa ao conjunto do sistema social, já que suas
necessidades culturais e sociais estão supridas.
Em seguida Lapassade esboça conceitos em que a psicologia se ancora a
psicologia para explicar esse o mal da juventude. Há duas possíveis explicações: uma que
seria o trabalho da puberdade e a outra a crise da adolescência. Este último mais do que as
explicações da psicanálise, constitui-se em um fenômeno de ordem psicossocial, em que as
mudanças articulam ao contexto.
Lapassade traz ainda evidências sobre a revolta adolescente, pois considera que
existe no operário jovem de modo diferente que acontece no jovem burguês, uma vez que
aquele se revolta contra a autoridade patronal e este último contra a família. O jovem operário
sofre influência das condições de trabalho, em que a presença do adulto é muito intensa e,
pressionado ele desenvolve a revolta interna, portanto, ele não se revela. Diferentemente do
jovem burguês, o jovem moderno se organiza e evidencia seu modo de sentir e viver a
sociedade no ambiente de trabalho.
Esse autor então discute se a crise da juventude é uma característica da sociedade
moderna em oposição à ordem social construída. Todavia,
as variações na estrutura das situações psico-sociais se encontram ao nível de
variações, marcando as manifestações da crise, sem, todavia, por em questão a sua
existência mesma... a crise serviria de pretexto para a revolta... o que era apenas uma
perturbação momentânea da adaptação se torna uma revolta generalizada contra
todas as formas de existência social; o desvio mudou de sentido e diversificou-se. O
conflito entre os jovens e a sociedade não tem em todo lugar o mesmo significado.
(LAPASSADE, 1968, p. 117)
As manifestações da “crise da juventude” são um fenômeno social em suas
manifestações, significações e consequências, portanto tem caráter destruidor da ordem
estabelecida porque ela se institui em um mundo que não significa a vida para o jovem.
Enfim, a contestação dos jovens à sua maneira na sociedade moderna se dá porque lhe é
exigido enquadramento ao mundo adulto e eles não aceitam ser subjugados para construir
realidades amorfas em que terão que viver.
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Os progressos materiais podem gerar perturbações sociais e os jovens são
vulneráveis a isso. Mesmo o jovem que possui instrução e trabalho pode se rebelar e recusar o
sistema social como um todo. Enquanto o adulto aceita tal sistema, o jovem o questiona,
questiona suas condições de trabalho e inclusive sua atitude em relação ao trabalho. Então,
como compreender o termo delinquência juvenil? Quem é o jovem delinquente? Esse jovem é
rico, pobre, tem trabalho ou não, muitos são instruídos outros não. Esse enquadramento do
jovem chegou ao extremo em que transviados foram confundidos muitas vezes com
delinquentes. Quem era o transviado nos anos 1960? Os hippies, talvez? Bastava ser diferente,
incomum, singular para ser estereotipado como delinquente.
O termo mal da juventude pelo viés psicológico foi compreendido como uma
perturbação passageira, uma crise de crescimento ligada à impossibilidade temporária de
encarar uma situação contraditória, que ocorre entre as gerações. Pelo olhar do adulto, essa
crise é um problema técnico cuja resolução seria objetiva e racional. Assim, a crise juvenil,
inclusive na visão dos psicólogos, pode ser solucionada objetivamente. Acreditamos que não,
pois a resolução passa pela análise de muitos fatores que não apenas de uma questão técnica,
ou seja, não é pelo fato de o jovem atingir uma idade tal e não ser considerado mais um jovem
que seus dilemas estarão solucionados.
Para Lapassade os revoltados sem causa não são revolucionários nem
delinquentes. Na visão dos sociólogos da juventude há duas crises: crise de jovem burguês e
crise de jovem operário. Para se compreender essa crise é preciso verificar que existe mesmo
um mal estar. O autor concorda que esse mal da juventude não atinge apenas uma minoria de
jovem. A singularidade deve ser vista. Há uma crise da adolescência e uma crise da
juventude. Segundo esse autor existe o mal da juventude. Algumas precauções precisam ser
tomadas no processo de compreensão de tal mal: a) evitar afirmar que essa mal atinge uma
minoria, que é algo isolado ou restrito a alguns jovens apenas; b) questionar o objetivo das
teses sobre comportamentos que proclamam uma verdade imutável sobre os comportamentos
juvenis.
AS TRADIÇÕES OCULTAS DA JUVENTUDE
Para Matza (1968) alguns jovens da sociedade americana escolhem viver em
grupos marginalizados, na medida em que se deixar influenciar por “tradições ocultas”. O
autor apresenta a delinquência como transmitida por meio de uma tradição oral. Desaparece
uma visão construtiva do futuro com base na perseverança e no trabalho, o que justificaria a
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agressão. São as escolas secundárias que refletem essa tradição. Já nos meios universitários
há, segundo esse autor, uma visão mais apocalíptica, com uma mistura de cinismo em relação
ao estado atual da sociedade. Surge o populismo e o evangelismo. Entre uma atitude de
retração e outra radical, a boêmia. O autor propõe comportamentos mais convencionais a fim
de recuperar esses jovens oriundos dessas três tradições citadas.
O artigo de David Matza foi publicado na década de 1960, mas remonta há uma
ideia um tanto funcionalista da sociedade, abordagem vinculada ao pensamento de uma
interpretação da sociologia de um período anterior.
Segundo Matza há uma tradição oculta que é tradição denunciada publicamente.
Versões dessas tradições são adotadas por uma pequena proporção da população jovem. Em
terceiro lugar essas tradições são conhecidas e toleradas por grande parte da população adulta.
Em quarto lugar, as versões convencionais dessas tradições são vividas por uma porção
considerável da população jovem. E em quinto lugar, essas tradições são vistas sobre o prisma
de ambivalência.
O autor explicita as semelhanças e diferenças quanto às tradições ocultas da
juventude. Descreve o aspecto característico do espírito da delinquência, que é o culto da
proeza. Destaca também o radicalismo estudantil, a boêmia, suas essências e substâncias.
Interpreta o romantismo como o primeiro e maior componente da boêmia. A autenticidade
expressiva e os estados de espírito da boêmia expressam a característica de intensa
instabilidade de humor do jovem, seu estado emocional que não é controlado nem refreado.
Quanto à integração da juventude rebelde na sociedade convencional parece algo
impossível para esse autor. Apresenta nesse artigo algumas teorias referentes à
vulnerabilidade da juventude frente à rebelião e as bases em que as teorias provavelmente se
apóiam. O mesmo se ocupa em descrever em seu texto as formas de revolta da juventude,
buscando subsidiar o leitor com as teorias que possivelmente oferecem explicações sobre a
natureza rebelde da juventude. O jovem é pressionado a incorporar os valores do adulto, que é
regido pelo sistema em um realismo fundante para os desdobramentos de uma mesma ordem
social. Assim o jovem vive em uma realidade em que ele não participa da construção da
sociedade que o contexto histórico traduz, permanecendo indiferente à mesma.
Matza (1968) evidencia que não é toda a juventude que é atingida pela revolta
rebelde e afirma ser. Embora o autor pontue sobre pesquisas empíricas que sustentam esses
indicadores, não apresenta maiores esclarecimentos sobre qual base tais pesquisas sustentam o
consenso de que a maior parte da juventude americana se comporta de maneira tradicional,
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uma vez que os mesmos participam das tradições convencionais e das tradições
marginalizadas da juventude. Postula que os idos de prosperidade contêm em si uma
tendência a dirimir a atividade radical jovem.
Algumas questões são relevantes em relação ao tema juventude: o radicalismo, a
delinquência e a boêmia. O adulto é também protagonista da boemia e do radicalismo
próprios de uma faixa etária jovem, mas que podem perdurar na fase adulta. São jovens com
formação, escolha ideológica, com consciência de seus valores e intelectualidade.
Matza (1968) se mantém na postura de descrever as formas de revolta, sem
adentrar os indicativos de suas causas em um contexto histórico. Fica evidente um esforço de
procurar uma solução ou respostas externas para a rebeldia. Assim nos apresenta o conteúdo,
o essencial e o substancial de cada tipo de revolta nas tradições ocultas. E, esclarece que o
sentido de marginalismo acontece de modo coletivo. Ou seja, os sujeitos envolvidos nas
revoltas ocultas recebem apoio de seu grupo que se consolida em uma realidade excludente
em redutos particulares, mas dentro de uma ordem social inversa. Desse modo os jovens em
menor quantidade convivem dialética e paralelamente com a tradição convencional, que
sublima sua existência ora por conveniência, seja
como simpatizantes ora com radical
desaprovação.
Matza (1968) apresenta características específicas de cada revolta, como também
elenca suas semelhanças. Assim a delinquência, cultua a proeza na busca da excitação
constante. Esses revoltosos buscam altas emoções e sensações valorizadas na medida em que
o perigo e o desafio são grandes. São movidos pelo espírito da aventura e por um código de
demonstração de ousadia em, por exemplo, desrespeito às leis, pois “O delinquente, ao
cortejar o perigo físico, fazendo o que é proibido e desafiando as autoridades, não está
simplesmente se arriscando; está criando os riscos, numa tentativa de produzir excitação”. (p.
90). Os delinquentes buscam grandes estímulos para detonar novas e prazerosas emoções.
Esse tipo de revolta se manifesta majoritariamente nos estudantes secundários, que não tem
muita consciência de seus valores e não estão preocupados em mudar a sociedade que para
eles obtenham vantagens e recompensas materiais de modo rápido e privilegiado.
De outra parte Matza (1968) descreve o jovem estudante americano radical com
uma visão apocalíptica porque acredita que o mundo tal qual como se encontra poderá ser
substituído por outro puro e melhor. Acresce-se a esta ideia o sentido de populismo que
atribui ao povo um valor superior, variando os gêneros em foco. Este jovem desenvolve
também o espírito evangelista no sentido de recrutar novos simpatizantes adeptos e membros.
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São capazes de argumentar, intimidar, persuadir e seduzir. Finalmente, Matza (1968) descreve
o jovem americano boêmio que emerge logo após a guerra e que são influenciados pelo café
existencialista francês. São românticos com alta autenticidade exaltando a espontaneidade na
manifestação artística. A juventude americana boêmia, busca a experiência pessoal nãoconvencional, por fim buscam a transcendência.
Matza (1968) apresenta sugestões para a superação e prevenção da revolta rebelde
ao incorporar tradições ocultas. Sinaliza que o quantitativo de jovens que se envolvem é
limitado e que depois desse período se reintegram à sociedade. Assim para uma integração da
juventude a versão de delinquência é nomeada de cultura adolescente, para o radicalismo o
rebelde que pratica o bem e para o sentido de boemia, não se pode ter uma versão
convencional, é preciso autenticidade, pois imitadores não são boêmios.
Tal como o texto de “Rebeldes sem causa” de Lapassade (1968), Matza (1968) se
limita a apontar como a rebeldia dos jovens foi se constituindo ocultamente em movimentos
(radicalismo, boemia, delinquência) como tradição oculta. A rebeldia é cultivada de modo
oculto marginal. Prevalece assim o racionalismo dos adultos mediante um jovem que segundo
esse autor, não se integra às rápidas mudanças. Embora diferentes em seu conteúdo e situação,
a delinquência, o radicalismo e a boemia têm em comum o espírito da rebeldia e
impetuosidade que parecem consistentes com os tipos de tensão atribuídos à juventude.
A JUVENTUDE NA SOCIEDADE MODERNA POR MANNHEIM
O artigo de Mannheim intitulado “O problema da juventude na sociedade
moderna” foi publicado primeiramente no livro Diagnóstico de nosso tempo nos anos de
1950. Seus escritos surgiram como conferências ou como anotações para grupos que
desejavam saber o que o mesmo tinha a dizer a respeito de certos aspectos da situação do
momento, tempos de guerra. É o caso desse artigo, proposto para a terceira semana de aula de
seu autor, abril de 1941, na abertura do Congresso de Bolsistas da Educação Nova, em Oxford
e também a partir de uma conferência realizada em maio desse mesmo ano, no Congresso de
Líderes Juvenis, organizado pelo Board of Education. Na coleção Sociologia da Juventude I,
no término do artigo de Mannheim há também sugestões de leituras complementares.
Nos escritos de Karl Mannheim, a juventude assume papel importante na
construção de uma democracia pautada na participação. Dessa forma a juventude é vista por
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esse sociólogo como uma força social. O que de certa forma rompe com as visões até então
sustentadas de que as revoltas juvenis seriam anormalidades: “a mocidade pertence aos
recursos latentes de que toda a sociedade dispõe e de cuja mobilização depende de sua
vitalidade” (MANNHEIM, 1961, p, 38).
Karl Mannheim inicia seu texto questionando: O que a juventude nos pode dar?
O que a juventude pode esperar de nós? Qual o significado da juventude na sociedade? d)
Com que pode a juventude contribuir para a vida em sociedade? e) Será sempre o mesmo o
sentido da juventude na sociedade? Essa abordagem sociológica inova na medida em que está
interessada em compreender a natureza e o contexto da sociedade em que a juventude se
encontra e como ela pode oferecer contribuições à mesma. Ou seja, não busca diagnósticos
habituais, que não confrontam o fenômeno identificado em sua essência contextual e
histórica. Inova quando compreende o processo de reciprocidade na relação sociedade e
juventude. Assim as necessidades da juventude estão articuladas com as necessidades e
finalidades da sociedade em que se vive.
O olhar sociológico de Mannheim é inovador em relação ao modelo de educação
liberal oferecido às crianças e jovens na sociedade moderna, pautada somente em seus direitos
e necessidades sem diálogo com a sociedade. Mais do que reconhecer os direitos e
necessidades legítimas e fundamentais de crianças e jovens estabelecem relações e diálogos
com a realidade e os contextos vividos pelos mesmos.
Segundo Mannheim (1961), a educação não proporciona até então às crianças e
jovens condições reais de adequação e diálogo com sua realidade enquanto sujeitos sociais
inseridos na mesma. Um dos resultados é o desequilíbrio entre indivíduo e sociedade. Se na
escola crianças e jovens tinham direitos e necessidades garantidos sem outras obrigações, no
contexto social da vida, há limites e barreiras. Assim, a escola liberal manteve-se
desarticulada em sua prática social da realidade em que os educandos viviam.
Mas qual o significado da juventude na sociedade moderna e como ele pode
contribuir para a vida da mesma segundo esse autor? Mannheim (1961) apresenta dois tipos
de sociedade e a relação estabelecida com os jovens. A sociedade estática em que os jovens
são reservas latentes e não gozam de prestígio algum. Nesta ordem o prestigio é dado aos
mais velhos ficando os jovens, em sua força revitalizante, sem nenhum espaço e poder de
participação porque acreditam que os mais experientes podem tomar decisões. Aos jovens são
ensinados, portanto, a tradição com métodos tradicionais objetivando a transmissão, a
repetição e a obediência.
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Outro tipo de sociedade, denominadas dinâmicas; a cooperação da mocidade é
importante na busca de saída. A juventude é intermediária no processo de buscas de saídas
seja para uma perspectiva reformista, seja ela revolucionária. Para deixar de serem reservas
latentes numa perspectiva transformadora é preciso que haja de fato um movimento
integrador para que as ações tenham uma função produtiva.
Desse ponto de vista, pensar a integração da juventude à sociedade em uma
perspectiva de integração significa especificar o processo formativo na adolescência que
mobilizados e integrados poderia ajudar a sociedade na busca de uma nova saída. Como
sujeitos ainda não enquadrados completamente na ordem social, seu espírito de aventura,
sinaliza que a juventude enxerga os conflitos com o olhar de fora e isso faz desse juventude o
precursor de mudanças.
Conforme esse autor as potencialidades da juventude se desenvolvem em uma
sociedade na medida em que as oportunidades surgem. Sejam aquelas para a transformação
sejam para a opressão. É fundamental que o adolescente enquanto sujeito em potencialidades
construtivas contribua com a sociedade, não aceite como natural a ordem consagrada,
mantendo-se aberto para as questões tanto de ordem econômica como religiosa.
Mannheim (1961) argumenta que nesse período a juventude da Inglaterra se
encontrava em uma sociedade com sintomas de uma sociedade estática, pois havia a
existência de um sistema educacional tradicional. E mesmo em tempo de guerra, como no
futuro a Inglaterra lançaria mão do potencial latente da sua mocidade. Se a guerra é no campo
das ideias serão necessárias ideias construtivas para ganhá-la, na medida em que transforma o
sistema social e político existente e o conduza a uma forma democrática:
[...] ao fazer adaptações necessárias as exigência da guerra, nem sempre se dá conta
de que frequentemente elas também encerram os princípios de adaptação às
exigências de uma Nova Era. Todos nós sabemos que a esta altura que desta guerra
não se poderá regressar a uma organização da sociedade baseada no laissez-faire, e
que esta guerra está causando uma revolução silenciosa pelo fato de preparar o
caminho para um novo tipo de organização planificada”. (MANNHEIM, 1961, p.
44)
Qual o papel da escola para a construção de uma nova ordem social e outra vida?
O que a juventude pode nos dar? Segundo Mannheim:
[...] ela é um dos mais importantes recursos espirituais latentes para a revitalização
de nossa sociedade. Ela tem de torna-se a força desbravadora de uma democracia
militante [...] Essa orientação integral sobre a juventude, esta claro, não se limitará
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DAMASCO, Denise Gisele de Britto; COUTO, Fausta Porto e SILVA, Halline Mariana S. Os rebeldes
sem causa: problemas sociológicos nas primeiras pesquisas sobre a juventude. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 105-121.
Set.2010/Dez. 2010.
fomentar um movimento juvenil de âmbito nacional; também afetará todo o nosso
sistema educacional, já que este terá que ajudar a educar uma geração inteira para
tarefas inteiramente novas”. (MANNHEIM, 1961, p.54-55)
Mannheim (1961) aponta que a juventude tem uma contribuição a oferecer a
sociedade. Compreende a juventude, como motor das mudanças, o que viria de certa forma
ser confirmado com o Maio de 1968. Suas reflexões situam o jovem como sujeito concreto
em um contexto histórico e social. O autor pondera sobre o fato e o perigo de se ver nos
jovens somente sujeitos de direitos. Defende a ideia de que deva haver um equilíbrio entre o
indivíduo e a sociedade. Nesse texto o autor aponta uma relação entre a juventude e mudança.
Estabelece uma analogia entre os jovens como recursos latentes e os órgãos do corpo.
Para pensar sobre essas indagações Mannheim aponta que é preciso reconhecer
que a mocidade também deve estar na esfera publica. Assim sendo, a juventude é uma
potencialidade. Uma sociedade dinâmica deve então liberar a efervescência espontânea que se
manifesta em todo lugar, encorajar a juventude em uma integração, dando ao jovem uma
oportunidade para se tornarem auxiliares de um movimento global que aja no momento
presente e na reconstrução social.
E AS PESQUISAS CONTINUAM
Um primeiro balanço sobre pesquisas com o tema Juventude na pós-graduação
educacional do Brasil foi realizado por Spósito, O Estado da Arte sobre juventude na pósgraduação brasileira e equipe de pesquisadores, verificando a produção científica entre 1980
e 1998. Um segundo Estado da Arte dessa produção científica foi realizado pela mesma
pesquisadora a partir de dados recolhidos no Portal da Capes, entre 1999 e 2006. Foram 1427
teses e dissertações levantadas, sendo que apenas 134 trabalhos não puderam ser lidos ou
analisados. Houve um acesso ao conteúdo total dos 1390 trabalhos restantes. Esse material é
proveniente das disciplinas de Ciências Humanas, Educação, Ciências Sociais e Serviço
Social.
Para Spósito (2009) as pesquisas sobre os jovens surgem como parte integrante de
políticas públicas, inseridos na problemática da questão social e do aumento da violência no
país. Admite que os jovens sejam também atores capazes de ação e de interlocução política.
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DAMASCO, Denise Gisele de Britto; COUTO, Fausta Porto e SILVA, Halline Mariana S. Os rebeldes
sem causa: problemas sociológicos nas primeiras pesquisas sobre a juventude. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 105-121.
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Compreende que as escolas sofrem do impacto da mudança que alteraram as relações entre
adultos e jovens, sendo que alguns autores tratam desse fato como uma desregularização das
etapas e sua consequente descronologização. Nesse debate, segunda a autora surge uma
instigante pergunta. Quando se começa e se termina a juventude? Atualmente segundo a
Organização Mundial da Saúde estima-se que a juventude seja uma etapa da vida que
acontece entre os 14 e 24 anos. Embora essa definição etária já seja fortemente questionada,
ela continua ainda predominante, especialmente nos dados oficiais. Análises sociológicas
desde Mannheim e seguidores consideram-se que a categoria juventude engloba o momento
do ciclo da vida constituído a partir de matrizes sócio-culturais, não tendo sentido o
determinante etário como marcador. Os jovens delimitam a categoria empírica que se
encontra em todas as formações sociais.
Estudos sobre jovens começaram a ser retomados e reafirmados nas Ciências
Sociais e na Educação a partir dos anos de 1990. O congresso Juventude Brasileira - JUBRA
tem reunido pesquisadores, alunos, técnicos, educadores voltados para o tema da juventude e
fortalecido o debate entre pesquisadores. Destaca-se o III JUBRA, realizado em Goiânia, no
ano de 2008. Isla (2008) apresenta as abordagens clássicas sobre juventude e inicia seu texto a
partir de três vertentes sobre a concepção moderna de juventude: a) uma vertente pedagógica,
b) uma vertente psicológica e c) uma vertente social. Isla (2008) enumera o desenvolvimento
específico dos estudos sobre a juventude, o interesse antropológico, a Escola de Chicago, o
debate sociológico original com a corrente geracional e a teoria das gerações. Apresenta
ainda, o enfoque funcionalista, a corrente classista, a ala crítica norte-americana, a
contribuição cultural americana, bem como a perspectiva francesa, entre a complexidade e a
construtividade. Acrescenta esse autor, que a partir da década de setenta, certos autores foram
intitulados juvenólogos, pois estudaram temas juvenis.
O Estado da Arte, sobre juventude, organizado por Spósito (2009) revela que a
categoria juventude não pode ser única, pois se tal estudo for homogêneo nenhum conjunto
social se limita ao critério fechado. Um elemento pouco explorado nas pesquisas é o
entendimento da categoria juventude a partir de um ponto de vista relacional. Um eixo
importante pode ser considerado a análise das relações entre gerações, com contribuições
iniciadas por Mannhein. Tais contribuições foram pouco exploradas e houve pouca
repercussão no Brasil.
A partir desse levantamento sobre as pesquisas sobre juventude entre 1999 e 2006
não se questiona mais se esse campo existe e sim quais são os desafios da estruturação desse
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DAMASCO, Denise Gisele de Britto; COUTO, Fausta Porto e SILVA, Halline Mariana S. Os rebeldes
sem causa: problemas sociológicos nas primeiras pesquisas sobre a juventude. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 105-121.
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campo de conhecimento, não apenas a emergência. Assim, atualmente reconhece-se a
juventude como uma categoria analítica. O termo adolescente que em décadas anteriores
restringiu-se à Psicologia surge também em diplomas jurídicos. Nesse período surge no
diploma legal intitulado Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA.
Há autores que tratam da adolescência apenas como a fase primeira da juventude,
sendo apenas um ciclo de vida. As análises sobre o Estado da arte das pesquisas sobre
juventude constatou que trabalhos sobre juventude muitas vezes dialogam pouco entre si,
havendo um diálogo horizontal, e uma atitude muitas vezes passiva de orientadores na
definição de interesses de pesquisa. Resta-nos o desafio de preencher as lacunas no campo da
pesquisa juvenil, reelaborar confirmando o tema juventude como categoria acadêmica
fundamental para as análises.
Acreditamos que postas esta problematização, a construção de novos itinerários
na pesquisa acerca da juventude possa ponderar, sobretudo o sentido e o significado que a
sociedade contemporânea atribui ao ser jovem. Entendemos que os espaços de atuação da
mesma sejam searas de efetiva colaboração para uma sociedade viva e dinâmica em sua
essência de ser e viver. Enquadrar o jovem ao mundo dos adultos e suas demandas de
estabilidade a uma dada ordem social, não é suficiente para compreender plenamente esse
jovem. Então, podemos continuar nos guiando ainda por algumas perguntas: o que o jovem
pode oferecer à sociedade, o que a sociedade oferece ao jovem? Como construir
coletivamente uma prática social em que a juventude enquanto fenômeno social possa de fato
se inserir na sociedade em que ele se desenvolve e atuará? É neste sentido que propomos o
presente artigo.
REFERÊNCIAS
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BRITTO, Sulamita (Org.) Sociologia da Juventude. Rio de Janeiro: Zahar, 1968, v. I, p. 37-67.
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contemporaneidade: desafios e perspectivas. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos;
Goiânia: Editora UFG: Cânone Editorial, 2009.
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Juventude. Rio de Janeiro: Zahar, 1968, v. III p. 113-123
LOCKE, John. Quelques pensées sur l’éducation. Paris : Livrairie Philosophique J. Vrin, 2007.
MANNHEIM, Karl. O problema da juventude na sociedade moderna. In: ___. Diagnóstico do nosso
tempo. Rio de Janeiro: Zahar, 1961, p. 36-61.
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DAMASCO, Denise Gisele de Britto; COUTO, Fausta Porto e SILVA, Halline Mariana S. Os rebeldes
sem causa: problemas sociológicos nas primeiras pesquisas sobre a juventude. Estácio de Sá – Ciências
Humanas. Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 105-121.
Set.2010/Dez. 2010.
MATZA, David. As tradições ocultas da juventude, In: BRITTO, Sulamita (Org.) Sociologia da
Juventude. Rio de Janeiro: Zahar, 1968, v. III, p. 81-106
SPOSITO, Marília P. O Estado da arte sobre juventude na pós-graduação brasileira: Educação,
Ciências Sociais e Serviço Social (1999-2006). 1, Ed. Belo Horizonte: Argumentum, 2009 [v. 1+2].
Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 04, 122 – 133. Set. 2010/Dez. 2010.
A PERCEPÇÃO GEOGRÁFICA DA PAISAGEM EM MORTE E VIDA SEVERINA
DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO
José Elias Pinheiro Neto
Maria Imaculada Cavalcante 
Resumo:
Abstract:
Este trabalho descreve numa visão geográfica
aspectos da percepção da paisagem no poema Morte
e Vida Severina, escrito por João Cabral de Melo
Neto. Uma saga que mostra a saída do homem
nordestino do sertão, interior do país, para a zona da
mata, lugar em que tenta buscar a sobrevivência e a
tranquilidade úmida do trabalho. Nesta viagem se
depara com a paisagem física que caracteriza a
localidade e a paisagem subjetiva que é entendida
através de sua experiência de vida.
This paper describes in a geographical vision
aspects of the perception of the landscape in the
poem Morte e Vida Severina written by João
Cabral de Melo Neto. The trip shows the
Northeastern man's hinterland exit, interior of the
country, for the area of the forest place where it
tries to look for the survival and the humid
peacefulness of the work. In this trip he comes
across the physical landscape that characterizes
the place and the subjective landscape it is
understood through his experience life
experience.
Palavras-chave:
Key-words:
Paisagem. Literatura. Geografia.
Landscape. Literature. Geography.
INTRODUÇÃO
A paisagem é um termo utilizado pelos geógrafos para, principalmente, tentar
entender o espaço. Ela aparece com diferentes conceitos que convergem numa perspectiva de
entrelaçamento entre o homem e as imagens formadoras do ambiente. Pode ser percebida e
entendida intrinsecamente de maneira a levar os visualizadores aos mais nostálgicos dias de
sua experiência vivida, uma vez que, existe uma relação muito forte entre a imagem e a
experiência de vida de quem decifra o que vê.
A história, que envolve toda sua trajetória de vida, é que constrói e seleciona no
homem cada forma em que ele vislumbra e entende a imagem a ser decodificada. Aí estão
entrelaçados os símbolos, percepções, as atitudes os pensamentos que nunca serão iguais nem
mesmo para dois residentes no mesmo local. Cada ser humano sente o mundo de uma forma.

Mestrando em Geografia – Trabalho e Movimentos sociais - CAC/UFG. Pesquisador do NEPSA (Núcleo de
Estudos e Pesquisas Socioambientais). [email protected]

Professora Doutora do Curso de Letras e do Mestrado em Geografia – CAC/UFG. Pesquisadora do NEPSA
(Núcleo de Estudos e Pesquisas Socioambientais). [email protected]
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PINHEIRO NETO, José Elias e CAVALCANTE, Maria Imaculada. A percepção geográfica da paisagem
em Morte e vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 122-133. Set.2010/Dez. 2010.
Este texto mostra o sentimento que Severino, um viajante nordestino, tem em
relação ao seu lugar. Ele sai do agreste para chegar à capital do estado de Pernambuco em
busca de sobrevivência, tanto de melhoria quanto esticá-la um pouco mais na maciez de terra
úmida.
No poema Morte e Vida Severina, escrito por João Cabral de Melo Neto e
publicado no ano de 1956 pela primeira vez, o autor apresenta de forma dramática uma
literatura recheada de aspectos geográficos. Fisicamente descreve a vegetação, a hidrografia e
o solo da paisagem nordestina brasileira e continua com a subjetividade do que pensa
Severino, um substantivo que se torna adjetivo para caracterizar todos os viventes que saem
em luta pela sobrevivência, em relação ao que ele vê. Assim, mostraremos a percepção do
sertanejo da seca brasileira de forma a entender e sentir a paisagem geográfica.
2 JOÃO CABRAL DE MELO NETO
O professor Oliveira (1994) descreve a trajetória intelectual vivida por João
Cabral de Melo Neto. Ele nasceu na cidade do Recife, Estado do Pernambuco, no dia 09 de
janeiro de 1920, filho de Antônio Cabral de Melo e Carmem Carneiro-Leão Cabral de Melo.
Sua infância passou nos engenhos de açúcar das cidades de São Lourenço da Mata e Moreno.
Em 1940 participa de um Congresso de Poesia na capital pernambucana apresentando o texto
Considerações sobre o poeta dormindo.
Em 1942 publica seu primeiro livro intitulado Pedra do Sono; frequenta, então, os
Cafés “Amarelinho” e “Vermelhinho”, no centro do Rio de Janeiro, onde se reuniam os
intelectuais da época. A crítica afirma que Pedra do Sono já prenuncia a força da produção
poética de Cabral. Nessa obra “seu grande objetivo será a busca do “sol da saúde” através de
uma poesia clara, com tendências à objetivação do poema, num projeto de rigor, de
consciência, capaz de descobrir qualquer véu que obscureça o dizer poético”. (OLIVEIRA,
1994, p. 17). Seu primeiro livro vem aparecer em um momento em que a literatura dos
modernistas de 22 está consolidada. Nesse momento, o que importa é a diferença, a busca de
um estilo individual dentro do quadro nacional, composto por poetas de grande
expressividade como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima,
Cecília Meireles, dentre outros.
Em 1943 publica Os três mal-amados na Revista do Brasil. Para Costa Lima
(1995), a obra possui uma forte influência da poesia de Drummond, mesmo em prosa, ela
ensaia o seu desenvolvimento do verso, estabelecendo uma vigorosa atração pela organização
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PINHEIRO NETO, José Elias e CAVALCANTE, Maria Imaculada. A percepção geográfica da paisagem
em Morte e vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 122-133. Set.2010/Dez. 2010.
do concreto. Já O engenheiro (1945) representa um avanço na produção do poeta, é o
momento da maturidade estética. Participa de um concurso para a carreira diplomática, sendo
nomeado em dezembro de 1945. Casa-se com Stella Maria Barbosa de Oliveira. Mora na
Catalunha, na Espanha, trabalhando como vice-cônsul. Em 1947 publica Psicologia da
composição, uma obra equilibrada, com uma linguagem rigorosa, é a presença definitiva de
um estilo limpo e funcional. Em 1950, publica O cão sem plumas, já morando em Londres. A
obra é considerada, por críticos literários, uma das mais belas de Cabral.
Após algum tempo na Europa ele tem que voltar ao Brasil sob a acusação de
subversão. O processo é arquivado posteriormente; porém, ele só retorna à diplomacia por
ordem do Supremo Tribunal Federal. Nesse período escreve O rio. Oliveira (1994) nos
informa que para a elaboração dessa obra, Cabral fez pesquisas sobre a geografia do percurso
do rio Capibaribe, pois a voz do poema é expressa pelo rio. Segundo a crítica, a “técnica
usada é o inverso da “arte mayor” castelhana, uma espécie de técnica, ao contrário da
ladainha, onde os versos pares são variáveis e os ímpares iguais” (OLIVEIRA, 1994, p. 17).
Em 1956 publica, pela Editora José Olympio, Duas águas. A obra é uma junção
de Morte e vida severina, Paisagens com figuras e Uma faca só lâmina. Costa Lima (1995)
esclarece que o título Duas águas decorre de duas maneiras de se relacionar com os poemas,
parte deles são para serem lidos e parte para serem ouvidos, como é o caso de Morte e vida
severina, um „auto de natal‟ feito para ser encenado, portanto, melhor a condição de
espectador que de leitor. Paisagem com figuras é uma poesia em que a presença da Espanha é
marcante, e ainda, aparece também a capital Recife. Alias, essa relação Brasil e Espanha é
recorrente em outras obras do poeta. Uma faca só lâmina é para ser lido e pensado, ele
permite várias leituras pelo uso de imagens fortes como „bala, relógio e faca‟, tratando de
“uma mesma imagem, cuja tríplice nomeação resulta do esforço do criador em assegurar um
signo sempre mais próximo da sua intenção significativa” (COSTA LIMA, 1995, p. 290).
Volta para Barcelona como cônsul adjunto e com a missão de pesquisador. Em
1958 vai morar em Marselha depois retorna à cidade do Recife para receber o prêmio no
Festival de Teatro do Estudante. Em Madri publica dois livros: Quaderna e Dois
parlamentos, ambos em 1960. Quaderna foi dedicado a Murilo Mendes e essa dedicação é
uma forma de mostrar um certo envolvimento com o Surrealismo, através de um jogo de
linguagem bem elaborado e da utilização de metáforas insólitas, bem ao estilo de Murilo.
Dois parlamentos, composto por apenas dois poemas sobre Pernambuco, um fala sobre a zona
da seca e o outro sobre a zona da mata. O que surpreende nos poemas “é o humor negro que o
autor usa diante da miséria” (OLIVEIRA, 1994, p. 20).
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Cabral volta para Brasília, em 1961, e é nomeado chefe de gabinete do Ministro
da Agricultura, ficando pouco tempo, quando retorna para Madri. Tem publicado os ainda
inéditos no Brasil Quaderna e Dois parlamentos e o novo Serial, livro em que o poeta
demonstra uma preocupação com a estrutura, pois ele apresenta poemas organizados a partir
do numeral quatro. Todos os poemas possuem quatro partes e cada parte quatro versos.
Com o livro A educação pela pedra (1961) recebe o prêmio Jabuti. A estrutura do
livro segue a linha de Serial. Para além da temática, existe um arranjo meticulosamente
ordenado. E logo após, em 1967, morando em Barcelona e trabalhando como cônsul geral,
publica a primeira edição de Poesias completas e, no ano seguinte, é eleito para a Academia
Brasileira de Letras substituindo Assis de Chateaubriand, recebendo a cadeira de número seis.
Após a publicação de Antologia poesia crítica é agraciado com o título de Doutor Honoris
Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Em 1975 publica Museu de tudo, uma obra que reúne poemas soltos, fugindo ao
rigorismo dos livros publicados anteriormente. Em 1979 publica A escola das facas. E publica
um livro que foi escrito em Tegucigalpa intitulado Auto do frade (1982). Nesse auto o poeta
reivindica para frei Caneca o mérito pela instalação da República do Brasil. Em 1985, publica
os poemas de Agrestes e em 1986, recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade
Federal do Pernambuco. Nesse mesmo ano falece sua esposa. Então, João Cabral volta para
Portugal e casa-se com Marly de Oliveira.
Em 1987 publica um livro de poemas com o nome Crime na calle relator. A obra
é composta por poemas narrativos e “todos os fatos narrados são reais, contados por outrem
ou de que participou anos atrás” (OLIVEIRA, 1994, p. 23). Nesse ano volta ao Rio de Janeiro.
Em 1988, no Recife, lança Antologia poemas pernambucanos e o segundo volume de Poesias
completas: Museu de tudo e depois.
Em 1990 aposenta-se como embaixador e publica Sevilha andando “de modo
novo retoma temas antigos, porque Sevilha foi a cidade com que sempre se identificou, a
ponto de dizer que é preciso „sevilhar‟ o mundo” (OLIVEIRA, 1994, p. 23). Nesse ano entra
para a Academia Pernambucana de Letras e recebe vários prêmios literários.
Nessa época o autor revela que pararia de escrever, sofria de uma doença
degenerativa que não tinha cura e uma interminável dor de cabeça. Então entra em cena sua
esposa que reproduz alguns de seus textos, principalmente com o intuito de livrá-lo da
depressão. Dentre os principais prêmios recebidos destaca-se o “Luis de Camões”; esse é tido
como o mais importante concedido a escritores da Língua Portuguesa. Morre aos 79 anos de
idade, em 1999, um dos maiores poetas brasileiros, aquele que soube falar sabiamente da
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PINHEIRO NETO, José Elias e CAVALCANTE, Maria Imaculada. A percepção geográfica da paisagem
em Morte e vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
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morte ainda em tenra idade, principalmente da morte severina, retirante, bravamente
combatida por fortes homens.
3 A PERCEPÇÃO
A paisagem, atualmente, é estudada em diversas áreas de conhecimento, e,
principalmente na redescoberta da Geografia Cultural. Com esta evolução epistemológica,
agora, estamos prontos para analisá-la sem o conservadorismo e o aventureirismo inicial.
Desta forma, torna-se impossível falar sobre paisagem sem antes caracterizar a percepção. É
ela que nos define contextualmente o resultado paisagístico.
A análise inteligível da percepção está relacionada subjetivamente em cada
indivíduo. Esta sensibilidade está delimitada pelo filtro cultural e de forma intrínseca pela
vivência que cada pessoa tem do lugar em que se analisa. Partimos de uma sequência lógica a
partir da realidade que nos é dada. Antes de tudo, para entendermos a estrutura dos filtros
culturais e individuais mister se faz conceituar a paisagem, que é definida como “o domínio
do visível, aquilo que a vista abarca. Não sendo formada apenas de volumes, mas também de
cores, movimentos, odores, sons etc.” (SANTOS, 1988, p. 61). Contemporaneamente,
Bertrand (2007) analisa a paisagem como uma palavra viva, corriqueira; onde cada pessoa faz
o uso desejado, sendo monótono, romântico e até mesmo fora de moda. No uso social, a
paisagem se torna a palavra-chave da atual sociedade. Os discursos tecnocráticos, o
vocabulário científico juntamente com as mass media multiplicam as referências de uma
paisagem proteiforme, indeterminada e indeterminável. Temos então os termos paisagem e
paisagístico sendo utilizados como uma simples definição publicitária, onde o verde e o belo
são vendidos como qualidade de vida.
Numa visão simplista podemos indicar que a paisagem pode receber vários
significados, mas na ciência geográfica pode ser contextualizada como um conjunto de
estruturas naturais e sociais de um determinado lugar no qual desenvolvem uma intensa
interatividade seja entre os elementos naturais, entre as relações humanas, reais ou fictícias e
destes com a natureza.
Nós somos treinados a perceber as várias paisagens e a percepção dessa paisagem
se dá considerando cinco fatores: visão, audição, tato, olfato e paladar. Para „vermos‟ uma
paisagem são muitos os pontos abordados que caracterizam o processo fenomenológico que
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PINHEIRO NETO, José Elias e CAVALCANTE, Maria Imaculada. A percepção geográfica da paisagem
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induzem o homem para identificá-la. O filtro cultural individual demonstra que depende do
estado de quem vê. Seus olhos estão preparados para visualizar apenas aquilo que seu filtro
permite, para no final conceituarmos subjetivamente a paisagem. O professor Nunes nos
ensina uma noção conceitual de paisagem afirmando que
Em momentos assim, num barco ou numa praia, pela janela de um trem ou em uma
casa em um bairro qualquer, a paisagem está sempre atraindo nossa atenção. É como
se estivéssemos em um teatro, diante de uma cenografia recém revelada por um abrir
de cortinas. Bela ou feia, clara ou mal iluminada, próxima ou distante – não
importa – somos atraídos pela paisagem como são os olhares dos espectadores
atraídos pelo palco. E o que vemos ou percebemos estimula nossa imaginação e
desenvolve nossa capacidade de observação. Aquilo que os olhos vêem junte-se os
estímulos sonoros provenientes de uma circunstância qualquer e já não somos alvo
apenas do que vemos, mas também do que ouvimos. (NUNES, 2002, p. 216).
Esses elementos elencados por Nunes retomam também as palavras anteriormente
descritas de que se torna impossível caracterizar a paisagem sem antes entender o
funcionamento subjetivo da percepção no homem ou personagem, pois nós nunca vemos a
paisagem de fato, sempre a percebemos em partes, em detalhes.
Existe muito mais do que, simplesmente, se vê. E para que essa visão seja
completa temos os seguintes passos. Primeiramente, a sensação, o que se sente quando se
depara com a paisagem. Aqui, há uma seletividade, que é instantânea e dependente do olhar,
topofílico ou topofóbico, para que a valorização da paisagem se mostre com um sentimento
positivo para aquele que a conhece. É claro também, a relação com o lugar. Assim, esse filtro
selecionará de forma mais branda, ou não, permitindo uma análise diferente daquele que
nunca esteve ali. O segundo passo é a motivação, que é o interesse do visualizador no que
realmente ele pode estar interessado em retirar, naquele momento, do que está vendo.
Após verificar o interesse, vem a cognição que se define pela memória, esta é uma
forma de filtrar a paisagem e resume-se nas impressões e nos conhecimentos adquiridos
anteriormente, a co-relação com o já visto e/ou sentido. Assim também, continua com a
organização das imagens para uma verdadeira identificação e abrandamento do peneirar
cognitivo. Desta forma, passamos por três etapas que delimitam o sentimento do que se „vê‟
subjetivamente na paisagem. Agora é o momento da avaliação, há um julgamento, uma
seleção e uma expectativa. Uma probabilidade positiva ou negativa para entender e codificar
o que se „vê‟ através da conduta, esse último filtro já permite a emissão de uma opinião, e
também, determinar uma ação, e até mesmo um comportamento sobre a paisagem, a partir
disso o personagem já consegue emitir subjetivamente um conceito paisagístico.
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PINHEIRO NETO, José Elias e CAVALCANTE, Maria Imaculada. A percepção geográfica da paisagem
em Morte e vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 122-133. Set.2010/Dez. 2010.
Agora com a definição subjetiva, o visualizador realimenta suas expectativas e
volta a paisagem com suas próprias conclusões. Vale dizer que, tudo isso ocorre em questão
de segundos. Ou seja, a visualização da realidade passando pelos filtros culturais
anteriormente descritos - sensação, motivação, cognição, avaliação e conduta - não se tem
análise em que paramos para verificar a conclusão de cada uma separadamente, tudo acontece
num piscar de olhos e assim temos novamente resultados esperados ou diferentes da primeira
impressão.
No tocante a este texto tratamos a percepção geográfica retirada de uma obra
literária. Uma vez que, o estudo neste âmbito traz à Geografia importante contribuição, que
corrobora para reflexões no contexto dentro de uma perspectiva experiencial. Outros autores
já têm estudado a percepção geográfica à luz de obras da literatura. Como nos mostra Ferreira
Isto ocorre, não somente em função da obra literária, mas também por ser
considerada expressão legítima da própria percepção, cognição e afetividade. Neste
sentido, algumas destas obras podem ser consideradas como verdadeiros
laboratórios para a análise de situações experienciadas e percebidas, transformando
ou não as atitudes condutas dos seres humanos em relação ao significado dos seus
espaços e lugares. (FERREIRA, 1990, p. 159).
A autora também demonstra a importância da contribuição da literatura para a
percepção geográfica seja ele no mundo fictício ou no real.
A literatura contribui para a percepção geográfica através dos seus registros que
falam de um mundo experienciado cotidianamente, de modo imediato ou conceitual,
pelos escritores, mediante as conjunturas fictícias ou não das paisagens vivenciadas
pelos personagens. Deste modo, a percepção dos aspectos da paisagem geográfica
vivida nos revela outras dimensões relacionadas à espacialidade que se transforma,
com o tempo, em termos da criação e da transformação dos valores, crenças e
símbolos de seus indivíduos ou de sua população. (FERREIRA, 1990, p. 159).
Nosso intuito é mostrar a percepção da paisagem através do poema Morte e Vida
Severina, mais especificamente por Severino, um personagem que sai da nascente do rio
Capibaribe e vai até sua foz na capital Recife, e que mostra um mundo geograficamente
riquíssimo. Sua viagem se inicia no sertão e atravessa todo o agreste finalizando sua saga na
zona da mata.
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PINHEIRO NETO, José Elias e CAVALCANTE, Maria Imaculada. A percepção geográfica da paisagem
em Morte e vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 122-133. Set.2010/Dez. 2010.
4 A PAISAGEM PARA E EM SEVERINO
A paisagem não é uma categoria geográfica, mas sim um termo apropriado pela
Geografia que, consequentemente, consegue explicar objetiva e subjetivamente, grosso modo,
o que se vê. Grande parte dos estudos acerca da paisagem se reduz a uma interpretação
dualista. A primeira tem como base que a paisagem é uma natureza-sujeito. A existência
social só é possível por meio de um processo entre a formação da imagem e sua interpretação
social. A paisagem é, então, definida como um fenômeno cultural. Num segundo momento
podemos dizer que a paisagem é uma natureza-objeto. Não é nada além de uma porção de
espaço terrestre; é uma realidade que existe independente da ação da observação e do homem,
sendo, portanto, definida como um fenômeno natural.
Para Bertrand (2007) este conflito entre o culturalismo e o naturalismo é,
geralmente, considerado contraditório, uma oposição entre a filosofia e a filosofia
materialista. Porém somente a interpretação idealista pode ser irreversível, pois ela transforma
a paisagem em um singelo fenômeno de percepção, reduz o estudo às análises de “espaços
percebidos” ou “espaços vividos” e permanece nas pesquisas sociológicas e geográficas.
Assim, com o fenômeno da percepção, anteriormente explicitada foi possível socializar as
considerações sobre o ambiente natural.
Ora na posição de sujeito, ora na posição de objeto, a paisagem escapa
à racionalidade linear, redutora e causal do cartesianismo, assim como do objetivismo do
cientificismo positivista, sendo limitada pelo fenômeno da percepção. Na divisão da atual
pesquisa científica a análise global da paisagem surge como a busca por uma utopia em um
universo extradisciplinar. A intenção não é alcançar, diretamente, um método de análise
específico e sim traçar problemas que os procedimentos mais clássicos e setoriais não
permitem abordar.
A lógica do raciocínio permite que a pesquisa, mesmo superficial e incerta,
conduza ao fim, ou seja, que se chegue a uma análise paisagística, permitida também pelo
paradigma sistêmico que, para isso tem-se que organizar a paisagem no interior de um
sistema. Para que se aprenda uma paisagem é preciso acumular obstáculos conceituais e
metodológicos e hostilizar contradições aparentes. E enumerando as “qualidades” essenciais
de uma paisagem percebemos que elas vêm de categorias julgadas estrangeiras ou
contraditórias.
Então resta-nos delimitar o motivo do reaparecimento deste termo, podemos dizer
que sai da necessidade de explicar outros, mais especificamente, o espaço que sempre foi uma
130
PINHEIRO NETO, José Elias e CAVALCANTE, Maria Imaculada. A percepção geográfica da paisagem
em Morte e vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 122-133. Set.2010/Dez. 2010.
categoria que confrontou e embasou as discussões intelectuais do geógrafo. E em meados da
década de sessenta o termo paisagem é retomado pela Geografia para ajudar a entender e
explicitar melhor essa terminologia de forma mais organizada coerente e com maior
facilidade para sua definição.
Morte e Vida Severina é uma obra regionalista, narrada em primeira pessoa que
conta a vida de Severino, um retirante nordestino que sai do interior do país em direção ao
mar. Passa por três zonas geográficas distintas: sertão, agreste e zona da mata e nesse caminho
tece um rosário, por várias cidades, muito rico em paisagens diversas. O primeiro, sertão, de
clima semi-árido tem predominância nos estados do Ceará e Rio Grande do Norte. Nesse local
as chuvas são escassas e irregulares com um período enorme de estiagem e a vegetação
predominante é a caatinga. Já o agreste, trata-se de uma zona de transição entre o sertão e a
zona da mata, geograficamente aparece como um obstáculo natural para a chegada das chuvas
no sertão. Do lado leste do planalto está o local mais úmido, quanto mais para o interior mais
seca e dura a terra. Por fim, o protagonista da obra chega até a zona da mata local de grande
predominância de Mata Atlântica, vale mencionar aqui, que esse percurso fora descrito no
Brasil de 1956, ainda assim, aparecem as grandes monoculturas cacaueiras e de cana-deaçúcar. A terra, neste lugar, é úmida e macia onde os rios não secam diferentemente das
outras zonas citadas anteriormente.
Quando dizemos a paisagem para e em Severino estamos também descrevendo
que ele a vê e a sente. Na primeira característica de análise, a física, podemos mostrar no texto
o vislumbrar de um local altamente seco, com uma vegetação de pêlos que arranham, duros e
espessos. Vemos também uma estrada por onde ele caminha, mas que na verdade é o curso de
um rio que naquele momento de seca, corta, não conseguindo cumprir seu objetivo maior que
é de levar a vida e nem de encaminhá-lo ao seu destino final na busca pela sobrevivência,
assim descrito pelo autor do poema.
Não desejo emaranhar
o fio de minha linha
nem que se enrede no pêlo
hirsuto desta caatinga.
Pensei que seguindo o rio
eu jamais me perderia:
ele é o caminho mais certo,
de todos o melhor guia.
Mas como segui-lo agora
que interrompeu a descida?
Vejo que o Capibaribe,
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PINHEIRO NETO, José Elias e CAVALCANTE, Maria Imaculada. A percepção geográfica da paisagem
em Morte e vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 122-133. Set.2010/Dez. 2010.
como os rios lá de cima,
é tão pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina
e no verão também corta,
com pernas que não caminham.
(MELO NETO, 1956, p. 180).
A visão do andarilho é mostrada no texto por intermédio de suas palavras, e nelas
podemos perceber a vegetação nordestina com arvoretas espinhosas e secas. Também
visualizar uma estrada arenosa que se confunde, dentro de suas intermitências, com um rio,
característica bem presente naquela localidade.
Num outro viés caracterizamos a percepção subjetiva da paisagem ao protagonista
do poema Morte e Vida Severina, de forma topofílica apresenta sua terra, seu cheiro, suas
lembranças e sua experiência vivida. Como bem descreve Ferreira para explicitar este
sentimento
Portanto, a paisagem é percebida geograficamente, não como um mundo único e
objetivo, mas sim, em termos de uma percepção que busca interpretar a
integralidade do sentido de espaço/mundo vivido, como também daquilo que
constitui a natureza especial das atitudes e intenções humanas, envolvidas nas
dimensões da experiência. (FERREIRA, 1990, p. 160).
Assim, afirmamos que a utilização da literatura como corpus para a percepção da
paisagem é de extrema importância. Ela traz uma contribuição de vivência para a Geografia,
que pode assim, a partir de quem observa imbricar os conhecimentos físicos aos que estão no
íntimo do ser humano. Estes que nos dão a capacidade de (des)gostar e ainda melhor de sentir
o estado da alma em tudo aquilo em que vemos.
Severino sente na falta de trabalho uma forma de justificar seu deslocamento. E
mostra em um diálogo que é estabelecido com uma mulher que estava numa janela. Ele para
identificar-se enquanto trabalhador aponta o que já realizou, apresentando sua experiência de
vida. Nesta hora o leitor percebe que o conhecimento adquirido por ele não pode ajudá-lo no
trabalho, porém lhe vale para representação da diferença perceptiva do se vê agora e o que viu
quando no sertão
Muito bom dia senhora,
que nessa janela está
sabe dizer se é possível
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PINHEIRO NETO, José Elias e CAVALCANTE, Maria Imaculada. A percepção geográfica da paisagem
em Morte e vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 122-133. Set.2010/Dez. 2010.
algum trabalho encontrar?
Trabalho aqui nunca falta
a quem sabe trabalhar
o que fazia o compadre
na sua terra de lá?
Pois fui sempre lavrador,
lavrador de terra má
não há espécie de terra
que eu não possa cultivar.
Isso aqui de nada adianta,
poucos existe o que lavrar
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia por lá?
Também lá na minha terra
de terra mesmo pouco há
mas até a calva da pedra
sinto-me capaz de arar.
(MELO NETO, 1956, p. 185).
Dentro da subjetividade de Severino, ele busca uma nova forma de vida e que esta
lhe seja mais segura financeira e qualitativamente. Consegue trabalhar em terra dura, agora
então, seria bem mais fácil. Porém, naquele lugar o trabalho é outro, e revive seu mundo com
o arado em calvas pedras. A análise geográfica de uma obra literária transforma e nos faz
entender uma definição mais ampla de percepção da paisagem. No caso do poema Morte e
Vida Severina é revelada a sensibilidade humana na busca pela sobrevivência, aqui é dado
para paisagem valores da emoção, do humano, um plano imagético. A vivência do
protagonista mostra que ela pode ser fictícia, apresentando as diversas faces e experiências
que o homem nordestino viveu, naquela época em que fugir da seca podia-se ainda fazê-lo
tecendo um rosário pelo caminho apenas dentro do nordeste.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Estamos prontos para alcançar um objetivo cada vez mais claro no sentido de
entender o que nos rodeia, agora mais ainda, porque vigora a transdisciplinaridade. Com esta
nova visão dizemos que um imbricar, como bem ensina Moreira (2007), entre as ciências de
Letras, História e Geografia não só já é, somente permitida, mas também obrigatória para
definirmos terminologias que trazem carreadas em seu bojo aspectos humanísticos e que se
concatenam na ânsia de entendermos o processo de percepção geográfica.
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PINHEIRO NETO, José Elias e CAVALCANTE, Maria Imaculada. A percepção geográfica da paisagem
em Morte e vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 122-133. Set.2010/Dez. 2010.
Ao analisarmos uma obra literária, retirando dela suas características e categorias
geográficas, estamos revelando a sensibilidade humana, e também, dando uma abertura aos
sentidos da percepção da imagem. Na fala de Severino o agreste, o sertão e a zona da mata
estão visivelmente transcritos, nos demonstra a dureza física do nordeste brasileiro. E no
campo da percepção descreve um local queimado pelo poderio dos raios solares. Na busca
pela sobrevivência faz o homem sentir a necessidade de ter que sair do seu lugar, alterando a
paisagem, pois, ele não mais a verá com a mesma percepção anterior.
REFERÊNCIAS
BERTRAND, George; BERTRAND, Claude. Uma geografia transversal e de travessias: o meio
ambiente através dos territórios e das temporalidades. Maringá: Massoni, 2007, p. 213-234.
COSTA LIMA, Luiz. Lira e antilira. Mário, Drummond e Cabral. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.
FERREIRA, Solange Terezinha de Lima. A percepção geográfica da paisagem dos gerais no
“Grande Sertão: veredas”. Rio Claro, 1990, 201 f. Dissertação (Mestrado em Geografia)-Instituto de
Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista.
MELO NETO, João Cabral. Duas águas (Poemas Reunidos). Rio de Janeiro: Editora José
Olímpio,1956. p. 169-222.
MOREIRA, Ruy. Pensar e ser em geografia: ensaios de história, epistemologia e ontologia do espaço
geográfico. São Paulo, Contexto, 2007. 181 p.
NUNES, Celso. A paisagem como teatro. In: YÁZIGI, Eduardo (Org.). Paisagem e Turismo. São
Paulo: Contexto, 2002.
OLIVEIRA, Marly de. João Cabral de Melo Neto: breve introdução a uma leitura de sua obra. In:
NETO, João Cabral. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
SANTOS, Milton. A metamorfose do espaço habitado. São Paulo: Hucitec, 1988. 124 p.
Estácio de Sá – Ciências Humanas.
Rev. da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES - GO
VOL. 01, Nº 04, 134 – 157. Set. 2010/Dez. 2010.
O ACIDENTE DE GOIÂNIA COM O CÉSIO 137: UM OLHAR SOBRE O IMPACTO
SOCIAL E SOBRE O MEIO AMBIENTE
Ieda Rubens Costa
Edmar Aparecido de Barra e Lopes
Resumo:
Abstract:
O presente artigo procura fazer um panorama sobre o
acidente ocorrido com o Césio 137 em outubro de
1987 em Goiânia, a pesquisa, busca tecer relações
entre as várias “práticas” que compõem,
articuladamente, a rede social deste acontecimento que
está fartamente documentado através de matérias de
jornais locais e nacionais realizadas na época, bem
como relatos de autoridades e populares que
vivenciaram o acontecimento e ainda um riquíssimo
dossiê sobre o acidente, elaborado com apoio da
Universidade Federal de Goiás. Procuramos mostrar
como a produção discursiva, em geral, sobre o
acidente, acabou contribuindo para a produção de uma
determinada história sobre o acidente (a oficial),
omitindo em grande medida a memória e direitos das
vítimas diretas e indiretas. Tem-se a preocupação
principal de mostrar não só todo o histórico do
acidente,
os
principais
sujeitos
envolvidos,
instituições, mas também apontar um certo processo
discursivo no qual a imprensa foi fundamental no
sentido de delimitar de forma bastante rápida, área
geográfica contaminada, número de pessoas
diretamente afetadas, atitudes emergências em curso,
no sentido de promover um “retorno à ordem”, que, na
verdade, se configurou como uma estratégia de
contenção e isolamento de elementos de desordem da
organização social e do próprio cotidiano psico-social
da cidade e do Estado.
This article presents an overview of the accident
with cesium 137 in October 1987 in Goiania, the
research seeks to weave relationships between the
various "practices" that comprise, articulately, the
social network of this event which is amply
documented by matters of local and national
newspapers held at the time, as well as reports of
authorities and popular who experienced the event
and has a rich dossier on the crash, prepared with
support from the Federal University of Goias try to
show how the discursive production, in general, the
accident, eventually contributing to the production
of a particular story about the accident (the
official), largely omitting the memory of victims
rights and direct and indirect. It has been a major
concern not only to show the entire history of the
accident, the main subjects involved, the
institutions, but also a certain point discursive
process in which the press was crucial in order to
delimit rather quickly, contaminated geographic
area, number people directly affected, attitudes
emergencies in progress, to promote a "return to
order ', which actually took shape as a strategy of
containment and isolation of elements of disorder
of social organization and daily life of his own
psycho-social
city
and
state.
Palavras-chave:
Key-words:
Acidente, Césio 137, Impacto Social, Meio Ambiente
Accident, Cesium
Environment
137,
Impact
of
Social
INTRODUÇÃO
O presente artigo procura fazer um panorama sobre o acidente ocorrido com o
Césio 137 em outubro de 1987 em Goiânia, a pesquisa, busca tecer relações entre as várias
práticas que compõem, articuladamente, a rede social deste acontecimento que está

Doutorado em Ciências Ambientais – PRPPG. Universidade Federal de Goiás.
Professor Adjunto da Universidade Federal de Goiás-FE.

135
COSTA, Ieda Rubens e LOPES, Edmar Aparecido de Barra e. O acidente de Goiânia com o césio 137: um
olhar sobre o impacto social e sobre o meio ambiente. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 134-157. Set.2010/Dez. 2010.
fartamente documentado através de matérias de jornais locais e nacionais realizadas na
época, bem como relatos de autoridades e populares que vivenciaram o acontecimento e ainda
um riquíssimo dossiê sobre o acidente, elaborado com apoio da Universidade Federal de
Goiás.
Procuramos mostrar como a produção discursiva, em geral, sobre o acidente,
acabou contribuindo para a produção de uma determinada história sobre o acidente (a oficial),
omitindo em grande medida a memória e direitos das vítimas diretas e indiretas. Tem-se a
preocupação principal de mostrar não só todo o histórico do acidente, os principais sujeitos
envolvidos, instituições, mas também apontar um certo processo discursivo no qual a
imprensa foi fundamental no sentido de delimitar de forma bastante rápida, área geográfica
contaminada, número de pessoas diretamente afetadas, atitudes emergências em curso, no
sentido de promover um retorno à ordem, que, na verdade, se configurou como uma
estratégia de contenção e isolamento de elementos de desordem da organização social e do
próprio cotidiano psico-social da cidade e do Estado.
Trata-se de uma reflexão crítica sobre uma experiência vivenciada individual e
coletivamente e que não pode ficar indiferente em relação às nossas preocupações atuais, no
sentido de repensarmos nossas práticas em relação à construção de uma sociedade erigida
sobre novos paradigmas e que também coloca desafios para repensarmos muitas questões
relativas á proteção ao meio ambiente.
O acontecimento ganhou uma conotação ainda mais trágica à medida em que os
vários sujeitos envolvidos num primeiro momento (direta e indiretamente), não perceberam o
que se esboçava sob os lençóis da ignorância da população e da falta de estrutura e
organização dos órgãos de fiscalização competentes do Estado.
O acidente que têm seus rejeitos já devidamente enterrados, mas que ainda deve
às suas vítimas, a justa e necessária assistência e à população da cidade, uma revisão da forma
como a questão ambiental vem sendo abordada. Desta forma, tentar colher, analisar e
entrecruzar alguns relatos dos sujeitos envolvidos no acidente. É uma forma de não
permitirmos que o esquecimento tome conta do ocorrido e ao mesmo tempo, uma forma de
compreendermos os méritos e desacertos do modo como diversos poderes práticas,
intervieram no sentido de tomar providências, apontar responsabilidades e reinstituir a ordem.
136
COSTA, Ieda Rubens e LOPES, Edmar Aparecido de Barra e. O acidente de Goiânia com o césio 137: um
olhar sobre o impacto social e sobre o meio ambiente. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 134-157. Set.2010/Dez. 2010.
1 ACIDENTES NUCLEARES
A descoberta da energia atômica no século XX deveria trazer um grande benefício
para a humanidade, e o teria sido realmente, se ela tivesse se desenvolvido até então de
maneira correta.
Entretanto o mau uso da energia na criação de bombas atômicas de alto poder
destrutivo, bem como a prepotência do homem que imagina conhecer e dominar todos os
riscos têm levado a consequências até agora impossíveis de serem mensuradas.
A dispersão da substância radiativa forma uma nuvem radiativa que se espalha no
ambiente, causando malefícios às pessoas e aos animais que a ela ficam expostos, bem como a
todo ambiente, pois as matérias radiativas se depositam no solo.
A radiatividade é incolor, inodora e invisível, porém, provoca contaminação se
inalada por pessoas e animais. Também, os alimentos ficam contaminados, o que provoca
destruição de células do corpo humano, causando risco para a saúde.
Um acidente nuclear traz efeitos radiativos imediatos que continuam a manifestarse por dias seguidos com consequências corporais graves ou mesmo irremediáveis.
A gravidade dos acidentes nucleares depende de vários fatores, tais como: da
quantidade de radiatividade lançada no ambiente com elemento (nuclear) radiativo, e da
condição meteorológica existente no momento em que a nuvem radiativa se espalha (em caos
de explosão). As estações do ano, o estado da vegetação são fatores importantes para calcular
a dimensão de um acidente nuclear (BOEHLER, 1997).
Existem ainda muitas outras agressões ao planeta além dos acidentes nucleares,
como por exemplo, os bilhões de toneladas de poluentes que são jogados na atmosfera pelas
indústrias e pelos carros, a derramamento de óleo e produtos químicos no oceano e a
devastação das florestas que ameaçam o futuro da vida na Terra.
Temos duas terminológicas usadas em relação a acidente radiativo e acidente
radiológico. Para tanto, deve-se estabelecer a diferença entre o acidente radioativo e o
acidente radiológico, convém definir radiatividade e radioatividade.
Radioatividade é um fenômeno natural pelo quais os núcleos dos átomos de certos
elementos emitem radiações espontaneamente de modo a adquirirem estabilidade1 A
radiatividade é também considerada a desintegração espontânea do núcleo atômico de alguns
elementos (urânio, polônio e rádio), resultando em emissão de radiação descoberta pelo
francês Henri Becquerel (1852-1909) poucos meses depois da descoberta dos raios X.
1
Disponível em : <http//:www.atomico.no.sapo.pt>. Acesso em: 20de mar 2005.
137
COSTA, Ieda Rubens e LOPES, Edmar Aparecido de Barra e. O acidente de Goiânia com o césio 137: um
olhar sobre o impacto social e sobre o meio ambiente. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 134-157. Set.2010/Dez. 2010.
Becquerel verificou que, além de luminosidade, as radiações emitidas pelo urânio são capazes
de penetrar na matéria. Dois anos depois, Pierre Curie e sua mulher, a polonesa Marie Curie,
encontrou fontes radiativas muito mais fortes que o urânio. Isolaram o rádio e o polônio e
verificaram que o rádio é tão potente que pode provocar ferimentos sérios e até fatais nas
pessoas que dele se aproximam.
Para entendermos melhor, necessário se faz, demonstrar a diferença terminológica
entre acidentes radiativos nucleares e radiológicos2 é que o acidente radiológico ocorre
quando as fontes radiativas são usadas com propósitos médicos ou industriais. Já os acidentes
radiativos (nucleares) são os que ocorrem nas instalações nucleares, a exemplo dos reatores
nucleares ou plantas de reprocessamento, assim definidos por Boehler (1997), diferindo a
nomenclatura que se destina a um e a outro tipo de acidente, quanto à origem aplicação e
destinatários.
O mundo vive a era da energia atômica, cujos usos são cada vez mais
diversificados, porém é certo que os excessos da radiatividade podem causar diversos níveis
de danos. A radiação viaja pelos espaço e existe desde o princípio dos tempos. O planeta
evolui no meio da radiação que provém do Sol, do espaço exterior e dos elementos naturais
radiativos que existem na natureza. O corpo humano contém material radiativo, assim como
os alimentos e o ar. Quando se fala em radiação, quer-se referir ao raio-X e energia
proveniente de materiais radiativos associados com reatores nucleares. Os cientistas
denominam-nas de radiações ionizantes porque produzem uma partícula eletricamente
carregada de íon, quando golpeiam (interagem) a matéria. A radioterapia teve origem na
aplicação do elemento rádio pelo casal Curie, para destruir células cancerosas, e foi
inicialmente conhecida como radio curieterapia.
É certo também que a radioterapia é essencial no tratamento de doenças e muito
utilizada não só na medicina, mas também em diversos setores industriais. Tanto o elemento
radiativo Césio-137, utilizado na radioterapia, como a fonte de cobalto-60, são usados no
tratamento de câncer, promovendo a destruição de células de tumores, uma vez que são mais
sensíveis à radiação do que as células normais. São fontes radiativas encapsuladas ou seladas
(hermeticamente fechadas) e blindadas, para impedir a passagem de radiação. No momento da
utilização, a fonte é deslocada de sua posição segura, no interior do cabeçote de proteção
2
Apesar de entender a curial necessidade de fazer tal distinção, a maioria dos trabalhos na área jurídica
publicados sobre o assunto, bem como o público leigo em geral, não estabelece a diferença entre as duas
expressões comumente utilizadas pela Agência Internacional de Energia Nuclear estabelecidas em Viena. Para
melhor alcance na leitura, este trabalho usa a palavra radiativo, por ser terminologia técnico-científica e
radiológica, quando trata especificamente do acidente em Goiânia, por ter sido o único sem precedentes no
mundo.
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COSTA, Ieda Rubens e LOPES, Edmar Aparecido de Barra e. O acidente de Goiânia com o césio 137: um
olhar sobre o impacto social e sobre o meio ambiente. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 134-157. Set.2010/Dez. 2010.
(feito de chumbo e aço inoxidável), para a frente de um orifício, que permite a passagem de
um feixe de radiação concentrado sobre a região a ser tratada ou irradiada. Após o uso, a fonte
é recolhida para a posição anterior. Dentre os rádionuclídeos, Roberto Fulfaro (1987, p.13)
define o Césio-137 como, “produto da fissão do urânio, o Césio é um material radiativo,
apresentado em forma de sais (cloretos ou carbonetos), geralmente impregnados em pastilhas
cerâmicas, seladas em dois invólucros de aço, para que se mantenha inacessível”.
Um acidente radiativo ou radiológico produz seus efeitos segundo a variação das
doses, a duração e a distância entre a fonte radiativa. As radiações podem causar lesões nas
células e, em especial, alterações no ácido desoxirribonucléico (DNA), ocorrendo mutações
no patrimônio genético e risco de câncer.
O monitoramento das instalações em que estão localizadas as fontes radiativas,
internas ou externamente, deve ser constante, tanto para corrigir os desajustes (até com
paralisação temporária) como para alertar a população e promover a evacuação da área, se
houver necessidade, em caso de acidente.
Com essas considerações esta pesquisa centra sua atenção, no maior acidente
radiológico dos últimos tempos, ocorrido em Goiânia, no ano de 1987.
1.1 ACIDENTE DE GOIÂNIA
Faz-se necessário apresentar uma breve descrição do acidente com o Césio-137
que ocorreu em Goiânia, em setembro de 1987. O acontecimento ganhou uma conotação
ainda mais trágica tendo em vista que os vários sujeitos envolvidos, em um primeiro
momento (direta e indiretamente), não perceberam o que se esboçava sob os lençóis da
ignorância da população e da falta de estrutura e organização dos órgãos de fiscalização
competentes do Estado.
Trata-se de um acidente cujos seus rejeitos já se encontram devidamente
enterrados, mas que ainda deve às suas vítimas a justa e necessária assistência, e à população
da cidade, uma revisão da forma como a questão ambiental vem sendo abordada. Dessa
forma, tentar colher, analisar e entrecruzar alguns relatos dos sujeitos envolvidos no acidente
é uma forma de impedir que o esquecimento tome conta do ocorrido e, ao mesmo tempo, de
compreender os méritos e deméritos do modo como o Estado e demais instâncias de poder
intervieram para tomar providências, apontar responsabilidades e restituir a ordem.
Garcia e Miguel (1993, p. 2-3) apontam os acidentes com o Césio-137:
139
COSTA, Ieda Rubens e LOPES, Edmar Aparecido de Barra e. O acidente de Goiânia com o césio 137: um
olhar sobre o impacto social e sobre o meio ambiente. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 134-157. Set.2010/Dez. 2010.
em 2 de maio de 1972, nasce o Instituto Goiano de Radioterapia Clínica,
especializada no tratamento do Câncer, sob a direção da Dra. Isis Dourado Monteiro
e do Doutor Carlos de Figueiredo Bezerril. Em 1974, recebem uma bomba de
CESIUM-137, modelo CESAPAM F 3000, de fabricação italiana, marca Generaly.
Como usuários de material radiativo, o instituto foi registrado na CNEN, pouco
depois solicitaram autorização para operar uma bomba de Cobalto 60. Em 1985,
retira-se da sociedade a Dra. Isis e foram admitidos, como proprietários, a Dra.
Criseida Castro Dourado e o Dr. Orlando Alves Teixeira.
Os proprietários do Instituto Goiano de Radioterapia e seu físico nuclear,
Flamariom Barbosa Goulart, não comunicaram à Cnen nem mesmo ao próprio Instituto de
Previdência e Assistência dos Servidores do Estado de Goiás (Ipasgo), à Vigilância Sanitária
de Goiás, ou a outro organismo competente que estavam desativando a cápsula de Césio-137.
O prédio ficou abandonado com o perigoso artefato. No dia 4 de maio de 1987, Amaurillo
Monteiro de Oliveira, médico do Ipasgo, contratou pedreiros para retirarem telhas, janelas,
portas e outros materiais de construção. A Polícia Militar obrigou o retorno dos materiais para
o Ipasgo, mas o local permaneceu aberto.
A história, além dos fatos, possibilita compreender que a própria Cnen,
mantenedora do controle das atividades, relacionadas à energia atômica de uso estratégico,
vedado ao conhecimento da sociedade civil, não obteve um verdadeiro controle da situação.
Mais grave ainda, quando aconteceram os fatos, não soube como atuar. Para completar, até o
momento, não foram resolvidos de maneira definitiva, os problemas do Césio-137,
continuando a pairar sérias ameaças sobre a população. Prova disso é que a imprensa goiana
tem registrado com preocupação a elevação crescente de homens, mulheres e crianças
cancerosas, nos últimos cinco anos.
No dia 13 de setembro de 1987, os catadores de papel, Wagner Mota Pereira e
Roberto Santos Alves, ao entrarem no prédio do antigo Instituto Goiano de Radioterapia
(IGR), no qual atualmente existe o Centro de Cultura e Convenções de Goiânia, depararam-se
com a cápsula de Césio-137. O equipamento continha um cabeçote envolto por chumbo,
metal que tinha um significativo valor financeiro para os dois sucateiros. Ao ser tocado, o
material abriu-se em duas partes, uma maior, com cerca de 300 kg e outra com 120 kg.
Segundo Garcia e Miguel (1993, p. 5),
as partes do artefato foram assim distribuídas: umas, vendidas para ferro velho,
outras, permaneceram nas casas de algumas pessoas, deu-se de presente, também, a
familiares e amigos. Assim, o Césio foi transportado de ônibus urbano e o pó
evaporou-se pelo ar. Finalmente o que foi encontrado, transladou-se para Abadia de
Goiás, carecendo de um depósito definitivo. Quatro pessoas morreram nos primeiros
dias do acidente, uma outra em 92. Ainda não se conhece quantos morreram de
câncer nos últimos tempos, em consequência da radioatividade do Césio 137. Não
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COSTA, Ieda Rubens e LOPES, Edmar Aparecido de Barra e. O acidente de Goiânia com o césio 137: um
olhar sobre o impacto social e sobre o meio ambiente. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
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existem pesquisas para comprovar se existe relacionamento entre esses casos e o
acidente. O que se constata é um pacto de silêncio, uma intencionalidade manifesta
em delimitar o número de casos, e, por suposto, restringi-los a apenas aqueles que
foram afetados, diretamente nos primeiros dias. Daí, questões que exigem respostas
urgentes: Quais as consequências do Césio 137 a médio e longo prazo? Qual a
extensão de seus danos.
Segundo o histórico do acidente, no dia 13 de setembro de 1987, com auxilio de
um carrinho de mão, o envoltório que continha o Césio-137, pesando cerca de duzentos
quilos, foi levado por Roberto Santos Alves, até a casa de Devair Alves, dono de um ferro
velho. Somente no dia 26 de setembro de 1987 a fonte radiativa foi transportada para as
dependências da Vigilância Sanitária, local em que atualmente funciona a Superintendência
de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Estado da Saúde (SES), que substituiu a Fundação
Leide das Neves Ferreira (FunLeide), instituição criada para prestar assistência às vítimas do
trágico acidente radiológico com o Césio-137. A fonte radiativa, após ser identificada por
técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), foi totalmente lacrada com
concreto obedecendo aos princípios de proteção definidos pela Cnen e, posteriormente,
encaminhada ao depósito de rejeitos radiativo, em Abadia de Goiás.
A Associação das Vítimas, criada em dezembro de 1987, exigia uma assistência
do governo para aqueles casos mais graves. E assim, em fevereiro de 1988, surgiu a Fundação
Leide das Neves, trazendo o nome da criança vitima fatal do Césio. A respeito da fundação,
Garcia e Miguel (1993, p. 7) esclarecem:
Sua condição de se apoiar em doações conduziu-a a uma vivência de precariedade, o
que se converteu num obstáculo para enfrentar a crescente demanda de pessoas
afetadas pelo acidente. As limitações ao atendimento dos casos baseavam-se em
critérios de exclusão. caracterizavam-se as vítimas pelo contato com o Césio 137 e
pela proximidade com o local onde ocorreu o acidente, não considerando as
características deste material na sua amplitude e na sua mobilidade, dentro e fora da
cidade (chegando até mesmo à cidade de Goiás), resultando na impossibilidade de
se delimitar o espaço geográfico atingido.
Dessa feita, foram classificadas as vítimas em três diferentes grupos, de acordo
com critérios que caracterizaram as vítimas pelo contato com o Césio-137 e pela proximidade
com o local no qual ocorrera o acidente, sem atentar para as características do material em sua
amplitude e em sua mobilidade, dentro e fora da cidade. Outras pessoas consideravam-se
vítimas do Césio-137, ainda que não apresentassem provas evidentes. As vítimas oficiais são
736. A Fundação Leide das Neves atende a 118, das quais apenas seis receberam ajuda para
moradia (casas) no Jardim Nova Era, de acordo com a Secretaria da Pastoral Arquidiocesana.
Conforme Garcia e Miguel (1993, p. 6),
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COSTA, Ieda Rubens e LOPES, Edmar Aparecido de Barra e. O acidente de Goiânia com o césio 137: um
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o relacionamento entre a Fundação e a Associação nunca foi respeitoso ou mesmo
amistoso por parte da primeira, mas conheceu sérias limitações e constrangimentos.
Deve-se lembrar que a existência da Fundação só se explica pelas consequências do
acidente e pelos serviços que devem ser prestados aos acidentados.
Por ocasião da realização da Eco/92, dentre outros, fizeram-se representar o
governo de Goiás, a Associação dos Acidentados do Césio e o governo cubano (país que tem
registrado grandes avanços na incorporação da mais avançada tecnologia de Medicina
Preventiva, destacadando-se sobretudo no atendimento a crianças que sofreram os efeitos do
desastre nuclear de Chernobyl). Segundo Garcia e Miguel (1993, p. 5-6),
foi orquestrado um acordo que finalmente transformou-se num Protocolo entre o
governo cubano, através de sua entidade científica para assuntos nucleares, o Estado
do Rio de Janeiro, pela FAPERJ, o de Goiás, pela Fundação Leide das Neves, vindo
integrá-lo também, a Associação das Vítimas do Césio. Ficou em aberto esse
Protocolo a outras entidades interessadas na questão, podendo vir a ampliá-lo.
Desse propósito, resultou por iniciativa da sociedade civil, a criação de Comitês
de Acompanhamento e Execução envolvendo entidades tais como o Conselho Regional de
Serviço Social de Goiás, o Conselho Regional de Medicina, a Comissão de Justiça e Paz da
Arquidiocese de Goiânia, o Instituto Brasil Central, o Conselho Regional de Psicologia, o
Sindicato dos Médicos do Estado de Goiás, a Associação de Professores Docentes da
Universidade Católica de Goiás (Apuc), a Associação de Docentes da Universidade Federal
de Goiás (Adufg), o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetos de Goiás (Crea-GO), a
Associação Brasil-Cuba de Goiás. Estabeleceram-se também outras medidas:
 Foi firmado convênio com a UCG para garantir uma efetiva assistência laboratorial,
psicológica e social;
 A Secretária de Assuntos Estratégicos do Ministério da Aeronáutica deu apoio para o
translado do segundo grupo de acidentados para Cuba, após aquiescência do governo
de Goiás;
 Instituiu-se campanha de solidariedade para arrecadação de gêneros alimentícios e
medicamentos para as vítimas do acidente.
Ainda segundo Garcia e Miguel (1993), “resgatar o direito de Cidadania dos
acidentados é um dos desafios mais urgentes para o conjunto da sociedade goianiense, como
para os dirigentes autênticos” (p.11). Desafio que, aliás, não deve esquecer, questões
relacionadas à segurança e as responsabilidades relacionadas ao uso estratégico da energia
atômica e suas consequências sobre o meio ambiente.
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COSTA, Ieda Rubens e LOPES, Edmar Aparecido de Barra e. O acidente de Goiânia com o césio 137: um
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O despreparo dos órgãos de fiscalização do Estado foi tamanho que, uma semana
após a publicização do acidente na imprensa, a rotina da vida pública estava tão alterada que
algumas escolas, localizadas nas proximidades das áreas de foco, já não funcionavam. O
acidente radiativo passava praticamente desapercebido nas invasões e bairros periféricos da
cidade. A impressão geral para tal segmento populacional era a de que existia uma doença
estranha na cidade.
Na verdade, o nível de desinformação, percebido sobretudo nas regiões periféricas
da cidade, revelava o quanto seus moradores estavam excluídos da cidade. A condição de
excluídos dessa parcela da população fez que buscassem ajuda a esfera da religião para se
orientarem, como assinala Manoel Messias (46 anos, aposentado): “Deus há de nos ajudar,
não existe motivo para preocupação. Se a doença tiver que vir é destino” (O Popular, 18 de
out. 1987, p.11).
Às impressões e descrições dos moradores atingidos pelo acidente, seguia o
despreparado envolvimento de vários órgãos, para enfrentarem a tragédia, evidenciando a
ausência de um sistema de controle para ser acionado no caso de um acidente. Além do mais,
a impressão de que só a tragédia podia alertar as autoridades deixava a população desconfiada
de sua capacidade para vencer o desafio.
A desinformação não se limitava aos leigos, mas caracterizou também as práticas
dos especialistas envolvidos no combate às consequências do evento. Podem-se citar como
exemplos a dificuldade encontrada pelos médicos em diagnosticar o quadro apresentado pelos
pacientes e a própria ingenuidade do físico solicitado para identificar a fonte de irradiação.
Técnicos, inicialmente convocados, revelaram-se despreparados.
O físico Walter Mendes obteve da agência local da Empresas Nucleares
Brasileiras SA (Nuclebrás) um cintilômetro e foi até a sede da Vigilância Sanitária. A peça da
cápsula foi colocada sobre uma cadeira, e o medidor confirmou a hipótese: ali estava a origem
de tudo.
Mendes e o físico Flamarion B. Goulart, que fora responsável pelo equipamento
no IGR, sugeriram as primeiras providências, como a evacuação dos locais em que a fonte
permanecera e o recolhimento dos possíveis contaminados no Estádio Olímpico, no qual
foram improvisadas barracas para alojamento.
Chegaram à cidade técnicos do Instituto de Radioproteção e Dosimetia (IRD) e do
Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), ambos da Cnen. Médicos e físicos
brasileiros e estrangeiros, também participaram da equipe estudantes da Escola Técnica
Federal de Goiás e o professor José Carlos Marques Freitas e seus alunos da Escola Técnica
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COSTA, Ieda Rubens e LOPES, Edmar Aparecido de Barra e. O acidente de Goiânia com o césio 137: um
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Federal (ETF) de Química da cidade do Rio de Janeiro-RJ. Foram recrutados os serviços de
Centrais Elétricas S.A. (Furnas) e da Nuclebrás para assistência às vítimas.
Um retrospecto dos fatos que fizeram parte do compósito que resultou no acidente
com o Césio 137 pode, de forma mais justa, trazer à tona os órgãos da iniciativa pública e
privada direta e indiretamente responsáveis.
Segundo Oliveira (1990), em 1974, o IGR, para introduzir-se nessa área de
atuação recebeu o “Registro Geral da Cnen sob o número 103.453/74, como usuário de
material radioativo, no caso uma Bomba de Cesium-137, modelo CESAPAN F. 3.000
fabricada na Itália (marca Generaly)”, conforme petição inicial da ação Civil Pública,
promovida pelo Ministério Público do Estado de Goiás, Promotor de Justiça Sulivan Silvestre
Oliveira.
No ano de 1977, o instituto “obteve autorização da Comissão Nacional de Energia
Nuclear (CNEN) para instalação e uso de uma unidade de radioterapia com bomba de Césio137 (Helou, 1995), e posteriormente, na mesma década uma fonte de cobalto, aparelho
tecnologicamente mais avançado”. Quando das instalações dos equipamentos radiológicos, foi
o Instituto Goiano de Radioterapia fiscalizado (ou seja, em 1977) e suas instalações aprovadas
e liberadas pela CNEN para o devido funcionamento assevera Oliveira (1990 p.25).
À época, os documentos oficiais sobre o acidente - o relatório produzido pela
Cnen e também o elaborado pela Agência Internacional de Energia Nuclear (Aeia) produziram um estratégico silêncio sobre os imediatos responsáveis pelo acidente. Pode-se
dizer que desse silêncio beneficiou tanto o Instituto Goiano de Radioterapia, como o Ipasgo e
a própria Cnen. Basta lembrar a troca de acusações entre os representantes, para notar a sua
co-responsabilidade no acidente e a sua insistência inicial destes em colaborar para manter a
imprecisão sobre os responsáveis pontuais do acidente, o que noticiou sobre essa troca de
acusações.
Representando o ponto de vista inicial da Cnen sobre a polêmica das
responsabilidades pelo acidente, o físico da Cnen, Júlio Rozental, afirmou:
não se pode esperar que certos profissionais venham a fazer atos que não deviam
fazer. Esse equipamento, por exemplo, não estava no local onde adequadamente
deveria estar, uma vez desativado. Eles deveriam informar à Comissão Nacional de
Energia Nuclear. Isso é uma obrigação deles. (O Popular, 3 out. 1987, p. 1)
O radioterapeuta Orlando Alves Teixeira, um dos donos do Instituto Goiano de
Radioterapia, por sua vez, eximiu-se de qualquer culpa no acidente com o material radiativo
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COSTA, Ieda Rubens e LOPES, Edmar Aparecido de Barra e. O acidente de Goiânia com o césio 137: um
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pertencente à sua clínica, ressaltando:
Se alguém tem culpa é o IPASGO, proprietário do imóvel onde estava o aparelho,
que, na gestão passada impediu a clínica de transportá-lo para sua nova sede”.
Esclareceu ainda que, “a Bomba de Césio chegou a ser colocada no caminhão de
mudança, mas foi novamente desembarcada por ordem da Justiça (...). (O Popular, 3
out. 1987, p. 1)
O então Presidente do Ipasgo, Felício Gabriel, por sua vez, declarou:
Desconheço qualquer participação do órgão no sentido de impedir a saída do
aparelho de radioterapia da casa onde funcionava, ao lado da Santa Casa. De fato o
imóvel pertence ao IPASGO, mas sequer o recebemos ainda, pois o contrato com a
Santa Casa era para que esta nos entregasse a área livre e desimpedida.
Pessoalmente, acredito que estavam abandonando o aparelho, que já está fora de
uso, e agora procuram criar essa fantasia para não assumir as responsabilidades pelo
acidente. (O Popular, 2 out. 1987, p. 5)
De acordo com Helou e Costa Neto (1995), para compreender o motivo dessa
fuga de responsabilidades em relação às causas do acidente deve-se levar em conta que, ainda
que a Cnen negasse o fato, em meados de 1985 (dois anos antes de ocorrerem os acidentes
com o Césio-137), foi-lhe comunicada a mudança das instalações da clínica e da permanência
do aparelho de teleterapia no antigo endereço.
Segundo o promotor de justiça Sulívan Oliveira3, os proprietários do Instituto
Goiano de Radioterapia não comunicaram à Cnen, por intermédio de seu físico Flamarion
Barbosa Goulart, que estavam desativando a cápsula de Césio-137. Afirma o promotor que o
IGR não comunicou a mudança nem ao Ipasgo, nem à Vigilância Sanitária ou a qualquer
outro órgão responsável.
Além do mais, o próprio Ipasgo e a Vigilância Sanitária, como órgãos
representantes do poder de fiscalização do Estado na área da saúde, tiveram suas respectivas
imagens seriamente comprometidas, uma vez que revelaram desleixo em relação às suas
atribuições de vigilância no setor.
A polêmica e a imprecisão sobre as atribuições de responsabilidades das partes
envolvidas prolongaram-se, favorecidas que foram pela indústria de boatos sobre o
acontecimento e pelo fato de o Estado (nos planos federal e estadual) 4 encontrar no incômodo
papel de sujeito de práticas de omissões no que concerne à necessária fiscalização das práticas
3
OLIVEIRA, S. S. Petição Inicial da Ação Civil Publica processo nº 95.8505-4, 8ª Vara da Justiça Federal.
Goiânia-Go. Referente ao acidente. Goiânia, 1992.
4
No plano federal, representado pela Cnen e no plano estadual, pelo Ipasgo e pela Vigilância Sanitária.
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COSTA, Ieda Rubens e LOPES, Edmar Aparecido de Barra e. O acidente de Goiânia com o césio 137: um
olhar sobre o impacto social e sobre o meio ambiente. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 134-157. Set.2010/Dez. 2010.
envolvendo materiais radiativos.
Ainda que negassem todas as hipóteses plausíveis sobre o acidente, as partes
envolvidas apontaram a co-responsabilidade dos autores sociais. Por exemplo, se de fato o
Instituto Goiano de Radioterapia houvesse comunicado à Cnen a transferência de sua sede e o
abandono da cápsula de Césio-137, a responsabilidade pelo acidente deveria ser
compartilhada pelas duas instituições. Se a hipótese correspondesse aos fatos, poder-se-ia
ainda perguntar como o IGR realizara sua mudança de endereço sem a comunicação oficial
aos órgãos competentes.
E mais, caso o IGR tivesse efetuado tal comunicação, esse fato apenas diminuiria
sua culpa no acidente, problematizando ainda mais as práticas de fiscalização da Cnen, em
nível nacional, e da Secretária de Saúde, em nível estadual, uma vez que as seguidas
declarações dos técnicos do Conselho Nacional de Energia Nuclear acabaram por expor
publicamente o mal-estar vivenciado pela instituição, em razão do esvaziamento de suas
atribuições de fiscalização e de controle do uso de aparelhos radiativos utilizados na área da
saúde. Deve-se ressaltar que o Decreto nº 77.052, de 1º de janeiro de 1987 (BRASIL, 1987),
atribui tal fiscalização às secretárias de saúde dos estados. Como se pode notar, não houve um
responsável pelo acidente, mas uma teia de irresponsabilidades que culminaram no evento.
Paralelamente à morosidade em apontar e penalizar os responsáveis, questões
começaram a ganhar corpo, como indica Chaves (1998).
a) a fiscalização sobre o controle, uso e desativação de aparelhos com fontes radiativas,
nas áreas médica, industrial, agrícola, centros de pesquisa e outros;
b) as medidas em vigência de proteção à população e ao meio ambiente;
c) a quem cabe a responsabilidade pelo tratamento de pessoas atingidas por materiais
radiativos.
Essas questões começaram a fluir de diversos segmentos da sociedade civil
(Igreja, imprensa, empresariado, entidades ambientais, universidades, Assembléia Legislativa,
partidos, associações de bairro e outros), revelando um estado de descontentamento de setores
sociais que dispunham de com um mínimo de informação crítica sobre a forma equivocada
como as questões eram encaminhadas pelas instituições envolvidas.
Passado o desespero que marcou o momento inicial do acidente, uma reação mais
contundente de setores da sociedade começou a esboçar-se. No que concerne à Arquidiocese
de Goiânia, matéria intitulada Igreja cobra do Governo posição informa:
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olhar sobre o impacto social e sobre o meio ambiente. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
Faculdade Estácio de Sá. Goiânia SESES – GO VOL. 01, Nº 04, 134-157. Set.2010/Dez. 2010.
O Arcebispo de Goiânia, Dom Antônio Ribeiro de Oliveira, pediu ontem a
interferência pessoal do governador Henrique Santillo para que seja montado um
serviço de informações à comunidade goiana, sobretudo nos bairros mais próximos,
como no Setor Aeroporto, onde existe o perigo real de contaminação. Ele fez um
apelo ainda para técnicos da CNEN seja deslocados para a unidade da FEBEM no
Jardim Europa, para onde várias pessoas foram transferidas, com o objetivo de
orientarem o pessoal da área de saúde e dar uma assistência condigna às pessoas ali
confinadas. (O Popular, 3 out. 1987, p. 5).
Também, os partidos políticos posicionaram-se para exigir do governo maior
atenção às vítimas, e ao mesmo tempo, criticar a forma como a política nuclear era tratada
no Brasil. O Partido dos Trabalhadores, por exemplo, divulgou nota por intermédio de seu
diretório regional, acusando as autoridades de despreparo para lidar com esse tipo de
acidente. Na esteira dessa crítica, o PT questionava ainda a forma como a política nuclear
era tratada no Brasil, ressaltando, sobretudo, o fato de o governo investir bilhões na área de
energia nuclear e não se preocupar em estruturar adequadamente órgãos responsáveis para
lidar com este tipo de acontecimento. O PT, e outros partidos, na época, reforçavam a
posição política da Igreja para também pedir maior apoio às vítimas do acidente, conforme
matéria de periódico local:
É imperativo que o Estado cuide da assistência às vítimas diretas, a seus familiares e
aos desalojados, hoje, desprovidos de uma assistência adequada. Esta assistência
deve se materializar também através da informação para conter possíveis
manifestações preconceituosas. (O Popular, 4 out. 1987, p. 5)
À época do acidente, o líder do Partido da Frente Liberal (PFL), em Goiás, João
Ribeiro, no artigo intitulado PFL exige a indenização dos que foram vitimados (O Popular, 4.
out. 1987), engrossava o coro de protesto contra a morosidade na investigação dos
responsáveis pelo acidente e contra a falta de uma maior assistência pelo Estado aos
vitimados. O representante do PFL particularizava ainda sua crítica, ao defender que a
investigação não deveria excluir outros culpados, como Íris Rezende Machado, do governo
anterior ao de Henrique Santillo.
Para tanto, João Ribeiro defendia, representando seu
partido, a elaboração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito pela Assembléia Legislativa,
afirmando: “O Governo de Íris Rezende Machado também deve ser investigado (...). É preciso
apurar minuciosamente a responsabilidade do próprio Governo no acidente”. (O Popular, 4
out. 1987, p. 5)
A Câmara Municipal de Goiânia, no dia 4 de outubro de 1987, realizou sessão
especial, às 16 horas, para debater o acidente nuclear. A sessão foi proposta pelo Partido do
Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), do antigo governo. A sessão procurou reunir
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COSTA, Ieda Rubens e LOPES, Edmar Aparecido de Barra e. O acidente de Goiânia com o césio 137: um
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além de representantes da Cnen e da área da saúde do governo Henrique Santillo, diversos
outros setores organizados da sociedade (Diário da Manhã, 4 out. 1987).
O próprio governador Henrique Santillo, à época do acidente, esteve presente ao
Hospital Geral do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps),
fez uma visita às vitimas e alegou que havia exageros e mentiras sobre a gravidade do
acidente radiativo. O governador preocupou-se ainda em afirmar que as fontes de radiação já
estavam identificadas e fora de áreas de risco (OPopular, 19 de out. 1987).
Associações de defesa do meio ambiente, como a Associação para Recuperação e
Preservação do Meio Ambiente (Arca), também se juntaram ao movimento que, pouco a
pouco, ganhava maior representatividade e força política. Essa entidade, por exemplo, dentre
outras medidas, preparou uma manifestação pública, em Goiânia, no dia 12 de outubro de
1987, para chamar a atenção do governo sobre a gravidade da energia nuclear e protestar
contra o acidente com o Césio-137. Além dessa entidade, várias outras participaram do evento
como também instituições, como a Escola Técnica Federal, a Universidade Católica de Goiás
e um grande número de colégios de níveis fundamental e médio, além de artistas, como Siron
Franco, Julinho Pimentel e Lucélia Santos.
A manifestação objetiva também despertar o interesse da população para a
problemática da questão nuclear e da defesa do meio ambiente, que está intimamente
relacionada com o assunto. O então presidente da Arca, John Mivaldo, destaca a necessidade
de uma luta ecológica pacifista, esclarecendo:
As estatísticas demonstram total falta de preparação dos especialistas no manuseio
da tecnologia nuclear (...). Nos últimos dez anos aconteceram mais de 250 acidentes
nucleares no mundo, envolvendo vapores de gases perigosos, como o estrôncio, iodo
131, plutônio 329 e Césio 137, sendo provocados em 90% dos casos por falhas
técnicas e humanas. (Diário da Manhã, 6 out. 1987, p. 5)
Também a comunidade acadêmica mobilizou-se, de várias formas, sobretudo,
com o objetivo de promover debates, procurando avaliar as causas e as consequências
políticas, sociais, econômicas, simbólicas e outras do acidente com o Césio-137 em Goiânia,
um dos quais foi realizado no Instituto de Ciências Humanas e Letras da Universidade Federal
de Goiás, no dia 8 de outubro de 1987. Desse concorrido encontro, participaram: o
coordenador da equipe da Cnen, José de Júlio Rozental; o líder do Partido dos Trabalhadores
na Assembléia Legislativa, deputado Athos Magno, o presidente do Partido Verde, Fernando
Gabeira, além de representantes da imprensa e de associações de moradores de professores e
de estudantes. Durante o debate, as críticas foram reforçadas e o sentimento da maioria dos
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presentes na discussão foi traduzido pela seguinte fala de Fernando Gabeira:
Não estávamos preparados para este acidente, apesar de termos no Brasil uma usina
nuclear e toneladas de rejeitos atômicos. Não temos médicos, físicos, remédios, e
nem técnicas para lidar com as consequências da contaminação radioativa (...).
Temos a necessidade de mostrar claramente ao Brasil e ao mundo que a cidade de
Goiânia não recebeu bem esse acidente, que a população quer que isto não aconteça
mais em outros lugares. (...) Trata-se de uma violência que já vem na história do
Brasil há alguns anos, que se define muito claramente com a ausência de democracia
nas decisões mais fundamentais do nosso País, pela implantação de todo o projeto
nuclear que nada tem a ver com a nossa população e que foi instalado sem as
condições de segurança adequadas. (Diário da Manhã, 9 out. 1987, p. 5)
Outra problemática a ser discutida está centrada na relação entre a imagem
negativa causada pelo preconceito e pela falta de informação e suas consequências, sobretudo
as de ordem econômica.
O acidente radiativo repercutiu negativamente na economia goiana, provocando
uma grande preocupação quanto aos seus reflexos sobre a economia de Goiás, sobretudo no
que diz respeito ao setor agropecuário, localizado em sua maioria no norte do estado. A época
do acidente, os parceiros econômicos do estado de Goiás procuravam com maior frequência
informações detalhadas sobre os produtos (especialmente os agropecuários) originados de
Goiás, em virtude do medo de uma eventual contaminação radiativa.
Naquela ocasião, por exemplo, a Associação Goiana de Supermercados afirmava
que o decréscimo nas vendas era flagrante. Os produtos hortifrutigranjeiros, que envolvem
manuseio e irrigação, até chegarem ao varejo, foram os mais afetados. Muitos estados que
tradicionalmente importavam uma série de produtos industrializados de Goiás também
cancelaram pedidos. O Distrito Federal já hesitava em continuar comprando leite empacotado
por laticínios de Goiás. (O Popular, 2. out. 1987).
No que concerne às atividades turísticas no estado, as consequências não foram
menos negativas. Os próprios técnicos que cuidavam das consequências do acontecimento
também fomentaram informações infundadas e contribuíram para a indústria de boatos, que,
alimentada pelo olhar onipresente da mídia eletrônica e pela imprensa do país e do mundo,
repercutia negativamente na área do turismo. Nesse sentido, hotéis muito procurados na
região, como Pousada do Rio Quente, bem como Umuarama, Castros‟ Park Hotel e outros
registraram uma sensível queda em suas atividades econômicas (O Popular, 2. out. 1987.p.1).
Na área imobiliária, especialmente no Setor Aeroporto e bairros adjacentes,
considerados nobres e por onde os fragmentos do material considerado radiativo transitaram,
também foi registrada uma sensível queda nos lançamentos de imóveis e na procura por casas
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e apartamentos. Tadeu Mendonça, da Imobiliária WR, afirmou:
O movimento caiu muito, temos apartamentos para vender no bairro, há vários dias,
semanas, e não apareceu ainda nenhum pretenso comprador. Tradicionalmente, este
é um dos melhores setores da cidade, para comercialização de imóveis, mas o
acidente começa a prejudicar os negócios. (O Popular, 3 out. 1987, p. 2)
Outro setor da economia que exemplifica muito bem os prejuízos causados pelo
acidente é o destacado setor de confecções em Goiânia, que, à época experimentava um
crescimento de vendas, mas que começou a ser vítima de vários cancelamentos de pedidos,
em razão da desinformação de seus clientes interestaduais, sobretudo. Márcia Mateus Tinoco,
gerente da France Confecções, declarou a um jornal local:
Nós tivemos vários pedidos cancelados, entre eles, uma compradora de nossa
confecção em Cuiabá, que nos solicitou um pedido de quinze peças no último dia 13
pela manhã, e, quando foi à tarde, nos telefonou solicitando cancelamento alegando
que por ela mesmo tudo bem, mas que seus familiares por serem mais esclarecidos,
aconselharam a não aceitar nenhuma encomenda de Goiânia. (Diário da Manhã, 17
de out. 1987, p. 1)
No setor econômico, enfim, observou-se como em outros, um grande receio dos
compradores de dirigirem-se a Goiânia e além disso, representantes da economia goiana
presentes em outros estados, muitas vezes, eram vistos com desconfiança, termo ameno para a
palavra preconceito.
Mesmo entre os segmentos em que se acredita ser maior o nível de
esclarecimento, o preconceito foi facilmente notado. O setor artístico também sofreu vários
cancelamentos de shows e exposições, evidenciando o medo de contágio. Um jornal noticiou:
O cantor e compositor Francis Hime que se apresentaria com uma agenda de quatro
espetáculos no Teatro Goiânia e no Castro´s Hotel, neste fim de semana cancelou
sua vinda à cidade. Também a exposição do Artista Plástico Guilherme Faria foi
cancelada por este. A mostra estava prevista para acontecer no espaço Multiarte,
mas o artista acabou por não permitir que nem mesmo seus quadros viessem à
Goiânia, com medo de que os mesmo ficassem irremediavelmente contaminados.
(Diário da Manhã, 15 out. 1987, p. 2)
Não só as vítimas diretas do acidente do Césio-137, mas a cidade de Goiânia e o
estado de Goiás, também se tornaram objeto de uma discriminação também no plano
comercial, em virtude, sobretudo, da falta de preparo das equipes designadas para lidar com o
problema, isto é, a forma atabalhoada como o governo do Estado coordenou a divulgação das
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COSTA, Ieda Rubens e LOPES, Edmar Aparecido de Barra e. O acidente de Goiânia com o césio 137: um
olhar sobre o impacto social e sobre o meio ambiente. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
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informações e a forma sensacionalista utilizada.
Havia necessidade imperiosa de articulação das forças em Goiás, pois, a imprensa
nacional superdimensionava os fatos, divulgando-os de forma extremamente alarmista, que se
traduzia em um convite à discriminação contra a cidade e, em última análise, ao estado.
Uma das forças que rapidamente se articularam para o esforço de tentar conter as
consequências econômicas negativas do acidente foi o empresariado goiano. Reunidos na
sede da Junta Comercial de Goiânia, no dia 15 de outubro de 1987, empresários goianos
formularam uma série de medidas para recuperar a imagem de Goiânia diante de fornecedores
e compradores de mercados de outros estados, dentre elas o envio de um documento a
fornecedores e clientes do empresariado goiano, apresentando-lhes um amplo relato sobre os
acontecimentos de Goiânia e as providências que as autoridades já haviam tomado a fim de
descontaminar as áreas atingidas. (O Popular, 16 out.1987, p.1)
Além disso, entidades produtivas goianas do comércio, indústria e da
agropecuária articulam-se para promover na capital um fórum internacional de debates para
discutir o acidente radiativo de Goiânia, convocando as maiores autoridades do mundo
científico, para discorrerem sobre o assunto e as suas relações com o planejamento urbano e
meio ambiente.
O mesmo grupo de empresários, com o propósito de colaborar para resgate da
imagem de Goiânia, também enviou um manifesto ao presidente do Sistema Brasileiro de
Televisão (SBT), Silvio Santos, criticando a apresentadora Hebe Camargo pela forma
extremamente sensacionalista como abordara o acontecimento, estimulando o preconceito e a
desinformação. O manifesto pedia ainda que, em horário idêntico, se mostrasse a verdade dos
fatos sem a presença da apresentadora. O manifesto foi assinado pela Associação Goiana dos
Criadores de Zebu, Associação Goiana dos Criadores de Nelore, Associação Goiana dos
Criadores de Gir, União Democrática Ruralista Nacional, Federação da Agricultura do Estado
de Goiás e Distrito Federal e Associação Comercial Industrial do Estado de Goiás, (O
Popular, 22 out. 1987, p.1).
Outro exemplo de mobilização pela restauração da imagem da cidade foi dado
por radialistas da Rádio Brasil Central, demonstrando que a imprensa também tem setores
muito críticos e éticos. Esta emissora de rádio e TV conclamou as rádios de todo o país a
divulgarem mensagens sérias na cruzada pela reabilitação da imagem de Goiânia diante da
opinião pública.
Inúmeros eventos foram cancelados, visitas de parentes foram adiadas com as
mais variadas desculpas, sem contar que os comerciantes tiveram que estocar suas
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COSTA, Ieda Rubens e LOPES, Edmar Aparecido de Barra e. O acidente de Goiânia com o césio 137: um
olhar sobre o impacto social e sobre o meio ambiente. Estácio de Sá – Ciências Humanas. Rev. da
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mercadorias.
O retorno à normalidade era o grande objetivo, sobretudo do Estado, já que a
condição de anomalia social, causada pelo acidente colocou em questão o papel e a
competência de uma série de instituições do governo. Em outras palavras, lembrando
Marilena Chauí (1987), o discurso competente que teceu a rede discursiva sobre o evento,
diante de sua incapacidade para responder adequadamente à situação, teve sua credibilidade
fragilizada.
2. A DIMENSÃO DO ACIDENTE COM O CÉSIO-137 E SUA REPERCUSSÃO NA
SAÚDE E NO MEIO AMBIENTE
O acidente com o Césio-137, primeiro acidente radiológico ocorrido no mundo,
segundo especialistas, causou forte impacto, sobretudo em relação aos moradores das
proximidades dos chamados pontos quentes (áreas que emitiam radiatividade). O
acontecimento despertou o interesse da comunidade científica de todo o mundo. Todo pessoal
disponível nas empresas que atuavam no setor nuclear no Brasil e no exterior foi convocado
pelos governos federal e estadual a deslocarem-se para Goiânia, com o objetivo de
descontaminar e devolver a cidade a sua normalidade. Nem mesmo a experiência dos técnicos
brasileiros, somadas a de outros países, foi suficiente para exterminar o sentimento de medo e
pânico que se alastrava por toda a cidade de Goiânia, também, pelo Brasil e o mundo,
agravadas pelas notícias sensacionalistas. As lições aprendidas com a tragédia servem ainda
de paradigma para a formação de recursos humanos e são apresentadas à comunidade
internacional por técnicos brasileiros. Além disso, Goiânia sedia congressos e cursos
ministrados por técnicos da Cnen no laboratório do Centro-Oeste que se encontra instalado
em Abadia de Goiás, cidade que fica a 20 km da capital.
A radiatividade poderia não só escapar pelo ar, pela água, como propagar-se pela
poeira, e, consequentemente, contaminar o ar. Segundo a Fundação Estadual do Meio
Ambiente de Goiás (Femago), na época se fez o monitoramento abrangendo os cursos d`água,
rede de esgoto e galerias de águas pluviais, além de ruas, avenidas e logradouros, bem como
os vazadouros de lixo com o objetivo de detectar possíveis focos de radiação causada pelo
Césio-137 (Goiás, SEMAGO, 1997).
De acordo com Alves (1999), foi encontrada contaminação em vinte residências
que eram vizinhas dos focos principais, as quais foram evacuadas e isoladas até a completa
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descontaminação. Nessas residências, o maior nível de taxa de exposição a um metro era de
300 mR/h., todavia, outras 22 residências, que também apresentavam contaminação residual,
tinham taxa de exposição média de 0,1 mR/h. Os logradouros públicos que apresentavam
contaminação alcançavam o nível equivalente ao do segundo grupo de residências, o que foi
confirmado pelo levantamento aeroradiométrico e pelo sistemático rastreamento terrestre.
Considerando os resultados da análise ambiental, chegou-se à conclusão de que
não havia contaminação do lençol freático, nem da água potável, e a contaminação na quase
totalidade restringia-se aos 50 cm de solo, ao passo que os rios e os córregos apresentavam
contaminação apenas no sedimento (100 a 800 Bq/kg), diante do que havia a necessidade de
poda ou retiradas de arvores frutíferas e eliminação de hortas em um raio de 50 metros dos
focos principais (ALVES, 1988).
Para amenizar as medidas de radiação, em alguns lugares, o solo foi removido e
coberto com brita, areia e por camadas de concreto, medidas, que permitiram que menos de
um Curie permanecesse como resíduo disperso no solo (ALVES, 1988).
A cápsula e seus fragmentos foram manipulados a céu aberto, o que contaminou
diretamente o solo. Parte do material foi transportada inocentemente por várias
pessoas, até por crianças, encantadas com a luz emitida por aquele pó sem cheiro,
aparentemente inofensivo, que se propagou no ambiente.
Em Goiânia, foram tomadas as devidas precauções para descontaminar as áreas
atingidas com o Césio-137, o que eliminou o perigo de haver novas áreas contaminadas.
A Lei nº 14.226 de 8 de julho de 2002 (Brasil, 2002) aprovada 14 anos depois do
acidente com o Césio-137, em Goiânia, reconheceu mais 120 pessoas vitimadas em razão do
trabalho efetuado para a descontaminação da área acidentada com a substância radiativa,
ocorrida no ano de 1987, dentre elas, policiais militares, operadores do extinto Consórcio
Rodoviário Intermunicipal (Crisa), bombeiros e duas funcionárias da Companhia Municipal
de Limpeza Urbana (Comurg). As novas vítimas serão beneficiadas com a pensão vitalícia no
valor de quatrocentos reais, o mesmo valor concedido às primeiras vítimas, as de 1987.
Idêntico benefício fica também assegurado, segundo a lei, aos descendentes até a
segunda geração das pessoas irradiadas e/ou contaminadas no desempenho da atividade
laboral, que tenham nascido após o acidente radiológico, desde que sejam portadores de
moléstia considerada grave ou crônica. A legislação também se refere aos descendentes até a
segunda geração, que tenham nascido após o acidente de 1987, das vítimas falecidas mas que
ainda não foram reconhecidas pelo estado de Goiás como irradiadas ou contaminadas,
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portadoras de moléstia grave ou crônica, desde que comprovem, mediante regular
procedimento administrativo junto à Agência Goiânia de Administração e Negócios Públicos
(Aganp), com intervenção obrigatória da Superintendência Leide das Neves Suleide, que o
ascendente tenha trabalhado na descontaminação da área acidentada com o Césio-137, na
vigilância do Depósito Provisório em Abadia de Goiás ou no atendimento às vítimas.
Embora aprovada a Lei nº 9.425 de 24 de dezembro de 1996 (Brasil, 1996), que
dispõe sobre a concessão de pensão especial às vítimas do acidente nuclear ocorrido em
Goiânia, o poder judiciário encontra-se abarrotado de processos de reivindicações de vítimas
que buscam seus direitos, uma vez que o estado/União não as reconhecem, sob a alegação de
que não se enquadram nos requisitos estabelecidos pela referida legislação.
O poder judiciário federal tem entendido que, “considerando as particularidades
das doenças deflagradas pela irradiação ou contaminação com o Césio 137, é natural que a
condição de vítima venha a ser conhecida apenas com o passar dos anos” (Brasil, 2003).
As vítimas indiretas são assim chamadas porque tiveram contato com o Césio137, quando foram convocadas pelo poder público para na descontaminação das vítimas
diretas, e na remoção dos rejeitos: demolição de casas, abate dos animais contaminados,
estocagem dos dejetos em galões e o transporte para o depósito em Abadia de Goiás, a 25 km
de Goiânia.
O poder judiciário federal condenou a União a pagar indenização a uma das
vítimas indiretas, uma vez que foi constatada a culpa do ente central (Estado), ou de unidades
de atuação descentralizada, pela extrema negligência (ou quiçá imperícia), ao deixar de adotar
medidas adequadas à contenção e a prevenção das consequências do acidente com o Césio137.
Segundo Alves (1999), a Cnen tomou conhecimento do acidente às 15 horas do
dia 29 de setembro de 1987, por telefonema do físico Walter Mendes, por solicitação do então
Secretário de Saúde do Estado de Goiás, Antonio Faleiros. A partir desse momento, foram
estabelecidos caminhos e trajetórias para isolar as áreas contaminadas, prestar os socorros
necessários às pessoas contaminadas e/ou radiacidentadas, e identificar todos os focos de
contaminação. Para garantir que os trabalhos se iniciassem com segurança, os primeiros
técnicos que chegaram a Goiânia solicitaram equipes de proteção radiológica, controle
ambiental, rejeitos radiativos e assistência médica. A assistência às primeiras vítimas já era
efetiva por hospitais de Goiânia: Hospital de Doenças Tropicais (HDT) e Hospital Geral de
Goiânia (HGG). A preocupação de que pessoas poderiam necessitar de tratamento de maior
complexidade, levou as autoridades a solicitarem ao Hospital Naval Marsílio Dias (HNMD),
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do Ministério da Marinha que ficasse em estado de alerta, pois poderiam ter que prestar
atendimento especializado às vítimas.
No dia 30 de setembro de 1987, os sete focos considerados mais perigosos já
estavam isolados, ou seja, Rua 57, Setor Central; Rua 17–A, Setor Aeroporto; Rua 6, Setor
Norte Ferroviário; Rua P-19, Setor dos Funcionários; Rua 16-A, Setor Aeroporto – Vigilância
Sanitária; Rua 63, casa 179, Setor Central e Rua 26- A, Setor Aeroporto.
Com o monitoramento, chegou-se à conclusão de que os sete focos já controlados
concentravam-se na região central.
O acidente com o Césio 137 ocorrido em Goiânia foi capaz de gerar um
questionamento sobre a energia nuclear no país, que suplantou as fronteiras políticas
regionais, ressaltando a necessidade de uma atenção mais responsável nessa área, para evitar
acidentes, inconcebíveis, em qualquer hipótese. Esse chamamento ganha ainda maior força
quando se percebe a possibilidade de ocorrerem acidentes no Brasil no mundo. Trata-se de
uma destruição que não se restringe ao presente, mas que compromete também os direitos das
gerações futuras.
O acidente com o Césio-137, ocorrido em Goiânia, foi estudado por Chaves
(1998), no campo das Ciências Sociais, e por Helou e Costa Neto (1995), na perspectiva
psicossocial. Apesar dos diversos estudos já realizados, o assunto ainda merece ser
aprofundado, sobretudo quando se trata de meio ambiente e suas implicações.
CONCLUSÃO
Um dos temas mais recorrentes na imprensa, na época do acidente em Goiânia
com o Césio 137, foi o discurso em torno das responsabilidades. Em 1 de outubro de 1987, o
tema da responsabilidade estava presente tanto na imprensa local quanto nacional, resultante
das declarações do físico José Júlio Rosenthal, diretor do Departamento de Instalações
Nucleares da CNEN, e coordenador da equipe que veio a ser a responsável pelas operações de
contenção do acidente com o césio 137 em Goiânia. Segundo a matéria “Radiações de Césio
contaminam 16 em Goiás”, Rosenthal teria afirmado que a CNEN controla esse tipo de
aparelho em todo o país, mas que não foi avisada sobre a desativação daquele que provocou
o acidente de Goiânia
Nessa abordagem verificamos as imprecisões que o ineditismo do acontecimento
traz para o interior da notícia: ressalta-se a liberação do Césio 137, quando o mais grave
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reside na liberação da radiatividade; alude-se ao testemunho da Associação Brasileira de
Radioterapia, quando se trata do Colégio Brasileiro de Radiologia.
A abordagem expressa na matéria “Empresa não comunicou desativação do
equipamento” permite uma melhor compreensão do conteúdo da informação técnica. Segundo
Rosenthal, A CNEN executa a normatização e a fiscalização do programa nuclear brasileiro.
Como também normas específicas e que no caso de Goiânia, elas foram passadas para o
Instituto. O credenciamento passa por uma série de exigências, como manter um convênio
como o Instituto Brasileiro de Radiologia, ter um médico especialista que passa por um exame
nesse mesmo Instituto, além da necessidade de ter um equipamento adequado.
Entretanto, percebemos fragilidade na posição da CNEN, pois ainda que não
tivesse sido oficialmente comunicada da desativação do aparelho, ela deveria possuir dados
pelo menos para perceber se algo anormal estava acontecendo.
Portanto, essa alegação da CNEN a respeito da necessidade de ser avisada da
desativação
do
aparelho
constituía-se
numa
justificativa
para
tentar
imputar
a
responsabilidade pela ocorrência do acidente apenas ao IGR, haja vista que tal declaração
seria reproduzida por todas as instâncias técnicas envolvidas, e ainda, mesmo reconhecendo
ser este sistema de fiscalização em funcionamento, ainda restava uma questão incômoda à
CNEN: se o aparelho do IGR estava desativado desde 1984, como explicar que seu órgão de
controle, o Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD), não tenha percebido, durante três
anos, que os filmes com registros de radiação relativos àquele equipamento não estavam
chegando mensalmente.
Ao longo deste trabalho de pesquisa, constatou-se que o acidente com o Césio 137
em Goiânia, não pode deixar de ser abordado como fruto da irresponsabilidade de órgãos
específicos de fiscalização da energia nuclear aplicada e também como descaso e falta de
preparo de diversas instituições do próprio governo estadual.
Enfim, acidentes como o Césio 137 e outros tantos acidentes radioativos, danosos
aos homem e à sua relação com a natureza, não podem ser analisados de forma descolada da
longa e destrutiva relação que a cultura, sobretudo ocidental, sempre estabeleceu com a
natureza.
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COSTA, Ieda Rubens e LOPES, Edmar Aparecido de Barra e. O acidente de Goiânia com o césio 137: um
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UMA cidade rejeitada. Diário da Manhã. Goiânia, 15 out. 1987.
Editor Responsável
Edmar Aparecido de Barra e Lopes
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a) No caso de livro: SOBRENOME, nome. Título sublinhado. Local de publicação,
Editora, data. Ex.: GIDDENS, Anthony. Novas regras do método sociológico. Rio de
Janeiro, Zahar, 1978. Solicita-se observar rigorosamente a sequência e a pontuação.
b) No caso de coletânea: SOBRENOME, Nome. Título não sublinhado. In:
SOBRENOME, Nome, org. Título do livro sublinhado. Local de publicação, editora,
data, p. ii-ii. Ex.: FICHTNER, N. A escola como instituição de maltrato infância. In:
KRINSKY, S., org. A criança maltratada. São Paulo, Almeida, 1985. p. 87-93.
Solicita-se observar rigorosamente a sequência e a pontuação.
c) No caso de artigo: SOBRENOME, nome. Título do artigo. Título do Periódico
Sublinhado, local de publicação, número do periódico (número do fascículo): página
inicial-página final. Mês(es) e ano de publicação. Ex.: CLARK, D. A. Factors
influencing the retrieval and control of negative congnotions. Behavior and Therapy,
Oxford, 24(2): 151-9. 1986. Solicita-se observar rigorosamente a sequência e a
pontuação.
d) No caso de tese acadêmica: SOBRENOME, Nome. Título da tese sublinhado. Local,
data, número de páginas, dissertação (Mestrado) ou Tese (Doutorado). Instituição em
que foi defendida. (Faculdade e Universidade). Ex.: HIRANO, Sedi. Pré-capitalismo e
capitalismo: a formação do Brasil Colonial. São Paulo, 1986, 403 p. Tese
(Doutorado). Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de
São Paulo. Solicita-se observar rigorosamente a sequência e a pontuação.
GUANICUNS III 2006 24-09-06.pmd 294 24/9/2006, 20:20
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